SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:51 am

Agi como desejavas, não abandonando nossos irmãos necessitados; procurei acolher a todos no meu regaço, por todos esses longos anos; sim, Mestre, eu Te amei por todos esses longos dias.
Nos momentos de preocupação, nos de dor, mas também nos momentos alegres, Tua imagem serena sempre estava comigo.
Sim, Mestre, eu Te amei”.
Sarah também foi aprisionada e Simão se condoeu.
Sabia que ela amava o Mestre, mas também de sua fragilidade e do sentimento de temor que a abalava seguidamente.
Então, falou-lhe:
- Força, minha esposa!
Demonstraremos agora o amor que trazemos em nós pelo Cristo!
Chegou o momento de afirmarmos esse amor ao nosso Mestre.
Tremendo muito, Sarah, frágil, também entregou seus pulsos aos soldados de Tigelino.
Isaac não estava com eles no momento em que os pretores estiveram lá para apanhá-los.
Mas ela não estaria com o esposo na prisão.
Enquanto ele foi atirado ao cárcere solitário, ela foi colocada com outros prisioneiros no Esquilino e sentiu certa alegria quando pôde encontrar lá os seus dois filhos, aprisionados alguns meses antes, cuja saudade como que se lhe havia estraçalhado aos poucos o coração.
No silêncio da noite, naquele pequeno espaço pequeno e frio, Simão sentiu estar sendo acompanhado por Espíritos amigos que já haviam partido.
Assim, orando, ele entrou em êxtase.
Era como se lhe abrissem o tecto, e as paredes grossas não mais existissem.
Lembrou o tempo em que estivera na prisão em Jerusalém e fora liberto por anjos, entretanto sabia que esse seria seu derradeiro momento.
Em desdobramento, foi transportado para o Jardim das Oliveiras.
Olhou o céu, recoberto das luminosas estrelas.
Lembrou-se da oração do Pai Nosso, ali, quando os discípulos pediram a ele que os ensinasse a orar.
Sentiu o peito apertar-se.
Sentia uma imensa saudade daquele Mestre amado.
Depois, lembrou-se do momento em que Jesus fora ali apanhado pelos soldados, e ele, em vez de vigiar como o Mestre lhe pedira, adormecera.
Por anos, ele manteve no peito essa tristeza.
Agora, ali estava ele e imaginou Jesus partindo com os soldados; Ele não mais voltaria para eles na carne.
Então, chorou.
Lavou seu enrugado rosto com as lágrimas amargas, dizendo:
- Oh, Mestre amado, como lhe fui infiel naquela hora!
Em um átimo, notou uma pequena luz descendo das alturas.
A luz ampliou-se no espaço, quando pôde ver, ao seu lado, André e Tiago a lhe sorrirem.
Lembrou-se que fora ele, seu irmão André, quem lhe falara que ouvira sobre Jesus de João Batista e, agora, ele mesmo vinha trazer-lhe as notícias tão desejadas.
Ali o querido irmão disse-lhe:
- Simão, não temas por Sarah.
Ela está amparada pelos amigos espirituais e aceitando seu destino; encontrou, na prisão, muitos amigos encarnados e seus próprios filhos, aos quais poderá ser útil, transmitindo-lhes coragem e optimismo com as lições de Jesus e confortando-lhes os ânimos.
- Isaac começou a abraçar tua causa - prosseguiu Tiago, filho de Alfeu continuando com tua tarefa de amor aos desamparados aqui em Roma, sentindo-se muito grato a ti e a tua esposa por terem-no acolhido.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:51 am

Simão sorriu satisfeito.
- Não fiz nada mais do que o que o Mestre ensinou.
Mas... tantos de nós estaremos partindo...
O que será do Cristianismo? - preocupado, arguiu Simão Pedro.
- Simão, não temas pelo andamento dos ensinamentos cristãos e pelo desaparecimento de tantos que serão apanhados nas catacumbas, porque a Boa Nova se disseminará e alcançará o mundo.
Fica em paz! - disse-lhe André.
O discípulo de Jesus novamente chorou, mas, desta vez, foi de imenso agradecimento a Deus.
Agradeceu a Ele por ouvir de André o que tanto temia.
Agora estaria tranquilo.
Os dois Espíritos iluminados subiram novamente, e Simão voltou ao corpo alquebrado, muito cansado.
Então, ajoelhou-se, agradecido ao Pai.
Lembrou-se de seus últimos instantes no lar, da compreensão da esposa, e transportou-se em pensamento aos afectos distantes.
Enviava-lhes todo seu amor.
“O que é a vida, afinal, se não a companhia do amor, a nos revelar que Deus é presença diária em todos os nossos momentos?” - reflectia.
Sabia que alguns familiares não entenderam sua abnegação e toda a dedicação que demonstrou aos irmãos necessitados, mas os compreendeu; tinha ciência de que o crescimento humano era questão de muitos dias e até longos anos e que isso aconteceria somente quando a entrega ao Divino Mestre fosse mais completa.
Começou a orar pelos cristãos que seriam sacrificados, pois acreditava que, com sua prisão, Tigelino os apanharia na reunião que fariam nas catacumbas.
Assim, orando sempre, aguardou o dia amanhecer.
Em dois dias, nada pôde conseguir Alexus para Saturnina, porque os pretores estavam irredutíveis e não poderiam desrespeitar as ordens do imperador.
Saturnina, sem ter notícias de Simão Pedro, agora temia, não mais pelos amigos, pelos quais nada pudera fazer, mas pelo próprio apóstolo, sua esposa e Isaac, o rapaz que tanto os auxiliara na velhice e que o casal apanhara depois que seus pais cristãos pereceram em Jerusalém.
Sabia das andanças do venerável acompanhante de Jesus à casinha do Esquilino, onde mantinha aqueles desafortunados.
Então, resolveu ir até lá com Marconde, onde reviu Domitila e, pela primeira vez, viu a assistência grandiosa daquele discípulo do Cristo, que tanto já tinha feito em Roma e tanto amor havia demonstrado a todos os seus irmãos de humanidade.
O Cristo fora, por todos aqueles longos anos, o seu verdadeiro exemplo.
Lá, com Domitila, Saturnina soube que tanto Simão como Sarah, sua esposa, haviam sido apanhados.
Saiu de lá consternada, pois sua intuição lhe dizia que eles seriam sacrificados dentro de alguns dias, quando haveria festejos grandiosos na cidade, aos deuses Júpiter Optimus Máximus, Juno e Minerva.
Foi aí que, com Marconde, ela voltou ao cárcere, mas não conseguiu rever Simão Pedro.
Despediu-se daqueles cristãos, amigos do coração, com imenso sofrimento.
Logo, Isaac avisou a todos os cristãos que pôde, e, assim que eles souberam sobre a crucificação do grande discípulo, uniram-se para concluírem como agiriam dali por diante.
Por sorte, Anacleto não estava em Roma.
Da casa próxima ao Tibre, partiam quase todos, com excepção da família de Antoninus, que, por sua persistência, quis permanecer em Roma.
Preparados, abrira-se o grande portão da residência, que não estava tão próxima do Aventino e do Palatino, enquanto as primeiras estrelas começavam a luzir no céu romano e a paz da cidade, para alguns, ensaiava-se.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:51 am

A carroça, tendo à frente a dos servos libertos e escravos de Demétrius, era seguida pela da senhora, que partia tristemente com Lucas e Ester, ladeadas pelo centurião Romério em seu cavala Saturnina, abraçada ao filho Lucas, pediu que Romério desse a ordem para a carroça da frente seguir mais rápido, em direcção a Herculano, cidade praiana, vizinha de Pompeia.
Em vez da alegria por estarem em busca da liberdade, havia tristeza e lágrimas em Ester, Marconde e naqueles que foram salvos do cárcere por Romério, com a lembrança dos que ficaram para trás.
A cruz de Jesus se lhes estampava diante dos olhos, imaginando que o exemplo do Mestre, que havia perdoado aos seus vilões, deveria servir para todos eles.
Em suas mentes, sabiam que, um dia, todos os homens e mulheres reconheceriam que somente o amor é capaz de criar um mundo feliz e cheio de paz.
Romério seguia pensativo.
Ele havia passado pela mesma situação, tendo sido esposo de uma cristã na Palestina.
Mesmo sem seguir o Cristo, ele atendia ao coração, que o fazia lembrar todo o sofrimento do passado.
Saturnina procurava dispersar seus pensamentos e, para isso, observando o caminho, imaginou como teria sido feliz com Alexus se não tivesse sido obediente aos pais.
Naquela época, ele era um jovem simples, filho de lavradores, e Crimércio já era um centurião.
Mas esse centurião jamais a amara.
Casou-se com ela almejando o dote de seus pais.
Aí Saturnina sorriu, lembrando aquela juventude feliz, quando corria pelos campos, seguida por Alexus, e todo o carinho que ele lhe guardava.
Então, comentou consigo mesma:
“É, não é necessário apagar a chama do amor de minha alma, porque o amor verdadeiro jamais se apagará.
Mas, agora, senhora - dizia a si mesma -, alegra-te pela oportunidade de poder ter sido útil a essa gente que está em tuas mãos e por salvar-lhes a vida.”
Saturnina confiava; em suma, sabia estar sendo protegida pelos amigos do Mestre Jesus.
Nas primeiras horas da manhã, com a brisa fria e o Sol apontando no horizonte, chegava Saturnina, seus auxiliares e o pequeno Lucas a Herculano, levando aqueles servos de Demétrius à propriedade da gentil senhora, constrangidos, mas muito agradecidos, acompanhados pelo generoso soldado romano, que estava ali somente pelos belos olhos de Raquel.
Fidelis e Pavios, antigos servos que tomavam cuidado da casa, aguardavam-na.
A residência de Saturnina, frente ao mar, herança de seus finados pais, estava entre uma das mais elegantes daquele lugar.
As grandes colunas, os mármores, os mosaicos decorados mostravam como ali seus pais viveram um dia, entre beleza e sumptuosidade.
Nesta residência, a nobre romana abrigaria os cristãos que foram com ela e, mais tarde, encaminhá-los-ia para trabalhos honestos naquele lugar, para que ninguém da localidade desconfiasse como obtivera tantos auxiliares em tão pouco tempo, já que estava quase na miséria.
Tanto ali, como na cidade vizinha, Pompeia, onde romanos veraneavam, ainda não havia a perseguição aos cristãos.
Parecia que Nero se enquadrava, momentaneamente, somente na grande cidade, para agradar a turba odiosa e vingativa, que perdera casas e familiares no grande incêndio romano.
Mais tranquila, mas com o coração dolorido, temendo por Simão Pedro e a prisão de Porfírio, Olípio e Horácio, Saturnina, depois das apresentações daqueles fiéis servos de Herculano, também cristãos, quis primeiro colocar Tília em uma cama, encaminhando Lucas a Ester, porque o menino lhe puxava a túnica, pedindo que fosse com ele ao jardim para brincar.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:51 am

- Podes ir com ela, meu filho, mas não te aproximes do mar.
Tília foi colocada, ainda muito fraca, por Vitório e Clarêncio, em um leito macio com alvos lençóis, e a ela deram água fresca e algumas frutas.
A escrava adormeceu sorrindo, e, ao seu lado, permaneceu Silvina, que trocava, de quando em quando, o pano húmido da testa aquecida.
Marconde começou a tocar, na pequena harpa que levara, a música escrita por cristãos, com a finalidade de dar mais ânimo e coragem a todos.
Saturnina, com lágrimas estancadas nos olhos tristes, sentiu, na face daqueles indivíduos que foram salvos do sacrifício, a preocupação por terem falhado com Demétrius, que tanto confiara neles.
Depois de tudo ficar mais ou menos organizado, antes da ceia, quis reuni-los para uma conversação séria, a fim de resolverem alguns assuntos.
No interior do belo átrio, tendo em suas paredes afrescos envelhecidos que evidenciavam a figura de Poseidon, deus grego do mar, vendo que todos a agradeciam, ela adiantou-se, falando-lhes:
- Amigos, não há necessidade de agradecimentos à minha pessoa, já que devemos muito ao centurião, aqui presente, por estarmos aqui.
Temos, sim, um imperativo.
Louvemos, agradecidos, primeiramente a Deus e ao Cristo.
Agindo conforme Ele nos ensinou, não guardemos rancor por aqueles que, sem saber a verdade, desejam culpar os cristãos e martirizá-los.
Um dia, eles cairão em si.
Em vez disso, oremos por eles.
Mas é imprescindível também, esquecermos as dores e pensarmos em nosso momento actual e na vida que teremos daqui para a frente, enquanto aqui permanecermos.
Precisamos aqui aguardar, até que toda essa onda de ódio pelos cristãos se vá.
E, vestindo-se como que com uma armadura mental, continuou:
- Precisamos nos alimentar e, para isso, necessitamos de soluções.
Clarêncio, tu que és o mais velho, por favor, fala pelo grupo.
Romério vos trouxe para essa fuga, no entanto, vejo-os retraídos e chorosos.
- Senhora, nós somos e seremos eternamente gratos por essa acolhida, mas nos sentimos duas vezes culpados.
Primeiro, por não termos enfrentado com o grupo cristão, nossos irmãos, a prisão a que seríamos destinados, mas, como tínhamos mulheres que precisávamos defender, aceitamos o pedido do instrutor para sermos acolhidos à vossa residência.
Segundo, estamos melancólicos e infelizes por termos traído o senhor que confiava em nós, porque achamos necessário apanhar Tília, grávida como está, salvando-a de mãos brutalizadas dos outros escravos.
Por esse motivo, durante a viagem para cá e de comum acordo, com excepção de Tília, resolvemos todos voltar a Roma.
Pedimos, no entanto, a permanência de Tília entre vós.
Ela, com certeza, precisará mesmo tratar de sua saúde.
- Sem dúvida, ela ficará aqui, todavia, sabeis o que vos aguarda em Roma, se os prenderem? - continuou cabisbaixa, agora sensibilizada.
Vós podereis ter a chance de ficardes livre do sacrifício se abjurarem aos ensinamentos de Jesus.
Assim os pretores fazem com os humílimos.
No entanto, conhecendo-vos, penso que não o farão.
- Não, não o faremos, domina - responderam todos em uníssono.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:52 am

Romério, que tudo ouvia, adiantou-se, dizendo:
- Senhora, antes disso, aqui nessa vossa residência, frente ao mar, eu, o centurião Romério Drusco, desejo pedir a mão de Raquel em casamento.
Raquel corou, ficando com o coração aos pulos e não tendo condições de dizer nada, diante do largo sorriso da adolescente Silvina e de todos os acompanhantes, que pensaram:
“Enfim, uma boa notícia”.
E Romério continuou:
- Voltarei a Roma, porque, para casar-se comigo, ela necessita dos papéis da liberdade, que só poderei conseguir com o senhor Demétrius.
Como não desejo cometer nenhum desrespeito ao nobre grego, que se tem portado, até agora, muito bem diante destas duas jovens, eu estou disposto a comprar minha noiva.
Se fosse possível, daria também a liberdade a esses dois escravos, mas não tenho o soldo necessário.
- Óptima solução, vinda de tão grande coração, meu amigo.
Não és um cristão, mas ages como tal.
E tu, Raquel, aceitas essa união? - indagou Saturnina ao procurá-la com os olhos, entre todos.
E viu Raquel enxugando algumas lágrimas.
- Sim. Eu aceito com alegria - respondeu sensibilizada a escrava.
Voltar a ver sua família e ter liberdade nos braços do homem que estava amando, ser-lhe-ia muito gratificante.
Silvina, vendo-a chorar, falou-lhe ao ouvido:
- Viste, minha amiga?
Viste como Jesus nos encaminhou até aqui e de que forma solucionou nossas vidas?
A dona da casa, dirigindo-se ao centurião, inquiriu-o:
- Centurião Romério, o que usareis como desculpa para o sequestro que fizestes?
- Direi a verdade.
Que os salvei de serem mortos no circo, quando iam ser aprisionados pela guarda pretoriana, mas, como estavam com a mulher cheia de manchas, achei melhor entregá-la a uma amiga de Herculano, que já tomou providências para curá-la.
- Por certo, nosso amo Demétrius se arrependerá de ter feito o que pretendia com Tília.
Agiu precipitadamente, por ciúme; mas, conforme meu coração diz, sei que ele virá atrás dela, por esses dias - comentou Vitorio.
- E quanto ao casamento, estamos todos muito satisfeitos - firmou Saturnina.
- Agradeço-vos, mas, primeiro, precisamos nos entregar ao senhor Demétrius - confirmou Clarêncio.
E, mais tarde, se tivermos liberdade, voltaremos a Herculano.
Procuraremos trabalho, cada qual com sua especialidade.
Soubemos que, aqui, amigos do Cristo se reúnem em residência um pouco afastada e poderemos continuar aprendendo as lições que Jesus nos deixou.
- E quais dons tens para o labor? - inquiriu-o Romério.
- Eu trabalhava em esculturas de mármore na Picídia - confidenciou Clarêncio.
- Eu posso trabalhar como ourives, consertando objectos em metal - adiantou-se Vitorio.
Era isso o que eu fazia em minha Terra.
- Muito útil nos dias de hoje.
Sei onde poderás te apresentar - ponderou o centurião.
- Eu sei trabalhar com o tear, senhora.
No entanto, não desejo falhar com o senhor Demétrius, que nos tem respeitado.
Voltarei com Clarêncio e Vitorio - confirmou Raquel, com a fisionomia iluminada pela ideia da felicidade com Romério.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:24 am

- E tu, Silvina? - perguntou-lhe Saturnina.
- Bem, eu poderei preparar todas as refeições da casa.
É só isso o que sei fazer.
Não queria deixar-vos, senhora, tenho muito medo de ser crucificada, mas, se Raquel for a Roma, eu também vou.
- Vejo aqui fiéis cristãos.
Permanecendo, vós tereis que trabalhar para que nos mantenhamos com o necessário.
Meus auxiliares também farão o mesmo.
Não mais me servirão e, como que pressentindo seu desaparecimento, relatou -, e, se um dia eu vier a faltar, sabeis que essa residência vos poderá abrigar até o final de vossos dias.
Assim, aqui poderão usar de vosso aprimoramento para o sustento dos dias de velhice.
Silvina baixou a cabeça e desandou em pranto.
- O que aconteceu?
Por que choras? - indagou-lhe Saturnina.
- Não desejo ficar sem Raquel, se ela casar.
- Bem, isso se arrumará, não é, Romério? - a senhora dirigiu-se a ele.
- Veremos mais tarde o que fazer com essa travessa menina - redarguiu Romério.
E Saturnina continuou:
- Fidelis e Pavios, esses antigos servos de Herculano, trabalharão com os cavalos de muitos senhores, coisas que sabem fazer e fazem e, à noite, aconchegar-nos-emos neste lar abençoado, herança de meus pais.
Ester continuará recebendo um valor para cuidar de Lucas, meu filho.
Ele ainda dorme.
Está muito cansado da viagem, pobrezinho.
Quanto a seu futuro, eu sei que, logo que começar a abrir os olhos para a vida, na adolescência, também seguirá a Jesus.
Tenho ainda alguns bens.
Veremos até quando nos sustentaremos com eles.
Agora, será bom que vos acomodeis, porque vamos preparar a ceia.
Quanto a vós, Pavios, meu amigo, eu vos peço que, pela manhã, vades a Roma para procurar saber sobre Simão Pedro, em primeiro lugar, depois, visitai o cárcere para ver como estão Horácio, Olípio, Porfírio, e os cristãos que estavam com eles.
Trazei-me notícias acerca das perseguições, assim que puderes.
- Pois não, senhora.
Infiltrar-me-ei no populacho e em breve vos trarei notícias.
Os dias seguintes, Saturnina passou muito ansiosa.
Não sabia o que estava acontecendo em Roma.
Assim, quando ela recebeu Pavios no átrio de sua residência, suspirou, elevando os braços, como a dizer “finalmente”.
- Ave Cristo, sede bem-vindo, meu irmão - cumprimentou-o quase sem voz e com o coração aos pulos para saber sobre as perseguições cristãs.
Entrai e sentai-vos.
Colocou-se frente a ele toda ouvidos e, ansiosa, aguardou-o falar.
Ester entregou a ele um copo de refresco, mas ele não quis beber e deslizou o verbo fluentemente:
- Senhora, uma desgraça, senhora...
Tanto Horácio quanto Olípio e seu instrutor pessoal Porfírio foram sacrificados, entre tantos outros...
Infelizmente, a esposa de Simão também o foi, e ele próprio, de uma maneira absurda e odiosa.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:25 am

Saturnina sentou-se no banco, consternada.
Em seus belos olhos verdes, brotaram as lágrimas que não puderam ser contidas.
Era como se um punhal lhe tivesse atravessado as carnes.
Baixou a cabeça para orar, mas não conseguia estancar as lágrimas que lhe deslizavam pela face.
Sentia o peso da amargura.
Por que seguir o amor seria tão prejudicial diante das mentes romanas?
Por que o orgulho humano ainda mantinha raízes tão profundas?
- Oh! Por quanto tempo teremos que suportar essa dor?
Nero pensa que pode nos calar? - respirou fundo e continuou:
- Sabeis se Lucas retornou?
E Aristarco, e os outros acompanhantes de Paulo?
- Deles nada soubemos.
- Deus os livrará desse martírio.
Não sei como contar isso aos amigos que aqui se encontram.
- Senhora, seremos nós, desta forma, todos sacrificados por amor a Jesus?
Eu temo, senhora.
Tenho filhos pequenos que muito amo.
Temo em deixá-los sem pai, sem mãe.
O que fazer?
Até quando seremos cobrados, somente por amarmos Jesus e por desejarmos um mundo melhor?
Em silêncio por alguns instantes, Saturnina respondeu ao amigo:
- Meu amigo, sabemos que a dor visita hoje muitos lares, no entanto, nós todos teremos de partir algum dia, mas seremos sacrificados também?
Nem todos, Pavios, sofrerão a dor de deixar seus filhos em desamparo.
Se todos morrermos, quem levará o Cristianismo avante?
Cada vez mais, vemos pessoas se unirem ao Cristianismo.
Jesus, sendo o Messias, implantaria na Terra esse ensinamento se nenhum cristão sobrevivesse?
Portanto, tenhamos confiança e coragem!
Levaremos adiante essas leis que afirmam nossa felicidade futura, ou ficaremos errando nesta vida pela incerteza?
Só com os ensinamentos de amor de Jesus, que nos adverte a modificarmos, dia a dia, a nossa maneira de ser, e, amando o nosso próximo, divisaremos a paz que um dia chegará.
Precisamos ser Seus fiéis seguidores, não nos abandonemos a temores.
Sigamo-Lo! Ele nos deu o exemplo, morrendo na cruz por todos nós.
Se desejais para vossos filhos um mundo melhor, como falastes, esse é o único caminho; só assim nosso sacrifício não será em vão.
Não desejais vê-los felizes, sem inimigos ou perseguições?
Um dia, afirmou-nos Jesus, teremos esse mundo almejado.
O que está acontecendo agora é criado por mentes doentias, que não sabem amar, que se revoltam pelo orgulho ferido.
Não aceitam a igualdade com os mais simples, por isso matam, Pavios.
Então, não achais que é tempo de mudanças?
Não acreditais que o amor transformará a humanidade?
Pavios baixou a cabeça e, depois de instantes, explanou:
- Senhora, eu vos agradeço e peço-vos perdão pela minha fraqueza.
Sim, só através do amor transformaremos o mundo.
E, suspirando profundamente, indagou-lhe:
- Onde faremos a reunião de hoje?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:25 am

Sorrindo, mas imensamente triste pelos amigos que partiram no circo, ela respondeu:
- Juntai os cristãos que conseguirdes; depois nos encontraremos na colina, onde Eurides nos aguarda em sua pequena casa.
Assim que o Sol começar a se pôr, iniciaremos o encontro com os que fazem, na terra, o sinal do peixe e trazem, em seu coração, o sinal da cruz.
Saturnina recolheu-se por momentos, para aguardar o entardecer.
Procurou pelo filho, a criança que recebeu o nome do acompanhante de Paulo e que, naquele momento, brincava no jardim.
Chegando-se até ele, ainda com olhos lacrimosos e uma tristeza infinita, imaginando que poderia separar-se dele um dia, abaixou-se, abraçando-o pela cintura.
E, nesse momento, pediu a Deus que o envolvesse com a bravura e a fortaleza, a fim de que entendesse aquele mundo sangrento e o que viesse a acontecer.
Depois, deixando Lucas dormir aos cuidados de Silvina, acompanhou Pavios, Marconde, Fidelis e Ester à palestra nocturna.
Embuçados pelo manto, aqueles servidores do Cristo adentraram, silenciosamente, no espaço reduzido da casa, onde portas se abriam para dar lugar à belíssima paisagem da localidade à beira-mar.
A Lua, a traçar na água um caminho de luz, estava como que a assinalar o laurel que obteriam todos aqueles que eram e seriam sempre os verdadeiros seguidores das lições do Mestre.
Eurides, o novo orador de Herculano, junto ao seu instrutor Citúrio, cristão daquele lugar, dizia:
- Irmãos, irmãs, ave Cristo!
Não vamos hoje imaginar a dor, o sofrimento, mas exultemos, sabendo dos dias venturosos que o Cristianismo trará para o mundo, como Jesus afirmou.
Jesus nos transforma e, pouco a pouco, vemos quantos estão se firmando em Suas lições.
Vivamos continuamente o dia presente, seguindo sempre as lições aprendidas do “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.
A vitória será nossa, portanto vamos semear; alastremos os ramos iluminados de Jesus o quanto pudermos.
Eles formarão raízes e se espalharão pelo mundo, modificando os seres, reformulando as almas.
Não percamos a esperança no porvir!
Ele nos confirmou que venceríamos!
Confiemos em nosso Salvador; o mundo será de paz e fraternidade se O seguirmos.
Pensemos em nossos filhos, e nas gerações que se seguirão!
Sejamos mártires, se necessário, os mártires do amor e do perdão!
Depois de uma pausa, comentou:
- Ouvimos um sussurro entre o povo de que talvez possamos ter dias de paz.
Parte da nobreza e do senado se revolta contra Nero; alguns, entre estes, já foram apanhados e mortos pelo imperador, mas, com a maioria descontente, minha intuição é positiva para nós.
Todos começaram a falar e a suspirar profundamente como forma de alívio.
- Aproveitemos esse tempo para lançarmos a semente de que falei e está já enraizada em nosso interior.
Continuou ele: - Façamos o que Jesus nos ensinou através de Seus admiráveis colaboradores, aqui e em Roma.
Caridade nós precisamos ter para com os mais infelizes, alimentando as crianças que têm fome, orientando as que ficaram órfãs.
Simão Pedro foi o grande benfeitor e isso nós todos aprendemos com ele.
Tenhamos, em nosso íntimo, o exemplo de doçura e ingenuidade, restituindo em nós a criança pura, neófita de maldades, que ama as aves, os animais e as borboletas, para que, um dia, possamos ser aceitos por Ele em Seu reino.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:25 am

Assim, modifiquemos nossos maus hábitos como a maledicência, as acusações infames, a astúcia, os ardis, que muitas vezes devemos ter usado para conseguir o que desejávamos; abandonemos a dissimulação, a discórdia, a inveja e o ciúme, que modifica a expressão dos homens e aguça o animal que ainda mora em nós, e, por vezes, quer nos comandar.
Cuidemos para que o vinho em demasia não acentue o algoz interior que procura nos destruir.
Deixemos de pensar tanto em nós, para lembrarmos mais de nosso próximo e repudiemos, totalmente, esse orgulho ainda enraizado em nossas fibras.
Magoamo-nos por pequenas coisas, porquê?
Porque ainda somos muito orgulhosos, mesmo quase nada tendo.
Se formos servos, aceitemos nossos senhores como são, sem mágoa em nosso coração; aqueles que ainda se sentem poderosos assim o são porque não conhecem Jesus e o reino prometido aos que 0 seguem.
Muito choramos pelos benfeitores que, nessa perseguição, foram-se, mas lembremos também de seus sacrifícios e como se mantiveram até o final, corajosos em nome de Jesus, com esse amor que abraça tanto ao bom quanto ao mau, que esclarece e ensina, que não revida nem fere, esse amor cuja luz penetra pouco a pouco nos corações de quem se doa.
Tantos exemplos os mártires nos deram...
Batalharam entre chicotes e pedradas, doando-se à Boa Nova e ao companheiro da estrada; se assim eles fizeram, por que nós não o faremos?
Sei que as perseguições dividiram famílias, deixando seus filhos ao relento, afastando algumas almas do Cristianismo, por receio de padecerem, mas sabemos que seus corações ainda são do Mestre dos Mestres.
Soubemos do sacrifício de Simão Pedro, aquele que acompanhou Jesus em todos os momentos.
No entanto, se nós, que aqui estamos, não levarmos adiante o Cristianismo, de que adiantarão todas essas perdas?
Através dos instrutores, ouvimos as palavras do Mestre, que dizia que, um dia, haveria a divisão do joio e do trigo, dos bons e dos maus, quando o trigo seria recolhido e o joio seria destruído.
Estaremos entre os bons ou continuaremos os mesmos de hoje?
O que estamos esperando?
Por que pensarmos na dificuldade, no que teremos para comer, ou beber, ou vestir, se o Pai jamais deixou algum dos Seus, desamparados?
Lembremos dos lírios do campo, falou-nos Jesus, eles não tecem nem fiam, no entanto, ninguém se veste como eles, brancos e belos.
Procuremos olhar para dentro de nós mesmos, para avaliarmos o que temos sido até hoje, e sigamo-Lo, pois Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.
Amemos sem esmorecermos.
Atentemos ao bem!
Não aguardemos que chegue o dia de amanhã, iniciemos nossa mudança hoje.
E que o bem nos envolva, mantendo, em nossa mente, as palavras de Jesus, protegendo nossos passos e colocando em nossas mãos o ensino da verdade.
Ave Cristo!
Meus irmãos e minhas irmãs, levai, para vossos lares, essas reflexões.
Vamos com cuidado e em paz.
Que saiais aos poucos, um grupo, depois outro, assim, até todos terem partido, chegando a vossos lares em paz.
E que Jesus nos abençoe.
Em Roma, Demétrius, alterado, agora procurava pelos escravos e, mais precisamente, por Tília, pois não os encontrara em sua própria casa.
- Márcio, tu, que és o meu servo mais antigo e em quem confio, diz-me, para onde foram os escravos que procuro?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:25 am

- Não gosto de entregar ninguém, mas vejo, em vossa face, a amargura.
Eles saíram para assistir os cristãos e levaram, em seu braços, Tília, muito doente, como morta, senhor.
Disseram-me que vos pediam o perdão.
- Então, ela não esteve com os nossos escravos?
- Não. Estava com as marcas da peste.
Demétrius sentou-se e colocou as mãos sobre a cabeça.
Porque os mais fiéis escravos haviam feito isso com ele, e ainda levaram Tília?
- Tanto confiei nesses escravos.
Eram diferentes e havia uma forma também diferente de nos tratarem.
E toda a confiança que lhes dei sempre, de nada adiantou?
- Não fiqueis assim, senhor, por certo eles voltarão.
- Sempre coloquei a certeza e não a dúvida naqueles homens.
E ainda sumiram com Raquel e Silvina...
Isso está mal.
Vou mandar procurá-los e prendê-los.
Chama por Romério Drusco.
- Soube que ele foi prender alguns escravos por ordem de Nero.
Pelo menos, foi isso que ouvi alguns centuriões comentarem.
- Avisa a guarda que, logo que ele chegar, quero vê-lo aqui no átrio.
- Certo, senhor.
Sem ter conhecimento de estar sendo procurado, depois de três dias, bateu à porta Romério Drusco, com a finalidade de expor, ao senhor da Villa Augustiana, o acontecido.
- Foi isso o que aconteceu com eles, Romério? - perguntou-lhe Demétrius, agora menos alterado.
- Sem sombra de dúvida.
- E Tília? Levaram-na ao leprosário?
- Não está leprosa, mas não está saudável.
A senhora Saturnina, que viajou a Herculano, teve piedade dela e a levou consigo para tratá-la.
- Mas os outros, eles não estavam entre os cristãos?
- Vós os estimáveis? - indagou-lhe Romério.
- Muito. Eles me foram, até agora, fiéis, dóceis e felizes.
Muito diferentes dos outros, que se revoltam sempre, brigam muito e se machucam nas brigas.
Os outros não têm a paz que aqueles quatro têm.
Não desejaria perdê-los, contudo, se apanharam a peste de Tília... melhor seria que não voltassem.
Com receio de perder Raquel, Romério comentou:
- Raquel talvez esteja com a peste.
- Que fique lá, então.
- Precisaria de um documento vosso antes de colocá-la a tratamento.
Liberai-a, senhor!
E Silvina também.
- Dar liberdade a elas?
Para quê, se estão com a peste?
- Então, vendei-as para mim.
- E queres duas pesteadas contigo?
Bem... Assim não perderei nada.
- Compro-as para que não fiqueis em prejuízo.
- Está bem.
Dou-te já a liberação de ambas; e agradeço-te por ter salvo do cárcere os meus servos.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:25 am

17 Demetrius e tília
Finalmente sede todos de igual sentimento, compassivos, amando os irmãos, entranhavelmente misericordiosos e afáveis.

(I Pedro, 3:8)

DEMÉTRIUS NÃO ERA UMA MÁ PESSOA.
SUA PRImeira esposa, filha de um filisteu, era submissa e de fisionomia bruta, mas lhe foi imposta pelo pai.
Com ela teve seu filho Demétrius Darius, mas a mulher teve a febre que apanhava parturientes e desencarnou.
Apesar de não estar apaixonado por ela, amava-a como amiga e a respeitava como esposa obediente e resignada.
Demétrius Darius fora criado pela avó paterna, tendo, como educação espiritual, seus diversos deuses gregos, e, na mente, a posição idêntica a do pai: conhecimento e sabedoria.
Naqueles dias, Demétrius sentiu-se totalmente perdido com a morte da esposa e, logo que os seus pais também desencarnaram, resolveu mudar de lugar para esquecer, enfim, a família amada, que já não existia.
Quando aportou em Óstia com seu filho adolescente e o escravo Márcio, respirou fundo, sentindo-se animado e feliz, pois jamais havia saído de sua cidade natal.
Roma, para ele, seria como um céu encantado, onde a felicidade estaria.
Pôde perceber que a riqueza estava ah, desde Óstia; no movimento dos navios que entravam e saiam, na andança dos mercadores, nos mantos e nas túnicas, nos apetrechos dourados dos soldados.
A arquitectura da cidade portuária também o deixara extasiado, com suas ruas pavimentadas, ladeadas por colunas e estátuas, assim como as outras construções daquele porto.
- Já pudemos apreciar tudo isso aqui, o que será que nos aguarda em Roma?
Não te arrependerás de termos saído da nossa ilha, meu filho? - indagou ao rapaz ao seu lado.
- Bem, ainda não pude ver nada.
Vejo muitos rapazes, mas não as jovens.
Onde elas estão? - inquiriu-o Demétrius Darius.
- Ora, meu filho, elas estão com suas mães e seus pais, não vadiando nessas ruas.
Aqui, deve ser perigoso andarem sozinhas.
Vê bem, há todos os tipos de homens aqui, de todos os lugares e costumes.
Como poderiam andar mocinhas de bom carácter por aqui?
Tem uma que me segue com os olhos.
Mas não deve ser de boa família.
- Tende cuidado, meu pai, aquela deve sentir o cheiro de vosso dinheiro.
- Demétrius Darius, eu penso que, pela minha idade, tens razão; já estou com cinquenta anos e, nesta idade, muitos estão bem de vida...
Mas vê os mercadores; devem vender muito.
Vejo aqui todos os materiais necessários para o excelente comércio.
O óleo, os grãos, o mel, as olivas, as ânforas de vinho, as sedas.
Olha ali também, naquelas tendas: sandálias, cosméticos e lamparinas.
- Se minha mãe estivesse viva, talvez ficasse muito animada entre tantas coisas lindas neste porto.
Vede, ali vendem as essências de Cartago, e aquelas sedas, meu pai, devem ser da índia.
- Enganas-te, são da Síria.
A índia tem algo mais precioso, seus grãos, seu chá.
Sim, tua mãe iria gostar muito de ver toda essa riqueza de materiais.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:26 am

- Realmente, sente-se que aqui poderemos enriquecer com o nosso trabalho.
- Vê, lá adiante está Romério Drusco, que conheci ao chegar; está descendo com alguns escravos.
Avisou-me disso, mas não serão vendidos hoje, e tenho compromisso em Roma; vou pedir a ele que escolha doze, entre os melhores, sendo que duas ou três mulheres para fazerem o serviço da casa, em nosso novo lar.
Reparava nos escravos que desciam, e colocou o olhar na negra esbelta e delicada.
Tinha porte altivo e imponente como uma rainha, mas jamais levantava o rosto.
Fiscalizou-a com olhar cruciante, achando-a extremamente atraente.
Aproximou-se dela e sentiu um choque ao vê-la de perto.
Sim, era a escrava fugitiva.
Sentia os laços fortes existentes entre eles.
- Romério, aquela tem que ir para mim, a qualquer preço - impôs-lhe Demétrius.
- A escrava já está prometida, senhor.
- Pago o dobro que o infeliz que a quer comprar.
Não te esqueças disso e leva meus escravos assim que os comprares e mais esta negra.
Sabes aonde vou morar, não?
Nossa Villa é grande e necessita de muitos braços.
Como aquela mulher se chama?
- Chama-se Tília - respondeu-lhe Romério.
- A que veste túnica lilás?
- Sim, e é muito bela.
Só não vi seus olhos.
- Eu a conheço muito bem, Romério Drusco, meu amigo.
Lembra-te de que serás muito bem recompensado.
Demétrius deixou Demétrius Darius ali com Romério e caminhou até onde estavam reunidos os escravos.
Tília procurava não erguer a cabeça para ele não lhe ver os olhos, mas Demétrius aproximou-se dela, colocou a mão em seu queixo, erguendo sua face.
Tremia ao fazer isso, sem se dar conta da força poderosa que os colocava frente a frente.
- Abre os olhos, negra - ordenou-lhe.
Tília ergueu seus claros olhos azuis, muito tristes, e, ao vê-lo, retrocedeu, afastando-se.
Mas ele agarrou-a pelo braço, à força:
- És mesmo a bela fugitiva.
Que bela és, mulher!
Fugir não bastará.
Tília sentiu um temor muito grande e sua vontade era cuspir-lhe na face, no entanto, baixou levemente a cabeça.
Demétrius sorriu sarcástico, dizendo:
- Desta vez, não fugirás de mim.
Nem que eu tenha que percorrer todos os locais a tua procura.
Coloca na tua cabeça que, desde agora, já me pertences.
Aproximando-se para apanhar o filho, tirou um saco de moedas para que Romério executasse seu plano, comprando os escravos de que ele precisava.
- Confiais tanto assim nesse homem, meu pai?
- Ele é um centurião, fácil de ser achado, se de meu dinheiro tirar proveito próprio.
Vamos, a biga já está a nossa espera.
Digamos adeus a este porto, que tão cedo não veremos.
Foi dessa forma que aconteceu o encontro de Demétrius com Tília.
Lembremo-nos de que Tília já havia sido comprada por Rindolfo Saltino e que Romério foi negociá-la novamente, quando fora obrigada à reclusão, desde os primeiros dias.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:26 am

Com o ciúme altamente doentio e perverso de Demétrius, ela fora mantida prisioneira a seus favores, sem ao menos saber o porquê disso, já que não tivera conhecimento da reencarnação, muito menos de seu pretérito com ele.
Por isso, rejeitava qualquer divindade, odiava a todos, até chegar a conhecer o Cristianismo.
Agora, Demétrius estava em desespero, sabendo que o filho de Tília era seu e que fora perverso com a mulher que não soubera amar.
E ela estava doente.
Não poderia perdê-la, no entanto, sabia que ela jamais o perdoaria...
E, dirigindo-se àquele que fora comprar seus escravos, implorou-lhe:
- Romério Drusco!
Leva-me até ela! Leva-me a Tília.
Preciso me redimir antes que ela morra.
Afinal, ela tem um filho meu em seu ventre.
Será que ela me perdoará?
E se salvar-se, aceitar-me-á novamente?
- Isso depende de vós, meu amigo.
Mas penso que, ainda esta semana, vossos fiéis trabalhadores virão bater a esta porta.
Quanto a Tília, vós deveis reflectir!
Os quatro fugitivos, fiéis servidores de Demétrius, não descansariam enquanto não se entregassem ao seu senhor.
Não poderiam, como cristãos, agir diferentemente só para salvar a própria pele.
Não teriam a paz que encontraram nos ensinamentos de Jesus e, no momento em que Romério voltava a Roma, eles também se preparavam para partir.
- Raquel, voltas connosco? - perguntou-lhe Clarêncio.
Estaremos partindo.
Avisaremos a matrona, agradecendo-lhe tudo o que fez por nós.
- Sim, meu amigo.
Ouvi comentardes que voltaríeis, e analisamos a situação, concluindo que esse é o caminho correto.
Silvina - não gostou no princípio, mas, por fim, viu que estamos com a razão - Raquel, sorrindo, concluiu.
- Então, despede-te da senhora Saturnina, e vamos, porque já está na hora de partirmos.
Saturnina, sentada no jardim, apreciando o mar azul junto ao filhinho, sorriu, vendo-os se aproximarem.
- Com vossa licença, senhora; desejamos nos despedir, mas o que faremos com Tília?
Ela não poderá voltar ainda - exprimiu-se Raquel.
- Desejo que ela permaneça connosco - respondeu Saturnina.
- Temos ciência de que ela será aqui bem tratada por vós.
O dia de amanhã só Deus o sabe, contudo, sentimos imensa necessidade de nos entregarmos ao senhor que sempre confiou em nós - ponderou Clarêncio.
- Todo cristão age desta forma e convosco não poderia ser diferente.
Sinto-me feliz em saber disso, apesar de que apreciaria se permanecessem connosco.
Confiai em Jesus, e Ele não vos abandonará.
- Senhora - ajoelhou-se Raquel, beijando-lhe as mãos -, agradeço-vos, juntamente com Silvina, tudo o que fizestes por nós.
- Levanta-te! Nada fiz, minha filha.
Tens certeza de que abandonarás uma união tão preciosa com o nosso amigo centurião?
- Em primeiro lugar, precisamos ter a consciência em paz, não é?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:26 am

Silvina, que vinha se aproximando, concluiu:
- Bem... eu preferiria ficar aqui, mas não desejo te abandonar, Raquel.
- Não vás embora, Raquel - pediu-lhe o pequeno Lucas.
- Precisamos cumprir nossas obrigações, meu amiguinho... talvez, algum dia, possamos nos encontrar novamente.
- Giácomo, meu antigo servo aqui de Herculano, levar-vos-á até Roma, pois irá apanhar algumas coisas na minha casa - alertou-os Saturnina.
- Agradecemos mais esse vosso auxílio - confidenciou Clarêncio.
- Ave Cristo.
Que Jesus vos proteja!
- Ave, senhora - despediu-se Raquel.
- Senhora - interveio Vitorio jamais esqueceremos o que fizestes por nós.
- Certamente faríeis o mesmo se eu precisasse; portanto, meu amigo, não há necessidade de agradecimentos.
Vai em paz.
- Ave Cristo.
Ao chegarem em Roma, os escravos bateram à porta do palácio do grego.
Romério estava saindo de lá, despedindo-se de Demétrius, e ficou indignado quando viu as duas mulheres ali, com os escravos.
Pensou que agora estaria tudo acabado.
Demétrius viu quando os seus auxiliares mais fiéis adentraram e sorriu, mas pediu para as mulheres aguardarem na rua.
Silvina e Raquel viraram-se para Romério com interrogação no olhar, mas nada comentaram.
O centurião sentiu imensa alegria interior, enquanto voltava para acompanhar os viajantes.
- Então, o que me dizem os desertores? - perguntou-lhes Demétrius, sorridente.
- Viemos servir-vos, senhor, e podeis nos corrigir como desejardes se vos for necessário.
Somente Tília não virá.
Está muito adoentada.
- Romério me levará até lá - confidenciou-lhe o grego romano.
- Por que Raquel e Silvina não entram? - perguntou Clarêncio a Romério.
- Receberão a liberdade - respondeu-lhes o centurião, sorridente.
Mas não se perturbem.
Elas ficarão bem.
Os dois escravos agradeceram com olhar brilhante.
Clarêncio fez o sinal do peixe na terra, agradecendo, também a Deus, aquela vitória.
- Que Ele vos abençoe - concluiu Vitório a Romério, apagando com os pés a marca no solo.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:26 am

18 O CAMINHO SEGURO DE JESUS
Então, disse a seus discípulos: A seara é realmente grande, mas poucos são os ceifeiros.

(Mateus, 9:37)

RAQUEL E SILVINA VOLTARAM, NAQUELE MESMO dia, a Herculano.
Demétrius chegou lá uma semana depois, com Romério, e logo foi recebido por Saturnina e apresentado ao grupo de hóspedes que se sentava no jardim para apanhar o pouco sol do dia.
Muito ansioso, pediu para falar com a patrícia a sós:
- Ave, senhora.
Peço-vos a gentileza de nos afastarmos para colóquio mais íntimo.
Perdoai-me, mas é um assunto de meu maior interesse.
Saturnina pediu a Ester que preparasse um suco de frutas e convidou o grego para que a acompanhasse.
Demétrius chegou ao átrio, admirando toda a ostentação daquele palácio.
Frente à pequena piscina, onde flores aquáticas boiavam, ele admirava as colunas que sustentavam o espaço, os mosaicos do piso e os belos afrescos nas paredes, as folhagens e flores tropicais.
Saturnina pediu-lhe que se sentasse e aguardou suas palavras.
- Obrigado, senhora, pela hospitalidade.
Venho aqui angustiado.
É sobre Tília que desejo falar-vos.
Quase enlouqueci quando soube que ela estava esperando um filho meu - disse, ao mesmo tempo em que secava, com as costas de sua pesada mão direita, os olhos molhados, e continuou:
- Amo essa mulher, senhora, mas também a odiei dias atrás - comentou em desabafo.
- Mas ódio, porquê?
Não é ela dócil e carinhosa como se nos mostra aqui?
Não é humilde e prestimosa?
- Ela está doente e vai morrer, por isso desejo dar a ela tudo, antes que se vá.
- Não, ela não vai morrer.
Estava doente pela maneira de ser tratada.
Mas aqui, sem opressão e sentindo-se querida, sua indisposição se foi.
Começou a se alimentar melhor, apanhou um pouco de sol, que antes não apanhava, e adquiriu, com isso, uma saúde admirável, auxiliando alguns sofredores; ela é uma grande alma, senhor.
Por que não só amá-la em vez de odiá-la?
Que mal ela vos fez?
- Tendes razão... ela não me fez mal nenhum e errei tratando-a como a tratei.
Mas agora repararei o mal que lhe fiz.
Desejo levá-la.
- Nobre senhor, mesmo sabendo que a escrava é sua, digo-vos que ela está sob a minha protecção e somente a deixarei ir se ela mesma assim o desejar.
- Não tenho a intenção de causar discussões convosco, minha senhora, mas a mulher ainda é minha escrava.
Vou levá-la ainda hoje!
Romério adentrou no ambiente e o olhou com uma expressão, como que o repreendendo pela maneira de falar.
Então, ele mudou o assunto.
- Senhora Saturnina, Raquel e Silvina voltaram para cá?
- As duas estão tentando melhorar a saúde, depois que vós não as quisestes mais dissimulou, para que Romério não fosse entregue pela mentira que usara.
- Mas com a peste...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:26 am

Bem, deixa para lá, afinal, Romério as comprou e nada perdi de valor, mas desejo ver e falar com Tília.
Prezaria se me levásseis até ela, por favor.
- Seu desejo em vê-la não será somente carnal? - insistiu a domina, olhando-o de soslaio.
Demétrius ficou com os nervos à flor da pele, baixou a cabeça e cogitou contrafeito:
- Bem... senhora, isso não vos diz respeito.
- Diz, sim.
Isso porque ela está nesta casa sob minha responsabilidade, como hóspede - firmemente, a patrícia conjeturou.
- Mas ela, aqui, não vos está servindo? Tratai-a como hóspede?
- Trato-a pelo que ela merece ser tratada.
Foi princesa em sua tribo e uma princesa deve receber o tratamento específico, que vós, com certeza, não destes a ela antes; aliás, ela chegou aqui coberta de manchas, e, por pouco, não perdeu a criança.
Mesmo assim - observou -, vamos fazer um trato, que deve ser respeitado.
Podeis aceitá-lo?
- Não vejo outra alternativa - consentiu Demétrius.
- Vou chamá-la para que ela se apresente, todavia, somente voltará a Roma convosco se também assim o desejar.
- Concordo com tudo, mas preciso vê-la logo.
Saturnina bateu palmas e chegou Ester, levando-lhe os sucos.
- Ester, minha amiga, pede para Tília que aqui se apresente.
O senhor Demétrius deseja vê-la.
No entanto, é importante avisá-la de que nada será feito contra sua vontade - relatou Saturnina.
- É assim que tratais vossas servas, domina?
Não temeis uma revanche?
Afinal, sois só e sem esposo para comandar esta casa - indagou o grego, surpreso com o tratamento que ela deu à antiga escrava.
- Meus servos são meus amigos, senhor Demétrius.
E, quando são bem tratados, devolvem-me da mesma forma.
Nunca tentastes tratar assim os vossos servos?
- Bem... - disse ele constrito - eu jamais pensei nisso.
- Aprendi, na idade madura, que todos somos iguais e que receberemos de acordo com o que oferecemos ao nosso semelhante.
Do amor gera-se o amor, como dos maus tratos gera-se o ódio.
Olhai, senhor, aí chega Tília.
Tília, enrolada em uma singela túnica branca, com seu porte altivo, caminhava segura de si, trazendo grandes argolas nas orelhas.
Seus cabelos crespos e negros caíam sobre um dos ombros, do mesmo lado em que a pulseira de escrava evidenciava-se.
Seus pés estavam descalços.
Nada mudara nela, somente o ventre avantajado mostrava que a criança se desenvolvia muito bem.
Demétrius a olhou embevecido quando ela lhe fixou o olhar, cumprimentando-o.
Já não baixava a cabeça para esconder seus olhos azuis, porque estava senhora da posição de pessoa que deveria ser respeitada.
Não que estivesse vaidosa ou orgulhosa de seu antigo posto tribal, mas agora, ali, nada temia.
Deixava nas mãos de Jesus sua vida, viesse o que viesse pela frente.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:27 am

Enquanto Raquel e Silvina oravam nas proximidades da residência, Demétrius, deglutindo todos os comentários daquelas lições de Saturnina sobre o respeito ao ser humano, vendo Tília, levantou-se e, aproximando-se dela, beijou-lhe as mãos.
Tília sorriu-lhe nervosamente e lhe pediu que continuasse sentado.
Mas ele não se moveu.
- Tília, Tília, eu mudei; sei que errei contigo, mas já não sou mais o mesmo, porque te amo e desejo pedir-te que te unas a mim, para que essa criança tenha um lar.
- Casar-me? - indagou, pasma, agora não sem temor.
- Sim. Desejo casar-me contigo.
Trouxe aqui tua liberdade.
Tília olhou para o documento, parecendo não estar acreditando naquela verdade.
Uma estranha sensação lhe invadira a alma.
Sentira que o ar adentrava melhor em suas narinas, como que se lhe alimentasse a alma.
Livre! Jamais poderia analisar a vida em liberdade.
E ele continuou:
- Sendo livre, poderás voltar comigo, ou não.
Um homem como eu não deve deixar seu orgulho, contudo alguma coisa aconteceu comigo.
Desejo, muitíssimo, que voltes para nossa casa, não mais como escrava, mas como a esposa que administrará seus servos, se assim o desejares.
Saturnina estranhou aquelas palavras dóceis; sabia que isso fora dito, não porque ele tornara-se cristão, mas porque estava agindo como tal.
Então, lembrou-se das palavras de Porfírio, quando ele anotara o que tinha ouvido de Paulo, comentado em uma de suas cartas aos Colossences:
“Senhores, tratai com justiça e equidade vossos escravos, sabendo que vós também tendes um senhor no céu.”
- Então, o que respondes a este senhor, Tília? - indagou-lhe Saturnina, assinalando a postura da escrava, que nada respondia.
- Senhora, eu não sei.
Ainda tenho as marcas da dor em minha face.
Demétrius, perturbado, demandou constrito:
- Façamos uma experiência.
Se não for possível tua vida comigo, terás a tua liberdade com este documento e poderás retornar a esta casa.
Fez-se ainda silêncio, ao que ele, inseguro e angustiado, adiantou-se:
- Então, o que resolves?
Tília não quis dar uma resposta sem pensar.
Ser livre seria maravilhoso, mas livre e só não seria bom.
Como se sustentaria se não como escrava?
E aquele homem estava arrependido e oferecendo-lhe tudo, além do mais, seu filho não ficaria sem um pai.
- Digo-vos que esta criança em meu ventre vos dará, ainda, grandes alegrias, senhor Demétrius.
Saturnina sorriu e deixou-os a sós para que conversassem.
Ele abraçou a antiga escrava, sabendo que aquela resposta era um sim.
- Não te arrependerás, meu amor.
Terás tudo o que uma princesa tem.
Belas roupas, jóias, tudo, mas precisarás respeitar-me.
Ser somente minha.
- Não há necessidade de ciúmes.
Sereis o único em minha vida.
Demétrius abraçou-a e foi preparar-lhes o retomo à velha Roma.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:27 am

19 AS LIÇÕES RECEBIDAS
Mas quando fores convidado, vai (...).

Jesus (Lucas, 14:10)

- O TEMPO PASSAVA...
Veranda, acompanhada com Marius no sítio, aguardava nascer outro filhinho de Dulcinaea, enquanto Petrullio e seu filho Murilo serviam a legião romana.
- Mãe, tivestes notícias de Saturnina? - perguntou-lhe Marius numa certa tarde.
- Não, meu filho.
Nunca mais tive notícias dela.
- Sonhei outra noite que ela estava sendo perseguida por Tigelino e outros pretores de Nero.
Acordei assustado, minha mãe.
- Isso não seria difícil de sonhar, afinal ela se meteu
- Mas não sentiríeis nenhuma dor se isso tivesse acontecido?
- Para falar a verdade, Severus, o vizinho ao lado de nossa vinha, certo dia, ouviu-a falar tão bem de nossa família, inclusive de teu pai, dizendo que era um homem correto e bom, que penso que o afastamento dela foi uma das coisas mais importantes para a paz familiar.
Em Roma, morávamos perto, mas aqui, a distância é minha aliada.
- Ora, o que quereis dizer com isso?
- Uma mulher ainda jovem e bela, admirada por meu esposo e muito próxima de nós, eu não gostaria de ter.
Estivemos em sua casa pela saúde de Petrullio, e tudo faria novamente por ele.
Gosto dela, mas não tão próxima ao meu esposo.
Todas as amigas casadas se afastaram de Saturnina.
- Eu não posso acreditar que sentis ciúme dela, minha mãe - comentou Marius, indignado.
- Além de bela, ela é uma pessoa formidável! - evidenciou a nora, que vinha chegando, já com o ventre avantajado.
Estávamos comentando em nossa alcova que, se for uma menina, daremos à criança o mesmo nome dessa nossa inesquecível amiga.
- Sim, sim! Tenho-lhe ciúmes - afirmou Veranda a eles.
Olhai para mim.
Estou sempre amarga porque não me vejo bela e meu esposo sempre está longe...
Enquanto ela é de uma alegria interior que muito invejo.
- Sois ainda uma matrona interessante, minha mãe, mas um pouco sombria.
Falta em vós uma coisa que Saturnina tem demais.
E, depois, papai vos ama, sempre vos amou.
- Saturnina tem demais?
E o que ela tem demais? - inquiriu a mãe, amofinada.
- Bem, mãe querida, ela tem optimismo.
Tem amor por todo ser humano e a felicidade lhe vem das fibras da alma, resplandecendo em sua face.
Para vós, faltam a paz e a serenidade.
Falta-vos também alegria.
Vós estais sempre com medo que nosso pai não retorne... e, perdoai-me por vos dizer... com quase nada vos alegrais.
Veranda começou a chorar, dizendo:
- Sabes de uma coisa?
Eu a odeio!
- Senhora querida - explanou-se Dulcinaea -, em vez de odiá-la, devíeis conseguir com ela a receita da felicidade.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:27 am

Eu e Marius achamos que ela se sente feliz em poder auxiliar as pessoas necessitadas.
Penso que é por esse motivo que tem aquele brilho no olhar, aquele sorriso nos lábios, sempre.
Nunca a vimos raivosa ou queixando-se de algo.
Essa parece ser a verdadeira felicidade, minha sogra.
Depois, abraçando-a, falou carinhosamente:
- Voltaremos a Roma ainda esta semana, para casa de meus pais, e lá permaneceremos por alguns dias.
Vamos só nós, Marius com o nosso pequeno, Matilde e eu.
Rufinus fica para determinar os que cuidam da vinha.
Ainda não é tempo de colheita, portanto podemos viajar um pouco.
Meus pais ficarão felizes em nos receber.
Como levarei Matilde comigo, uma serva somente nos bastará para nosso pequeno Marius.
Não desejais ir também, minha sogra?
- Isto seria muito bom, esposa.
Vamos, mãe! - implorou-lhe Marius.
- E ficar próxima à Saturnina? - aludiu a domina, intempestivamente.
- Podereis aprender com ela a serdes caridosa.
Visitemos Saturnina, mãe, peço-vos!
- Estás me insultando, Marius.
Só vou se não a visitarmos.
- Esquecestes tudo o que ela fez por nós?
- Por nós ou por teu pai?
- Bem, vejo que não iremos, Dulcinaea.
Vendo a nora baixar a cabeça e ir saindo da peça, Veranda disse rapidamente:
- Quem disse que não iremos?
Eu vou, sim, mas Rufinus também irá.
Dias depois, estavam todos partindo para Roma.
Marius, o filho, já maiorzinho e falante, perguntou ao pai:
- Papai, se vamos a Roma, não podemos ver as corridas de bigas?
- És muito pequeno, meu filho querido.
Aguardemos um pouco antes de enfrentar tamanho movimento.
- E ao circo?
Podemos ir ao circo?
- O que queres ver no circo?
A luta dos gladiadores?
- Não. Quero saber se os cristãos vão ser sacrificados ou se é mentira de Rufino.
Matilde, ali ao lado da criança, abriu os grandes olhos espectacularmente e virou-se para Marius, o infante, como pedindo para ele se calar.
- Não me olhes desse jeito, Matilde - reclamou a criança. - Eu ouvi, sim, Rufino te falar isso.
- Pelos deuses! - declarou sua mãe, ainda apegada à maneira romana de falar.
Será isso verdade? Diz-me, Matilde!
- Sim, Senhora. Isso será daqui a sete dias.
Marius pediu para Rufino levar a carroça mais rapidamente e comunicou a todos:
- Logo estaremos entrando em Roma.
- Vamos directamente à casa de Saturnina - ordenou a matrona.
Marius não sabia se ela queria desembarcar lá por apreciar a cristã ou para caçoar dela, já que dirigira aquelas palavras rudes para a amiga.
Todos emudeceram e grande temor os abalou.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 16, 2016 11:27 am

- Falei alguma coisa ruim, minha mãe? - indagou o pequeno Marius.
- Não. Disseste o que de mais correto foi, meu filho, fica satisfeito com isso.
A carroça de Veranda chegou a Roma e parou em frente daquela residência, com Marius indo a seu lado, a cavalo.
Ele desceu e bateu na grande porta.
Viram a casa fechada e meio às escuras, como que abandonada, mas lembraram-se da família de Antoninus, a quem Saturnina dera abrigo.
Então, aguardaram para que algum dos componentes daquele grupo fosse atendê-los.
Na carroça coberta, enquanto as senhoras, quietas e tensas, aguardavam a família de Antoninus, o menino perguntou à sua mãe:
- Mãe, do que estão com medo?
Alguma coisa ruim aconteceu com os que moram aqui?
- Não, meu filho, nada aconteceu.
Estamos só aguardando por teu pai.
- Mas, então, por que ele demora tanto?
Veranda, muito preocupada, viu sair pelo portão o senhor Antoninus, que Saturnina acolhera em sua propriedade.
Desceu rapidamente da carroça e, antes que Marius perguntasse qualquer coisa ao caseiro, indagou-lhe com ansiedade:
- Tendes notícias de Saturnina e sua família?
Vimos que a casa está toda fechada.
- A senhora Saturnina partiu com seu filho e os servos para Herculano.
- Ufa! Graças aos deuses! - desabafou ela, colocando a mão sobre o peito.
Marius agradeceu sorrindo, deu um valor para o senhor e, colocando a mão sobre os ombros de sua mãe, fez-lhe uma pergunta:
- E agora, mãe, o que desejais fazer, já que estamos mais tranquilos?
Vamos para a casa dos pais de Dulcinaea ou...
Sem esperar que ele continuasse, ela acentuou:
- E, depois, visitaremos nossa amiga em Herculano.
Marius e Dulcinaea se entreolharam sorrindo, como a dizer:
“Nem ela sabe o quanto quer bem a essa sua amiga”.
- Então, vovó... vejo que a senhora gosta mesmo da tia Saturnina, não é?
Ficou tremendo de medo, achando que ela estava no circo com os cristãos.
- O que é isso, meu filho? - corrigiu-o Marius.
De onde tiras essas ideias?
- Ora, meu pai, enquanto vós ficais falando, eu vejo seus sinais, seus olhares e temores.
Depois que falei nos cristãos, viestes mais rapidamente, e percebi que, em vez de irmos para a vovó Luzia directamente, ficamos parados aqui...
Dulcinaea colocou os olhos no esposo e fez força para não dar uma risada.
Veranda concluiu:
- As crianças, hoje, parece que nasceram sabendo tudo.
- Isso é porque nosso pequeno Marius se interessa por tudo na fazenda e está sempre metido entre os escravos e suas conversações.
Veranda e o filho Marius, juntamente com a nora, o netinho e os dois servos, saindo da casa de Saturnina, dirigiram-se directamente para a residência de Luzia.
No caminho, passaram pelo Fórum Romano e viram pessoas em aglomeração, que gesticulavam e até gritavam, o que deixou aquela família preocupada.
Chegando à sumptuosa residência dos pais de Dulcinaea, Luzia cumprimentou a filha e o neto secamente e todos os outros com leve sorriso nos lábios, pedindo à escrava Alzira que os levasse aos dormitórios destinados e logo oferecesse refrescos de rosas para todos.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:22 am

Mas Dulcinaea não quis ir com eles.
Alcançou para Matilde a mãozinha de Marius, apegado a ela, e sentou-se no triclínio para descansar.
No átrio, com piso e colunas decorados em dois tons de mármore, bege e vermelho, Luzia perguntou à filha, vendo seu ventre tão avantajado:
- Para quando é esse bebé, minha filha?
- Penso que daqui a um mês o terei, se tudo for bem, minha mãe.
Depois do que aconteceu com minha prima Clarice, que perdeu a vida dando ao mundo dois bebés ao mesmo tempo, tenho lá os meus receios.
- Não te preocupes.
Daremos uma dádiva à deusa Artemis, a nossa preferida que...
- Minha mãe, vê-se que estamos longe uma da outra pela própria distância do sítio a essa cidade.
Tornei- me cristã, minha mãe...
Hoje oro por um ser que nos ensinou a amar e a perdoar.
Viveu e foi puro amor, ajudando pessoas, curando leprosos.
Ele mesmo curou o meu sogro, através de um instrutor cristão.
Artemis já não faz parte de minhas orações.
Os olhos arregalados de Luzia diziam o horror que aquelas palavras lhe traziam.
Levantou-se de onde estava e começou a caminhar de um lado ao outro, colocando vez em vez as mãos sobre a testa.
- O que tendes, minha mãe?
Disse-vos algo que não devia?
- Tu... não, tu não farias isso com tua mãe, sendo teu pai um homem do império.
- Mas não posso esconder essa verdade, minha mãe.
- Pois, então, terás que partir daqui.
- Vós, minha própria mãe, tocando-me desta casa, que também é minha? - inquiriu Dulcinaea à mãe, erguendo-se do triclínio.
- Minha filha - comentou Luzia, chegando-se a ela - está bem.
Tu estás grávida e és minha única filha, no entanto, deves considerar.
Alexus ficará como louco se souber disso.
Por favor, quando ele chegar, não toques nesse assunto com ele, porque dele sim, deverás temer.
Olha, essa tua ideia jamais poderá vir à tona nesta casa.
E teu marido, o que diz disso tudo?
- É melhor que mudemos o assunto.
Meu filho se enrijece a todo o momento em meu ventre.
- Sim, paremos por ora, mas voltaremos logo após o jantar.
Terás que mudar de ideia.
Os deuses romanos poderão te castigar e fazer com que percas esse filho que está por nascer.
- Mamãe! Não digais essas coisas!
Os deuses romanos são de pedra, não se movem, e só existem nas nossas cabeças!
- Cala-te! Depois falaremos, já disse.
Marius, Veranda e o netinho adentraram no ambiente acompanhados de Alzira e Matilde.
- Senhora - avisou a escrava Alzira -, agora eu prepararei os refrescos.
- Coloca também nas rosas um pouco de limão para que o sabor do refresco se pronuncie.
Ah... Traz muitas uvas para os viajantes.
- Sim, Senhora.
- Marius, meu filho, não coloques as mãos nessa água.
Ela está aí somente para embelezar e refrescar, não para se banhar, viu? - orientou-o Dulcinaea, dirigindo, a seu filho, recomendações sobre a piscina do átrio, temendo por sua vida.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:23 am

- Eu sei, minha mãe, olhai para minha idade.
Já estou quase um adolescente.
Ia só ver a temperatura em que ela está.
- Adolescente?
Para isso falta muito tempo, muitos e muitos anos! - respondeu-lhe a mãe.
- Então, querida, cansada?
Como está nosso bebé?
Vejo que estás suando muito - comentou-lhe o esposo.
- Está tudo bem, meu amor.
Estou somente descansando um pouco e refrescando-me nesse lugar com essas belas plantas.
Viste acomodações para nossos servos, Rufino e Matilde?
- Alzira já os levou à ala dos escravos e Matilde logo vem te ajudar com a bagagem.
Mas que belo piso de mosaico temos aqui nesse átrio.
É Mercúrio como o símbolo central, com serafins e flores em sua volta.
Não são detalhes de feitos revolucionários, que a maioria usa, nem nossas guerras ou caçadas.
É estranho, não havia notado isso antes - disse Marius
- Tens que convir que Mercúrio, nosso deus romano, é protector do comércio, assim deves lembrar-te de que meu avô fez grande comércio com os produtos da fazenda.
Se fosse por papai, seriam as caçadas que estariam aqui neste mosaico.
É o que ele gosta de fazer, quando pode, pois Roma o exige a todo o momento.
- A imagem da fonte é a mesma dos mosaicos, notaste? - comentou Marius.
- Desde pequena eu vejo essa estátua, meu bem. Como não haveria de notá-la?
- Querida, seria bom que nosso bondoso amigo Rufino descansasse por algum tempo, afinal, ele não sossegou de lá até aqui, tratando dos cavalos e prestando atenção na estrada...
E, pensando assim, também Matilde poderá descansar agora, afinal, temos Alzira a nos servir, por hora.
Luzia franziu a testa.
Não podia estar ouvindo aquele disparate.
Cuidar dos escravos...
Escravo era escravo, não podia estar ouvindo bem, ou isso também era um feitiço dos cristãos?
- Mãe, o que está acontecendo nesta nossa Roma?
Vimos muitas pessoas em aglomeração nas ruas... - perguntou-lhe Dulcinaea.
- Roma, minha filha, a nossa Roma está em crise.
Depois do incêndio, pelos cristãos, anos atrás, o povo rebelou-se, daí o sacrifício nas arenas.
E Nero parece que louvou-se demais construindo as novas residências.
Séneca saiu de perto dele, depois que nosso imperador colocou Ofrônio ao seu lado, um sujeito sem escrúpulos.
Diz-se que o povo tem necessidades, sofre de fome...
Como sabes, Nero começou a auxiliar os mais pobres, oferecendo a eles uma quantidade de trigo, para que não se rebelassem.
Um velho truque aos famintos.
O imperador revestiu parte do seu novo palácio em ouro, vê só.
Enfim, ninguém em sã consciência, nem mesmo meu esposo, homem do governo, está a favor do que nosso César está fazendo.
Marius e Dulcinaea se entreolharam, e Luzia continuou:
- No circo, a diversão e as mortes continuam, o povo odeia os cristãos e clama por seu sangue - e, olhando de soslaio para a filha, continuou - no entanto, nós também pensamos como eles.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:23 am

Ergueu o peito e o queixo, fixando os olhos da filha, como revanche de suas anteriores palavras.
Marius e Dulcinaea trocaram novos olhares, mas a jovem não conseguiu deixar sem resposta aquelas palavras rudes e falou, erguendo-se do triclínio com uma das mãos no ventre:
- Nunca mais repitais isso, minha mãe!
Não desejo perder o respeito que vos tenho.
Sabeis, muito bem, que os cristãos não são culpados do incêndio!
Já conversamos sobre isso muitas vezes.
Diante da posição da filha, Luzia gelou e olhou rapidamente para Marius, para ver sua reacção sobre as palavras ásperas de sua esposa.
Mas ele continuou impassível.
Então, virou-se para Veranda, desejando ali obter apoio no que acreditava e notou que ela também não discordava do que Dulcinaea havia dito.
- Bem... talvez eu esteja enganada mesmo.
Vou me retirar por alguns instantes, senhores, para combinar com Alzira nossa ceia - disse Luzia.
Mordendo-se de cólera, não sabia o que fazer.
Chegou à outra ala da casa, batendo com o pulso na mesa:
“Sente-se que essa não é minha filha!
Chamando minha atenção na frente de familiares?
Que esse ódio, que em mim passa a existir agora, tenha seu tempo para revidar.
Ela, agora, faz parte dos malévolos cristãos... - novamente bateu com a mão na mesa, e com tanta força, que se machucou.
Mas isso não ficará assim.
Alexus saberá de tudo, assim que chegar, e dará uma lição nessa pequena desaforada.
0 orgulho altivo da senhora romana fora extremamente ferido.
Luzia chegou até a ala dos escravos e ordenou ao servo Félix:
- Quero que tanto Matilde quando Rufino fiquem sem refeição hoje.
Compreendeste?
Não lhes consigas colchões nem água.
Se eu souber que falhaste, te verás comigo!
- Mas vosso genro Marius pediu-me exactamente o contrário, senhora...
- Ora, ele não precisará saber disso... a não ser - falou, colocando-lhe os olhos ávidos -, a não ser que tu, escravo, me traias!
- Não, isso não acontecerá, podeis ficar tranquila.
Tudo será feito conforme pedistes.
Voltando ao átrio onde ainda todos estavam, a senhora Luzia comentou:
- Já está acertada a ceia que faremos.
Serão aves assadas ao mel, frutas e bom vinho.
- Mas, vovó, eu não gosto de comer aves - disse-lhe o pequeno Marius.
- Mas esse será o jantar e, se não quiseres, tu, pequeno rebelde, comerás somente lentilhas, o prato dos meus escravos - redarguiu a avó.
- Mamãe, o que vos acontece? - inquiria Dulcinaea.
Está descontando no menino o que eu vos falei?
Mas Luzia retirou-se, nada respondendo.
Na realidade, Dulcinaea não sabia que Luzia não era sua mãe biológica e casara-se com seu pai logo que este enviuvara da primeira esposa, por ocasião do parto.
Alexus se aproximou da mulher que lhe estava mais próxima, pedindo-a em união e escondendo esse facto da criança.
- Dulcinaea, por que ela está assim? - perguntou-lhe Marius.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:23 am

- Mamãe é muito autoritária.
Acha que todos têm de estar de acordo com ela e seus pensamentos.
Vejo que, quando alguém não a obedece... ela é capaz até de envenenar, meu esposo.
- Deves estar brincando.
Diz-me qual o motivo de tua revolta?
- Na realidade, ela não gosta de mim, desde a mais tenra idade.
- Não digas isso, querida.
- Então, começa a prestar atenção na maneira com que ela me trata.
A esposa de Marius entrou na alcova e deitou-se no leito para descansar.
Pensou muito na reacção de sua mãe e pediu a Jesus para saber por que ela agia assim.
Adormeceu e sonhou.
Viu-se criança, próxima a um lago, com uma escrava um pouco mais velha que ela, que lhe colocava os olhos fixos de ódio.
Sabia que aquela era a filha de seu pai com uma escrava, que ele não quis assumir.
Tinham as duas quase a mesma idade, e Eudóxia, assim se chamava a menina escrava, estava ali para cuidá-la, a fim de que não entrasse na água.
Eudóxia mordia os lábios de raiva e despeito.
Ouvira sua mãe falar que aquela menina clara deveria morrer, para que o pai a assumisse.
Isso porque ela nada tinha e para a menina branca, sendo herdeira de todos os bens da família, nada faltava, inclusive o pai.
Agora, a menina branca estava no lago, com dez anos, e sempre oferecia sua boneca para Eudóxia brincar.
- Apanha esta boneca que ganhei da mamãe, Eudóxia.
Olha como é linda e que belo vestido tem.
Podes brincar com ela, mas vê, se as outras tu perdeste, esta terás que cuidar.
A negrinha sentou-se ao seu lado e, olhando-a com olhos ardilosos, levantou-se rapidamente para atirar, bem distante, a boneca no lago, dizendo:
- Vai pegá-la, Angelina, vai pegá-la.
Olha, tua boneca vai se afogar.
Sem saber o que fazer, vendo a boneca afundar, Angelina entrou no lago e começou a engolir água, afogando-se.
Dulcinaea, muito assustada, gritou por socorro, com leve taquicardia. Sentia-se sufocar.
Nesse momento, sentou-se ao leito.
Por que tivera aquele sonho e o que tinha a ver com sua mãe?
Via, nos olhos da escrava, os mesmos de Luzia, quando, há pouco, a corrigira.
Agora, como sua madrasta, Luzia viera para resgatar o que havia feito, cuidando da criança desde os mais tenros anos de vida.
A esposa de Marius começou a pensar em Jesus e nas lições que estava recebendo de seu instrutor actual:
“Reconcilia-te mais do que depressa com o teu agressor, enquanto ele caminha contigo para o tribunal.
Senão o adversário te entrega ao juiz, o juiz ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão, e de lá não sairás enquanto não pagares até o último ceitil...”
(Mateus, 5:25,26)
“Sim - pensou ela -, eu pedirei perdão à minha mãe.
Sou ou não uma cristã?
Seja quem tiver razão, eu vou "exemplificar a humildade que o Cristo nos ensinou.”
- Querida esposa, te ouvi gritar, o que aconteceu? - disse Marius, chegando rapidamente.
- Tive um sonho terrível.
Era criança e me via entrar no lago para apanhar minha boneca...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:23 am

Tive a sensação de afogamento e, em minha mente, vi minha mãe com um sorriso maldoso.
- Isso foi um pesadelo, querida, por teres comido muitas uvas.
- Não, Marius.
Vivi aquele momento como se fosse real.
- Mas por que tua mãe faria uma coisa dessas contigo?
- Não sei, meu amor, no entanto, eu sei que, desde pequena, sinto a distância de minha mãe, que me deixou desde bebé aos cuidados de minha ama e jamais me abençoou com o leite de seu seio.
Enquanto meu pai...
Sei que ele me ama muito.
- Nunca me contaste isso, querida.
Ouviu-se um ruído de cavalos na frente da casa, e, logo, a porta abriu-se, e uma voz grave se fez ouvir.
- Ouve, é a voz de papai.
Ele chegou. Vou levantar.
- Onde está a minha pequena flor? Onde? - ouvia-se desde o átrio.
- Papai! - correu Dulcinaea, lançando-se em seus braços.
- Minha filhinha, hum... que gordinha estás...
Senti tua falta, querida.
- Mas vós estais sempre em meu coração, papai.
Vistes o pequeno Marius, como já cresceu?
- Grandinho e muito esperto.
Não faz um minuto que veio me perguntar algumas coisas.
Quis saber se as frotas romanas, em Óstia, haviam aportado com grande carga.
E o que mais me deixou indignado:
perguntou-me a quantidade de vinho que chegara às embarcações, e se o vinho era melhor que o dele.
- E o que respondestes, meu pai?
- O que vi e o que sabia.
Que vieram animais ferozes para o circo, cavalos árabes, ouro, marfim, escravos da África, sedas da rota chinesa, os perfumes da Arábia e... cansei.
Ele me perguntou novamente “mas e o vinho?”
E eu, para terminar com a conversa, concluí:
Não há vinho melhor do que o teu.
Todos riram.
- Vamos cear?
Cheguei com muita fome.
Depois me contas quando nascerá esse rebento.
- Sim, meu pai - respondeu Dulcinaea, abraçando ainda a cintura daquele a quem tanto amava.
Depois da ceia, Dulcinaea aproximou-se e falou-lhe sussurrando:
- Posso vos falar em particular, meu pai?
- Sim, querida.
- Vinde ao jardim.
A noite está linda.
Ambos saíram para o jardim, iluminado pelo luar.
A filha de Luzia sentia o perfume das flores das trepadeiras, e isso lhe embalsamava a alma preocupada.
- O que tens, minha filha?
O que preocupa tanto essa linda cabecinha?
Vem. Senta-te aqui comigo - continuou, abraçando-a.
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