SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:23 am

Nós podemos ficar à vontade neste jardim, olhando as estrelas distantes enquanto a paz ensaia-se.
Ouve os ruídos dos grilos... e aqui podemos ver os vaga-lumes desejando ostentar sua própria luz.
Ouve... apesar dos gritinhos ao longe de algumas crianças que não desejam dormir, também podemos ouvir suas mães nervosas e alteradas.
Mas isso já passará.
Então, Roma adormecerá com uma falsa paz, porque, em nossas cabeças, muitas preocupações nos assolam.
Alexus suspirou.
Via-se estar preocupado e, como se tivesse falando para si mesmo, complementou:
- Roma, Roma... o que está sendo feito de ti?
Dulcinaea viu que ele desejava desabafar e nada respondeu.
E seu pai prosseguiu:
- Muitos de nós, os que são chamados de homens da lei, não estamos satisfeitos com essa Roma de hoje.
E tememos. Tens ideia dos valores que estão sendo despendidos com todas as novas construções, desde o incêndio para cá, minha filha?
Cá entre nós, sabemos que os cristãos, que mal não fazem, não poderiam ter incendiado Roma.
Mas não temos provas se foi aquele de quem desconfiamos.
- Nero - confirmou sua filha.
- Já sabes?
- Todos pensam assim.
E o que vos levou a pensar dessa forma, meu pai?
Conheceis o Cristianismo?
- Não. Mas carnificina de mulheres e inocentes crianças de todas as idades, e até com a idade do nosso jovem Marius, isso é repugnante!
- Eu sei, conheço-vos, meu pai.
Sei que vós não estais a favor dessa estupidez.
Alexus abraçou mais a filha, apertando-a ao coração, e disse-lhe, apontando para a lua que iluminava as colinas:
- Minha filha, eu sei que não podemos nos ver seguidamente, mas deves saber que a amo muito e, se eu me for deste mundo, de uma forma ou de outra eu cuidarei de ti.
Olha que céu imenso e cheio de estrelas.
Eu estarei lá em cima, olhando por ti.
- Sei disso, meu pai.
O nosso amor perdurará para sempre.
Sinto isso dentro de mim.
Mas espero que não faleis mais nessas bobagens...
Ninguém vai morrer por hora.
Em breve, estareis brincando com esse bebé que vai nascer, vosso novo neto ou netinha.
- Por certo o verei nascer.
- E, se for menino, juro-vos, que levará o nome de quem tanto quero bem.
- O meu?
- Sim, meu pai.
- E, se for menina, o de tua mãe?
Dulcinaea calou-se.
- Sim, filha, eu compreendo.
Tua mãe continua a mesma para ti.
- Deixai-a, papai, um dia acertaremos nossa vida.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:24 am

- Mas o que desejavas me dizer, filha?
Pediste para conversar comigo, e eu não te deixei falar.
- Quase respondestes a todas as minhas indagações.
E, fazendo uma pausa, comentou um pouco receosa:
- Eu sou cristã, meu pai.
Alexus levantou-se surpreso e olhou para ela.
- Então? Desprezarás tua filha, meu pai? - continuou.
- Oh, minha querida...
Jamais te desprezarei... - disse, sentando-se novamente.
Se escolheste esse caminho é porque é um bom caminho.
Mas agora estou mais temeroso, porque jamais Roma dependurou tantos na cruz, alimentou tantos animais e massacrou, de outras formas, pessoas inocentes.
Mas eu confio em ti, no entanto, por favor, tem cuidado.
Nero não vai atrás de cristãos romanos nesse momento, ainda mais nobres como nós, mas não saberemos o que aquela mente doentia poderá fazer no amanhã.
E repetiu:
- Tem cuidado.
- Jesus nos mostrou um caminho de glória e de paz, que precisamos construir, modificando o que está em nossas raízes.
Não podemos mais matar, nem injuriar ou julgar alguém, porque o amor deverá se estender ao ser que caminha connosco.
Precisamos amar o próximo como se fosse a nós mesmos.
- Mas isso, penso eu, é impossível, minha filha.
Quanto tempo necessitará alguém para se transformar dessa maneira?
- Os nossos instrutores nos dizem que a reforma não será de um dia para outro, mas necessita de nosso esforço para que se retire, aos poucos, as negatividades que ainda alimentamos, já que estamos seguindo o Mestre.
Sei que poderemos melhorar.
Há outra coisa a vos dizer, meu pai:
se todos morrermos no circo, o Cristianismo desaparecerá, mas, como isso não vai acontecer, este é o momento para não vos preocupardes comigo.
- Podes pensar assim, mas, filha, para o ser humano largar as armas que matam levará séculos.
No entanto, se o que vou dizer te fizer feliz, querida, digo-te que desejo também conhecer o que esse Jesus te ensinou, porque és uma boa pessoa.
Só não entendo por que Ele deixa os que O amam serem mortos dessa maneira!
- Os que Nele acreditam, meu pai, não fazem revolta, só plantam a paz.
Dito isso, não revidam, aceitam o sacrifício por saberem que estarão em Seu reino, assim que fecharem seus olhos.
- Mas não serão os cristãos... rebeldes?
Eles estão agindo contra nossa Roma, minha filha!
Não serão eles fanáticos?
- Não somos fanáticos, somente fazemos a vontade de Jesus.
Procuramos amar, compreendendo o inimigo como nosso irmão de caminhada.
Usamos o “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” como Ele nos ensinou.
Eu também já penso assim e assim meu esposo, como também todos os meus filhos pensarão um dia.
Desejamos que eles cresçam com a fé que temos e assim passem a seus filhos, e seus filhos, aos filhos deles.
Com o decorrer dos dias, quanto mais conhecemos sobre Jesus, mais procura-mos compreender as pessoas, mais procuramos auxiliá-las a abrir os olhos para o amor e o perdão.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:24 am

A evolução de nossa alma é nosso objectivo, e, se não fizermos assim, se assim não agirmos, o Cristianismo se perderá.
Contudo, eu sei que, mesmo com a morte de tantos, jamais Jesus será esquecido.
- Tens razão.
Essa corrente de amor, passada de uns para outros, levará Jesus a toda parte.
Mas... minha filha, não tens medo da morte?
- Quando amamos tanto, nada tememos, contudo, meu pai - disse-lhe, aproximando-se mais, fixando-lhe o olhar e apanhando-lhe as fortes mãos se algo nos acontecer, prometei-me que ensinareis a meus filhos sobre o Cristianismo.
Alexus, sorrindo ternamente, abraçou a filha novamente e, com a luz do luar a banhar-lhe o rosto, respondeu, demonstrando a ela todo o amor que lhe tinha:
- Podes contar comigo.
Agora, vamos entrar que está ficando frio.
- Desejo falar convosco a sós, minha mãe - Dulcinaea pediu à sua mãe, respeitosamente, antes de dormir.
Os servos saíram, e Dulcinaea continuou:
- Vamos permanecer na cidade por cinco dias somente e logo iremos visitar Saturnina em Herculano.
- E que tenho eu com isso?
- Quero colher de minha mãe todo o momento de ventura a seu lado, mas antes pedir-vos perdão.
- Ah... Então reconheces e te rebaixas, pedindo-me perdão, não é?
- Aprendi, minha mãe, que quem se humilha será elevado, mas também que o perdão faz bem para aquele que sabe perdoar.
- Ora... Bobagens.
Eu não me rebaixaria a pedir perdão.
Nós somos da nobreza romana e pensei ter te ensinado a ter um pouco mais de orgulho...
Mas já que tocas nesse assunto, ainda bem que voltas atrás e vês que erraste.
Deves ter te dado conta de que são absurdos esses ideais nazarenos.
- Não, mamãe.
Sempre pensarei igual, mas não devo contestar a vossa maneira de pensar.
- Então, a que vieste, se não voltas atrás?
Deixa, um dia verás que eu tenho razão.
- Desejaria dar-vos um fraternal abraço...
Mas vejo que...
- Isso mesmo, eu estou magoada contigo.
Não desejo receber esse teu “abraço”.
Dulcinaea sorriu, vendo-a atravessar a passagem para o jardim, e concluiu em voz baixa:
“Eu vos amo, minha mãe, e, certamente, um dia, também começareis a me amar.
Já não há necessidade de vos perdoar, pois hoje começo a vos compreender.”
Matilde nada comentara com seus patrões sobre o que estava passando na casa dos pais de sua senhora, todavia, sem comer, desmaiou na tarde seguinte.
De natureza frágil, não resistira.
Assustado, Marius perguntou a Rufino por que ela tivera o desmaio, e ele teve que dizer:
- Nada devo comentar, meu senhor.
0 genro de Luzia foi até a ala dos escravos e indagou a Félix:
- Félix, eu não te pedi que cuidasse bem dos meus servos?
- Sim... - respondeu Félix, cabisbaixo.
- Matilde, além de muito pálida, desmaiou há poucos minutos.
Ela se alimentou bem?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:24 am

- Não posso trair a confiança da senhora Luzia.
Não recebendo a resposta, Marius procurou uma escrava que ali cuidava dos lençóis:
- Enéia, Matilde, minha serva, desmaiou.
Sabes alguma coisa sobre isso?
- Senhor, ela nada recebeu para comer no jantar de ontem e no almoço de hoje, assim como seu esposo.
Estranhei isso, mas penso que foi ordem da senhora Luzia.
Além do mais, eles não receberam cobertas para dormir, devem ter se deitado neste chão frio.
- Sabes, Enéia?
Tenho até pena de quem fez isso à pobre Matilde e seu esposo.
- Matilde e o esposo comentaram alguma coisa? - perguntou-lhe a serva.
- Eles jamais se queixariam. São cristãos.
- O que desejais dizer com isso, senhor?
- Que o cristão não se rebela, aceita os males sem ódio, sem revolta.
Mas deixa estar, nossos servos, connosco, terão o tratamento que merecem.
- Gostaria de ser tratada dessa forma aqui.
Sei que nada deveria vos dizer, mas somos escorraçados como animais pela senhora da casa.
- Não revides, aceita.
Soubemos que Paulo, o apóstolo, escreveu aos colossenses:
“Escravos, obedecei em tudo aos vossos senhores aqui da Terra, não servindo apenas diante dos olhos, como quem procura agradar aos homens; que o servo sirva bem a seus patrões com a simplicidade de seu coração, como se fosse a mim que o fizesse, sabendo que o Senhor vos recompensará no Céu”.
Por isso, Enéia, se fosses cristã, aceitarias, com alegria, a vida que tens.
Enéia ficou pensativa, e Félix, que tudo ouvia, imaginou como deveria ser agradável ter patrões assim como Marius.
Marius ensinava, mas estava contrariado com sua sogra; não aceitara as ordens dadas por Luzia contra seus servos, porém não poderia causar nenhum problema ali, sabendo também do pensamento cristão de Dulcinaea, que ela fazia questão de praticar, e ainda mais na presença do amável sogro.
Então, na hora da ceia, pediu a Alexus:
- Senhor, penso que amanhã deveremos partir a Herculano.
- Mas logo agora que eu cheguei?
- Tenho receios. Receio por minha esposa e o bebé, e não desejo que a criança nasça no caminho, por adiarmos a viagem.
- Peço-te um dia ou dois somente.
Preciso desse tempo para ficar com minha filha e neto, meu estimado genro.
Quem sabe o dia de amanhã, o que nos acontecerá, não é?
Depois, eu a vejo tão bem, tão saudável, que penso que a criança está feliz assim como está, aconchegadinha no ventre materno.
Não vai desejar causar transtorno em viagem, para uma mãezinha tão terna.
Todos riram.
- Está bem, ficaremos mais dois dias.
- E quanto a Matilde, o que ela teve? - indagou o alegre anfitrião.
- A síncope de Matilde foi falta de alimentação - respondeu-lhe Marius, fixando-se nos olhos de Luzia.
Luzia gelou.
Quando seu olhar se chocou com o do genro, notara que ele descobrira tudo.
- Mas, continuando - falou Marius -, eu penso que ela não devia estar com apetite, portanto, depois da ceia, eu mesmo irei tomar conta de meus servos, dando-lhes um bom colchão e levando a eles as sobras desta ceia, com vossa licença.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:24 am

- Ora, meu genro, eu sei que tens toda a razão por querer tão bem a essas duas jóias.
Fica à vontade e faze o que lhe aprouver.
Matilde e Rufino se sentirão mais fortes somando a essa ceia um bom prato de lentilhas.
Marius levantou-se e, olhando seriamente para Luzia, saiu de cabeça erguida, levando a sobra do javali e das frutas para seus fiéis amigos servos.
A mulher de Alexus aguardou Marius voltar.
Ficou pálida e sem graça, mas, em seu interior, desejava uma revanche com Félix.
Desta forma, mais tarde, dirigiu-se até ele, no jardim, e o inquiriu:
- Félix, mau servo, diz-me: o que se faz com um traidor?
- O que desejais dizer com isso, senhora?
Quem vos traiu?
- Não te faças de inocente. Responde!
Tremendo, porque já conhecia a maldade daquela mulher amarga, o escravo, humildemente, respondeu:
- Todo traidor deve ser açoitado.
Mas quero vos dizer, senhora, que eu nada contei ao senhor Marius.
- Ah é? E como sabes que foi isso que eu vim te perguntar neste momento?
Como foi, então, que Marius descobriu?
Só tu estavas aqui, escravo infiel, mais ninguém!
- Sim, eu sei.
Mas outros escravos viram o que mandastes fazer, senhora.
Notaram que os servos não cearam e também que não tinham onde se deitar.
- Devo bater em todos com o chicote?
- Não - respondeu Félix, cabisbaixo.
- Então, é sinal que devo bater só em ti?
0 homem baixou a cabeça.
Revoltado, mas contendo-se, mordia os lábios.
Sabia a maldade daquela mulher que, para o esposo, fingia ser outra pessoa.
Então, respondeu:
- Sim.
- Ariano! Traz-me o chicote, mas antes prende fortemente este escravo ao tronco.
Eu mesma quero bater nele.
Assim, Luzia, enquanto todos comemoravam a chegada do pai de Dulcinaea, despejou, sem consciência, todo o seu ódio contido em Félix, aquele antigo esposo, que a humilhara em encarnações anteriores, traindo-a e machucando-a nos seus mais secretos desejos, fazendo-a muito sofrer, e a quem Luzia deveria perdoar para que ele aprendesse a lei de amor.
A lei de acção e reacção estava ali, reparando os erros do passado para Félix, mas traçando, para a senhora da casa, novos débitos.
Dois dias depois, todos os visitantes estavam preparados para a viagem de volta.
Dulcinaea abraçava seu pai, referindo-se ao grande amor que lhe tinha. Luzia afastou-se, propositadamente, para o jardim.
Como ninguém a encontrou, eles partiram sem se despedir dela.
Todos assentados, Rufino começou a dirigir o meio de transporte para o sítio, no que Veranda obtemperou:
- Eu não desejaria voltar para o sítio antes de saber de Saturnina, Marius, meu filho.
Logo Marius ordenou ao servo:
- Rufino, volta a carroça e rumemos para Herculano.
Alexus soube, através de um recado, que deveria comparecer ao palácio de Nero a fim de receber algumas ordens imperiais.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:24 am

Quando percebeu que seu trabalho seria uma perseguição aos cristãos que fugiam de Roma para não serem sacrificados, entrou em desespero e voltou para casa para ter com sua esposa:
- Luzia, eu não sei o que fazer!
Essa nova ordem que eu recebi deixou-me totalmente alterado.
O que será de nossa filha que tanto amamos se eu agir como preciso?
E de meu genro?
Perseguir cristãos... isso não posso fazer.
Sabes que os homens que têm escravos cristãos, e sabem disso, procuram escondê-los para não perderem as melhores peças em matéria de trabalho?
Perseguir minha família ou domina Saturnina, com seus fiéis servos, seria morrer com eles.
Não. Jamais poderei fazer uma coisa dessas.
Nero nos deu ordens de fecharmos todas as vias para as cidades vizinhas.
Prepara-se para mais uma matança no circo.
- Ora, esposo, quem mandou ela se meter nessa coisa de loucos?
Será que pensou um pouco nisso antes?
Como podes ser tão insensível, mulher?
É de nossa filha que estamos falando!
- Nossa? - respondeu com animosidade.
Pois não vou mais vos dar ideias.
Odeio essa seita cristã que polui nossa Roma, desejando destruir todos os nossos deuses.
Também não aguento a falsa ideia de humildade a que se mantém.
Com breve sorriso nos lábios, aceitam injúrias e acusações sem se manifestarem, mas devem ter o interior repleto de ódio.
E quanto a nós, romanos, como aceitar a serventia com igualdade e seus absurdos rompantes de satisfação, que, sei, devem ser pura hipocrisia?
Onde está o nosso orgulho?
Desejaríeis que nossos escravos se sentassem connosco à mesa?
Desejaríeis que todo escravo fosse igual ao seu senhor?
Estes são ideais estúpidos!
Somos grandes conquistadores, meu marido, e fazeis parte do orgulho romano! - apontou, fechando os olhos e erguendo bem a cabeça com a boca hirta.
Se desejais mesmo um conselho, eu vos dou:
largai nossa filha e genro!
Se não desejais persegui-los, deixai-os que sejam salvos por esse Jesus, que dizem ser o salvador de todas as almas.
E falais em Saturnina, vossa paixão de juventude?
Pois eu desejo que ela morra entre os leões!
Luzia foi deixando o ambiente, incomodada, mas Alexus ainda conseguiu dizer a ela:
- Não tens coração.
Não vou admitir que fales nada mais de minha filha e genro.
Estou a ponto de me separar de ti.
- Bem... - elucidou Luzia, voltando-se e tentando acalmar-se.
Eu vos digo isso, mas jamais comentarei com alguém mais, que eles, minha própria filha e genro, traem os princípios religiosos de nossa amada Roma.
Aquietai-vos, portanto.
Sem responder mais nada, enojado que estava em assistir aquela mulher dirigir-se daquela forma à jovem que criara desde os primeiros momentos de vida, Dulcinaea, Alexus apanhou o cavalo e partiu com alguns soldados, depois iria a Herculano, sem lhes dizer qual a missão que teriam lá e, quando eles lhe perguntaram, somente obtemperou:
- Visitarei minha filha, que está parindo meu outro neto.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:24 am

Avisaria Domina Saturnina, Dulcinaea e o esposo para que não deixassem aquela casa por alguns meses.
Alexus só chegou dias depois a Herculano.
Marconde, o servo de Saturnina, ainda teve tempo de apresentá-lo a Demétrius, que visitava com Tília aquela localidade, mas Alexus, preocupado com o compromisso em salvar sua filha, não fez questão de conversar com ele e foi directo à entrada da residência de Saturnina, onde, anos atrás, estivera.
Com surpresa, Saturnina o recebeu e aos soldados, mesmo um pouco temerosa, mas, como havia conversado com Dulcinaea sobre seu pai, descansou.
- Ave, domina - cumprimentou-a, trazendo ainda no coração o doce enlevo da lembrança do passado.
- Ave, nobre romano.
Com prazer vos recebo nesta casa.
Alexus adentrou no átrio, e ela lhe perguntou:
- Em que posso vos ser útil? - falou, ainda sentindo o mesmo carinho de antigamente, mas mantendo a distância que lhe cabia ali.
- Com vossa permissão, eu necessito ver minha filha.
- Sim, um momento.
Podeis aguardar sentando-vos aqui no átrio.
Ester logo vos trará algo para beber, pois deveis estar com sede.
- Muita sede - respondeu ele, inseguro ao vê-la.
Deixando os soldados à vontade no jardim interno, com refrescante bebida, Saturnina encaminhou-se a Marconde, que ali estava, pedindo-lhe que avisasse a esposa de Marius da presença de seu genitor.
Enquanto o servo movimentava-se para isso, a viúva de Crimércio convidou Alexus para que a acompanhasse ao grande jardim, frente ao mar, onde havia bela vista, receando notícias mais sérias sobre o Cristianismo em Roma.
- Por favor, sentai-vos, senhor.
Deveis estar cansado.
Sugiro que relaxeis um pouco, enquanto vossa filha não chega.
- Senhora, perdoai-me, porque vou precisar falar a sós com ela; essa é uma questão irrevogável.
Não que vossa companhia não me seja agradável...
- Sinto-vos apreensivo, caro Alexus.
Sairei assim que ela chegar.
Dizei-me, como está a vossa gentil senhora?
Dulcinaea falou-me que, dias atrás, ela não passou bem.
- Luzia sofre dos nervos.
Infelizmente, está sempre de mau humor.
Já procurei por doutores, que nada conseguiram resolver.
Esteve até nas proximidades de Roma, banhando-se em uma fonte, aonde os imperadores vão para receber mais ânimo, mais energia e melhorarem seus problemas de tensão e tristeza.
Mas, nela, parece-me que nada faz efeito.
E, mudando a conversa, inquiriu-a:
- Minha filha está bem?
A criança ainda não nasceu?
- Ela está descansando, porque, talvez, o bebé venha ainda esta semana.
Mas tranquilizai-vos.
Ela está feliz aqui. Está óptima.
- E vós... ainda tão bela...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:25 am

Alexus deu-se conta do que falara.
Queria ter calado, mas cada vez que a via lembrava do amor que, um dia, tivera por aquela mulher, um amor que nunca se apagara.
Então, ergueu-se e começou a caminhar de um lado para outro.
Saturnina, muito séria, fez-lhe a pergunta desejada:
- Vejo-vos preocupado.
Como estão as perseguições, nobre Alexus?
Ele olhou-a franzindo o cenho e nada respondeu.
Fitava-a com extrema ternura, no entanto, não escondia o temor, a angústia.
Saturnina, notando que sua filha chegava, alertou-o:
- Ei-la que chega; e com Ester, o vosso refresco.
Deixo-vos, com vossa permissão.
Saindo do jardim, a matrona pediu para que ninguém se aproximasse dali, a fim de que pai e filha ficassem à vontade.
- Papai, o que vos traz aqui?
Estou preocupada, é sobre mamãe?
- Tua mãe está bem.
Venho por outro motivo, filha - falou, colocando as mãos sobre seus ombros -, venho implorar-te que abandones o Cristianismo.
- Por que faria isso?
Nunca deixarei o Cristianismo.
- Porque eu sou obrigado a entregar a Nero os cristãos fugitivos de Roma.
Dulcinaea, com o coração aos pulos, pediu para chamar seu esposo e colocou-o ciente desse fato.
- Faze como achares melhor, esposa.
Não vamos morrer, confio em nossa vida futura.
Contudo, teu pai sabe como agir.
Ele fará o que seu coração mandar.
- Não gosto de tomar certas atitudes, no entanto, não posso passar por cima de uma ordem do imperador.
Estou vendo que não renunciarás a essa seita, não é, Dulcinaea? - discorreu Alexus, sentindo a posição da filha.
- Papai, esse será o caminho para que o mundo melhore.
Nós temos que ter forças para vencermos essas dificuldades.
Já imaginastes um mundo de paz, sem o medo a assolar as portas dos mais fracos?
- Ora, filha minha, não sonhes com aquilo que jamais acontecerá.
Paz? Ora! Sinta como estou angustiado.
Vim assim que pude.
Renuncia, minha querida.
- Sim, um mundo de paz - continuou a falar, com uma cópia do evangelho de Marcos nas mãos, como se não tivesse ouvido o que o pai lhe respondeu.
Com Jesus, nós aprendemos tudo isso, meu pai.
Não será um sonho, mas uma realidade!
Temos de compreender as pessoas, não odiar o inimigo, perdoar sempre, todavia o mais importante para que tudo isso se concretize é olharmos para dentro de nós e verificarmos o que devemos mudar, a fim de seguirmos os passos do Mestre.
Ele nos deu Seu exemplo.
Jamais odiou a ninguém, jamais se lastimou, mas compreendeu o povo rebelde e chorou por ele, em Sua hora suprema, e mesmo assim o crucificaram.
Se não formos nós a fortaleza, o Cristianismo será derrotado e esquecido, como esses deuses romanos já estão sendo.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:25 am

- Achas que os deuses pagãos estão sendo...?
- Sim, papai, os deuses pagãos já estão sendo analisados melhor pelo povo consciente de Roma.
Porque todos desejam viver tranquilos, ter filhos saudáveis que não precisarão guerrear, todos desejam a felicidade.
O próprio Jesus disse que, um dia, todos se unirão com a mesma crença.
- Está bem - falou resignado -, se assim o desejas, mas não tenho cabeça para deglutir o que me falas neste momento, porque estou ansioso.
Já que não queres deixar essa seita do Nazareno, peço-te que fiques aqui em Herculano por alguns meses, filha querida, porque, se voltares ao sítio logo, não sei o que poderá te acontecer.
Para todos os efeitos, vieste aqui para ter a criança que geraste.
- Pensávamos em partir ainda esta semana, mas agora... bem, agora faremos vossa vontade, meu sogro.
Ficaremos aqui - afirmou Marius, conformado.
- Óptimo. Assim ficarei descansado.
Logo que nascer a criança, nos veremos. Até breve.
- Obrigada, papai. Salvaste-nos a vida.
Trazei minha mãe na próxima vez, para ver nosso bebé.
Alexus caminhou até a entrada da casa e viu Saturnina, que conversava com Lucas, seu filho.
- Senhora, estou me retirando.
Tive imenso prazer em vos rever.
- Ave, senhor; eu vos levarei até a porta.
E, lembrando-se do que ela lhe perguntara no jardim, comentou:
- Domina, não deveis vos preocupar com a nova perseguição que está acontecendo... Se...
- Está ainda acontecendo? - olhou-o assustada.
Então, eu estava certa.
Viemos para cá seguindo minha intuição.
Mas... quando isso vai parar?
- Se permanecerdes nesta casa durante algum tempo, talvez não haja problemas.
Cuidareis de minha filha?
- Sim, não vos preocupeis.
E Marconde irá pessoalmente avisar-vos quando o bebé nascer.
Alexus apanhou as mãos de Saturnina, beijando-as, e, olhando-a fixamente nos olhos, concluiu:
- Senhora, que os bons ventos vos abracem com ternura, que o perfume das flores acalente vossas noites sem sono, que a luz solar vos aqueça o coração e que...
Ia dizer “que sabeis que há pessoas que por vós suplicaram, um dia”, mas resolveu calar.
Saturnina franziu o cenho, não entendendo, no princípio, o que ele quis lhe dizer, pois não terminara a frase e, assim, nada pôde responder, pois Alexus tinha batido com o braço direito no peito, fazendo-lhe aquele nobre cumprimento e já saindo pelo portão, levando seus soldados com ele.
Apesar da preocupação pelas novas perseguições, internamente a viúva de Crimércio sorria serenamente.
Ela também ainda o amava em silêncio.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 11:25 am

20 Uma nova família
Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.

(Pedro 4:10)

PASSARAM-SE OS DIAS.
0 pequeno Lucas, no jardim interno de Herculano, brincava com Ester.
- Ester, minha mãe está me ensinando muitas coisas sobre como tratar as servas como vós.
Quer que eu fale convosco com bons tratos.
Diz que todos somos irmãos.
A serva sorriu.
- Isso é bom, fico contente com isso, porque, mesmo sendo criança, não és como os outros meninos, filhos de senhores abastados deste lugar, que tratam os escravos como animais.
- Os meninos brincam livres, por que não posso ter a vida como os outros que vivem nas ruas?
- Ainda é cedo para que brinques nas ruas com outras crianças, espera mais um pouco.
Em breve, serás um homenzinho.
- Depois que Raquel e Silvina voltaram para cá, livres, esse lugar ficou melhor.
Raquel achou que ia voltar a ser escrava, mas Romério chegou feliz, mostrando a ela seu documento de liberdade.
O que significa a liberdade para uma pessoa aprisionada?
- A liberdade é a vida.
Ninguém oprimido se sente feliz, meu menino.
Mas não só os escravos são os que perdem a liberdade.
Às vezes, as matronas no lar sentem-se mais oprimidas que seus próprios escravos.
- Ora, por quê?
- Porque as mulheres, com excepção de algumas, nada podem ser, a não ser mães e esposas.
E seus esposos, sabendo disso, maltratam-nas... - olhava para o infinito lembrando alguma coisa, mas se dando conta, rematou.
Mas isso não é conversa para meninos, perdoa-me.
Nesse momento, lembrou-se do amor que teve por Horácio e não pôde tê-lo como esposo.
Lembrou-se também de sua alegria interior ao saber que ele também a amou.
Como poderiam ter sido felizes os dois...
Seria eternamente fiel a ele e respeitaria, no silêncio, esse seu voto.
Sentiu, no momento, como uma leve carícia em seus cabelos e lembrou-se da promessa de Horácio, de que jamais a deixaria só.
Em seu interior, o silêncio se fez para poder escutar os pensamentos do homem amado, que lhe sussurravam amor e alegria a seu coração.
Lucas acordou-a.
- Perdão, meu menino, eu estava divagando.
- Não é necessário pedir perdão, Ester.
Mamãe fala que, quando não nos sentimos magoados, isso não é necessário, e que precisamos ser mais humildes e aceitar as pessoas como são.
Mas... Ester, conta para mim, por que ficaste triste de repente?
- Olha, jovenzinho, talvez algum dia conte para ti a verdadeira história de minha vida.
Por hoje, digo-te que já não tenho minha família, mas vós sois os meus familiares, além do mais, estou desde meus dezanove anos na casa de tua mãe e, apesar da liberdade que ela me deu, morreria longe de ti e dela.
Lucas abraçou-a e a beijou.
- Mas por que não casas também? -inquiriu, sorrindo.
- Não casarei jamais, querido.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:16 am

E, mudando o assunto, declarou:
- Que lindo esse teu carinho por mim.
- Nesta casa, estão acontecendo muitas coisas, não é, Ester?
E o senhor Demétrius esteve aqui implorando para que Tília se casasse com ele - rematou, desejando agradá-la.
- É verdade, meu rapazinho.
- Me disseram que as crianças romanas que nascem com defeitos são afogadas pelos pais, é verdade?
- Sim, se nascerem aleijadas ou com grandes problemas de saúde são mortas; esse é um legado dos gregos para os romanos.
Mas por que me pergunta isso, Lucas?
- E se o bebé de Tília nascer aleijado?
- Bem... o senhor Demétrius talvez...
O pequeno Lucas franziu a testa e não deixou que Ester terminasse o que ia dizer.
- Não quero saber, Ester.
A serva quis alegrá-lo e comentou:
- Mas ele vai nascer muito são, vais ver.
Amanhã, Romério casa-se aqui e parte com Raquel para a Judeia.
Silvina, que só chorava para não deixar Raquel, não quis ir.
Arrumou um namorado e está apaixonada.
Raquel está muito feliz por voltar a ver seus familiares...
Romério é um bom homem.
- Mas ninguém sabe que ele levará uma escrava.
- Ela não é mais escrava, Lucas.
- Mamãe falou para a gente não mentir.
Romério mentiu para o senhor Demétrius.
A mentira, um dia, aparecerá, sempre aparece, minha mãe disse...
E se o senhor Demétrius descobrir que elas não estavam com a peste?
- Mas, meu pequeno, Romério Drusco agiu correctamente.
Comprou as duas mulheres para que não fossem maltratadas.
- Esperto ele, não?
- Vamos voltar para casa, meu rapazinho?
Está frio aqui...
- Ainda brinco com Marius, mas quero brincar com alguém maior que ele.
Não consegues um amiguinho para mim, Ester?
- Faz uma prece, que Deus te ouvirá
- Então, vou rezar para que apareça aqui uma criança do meu tamanho.
- Entremos, meu menino.
Vou também pedir a Deus isso para ti, mas agora Dulcinaea está para ganhar a criança de uma hora para outra.
Seu pai me recomendou tanto que cuidássemos dela...
Por esse diálogo, podemos perceber a educação moral que o jovem romano estava recebendo.
Depois dos festejos do casamento de Romério e Raquel, de ver a alegria da noiva em voltar livre para a Judeia e rever sua família, Veranda voltou a Roma, pois Petrullio e o filho Murilo retornariam em breve, deixando, em Herculano, Marius e a esposa.
Em novo encontro de Saturnina e seus amigos com os instrutores de Herculano, Citúrio revelou:
- Uma família morreu por Jesus em Roma, mas seus filhos, ainda crianças, vieram para cá com um tio, que também pereceu, e permanecem logo ali, perto da ponte de um riacho, abandonadas, aguardando uma mãe espiritual para eles - olhou fixo para Saturnina, prosseguindo:
- Aprendamos a amar o próximo, que a lei é de retorno.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:16 am

Muito obteremos, no momento em que mais precisarmos, se assim o fizermos.
Depois de abraçar o benfeitor da palestra, quando todos começaram a sair, Saturnina falou a seus acompanhantes:
- Tenho receio de que as crianças das quais ele falou, nesta noite não estejam agasalhadas.
Vamos procurá-las.
Perguntaram ao instrutor onde elas estariam e saíram por uma hora, com o lume nas mãos, para encontrá-los, mas nada conseguiram na escuridão nocturna, e Saturnina considerou:
- Amigos, amanhã bem cedo, voltaremos aqui para apanhar as crianças.
Agora será bom repousarmos.
Já o frio de outono começava a castigar, mas o dia seguinte amanheceu claro e radiante.
Além do perfume das flores do jardim e dos ciprestes, uma brisa veio do mar, como a assinalar a nova era que um dia chegaria, repleta de alegrias.
Saturnina, ao admirar a natureza, agradeceu a Deus a bênção de viver.
Vestiu-se humildemente e foi ver Lucas na cama.
Depois, desceu as escadas para conversar com Ester.
- Minha amiga, há necessidade de que saiamos juntas para apanhar as crianças.
Penso, porém, que tu e Marconde poderão tomar conta de tudo aqui e de Lucas, logo que ele acordar.
- Não vos deixarei ir só, senhora, onde sei que desejais ir.
Aquele lugar está repleto de ladrões.
Deixemos Ester e vamos nós atrás dos pequenos órfãos - advertiu-a o amável servidor.
- Está bem, mas Dulcinaea necessita de mim também, por isso não percamos tempo.
O bebé nascerá a qualquer hora.
E o nobre Marius, Marconde?
- Ainda não saiu do quarto, senhora, mas lamentou não ter ido connosco ontem à noite, por ter de ficar alerta ao lado da esposa.
Enquanto caminhavam, com alguns cobertores nas mãos, Saturnina orava a Jesus, temendo que aquelas crianças pudessem não estar bem.
Deveria tê-las procurado por mais tempo na noite anterior.
Após colherem informações, enfim chegaram à “toca” onde as crianças se escondiam, debaixo de uma ponte.
Saturnina ergueu o cobertor, usado como porta, adentrando no reduzido espaço com Marconde.
Três crianças, sendo que uma ainda nem engatinhava, estavam à mercê da caridade.
Uma menina, muito magrinha, de seus doze anos, ergueu-se e disse em voz altiva:
- O que desejais?
- Olá. Como te chamas? - perguntou-lhe Saturnina.
- Chamo-me Judite.
- E quem é esse menino?
- Esse é o Tadeu - respondeu Judite, em tom sério.
Mas por que tantas perguntas?
- E o pequenino?
- Marcelus.
- Ah... um nome romano.
Quereis vir comigo?
- Somos de Roma, mas nossa mãe e nosso pai foram levados pelos centuriões e não mais voltaram.
Então, um tio se apiedou de nós e nos trouxe para este lugar, mas, há dois dias, não aparece.
Estamos com fome e frio.
O pão que ele nos deixou já acabou.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:16 am

Judite começou a chorar e Saturnina a abraçou:
- Minha querida, vós não mais tereis fome nem frio.
Vamos para casa.
Há quanto tempo estais aqui? - ainda perguntou Saturnina.
- Há quase uma semana.
“Graças a Deus” disse para si mesma a patrícia.
- Mas, agora - continuou Saturnina, agachando-se para apanhar Marcelus, muito sujo de terra vós tendes mais um irmão e uma mãe.
Posso ser como uma mãe para vós?
Judite olhou-a seriamente.
Via-se, em sua face, todo o temor, pois aquela senhora abraçava seus irmãos como seus próprios filhos.
Como nada respondera, Saturnina continuou:
- Tadeu, tu queres sair daqui e ir connosco?
Tadeu, de seus sete anos, fez um sinal afirmativo com a cabeça.
E a mãe de Lucas continuou:
- Vê, Judite, teu irmãozinho menor sorri para nós, Tadeu também quer sair daqui, e tu, não gostarias de cuidar deles em lugar mais agradável, com boa alimentação e uma cama para dormir?
Olha esse moço, chama-se Marconde e pode ser outro tio para vocês, assim seremos uma nova família.
Sentindo toda a responsabilidade da menina, um pequeno anjo, Saturnina abriu os braços para ela e deu-lhe carinhoso amplexo, ouvindo um soluço vir da profundidade daquela alma.
Então, olhou-a.
Nos grandes olhos amendoados, lágrimas dançavam até rolarem pelo rosto angelical, abundantemente.
- Olha, pequena, deixa tuas coisas aí porque, de agora em diante, nada mais te faltará.
A matrona, levando o pequeno no colo e abraçando Judite, pediu que Tadeu desse a mão a Marconde e, assim, voltou para casa.
- Lucas, Ester, olhai quem encontrei! - chamou-os Saturnina ao chegar.
Lucas veio correndo e, logo atrás, Ester.
- Mãe, quem são esses sujos? - perguntou-lhe Lucas.
- Nossa nova família.
Lucas olhou-os de cima abaixo e saiu correndo.
Esse facto deixou-o ciumento.
Não podia conceber que a mãe o trocaria por aqueles mendigos imundos.
Foi, então, que Ester, aproveitando o momento, comentou com ele:
- Não te deste conta de que Deus ouviu as tuas preces, Lucas?
- Ouviu? Por que dizes isso?
- Olha lá, com tua mãe no átrio está o amiguinho que pediste a Ele.
A criança deve ter um pouco mais idade que tu.
Não querias um amiguinho dessa idade?
- Sim, mas esse é muito sujo! - respondeu o garoto, com os olhos muito abertos.
- Mas depois de um bom banho, ele ficará bem limpinho.
Vê, ele sorri para ti, mostrando que será teu amigo.
Os olhos do menino se iluminaram e, com um sorriso, falou a Ester:
- Vamos lá, vê-los mais de perto?
Depois do banho nas crianças encontradas e do alimento para todos, reuniu-se, no aconchego do lar, a nova família, agora mais numerosa.
Lucas não tirava os olhos do menino Tadeu, dizendo a Ester que agora gostaria de brincar com ele.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:16 am

Então, Saturnina orou:
“Hoje, Pai, agradeço-Vos os caminhos aos quais nos levastes.
Mostrastes-nos, com esses novos familiares que nos proporcionastes, onde a alegria se escondia.
Que possamos dar a eles os ensinamentos que nos legastes, além do necessário para uma nova vida.”
Os Espíritos dos pais martirizados das crianças, que já as haviam destinado a Saturnina, abraçaram-se chorosos, abençoando-a, e puderam partir com o grupo de outros cristãos que os aguardavam.
Saturnina recebeu ali a extensa vibração de amor enviada por eles.
- Senhor - orou a mãe dos órfãos -, que essa mulher possa receber, de Teus braços, as forças, o bem-estar e toda a protecção que necessita para o seu filho.
Dulcinaea, que estava deitada há dias, na manhã seguinte, recebeu em seus braços uma menina, mas teve que ser auxiliada por parteiras do local, no parto difícil que teve.
Marius ria-se à toa por ter mais uma figura feminina na família e comentava:
- Ela tem tua fisionomia, minha esposa.
Mamãe vai ficar feliz.
Ela desejava uma menina.
Alexus não foi visitar Dulcinaea em seguida, apesar de ela ter mandado notícias do nascimento da criança.
Com Nero ainda a fazer loucuras, a sede de revanche do Senado era grande.
Muitos senadores já haviam sido assassinados pelo próprio imperador e qualquer insinuação que ele, Alexus, fizesse sobre os cristãos de Herculano, qualquer conversa, diante de seus soldados, poderia ser um passo em falso sobre aquele refugio cristão.
Roma fervia pelos excessos de sangue derramado, e ele teve que agir, tanto pela sua vida como pelos cristãos distantes de Roma, sua filha, genro e netos, além da mulher que não deixara de amar.
Então, Alexus, em comunhão com tantos outros, seguiu para fazer parte das tropas do general Galba, cuja finalidade era a derrota total daquele imperador.
Com o assassinato de Galba, o Senado declarou Vespasiano, que estava no Egipto, imperador e, em seu lugar, administrou Roma Caio Licinio Muciano, um governador da Síria auxiliado pelo filho de Vespasiano chamado Domiciano, um jovem tido como paranóico e de imensa crueldade, que desejava restaurar a autoridade de Roma, alimentando o culto à majestade imperial.
Quem não o aceitasse como Deus seria sacrificado como indisciplinado e contra o imperador de Roma.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:17 am

21 NOVOS ACONTECIMENTOS
Tornando-nos recomendáveis em tudo: na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias.

Paulo (II Coríntios, 6:4)

PETRULLIO ENTROU EM CASA DIAS DEPOIS DE SUA nora ter a criança em Herculano e pôde acomodar-se novamente no sítio.
Sua esposa não pudera ver Dulcinaea, sua nora, dar à luz, mas sabia-a muito bem cuidada pela fiel Saturnina.
Esperar o esposo chegar lhe era mais importante.
Nero caíra do poder dias mais tarde e suicidara-se.
Roma agora tinha outros dirigentes, e todos os amigos de Saturnina, assim como ela própria, sentiam que poderiam retornar para casa.
Assim, chegavam ao sítio Marius e sua família, levando consigo o bebé, que já estava com dois meses.
Isabel era o nome da criança de Dulcinaea, nome que Marius colocara em agradecimento a sua avó paterna a quem amara muito.
O pequeno Marius, que, no princípio, achou que sua mãe o traíra, dando-lhe uma menina em lugar de um menino, agora apanhava a mãozinha do bebé a toda hora.
Depois dos abraços ao seu irmão e seu pai, o esposo de Dulcinaea perguntou a Petrullio:
- Papai, Salúcio não tem mais vos perturbado?
- Não o tenho visto nem atrás das moitas - comentou o pai, rindo.
- Sabeis por quê?
Contou-me Rufino, que ele tem aparecido por aqui, perguntando à minha mãe se ela está bem e se não precisa de nada.
Quer cativá-la aos poucos, enquanto estais nestas vossas viagens longas - comentou Murilo, o filho.
- Pobre homem... mas o que vou fazer?
Se a tivesse conhecido junto a ele, juro que nem teria me aproximado dela, respeitaria o casal.
Eu disse isso a ele anos atrás, no entanto não acreditou em mim.
- Até quando isso continuará, papai?
Ficamos temerosos cada vez que viajais.
E vejo que vós não o odiais.
- Um dia nos encontraremos cara a cara, mas creio que não haverá águias de Roma que o farão acreditar em minha inocência e ver-me como realmente sou.
Enfim, o que for será.
Não posso me esconder nem deixar de obedecê-lo, quando ordena que eu vá para tão longe.
Contudo, a distância só faz renascer o amor que sinto por tua mãe, dia a dia.
Ah... amor de minha vida!
Com a queda de Nero, as perseguições ao Cristianismo haviam tido uma trégua porque, para reorganizar um império, dever-se-ia ter tempo e dedicação.
Assim, Saturnina retornou a Roma com todos e lá tiveram dias de muita paz.
Salúcio novamente mandou chamar o centurião, ordenando-lhe pessoalmente:
- Deves voltar às Gálias, Petrullio.
- Está bem, mas, desta vez, irás me escutar.
- O quê? Desejas ser aprisionado por desacato à minha autoridade?
- Desejo que somente me ouças, Salúcio - pediu-lhe Murilo Petrullio ao antigo amigo, colocando-lhe a mão no ombro.
Salúcio retirou-lhe a mão e foi nesse momento que toda a raiva contida, em muitos anos, foi despejada aos socos e palavras rudes ao esposo de Veranda, que caía e erguia-se, sem revidar.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:17 am

- Não devolves, covarde? - dizia ele, enfurecido.
- Sou teu amigo e não quero bater em ti.
- Amigo traidor?
Roubaste-me a mulher que eu amava, covarde!
Odeio-te e odiarei pelo resto de meus dias!
Desejo que morras, para jamais te ver por perto!
- Pois então, ao menos, ouve-me!
Salúcio seguia socando e soqueando o antigo amigo, que se defendia retirando o corpo e, quando ele se cansou, sentou-se numa murada; Murilo sentou-se com ele, abraçando-o e dizendo-lhe:
- De que adiantou todo esse sofrimento nesses longos anos?
Nem quiseste me ouvir... Olha para ti.
Envelheceste por tanto me odiar, ficaste doente, como sei, pois já te foi dada ordem de descanso das tarefas romanas...
Não casaste e nem tiveste filhos...
O ódio, meu amigo, traz angustiosa tristeza, e a doença segue aquele que não sabe trabalhar o rancor e a dor que traz por dentro.
Vi isso em alguns casos romanos, assim como estou vendo em ti.
E falando sofregamente pelos empurrões e socos que havia levado, continuou:
- Eu conheci Veranda, minha esposa, num encontro frente às termas.
Fui amigo do pai dela e a própria mãe de Veranda nos apresentou...
Eu nem sabia que ela estava noiva, pois ela me escondeu esse facto.
Jamais te vi com ela lá...
Como, então, podes culpar-me?
Se me tivesses apresentado na tarde em que voltei das Gálias, jamais teria começado o romance com ela, no entanto, não poderia abandoná-la depois que nos apaixonamos.
Veranda me ama e, cada vez que viajo para longe, mais e mais nosso amor se firma, meu amigo.
Porque não aceitaste isso?
Vendo a cabeça baixa de seu general, Murilo continuou:
- Todavia, a minha amizade por ti ainda é a mesma.
Refreia teu coração, aceita, já que não posso pedir que me perdoes.
Não fui culpado. Crê-me.
Jamais quis te fazer mal.
- Está certo.
Sairei de Roma para jamais te ver.
Dias atrás, quando vi Veranda, notei que jamais ela me amará.
Entrego os pontos. Ganhaste.
Mas ainda te odeio e meu ciúme me impele a matá-lo.
Por isso, jamais me verás.
- É uma tristeza perder um amigo estimado - ainda disse Murilo ao sair de retorno ao lar, sacudindo a poeira que sujara o seu traje romano.
Luzia, em Roma, enquanto seu esposo festejava a vitória de Galba e a partida de Nero deste mundo, com senadores e amigos romanos, comentava, sempre de mau humor, ao escravo Félix:
- Bem que falei a Alexus que esse louco não iria durar mesmo, mas o que será de nós agora?
Pelo menos, antes, meu esposo estava recebendo fartos valores...
- Penso, senhora, se me permitirdes falar, que nada mudará para vosso esposo.
Ele é correto e bom servidor das leis de Roma - disse, desejando agradá-la.
- Ora, isso não é “tão verdade” assim... afinal - enfatizou como víbora peçonhenta -, ele não cumpriu com as ordens de Nero naqueles dias, porque deixou alguns cristãos amigos fugirem e, com eles, sua própria filha, uma cristã.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:17 am

O filho que tive, morto quando nasceu, não seria como Dulcinaea, mas leal às tradições de Roma.
O escravo, que não gostava dos cristãos, olhou-a entre cenho e inescrupulosamente interferiu:
- E a senhora nada fez para denunciá-la?
Luzia se deu conta do que tinha falado e desconcertou-se, dizendo:
- Bem... Vejo que falei demais a um néscio e pedante escravo, que acha que salvará Roma das desgraças.
Coloca-te em teu lugar, miserável!
Mas será que para ninguém se pode comentar o que acontece em Roma?
E o escravo, com seus botões, murmurou:
“Se Nero ainda vivesse, seria eu o primeiro a denunciar Alexus Romenius como traidor, se soubesse o que se passava em sua cabeça.
Dia virá em que sairei daqui, destruindo aos que me escravizam, batalhando para uma vida justa, vingando-me de todos!”
O escravo voltou para o trabalho que fazia, despejando impropérios sobre sua posição e lamuriando-se:
“Será que a senhora da casa não percebe o que vejo?
Vejo uma Roma em reconstrução, que ainda será mais bela que a anterior com Galba, no entanto, carregada de seres estúpidos e ignorantes, envoltos nessa nova crença que destruirá a todos.”
Raquel chegou a Jerusalém.
Alegre e feliz em rever sua terra amada, ela correu para os braços de sua mãe, no entanto, tudo estava diferente.
Com as perseguições aos cristãos, sua família assistira muitas atrocidades, e familiares seus haviam desaparecido nos conflitos; assim, depois de algum tempo lá e de rever seus mais chegados, dirigiu-se ao amado esposo, indagando:
- A Judeia já não é a mesma.
Tenho receios.
Penso que devemos ficar aqui por pouco tempo.
- Isso sempre foi assim, Raquel, mas vejo ansiedade em todos os rostos.
- Tudo está muito triste e perigoso!
O povo se rebela contra os romanos.
Há mortes em cada esquina, meu marido.
- Aproveita para ver e matar a saudade de teus familiares na Galileia, porque, em breve, Roma atacará Jerusalém com todo o seu poder.
Raquel abriu muito os olhos e comentou:
- Gostaria de apanhar minha mãe, que enviuvou, e voltar a Roma; poderemos levá-la?
- Sim, querida.
Avisa-a para que ela se prepare.
Roma aparentava ter voltado ao normal; havia mais paz e parecia que o povo estava mais controlado, menos agressivo.
Saturnina havia chegado cansada pelos afazeres e muito triste.
Sentia a ausência de seu fiel Horácio, mas o que mais lhe doía era a desencarnação de todos aqueles importantes cristãos, que, desde que conheceram Jesus, antes ou depois da crucificação, renunciaram à vida que tinham para se destinarem somente a ensinar o Evangelho do Mestre amigo, como Paulo de Tarso e Simão Pedro.
Os cristãos, sem voltarem às catacumbas para as lições da Boa Nova, por precaução, faziam as orações na casa de Saturnina e em outras residências, com a presença, às vezes, de Marius e sua pequena família.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:17 am

Mas os grandes salões alugados, onde eles costumavam se reunir, na época em que Paulo e Simão ainda viviam, não mais abriram as portas.
Mesmo com a Uberdade aparente, o cuidado com as reuniões era intenso.
E o tempo passava...
Certa noite, ao se deitar, Saturnina sonhou com Porfírio, que lhe avisava que as perseguições e os maus-tratos com os cristãos ressurgiriam.
Orientava-a a fugir com as crianças e os amigos para a Alexandria.
A nobre romana acordou saudosa, mas sobressaltada, e pensou em ir ter com o nobre Alexus, o pai de Dulcinaea, na ausência de Murilo Petrullio, também porque, mesmo se Petrullio estivesse em Roma, ela achou que Veranda não iria gostar desse encontro, ciumenta como era.
Saturnina precisava estar ciente dos factos reais sobre as perseguições aos cristãos.
Pensou em seguir com sua biga, tendo Marconde ao seu lado, quando chegou Flavius, um aparentado de seu finado esposo, para visitar o pequeno Lucas.
Este achou que não ficaria bem a patrícia ir com o servo em uma biga, mostrando-se ao povo, pois ela já não tinha a sua liteira.
Então, gentilmente alugou esse transporte para ela, requintado conforme sua posição anterior na sociedade, cedendo-lhe alguns de seus escravos, para, assim, levá-la mais acomodada, enquanto seguia ao seu lado a cavalo, deixando Saturnina sem palavras para agradecer-lhe.
Quando eles chegaram ao local combinado, Flavius desceu do cavalo e foi falar-lhe:
- Saturnina, minha estimada amiga, não vos humilheis indo até Alexus.
Peço-vos que espereis aqui, que eu vou chamá-lo.
Ele está bem ali, na frente do anfiteatro, conversando com alguns patrícios, vede?
Vós tendes vos exposto demais, desde que meu primo morreu, e não fica bem manter um assunto com Alexus na rua.
Mas o que é de tão importante que desejais falar com ele?
Vendo o sorriso da parenta, que nada quis comentar, ele obtemperou:
- Bem, acho que nisso não devo interferir.
Alexus estava conversando com um amigo e, quando viu Flavius se aproximar, atendeu logo ao chamado.
Saturnina via tudo por entre as cortinas da liteira e notou que o pai de Dulcinaea, despedindo-se logo da pessoa com quem conversava, sorriu ao saber quem desejava falar com ele.
- Senhora, Ave, em que posso vos servir? - cumprimentou-a.
- Ave, nobre patrício.
Peço-vos informações a respeito dessa paz que estamos tendo.
Sabeis o que desejo dizer, não?
- Desejais saber sobre novas perseguições?
Ora - aclarou, rindo -, Nero se foi, não mais haverá perseguições, aliás tudo está na paz que todos pedimos.
- Nada soubestes?
- Não. Aliás, os cristãos, parece-me, ninguém sabe deles - proferiu, desejando brincar.
Agradeço-vos pelos cuidados à minha filha.
É linda a minha netinha.
Cheguei a pouco do sítio de Petrullio.
- Não me agradeçais; agradecimentos não são importantes quando desejamos fazer o bem, ainda mais por Dulcinaea, a quem muito aprecio - falou, colocando seu doce olhar no romano, a quem admirava.
Alexus beijou-lhe as mãos, comentando:
- Ah... sempre esse Cristo nos ensinando a amar...
- Bem, eu preciso ir.
Por favor, avisai-nos caso souber de algo.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:17 am

- Terei o prazer em vos levar a notícia pessoalmente.
O olhar de Alexus, cravado na jovem e bela viúva, foi persistente.
Saturnina sentiu seu coração disparar e pretendeu voltar para casa, dando sinal ao escravo de Flavius e pedindo que ele avisasse seu senhor.
E, então, Flavius apressou-se para ir ao seu encontro.
- Eu estou voltando, Flavius, e muito vos agradeço por esse auxílio.
Flavius despediu-se, beijando-lhe as mãos sob o olhar firme do pai de Dulcinaea, que suspirou profundamente, dizendo a si mesmo:
“Desde que vim de Herculano, não consigo parar de pensar na magnitude de carácter e força moral dessa mulher.
E, suspirando novamente:
- Teríamos sido imensamente felizes.”
A mãe do pequeno Lucas chegou a sua residência aliviada.
Procurou Marconde.
Pediu para que ele visse onde a maioria dos cristãos estava se reunindo para o compromisso com o novo bispo de Roma, porque iria ter com eles, suspendendo a reunião em sua casa.
As crianças não iriam.
Depois do sonho que tivera, teria que tomar ainda mais cuidado para não envolvê-las.
Marconde e Marius acompanharam Saturnina ao encontro nocturno, planeado no ano anterior, em grande estábulo no Esquilino.
Amigos cristãos a viram e foram ao seu encontro sorrindo, apesar da face pesada, comentando sobre os terríveis acontecimentos anteriores.
Disseram-lhe que Simão Pedro, quando aprisionado, estava tranquilo e que, em seus olhos, brilhava uma luz diferente como se ele estivesse em êxtase.
Fora crucificado de cabeça para baixo, com sua imensa fé, dizendo aos soldados que não tinha o direito de morrer como o Cristo.
Contaram a ela sobre a maldade de um soldado chamado Aniceto, que escarneceu de sua dor, atirando-lhe uma pedra na cabeça e tirando-lhe, assim, a vida mais rapidamente.
E continuavam:
- Sem o desejar, o soldado fez com que Simão parasse de sofrer as dores do corpo, afinal, desejando-lhe um mal, fez-lhe um bem.
Marconde e Marius, este sem a vestimenta de soldado, ouviram tudo, horrorizados.
Então, uma das mulheres relatou, continuando:
- Quanto aos demais cristãos, entre eles Raimunda, as feras tomaram-lhes conta, mas estavam tranquilos, como sabíamos que iriam estar.
Mas olhai, Saturnina, estão chegando Anacleto, Isaac e Eudócio.
Todos, olhos iluminados, abriram um sorriso diante de Anacleto, que se colocou na posição em cima de um tablado, entre lumes a óleo, para falar-lhes.
- Ave Cristo, irmãos em Cristo Jesus!
Pela primeira vez, depois do testemunho de Simão Pedro, vejo essa grande quantidade de cristãos, vindos de todas as comunidades de Roma, que aqui se reúnem por amor ao Cristo.
Estejais cientes, irmãos, de que estão no caminho certo.
Não vos esqueçais de que a obra é do Mestre, não nossa, portanto nada devemos temer.
Há pessoas temerosas e isso é natural, mas não quer dizer que estejam prontos a retroceder, contudo faz-se necessário não recalcitrar sobre esses temores.
Pensemos somente que o verdadeiro bem nos trará a paz.
Sermos do Mestre, isso não nos será difícil, pois conhecemos o sofrimento humano, as necessidades por que já passamos, a dureza da política do imperador, a fúria dos pretores, a maledicência que roda a nossa volta e tudo o mais que nos aborrece.
Todavia, anularmos o mal que está em nós mesmos é o que nos permitirá sermos Seus verdadeiros seguidores.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:18 am

Precisamos ser fiéis a Jesus em todos os momentos, principalmente quando estivermos dando nosso testemunho de amor e de fé.
Sabemos que todos choram ao pensar em seus pequeninos em casa, mas, se fordes apanhados, tereis ciência de que os seus ficarão orgulhosos de vós.
Portanto, amados, nada precisamos temer.
A força que obteremos virá do alto, assim como tantos cristãos já deram seu testemunho.
O mundo não esquecerá que, os que já se foram, entraram cantando no circo.
Nero pensou que nos derrotaria, mas vede, os caminhos estão cheios, repletos cada vez mais de cristãos.
Quanto mais mortes no circo, maior o número de fiéis.
E Anacleto continuou falando por mais uma hora, e, no final, Saturnina e os amigos iniciaram a saída, grupo a grupo, para não chamar a atenção dos pretores.
Assim, ainda que sem perseguições no momento, mas com o cuidado necessário, continuaram os encontros semi-escondidos dos cristãos em Roma, cada vez em maior número.
Os meses foram passando.
A cidade dos conquistadores ainda estava calma, no entanto, Saturnina lembrava a realidade de seu sonho.
Nisso, bateram à porta.
Marconde foi atender e adentrou o pai de Dulcinaea, esbaforido.
- Necessito falar com vossa senhora, urgentemente.
Levai-me até ela!
Marconde obedeceu, pedindo-lhe que o seguisse.
Passaram pelas crianças órfãs que estavam sentadas no chão, e Lucas, o filho de Saturnina que, com eles, ria alegremente, pelas histórias que Ester contava.
Quem tivesse visto antes aquelas crianças que Saturnina acolhera, naquele momento, não as reconheceria.
Estavam agora coradas, com as faces risonhas e olhos brilhantes, e Lucas fizera de Tadeu seu melhor amigo.
Com o pensamento a distancia e a preocupação constante, Saturnina dizia para si mesma, não ouvindo Alexus que entrava:
“Preciso defendê-los. Precisamos fugir”.
Alexus chegou de mansinho, mas seu profundo suspiro acusou-o, e ele relatou contrafeito:
- Ave, senhora.
- Alexus, o que vos traz aqui? - indagou Saturnina, erguendo-se de inopino do triclínio, assustada, onde matutava sobre suas más intuições.
- Venho vos advertir de que deveis partir o quanto antes.
- Perseguições?
Novas perseguições, por isso me procurais?
- Sim.
- Mas por que razão, visto que Nero está morto?
Ele não perseguira os cristãos pelo incêndio romano?
Qual o motivo, agora, de tamanha desgraça?
- Nossa Roma estará participando de uma imensa guerra com os revoltosos da Judeia, em breve, como deveis estar ciente.
O general Vespasiano, proclamado por suas tropas como imperador de Roma, já mandou seu filho Tito para eliminá-los.
Com nossa revolta contra a Judeia, tudo se complicou.
Domiciano sacrificará todos os que não o tratarem como Deus e fizerem culto a ele.
Então, o povo como que enlouquece para apanhar os cristãos.
Mentem e acusam, dando desculpas miseráveis, tendo como meta o sacrifício.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:18 am

- Mas por quê?
O que têm os cristãos a ver com essa guerra?
- Creio que a plebe se revolta com tudo o que diz respeito à sociedade hebraica.
Acontece que o Cristianismo é nascente na Judeia, entre os judeus.
Entendeis agora?
Novas perseguições estão à porta e, seguramente, temo por vós.
- No entanto, sou romana e descendente da nobreza.
Além do mais, penso que ninguém pode afirmar que sejamos cristãos, e muito menos judeus!
- Vós mesma correis perigo, patrícia - penalizado e mais tranquilo, Alexus a alertou.
Saturnina, testa franzida, pousou os olhos preocupados no romano e sentou-se no triclínio, onde antes estava, indagando ao amigo:
- Quem me denunciou?
- Olhos perspicazes, anos atrás, viram-vos no cárcere, visitando pessoas cristãs...
- Sim, visitávamos Horácio, meu servo, e outros amigos.
Mas quem me acusou?
- Algum centurião que vos conheceu, isso não importa.
Com gesto de total renúncia, ela desabafou:
- Ah... Preciosos momentos de fraternidade na paz de uma Terra sem guerras é o que todos nós desejamos.
Contudo, eu estou preparada.
E, suspirando profundamente, continuou:
- Agradeço-vos, meu amigo.
Preciso me preparar para levar as crianças para bem longe.
E, olhando para Alexus, que mostrava seus olhos brilhantes, admirando o interior daquela alma sem maldades, concluiu:
- Quando o Cristianismo tanto se alastra com raízes profundas, alimentando tantos corações sedentos de consolo, paz e alegria, o mal reaparece, como que não permitindo que as pessoas sejam melhores e a Terra se transforme e se reabasteça, com as flores e o perfume do amor.
Sempre a luta do mal contra o bem...
Sim, partiremos o mais breve possível.
- Lembrai-vos, senhora, de que, quando temos no coração a fortaleza do querer, sempre obteremos sucesso.
Resguardou-se do anseio de apertá-la nos braços, como a defendê-la do mal.
Ester e Marconde, que entravam e prestaram atenção nas palavras de Alexus, voltaram-se rapidamente.
Ela para preparar a bagagem de todos, ele para encilhar os cavalos e arrumar a carroça com os mantimentos possíveis.
Mas... para aonde iriam?
Alexus continuou:
- Levai os vossos para a Alexandria, domina.
Tenho residência lá.
Ficarão todos bem instalados.
Quando lá chegarem, procurai a taberna de Domenico Prósfiro, e ele vos mostrará nossa residência.
Saturnina lembrou-se das palavras de Porfírio no sonho e notou que os amigos da espiritualidade os estavam protegendo.
- Fugir para a Alexandria como Jesus criança...
Obrigada, Alexus.
Sois uma alma caridosa e grande amigo. Nós aceitamos.
Ele não se susteve e apanhou-lhe as mãos, beijando-as.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:18 am

Como que comovido, disse a ela:
- Senhora, é o mínimo que posso vos fazer depois de todos os cuidados que tivestes com minha filha em Herculano.
Marius também levará para a Alexandria sua família.
Visitar-vos-ei em breve.
Saturnina, agradecida, levou-o até a porta e despediu-se do amigo, indo arrumar suas coisas.
Luzia estava à morte.
Sempre negativa e impaciente como de mal com a vida, enchera seu organismo de úlceras cancerosas.
Ainda nela, habitava o ódio e o pavor por tudo e por todos aqueles que discordavam da política romana.
Não quis visitar Dulcinaea em Herculano, a menina que criara como sua filha, por estar em desacordo com a seita que a jovem mãe abraçara.
Dessa forma, ficara totalmente distanciada e alienada das notícias familiares.
Mas Dulcinaea, alimentando na alma o perdão, adquirido pelos ensinamentos cristãos recebidos, que nela florescera através da compreensão que sentia pela mulher que tinha como mãe, lamentava aquela alma triste e infeliz.
O próprio Alexus não mais aturava o mau humor da esposa e saía quase todas as noites, direccionando-se sempre à casa de seus companheiros, com a finalidade de obter um pouco de harmonia em sua existência, já conturbada pelo receio das revoltas aos cristãos que, vez em vez, absorvia-lhe a paz.
E isso foi o estopim para que a doença se alastrasse na pobre patrícia, que sentia imenso cansaço em viver.
Mas seu mau temperamento não foi o motivo para que Dulcinaea a abandonasse.
Pronta para ir ao Egipto, conforme seu pai pedira, ao saber da doença terminal de sua mãe, por Félix, saiu do sítio de seu esposo e foi se dedicar à sua progenitora em seus últimos momentos, quando essa mais precisou de afecto e cuidados. No entanto, naquela casa, havia um homem revoltado, com pensamentos malévolos.
Félix, que não olhava directamente para ninguém, sempre cabisbaixo como se não quisesse que descobrissem sua verdadeira personalidade, odiando a nobreza de seu senhor e a vida boa que ele tinha, em desacordo com a sua de escravo, sabia o que fazer.
- Minha filha, por que não foste com os outros para a Alexandria? - inquiriu seu pai, espantado por vê-la entrando em casa e indagando pela enferma.
- Vim para cuidar de minha mãe.
- Que bom que vieste, minha filha.
Abraçou Dulcinaea, que entrava com Rufino, este levando sobre os ombros a bagagem de sua senhora.
E continuou:
- Quando o médico me falou, nesta semana, que ela está à morte, fiz questão de cuidar dela pessoalmente, no entanto, como tens ciência, tua mãe necessita de cuidados especiais que não lhe posso dar.
O dever também me prende ao governo.
Isso porque ela não deseja os escravos próximos ao leito.
E olhando-a com carinho, aludiu:
- Perdoa-me filha querida, pois, a este momento, já deverias estar longe.
Eu não sabia que Luzia estava tão mal.
Foi de uma hora para outra e foi bom Félix ter te avisado.
Hoje, ela quase não fala.
Fica com os olhos sempre fechados e, vez em vez, tem alucinações, gritando nomes estranhos...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:18 am

- Minha viagem ficará para mais tarde.
- Mas não te preocupes com as perseguições cristãs.
Aqui em casa, sei que estarás segura.
Jamais alguém, conhecendo-me, iria fazer buscas por cristãos aqui nesta casa.
- Sei disso.
Neste momento, minha mãe é o mais importante, não penso em perseguições.
Mamãe merece todo o meu zelo.
Estou triste por ela e ficarei aqui até o momento em que ela partir desta vida.
Desejo servi-la em tudo o que ela desejar.
- E teus filhinhos?
- Meus filhos foram com o pai encontrar-se com Saturnina no Egipto.
Marius foi a contragosto, levando consigo a ama de leite, conforme aconselhastes.
Aqui, eu teria que me desdobrar com as crianças e, por certo, seria difícil cuidar tão bem de mamãe.
Juro, papai, que, apesar de nossas diferenças, farei o possível para que ela esteja bem neste final de vida.
Vou falar com ela sobre Jesus, salvador de todas as almas.
- Mas, por certo, ela não vai desejar te ouvir.
i Com calma, tendo uma oportunidade, devagar, vou lhe explicar que Ele é nosso Salvador, assim, partirá mais tranquila.
Com profundo suspiro, Alexus se expressou:
- Todos nós morreremos um dia, mas nunca saberemos quando esse momento chegará.
Estamos nas mãos firmes dos deuses que, quando querem, retiram-nos da vida, directamente para o Hades.
E perdemos tudo.
O que temos, nossos afectos e...
- Meu querido pai, vós falais isso porque desconheceis a verdade e só ela poderá proclamar-vos que jamais morreremos!
- Não entendo por que dizes isso.
Aprendeste com Jesus, de quem tanto falas, o contrário?
- Meu pai, quero só que não vos preocupeis com o Hades.
Jesus contou a Seus discípulos que “na casa do Pai, há muitas moradas” e deve ter dito isso porque, logicamente, cada um de nós irá para a morada que está de acordo com nossa maneira de pensar e de ser.
- Se isso for verdade, nos trará muita esperança, filha minha - e, dando-lhe um beijo na testa, despediu-se.
- Agora, deixo-te com a enferma.
Voltarei ao findar da luz solar.
Dulcinaea pediu para a escrava Enéia auxiliá-la, levando para o dormitório de sua mãe algumas coisas de que necessitava.
Alzira, disponível de corpo e alma para Dulcinaea, pois fora sua ama de leite, também se revestia de mil cuidados, sem se aproximar do leito, de acordo com a vontade de Luzia.
- Quem está aqui?... - perguntou a enferma em um momento, com voz muito baixa, pressentindo mais pessoas na casa.
- Sou eu, vossa filha.
Vim cuidar de vós.
Desejais alguma coisa em especial, minha mãe?
- Eu? Eu desejo que partas... - respondeu alterada.
Vai embora!
- Não, eu vim cuidar de vós.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:18 am

- Eu... não preciso... de tua ajuda. Vai!
- Mamãe, perdoai-me.
Perdoai-me por não ter sido aquela filha que desejaríeis que eu fosse e por todas as coisas que deixei de vos fazer.
Pelo amor que vos neguei...
- Ora, sabes muito bem que não saíste de mim.
Teu pai deve ter-te contado.
Dulcinaea ficou chocada com aquela revelação.
Então conhecia, agora, a verdade.
E a matrona enferma continuou:
- Assim sendo, eu também não fui o que tu desejarias que eu tivesse sido, uma mãe.
Não te amei. Foste um estorvo no meu casamento.
Destruíste toda a ilusão que eu, tão jovem, desejava ter, tendo que ouvir choros e limpar panos sujos - desabafou abalada.
- Perdoai-me por isso, mamãe.
Mas, mesmo assim, fostes, todo esse tempo, a pessoa que teve caridade para com uma pequena órfã de mãe.
Luzia aquietara-se, e Dulcinaea continuou:
- Mas vamos esquecer a tristeza, porque o passado jamais voltará.
Ficaria feliz se vós imaginásseis um lugar muito lindo que gostaríeis de visitar.
- O Hades! É para lá que eu vou.
O lugar das sombras e dos mortos.
E... eu nada desejo ouvir... de tua boca.
Teu pai me falou que jamais me amou.
Usou-me para cuidar de ti, terminando com meu sonho de juventude!
Fiquei com vontade de tirar tua vida, mas tive que te aturar.
Dulcinaea se condoeu, mas não se magoou.
Sentia-se, sim, culpada por, só agora, compreender a verdade e revolta de sua mãe e as consequências adquiridas por sua rebeldia e a não aceitação das coisas.
Imaginou-a jovem e cheia de ilusões com o homem que amava, e que a usara somente para dar uma mãe à filha órfã.
Agora, sim, a compreendia, pois colocava-se em seu lugar.
Aquela mulher ali, no leito de morte, tinha dentro de si a mágoa, e ela, Dulcinaea, sempre lhe fora um estorvo, ainda mais quando Luzia soube, pelos próprios lábios de Alexus, que ele jamais a amara, mas, em troca, oferecera-lhe um lar, roupas belas e jóias, as festas e os compromissos sociais nos lugares charmosos da corte, em troca de um pouco de amor e cuidados à sua filhinha adorada.
“Quem compreende não se magoa”, dizia a si mesma Dulcinaea.
Precisou Jesus entrar em seu coração para que ela começasse a entender o ser humano.
Sabia de tudo o que Jesus havia passado.
O próprio povo o havia injuriado, maltratado, atormentado, além de desejar tudo dele, sem lhe dar retorno em nada, nem no momento de seu sacrifício.
E, ao imaginar o sofrimento do Mestre, ela Lhe agradecia, porque o infortúnio que ela passava no momento era tão ínfimo...
Pouquíssimos homens compreenderam o Mestre, e ela mesma sempre fora tão feliz em seu lar, recebendo o amor imenso do pai, por que não entender a mulher que a criara como filha?
Então, pensou em falar com a enferma sobre o pequeno Marius, para que Luzia se alegrasse um pouco.
- Lembrai-vos do pequeno Marius, minha mãe?
Há meses, não o vedes.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 10:19 am

Está tão lindo e esperto...
Uma vez, certo homem bom nos disse que deveríamos ser como crianças puras e inocentes.
Somente dessa forma, disse-nos Ele, seríamos felizes e, quando morrêssemos, poderíamos ir para lugares esplendorosos, que nossa imaginação, hoje, não consegue alcançar.
Luzia permanecia calada enquanto que a filha continuava:
- Nosso sítio, que não conheceis, tem um belo campo verde, com um caminho de ciprestes altos, lado a lado, que vai até nossa moradia.
Se andarmos nesse caminho, à procura do jardim que está além, mamãe, vamos encontrar um lago que reflecte o céu azul, límpido, em contraste com o verde brilhante do jardim florido.
Nós jamais havíamos nos dado conta da beleza que tínhamos ali, até alguém nos alertar.
Assim também, quando estamos na Terra, minha mãe - continuou, com os olhos húmidos -, e buscamos nossa felicidade sempre além, sem a encontrarmos, algo que diversas vezes não sabemos o que é, mas, quando a procuramos dentro de nós, voltamos a ser aquela criança pura, inocente e feliz.
A felicidade está sempre aqui, em nosso íntimo, aguardando para ser descoberta.
Ela é o equilíbrio e a harmonia sublime, e, com ela, encontramos a paz ao fim do caminho, onde nos espera a mais elevada revelação:
um mundo cheio de surpresas de amor.
Olhou para Luzia e viu que ela estava derramando lágrimas.
Então, continuou:
- Assim o andarilho nos ensinou.
Trazia os braços carregados de flores para nos entregar aquela revelação, e muitos não o quiseram ouvir.
Ele afirmava que, só através do amor, poderemos ser felizes.
Mas quando temos tudo, riqueza, alegria e uma família exemplar, e ainda nos sentimos infelizes como eu me sentia, é porque nossa felicidade está no olhar do faminto quando recebe o alimento, no cobertor daquele que tem frio, no acalento à criança abandonada, nas palavras confortadoras para o desesperado e no auxílio àqueles a quem amamos.
E, quando o andarilho partiu sozinho, nada tivemos para lhe retribuir, a não ser desesperanças, lamúrias e queixas.
Amou a todos nós, minha mãe, e Ele quer que vós O aceiteis também.
Colocou um pano alvo com água fria na fronte da mãe, que muito suava, e continuou:
- E pergunto a vós, esse homem bom merecia sofrer?
- Não... merecia - Luzia segurou com forças a mão da filha e falou ainda -... tenho medo... minha filha.
Tenho medo de... morrer.
- O andarilho sofreu muito por nós, mas nos deixou a consolação, dizendo-nos que somos imortais.
- Co... como?
Dulcinaea, vendo que a sua mãe se interessava pelo assunto, concluiu:
- Ele foi crucificado e ressuscitou, aparecendo depois àqueles a quem ensinava, para lhes dar a certeza de que jamais nós morreremos, minha mãe.
- Isso não pode ser ver... dade.
- É verdade. Pessoas o viram.
Quando precisamos dele, minha mãe, ele vem para curar nossas feridas, dando-nos esperança e fé.
- Pois... chama esse homem, filha... desejo vê-lo.
Dulcinaea ajoelhou-se e orou com todo fervor a Jesus para que sua mãe pudesse enxergar sua imagem mentalmente e, com isso, partisse tranquila.
E, depois de segundos, teve a confirmação.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

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