SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:10 am

- Sim... Talvez seja Ele quem está aqui, cheio de luz.
Disse-me o jovem que... na casa do Pai, há muitas... moradas...
- Vistes, minha mãe?
Ele jamais nos abandona.
- Como ele se... se chama?
- Chama-se Jesus.
- O Cristo?
Dulcinaea, sorrindo, confirmou, e Luzia ainda disse:
- Como eu... estava errada... filha... Perdoa-me...
- Jesus jamais julga e eu também não vos julgarei.
No entanto, agradeço toda a renúncia de vossa vida para que eu fosse educada.
E, nesse minuto, Luzia, sorrindo, deu o último suspiro, deixando sua mão cair sobre o vestido da filha.
“Reconcilia-te depressa com o teu adversário”.
Dulcinaea cumprira sua parte.
Ela continuou sentada ao lado da mãe e, apanhando sua alva mão, muito chorou.
Toda partida é triste, mas, quando se sabe que pouco se fez para a pessoa que vai, a dor nos parece mais intensa.
Essas palavras estavam circunscritas em seu pensamento.
Chorava por não ter compreendido a mulher amarga, que não tinha sido amada como desejava.
Sabia agora que, se tivesse aprendido sobre o Cristianismo naquela época, jamais teria falhado como falhou todos aqueles anos, isolando sua mãe por não se sentir aceita por ela.
Enquanto esse facto se passava, Félix, quando soube da desencarnação de sua senhora, através de Enéia, saiu sorrateiramente para o caminho do Quartel dos Pretorianos, na Via Nomentana.
Cabisbaixo, manto sobre a cabeça, o escravo deixava o lugar onde belas residências ornamentavam a velha Roma, seguindo pelas vielas frias, empoeiradas e mal iluminadas.
Ia resoluto.
A severa senhora estava morta, esse seria o momento para se vingar daquele magistrado pelas humilhações recebidas e engolidas por todo o tempo de escravidão que tivera.
Entregaria a filha maldita ao cárcere, como cristã.
Ao chegar lá, procurou o chefe dos pretores:
- Preciso fazer uma denúncia, pretor.
- O que acontece? Que desejas?
Solta a língua, escravo miserável! - impôs a ele o soldado da guarda pretoriana, sem paciência por ver que o escravo estava ansioso e permanecia calado.
- O que ganho se denunciar alguém como cristão, que está, neste momento, na casa de um dos mais nobres homens de Roma?
- Ora, não temos tempo para esse tipo de discussões.
Abre logo sua boca e fala!
- Mas o que recebo?
- Vamos, fala antes que te prenda também.
- Há uma cristã na casa de Alexus Romenius, nobre homem da política romana.
Sua filha Dulcinaea.
- Ah, ah, ah. Essa é muito boa!
Acaso achas que acreditarei numa bobagem dessa?
Conheço muito bem esse homem.
Sai daqui! - ordenou, apontando o dedo para a rua.
Deves ser um escravo de Romenius e queres vingar-te dele.
- Pensai o que desejardes.
Vereis, mais tarde, que eu estava com a razão.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:10 am

Sem ter recebido valor algum, Félix voltou para a residência de Alexus.
Lisandro Séptimus, homem sem carácter e vingativo, um dos maiores perseguidores dos cristãos na época de Nero, viu o escravo sair e ficou pensativo.
Não se acusava ninguém da nobreza como cristão naqueles dias, somente os mais infelizes escravos e homens do povo e aquilo deveria ser, sim, uma acusação vingativa.
No entanto, se isso fosse verdade, Alexus seria apontado como traidor e isso faria o Senado “ruir” aos olhos dos nobres.
Mas não seria complexo decifrar esse enigma.
Iria pesquisar o assunto, afinal o tributo seria dele próprio.
Pensando um pouco, ficou de contar ao próprio Alexus sobre o que lhe fora denunciado, mas achou melhor seguir às escuras, para, então, ganhar alguma insígnia a mais, sobre sua acção e presteza.
O entardecer trouxera o amargor para a casa de Alexus que, vendo cortinas escuras nas janelas e faixas assim também na porta da entrada, soube do acontecido.
Dulcinaea estava aguardando-o no jardim e, quando o viu, correu e se atirou em seus braços.
- Oh, papai, ela só me esperou chegar... nem pude conversar muito com ela.
- Ela se foi?
E como ela partiu, filha?
- Conheceu Jesus e pediu-me perdão, mas eu descobri que seria eu a lhe pedir que me perdoasse por não tê-la compreendido.
Dulcinaea não quis dizer ao pai que soube da verdade e o abraçou fortemente, chorando.
- Minha filha, aproveita, então, para ir ao encontro de teu esposo e filhos.
Arruma tuas coisas que partiremos logo depois de o corpo ser cremado.
- Já estou pronta, meu pai.
Aliás, eu nada tirei da bagagem.
Nisso, bateram à porta.
- Há uma guarda pretoriana aí, senhor - avisou Félix, abrindo a porta com sorriso sarcástico.
- Deixa-os onde estão, que irei ter com eles - ordenou Alexus.
- Lisandro Séptimus se apresentando, magistrado - cumprimentou-o o pretor diante da surpresa de Alexus.
- O que vos traz aqui, pretor?
Dulcinaea se aproximou e ouviu seu pai dizer:
- Isso é uma calúnia.
Minha filha não é cristã!
- Foi vosso servo quem a acusou.
Alexus virou-se para ver a fisionomia do culpado, mas ele já não estava lá.
Somente quis perceber o desespero de Alexus e fugir.
- Enéia! Alzira! Vinde aqui.
Onde está Félix, o miserável escravo? - perguntou.
- Pai, nada façais.
Ele somente disse a verdade.
- Verdade?
Que verdade é essa a que te referes, minha filha?
E, virando-se para Lisandro, comunicou:
- Pretor, podeis ir em paz, porque isso foi uma calúnia.
Aqui todos somos adoradores dos deuses romanos, e vocês estão cansados de saber disso!
- Menos eu, soldado.
Podeis levar-me, porque não devo abjurar a Jesus - disse-lhe Dulcinaea.
- Não, não!
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:10 am

Não deis razão para o que ela diz!
Sua mãe acaba de perecer e Dulcinaea está abatida e sofredora.
Quer morrer porque sua mãe morreu.
Enéia, vem cá!
Diz para o pretor onde está a mãe de Dulcinaea - gritou o homem, preocupado.
Enéia chegou correndo e, gaguejando, relatou:
- Ela morreu há poucas horas.
- Podeis subir para vê-la, Lisandro.
Vede com vossos próprios olhos como não estou mentindo - ponderou Alexus.
- Sim, subi - pediu Lisandro ao grupo.
Os soldados subiram e verificaram que era real.
- Senhor, essa é a realidade.
A mãe dessa jovem ainda nem esfriou - disse um dos soldados.
- A esposa de Alexus está morta - confirmou o outro soldado para o pretor, atenuando o olhar desconfiado de Lisandro.
- Bem... se todos confirmam a demência de sua filha, nada mais devo fazer aqui.
Deixou a residência; no entanto, não desistiria.
Voltaria dias depois.
Alexus abraçou a filha, dizendo:
- Minha filha, por que razão quiseste te entregar?
E agora, o que faremos? Ele voltará.
Conheço a persistência desse homem da lei.
- Mas ele não é vosso amigo, meu pai?
- Ninguém é amigo nesta Roma, quando poderá tirar vantagens com o imperador, minha filha.
- Mas eu falei a verdade.
Não poderei fugir dela.
- Mas, minha filha, e teus pequenos?
O que será deles sem a mãe?
E deixarás teu esposo para se casar novamente com quem poderá abandonar teus filhos?
- Oh, papai!
Eu estou completamente desconcertada!
- Filha querida, tu irás para a Alexandria hoje ainda.
- Mas e a mamãe?
Iremos deixá-la assim, sem dar assistência e respeito ao corpo que tinha?
- Aguarda. Vou sair agora, mas logo voltarei.
Tenho amigos leais - comentou Alexus, dando-lhe um beijo na testa. - Rufino, teu fiel servo, Alzira e Enéia ficarão ao teu lado, minha filha, portanto, não saias daqui.
Via-se que o pai de Dulcinaea tinha uma ideia em mente.
A filha de Alexus imaginava que a espera poderia lhe ser fatal, mas se culparia por toda a existência se abandonasse sua mãe, que, nos últimos momentos, voltou-se para ela.
A noite caíra rapidamente.
O outono já apontava, estimulado com seus delírios cortantes de friagem e vento, o desfolhar das árvores da cidade e a cobrir de um cinzento amargo o céu romano.
A filha de Alexus, tristemente, entregava-se ao destino que lhe estava reservado.
Então, orou por sua mãe, para que Jesus de bondade permitisse que ela fosse auxiliada e, mesmo sem ser cristã, fosse acolhida e amparada.
O esposo de Luzia havia saído de casa, extremamente apreensivo por sua única filha.
Nada de mal poderia acontecer a ela, porque, se assim fosse, ele não suportaria.
Que desventura seria sua vida sabendo-a sacrificada com uma morte terrível em cruzes, animais ou fogo...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:11 am

Seria como perder novamente a mãe que a gerara.
Procurou, em sua casa, o amigo Firminus Trajanus, nobre cidadão em quem confiava por seus predicados de moral e respeito ao ser humano, que, naquele momento, poderia lhe ser muito útil.
Percorrendo vias escuras de Roma, com sua biga dirigida por dois cavalos árabes, chegou até um lugar mais amplo e iluminado por tochas de fogo, onde belas residências romanas erguiam-se, como a mostrar o poder ilusório dos valores materiais, que os mais ricos gostavam de ostentar.
O pai de Dulcinaea deixou os cavalos à frente daquela residência e olhou para o céu que escurecia.
Em sua atitude inquieta, suspirou profundamente, lembrando-se do Cristo ao qual sua filha tinha tanto apreço.
Então, enviou a Ele um apelo sentido:
“Cristo! Estou desesperado.
Perdi minha esposa hoje, que, apesar de tê-la a distância por penosas diferenças de atitudes, era minha companhia, mas vos imploro:
que eu não perca meu único arrimo!
Auxiliarei vossos aliados onde estiverem se conseguirdes salvar Dulcinaea.”
Ajoelhou-se em plena rua deserta, olhando sempre para o céu.
O vento forte reiniciou seu trajecto, lançando sobre ele as folhas secas da árvore próxima.
Isso, contudo, para Alexus, que sempre fora optimista, eram as bênçãos que estariam por vir.
Então, adentrou na residência erguendo o busto de nobre e orgulhoso romano, recompondo-se, já mais fortalecido pela esperança.
- Alexus, salve, prezado magistrado!
Por todos os deuses, o que vos traz aqui em uma hora destas?
Jamais assim o fizestes, meu amigo!
- Firminus Trajanus... minha esposa se foi - respondeu Alexus, cabisbaixo.
Os olhos do amigo se abriram mais, e ele abraçou-se a Alexus, consternado.
- Vinde, sentai-vos aqui, à minha frente.
Sinto muito, Alexus.
Sei que tivestes vossos atritos com Luzia, mas sempre a respeitastes.
E vossa filha sabe disso?
- Minha filha está em nossa casa.
Mas está completamente consternada e fora da razão.
Meu amigo, eu necessito de vosso auxílio, preciso tirá-la de Roma, não poderei deixá-la aqui para as exéquias.
Não sei o que fazer.
- Mas o esposo, e a família do esposo?
- Todos estão muito longe, fora de Roma.
Levaria dias até que viessem apanhá-la, e preciso tirá-la o quanto antes da presença da morte para levá-la ao seu esposo.
Eu a levaria, mas não seria justo deixar minha falecida esposa sem as exéquias necessárias.
- Sim, isso é lógico, afinal, ela, durante muitos anos, usou vosso próprio nome, hoje um nobre nome...
Mas penso que vossa filha poderia partir se conseguirdes uma pessoa de confiança para levá-la.
Lisandro é um pretor correto e poderá viajar com ela.
- Não, amigo Firminus.
Ela se sentiria desconfortável; afinal, ele é jovem e bem-apessoado, e ela é casada e bela.
Penso que isso pioraria sua neurose actual.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:11 am

Com a mão sobre o queixo, desejando auxiliar o amigo, Firminus, em um átimo, ergueu-se e confirmou:
- Já sei o que fareis!
Conheceis o grego Demétrius?
Sim, deveis conhecê-lo, porque vossa filha conhece muito bem Tília, sua esposa.
O próprio Demétrius, cuja residência está próxima, esteve ceando nesta casa com a esposa, uma mulher de cor, princesa em seu país e de uma beleza extraordinária, com aqueles grandes olhos azuis.
Bem, isso não vem ao caso.
Quando eles estiveram aqui ceando comigo e quando falei em vosso nome e de Dulcinaea, que vos abençoa com tanta beleza, ele comentou que Tília a conhecera muito bem e a apreciava.
Ele vos ajudará.
Quem sabe Tília e alguns de seus escravos poderão ir para fora de Roma com Dulcinaea.
Desejais ir até lá amanhã?
- Penso que deveria ir agora.
- A esta hora, meu amigo?
Não seria uma ausência de atenção àquele amigo?
Bem, mas uma morte é uma morte. Vamos.
Alexus sentiu-se aliviado.
Lembrara-se de que vira o grego e Tília com Saturnina em Herculano.
Firminus Trajanus foi com Alexus até a casa de Demétrius, e este, recebendo-os muito bem, assentiu que Tília acompanhasse sua filha na viagem até Óstia, contanto que seus escravos de confiança, Sula, nova entre eles, mas distinta, Vitório e Clarêncio a acompanhassem.
“Minha filha se salvará - pensou Alexus -, e ainda com todos esses conhecidos cristãos, sentir-se-á com sua família.”
Dulcinaea estava preocupada.
Já era noite alta e seu pai não havia voltado.
Então, aguardou-o por mais tempo sem subir, para não ver novamente a face cadavérica da morte, como dizia.
Quando viu chegar a biga e uma carroça fechada com Tília e os outros dois escravos que Dulcinaea tanto conhecia, ela sorriu, correndo até eles.
Alexus desceu da biga e, aproximando-se da filha, disse-lhe em tom de exaltação:
- Finalmente conseguimos, querida.
Estarás livre!
Mas, para a viagem de navio, tens que levar contigo Alzira e, quem sabe, também Rufino?
Ele ainda está aqui à tua espera?
- Sim, ele ainda está aqui.
- Darei a ele os valores para a viagem e, depois, avisarei Petrullio e a senhora Veranda.
Dulcinaea jogou-se aos braços paternos.
- Como conseguistes isso, meu pai?
Conheceis Demétrius e essas pessoas?
- Sim, eu os vi em Herculano, lembras?
- Tília, Clarêncio e Vitório são pessoas dignas e boas - comentou sua filha
- Tudo está resolvido.
Firminus Trajanus auxiliou-me.
Tília e sua escrava Sula, juntamente com Vitório e Clarêncio, que já conheces, escravos do senhor Demétrius, acompanhar-te-ão até o porto de Óstia.
Assim, Lisandro de nada desconfiará.
Depois, voltarão as duas senhoras com Vitório e Clarêncio e tu partirás com Alzira e Rufino para o Egipto, onde, depois das exéquias de tua mãe, me aguardarás.
Minha filha, ouve-me - falou, olhando-a atentamente e apanhando os ombros magros de Dualcinaea -, tens que ouvir teu pai, está bem?
- Para vosso consolo, eu partirei, sim, meu pai querido.
- Obrigado, filhinha.
Assim, Firminus Trajanus, tendo Dulcinaea como mentalmente fora de si, ao falar com o pretor Lisandro deixou este descansado quanto à denúncia vingativa de Félix e começou a perseguir o escravo fugidio, sem jamais o encontrar.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:11 am

22 NO EGIPTO
Confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé e dizendo que, por muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus.

(Atos, 14:22)

VESPASIANO CONTINUAVA NO EGITO E NÃO SE ouvira mais falar sobre a matança de cristãos em Roma, mas somente sobre o colosso que ele mandara construir para a alegria popular, com festejos, duelos entre os prisioneiros e gladiadores e estes também com animais...
Esses seriam os acontecimentos no grande circo, que estava começando a ser construído em Roma, todo revestido em mármore, sendo que seus nichos seriam adornados por muitas estátuas de romanos, do mesmo material.
Grandes exibições seriam feitas naquele espectacular colosso, semicoberto e, além de tudo, gratuito para o povo.
Vespasiano desejava ser endeusado também pelos romanos como os outros imperadores o foram.
Porém, Domiciano continuava radiante pelo poder e já prendendo os cristãos que não o queriam adorar.
Veranda continuava no sítio não distante de Roma, sempre a esperar o retorno do esposo e do filho com o mesmo nome.
Petrullio e Murilo, quando não nas legiões a trabalho, voltavam ao lar, revendo seus vinhedos e gozando a alegria de chegar à paz e tranquilidade da família.
No entanto, chegaram entre os soldados os murmúrios de que Saturnina e seus acompanhantes seriam acusados como cristãos, e os dois Murilos, pai e filho, ficaram preocupados.
Dias antes, a denúncia havia sido feita por um carcereiro, que vira a domina com prisioneiros no cárcere alguns anos antes, visitando seu escravo Horácio, que depois foi martirizado.
O acusador fora Cassio Plinius, antigo soldado, que sempre fora ridicularizado por Crimércio, esposo de Saturnina em épocas passadas, enquanto era seu subalterno.
Sendo expulso por ele da legião a que aderira, caiu em um precipício e, na ausência de auxílio momentâneo, ficou manco de uma das pernas.
Havia jurado vingar-se do comandante de alguma forma, não importava o quanto teria que esperar.
Assim, mesmo ignorando que o homem que odiava já não existia, procurou o chefe dos pretorianos, na época.
- Lisandro Séptimus, sou Cassio Plinius, ex-soldado da legião de Nero, comandada na época por Crimércio Zacaro, apresentando-me - disse-lhe o carcereiro, tocando com o punho no lado esquerdo do peito.
Sou ex-soldado, porque, conforme vedes minha deformação na perna direita, hoje me conformo trabalhando nos cárceres.
Manco como um aleijado, mas isso não me impede de acusar uma pessoa, dizendo o que sei sobre ela.
E continuou, já com nervosismo na voz, porque havia chegado o momento da sua desforra:
- Tive conhecimento de que o comandante Tito já chegou à Judeia para conter a fúria daquele povo, que não soube respeitar certa liberdade que lhe concedemos, e me foi dito, que, depois de muito sangue derramado, aquela gente foi se reunir, para se defender, ou quiçá se esconder, na fortaleza acima de uma grande rocha, Massada.
Mas tenho certeza de que venceremos.
Todos nós estamos odiando os judeus, não é isso?
- Sei de tudo isso - censurou-o o pretor, sem muita paciência para ouvi-lo -, mas, afinal, o que queres de mim e aonde queres chegar com esse parlatório todo, Cassio Plinius?
- Toco nesse assunto porque quero vos avisar que essa revolta do povo aqui também se alastra.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:11 am

Ainda ontem, vi romanos gritando o “ódio aos rebeldes”, com tamanho ânimo, que envolveu a turba dos menos favorecidos em explosão de verdadeira animosidade, um ódio terrível!
Sabendo da guerra que estamos travando na Judeia, eles clamam, cheios de ódio, por vingança e pedem a volta dos sacrifícios de cristãos, cuja seita nasceu naqueles sítios.
- Certamente, neste momento, os judeus aqui de Roma se tornaram inimigos do nosso povo e recomeçaram a se esconder.
- Vós achais que poderão voltar os sacrifícios humanos?
- Sem dúvida, esse povo enfurecido pode levar o imperador a agir dessa forma.
- Bem... Aqui mesmo em nossa Roma, poderei levar-vos a uma residência onde soube que, seguidamente, reúnem-se a alguns cristãos judeus, para as obscuras palestras sobre essa seita maldita - já se interessando em fazer grau com o chefe dos pretorianos, Cassio afirmou.
Lisandro suspirou indignado... e, depois de instantes, comentou:
- Ainda ontem tive uma denúncia desse tipo, vinda de um escravo pertinaz, que só me trouxe incomodarão.
No entanto, como és romano e foste um legionário, bem... torna-se diferente.
E Lisandro perguntou-lhe:
- E onde se reúnem esses malfeitores?
O soldado acusou a antiga residência de Crimércio, mas aquele fora um local que havia sido destruído pelo grande incêndio romano e ainda não havia sido restaurado, apesar de já haver movimento de obras naquele local.
No dia seguinte, Lisandro, achando que seria bom apanhar muitos cristãos de uma só vez, pesquisou naquele local, como quem nada quer, sobre os antigos moradores da Villa de Saturnina em reparos, até saber sobre a pessoa que lá residia. Contudo, não lhe deram o nome dela e, assim, não sabia de quem se tratava.
E, procurando descobrir mais, mandou chamar Cassio.
- Encontrei a nova moradia da senhora que acusas, mas, antes, uma averiguação: essa mulher é hebreia?
Era escrava daquele local?
Não me falaste nada sobre ela.
- Bem... ela é a esposa de Crimércio Zacaro e imagino que seja romana.
- Novamente me ludibriando essa corja de infelizes!
Sai daqui! - protestou enfurecido o pretor.
Como vais desejar colocar no cárcere uma nobre romana e ainda esposa de um antigo comandante?
Estás enlouquecido?
Não prendemos nossos romanos por uma falha política, quando interessados nestas seitas!
Sai já daqui!
- Mas, senhor, eu juro que ela recolhe judeus cristãos em sua casa, e está traindo nossas raízes.
Roma adverte quem não bajula os imperadores que aclamamos como deuses!
- Bem, se desejas continuar com isso, não contes comigo.
Vai até lá.
A casa é próxima do Tibre e faz o que desejas - frisando bem se conseguires.
Anoitecia.
Cassio, perturbado, não se dava por vencido.
Havia aguardado tanto tempo por essa revanche, e como não encontrara mais Crimércio, sabendo-o na Sicília, tinha que agir rapidamente.
Encontrou um centurião com alguns soldados fazendo a ronda na cidade e proferiu a mesma acusação que fizera a Lisandro, excluindo-se o facto de que a senhora em questão era uma nobre romana.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:12 am

Estes se encaminharam para o local indicado, acompanhados do carcereiro.
Depois de muito baterem na grande porta, apareceu Antoninus, dizendo-lhes que a dona da casa tinha saído em viagem, todavia, sem crer no que ouviam vasculharam a casa toda.
- Sem dúvida, não há viva alma nessa residência.
Vai ver que o velho tem razão, carcereiro Cassio.
Mas e tu, velho, onde moras? - inquiriu-o o centurião.
Com certo receio, ele confirmou:
- Logo ali, depois das árvores, em pequena casa, com mulher e filhos.
Empurrando-o, Cássio, extremamente empenhado em concluir o que havia iniciado, elucidou:
- Eles devem ter se escondido lá.
Vamos até lá.
Rapidamente, os soldados marcharam até a casinhola enquanto Cassio, mancando, ia o mais rápido que podia para não perder o espectáculo que lhe animaria a alma vingativa.
Adentrou no casebre apoiando-se em um móvel para não cair.
Seus olhos aguçados especulavam ao redor, na ânsia em rever domina Saturnina.
A esposa de Antoninus meteu-se em um canto, abraçando as crianças como a protegê-las, coração aos pulos, com olhos inquiridores ao esposo, que parecia mudo, tal o medo.
- É essa mulher a quem te referes? - indagou o centurião a Cassio.
- Não, não é essa - redarguiu Cassio desiludido.
- Diz-me, velho, vós sois cristãos? - indagou, então, a Antoninus.
- Na... Não!
Nós nem conhecemos o Cristianismo.
- Tens certeza?
E por que estais morando aqui, no mesmo jardim da senhora que procuramos?
- Porque... porque ela nos acolheu.
Nós não tínhamos onde morar.
Cassio, no entanto, achou que resolveria o caso.
- Olhai, Marcus Servius.
Como centurião, tendes o direito de realizar a prisão de todos aqui.
- Mas eles não são cristãos nem judeus.
Por que o faria?
- Ora, com isso tiraremos a prova.
Se prendê-los, certamente a mulher que procuramos se apresentará para libertá-los.
Dizem que esses incendiários agem assim.
- Isso foi inteligente, Cassio.
Sim, todos irão para o cárcere.
Aprumai-vos todos, soldados!
Apanhai o velho, a esposa e as crianças.
Desesperados, temendo a mão romana perseguidora, a esposa de Antoninus abraçou-se às crianças, implorando:
- Senhor, não temos culpa de nada nem sabemos a respeito da vida particular da senhora que nos retirou das ruas.
Por favor, não nos leve!
Mas Marcus Servius fez que não os ouvia, vendo os soldados, aos empurrões, amarrarem todos para levarem-nos à prisão.
No cárcere, Antoninus foi maltratado até conseguir abrir a boca e contar onde Saturnina estava.
Os dias passavam lentamente.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:12 am

A plebe de Roma se contorcia em revoltas ocultas contra Jerusalém e todos os judeus e, ao saber da vitória alcançada por Tito, avançou nas ruas gritando:
“Morte aos inimigos de Roma!
Judeus e cristãos no circo!
Cassio, perturbado com a obsessão de vingança, transcorria, seguidamente, ao quartel dos pretorianos.
- Não, Cassio, não me desgastarei em ir até o Egipto com meus soldados, por causa desses míseros infames e de uma senhora que fez questão de escondê-los - respondeu-lhe Marcus Servius, contrariado.
Roma nos precisa aqui!
Isso será uma perda de tempo diante das atrocidades que se amontoam lado a lado.
Como disseste, ela chegará a nós, pois deve ter bons informantes...
Aguarda mais um pouco e esquece-a no momento.
Tendo Antoninus e sua família em nossas mãos, no cárcere, a matrona voltará para libertá-los.
Dizem alguns romanos daquele local que sua bondade “inferniza”, pois coloca, em sua casa, toda espécie de gente.
Com a volta de Tília e os escravos, Demétrius estava radiante.
Ele permanecia bajulando sua amada Tília, fazendo-lhe todas as vontades.
Enfim, estava o casal vivendo realmente o amor, com seu bebé, enquanto que Demétrius Darius abraçava agora o comércio, enriquecendo rapidamente.
Um mês antes desses factos, agora transcorridos, Romério e Raquel haviam saído de Jerusalém, voltado a Roma e, assim, evitando a revolta assustadora que estava por vir.
Todavia, não voltaram sós.
Levaram consigo os mais queridos familiares da jovem esposa, imaginando logo serem recolhidos por Saturnina.
Chegando, estranharam a casa escancarada e quase vazia, sendo habitada por vândalos.
Cerrando as portas novamente e deixando tudo em ordem pelas mãos da fiel Raquel, Romério foi procurar por Antoninus, sem encontrá-lo.
- O que podemos fazer, meu amor?
Temo pela senhora e por todos aqueles que ela ampara - confessou Raquel.
Temos de agir rapidamente.
- Penso que é melhor eu ir procurar por Murilo Petrullio ou Alexus Romenius, já que fazem parte do governo romano; eles devem saber o que está acontecendo e onde se encontra a senhora Saturnina.
Mas antes vou dar uma chegada nos cárceres do Esquilino.
“Que eles não estejam lá” - falou a si mesmo.
- Ide, meu amor. Façais o que seja melhor, mas trazei-me logo notícias.
Alexus estava pensando em preparar a viagem para se encontrar com a filha no Egipto quando surgiram compromissos inadiáveis e, estando próximo à porta da entrada para sair, eis que deu de frente com Romério, que vinha chegando.
- Ave, Romério!
Que bons ventos te trazem de retorno à nossa bela Roma, a mais grandiosa de todas as praças! - comentou alegre ao vê-lo.
- Ave, nobre Alexus.
Viemos eu e Raquel da Galileia, trazendo alguns familiares mais caros.
Jerusalém está parecendo uma desgraça, um inferno de dor, choro e tristeza.
Mesmo sendo romano, penalizo-me por aqueles que lá ficaram, aos quais aprendi a me afeiçoar.
- É, mas eles mereciam isso.
Povo orgulhoso aquele, não tem um mínimo de aceitação.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:12 am

Fomos tão indulgentes com eles, permitindo que mantivessem suas crenças, mas por trás da aparência agradável que eles nos demonstravam, grande ódio se inflamava, e tanto, que tivemos que agir de outra forma.
- E por que não fostes para essa guerra, nobre Alexus?
- Voltei não há muito das tropas de Galba, meu amigo.
- Muito bom o que aconteceu.
Sem Nero, eu vejo Roma agora mais saudável, mais activa.
- Contudo, ainda desejando sangue dos inocentes.
Aconteceram muitas coisas nestes anos que estiveste fora, Romério, também connosco.
Minha esposa ficou doente, tanto que faleceu.
Perdi a companheira e, mesmo com o temperamento que ela tinha, faz-me falta sua companhia.
A casa sozinha tornou-se um mausoléu verdadeiro - Alexus suspirou profundamente.
Suas exéquias foram três dias atrás.
- E agora, o que pretendeis fazer?
Permanecer nesse palácio a sós?
- Tentarei refazer minha vida, afinal, ainda me sinto forte e vigoroso como um leão. - depois, indagou a Romério.
Como a família de Raquel conseguiu vir?
- Raquel trouxe esses parentes mais próximos por meu intermédio, caso contrário, não teriam como passar.
- Mas onde te alojaste, com tua bela Raquel?
- Ao chegarmos, fomos ver a senhora Saturnina, mas vimos que sua casa fora invadida.
Vândalos estavam morando lá.
Ficamos resguardando a moradia.
- Bem pensado, pois ela deixou tudo em ordem... eu mesmo presenciei isso.
Antoninus, o caseiro, cuidou de tudo.
- Pois é, mas Antoninus e sua família lá não estão; no entanto, alguém colocou aqueles vândalos para dentro.
Onde está a senhora Saturnina?
Antoninus foi com ela?
- Pelo que eu soube, ele não quis ir, mas sua senhora viajou para a Alexandria levando todos os seus hóspedes, inclusive minha filha está lá.
- Silvina também?
Raquel desejava vê-la, assim como a Ester.
- Sim, Silvina voltou para a casa de Saturnina como o verdadeiro “filho pródigo”.
- O quê? Conheceis já as recomendações laboriosas de Jesus sobre o amor da família?
-Vivendo dias com minha filha, sabes que me transformei um pouco.
Mas fiz de tudo para que ela tirasse a ideia do Cristianismo de sua cabeça, sem conseguir.
Ela cada vez está mais rigorosa em sua fé.
Acreditas que soldados estiveram aqui para apanhá-la, acusada que foi pelo ingrato Félix?
- Ora, por que ele fez isso?
Sempre fostes tão bom para com vossos servos.
- Vingança, talvez. Ou inveja.
Vi-o olhar-me atravessado algumas vezes.
- Nobre Alexus, se formos analisar melhor, esses ensinamentos cristãos nos impelem à reformulação de nossos antigos hábitos.
Mas Roma quererá reavaliar suas origens, abraçando uma causa desse tipo, em que não vence a nobreza?
Sim, porque os mais abastados perderão seus escravos e descerão do pedestal em igualdade comum.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:12 am

- Não, isso jamais.
Quanto a mim, isso não me tocaria, porque trato a todos com quase cortesia.
Por esse motivo, tenho a sensação de que Félix não estava bem da cabeça, vi o ódio e a astúcia em seus olhos, quando aqui chegou com Lisandro, como se quisesse me ver sofrer.
- Era aí que eu queria chegar.
Em Félix, vemos a certeza de que ele, infeliz, não abraçou a causa cristã, diferente de Rufino, o servo de Petrullio ou até de Alzira.
Se assim ele fosse, ter-vos-ia perdoado, seja lá o que o incomodava a vosso respeito.
Cá entre nós, seria muito bom, em parte, se o Cristianismo abrangesse o mundo, mas é difícil que essa seita vença.
Não sei não, talvez eu esteja me interessando e quase cedendo aos ensinamentos que ouço por aí.
Sabeis, como político que sois de nossa Roma, o quanto os cristãos estão sendo procurados por toda parte e, se analisásseis bem, o homem Jesus veio alertar a população a entender que o ódio faz mal a nós mesmos.
Vede o caso de Salúcio, o inimigo de Petrullio.
Ele odiou tanto o pobre homem, que perdeu sua vida nisso.
Batalhou por uma imagem de revolta e vingança, mas foi ele quem saiu ferido.
Sentis o que estou querendo dizer?
Pelo que soube por alguns cristãos, Jesus, o carpinteiro que matamos, procurou instruir o povo para se corrigir e tornar-se mais humano, e, assim, conquistar a paz em si mesmo.
Já imaginastes uma Roma sem guerras?
Sem esses desvios todos e essa promiscuidade?
Conversarmos com uma pessoa e vermos que não estamos sendo ludibriados por ela?
Sabendo que um homem duro e insensível com as pessoas, orgulhoso e prepotente é um ser que não devemos odiar, mas compreender, com a certeza de que ele também, um dia, será melhor?
Que o criminoso, se receber esses ensinamentos como educação, procurará se reformular?
Vemos, desta forma, que o Cristo, como todos assim o chamam, veio para educar a todos nós.
Ele é o Mestre e o mundo é o aprendiz - suspirou profundamente.
- Roma Cristã...
Seria uma Roma muito mais humana.
- Ora, isso é desejar demais, é utopia, e o que vejo é que somos todos pessoas más e que, se eu me reformular, e, digamos, Félix não, não usarei a espada, mas ele me alcançará, como Salúcio fez com Petrullio - argumentou Alexus.
- Em realidade, admiro muito essa seita, só que, no momento, eu me pergunto:
se ela vingar, quanto tempo precisará para nos modificar?
Quantos anos? Séculos, ou não?
O homem, meu amigo, é um ser ainda animalizado, cheio de orgulho, e os mais nobres são os mais vaidosos e egoístas.
Perdão... nada disso tem a ver convosco, pois há, sim, casos mais raros de pessoas mais sensíveis.
Olhai o caso de Saturnina, nossa amiga em comum.
A bela mulher vendeu a residência do Aventino, distribuiu parte entre os necessitados, leva alimento aos pobres, já não usa jóias...
Onde está sua vaidade?
- Mesmo assim, na simplicidade em que se coloca, é a mais bela patrícia de Roma... - retocou Alexus, suspirando.
- Perdoai-me a ousadia... vós a amais? - olhando-o de frente, indagou-lhe Romério, franzindo o cenho.
- Melhor mudarmos de assunto.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:12 am

Aguardo questões se resolverem e essa guerra estúpida acalmar para sair de Roma por uns tempos.
No momento, sou necessário aqui - complementou Alexus.
- E para aonde ireis?
- Ora, Romério, vou atrás de minha filha.
- Ah... Ela está com a senhora Saturnina...
- Não brinques, meu amigo - pediu-lhe Alexus, com felicidade no olhar.
- Vejo, nesse olhar, felicidade ou ventura?
- Ilusão, Romério, ilusão.
Hoje sou um homem solteiro.
- Se é assim... chamo isso de esperança.
Bem, já estou indo. Adeus.
- Adeus - suspirando fundo, o magistrado respondeu.
Passaram-se dias, Alexus agora mandara um de seus auxiliares preparar tudo para a longa viagem a Alexandria, quando recebeu Romério novamente.
Depois dos cumprimentos, o centurião comentou sobre as perseguições:
- Vejo tamanha revolta do povo aos judeus, que penso que recomeçarão as perseguições aos cristãos, Alexus.
- Sim... sinto que notaste, inteligente que és, que as perseguições estão reiniciando, Romério.
- Isso vos perturba, como vejo em vossos olhos, nobre Alexus?
- Quem não se entristece de assistir tamanho derramamento de sangue inocente? Eu não poderia sair já de
Roma e, como deves lembrar, estava para sair dias atrás em viagem, contudo temo por pessoas que amo.
Soube hoje que, depois que Vespasiano tomou Jerusalém, começou a procurar pelos descendentes de David para matá-los, para que ninguém da casa real sobreviva.
Ele também quer exterminar todos os cristãos.
- Eu sei que Lisandro Séptimus, o tribuno que, além de Tigelino, no tempo de Nero, capturava cristãos sem piedade, está de volta, mas não foi ele quem esteve na residência de Saturnina.
Foi o ex-soldado Cassio.
Esse foi o que a acusou e jurou vingança a seu esposo. - argumentou Romério.
- Ora, de onde tiraste isso?
Soube de um centurião que acusava domina...
- Sim, antes centurião, hoje carcereiro, manco de uma perna.
Estive no cárcere para ver se Antoninus e a família estavam lá.
Não os encontrei, mas conversei com um dos carcereiros.
Ele descreveu-me que Cassio jamais havia esquecido como fora maltratado por Crimércio Zacaro.
Tanto que seu problema da perna foi causado por aquele comandante de sua legião.
E esse foi o motivo por que deixou as linhas de conquistas.
Ele reconheceu a senhora Saturnina no cárcere, com seu escravo Horácio, anos atrás e, agora, aproveitando o reinicio do movimento, acusou-a.
Eu estive lá com a domina, naquela época, e o que me gravou foi seu olhar sobre ela, enquanto ela conversava com seu servo.
- Depois de tantos anos?
- Sim, Alexus, estejais certo de que, mesmo passando tanto tempo, a vingança do romano é perigosa.
O romano não esquece, aguarda o momento exacto e vinga-se!
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:12 am

Lisandro, ou outro centurião qualquer, poderá ir ao Egipto com seu grupo ou aguardará a senhora aqui, sabendo que, como cristã, com certeza, ela virá para tirar do cárcere Antoninus e sua família.
Por esse motivo, eu decidi procurar Saturnina para alertá-la.
Preciso do endereço de onde ela se encontra, se podeis me dar.
- No entanto, penso que nada ocorrerá a ela, como esposa de um comandante de Roma que ela foi, assim como a minha filha.
- Mas deveis temer. O povo é cruel.
Estimula o governo com manifestações populares, gritando “aos leões os cristãos”.
Isso favorece ao imperador, que sempre diz querer o bem do povo, e a volta às perseguições.
Eles já esqueceram Crimércio, comandante de legiões, Alexus.
Saturnina, agora, é considerada pobre, sem nobreza, e uma mulher sozinha e desamparada.
O povo quer sangue jorrando nos circos, e, com a domina Saturnina, alguns judeus se encontram.
Todos esses detalhes favorecem aos que estão odiando o Cristianismo.
- Vou procurar pela patrícia e pela minha filha e prezo aos deuses encontrá-las sãs.
- Sim, sim... nobre Alexus, mas eu irei convosco.
Suspendi a guarda que me acompanharia exactamente para que não cheguem a saber sobre o Cristianismo na casa de Saturnina.
Em Alexandria, o entardecer cobria as areias distantes com um leve tom róseo.
Ainda fazia calor e a Lua já iniciava seu roteiro celeste, para, mais tarde, iluminar a paisagem nocturna.
Saturnina caminhava no grande jardim da nova residência, cedida por Alexus Romenius, um pouco afastada dos locais centrais, onde mercadores e transeuntes se movimentavam.
Entre robustas palmeiras e belos arbustos floridos, ela se perguntava se havia sido importante sua fuga, deixando tantos amigos cristãos e conhecidos em sua amada Roma.
Certamente, se a acusassem, tirar-lhe-iam seus poucos bens e jamais ela poderia voltar lá, no entanto, sabia que “todo o seguidor de Jesus teria uma estrada repleta de pequenas ou grandes renúncias”.
Mulher de sociedade que vivia em festas, teatros, circos e termas romanas, à volta de grande número de conhecidos, repleta de jóias e adereços, tendo Alexus como pretendente entre outros, ela casara-se com Crimércio, conforme vontade dos pais, e continuara a frequentar a todos os espectáculos que a exuberante Roma lhe oferecia.
No princípio, admirava aquelas festas palacianas, com demonstrações de teatro, danças e músicas, onde os jardins iluminados em tripés a óleo desvendavam as ricas colunas de mármore, sempre decoradas com desvelo, com guirlandas de rosas e outras flores.
Músicas e cantos enchiam com belos sons os grandes salões marmorizados, e anões lançavam perfumes nas piscinas internas, cercadas de estátuas de deuses, perfumando todo o espaço...
Saturnina, fiel companheira do esposo, comparecia à beleza dos grandes jantares, quando todos reclinavam-se em triclínios recobertos com peles de diversos animais, inclusive tigres, para assistir às danças voluptuosas.
Mas, nessa época, Crimércio começou a se afastar dela, olhando para outras mulheres, permitindo que os indiscretos homens casados também se insinuassem à esposa abandonada, com seus gracejos desrespeitosos.
Pouco antes de Crimércio deixá-la, talvez por achá-la pacata demais, ou por ele não resistir aos olhares e jogos amorosos da esposa de Minucius Libertus, Saturnina engravidou.
Abandonada, desejando morrer, pois não tinha mais seus pais, foi salva da morte por Lucas, o médico cristão, aprendendo sobre os ensinamentos de Jesus com Paulo de Tarso, como aqui já foi comentado.
Que mudança houve em sua vida desde aquele momento...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:13 am

Lembrando esses dias passados, disse a si mesma:
- Ah, Roma, Roma...
Roma perversa, onde os homens não sabem analisar as qualidades da alma, onde os valores somente se representam pelas conquistas materiais.
Roma, seus deuses nada valem; eles são estátuas caladas que nada auxiliam.
Somente há um Deus e esse Deus não é de vingança, mas de amor, perdão e bondade.
Saturnina olhou para o céu e imaginou a face de Jesus, que lhe era desconhecida, descrita por Simão Pedro aos cristãos, com seus olhos a exprimir amor e toda sua imensa ternura.
Ela sorriu, dizendo-lhe mentalmente:
“Seja feita a Vossa vontade, amado Messias.
O que desejais fazer comigo façais, mas, se permitirdes que minhas crianças sigam, elas levarão Vosso Evangelho para muitos.
Sinto, Mestre, que talvez meus dias estejam contados, mesmo assim, dentro de mim há a certeza de que jamais me abandonareis.”
Sim, Saturnina jamais negaria a Jesus, mas tantas fugas a deixavam com sentimento de, talvez, ter falhado com o Cristo.
Todavia, não fora pelo medo da morte que novamente fugira, mas porque se sentia responsável por Lucas, pelas crianças que acolhera, como também pelos queridos amigos e servos.
Quantos sob sua responsabilidade!
Não soubera como, até aquele momento, pudera alimentar a tantos, tão desprovida de valores que estava.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 10:13 am

23 ALEXUS CHEGA COM ROMÉRIO
E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem.

Paulo (II Tessalonicenses, 3:13)

SATURNINA RECEBEU ALEXUS COM O CORAÇÃO SALtitante de alegria, pois a gentileza e a ternura do magistrado realimentaram a pequena semente que florescera em seu coração na adolescência, agora jovem mulher de seus quarenta e dois anos.
A patrícia cumprimentou Romério e chamou Silvina, Ester e Dulcinaea, e logo todos da casa ali estavam para abraçá-los.
Alexus beijou a filha, abraçou Marius e apanhou Saturnina pelo braço, pedindo para que se afastasse um pouco com ele, porque precisava revelar-lhe alguma coisa.
Ambos foram sentar-se em um banco no jardim, onde bela lua iluminava os arbustos.
- Saturnina - aludiu ele, beijando-lhe as mãos -, talvez seja cedo para vos falar de meu afecto, talvez não seja esse o momento propício, mas necessário se faz expressar-me.
Sois a mais preciosa das patrícias...
Ninguém compreenderia o carinho acentuado que há tanto tempo sinto por vós, mas que, só agora, estou aberto para vos revelar.
Todavia, peço que os deuses romanos nos protejam e me dêem a oportunidade de poder acalentar meu coração com vossa presença graciosa e tranquila.
Peço-vos que caseis comigo.
Aguardo amar-vos como mereceis e fazer-vos muito feliz.
Na maturidade, somos mais sábios e por isso acentuo as palavras, confirmando minha admiração.
Aceitais meu pedido?
Sorrindo, mas não retirando a preocupação da face, a patrícia respondeu:
- Sim, aceitaria com alegria o que me ofereceis, desejando ser a mulher que esperais que eu seja, mas haverá tempo?
Sinto meu coração opresso.
Foi por isso que viestes?
Por que viestes? - indagou a ele com olhos lacrimosos e o coração querendo saltar do peito.
- Não vim só por isso.
Vim também para vos advertir.
- Não tenho inimigos..»
- Ledo engano, cara minha.
Quando Romério chegou a Roma, levando com ele Raquel e alguns mais caros parentes dela, procurou-vos em vossa casa.
No entanto, a residência se encontrava cheia de vândalos.
Alexus contou a ela sobre a tomada de Jerusalém e a perseguição de Vespasiano aos descendentes de David.
- Mas... - Antoninus? - perguntou ela, preocupada.
- Lembrai de que vos falei sobre um centurião que a viu com os cristãos no cárcere?
- Sim. Lembro.
- Romério esteve nos cárceres do Esquilino e ficou sabendo que Cassio Primus, antigo soldado de Crimércio, hoje um manco que cuida de cárceres, acusou-vos como cristã ao centurião Marcus Servius, dizendo que vossas ideias contra as leis romanas são abomináveis, influenciando também multidões.
O pretoriano, não vos encontrando na residência, aprisionou Antoninus e sua família.
Saturnina colocou as mãos sobre a cabeça, respirando fundo.
- Multidões? Não tenho toda essa habilidade e não conheço esse carcereiro, nunca o vi...
Como ele poderia saber de minha vida?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 9:30 am

Depois, estamos com novo imperador - olhou-o assustada, quase sem fôlego - ... as perseguições continuam?
- Vespasiano e a revolta aos judeus fizeram isso, minha querida.
Inclusive, ele está à procura de todos os descendentes de David para executá-los!
- Contudo, Alexus, eles não têm o direito de me acusar, sou da nobreza romana e, até agora, ninguém da nobreza foi incriminado.
- Saturnina - ponderou Alexus carinhosamente, fazendo-lhe uma carícia em seus cabelos, desejando acalmá-la e voltando a estar com suas mãos entre as dela no entanto, mulheres sem esposo ficam desprotegidas.
Mas tenho como vos salvar.
O primeiro passo seria nossa união pelas leis romanas.
Isso demonstrará, a toda Roma, que voltastes a pertencer à nossa sociedade.
A segunda forma, se Marcus Servius aqui chegar, seria abjurar a esse Cristo, nem que seja só por algum tempo.
- Oh, Alexus - respondeu a amável senhora, colocando no homem da lei seu olhar cheio de amor -, não conheceis um verdadeiro cristão - suspirou profundamente.
Eu não poderei fazer isso.
Que exemplo daria a todos os que aqui estão, e ainda mais a meu filho?
Oh, meu amigo... o quanto vos agradeço por vos acautelar pela minha pessoa, mas jamais poderei negar o que aprendi com Paulo, Simão, Porfírio, e outros.
Teria vergonha de mim mesma se assim o fizesse.
Tantos já se foram, com tanta coragem...
Saturnina afagou as mãos de Alexus e começou a derramar lágrimas dolorosas.
Ele afagou-a em seu peito, declarando:
- Sempre fostes a mulher de meus sonhos, a aspiração de toda a minha vida, ambição que nos tornou infelizes ontem... mas pensai bem, hoje poderemos ser felizes.
- Meu querido amigo - respondeu ela, erguendo os olhos lacrimosos estou sempre tentando ser forte para não falir.
Na situação em que me encontro hoje, não poderia, jamais, voltar a frequentar as festas romanas, cujas oferendas aos deuses se fazem necessárias.
- Mas aguardemos essa época triste passar.
Vivamos o nosso amor da juventude, minha querida.
Sejamos felizes! Eu também choro de preocupação por todos vós.
Saturnina enxugou as lágrimas, ficou alguns segundos pensativa e fixou-lhe o olhar sofrido, perguntando-lhe:
- Prometei-me cuidar de todos?
Cuidaríeis de meu Lucas e das três crianças?
- Não aceito o que desejais fazer.
Ireis vos entregar!
Confirmais com esse pedido a vossa decisão e não desejo que passeis, logo agora que nos reencontramos, por todo esse sofrimento.
Casemo-nos! Sejamos felizes!
- Feliz, eu? Como poderia ser feliz nesse mundo, com o sangue de inocentes sendo derramado e tantos crimes cometidos?
Não, Alexus, quem conheceu Jesus e ficou ciente do mundo prometido de paz, que um dia teremos, jamais voltará atrás.
Ele veio para nos dar o exemplo, e isso precisa ser levado avante.
Todos devem saber que o mundo, um dia, será um mundo melhor, quando aceitarem fazer sua reforma interior, quando o ser humano não mais tirar a vida de alguém, quando souber perdoar e amar a todos como irmãos!
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 9:30 am

- Mas, minha querida, isso é impossível!
O ser humano não passa de animalidade!
Isso não vai acontecer, jamais!
Não será com vosso sacrifício que Roma renascerá no amor!
Erguendo os olhos para o alto, como que analisando o que soubera sobre Jesus, Saturnina, iluminada pela espiritualidade, aqueceu-se pelos amplexos angelicais e confirmou:
- Há de acontecer, sim, quando o ser humano, desiludido com seu coração inconformado, tiver de procurar por um Deus único.
Há de acontecer quando ele se esquecer de si mesmo para analisar as dores alheias; há de acontecer quando enxergar em seu próximo a sua própria pessoa.
Então, não mais procurará se vingar, mas aprenderá a compreender as falhas humanas, pois saberá ele que Deus é justo, é Pai de todos e quer que nos amemos uns aos outros.
Depois, sorrindo, confirmou a Alexus:
- Alexus, eu estou preparada.
O nobre romano analisava ali, com um sorriso triste, a fortaleza da mulher amada.
- Que nobreza de carácter que mantendes por esse homem Jesus.
Mas - inquiriu-a de soslaio - amai mais a esse Jesus do que a vosso próprio filho?
- Meu filho será um dos que levará, com fervor, os ensinamentos aprendidos - confirmou com lágrimas nos olhos, mas um sorriso de satisfação.
- Saturnina, não tendes medo?
A morte por feras é terrível!
- Meu amigo, honro-me seguir para os braços do Mestre dessa forma.
Sei que ainda não podeis me entender, pois só pode entender aquele que conheceu a verdade.
Ensimesmado, Alexus, acariciando a face molhada da mulher que amava, colocou-a contra o peito e, afagando-lhe os cabelos, que se rebelavam com o vento, confirmou com os olhos húmidos:
- Está certo.
Mesmo a contragosto, respeito vossa vontade.
Podeis contar comigo, Saturnina.
Não só zelarei por vosso filho, mas por todos desta casa.
Serei o escudo que os defenderá para que possais seguir tranquila, pois eles levarão, com firmeza, a palavra desse Mestre que tanto amais.
Realmente, um mundo de paz é o que todos desejamos - e, suspirando fundo, beijou suas mãos e levantou-se.
Foi caminhando em direcção à residência.
Saturnina conscientizou-se de que ele estava internamente atormentado e, adiantando-se para acompanhá-lo, ouviu-o dizer:
- Bem, devo me apressar para partir à procura de acomodações.
- Aqui em vossa casa, como sabeis, há muitas acomodações.
Vou preparar os leitos de ambos.
E, depois de uma pausa, colocou-se a sua frente, esclarecendo-o:
- Alexus, eu também vos amo.
Perdoai-me se não posso assumir esse amor.
- Não posso entender essa vida de entrega por um ser que nem conhecestes.
Também muito temo por minha filha e Marius.
Se ela também se for, então, morrerei de tristeza.
Como criarei sozinho a meus netos?
Caminhando novamente, a patrícia continuou:
- Nada acontecerá com eles.
Dulcinaea, no sítio, saberá se cuidar.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 9:30 am

Marius pedirá licença para tomar conta da vinha, disse-nos ontem.
Sois vós quem precisareis de cuidados com as minhas crianças na adolescência - parou para analisar no rosto a expressão que ele fez e continuou, agora sorrindo, com os olhos lacrimosos - ... adolescentes sempre dão trabalho.
Mas Ester estará convosco e cuidará de tudo.
Ganhastes uma grande família, nobre patrício - depois, confirmou, em voz baixa e decidida:
- Quando voltardes a Roma, se assim permitirdes, irei convosco.
- Entregar-vos-eis a Marcus Servius?
- Eu preciso ver se posso salvar Antoninus e a família.
Temo por aquelas modestas pessoas.
Ele é um escravo liberto que veio parar em minha porta, pedindo-me auxílio.
Jamais o teria feito se não entendesse, pelas lições e exemplos que recebi dos discípulos de Jesus, a bênção e o objectivo real de amarmos ao nosso próximo.
Antoninus tem uma esposa delicada e trabalhadora e as crianças são uma preciosidade.
Além do mais, eles não são cristãos, são maometanos.
Mas não vos preocupeis.
Saberei me cuidar em Roma e sei que Marius cuidará de todos os que aqui ficarem.
- Romério poderá vos levar.
- Por favor, Alexus, guardai essa minha decisão e os acontecimentos sobre Cassio, no momento.
Não preocupeis a todos.
- Podeis ficar tranquila, cumpro sempre minhas promessas.
- Então, entremos para a ceia.
Depois de cearem, sem mais falar sobre o que conversaram no jardim, Saturnina contou, na mesa, o que soubera de Antoninus e comentou com todos:
- Quando soube disso, fiquei preocupada.
Por isso, parto para Roma com Romério, assim que ele for, se me permitir.
- Mas não será perigoso para vós, senhora? - perguntou-lhe Ester.
- Ora, querida amiga, nós não aprendemos que devemos sempre confiar nos caminhos que Deus nos traça?
Confiemos. Aconteça o que acontecer, sabeis que sigo a Jesus e que tenho, por isso, protecção até nos momentos mais difíceis.
Todos calaram-se ansiosos, e Lucas, como que pressentindo o que aconteceria, aproximou-se da mãe, para que ela lhe acariciasse a cabecinha.
- Tu és um menino bonzinho, não é, meu filho?
E tens confiança de que Deus traça os caminhos para todos nós, mas sabes que Ele estará sempre nos protegendo.
O amor de tua mamãe por ti é tão grande que estará vivo sempre dentro de ti, por onde andares.
Lembra-te disso e toma conta dos amiguinhos que agora temos aqui, pois enquanto tua mãe não está em casa, és tu o chefe da família.
Antes de partir, Saturnina também abraçou os filhos que acolhera com seu amor.
Foi até o dormitório e apanhou uma pequena bolsa contendo antigas jóias de família, que havia guardado para alguma necessidade maior, chamou Ester e confidenciou a ela:
- Minha amiga, desejo que fiques com isto.
Se encontrardes dias muito amargos pela frente, como estes que estamos passando, e precisardes fugir com as crianças, troca estas jóias por conduto de viagem e alimentos.
Reservei-as para momentos de muita necessidade.
No entanto, se permanecerdes aqui em Alexandria, talvez não necessites disto.
A antiga serva olhou-a com olhos chorosos e a patrícia a abraçou.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 9:30 am

- Eu sinto que a senhora está com alguma intuição negativa, ao contrário não teria me dado esse conteúdo.
- Mas nada acontece em nossa vida sem que Deus o permita, Ester.
Portanto, não temas por mim.
Com o coração apertado pelos maus presságios, Saturnina despediu-se de todos antes de partir, com um beijo na face de cada um, sob os olhares caridosos e admirados de Alexus, que permaneceria lá por alguns dias mais.
Alexus chamou Marius e pediu que ele honrasse aquela casa, ficando firme se algum soldado lá aparecesse no momento em que ele não estivesse, mas que nada escondesse a respeito da ausência de Saturnina.
Dois dias depois, o centurião Romério Drusco e Saturnina deixaram Alexandria de volta à cidade dos césares.
Em Roma, Cassio Primus não se conformava em aguardar Saturnina. Dizia ele a Marcus Servius:
- Senhor pretor, não acredito que a patrícia venha para “salvar” seu servo, ou seja lá o que aquele homem representa para ela.
Achai vós que ela se colocará no próprio cárcere em seu lugar, sendo procurada como está?
Mero engano, senhor.
Ela pode ser cristã, mas uma domina da sociedade, esposa de Crimércio Zacaro, jamais faria uma coisa desse tipo.
Ela, sim, deve respeitar sua situação de patrícia Romana.
- Talvez, Cassio, no entanto, vejo que estás, de facto, desejando o pior para aquela mulher.
Qual é, afinal, o teu objectivo?
Desejas matá-la?
Isso é vingança por ela não lhe devolver a ardorosa paixão que lhe tens?
- Ora, não é nada disso, ela está contra Roma, não vedes?
Ela tem outro Deus, o Deus dos cristãos, e não fará culto a Domiciano.
Ela coloca inúmeros cristãos contra nossas crenças.
Dessa forma, o Cristianismo acabará por transformar Roma de tal maneira, que não mais teremos nossos deuses, nem nossas oferendas, nem nossas vestais.
Estou com a razão ou preferis dizer também vós, como os cristãos, que não se deve vingar, nem matar ou...
- Está bem, Cassio Primus.
Mando-te para a Alexandria com outro centurião na captura daqueles malditos.
Podes partir amanhã mesmo.
Semanas depois, ao chegar à Alexandria:
- Desejamos ver a senhora Saturnina Zacaro - indagou a Marius, esposo de Dulcinaea, o centurião que acompanhava o carcereiro.
- Ela viajou - respondeu Marius ao centurião desconhecido
- Mentira! Preciso verificar com meus próprios olhos - abruptamente falou Cassio, analisando Marius.
E eu te conheço, és um soldado, mas não te vestes como tal.
- Centurião - indagou Marius, fingindo não ter ouvido o que Cassio lhe dissera -, esse que me dirige a palavra e está ao vosso lado não é o carcereiro do Esquilino?
- Sou eu mesmo.
E vós, pelo que parece, escondeis uma pessoa fora da lei: Saturnina Zacaro.
- Eu não menti.
Ela foi até Roma para ver se salva da morte uma família amiga.
0 centurião fez uma cara de “tudo bem” e, depois, realçou:
- Soubemos que outros cristãos romanos fugitivos aqui se escondem.
- Isso não está correto, meu amigo.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 9:30 am

Como vês, sou soldado, romano também, e ocupo esta casa de meu sogro.
Sei, portanto, o que se passa aqui.
- Não queiras me enganar - continuou Cássio, metendo-se na conversa -, soubemos que aqui há grande numero de cristãos.
- Vede por si próprio, centurião amigo - novamente não dirigiu a palavra a Cássio.
- Cássio, vasculha toda a casa.
Traz todos os cristãos que encontrar!
Cassio assim o fez.
Ao chegar ao átrio, viu as crianças jogando com pedrinhas, sentadinhas no chão e rindo.
Lucas lhe perguntou:
- Olá, amigo, quer brincar comigo?
O Plano Espiritual estava ali, com a protecção que Saturnina tanto pedira na véspera de sua partida, e a luz que envolvia a todos da residência também envolveu Cassio, com ternura, no momento em que colocou o olhar sobre aquelas crianças.
Ele sorriu e acariciou a cabeça de uma delas, lembrando-se de sua filhinha, a pequena Miriam.
Depois, percorreu a residência, encontrando somente Dulcinaea, que falou ser a esposa de Marius.
- Há mais alguém nesta casa? - indagou ele a ela.
- A casa está cheia, não vês? - respondeu a ele indignada, mostrando-lhe as crianças.
Ester e os outros tinham saído para comprar mantimentos.
Então, Cassio deixou-os e voltou, falando, como que secretamente, ao centurião:
- Não há mais nenhum cristão aqui.
É a patrícia Saturnina, esposa de Crimércio Zacaro, antigo comandante de Roma, quem procuramos e, voltando-se para Marius, perguntou-lhe:
- E, afinal, onde poderemos encontrar o esposo da senhora Saturnina?
Nesse momento, chegou Alexus fardado e cumprimentou a centúria, mas, dirigindo o olhar de asco a Cassio, interpelou-o:
- Mas que tanto interesse tendes por Saturnina, nossa nobre amiga, podeis dizer-me?
Ninguém que ali se encontrava para prender cristãos disse uma só palavra.
Alexus, sorridente, continuou a falar ao carcereiro;
- Carcereiro Cassio, vós desejais saber sobre o comandante da vossa antiga legião?
Ora, ele está nas catacumbas ou talvez tenha tido um sepultamento especial com seu corpo colocado nas estradas da Via Ápia!
- Como?
Rindo muito, Marius concluiu, agora dirigindo-se ao carcereiro:
- Morto, ele está morto!
O esposo da patrícia morreu há sete anos, Cassio.
Lembro-me de que uma vez foste conversar com ele ainda naquela antiga e bela residência do Aventino, lembras?
Eu era adolescente, mas jamais esqueci.
Estava lá com meu pai, Murilo Petrullio.
Cassio chegou-se mais perto da centúria e disse-lhe, cochichando:
- Ele quer me ludibriar...
Logo, Dulcinaea, vendo ali o mesmo o centurião que fora com Septimus à sua procura em Roma, comentou:
- Novamente? Vós não desistis de ir atrás de gente inocente?
Eu vos vi com o pretor Lisandro em minha residência.
Nada há de mais importante para fazer? - disse-lhe com desprezo.
- Estais ainda demente pela morte de vossa mãe, senhora? - em resposta, falou para machucá-la.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 9:31 am

Dulcinaea, no entanto, ao ver a face preocupada de Marius, entrou na residência, ainda contrariada, e disse bem alto, para que eles ouvissem:
- O esposo de minha amiga está morto há anos, e estes soldados ainda não se informaram disso...
0 centurião bateu os pés e retirou-se, louco de ódio.
- Cassio, por que não me disse que ele estava morto?
Pensei que ele somente havia se distanciado dela; agora fiquei com cara de paspalho.
Morto há anos e decerto como um herói.
- Isso não! Heróis não desertam.
- Foi uma viagem cansativa e inútil, Cassio!
- Mas não perderemos as esperanças de apanhar a patrícia em Roma.
Saturnina, ao chegar a Roma, procurou, com Romério, por Petrullio, no sítio em que morava.
Lá encontrou-se com ele, Veranda e o filho Murilo.
- Minha amiga, o que te traz até este sítio? - perguntou-lhe Veranda alegremente.
- Preciso falar com teu esposo, minha amiga, se o permitires.
Em sua simplicidade actual, a domina vestia uma túnica clara com um manto na cabeça, desprovida de jóias e adereços.
Veranda, penalizada, sacudiu a cabeça em negação, contudo, consternou-se, dizendo:
- Que possas ficar à vontade nesta casa, cujos habitantes tanto te apreciam.
- Obrigada.
Petrullio se aproximou dela:
- Já sei a que viestes, pois estamos a par dos acontecimentos.
Como alma nobre, viestes saber se podemos fazer algo por Antoninus, não é?
Mas já vou vos responder que isso será impossível.
- Mas por quê?
Marcus Servius prendeu aquela família na falta da pessoa envolvida com o Cristianismo, a minha pessoa.
Ele procurava a mim!
- Pois aqui, entre nós, estávamos comentando se viríeis mesmo.
Veranda achava que sim, porque o facto de se sacrificar pelos outros faz o vosso tipo, mas eu e Murilo discordávamos dela.
Não pensais em vosso filho, domina.
E toda aquela gente a quem ofereceis alimento e moradia?
- Sim, e porque penso neles é que tomo essa iniciativa.
Precisamos de uma vida de paz e uma Roma sem crimes.
Ninguém deve morrer em meu lugar.
Há crianças com eles e jamais minha consciência justificaria esse crime.
O centurião Romério assistia a tudo com tristeza no olhar, mas muita admiração.
Muitos homens não teriam a coragem dela, e os não cristãos, quase todos, se não a maioria, deixariam a pobre família morrer sacrificada em seu lugar.
E ali ele notou a verdadeira diferença entre um cristão, que mantinha os ensinamentos de Jesus, e um romano, com sua crença em vários deuses.
Saturnina baixou a cabeça e, quando ergueu os olhos lúcidos e húmidos ao esposo de Veranda, demonstrou aí todo seu sofrimento e preocupação:
- Sim, ajudai-me, peço-vos.
Preciso fazer a troca de Antoninus e sua família pela minha pessoa.
Petrullio ergueu as sobrancelhas como a inquiri-la e comentou:
- É isso mesmo que desejais, senhora?
- Sim.
- Bem, nesse caso, penso que isso poderá ser possível...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 9:31 am

- Aguardemos para fazer esse contacto com Antoninus e sua família amanhã - falou Saturnina, decidida e com a intenção de voltar a sua residência.
- Ave, senhora! - saudou-a Petrullio.
Veranda, pela primeira vez, abraçou-se à amiga e soluçou em choro compulsivo.
- Saturnina, pelos deuses, não faças isso!
Murilo também a abraçou respeitoso.
- Não vos preocupeis, amigos.
O amor nunca morre e tampouco nossa amizade morrerá, mas nossa consciência, quando conhecemos a responsabilidade e não agimos de acordo, sofre muito.
Portanto, agradeço-vos esses abraços e a gratidão para comigo, dizendo-vos que estarei confiante. Ave Cristo!
- Vamos, senhora, em nome de César, abre esta porta! - ordenou Marcus Sérvius ao bater na residência de Saturnina, acompanhado por Cassio.
Saturnina abriu a grande porta sem sorrir, mas não encontrara ali Antoninus.
- Combinamos de fazer uma troca.
Onde está o meu caseiro?
- Estão chegando, domina.
Nisso, viu chegar Antoninus, com sua esposa e seus filhinhos, acompanhados por dois soldados.
- Olha, ali estão eles - alertou-a um dos soldados, penalizado.
As crianças entraram e abraçaram Saturnina pela cintura.
Saturnina encheu os olhos de lágrimas e sorriu.
A Havia conseguido retirá-los da prisão.
Antoninus ajoelhou-se perante Saturnina e beijou-lhe as mãos.
Assim também sua esposa.
- Levantai-vos.
Está tudo bem - ponderou ela.
Cassio gargalhou:
- Enfim, Crimércio Zacaro, eu me vingo!
E que sofras ainda mais no Hades que criaste para ti!
A vibração de ódio de Cássio foi tão grande que os inimigos do bem ah festejaram mais uma vitória.
Todos na residência sentiram arrepios intensos pelo corpo, que não sabiam discernir.
A nobre romana abraçou Silvina e Raquel, que choravam, e confirmou ao pretor:
- Podeis levar-me, estou pronta.
Nisso, Raquel gritou:
- Não a leveis, por favor!
Carecemos de sua fortaleza, de seus ensinamentos!
Nesse momento, Romério chegou em sua biga.
Já esperava o facto e quis verificar o contexto dos acontecimentos.
Subiu os degraus e abraçou Raquel.
Marcus Sérvius, vendo aquilo, concluiu:
- Ah... sois Raquel, eu sei, esposa de Romério Drusco; deveis estar tratando vossa enfermidade aqui.
Conversei com o nobre Demétrius, o que vos vendeu por estardes com peste, mas não vos preocupeis, tudo fazemos pelo bem de nossa grande Roma, o orgulho de nossas conquistas.
Tende em mente que pessoas que desprezam as leis romanas devem ser banidas.
Nós, os romanos ilustres, não toleramos essa ideia de fraternidade.
E todos devem fazer culto ao imperador.
Os cristãos são vistos com ironia, porque sei que são uma turma de enganadores.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 9:31 am

Podem até terem eles alguns lados positivos como a matrona aqui, que quis salvar seu caseiro, que nem é cristão, mas outros enganam e até colocaram fogo nesta cidade.
Nós, como deveis saber, senhora, pois tendes como esposo o centurião Romério, temos nossas leis e nossas tradições com os deuses em que cremos, mas os cristãos desejam substituir nossas crenças por seu Deus e reformular nossas raízes.
Por isso - falou, dirigindo-se a Romério centurião Romério, devíeis acautelar vossa esposa para que não aparente ser também uma cristã, com esses rompantes de cuidar da patrícia que hoje prendemos.
- Não há nada a temer, Marcus Servius.
Ao se dar conta de que poderia ser presa, Raquel falou temerosa:
- Se estou melhor, é graças aos cuidados da senhora Saturnina.
- Que bom, se estais melhor, não sentireis tanta falta dela - aludiu com sarcasmo Marcus Servius.
A senhora, esposa de um homem da lei, nada deve temer de nós, pois, apesar de ser hebreia, sabemos que não admira essa seita de loucos.
Todos se calaram, temerosos da lei romana, e Saturnina foi levada para o cárcere, onde encontrou Domitila com seu esposo, o cônsul Flavio Clemente, que não quis cultuar como Deus o cruel imperador.
Dias depois, chegaram Alexus e Marius a Roma.
Entristecidos, sabiam que nada mais poderiam fazer por aquela amiga e foram visitá-la no cárcere.
- Minha querida - falou-lhe Alexus Romenius, apanhando suas delicadas mãos vós aqui, nesse estado, e eu sem nada poder fazer por vós...
- Estou bem, querido amigo, tranquilizai-vos.
Deveis saber que jamais esquecerei aqueles a quem amo.
- Mas, mais uma vez, eu vos peço, abjurai, Saturnina, por amor a todos nós.
Poderemos ser felizes juntos. Casemo-nos.
Unamo-nos pelas bênçãos de vosso Deus e levemos todos aqueles a quem amamos connosco, para longe de Roma...
- Não posso fazer isso, eu não conseguiria abjurar.
Não há felicidade enquanto houver escravos e homens usando a espada uns contra os outros.
As lições de Jesus terão de prevalecer algum dia.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 9:31 am

24 Final

AS PERSEGUIÇÕES, COMO SABEMOS, CEIFARAM MUItas vidas, mas, como confirmara Saturnina, instruída por aqueles seres que lá estiveram para acrescentar o conhecimento cristão ao povo neófito, nem todos seriam sacrificados, pois como chegaria o Cristianismo até nós se não pelos primeiros cristãos?
Com excepção de Saturnina e Marconde, apanhado logo depois, todos ali saíram ilesos.
Todas as crianças, seus filhos, como pedira ela, continuaram com Ester e Silvina sob a protecção de Alexus, que jamais a esquecera, mudando-se com eles para as Gálias, cumprindo com sua promessa.
Saturnina recebeu-o como seu esposo em diversas encarnações, elegendo-o como alma de sua alma.
Seu filho Lucas, anos mais tarde, usando o nome de Leonis, desenvolveu-se no Cristianismo, auxiliando com caridade muitos órfãos como ele.
Jamais ninguém ficaria sozinho.
Os órfãos tornaram-se assíduos auxiliares da doutrina de amor, mesmo sem deixar o trabalho a que se confiavam.
Marius e Dulcinaea, na tristeza que os marcara de fato com o desaparecimento da amiga romana, por um tempo pararam de seguir o Cristianismo com rigidez, mas, em seus ambientes, com os empregados da vinha, reuniam-se à noite, ensinando a todos aquele caminho de felicidade.
Raquel seguiu a amar o Cristo em silêncio, também amando o próximo, conforme as lições do Mestre de amor.
Ante a imagem do povo que gritava ansioso, erguendo os punhos, demonstrando todo o ódio ao ver aqueles cristãos adentrarem ao circo, Saturnina orava.
- Aos leões, aos leões! - pediam eles.
A patrícia, olhando à sua volta, penalizava-se da turba revoltada, que não conhecia a sagrada luminosidade do verdadeiro amor, repleto de paz e compreensão.
Com as lágrimas molhando suas faces, pediu a Jesus por todos os que ficariam neste mundo conturbado, desconhecedores das leis do Pai Maior.
Logo, os rugidos dos leões entrando no circo fizeram os cristãos gritarem e correrem.
Ela, porém, pensamento altivo, elevado, não sem temor, mas confiante em Jesus, recomendou a Ele, chorando, sua alma, sua pequena família e todos aqueles amigos.
No princípio, o leão que vinha até ela deitou-se, lambendo sua pata esquerda.
Devia estar machucado, e a senhora pôde assistir, com horror, as pessoas caindo à sua frente, com os animais ferozes abocanhando-as.
Dando as costas para a arena, olhou para o público.
Ante os olhares extremosos e ansiosos de Alexus e Petrullio, que ela não via, seus amigos que não quiseram abandoná-la naquele momento, outro leão atirou-se em suas costas, derrubando-a.
Enfrentara o animal feroz ligada a Jesus, com a dor de Alexus que a amava, e de Petrullio, que, internamente, pedia a seus deuses por ela, odiando aquele teatro de amargura e animalidade.
Eram aqueles laços eternos de amizade que se reencontrariam mais tarde.
Depois do choque do desligamento do Espírito, em vez de sentir o peso daquela tragédia, o ruído dos animais ferozes o cheiro do sangue derramado, a nobre romana sentiu o perfume das flores que lhe eram jogadas por seres alados, do Céu fluorescente de luzes, além de ouvir os esplendorosos cânticos argênteos, dando as boas-vindas àquelas almas redimidas.
Foi aí que visualizou a lhe sorrirem os amigos, Porfírio, Horácio, Olípio, e outros cristãos que haviam partido antes.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 9:31 am

Seu coração rejubilou-se e agradeceu a Deus por achar não merecer tanta glória.
- Ave Cristo, senhora!
Cumprimentaram-na os amigos instrutores e Horácio, muito iluminados.
- Vem, filha, sê bem-vinda, jesus está aqui e te aguarda - estendeu-lhe as mãos Simão Pedro.
Saturnina subiu elevada, com lágrimas de alegria. Havia vencido a barreira da carne!
Irmãos...
Esses seres heróicos, que vieram para firmar, com seu testemunho, as lições do Mestre, não devem ser esquecidos.
Precisam ser seguidos pelos cristãos de hoje, sendo copiados seus exemplos:
- Com Paulo, o exemplo do cristão incansável em espalhar pelo mundo a Boa Nova, sempre na corrigenda de seus próprios erros.
- Com Simão, a própria caridade aos necessitados.
Não eram os carentes que iam procurá-lo em seus últimos dias; ele ia à procura dos desvalidos para lhes oferecer o que necessitavam; incansável sempre, lembrando a pergunta de Jesus:
“Simão, tu me amas?”
- Com os mártires, a certeza de um mundo melhor, firme na mudança de suas próprias tendências, com a fé no caminho indicado por Jesus.
- Com Kardec, em suas diversas reencarnações, sempre em luta para um Cristianismo fiel e puro como nos tempos de Jesus.
Hoje, abraçando o Espiritismo, esse Consolador, que pelo amor de Jesus foi enviado ao mundo pelo Espírito de Verdade, tem-se, em mãos, o pedido da espiritualidade para que o mundo siga sua trajectória de fraternidade, amor e perdão, na transição que já se faz presente.
Que se faça a vontade desse exemplo de virtude, o Mestre Jesus, sempre à procura de quem sofre, restaurando energias perdidas, oferecendo-lhes bom ânimo.
Não se pode voltar ao “homem de ontem”, quando, egoisticamente, emergia-se no próprio ego.
Faz-se necessário um mundo melhor, sem violência, para que toda boa vibração consiga mudar o rumo das catástrofes do Planeta.
De nada nos vale dizer “Senhor, Senhor, nós te amamos” e continuar com os mesmos deslizes.
O início dessa caminhada não leva um dia, mas quando o homem se decidir a mudar, transformar-se-á gradualmente.
Assim como os primeiros cristãos que se sacrificaram em morte terrível por um mundo de paz e de felicidade, que o homem de hoje possa ser um homem de bem, amando ao próximo, com caridade, compreensão e perdão.
Os tempos são chegados, e, com esse tempo, um mundo novo.
O exemplo de cada um, ao seguir as pegadas do Mestre na areia, servirá a muitos, nos dias abençoados que em breve chegarão.
Lembremo-nos do pedido de nosso mestre Jesus:
“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”

Ave Luz! Ave Cristo!


§.§.§- Ave sem Ninho
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