SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:49 pm

6 TENDES FÉ, EU VENCI O MUNDO
Mas alegrai-vos do facto de serdes os participantes das aflições do Cristo.

(I Pedro, 4:13)

VOLTANDO AO DIA, DEPOIS DA CONVERSA COM Lucas, Domitila voltou à casa de Raimunda, que mal podia falar tamanha sua tristeza, mãe de dois filhos que haviam perecido durante as festas de Nero.
- Senhora, eu já tenho as novas orientações de Lucas, aquele que acompanhava nosso apóstolo Paulo.
E onde estão os outros?
- Conseguiram uma carroça com um desconhecido que se apiedou de nós.
Agora devemos apanhar os restos mortais de nossa gente a fim de colocá-los em lugar abençoado, para que sigam em paz.
Há um soldado que sabe onde estão os corpos de Fliminus e Corino, meus pobres rapazes que já estão com Jesus.
Esse soldado brincava com os dois em sua infância e, apesar de não ser cristão, teve piedade de mim.
Mas, minha filha - falou, vendo Domitila molhada da chuva - usa esta túnica, estás encharcada!
Domitila apanhou a túnica e foi trocar de roupa, agradecendo à senhora.
- Viu como Deus não nos abandona, senhora Raimunda?
Sempre nos mostra um caminho para que não fiquemos desalentados - comentou, sempre optimista, a romana simples e afectuosa, já vestida com a alva e seca túnica.
- Tens razão - comentou Raimunda com grave suspiro, continuando sentada e acariciando o cão ao seu lado.
Quando achamos que estamos sós, Ele nos aponta o caminho a seguir e sentimos que nunca nos abandonará.
Mesmo assim, o desaparecimento de meus filhos me fere a alma e essa chuva torna mais angustiado o meu dia.
Vejo a casa vazia, mas suas vozes ecoam, por vezes, perto de mim.
- Sabe, senhora Raimunda...?
Estou sentindo que ficamos como que perdidos sem Paulo.
Ainda estão nos meus ouvidos as suas palavras, naquele último encontro em que fomos juntas.
Eu havia agradecido a ele por sempre ser incansável connosco, ouvindo de sua boca:
“Somos, como a maioria aqui, também um escravo que ama o Messias e quer fazer todas as Suas vontades, espalhando a todos os Seus ensinamentos.
Com Suas lições, retemos nas mãos o segredo da conquista da paz e da felicidade.
Precisamos construir em nós uma ponte, a fim de atravessarmos o precipício, alcançarmos o outro lado e seguirmos com segurança.
O ensinamento de Jesus é essa ponte e o sofrimento humano nada mais é que a incompreensão da vida e a ausência de espiritualidade.
Também será preciso erguer as mangas para sair em busca do trabalho, pois só a doação de nós mesmos, ensinando a todos sobre Cristo Jesus e o que ele veio nos dizer, conseguirá amenizar esses corações sofredores, cansados e aflitos.”
Assim ele nos falou.
- Ai, minha filha...
Sinto todo o peso do mundo cair sobre nossas almas - redarguiu Raimunda.
- Mas precisamos nos manter optimistas como Paulo nos pediu e, quanto a vossos filhos, Raimunda, imagine que eles agora estão com Jesus em um lugar ensolarado, sem violência, sem dores, sem perseguições...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:49 pm

- Tens razão, querida, tens razão - respondeu-lhe a matrona, esboçando leve sorriso, com o olhar dirigido aos Céus, como se lá estivesse vendo seus filhos na paz com Jesus.
- Lucas nos afirmou que, próximo ao Tibre, não muito distante daqui, há um casarão de uma nobre senhora romana de nome Saturnina e ela poderá nos conceder uma ou mais de uma carroça para levarmos os corpos às catacumbas.
- Então, vai procurá-la, minha filha, mas deixa essa tormenta passar; daqui a pouco, já terá passado.
Nas grutas rústicas das catacumbas, muitos companheiros cavavam as rochas para que ali fossem colocados os corpos daqueles cristãos que haviam perdido a vida tão bravamente.
Filhos amados, mães abnegadas, amigos abençoados...
Isso era um trabalho árduo, pois precisava ser feito logo, antes que os corpos se decompusessem.
E tudo estava sendo realizado pelos irmãos, mães e pais, tios e parentes próximos dos sacrificados, revezando-se de dez em dez para que não acontecesse como nos anos anteriores, quando os corpos foram atirados em uma vala e mandados queimar por Nero.
No ambiente soturno e malcheiroso, ali entre os mortos, Simão Pedro fez uma prece, pedindo ao Pai que acompanhasse todas aquelas almas que se entregaram por amor a Jesus e lembrou-se de Paulo, o incansável trabalhador, que conseguiu constituir, em vários locais, a igreja cristã.
Com idade, magro, vestindo uma túnica alva, tendo longa e branca barba e cabelos que se lhe caíam nos ombros, também brancos, Simão Pedro, em certa hora, ao orar, enxugou as lágrimas, antes estacionadas em seus olhos:
“Mestre, estamos aqui para prestarmos uma homenagem a essas inúmeras almas que partiram ao Teu encontro, recordando-nos, nesses momentos que sempre nos trazem a dor, o quanto fomos atraídos pela claridade de Teu olhar, chamando-nos ao trabalho de restauração das almas perdidas de Israel e do mundo.
E Te seguimos, Jesus, naqueles dias, mas também Te negamos; contudo, antes frágeis, hoje somos tão fortes como os que partiram, deixando seus mais caros afectos por amor a Ti, à procura de um mundo consolador.
Hoje estamos preparados para abraçar a cruz a que foste imolado, porque nos imantamos com fé por sabermos que está próximo o momento em que sorriremos mais, avistando o caminho que nos levará à água viva e luz do mundo.
Mas não deixaremos de pedir-Te que o optimismo não nos falte e que a coragem seja nossa alavanca até o escurecer de nossos dias.
Bendito seja Teu nome, bendito o amor que nos ensinaste a vivenciar e esse caminho que nos dispusemos a caminhar.”
E realizou a oração do Pai Nosso, agradecendo a bênção das lições que foram recebidas.
Nisso, Simão Pedro viu uma ponta de um tecido púrpura, certamente de uma túnica que saía para fora do algodão, que envolvia um cadáver, em uma das furnas mais ao fundo, à esquerda.
Aproximou-se rapidamente do local.
Reconheceu, naquele tecido, um pedaço da veste de uma das jovens mais queridas, que estava batalhando pelo Cristianismo na cidade dos conquistadores.
Aproximou-se do rapaz que cavava a laje e perguntou-lhe, com respeito e muito baixo, apontando o dedo em direcção à furna:
- Quem foi colocado ali?
- Não sabemos.
A pobrezinha está irreconhecível.
- Estou preocupado que seja Catina, a jovem que tem o avô paraplégico.
Seus pais a deixaram quando era ainda criança.
Se for ela mesma, nós teremos que ir imediatamente buscar alguém para tomar conta daquele homem.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:50 pm

E num impulso:
- Vou procurá-lo.
Ah, Gerusius, o desaparecimento desses cristãos nos deixa infelizes, todavia temos o consolo de que eles estarão melhores agora, contudo ser paraplégico, sozinho e continuar vivendo, isto sim é triste.
O avô da moça deve estar sem comer desde o dia em que ela foi aprisionada, meu amigo.
E indagou, lembrando-se de um dos escolhidos para substituí-lo:
- Por onde anda Anacleto que não o vejo?
Não sabemos o que me sucederá amanhã e como ficarão os meus pupilos se Anacleto também se for.
Com isso eu me preocupo.
Suspirou prolongadamente, continuando:
- No entanto, eu sei que o Pai cuidará de todos eles, como nos ensinou o Mestre.
- Que eu saiba, assim como vós, Anacleto anda à procura desses familiares.
“Oh... eu oro para que ele permaneça vivo - mentalizou o discípulo de Jesus, aquele que fora chamado de “rocha” pelo Cristo.
Eu não o quero mais em reuniões grandiosas nas catacumbas ou em outros lugares.
Ele precisa se preservar, talvez até sair daqui por um tempo.
Nós precisamos de pessoas fortes e direccionadas aos testemunhos do Mestre, eu já estou velho e sei que minha hora está próxima, mas ele será um bom condutor de cristãos.”
- Senhor, eu poderia me oferecer para ir convosco procurar pelos familiares, mas, como vedes, nós temos ainda muito trabalho pela frente - declinou Gerusius a Simão Pedro, que se sacudiu no lugar onde estava, com um tremor sentido, talvez pela angústia que voltava a sentir.
Tratar ali de solucionar os problemas dos parentes daqueles cristãos que foram sacrificados era difícil, e muitos mortos foram escravos de outros locais.
- Além do mais - continuou o amigo que escavava -, alguns deverão ser queimados.
Não enterraremos todos a tempo.
Já passou um dia e ainda nos falta fazer mais da metade das escavações.
Também estamos ocupando algumas delas que já estão sem os restos mortais.
Pedro direccionou o olhar para fora e reparou, deitados no chão e envoltos em trapos de algodão, mulheres, homens e crianças, todos enfileirados, e corpos embrulhados, mantendo a cabeça coberta por lenços, no intuito de serem reconhecidos.
Sentindo grande angústia, procurou retirar os véus para que lhe fosse revelada a identidade de alguns.
Sentiu profunda dor em seu peito, um sentimento de amor e tristeza ao ver aqueles inocentes massacrados daquela forma, seguidores do amado Mestre.
Então, procurou sentar-se em uma das rochas, indagando ao jovem Gerusius:
- Mas, se não sabes quem foi essa mulher, não reconheces os outros lá fora também?
- Senhor - falou o jovem, parando novamente para fitá-lo de frente -, estamos fazendo o possível para que os corvos e as águias, que estão a rodear estas catacumbas, não dilacerem o que sobrou dos corpos.
E, daqui a pouco, as sombras descerão sobre nós, abraçando todo este local, mas continuaremos a trabalhar até cairmos no cansaço, com a chama dos pavios iluminando muito pouco essas rochas de natureza vulcânica.
Sinto muito, senhor, não há como sabermos todos os nomes desses infelizes; serão enterrados assim mesmo.
Todos nós estamos nessa tormentosa labuta de dor.
- Compreendo. É difícil para todos nós, os cristãos, contudo, muito mais a vós, que chorais a perda dos amados.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:50 pm

Peço que me perdoes, meu filho, eu te auxiliaria se o corpo me permitisse e, se faço essas questões, é porque me preocupo em avisar os familiares daqueles cujos corpos serão reconhecidos...
- A maioria dos familiares já percorreu este local, mestre Simão, e isso nos ajudou porque eles mesmos quiseram cavar as covas de seus parentes, no entanto, para os outros nós temos que pensar como fazer.
Depois de segundos, Gerusius estacou.
Limpou o suor do rosto com o braço esquerdo e concluiu, olhando firmemente para o discípulo de Jesus:
- Lembrei. Respondendo vossa pergunta, lembrei-me de que conheço uma moça romana que também assistia às pregações de Paulo; ela pode saber destes mortos, para nós, desconhecidos.
Ela me disse que faltara ao encontro na noite da prisão, nas catacumbas, por estar adoentada.
Chama-se Domitila. Sempre visitava minha mãe.
Os que estavam aprisionados e os que não foram reconhecidos, todos eles, estão ali fora - apontou com o queixo para os mortos deitados na terra.
Mas ela virá ainda hoje e vou pedir a ela que converse com o senhor.
- Então, terei grande tarefa à frente, procurando todos os familiares possíveis e dando-lhes o conforto, como fazíamos no Caminho, porque não quero mais falhar com o Mestre.
Lembro-me sempre de que Ele me pediu para tomar conta dos necessitados e esse é meu dever; e não é por estar assim, velho e cansado, e aqui distante, que eu não vou fazê-lo.
É, Gerusius, nós temos muito trabalho pela frente.
Vou tratar dos que ficaram e chamar meu filho para te auxiliar nessa tarefa - falou, erguendo-se para sair.
Pedro sentia-se tremendamente abatido.
Havia acabado de falar aos conhecidos que lhe perguntavam como estava, ali nas catacumbas, que se sentia mais forte, mas seu coração estava muito sensibilizado.
Sua agilidade seria constante, cada vez que se lembrasse de todos aqueles que partiram por amor a Jesus.
“Oh, Mestre, até quando teremos de sofrer vendo esses inocentes serem maltratados?
Lembro-me de quando me perguntaste:
Simão, tu me amas?
Eu disse que sim, e por três vezes fizeste-me a mesma pergunta.
Depois, eu soube a causa dessa indagação:
era para ver como eu reagiria frente a situações como esta.
Deste-me a responsabilidade da continuidade de teu trabalho na Terra e eu continuarei a fazê-lo, aonde for, por onde andar, e em todas as vidas subsequentes, se assim permitires. Eu Te prometo.”
A noite já fechava com seu véu escuro o colorido daquela tarde, mas o peso das vibrações angustiosas não se desfazia.
Todos compunham um rosário de lamentos, sem poder dormir, sem poder descansar a cabeça com pensamentos de paz, porque a angústia do que iria acontecer no próximo dia seguia com eles.
Na manhã seguinte, notava-se o recolhimento da cristandade romana.
Somente Simão Pedro acordou de madrugada para orar ao relento, fazendo a marca do peixe no piso arenoso da moradia, para relembrar os dias serenos da Galileia distante, com a presença amorosa do Mestre Nazareno.
Analisando o clarear do dia, com o Sol a nascer distante, ele ergueu a cabeça ao Céu e, com lágrimas, pediu o auxílio celeste, porque, agora, sentia-se com aquele imenso encargo.
Tinha feito muitos amigos ali em Roma, tinha evangelizado uma imensidade de sofredores e procurava estar sempre sorridente e satisfeito, mas, naquele momento, estava praticamente só, com toda a responsabilidade da representação da Igreja cristã.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:50 pm

Paulo já não estava com ele; Aristarco e Timóteo, companheiros de Paulo, haviam voltado antes, sendo que o primeiro levara a carta do convertido de Damasco aos Hebreus, redigida por seu próprio punho.
Paulo necessitou mandar dizer a eles sobre as alegrias de um mundo de verdadeira paz em meio a revoltas e guerras, com a consciência nas palavras do Messias, que colocava o amor como o alicerce de toda a vida na Terra.
Palavras levadas a esses irmãos que, crendo em um Deus único, não creram em Jesus, o Messias tão aguardado, que nasceu para que as orientações reais lhes fossem ensinadas e assumidas.
Toda a tristeza que Paulo sentia, toda amargura por não ter sido compreendido por seus irmãos de ideal voltava à tona na hora da carta aos Hebreus, mas ele sabia que, mesmo com todas aquelas dores sofridas, o Cristianismo se disseminava, formando verdadeiras raízes, que se alastravam rapidamente.
E Simão continuava com seus pensamentos:
“E, naquele momento, até o próprio Lucas já teria partido.
Procuraria Anacleto e entregaria a ele o cuidado da Igreja cristã, já que o primeiro bispo, Lino, fora apanhado com sua esposa Cláudia.
Certamente, eles estariam entre os mortos, talvez irreconhecíveis como tantos outros.
O coração de Pedro apertou-se, e ele, olhando novamente o Céu, vendo a aurora despontar longínqua, pediu ao Pai que concedesse aos romanos um pouco mais de amor e, aos cristãos, a fé e a coragem.”
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:51 am

7 Próximo ao Velabro
Embraçai o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno.

Paulo (Efésios, 6:16)

NA CASA SIMPLES DE RAIMUNDA, ALGUNS DOS vizinhos se reuniram, acanhados, para as preces, já que ela estava adoentada e andava com dificuldade. Todavia, porque todos estavam muito abatidos, ninguém procurava abrir a boca para a oração. Eles se debatiam entre si, perguntando-se que final teriam. Mas Domitila estava ali para levar os conselhos de Lucas aos sofredores, e teriam, sim, que orar em louvor a Deus e pelas almas dos que haviam partido. Quem dirigiria a reunião?
Simão esperou o Sol nascer e foi com seu filho até a casa do paraplégico Onório. Não bateu na porta porque sabia que ele não poderia abri-la, e foi colocando a cabeça para dentro e chamando:
- Ave, Onório, quem está aqui é um amigo.
Nada ouviu. Então, foi entrando e, sem resposta, olhou à sua volta, não o encontrando. Somente, na mesa rústica, jaziam um pedaço de pão e dois copos vazios. Chamou novamente o velho pelo nome e andou até seu dormitório, onde, deitado sobre um catre e desfalecido, o homem aguardava a providência divina. Simão chamou por Isaac, seu filho adoptivo, e ambos apanharam as travessas do catre que o sustentava para levá-lo para sua própria casa.
- Meu pai, onde ireis acomodá-lo em nossa pequena casa? - indagou Isaac.
- Não sei, mas o Cristo pediu-me isso e não posso abandonar este mísero homem. No princípio, o levaremos connosco, depois veremos. Quando se tem um propósito no qual o amor se insere, o auxílio sempre vem. Aqui é que ele não poderá ficar.
A esposa de Pedro, com bastante idade, quando viu chegar aquele aleijado, ergueu o olhar a Simão, como a lhe indagar alguma coisa, mas, entendendo sua preocupação, ele comentou:
- Por hoje ele dormirá aqui na entrada, depois veremos. Vê um alimento para esse pobre homem, que está desmaiado, e dá-lhe de beber.
- Farás aqui uma casa idêntica àquela de Jerusalém, Simão, meu esposo?
- O que sei é que eu preciso fazer isso. Agora saio para ver Domitila, que está com os desafortunados que me aguardam na casa da senhora Raimunda. Se vierem me procurar aqui, será lá que estarei. Nós temos muito trabalho pela frente. Meu filho, tu vens comigo?
- Sim, meu pai. Vamos.
No que sobrara do Esquilino depois do incêndio, Simão perguntou por Domitila, mas nem todos a conheciam, então lembrou-se de um escravo liberto que trabalhava em uma família de cônsules e foi até aquela residência, encontrando somente seu filho. Frente a ele, indagou onde encontraria a jovem.
- Senhor - ajoelhou-se o jovem frente a Simão Pedro, beijando-lhe as mãos.
Simão se retraiu, erguendo-o do chão.'
- Eu sei de todos os passos da senhora Domitila, senhor, porque também sou cristão. Alguns irmãos estão se preparando para ir à casa de Raimunda e também eu vou, senhor, poderemos ir juntos. Domitila nos comunicou que a instrução daquele que acompanhava Paulo e que viajou para a Ásia é a de orarmos nas casas, não sempre nas mesmas, e sem acúmulo de pessoas para não chamarmos a atenção de Tigelino, que procura por cristãos como um cão esfomeado.
- Penso como Lucas, até esperarmos essa poeira de crimes baixar.
- Quanto a reconhecer os corpos dos que se foram, o bem... Isso Domitila já tentou fazer. Ela já deve ter chegado à casa da senhora Raimunda. Iremos lá, todos nós que éramos ouvintes de Paulo.
Simão Pedro chegou lá com o rapaz e pediu a seu filho Isaac que batesse à porta.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:51 am

Uma cabeça de jovem apareceu ali, com olhos indagadores, e Isaac perguntou-lhe sigilosamente:
- Shalom, a senhora é Domitila?
- Sim, ave Cristo.
- Domitila, nós estamos aqui com Simão Pedro, o discípulo de Jesus.
- Por favor, entrem e sejam bem-vindos.
Raimunda esticou o pescoço para saber quem estava ali e sorriu com os olhos lacrimosos, erguendo-se com dificuldade da cadeira em que se sentava e arrastando-se para beijar as rudes mãos de Simão.
- Senhor, viestes acalentar nosso coração de mãe? Perdoai-me que mal posso me mover.
- Sim, filha, eu vim também para isso. Há aqui outras pessoas que perderam seus entes queridos? - indagou o discípulo do Mestre a Raimunda, olhando à volta e vendo somente duas jovens senhoras com ela. - Soube que a reunião seria aqui...
- Muitos não vieram, senhor, muitos não têm forças para vir a este encontro e outros não vêm porque temem a morte. Domitila, ainda há pouco, conseguiu que se levasse alguns cadáveres às catacumbas com algumas carroças. Aquela jovem ao seu lado é Adenaide. Mas sentai-vos, pois sois um ancião e deveis estar cansado por terdes vindo a pé até aqui.
Raimunda, com dificuldade, beijou-lhe as mãos, seguindo o exemplo de Domitila e Adenaide.
Simão Pedro baixou a cabeça, procurou sentar-se e, acomodado, colocou seu cajado ao lado. Depois, franziu a testa indagando à jovem cristã:
- Senhora Domitila, como conseguistes as carroças?
- O próprio Lucas me deu a informação. Cheguei à casa da senhora Saturnina pedindo desculpas e dizendo-lhe que Lucas havia me dado seu endereço porque estávamos precisando das carroças para essa missão dolorosa - baixou a cabeça, entristecida, e prosseguiu - Prestativa, a senhora pediu a seus servos Horácio e Marconde para arrumarem as carroças que tinham e nos convidou para orarmos com ela. Depois, voltamos em paz e mais tranquilos para aquela grande e sofrida tarefa.
Simão ouviu-a e falou, dirigindo-se a todos que ali estavam:
- Estou aqui por outro motivo. Nós, os cristãos, precisamos servir aos familiares dos que padeceram naquele dia terrível. Onde se hospedam os enlutados? Meu filho Isaac está conversando com um amigo, mas ele logo entrará e, então, anotará todos esses nomes para que possamos ajudá-los.
- Está bem, mas estou me sentindo derrotada e infeliz - redarguiu a jovem mulher. - Meu esposo é cônsul e não sabe que aqui estou. Perdi alguns familiares, mas a senhora Raimunda perdeu seus dois filhos.
- Sim, mas sabeis que vossos filhos - falou, dirigindo-se à infeliz mãe - e os que se foram estão em Uberdade e muito mais felizes agora, não é, filha? Assim também nós ficaremos quando nos formos daqui. Lembrai-vos de que o próprio Jesus veio nos mostrar para onde iríamos, revelando-se em luz e beleza a todos nós, Seus discípulos.
- Domitila, pede para Adenaide dar um copo de água fresca ao mestre Simão - pediu-lhe Raimunda.
- Sou Simão, sim, mas mestre somente Jesus o foi - contestou o discípulo do Cristo.
- Fostes às catacumbas, senhor? - inquiriu-o Raimunda.
- Estive lá, sim, há pouco.
- Chegou a ver algum dos meus filhos?
- Não, senhora.
Não vi ninguém e um dos motivos de estarmos aqui é esse - procurou desviar o assunto para não contar à senhora o estado das vítimas do circo -, mas vos peço que só lembreis que eles estão bem agora.
- Como poderão eles estar bem vendo sua mãe sofrer desse jeito?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:52 am

- Ora, nós, cristãos, temos a fé real, que compreende todos os desígnios divinos.
Nada precisamos temer quando formos ao Circo.
Jesus está connosco e essa força é superior a tudo o que conhecemos aqui, pois vive entre nós o amor, e entre eles há a selvageria, que desconhece o verdadeiro amor.
A morte já não nos é temor, mas libertação.
No entanto, irmã, apesar de tudo, nós não devemos odiar a ninguém, muito menos aos romanos.
Nem todos são maus, mas têm de cumprir ordens.
Apiedemo-nos de nosso César.
Ele não conheceu o Cristo e dia virá em que, renascendo em outros corpos, aprenderá sobre Jesus e O seguirá assim como nós fazemos hoje.
Aliás, Jesus nos dizia sempre, que cada ser traz, dentro de si mesmo, uma centelha divina.
- Mas eu sou mãe e perdi meus filhos, não serei capaz de perdoar aqueles que isso fizeram.
- Mas o perdão faz parte daquele que sabe amar.
Se não perdoamos, é porque ainda não compreendemos o verdadeiro legado de nosso Mestre.
A vida pode se nos apresentar uma estrada longa e difícil, contudo é um grande trajecto de aprendizado.
No caminho, encontramos amigos, mas também desafectos, que devemos aprender a amar.
Isso porque estamos todos juntos nessa travessia e, se deixarmos algum irmão infeliz para trás, nós nos afogaremos em mágoas íntimas, levando-as connosco para onde formos.
Amais aos vossos familiares?
- Sim, é lógico, e por esse motivo tenho essa tristeza imensa - respondeu chorosa.
- Um dia, compreendereis que somos todos irmãos uns dos outros, e voltaremos a partilhar com eles a vida aqui, até que, em nós, não haja mais desprezo por ninguém - e Simão lembrou-se de Jesus em palestra com o respeitável Nicodemos.
- Bem, senhor, eu amo o Cristo, mas não penso como vós - retrucou Raimunda.
- No dia em que compreenderdes as lições de nosso Mestre, vos espelhareis nele e sentireis a verdadeira felicidade, filha.
E falou comentando de si mesmo:
- Nós somos felizes hoje, apesar de estarmos nessa cidade sangrenta...
Simão cerrou os olhos em pensamento íntimo:
“Mas jamais a felicidade foi tão grande como nos dias em que acompanhávamos o nosso Mestre Jesus...
Tenho saudades daqueles dias lindos em que conversávamos sobre a barca, que deslizava no ondular do lago Tiberíades e, ao entardecer, debaixo das oliveiras... ah... a Galileia querida, que eu sei, jamais verei novamente”.
Vendo que ele exultava de felicidade, com pensamentos furtivos, deixando uma lágrima escorrer de sua face, Raimunda, para desviar o pensamento de Simão Pedro, indagou-lhe:
- E quem ficará no lugar de Paulo, só o senhor?
Temo que tudo se perca se vós também partirdes.
- Paulo teve muitos colaboradores que já voltaram, e Lucas debandou, há pouco, para a Ásia, todavia, João Marcos veio para nos auxiliar e outros chegarão, estão sempre chegando.
Assim somos nós, os Cristãos...
Uns partem, outros aparecem.
Cultiva-se uma roseira, rosas nascem e fenecem, mas, se pudermos regá-la, outras rosas virão sempre.
Poda-se o roseiral, e um novo roseiral, ainda mais forte e robusto, abarrota-se de rosas.
Assim é o Cristianismo.
Somos nós como ramagens de uma bela roseira, sempre com flores novas.
O Cristianismo é como grande roseiral que devemos sempre cuidar, adverte-nos o Senhor.
Roma é muito grande e necessário se faz estender também a quantidade dos colaboradores, para que possa levar a Boa Nova a todas as comunidades formadas.
Estes servirão de instrutores quando essa poeira, que cerra os olhos de todos nós, baixar.
Dessa forma, terminou o dia.
Pedro deixou, nos corações destruídos, a imagem de novo ânimo, um novo dia que surgiria para a alegria de todos.
Como roseira cultivada, o Cristianismo permaneceria em todos os corações.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:52 am

8 A MELHORA DE PETRULLIO
Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda.

9 Paulo (I Timóteo, 2:8)

NA PARTE TÉRREA DA MORADIA, NO DIA SEGUINTE, apesar do clima pesado pelos últimos acontecimentos, Saturnina recebia, sorridente e cheia de alegria, a visita do amorável instrutor das escrituras e seus acompanhantes, com as prédicas de Jesus de Nazareth, para a oração da noite.
Mesmo notando a ausência de Simão Pedro, ela estava redundante de felicidade.
Entre eles estavam Domitila, Cipriano, Crispin e outros servos do Esquilino, que saíram da casa de Raimunda directamente para lá.
- Ave Cristo.
Entre, venerando irmão Porfírio - recebera-o ela -, e trazei convosco todos os irmãos que vieram para assistir a este trabalho.
Sede bem-vindos.
- “Ave Cristo” - ela ouviu de todos.
- Simão Pedro, o apóstolo, mandou-nos em seu lugar hoje - disse-lhe Porfírio.
Ele está atarefado demais essa noite.
- Todos são bem-vindos.
Na noite quente, em vez de permanecerem no jardim, o instrutor preferiu que se fizessem as preces entre as fortes paredes da grande residência, para que os amigos de Saturnina não temessem serem ouvidos da rua.
- Entrai, por favor - chamou Saturnina a todos os amigos que chegaram.
Hoje não vamos ficar no jardim.
Marconde e Horácio já prepararam o pão para a ceia após as orações, e temos também um vinho que nossos amigos nos trouxeram de sua chácara.
Podereis abençoá-lo, como Jesus fazia.
- Onde estão vossos amigos que não os vejo, senhora? - indagou-lhe o instrutor Porfírio, encaminhando-se para dentro da residência com seus acompanhantes.
- Olhai lá.
Estão descendo as escadas, irmão Porfírio.
Mas me falai mais sobre Simão Pedro e nossos irmãos cristãos lá fora - pediu ela, parando um pouco para receber a resposta de Porfírio.
- Grande tristeza nos assola, domina Saturnina.
Alguns pensam que tudo se perderá nas fogueiras e nos fiéis testemunhos de nossos amados irmãos, no entanto, se fosse assim, Jesus não se daria ao trabalho de descer a esta Terra, sem a certeza de que um dia o Cristianismo alcançaria a humanidade toda.
Nestas perseguições, nós temos que elevar a mente e orar, porque Jesus sabia que isso iria acontecer, ele nos disse isso, mas também nos afirmou que, numa era distante, todos estaríamos reunidos em uma só crença.
E continuou, com voz entristecida:
- Sofremos muito por Paulo, nosso apóstolo batalhador, que a todos acalentou com as lições da Boa Nova desde que aqui chegou.
Nossa dor foi imensa quando o apanharam, mas ele entregou-se a Jesus de tal forma que temos a certeza que foi forte nessa hora.
Tememos agora por Simão Pedro.
Mas, como sempre, ele não pensa só em si.
Nestes dois dias, envolveu-se a tratar dos sobreviventes, velhos e crianças que ficaram, cujos familiares foram sacrificados.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:52 am

Dá-nos a lição da verdadeira caridade, que o Cristo pediu que fizéssemos.
E cá estamos nós, procurando erguer a fé do Evangelho nos corações dos aflitos.
E não podemos nos revoltar contra o imperador e os que ainda louvam vários deuses; precisamos, sim, compreendê-los, como fazia Jesus, e também pensarmos em trabalhar o “amarmos uns aos outros”, porque todos são nossos irmãos, até mesmo aquele que está no poder e foi o causador de todas essas dores e sofrimentos atrozes, não é mesmo?
Suspirando profundamente, Porfírio colocou os olhos lacrimosos sobre Saturnina e referiu-se:
- Como nos disse Paulo, somos todos devedores uns dos outros.
Os que sabem mais são devedores daqueles que nada sabem.
- Todos nós sentimos imensamente, meu amigo, mas temos de ser fortes.
Temos de pedir a Deus a coragem necessária.
Mas, vede, nossos amigos vêm vos cumprimentar.
Vamos - convidou-os a anfitriã.
Os amigos de Saturnina se aproximaram para cumprimentar o instrutor e seus acompanhantes com um grande sorriso, com excepção de Veranda, que permaneceu afastada.
- Avancemos e sentemos no chão para discutirmos as lições de hoje - pediu-lhes o instrutor.
- Não, irmão Porfírio - comentou Saturnina -, há lugar para todos nós, em triclínios e almofadas.
Ficaremos bem acomodados.
Depois dos abraços do instrutor, Porfírio a Veranda e seus acompanhantes, todos foram se acomodando para a apresentação vocal dos companheiros de ideal, com excepção dela, que tornou a subir as escadas.
Uma bela música, criada por alguns cristãos, nessa época da perseguição de Nero, para dar coragem aos perseguidos, foi entoada pelos visitantes.
Bela, mas melancólica, acompanhada ao som de uma kithara, flautas e címbalos.
A melodia dizia assim:
Irmãos nos tornamos hoje
Por todas graças dos Céus
Em busca do bem a fazer
A retirar todos os véus
Da mentira, da vaidade,
Da ilusão, do desafecto
Buscando durante a vida,
Encontrar caminho certo
Jesus seca nossas lágrimas
Acalenta todas as dores Perdoa todas as ofensas,
Amando os pecadores
Lembremos que o Salvador
É a verdade e a vida Nosso Céu, nossa alegria Nosso conforto e bonança
E nas estradas em andanças,
Trazendo a alma em ferida,
Não precisamos chorar Nele tenhamos esperanças.
Lágrimas dançavam nos olhares de todos durante a canção, naquele clima de tristeza profunda pelo desaparecimento de Paulo e pelos sacrifícios humanos.
Porfírio apanhou o documento que levava entre as dobras da túnica e abriu o pergaminho com o Evangelho de Mateus.
Depois de ler um trecho, falou a todos:
- Que a paz de Jesus esteja nesta casa, abençoando-nos, inclusive àquele homem prestimoso e digno que está deitado ao leito, no piso superior, aguardando Suas bênçãos.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:52 am

Veranda, que estava no andar de cima, ao pé da escada, não desejando voltar atrás, mas interessada em saber o que iria ser falado, ficou espreitando o que diziam, depois do silêncio que se fez após a música.
“Ora, como é que ele sabe sobre meu esposo? - perguntou a si mesma.
Ah... Saturnina deve ter comentado a situação de Petrullio a ele”.
- Bem... Aqui estamos nós e os poucos cristãos que se atreveram a sair de casa esta noite, interessados em conhecer sobre a palavra de nosso Mestre Jesus - continuou o instrutor -, e a grande maioria permaneceu orando em suas residências.
Para quem nunca ouviu falar no Mestre, dizemos que poucos reconheceram nele o Messias, aquele que nasceu na Galileia e veio nos exemplificar a lei do amor, o amor a Deus e de uns pelos outros, o único caminho que nos levará a uma vida feliz e que nos libertará do mal.
Murilo, meio indignado com essas palavras, acusou-se:
- Lei de amor?
Quereis dizer que as pessoas devem se amar mutuamente?
- Correctamente, meu rapaz.
- Mas... e nossas guerras, nossas conquistas?
Olhai para meu irmão e eu.
Estamos uniformizados a carácter para defender nosso império.
Se não fizermos isso, nossas famílias perecerão, como nós também...
Achais dignificante que nos deixemos levar por esse ideal e, dessa forma, perdera nossa vida?
- O Cristo falou sobre as dores que viriam e que era preciso que passássemos por isso.
Aí estará o nosso crescimento.
- Mas, sinceramente, apesar de estarmos aqui, eu, meu irmão e sua esposa, assistindo ao vosso comentário, digo-vos que não poderemos abraçar essa doutrina que, certamente, levar-nos-á à morte, se não de um modo, de outro.
Não poderemos agir contra o imperador e as leis romanas.
- Não fales por mim, Murilo - adiantou-se Marius.
Falas dessa forma porque não conheceste quase nada sobre o Cristo, como eu; pelo menos não sabes das coisas que ouvi sobre Ele.
Peço-te, querido irmão, que, primeiramente, aprecies as palavras desse homem, para que, depois, tomes a atitude que lhe convier.
- Está bem.
Desta feita, permanecerei calado.
- Marius tem razão.
Quem não conhece Jesus não deve entender por que a animosidade não deve existir entre as pessoas.
No momento em que se conhece o Cristo, a renúncia precisará ser uma constante em nossas vidas - realçou Porfírio.
Jesus veio nos ensinar um caminho de melhoria interior.
- Renúncia? Renunciar a quê?
Às guerras, Aos temores? Às dores?...
Ora, isso não pode ser.
Havia combinado somente vos ouvir - desculpou-se Murilo, porém, ainda não conseguindo entender aqueles ensinamentos, não pôde se controlar, tinha necessidade de saber mais e mais.
- Jesus, através de Seus exemplos - prosseguiu o instrutor -, trouxe-nos tudo o que Deus quis nos ensinar.
Durante poucos anos somente, mostrou-nos que o importante ao segui-Lo é nos transformarmos em uma pessoa melhor, através da lei de amor.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:52 am

Ele, para quem não o conhece, é o Messias, aquele que o povo judeu sempre esperou e que, quando chegou, não foi acreditado.
E os possuidores de grandes valores nos dizem:
“Quem acreditará em alguém que fala para que deixemos tudo o que temos e segui-Lo?
Quem acreditará naquele que, sendo esperado em berço de ouro, nasce em uma humilde gruta?”
Só que os princípios humanos da Terra estão errados.
Em Jesus está a justiça, a lei, esse preceito divino, que nos mostra o caminho para uma felicidade futura.
Quem não O aceita e age de forma incorrecta não conhece a lei e tem estradas de sofrimentos e dores.
Todavia, quem O segue adquire a paz que tanto almeja.
Jesus sofreu, pois não foi compreendido, mas nos abençoou com o perdão.
E essa graça nos veio até no momento em que estava sendo crucificado.
Ele é um Ser Divino e a Sua luz é tão imensa que chegou a cegar Paulo, o homem de Tarso, Seu apóstolo, como foi chamado o nosso amigo que foi martirizado.
Como nosso irmão Murilo, Paulo não acreditava no Mestre, porque não o conhecia, mas Jesus lhe apareceu como que em uma explosão de luzes muito fortes.
Tamanha foi sua luminosidade que Paulo ajoelhou-se no solo, chorando de emoção e arrependimento pelo mal que havia feito aos cristãos que perseguira na época, e o reconheceu ali como o Messias esperado.
Vindo a Roma, até poucos dias trabalhou incansavelmente, recebendo as dores sofridas como as marcas do Cristo que levava em si mesmo.
Mas, com a graça de Deus, ainda está connosco, em Roma, Simão, o pescador da Galileia que conviveu com Jesus, o discípulo que chamamos de Pedro, como devem saber.
Com o perdão da palavra, sustento em dizer:
o que ele, Paulo, ganhou com isso? - continuou o filho de Veranda, posicionando-se em lhe indagar.
- Já vos destes conta de que é só através do Mestre Jesus que poderemos abrir os olhos para a felicidade?
O que considerais como felicidade, Murilo?
- Neste momento, considero como felicidade ter nosso pai saudável.
Falastes antes em um doente que está lá em cima.
Ele é meu pai, e minha mãe não sai de perto de seu leito.
Ansiosa, revolta-se com todos, porque nosso pai é o grande amor de sua vida, ou acha que tribunos e homens da lei não sentem amor por ninguém?
Minha mãe não quer saber de Jesus, mas, neste momento, deseja, ardentemente, que meu pai se salve.
Felicidade, senhor, vos digo que, para nós todos, tanto Marius, como Dulcinaea e eu também, tenho a certeza, é estarmos unidos com papai, vendo-o saudável novamente.
Marius e a esposa estavam de cabeça baixa, enquanto que todos os presentes, que foram para ouvir a palestra de Porfírio, acomodados em almofadas, no piso, nos triclínios, fixaram seu olhar no instrutor, a fim de saberem qual seria sua resposta.
- Falais bem, meu irmão, pois valorizais o que é importante e tendes uma família respeitável e cheia de graça, pelo amor que vos une.
Pois é esse bem que Jesus quer que permaneça connosco; esse amor abençoado que possa se expandir a todos os que vivem na Terra, tanto para a família, como para os que consideramos vilões, ou seja, nossos inimigos.
Essa é a lei.
Jesus nos ensina que o amor é o frasco milagroso que poderá trazer felicidade eterna.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:53 am

Ante o olhar assombrado de quem não entendia como isso poderia suceder-se, Porfírio continuou:
- Murilo, nós somos seres imortais.
Jesus nos provou isso, vindo a nós depois de sua crucificação.
Trouxe-nos a prova de que jamais morreremos e que, para alcançarmos a felicidade, Ele é o caminho.
Por esse motivo, disse-nos que é “O caminho, a Verdade e a Vida”, mas não podemos somente querer o bem dos nossos familiares.
Precisamos sentir na pele o que nosso cunhado, nossa sogra, nosso servo e nosso vizinho de rua está sofrendo.
Mas precisamos, com o amor que aprendemos a sentir, auxiliar o necessitado, não só com moedas da época, conforme nossas possibilidades, mas também com palavras, conselhos, com os ensinamentos da Boa Nova.
Os presentes que assistiam, entusiasmados, àquelas narrativas, confirmavam com a cabeça para Murilo que, impaciente, teve que discorrer:
- Senhor, vós deveis estar dizendo a verdade, assim como os que aqui estão, pois fazem sinal afirmativo com a cabeça, contudo, não posso, ou não devo, crer em uma coisa desse género.
Acho que nós morremos e tudo se acaba.
- Ledo engano, meu irmão.
Muitos viram o Mestre após sua morte e teve um de Seus discípulos que até colocou a mão nas feridas resultantes da crucificação.
Lembro-me de quando Paulo contou que, quando perguntaram a Jesus se Ele era Elias, Ele afirmou que Elias já voltara, e ninguém o reconhecera.
Quis falar sobre João Baptista, que fora Elias em vida anterior.
A vós, que amais vossa família, Murilo, posso dizer-vos que, perante um adversário, podereis ver a face de um irmão do passado, ou mesmo de um pai.
E no vosso inimigo de conquistas, podereis ver um filho, um companheiro...
É por esse motivo que devemos amar a todos, indistintamente, e, quando esse dia chegar, novos caminhos, novos horizontes se nos demonstrarão.
É necessário fazer o bem sempre, porque há uma lei que retorna para nós o que fizermos aos outros.
- Então, o que será de nós, os soldados?
Em nossa família, somos três militares, com o papai - argumentou Marius.
- No momento, posso dizer-vos somente para que sigam vossos corações.
Nosso apóstolo Simão Pedro nos advertiu, em suas elucidações, que dia virá em que Roma não assistirá mais suas conquistas e se cansará de suas guerras e do sangue derramado de seus compatriotas.
O homem de hoje, com a disseminação das leis divinas que Jesus nos revelou, transformar-se-á, pouco a pouco, em uma pessoa mais humana.
Esse período aproxima-se lentamente; será um período de paz, que também advirá por essas pequenas, mas grandes mudanças nos corações humanos.
Jesus nos afirmou que, um dia, se estabelecerá o domínio do amor sobre a Terra.
E, intuído por guias angélicos, continuou:
- Será como uma vertente de luz que abrirá caminhos aos neófitos, pois, como assim hoje vos determinais, procurando transformar o velho homem que em vós falece, percorrereis caminhos de bênçãos e glórias, sendo um dos grandes precursores do Cristianismo em outra era, muito longe daqui, além-mar.
Marius olhou para sua esposa com olhos interrogativos.
Murilo calou-se pensativo, cerrando as sobrancelhas espessas, a decifrar o mistério que aquelas palavras encerravam.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:53 am

E, voltando-se para os visitantes, o instrutor persistiu:
- Lembremos sempre que temos um compromisso com Jesus, a nossa mudança.
É isso o que Ele espera de nós.
O compromisso com o próximo, sim, mas, em primeiro lugar, o compromisso connosco mesmo.
No momento em que nos transformarmos em pessoas melhores, estaremos seguindo o exemplo de Jesus.
Iniciemos pelo pensamento, depois pelas maneiras e acções.
Pelo pensamento, porque é através dele que os bons ou maus actos acontecem; as uniões de amor, mas também os crimes mais hediondos; a descoberta das plantas que curam, mas também das que envenenam; o pensamento do feliz encontro e a perseguição nos dias que procedem...
Meus amigos, sabemos o quão importante é cultivarmos o pensamento em Jesus no momento em que o ódio deseja fazer morada em nosso ser, quando vimos tantos inocentes nos deixarem pelas mãos do crime.
Porque, se analisarmos bem, o nosso coração age através dele, do pensamento.
Precisamos, por esse facto, ser vigilantes e perdoar, como Jesus nos pediu.
É um caminho difícil, sabemos, no entanto só assim estaremos seguindo a luz de nosso Mestre Jesus e nos tornando, realmente, cristãos.
Agora, vamos orar pelo homem que está no leito e logo nos aprazaremos com o pão e o vinho que a nossa extremada irmã em Cristo, Saturnina, nos presenteará.
Reunidos em Espírito, aqueles acompanhantes do Evangelho, imaginando o terrível momento das perseguições em que passavam todos os cristãos, elevaram o pensamento a Jesus e, orando o Pai Nosso com os olhos cerrados, pediram o restabelecimento de Petrullio, em Seu nome, e que a família que Saturnina, com seu desprendimento, abrigava encontrasse o seu caminho.
Grande luz se formou.
Amigos angélicos, que constituíam a rede espiritual de amparo aos cristãos, os estimulavam com a coragem necessária e a certeza de que, um dia, o amor venceria.
Espíritos que haviam sido sacrificados alguns anos antes protegiam os que ali permaneciam, dando-lhes a certeza da vitória, merecidamente alcançada, para a formação de um mundo melhor.
Enquanto todos oravam genuflexos, Porfírio, homem magro e humilde, vestindo uma túnica surrada, mas extremamente limpa, subiu lentamente a escada que o levaria ao dormitório onde Petrullio descansava.
Lá, aproximou-se do leito, colocando as mãos sobre a testa e o plexo solar do doente, pedindo a Jesus que demonstrasse seu amor àquela família, curando o tribuno, através daquela transmissão energética e regeneradora, alimentada por Espíritos Superiores.
Via-se ali a esposa exausta, que nada mais ouvira, pois fora tomada de um sono profundo, ao lado do marido.
Porfírio, ainda com as mãos postas sobre a fronte e o peito do tribuno, satisfeito, porque sentira a mão de Deus actuar sobre ele, continuava a orar.
O velho Murilo Petrullio iniciou a ressonar tranquilo, depois das orações de Porfírio, e, naquele momento, quem pudesse enxergar através da mediunidade, poderia ver a beleza do facto que ali ocorria.
Com a presença de Espíritos Superiores, uma luz azul era enviada ao enfermo através das mãos do instrutor, adentrando por suas narinas em direcção ao seu sistema endócrino e, através do sangue, restaurando suas células falidas, pelo poder do amor do Pai Maior.
Sentindo que o enfermo recebera a bênção que ele, Porfírio, pedira ao Alto, ao terminar a irradiação, o instrutor agradeceu a Deus e desceu, acomodando-se entre os visitantes, que o aguardavam para o alimento do pão e do vinho.
Os servos cristãos de Saturnina sentaram-se também, a pedido dela, para aproveitarem as orientações que ainda viriam daquele amigo cristão.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:53 am

Murilo e Marius achegaram-se para ficarem próximos ao dedicado amigo e perguntaram a ele, a meia voz, quase sussurrando:
- O que achastes de nosso pai?
Achais que ele poderá morrer hoje ainda?
- Penso que dorme tranquilo, assim como vossa mãe, meu irmão.
- Dorme tranquilo?
- Depois da divisão do pão e do vinho, vós mesmos obtereis a resposta, que não vos posso dar agora.
Induzidos a uma alegria que não sabiam de onde viera, os familiares de Petrullio se entreolharam e subiram rapidamente a escadaria em quase total escuridão.
Ao chegarem ao dormitório, iluminado só com leve chama a óleo tremeluzente na parede, ouviram a voz do pai a chamar:
- Veranda, minha querida esposa, eu necessito de uma taça de água.
- Oh, marido, estás melhor? - assustada ao ouvir a voz do esposo, ela ergueu a cabeça e logo o corpo, para atendê-lo.
- Sinto-me um novo homem.
Veranda colocava-se em pé com as mãos trançadas no peito, exultante de felicidade, enquanto seus filhos adentravam ao local de repouso do pai, abraçando-o, lacrimosos.
- Foi Porfírio.
Ele salvou nosso pai através das preces dos que ali se encontram - atestou Marius, com largo sorriso na face, envolvido pelas vibrações dos seres angélicos que acompanharam Porfírio.
Petrulho, que não sabia do que estavam falando, franziu as sobrancelhas, colocando uma interrogação na face.
Porfírio agradeceu em silêncio, pois, de onde estava, havia ouvido a exultação daquela família.
Foi nesse momento que, descendo, Marius abraçou-se à esposa, que alimentava o menino e, dirigindo-se ao instrutor, confirmou:
- Desejo ser baptizado, irmão.
De agora em diante, sou cristão e, com a aceitação de minha esposa, ela também o será, como nosso filho.
Fostes o responsável pela cura de nosso pai.
- Vos enganais, meu irmão, quem o salvou foi Jesus, com as bênçãos do Pai Maior.
Saturnina subiu as escadas e sorriu emocionada pela recuperação quase instantânea do esposo de sua amiga Veranda.
- Minha amiga - falou-lhe Veranda timidamente, quando a viu adentrar no recinto eu suspendo todo o receio e os momentos de rejeição que demonstrei a ti, para cair de joelhos em tua frente, como faço agora.
Meu esposo está curado!
- Levanta-te, Veranda.
Foi com a bênção de Deus que vieram até aqui.
Jesus tem salvado pessoas através destes colaboradores que se entregam a Ele sem receio ou suspeita de não serem atendidos, porque o fazem com amor.
“Não gostamos de fanáticos”, dizem-nos o povo romano, mas isso não se trata de fanatismo, não achas, minha amiga, que tenho razão?
Seguir Jesus é ter em mente a reformulação de nossas directrizes.
Se Ele nos mostra o caminho certo a seguir, como não iremos percorrê-lo?
Queremos sair da dor que nos assola, compreender o ser humano bruto e insensível, criar um novo campo de amor.
No dia seguinte, refeita pelo sono:
- Como, se não és escrava, nem tiveste fome na vida, te uniste ao crucificado? - reflexiva, indagou Veranda à amiga.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:53 am

- A dor de não mais ter meu esposo me enlouquecia.
Naquela época, eu tinha tudo.
Ser rejeitada, vaidosa como eu sempre fora, orgulhosa e admirada por todos, seria como morrer.
Visitava o Circo Máximo com ele, assistindo àqueles horrores entre os gladiadores, as feras, o vinho em demasia, os prazeres libidinosos nos espaços privativos... além da maledicência a rolar, só para acompanhá-lo.
E, sem razão nenhuma, fui abandonada.
Meus pais não mais existiam e eu iria ser repudiada e largada por toda Roma também, como quem deixa uma roupa velha, não fossem os irmãos cristãos.
Fiquei tão desesperada que, no princípio, eu só queria morrer, como já sabes.
Deves imaginar o que significa uma mulher sozinha aqui nesta cidade.
Naqueles dias, eu não quis saber de nada, nem da criança que soube estar em meu ventre.
Eu estava magoada e era só esse facto que me desorientava.
Então, eu quis retirar minha vida e, olhando para a água do Tibre, sempre em choro convulsivo, cheguei a uma ponte e imaginei que ali tudo logo estaria acabado.
Foi quando um braço forte apanhou-me e levou-me com ele:
“Vem, minha irmã - disse-me -, não sentirás mais dores, nem maiores sofrimentos, pois começarás a te identificar com o verdadeiro caminho da vida”.
Ao se lembrar desse facto, Saturnina sentiu que seus olhos encheram-se de lágrimas.
Agora era feliz, porque aprendera a compreender a razão de viver.
Vendo os olhos estupefactos de Veranda, que não soubera tudo o que ela havia passado, pois também a havia abandonado naquela época, continuou:
- E isso aconteceu próximo a esta casa.
Por esse motivo, vendi o que tinha para comprá-la e, assim, lembrar-me do dia em que renasci para o verdadeiro amor.
Mas para isso tive de mudar.
Pensar diferente, modificar a estrutura formada.
As sobras dos valores eu doei aos cristãos.
Acolhi-me nos braços de Jesus, porque estava derrotada e venci as barreiras do mal.
Dissimulando, como para não demonstrar que abandonara Saturnina também, Veranda arguiu:
- Por que não me procuraste naqueles dias?
Todos sabem que teu esposo fugiu como desertor e foi morto anos depois, no caminho para a casa da nova esposa.
Ainda não posso aceitar o que irias fazer a ti mesma, mas, ao menos, compreendo-te agora, e peço aos deuses que as coisas se transformem para melhores em tua vida.
- Desertor? Nova esposa?
O que te contaram sobre ele?
- Disseram-me que... bem, isso não deveria ser eu a te dizer, mas teu esposo não só abandonou a ti, mas ao império de Cesar, por uma bela e jovem mulher, indo residir com ela próximo da costa Siciliana.
E, notando que a reacção de Saturnina não fora de extremo ódio nem desejo de vingança, Veranda continuou:
- E agora, o que me dizes?
Se soubesses disso naqueles dias, irias odiá-lo e irias atrás dele como qualquer romana, ou preferirias ainda morrer por Jesus, satisfazendo teu coração na renúncia e na dor interna?
Sim, porque muitos cristãos são chamados de ridículos e sem carácter, porque, se são procurados pelas perseguições, não são capazes de se defenderem.
Jesus vos ensinou a serem pessoas sem distinção, humilhadas?
Onde o orgulho de uma matrona romana?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:53 am


Sorrindo angelicamente, Saturnina acariciou a face de Veranda, respondendo-lhe:
- Ouvindo sobre o Cristo, aprendemos a mudar.
Só abraçando essa causa é que ficamos assim. O Cristianismo nos transforma em pessoas melhores.
Ensinou-me tantas coisas que agora sou essa pessoa que estás conhecendo, pois a renúncia faz parte de todo o ser que quer segui-Lo.
- Como mudaste!
Diz-me, como te sustentas?
- Eu e meus amigos vendemos frutas e verduras, de um sítio que ainda me restou.
- Verduras? Não pareces a mesma, Saturnina.
Não consigo acreditar em tamanha mudança...
Bem, eu vou ver se Petrullio já acordou e depois descerei para estar contigo.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:54 am

9 MÃOS À OBRA NO AMOR CRISTÃO
Ninguém tem maior amor do que este: de dar a vida por seus amigos.

Jesus (João, 15:13)

NAS CATACUMBAS, AINDA A REMOÇÃO DOS CORPOS imperava.
Ali na casa de Raimunda, Isaac chegou levando consigo alguns cristãos, conhecidos do Esquilino, que chegavam de dois em dois para não serem notados entre os outros.
Via-se que o receio e o temor estavam em todas as faces.
Ao colocarem-se diante de Simão Pedro, uns ajoelhavam-se, outros, chorando, beijavam-lhe as mãos, pedindo-lhe que os abençoasse.
Era como se o céu estivesse desabando sobre suas cabeças e precisavam daquele representante de Jesus com eles, o discípulo a quem Jesus havia chamado de “a rocha”.
Simão, sem jeito, não deixando que se ajoelhassem, apanhava suas mãos e elevava-os, mostrando aparente felicidade, mas, confiante na posição que adquirira ah de “empresário do bem”, beijava-lhes as faces.
- Acomodai-vos, que precisamos conversar - argumentou Simão aos presentes.
E, procurando Isaac, sigilosamente falou-lhe:
- Faremos o que está ao nosso alcance, para esses filhos da dor.
Depois, pediu a ele que fizesse a lista das pessoas que precisavam de auxílio familiar e lhe entregasse.
- Está certo, pai.
Isaac retirou do bolso um pedaço de pergaminho, uma cópia das anotações do Evangelho, que ele sabia de cor, e anotou ali mesmo alguns nomes.
- Mas... e se forem muitos, meu pai, como vamos atendê-los? - parou de escrever Isaac, indagando ao velho Simão, com voz muito baixa.
- Farei o que fiz nos tempos em que ainda não existias, meu filho.
Pedirei, vou adiante.
Alguém se apiedará de nós, que teremos a nosso cuidado esses infortunados, velhos e crianças.
Temos que dar alimentos para muita gente, mas também cuidados.
Bem, vamos ao assunto:
o primeiro, por favor - e foi chamando um por um, aos que lá aguardavam.
Vendo aproximar-se um humilde rapaz, indagou-lhe:
- Nome?
- Chamo-me Eudócio e sei de um casal de velhos, pais de Deolinda, que era sustentado pelo genro, esposo dela.
O casal padeceu com os cristãos e, com eles, seu filho de treze anos.
Os velhos ficaram abandonados.
Eu não tenho condições de fazer alguma coisa por eles.
Moram nos fundos da casa de Deolinda e agora não temos como acomodar essa situação.
- Aí está um início da reestruturação dessa gente.
Se os pais de Deolinda moram nos fundos, quem sabe poderemos alugar a parte da frente para fazermos o que estamos planejando, em auxílio a eles e a todos os infortunados?
A casa é muito pequena, Eudócio?
- Bem... nem tanto, e poderá abrigar alguns necessitados; ainda pode-se construir um aumento daquela residência, pois o terreno é amplo.
- Óptimo. Quem é o segundo?
- Sou Anatole e atendia aos meus senhores, que, naquela noite angustiosa, foram ouvir os ensinamentos de Paulo nas catacumbas.
Eles não voltaram mais para casa e eram pessoas sem filhos.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:54 am

Onde ficarei eu?
O que será de mim?
- Trabalharás para essa obra, assim terás alimento e moradia. Qual o próximo?
- Mas posso levar alguns braços a mais até eles conseguirem novos senhores? - ainda averiguou Anatole.
- Sim, o momento é de trabalho.
- Chamo-me Miriam, mestre Simão.
Fiquei desamparada, meu marido foi, naquele dia, com meu menino às catacumbas e não mais retornaram - a jovem mulher suspirou e desandou em choro doloroso.
- Ora, minha pequena filha - abraçou-a Simão, envolvido pela dor da jovem todos nós choramos, uns pelos outros, mas devemos chorar mais por aqueles que agem com brutalidade, que nos escarnecem, que nos machucam e apedrejam.
Eles, sim, são dignos de que choremos por eles, pois não encontraram ainda esse caminho que nos faz tão bem e nos permite amar e sermos amados, sempre ao encontro com a verdadeira paz.
Não pensemos somente em nós, colocando-nos no desequilíbrio que nos leva à mágoa e não permite que possamos dormir ou nos alimentar correctamente.
A dor da saudade é punhal afiado em nosso coração, sabemos disso, mas pensemos na felicidade em que estão todos eles, revestidos, nesse momento, com a presença e o amparo de Jesus, em pleno reino de amor, iluminados pela bondade divina.
Depois, olhando-a nos olhos, indagou-lhe:
- Tens outros filhos?
- Tenho um casal de gémeos com dois anos, eu havia ficado com eles em casa, naquela noite.
- Agradeceste a Deus por isso?
Afinal, se tivesses ido, eles estariam agora na mais completa orfandade e solidão.
Ergue as mãos aos Céus, minha filha.
Vê o lado bom da vida.
Vendo a carinha de sofredora que a moça fazia, colocando leve sorriso nos lábios, ainda lhe perguntou:
- Poderás colaborar com a limpeza do local onde nos alojaremos?
- Sim.
- Então, estás colocada.
Assim poderás receber para o sustento de teus filhos e o teu.
- O próximo?
E assim foi até altas horas.
Simão Pedro estava satisfeito porque, reunindo os mais necessitados em um só lugar, muito mais fácil seria cuidar deles.
Aquela casinha singela, que fora de Deolinda, seria como parte da casa do Caminho, onde, anos distantes, pôde auxiliar a tantas pessoas.
E, despedindo-se de Raimunda e Domitila, saiu mais tranquilo com seu filho para conhecer o casal de idade que havia perdido a filha e o genro e pedir-lhes a autorização de ocupar a casa da frente, pagando algum aluguel.
O casal de velhos, Zulmira e Metinus, chorou de alegria ao ver que alguém iria cuidar deles e cedeu a casa, não desejando valores.
Simão agradeceu ao Pai e a Jesus por tão rápida resolução da primeira parte de sua iniciativa, com a colocação dos que ficaram desamparados, pois a segunda parte também resolveria, pedindo auxílio em mantimentos aos que assistiam sua evangelização.
E lembrou:
“Quando estamos dispostos a fazer o bem, a oportunidade sempre aparece e as soluções se criam por si só.
É Deus quem rege esse Universo e está presente sempre, direccionando todas as nossas boas acções.”
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 9:54 am

- Vamos, Isaac - pediu ele, quase mancando pela dor que sentia em suas pernas -, teu pai quer ir para casa e está cansado neste dia de calor.
Roma, semidestruída, como que inflamava de abafamento naquela tarde e cheirava mal, com estrumes dos cavalos espalhados pela via pública e o azedo dos alimentos estragados jogados ao chão.
Simão Pedro caminhava passos, agora mais lentos, pela Via Nomentana, onde Paulo se hospedara pela primeira vez antes de viajar à Espanha, próximo à prisão pretoriana.
Lembrava-se do amigo e seu coração como que pulsava mais forte, fazendo-o sentir taquicardia, com leves pontadas no peito.
Sabia essa dor ser o efeito dos dolorosos momentos que todos ali haviam passado naquela semana.
Mas precisava ser forte.
Muito cansado, caminhando sempre, no andar que podia, Simão limpava seguidamente a face com o manto de sua túnica, sem nada dizer ao rapaz que caminhava com ele.
Sua vontade era chegar ao lar e atirar-se ao leito com os pés ao alto para descansar, mas lembrava-se, cada vez que se aproximava de casa, das palavras do Messias ao final de mais um dia de trabalho.
“A barca navegava, oscilando entre as ondas leves, naquele findar de dia.
O quente Sol, que aquecera os corpos dos pescadores durante a tarde, agora se punha.
Entre eles, o silêncio se fazia, porque, cansados, todos os pensamentos eram dirigidos à chegada e ao descanso de que necessitavam.
Simão Pedro sentia-se exausto.
Jesus ali adormecera, largado ao som da água batendo nos cascos da embarcação.
Assim, quando a barca parou, André desceu para amarrá-la ao tronco e os demais saíram para puxar as redes.
Simão, com seu zelo, procurou acordar o divino amigo, que continuava a viajar pelas sublimes esferas do Alto, em companhia daqueles que comungavam com ele no compromisso da Boa Nova.
- Senhor, senhor, nós chegamos - chamou-o Simão, sacudindo, suavemente, a túnica do Messias.
O Mestre, abrindo os luminosos olhos e colocando-lhe o olhar cheio de amor, com leve sorriso nos lábios, certificou-se dos pensamentos do discípulo e comentou:
- O descanso é o laurel de todo trabalhador, mas, para aquele que ama, imprescindível será alimentar as almas dos familiares que os aguardam:
com o sorriso da chegada, o carinho no olhar e, na boca, a palavra perfumada, que lhes erguerá os ânimos.
Simão entendeu que eram para si mesmo aquelas palavras.
Estava imaginando que, chegando ao lar, retiraria as sandálias dos pés, comeria seu pão, tomaria seu vinho e iria se deitar para o repouso, sem pensar em mais nada.
Lições aprendidas toda vez que voltaria ao lar, dali em diante.
Tanta coisa aprendera com o Mestre que, naquela época, não se dava conta.
Assim, depois de abraçar a esposa, sorrindo, ele lembrou-se do paraplégico que, por medida de segurança, havia deixado lá.
Sua esposa acudiu chorosa:
- Simão, meu marido, estou tomando conta do enfermo, mas não tenho como cuidar dele.
Deve haver um homem para cuidar de homens.
Onde ele dormirá?
- Mulher, por hoje, nós o deixaremos aqui, porém amanhã ele terá para onde ir.
Falei com alguns cristãos e eles vão nos ajudar na nova casa que abrigará os mais necessitados.
- Mas não farás uma casa como o Caminho, não é?
Estávamos aqui tão tranquilos...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:26 am

Apanhando-a pelos ombros para olhar em seus olhos, Simão Pedro aludiu:
- Olha, mulher, eu sinto que partiremos logo, mas quero deixar esses infelizes acomodados.
Nem poderia ser diferente, Jesus me pediu que assistisse aos necessitados.
- Sim, eu entendo.
Oh, meu marido - falou ela, descansando a cabeça em seu ombro -, quando poderemos ficar em paz e ter nosso cantinho de felicidade como em Cafarnaum?
- Sim, lembras agora daqueles dias venturosos, e eu, ainda nessa tarde, lembrei-me também.
Naquela época, tinhas tantas preocupações por não termos valores e porque precisavas plantar, enquanto que Joana de Cusa tinha suas servas; agora percebes como éramos felizes...
Infelizmente, nunca damos o valor preciso ao momento do “agora”.
Tínhamos, como sempre tivemos, muito pouco, mas, somado a esse pouco, um reino de alegrias e longos dias de paz.
Fomos tão felizes unidos...
Depois, viemos para cá, seguindo a nosso irmão Paulo, trouxemos a família, sendo que nossos dois filhos aqui foram aprisionados...
Tememos por eles, sim, e pelos que nos acompanham...
Ah, como não fomos agradecidos ao Pai o suficiente naquela época, junto à família e aos nossos amigos.
E, quando começamos a acompanhar o nosso Mestre, o quanto fomos iluminados com Sua sabedoria...
- Simão - indagou ela, desejando voltar ao assunto inicial de que estavam tratando -, como sustentarás aquela gente, se nós mesmos dependemos de outros?
- Disso tomo conta, não te preocupes.
Agora vamos à refeição, que teu esposo precisa descansar.
Depois de comer o pão que Sarah havia feito, Pedro foi se deitar e os pensamentos tomavam conta de sua mente:
“Paulo partiu... oh, Deus!
O quanto teremos ainda que suportar?”, dizia a si mesmo.
Assim, pensamentos iam e vinham. Lembrou-se do que Paulo havia lhe contado sobre sua chegada a Roma.
E, desta feita, Pedro perdeu o sono.
Contara-lhe aquele Apóstolo, que, assim que chegou a Roma, com Timóteo, Aristarco e Lucas, encontrou-se com cristãos que, alegres, aguardavam-no.
Paulo havia chegado com o coração em júbilo por mais aquela conquista, ainda que, como prisioneiro.
Através das palavras daqueles amigos, ele soube que houve outras perseguições aos cristãos anteriormente, ali em Roma, e que, do ano 58 em diante, os cristãos eram aprisionados, sofrendo as maiores aflições.
Eram eles acusados por quaisquer coisas.
Contaram-lhe que muitos foram os mártires do Cristianismo; inúmeros os que foram amarrados em postes, desencarnando pelo fogo, nas cruzes, servindo de alimento aos animais selvagens ou apedrejados, e que abraçaram essa verdade, sempre confiantes na vitória final, provando à humanidade sua certeza na existência do Messias.
O populacho extasiava-se ao vê-los morrerem daquela forma, pois tinham sede da crueldade sanguinolenta.
Mas jamais haviam visto algum nobre romano nesses ferozes distúrbios.
“Todos nós sabemos, Simão - dizia-lhe Paulo -, que a reformulação das mentes humanas tem certa urgência para que o mundo se transforme para melhor, como Jesus assim deseja.
A importância está na mudança individual.
Então, logo que aqui chegamos, arregaçamos as mangas e fomos à luta.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:27 am

Formamos comunidades nos bairros desta grande cidade.
Sabemos que, com a fé cristã, um dia derrubaremos as grades da violência, da maldade, das guerras, das conquistas e, sem dúvida nenhuma, da escravidão, como também dos diversos deuses, que, esculpidos em pedra, sempre serão mudos e surdos.
Não permitiremos que o cansaço nos desanime.
Aqui os murmúrios sobre a Boa Nova já percorriam os subúrbios desde muito.
Naqueles dias, nesta Roma, comentava-se o que estava acontecendo em Jerusalém e também se falava sobre nosso esforço e as perseguições por nós sofridas, quanto ao ensinamento de uma vida de felicidade.”
Ainda Simão, com certa amargura pela perda do amigo, voltava a se lembrar de que ele, Paulo, fora um dos algozes do Cristo, mas transformara-se e fora incansável na divulgação do Evangelho e formação de tantas igrejas, desde quando tivera a visão de Jesus no caminho de Damasco.
Contara-lhe o antigo Saulo, que, depois de tantos ataques que mandara fazer aos cristãos na Judeia, prometeu dedicar-se inteiramente a Jesus, sem mais pensar em si mesmo.
Foi nessa época que, com o sofrimento, aprendeu a derrubar seu enraizado orgulho, tornando a humildade sua eterna companheira.
- “E como sabes, Simão, eu jamais parei de trabalhar” - complementara Paulo.
Simão virou-se no leito.
E novamente o fez.
- Não estás bem, marido?
- Não te preocupes comigo, querida.
Estou é um pouco cansado e com dores nas pernas.
- Farei um unguento com as folhas que temos aqui.
- Não precisa, minha querida.
Não quero perturbar o teu sono.
Dorme, dorme.
E Simão continuou a lembrar as palavras de Paulo, naquela época:
“E depois de eu ter passado anos abrilhantando as mentes e os corações com a luz do Evangelho fora da Judeia, como deves lembrar, fui perseguido, aprisionado e muitas vezes açoitado e apedrejado, mas meu ideal sempre foi pregar a “luz do amor” nesta cidade dos conquistadores; aqui, onde os homens e a maior parte da população atuam como verdadeiras feras humanas, sedentas de vítimas para ver-lhes o sangue jorrar.
O amor ao próximo em Roma não impera, ao contrário, vê-se coisas terríveis acontecerem, mas sei de alguns romanos que são diferentes.
A nobreza já se agita, ou porque isso os fere, ou o amar ao próximo e a um só Deus os toca.
Mas há pessoas com sentimento, isso porque as pessoas se diferem em seu interior, o que não alcança a grande maioria sanguinária.
Como todos sabem, cheguei aqui como prisioneiro, conforme pedi ao governador Festo para ser aqui julgado e posso dizer-te que, apesar das grandes lutas sofridas, agora me sinto como que realizado e assim estarei até que minha hora chegue.”
Simão suspirou profundamente, o que fez sua esposa perguntar-lhe, novamente, se estava bem.
- Sim, estou bem, perdoa-me.
Aquele discípulo de Jesus desejava dormir pensando nos grandes compromissos que teria no dia seguinte, mas vieram, em sua mente, suas andanças por inúmeros lugares fora da Judeia, para divulgar os ensinamentos de Jesus; lembrou-se das perseguições e da ânsia de chegar a Roma, para continuar a evangelização.
Lembrou-se da recepção que Paulo lhe fizera, arrumando a casinha para ele e sua família, com todo o necessário, neste lugar onde agora estava, próximo ao Cemitério Israelita, nas proximidades da Via Ápia.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:27 am

Derramou mais algumas lágrimas.
“Como eu fiquei triste com a perda de Tiago, quando li tua missiva - confiara-lhe o amigo, agora desencarnado.
No final, tornamo-nos grandes amigos, lutando pelo mesmo ideal, por isso essa tarefa não pode parar.
Nada devemos temer com o desaparecimento dos nossos, porque novos cristãos, tão laboriosos quanto nós, Simão, estão vindo dia a dia, e, depois deles, outros, e assim por diante, até que os horizontes se alastrem pela Terra.
E tua presença aqui, para todos os cristãos, é importante, pois conviveste com o próprio Cristo naqueles anos e isso enriquecerá as conversações com todos.”
O antigo pescador da Galileia recordou-se de que, ao chegar a Roma, seguiu Paulo pela cidade e ficou deslumbrado com as construções apoiadas sobre gigantescas colunas, suas estátuas, seu grande circo, suas imensas termas e anfiteatros e tanta riqueza na cidade esplendorosa em meio à penúria humana, dor e sofrimento.
Ele soube, desde que Paulo ah estava, que muitos foram cativados para o Cristianismo, e entre os sofredores havia também alguns romanos.
Nos seus últimos dias, depois de ter formado comunidades com vários instrutores, Paulo, sentindo uma Roma efervescente de ódio e vingança ao Cristianismo, no intuito de preservar as pessoas que os assistiam nos salões alugados onde ensinava a Boa Nova, começou a se reunir com todos depois da meia-noite, no silêncio das catacumbas, que eram sempre fora da cidade.
Isso pela sede de Tigelino, pretor de Nero, em apanhar todo e qualquer cristão.
Sim - pensou Simão Pedro -, eu sei que, pela minha idade, Roma me verá desaparecer como aconteceu com o companheiro dilecto.
Então, levantou-se do leito e foi apanhar um pouco d’água. Saiu à rua.
A noite estava clara e as estrelas, aos milhões, eram como brilhantes no seu cintilar sereno.
Ergueu o olhar para cima e orou:
“Senhor, aqui estamos para Te servir, contudo pedimos-Te forças para que nosso corpo, cansado, não nos detenha no movimento cristão e para que consigamos levar fé aos corações e, ainda adiante, a Tua palavra.
Para isso, necessitamos coragem.
Temos bom ânimo, mas nosso coração se aperta quando vemos mulheres, crianças e até famílias inteiras sendo dizimadas nessa cidade tão bela, mas tão cruel.”
Depois da oração feita com todo o amor existente em seu coração, Simão deitou-se para acordar no dia seguinte, já com o corpo totalmente recuperado para iniciar nova labuta.
A espiritualidade cuidava assim dos amados do Mestre.
Fora como se os anjos do Senhor lhe tivessem retirado as dores da alma, que lhe justificavam toda a fadiga do corpo.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:27 am

10 Salúcio e o acerto de contas
Ouvistes o que foi dito: Amareis o teu próximo e odiareis o teu inimigo!
Eu, porém vos digo:
Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem!

(Mateus, 5:43 e 44)

SALÚCIO PRIMUS VIVERA SEMPRE COMO HOMEM cumpridor de seus interesses políticos e pessoais.
De família ilustre, amara Veranda desde que a conhecera, ainda quando ela era adolescente, até chegar o dia em que a pediu em casamento a seus pais.
A jovem era bela, mas aceitara aquele comandante das tropas romanas somente para ser bajulada, recebendo presentes e mimos seguidamente, o que a encantava.
A presença de Salúcio Primus, apesar de culto e inteligente, nada lhe dizia.
Seu coração era fútil e absorto a tudo o que via na vida, até começar a balançar ao ver de longe um centurião desconhecido.
Já era noiva de Salúcio naqueles dias.
Em companhia de sua ama, acompanhou os passos do rapaz, na tarde em que este abraçara Salúcio, como se ele fosse um deus na Terra.
Aproximando-se mais e não deixando que eles as vissem, quis ouvir a conversa entre eles:
- Ave, amigo! - ouvia o noivo dizer-lhe.
Quando voltaste das conquistas a Roma?
- Ave, Salúcio!
Voltei hoje e estou aqui me apresentando para novas ordens.
O que houve de original nesta Roma, depois dos anos em que passei fora?
- Em vista de teu interesse, guardarei a surpresa para depois, porque Roma continua como em seu início, a mesma ou pior do que na época em que “foram sequestradas as virgens Sabinas”.
A sede dos conquistadores é coisa fenomenal, e quem sofre somos nós.
Os césares não vão para as lutas, mas mandam os que podem morrer por eles.
Roma nos mostra mortes, assassinatos, decepções e os adultérios... ah... e esses estão ficando com fama.
- Vejo que, de Roma, os ventos nos trazem sempre as mesmas notícias desprezíveis, mas... e a surpresa?
Que surpresa é essa?
- Estou amando de fato.
- Diga-me quem é ela.
- Não te direi seu nome agora, mas posso dizer-te que ela tem estatura média, cabelos castanhos, olhos vivazes; é linda e sabe o que quer.
Ah... quanto ainda terei que esperar para me casar?
- Por que não te casas logo, já que estás assim tão... tão... angustiado?
- Ainda preciso esperar para tê-la em meus braços.
Aguardo o pai dela chegar para tratar desse assunto.
Novamente me afastarei por meses sem conta e, quando voltar, espero que ele já tenha retornado.
- Que bom. Enfim te revelaste um homem, que não é frio como parece, mas que tem uma alma de...
- Apaixonado!
- Ora, Salúcio, tiraste de minha boca o que eu ia te dizer.
A jovem Veranda, que ah os espreitava com sua ama, entre a multidão, voltou para casa e, naquela noite, não pôde dormir.
Virava-se e revirava-se de um lado a outro.
Foi quando teve a ideia de fazer uma festa para o noivo e amigos de ambos, perspicaz como muitas patrícias romanas.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:27 am

- Minha mãe, olha o que estou pensando.
Acho interessante conhecer as amizades do meu noivo antes de me casar, assim como ele as minhas, o que achas?
- Interessante pensares nisso.
Mas teu pai ainda não chegará nesta semana.
- E que importa?
Seremos nós duas a receber os amigos, sem o papai.
- Não acho saudável esse raciocínio. Em Roma, não se usa esse desrespeito com o chefe da família, filha.
Aguardemos teu pai.
E pensou Veranda:
“Mamãe tem razão, pois se esse amigo é fiel a Salúcio, jamais me verá como alguém que já lhe tem amor.
Esperemos o tempo resolver esse sentimento que me invade a alma”.
Os dias passaram, e, em uma tarde, caminhando no Fórum Romano com sua mãe, Veranda pediu-lhe para ir às termas e viu, com amigos de seus pais, o jovem que lhe roubara o coração.
Salúcio estava distante de Roma.
Permaneceu sôfrega por instantes, com o peito arfando, angustiada.
Logo que aqueles amigos as viram, convidaram-nas para serem apresentadas ao centurião.
Foi na troca de olhares que o encanto aconteceu.
Murilo Petrullio sorriu-lhe, e, como eram somente eles dois os jovens ali entre alguns senhores, uma firme amizade floresceu.
Petrullio pediu licença para a mãe da jovem que ali conheceu, começando a visitá-la seguidamente, sem imaginar que ela era a noiva do amigo, que, até aqueles dias, não o havia apresentado à jovem com quem se havia comprometido.
- Minha filha, eu não vejo decência nisso...
És noiva de Salúcio Primus...
Não continues com esse rapaz...
- Quando papai chegar, eu digo a ele que quero desistir de meu noivo.
Não me casarei com Salúcio.
Desejo ser feliz com o homem que amo, e eu amo Murilo Petrullio, e ele retribui o amor que lhe tenho.
Salúcio, viajando seguidamente e sem nada perceber até aquele momento, voltou a visitá-la e reparou em seu desinteresse, então, em uma tarde, quando lá chegou, encontrou-a de mãos dadas com Petrullio, encostando a face em seu ombro e caminhando com ele entre os arbustos floridos do jardim.
Atrás de uma árvore, para não ser visto, notou o olhar amoroso de sua noiva ao amigo e se certificou de que se amavam.
Aí se deu conta de que a perdera.
Retirou-se para pedir satisfação aos pais de Veranda, quando estes, desenrolando uma série de desculpas, avisaram-no que os jovens já estavam casados.
Um ódio mortal marcou a face de Salúcio, que prometeu vingança.
Sendo Murilo seu subalterno agora, mandá-lo-ia sempre para longe de Roma.
Mas não se dava conta de que Veranda jamais deixaria de amar o amigo e que as distâncias somente aumentariam o sentimento que eles alimentavam.
Mas a vingança, como se falava em Roma, era um prato que se comia frio, ele teria a oportunidade de tirar a vida do centurião, mais cedo ou mais tarde, que agora passara a ser tribuno.
Assim, preparava diversas armadilhas, sem demonstrações, dirigidas a ele, até que, por acaso, Murilo ficou ciente dos acontecimentos.
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