SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:28 am

Soube que a esposa amada fora a noiva especial por quem Salúcio se apaixonara.
Procurou-o e tentou conversar com ele, mas o comandante o renegava.
Petrullio consternou-se, sem saber como agir, porque não abandonaria sua esposa.
Era tarde demais.
Com dois filhos, eles formavam uma família unida pelos laços do amor.
O antigo amigo, no entanto, acreditava que teria sua chance, no momento certo.
Assim, depois de inúmeras e infrutíferas ocasiões, naquela tarde, à espreita, vira-o chegar à sua propriedade, quando teve a oportunidade de atacá-lo pelas costas, enviando-lhe uma lança que lhe poderia ter sido fatal, não fossem as preces de Porfírio e o auxílio dos Espíritos do Alto.
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Ave sem Ninho

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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:28 am

11 A CURA DE PETRULLIO
Em tudo dai graças, porque essa é a vontade de Deus em Cristo Jesus, para convosco.

Paulo (I Tessalonicenses, 5:18)

ENQUANTO SIMÃO PEDRO ANDAVA ÀS VOLTAS COM seu filho adoptivo, em auxílio às multidões sofredoras, Porfírio voltava à residência de Saturnina para continuar com o trabalho espiritual de passes curativos a Petrullio.
No terceiro dia, o esposo de Veranda já começou a se movimentar na cama e, depois de duas semanas, andava um pouco, mas com a dor que sentia na cabeça, levava nela uma faixa que mantinha sempre apertada.
Sentadas em bancos de pedra, apreciando no jardim florido a grama verde a estender-se entre grandes ciprestes, que formavam um caminho para um portão no muro, Dulcinaea e Saturnina viram Lucas e o pequeno Marius saírem a correr atrás de borboletas.
Ambas riram e a esposa de Marius comentou:
- Essa é uma visão dos jardins dos deuses do Olimpo, Saturnina.
- É verdade, minha amiga.
Nosso jardim termina logo ali, naquele portão, porque cedi parte dele a...
- Não me digas que doaste parte desse jardim! - argumentou Veranda, que vinha chegando com o filho Marius e o esposo.
Bem que notei que não tinha sentido esse caminho terminando em um portão, no muro.
- Sim, meu jardim vai até aquele portão, pois, além, mora uma família muito pobre, com seus filhos - afirmou sorridente a nobre romana.
- Ridículo isso, Saturnina.
Colocar teu filho a morar com esses miseráveis além do portão?
Não mais a conheço, tamanha a diferença que agora existe em ti - reclamou Veranda, sentando-se próxima às duas senhoras.
- Sinto-me feliz assim.
Não tenho família.
Não tive irmãos e meus pais se foram ao túmulo muito cedo.
Aprendi, com as lições de Jesus, não só a pensar em mim e em meu filho, mas abraçar a todos porque, como Ele nos ensinou, nós somos uma grande família.
Foram estes a quem acolhi, miseráveis antes. Hoje, no entanto, são felizes com o pouco que eu pude lhes dar.
- Não fôsseis a amiga que sois... teríeis em mim um inimigo - protestou Petrullio, com ironia, enquanto se aproximava, sentando-se no banco em frente à patrícia.
Eu não sou a favor de cristãos.
São ridículos e miseráveis também, além do mais, são contra as nossas leis e os nossos deuses romanos.
Não diferenciar uma patrícia de uma serva?
Todos serem iguais? Ora...
Isso é uma afronta para uma mulher ainda bela e nobre como vós.
Não devíeis aceitar esse tipo de coisas.
Nós, os romanos ilustres, não toleramos a ideia de fraternidade.
Saturnina, sentida, em sua quietude, somente sorria.
- Mas foram eles que vos salvaram, meu pai.
E, se me lembro bem, quando caístes, chamastes pelo Deus dos judeus - confirmou Marius, sentando-se ao lado de Petrullio.
Depois, dirigindo-se à sua mãe, pediu:
- Perdoai-me, mamãe, sei que nada queríeis contar ao nosso pai sobre esse facto, mas não pude me controlar, tive que alertá-lo sobre o que houve aqui em relação à sua cura.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:28 am

- É, até eu pedi pelo Deus deles no momento de dor, mas isso não quer dizer que acredito nessas baboseiras.
O Cristianismo coloca deuses e imperadores no chão, e ainda pisa sobre eles - comentou a esposa do tribuno.
- O Cristianismo vos salvou, meu pai.
- Ora - argumentou rindo o esposo de Veranda para Marius -, se isso não é uma questão de anedotário...
Quando criaste essa falsa ideia, meu filho?
- Meu pai - continuou o jovem -, vós estivestes quase morto, não podíeis mexer as pernas...
Não foi, Dulcinaea?
- Isso é verdade, meu sogro.
Foi o instrutor Porfírio e todas as orações, que unidos fizemos, o que vos salvou.
Iríeis permanecer paraplégico.
- Não aceito crendices ou feitiçarias.
Sim, sinto-me muito bem, mas isso deve ter sido uma dádiva de nossos deuses.
E, se não retirares o que falaste sobre ser cristão, vais ter comigo, Marius.
E, olhando para a face triste de Marius, rematou:
- Bem, filho, não precisas assumir uma crença que não tens somente porque eu estou melhor.
Pensas que foram eles, mas isso é uma ilusão de tua parte...
Agora, um abraço de teu pai, que tanto ama a sua família.
Marius ia dizer alguma coisa, mas sua mãe fez um sinal, colocando o dedo sobre os lábios e franzindo a testa para que ele nada mais comentasse.
Petrullio, desejando ser agradável para com a anfitriã, lembrou:
- Tenho lembranças de nossos encontros familiares, Saturnina.
Teu esposo foi sempre um exemplo para mim; pena que aconteceu o pior com ele, enveredando-se para o lado contrário.
Ah... essas mulheres... - suspirou - há de todas as espécies, mas as piores são as que apresentam na face a sedução, que destrói.
Quando vemos mulheres muito belas a nos assediarem, o que não nos falta...
Virou-se para a esposa, que o olhou com desconfiança; então, desdobrando-lhe um sorriso, fez questão de assinalar:
- ... O que não nos falta, mas que, no entanto, nada nos soma.
Tornamo-nos mais sábios com a idade.
Nada como termos alguém cuja cumplicidade envolve e o real amor comanda, porque tudo, quase sempre, termina em linda e fortalecedora amizade.
Amar não é fácil e está além do desejo e da sedução.
É necessário cultivar essa planta delicada que, por vezes, quer apresentar fortes ramos, que querem nos sufocar e precisamos extrair.
- Sufocar, extrair? - Veranda que, até agora, ouvia calada, exaltou-se.
- Não me referi a todas as esposas; mas a nos livrarmos das más esposas, porque há aquelas amoráveis e perfeitas.
Sorriu para Veranda como se a estivesse namorando e continuou:
- Pecado que o pobre do nosso amigo Crimércio, teu esposo, Saturnina, um verdadeiro Zácaro, resultante de nobre família romana, das mais prestigiadas desses nossos tempos, tenha se portado como um adolescente, mimando aquele tipo de mulher.
Saturnina, entristecida, baixou a cabeça e nada respondeu; no entanto, Veranda cutucou o esposo, que logo rematou:
- E ele saiu perdendo, porque bela e nobre como vós, Saturnina, só poucas mulheres conseguem ser.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:28 am

E para agradá-la mais, visto estar acolhendo ali toda a sua família, como que declamou:
- “Sois como as próprias vestais romanas, belas e inocentes, que guardam o fogo sagrado dos deuses, trazendo, na cabeça, coroas de brios de pura brancura”.
Penso que o próprio Ovídio diria isso, com expressões de grandeza, não como eu, que não sou poeta.
Talvez ele tenha retratado as boas e dignas matronas, de nossa sociedade, dessa forma.
- Ora, meu amigo, não me analiseis com insuficiência de conhecimento.
Não sou o que falais.
Tornei-me, sim, uma pessoa simples, procurando ser um pouco melhor.
Sou hoje alguém que deseja servir sempre.
Nada faço de incomum e, se mantenho a aparência de viúva desalentada, isso é mero engano.
O que meu esposo Crimércio fez, errado ou não, foi seguir seu coração.
Ele não mais me amava, sentia-se infeliz comigo e, na união entre esposos, pelo menos há que haver respeito e amizade - falou como verdadeira cristã, que tem como exemplo o próprio Mestre.
- No entanto, jamais agirias assim como ele, Saturnina.
Sempre foste respeitosa e recatada! - aderiu Veranda, desejando deixá-la melhor, depois das palavras do esposo.
- Mas o julgamento só cabe ao próprio julgado.
Devemos, sim, olhar para dentro de nós e vermos o que em nós está errado, para podermos nos melhorar.
Somos realmente, ainda, seres rudes e impolidos.
- Isso está ficando conversa de cristãos.
Entre os cristãos, todos querem ser como o Cristo, mas a maior parte é formada por farsas humanas - comentou Petrullio, enfastiado -, mas nada do que estou falando se refere à amiga patrícia, não é, Veranda?
- Vós não conheceis os cristãos, meu pai, falai com Murilo; ele vos confirmará o que aqui assistimos.
Minha mãe, vós ouvistes alguma coisa enquanto Porfírio falava? - indagou a ela Marius.
- Se ouvi?
Como iria ouvir se estava ao lado de teu pai?
- Mamãe... eu estava lá quando agradecestes a senhora Saturnina pelo instrutor cristão...
- Bem... - comentou ela, virando-se para o esposo - eu ouvi alguma coisa, pouca coisa antes, porque, depois, eu dormi como a abençoada Isis, mas não sou cristã, não é, meu esposo?
- Mas, se acreditaste que me salvei por orações, é porque...
- Ora, vejo a família toda reunida neste jardim primoroso!
Flores, perfume no ar... que lindo dia! - interrompeu-os Murilo, o jovem, que chegava.
E o que estão discordando aí?
- Nada, meu filho - atendeu o pai, desejando acabar com aquela conversa - diz-me, conseguiste falar com o centurião Romério?
- Ele não estava; foi buscar alguns escravos em Óstia, destinados a um grego romano, mas deixei esse endereço a um soldado que está indo para lá, ainda hoje.
O homem para quem Romério levará aqueles escravos veio montar sua residência, que está sendo reconstruída aqui em Roma.
Mas, o que vos diz respeito, meu pai, é que falamos com Salúcio Primus.
Apesar de eu notar em sua face a surpresa, somada à indignação com a saúde que agora tendes, mandou dizer-vos que ficou feliz em estardes bem, porque podereis logo voltar ao trabalho.
- O quê? Contaste a ele o quê, afinal?
- Tive que lhe abrir a visão com notícias satisfatórias, porque soubemos que foi ele o causador de vossa queda.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:28 am

Como ele vos odeia, meu pai.
Deveis ter maior cuidado com ele.
Outra coisa eu vos peço:
o contacto que tivemos com o instrutor da matrona Saturnina, nesta casa, deve ser guardado em segredo. Prometei-me.
- Ora, eu nem sei o que aconteceu...
Marius falou- me de coisas que até as “Águias Romanas” nos impedem de comentar.
Olha para mim, meu filho.
Tu que és meu primogénito...
Não achas que um romano como eu, deva, sim, bater no peito com respeito às minhas tradições?
- Meu pai - explanou-se Murilo, vendo na face da mãe a preocupação e o receio pelas palavras que diria -, vamos deixar no esquecimento toda essa conversa, pois não temos argumentos para debater convosco e a própria Roma o que vimos aqui, porque isso foi obra de um Ser Maior, contudo, se alguém souber o porquê de aqui virmos e o quê vimos aqui, tanto Saturnina, seu filho Lucas, nós, vossos próprios filhos, estaremos comprometidos, como vós e mamãe também.
Portanto, meu pai, nada vistes, só viestes fazer uma visita à amiga de nossa mãe.
Não pensas assim também, Marius?
Não esperando a resposta do filho mais moço, Petrullio respondeu:
- Isso confirma que assimilaste a desgraça desse cristianismo de loucos! - indignado, afirmou o tribuno, fechando-se, tendo ao seu lado a esposa a acariciar-lhe a face.
Sabes o que isso representa para nós, os tribunos romanos?
- Pode ser, meu pai, mas, se abrirdes a boca, além de nós, também estareis sacrificando inúmeras pessoas simples que vieram aqui para orar por vossa recuperação.
Foi lindo, meu pai.
A visão de ver pessoas com mentes elevadas, dirigidas a um Ser que amam; fazer preces, pedindo pela melhora de um homem que não conhecem e, ainda, a um homem do governo romano, receando todos serem sacrificados por isso...
Oh, meu pai, isso fez com que nosso coração se elevasse e, em comunhão, agradecêssemos.
Sentimos, todos nós, o ambiente se embelezar com luzes e perfumes...
Isso porque vos amamos!
- Bem... Se foi assim, mesmo a contragosto, pois estou sendo traidor de Roma neste momento, respondo-te que jamais sairá uma palavra sobre o Cristianismo de minha boca, meu filho.
Podes ter certeza.
Eu não iria te envolver, nem a ninguém daqui, para uma discórdia romana.
Obrigado, Murilo.
És meu filho mais velho e confio no que dizes.
Sempre foste um rapaz sério e seguidor dos princípios de tua pátria.
Se assim pensas, é porque isso é certo.
Mas te proíbo abraçares essa causa.
- Está bem, não a abraçarei, no entanto agradeço a todos os que aqui estiveram orando por vós.
Todos ali, agradecendo internamente a melhora daquele bom chefe de família, sorriram.
Em outra das sete colinas de Roma, no Fórum Romano, passava em fila um grupo de escravos, comandados pelo centurião Romério Drusco, que se encaminhava para a residência de Demétrius Lipinos.
- Sabes para onde nos levam, Clarêncio? - inquiriu ao amigo o escravo judeu.
- Não sei. O que sei é que essas cordas estão cortando minhas carnes, Vitorio.
Mas olha para trás e vê como estão as mulheres de nossa Jerusalém, ali no grupo.
- Está quase escurecendo e essa pouca luz não me deixa vê-las, mas penso que devem estar muito cansadas.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:29 am

- Agora falta pouco.
Logo poderão se refazer do cansaço - ouvindo, respondeu-lhes o centurião.
Caminharam todos mais meia hora, até chegarem frente à majestosa Villa Romana, nos términos de sua reconstrução.
- Alto! Parados até segunda ordem! - gritou ele a seus soldados.
Chegamos. Esta é a residência dos romanos vindos de Chipre.
Romério dirigiu-se a um escravo que os aguardava na frente da residência:
- Mareio, tu que és servo do senhor Demétrius, podes avisá-lo de que seus escravos já chegaram.
- Sim, senhor!
A residência de Demétrius era de grande beleza.
Sete colunas gregas frontais manifestavam todo o poder do antigo proprietário, por sua arquitectura e o seu empenho em embelezá-la.
- Clarêncio, vê! Que bela casa.
Que Deus nos conceda pessoas, se não boas, ao menos compreensíveis aos nossos defeitos - sugeriu Vitorio ao amigo, em um tipo de oração.
- Não te baixes tanto, Vitório, aprende a ter dignidade, afinal, não somos pessoas ignorantes e viemos de família abastada...
- Mas quem entende isso?
Eu já aprendi a ser assim.
Rastejo, se necessário, por um pedaço de pão.
Tornei-me servo e escravo, e é isso que sou.
Envaidecia-me pelo orgulho que todos abraçávamos na Judeia, mas agora...
Agora não somos nada, nada! - relatou com olhos lacrimosos a Clarêncio.
Para retirá-lo daquela visão mental, o companheiro de desdita comentou:
- Ora, te infelicitas?
E o que pensas de Raquel e Silvina?
Duas mulheres inocentes e puras que só Deus sabe o que deverão passar nas mãos de seus senhores?
Vê se colocas os olhos nelas antes, para depois te lastimares.
Uma das duas mulheres, Raquel, com seus trinta anos, esbelta, olhos e cabelos negros, canelas finas, nariz afilado, lábios corados e volumosos, andava junto a Silvina, uma moça delicada, de apenas dezasseis anos.
As duas abraçavam-se, chorando ao chegarem, preocupadas com o que seria a vida para elas dali para a frente.
Dos doze novos servos do grande senhor daquele casarão romano, as mulheres eram as que mais sofriam de cansaço e temor, por quem lhes seria o patrão.
Os soldados foram puxando as cordas do primeiro da fila, interligadas pelos que vinham atrás, ordenando:
- Andem, andem, não temos tempo a perder e já está anoitecendo!
Tenho em mente que todos devem estar cansados e esfomeados como nós.
Então, andem! Vamos, andem!
O centurião caminhava na frente daquele grupo de escravos, e Demétrius Darius, o filho do dono daquele palácio, sorria ao ver aquelas belas mulheres ali, que poderiam servi-lo, nos dias que viriam, com as carícias, que até agora não conhecia.
- Viste o olhar do homem para nós, Raquel? - inquiriu indignada a adolescente.
- Teremos que suportar tamanha humilhação?
Ah... Se assim for, mato-me. Mas antes farei tudo para que nada aconteça contigo, minha querida jovem.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:29 am

- Essa maneira dócil de falar comigo, Raquel, desperta em minha alma uma saudade imensa de minha pobre mãe, que ainda ficou na Judeia.
Como e quando seremos livres?
Romério mandou todos adentrarem na ala do pátio interno, com o local especial da criadagem ainda em reconstrução.
Exaustos, alguns homens que estavam na frente não abriram a boca, outros, entretanto, como Polinário e Felineu, ao chegar, ajoelharam-se, pedindo por água, levando ao chão outros que estavam presos a eles pelas amarras.
Romério deu ordens aos soldados:
- Soltai-os, soldados!
Não temos que temê-los agora!
Esse povo judeu é miserável e adepto a se vingar, mas chegamos ao destino.
Podemos retirar-lhes as cordas dos pés.
E, virando-se para o filho de Demétrius Lipinos que chegava, apresentou-lhe a lista com o nome dos referidos auxiliares da nova residência.
Este chegou perto do centurião e apanhou a lista de suas mãos.
- Essa reserva de escravos que nos mandas parece ser muito boa.
Comentou fazendo a inspecção do pessoal, mas, ao achegar-se a Raquel, apanhou seu queixo:
- Mas esta deve ser de primeiríssima, não é, centurião?
Gosto de seus lábios carnudos, bons para serem beijados. ^
Romério ensimesmou-se, porque, em toda a viagem, viera analisando Raquel e admirando-a.
- Deixa-me ver a outra.
Esta tem as feições, de... - parou de falar para pensar no adjectivo que lhe daria e concluiu - já sei, bicho do mato!
Um tigre pronto para saltar em mim.
Ah, ah, ah! - escarneceu, troçando.
Os escravos Vitório e Clarêncio entreolharam-se e fecharam o cenho.
Notando a cara de choro de Silvina, continuou:
- Mas como está calada e chorosa!
Então, não vais sorrir para teu novo senhor?
- Senhor Demétrius Darius - adiantou-se Romário -, as senhoras estão cansadas.
Melhor seria que descansassem.
- Hum... Por qual das duas te apaixonaste, centurião? - e, vendo Silvina sorrir do que ele dissera, analisou-a.
Olha, a mais jovem sorriu...
Ah, se sorrir para mim, depois conversarei mais com ela.
Romério Drusco afastou-se das duas jovens, não desejando demonstrar sua preocupação por Raquel e foi ver os outros escravos.
- Por que sorriste para esse imbecil? - Raquel, indignada, perguntou à adolescente.
- Gosto de tipos romanos fortes e corajosos como esse homem. Já não o temo.
- Cala-te! Sorriste para mostrar a ele que não és bicho do mato, um tigre selvagem, isso sim, e que podes ser mais simpática.
Se tua mãe te visse, por certo te espancaria!
Lembra-te de que, aos gritos, ela me implorou para cuidar de ti?
Desde aquele momento, eu fiquei responsável por tua pessoa.
- Ora, Raquel... um dia, terei que ser de alguém.
- Mas jamais deverás ser deste tipo de senhores por tua própria vontade.
- Mas sei que esse rapaz gostou de mim e, se ele me quiser...
Bem, nada poderei fazer.
- Menina endiabrada!
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:29 am

Sabes no que te tornarás?
Queres ser lapidada?
- Ora, em Roma, não há esse hábito.
Mas não faças essa cara raivosa para mim... estou somente brincando...
- Olha, Silvina.
Essa não é uma época boa para brincadeiras, estamos sofrendo, e o sofrimento é dor e não alegria.
Nisto, chegando o senhor Demétrius, aproximou-se para passar vistoria nos escravos, que agora, sem as cordas, sentavam-se no chão.
Peito erguido de romano baixo e forte, trazendo na face certa firmeza, com seus olhos muito negros e vivos, assinalando uma rudeza maldosa, caminhava entre todos os escravos, que se levantaram em respeito, ao sinal do centurião. Demétrius olhou as duas mulheres e, com firmeza, perguntou a Romério, com os braços nas costas e o olhar firme, responsável pela tropa de soldados:
- Onde está a escrava negra que comprei?
- Falei-vos que ela já havia sido vendida antes. Lembrai-vos?
- Isso não podia ter acontecido.
Ofereci por ela mais do que a todos.
Quero-a. Vai e traze-la!
Sai antes do alvorecer do novo dia - ordenou-lhe.
- Mas, senhor, não será possível.
Ela, como já falei, foi vendida.
- Sabes para quem?
- Rindolfo Saltino, um jovem bem-apessoado.
- Diz a ele que ela já tinha sido vendida a outro e que o leiloeiro enganou-se.
É uma questão primordial e, se isso não for feito, remeto de volta todos estes escravos ao local de onde vieram.
Todavia, para que ele não se sinta logrado, mando o dobro do que deve ter pago pela escrava, assim não contestará.
- Está bem - confirmou Romério Drusco.
Mas, por hora, aguardamos que nos digais onde colocaremos esse grupo aqui.
Estão exaustos e necessitam de alimentação.
- As mulheres podem adentrar em casa e fazer a refeição para todos, e os homens, estes dormem ao relento mesmo.
- Mas podem fugir...
- Deixa-os embaixo das árvores, ou seja, lá onde quiserem ficar.
Eu, Demétrius, quando alguém daqui foge, apanho o chicote para colocá-lo nas mãos de quem é mais forte que eu.
Ninguém fugirá, eu te garanto.
Meus cães jamais os perderão.
Parecendo entendê-lo, um dos cães rosnou de dentro do canil onde ficavam sempre presos.
Romério deu ordem aos soldados e foi encaminhar Raquel e Silvina para fazerem o alimento da noite.
As duas jovens adentraram na casa, devagar, cansadas, olhando para todos os cantos, por estarem temerosas.
Foram levadas pelo centurião, que já conhecia a moradia, e ali lhes foi explicado o necessário.
Certamente, esse era o momento em que começaria o inferno para todos os que perderam sua Uberdade.
Na Roma dos conquistadores, era raro os escravos encontrarem bons senhores.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 9:29 am

A maior parte deles eram pessoas duras, ríspidas e sem nenhum gesto de bondade, tratando os pobres servos como animais, na maior parte das vezes.
Havia escravos para diversas coisas, escravos em demasia para servir a um só senhor e, se algum morresse, tanto fazia ao seu dono.
Raquel perguntou ao centurião, que os deixara ah, onde estavam os materiais para que a alimentação fosse feita.
Com certa animosidade ao patrão que teriam, Romério declinou às duas:
- Desejo dizer-vos que me penalizo de vós, senhoras.
- Por que tendes de vos preocupar se somos somente duas escravas? - Raquel inquiriu-o.
- Mas são despreparadas, desprovidas de conhecimento, não sabem como agir quando o mal lhes surja...
- Nós? - indagou a jovem judia, achando aquela conversa muito estranha.
- Bem, infelizmente, eu nada posso fazer a vosso favor - disse suspirando profundamente o homem que as deixou ali.
E continuava:
- Eu as conheci na vila de onde vieram e também vossos pais e também... - baixou a cabeça e olhou-as com imenso penar, sem completar o que queria dizer.
- Também o quê? - perguntou-lhe Raquel.
- Minha finada esposa.
Um dia, vos contarei... por ora, desejo que saibais que, em todo o tempo de viagem, fostes pessoas que me fizeram perceber que a vida que levamos está errada.
Nós, os romanos, podemos fazer muitas conquistas, mas penso que, tanto romanos quanto judeus são como uma só raiz, uma só família.
- Isso mesmo - comentou Silvina, que nada fazia, enquanto Sua amiga Raquel preparava o pão e as frutas para distribuir aos esfomeados servos - O senhor é um dos nossos?
- Como?
- O senhor acredita no Deus dos judeus?
Romério nada respondeu, mas incluiu na conversação:
- Desculpai-me, senhoras.
Se algo de muito ruim acontecer convosco, estarei próximo.
Fixou o olhar interessado em Raquel, enquanto saía.
E ela, desde o início, já alimentava o coração, notando nele sua diferença entre tantos romanos.
- Lindo ele, não, Raquel?
E é livre, porque enviuvou.
Vi quando ele colocou os olhos cravados em ti. Penso que te ama.
- Ora, Silvina, mas que bobagem dizes.
Apanha os pães aqui, vamos distribuir para os homens - respondeu-lhe com leve sorriso nos lábios.
- Antes quero o meu.
- Larga isso e deixa de ser criança!
Não viemos aqui para passear, somos escravas, e sabes o que quer dizer isso?
Prisioneiras que não têm querer.
- Não fales assim comigo!
- Isso é para que te alertes, minha menina.
Nem tudo aqui serão alegrias e risos.
Concentra-te no trabalho, porque foi para isso que te buscaram.
- Raquel, será que só esses dois homens moram aqui?
Viste que o nosso senhorio mandou buscar uma “tal” mulher negra?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

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Tomara que o centurião a encontre, senão teremos que voltar todo o trajecto novamente, cansadas como estamos ou, talvez, sejamos castigadas pelos dois senhores.
- Cala-te, Silvina! Isso é sério!
“Mas o que o centurião que as trouxe quis dizer com aquelas palavras, dirigidas a ela mesma?” - perguntou-se a bela Raquel.
Os homens dormiram ao relento aquela noite, depois de se alimentarem.
Raquel e Silvina terminaram o trabalho, sendo que Demétrius Darius, a pedido do pai, que estava irritado pela mulher não ter chegado, atirou a elas alguns trapos para dormirem ali, dentro de casa, mas em uma área fechada onde guardavam os mantimentos.
- Lindas damas - frisou o filho de Demétrius, troçando - amanhã irei revê-las, mais belas que hoje, com certeza.
- Esse rapaz parece-me doente da cabeça - anotou Silvina.
- Doente? Ele é, sim, muito safado.
Que Deus nos guarde, Silvina.
Na madrugada, Romério Drusco voltou a Óstia, fazendo novamente o mesmo caminho, onde se dera o leilão.
Procuraria o homem que havia comprado a mulher que Demétrius desejava.
- Senhor Rindoldo Saltino, Ave!
- O que vos traz aqui, centurião?
- Lamento informar-vos de que o senhor Demétrius Lipinos já havia pago ao leiloeiro grande fortuna pela escrava negra, que para cá ontem veio.
Aqui está o documento.
Não podia ter sido vendida novamente.
Mas, tendo consciência desse erro, manda-vos esse valor, para ressarcir vossa perda.
- Mas o que tem de tão importante nessa escrava que não vi?
Assim me interessarei por ela...
- Isso é um problema de família, porque bonita ela não é.
Ela foi roubada do senhor Demétrius e ele a requer.
Isso é um direito dele, não achais?
A esposa do senhor Demétrius se apegou a ela e não queria perdê-la, quando lhe foi roubada e vendida por outro - falou, dissimulando -, e ele não quer ir ao Senado para fazer a queixa no intuito de não vos envolver.
- Bom, nesse caso, cedo-a com pesar.
Podeis levá-la, dando-me o saco de moedas que tendes nas mãos - ponderou, apanhando-as e as retirando do saco, contando-as sem descanso.
A mulher, que a tudo ouvia, olhos baixos, enrolou-se no manto e, silenciosamente, acompanhou o centurião, que se sentiu aliviado.
Como se aguçou nele grande curiosidade pelo valor entregue por ela, Romério iniciou a lhe prestar maior atenção.
Vira nela a pele lisa e acetinada na cor jambo e seus cabelos puxados com inúmeras tranças; em suas orelhas, grandes argolas, e, nos seus braços, inúmeras pulseiras, completando o traje africano com desenhos de um colorido vivo.
Andando com ela até sua biga, o centurião perguntou-lhe:
- Conheces o senhor Demétrius Lipinos?
- O senhor Demétrius? Sim, conheço-o.
Mas foi por sua causa que tanto sofri.
Perdi meu irmão por causa dele - considerou ela, sempre com os olhos baixos.
- Como dizes? Ora, olha-me nos olhos para falar comigo.
Não gosto que falem quando não posso lhes ver os olhos.
Deixa-me ver-te - parou para olhá-la.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:21 am

- Minha vida é triste, senhor - explanou-lhe Tília, mirando o centurião com indefinível ternura no olhar - e, como escrava que atrai homens poderosos, desejaria antes morrer.
São eles perversos e ciumentos - pronunciou ainda.
Romério Drusco como que permaneceu paralisado diante dos grandes e belíssimos olhos azuis claros, envoltos por cerrados cílios negros.
- Agora eu sei por que não me deixou ver teus olhos logo.
Garanto que nem Rindolfo Saltino os viu.
- Sim, não gosto de olhar para as pessoas nos olhos.
E continuou ela:
- O senhor Demétrius é romano criado por gregos.
Suas maneiras são gregas.
Eu fui serva de um nobre romano em Atenas.
Demétrius conheceu-me na casa desse homem e mandou raptar-me, dando um saco de moedas a um dos servos do meu senhor.
Só que ele não sabia que o raptor era meu próprio irmão, que me escondeu no templo de Diana, onde Demétrius não pôde me encontrar.
Meu irmão foi morto pelos homens dele porque não quis contar onde eu estava, então jamais o senhor Demétrius soube de mim, até quando me viu no porto para ser leiloada.
Implorei para o leiloeiro não me entregar a ele, mas como não se pode mudar o destino, estou indo, fatalmente, para sua moradia.
- Nada mais desejo saber de ti.
Vem, minha biga está bem ali.
Vou te entregar ao senhor que te comprou.
- Se me permitis dizer, senhor, nada tem significado em minha vida a não ser a morte.
Penso que morrer é o caminho para a felicidade.
Esse homem, só em vê-lo, me dá náuseas.
- As pessoas aprendem que é preciso amar a vida e eu amo a vida, contudo nós, os homens da lei, nunca olhamos, com piedade, o ser humano que sofre, mas como ser que deve ter resignação.
Entretanto, jamais gostaríamos de estar no lugar do sofredor.
Dizemos sempre: ele sofre?
Contanto que não seja eu...
Quase todos os romanos vêm seu escravo como um animal de estimação, ou nem isso.
Eu não penso assim, mas como eu há poucos nessa Roma - depois, virando-se para ela, comentou:
- Seria uma perda grande para o senhor Demétrius se morresses.
Parece-me que ele te quer muito.
Romério partiu satisfeito para a Villa Augustiana de Demétrius por três motivos:
não precisaria levar os escravos de volta ao leiloeiro, receberia adiantamento por ter conseguido a escrava e veria novamente Raquel.
Nesse momento, um profundo suspiro de Romério foi percebido pela escrava.
Poderia amar Raquel, sendo ela de um patrão severo e injusto?
O dia continuava quente, quando chegou Romério risonho, olhando para todos os lados para ver se enxergava Raquel, a escrava que levara e admirava.
- Então, conseguiste! - exclamou Demétrius, vendo Tília com o centurião.
Serás bem recompensado por isso.
E, sem querer dar maior atenção a Romério, Demétrius designou-se a levar a escrava para dentro da residência.
Via-se que jamais ele havia visto uma mulher tão bela ali em Roma e com tão belos olhos, pela maneira com que a admirava.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:21 am

E abraçou-a, dizendo-lhe:
- Finalmente...
O quanto esperei por este dia.
És minha agora e daqui jamais sairás.
Romério aproveitou para chegar até a cozinha e, vendo a jovem judia a fazer os pães, exclamou:
- Pelo jeito, eu também penso que não sairás mais daí, linda Raquel.
E, para dizer a verdade, eu agora, depois de trazer Tília para cá, estou mais descontraído.
Sabes por quê?
E como Raquel somente o olhava sem nada dizer, ele continuou:
- Por tua causa, Raquel.
Durante todo o caminho, eu temia, imaginando-te naqueles braços, sendo maltratada por Demétrius, como todo o patrão faz com suas escravas.
Desejo dizer-te que farei de tudo para te retirar daqui.
Estes não são senhores que donzelas devem ter.
Pagãos não acreditam em nada, nem em seus próprios deuses, muito menos em compaixão.
E só trazem desgraças para todas as servas que são submetidas a isso.
Nesse momento, chegou Demétrius Darius, o filho de Demétrius, e comandou ao centurião:
- Vamos saindo, vamos saindo.
Nada mais desejo de ti, Romério Drusco.
Essas mulheres são minhas e jamais pertencerão a meu pai, que já está bem acompanhado.
- Tão jovem e tão perseverante no que deseja...
Vinde cá, rapaz, eu preciso vos dizer algumas coisas - alertou-o o centurião.
Demétrius Darius encaminhou-se com ele para fora, e Romério, muito mais astuto por toda vivência que tivera, confidenciou-lhe:
- Primeiro, deveis conhecer outras mulheres, se desejais conquistar estas.
Elas não admiram adolescentes, incipientes naquilo que nada entendem.
Compreendeis-me?
Deixai-as por dois ou três meses, até que possais chegar a elas mais sábio e comprometido com toda a natureza de um másculo homem.
Deveis ser esperto.
Sei que nunca tivestes mulheres, estou certo ou não?
Tendes catorze ou quinze anos?
- Bem... vou fazer catorze, mas farei o que pedes se assim está certo.
- Pois eu fui casado e conheço tudo sobre elas, sabendo como tratá-las.
Fazei isso, se desejais conquistá-las!
- Bem pensado. Obrigado por tua demonstração de amizade, Romério Drusco.
Na residência de Saturnina, a família de Petrullio aguardava o amigo Romério, o mais compreensivo de todos os centuriões.
Enfim, ele surgiu, com novo sorriso nos lábios.
- Petrullio, Ave!
- Ave, Drusco!
Por que razão, mesmo sorrindo, estás com essa cara de mártir sem absolvição, jovem? - indagou-lhe Petrulbo, rindo.
- Ah... Penso que estou amando.
E sofro por isso.
- Ora, deixa de bobagens, é só casar-se que logo essa paixão voará pelos ares como pomba fugidia.
- Não digas isso, amas tua esposa.
- Mas agora é diferente esse amor, Romério.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:22 am

É afeição profunda, é paz e descanso, é reflexão e pensamento dirigido aos deuses.
- Mas ainda é amor e isso basta.
Contudo, Petrulbo, meu amor é impossível!
- Quanto mais impossível mais lutaremos por ele, não é isso que dizemos? Vai em frente!
- Raptar uma escrava?
- Ora, ora, essa a tens de brinde. É só comprá-la.
Vem, andemos no jardim onde as flores desabrocham, dando-nos alegria pelo perfume que exalam. Caminhemos.
- Não me demorarei muito, mas será interessante olharmos a natureza, que sempre nos indica significados profundos.
E, continuando com elucidações sobre seu coração, Romério relatou ao tribuno Petrullio:
- Não penso assim.
Comprá-la não me fará um homem feliz.
No meu íntimo, sei que não somos somente corpo.
Há algo mais que me intriga.
- Hum... Essa conversa vai ser profunda... - exclamou Petrullio.
- Não pensas tu também o mesmo?
Impossível sermos homens sem alma.
Algo mais existe e os deuses romanos, que isso fique somente entre nós - afirmou -, eles não nos ouvem.
Achas também isso, Petrullio?
Já vimos tanto sofrimento que, por vezes, sinto imensa vontade de mudar de vida, mas o que faria?
Isolar-me, quem sabe?
- Nunca havia pensado em oração aos deuses, somente sacrifícios a eles, mas não creio que alguma coisa mudará fazendo-lhes oferendas.
O mundo é assim.
Vejo a vida dessa forma, com alegrias mínimas, mas muito sofrimento, no entanto, não tenho essa intenção de modificar em mim o que já está deturpado.
- Além do mais - confirmou Romério, franzindo o cenho -, essa seita dos que adoram um homem simples que nós crucificamos, o homem da Galileia, a ponto de morrerem por ele, intriga-me.
Que força é essa que está movendo Roma?
Um homem sem estudo, sem riquezas, que andava por todos os locais, geralmente a pé, conquistando tantos indivíduos, homens, mulheres e até crianças, somente ensinando a amar?
Continuando a caminhar, Petrullio convidou o centurião a se sentar com ele em um banco de pedra, abaixo de bela trepadeira de rosas.
- Dá uma pausa e olha só a beleza dessa roseira.
Sente seu perfume, por isso pedi que viesses até aqui - relatou-lhe o esposo de Veranda, inebriado de satisfação.
- Vejo-te, de certa forma, modificado, meu amigo.
Muito mais perceptível às coisas da natureza.
Realmente é bela e perfumada essa roseira, mas... que tipos de deuses a fizeram?
Vê se não tenho razão.
Os cristãos se modificam como pessoas.
Não revidam as ofensas, calam-se.
Primeiramente, achei que eram temerosos e covardes, mas não!
Andam para a morte mais dolorosa, pelo fogo ou servem de alimento às feras e não se desesperam.
Em vez disso, cantam!
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:22 am

E tenho a impressão de que os acompanhantes do Cristianismo e a maioria dos escravos cristãos mudam sua maneira de ser para melhor.
São mais prestativos, aceitam, resignados, o que lhes é imposto...
Mas a escrava que amo, sei que não é cristã.
É altiva e conscienciosa, é seria e...
- Está bem, não precisas declinar tudo o que enxergas nela... ah, o amor!
Mas por que vens com essa conversa toda?
Aonde queres chegar?
O que posso fazer a teu favor?
- Não sei...
Ela foi recém-comprada por um filho de romano nascido na Grécia, homem rebelde que deve ser astuto e mau.
Temo por ela.
Desde que perdi minha esposa em Jerusalém, anos atrás, nenhuma mulher havia me chamado a atenção como essa da Galileia.
Herodes Agripa mandou perseguir muitos cristãos e minha noiva foi presa.
Fiz o possível para tirá-la de lá, dizendo que ela era minha noiva, a noiva de um romano, e que não poderiam prendê-la.
Enfim consegui e, exaltado de alegria, casamo-nos em seguida.
No entanto, a sorte não acompanha os que... não podem ser fiéis...
- Que bobagem dizes, meu amigo.
Sorte... A sorte nada tem a ver com os deuses.
És agora um centurião, tens dinheiro, és notado pelas mulheres...
Bem, poderias ter sido fiel, não é?
Mas o que foi que aconteceu depois que a traíste?
- A traí? Não, isso não, eu a amava.
- Então, entendi mal o que falaste.
- Fiéis a seus deuses, eu quis dizer.
Bem, Petrullio, ela chorava e me dizia que não poderia ser feliz renegando Jesus e logo adoeceu.
Perdi minha esposa meses depois.
Dois anos ainda fiquei por lá a chorar de tristeza.
Fiquei tão desiludido, que pedi transferência para esta nossa Roma, desejando jamais rever a Judeia.
E, há poucos dias, voltei, trazendo de lá escravos para serem vendidos aqui e, com essa leva, eu pude conhecer Raquel, bela e doce mulher, assim que agora... - fez uma pausa, suspirando - agora me apaixono novamente por uma judia, mas esta, pelo que sei, não é do Cristo e jamais o será.
- Eu nada entendo sobre essa seita e, como falavas, os cristãos se modificam, tornam-se pessoas melhores, vê Saturnina... também espero e confio que isto ficará somente entre nós...
Saturnina, nossa amiga de anos, trouxe-me para cá paraplégico, e meus filhos juram que, por seus meios, ela me salvou da morte.
- Profetas ou curadores, novamente!
Posso admirar algumas coisas do Cristianismo, mas, depois do que aconteceu com minha esposa Ivana, ninguém me fará ser cristão.
- Deixá-los em paz é o que faremos.
Mas, Romério, voltando ao particular assunto que condiz com minha saúde, eu mandei te chamar para te dizer que ainda não estou com a saúde perfeita, mas, daqui a alguns dias, estarei pronto para voltar ao trabalho.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:22 am

- No entanto, estive no Quartel dos Pretorianos, e o general quer que vás a Salerno , comandando a tropa.
- Ainda não poderei, mas tu não poderás ir em meu lugar?
- Bem, avisarei que mande outro em teu lugar, porque pedirei licença por alguns dias, por assuntos extremamente pessoais.
- Ah... nem precisas dizer-me do que se trata.
Na Villa Augustiana, de Demétrius, a escrava Tília recebeu liberdade para sair às compras domésticas, desde que levasse junto uma das duas escravas que faziam parte do lote dos doze recém-comprados.
Então, aproximando-se cabisbaixa, próxima a Raquel e Silvina, Tília falou-lhes:
- Nem nos tínhamos falado antes, pois fui aprisionada naquele quarto por dois dias.
Mas hoje tive a alegria de poder sair.
É necessário irmos comprar frutas e legumes, além de trigo para fazer nosso pão.
Silvina improvisou um som:
- Hã?!
- Ora, Silvina, disso não precisas entender - explanou Raquel e, dirigindo se à preferida de Demétius, perquiriu:
Devo chamá-la senhora, Tília?
Tília baixou a fronte e respondeu chorosa:
- Quem sou eu para ser uma senhora?
Não sou nada!
Era de família nobre na Líbia, vaidosa e orgulhosa, e o que me restou disso tudo?
A escravidão!
Ninguém aqui sabe, mas eu já fui raptada em outra casa a mando desse senhor e fugi, mas ele conseguiu apanhar-me novamente.
Quando cheguei aqui, ainda no porto de Óstia, contei a Romério Drusco o porquê de não querer vir para esse homem.
Hoje sou sua prisioneira.
Tudo pelos meus olhos.
Desejaria não ter esses olhos que todos admiram.
- Soube que, não muito próximo a esta casa, reúnem-se cristãos - comentou Raquel -, mas isso é sigiloso.
Por que não procuras curar tuas dores com eles?
Dizem que fazem até milagres, mas, sobretudo, ajudam as pessoas a receberem o ultraje pelo qual passam, sem se revoltar.
Coisa que não entendo.
Vitorio e Clarêncio saem à noite para ouvir o instrutor que lá se encontra.
Antes, reuniam-se em peças grandes, alugadas, mas agora se escondem.
- Soube que Nero está matando todos os cristãos... - aludiu Tília, sob olhares temerosos de Silvina, que olhava para as duas, interessada na conversa -, mas seria melhor morrer com os leões do que estar neste lugar, com esse homem... - terminou ela.
- Psiu... as paredes têm ouvidos - aconselhou-a Raquel.
Tília, é melhor irmos às compras com um dos escravos.
Ficará mais seguro para nós.
- Escolhe Vitorio, Tília - pediu-lhe Raquel.
Mas logo gritou Silvina:
- Não! Clarêncio é mais amigo.
As duas senhoras mais velhas riram-se de Silvina.
Assim, Tília pôde distrair-se um pouco na feira, com Raquel levando consigo Clarêncio, já que Silvina tanto insistira.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:22 am

Dessa forma, sentiu-se menos prisioneira.
Dias depois, Demétrius estava pronto para sair à noite e, quando viu a escrava Tília já deitada, fechou a cortina, sorrindo, e disse-lhe baixinho:
- Tenho um encontro no palácio de nosso governador.
Dorme, bela, depois venho visitar-te.
No que ela ouviu o ruído dos cavalos que levavam o patrão ao templo de Júpiter para se encontrar com outros homens, ergueu-se rapidamente e, já vestida, saiu para se encontrar com Vitorio e Clarêncio, a fim de acompanhá-los ao encontro cristão, mas Raquel também quis ir, e temendo deixar Silvina com Demétrius Darius, quis levá-la junto.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:22 am

12 NA REUNIÃO CRISTÃ
Porque Deus não nos tem resignado para a ira, mas para a aquisição da salvação por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Paulo (I Tessalonicenses, 5:9)

NO CAMINHO, OS AMIGOS CONVERSAVAM:
- Ouvi dizer que Demétrius Darius voltaria tarde - expressou-se Vitorio a Raquel.
- Então vamos, mas cuidemos para que os demais não nos vejam, porque seríamos lapidados por isso - redarguiu Silvina.
- Ora, lapidação não existe aqui, menina, tu mesmo disseste - alertou-a novamente Vitorio.
Podemos ir.
- Eu sei, falei por falar, mas não sou mais uma menina, e sim já uma mulher.
- Pois bem, pois bem - disse-lhe Raquel.
A casinha dos cristãos orientadores, em grande terreno, era semiescondida por grandes ciprestes, o que facilitava que aqueles encontros fossem mais secretos.
Olípio, um senhor de certa idade, já os esperava na entrada, trazendo nas mãos um pequeno candeeiro com chama a óleo para iluminar o caminho.
Depois de cumprimentar o grupo de escravos, ainda nervosos por estarem fazendo algo contra as regras da casa onde serviam, Olípio beijou-os no rosto, conforme a tradição Judaica.
Na peça pequena, havia já umas vinte pessoas.
Todas em pé, apoiando-se contra a parede.
Olípio, sorrindo, colocou o lume sobre a mesa tosca, apresentou-os a todos como “amigos cristãos”, sem dizer os seus nomes, pelo extremo cuidado de resguardar cada um dos presentes para, se apanhados, não terem como delatá-los, se forçados ao “tratamento das unhas retiradas”.
Iniciou os ensinamentos da seguinte forma:
- Amigos, muito me faz feliz essa união fraternal de pessoas que conhecem ou desejam conhecer Jesus.
Estávamos contando com a presença do apóstolo Simão Pedro, no entanto, está incapacitado de vir, mas pedimos as bênçãos de Jesus para ele, a fim de que consiga amparar a todos aqueles parentes dos sacrificados, como ele assim deseja.
Todos sabem da importância de sua presença em Roma, este homem que esteve lado a lado com Jesus e que hoje é para nós o esteio e a segurança.
Hoje, mesmo sentindo-se muito cansado, ele caminhou léguas, atrás de mantimentos para os desafortunados parentes, mas, se quiserem ouvi-lo no dia de amanhã, talvez seja possível, pois ele virá muito próximo a esta localidade.
Devemos ter consciência de que, apesar do esgotamento pelo qual esse discípulo de Jesus passa e da sua idade avançada, nosso irmão Simão, assim ele deseja que o chamemos, procura estar sempre de bom humor na tarefa aos semelhantes, demonstrando o que aprendeu com Jesus.
Precisamos aproveitar esse exemplo, mesmo em dias tão absurdamente repletos de violência contra todos nós, os cristãos.
Sorriremos e manteremos o optimismo.
Aprendamos com nosso irmão Simão, já que também nos instruímos com seu companheiro Paulo.
Olípio procurou desviar o assunto agora, porque as lágrimas lhe vinham aos olhos, e continuou:
- Para começarmos, vamos ler, neste pergaminho, alguns trechos dos testemunhos sobre a Boa Nova, que consideramos preciosos, repletos de ensinamentos que sempre nos darão coragem para seguirmos adiante com optimismo.
O comunicador falou sobre o Sermão do Monte e, mais tarde, relatou, sempre com voz doce e sentida, porém cheia de amor, muitas coisas sobre Jesus, comentando factos da vida do Mestre e dos seus discípulos.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:23 am

Dizia ele:
- O Evangelho é como um documento, de livre escolha, sobre o comportamento ideal de vida na Terra, porque nos fará trilhar um caminho de paz.
Depois disso, começou a perguntar aos novatos o que eles sabiam sobre Jesus.
- Nós já ouvimos falar, na Palestina, que Ele foi um mago, um homem bom e que foi morto injustamente - declinou Vitório.
- Isso é apenas a mínima parte, meu irmão.
- Pelo que soube, Ele ensinou maravilhas, nas histórias que contava para o povo.
Eu soube que Ele foi muito bom, porque se importava com todos os que sofriam, não é? - elucidou Raquel.
- Isso é certo; contudo, Jesus foi muito mais do que isso, minha filha.
- Também sabemos que Ele fez curas e é por isso que aqui viemos, porque muito sofremos - explanou Tília.
- As dores que sentimos no corpo geralmente são do Espírito e passageiras, o pior é quando carregamos na alma a decepção, não pelos outros, mas por nós mesmos, no momento em que caímos, agindo contra a lei de amor.
Se não largarmos o que está errado em nós, podemos nos perder na angústia e no desespero.
Grande parte de nós não se corrige, é arredia à melhora, está sempre fugindo da própria transformação, mesmo sabendo que somos todos Espíritos imortais.
Então, aparece a dor, que obrigará o homem a se erguer e procurar o Eterno, o Pai de todos nós.
Isso porque trazemos, em nosso íntimo, a chama divina que ascenderá um dia para mundos mais abastados de sabedoria, salvos da dor.
E continuava:
- Hoje, porém, precisamos preparar o terreno para colocarmos nele a semente e, se a terra estiver bem tratada, logo veremos os brotos e, depois, as árvores darem frutos.
Esta semente estará sempre gravada ali, em nosso coração, e, quando conhecermos as leis divinas, ela se desenvolverá em tempo.
O mestre Paulo nos dizia que, de tudo, o amor é o mais importante, pois quem não tem amor é como um corpo sem alma, um ser disperso de sentimentos.
“Se eu não tiver amor, eu nada serei” - ele nos dizia.
Ante os ouvidos atentos e a voz silenciada, aquele grupo recém-chegado sentou-se no piso da velha casinhola, a convite de Olípio.
Assim, ele passou a esclarecer aos neófitos sobre a lei do amor e a Era que viria em tempos futuros, quando o Cristianismo alcançaria o mundo todo.
- Então, como estão agora cientes, aquele que cumprir os ensinamentos de Jesus deixará seus antigos hábitos, os erros que até agora cometeu, para voltar-se para dentro de si mesmo, conhecendo-se interiormente e corrigindo o que não está de acordo com esses ensinamentos recebidos em sua consciência.
Dessa forma, amará o seu próximo e desejará a ele o que deseja para si mesmo.
Assim, vestirá uma roupagem única e...
- Perdoa-me a palavra, Olípio, mas, cá entre nós, não poderemos amar os escravos do nobre senhor D. (não quis lhe dizer o nome), pois eles são cruéis - afirmou Tília.
- Isso porque eles são rebeldes com a vida que têm e desconhecem Jesus.
Também os que gozam saúde e riqueza, certamente, desejam ficar como já estão, porque não almejam auxiliar os necessitados nem repartir o que de bom possuem.
Deveis agradecer a Deus por estardes aqui, ouvindo e aprendendo, porque obtereis, em vossa própria maneira de agir, o exemplo da humildade e da abnegação que o nosso Mestre pediu que tivéssemos.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:23 am

No entanto, nesta época em que o pobre homem do Império, perdido em seus desatinos, apanha a nós, os cristãos, para a alegria do povo no circo, através de nossas mortes, precisamos muito orar a ele, para que se lhe abram os olhos.
- Mas será que é assim que o Cristianismo terminará? - Clarêncio perguntou aflito.
- Não. O Cristianismo se elevará cada vez mais, pelo exemplo que daremos e a fé que obteremos.
O número de cristãos tem crescido muito.
As lições de Jesus nos consolam e nos abrem uma brecha no firmamento, apontando-nos o caminho que a Ele nos levará, dizendo-nos que jamais morreremos.
Ele é este caminho.
Falando sobre a fé, nós temos o exemplo dos primeiros cristãos que foram martirizados.
Depois deles, muitas pessoas tornaram-se cristãs nesta Roma sofredora.
O povo, principalmente o povo escravo, deseja um mundo menos cruel, onde todos tenham o direito de viver em paz.
Desta forma, o “amai-vos uns aos outros como Jesus nos amou”, tende certeza de que, em certa época, tornar-se-á a alavanca que sustentará a humanidade.
Por isso, não choreis; sofrei resignados, pois somos o estandarte do mundo novo que está chegando.
Nós somos os que estão lançando, como Jesus desejou, as sementes do amor e do perdão.
Tenhamos confiança, porque Ele veio trazer essa chama para ser colocada em nosso coração.
Ele morreu por amor a nós.
Mas é imprescindível que, se formos apanhados, sejamos firmes no testemunho às leis divinas; e, se nos livrarmos do castigo que nos querem infligir, precisamos levar, sempre adiante, o Cristianismo puro e humilde como a própria vida do Cristo o foi.
Somos a candeia luminosa que todos devem ver e conhecer.
Ele nos passou isso.
Temos chorado imensamente a morte de Paulo, no entanto, suas lições prevalecem firmes em nossas consciências e suas cartas permanecerão para sempre entre nós; e, para que não as percamos, lembremo-nos de seus amigos, os homens que o seguiram logo no início.
Lucas, Aristarco, Timóteo, Tito, Trófimo, e tantos outros que conviveram com ele aqui.
Todavia, foi Lucas quem permaneceu aqui até o fim.
Que bom que Simão também veio, e agora João Marcos, com a bênção dos Céus, pois procuram socorrer a todos nós - e, silenciando, elevou a cabeça ao alto, dizendo:
Agora, façamos uma oração, pois a hora já se foi.
Oremos por Simão Pedro e os cristãos que o seguem, oremos ao Pai de sabedoria, que rege todos os nossos caminhos; assim acalentaremos nossas almas sofredoras, com fortaleza e coragem, paz e a alegria em servir.
“Pai nosso...”
Em regresso à casa de Demétrius, o grupo foi silencioso e firme, mas com os pensamentos em ebulição.
Os homens estavam liberados para lá voltarem, mas Raquel, Silvina e Tília, para comparecerem à palestra na próxima vez, iriam pedir licença ao seu senhor.
Demétrius Darius, o filho, chegou bêbado à noite e gritou pela jovem Silvina.
As duas escravas, que dormiam juntas, começaram a tremer, ouvindo seus gritos a chamar.
- Raquel, estou com medo, o que faremos?
- Silvina, não temas.
Pensa somente que nada podes fazer, no momento.
- No momento? Estamos à mercê de nossos senhores, Raquel!
- No momento, porque, assim que orarmos com insistência a Jesus, certamente Demétrius Darius esquecerá de ti, quando chegar assim como hoje.
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Ave sem Ninho

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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:23 am

As duas baixaram a cabeça e começaram a orar.
Demétrius Darius, bêbado, chegando à porta das duas mulheres, depois de alguns instantes ouviu seu pai, que chegava chamando por ele:
- Onde estás, filho meu?
Tenho novidades.
Vem que sustentará a humanidade.
Por isso, não choreis; sofrei resignados, pois somos o estandarte do mundo novo que está chegando.
Nós somos os que estão lançando, como Jesus desejou, as sementes do amor e do perdão.
Tenhamos confiança, porque Ele veio trazer essa chama para ser colocada em nosso coração.
Ele morreu por amor a nós.
Mas é imprescindível que, se formos apanhados, sejamos firmes no testemunho às leis divinas; e, se nos livrarmos do castigo que nos querem infligir, precisamos levar, sempre adiante, o Cristianismo puro e humilde como a própria vida do Cristo o foi.
Somos a candeia luminosa que todos devem ver e conhecer.
Ele nos passou isso.
Temos chorado imensamente a morte de Paulo, no entanto, suas lições prevalecem firmes em nossas consciências e suas cartas permanecerão para sempre entre nós; e, para que não as percamos, lembremo-nos de seus amigos, os homens que o seguiram logo no início. Lucas, Aristarco, Timóteo, Tito, Trófimo, e tantos outros que conviveram com ele aqui. Todavia, foi Lucas quem permaneceu aqui até o fim.
Que bom que Simão também veio, e agora João Marcos, com a bênção dos Céus, pois procuram socorrer a todos nós - e, silenciando, elevou a cabeça ao alto, dizendo:
Agora, façamos uma oração, pois a hora já se foi.
Oremos por Simão Pedro e os cristãos que o seguem, oremos ao Pai de sabedoria, que rege todos os nossos caminhos; assim acalentaremos nossas almas sofredoras, com fortaleza e coragem, paz e a alegria em servir.
“Pai nosso...”
Em regresso à casa de Demétrius, o grupo foi silencioso e firme, mas com os pensamentos em ebulição.
Os homens estavam liberados para lá voltarem, mas Raquel, Silvina e Tília, para comparecerem à palestra na próxima vez, iriam pedir licença ao seu senhor.
Demétrius Darius, o filho, chegou bêbado à noite e gritou pela jovem Silvina.
As duas escravas, que dormiam juntas, começaram a tremer, ouvindo seus gritos a chamar.
- Raquel, estou com medo, o que faremos?
- Silvina, não temas.
Pensa somente que nada podes fazer, no momento.
- No momento?
Estamos à mercê de nossos senhores, Raquel!
- No momento, porque, assim que orarmos com insistência a Jesus, certamente Demétrius Darius esquecerá de ti, quando chegar assim como hoje.
As duas baixaram a cabeça e começaram a orar.
Demétrius Darius, bêbado, chegando à porta das duas mulheres, depois de alguns instantes ouviu seu pai, que chegava chamando por ele:
- Onde estás, filho meu?
Tenho novidades.
Vem logo, preciso te contar, não conseguirei deixar para amanhã!
Raquel e Silvina sorriram.
- Aqui estou, meu pai - chegou-se ao pai o filho cambaleante.
- Mas que desgraça!
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Ave sem Ninho

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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:23 am

Estás completamente bêbado!
Vai dormir.
Deixemos a boa notícia para o despertar do dia.
Indo até a ala dos escravos, Demétrius perguntou a um deles:
- E Tília? Onde está?
- Eu a vi sair à noite com um grupo que não reconheci - respondeu-lhe Polinário, que estava próximo.
- O quê?
Como um furacão, Demétrius foi até o quarto da escrava, atravessando o grande salão de colunas e entrando com um relho, precipitando-se sobre ela.
- Pecadora!
- Nada fiz, eu juro! - relatou Tília, temerosa.
- Aonde foste?
Enciumado, batendo nela com os punhos, não a deixou falar.
Se Demétrius tivesse perguntado por ela a Clarêncio, ele por certo não mentiria.
Diria a ele que a tinha convidado, mas Demétrius perguntara para o mais vil e revoltado escravo grego, que queria, intencionalmente, magoar seu patrão, por odiá-lo.
Romério, em comunicação com o amigo tribuno, na residência de Saturnina, voltou ao assunto sobre Raquel:
- Petrullio, sabes quais os direitos de um centurião em nossa Roma, de privar um cidadão de sua serviçal?
- Direitos ele não terá, é óbvio, mas todo homem esperto terá de agir quando a oportunidade aparecer.
- Penso que ela não sai de casa.
Depois, temos outra preocupação: a amiga Silvina.
Vejo sua dedicação pela jovem adolescente.
- Bem, aí o rapto ficará quase impossível.
- Quase impossível, então serei eternamente infeliz?
- Seria interessante procurá-la nesses encontros cristãos.
Olha, aqui mesmo nesta casa, que nada saia de tua boca o que teus ouvidos apagarão - alertou-o -, alguns homens e mulheres se reuniram para orar por mim - relatou Petrullio, sorridente - e, ainda, eram escravos cristãos, isto é, aqueles que estão contra as normas romanas... e nos temem.
- Mas eles o conheceram?
Difícil saber de alguém que ore por outro que nem conhece e ainda faz parte da lei de Roma - argumentou o jovem apaixonado.
- Vê como esse mundo é, e como as coisas estão mudando.
Não é lindo isso?
Isso é um facto que diríamos ser... diferente, quase milagroso.
Eu jamais faria isso a um estranho que poderia me tirar a vida.
Ora, livrar um inimigo da morte certa, jamais!
Toda hora eu penso nisso.
- É um caso de se pensar, mas me conta o que me sugeres?
Sugeriste que eu deveria segui-la.
- Precisas vigiar aquela casa e, quando ela sair, poderás raptá-la, comunicando aos senhores da casa que ela foi aprisionada por ser cristã.
- Isso não daria resultado algum.
Eles iriam procurá-la nas prisões.
Ele é um homem de fortuna e a fortuna tudo compra.
- Há tanta confusão nesta cidade semidestruída, nesta Roma endoidecida por Nero, que penso que Demétrius se cansará de procurá-la.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:24 am

Ela não custou tão caro assim.
Não é o caso de Tília, como contaste.
- Certamente, Tília não lhe fugiria.
- Mas por que esse homem tem obstinação doentia por aquela escrava?
- Se visses os olhos dela em contraste com a pele morena...
Ela é sensacional.
Atraente, fina, imponente como uma rainha.
Ele a deseja e a prende por ciúmes.
Às vezes, bate nela, mas logo a arrebata para seus braços, chorando em seu colo.
E ela o odeia, como odeia sua vida.
Fala que, se não tivesse aqueles olhos, não sofreria tanto, mas penso que, até sem aqueles olhos, ele a teria.
O que faz um homem agir dessa forma com alguma pessoa?
- Não será algo do passado? - inquiriu-os Saturnina, que avançava para cumprimentar o amigo de Petrullio, Romério Drusco, com um sorriso nos lábios.
- Ave, centurião!
Levantando-se para fazer o mesmo, mas, à moda romana, Romério sorriu para ela, pois, pela conversa do amigo, já a admirava, e a cumprimentou:
- Ave, senhora!
- Perdoai-me a interrupção, senhores, mas não pude deixar de vos ouvir - desculpou-se a doce mulher.
- O que diz a matrona a esse respeito?
Coisa do passado? - indagou-lhe admirado o centurião.
- Se só o corpo morre, como nos ensinam os hindus e egípcios (não quis falar sobre Jesus), e, se voltamos à vida, não seria possível uma dívida anterior dessa moça com aquele senhor?
- Dívida? Por que dívida?
Por favor, explicai-vos, Senhora.
Saturnina enfrentou-o com coragem.
Ele era um homem da lei, e ela não poderia esconder o que o esposo de Veranda já devia ter contado ao visitante.
Portanto, não abjuraria seu Mestre amado e, olhando-o com ternura, respondeu:
- Não conheci essa pobre escrava, mas me lembrei das vidas que já devemos ter vivido em tantas reencarnações e do quanto erramos em todas elas.
Já matamos, fomos cruéis, como até hoje somos, já fizemos mal a tanta gente através do tempo...
Os apóstolos aprenderam com Jesus que tudo o que se faz aos outros assim também se recebe.
Sabeis o que Jesus falou a Pedro antes de ser aprisionado, quando aquele discípulo cortou a orelha de um centurião?
Falou dessa forma ou quase assim:
“Embainha tua espada, pois quem mata pela espada também morre por ela”.
E, desejando comentar um pouco mais sobre o Cristianismo, continuou:
- Se o amigo começar a se interessar pelos casos de pessoas sofredoras ligadas a nós verá que muitos estão recebendo de volta, exactamente, os mesmos actos que praticaram aos outros.
No entanto, as pessoas não se dão conta disso.
Só o que aprendemos hoje com Jesus nos fez ver essa parte de nossas vidas.
Mas há coisas muito antigas que não podemos analisar...
Assim, prezado patrício, se a vós assim posso referir-me, ainda que não conheçais o Cristianismo, vereis que todos os cristãos sofreram uma transformação interna para melhor.
- Bem, os cristãos que conheci em Jerusalém - comentou Romério, referindo-se à esposa - foram pessoas magníficas, no entanto, muitos os chamavam de vilões hereges e também de covardes.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:24 am

Visto sob esse prisma, seria perfeitamente essa dívida, esse “resgate”, um facto aceitável, se é que assim podemos falar, mas eu, no entanto, sou céptico neste ponto, por pertencer à lei romana e ser fiel aos princípios fundamentais dela.
- Que o imperador Augusto foi nosso apaziguador, disso temos testemunho.
Naqueles dias, fomos felizes em não vermos nossos filhos perderem a vida em batalhas romanas.
Se bem que sempre há algo para se lutar nessa imensidade de terras conquistadas por nós - confirmou Petrullio.
- Bem... peço-vos permissão para entrar, pois preciso tratar de meu pequeno Lucas.
Bebei esse gostoso suco de frutas que eu trouxe para vos refrescar um pouco na tarde quente de hoje, e aproveitai para inspirar o perfume primaveril dessa roseira em flor - sorrindo, rematou Saturnina.
- Ave, senhora! - saudou-a o apaixonado de RaqueL
- Ave, centurião - respondeu ela, afastando-se.
- Então? O que achaste dela? - perguntou-lhe Murilo Petrullio.
- Bela ainda e doce como as uvas que apreciei hoje pela manhã.
Sabes? Sobre o Cristianismo há de se pensar...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:24 am

13 Simão Pedro
A caridade é sofredora, é benigna, a caridade não é invejosa, não trata com leviandade, não se ensoberbece.

Paulo (I Coríntios, 13:4)

O TRABALHO DE SlMÃO, EM RELAÇÃO AOS MORTOS no circo, fora imenso.
Ele procurou Anacleto, designado como seu sucessor na Igreja, substituindo Lino, para com ele ir analisar, novamente, os nomes daqueles cristãos que foram colocados nas prateleiras das catacumbas; e lá estiveram inúmeras vezes, tudo porque queriam dar aos mártires o respeito que mereciam.
E isso foi feito através de suas roupas, suas marcas ou mesmo sinais, para que lápides fossem marcadas e reconhecidas.
Aqueles indivíduos haviam honrado o nome de Jesus, renunciado às suas más tendências e assumido a Boa Nova como mudança de vida e caminho à felicidade.
Mesmo assim, muitos nunca foram identificados e muito menos reclamados.
Simão acabou achando que estes teriam sido aqueles escravos que chegaram de longe, cujos patrões sabiam de suas crenças.
Certo entardecer, enquanto voltava pela rua de sua pobre e velha residência, o discípulo de Jesus ouviu rumores sobre as loucuras e abusos do Império e que Nero estava prestes a cair do poder.
Roma fervia em ansiedade e medo, mas, apesar de todo esse tumulto, a vida continuava e era necessário abraçar com fé e coragem a labuta do Evangelho, em prol dos novos cristãos que chegavam sequiosos por algo maior, algo que sustentasse seus infortúnios, no seguimento da exemplificação e ensinamentos perfeitos e esperançosos do Cristo.
Conforme os dias passavam, aquele discípulo de Jesus foi procurado, com Marcos, por antigos seguidores de Paulo e por inúmeros infelizes, na maioria escravos, que estavam contra a violência e os crimes dos conquistadores e haviam aderido à doutrina de amor do Mestre, singela e pura, que crescia dia a dia.
Temendo por novas perseguições, agora o pescador Galileu desejava ser mais cauteloso.
Reunir-se-iam em residências, mudando sempre de local, conforme a possibilidade, permitindo que o Cristianismo se espalhasse para os neófitos sofredores que o desconheciam, mas com sensatez e cuidado, afinal, se todos perecessem, como o Cristianismo ficaria?
Depois daqueles dias infernais, dando calor e assistência aos familiares em desespero, em um entardecer, Simão saiu com Isaac para se reunir com os cristãos de todas as comunidades, formadas ainda por Paulo na cidade romana.
Naquela reunião, ele continuou a evangelização, sempre com dois instrutores para cada comunidade, que se destinavam a reuniões nos lares.
Ali, como chefe provisório da Igreja cristã, mantendo-se com disposição, serenamente, Simão procurou repassar logo o cargo para Anacleto.
Sentia, por aqueles dias, a sua partida rumo ao Mestre querido, além de estar com idade avançada e seguir as caminhadas atuais a passos mais lentos.
Nesses momentos, quando disso se lembrava, recolocava-se em Cafarnaum, quando ouvira os discípulos mais moços comentarem sobre a idade de Simão, chamado de “o Zelote”, dizendo-lhe que não poderia fazer muito pelo Cristianismo, comparando-o aos mais jovens.
Então, suspirava, assumindo a posição:
“Sim, eles tinham razão quanto ao cansaço, mas não quanto à boa vontade em servir”.
Aliás, agora entendia que, como antigo pescador, ali em Roma estaria, sim, sendo um verdadeiro pescador de almas para Jesus.
Em sua mente, ciente do exemplo do companheiro Paulo, que nem havia estado com o Mestre como ele, e que tanto labutara pelo Cristo, achava que, até aquele momento, ele, Simão, não havia feito o quanto desejava fazer.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 10:24 am

Em Jerusalém, na Casa do Caminho, havia trabalhado o que pôde, foi incansável, mas, ali em Roma, sem Paulo, sentia-se mais responsável e, talvez, sem a firmeza necessária daquele amigo, mas jamais cederia ao cansaço.
Por isso, Paulo, talvez, prevendo que logo partiria, havia pedido a presença de Marcos na cidade dos conquistadores.
Sim, Paulo fora o grande exemplo.
Paulo, sim, havia levado o Cristianismo a todos os lugares.
Depois que João, o mais jovem de todos eles, fora liberto da prisão romana por Paulo, em sua volta da Espanha, Pedro viu que talvez não conseguisse ter toda a habilidade do homem de Tarso.
Sentindo-se assim, teria que agir com fé, por amor ao Messias.
Todavia, ele sabia estar fazendo o que Jesus desejava que fosse feito.
Isso porque todos se sentiam “como entre cobras do deserto, que se aprontavam para lhes dar o bote”, ou seja, com as legiões sanguinárias de Roma, e junto àquele César, que tinha já assassinado tantos e tantos cristãos.
Depois daquela reunião, inspirado pela espiritualidade, quando foram divididos os instrutores por áreas na cidade, Simão ajoelhou-se, à noite, antes de dormir, agradecendo a Deus essa resolução e pedindo a Jesus que não o abandonasse e sempre o instruísse sobre Sua obra.
Não fora até Roma para nada, mas, sim, para servir ao Mestre até o final de seus dias e achava que aí estava sua grande responsabilidade, antes que o apanhassem também.
Sem o aconselhamento daquele terno e amoroso Mestre, jamais poderia agir correctamente.
Alguns dias de paz houve na cidade romana, entre construções ainda sendo edificadas, à maneira de uma cidade reerguida de acordo com o seu novo Imperador.
Parecia que Deus, em Sua infinita bondade, estava dando uma trégua aos cristãos para se refazerem.
Aliás, as forças angélicas labutavam muito para isso, já que jamais poderiam mudar o posicionamento e o livre-arbítrio daquelas almas arraigadas ao mal.
E, nesses dias, Simão aproveitou para dar as instruções a Marcos, para que escrevesse o seu Evangelho.
A nova casa onde Pedro acolheu os filhos órfãos e incapacitados estava sendo atendida por Domitila e mais alguns auxiliares, que também cuidavam da horta.
Ao se encontrar com Anacleto, Simão confiou-lhe:
“Agora, sois vós o nosso bispo de Roma.
Portanto, temendo logo partir, peço-vos que continueis com os Evangelhos que já possuímos e as novas anotações de João Marcos.
Em Éfeso, com João e Ignácio, com receio de que o Cristianismo, com o tempo, fosse deturpado, também nós formamos um rascunho de instruções que contêm, com breves palavras, os principais e mais importantes ensinamentos de Jesus, e o estamos usando seguidas vezes.
Isaac tem esse pergaminho sempre com ele e, se eu faltar, mande-o copiar, porque as ferramentas importantes do Evangelho também lá se encontram.
O rapaz havia olhado para Simão sem nada dizer, molhando seus olhos, com sentimento, por tudo o que estava acontecendo.
Então, baixou a cabeça, respondendo a Simão:
- Procurarei respeitar esse cajado que vos acompanha, seguindo vosso exemplo de dedicação e amor, tendo em meu sentimento a crença que vós, que sois a “rocha”, não abandonareis vossos discípulos de onde estiver.
- Meu amigo - completou Simão -, não nos emocionemos quando esse dia chegar, porque jamais nos separaremos, e o amor, como nos disse Jesus, é um forte laço que nos prende a quem amamos, por toda a eternidade.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

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