SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:29 am

O clima voltara a ser tenso na cidade. Havia cristãos que recebiam pedradas nas ruas, aos gritos revoltosos de romanos:
“Aprendam a respeitar Roma e seus deuses!”
- Perseguições há em toda parte - dizia Simão, o discípulo do Cristo aos cristãos.
Eles temem a si próprios.
Não os acompanhemos no rancor, mas sejamos firmes na fé.
A Lua, deslizando no céu, despertava, nas mentes cristãs, ansiedade e receio.
Simão andava rápido pela noite, junto à sua esposa e Isaac, ao encontro do companheiro Anacleto, para irem à casa de Zulmira e Matius, onde os outros instrutores os aguardavam.
Marcos estava para receber alguns conhecidos de Jerusalém e foi recebê-los em óstia.
Simão estava feliz porque teria notícias da saudosa Galileia e da casa do Caminho.
Pedira para Porfírio, do qual os soldados de Tigelino não desconfiavam, também ir com Marcos, levando os amigos até aquela casa tosca e simples onde o avô de Catina estava sendo atendido, porque sua própria moradia estava sendo vigiada.
Ao chegarem os visitantes, todos se reuniram no jardim da casa cedida aos necessitados, quando Simão, dirigindo-se a eles, falou:
- Meus irmãos, saudemos os dois amigos de Marcos, que chegaram ainda há pouco de Jerusalém.
Marcos os apresentou, e Simão perguntou a eles sobre as notícias que traziam:
- Que notícias nos trazeis sobre o Cristianismo em Jerusalém?
Como está o Caminho?
- Ah, Simão, a casa que formastes está em decadência.
Com as mortes criminosas constantes, ninguém aguenta ficar lá por muito tempo.
É uma desgraça...
- Sim, todas as coisas materiais que um dia começam também terminam - aludiu, com profundo suspiro, o discípulo Galileu.
Temos como exemplo a Babilónia, tão grandiosa, digna de inveja de tantos poderosos.
O Caminho foi formidável, mas nada é eterno.
Entre todas as coisas, o importante foi o tempo em que se alojaram tantos doentes na casa que formamos.
- Soubemos que Nero continua com os crimes e penso que nós seremos os próximos se permanecermos aqui - disseram a Marcos os amigos.
- Talvez, mas estamos usando outra estratégia nos encontros cristãos.
Estamos nos reunindo em casas de famílias.
Marcos ali ficou pensativo e, posicionando-se preocupado, relatou:
- Temo em ficar aqui depois do que houve com Paulo, mas a posição da nossa Judeia, como nos contam esses amigos, também não está fácil.
Estamos em uma situação cada vez mais difícil, não só para nós cristãos, mas também para todo e qualquer judeu.
Nosso povo se revolta de tal forma, que pensamos que Roma vai revidar.
Imaginamos que virá uma guerra sangrenta para nós, os judeus, e tememos Roma e seus conquistadores.
- Sei que aqui a coisa também está ruim, mas pensamos que, se estivermos convosco, pelo menos nos sentiremos mais próximos a Jesus.
E um dos rapazes concluiu:
- Virão dias, Simão, em que muitos aportarão nessa e em outras cidades.
Sairmos de lá foi importante.
Ouvimos essa inspiração de uma das filhas de Felipe.
Muitos irmãos nossos pensam em se colocarem em casa de amigos, na Capadócia, mas, lá em Jerusalém, não ficarão.
Morreremos por Jesus, mas não queremos morrer pela incúria do nosso próprio povo.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:30 am

Simão baixou a cabeça.
- Tens razão, mas não nos devemos perder nos percalços do caminho.
Isso que me contas não me arrefece a ânsia na divulgação da doutrina do amor de Jesus.
Precisamos ir adiante, sempre adiante.
Como sabem, Paulo já se foi, quando aprisionado junto a Lino, sua esposa Cláudia e uma infinidade de boas almas, no entanto, nós sabemos que Roma não pode ficar desprotegida de homens dispostos à divulgação do Evangelho.
Depois me contarás sobre nossa Galileia distante, porque o importante agora - falou, batendo-lhe no ombro - é arrumarmos alojamento para vós.
Dois de vós podeis ficar aqui, porque Marcos, que aqui pernoita, poderá permanecer na minha casa, se bem que estou sendo muito visado.
- Não vos preocupeis.
Ficarei por aqui mesmo - confirmou Marcos.
Pensando nos recém-chegados, Simão pediu para Domitila conseguir alojamento aos visitantes e para Porfírio e Olípio cuidarem dos que ficariam naquela casa.
Antes de sair, Simão formou o grupo para orarem, pedindo a Deus coragem, alegria e sustentação dos direitos sagrados, nas novas metas de amor que atingiriam.
Simão deixou-os e, em sua casa, lembrou-se de que pedira ao Pai, depois que Paulo fora assassinado, a bênção e a boa vontade para agir mais entre os sofredores, evangelizando-os a seu exemplo e agora era o que estava fazendo, sentindo-se útil e cumprindo com o seu compromisso.
Em breves dias, ele também seria martirizado, sabia disso.
A “doutrina escabrosa”, como falavam os nobres romanos, estava excedendo em número e, como o povo tinha sede de entusiastas diversões no circo, antes que perder seus escravos, eles desejavam que fossem sacrificados aqueles que estavam fazendo mal a Roma e que difundiam ideias de liberdade e igualdade, que os nobres romanos jamais aceitariam.
Quando Paulo fora aprisionado, Simão soube que os soldados andaram perseguindo os cristãos para ver onde se escondiam, até apanhá-los nas catacumbas, e teve receio de que a cena se repetisse.
Ouvira falar que o grande circo era enorme em comprimento, tendo uma das suas extremidades arredondadas, por onde se sentava a nobreza e a outra extremidade de onde saíam os leões e os gladiadores, ou escravos sujeitos à morte.
O circo era um exemplo de beleza, com suas estátuas e adereços, mas um lugar de horrores e carnificinas.
Por esse motivo, a importância e urgência de trabalhar para Jesus, e orava para que suas forças não falissem.
Só assim estaria em paz.
Com esses pensamentos, elevou a face ao céu estrelado, onde parecia sentir-se mais próximo a Jesus, e orou a Deus, agradecido.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:30 am

14 A PAIXÃO DE ROMÉRIO
Porque onde estiver vosso tesouro, aí estará vosso coração.

Jesus (Lucas, 12:34)

DEPOIS QUE SATURNINA SE RETIROU, NA CONVERsação com Romério e Petruilio, o esposo de Veranda chegou-se mais próximo a Romério e lhe confessou:
- Estás vendo por que não podemos erguer a mão acusando essa bela senhora?
- Se bem que isso seria o correto, já que somos representantes da lei - concluiu Romério.
- Mas não acabamos de falar no rebuliço que esta cidade está?
Nosso imperador é louco e depravado, além de assassino.
Se realmente prestamos afecto às nossas mães e nossas mulheres, nós precisamos detê-lo.
Além do mais, peço a ti sigilo.
Somos todos romanos aqui.
- Dias razões demonstram a nobreza de teu carácter, Petruilio.
Ponderação é o método correto.
E, por falar nisso, saio agora, já que começa a anoitecer, para seguir minha linda “prometida”.
- Hum... a coisa está séria - riu o companheiro.
- Ciente de, no dia de amanhã, voltar ao trabalho? - perguntou-lhe Romério.
- Sei. Não poderei falhar.
Existem olhos e ouvidos atentos em mim.
Sabes de quem estou falando, não?
- Salúcio Primus, nosso general, sempre ele.
- Pois bem, o que fazer?
Devo obedecê-lo.
Estarei pronto para voltar ao Quartel dos Pretorianos, completamente restabelecido.
Hoje, minha família voltará para a casa no sítio.
- Não irás reconstruir tua residência de Roma?
- Sabes as razões que não me permitiram reconstruí-la.
- Sei. A paz de tua esposa.
- Minha vida estava miserável com as insinuações de Salúcio e sua fixação por Veranda.
O incêndio salvou-me.
Estou vendendo a propriedade queimada.
Romério voltou-se para se despedir de Saturnina, que o cumprimentou com carinho:
- Voltai sempre, meu amigo - despediu-se ela - e que continueis a cultivar, em vosso coração, a ternura e o discernimento que já existe em vosso interior.
Diante do olhar sincero da matrona, Romério sentiu a presença de uma força maior, capaz de mudar o mundo.
Sem poder entender como ela poderia amá-lo, sendo uma cristã, e ele o perseguidor que se guiaria, dali para a frente, como inimigo pessoal de todos os cristãos, sentiu-se envolto nas vibrações ternas do coração da mulher e nada falou.
Não se dera conta de que todos os verdadeiros acompanhantes da obra redentora, os cristãos, traziam em si mesmo a verdadeira passagem do Cristo, com exemplo do amor incondicional.
Com o pensamento e o coração leve, imaginando Raquel em seus braços, o centurião apanhou sua biga e dirigiu-se a espionar a casa de Demétrius.
A noite caíra cálida e perfumada pelos jasmins nocturnos.
No céu, as estrelas já começavam a aparecer e, na casa de Demétrius, Raquel e Silvina acendiam os lumes.
Ainda temerosas, agora sabendo que estavam sendo vigiadas pelo atraente centurião, faziam o trabalho que lhes fora dado, sem as queixas dos dias anteriores, que de nada serviriam.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:30 am

Temiam por Tília, porque não a tinham visto mais sair do dormitório, ouvindo-a chorar e, por vezes, gritar:
“Eu vos odeio com todas as forças de meu coração”, mas faziam questão de alcançarem a ela algumas frutas ou um pouco de leite e mel pela alta janela.
Os escravos Polinário e Filomeno, unidos em testamento de vingança, continuavam a trabalhar, convictos de que um dia, Clarêncio e Vitório, que começaram a sair à noite para encontro cristão, seriam entregues ao patrão por eles, mas antes precisavam do testemunho de um terceiro escravo.
Invejando-os pelos seus dotes respeitosos, já que tanto Demétrius como Demétrius Darius os tinham na estima, os invejosos escravos uniram-se a um rebelde egípcio de nome Ahmed.
Tília não mais fora ao encontro cristão, mas refugiava-se na prece aprendida, com a convicção de que um dia seria livre e mais feliz.
Certa vez, antes do dia findar, Clarêncio e Vitório convidaram as jovens de sua Jerusalém para voltarem a visitar Olípio.
Aguardaram a noite chegar e, depois de receberem o aval do grego Demétrius, saíram sob os olhos maldosos de Polinário e Filomeno, que avisaram rapidamente para que o egípcio os seguisse, já que eles não tinham licença para a saída.
- Viste o que eu vi?
E ainda receberam licença de ir, por que eles podem e não nós? - Polinário perguntou a Filomeno.
- Ora, eles sempre têm mais que nós.
Mas nos vingaremos desses malditos!
Chegou a hora, amigo! - argumentou Polinário.
Ahmed conseguiu uma adaga e a colocou na cintura para eventuais sucessos, mas atendeu ao chamado dos dois malfeitores, ouvindo:
- Vimos a arma em tua cintura.
Bom seria se pudesses acabar com aqueles dois; contudo, as duas personagens femininas vão com eles, o que nos tira essa oportunidade.
Mas se, mesmo assim, não tivermos como denunciá-los, daremos queixas ao Centurião, que, vez em vez, passa por aqui.
- Não sei se é uma boa ideia, Polinário, afinal, penso que o que chama o centurião aqui é o coração da bela Tília.
- Ela? Penso que te enganas desta vez.
Ele deve ser o espião de Demétrius contra todos nós, porque Tília está sendo aprisionada.
- E de que forma! - confirmou o outro.
Ahmed, ali envolvido pela escuridão, aguardava um tempo para que os perseguidos dobrassem a esquina.
- Filomeno, diga-me uma coisa, não estaria o centurião apaixonado por Raquel? - perguntou Polinário, vendo o egípcio sair rapidamente atrás dos escravos cristãos.
- Penso que os valores que ele recebe, espionando a bela Tília, são de maior importância do que um romance.
O ouro... ah, o ouro...
Bem, agora é esperar Ahmed e saber as novidades.
Pelas ruas escurecidas da velha Roma, Raquel e Silvina, com as cabeças cobertas com seus mantos, caminhavam silenciosamente até a casinha afastada de Olípio Lunae, acompanhadas por seus fiéis amigos.
- Não devemos entrar em ruas onde há movimento, senhoras.
Andemos beirando o Tibre.
Esse é o melhor lugar para não sermos visados pela guarda pretoriana, que pode nos seguir e assim chegar a Olípio.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:30 am

Todo cuidado é pouco - alertou-as Vitorio.
A lua escondia-se na neblina, e um vento gelado os envolvia.
- Está frio! - queixou-se Silvina
- Bem falei que iria esfriar, Silvina! Não deverias ter vindo, agora te queixarás até voltarmos.
Clarêncio retirou o manto de suas costas e colocou-o nos ombros de Silvina, que sorriu acanhada para ele, agradecendo-o:
- Não terás frio, irmão?
Notando o jeito faceiro da adolescente, com olhares femininos que lhe diziam mais, ele respondeu muito sério:
- Olha, menina, poderias ser minha filha, e eu não gostaria de ver uma filha minha passando necessidade pelo ventinho fresco que está fazendo.
Silvina fechou a cara e continuou calada até chegarem em frente ao portão de Olípio.
Agora as nuvens escondiam totalmente a Lua; estava escuro demais para se enxergar iam palmo à frente.
- Estou com medo... o que nos espera ah adiante?
- Pára, Silvina.
Quiseste vir, terás que ter coragem.
Sabemos o caminho, e, se uma cobra te saltar no pé, dá-lhe um chute! - brincou Raquel com ela, que gritou:
- Ai! Aqui tem cobras?
Por esse grito, Ahmed, que já estava voltando, pois os perdera de vista, conseguiu voltar a segui-los.
Olípio, ouvindo ruído de passos na folhagem, elevou o lume para dar-lhes sinal.
- Ave Cristo, jovens amigos! - falou, quase sussurrando.
- Shalon, caro Olípio, enfim chegamos.
A noite não nos ajudou muito hoje - comentou Clarêncio.
- Deveis ter muito cuidado na volta.
Ontem, quase fomos pegos, mas um de nossos irmãos conseguiu despistar a guarda pretoriana.
- Estaremos vigilantes - respondeu-lhe Vitório, abraçando o benfeitor.
Na pequena sala, já estavam aguardando vinte a trinta pessoas, com fisionomias serenas e confiantes.
- Bem, podemos começar, porque aqui estão aqueles que esperávamos - iniciou Olípio, falando aos que lá aguardavam.
Nosso número está maior porque as pessoas que vocês desconhecem são acompanhantes de Porfírio.
Depois do término das lições, que Porfírio nos dará, faremos uma pausa para decidirmos onde nos reuniremos na próxima vez.
Chega o momento em que deixaremos este abrigo.
- Que Jesus e sua paz nos acompanhem agora e sempre - principiou Porfírio.
Vemos nós o cerco se fechar cada vez mais.
Agora somos procurados em todos os cantos da cidade, mas quem crê tudo receberá.
Eles não conseguem nos apanhar porque Simão, nosso apóstolo, pediu-nos que nos reuníssemos em casas de família e, cada vez, em casas diferentes, e devemos continuar assim e sem medo.
Somos ou não somos do Cristo?
Queremos ou não ter a vida eterna?
Não será para nós um deleite sabermos que nada terminará com nossa morte e que teremos as alegrias de estarmos próximos ao nosso Mestre, se muito amarmos?
Procuraremos fugir, sempre fugir, pois assim espalharemos as lições recebidas, contudo, se não conseguirmos, nada deverá nos assolar.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:31 am

Ahmed, de soslaio, chegou até a porta, mas não entrou.
Ficou ali, tentando captar o sentido da conversa.
E Porfírio continuava:
- Amigos, irmãos, só o amor nos poderá salvar e nos permitir conquistas e alegrias nesta vida.
Sofremos perseguições indevidas, somente por amarmos, e nos perguntamos: porquê?
Se estamos procurando seguir a Jesus em seu testamento de consolo na dor, por que estaremos pecando?
Roma não nos entende, isso porque acredita nesses deuses de pedra, que jamais tiveram alma, e assim não podem auxiliar a ninguém.
Se eles soubessem o valor da salvação e tudo o que o amor pode curar, deixariam as guerras, as conquistas e viveriam em um clima de eterna paz.
Mas o orgulho, esse vilão, por hora jamais permitirá que se modifiquem.
A não ser em certas pessoas mais sensíveis é que a mudança dará margem à vitória.
O cristão procura reparar seus erros passados, arrumar o que, em seu interior, está incorrecto, permitindo-se perdoar aos que o magoaram, abrindo os olhos daqueles que vivem em cegueira pelo poder e pela astúcia, pelo ouro que não podem levar ao túmulo, pois somente encontrarão seu tesouro no momento em que valorizarem a família e aqueles que lhes estão mais próximos.
Jesus nos falou:
“Onde está vosso tesouro aí estará o vosso coração.”
Portanto, irmãos, amai o vosso próximo, deixai a malícia e a astúcia, que sempre querem tirar vantagens dos que nos estão próximos.
Respeitemos a todos, principalmente as mulheres viúvas.
Auxiliemos aos que de nós necessitam.
Lembremos de nossa correcção, porque, se Jesus é nosso exemplo, é necessário melhorar as atitudes de antigos ateus, adoradores de imagens de pedra, amando e perdoando.
É necessário aperfeiçoarmos o Espírito, abandonando a tirania e tornando-nos um novo homem.
Irmãos meus, se podeis ver, com a mente e o coração, a maior parte das almas romanas desta época, vereis que andam em círculo...
Que desejam alcançar os cumes, sem jamais sair do lugar, porque não são com os valores materiais que conquistarão locais mais elevados, não é com a alma repleta de desejos carnais que receberão a felicidade que tanto desejam conquistar.
O amor, desta forma, mais fome lhes dá e jamais os saciará.
E o ser humano continua, insistentemente, a procurar a felicidade.
Graças damos a Jesus por nos ter aberto os olhos, pois éramos cegos pela paixão que nada nos deixava ver, quando nos entregávamos à vingança, sem sequer imaginar o que acontecia nos corações alheios...
Hoje, com Jesus, nós somos homens que nos consideramos lavados e limpos, vestindo uma túnica diversa, não mais manchada de sangue.
Vibremos por esse fato, sem esmorecermos.
Ergamos o estandarte do Cristo acima de nossas cabeças, para que todos assistam e vejam que nada escondemos daqueles que ainda não o conhecem e levam a vida em pecado.
Jesus veio para nos salvar, abrindo nossos olhos para a verdadeira realidade.
Por esse motivo, sejamos fortes.
Enfrentemos os leões; se for necessário, fogo; as tempestades diversas, com coragem e fidelidade, porque logo estaremos livres!
Fortes e livres!
- Mas, se morrermos, quem continuará para levar a palavra? - perguntou um escravo muito magro, de certa idade.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:31 am

- Não somente aqui há cristãos, Jerúnio.
O Cristianismo, pelas mentes enfartadas de dor, cresce assustadoramente, tudo pela insatisfação e o mal que as assola.
Mas, com essas palavras, eu não quero assinar nossa sentença de morte.
Muitos e muitos levarão a palavra, pelo que Jesus nos disse, além de que, nem todos perecerão no circo, pois nossa sentença já está programada pelo Pai Maior.
Tenhamos fé, tenhamos fidelidade.
Conversas de todos os tipos, perguntas e declarações de corações preocupados chegavam aos ouvidos do instrutor, e a tarefa nocturna foi se estendendo por mais duas horas.
No final, Olípio comentou:
- Bem, irmãos, de agora em diante, nos dispersaremos.
Nestes dias em que aqui estiveram, receberam o conhecimento necessário para saberem o que Jesus nos quis ensinar.
Procuremos, no entanto, outros locais para as reuniões.
Depois desse encontro, nós iremos à casa de domina Saturnina para nossas preces, mas alguns querem voltar a se reunir nas catacumbas, além dos muros de Roma, contudo, Simão acha isso uma incoerência.
Depois, dirigindo-se a Clarêncio e Vitorio, pois já os tinha visto, comentou:
- Atrás da alameda das trepadeiras, passando por um arvoredo cerrado, há uma residência de dois pisos que é da domina Saturnina.
Ela poderá receber as duas jovens, caso precisem com urgência.
Serão lá nossas próximas reuniões, nesta e na outra semana.
Ave Cristo!
- Amém!
Ahmed, ouvindo essas palavras no lado de fora da casa, tremendo pelo frio do outono que apontava, começou a fazer uma introspecção e se colocou entre os maus e bárbaros, mas tinha que cumprir o que havia prometido.
Ao ver que aqueles a quem seguira se movimentavam e se despediam de Olípio e Porfírio, saiu de mansinho, no entanto, ao chegar ao portão da entrada, encontrou centuriões que o interpelaram.
Pelo barulho que fizera e pelos gritos de “Larguem-me, eu não sou cristão, os cristãos estão lá dentro!” alertou os que saíam da casa de Olípio, e todos voltaram para debandar pelos fundos do terreno, que desembocava em local movimentado do Esquilino, depois, passaram por um arvoredo cerrado para chegar a outra colina de Roma, onde Demétrius residia.
Ouvindo os gritos de Ahmed, Raquel, Silvina e os amigos correram o mais que puderam, até poderem voltar a caminhar normalmente, alcançando a rua dos bares e, mais tarde, das casas melhores daquele lugar.
Os dois homens, assustados por serem responsáveis pelas moças, agradeciam a Jesus a felicidade de estarem livres.
Porfírio vinha com os outros, mas se dispersaram para não causar desconfiança, enquanto Vitorio e Clarêncio caminharam até a rua citada por Olípio para conhecerem a residência de Saturnina, caso a ela necessitassem recorrer.
Romério, passando por ali, viu o grupo e apressou o cavalo para apanhá-los, deixando seus soldados.
“Que satisfação encontrá-los sãos e salvos!” - pensou.
Havia-os seguido, mas não os aguardara sair.
Depois, viera a saber da guarda que recebera uma denúncia e se preocupou.
Agora, vendo-os ali, respirou profundamente e, dirigindo-se a Vitorio, com os olhos fixos em Raquel, falou dissimulado:
- Vitório, o que vos traz aqui, e ainda à noite?
Cuidado, senhoras, não podeis sair desse jeito nestas horas.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:31 am

- Bem... nós... isto é...
- O facto é que, seja lá onde estivestes, está sendo perigoso andar à noite, ainda mais escravos, como são.
As duas jovens baixaram a cabeça.
Raquel, com o coração descompassado, não teve coragem de se acusar, dizendo a verdade.
Mas Romério nada quis saber, e somente continuou:
- Vou acompanhar-vos até a residência de Demétrius.
Peço que olheis aqui ao lado esquerdo.
Esta é a residência da senhora Saturnina.
Bela, mas simples.
Ela é uma senhora muito boa - comentou, dando-lhes a entender, entre linhas, o que o grupo, exactamente, estava procurando.
No portão da casa de Demétrius, aguardavam escondidos Polinário e Filomeno.
Estavam desconfiados, porque Ahmed não retornava.
Logo, viram aparecer Clarêncio, primeiro, e após, Vitório e o grupo, e se esconderam enquanto eles se aproximavam, vendo que o centurião também estava junto.
Romério desceu do cavalo e vinha ao lado de Silvina, que somente olhava para a amiga, piscando o olho e sorrindo.
- Então, Raquel, como tens passado?
És bem tratada em casa de Demétrius? - indagou-lhe o centurião, colocando-se ao seu lado e apanhando-lhe a mão.
Baixando os olhos, Raquel respondeu:
- Somos escravas e não temos direito a reclamações.
- Todo ser humano, escravo ou não, tem direito de dizer se não está satisfeito.
- Se eu tivesse esse direito, vos diria que seríamos mais felizes se descansássemos um pouco mais.
Não temos quase descanso e, quando a noite chega, o medo se nos toma conta.
- Medo? Ah... os patrões, à noite, estão em casa, e é esse vosso medo, não?
- Sim.
- Sei o tipo de escrava que és, Raquel - falou, vendo Vitório e Clarêncio adentrar com Silvina -, e o que dirias se soubesses de um centurião que escolheu uma escrava para se casar?
- Conheceis, então, senhor Romério, alguém que assim se interpõe às regras de conduta entre senhor e escravo?
Vendo toda a firmeza de carácter da escrava e sua grandeza de alma, concluiu:
- Pois eu conheço; conheço alguém que está apaixonado por uma escrava.
- E... quem é esse homem? - ainda indagou, com o coração aos pulos.
Romério apanhou sua mão, colocando-a nos lábios.
- Não façais uma coisa desta, senhor!
Não temos esse direito - reclamou a bela Raquel.
- Direito de amar?
Sim, perante os homens e nosso governo, tudo isso nos parece impossível, mas nada me faria deixar de vencer esse obstáculo.
Te amo! E, prometo, serás minha abençoada esposa.
Cristã ou não, patrícia ou não.
Raças, religiões, credos, crenças, nada poderá abafar o que sinto em minha alma, desde que te conheci.
E, olhando-a nos olhos, perguntou:
- Quando voltareis a Olípio?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:32 am

Gaguejando, ela respondeu:
- Como... sabeis, então?
Sois, porventura, cristão?
- Não, mas há uma sina em minha vida que me empurra para mulheres cristãs.
- Mulheres?
- Minha esposa...
- Sois casado?
- Sou viúvo, mas não quero perder a mulher amada novamente.
Deixa o Cristianismo, suplico-te.
Bem... - pensou, lembrando do perigo de tê-la consigo - seria melhor acompanhar-te de longe na próxima vez.
- Não nos entregareis?
- Confia em meu amor por ti.
Boa noite - falou, beijando-lhe a mão.
- Boa noite.
Mas não nos encontraremos na casa de Olípio novamente.
Vamos decidir isso na Ponte Fabrício amanhã.
Penso que nos reuniremos nas catacumbas para a reunião.
- Lá não, pequena.
Teu instrutor Paulo foi apanhado lá e aprisionado.
Tentou conversar com Nero, e nada conseguiu.
Depois, aconteceu seu assassinato.
Digo-te, em sigilo, as coisas não estão bem.
Em breve, tudo virá à tona.
Melhor seria não ir a esse encontro.
- Arranjaremos outro local.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:33 am

15 Dias de Temor
E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude e, à virtude, ciência...

(II Pedro, 1:15)

SATURNINA DESPEDIRA-SE DOS AMIGOS COM PROfunda tristeza.
Sabia dos perigos que todos eles correriam caso algum deles deixasse escapar algo sobre a reunião que curara Petrullio, pai e esposo.
Até temia isso de Romério.
Então, ela ficou de prontidão, caso necessitasse sair da cidade, em fuga.
O tribuno despediu-se de Saturnina, agradecendo-lhe a acolhida, e só isso.
Veranda, sempre incrédula de tudo, desta vez mostrara a Saturnina imensa gratidão pelo conforto e acolhida recebida e, no momento da despedida, desejando ser verdadeira em seu pensar, falou-lhe:
- Esteja certa, amiga, que jamais esqueceremos este acolhimento tão significativo para nossas vidas.
Tenho certeza de que nenhum dos meus comentará o que houve nessa casa e também penso o mesmo de Romério Drusco.
Contudo, se pretores a procurarem, deveis saber que um dos nossos foi pressionado a falar.
Em meu esposo eu confio.
Ele tem um carácter firme, mas não penso o mesmo de minha nora, ou de um de meus filhos, que teriam o receio do que sentiriam se fossem destituídos do posto que tanto amam.
Parou para olhar ao lado e continuou:
- Sabes, prezada amiga, que o carinho pelos nossos afeiçoados, por vezes, nos faz suportar muitas coisas, mas jamais pensaríamos em trair a cidade dos imperadores, que tanto orgulho já nos deu por suas grandes conquistas e tantas honras nos transferiu.
Saturnina sentiu como se recebesse um punhal no peito e expressou-se, com a testa franzida:
- Faço-te uma pergunta, Veranda.
Depois de tudo o que viste aqui, depois da cura de teu esposo, das orações que fizemos a ele, do afecto e da gratidão de teus filhos a Jesus, ainda estás desacreditada destas obras?
- Ora, amiga, eu não desejaria te magoar, mas... os magos também agem assim e não creio que alguém morto, como esse que foi crucificado, volte para fazer curas.
O tal homem que trouxeste aqui deve ser um mago, mas aquele que morreu morto está.
- Obrigada pela resposta.
Se o bom exemplo não te animou, nada mais posso dizer-te para que creias.
Vai em paz e que os amigos de Jesus jamais te abandonem.
Saturnina sorriu para ela e a abraçou:
- Obrigada, Saturnina.
Sei que te esmeraste pelo melhor e, se em algo eu não te agradei... bem... o que posso fazer... eu sou assim mesmo.
- Não há necessidade de agradecimentos, minha amiga.
Grato fica todo aquele que pode fazer alguma coisa a seus amigos.
Volta sempre.
Abandonando a residência, a simpática Dulcinaea abraçou a anfitriã:
- Senhora, que Jesus vos abençoe, e obrigada por nos mostrar o caminho que nos leva a Ele.
Tanto Murilo quanto Marius prometeram defender os cristãos.
A senhora jamais ficará abandonada, se a procurarem.
Mas juro-vos que, se isso vos acontecer, não será por nosso intermédio.
Beijou as mãos da anfitriã, que sentiu os olhos encherem-se de lágrimas, agradecida, e, depois, o mesmo fizeram os dois filhos de Veranda, que já aguardava na rua com o esposo.
Os portões foram fechados quando a carroça e os cavalos deixaram a residência romana.
Dias de suposta calma se passaram, mas com alta apreensão de toda a comunidade cristã.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:34 am

Saturnina continuava com as reuniões em sua residência, todavia, o clima de Roma era pesado e tenso, mas nada se falava sobre novos sacrifícios.
A ordem do imperador era apanhá-los de soslaio.
Sabia Tigelino que muitos se escondiam como ratos no dia claro, espreitando a noite para agirem.
Mas como não mais iam a locais alugados, nem onde foram apanhados meses antes, muito difícil era chegar-se a eles.
As catacumbas, à noite, estavam desertas, assim Roma permaneceu em clima aparentemente tranquilo para que os cristãos começassem, novamente, a sair, como nos tempos de Paulo, levando inúmeros adeptos do Cristianismo consigo, a um só ambiente.
Simão continuava com o acompanhamento de Marcos em todos os locais, sendo que, nas horas diurnas, quando o discípulo de Jesus não ia ao Esquilino, ele e Marcos comentavam sobre o Evangelho, fazendo, este último, novas anotações.
Meses se passaram...
- Nero Claudius Caesar Augustus Germânicus, deus romano! - chegou-se ao imperador o chefe dos pretores, Tigelino, batendo com o braço direito ao peito.
Tudo está tranquilo como vós pedistes, mas os malditos continuam escondidos em casas alheias e difícil será apanhá-los, apesar da cobertura dos soldados pretores.
A escuridão nocturna favorece-os.
Quem sabe apanhamos o velhote em sua própria casa, o chefe de todos, para sacrificá-lo na cruz como exemplo aos outros?

Isso faria com que essa crença fosse banida de vez.
Nero, erguendo-se do trono, começou a caminhar para um e outro lado, pensando se essa seria uma boa ideia.
Relutou um pouco, mas decidiu:
- Desta vez, tua ignorância foi superada com esse teu fio de capacidade.
Sim, assim faremos.
Vamos crucificá-lo!
Com ele aprisionado, com certeza todos os demais se reunirão nas catacumbas, então também apanharemos os outros.
Mas, até que isso ocorra, prende aqueles de quem desconfiar.
Nos locais onde se alojavam os cristãos, próximos ao Esquilino, tudo continuava como Simão previra.
Ninguém fora aprisionado até aquele momento.
Domitila comentava com Raimunda:
- Houve dias de calma, mas esse silêncio é prenúncio de trevas e dores, falou-nos mestre Simão.
Soubemos que Tigelino mantém-se atento e os homens do povo estão sequiosos em ver o sangue correr; pedem mais uma das actuações que acham divertidas, onde se extasiam com a matança no circo.
Ora, vê só, Raimunda! - suspirou ansiosa Domitila.
Até agora, estávamos como que nos escondendo, depois que muitos foram apanhados nas catacumbas, tendo nossos encontros com domina Saturnina, ou mesmo aqui.
Contudo, aquela senhora teme, ela sente no ar muitas dores que se aproximam e até convidou Simão para partir com ela a Herculano, onde tem moradia, mas, pelo que sei, ninguém tira aquele homem daqui.
Notamos que pretores nos espionavam em dias anteriores e começaram a marcar as casas de quem desconfiavam fossem cristãos, já que não fizemos mais as grandes reuniões.
Penso que, de uma hora para outra, apanhar-nos-ão e nos levarão para o cárcere.
Mas a mim não irão apanhar, porque tenho meu compromisso com nosso mestre Simão Pedro e com aqueles de quem cuidamos.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:34 am

Raimunda baixou a cabeça e deixou cair algumas lágrimas, dizendo:
- Como está sendo difícil não renunciar ao Cristo neste momento.
Muitas vezes pensei se não seria melhor desistir de tudo e simplesmente viver a vida, mas paz jamais nós teremos.
Então, lembrei-me de nosso Paulo e toda a força que ele fez para que Jesus vencesse com seus ensinamentos divinos.
Sim, Domitila, eu vejo teu exemplo, sempre de cá para lá, trazendo-me notícias dos cristãos e das organizações de amor do Alto.
Tu, que és mulher de um cônsul, não desistes, como não seguir teu exemplo?
Não tens medo da revolta do governo?
E teu esposo sabe de teus passos?
- Bem, ele me ama e pediu-me que desistisse da obra, mas, como sua esposa, talvez, nada aconteça comigo.
Contudo, se acontecer, morrerei por Jesus, em nome do amor.
- E o convenceste?
- Ele é um cônsul, minha irmã, difícil seria ele abraçar o Cristianismo.
Mas, se eu for aprisionada, sei que ele me defenderá e, se isso for impossível, morrerá comigo.
- Ele realmente te ama.
Simão e Marcos, todo entardecer, reuniam-se para que o jovem fizesse algumas anotações para seu Evangelho.
Mas, assistindo a rebeldia do povo dias depois, o discípulo de Jesus chegou-se a João Marcos, pedindo-lhe:
- Meu filho, tu és jovem e estou sentindo grandes apreensões e penso que, já que nos auxiliaste bastante aqui e já que estamos com as anotações que desejávamos, deverias voltar à Ásia.
Temo por tua vida, pois, em sonhos, vi muitas dores e sofrimentos e tu és necessário nas igrejas que formamos.
Marcos aceitou voltar e começou a se preparar para a partida na semana que viria.
Despediu-se de todos, muito sensível, porque também pressentia o que estava para acontecer.
Anacleto, Clemente, Porfírio, Olípio e Isaac, os mais preocupados com o chefe da Igreja, procuravam retirar Simão de seu ninho doméstico, mas aquele discípulo de Jesus não quis se desviar do caminho traçado e falou-lhes:
- Seria muito fácil fugirmos, sairmos de Roma para vivermos dias de suposta paz.
Poderíamos ir a Herculano, pois tivemos convite da senhora Saturnina, no entanto Jesus não fugiu, Jesus entregou-se aos soldados e caminhou com eles deliberadamente.
Como fugir se eu já neguei o Mestre naqueles dias?
Como sair daqui, deixando todas as ovelhas do Mestre sujeitas ao crime romano?
Sim, todos nós tememos as dores do corpo.
Todos tememos os horrores das cruzes, dos açoites e as miseráveis angústias que precisamos sentir.
Jesus me havia dito, um dia, que eu iria por onde não desejaria ir.
Portanto, amados, não temos outra escolha.
Os dias de paz que obteremos serão aqueles que nossa renúncia por amor a Jesus nos trará.
Hoje, estou pronto.
Quando me apanharem, eu darei meu testemunho ao Mestre.
Além do mais, eu acredito que nossos caminhos já estão traçados.
Todos os cristãos daqui precisam de mim.
Sei que meus dias estão findando, então, é necessário seguir com as soluções para quando isso se der.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:34 am

O que nos interessa é o Cristianismo continuar a ser divulgado.
Continuarei com minha família, na mesma casa onde estou.
Continuaremos com a manutenção da casinha do Esquilino, que abriga velhos, doentes e o paraplégico avô de Catina, a jovem que perdeu a vida no massacre do circo, por amor a nosso Mestre Jesus.
Seguiremos pedindo mantimentos e ervas medicinais.
Simão Pedro, mesmo com seu corpo cansado e mais lento, andava entre os irmãos cristãos, sempre a pedir um pouco de alimento para aqueles necessitados.
O amor ao próximo reclamava o auxílio alheio.
Não fora isso que Jesus pedira a ele?
Se Tigelino o viesse apanhar agora, que ele fosse levado cumprindo sua obrigação ao Mestre, a quem tanto amava.
Sua idade não seria o empecilho para o trabalho de Jesus, com Jesus e para Jesus.
Mas previa sua desencarnação e resolveu fazer sua última reunião.
Dirigiu-se aos instrutores das diversas comunidades para reuni-los na moradia de Saturnina, a mulher da nobreza romana que ele admirava.
Já havia vencido sua desconfiança pelas mulheres separadas.
E quando a noite fechou com seu leque a escuridão das ruas, esses cristãos começaram a chegar, vindos em grupos.
Saturnina recebeu-os de braços abertos.
Simão Pedro, emocionado por achar ser a última vez que veria ali a face daquelas pessoas, iniciou sua última reunião:
- Irmãos, Ave Cristo!
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse-nos o Mestre.
Com isso, mostrou-nos que somente seguindo-0 poderíamos ser felizes.
“Ninguém vai ao Pai senão por mim”, falou-nos um dia.
Essas palavras marcaram em nós a realidade da vida.
Éramos de Deus, mas muito errávamos.
No labor diário, jamais firmávamos, em nossa introspecção, sobre nossos erros e acções, mantendo em nosso pensamento que, se nos fizessem o mal, deveríamos responder com o mal, como todos assim agiam.
Então, vimos que não fazíamos o que o Pai nos havia pedido quando transmitiu a Torá para Moisés.
E Jesus pediu-nos para amarmos a Deus, mas também o nosso próximo e Ele nos pôde abrir os olhos.
Dessa forma, ensinou-nos o perdão, até em sua derradeira hora.
Portanto, Ele não veio para destruir a Lei, mas para dar-lhe sentido.
Se reconhecermos em Jesus aquele que nos levará para caminhos melhores, que nos ensina a amar para termos uma vida mais feliz, precisamos não desistir do Cristianismo.
Nesses tempos difíceis, necessitamos nos apegar mais às Suas lições; em dias de tristezas, lembrarmos que Jesus nos acompanha, pois com Ele estaremos quando daqui partirmos.
Portanto, nós, os cristãos, deveremos manter a calma e a humildade, mesmo se ultrajados nas ruas.
Chamar-nos-ão de covardes, mas o que isso importa?
A demonstração de humildade não é um engodo.
Um dia, as pessoas compreenderão isso.
Se Jesus, nosso Messias, o filho de Deus, foi, até Seus últimos dias, humilde, lavando os pés de Seus discípulos, porque nós não o seremos?
Sinto como se o cerco se fechasse para nós, mas Deus, em Sua infinita bondade, jamais esquece os filhos Seus.
O momento difícil se aproxima, contudo, lembremos que muitos cristãos já o atravessaram com fé, resignação e alegria.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:34 am

Jesus, que jamais nos abandonou, continua a nos mostrar os caminhos que serão necessários trilharmos para provarmos que o Cristianismo está em nós, e transforma-nos, pouco a pouco, em pessoas melhores e seres mais altruístas.
Isso está gradativamente nos acontecendo para, quando chegar o momento de nossa provação, estarmos prontos, como se vestidos com as roupas nupciais, como nos pediu Ele ao nos contar a parábola do Festim de Núpcias.
Seu amor é a fonte da Água Viva na qual aliviaremos nossa sede.
Jesus não nos esquece; enquanto estamos descansando, somos ungidos na testa com eflúvios salutares, por seus amigos angélicos, para que consigamos adormecer tranquilos.
Ele não nos abandona jamais, ao contrário, ampara, mesmo nos mais dolorosos momentos, aquele que O ama, amando também o seu próximo.
Portanto, não temamos pelos que aqui ficarem; aqueles que acalentamos com o manto que aquece ao coração jamais serão abandonados pelo Pai.
Temamos, sim, pelos que fecharam os olhos e também os ouvidos para não ouvirem essas lições de amor e aos que, até agora, vibram com o sangue dos justos, que se derrama seguidamente nas arenas criminosas.
Mas, mesmo a eles, o Pai dará novas oportunidades. Um dia, a chama de luz do amor, que agora ainda lhes está apagada, resplandecerá em seus corações, portanto, em vez de odiá-los, usemos o perdão.
O mesmo perdão que um dia Jesus disse a mim que deveria ser usado, setenta vezes sete vezes, para cada ofensa.
Isso porque nós, os cristãos, aprendemos que o amor ao próximo é lei divina e o lume que dará claridade aos caminhos que palmilharmos.
Lembrai-vos sempre de que os ensinamentos do Cristo Jesus precisam ser apreendidos.
É o amor que vence e que ultrapassa os caminhos mais longos, que atravessa os oceanos e sobe, com sua luz vibrante e clara, transportando nossas almas às mais longínquas distâncias, direccionando-as ao Céu luminoso e belo, onde Jesus nos espera.
Então, Simão ergueu a cabeça aos Céus e orou a Jesus, agradecendo-0 por todos os dias em que ali estivera, por todos aqueles a quem teve a alegria de ensinar o Evangelho, por todos os sofredores que abriram seus olhos antes de irem ao circo, por ter tido a oportunidade de vir a Roma, mesmo na velhice, terminando:
- Irmãos, tenhais sempre em mente:
“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.
Nesse momento, a face séria de Simão Pedro se iluminou, firmando a fé nos companheiros cristãos que, nos dias anteriores, temerosos, lamentavam-se e, agora, formavam novo estandarte de coragem e tranquilidade flamante.
E a oração teve seu término, deixando, nos corações temerosos, a certeza de uma vida melhor nos braços da espiritualidade.
Simão comunicou, depois, aos instrutores das várias comunidades, que todos deveriam ter o cuidado de se manterem afastados, o quanto pudessem, do Fórum Romano e se desviassem das aglomerações populares.
Dessa forma, os ouvintes partiram com os pensamentos renovados e cheios de esperança.
Simão os enchera de positivismo e confiança nos dias vindouros, porque a felicidade não estava ali, mas em um lugar de paz, sem ódio, sem lamentações, onde o amor sempre impera.
No dia seguinte, à tarde...
- Horácio! - chamou-o a senhora Saturnina.
Eu penso que devemos deixar tudo preparado para nossa partida a Herculano.
Ouço que me mandam partir.
- Hoje, senhora?
- Seria bom se partíssemos logo.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 9:34 am

- Sim, domina.
Sei que há muita insegurança em todos os lugares aqui em Roma.
Quando está tudo tão quieto é aí que devemos nos alertar.
O próprio Mestre Simão nos confidenciou isso.
Penso que o cerco está próximo a se fechar, contudo, lembrai-vos de que eu e Marconde teremos uma reunião com nosso instrutor Porfírio na ponte, próxima daqui, à tardinha.
Ele precisará saber que estamos partindo e, como pedistes, vamos perguntar-lhe se gostaria de ir connosco a Herculano.
- Havia-me esquecido, é verdade.
Mas vai só, porque eu preciso de ajuda.
Marconde fica comigo.
Aguardamos-te aqui enquanto vamos arrumando algumas provisões.
Assim, quando chegar, estaremos prontos para a partida.
Ester voltou e me auxiliará em minhas necessidades mais expressivas, inclusive as que se referem ao meu filho Lucas.
Podes ir agora.
Ave Cristo, Horácio.
- Ave Cristo, senhora! - respondeu a Saturnina o amorável servo Horácio.
O cumprimento de maior valor, usado nesta época em Roma, pelos primeiros cristãos.
Tília sofria humilhada o aprisionamento doentio a que seu senhor a submetia.
Dias depois, começou a se sentir doente e febril.
Vendo-a dessa forma, Demétrius buscou um médico, mas esse nada encontrou que pudesse diagnosticar como doença conhecida e, na saída, falou a Demétrius:
- Vossa escrava está subnutrida e tem a doença da tristeza, e assim ela vai acabar morrendo.
Tristeza pode matar.
Vosso filho Demétrius Darius também a visita?
- Não. Só eu entro aqui.
Deixo um eunuco em vigília; ela não sai.
Por que a pergunta?
- Bem... porque ela está esperando um filho.
- Terei um filho?
- Bem... Desculpai-me a sinceridade, o senhor tem idade, e, por vossa idade madura, acho pouco provável que seja vosso.
Demétrius franziu o cenho e respondeu mal-humorado, louco como fera:
- O que estás querendo insinuar?
E disse para si mesmo:
“Ela é uma pecadora”.
No que o médico saiu, ele ergueu Tília da cama e, batendo nela, repeliu-a do dormitório.
Demétrius saiu esbaforido, porta afora, atrás dos escravos de confiança dele:
- Clarêncio! Vitório!
Apanhai essa mulher e a colocai junto com os outros escravos.
Os dois cristãos, de olhos arregalados, olharam-se e sacudiram a cabeça afirmativamente.
Mas, enquanto apanhavam a pobre mulher, pensaram o que iriam fazer com ela.
Demétrius saiu de casa para procurar por Demétrius Darius, seu filho, a fim de castigá-lo, achando ser ele o pai da criança.
Clarêncio, olhando para os lados para ver se estavam sozinhos, pediu a Vitorio:
- Procura por Raquel enquanto auxilio Tília, que desmaiou.
Temos encontro com Olípio e lá saberemos o que fazer.
- Vitório, nós temos que levá-la daqui.
Não podemos permitir que isso aconteça com a pobre Tília - implorou Raquel no momento em que ali chegava.
Aqui, sabes que nem todos pensam como nós.
Eles gostariam de se vingarem dela, ainda mais porque a têm como usurpadora do espaço que podia caber a outras, neste belo palácio.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:49 am

Os homens que servem aqui comentam sobre a preferência que o senhor Demétrius tem por ela, não desejando mais nenhuma escrava aqui com ele, tratamento que acham lhe ser especial.
Se soubessem o que ela já passou, jamais invejariam o lugar em que esteve até agora.
Polinário, que ouvia atrás de uma coluna, chamou outros escravos, contando-lhes o sucedido:
- Ele vai levar Tília para longe.
Não podemos permitir isso, já que está destinada a ficar em nosso meio.
Além do mais, está na hora de entregarmos esses salafrários a Demétrius, para que ele os castigue.
Filomeno ouviu o barulho e aproximou-se dos revoltosos:
- Querem Tília?
Mas ela deve estar doente, caso contrário o senhor Demétrius não a abandonaria.
Ele tem adoração por aquela mulher, meu amigo.
Vai ver que Vitório e Clarêncio foram imbuídos de colocá-la, quem sabe, no vale dos leprosos.
Vi-a desmaiada e cheia de manchas, tal qual a esposa que perdi.
Deixai-os, isso é melhor para nós.
Os escravos, que se armavam com paus e pedras para atacarem os dois fiéis auxiliares de Demétrius, pararam e, num átimo, colocaram as armas no chão.
Mas Polinário empunhou um bastão e disse, autoritário:
- Eu vou; ninguém me segue?
- Ela pode estar com lepra.
Eu não vou atrás deles - argumentou um.
- Eu também não - afirmou outro.
E, assim, nenhum deles quis seguir Polinário, que repensou e lembrou que ouvira as últimas palavras do senhor Demétrius quando chamou por Vitorio:
“Não quero mais ver essa mulher aqui”.
Então, decidiu:
- Certo. Mas vamos esperar o senhor chegar para nos vingarmos desses salafrários, já que Ahmed sumiu naquela noite e não tivemos ninguém mais que os espionasse.
Na realidade, Ahmed tinha sido aprisionado como cristão no portão da casa de Olípio, onde fora visto, e pessoas confirmavam ser o lugar de encontro dos adeptos do Cristianismo.
Agora, estava metido na prisão, aguardando a morte.
Não adiantara gritar, implorar dizendo ser o contrário ou coisa singular.
Para os romanos, Ahmed mentia e mentia pesado, só para escapulir do sacrifício.
No princípio, ele rebelou-se, chorou, debateu-se, mas depois, no espaço reduto onde eram aprisionados os que amavam o Cristo, o homem começou a prestar atenção aos ensinamentos do Evangelho, mesmo afastado de quantos ali se reuniam em oração, e simpatizou com aquele homem que somente viera para ensinar o amor a Deus e também ao próximo, Jesus.
Assim, tornou-se, no momento extremo, um penitente e amigo do Mestre.
Aceitou o abraço dos irmãos que tentavam, desde o princípio, acalmá-lo e ali fez muitas amizades.
Aprendeu a perdoar, coisa que até aquele momento não admitia, pois era do credo “olho por olho, dente por dente”.
Demétrius encontrou-se com o filho e pediu-lhe que o seguisse sem demora, puxando-o pelo braço.
- Vem, Demétrius Darius, precisamos falar, seu bastardo!
Embebido em álcool, quase caindo, andando até a moradia, o pobre rapaz ouvia-o sem quase prestar-lhe atenção.
- Então, admites? - inquiriu o pai.
- Eu... admitir o quê?
- Admites ter estado com Tília e ter feito nela um filho?
- Eu? Ora, mas que bobagem, meu pai...
Estais brincando comigo?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:49 am

- Vamos, diga, quero que jures pela alma de tua finada mãe!
- Mas como eu entraria lá se ela está sempre com o vigia eunuco, a pobre mulher?
Demétrius bateu-lhe na face e, irritado, falou:
- Quem quer entrar sempre dá um jeito.
Entraste lá, crápula?
- Antes pudesse.
Ela é tão linda, quanto boa e pura...
Mas vós, meu pai, vós - disse, sorrindo, sarcástico -, estais sendo o veneno que se lhe coloca na boca.
- Como podes falar assim de teu pai?
- Não enxergais nada, não é?
Só vosso ciúme comanda vossa mente e não vedes o mal que fazeis a essa pobre mulher.
Como ela poderá vos amar?
Sois o seu verdadeiro carrasco, porque quem ama não faz o que praticais.
O velho sentou-se em uma pedra, baixando a cabeça, e ouviu o filho continuar:
- O filho que ela espera é vosso.
Jamais alguém adentrou naquele cárcere em que a colocastes.
- Mas... Com a minha idade eu poderia, meu filho?
- E por que não, meu pai?
Casos, não raros, já se ouviu sobre crianças de pais “endurecidos nos ossos e na carne”, velhos, em outra expressão.
- Cala-te! Se é assim, a estas horas ela...
Oh, o que fiz eu?
Tília, Tília! - saiu preocupado em retorno ao lar.
Polinário e os outros escravos viram o pai de Demétrius Darius entrar nervoso e irritado, até encontrar Filomeno na porta de entrada e implorar-lhe:
- Chama Tília!
Onde está Vitório?
- Vitório e outros, penso eu, levaram-na ao leprosário - confirmou temeroso.
- Como? Leprosa?
Nisso, aproximou-se Polinário, imaginando exaltar o ânimo do patrão contra o grupo que odiava, mas, vendo a sua preocupação com Tília, achou melhor dizer-lhe:
- Bem, patrão, os únicos que tiveram coragem de levar a leprosa foram Vitório e Clarêncio.
Penalizadas, Raquel e Silvina foram para ajudá-la, mas penso que o senhor não deveria aceitá-los mais quando aqui voltarem.
Poderão infestar a todos.
- Como descobriram a lepra nela?
- As marcas rochas, patrão.
As marcas da morte.
Filomeno as viu de perto.
Demétrius, naquele momento, não se deu conta de que batera em Tília e baixou a cabeça.
Pensou que talvez por isso o médico havia-lhe dito que ela acabaria morrendo.
Perder tantos escravos de uma vez só?
Sim, não voltaria a seguir a mulher que tanto amava, e também tanto ódio lhe causava.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:49 am

16 A HORA DO TESTEMUNHO
E vos acontecerá isso para testemunho.

Jesus (Lucas, 21:13)

TÍLIA E DEMÉTRIUS TRAZIAM VASTA CARGA DE DEsacertos, entre os espaços contidos na eternidade.
Foram necessários trezentos anos para que esse encontro, sempre temeroso e protelado por ela, fosse concluído agora; tudo por uma existência anterior, quando ela fora a soberana e ele um escravo que se sentira amaldiçoado, passando pelas maiores humilhações e os maiores sofrimentos em suas mãos.
Até aquele momento, não era amor o que ele sentia por ela, mas a atracção pelo reajuste, o olho por olho, vindo a procurá-la como a procurou e maltratando-a daquela forma.
Era a angústia para concluir o acerto de contas, mas também a ocasião para o amor ao próximo.
Isso porque, em suas vidas sucessivas, ela, arrependida, fora admirável no que diz respeito à caridade.
Demétrius entrou na residência batendo nas paredes e machucando sua mão até sangrar.
Seu filho, Demétrius Darius, um pouco mais refeito do vinho que tomara, penalizou-se do pai a quem tanto amava e, chegando-se a ele horas depois, comentou:
- E, então, meu pai, ireis buscá-la?
- Temo fazer isso, meu filho.
Viram nela as marcas da lepra que, na alcova, em penumbra, eu não consegui visualizar.
- Mesmo assim, meu pai, por que não a procurais e tratais sua doença, ao menos para acalmar vosso coração ferido? - insistiu Demétrius Darius.
Ainda há tempo de refazerdes o que foi mal feito.
Naquele momento, penalizado que estava pelo sofrimento do pai, Demétrius Darius fora intuído por seu guia espiritual, guardando na memória essas palavras.
O velho coçou a barba e, irrequieto, caminhou de um lado a outro, sob os olhares dos escravos, que se sentavam no chão, em descanso, pelo dia de trabalho.
Então, ponderou:
- Sim, talvez essa seja a melhor maneira de eu refazer as coisas, mas, meu filho, se a quero tanto, por que, às vezes, odeio-a e, ao mesmo tempo, temo por ela?!
Oh, deuses romanos, o que fazer nessa hora de tremenda aflição?
- Conhecendo-vos, penso que não tereis descanso se não alimentardes em vosso coração o reajuste, trazendo-a de volta, mas, desta vez, como vossa verdadeira esposa, meu pai.
- Esposar uma escrava?
Enlouqueceste?
- Mas já não vos vingastes dela o necessário, meu pai?
Se ela guarda, em seu ventre, um filho vosso, não desejareis amá-lo como amas a mim?
Naquele momento, continuava Demétrius Darius a falar por inspiração, através de seu protector, ao pai aflito, que, pouco a pouco, refazia-se da dor que ainda desconhecia.
Quem conheceu os primeiros escravos, que se tornariam cristãos mais tarde, sabia que aqueles indivíduos eram, primeiramente, como poços de lamentações à procura de lenitivos que os sustentassem, chorando, odiando, rejeitando e clamando por vingança.
Depois, com o Cristianismo, começaram a mudar sua maneira de ser, mantendo nova postura diante da vida que levavam.
Esse era o resultado que obtinham através dos ensinamentos cristãos, que se baseavam na compreensão e aceitação dos males sofridos.
Tornavam-se, os cristãos, compreensíveis serviçais, amorosos e afáveis...
Paulo de Tarso havia escrito uma carta dirigida a Tito, comentando como deveriam agir os escravos.
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Ave sem Ninho

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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:49 am

Dizia ele:
“Tito, deves ensinar os escravos a serem submissos aos seus senhores em tudo, se mostrarem agradáveis, não os contradizendo nem prejudicando, mas, pelo contrário, dando provas de uma perfeita fidelidade, para honrarem, em tudo, a doutrina do Salvador”.
Seriam estes os verdadeiros criminosos do incêndio de Roma?
É lógico que não.
E certos nobres romanos começaram a raciocinar sobre todas essas coisas até chegarem a algumas conclusões:
“Não, esse povo sofredor não incendiara Roma.
Não a teriam destruído somente por acreditarem nas promessas de um rude e simples Galileu.
Eles são diferentes, poder-se-ia chamá-los de correctos e dignos.”
E diziam alguns romanos mais esclarecidos, quando se dirigiam aos escravos:
“Até que aquele carpinteiro fez um bem a todos os nobres de Roma...
Os escravos que não abraçam essa causa são rebeldes e perigosos, enquanto que os que assumiram aquelas lições, por acreditarem no futuro com um mundo melhor, tornaram-se compreensíveis e servis.
Não estão nossos escravos mais tranquilos agora?
Como poderiam ser acusados de tamanho genocídio e destruição pelo incêndio?
É de se pensar se nós mesmos, os próprios patrícios, não deveríamos assumir essa posição diante da vida...
Afinal, a paz é o desejo de todos e, com ela, a corrupção romana talvez termine.”
E falavam outros nobres da grande Roma sobre os escravos:
“Para que matá-los, já que ficaríamos sem os fiéis servos que agora sustentam nossa tranquilidade?
Além do mais, a capacidade de loucura do insensível imperador está desgastando os cofres de Roma, o nosso cofre.
Dessa forma, arruinar-nos-emos rapidamente se não tomarmos alguma providência com urgência.”
Lógico que a revolta dos que percebiam o que estava acontecendo no império de Nero não seria pelos pobres cristãos assassinados no Circo Máximo.
A maior parte do povo se excitava ao ver o sangue e as mortes no circo, mas os sacrifícios de fiéis escravos foram motivo de desprezo de certos nobres senhores, que os amavam.
Enquanto essas atrocidades aconteciam, caminhavam, pela Roma dos plebeus, Clarêncio, Silvina e Raquel, com Vitório, que apoiava Tília nos braços.
Eram visados pela população ali por esse facto, mas continuavam o trajecto até encontrarem a Ponte Fabrício, onde se reuniriam na passarela, abaixo dela, semiocultos pelo entardecer do outono romano.
Iriam aguardar escurecer para o encontro com seus instrutores.
Ali, em três grupos, os seguidores de Jesus aguardavam Porfírio, que chegava com Olípio a passos largos, vindos do outro lado do Tibre.
Tília fora colocada no chão sobre um manto e, acordada, procurava reclinar-se de modo a apoiar as costas no muro lateral da ponte.
Amigos dos instrutores colocaram sobre ela, que tremia de frio, algumas túnicas que levavam para eventual fuga.
- O que houve com ela? - perguntou Olípio a Vitório.
- Foi praticamente expulsa de onde estava.
Sofre muito desde o momento em que foi escravizada - respondeu-lhe Vitório e, para auxiliá-la e não tendo para onde levá-la, fugimos.
Então, Horácio chegou.
- Horácio, onde está Marconde, ele não virá? - perguntou-lhe o instrutor.
- Marconde ficou com domina Saturnina.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:50 am

Ela está precisando dele.
Partiremos para Herculano logo após esse nosso encontro.
Desejaríeis ir connosco?
0 velho instrutor, penalizado pela escrava Tília, franziu a testa sem responder, imaginando onde conseguiria um lugar para ela ficar mais bem instalada e logo se dirigiu aos escravos de Demétrius, alertando-os:
- Irmãos, não permaneçais aqui.
Levai nossa irmã Tília a domina Saturnina, em meu nome.
- Poderemos ir agora - respondeu-lhe Clarêncio -, mas onde nos reencontraremos?
- Na casa da nobre romana, mas, se por desgraça, nosso querido discípulo de Jesus, Simão Pedro, for apanhado, as comunidades se reunirão nas catacumbas.
- Mas o venerável Simão Pedro nos orientou para não irmos ainda a reuniões naquele lugar, porque foi lá que apanharam os cristãos que foram sacrificados e lá estão colocados para seu descanso final.
Ê isso que eles querem; que nos reunamos para apanharem muitos de uma vez só - lembrou Silvina.
- Sabemos disso, mas temos de correr o risco.
Novos atentados virão e deveremos estar preparados.
Ninguém nos encontrará lá se ninguém abrir a boca.
- Está bem. Então, vamos levar Tília agora.
Até breve - falou Clarêncio.
Raquel ponderou:
- Clarêncio, nós te aguardaremos aqui.
- Melhor seria se fossem todos juntos, também para saberem sobre a situação de Tília.
Lembrai-vos de que a domina está preparada para partir - concluiu Olípio.
Nos encontraremos daqui a dois dias, aqui mesmo. Ave Cristo!
Os servos de Demétrius se foram e, ao atravessarem a ponte, viram soldados que andavam rapidamente para onde estavam os amigos cristãos.
A guarda de Nero, atraída pelo testemunho dos revoltados Filomeno e Apolónio, escravos de Demétrius, desceu rapidamente as escadas laterais da ponte e cercou os cristãos.
Saindo Romério Drusco da residência de Saturnina, pois fora avisá-la das próximas buscas aos cristãos, já que ela tão gentilmente abrigara ao amigo Petrullio nos meses anteriores, avistou Raquel e os servos amoráveis de Demétrius com Tília nos braços.
Sem nada comentar com eles, fez com que entrassem na casa da matrona, e, ao virar-se, viu a guarda pretoriana vir da ponte com os cristãos que foram apanhados.
Horácio seguia à frente.
Reconhecendo-o como servo de Saturnina, apiedou-se dele:
- Ave César! - cumprimentou Romério à guarda pretoriana, batendo no peito com o braço direito e pedindo que parassem.
- Ave César, centurião.
- Aonde levai esses prisioneiros?
- Ao cárcere, são todos cristãos.
- Mas, pelo que eu sei, esse - discorreu, apontando para Horácio - não deve ser cristão.
- Mas ele estava lá.
És cristão ou não? - perguntou-lhe o soldado.
- Sim, eu o sou, podeis me levar.
Assistindo o olhar de paz, como em exaltação por afirmar que ele era, sim, um cristão, Romério fez sinal afirmativo com a cabeça para que o tribuno o levasse.
Horácio lançara-lhe um olhar de júbilo, apontando com a cabeça para a casa de Saturnina, como a pedir ao centurião que a avisasse, porque agora faria seu testemunho de amor ao Cristo.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:50 am

Romério aguardou a tropa passar e, quando estavam distantes, adentrou na residência de Saturnina.
Assustadas e chorosas, Raquel, abraçada a Silvina, olhava para o centurião, e, no seu olhar, havia toda sua gratidão.
O centurião levou-os para dentro da residência, enquanto Clarêncio colocava Tília entre os lençóis macios da patrícia, conforme o desejo da mesma.
A dona da casa, sorridente, mas com graves marcas de preocupação na face, recebeu a todos com carinho.
E, admirada pela atitude do centurião romano, perguntou a ele:
- Romério Drusco, se sois um soldado, por que agis assim, meu irmão?
- Pelo próprio coração, senhora, pelo próprio coração.
E continuou:
- Apanharam, há pouco, alguns cristãos, senhora.
Ela ergueu-se e, testa franzida, perguntou-lhe:
- Horácio estava com eles?
- Sim. Perdoai-me, senhora, não sabeis o quanto sinto - baixando a cabeça, respondeu-lhe.
Saturnina olhou-o, entre assustada e triste, e rematou:
- Bem... infelizmente não podemos partir sem saber de Horácio; amanhã mesmo, tomarei algumas providências.
Ela estava com as carroças prontas para partirem, mas pediu, para os que a iriam acompanhar, que descessem das carroças e entrassem na residência.
Todos estavam preocupados.
Ester chorava.
Foi, então, que Vitório lembrou-os de orar.
Em círculo, ajoelhados no piso de mosaico do átrio, todos oraram, pedindo a Deus o auxílio, e que Jesus estivesse com aqueles cristãos que foram apanhados, sem terem notícias ainda de Simão Pedro.
No dia seguinte, bem cedo, a bela matrona pediu para Romério acompanhá-la ao Senado, já que ele fora tão amigo.
Sabia que Petrullio ou Alexus, o pai de Dulcinaea, poderiam ajudá-la, se estivessem ali por perto.
Imaginava que, não só ela, mas alguns nobres romanos, também estariam pedindo por seus mais fiéis escravos.
Saturnina, não encontrando nenhum dos dois conhecidos, foi acompanhada pelo próprio centurião ao cárcere e, com Ester, que pedira à senhora publicamente que a deixasse ir, por amor a tudo que lhe era importante, a senhora da casa notou que algo mais brotara no coração da reservada serva, que jamais dera demonstrações de amar aquele escravo.
Chegados ao cárcere do Esquilino, como estavam acompanhados pelo centurião, entraram no local húmido e fétido, procurando, entre os colhidos pela guarda romana, os amigos do coração.
Quando chegaram à cela em que estava Horácio, viram com ele Porfírio e Olípio, os dois instrutores, que tanta falta fariam ao Cristianismo, além de outros homens e mulheres.
Enquanto que algumas mulheres apegavam-se às grades, implorando para sair da prisão e voltar para casa, para estarem com seus filhinhos necessitados, os homens sentavam-se, contraídos e resignados da desgraça que lhes ocorrera.
Sabiam que Nero jamais voltaria atrás.
Com toda aquela vibração de dor, Saturnina sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas.
Chamou Horácio primeiro, dizendo a ele que faria o possível para retirá-lo da prisão; que iria fazer um pedido ao Senado através de um conhecido, amigo de seu finado esposo, e talvez fosse atendida.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:50 am

- Não vos preocupeis, senhora.
Estávamos todos sabendo dos sérios cuidados que deveríamos ter.
Perguntamos ao soldado pretoriano de Nero como nos descobriram e ficamos cientes de que foram avisados por alguns escravos do grego Demétrius.
- Oh, por que o amor entre as pessoas é tão difícil?
Por que a inveja e o orgulho fazem tanto mal assim?
- Foram aqueles escravos, que tanto odeiam Vitorio e Clarêncio, que nos acusaram.
E que bom que o instrutor amigo recebeu a luz do Alto e livrou-os desse infortúnio - disse, referindo-se a Marconde.
- Bem, meu caro amigo...
Vamos orar e pedir a Jesus a Sua protecção.
Agora, fala com Ester, que aguarda ansiosa.
Porfírio, vendo Horácio afastar-se, sabia que essa seria sua vez de conversar com a amiga de ideal cristão.
Na sua face marcada pelas intempéries do tempo, dos invernos muito frios e verões ensolarados, havia a imagem da paz.
Seus olhos, serenos e cheios de luz, olhavam a gentil senhora, demonstrando a ela todo seu apreço.
- Porfírio...
Sinto muito que seja a tua vez de testemunhares o Cristo.
É admirável essa paz que sinto em ti, mas estou angustiada e preciso saber de Simão Pedro.
- Não temos notícias dele e também estamos preocupados, e muito.
Tivemos a felicidade de ter connosco esse irmão, que conviveu com o próprio Jesus e que nos transmitiu a certeza da vida após a morte, ensinando-nos o que está aguardado a todo aquele que aprendeu verdadeiramente a amar.
Simão nos imprimiu na alma essa certeza.
- Sabes como me sinto, não sabes? - ela inquiriu-o com os olhos brilhantes pelas lágrimas que teimavam em cair.
- Sei, senhora.
Mas estamos bem. Ide em paz.
- Porfírio, obrigada por todo bem que nos fizeste.
Jesus já está contigo.
- Ele está connosco em nosso coração e estará sempre convosco também, senhora.
Acompanhará vossos passos, e ao pequeno Lucas, aonde fordes.
Saturnina baixou a cabeça e, ao reerguê-la, não sustentou as próprias lágrimas.
- Precisamos orar.
Vou procurar ter notícias de nosso benfeitor, mas volto para me despedir de vós.
Vou ver se consigo fazer alguma coisa em favor de todos.
- Ah, senhora... teremos optimismo e confiança, porque sabemos que o Mestre jamais nos abandonará.
E que seja feita a vontade do Pai.
Enquanto Saturnina despedia-se do amigo, Ester, distante dela, segurava chorosa as mãos de Horácio.
- Por que tanto choras, minha amiga?
Soubeste, por ventura, de meu sentimento por ti todos esses anos em que estamos juntos?
- Eu vos amo, Horácio.
Queria dizer-vos isso antes de...
- Nossos corações se conheceram muito cedo, mas, só agora, tiveram a coragem de se revelar.
- Como vou viver sem vossa presença?
Sem ver vossa face sorrindo com toda a ternura para mim?
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:50 am

Eu, que nunca tive nada, só a vós amei...
Oh, por quê? - dizia-lhe Ester.
- Tu também foste o meu único amor, Ester.
Mas deves aprender a viver sem mim.
Se eu me for antes, esperar-te-ei ao lado de Jesus.
- Ester - alertou-a Romério -, nós temos de ir; não se admitem visitas muito longas aqui.
O guarda Cássio está com a cara fechada, espreita nossas conversas, e a senhora Saturnina já está te aguardando.
- Parece faltarem-me as forças.
Não conseguirei ir sem Horácio...
- Não, meu amor, tu conseguirás, porque, mesmo desaparecendo meu corpo, estarei sempre contigo.
É uma promessa que te faço - firmou o servo com voz imperiosa.
- Vai em paz!
Assim, apoiada pelo centurião Romério, Ester, muito chorosa, deixava a prisão com sua senhora, permanecendo, naqueles corações, um profundo pesar.
No mesmo dia, à tardinha, a nobre romana foi procurar por Petrullio, mas este estava em missão militar e demoraria meses para voltar.
Então, lembrou-se do pai de Dulcinaea.
Ele fora seu amigo e admirador na juventude e, mais tarde, amigo de seu esposo.
Romério não pôde acompanhá-la, mas ela foi com Marconde e Ester até a bela residência recém-reconstruída, depois do grande incêndio de Roma.
Quando chegou frente à porta daquele palácio, viu o ilustre senhor, que vinha chegando em sua biga com dois servos.
Ele desceu sorridente, dizendo:
- Não podeis imaginar a alegria que me invade o coração com vossa presença aqui, em minha humilde residência, domina.
Tanto Marconde como Ester elevaram os olhos para admirar melhor aquele verdadeiro palácio, com estátuas de seus deuses na frente, entre as colunas, e entreolharam-se.
- Entrai, senhora, imploro.
E continuou o homem do governo:
- Como vedes, estou chegando neste momento, mas chamarei Luzia para vos conhecer.
- Marconde e Ester, aguardai aqui fora, porque não me demorarei - pediu-lhes Saturnina.
E entrou com ele, subindo as escadarias até o átrio, continuando a conversar com o anfitrião:
- Senhor, não haveria necessidade para tal, porque precisarei somente de alguns momentos para vos falar.
- Aqui será melhor conversarmos.
Luzia, minha infeliz esposa, é ciumenta demais, desde que soube o que houve entre nós no passado.
- Nobre Alexus, não voltemos àquilo que já passou.
0 passado jamais voltará.
- Mas jamais perdoarei Crimércio por ter-vos roubado de mim - continuou, retirando o capacete dourado que trazia consigo e secando seu rosto com a toalha que a serva trazia nas mãos.
- Deixemo-lo. Ele, pobre homem, já teve a colheita que jamais quis ter.
Não falemos nele.
Então, olhando-a de frente, podendo fitá-la com os archotes a óleo fixados nas paredes do átrio, confessou-lhe, apanhando uma de suas mãos:
- Sempre bela como uma deusa...
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:50 am

Casei-me logo após, depois que me abandonastes, mas perdi minha primeira esposa, como deveis ter ciência.
- Soube sim, e senti.
- ... E logo tive que buscar uma companheira para dar uma mãe à minha filha, contudo jamais fui feliz como em minha juventude...
Eu vos amava - proferiu, segredando-lhe.
- Por favor, não falemos sobre um passado tão puro e inocente - Saturnina baixou a cabeça, e seu coração bateu rapidamente, pois jamais esquecera aquele primeiro amor, que seus pais não permitiram que se concretizasse.
Nesse momento, Luzia adentrou no recinto, colocou os olhos em Saturnina de cima a baixo e gritou alterada:
- Mas o que essa viúva faz aqui a sós, e em vossa companhia, meu esposo?
Saturnina corou e olhou para Luzia, cumprimentando-a adequadamente:
- Senhora Luzia, mil perdões.
Necessito de um favor de vosso esposo, se assim permitirdes - implorou.
- Se for só isso, está bem, mas não me moverei daqui.
Voltando-se novamente para o político, a patrícia implorou-lhe:
- Necessito vossa colaboração para a soltura de cidadãos aprisionados.
- Farei o que estiver ao meu alcance.
O que eles fizeram?
- Foram aprisionados por Tigelinus, o chefe dos pretores do imperador.
- Qual o delito?
- Não cometeram nenhum delito, somente amaram.
Amaram e ensinaram a amar a um só Deus.
- Já sei...
- Eles são cristãos, Alexus.
- Perdoai-me, mas foi bom que isso aconteceu - afirmou Luzia.
Salvar do martírio alguns cristãos que desonram nossa Roma conquistadora e a mais gloriosa de todas na Terra?
Isso seria demais!
Que queimem e alimentem aos leões!
Eles pouco nos importam, senhora.
Alexus olhou para a esposa com olhos de amargura e nada respondeu, mas voltou-se para Saturnina, perguntando:
- Quais seus nomes, senhora?
- Alexus, esquecei isso! - alertou-o Luzia.
Nada podereis fazer por eles!
Quereis receber de nosso imperador uma advertência?
Isso foi demais, vou me retirar!
Alexus suspirou profundamente e sorriu para Saturnina, pedindo a ela que Luzia fosse perdoada.
- Nada há de errado, nobre Alexus, não precisamos perdoar aqueles a quem compreendemos.
- Sois uma patrícia formidável - afirmou o homem, pegando-lhe agora as duas mãos e elevando-as aos lábios, mas logo soltando-as, pelo olhar recriminativo de Saturnina.
- Por favor, Alexus... Não.
- Dai-me seus nomes - pediu-lhe o romano com fria voz, desviando seu olhar do dela e afastando-se.
- Horácio é um de meus mais fiéis servos libertos; além dele, é importante que mais dois vivam, Olípio e Porfírio.
- Se eles são cristãos, penso que nada poderei fazer, patrícia.
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Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 15, 2016 9:51 am

Sabeis que Nero, logo depois do incêndio, prometeu ao povo que faria uma cidade muito mais bonita, reconstruiria suas casas e que lhes manteria com alimentos; também lhes prometeu apanhar os causadores do incêndio que causou tantas mortes, mas quem exigiu “cristão às feras” e deu-lhe essa ideia foi a própria turba enlouquecida.
Assim, como sabeis, os ataques e sacrifícios iniciaram em agosto, um mês depois, e, como o circo precisava de restauração, isso foi feito em um grande jardim.
E agora, pelo que soube, os cárceres começam novamente a se encher de cristãos, isso para alegrar o povo enlouquecido.
Nero não quer voltar atrás.
Quer criar uma imagem de homem correto, cumpridor de sua palavra.
E, sob o olhar angustiado de Saturnina, ele continuou caminhando pelo átrio:
- Cá entre nós, tudo nele é teatro.
Acha-se um grande artista.
Estamos nos envolvendo...
Parou de falar o que iria dizer, porque olhou para Saturnina e viu-a cabisbaixa.
Então, aproximou-se dela novamente e, com sua mão, elevou o rosto da mulher que tanto amara, confirmando:
- Farei por vós o possível, senhora.
- Obrigada, senhor. Perdoai-me este pedido abusivo.
- Jamais me peçais perdão, domina.
Agora, se podeis me ouvir, dou-vos um conselho - ponderou, aproximando-se mais dela para lhe sussurrar:
- Ide com os vossos a Herculano.
Fugi daqui, eterna amada.
Sei que sois também cristã e, se ficardes, outros vão perecer, os que dependem de vós, porque imagino que Nero não está apanhando ainda os nobres romanos.
- Obrigada, nobre amigo.
Assim o farei. Ave, Alexus.
Alexus sorriu-lhe, ainda comentando:
- Tendes aqui um amigo que procurará fazer o possível por vós e vosso filho.
Tigelino, sempre à caça de cristãos para as festividades, aguardou o momento para cumprir seu plano, prendendo Simão Pedro, e isso aconteceu na própria casa do apóstolo, em uma madrugada.
Simão, mesmo sentindo ali o choque terrível da vibração contrária ao amor no coração sensível, entregou-se, colocando as mãos à frente para ser amarrado, erguendo o pensamento a Jesus e, com júbilo na alma, relembrando Suas palavras:
“Crês levar-te-ei onde não queiras ir”.
Sabia que agora daria o seu testemunho de amor a Ele.
Desta vez, não O negaria; queria ser reconhecido pelo amado Mestre, demonstrando-Lhe não ser mais aquele pescador frágil, mas o discípulo de sempre, que adquirira a fortaleza, com a maturidade do verdadeiro apóstolo, que agora sabia amar.
Enquanto os estavam amarrando às cordas, ele se reportou mentalmente à Galileia distante, relembrando, naquele mundo de paz, o convite que o Mestre lhe fizera para segui-Lo.
Os encontros ao pôr do sol, em sua casa, quando Sua doce voz os ensinava sobre a Boa Nova; os passeios e conversações na barca, a palavra doce de Jesus naquele colóquio diante do lago Tiberíades, quando lhe perguntara, por três vezes, se ele O amava.
E ali, agora, Simão mentalmente respondia-Lhe:
“Sim, Mestre, eu te amei por todo esse tempo; em cada face triste, lembrava-me de Ti, em cada irmão enfermo, lembrava-me do desabrochar de Teus lábios em radiante sorriso, quando os via serem atendidos por nós...
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