Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 24, 2016 7:48 pm

Capítulo XV

Passaram-se alguns dias e os amigos iam vivendo calmamente no maravilhoso palácio às margens do Nilo, ora viajando pelos arredores, ora meditando no terraço.
Mas para a natureza agitada de Narayana aquele ócio se tornou insuportável.
Certo dia, tarde, Dakhir lia na varanda; Supramati, deitado na rede, contemplava em silêncio o rio, enquanto Narayana acabara de desenhar numa folha de cartolina a esfinge com o seu restaurante.
Por várias vezes ele olhou de soslaio para os amigos, mas, subitamente, atirou para longe o lápis.
- Com os diabos!
Começo a achar que vocês estão querendo soltar raízes aqui.
Ouçam, meus belos príncipes, vocês estão ficando preguiçosos!
Dias inteiros ficam aí sonhando no terraço, esquecendo que vieram do Himalaia para viverem no seio da sociedade.
Ele se levantou e tocou Supramati no ombro.
- E daí Minhas férias não tem prazo para terminar e eu não corro o risco de envelhecer, descansando aqui.
É você que não para quieto em nenhum lugar e agora lhe deu na veneta ir não sei para onde! – revidou Supramati levantando-se.
- Sinceramente, estou cheio deste lugar e, além do mais, vocês já viram tudo digno de atenção.
Neste caso, vamos, mas para onde
- A Czargrado, suponho.
A cidade é bela, tenho lá muitos amigos e passatempos alegres.
Ao notar que Supramati franziu o cenho, Narayana soltou uma gargalhada.
- Veja só, Dakhir, a preocupação de Supramati – disse Narayana, piscando maroto.
Eu acho que ele está com medo de voltar. Há-há-há!
Ao perceber que o amigo corou e em seu rosto estampou-se irritação, Narayana apressou-se a consolá-lo.
- Acalme-se, ó mais pudico dos imortais!
Eu pensei em levá-los a um dos lugares menos perigosos.
Não gostariam de conhecer a cidade dos cientistas.
Lá se realizam as mais diferentes experiências médicas e você se sentirá em meio ao seu elemento.
- Verdade, uma cidade de médicos, não há nada mais interessante que isso! – exclamou Supramati pulando da rede.
- Além dos médicos há outros especialistas:
químicos, astrónomos, arqueólogos – todo o género de cientistas.
É uma cidade bem peculiar.
Veja os pesquisadores que se dedicam actualmente à ciência pura, e que não conseguem trabalhar num atmosfera nervosa e barulhenta dos grandes centro populacionais, decidiram fundar sua própria cidade, adaptada às suas necessidades.
O assunto despertou um interesse tão vivo que se decidiu partir na mesma noite; mal a lua subiu, a aeronave de Supramati dirigiu-se para a parte extrema do antigo Saara, onde se haviam instalado os cientistas.
Com o levantar do sol, a nave começou a descer e Supramati, que acabara de acordar, viu pela janela uma grande cidade envolta em verde.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 24, 2016 7:48 pm

À medida que a nave baixava, viam-se mais nitidamente as largas e rectas ruas, ladeadas por árvores frondosas; a vegetação fundia-se formando uma espécie de abóbada.
Logo a nave estacionou junto a uma torre.
Os amigos desembarcaram e desceram pela escada para uma sala com vista para um jardim com fontes.
Vou levá-los até o meu amigo, professor Ivares, director de uma das maiores clínicas, sob cuja orientação trabalham cerca de 2000 estudantes – disse Narayana, tomando o rumo de uma das ruas laterais.
Dakhir e Supramati examinavam curiosos os imensos edifícios de estilo inédito e admiravam-se da enormidade das plantas.
Por todos os cantos havia água em profusão; ao longo dos canais, em cada cruzamento e em todos os jardins havia fontes.
O que mais impressionou os nossos viajantes foi o profundo silêncio que reinava em volta.
A azáfama do dia-a-dia inexistia por completo.
Não se viam nem lojas, nem carros; os raros pedestres que ora se cruzavam passavam calados e feito sombras desapareciam em algum jardim ou casa.
- Qual é a especialidade do professor Ivares – perguntou Dakhir, quebrando o primeiro silêncio.
Narayana se virou para ele e sorriu sagaz.
Vocês irão cair na gargalhada, se eu disse a profissão de meu amigo. Como eu poderia dizer... Bem, ele inventou um método de inocular a virtude.
- E funciona – perguntou num esgar de riso Supramati.
- Parece que sim!
Ele afirma que pode transformar uma pessoa criminosa, de paixões vulgares, num ser honesto, cheio de virtudes.
- Simplesmente incrível!
Lembro-me das injecções que se davam no século XX, mas eram contra doenças, não contra vícios.
Francamente, isso nunca me passaria pela cabeça – riu Dakhir.
- Ivares contou-me que no fim do século XXI um cientista descobriu os micróbios de vício-virtude e convenceu-se de que num ser criminoso esses gérmens se caracterizam por odor nauseabundo e coloração escura; além disso, eles são privados da capacidade de emitir radiações.
Uma série de experiências demonstrou que esses micróbios, ao serem injectados no sangue de cães, cavalos e outras espécies de animais, antes tidos como tranquilos e submissos, faziam-nos ficarem selvagens e ferozes.
Prosseguindo as experiências, notaram outro fenómeno curioso, ou seja, que os micróbios do bem, sendo inoculados num organismo vicioso, ainda que transformassem por fim aquele sujeito malévolo faziam-no no decurso de um prazo muito longo e sucessivas repetições.
Concluiu-se que os micróbios do mal absorviam os do bem e para que o princípio activo positivo triunfasse, era necessário repetir as inoculações.
Daí os cientistas tiraram uma justa conclusão:
a de que durante o combate os micróbios positivos eram bem mais fracos que os negativos.
Bem, estamos chegando; o professor poderá lhes explicar melhor.
A sala de recepções na clínica do professor Ivares verificou-se ser muito bonita; uma das laterais saia para o jardim, ornado por uma infinidade de flores raras e aromáticas.
Logo chegou o próprio professor e recebeu jovialmente as visitas.
Era um homem de idade e estatura medianas, magro e calvo, de feições agradáveis, irradiando bonomia; seus olhos cinzentos reflectiam inteligência e ponderação.
Ao saber que as visitas se interessavam por seu trabalho, o professor animou-se e explicou com mais detalhes o que foi contado por Narayana.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 24, 2016 7:48 pm

Fizemos enormes progressos – prosseguiu ele – e como pelos inúmeros factos constatou-se que crianças e até jovens recuperaram-se por intermédio do meu método, o tratamento é bem difundido.
Alguns séculos atrás seriamos tachados de loucos; aliás, mesmo hoje, há gente que acha que estamos exagerando e tem certa desconfiança em relação ao nosso trabalho. Que pensem o que quiserem!
Estamos fazendo progressos e as demonstrações irrefutáveis da eficácia do método por mim desenvolvido aumentam o círculo de nossos partidários.
Uma descoberta feita por mim, de suma importância, é a constatação de que, para obter sucesso no tratamento de um sujeito com vícios – um alcoólatra ou um débil metal, por exemplo -, é necessário, antes de tudo, purificar a sua aura, onde se nidificam os micróbios nocivos – uma espécie de exército de reserva – que deve ser previamente eliminado, antes de proceder à purificação do organismo corpóreo.
- Em vista da devassidão que campeia solta, a sua clínica, professor deve estar abarrotada de clientes.
Além disso, devem ser praticamente impossível tratar tantos milhões de pessoas sem que sejam instalados numerosos postos auxiliares – observou Supramati.
- Não, o meu instituto é o único existente, ainda que os doentes sejam muitos; mas ele atende, por enquanto, as necessidades dos pacientes.
EU já citei que há um grande número de cépticos, e, mais ainda, pessoas que não aceitam se tratar – como os luciferianos, por exemplo.
É óbvio que se o tratamento fosse obrigatório – como era nos séculos idos a vacina contra a varíola – e todos fossem a ele submetidos sem excepção, principalmente crianças, eu acredito que se poderia fazer voltar à humanidade aos princípios da pureza moral e física, mas...
Duvido que algum dia nós chegaremos a isso. Fazemos o que dá, o resto está nas mãos de Deus.
Devo acrescentar-lhe, príncipe, que tanto eu como os meus ajudantes e cooperadores somos todos pessoas crentes.
Assim o somos porque a isso nos levou a nossa ciência e as experiências.
Bem, quanto à sua pergunta, devo salientar que, infelizmente, ao nosso instituto são trazidos os sujeitos considerados sem esperança – os irrecuperáveis, como diziam antigamente – ou aqueles de quem as famílias já não sabem o que fazer para ficarem livres:
bêbados inveterados, loucos perigosos, encapetados, ladrões, ou seja, criminosos de toda a espécie.
- E qual dúvida, senhores!
Assim que eu lhes explicar exactamente o sistema empregado, será mais fácil os senhores entenderem o que irão ver no hospital.
Então, voltando ao tratamento.
Para pesquisar a aura, é necessário que ela seja vista; significa que nós devemos iluminá-la, e para isso temos diversos aparelhos.
Assim que for estabelecido o volume, a espessura, o grau da negritude e a composição daquela atmosfera do sujeito, ele é colocado numa cela especial:
azul ou verde, dependendo do caso.
A cela fica constantemente iluminada por uma luz especial e impregnada de aroma puro.
Além disso, uma das paredes é provida de janela com grade, que dá numa sala redonda, iluminada por luz azul ou verde, de onde se ouve uma música suave e melodiosa um cântico religioso, estrondoso e pesado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 24, 2016 7:48 pm

As nossas salas são executadas em forma de teatro, as celas reproduzem os camarotes, e, a partir de cada um, pode-se ver uma cena em que um operador de filmes exibe vistas artísticas, ora cenas sublimes de auto-sacrifício, de êxtase, etc., ora formas e agrupamentos de beleza ideal, ou seja: quadros que possam despertar no enfermo somente sensações agradáveis e tranquilas.
Desta forma, os nossos pacientes são cercados por uma luz suavizante, sons harmónicos, aromas puros e vivificantes; e tudo isso, tomado junto, sacode a sua aura, mata e enfraquece os microorganismos maléficos que, para sobreviverem, necessitam de emanações acres e fétidas, barulho desarmónico, cheiro de sangue, excitações de mortes e carnificinas, luz púrpura das paixões e fúria, estímulos de vícios, comida forte e condimentada.
Então ocorre um fenómeno duplo:
no início a aura se esvazia; em seguida, algumas semanas depois, os microorganismos do corpo, subtraídos do bem estar habitual e nutrição apropriada, migram para a aura, onde acabam perecendo.
No transcorrer desse tempo, a alimentação do doente é essencialmente de leite e legumes.
Ao término de seis semanas, a aura já adquire uma forma totalmente diferente e o paciente cai numa prolongada sonolência em então, é chegada à hora de ministrar-lhe a injecção, repetida dia sim, dia não.
- E onde é que vocês obtêm esta substância purificada – interessou-se Supramati.
- Existem pessoas que praticam esses sacrifícios voluntariamente.
Eles passam a vida em jejum e orações, e doam seu sangue para o bem de seus irmãos pela humanidade.
Se quiserem, podem chamá-los de “missionários” de nosso tempo, que atendem às necessidades do momento.
Em nossa instituição há cerca de duzentos ascetas que vivem como verdadeiros ermitãos em abstinência e preces exaltadas.
Se sangue, sendo beatificado, parece como vapor prateado.
Agora, senhores, se quiserem, eu lhes mostrarei o hospital e outras seções, pois também tratamos doenças nervosas: preguiça, abulia, apatia...
Todos estes males requerem outro tipo de tratamento.
Supramati e Dakhir agradeceram a oportunidade de visitar àquela clínica inovadora, admirando-se, no fundo da alma, pelo fato de ainda existirem naquela época de devassidão milhares de pessoas dispostas a se dedicarem àquela causa de caridade – o que indicava um novo triunfo do espírito humano sobre os vícios e paixões mundanas, possibilitando realizar verdadeiros milagres.
Acompanhados pelo director, eles iniciaram a inspecção da clínica e, inicialmente, mostrou-se lhes uma das salas cercada de celas.
Era enorme, com três andares de camarotes.
O palco naquele momento estava vazio, não havia nenhuma representação; no centro brotava um chafariz espalhando água da cor de safira; tudo era inundado por uma luz suave azul-celeste.
O ar estava impregnado de aroma forte – mistura de rosas e ládano – e a música, realmente celestial, fazia sacudir cada nervo com seus poderosos acordes.
Vez ou outra, um coral melodioso entoava um canto de indizível beleza; os sons iam ora se avolumando poderosos, ora se extinguindo num murmurar melódico.
Estimuladas por aquelas ondas harmónicas, a alma, de facto, poderia ascender-se às esferas altaneiras, enquanto as peias carnais e paixões mesquinhas deveriam ruir por terra.
Era com grande respeito que Supramati e Dakhir olhavam para o cientista humilde que, não apenas conseguiu aprender, mas utilizar na prática as leis da purificação astral, desconhecidas de seus contemporâneos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 24, 2016 7:48 pm

Feliz pelo vivo interesse das visitas, o professor contou que ele tinha oito salas daquele tipo: quatro azuis e quatro verdes; e, em seguida, levou-os às celas.
Eles foram até o corredor ao longo do qual se enfileiravam várias portas, separadas por grande espaço.
Uma das portas estava aberta naquele momento e junto a ela se comprimiam alguns jovens em longos aventais brancos; estavam eles ocupados em deitar sobre uma maca de rodinhas um corpo coberto de lençóis.
O professor se deteve por um instante, aparentemente transtornado, e correu junto dos alunos.
- Está morto?
O nosso tratamento não ajudou
- Não, professor, nada mudou.
Ele morreu há cerca de meia hora; o corpo já pretejou – respondeu um dos jovens, sacudindo solidário os ombros.
- Este foi o último que aceitei na clínica; daqui para frente nenhum deles será aceite aqui – anunciou zangado o professor, juntando-se às visitas.
- Pelo visto um dos seus pacientes não suportou o tratamento de purificação São frequentes estes casos – indagou Dakhir.
- Oh, não! Esta morte não é o resultado do tratamento; é um caso específico e se refere a um dos fenómenos mais estranhos, e que deve ser profundamente investigado.
O morto é um judeu e, acreditem se quiserem: nenhum membro deste enigmático povo cede à purificação; por mais que eu tente – tudo em vão.
Ao iluminarmos as suas auras com os nossos aparelhos, verificamos que elas têm composição diferente e estão cheias de vibriões nocivos e mortíferos.
A própria aura e o corpo astral têm um aspecto grudento e pretejado, difundem um odor nauseabundo e, ao mesmo tempo, contém princípios entorpecentes muito fortes, que desencadeiam paixões caóticas, delírios de loucura e principalmente luxuria, incluindo distúrbios sexuais.
Pode-se dizer que ali há de tudo:
beladona, clorofórmio, moscas espanholas, toda a espécie de estimulantes sexuais; cerca de três quartos do que há no organismo é tudo fel.
Ao serem submetidos ao nosso tratamento, começam a desprender um vapor escuro e fétido; nossos preparados não têm efeito sobre eles, ou pior, provocam reacções contrárias e o sujeito morre.
Com aquele infeliz eu tentei empregar um método totalmente novo; mas, como vêem, foi inútil.
Não é sem, fundamento que todos os povos odeiam essa obstinada e de facto misteriosa raça; evitam-na e não confiam nela.
Já me ocorreu que os judeus são invulneráveis, porque eles personificam na humanidade o princípio do mal.
Mas chega de falar desta caterva, senhores, vamos ver outros pacientes.
Ele abriu uma das portas e fez as visitas entrarem num quarto longo, bastante espaçoso, Junta à grade, num leito baixo, estava deitado um homem numa camisola comprida.
Pelo seu rosto corriam lágrimas; por vezes ele se sacudia em prantos convulsivos e todo o corpo se contorcia; seu rosto ardia febrilmente.
Aparentemente ele estava sofrendo; seus olhos estavam fechados e ele não notou a chegada dos estranhos.
Sobre uma mesinha baixa havia um jarro de água e um copo; no canto, via-se instalada uma ducha dentro de um cubículo de cristal.
Este paciente está passando pela fase mais difícil do tratamento – explicou o professor.
As vibrações sonoras sacodem o corpo e expulsam os microorganismos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 24, 2016 7:49 pm

Durante o processo, o enfermo encontra-se num estado febril e sofre muita sede; em intervalos curtos ele começa a transpirar um suor gosmento e acre que provoca uma forte coceira, o que exige ablações frequentes.
Os nossos alunos e inspectores exercem uma vigilância constante.
Agora vou levá-los à sala dos ensaios, onde examinamos os pacientes; lugar em que também ficam os aparelhos de medição – disse Ivares, saindo da cela.
Vocês tiveram sorte.
Hoje temos três sujeitos interessantes:
um alcoólatra, um demente do cérebro e um endemoninhado.
Descendo ao andar de baixo, entraram numa ampla sala redonda, onde estavam cerca de cinquenta jovens e dois homens de idade mediana, apresentados pelo professor como seus ajudantes.
No centro do recinto, sobre uma espécie de rede metálica, jazia de olhos fechados um homem totalmente nu.
- O enfermo precisou ser adormecido; caso contrário, é impossível examiná-lo – explicou o professor, conduzindo os visitantes até uma fileira de poltronas.
Eles tomaram os assentos. Um dos médicos acomodou-se ao lado deles e o professor pediu que a operação fosse iniciada.
Os jovens médicos praticantes apagaram a luz e tudo ficou às escuras.
Alguns dos estudantes postaram-se perto de grandes aparelhos no fundo da sala.
Ouviu-se um leve crepitar; um facho largo de luz ofuscante soltou-se de súbito e se concentrou no corpo estendido, adquirindo uma forma oval.
Naquele fundo alvo, desenhou-se uma fumaça rubra em coluna espiralada, polvilhada por pontos negros; o círculo claro começou a se alargar, dando origem ao surgimento de nuvens de microorganismos, tal qual se vê em uma gota de água sob o microscópio.
Os infusórios eram dos mais variados:
longos feito sanguessugas, outros em forma de fios ou parecidos com dragões, moscas, aranhas e escorpiões; e, entre aquelas massas a se remexerem, cruzavam-se pequenos seres com caudas de serpente e olhinhos fosforescentes que pareciam brilhar com inteligência.
Os parasitas pareciam cobrirem-lhe todo o corpo transparente, arrastando-se e grudando nele, sugando-lhe a seiva; e, pelo visto, tinham uma predilecção por órgãos internos; roíam-nos cobrindo de chagas, nas quais se instalavam exércitos de monstros microscópicos.
Que bela população oculta vive no corpo de um bêbado! – observou o professor.
Um minuto depois as luzes foram acesas.
Os estudantes levaram o homem que parecia morto e trouxeram outra pessoa, colocando-a na rede.
Novamente ficou escuro e sobreveio o círculo oval, mas o corpo e aura tinham agora outra forma.
- Agora vocês vêem um doente mental – explicou Ivares.
Sua aura é cinza empanada e os diversos pontos negros, fervilham feito abelhas na colmeia, envolvem-no como que por uma retícula.
Prestem atenção nos órgãos internos, entremeados por listas pretas, no coração, e principalmente no cérebro.
Ele parece envolto numa névoa negra, que impede qualquer troca de substâncias com o mundo exterior; os glóbulos de sangue parecem contraídos e aquela substância cinzenta, diáfana, oscilatória e impenetrante, dentro da quais e acha envolto o organismo, impede, feito casulo de lagarta, qualquer actividade do corpo astral.
Antes de tudo é necessário eliminar aquela mortalha cinzenta, revitalizar as células e restabelecer a trocas das substâncias cerebrais com o mundo exterior.
Tudo isso nós conseguimos com o auxílio de três grandes aliados:
o som, a luz e o aroma – concluiu enfático e satisfeito consigo o professor.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 24, 2016 7:49 pm

Em meio às explicações, os alunos substituíram o doente por um novo sujeito.
Era uma pessoa ainda jovem e forte, mas a sua palidez cadavérica e a debilidade patente do corpo produziam a impressão de que ele estava morto.
No círculo reluzente desenhou-se uma aura verde-amarelada, mais volumosa do que nos dois primeiros casos e, pelo visto, mais compacta.
Nos doentes anteriores, o corpo astral – pesado e inchado como o do alcoólatra, ou enrugado e ressequido como o do celerado – estava desactivado, enquanto que neste, pelo contrário.
Sobre a cabeça do corpo físico assomava-se, até a cintura, o corpo astral – da cor cinza-esverdeado e salpicado de manchas negras cadavéricas; o rosto estava desfigurado e os olhos esbugalhados fitavam estupidamente o espaço com expressão de raiva e terror.
Ao corpo físico do paciente grudavam-se em volta seres estranhos: meio humanos, meio animais, que sugavam as forças vitais do possuído; as mesmas criaturas lançavam-se furiosamente sobre as larvas apegadas, tentando desalojá-las e se apossar de um naco melhor da artéria vital; uma furiosa e cruenta batalha travava-se entre eles.
Fora dos limites da aura, numa névoa vermelho-sanguínea pairava um espírito asqueroso, de feições puramente diabólicas; um fio fosforescente unia-o a vítima.
O espírito pelo visto, divertia-se com os sofrimentos do homem por ele possuído, a gemer e contorcer-se, enquanto o inimigo conclamava e a ele encaminhava as larvas, evocando em sua mente os quadros de luxuria, jogos de azar, gula, etc.
Por fim, um choque eléctrico expulsou o corpo astral novamente para o interior do organismo, onde esse desapareceu junto com o seu carrasco.
- Aquele senhor é difícil de ser desalojado.
Os endemoninhados não cedem facilmente ao tratamento – observou o professor.
- Muito interessante também é a aura de um homicida – prosseguiu ele.
Infelizmente não disponho agora de nenhum indivíduo assim para mostrar-lhes.
Mas, com base no que viram vocês vão entender.
Imaginem então a aura de um assassino:
uma aura enorme, da cor vermelho-sanguínea!
E nesse fundo, vão se projectando os quadros dos malefícios por ele cometidos.
Fora dos limites da aura, paira a imagem da vítima ou das vítimas, unidas com o criminoso por sólidos fios fosforescentes; e por esta espécie de comunicação, ao homicida corre uma massa esverdeada, densa e gosmenta de aspecto.
Aparentemente, uma morte violenta arranca do organismo da vítima, também violentamente, diversos tipos de substâncias, que posteriormente penetram na aura do assassino e ali permanecem, reproduzindo as perturbações agónicas e as peripécias do homicídio.
Notei também que se as vitimas forem do mesmo nível moral do homicida, a hostilidade prende-os um ao outro; tal condição deve ser medonha.
Estou convencido de que justamente estas circunstâncias é que são a causa real que leva os criminosos a se entregarem.
Nestes casos, a cura é possível, desde que se consiga separara vítima do homicida.
Dakhir e Supramati sabiam-no, indubitavelmente melhor que o professor, tendo presenciado tudo aquilo por centenas de vezes com seus próprios olhos, capazes de penetrar através da Corina que cobria os mistérios do outro mundo.
Eles estavam curiosos, entretanto, em conhecerem a que limites chegaram os cientistas na arte de revelar os números ocultos cujos resultados superaram as expectativas.
Após agradecerem calorosamente ao professor Ivares, e já que o trabalho de cientistas em outras áreas não lhes interessava, os visitantes se despediram do gentil anfitrião e saíram caminhando pelas ruas desérticas em direcção a torres, onde por eles espera a aeronave.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 24, 2016 7:49 pm

- Mais uma prova de que o fim do mundo está próximo – observou Dakhir.
O oculto já se revela por aparelhos modernos e rende-se aos homens; diante do profano se abre o grande livro de sete selos, descortinando os mistérios do além.
- De facto! Em vez de se desenvolverem e se purificarem em vista das descobertas dos terríveis mistérios, a humanidade esta se degenerando.
Selvagem e imoral, subtraída da fé e dos ideais, ela está se nivelando aos animais – completou suspirando Supramati.
- Para onde você vais nos levar agora – indagou Dakhir.
- Realmente não sei!
Supramati não quer voltar a Czargrado – respondeu Narayana, piscando maroto.
- Eu não disse que não queria voltar.
- Eu sei, eu sei!
Você simplesmente quer proteger a sua virtude.
- Se sabe, então por que é que então me empurra para a tentação – contrapôs calmamente Supramati.
- Absolutamente! É que em vista da minha imperfeição, a sua virtude me incomoda; assim eu vivo matutando uma forma de desencaminhá-lo.
- Que belo amigo! – exclamou Supramati, desatando a rir.
Mas por que justamente a minha virtude e não a de Dakhir o está incomodando
- Porque não consigo aceitar que uma belíssima jovem se consuma de amor por este tronco insensível!
Diga com sinceridade, você não gosta dela
- Gosto. Ela é um encanto, sua adoração por mim é comovente e a ingenuidade com nada se compara.
Tomasse a mim como orientador e não por amante, tornar-me-ia seu servo fiel.
- Oh, meu Deus!
Corresse eu o risco de me tornar um paspalho assim, rejeitaria para sempre a estrela de mago, apesar de todas as ponderações de Ebramar! – exclamou em arroubo cómico Narayana.
Os magos explodiram em gargalhada.
Neste ínterim eles se aproximaram da torre e retomaram a discussão sobre o objectivo da viagem.
- Vou levá-los ao Reino dos Judeus, aos luciferianos.
Mas tomem cuidado, não tentem novamente destruir os seus templos; poderá haver escândalo e o nosso “incógnito” será descoberto.
- E o que faremos então?
Levar oferendas a Lúcifer – indignou-se Dakhir num esgar de riso.
- Ouçam amigos, a minha proposta! – interrompeu Supramati.
Está claro que não vamos lançar raízes naquele belíssimo país e sair por ali em procissão triunfal, anunciados ao rufar de tambores; o “incógnito” mais seguro é sermos invisíveis.
Não haverá nenhuma dificuldade em ficarmos ocultos aos luciferianos pesados e rudes, assim podendo, sem chamarmos a atenção, ver tudo que nos interessa.
Depois, basta que a gente faça uma boa purificação.
- A ideia é óptima – aquiesceu Narayana.
Poderemos pesquisar o que precisamos e ainda nos divertir à custa daqueles patifes.
Na semana que vem eles planeiam uma grande festa, com grande procissão em honra de Satanás, massacre dos cristãos, auto-de-fé dos símbolos religiosos, orgias, etc.
Será o máximo se conseguirmos estragar a solenidade; em três, faremos um belíssimo escarcéu.
- Não tenha dúvida!
Não obstante, antes de empreendermos tal aventura, sugiro que a gente consulte Ebramar.
Se ele concordar, os satanistas que se segurem.
- Neste caso, voltemos á Escócia por alguns dias; temos tudo adaptado lá para as evocações – sugeriu Dakhir.
A sugestão foi aceita por unanimidade e minutos após a nave voava para o velho castelo sobre o oceano.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Capítulo XVI

Alguns dias após a partida dos magos de Czargrado, Narayana visitou Olga e lhe passou os objectos para evocação de Ebramar.
A jovem estava visivelmente abatida.
Quando a conversa tocou sobre a partida de Supramati, ela mal se conteve para não desabar em pratos.
Narayana tentou consolar, afirmando que seu primo era um idiota esclarecido, com aquela sua mania de se esconder; mas que o assunto era de facto importante e ele teve de viajar para resolvê-lo.
Após elevar-lhe um pouco o ânimo, ele passou para Olga algumas instruções e despediu-se de sua nova amiga.
No dia seguinte, Olga anunciou a tia que iria viajar por algumas semanas para uma de suas propriedades; em vista da total liberdade que a irmandade proporcionava a seus membros, ela não recebeu nenhuma objecção.
Ao chegar à propriedade que mencionara a Narayana, Olga iniciou imediatamente os devidos preparativos para a evocação.
Ninguém a perturbava; o velho administrador e sua esposa, que tomavam conta do casario, eram gente boa e simples.
No início, eles se surpreenderam com o capricho da bela senhorita em se enclausurar sozinha, mas não se permitiram fazer-lhe nenhuma pergunta.
Em meio ao silêncio e isolamento, Olga impôs para si um jejum rigoroso e orações exaustivas.
A imagem de Supramati perseguia-a dia e noite; ela deixou-se entregue à sua paixão e naquele estado de nervosismo e excitação nada lhe parecia penoso, contanto que pudesse conquistar o coração do homem adorado.
Aquela elucubração obsessiva e passional da mente chegou, é claro, até Supramati, fazendo-o recordar à jovem e evocar a sua imagem, inspirando-lhe sentimentos dos mais vagos.
Havia hora em que isso o deixava irritado ou até divertia; mas havia vezes que no fundo da alma límpida do mago se remexia um resquício de homem mortal, e o amor infinito, a ele sugerido, comovia-o, despertando um sentimento carinhoso em relação àquela ingénua moça.
Por fim passaram as três semanas de preparações iniciais e Olga começou os preparativos para a invocação.
Ela ficou muito mudada no período do jejum e meditação; tornou-se mais esbelta e magra, e no rostinho transparente exprimia-se ponderação.
À tardinha, depois de despejar na banheira o conteúdo do frasco, trazido por Narayana, ela tomou um banho:
seu corpo parecia perpassado por picadas, mas não deu a isso nenhuma atenção.
Vestiu uma túnica longa de tecido sedoso fosforescente, que lhe aderiu justo à pele, e soltou os maravilhosos cabelos dourados.
Uma coroa de flores, até então desconhecidas para ela, adornava sua cabeça:
não eram lírios nem narcisos – com grandes pétalas branco-prateada, cálices fosforescente e folhinhas em azul e vermelho, cobertas com pó reluzente feito diamante.
Terminada a toalete, Olga saiu para o grande terraço do jardim, para onde trouxera um baú de cedro, dado por Narayana.
Nele havia um disco metálico, adornado por sinais cabalísticos, entalhado em vermelho, três trípodes e dois castiçais de prata maciça com as velas.
Arrumando tudo de acordo com as instruções, ela acendeu as velas e as ervas aromáticas nas trípodes e borrifou em volta uma essência muito aromática.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 24, 2016 7:49 pm

Postando-se dentro do disco, de joelhos, começou a pronunciar as fórmulas incompreensíveis, mas que sabia de cor e salteado.
Era uma maravilhosa noite meridional, quente e perfumada, e muito escura; reinava na natureza um silêncio grandioso e atemorizante, ora quebrado pela voz trémula de nervosismo de Olga, que, no entanto, soava decidida.
Subitamente uma espécie de estrela cadente cintilou no firmamento escuro, e numa velocidade incrível foi voando na direcção do terraço.
A estrela envolveu-se em nuvem e caiu a alguns passos de Olga, que meio morta, meio viva, olhava para aquela coluna nebulosa, parecendo sair da terra salpicada de ziguezagues ígneos.
Instantes a seguir, o invólucro nevoento se dispersou e surgiu a figura alta e esbelta de um homem em branco.
Sua cabeça vergava um turbante de musselina a brilhar feito neve ao sol; as feições brônzeas eram encantadoras e o fitar cálido de seus grandes olhos negros parecia perfurá-la por inteiro.
- Insana! O que está fazendo ao desencadear forças que você ignora você poderia ser queimada viva, fulminada por um raio – ouviu-se uma voz sonora.
Braços fortes a ergueram e tiraram fora do círculo metálico.
Olga estava pasma e olhava com terror para o seu estranho visitante.
Só então se conscientizou plenamente de ter mexido descuidosamente com os mistérios desconhecidos e terríveis.
Tremendo toda, ajoelhou-se e estendeu em súplica as mãos em direcção ao estranho.
- Perdoe-me, ó mago divino, a minha ousadia...
Ao decidir perturbá-lo, eu, um ser impuro e ínfimo, não me dei conta da insolência do meu acto.
Fui ensinada e instruída por Narayana...
Agora, ao vê-lo, cheio de poder e mistério, tenho vergonha de confessar a razão que me moveu a invocá-lo.
Ela chorava convulsivamente cobrindo o tosto com as mãos; todo o corpo se sacudia e a graciosa cabeça se abaixava cada vez mais e mais.
Ela não reparou no sorriso que iluminara o rosto sobriamente belo de Ebramar e na bondade infinita que nele se reflectia.
Ele colocou a mão no ombro de Olga e levantou-a.
- Levante-se, minha criança, e acalme-se!
Não existe um ser humano suficientemente ínfimo que não possa invocar-me, caso o seu clamor seja bastante sincero e poderoso para chegar aos meus ouvidos.
O meu grau de purificação e conhecimento impõe-me servir a todos que necessitam de minha ajuda e que consigam se comunicar comigo.
Sendo você uma jovem pura de alma e corpo, por que então o seu apelo haveria de me ofender.
Eu censuro a leviandade de Narayana, que a impeliu para uma experiência mágica perigosa, sem levar em conta as leis que lhe poderiam ter sido fatais.
Conversando, ele levou Olga até um banco de mármore no fundo do terraço, sentou-se e indicou-lhe o lugar para se acomodar.
- Sente-se, criança, e conversaremos.
Olga agarrou a mão afilada do mago e encostou-a aos seus lábios.
Um rubor cobria-lhe o rosto, as lágrimas graúdas pendiam, brilhando, nos cílios longos e densos, e nas feições irrequietas se reflectia claramente a luta da consciência da vergonha e anseio pela ajuda do mago. Ele sorriu novamente.
- Conheço as suas intenções, minha querida; caso contrário, que mago seria eu!
Você ama Supramati, meu discípulo e amigo, e quer ser correspondida.
Olga levou as mãos ao peito.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:35 pm

- Sim, mestre, amo-o mais que a vida.
A partir do momento em que o encontrei, sua imagem seduziu-me e escravizou a minha alma; não tenho outra vontade, senão vê-lo ao meu lado, ouvir-lhe a voz e ter o olhar dele pousado em mim.
A radiação estranha e o calor que dele emanam, e que eu decididamente não consigo entender, pregam-me a ele.
- Acredito! Sua atracção por aquele ser puro e elevado simplesmente comprova o seu anseio à luz e rejeição às trevas.
Já que você teve a suficiente tenacidade de passar três semanas em silêncio, isolamento, jejum e prece, abstendo-se de qualquer entretenimento, isso prova que você é capaz de se sacrificar por um ideal e que o seu sentimento é profundo e verdadeiro.
Nestas condições é compreensível que você busque uma união com Supramati.
- Sim anseio por isso; mas ele se mostra indiferente e parece desprezar o meu amor.
Ele partiu sem me dirigir uma palavra de adeus.
Ninguém sabe se volta ainda algum dia para cá...
Aliás, o amor acabou por cegar-me; só agora entendo, com dor no coração, o quanto fui presunçosa ao querê-lo para mim como se ele fosse uma pessoa comum.
Que interesse pode despertar uma moça ignorante em um mago como ele
As lágrimas impediam que ela prosseguisse.
Ebramar pensativo fitou-a demoradamente.
- Uma afeição profunda e pura é uma dádiva sem preço, tanto para um mago como para uma pessoa comum.
Qual é a razão então da indiferença de Supramati.
Provavelmente ele seja guiado por outro sentimento; ele sabe de algo que você desconhece:
a união de um mago com uma simples mortal é paga com a vida.
A chama do amor transcendental devora a flor delicada humana.
Um rubor vivo cobriu as feições encantadoras de Olga; seus olhos brilharam em êxtase e paixão.
- Oh, se fosse apenas isso, mestre!
Pagar com a vida pela felicidade de pertencer-lhe seria o cúmulo da bem-aventurança.
O que eu poderia querer mais do que morrer jovem, bela e amada, antes que o tempo me envelheça, sendo eu mortal, e ele, não.
Que suplício teria eu de suportar, quando velha e decrépita, estivesse ao seu lado; e ele sempre jovem, belo e invulnerável à acção do tempo que a tudo destrói.
Que graça celestial seria evitar todos esses sofrimentos e morrer ao lado dele, gozando da felicidade suprema.
Não você está brincando, estimado mestre.
Será que tal bem-aventurança custa apenas o preço da morte.
Oh, Estou disposta a morrer dez vezes, só para viver um ano no paraíso...
Ebramar meneou a cabeça.
- Não estará você se entusiasmando demais e não se arrependerá no futuro, ao descer à cova, tendo que se despedir da vida, cheia de encantos, e abandonar a pessoa amada e, talvez um filho
Por alguns instantes o animado rostinho de Olga confrangeu-se numa nuvem de tristeza.
Ela empalideceu estremecendo, mas logo sacudiu energicamente a fraqueza passageira que a dominara; uma fé jubilante, repleta de humildade, acendeu-se em seus belos olhos radiantes.
O bafejar da paz junto a Supramati e o emanar de sua força aplacarão todas as tempestades da alma.
Não foi você mesmo que falou do princípio, segundo a qual a matéria inferior é devorada pela chama purificadora que emana do mago Ousarei queixar-me da lei inexorável.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:35 pm

Não! Se tiver e felicidade imerecida de ser amada por ele, aceitarei a morte sem pestanejar ou me queixar, pois ela também seria uma dádiva, dele emanada.
O olhar profundo de Ebramar acendeu-se em meiguice; ele colocou a mão sobre a cabeça de Olga e, em seguida se levantou.
- Vejo que você é capaz de suportar com firmeza a provação, purificar-se na aura do mago e aceita humildemente a morte.
Devo acrescentar que a morte do corpo apagará em você as sombras da carne e a elevará às esferas superiores.
Não posso mandar no coração de Supramati e não lhe prometo nada de concreto; mas irei falar com ele e, na medida do possível, tentarei ajudar na busca de sua felicidade.
Olga agarrou-lhe as mãos e encostou-a aos seus lábios em brasa.
Pouco depois, uma névoa prateada encobriu a figura alta do mago; uma coluna nevoenta alçou-se ao espaço e desapareceu na escuridão.
Olga se levantou e guardou cambaleando os objectos que lhe serviram para a invocação.
Ao se encontrar em seu quarto, caiu na cama sem sentidos.
Naquela mesma noite, Narayana e seus amigos voltaram para a Escócia.
O dia seguinte passou alegre em meio a conversas e planos quanto à visitação da capital luciferiana.
Narayana estava impossível em maquinações, das mais requintadas e mordazes, para armar umas peças contra os luciferianos, nos quais via seus inimigos pessoais.
Decidiu-se que à noite convidariam Ebramar para jantar com eles, expor-lhe-iam as suas intenções e pediriam a sua opinião.
A tarefa do convite ficou sob a responsabilidade de Supramati.
Este se dirigiu à torre adaptada para as operações mágicas e sentou-se diante de um aparelho com tela, que se compunha de uma superfície oscilante, levemente gelatinosa, escura como o céu em dia de tempestade e pela qual parecia cruzarem nuvens azuladas.
Todo aquele plano se agitava, tremia e mudava de aspecto, como se estivesse sob a força de fortes rajadas de vento.
Supramati mal acabara de se preparar para recitar a fórmula, quando percebeu uma estrelinha brilhante que tremeluziu no fundo da escuridão nevoenta, a aproximar-se rapidamente, transformando-se por fim numa nuvem clara, saindo dos limites da tela.
Dela bafejou uma brisa tépida e aromática e, instantes depois, a nuvem se desfez e diante dele surgiu à figura esbelta de Ebramar, que lhe estendia sorridente a mão.
- Mestre, você ouviu o nosso pensamento e veio antes que eu pronunciasse a fórmula! – exclamou Supramati radiante e abraçou o mago.
- Sim, vim convidá-lo para o jantar.
Além disso, tenho um assunto sério a tratar com você e estou feliz em encontrá-lo sozinho.
- É alguma reprimenda.
Eu fiz alguma coisa de errado – alarmou-se Supramati.
Ebramar pôs-se a rir.
- Não, não!
Se quiser eu lhe passo um atestado, dizendo que nenhum de meus discípulos me deu tantas alegrias e me causou menos dissabores do que você.
Nada tenho a censurar, apenas quero lhe dar uns conselhos; você é livre para aceitá-los ou não.
- O que você diz mestre!
Seu conselho para mim é uma ordem – respondeu Supramati, corando pelos elogios do mago.
- Gostaria de falar-lhe sobre a vida que lhe cabe levar no mundo dos homens – disse Ebramar, sentando-se na cadeira oferecida.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:35 pm

- Oh, esta vida absurda faz com que eu anseie voltar ao mundo da ciência e da paz.
Não escondo, mestre; às vezes tenho uma vontade enorme de sumir do seio desta sociedade torpe, deste meio de pessoas ignorantes e devassas, deste caos de interesses mesquinhos, intrigas sórdidas e instintos animalescos – concluiu em tom de repugnância Supramati.
Ebramar balançou a cabeça.
- Você está equivocado ao se entregar ao sentimento de aversão pelos homens, entre os quais deverá conviver certo período de tempo.
Acredite-me.
Não é por acaso que a profunda e perspicaz sabedoria dos mentores superiores exige que nós nos relacionemos com as pessoas mortais, vivamos a vida deles e nos interessemos por aquilo que perturba as suas almas.
Ainda que sejamos mortais até certo ponto, permanecemos seres humanos, e por este facto não podemos quebrar os laços com a humanidade, mas sim lembrar que cada um de nós é um homem, e nada de humano pode ser alheio a ele.
Não se esqueça de que o objectivo final da nossa longa e estranha peregrinação é o novo mundo, onde nos tornaremos novamente mortais, e para onde somos chamados para o trabalho, para que lá possamos empregar todos os nossos conhecimentos e semear a ciência de que dispõe o planeta moribundo.
Futuros czares dos povos infantes fundadores de religiões, legisladores e regentes daquela jovem terra, esbanjando vida e riquezas, nós não podemos esquecer de nada que aflige e enleva o coração humano.
Para cumprir condignamente esta missão, fazer parte da composição daquela população inferior e lançar as bases da nova civilização, os exércitos de magos – esses trabalhadores do futuro – não podem ser apenas personalidades capazes de actuar somente no plano astral, mas devem ser gigantes ambivalentes, detentores de todas as habilidades físicas do homem e de todo o poderio espiritual.
Um czar, um sacerdote e um legislador devem ser impreterivelmente, personagens actuantes e não simplesmente magos impassíveis, que apenas amam a ciência.
É muito fácil você cair neste equívoco, e se entregar aos sentimentos de aversão e desprezo que acabou de manifestar.
Tente evitar isso e não fuja daquilo que aflige o coração humano, para que, futuramente, você não seja censurado por ter-se alçado tão alto, que perdeu a capacidade de entender os seres humanos que dirige; também para que ninguém tome a luz límpida e a harmonia serena de sua existência por insensibilidade vulgar.
Que jamais o acusem de ter ficado surdo às necessidades e lamentos dos menores, dos órfãos e dos humildes.
Lembre-se de que o estarão olhando de baixo para o alto, e essas criaturas fracas e impotentes, de fé vacilante, talvez não consigam compreender a sua sabedoria e só enxergarão em você um carrasco, um executor desalmado das leis inclementes, a eles aplicando insuportáveis provações e empurrando-os directamente ao inferno, e não aos longínquos e inacessíveis – segundo eles – portões do céu.
Supramati empalideceu.
- O que acabou de me dizer é terrível.
Deus me guarde de perder a capacidade de compreender os meus irmãos inferiores; mas o que devo fazer para evitar isso
- Nunca se afaste totalmente dos seres humanos, para que na impassividade de um mago imperturbável não se extingam todas as aflições da alma humana.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:35 pm

Enquanto viver entre eles, mergulhe sem temor no turbilhão da vida; a verdadeira luz não pode brilhar e acalentar somente nos picos, ela também deverá iluminar os becos e os abismos.
Um amor puro não envergonha o mago; o amor, como você mesmo sabe, é uma força da natureza, um sentimento divino dentro de uma criatura, por mais ínfima que seja. Um passarinho, ao zelar por seu ninho e se dedicar aos seus filhotes, já toca as cordas deste grandioso sentimento.
Por que é que então, meu amigo, você não pode seguir o exemplo de uma ave e construir um ninho durante a sua permanência entre os mortais:
Nós, os imortais, somos muito parecidos com as andorinhas de migração.
Assim como elas vimos de longínquos e desconhecidos países e logo voejamos não se sabe para onde; feito elas, nós alçamos alturas etéreas, banhando-nos nos raios vivíficos do sol do conhecimento e reingressamos no turbilhão da vida ao descermos na terra...
- Mestre! Você quer casar-me! – exclamou Supramati, que o ouvia com atenção crescente e de súbito ruborizado.
Ebramar desatou a rir.
- Poderia eu querer casá-lo, se isso lhe é aversivo, Deus me livre abusar de minha influência para fazê-lo assumir um relacionamento que só você poderia tomar.
Mas não nego que se você se decidir desposar uma mulher digna, eu sem dúvida o aprovaria, e por muitos motivos.
Primeiro você de fato ingressaria no mundo que lhe é totalmente estranho, formando laços de família que o obrigariam a participar da vida social; em outras palavras:
você seria um membro efectivo da sociedade. Segundo, apesar da nossa relativa imortalidade, permanecemos sendo homens sujeitos às leis físicas e, em determinados momentos do tempo, o nosso organismo, saturado de matéria primeva – ou seja, de fogo líquido -, sente a necessidade de mergulhar dentro da esfera de substâncias mais materiais do que existe em nossos refúgios gnósticos – até certo ponto, é claro – com os seres relativamente inferiores a nós, para liberar do nosso corpo os excessos de fogo astral e electricidade.
Você sabe de tudo isso, assim como é de se conhecimento que os nossos mahatmas, após 180 a 200 anos de vida ascética, contraem casamento.
Assim, a você e a todos os imortais permite-se durante a permanência no mundo, levar a vida de uma pessoa comum.
Acrescento ainda que os filhos de magos serão ajudantes poderosos e excelentes trabalhadores no novo mundo que nós teremos de dirigir.
- A julgar tudo por este prisma, Dakhir também deveria se casar – observou visivelmente acabrunhado Supramati.
- Sem dúvida!
Ainda hoje, sem falta, eu lhe darei o mesmo conselho!
A lei é igual para todos.
Assim foi, por exemplo, com Nara, que na época era superior a você, e que se tornou sua esposa; da mesma forma que antes o foi minha, apesar da distância que nos separava.
O ser de degrau mais baixo purifica-se e evolui em contacto com o ser superior, o que, à semelhança de uma vela que pode acender milhares de outras, não perde o seu brilho ou força.
Assim, se mós poderemos introduzir na nossa aura outro ser para purificá-lo e elevá-lo, por que então não fazê-lo.
Entendeu-me bem, meu discípulo e amigo.
- Sim mestre!
Tentarei seguir-lhe o conselho, cuja sabedoria profunda compreendo.
Até conheço uma mulher que me ama... – ele vacilou.
Seu amor é risível de ingénuo, mas ela é a mais pura e honesta entre as que a cercam.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:36 pm

- Você está falando de Olga Bolótova – disse Ebramar sorrindo – e eu devo confirmar que o seu amor, apesar de ingénuo, é puro, forte e capaz de sacrifícios.
E ele transmitiu-lhe a conversa que teve com a moça que o havia invocado.
- Oh! Esse Narayana é impossível!
Cada uma que ele inventa! – assombrou-se Supramati em meio a uma forte emoção.
Agora eu entendo por que me perseguia, com tanta insistência, a imagem daquela insensata; no entanto, como eu não queria permitir sua estranha influência sobre mim, sempre tentei – inutilmente, como vejo agora – espantar o seu pensamento, sem ao menos lê-lo.
Ele pensou por uns instantes.
- Mestre – começou ele indeciso -, sinto pena daquela moça; a nossa união reduzirá a vida dela, se eu não lhe der o elixir.
Ebramar meneou a cabeça.
- Não, Supramati, a união de vocês será uma provação e, para você, Olga deverá morrer.
Apesar de seu poder e dor da perda daquela criatura jovem, você deve se abster da tentação de dar-lhe a imortalidade.
Acredito ser melhor para ela, e para você também, que ela retorne ao mundo invisível, que, entretanto, está ao alcance de seus olhos.
Entenda amigo, esta aparente crueldade inútil tem razão de ser!
- Entendo e me submeto a tudo que disser.
Eu sei que somente o amor e a suprema sapiência o guiam – disse Supramati.
Seus olhos radiantes fitaram afectuosa e confiantemente os olhos profundos do mentor.
Este o abraçou e propôs jovialmente:
- Vamos até os nossos amigos!
Terei prazer em jantar com vocês; depois preciso conversar com Dakhir.
Numa saleta ao lado da sala de jantar, os amigos jogavam xadrez; ambos saltaram dos seus lugares ao verem Ebramar.
Um sentimento de vergonha e desconforto dominou Narayana; seus olhos negros baixaram ante o olhar severo e perscrutador do mago.
- Narayana, Narayana!
Quando é que você vai tomar juízo – disse esse balançando a cabeça em tom de desaprovação.
Obedecendo à veneração incondicional ao mago, Narayana baixou-se de joelhos e, agarrando a mão de Ebramar, encostou-a aos lábios.
- Perdoe-me, mestre, mentor e protector; goste de mim um pouquinho como sou – murmurou ele.
Eu sei que você não irá me abandonar; nas emanações límpidas de seu ser, eu ainda hei-de purificar-me.
Ebramar abaixou-se, beijou Narayana na testa e, depois, levantou-o.
É óbvio que jamais o abandonarei – disse ele sorrindo -, mas tenho pena de vê-lo sempre na mesma condição.
Gostaria de que você evoluísse.
Já não está farto de tantas bobagens.
Você não pensa nas duras provações que o aguardam no novo planeta, onde, por fim, terá de domesticar a “fera” que o subjuga.
- É, mestre! Lá, entre aqueles animais imundos, será bem mais fácil, pois haverá menos tentações.
E, enquanto for possível, deixe-me divertir na nossa pobre, mas refinada e aconchegante Terra.
Todos riram e passaram à sala de jantar, onde por eles aguardava uma refeição, consistindo de leite, vinho, mel e biscoitos leves.
À mesa a conversa versou sobre a viagem dos amigos à cidade de cientistas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:36 pm

- Diga-me, Narayana, foi sua a ideia de pregar uma peça nos luciferianos – perguntou de repente Ebramar.
Parece que Dakhir e Supramati já aprontaram uma brincadeira bastante cruel em Czargrado.
- Sim, mestre, mas isso foi pouco.
Precisamos atingi-los onde eles mais sentem.
Estão muito insolentes.
Seus sacrilégios e despudor revoltam a gente.
Já hora de lhes mostrar a existência de forças superiores às diabólicas.
Não queríamos agir sem a sua aprovação e conselho, mestre – concluiu Narayana com os olhos faiscantes.
- Não me oponho desde que vocês tenham estômago para mexer naquela latrina.
- Ficaremos invisíveis, mestre!
- Por certo isso não os livrará de sentirem aquela atmosfera nociva e fétida – refutou Ebramar.
- Depois a gentes e limpa; contanto que lhes estraguemos o banquete satânico, os sacrifícios nojentos e as cerimónias sacrílegas.
Ebramar não pode conter um sorriso.
- Sim, se você for cuidar do programa, com toda a certeza a expedição será bem interessante.
Interessante e divertida – completou alegre Narayana.
Após o jantar, Ebramar retirou-se com Dakhir para o quarto vizinho para uma conversa amigável, de onde eles voltaram depois de quinze minutos.
O mago anunciou que estava na hora de sua partida.
Todos se dirigiram à torres-laboratório.
Ebramar abraçou os discípulos, desejou-lhes sucesso na empreitada contra os luciferianos e aproximou-se da tela, cuja superfície se agitava e fervilhava como ondas do mar.
Uma rajada de vento quente e aromático percorreu o recinto.
Arrastado por aquele vagalhão etéreo de quarta dimensão. Ebramar se achou dentro da tela.
Fazendo um sinal de despedida com a mão, ele começou a desaparecer rapidamente no espaço.
Agora já se podia divisar nitidamente uma espécie de feixe faiscante que arrastava o mago feito um tape voador.
A seguir, bem longe e num fundo azul, como em miragem, surgiu o maravilhoso palácio branco himalaio com suas colunatas vaporosas de entalhes finos, as fontes brotando e a vegetação exuberante dos jardins que o cercavam.
Os amigos contemplavam, como se estivessem enfeitiçados, aquele quadro maravilhoso; foram tomados subitamente por nostalgia e vontade incontrolável de seguir Ebramar, refugiar-se naquela paz silenciosa da natureza, bem longe da humanidade rastejante, vivendo de inveja, ambição e hostilidade fratricida.
Respirando pesado, contemplava Supramati aquele longínquo palácio.
Parecia-lhe chegar aos ouvidos o som acariciante do murmurejar dos chafarizes, a melodiosa música das esferas, e aspirar o aroma das flores crescendo abaixo da larga janela do seu gabinete de trabalho.
Ele tinha a sensação de que sua alma se desprendia do corpo e voava para aquele refúgio remoto do saber puro, onde nada quebrava a harmonia límpida do pensamento, onde se esquecia o próprio tempo, onde os séculos corriam como dias.
E a consciência de que ele novamente deveria mergulhar no caos humano, relacionar-se intimamente com a turba bestificada – vulgar e devassa – encheu-o de tanta aversão, que o seu coração sustou momentaneamente as batidas, como se comprimido por tenazes.
Mas o quadro longínquo já embotava e em seguida desapareceu por completo; a superfície da tela readquiriu o seu aspecto liso e especular.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:36 pm

- Bem, amigos, chega de sonhar com as ilhas desérticas e com os novos fachos em suas coroas mágicas.
Por vocês aguardam obrigações e tarefas bem mais modestas - declarou Narayana.
Sua voz jovial e marota fez os amigos voltarem à realidade.
- Humm! A tarefa é tão fácil que qualquer moleque dá conta dela.
Não obstante, fertilizar uma ilha desértica talvez seja mais fácil – observou em tom jocoso Dakhir.
Ebramar quer que eu me case, mas ainda não encontrei ninguém que me agradasse.
Supramati tem mais sorte; eu ainda não consegui gerar um amor tão flamejante, que pudesse tomar de assalto os portões do céu – acrescentou ele, olhando sorridente para o amigo, que se recostara pensativo na cadeira.
Este se endireitou e passou a mão pela testa, como se quisesse afugentar os pensamentos sombrios.
Eu acho que para você basta querer e encontrará a felicidade que nada ficará devendo à minha – disse Supramati sorrindo.
A um homem tão belo e sedutor só falta escolher...
- Não se preocupe, vou lhe achar uma esposa da família da princesa Supramati! – interpôs Narayana.
- Oh! Se ele for cuidar de sua felicidade conjugal, fique certo que você se arruma! Ele guarda um plantel digno de heroísmo.
É evidente que por ser um homem que só se sente bem no seio conjugal, ele gostaria de propiciar a mesma felicidade também a outros – observou zombeteiro Supramati.
- Suas palavras não são mais que o eco da conversa fiada de Nara, que me envenenou a vida com seus ciúmes – ajuntou Narayana meio zangado, meio chistoso.
- Bem se acalme!
Todos sabem que você foi um marido exemplar; ao se virem esgotadas todas as riquezas de Monte Rosa, você poderá abrir uma agência de matrimónio e fazer uma enorme fortuna, se é que até lá o nosso planeta sobrevive – disse Dakhir.
E agora, senhores, boa noite!
Chega de agitação por hoje!
Já dissemos que Supramati se instalará no mesmo quarto que antes era ocupado por Nara, durante a permanência na Escócia.
Ao entrar no dormitório, ele se sentou no sofázinho, perto da cama, e mergulhou em seus devaneios.
Cada objecto ali o fazia recordar a mulher encantadora, ex-companheira dos primeiros anos de sua nova e estranha existência, que o ajudou e o orientou na primeira iniciação, sempre o apoiando nas horas de fraqueza e cansaço.
Quantas vezes a voz amada soou em seus ouvidos; uma palavra fosse ela séria ou espirituosa, afugentava a indecisão e elevava o seu ânimo; ou então, um carinho fugaz da mão invisível que lhe recordava não estar sozinho e que os eu amor o protegia de longe.
Sim, toda a sua alma pertence à Nara, no entanto, ele terá se esposar uma inculta e insignificante menina, que não passa para ele de um brinquedo do sentimentalismo já superado e dominado...
Era-lhe aversiva a simples ideia de se unir a uma mulher, conferir-lhe direitos sobre si e assumir as obrigações...
E Nara está muda; não dá um sinal de vida...
Talvez ela esteja zangada comigo e não compartilhe das concepções de Ebramar...
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:36 pm

Nesse instante ele sentiu na testa o toque dos dedos afilados e a voz adorada sussurrou-lhe no ouvido:
- Para que essa inquietação, Supramati.
Eu sei que o meu lugar em seu coração jamais será tomado por outra pessoa.
O sentimento que nos une é um vínculo de almas, um amor puro e fiel, que nada pode destruir.
Que importância terão para este sentimento eterno as aventuras passageiras da nossa longa existência.
Como posso ter ciúmes, se para o mundo vier mais um ser para amá-lo e se elevar, tornar-se melhor e purificar-se sob a sua protecção Digo ainda mais: essa moça é digna de você; seu amor é puro e forte.
Seja bom e condescendente com ela, pois sua adoração por você é tão grande quanto o medo.
A bobinha pensa o mesmo de mim e está tão aflita que eu não lhe dê aquelas “férias conjugais”... – na voz de Nara ouviu-se um esgar de riso -, que eu não posso me opor.
Já que eu sempre obedeço às leis, submeto-me, então a elas e lhe concedo as férias, meu belo príncipe.
Nunca se sabe talvez algum dia eu tenha de lhe pedir o mesmo favor...!
- Nara, não brinque!
Não permitirei que você olhe para outro! – gritou desatinado Supramati, corando como um pimentão.
O rolar de um riso brejeiro o fez imediatamente voltar a si.
- Ah, senhor mago! O senhor revela sentimentos egoístas totalmente indignos da sua perfeição.
Mas acalme-se, seu ciumento!
O grau da iniciação pelo qual estou agora passando absorve-me todo o tempo e não estou a fim de atentar contra a fidelidade conjugal.
Assim, goze de suas férias sem nenhum constrangimento e saiba que a minha afeição continua a protegê-lo.
E agora, até a sua volta à esfera da ciência e da paz!
Seguiu-se um apertar de mãos e depois o silêncio; Supramati, dominado de repente por uma sonolência, deitou-se e adormeceu imediatamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:36 pm

Capítulo XVII

Ao despertar, Supramati readquirira o seu equilíbrio espiritual e, durante o desjejum, os seus pensamentos voltaram-se exclusivamente para o plano de ataque contra os luciferianos, cujos detalhes estavam sendo discutidos pelos amigos.
- Devemos partir amanhã de manhã - anunciou animado Narayana.
E os levarei até um dos nossos homens, também imortal.
É gente boa; mora nos arredores da cidade e terá muito prazer em nos ceder a casa, onde instalaremos o nosso quartel-general.
Antes das operações militares, vocês terão que se familiarizar com a cidade e seus moradores, muito típicos, aliás, e que representam uma ilustração viva da torpeza à qual pode chegar uma nação inteira, subtraída do apoio da fé religiosa e disciplina moral.
O dia inteiro passou nos preparativos de tudo que eles precisavam para dar uma boa lição nos satanistas e das medidas de prevenção contra os miasmas maléficos, com os quais, sem dúvida, teriam de entrar em contacto.
Ao alvorecer, a nave de Supramati voava rapidamente em direcção à antiga terra francesa.
O amigo de Narayana residia a alguns quilómetros do centro da capital numa casa isolada, cercada de jardim sombroso.
À semelhança de quase todos os membros da irmandade misteriosa, ele era jovem, circunspecto, com aquela expressão enigmática que caracteriza os imortais.
Recepcionou jovialmente as visitas e até se fez amigo destes; ao saber que estavam se preparando para dar uma tunda nos luciferianos, ele se empolgou e prometeu ajudar na medida de suas possibilidades.
- Vocês não podem imaginar até que ponto o povo se tornou repugnante – disse ele com amargor.
Eu, como vêem, sou de origem francesa, e ainda peguei bons tempos quando a minha pátria, gloriosa e florescente, era o centro de trabalho intelectual, requinte, patriotismo e coragem cavalheirosa; assim me dói muito assistir à decadência actual.
Vocês devem saber, é claro, que a degeneração teve início ainda antes da invasão dos amarelos no século XX.
A maçonaria francesa e as assim chamadas concepções “liberais” e “humanitárias” geraram um exército de ateístas, sacrílegos, renegadores de todo o género de religião e, ao mesmo tempo, fanáticos do luciferismo, com toda uma espécie de viciosidades.
Liderando aquele movimento subversivo estava o judaísmo; sob a sua influência nefasta, nasceu uma geração baptizada pela sabedoria popular com o nome de shabegóios, cobiçosos por ouro e prazeres carnais, que se tornaram um instrumento cego nas mãos dos judeus.
A venalidade atingiu a todos, desde o chefe do governo até o último dos funcionários; todos, sem excepção, negociavam com avidez jamais vista os interesses de seu país, espezinhavam na lama o sentimento de amor à pátria, investiam desdenhosos contra a igreja e afundavam-se em seus próprios vícios.
Os amarelos, com a mão férrea puseram um basta; assim, quando a raça branca tomou juízo e expulsou os tiranos, eu estava certo de que a minha querida pátria ressuscitaria a sua antiga glória.
Infelizmente, nada disso ocorreu.
É possível que o cancro moral tenha deixado sementes inextirpáveis no organismo nacional e que mais tarde germinaram num momento propício.
Tal se deu com a invasão dos semitas.
Essa raça indestrutível, apesar do massacre anterior, conseguiu se unir e, aos poucos, todos os judeus, ou pelo menos a sua maioria, se instalaram na França e na Espanha.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:37 pm

Com a vinda deles, brotaram todos os pendores para o mal, tal como era antes da invasão dos amarelos; o dinheiro começou a mandar em tudo, sufocando a voz da consciência, e o mais importante era vender-se o quanto mais caro ou realizar alguma vileza para agradar a judeus, a rirem de suas humilhações.
A situação no momento é uma consequência de tudo aquilo.
Na enorme cidade, que vocês conhecerão mais tarde, estão três quartos de todo o ouro do mundo; é o banco mundial e, ao mesmo tempo, o ninho da mais inaudita e inédita devassidão.
Todas as artes decaíram até o nível do animalesco; os artistas competem entre si para ver quem leva o prémio da obra mais sórdida; na literatura só se faz apologia ao vício e à libertinagem em seu aspecto mais repugnante; as pessoas, que se tornaram piores que animais, esforçam-se no refinamento do mal e da devassidão.
Quanto à veneração a Satanás, feita publicamente, esta, por seu cinismo descarado, supera tudo que se conheceu no passado...
Ele calou e baixou tristemente a cabeça; os magos tentaram animá-lo.
No dia seguinte, Supramati e Dakhir se preparam para visitar a Sodoma contemporânea.
Para reduzir os efeitos dos fluídos nocivos sobre os seus organismos sensíveis, eles vestiram malhas eléctricas e capas com capuz, que cobria, feito máscara, todo o rosto, deixando apenas uma pequena abertura para os olhos.
O traje era feito de um vidro macio e inquebrável, reverberando matizes de madrepérola.
Nos peitos eles penduraram as cruzes de magos; armaram-se de bastões de ouro, lembrando báculos episcopais, mas de tamanha força, que uma pessoa comum neles não podia encostar ou suportar o calor que deles emanava; de tempos em tempos, os báculos soltavam torrentes de fogo.
Narayana também, ainda que fosse um espírito densificado e, por esta razão, menos sujeito aos efeitos dos fluídos maléficos, vestiu o mesmo traje; seus olhos negros, feitos dois carvões em brasa, cintilavam por entre as aberturas do capuz.
Fora isso, cada um deles levava atrás do cinto uma caixinha dourada com um pó nutritivo e um frasco de vinho, visto que na cidade satânica eles não poderiam tocar em nenhum outro alimento.
Assim armados e tornando-se invisíveis, eles foram à metrópole, capital do ouro e do vício.
A cidade era deslumbrante.
Por extensões inimagináveis estendiam-se largas ruas com imensos palácios, decorados com esculturas, mosaicos e pinturas; por todos os cantos brilhava o ouro, o esmalte e o requinte da civilização.
A visão daquela cidade em ouro e mármore produzia uma impressão repulsiva.
As pinturas que guarneciam as fachadas eram indescritivelmente cínicas; os mosaicos representavam imagens obscenas; nas janelas das lojas expunham-se quadros abjectos legendados, que comprovavam a ausência de quaisquer valores de vergonha.
Havia grande número de jardins públicos, em cujos quiosques, além dos vinhos, frutas e refrigerantes, se vendia sangue de animais, ali mesmo sacrificados à vista dos clientes, para que não houvesse qualquer dúvida quanto ao frescor e qualidade da bebida.
Os moradores que passeavam pelas ruas naquele dia bonito e quente – parcialmente vestidos, quando não totalmente nus – carregavam em todo o seu ser o selo da decadência.
Os rostos magros e pálidos com os olhos afundados, sem nenhum sorriso franco a iluminá-los, transmitiam algo de animalesco.
O aspecto geral de abatimento da multidão revelava uma vida desregrada e abusos de todo tipo de devassidão, enquanto olhares raivosos, cheios de malicia, insistiam em pregar-se a terra ou eram lançados de soslaio.
O ar estava a tal ponto impregnado de miasmas de sangue e delitos, que as vestes vítreas dos magos se cobriram por umas camadas escuras, fétidas e gosmentas, e eles sentiam dificuldade em respirar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:37 pm

Narayana que aparentemente conhecia bem a localidade levou os amigos para mostrar os monumentos mais importantes da cidade.
Praticamente todas as estátuas tinham um significado simbólico.
A que representava a liberdade ao prazer era tão indecente e repulsiva, que os magos se recusaram a examiná-la melhor.
Outra representava um códice sendo espezinhado por um ex-presidiário; ao lado jaziam quebrados os seus grilhões e ele, furioso, partia com um forcado de excrementos a folha do código penal.
A inscrição na base dizia:
“Avaliação merecida da justiça”.
Por fim, a terceira estátua, a mais imponente, representava um homem derrubado no chão, de boca amarrada com pano:
jazia ele em cima de monte de símbolos de glória e poder.
Ali estavam reunidos todas as coroas imperiais, tiaras papais, estandartes, insígnias, emblemas, báculos, crucifixos, etc.
Um velhinho decrépito pisoteava o homem caído e, com um martelo, quebrava aqueles símbolos da honraria.
Uma inscrição explicava que o velho representava o “tempo”:
o carrasco que triunfa sobre todos os preconceitos e privilégios.
Ao notar a repugnância que produziam nos amigos aquelas obras asquerosas da arte, Narayana observou:
- Sim, sim, os artistas satânicos têm seus próprios ideais, bem diferentes das concepções velhas e ultrapassadas de vocês.
Hoje em dia os pintores, os escultores e os literatos se esmeram em alcançar o cúmulo de cinismo e profanação, ou hediondez moral e física; e quem conseguir ridicularizar com maior requinte o céu e a natureza podem estar certo de seu triunfo, gloria e riqueza.
Agora, meus amigos, vocês precisam conhecer o teatro daqui, onde assistirão algo que nunca sonharam!
Vocês ficaram chocados com a liberdade desaforada do repertório de Czargrado.
Bem, aquilo eram peças de criança em comparação com o que se mostra neste lugar!
Aqui, exige-se uma realidade virtual, pois os nervos abalados e embotados dos servidores do mal anseiam por emoções fortes, e não raro se assistem assassinatos reais, quando os artistas se empolgam e a cena dá aquele “efeito”, de modo a suscitar um júbilo selvagem.
Tais homicídios jamais são punidos simplesmente pelo banimento de leis; cada um vive segundo a sua própria.
Mais tarde vocês entenderão o alto significado que a morte traz na interpretação dos atores e a emoção disso tudo.
Bem, estamos chegando!
Aquele enorme edifício, cercado de belas colunatas, é justamente o teatro.
Permanecendo invisíveis, os amigos se instalaram num camarote vazio, examinando num misto de assombro e repugnância o ambiente.
A sala não se assemelhava em nada àquelas que já tinham visto, nem a de Czargrado. O palco era enorme.
Em cada camarote – também enormes – estava instalado no fundo um pequeno bufê com frutas, confeitos e bateria de garrafas com licores e vinhos fortes.
Pelas laterais, os camarotes eram decorados com roseiras e plantas vivas de odor excitante, da cor vermelho-lilás, parecidas com heliotrópios gigantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:37 pm

O ar no recinto era saturado por um aroma asfixiante e excitador; os rostos afogueados dos presentes, os olhos brilhando febrilmente e os movimentos bruscos revelaram, de forma nítida, o quanto àquele ambiente excitava todos.
As mulheres, na maioria seminuas e despudoradas, tinham o aspecto das bacantes.
A peça apresentada – nem drama nem opera – era admirável em seu aspecto decorativo; servia de enredo as aventuras de um jovem atleta – vencedor de jogos célebres.
Duas mulheres:
a primeira, uma artista circense, e a outra – uma dama rica da alta-roda – disputavam o amor do atleta.
As cenas de luta no circo eram grandiosas quanto ao cenário e à numerosidade dos participantes; no entanto, nojentas pelo seu realismo indecente, pois os atletas lutavam nus.
A cena de clímax era um banquete que se seguia ao embate e se transformava em orgia.
A competição entre as duas heroínas alcançava então o seu apogeu e a dama da alta-roda se despedia levando triunfante o seu prémio conquistado aos sons de coro bacante, selvagem e díssono.
Uma exaltação febricitante ia-se apossando dos espectadores.
Ouviam-se risadas histéricas, exclamações e gritos alucinados, entremeados de choro.
Por fim, as cortinas se abriram para o último acto da trama e a sala mergulhou no silêncio.
Via-se agora um aposento feérico, luxuosamente decorado, onde o atleta rendia as homenagens à sua nova amante, antes de recolher-se para dormir.
Mas a rival que fora rejeitada estava em seu alcanço.
Ela conseguiu penetrar furtiva no quarto e agora rastejava com um punhal na mão em direcção à cama, onde estava deitado o homem pérfido em companhia de sua concorrente.
Aquela mulher de rosto cadavérico e olhos injectados parecia um animal selvagem em forma humana.
Os espectadores prendiam a respiração, acompanhando febrilmente todos os seus movimentos.
Mas eis que ela se reergueu, seu braço baixou e de repente um grito alucinante, seguido por outro, fez tremer as paredes da sala:
dois golpes acertaram seu alvo e o sangue jorrava feito chafariz.
Via-se a dama da alta-roda se contorcendo e gemendo em sofrimentos agónicos; enquanto o atleta, caído ao lado da cama com o punhal cravado no peito, contraía-se em convulsões em meio à poça de sangue a esparramar-se pelo chão.
Retumbam palmas entusiásticas; flores e jóias são atiradas no palco.
Mas, no momento em que a artista triunfante se curva em agradecimento ao público, o atleta moribundo soergue-se nos joelhos, agarra por trás a sua assassina, derruba-a no chão e começa a asfixiá-la.
Num combate feroz, eles rolam pelo piso ensanguentado; ela tentando desesperadamente se desenvencilhar, mas as mãos enregeladas do agonizante, feito tenazes de ferro, cravam-se em seu pescoço e, algum tempo depois, ambos os corpos jazem exânimes.
O que sucede depois na sala não pode ser descrito.
Os espectadores são tomados de loucura da sede insana de sangue e morte; erguendo as mãos para cima, eles uivam feito uma matilha de lobos famintos; as mulheres, enlouquecidas, arrancam de si numa crise histérica os trajes já parcos e contorcem-se em convulsões.
Algumas pessoas, tomadas de loucura, rolam no chão espumando pela boca.
Por fim, a turba sobe no palco e começa a sugar e a lamber o sangue dos ferimentos dos mortos.
- Fujamos daqui! – soltou-se do peito de Supramati.
Ele estava em pé, lívido feito cadáver, apertando as mãos contra o peito; Dakhir esta recostado na poltrona com os olhos fechados e parecia sufocar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:37 pm

Narayana sacou do cinto dois pedaços de pano, impregnados de vinho misturado com a substância primeva, e fez com eles compressas no rosto dos magos; quase imediatamente eles se recuperaram de sua fraqueza.
- Amigos! Em vez de desfalecer, destruam este ninho de podridão.
Tivesse eu o poder de vocês, já o teria feito – resmungou Narayana.
Supramati e Dakhir empertigaram-se; em seus olhos relampejou indignação e um forte desejo de punir aqueles monstros.
Arrancando do peito as cruzes de mago, eles se lançaram para frente pronunciando fórmulas poderosas às quais os elementos se submetiam.
Um instante depois, o ar foi rasgado por dois relâmpagos que tomaram a forma de crucifixos brilhantes; ao mesmo tempo, fortes rolares de trovão sacudiram o prédio.
No início a turba petrificou-se de terror, depois as pessoas bestificadas se lançaram em direcção às saídas, aos gritos desatinados; mas os raios se lhes projectavam de encontro e obrigavam a voltar para trás.
Os trovões continuavam a retumbar, as paredes estalavam, e de repente elas vieram abaixo, esmagando a multidão que se comprimia na sala e nos camarotes.
Pela primeira vez, talvez, os magos não sentiam qualquer piedade pela hecatombe por eles invocada; já há muito tempo sua pura e harmónica alma não era abalada por tal sentimento de nojo, beirando o ódio.
Recuando de costas, eles deixaram a sala e o teatro, antes que este desmoronasse.
Subiram até as nuvens e foram até a nave que imediatamente os levou à casa do amigo, onde eles se purificaram e, em seguida, recuperaram as forças.
No dia seguinte, René de La Tur, como era chamado o imortal que abrigou os três amigos, partiu para a cidade atrás de notícias.
Ele voltou feliz e contou, aos risos, que todos os moradores da cidade satânica estavam totalmente desolados.
A destruição do teatro foi atribuída a um terremoto, cujo abalo foi sentido longe; no entanto, a maior preocupação dos moradores era de que tal desgraça poderia prejudicar um dos mais belos festejos dali a um dia.
Além disso, ninguém conseguia explicar por que os raios tomaram a forma de radiantes crucifixos:
isso jamais tinha acontecido antes.
A inesperada catástrofe de facto estragou todos os preparativos para a festa.
Muitas pessoas foram mortas, um número ainda maior ficou ferido ou aleijado por relâmpagos ou blocos caídos; por fim, as escavações e a limpeza dos escombros também atrapalhavam a festa.
Ouviam-se, inclusive, algumas vozes que sugeriam adiar por algumas semanas os sacrifícios e a procissão; mas, a massa principal, ávida por diversão, posicionou-se contra e, finalmente, decidiu-se realizar, primeiramente, o enterro solene e sumptuoso das “vítimas” dos espectadores e dos “geniais” artistas que, com o seu sangue, selaram o “glorioso serviço à arte”, interpretando ao vivo a grandiosa tragédia da vida.
Tal decisão acalmou e satisfez a todos.
Era uma pena, é claro, que a catástrofe sobreveio numa hora tão inconveniente.
Mas tais imprevistos podem ocorrer sempre:
a morte é inevitável – cedo ou tarde – e tudo o mais poderia ser recuperado e corrigido.
Graças a Satanás havia muito ouro para construir um novo teatro, ainda mais belo que o anterior; falta de artistas também não existia.
Desta forma, podia-se enterrar tranquilamente os mortos e mais tarde reiniciar os preparativos para a festa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:37 pm

Dakhir e Supramati decidiram esperar uma semana, pois estavam ansiosos para estragarem definitivamente o festejo luciferiano.
Para matar o tempo, eles se dedicaram ao estudo de usos e costumes locais, muito peculiares.
Assim, vieram a descobrir que os judeus, antes de tudo, baniram o seu velho Yhwh, o qual teve a infeliz ideia de criar os dez mandamentos – ao menos é o que lhe era atribuído.
E como as antigas escrituras da moral contrariavam visceralmente os princípios da vida moderna, constrangiam os senhores judeus em seu quotidiano, tolhiam-lhes as propensões de liberdade desenfreada; eles, então, revogaram-nas e mudaram a seu gosto aqueles dez mandamentos, os quais, na nova redacção, mandavam justamente o contrário do que era prescrito nos tempos antigos.
Assim, por exemplo, o primeiro mandamento da lei modificada rezava:
“E não terá outro Deus senão Satanás”. O outro:
“Mate todo aquele que o constranger e beba o sangue daquele que ousar ser seu inimigo”, ou ainda:
“Tome tudo que possa satisfazer os seus desejos, pois uma vê que algo possa servir-lhe, ou que você dele possa precisar, já lhe pertence pelo direito”.
O resto era tudo nesse género.
Este código de leis novas, cómodas e elásticas, podia ser visto em placas de bronze ou mármore nas principais esquinas da cidade, para atingir o maior número de cidadãos, e estes obedeciam ciosamente àquelas belas prescrições, sem se aterem a quaisquer outras leis ou obrigações, salvo o que era em prol de sua vontade e capricho.
Chegou, finalmente, o dia dos festejos luciferianos.
Desde cedo a cidade já estava em pé e todas as ruas estavam tomadas de gente.
A solenidade iniciava-se com a filiação ao culto satânico de novos membros, e esta sacrílega e profana cerimónia era chamada jocosamente de baptismo. Realizava-se ela numa gigantesca praça diante do principal templo de Satanás, e lá, publicamente, cumpriam-se os rituais infames, já denunciados no processo dos templários.
Desta vez o número dos neófitos verificou-se acima do esperado e a cerimónia atrasou-se; já era bastante tarde, quando um tiro forte deu sinal ao início das apresentações.
Imediatamente, de todos os templos satânicos partiram procissões em direcção à grande praça principal no centro da cidade, cercada dos palácios mais bonitos.
Ali foi erguida uma gigantesca fogueira com uma cruz invertida no alto, ladeada por figuras de cera que representavam os santos mais venerados do mundo cristão, assim como de objectos sacros de todos os povos; tudo aquilo mais tarde seria queimado.
Logo as procissões começaram a se juntar na praça.
Uma levada, rodeada por uma infinidade de estandartes, a estátua de Satanás – o czar do Universo.
O demónio era representado em pé, com imensas asas abertas, e na cabeça erguida ostentava orgulhosamente uma coroa de pontas; na mão estendida ele segurava o ceptro, com um pé ele pisoteava violentamente a coroa de espinhos e o cálice derrubado.
As procissões de outras “irmandades” eram do mesmo género e representavam todos os rituais do culto satânico:
ali estavam as procissões picarescas dos Templários, carregando o Bafonete; dois maçons franceses, com a estátua de Lúcifer; todos os participantes estavam nus, tirante o peitilho de couro, onde se viam as insígnias que revelavam o grau de suas distinções.
Atrás seguiam os adoradores dos demónios inferiores, os sacerdotes das larvas e dos demais espíritos impuros; seguiam-se-lhes os membros da “Sociedade de Sabá” com sua rainha e, por fim, os cantores e as cantoras que acompanhavam as vítimas a serem sacrificadas:
algumas crianças, duas velhas que queriam, por livre e espontânea vontade, sacrificar-se em glória de Satanás.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 25, 2016 7:38 pm

As multidões excitadas comprimiam-se nas ruas e principalmente na praça onde estava a fogueira.
Todos aguardavam impacientes o início dos sacrifícios para depois irem aos banquetes públicos preparados para o povo em todos os locais públicos; tais banquetes normalmente terminavam em verdadeiras orgias satânicas.
Quando as procissões se juntaram em volta da figueira, os sacerdotes satânicos entoaram um hino em homenagem a seu “deus”; o povo repetia o estribilho no fim de cada estrofe.
Aquele canto selvagem, desafinado, dava nos nervos, excitando ainda mais a turba, já sem isso exaltada.
Ao término do hino, em torno da fogueira começou uma dança.
Sem nenhuma distinção, pulavam e gritavam, segurando-se pelas mãos, homens, mulheres e crianças; e, à medida que se juntavam e se separavam aquelas enormes e frenéticas rodas, crescia a excitação da turba.
Ouviam-se gritos selvagens e rompantes de gargalhadas histéricas; as pessoas, feito endemoninhadas, contorciam-se e uivavam como feras selvagens.
Mas o delírio geral atingiu seu clímax, quando o Sumo-sacerdote de Satanás, com longos punhais reluzentes nas mãos, a eles dirigiram-se os sacerdotes, para sacrificarem primeiro os animais e depois as vítimas humanas; o sangue tanto de uns como de outros deveria ser distribuído aos presentes, trémulos de impaciência.
O povo selvagem, ávido de sangue, estava tão absorto na cerimónia, seus nervos estavam tão tensos, que nenhum dos presentes percebeu que no horizonte surgiram nuvens plúmbeas, e uma brisa levantou colunas de areia e agitou as chamas da fogueira.
Na hora em que sucumbiram sob os punhais os primeiro condenados, o céu escureceu, a terra tremeu sob o rolar de um trovão e uma rajada tempestuosa de vento atravessou a praça, derrubando ao chão alguns dos presentes.
Ouviram-se gritos de terror, pois o céu, neste ínterim, ficou negro e os relâmpagos vermelho-ígneos sulcavam-no em todas as direcções.
Os abalos dos trovões sucediam-se sem parar e, finalmente, desabou uma chuva torrencial em meio à queda de enormes granizos.
A turba aturdida desembestou a correr por todos os lados, mas o turbilhão assobiava, levantava colunas de poeira e arremessava para longe os sacrílegos, a se esmagarem e pisotearem-se uns aos outros.
Como que encerrados num círculo mágico, tentavam inutilmente se refugiar em seus palácios próximos.
Por uma razão desconhecida, apesar da chuva torrencial, a fogueira continuava a queimar; mas o crucifixo tombado endireitou-se, suspendeu-se por uma corrente de vento e pairava solene como se amparado por mãos invisíveis, iluminando a escuridão com uma luz estranha fosforescente, que parecia se irradiar dele em feixes de fagulhas.
O terror e a confusão na praça eram indescritíveis.
Os urros e os gritos agonizantes dos esmagados pelas estátuas desabadas, dos feridos pelo granizo, dos pisoteados e mutilados – tudo isso se misturava ao uivo da tempestade, cuja fúria crescia a cada minuto.
O pânico também se transmitiu parte restante da cidade, pois o terremoto havia abalado os edifícios e alguns deles desabaram com estrondo, enterrando sob os escombros numerosas vítimas, enquanto paus em chamas se desprendiam da fogueira, eram espalhados pelo vento e causavam incêndios por toda à parte.
Mas, se a destruição e a morte faziam justiça no mundo visível, no espaço, apenas visível aos olhos imortais, travava-se um furioso combate entre as forças claras e as negras, golpeadas no centro de seu poder.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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