Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:01 pm

Feito nuvens negras, lançavam-se os demónios sobre os magos, atirando flechas venenosas, sufocando-os com miasmas fétidos e cobrindo suas vestes alvas com cuspe grudento e malcheiroso.
Mas os três amigos lutavam valorosamente, e os contragolpes eram tão fortes, que os projécteis fulminavam os próprios atiradores, derrubando-os e atravessando os seus corpos intumescidos e artificiais, que explodiam com barulho sinistro espalhando no ar seu contágio.
Em consequência disso, mais tarde aquilo provocaria no país grandes epidemias, pois liberava bacilos mortíferos de diversas moléstias.
Aos poucos o inferno recuava ante a luz límpida.
Os seres demoníacos, desistindo da luta, retornavam às suas ocupações favoritas:
lançava-se sobre os mortos ou moribundos, sugavam-lhes os restos da força vital, ou alimentavam-se de outros com os fluídos da decomposição.
Nos campos de batalha e nos locais das catástrofes, em todo o lugar onde ocorre uma destruição ou morte física, sempre e reúne tal escória de seres do além.
A putrefacção e a decomposição serve de alimento para larvas e demónios.
Quando os magos e Narayana, que os ajudara como pôde se viram finalmente n casa do anfitrião e amigo, estavam tão cobertos por nevoa negra e fétida, que o outro quase se sufocou e, nos primeiros instantes, até tomou-os pelos próprios demónios.
Narayana, no melhor de seu humor, riu muito dele e, em seguida, todos os três se dirigiram a um riacho de água mineral que passava no jardim.
Ao colocarem na água uma gota de substância primeva, esta adquiriu uma cor azulada e fosforescente.
Depois de se banharem e se tornarem purificados, os amigos se sentiram revitalizados e entraram na casa onde um lauto jantar esperava por eles.
- Oh! Que banquete de luculo!
Vinho, frutas, mel, ovos, pastéis, leite e até queijo! – exclamou alegre Supramati, sentando-se à mesa.
O senhor está nos mimando, mas farei as honras a este manjar, pois estou faminto feito um lobo.
- Pelo visto a fome os faz falar anacronismos – observou Dakhir sorrindo.
“faminto feito um lobo”, quando lobos já não existem mais há longo tempo.
- Ressuscitemos a sua lembrança! – retorquiu Supramati, passando manteiga no pão e colocando sobre ele um pedaço de queijo.
Debruçado na mesa, René de La Tur observava com visível satisfação o apetite das visitas, comendo de tudo e elogiando os pratos, Dakhir notou isso.
- Vejo meu amigo, que você não esperava que comêssemos com tanto gosto.
Você acha que sobrevivemos só do sabor e aromas
De La Tur corou.
- Absolutamente! Estou feliz que fazem honra à minha humilde comida, mas pensei... – pelo visto ele procurava as palavras certas -, eu achava que os magos eram desabituados de nosso vulgar alimento e não o suportavam.
Nos primeiros dias, vocês mal encostaram na comida e eu, confesso, só contava basicamente com o apetite de Narayana.
Todos riram.
- Devo explicar-lhe o que o intriga, pois você esquece meu caro René, que nós, os imortais – magos ou não -, permanecemos sendo humanos – respondeu jovialmente Supramati.
Enquanto a gente estuda e trabalha em nossos misteriosos abrigos, longe das pessoas, numa atmosfera especial, as nossas necessidades carnais são levadas ao mínimo.
Um gole de vinho, uma colher de pó nutritivo e a luz astral que nos cerca, são suficientes para a nossa sobrevivência, pois a mente ocupada com trabalhos abstractos e complexos, não havendo um esforço físico, deve ser libertada do peso do corpo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:02 pm

Mas o corpo continua a existir e chega o momento em que a carne começa a reclamar os seus direitos, quando se torna necessária à troca de substâncias novas.
Aí, então somos obrigados a voltar para o mundo, conviver com as pessoas comuns e nos alimentar mais substancialmente.
Nos últimos dias comíamos pouco, porque nos preparávamos para as acções mágicas que exigiriam toda a força de nossa vontade, que não podia sobrecarregar o peso do corpo.
Agora, ao contrário, esgotado por tensão espiritual e contacto com miasmas tão impuros, o corpo exige que nos alimentemos.
É daí que vem o nosso apetite ao comprazermos de sua deliciosa comida.
- Oh, sim!
Eles mergulham de cabeça na vida real.
Eles não só comem sanduíches a quilo, mas também pretendem se casar – ajuntou Narayana.
De La Tur soergue-se na cadeira e em seu rosto reflectiu-se uma expressão de tal perplexidade e descrédito, que todos desataram a rir.
- Ouça meu amigo René, você está nos ofendendo.
Por que é que não podemos casar e sermos homens de verdade – exclamou Dakhir, fingindo-se ofendido.
- Meu Deus! Absolutamente!
Mas... Mas, imaginar duas pessoas tão extraordinariamente gigantes de sabedoria e poder, como sendo esposos de mulheres comuns, pareceu-me um tanto estranho:
é como nas lendas mitológicas, quando os deuses desciam a terra para proporcionar a felicidade a algumas mortais – balbuciou de La Tur confuso.
Quando silenciou uma nova explosão de risos, Supramati disse em tom de bonomia:
- A sua comparação, amigo René, peca, é claro, pelo exagero; entretanto, apesar de tudo, o que você disse é justo, de maneira geral.
Aos olhos de pessoas comuns e ignorantes, nós podemos passar se não pelos deuses, mas por pessoas extraordinárias.
As lendas e as narrativas populares conservaram inúmeras histórias sobre heróis misteriosos, como, por exemplo, Lohengrin.
Elas vêm não se sabe de onde, começam a relacionar-se com a sociedade, casam-se com os mortais comuns e depois desaparecem sem deixar vestígios.
Da mesma forma, surgem mulheres misteriosas:
as fadas, que se apaixonam pelos mortais.
A imaginação popular enfeitou e, sem dúvida, exagerou nessas lendas, mas as histórias sempre têm algum fundo de verdade.
A cegueira e a prepotência do semiconhecimento induz as pessoas a não darem valor aos mistérios curiosos, ocultos nas lendas, narrativas populares e contos de fadas, é hoje ofuscado diante das descobertas da ciência, cujas novidades os homens contemporâneos imputam a si.
O dito:
“Não há nada de novo sob a lua” – é bem actual.
Tudo o que já foi ou será descoberto no futuro não é nenhuma novidade; isso não é nada mais que a utilização, desde que o mundo é mundo, das forças existentes, daquilo que fora adquirido por escola superior e conhecido pelos primeiros mestres – naquela época um mundo novo -, no qual agora vivemos e cujo fim está se aproximando.
Sobre os vales verdejantes desta jovem terra já desceu certa vez o sábio areópago dos tutores das riquezas do conhecimento do mundo extinto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:02 pm

Aqueles conhecimentos e descobertas, aquela intimidade com as leis cósmicas, transferidas como um legado sagrado para o mundo novo, tudo foi escondido nos templos e grutas, criptografado numa língua simbólica nos livros sagrados, cerrados com os sete selos do mistério.
Lentamente, através do trabalho duro e da mortificação da carne, os novos adeptos do mundo infante iam escalando aquela ciência oculta e proibida para os profanos.
A entrada naquele mundo enigmático do conhecimento é guardada pelo dragão, que deve ser vencido antes que o umbral seja atravessado.
Este dragão não é nada mais que o corpo com as suas paixões desordenadas e desejos insaciáveis.
Só aquele que domar a fera no homem e triunfar sobre a carne rebelde poderá decifrar os símbolos criptografados, que lentamente se vão desdobrando no plano astral, de séculos em séculos, à medida que o planeta vive...
As riquezas do conhecimento, das quais se jactam os humanos modernos, foram extraídas dos acervos do mundo extinto, em cujo sol ficou impresso tudo aquilo que os seus raios iluminaram...
Ele se calou e sobreveio o silêncio; a todos dominou a estranha e misteriosa grandiosidade daquele passado e futuro.
O mais abalado era René de La Tur, que ouvia emocionado as palavras inspiradoras do mago.
Após o repasto, ele pediu licença para se retirar, a fim de meditar sobre tudo que tinha ouvido e preparar algumas perguntas que queria fazer aos magos.
No dia seguinte, depois do almoço, Narayana anunciou que, na opinião dele, já era hora de partir, pois a justiça tinha sido consumada; ali não havia mais nada de interessante pela frente e ficar ali aspirando o fedor contagioso e nocivo não tinha sentido.
E para onde iremos – indagou Dakhir.
Ainda não fizemos o nosso périplo pelo mundo.
É verdade, mas o mais interessante eu já lhes mostrei e acho sensato agora retornarmos a Czargrado, se Supramati não tiver nada contra.
- Por que teria Eu também acho que está na hora de voltarmos para lá e que já viajamos bastante – replicou em tom maroto Supramati, fingindo não perceber o sorriso maroto de Narayana.
Este soltou uma gargalhada.
- Meu Deus, que homem arrazoado!
Temos de aproveitar essa sua boa disposição.
À noite já podemos partir.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:02 pm

Capítulo XVIII

À tardezinha do dia seguinte, a aeronave de Supramati pousava junto da torre do palácio e ambos os príncipes se retiraram aos seus aposentos.
Depois de jantar sozinho, Supramati foi ao seu gabinete e, sentado junto à janela, mergulhou em pensamentos pouco agradáveis.
Já durante a viagem ele estava circunspecto e calado; agora, sozinho, naquele silêncio do maravilhoso anoitecer, a provação que ele teria de enfrentar parecia-lhe duplamente penosa e quase indigna.
O mago – um asceta imortal – habituado no transcorrer dos séculos a viver como um ermitão só com os seus estudos, totalmente dedicado ao trabalho abstracto e ascensão às esferas espirituais superiores, agora deveria interpretar um papel torpe de noivo apaixonado, um marido comum, ainda que de uma bela moça, ingénua, aliás, mas da qual era separado por um abismo de ignorância, sendo que a moça nutria por ele um sentimento totalmente terreno. O que ele conseguiria fazer dela em sua vida conjugal.
Elevá-la até a sua condição não havia meios, pois em alguns poucos anos ele não conseguiria ensinar-lhe algo cujo sentido ela não seria capaz nem de compreender; por outro Aldo, era preciso ocupar-se dela, já que ele teria as suas prerrogativas, direito à sua companhia, troca de opiniões, direito de seus sentimentos...
Como ele poderia representar uma comédia de amor infame depois de ter dominado, até destruído, os seus sentimentos; só conhecendo o arrebatamento e afeição espirituais.
Pois ele até esquecera a língua dos apaixonados, a língua de um noivo, de um marido jovem; os problemas científicos, as fórmulas complexas, que comandavam os elementos, entupiam-lhe totalmente a cabeça.
Até Nara, uma mulher muito querida.
Não representava mais na vida dele o papel que tinha nos primeiros dias de sua união.
Cedê-la a outro, ele não gostaria, é óbvio, mas cortejar...
A ideia disso fez que ele sorrisse.
Ela era igual a ele pela evolução e conhecimento; mas as empolgações carnais, as fraquezas do dia-a-dia já não existiam para eles; não havia divergências que porventura teriam de ser solucionadas, não havia equívocos nem ressentimentos – nada havia que se ensinar um ao outro.
Conservou-se apenas uma troca recíproca de afeição pura e espiritual;
entre eles tudo se restringia à beleza e à harmonia – as emoções terrenas não transpunham o círculo mágico da serenidade límpida de seus espíritos equilibrados.
Enquanto na união vindoura tudo seria diferente.
Ele teria de enfrentar os caprichos, as exigências e os ciúmes e- quem sabe – brigas conjugais, pois a moça não iria querer levar em conta a sua alta dignidade de mago e apenas veria nele um homem, que lhe pertence e do qual ela gosta.
Tal porvir provocou nele amargura e inquietação.
Ele se via na situação de um homem enérgico e sóbrio que, ao encontrar um bêbado, não conseguia atinar como ele próprio teria chegado até aquele estado.
Supramati levantou-se bruscamente e começou a andar pelo quarto.
Há muito tempo que não se rebelava pela rectidão de sua alma, mas mesmo esta tempestade durou pouco e amainou-se sob o esforço de sua poderosa vontade.
Oh, como estava certo Ebramar, quando disse que ao vencer as próprias paixões é difícil guiar os menores e os mais fracos; é fácil ser insensível e muito rigoroso, quando se esquecem os erros, as falhas e as fraquezas de sua própria infância!
E mais tarde, que tipo de regente do povo infante a ele confiado será ele, se, apesar de todo o seu saber, não conseguir ensinar-lhes ao menos o abecedário
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:02 pm

Não, não! O abismo entre ele e os espíritos ainda imperfeitos não pode aumentar; pelo contrário, ele deve se aproximar daquele mundo esquecido, submeter-se à lei sábia e sem deixar de ser mago, tornar-se uma pessoa comum, um noivo apaixonado e marido exemplar.
Supramati suspirou com peito cheio e repuxou com as mãos os cachos de seus cabelos escuros.
- Ufa! Temo que a minha “iniciação” para trás seja mais difícil que desencadear tempestades ou terremotos – resmungou ele, meio preocupado.
Bem, de qualquer forma é preciso assumir com coragem este compromisso e achar nele o seu lado positivo.
Toda a manhã do dia seguinte Supramati ficou ocupado, tratando com os administradores que vieram de diversas propriedades e esperavam impacientes pela sua volta.
Durante o desjejum, Dakhir disse-lhe sorrindo:
- Narayana passou por aqui, mas ao saber que você estava ocupado deixou-lhe um recado, dizendo que Olga Bolótova continua morando na sua propriedade, de onde ela invocou Ebramar, e que se você quiser vê-la, deverá ir para lá.
- Mais um que está louquinho para por uma corda no meu pescoço! – observou Supramati.
De qualquer forma eu mesmo decidi acabar com tudo isso e hoje, depois do almoço, irei visitar a mocinha.
Mas, daqui para frente, espero que Narayana dirija a você o seu ímpeto casamenteiro – concluiu ele zombeteiro.
Após o almoço, ao término de sua toalete mais meticulosa que o de costume, ele se aproximou do espelho e pela primeira vez após um longo período, começou a se examinar atentamente.
De seu peito soltou-se um suspiro.
Quem acreditaria que os séculos pudessem pesar no homem jovem e belo que o espelho reflectia; esguio e esbelto, enormes olhos brilhantes; apenas a expressão enigmática e impenetrável traía o segredo de sua existência de muitos séculos, enquanto o aspecto geral respirava força.
Beleza e juventude florescente.
Sim, tal como ele era, não era de se estranhar que muitas mulheres se apaixonassem por ele, incendiadas de paixão, como o coração da jovem mocinha.
E, afinal, que mal havia em ser amado
Sorrindo por dentro com este argumento convincente, para amenizar a provação, Supramati abriu uma gaveta e de lá tirou um talismã em forma de medalhão.
Era executado em um diamante valioso e representava um cálice, dentro do qual, na própria gema, reluzia uma gotícula vermelha que irradiava feixes de luzes; o medalhão era encimado por um crucifixo de ouro.
Essa jóia era um presente que os cavaleiros do Graal costumavam dar às suas noivas mortais durante os esposais.
Se a explicação definitiva se concretizasse, Supramati entregaria o presente.
Pegando ainda um buquê de flores raras, ele embarcou numa pequena aeronave que dirigia sozinho e encaminhou-se à pequena vila onde morava Olga.
Após a conversa com Ebramar, a jovem não mais abandonou o seu refúgio, apesar das inúmeras cartas de sua tia, que estranhava e se inquietava com o repentino isolamento da sobrinha.
Mas Olga não tinha a menor intenção de voltar ao mundo barulhento e azafamado das amazonas; ela continuava a jejuar e orar, pensando em Supramati e tentando se iluminar com o estudo dos livros da ciência oculta, dados por Narayana.
Supramati parou sua nave junto da entrada do jardim e, em passos lentos, dirigiu-se a casa.
No terraço, onde se efectuara a invocação, estava sentada Olga.
Ao lado dela, sobre a mesa, achava-se um livro aberto; ela, porém não o estava lendo; com a cabeça encostada no espaldar da cadeira e o olhar vagando no espaço, meditava.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:02 pm

Supramati deteve-se e olhou pensativo para ela.
Mais magra e mais pálida desde as últimas semanas que ele não a via, agora ela lhe parecia mais bela.
A expressão circunspecta e triste ia bem a seus traços finos; em sua graciosa e imponente pose ela estava divina.
Um vestido simples, branco e leve, de mangas curtas, fazia antever o pescoço e os braços de brancura de madrepérola; os densos cabelos estavam presos em tranças e uma delas pendia ao chão.
Mas a atenção de Supramati foi chamada para uma névoa esbranquiçada que envolvia a cabeça da moça, a fundir-se com uma faixa larga azulada e fosforescente de luz que se irradiava de seus olhos, fixos no espaço.
Naquele facho límpido se reflectia nitidamente a imagem querida de Supramati, que lhe escravizara todo o ser.
“Eis um amor verdadeiro, que invade a alma, domina todos os sentimentos e mentaliza a imagem da pessoa amada; em sua aura não há lugar para outro, ele é alfa e ómega de seus desejos e esperanças.
Coitada! A felicidade e a dúvida fazem oscilar as ondas atmosféricas de sua aura” - pensou Supramati.
“Infelizmente, eu já não posso amar tanto!” – suspirou ele.
“No entanto tentarei proporcionar-lhe aquela felicidade passageira da qual pode gozar a esposa de um mago”.
Ele caminhou decidido ao terraço, subiu os degraus e disse em tom alegre:
- Boa tarde, senhorita Olga!
Olga saltou da cadeira, como se picada por uma abelha, ora empalidecendo, ora corando.
- Não estou sonhando O senhor está aqui, príncipe Supramati – balbuciou ela.
- Eu mesmo, e seus pensamentos permitem concluir que a senhorita está feliz em me ver – disse ele sorrindo e beijando a sua mãozinha.
Um rubor cobriu-lhe o rosto.
- Ah, o senhor lê os meus pensamentos!
Que vergonha que sinto!
O que o senhor irá pensar de mim – disse ela acabrunhada.
- Estou muito feliz por ter-lhe inspirado um sentimento tão puro e profundo.
Eu também a amo, Olga; a força do seu amor trouxe-me aqui para perguntar-lhe se a senhorita que ser minha esposa – disse ele jovial.
Olga ficou branca como seu vestido e, de emoção, apertou as duas mãos contra o peito.
Não seria um sonho Ou ela realmente estava ouvindo as palavras que abriam os portões do paraíso terrestre.
Cedendo a um ímpeto repentino, ela se pôs de joelhos.
- Ah, Supramati! Para que perguntar se eu quero ser sua esposa.
O que me atormenta é se eu mereço tanta felicidade e me pergunto como senhor irá tolerar em sua vida um ser tão mísero, ignorante e vulgar
- O que está dizendo, Olga?
A senhorita me deixa sem jeito! – disse Supramati levantando-a apressadamente e fazendo-a sentar-se no banco.
Ele também se sentou a seu lado e prosseguiu sorrindo:
- Eu a amo como a senhorita é, sua louquinha; a ignorância é um mal corrigível.
Ela levantou para ele os olhos húmidos de lágrimas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:02 pm

- Não pense que não tenho consciência do abismo que me separa do senhor, um mago poderoso, um sábio, uma pessoa extraordinária, cuja grandiosidade o meu pobre cérebro é incapaz de alcançar.
- Será que a senhorita só ama em mim o mago - perguntou ele com um sorriso maroto.
- Oh, não! Para que eu possa amar um mago por seus méritos, falta-me entendê-lo.
Apenas sei que sou uma nulidade perante o senhor, no entanto amo-o mais que a vida.
Oh, Supramati, estou pronta a ficar sempre muda e obedecer-lhe em tudo; a felicidade de ficar ao seu lado é o coroamento de todos os meus anseios e, se gostar de mim ao menos tanto quanto aquele cachorro que eu vi no palácio ficarei feliz e reconhecida.
Sua voz tremia de emoção e pelas faces pálidas escorriam lágrimas.
Também emocionado Supramati atraiu-a junto de si e a beijou nos lábios.
- Não seja tão despretensiosa, minha encantadora noiva!
Não tenho a intenção de amar a minha esposa como um cachorro; eu a amarei com um bom anjo do meu lar, como uma amiga.
É equívoco seu achar que só a senhorita irá ganhar com isso, eu também ganharei muito.
Antes de tudo quero aprender a ser tolerante, e muito tolerante, pois me afastei de gente entregue à ciência em rigoroso isolamento.
Seu amor deve fazer com que eu reingresse no círculo de meus irmãos terrestres, fazer com que eu aprenda a entender os seus sentimentos, os desejos e as amarguras; ensine-me, sobretudo, a não julgar severamente os que não conseguiram dominar as suas fraquezas.
Em outras palavras, minha querida, quero pôr de lado a ciência de mago e ser apenas um humano com todas as suas alegrias e anseios.
Tentarei fazê-la feliz, minha Olga, e, se por um acaso, eu for mais mago que um bom marido, você tem direito de me corrigir! – concluiu ele em tom de brincadeira.
- Oh, como eu gostaria de esquecer o mago e enxergar apenas a pessoa encantadora! – disse exaltada Olga.
Mas corrigi-lo, acho que jamais ousarei – ajuntou ela melancolicamente.
Vamos esperar que a senhorita busque tal ousadia – observou Supramati rindo.
E agora, minha querida, permita-me oferecer-lhe um presente.
Este talismã irá protegê-la dos inimigos, dos quais o mais perigoso é Chiran; ele nutre pela senhorita uma paixão das mais impuras e irá persegui-la.
Haveremos de lutar contra as suas ciladas; eu lhe ensinarei como se deve agir.
- Sob sua protecção não temo nem o inferno – sustentou a jovem, com ardor nos olhos, examinando curiosa o caro presente.
Que objecto estranho, o que ele faz?
O senhor disse que é um talismã
- Sou membro de uma irmandade de sábios e cada um de nós pode presentear a sua noiva com este valioso talismã, que tem a capacidade de lhe desenvolver as habilidades espirituais e protegê-la das forças impuras.
Meu Deus, que interessante!
Não seria a irmandade dos cavaleiros do Graal? - indagou Olga em tom maroto.
É possível – respondeu sorrindo Supramati.
Mas, minha querida, a primeira virtude da esposa de um mago é nunca perguntar o que e por que, ou por outra, reprimir as duas maiores fraquezas femininas:
a curiosidade e a tagarelice.
Olga ficou vermelha, fez uma careta e disse com bonomia:
- Oh, meu Deus!
Como é difícil representar condignamente a esposa de um mago.
É claro que não vou esquecer que devo ser curiosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:03 pm

Pior que isso:
terei de ser dissimulada ou muda feito um peixe, mas, mas...
Ela descansou a cabecinha no ombro do noivo.
– Mas adianta ficar muda, se o senhor lê os meus pensamentos.
De qualquer forma, querido Supramati, ser-me-á difícil esconder das amazonas que estou desposando não apenas um mero príncipe – belo como deus, rico como Creso, um verdadeiro príncipe de conto de fadas -, mas ainda um mago.
Supramati desatou a rir.
- Minha querida, você em poucas palavras desfiou um rosário de sentimentos impuros:
ostentação fútil, apego latente aos prazeres terrenos e ainda vaidade mesquinha diante de suas amigas amazonas.
- Não, não, ninguém saberá de nada; serei submissa!
Mas estou tão feliz, que gostaria de propalar a minha alegria, gritar a minha felicidade por todos os cantos do mundo! – exclamou Olga, e em seus belos olhos marejados brilhou uma felicidade tão límpida e sincera que Supramati, mais uma vez emocionado e feliz, atraiu-a junto de si e a beijou.
- De qualquer forma, nada impede que seja anunciado o nosso noivado.
Volte amanhã à casa de sua tia e anuncie-lhe o casamento; eu também irei até lá para marcarmos a data da cerimónia.
E para satisfazer o seu coração vaidoso, realizaremos um belo casamento em sua igreja, já que a senhora é ortodoxa; eu, ainda que seja um cristão ferrenho, não professo nenhuma religião específica.
- E depois da cerimónia, que tal a gente dar uma festa ou jantar em seu belo palácio, que todos estão curiosos em conhecer – perguntou Olga, agitada por sentimentos de modéstia, embaraço e ansiedade.
- Não vejo nenhum impedimento.
Daremos um grande baile, com almoço – respondeu Supramati paciente, ainda que com certa ironia, despercebida pela felicíssima jovem.
Após conversarem mais um pouco e jantarem no terrão, Supramati se despediu e foi embora.
Já em casa ele reflectiu sobre o encontro e achou que, graças à natureza delicada e reservada da noiva, ele se encaixava bastante bem no papel de noivo, com muita chance de mudar mais tarde aquela paixão por uma afeição bonita e tranquila.
Em seu gabinete, ele encontrou Dakhir que o aguardava debruçado sobre um livro.
Então, meu amigo, devo lhe dar parabéns ou pêsames – indagou rindo e apertando-lhe a mão.
- Ambos – saiu-se Supramati, num esgar de riso.
Já sou um noivo feliz e pretendo comemorar o casamento com um grande almoço e baile.
Vê quantas diversões me aguardam, sem contar as outras alegrias, tais como: visitas, cumprimentos, abraços dos parentes e ciúmes do nobre Chiran.
- Juro pela minha barba, não me ameaçasse a mesma felicidade no futuro, teria inveja de você!
Ebramar, aparentemente, resolveu recasar todo o colégio de magos.
Você ao menos conseguiu encontrar uma mulher que o adora, enquanto que não tenho esta sorte; de todas que conheci, nenhuma é do meu agrado.
Você é muito exigente, Dakhir, e revela demasiada indiferença ao sexo frágil.
Para punir Ebramar por suas tramas, deixemos que ele escolha para você uma esposa adequada – brincou Supramati.
Ou melhor, transforme-se novamente em “holandês voador”, pegue o seu navio-fantasma e vá procurar por todos os mares uma beldade digna de você.
Ambos riram.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:03 pm

- Não brinque assim, irmão! – admoestou Dakhir, suspirando.
Tudo isso não tem graça.
Com a idade de Matusalém, casar-me com uma ventoinha é um trabalho forçado.
Talvez a intenção do nosso mestre Ebramar possa até ser boa – a de amarrar o nosso espírito a terra – mas o método em si é bastante penoso, quando a gente se desabitua do papel de um apaixonado.
Ebramar é que deveria dar o exemplo, casando ele mesmo!
- Espere por isso sentado no novo planeta!
Lá, nós todos criaremos a raça de semideuses, enquanto isso ele tem a obrigação de lhe encontrar uma esposa.
É a pena mais branda por ele fazer incorrerem no pecado da lascívia os seus discípulos – concluiu rindo Supramati.
Continuando a conversar, os jovens saíram para o terraço predilecto e se deitaram nas redes.
Subitamente Supramati soergue-se.
Até a sua audição aguçada chegou umas vibrações harmónicas, suaves como um acorde da harpa de Éolo; no fundo escuro do firmamento – pois já havia descido uma noite meridional escura – reluziram feixes de faíscas.
- Ebramar! – exclamou Dakhir, saltando da rede e apontando para uma nuvem esbranquiçada que ia cruzando o céu com a rapidez de uma estrela cadente.
Instantes depois, a nuvem desceu no terraço, a música cessou, o vapor se dissipou e surgiu Ebramar – belo e sorridente como sempre jovial e envolto por aura límpida.
Os amigos cumprimentaram-no alegremente.
É só falar em sol, que ele já vem brilhando! – exclamou Supramati.
- Bajulador! – retrucou Ebramar sorrindo.
Devo dizer-lhes, meus amigos, que ouvi as suas críticas a meu respeito; por isso vim para conversar.
Bem, de facto não há motivos para elogiar-me.
Infelizmente!
A “perfeição” egoísta de vocês eu frutos.
Aquilo que outrora seria o cúmulo da felicidade, como, por exemplo, a posse de uma mulher pura e apaixonada, parece-lhes agora um fardo insuportável.
O compromisso de educar e aperfeiçoar uma alma jovem, reaprender com ela a compreensão dos sentimentos e das necessidades dos seres humanos com menos domínio sobre si, parece-lhes um trabalho enfadonho e nojento.
Os senhores magos – vejam só! – receiam sair da rotina e sofrer interferência em sua contemplação; só querem dar um giro pelo mundo moderno como simples turistas curiosos imbuídos da conscientização presunçosa de que possam dar-lhe as costas assim que desejarem.
Além disso, eles se acham invulneráveis:
nem as forças da natureza, nem o ódio, nem as paixões humanas podem atingi-los; a ambição não os aflige e a conquista das riquezas lhe é indiferente!
Em outras palavras:
vocês gostariam de parar no tempo, gozando de paz e bem-estar desanuviado!
Isso, meus amigos e discípulos seria um equívoco imperdoável e uma infelicidade para aqueles que vocês irão governar no futuro.
Não, não, meus filhos! Queiram ou não, chegou o momento de sua tranquilidade imutável ser perturbada e de seu orgulho ser sacudido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:03 pm

Da mesma forma que os pais devem conhecer os corações de seus filhos, para compreenderem e saberem perdoar os erros contra a letra das leis cotidianas, consumados devido às fraquezas da carne – das quais a alma não têm muita culpa -, de maneira idêntica um legislador tem a obrigação de saber e compreender todos os meandros do coração humano, para poder avaliar as leis por ele instituídas, buscando alcançar com o entendimento aqueles a que eles se aplicam.
Quanto mais evoluídas forem as pessoas, mais serão complexas e numerosas essas leis; quanto mais simples for o indivíduo, tanto mais simples e precisa deverá ser a lei, a fim de que o homem consiga entendê-la e possa ser feita a justiça.
Evitem, principalmente, esconder-se sob a couraça da indiferença esnobe; os autênticos filhos de Deus, os mensageiros celestiais que vieram ao mundo professar a verdade sempre se misturaram aos seres humanos e compartilharam de seus infortúnios.
Assim, Krishna, por exemplo, abandonou as riquezas e a nobreza para viver junto aos pobres, humildes e deserdados; em sua magnânima caridade, ele assumiu todos os seus sofrimentos, conheceu a fome e a sede, o cansaço, a humilhação e a perseguição dos inimigos.
Jamais ele apelou para aquele terrível poder que detinha, para evitar as dificuldades em seu caminho; ele – cuja vontade poderia abrir a terra abaixo dos pés dos inimigos e lançá-los no abismo feito um monte de formigas – suportou pacientemente todas as perseguições injustas e deixou-se crucificar.
No entanto, bastava para ele querer, para ascender-se às alturas e com isso evitar todas as crueldades e fulminá-los com a morte.
Seus milagres eram para outros; nunca para si.
E mesmo em relação aos seus perseguidores, ele nutria tão somente comiseração e caridade; ele chorava pelas desgraças que aguardavam a humanidade e, naquele total esquecimento de si mesmo, reside a sua verdadeira grandiosidade divina...
Bem, e vocês.
Já derramaram ao menos uma lágrima sincera pelas desgraças e sofrimentos terríveis que irão desabar sobre o mundo.
Não, porque vocês se acham totalmente seguros até no caso da morte do planeta, tudo graças ao destino misericordioso que os salvaguarda para o novo mundo.
Pensem sobre isso, meus amigos; ao alcançarem o saber da mente, trabalhem também sobre o saber do coração.
À medida que Ebramar falava um rubor de vergonha cobria os rosto dos dois sábios; eles abaixaram as cabeças.
Sim, o mestre tinha razão.
Jamais eles se haviam conscientizado, com tanta lucidez, como naquele minuto, da superioridade deles em termos de conhecimento e da inferioridade em outros aspectos.
De chofre, como se movidos por um mesmo pensamento.
Ambos se aproximaram de Ebramar e pegaram-no pela mão.
- Obrigado, mestre.
Por suas palavras severas, mas justas; nós merecemos isso – disse em voz baixa Supramati.
Apesar da estrela de mago, não passamos de egoístas vaidosos que precisam ser educados antes de reeducarmos outros.
Mas eu prometo-lhe envidar todos os esforços para dominar o meu egoísmo e tornar-me digno da tarefa imposta por Deus.
- Acredito meus queridos discípulos, e não temo pelo futuro, pois, quando se conhece a ameaça, ela já está meio evitada.
Assim, vocês pararão de se lamuriar e aceitarão a provação imposta, não de todo desagradável.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:03 pm

- Sim, sim, mestre!
Aceitamos tudo de bom grado e nos tornaremos humanos modernos, sem esquecermos da estrela de mago que nos ilumina o caminho – anunciou alegre Dakhir.
E, mestre, se você me ajudasse na minha escolha.
Nenhuma das mulheres que eu conheço me inspira simpatia ou parece se encaixar no papel de minha esposa.
Elas são materialistas, ao passo que a minha companheira deverá ser pura de alma e corpo, para não me sobrecarregar com suas emanações.
Você está certo Dakhir.
Já que Supramati, para pagar a língua de vocês dois, outorgou-me a tarefa de achar uma esposa para você, vou arrumar-lhe uma moa que, espero, seja de seu gosto, pois a acho capacitada para ajudá-lo no estudo dos corações e tormentas humanas – anunciou Ebramar em tom de troça.
- Ah! Agradeço-lhe, mestre!
Quando irei conhecê-la Ela vive em Czargrado – indagou Dakhir.
- Não, meu amigo, um pouco mais longe; mas que diferença isso faz.
Eu mesmo o levarei para lá; cuidando, é claro que ele não o veja.
Mais tarde você me dirá, usando de toda franqueza, se a minha escolha foi acertada.
Quinze minutos depois, a leve carruagem aérea os levava ao destino; Ebramar estava de piloto.
Viajando com a rapidez de um pássaro, logo diante deles se estendeu à superfície do mar e depois a margem elevada, ora rochosa e pelada, ora coberta de vegetação exuberante.
- Acho que estou reconhecendo o lugar.
Não muito longe daqui há uma gruta subterrânea onde vive um irmão da irmandade do Graal.
Já estive lá algumas vezes – gritou Dakhir.
- Você está certo!
Fico feliz por você ter reconhecido o local – ajuntou Ebramar sorrindo.
Bem, estamos chegando.
Ele ergueu a mão, desenhou com ela no ar um sinal cabalístico, pronunciou uma fórmula e a nave se fez invisível para os olhos de profanos, começando a aterrissar rapidamente.
Naquele local a margem formava uma enseada.
Na extremidade de um alto rochedo erguia-se uma construção cercada por jardim.
Era uma maravilhosa vila com torres aeroportuárias, galerias e colunatas. Por trás da vegetação densa.
À luz do luar, reluziam respingos e jactos de chafariz e entreviam-se estátuas brancas.
A uma das galerias ligava-se um grande terraço ladeado por corrimão entalhado; uma escada larga descia até a margem do mar.
A nave pairou no nível do terraço e Dakhir teve a atenção chamada para um sofá perto do corrimão.
Lá, sobre as almofadas vermelhas de seda, estava deitada uma jovem com cerca de dezassete anos de idade.
Trajava um capuz largo de seda, adornado de rendas e bordados.
Era uma criatura encantadora, frágil e airosa feito uma borboleta:
os densos cabelos castanho-claros com laivos dourados enquadravam o rostinho pálido e magro; nos grandes olhos cor de safira, escuros com o olhar dirigido para a lua, congelara-se uma expressão desanimada.
- Ela é bela como um sonho, mas está morrendo – murmurou Dakhir vacilante, contemplando a moça.
- É verdade!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:04 pm

Mas por acaso você não consegue curá-la Só é impotente à ciência cega oficial, porque não consegue encontrar o motivo da enfermidade.
Dê uma olhada na pureza cristalina dos fluídos que a envolvem!
A alma daquela moça é um diamante bruto que aguarda por um joalheiro habilidoso; então ela brilhará com todo o esplendor.
Ainda agora se pode ver como aquela luz atravessa a pele; sua alma, ainda que não seja iluminada por conhecimento, já possui a força e a fé com que se crescem as asas.
Olhe agora os reflexos de seu passado.
- Ah! Circo, feras...
Ela foi mártir – balbuciou Dakhir nervoso.
- Sim, ela morreu pela fé.
É uma alma exaltada, ávida por conhecimento superior, ainda que não se dê conta disso por ter-se encarnado numa família ateia, onde o único deus é o ouro.
Ela busca algo que não sabe direito:
feito um músico que em vão tenta reconstituir na mente uma melodia que ouvira em algum lugar.
As chamas internas devoram-lhe o invólucro frágil.
Agora, se você aprova a minha escolha, cure aquela criatura jovem, devolva-lhe Deus, o Qual dela ocultaram.
A moça irá amá-lo; e se você optar por ser uma pessoa incógnita, um amigo dos pobres, ela poderá ajudá-lo a minorar os sofrimentos humanos, pois a ira divina está próxima!
Neste trabalho de caridade, que o reconciliará com os seres humanos, você esquecerá a sua túnica reluzente de mago, tendo ao lado uma maravilhosa flor revitalizada, por você, salva.
Instruída e educada.
Os belos e límpidos olhos de Dakhir brilharam alegres e ele apertou com fora a mão de Ebramar.
- Obrigado mestre!
Compreendo a importância e a grandiosidade deste nova forma de provação que devo assumir, e aceito-a agradecido.
Já basta de conhecimentos e poderes mágicos; está na hora de dar um trabalho para o coração e tornar-me um homem, no sentido melhor da palavra.
- Então você aceita desposar aquela moça
- Sim mestre!
- Excelente! De que maneira você irá curá-la, como irá conhecê-la – dependerá totalmente de você.
E se imprimir um pouco de romantismo, também não fará mal – concluiu sorrindo Ebramar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:04 pm

Capítulo XIX

Conforme ficou estabelecido, Olga Bolótova retornou no dia seguinte à casa da tia, e a notícia de seu casamento com o interessantíssimo príncipe Supramati causou um enorme rebuliço entre as belas amazonas, gerando não poucas invejas, algumas francas, outras dissimuladas,
A czarina das amazonas recebeu de braços abertos o futuro parente e, no dia da anunciação oficial do noivado, preparou uma festa pomposa; o casamento foi marcado para dali a três semanas.
Naquele dia, Narayana viera de manhã com os presentes para a sua futura prima e entregou de Supramati uma caixinha com um colar de brilhantes e safiras de beleza extraordinária.
O presente “imperial”, de valor incalculável, provocou uma tempestade de admiração e inveja entre as amigas de Olga, que estavam participando do desjejum em sua casa.
Quando serenou a primeira excitação, a atenção das moças concentrou-se em Narayana; tendo anunciado que estava faminto, ele sentou-se à mesa, cercado pelas formosas amazonas que lhe serviam pãezinhos e geleia.
- Ah, príncipe!
Porque o senhor também não se casa?
Porque não fazer a felicidade de uma mulher – insistia uma amazona bonita e fogosa, lançando-lhe um olhar flamejante.
- Não caso porque justamente não quero a sua desgraça.
Sabem mesdames:
eu sou uma mariposa; alguém já viu uma mariposa casada?
Ela só sabe voejar de uma flor a outra – concluiu Narayana sorrindo maliciosamente.
Todos riram.
Quando depois as moças se dispersaram para cuidarem de seus afazeres, e Narayana ficou sozinho com Olga, ele começou a observá-la calado.
Rosada e radiante de felicidade, ela relia pela vigésima vez o bilhete que veio junto com o presente.
Vendo-a bela, animada e feliz, Narayana sentiu pena dela.
Em pouco tempo, o fogo do mago consumiria aquela flor delicada; sua cabecinha tombaria fulminada com a morte.
Ele suspirou; neste minuto Olga dobrou a carta e disse:
- Como ele é bom e magnânimo, e como eu sou feliz!
Nos lábios de Narayana percorreu um sorriso alegre e zombeteiro.
- Ele também não pode se queixar da falta de sorte, tendo ao seu lado essa beleza; mas minha bela Olga, não se entusiasme tanto com os sonhos.
Apesar de todas as qualidades espirituais e intelectuais, meu querido irmão possui um único defeito, ainda que grande: ele é santo.
Pode-se admirá-lo, adorá-lo, rezar para ele, e tudo isso ele irá aceitar benevolente, mas amar como amamos nós, os pecadores, ele não sabe, e eu sei que não será apenas uma lágrima que você derramará na ara do “santo”, que, contudo, não irá entendê-la.
- Silêncio, seu malvado!
Eu sei perfeitamente o quanto sou indigna dele, mas ele é bom comigo e estarei sempre a seu lado; não quero outra coisa para mim.
- Está bem, está bem!
Enquanto noivas, as mulheres são sempre despretensiosas; depois que casam, aí começam a exigir os seus direitos – observou irónico Narayana.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:04 pm

Olga corou e, inclinando-se sobre ele, disse em tom contrafeita:
- Sim, quando isso não é com os magos, mas com os maridos ordinários, como o senhor, por exemplo:
basta à esposa virar as costas, que ele a trai.
Por mais que o senhor seja bonito, eu não o desposaria por nada deste mundo; além do mais o senhor é “imortal”.
Um marido imortal e ainda infiel é uma desgraça para uma mulher que ama.
Eu fico com o santo.
Narayana explodiu numa gargalhada.
- Agradeço a franqueza!
Entretanto seja mais prudente, futura maguinha:
não propale em voz alta os segredos de estado.
E agora fiquemos de bem e continuemos bons amigos; ninguém além de mim lhe deseja tanta felicidade com o seu “santo”.
Seguiram-se dias que para Olga foram de fato uma felicidade sem nuvens.
Todos os dias ela via o seu noivo, e a bondade e os maravilhosos presentes, com que ele gostava de cobri-la, parecia confirmarem os seus sentimentos.
Só uma gota de fel caiu em sua taça de felicidade. Foi um encontro com Chiran.
Este cruzou com ela, quando ela voltava para casa após um passeio com Supramati; um tremor gélido apoderou-se dela, quando ela interceptou o seu olhar, ardente de paixão e hostilidade irreconciliável.
Quando ela relatou a Supramati a impressão daquele encontro, este as aconselhou a não se separar do talismã dado por ele, e ensinou-lhe como utilizá-lo para se defender, caso o satanista ousasse atá-la abertamente.
Olga tranquilizou-se.
Ela acreditava cegamente na força do talismã e notou que os seus sentidos haviam se desenvolvido de forma estranha a partir do momento em que ela começou a usá-lo.
Ao se aproximarem dela diversos tipos de pessoas, ela sentia ora um odor agradável, ora fétido; seu corpo era percorrido ou por uma corrente quente, ou em outras vezes – gélido.
Ela percebeu também que a aproximação de Supramati era acompanhada por uma brisa tépida, um aroma maravilhoso e uma música harmónica, parecida com um canto suave.
Ao se encontrar com algum satanista, então, a glacial torrente de ar que dele se desprendia a fazia tremer; sua respiração sustava e a cabeça girava devido aos sons bruscos e desordenados que faziam abalar cada nervo seu.
Uns dez dias após o noivado houve um concerto e recepção no palácio das amazonas.
Olga, no entanto, se retirou aos aposentos.
A festa lhe era indiferente já que Supramati não estava lá; ele viera de manhã, à noite tinha assuntos para resolver.
Olga preferia ficar sozinha.
Sua entrega a ele era tão completa, que ela evitava barulho e multidão.
No palácio, ela ocupava acomodações que consistiam de um dormitório e uma sala com terraço, decorado pro flores raras; uma grade alta de bronze dourado, coberta de plantas trepadeiras, separava o terraço do jardim.
A mobília leve que parecia feita de coral, espalhada em meio às plantas, predispunha ao descanso.
A sala, decorada em tons de rosa e prata, era graciosa; uma lâmpada rosa iluminava por cima, com meia-luz suave, o retrato de Supramati, trazido na véspera.
Olga lhe pedira o retrato para – como ela dizia – ter a imagem dele sempre com ela, nos dias em que ele estava ausente, e este lhe mandara uma foto de quando era “bem mais jovem”.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 26, 2016 7:04 pm

Acomodada na macia poltrona diante do retrato, Olga olhava fixamente a imagem querida; parecia-lhe que os traços expressivos de Supramati ganhavam vida, enquanto os grandes olhos a fitavam como se reais.
Subitamente pelo quarto percorreu uma rajada de vento glacial, que fez Olga estremecer em seu vestido leve de noite; de pescoço e braços desnudados.
Ao mesmo tempo ouviu-se um estalo, acompanhado por um gemido, semelhante a urro de um animal.
Assustada, ela se endireitou, procurando com os olhos a causa do barulho, enquanto a ventania gélida continuava pelo recinto.
De repente, o cortinado rosa, bordado em ouro, que separava a sala do terraço, foi atirado para trás e na soleira surgiu Chiran.
Estava pálido feito cadáver, seus traços deformados e nos olhos negros como carvão se reflectia paixão desvairada.
- O que significa o seu aparecimento, senhor Richville?
Será que o senhor não sabe que a entrada em meus aposentos é vedada a homens, sem uma autorização expressa de nossa presidenta - indagou Olga, medindo-o com um tom gelado.
- Queria ver a senhora – respondeu em tom lúgubre Chiran.
- Quem quiser falar comigo, deverá fazê-lo na sala de recepção.
O senhor nada tem que fazer aqui e não tem o direito de me perturbar.
Queira sair imediatamente!
Um sorriso de escárnio maldoso deformou o rosto de Chiran.
- Eu vim para cá reclamar o meu direito de amor e não sairei antes de me explicar com a senhora.
A senhora sabe que a amo e, enquanto viver, a senhora não pertencerá a outro.
Quero saber se é verdade o que diz toda a cidade a respeito de seu casamento com aquele forasteiro hindu, que não passa de...
De um feiticeiro miserável e...
- Basta! – interrompeu Olga afogueada, dando um passo na direcção dele.
É muita impertinência de sua parte.
O senhor não é meu tutor nem meu pai para vir admoestar-me e criticar-me.
Sou livre para casar-me com quem quiser.
Tome cuidado por afrontar e denegrir uma pessoa que pode simplesmente esmagá-lo feito um verme.
Sim, eu sou noiva do príncipe Supramati, ao qual amo com toda a minha alma e de quem logo serei esposa; a sua paixão, ao contrário, só me sugere repugnância e eu o odeio.
Entende! E agora que o senhor ouviu isso pessoalmente de mim, fora daqui,
Chiran explodiu numa sonora gargalhada.
A senhora está me expulsando, minha belezoca, e ainda de maneira tão rude.
Mas eu, como vê não me considero derrotado e ainda medirei forças com o seu forasteiro.
Primeiro a gente se enfrenta e depois veremos quem irá ganhar o prémio – a belíssima noiva -, ele ou eu.
Tirando agilmente do bolso uma esfera brilhante, ele começou a girá-la diante dos olhos de Olga; esta se jogou para trás como se golpeada na cabeça.
O odor fétido que se espalhou repentinamente no quarto sufocava-a, entretanto ela não perdeu a consciência e, lembrando-se do presente de Supramati, arrancou-o do pescoço e erguer a mão com o talismã misterioso.
A gotícula púrpura dentro do cálice inflamou-se subitamente.
Do talismã jorrou uma torrente de fagulhas douradas e o quarto encheu-se de um aroma suave e vivificante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 27, 2016 7:30 pm

Chiran urrou furioso e começou a se contorcer sob a chuva de respingos dourados que caiam sobre ele, como se estes o queimassem.
Sua esfera extinguiu-se na coluna de fumaça negra e, em seguida, partiu-se em centenas de esferinhas pretas, a explodirem imediatamente, desprendendo nuvens de animais asquerosos:
sapos, cobras, ratos, etc.
Toda essa imundice rodopiou por instantes no ar e aos gritos e pios foi caindo no chão, arremessando-se em seguida sobre Chiran.
Aos gemidos desesperadores e ameaças a Olga, defendia-se Chiran do bando asqueroso que o atacava ferozmente.
Neste instante, num dos cantos escuros da sala acendeu-se uma luz vermelha que se tornava cada vez mais brilhante; logo se ouviu um estalido sinistro e naquele fundo vermelho-sanguíneo, desenhou-se subitamente a figura baixa de um homem em negro com um tridente na mão.
Sem notar, aparentemente, a presença de Olga, ele ergueu o tridente, desenhou no ar um triângulo ígneo, e o bando demoníaco desapareceu.
Chiran tombou, mas o desconhecido fez levantar-se de imediato.
Se ele era um demónio ou simplesmente um irmão-satanista de nível superior, que viera em auxílio do presidente da loja de Lúcifer, Olga não tinha condições de saber; ela estava totalmente exausta.
Sua cabeça girava, o chão fugia-lhe dos pés e, finalmente, perdeu os sentidos, apertando convulsivamente o talismã contra o peito.
Ao abrir os olhos, viu-se deitada na cama; uma luz que caía de uma grande lâmpada iluminava a figura alta de Supramati, inclinado sobre ela, com a mão em sua cabeça.
- Oh, que horror!
Chiran queria me matar ou enfeitiçar – exclamou Olga, levantando-se bruscamente.
- Ora! Bastou você resistir como se deve, e ele se pôs em fuga – disse o príncipe sorrindo.
Parabéns, minha querida noiva, você lutou bravamente!
Eu até poderia avisá-la do ataque do patife e vir antes em seu auxílio, mas eu queria que você aprendesse a se defender por conta própria, pois os ataques de Chiran mal estão começando.
Ele não irá recuar com a primeira derrota e o inferno é bem inventivo.
Agora, acalme-se e durma, mas antes tome isto!
Ele lhe estendeu um minúsculo frasco de cristal com rolha de ouro, cheio de um líquido rosado; Olga tomou o conteúdo sem se opor.
Ainda por alguns instantes, ela sentia o contacto dos dedos delgados do mago sobre a sua testa, mas logo adormeceu um sono profundo e revitalizador.
O fim da tarde de outono era maravilhoso e quente; o sol estava se pondo e uma brisa suave açoitava do mar um frescor agradável.
No terraço da vila há alguns dias visitada por Ebramar e Dakhir, no mesmo sofá, estava deitada a jovem enferma.
Ainda mais pálida do que antes, suas mãos reviravam agitadamente a fita que lhe cingia a cintura.
Profundamente nervosa:
não sabia se uma angústia opressiva ou o desespero se estampavam nos eu rosto encantador.
A poucos passos dela, sentava-se uma velha senhora magra e severa, que lia em tom desanimado a descrição de uma viagem.
- A senhora não está me ouvindo, miss Edith.
Está cansada - a acompanhante parou de repente, e o seu rosto magro não fez a menor questão de dissimular o desapontamento.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 27, 2016 7:31 pm

- Sim, querida misses Elliot.
Estou com dor de cabeça e vou tentar dormir; de qualquer forma, a paz e o silêncio me fazem bem.
Vá fazer um passeio, a senhora está livre esta tarde, se eu precisar de algo, chamarei Mery.
Após a saída da acompanhante, a moça levantou-se bruscamente e deu algumas voltas pelo terraço; mas aparentemente cansada, sentou-se de novo, cobriu os olhos com as mãos, e em seus dedos afilados reluziram algumas lágrimas.
Edith era americana, filha única do milionário Daniel Dickson; ela perdera a mãe logo após o nascimento e cresceu sob os cuidados das governantas.
Dickson não se casou de novo, totalmente absorto em negócios e bens; não tinha tempo nem de se ocupar da criança, ainda que a amasse muito e gastasse rios de dinheiro para sua educação e divertimentos.
A menina crescia entre luxo imperial, mimada e adorada por todos que a cercavam; foi necessária toda a bondade e pureza de Edith para não se estragar em adulações.
Prodigalizadas abundantemente, mais a liberdade praticamente total.
Até os quinze anos, a menina tinha boa saúde; ainda que fosse frágil e de índole nervosa, nada havia que preocupasse.
De um modo totalmente inesperado, uma doença misteriosa ganhou força e teve início então um lento, é verdade, mas insistente definhamento, complicado por ataques de coração e tosse extenuante.
Não era tísica, mas na opinião dos médicos acabaria sendo, se aquela estranha doença, que não cedia com nenhum remédio, não a levasse para o outro mundo antes do aparecimento da tuberculose.
Completamente desesperado, Dickson aconselhava-se com os maiores astros da ciência, mas todos os esforços foram inúteis.
Edith extinguia-se feito cera ao sol, e era evidente que a morte já estendia a mão gelada à sua jovem vítima.
Vindo para a Europa a negócios e, sobretudo para o tratamento de Edith, Dickson casualmente encontrou aquela vila, e como a enferma havia gostado dela, ele se apressou em comprá-la e deu-a de presente para a filha.
Naquela manhã ela recebera a visita de um médico famoso.
Ele examinou demoradamente Edith e, alegre, pressagiou um rápido restabelecimento; mas esta, que já perdera qualquer esperança, postou-se junto da janela do gabinete do pai e começou a ouvir a conversa dele com o médico.
- Então o senhor quer que eu seja franco, mister Dickson?
Neste caso, devo-lhe dizer que não há uma mínima esperança de salvar sua filha.
Já tentamos de tudo, mas o mal que a consome não está cedendo:
a vida se extingue mo organismo jovem com rapidez incrível, e somos totalmente impotentes.
É inútil, agora, torturá-la com remédios e toda sorte de proibições; deixe que ela faça o que quiser.
- Não é possível!
A ciência deve encontrar uma forma de salvar esta jovem criatura.
Prometo-lhe, doutor, dou-lhe um milhão por ano de sobrevida de Edith, desde que a salve! – exclamou em desespero o banqueiro.
- Só um milagre poderá salvá-la – respondeu em tom triste e desanimado o médico.
Ao ouvi-los se levantarem, Edith retirou-se.
Seu coração se comprimiu de dor e ela se fechou no quarto.
Então já estava condenada, deveria morrer caso nenhum milagre a salvasse.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 27, 2016 7:31 pm

Morrer? Não, não, ela não queria morrer; jamais a vida lhe parecera tão bela...
E o que significa um milagre?
Que força estranha e misteriosa seria capaz de realizar aquilo que nem ouro nem ciência podiam fazer
Ela lera alguns relatos de milagres antigos, mas não lhes dava nenhuma importância, pois lhe faltava à fé.
Seu pai – ateu e materialista – não acreditava em nada, só venerava ouro; e ninguém jamais falou à moça de Deus, daquela fé vivificadora que cria um elo entre o Criador e a Sua criatura.
Mas agora o pavor da morte fixou sua atenção na palavra “milagre”.
Talvez ele realmente exista!
Como, entretanto, achar esta força desconhecida, como obrigá-la a manifestar-se
Durante o almoço, ela perguntou de chofre a mister Dickson:
- Quem faz os milagres, papai, e de que forma
O banqueiro lançou-lhe um olhar surpreso e desconfiado.
- Milagres não existem, minha filha.
São contos de fada.
Antigamente, quando os homens eram ignorantes e limitados, eles sempre enxergavam milagres por todos os cantos, sem entenderem que o “milagre”, sendo uma violação das lei da natureza, já por si só é impossível.
O único milagreiro hoje em dia é o dólar – concluiu ele com um sorriso.
A resposta não satisfez Edith.
Mas excitação febril que dela se apoderou desde a manhã provocou uma forte palpitação; uma angústia indescritível tomou conta dela e um suor gelado cobriu-lhe o rosto.
Não seria a morte que se aproximava.
E como encontrar o “milagre” que poderia salvá-la, ela não sabia...
Sua cabecinha trabalhava febrilmente e, de súbito, recordou-se da velha babá religiosa que dela cuidava quando criança.
Aquela mulher amava e tinha pena da criança que tinha muito ouro, mas não tinha nada que lhe pudesse fortalecer o coração.
Ela até havia ensinado para a menina:
“Pai nosso que estais no céu”, Edith não esquecera aquela oração e às vezes a lia em vos baixa, para não ser alvo de risos.
Neste minuto de dor espiritual, ela se lembrou da velha Jenny e do seu hábito de recorrer à consulta do Evangelho, o qual – segundo ela – tirava sempre as suas dúvidas.
Antes de falecer, esta deixou o Evangelho para Edith, que guardou o velho livro como uma cara lembrança de sua babá muito amada.
Mery, que veio perguntar se ela não queria deitar-se por causa do avançar das horas, interrompeu os devaneios de Edith; mas esta liberou a camareira, instruindo-a para não ser perturbada até que a chamasse. Ordenou que fosse acesa a lâmpada de mesa e lhe fosse trazido um escrínio indicado.
Nele estava o Evangelho de Jenny.
Com as mãos tremulas, ela abriu o livro e seus dedos deram nos versículos que falavam da cura dos cegos.
“Então parou Jesus e mandou que lho trouxessem.
E tendo ele chegado, perguntou-lhe:
Que queres que te faça.
Respondeu ele:
Senhor, que eu torne a ver.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 27, 2016 7:31 pm

Então Jesus lhe disse:
Recupera a tua vista; a tua fé te salvou.
Imediatamente tornou a ver, e seguiu glorificando a Deus”.
(Lucas, 18:35-43 ou Mateus 20:30-34).
Pálida Edith estremeceu, fechou os olhos e deixou cair o livro.
O pensamento, feito um raio de sol, atravessava-lhe a cabeça com clareza quase que dolorida.
Eis então o caminho para o milagre:
a fé, da qual falava Jesus!
Ela era a única que poderia evocar aquela força curativa e renovadora, que não dependia nem de ouro nem da ciência, mas exclusivamente do Pai Celestial, o Qual por sopro Seu anima também as Suas criaturas, que O negam ou injuriam...
Edith levantou o Evangelho e começou a folheá-lo.
Com a fé desperta e comoção extasiada leu o relato dos últimos dias de Cristo, sua morte e ressurreição.
Algo surpreendente se processava em sua alma.
O relato do evangelista pareceu-lhe muito familiar; um sentimento indescritível de amor e gratidão em relação ao Salvador encheu-lhe a alma, e ela estava disposta a morrer por Ele.
Ao beijar e fechar o livro apagou a luz e mergulhou em seus pensamentos; depois, pôs-se de repente de joelhos e, cruzando as mãos em prece, levantou os olhos para o céu estrelado, murmurando num ímpeto de fé jubilosa:
- Eu quero crê, quero orar!
Jorrou em seguida a única oração que ela conhecia:
“Pai nosso que estais no céu...”.
Lágrimas rolavam pelas suas faces, um calor intenso se espalhava pelo seu corpo e surgiu uma vontade incontrolável de comungar.
Mas como fazê-lo?
O pai só zombaria e não a deixaria...
- Jesus misericordioso, ajude-me a fortalecer a nova fé com o Seu sangue divino – sussurrava ela extasiada.
Neste instante ela ouviu passos na escada.
Saltou assustada, olhando com os olhos esbugalhados para um homem que surgiu no terraço.
A lua alta iluminava claramente a portentosa e esbelta figura do estranho em capa alva.
Um elmo alado de prata cobria-lhe a cabeça, o rosto pálido, sereno e sério, era iluminado por grandes olhos escuros, cujo brilho era difícil de se suportar.
O desconhecido parou a dois passos de Edith.
- O seu clamor foi ouvido – pronunciou-o numa voz harmónica e surda.
Você tomará do sangue de Cristo, se confiar em mim e me seguir.
Como enfeitiçada Edith olhava para ele fixamente; parecia-lhe jamais ter visto um homem tão belo.
- Você é um mensageiro do céu que veio com a resposta ao meu chamado a Deus - perguntou ela trémula.
Para onde devo segui-lo
Um sorriso quase imperceptível percorreu os lábios do estranho.
Sem responder, ele abriu uma capa branca, parecida com a sua, enrolou nela a moça, pôs-lhe sobre a cabeça um capuz, pegou-a pela mão e a levou pela escada.
Embaixo, por eles aguardava um barco protegido com gôndola comprida, pintado em cor branca e que tinha um brilho fosforescente; sua proa empinada guarnecia-se de cálice de ouro, envolto em feixes luminosos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 27, 2016 7:31 pm

Quatro remadores em vestes brancas, bordadas a ouro, sentavam-se junto aos remos.
Como num sonho, Olga entrou no barco; o desconhecido acomodou-se ao seu lado e a estranha embarcação voou pelas ondas.
No início eles seguiram ao longo da margem rochosa, depois o barco entrou num funda enseada, deslizou numa fenda que se abriu como por encanto, e pelos corredores longos baixos e abobadados, através de um pequeno lago, entrou num outro canal ainda mais comprido e sumptuoso, indo dar em ampla gruta, iluminada não se sabia por onde.
No fundo, degraus esculpidos na rocha levavam a uma galeria com colunas.
O desconhecido ajudou Edith a sair do barco e a levou para uma gruta redonda com cúpula, inundada por luz azul; uma cortina púrpura com um imenso cálice radioso, bordado a ouro, cobria uma parte daquela igreja ou capela.
A alguns passos da Corina, sobre o chão, havia uma almofada de veludo; o estranho levou Edith até ela e mandou que ela ficasse de joelhos.
- Prepare sua alma para o grande momento de receber a verdadeira fé e o sangue de Cristo! – ordenou ele em tom severo e se retirou.
A luz azul extinguiu-se e somente o cálice de ouro cintilava no escuro com a luz fosforescente.
Tremendo como se estivesse febril, Edith permaneceu de joelhos, com as mãos cruzadas no peito, e sussurrando a única oração que conhecia.
Subitamente a cortina se abriu, deixando entrever o santuário inundado de luz ofuscante.
No centro, sobre alguns degraus, erguia-se um altar de pedra e sobre ele um grande cálice de ouro, encimado por um crucifixo e envolto por feixes luminosos; de seu interior saia uma chama que ora se erguia, ora se baixava, espalhando em volta de si milhares de fagulhas.
Ao redor do altar postavam-se imóveis doze cavaleiros, em túnicas prateadas, elmos alados, segurando grandes espadas cintilantes nas mãos; entre os cavaleiros encontrava-se também aquele que trouxera Edith.
Na frente de todos, estava postado um ancião alto de barba branca e de casula alva.
Do seu peito pendia uma insígnia de ouro, representando um símbolo místico, coroado da cruz do cálice; sobre a cabeça luzia uma coroa antiga de sete pontas e em cada ponta brilhavam pedras preciosas.
O belo e sério rosto expressava majestosa tranquilidade e nos grandes olhos límpidos reflectia-se uma poderosa força de vontade, capaz de perscrutar os menores meandros da alma humana.
Por cerca de um minuto, o olhar meditativo do respeitável ancião pousou no rosto de Edith.
- O seu arrebatado pedido à Divindade foi ouvido, minha filha – disse ele em voz sonora e melódica.
Toda oração sincera tem direito de ser atendida; mas antes de provê-la de fé e de vida, devo dizer-lhe algumas palavras.
Você se considera rica só porque o seu pai acumulou montanhas de ouro.
Do ouro ele criou para si um deus e, mergulhando de alma e corpo em interesses materiais, com isso sufocou em si o sopro astral, rompendo qualquer elo entre os mundos:
o visível e o invisível.
Você vem para cá pobre de espírito, pois nada adquiriu dos bens espirituais:
os únicos que fazem a riqueza da alma.
O mundo do qual você saiu é pior que o inferno; lá impera autoritária a maldade, o vício e o sacrilégio.
Cega de orgulho e devassidão, a humanidade dança despreocupada à beira do vulcão e não ouve o rolar surdo da ira Divina.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 27, 2016 7:31 pm

Pobres desses pigmeus que são incapazes de antever a destruição; quando a terra sob seus pés estremecer, o ouro ajuntado nos seus palácios não os salvará, e o Satanás adorado, que os empurra para a morte, nada fará para ajudar, pois ele próprio é uma criatura do Todo-Poderoso.
- Ensine-me, servidor celestial, a ser digna da graça do meu Criador – murmurou Edith emocionada.
Ninguém jamais me ensinou a amar a Deus e procurar o caminho para Ele; mas se você puder instruir-me, eu renunciarei ao maldito ouro, que empedernece o coração e o arrasta ao pecado.
O ancião se aproximou, colocou-lhe a mão sobre a cabeça e Edith sentiu um calor percorrer-lhe todo o corpo.
- É uma provação muito penosa que você assume ao desistir do ouro e de todos os prazeres que ele proporciona; a sociedade que a cerca fará com que esta prova fique ainda mais dura.
Para o vício não existe nada mais odioso que a pureza; nada mais irrita um egoísta e um devasso que a caridade e abstinência.
Repito:
você será odiada, coberta de injúrias, pois não irão compreendê-la.
Você não teme atacar abertamente o mal?
A sua fé será suficientemente firme para torná-la invulnerável às flechas venenosas que lhe serão dirigidas, e não ouvir nada mais além da voz de sua consciência, ao invés de homens diabólicos que a cercam.
Os belos olhos de Edith brilharam em fé exaltada.
- Irei lutar e orar para que Deus me ampare, dê-me forças para ir em direcção à luz, amar os pobres e empregar o ouro só para o bem, se Deus me prolongar à vida, pois a ciência já me condenou à morte.
O velho sorriu.
- A ciência cega condenou-a, mas o límpido sangue de Cristo irá curá-la.
Ele fez um sinal com a mão.
O cavaleiro jovem que a trouxera aproximou-se dela e a levou até o altar; depois, pegou-a pelas mãos e as segurou abaixo da enxurrada de gotículas ígneas que espargiam do cálice.
- Receba o baptismo através da luz!
Que se restabeleça a sua saúde:
a do corpo e a da alma! – o pronunciou em voz sonora.
Parecia-lhe que ela estava sendo queimada na fogueira.
Aterrorizada, Edith via que de seu corpo saiam colunas de fumaça negra.
Sua cabeça rodopiava e ela sentia estar perdendo os sentidos; mas, neste instante, o cavaleiro ajudou-a novamente a se por de pé e a tontura cessou.
Então ancião de barba branca aproximou-se dela.
Na mão dele carregava o cálice com o líquido ígneo, que levou aos lábios da jovem, dizendo:
Receba a vida eterna da sabedoria divina; tome dos bens celestiais que a farão capaz de caminhar à perfeição.
Cega antes recupere a visão agora; impotente, torne-se forte para domesticar a “fera” que dilacera e devora os seus irmãos.
Tome e será digna da grande graça que lhe cabe obter.
Edith tomou inconsciente o líquido e quase de imediato sentiu pelo seu corpo espalhar-se uma corrente cálida a se partir em milhões de átomos.
O que aconteceu depois, ela já não se lembrava.
Um barulho vago trouxe-a a realidade.
Estava deitada em seu sofá no terraço, enquanto a camareira Mery, pálida e alarmada, misses Elliot, achavam-se ao seu lado e friccionavam-lhe as mãos e as têmporas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 27, 2016 7:32 pm

- Meu Deus, como pode ser tão descuidada - censurava-a a acompanhante assim que Edith abriu os olhos.
Com sua doença, passar a noite toda no terraço!
Veja só o seu vestido, húmido de sereno; e esta tola Mery dormindo ao invés de cuidar e vir buscá-la!
O que dirá seu pai se souber disso
Edith sorriu e empertigou-se.
- Acalme-se, querida misses Elliot, Mery não tem nenhuma culpa; fui eu que a proibi de me perturbar.
O papai não saberá de nada, pois eu não estou mais doente.
Dormi muito bem e me sinto forte como nunca.
De facto, a senhora está com bom aspecto, se é que o rubor brilhante em suas faces não é devido à febre – retorquiu à acompanhante, fitando-a perscrutadamente.
Edith deu uma risada e anunciou que ainda queria dormir mais um pouco, pois o sol ainda não se havia levantado; ela correu para o quarto e se trancou.
Atirando-se na primeira cadeira, agarrou a cabeça com as mãos.
- Não seria tudo um sonho - murmurou
Edith respirava de peito cheio e o costumeiro peso e ardor no coração desapareceram.
Um novo pensamento veio-lhe à mente, e ela, aproximando-se do espelho, começou a se examinar, admirada com a mudança ocorrida.
Para onde tinha ido aquela palidez doentia, as sombras azuladas debaixo dos olhos e o olhar embaçado.
A tez rosada reflectia frescor; os olhos brilhavam, enquanto a pequena boca – ainda pálida na véspera – estava corada e sorria alegremente.
O jovem organismo de facto respirava vida e saúde.
Subitamente Edith estremeceu, ao ver no pescoço uma corrente fina de ouro que nunca tinha visto antes.
Surpresa, ela agarrou a corrente e puxou do vestido um grande medalhão; nele pendia um cálice lapidado em enorme diamante e, dentro dele, luzia uma gotícula vermelha; em volta, num aro de ouro, estava gravado:
“Ele saciará os sedentos de luz.
O milagre ocorre para os crentes e através de sua fé você realizará os milagres em prol dos humildes e pobres, enquanto que o cálice se encherá da graça divina...”.
Trémula de emoção contemplava Edith aquela jóia, uma prova de que os acontecimentos da noite passada não foram um sonho, mas maravilhosa realidade.
Num arrebatamento de gratidão, ela se pôs de joelhos, agradecendo a Deus por sua cura milagrosa; depois beijou o medalhão e sussurrou em tom de comoção:
- Meu querido presente jamais me separarei de você, pois você foi dado por aquele que me salvou a vida!
Haveremos de levar pelos casebres a graça de Deus.
A parti de hoje eu largo os prazeres fúteis, e o ouro acumulado por meu pai será empregado para minorar o sofrimento humano.
Indescritível foi à surpresa de mister Dickson ao ver a filha à mesa do almoço; moribunda na véspera, ela agora estava vendendo saúde.
Não acreditando em milagres e temendo que a cura não passasse de uma falsa reacção, o banqueiro marcou para dali a dois dias a vinda de uma junta dos médicos mais proeminentes.
Estes também, com surpresa autêntica, só puderam confirmar que a moça estava totalmente curada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 27, 2016 7:32 pm

- Que fenómeno incrível ocorreu com você, minha criança! – disse o banqueiro beijando-a.
- Não é um fenómeno, papai; foi um milagre.
O próprio professor não lhe disse que só um milagre poderia me salvar.
Eu rezei para Deus e Ele fez o que a ciência não conseguiu.
Feliz que estava em vê-la em perfeita saúde, Dickson não quis discutir e se contentou com uma risadinha.
Logo depois, ele partia numa viagem de negócios, várias vezes adiada devido à doença da filha.
Ao ficar sozinha, a vida de Edith mudou totalmente, causando espanto nos que a rodeavam.
Seus caros vestidos sequer eram retirados da gaveta; ela vestia-se de branco, com simplicidade puritana.
Deixou de usar qualquer tipo de jóias e evitar festas barulhentas.
Paralelamente, passou a visitar incansavelmente os pobres e os doentes nos arredores da cidade, gastando em caridade grande soma de dinheiro.
A alta-roda, aparentemente, tornou-se-lhe repulsiva; ela a evitava e vivia meditando horas a fio no terraço.
Não conseguia esquecer a misteriosa gruta, onde lograra saúde e onde os seus olhos adquiriram a visão da verdade; mas o que mais marcara sua mente era aquele homem estranho.
Seu belo rosto a perseguia como uma aparição celestial.
De onde ele teria vindo?
Quem era ele?
Como seria o seu nome?
Muitas vezes ela o via em sonhos e, às vezes, sobretudo depois da oração matinal, parecia-lhe que ele estava por perto.
Um acontecimento, sobretudo, causou-lhe uma impressão profunda e a deixou perturbada.
Não muito longe da vila, morava uma pobre mulher, viúva de um operário morto num incêndio.
Por causa da desgraça que se abatera, a infeliz adoeceu seriamente; entretanto ela se recuperou, ainda que passasse por muitas necessidades com a filhinha de cinco anos.
Foi quando Edith se interessou pelo seu destino e contribuiu com um verto bem-estar em sua casa.
Porém uma nova infelicidade desabou sobre a pobre mulher:
sua única filha adoeceu de pneumonia e logo a doença adquiriu tal forma, que o médico anunciou que a menina estava desenganada.
O desespero da pobre mãe suscitou em Edith uma profunda pena.
- Será que o doutor não consegue fazer nada?
Eu pagarei o tratamento, por mais caro que ele possa ser – dirigiu-se ela ao médico.
- Só um milagre poderá salvá-la e, se isso não ocorrer, ela não passa desta noite – respondeu este erguendo os ombros e despedindo-se.
Edith estremeceu.
Ela foi salva por um milagre, por que então a cega ciência humana não poderia render-se à humilhação da ciência divina.
Agarrando decidida à mão da viúva, ela a levou até o crucifixo, pendurado na parede:
presente de Edith, pois, em qualquer lugar que ela fosse prestar um auxílio, levava a reprodução do Salvador.
- Oremos – disse ela – para que Deus misericordioso cure a sua filha.
É Ele o verdadeiro médico e, dependendo da sua fé, poderá atender ao seu pedido.
Na voz da moça soava tanta firmeza, que a pobre mulher, enlevada por ela, caiu de joelhos e a sua alma sofrida ascendeu-se em fervorosa prece.
Edith também orava.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 27, 2016 7:32 pm

De súbito uma voz sonora, já por ela ouvida e que ela reconheceria no meio de milhares, disse-lhe no ouvido:
- Pegue o medalhão e ore!
Edith trémula tirou o medalhão, apertou-o na mão e... ó, milagre!...
Poucos minutos depois, no cálice acendeu-se uma chama e em seguida surgiram três gotículas vermelhas, as quais Edith colocou cuidadosamente na boquinha semi-aberta da doente.
Nesse instante, pareceu-lhe que junto da cabeceira da cama surgiu à figura alta do cavaleiro misterioso.
Ele lhe sorriu e a saudou com a mão.
No dia seguinte a criança já estava recuperada; Edith, contudo, estava intrigada e um pouco amedrontada.
Quem seria aquele homem estranho que lhe parecia real e, entretanto, surgia como uma parição e lhe falava como um espírito.
Mas que importância tinha, se ele era um homem ou anjo; ela o amava e estava disposta a dedicar-lhe a vida e praticar a caridade em seu nome.
O retorno de mister Dickson trouxe a jovem uma série de dissabores e escândalos com o pai.
Feliz pela cura da filha, o banqueiro começou a organizar bailes e almoços, receber numerosas visitas e encorajar abertamente dois pretendentes à mão de sua filha, visivelmente apaixonados por ela. Impressionava-o, no entanto, a aversão não dissimulada de Edith aos prazeres mundanos e sua simplicidade puritana, vindo inclusive a se zangar quando lhe chegaram aos ouvidos suas andanças suspeitas.
Certa manhã ele chamou a filha ao seu gabinete e a submeteu a um severo interrogatório;
- O que significa toda essa tolice?
Você anda vestida como mendiga pelos casebres da periferia e dá as costas a todas as pessoas decentes que nos visitam.
Sabe o que estão falando de você?
Que depois de sua cura, você perdeu o juízo; e o seu comportamento ridículo reforça estes rumores.
Está na hora de acabar com isso e tomar juízo.
Edith ficou profundamente desgostosa.
Jamais vira o pai tão bravo, mas não podia e nem queria desistir do prazer espiritual que lhe proporcionavam suas visitas aos pobres e sofridos.
Quando alguns dias depois ela recusou categoricamente seus dois pretendentes, Dickson ficou uma fera e anunciou que ele já estava cheio da Europa e por isso iria voltar para a América, na esperança de que em sua pátria, num ambiente usual, a sua filha tomasse juízo.
- Aliás, eu tomarei medidas para acabar com suas esquisitices e fantasias vergonhosas.
Tal decisão foi um duro golpe para a pobre Edith. Ela teria de abandonar a casa, nas cercanias da qual se localizava a misteriosa gruta, palco do acontecimento mais estranho de sua vida.
O mais penoso era que se veria separada daquele lugar pelo oceano, ficaria longe daquele ser enigmático.
Talvez um génio das esferas, mas, ao mesmo tempo, uma das pessoas mais encantadoras que ela já encontrará, a quem amava com todas as forças da alma.
Nem súplicas, nem lágrimas para ficar na vila ajudaram, apenas reforçaram em mister Dickson as suspeitas de algum caso secreto de sua filha excêntrica.
No dia marcado, a aeronave do banqueiro levava-os à América.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 27, 2016 7:32 pm

Capítulo XX

Após o ataque do satanista, sobreveio um tempo de paz para Olga.
Chiran não aparecia nem na sociedade; viajou a negócios – diziam.
O relacionamento com o noivo tornava-se cada vez mais amistoso.
Supramati passava algumas horas diariamente com ela e, em conversas longas, tentava transmitir-lhe conhecimentos, aumentar o seu horizonte intelectual e prepará-la para o papel de esposa de um mago.
Uma vez que Olga tinha uma inteligência nata e o amor inspirava-lhe o desejo de se elevar até a pessoa adorada, ela ouvia sem demonstrar cansaço tudo o que ele lhe passava sempre de forma bem interessante.
As conversas é claro, abordavam os conceitos gerais; não obstante, Olga entendia que os eu futuro marido era um homem extraordinário e que sem dúvida, por ela aguardavam várias surpresas.
Alguns dias antes do casamento, Supramati entregou à sua noiva os presentes de Ebramar:
um escrínio antigo em ouro maciço que continha uma grinalda de flores com pétalas branco-prateada e cálices fosforescentes.
Sem dúvida, um objecto magnífico e de valor inestimável.
O segundo presente era uma caixinha com frasco de líquido incolor com algumas pílulas brancas e cheirosas.
Supramati explicou-lhe que ela deveria engolir uma pílula daquelas todos os dias pela manhã, e, no dia da cerimónia – todo o conteúdo do frasco; sem mencionar, entretanto, que o presente de Ebramar tinha por objectivo fortalecê-la antes da união e prepará-la para o papel de esposa do mago.
Veio finalmente o dia do casamento.
Acompanhada por um cortejo sumptuoso das amigas amazonas, Olga dirigiu-se à grande catedral, onde se celebraria a cerimónia.
Estava encantadora. O vestido de noiva – um presente de Supramati – despertou fascinação e inveja de toda a comunidade.
Era todo feito de rendas, dessas que já não se fabricavam mais, pois o próprio segredo da tecedura mágica das antigas rendeiras se perdeu durante a difícil época da invasão dos amarelos.
E quem se prestaria agora a tentar um ofício assim, quando a redução de trabalho era a meta da época.
A grinalda, enviada por Ebramar, adorna-lhe os cabelos e caía-lhe maravilhosamente bem, ainda que estivesse muito nervosa e pálida.
O facto é que já fazia alguns dias que ela sofria de um estranho calor a percorrer-lhe o corpo, aliado à sensibilidade acentuada às desagradáveis impressões que lhe causavam algumas de suas amigas.
Sentia-se mal também durante a cerimónia, o calor que emana de Supramati parecia-lhe insuportável.
Tinha a sensação de estar numa espécie de círculo ígneo; rajadas de ar causticante dificultavam-lhe a respiração.
Quando o noivo lhe colocou a aliança, esta pareceu queimá-la.
Somente a presença de Supramati lhe fornecia um novo ânimo e ela corajosamente enfrentou a fraqueza que a dominara.
Após a cerimónia, vieram os cumprimentos e todas as sensações incómodas desapareceram por encanto, substituídas pela conscientização da força e um extraordinário bem-estar.
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