Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 29, 2016 7:28 pm

Formou-se um círculo estreito de partidárias de Olga, que aos poucos foi ampliando; Edith começou também a participar activamente do trabalho das adeptas.
Era mais enérgica e mais prática que Olga e, sob a sua influência, o movimento ampliou-se.
Suas seguidoras, pondo de lado a injustificada vergonha, tornaram a acreditar em Deus e se voltaram às obrigações de esposas e mães, não se rendendo ao escárnio dos maridos, descrentes da firmeza das novas convicções de suas caras-metades inconsequentes.
Passou cerca de um ano.
Certa noite, Edith estava sozinha no dormitório, aguardando a volta do marido, da casa de Supramati.
Era uma noite esplêndida.
Sentada junto à janela aberta, ela sonhava contemplando o céu azul-escuro, pontilhado de bilhões de estrelas, e aspirando o aroma das rosas que vinha do jardim.
Os passos do marido no quarto vizinho tiraram-na da reflexão; ao entrar, este se aproximou dela apressado. Ele estava pálido e seu belo rosto expressava uma seriedade incomum.
- Como você demorou! – disse ela.
- Tive de me atrasar- respondeu Dakhir, sentando-se ao seu lado depois de beijá-la.
Preciso lhe falar de uma coisa muito importante e pedir-lhe um pequeno sacrifício – prosseguiu ele curvando-se e fitando perscrutadamente os olhos azuis, que o olhavam com um amor infinito.
- Fale! Não há nada que eu não possa lhe fazer com alegria, a não ser... – ela empalideceu e silenciou – a não ser que seja para separarmos...
- Não, não, Edith!
Não se trata de um sacrifício que seria difícil até para mim.
Não é isso!
Veja, os meus guias incumbiram-me de uma tarefa.
Você não ignora que num futuro próximo desencadearão terríveis hecatombes e, para o bem da humanidade, com o objectivo de salvar aqueles que desejam ser salvos, precisamos ensinar o povo a rezar, infundir o arrependimento nos corações empedernidos, expor às pessoas que o único caminho à salvação é a misericórdia do Criador.
A missão de Supramati é com a camada de classes mais ricas; a minha é entre o povo humilde, mas para conquistar a confiança de um pobre e fazê-lo me ouvir, devo ser pobre e humilde como ele.
Nenhum deles acreditaria num nobre milionário.
E assim, minha querida, você abraçaria comigo esta causa difícil?
Abandonaria o palácio com o seu luxo habitual, passando a viver comigo num casebre pobre, assistindo os deserdados e enfermos, consolando os moribundos e amparando os pobres de espírito?
Teria você coragem suficiente de descer comigo às furnas da miséria, vícios e descrença, para socorrer a repelente turba miserável pela palavra e acções?
O nosso mouro serviria apenas para mitigar as necessidades alheias; não teremos sequer empregados.
Eu vou promover curas e doutrinar, enquanto você me ajudará nisso.
Só receio que essas mãos acetinadas não dêem conta do serviço.
Edith abraçou extasiada ao pescoço do marido.
- Oh, Dakhir! Como estou grata por você me incluir nesta missão de caridade!
Ajudar os pobres, orar a Deus, ficar ao seu lado e fazer tudo por você é a verdadeira felicidade!
Profundamente emocionado Dakhir abraçou-a efusivamente.
- Obrigado por sua resposta, minha valorosa amiga!
A sua disposição em repartir comigo o trabalho me faz imensamente feliz.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 29, 2016 7:28 pm

No outro dia, à noite, trajada num vestido cinza simples de lã e envolta numa capa escura com capuz, Edith embarcava com o marido na aeronave.
Duas cestas compunham toda a bagagem dos viajantes.
Eles eram acompanhados por Nebo, secretário de Dakhir, que estava a par da missão do mestre, devendo manter um contacto constante com eles.
Estava amanhecendo quando a nave desceu sobre uma pequena plataforma.
Lá, encostada à montanha arborizada, erguia-se uma casinha humilde, cujo luxo se limitava a um grande terraço tomado por parreira; no interior havia dois quartos modestamente mobiliados e uma pequena cozinha; além da cerca, pastavam duas ovelhas. Do terraço abria-se uma esplêndida vista; aos pés da montanha, no vale, divisava-se uma cidadezinha, serpenteada por uma vereda.
Ao se despedir do secretário, Dakhir com a esposa examinaram detalhadamente a nova moradia e a acharam fascinante.
Em seguida, Edith com a ajuda do marido dispôs no armário o conteúdo das cestas e correu toda feliz para o terraço para preparar o desjejum.
Num pequeno bufê de madeira branca, ela encontrou uma toalha de mesa, louça e provisões, que consistiam de mel, pão, manteiga, queijo e uma jarra de leite de cabra.
Ao término do desjejum frugal, Dakhir cobriu de beijos as mãos da esposa e anunciou que jamais havia experimentado comida tão gostosa; em seguida, chamou Edith para mostrar-lhe mais um cantinho da sua habitação.
Na encosta da montanha, junto à qual se abrigava a casinha, havia uma fenda, praticamente escondida por heras e parreiras densas; acima destas, por entre as árvores verdejantes, antevia-se uma torre pontiaguda. Surpresa, Edith entrou para uma gruta espaçosa, executada em forma de capela.
No fundo pendia na parede um Crucifixo de tamanho natural; de cima, de um lugar ignorado, jorrava uma luz azul-celeste, que ao incidir sobre a cabeça de Cristo lhe conferia uma incrível vivacidade, iluminando toda a gruta com uma suave meia-luz.
Aos pés da cruz havia um altar de mármore branco, coberto por uma toalha dourada, e sobre ele encontrava-se um grande cálice da irmandade dos cavaleiros do Graal, encimado por cruz.
No centro da gruta, num pequeno reservatório, brotava uma fonte, espargindo para bem alto um jacto prateado e límpido com cristal.
- Para que é isso? – perguntou Edith.
- É que temos de baptizar essa turba esquálida, caso contrário ela não cederá às curas e não será capaz de arrependimento.
Só depois de um banho e uma pequena limpeza é possível sugerir-lhe a palavra de Deus – explicou Dakhir, abaixando-se de joelhos diante do altar.
Edith seguiu-lhe o exemplo.
Depois de orarem por algum tempo, Dakhir accionou um mecanismo numa depressão da gruta, onde acendeu as luzes.
O local estava apinhado de estantes com frascos, feixes de ervas e diversos aparelhos estranhos, de forma desconhecida.
- É seu laboratório?
Você também é um mago? – indagou corando Edith.
- Um pouco – respondeu Dakhir em tom de bonomia.
Depois eles se sentaram num banco ao lado da casa e contemplaram, conversando, a vista alegre que se abria diante deles.
Ao longe, embaixo, serpenteava em faixa prateada um rio; em fita sinuosa, o caminho descia da montanha para o vale, passando perto da casa.
Dakhir apontou para ele com a mão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 29, 2016 7:29 pm

- Vamos esperar que esse caminho leve até nós os enfermos de corpo e alma. Amanhã, ao alvorecer, precisaremos benzer a capela.
No dia seguinte, Dakhir vestiu uma longa túnica branca de lã, pendurou no pescoço a cruz de ouro e, acompanhado de Edith, também de vestes brancas, foi para a capela.
Enquanto o mago lia a oração aspergindo o altar, as paredes e o reservatório, Edith acendeu sete trípodes, jogou nelas as ervas e os pós-aromáticos – uma mistura de óleo de rosas, sândalo, mirra, balsamo peruano e outras substâncias; o aroma invadiu a gruta e no mesmo instante tilintou um sininho cujo som apelativo se propagou em volta, para longe.
Neste ínterim, pelo caminho da montanha subia vagarosamente uma velha com uma criança no colo, acompanhada por um homem ainda jovem, mas magro e curvado, aparentemente tísico.
Ele se apoiava num pau e um forte acesso de tosse o estava sufocando; ofegante, era obrigado a parar a toda hora.
A criança de uns três anos de idade parecia moribunda e seu corpinho magro estremecia convulsivamente.
Já próximo da casa de Dakhir, o homem parou e enxugou o suro que lhe escoria da testa.
- Não posso mais... estou cansado – disse ele.
- Olhe um banco perto da casa; descanse! – sugeriu a velha, e ambos se sentaram, tentando distinguir de onde vinha o tilintar do sino.
- De onde vem esse som? Não vejo nenhuma igreja ou capela – observou o homem.
- E esta casa eu também nunca vi.
Quando nós fomos à clinica pela última vez, pelo que eu me lembre, ela não estava aqui.
Provavelmente acabaram de construí-la – aventou a mulher.
Olhe lá saindo um homem com uma mulher.
Deve ser algum sacerdote; ele tem uma cruz no pescoço.
- A mulher parece ser boa.
Vou-lhe pedir um pouco de água para beber – disse em meia voz o homem.
Mas, antes que ele pudesse se levantar. Dakhir e Edith, que saiam da capela, se aproximaram do banco.
Ao verem os dois doentes com o selo da morte no rosto, o mago e a esposa entreolharam-se significativamente.
- Vou trazer leite para todos, meu querido – disse Edith solícita e correu para a casa.
Neste instante Dakhir se inclinou sobre a criança.
- O coitadinho está muito doente.
- está morrendo senhor, e o meu pobre filho também está mal; em casa ele tem ainda uma esposa e quatro filhos. O que será de nós se ele morrer?
Ainda há pouco estávamos tão felizes...! Ele é electrotécnico, ganhava bem, mas depois que apanhou um resfriado e pegou essa terrível doença ela o está matando, aos vinte e sete anos...!
As lágrimas a sufocavam. Dominando-se ela acrescentou:
- Estamos indo à policlínica da cidade pedir algum remédio para aliviar o sofrimento dos pobrezinhos, mas a ciência nada pode fazer para eles.
- Sim, a ciência dos homens é impotente.
Mas por que vocês não se dirigem ao verdadeiro curador do corpo e da alma - Deus?
- Ah, meu bom senhor, será que Ele existe?
Ninguém mais acredita Nele; Ele nunca se manifesta.
Antigamente ainda acreditavam e muitos oravam, mas Ele nunca ajudou ninguém.
- É que os homens não possuíam uma fé genuína; seus crimes O afastaram e Ele deixou de ajudá-los.
Venham, aqui há uma capela!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 29, 2016 7:29 pm

Prostrem-se, supliquem a Deus e tenham fé em Sua ajuda! – disse Dakhir em tom sério e convicto.
Enquanto conversavam, Edith trouxe leite e deu-o de beber para os três.
O homem aparentemente se sentiu melhor e disse após um minuto de indecisão:
- O que você acha mãe?
Já que não acreditamos, não custa nada dar uma passada na capela.
Dakhir sorriu.
- Só vai custar uma aspiração sincera ao Criador de todo o existente.
Os aromas fortes e penetrantes do santuário tiveram tal efeito sobre a velha e o seu filho, que eles cambalearam e teriam caído, senão fossem amparados por Dakhir e Edith.
Assim que eles se restabeleceram, o mago levou-os até o altar e ordenou que se ajoelhassem.
Nesse instante, ouviu-se um canto suave; vinha de um aparelho instalado no fundo da rocha.
A música, aliada aos aromas, produziu uma forte impressão sobre os nervos daqueles pobrezinhos.
Ambos começaram a tremer e chorar, balbuciando que nunca tinham rezado antes e perguntando como se fazia isso.
- Repitam comigo! – disse Dakhir, pondo-se de joelhos e levantando as mãos em prece.
Deus todo-poderoso e clemente, Pai de todas as criaturas Suas, não nos deixe desafortunados sem a Sua graça.
Ninguém nos ensinou a orar usufruir desta grande dádiva, desta aspiração da alma que nos une com o Pai Celeste.
Dissipe as trevas em que estamos atolados.
Enquanto ele falava, a criança soergue-se nos braços da avó.
Seus olhos antes embaçados arregalaram-se e brilharam surpresos.
Subitamente, ela esticou os bracinhos magros em direcção à imagem do Redentor e exclamou em voz alta:
- Olhe que bonito!...
- Vejam, o reino de Deus está aberto às crianças!
Ela enxerga a beleza celestial – disse Dakhir.
Atónitos e emocionados, a mãe com o filho começaram a orar ardorosamente, repetindo:
- Tenha piedade de nós, oh, Deus, por Sua graça, por Sua generosidade.
Dakhir pegou a criança, despiu-a e mergulhou no reservatório.
Tirada da água, esta parecia sem sentidos; mas sem dar atenção ao facto, o mago passou-a a Edith, impôs as mãos sobre a cabecinha e o peito.
Depois pegou o cálice, enquanto Edith, ajoelhada, ergueu-a; Dakhir colocou em sua boca algumas gotas de um líquido púrpuro do cálice, depois a cobriu co o manto dourado que pegou do altar, e mergulhou-se numa prece fervorosa.
Iniciou-se um profundo silêncio, apenas quebrado por uma leve vibração harmónica.
O pai e a avó emudeceram impressionados, sem acreditarem no que viam.
Um rubor suave substituiu a palidez cadavérica da criança, a cabecinha que antes pendia de fraqueza se endireitou, a boca semi-aberta sorria alegremente, tornou-se rósea e viçosa.
A criança estendeu as mãos em direcção a avó e disse:
- Estou com fome, quero comer.
Edith a beijou e a devolveu à sua avó.
- Vamos querida, colocaremos nele uma roupinha limpa e depois o alimentaremos – disse ela alegre.
Dakhir abençoou a criança e colocou-lhe no pescoço uma corrente com uma cruz de ouro.
Quando as duas mulheres saíram, o homem jogou-se de repente aos pés de Dakhir.
- O senhor deve ser um santo; agora eu sei que Deus existe e o Seu poder é imensurável.
Oh salve-me também! – o suplicou em prantos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 29, 2016 7:29 pm

- Não passo de um pecador, apenas sirvo de intermediador do Pai celestial; o salvamento parte Dele.
Ponha-se de joelhos ali – ele apontou para a cruz – e confesse em voz alta os seus pecados e as faltas; arrependa-se e tome uma decisão firme de começar uma vida nova.
Só assim você será digno de obter a graça divina.
Em meio à forte emoção espiritual, ele prostrou-se de joelhos e em voz trémula iniciou a confissão.
Apesar da pouca idade, tinha praticado muitos actos sórdidos e desonestos.
Quando silenciou, Dakhir lhe pôs a mão sobre a cabeça e disse:
O seu arrependimento é sincero, assim como a vontade de viver segundo a lei de Deus; receba, pois, a saúde do corpo para manter a saúde espiritual.
Agora, mergulhe-se por três vezes nessa água, tão inesgotável quanto a graça divina que acabou de descer sobre você.
Assim que o enfermo entrou na água, acima deste cintilou a cruz e de seu corpo começou a se desprender, em colunas densas, um vapor negro, dissipando-se no alto.
Depois, Supramati deu-lhe roupas limpas, colocou-lhe no pescoço um crucifixo, deu-lhe de beber do cálice, instruindo-lhe a viver honestamente e a orar a Deus, caso não quisesse que a doença voltasse.
Chorando de felicidade, este anunciou que estava se sentindo renascido.
Ele respirava livremente; a dor no peito cessou, uma nova força de vida corria por suas veias, as costas encurvadas se endireitaram.
- Oh, Deus misericordioso, Você existe!...
E nós não o sabíamos.
Terei fé em Você, venerando-o até o fim dos meus dias...
Humildemente ele agradeceu a Dakhir e pediu-lhe a permissão de visitar a capela para instruir-se na fé.
- Não só pode como deve!
Sua alma precisa ser fortalecida neste local sagrado – respondeu o mago.
O mago deu-lhe um livro sobre os bons preceitos e ensinou-lhe a antiga oração, sempre actual, graças à força misteriosa que ela inseria: “Pai nosso”.
Ao ver a mudança maravilhosa ocorrida com o filho, a velha mal se continha de felicidade e suplicou a Dakhir para indicar o caminho ao Ser infinito, o verdadeiro provedor da vida.
Dakhir realizou-lhe o desejo.
Ela a benzeu com a água, colocou-lhe uma cruz no pescoço e deu-lhe de beber do cálice.
A seguir, fizeram a última refeição de agradecimento e os três afortunados dirigiram-se de volta para casa, decididos a transmitir a todos os sofredores que existe o bom Deus, todo-poderoso, para aqueles que com piedade e fé a Ele se dirigem.
Dakhir e Edith sentaram-se no banco e acompanharam com os olhos os recém-convertidos.
- O primeiro passo foi feito – observou sorrindo Dakhir.
Agora vêm avalanches de multidões, pois os infortúnios e sofrimentos são os melhores meios de levar os homens para o verdadeiro caminho da fé.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 29, 2016 7:29 pm

Capítulo XXIII

As previsões de Dakhir logo se confirmaram.
De todos os cantos começaram a confluir doentes, inválidos, cegos; mal rompia o dia, o povo se arrastava em fila pelo caminho de sua casa.
A tarefa tornava-se pesada, entretanto Dakhir com a esposa pareciam incansáveis, trabalhando com fervor e entusiasmo para a multiplicação do exército de Cristo.
Dakhir curava não só o corpo, mas também a alma; Edith consolava, apoiava, assistia aos enfermos, estendendo suas actividades para outras regiões.
Nenhum tipo de miséria ou doença, por mais repugnante que fosse a assustava; ao contrário, mais caros para ela eram justamente os mais infortunados e os mais enraizados nos vícios.
Quando um desses partia curado com a alma renovada, o coração da divina Edith se enchia de alegria.
À tardezinha as portas da casa finalmente se cerravam e Dakhir, exausto pelo esforço da concentração durante longas horas, deixava-se cair na cadeira.
Edith lhe servia um jantar apetitoso e com a sua conversa, bom humor e frequentes observações espirituosas, elevava-lhe o ânimo, talvez melhor que os preparados mágicos enviados para ele por Ebramar.
Certa noite, sensibilizado com aquela devoção, ele a abraçou reconhecido.
- Não sei como agradecer a Deus por esta dádiva maravilhosa que é você, minha dócil e valorosa amiga – disse Dakhir beijando a esposa.
Nunca a vejo desanimar, ficar descontente ou triste; você está sempre sorrindo e disposta a apoiar-me com uma palavra amiga. Você é de facto a minha alegria e esteio.
- Suas palavras são a melhor recompensa pelo pouco que faço – devolveu Edith, corando de felicidade e beijando-o carinhosamente.
Certo dia, quando a afluência de doentes foi menor que o de costume e o casal terminava o frugal jantar, Dakhir disse todo feliz:
- Sabe Edith, precisamos ir felicitar Supramati com o nascimento de seu filho. Você não gostaria de ver o maguinho?
É claro que sim!
Gosto muito de seu irmão e de Olga.
Mas será que podemos nos ausentar?
Disseram que amanhã virá muita gente.
- Não precisamos sair, podemos cumprimentá-los daqui.
Ao notar o espanto de Edith, ele acrescentou rindo:
- Vamos ao meu laboratório!
Eu não lhe disse que também sou um pouco mago?
Dakhir se pôs diante do espelho, descortinou-o e ergueu o bastão pronunciando a devida fórmula.
A superfície especular tornou-se cinzenta e um vapor denso desprendeu-se do quadro, por trás do qual pareciam fervilharem ondas espumosas; subitamente um raio brilhante recortou em ziguezague a massa brumosa, como que rasgando uma Corina nevoenta, e diante deles se divisou o dormitório de Olga.
A jovem mãe dormia profundamente.
À sombra do cortinado de renda, o seu encantador rostinho parecia extremamente pálido.
Aos pés da cama estava um berço – vazio naquele minuto -, e um pouco adiante, junto da mesa, estava Supramati, pálido e compenetrado; do escrínio que acabara de abrir, ele retirou um pequeno frasco com rolha de ouro, e dele transferiu para a colher uma gota de líquido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 29, 2016 7:29 pm

Ao seu lado estava uma mulher de feições graves, segurando mo travesseiro uma criança dormindo, envolta em luz azul-celeste.
Dakhir reconheceu naquela mulher um membro da irmandade, também uma imortal, só que de grau mais baixo; provavelmente ela foi enviada para cuidar do filho do mago que não podia ser confiado a um mortal comum. Dakhir compreendeu que Supramati estava dando ao filho o elixir da longa vida; mal o pequerrucho engoliu o conteúdo da colher, seu corpinho sacudiu-se convulsivamente e se esticou.
- Pobre criança imortal – pensou Supramati, observando pensativamente como a mulher colocava a criança no berço e a cobria.
Neste instante Supramati levantou a cabeça e viu Edith com o marido.
- Aceite os nossos cumprimentos, irmão – disse Dakhir – e transmita à sua esposa os nossos melhores votos!
- Obrigado irmãos.
Este presente de Deus é uma grande alegria para mim – disse Supramati.
Espero logo chegar a hora de felicitá-los também – ajuntou ele sorrindo.
Seu desejo logo se confirmou.
Alguns meses mais tarde, na humilde casinha surgiu à luz de Deus uma menina de olhos azuis.
Al lado de seu berço, ocupou o lugar uma irmã da comunidade para cuidar da criança e ajudar à jovem mãe nos afazeres de casa.
Na noite daquele feliz acontecimento, Dakhir recepcionou no laboratório as suas visitas:
Ebramar e Supramati vieram para cumprimentá-lo. Jamais os amigos o viram tão radioso e feliz; apenas no momento em que Ebramar colocou na boquinha da criança uma gotinha da substância primeva, o rosto de Dakhir cobriu-se momentaneamente por uma nuvem de tristeza.
Mas logo Dakhir se recompôs, voltando-lhe a alegria e animação.
Ele e Supramati contaram ao seu protector alguns casos de sua difícil missão e dele receberam conselhos e instruções.
Dakhir e Ebramar notaram que Supramati estava aflito, como se algo o oprimisse, e vieram a descobrir que estava inconsolado com a eminente separação de Olga; era patente o seu esforço em dominar aquela fraqueza.
Após o nascimento da filha, a iluminar-lhes a humilde morada, Dakhir e Edith recomeçaram com novo ardor o trabalho coroado por crescentes êxitos.
Os convertidos já se contavam às centenas; enérgicos e motivados, os seguidores cerraram fileiras em torno do missionário e as perdas do exército do mal já eram tão sentidas, que os satanistas se inquietaram. Tinha-se a impressão de que o Céu há muito tempo mudo e indiferente, começou a reagir e disputar-lhes as suas presas; no entanto, os adoradores de Satanás não eram daqueles que entregariam sem luta o campo de trabalho, onde eles se consideravam imbatíveis.
Para motivar a reacção de seus partidários, os satanistas programavam festejos nocturnos, com cabas dos mais desavergonhados, onde se distribuía, a rodo, muito ouro, vinho e demais regalos:
todos os instintos vis dos homens eram excitados até o frenesi.
Nas ruas acendiam-se trípodes com defumações maléficas; os luciferianos andavam nus, difundindo aromas que estimulavam a concupiscência, ou arrastavam as pessoas aos covis satânicos, onde se materializavam as larvas e outros espíritos impuros e realizavam-se orgias inéditas.
Os luciferianos, não sem motivo, esperavam que tudo que é fraco de espírito caísse em suas redes.
Houve até casos de fanáticos que em seu ódio a Dakhir tentaram assassiná-lo.
Tais intentos, contudo malogravam-se tão logo os assassinos transpunham a porta do mago: eles caíam fulminados por apoplexia.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 29, 2016 7:30 pm

A repetição destas mortes desestimulou outros atentados e aumentou ainda mais o ódio dos satanistas...
Não muito longe da casa de Dakhir, na confluência de dois grandes rios, localizava-se uma grande cidade densamente povoada, onde havia uma antiga catedral há muito tempo vazia, e que se preservara somente devido à sua curiosidade histórica.
A partir do momento em que na província houve uma virada para a religião, uma pequena comunidade de cristãos adquiriu junto ao governo o monumento da antiga fé e nele restabeleceu a realização de ofícios.
Isto enfureceu os satanistas e eles decidiram destruir a velha edificação, não sem antes profaná-la com a realização de um ritual satânico.
Para esse fascinante empreendimento se juntaram os sequazes das diferentes seitas que professavam o mal; e, certa noite, uma turba de milhares de fanáticos cercou a catedral.
Como antes já tivesse havido algumas tentativas de incendiar a igreja, os fiéis vinham-na protegendo ciosamente, e alguns sacerdotes se revezavam na sua vigilância vinte e quatro horas por dia.
Mas o número dos defensores era por demais pequeno para opor resistência àquele agrupamento; a igreja foi tomada, os seus guardiões mortos e os inimigos de Deus invadiram o local sagrado.
Sobre o altar profanado entronizou-se o ídolo Bafonete, e o local, onde antes se ouviam cânticos religiosos e orações fervorosas, encheu-se de alarido e gritos despudorados de orgia sobre os fragmentos dos ícones, estátuas sagradas quebradas e lápides sepulcrais.
Entorpecido de luxúria e cheio de ódio ao Criador, um dos chefes dos luciferianos galgou o púlpito e, soltando torrentes de blasfémias, dirigiu-se sacrílego a Deus.
- Se você existir mostre-nos então a sua força – vociferava em tom de desafio.
Mas eu sei que Você permanecerá calado como sempre, pois não passa de um personagem de conto de carochinha, inventado para enganar incrédulos imbecis.
Chegou a hora de libertar a humanidade dessa grande empulhação.
O sacrílego não contava que dessa vez as forças celestiais aceitassem o desafio satânico.
O dia que sobreveio àquela terrível noite amanheceu cinzento.
Nuvens escuras cobriam o céu; o ar estava pesado, denso, e algo de sinistro pairava no ar.
Consternados pela profanação do templo, alguns fiéis correram até a casa de Dakhir para lhe narrar o ocorrido.
Este não pareceu ficar surpreso e ordenou que todos os fiéis, sem excepção, se reunisse à noite junto a uma velha igrejinha nos arredores da cidade, para onde ele mais tarde com Edith.
- Precisaremos orar muito hoje, esta noite – acrescentou ele.
Inebriados com a vitória, os satanistas prosseguiram suas orgias por todo o dia; para a noite, eles marcaram uma solenidade ainda mais grandiosa que a anterior.
A asquerosa turba ébria, de pessoas nuas, encheu o enorme templo; gritos e cantos obscenos ouviam-se até nas ruas.
Ninguém, entretanto, atentou para amortalha negra, como fuligem, que começava a cobrir o céu, nem para um barulho ensurdecedor que prenunciava uma tempestade.
E, subitamente, com fúria inaudita, um furacão desencadeou-se.
Os rolares de trovões sucediam-se sem cessar; a terra tremia e os relâmpagos cintilantes sulcavam o céu em todas as direcções, enquanto sobre o templo profanado parecia subir uma coluna ígnea. Finalmente, desabou uma chuva torrencial.
Rajadas tempestuosas de vento derrubavam postes eléctricos, arrancavam árvores com as raízes, as águas de ambos os rios saíram dos leitos e inundaram a cidade dos dois lados.
Aos urros, rolavam pelas ruas as ondas espumosas e crespas, destruindo tudo em seu caminho; a escuridão absoluta aumentava ainda mais o terror causado pelos elementos desencadeados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 29, 2016 7:30 pm

Somente uma coluna de fogo acima da catedral, e que aos poucos foi tomando a forma de uma cruz, iluminava em púrpura o quadro sinistro da destruição.
Um pânico assomou de toda a população.
Pessoas corriam desenfreadas pelas ruas; uns tentando fugir para locais altos, mas o furacão arremessava-os de volta para a água, aonde eles iam se afogando; outros subiam nos telhados, de onde eram varridos feito serragem.
Quando a água começou a se aproximar da catedral, avolumando-se com rapidez medonha, os satanistas fecharam as pesadas portas do templo; no interior de suas paredes indestrutíveis, construídas para durarem séculos, eles se consideravam a salvo.
A tempestade, entretanto, se enfurecia mais; os relâmpagos em forma de esferas perfuravam zunindo o ar e explodiam com o barulho de canhões; o urro do vento abafava os gritos da turba em desespero.
Junto da antiga igrejinha, construída no morro alto, onde Dakhir ordenou que se reunissem os fiéis, estes se comprimiam alarmados.
Mas eis que de dentro do local sagrado surgiu o mago, trajando longas vestes alvas.
Ao lado dele estava Edith, também de branco; nas mãos ela segurava a estátua de Nossa Senhora, – objecto sacro antigo, considerado milagroso e muito venerado.
Em voz sonora que encobria o barulho da tempestade, Dakhir pronunciou um breve discurso, conclamando os fiéis à oração, para que a ira Divina os poupasse.
Todos se prostraram de joelhos e sob a influência do pavor o seu clamor foi ainda mais veemente.
O furacão, neste ínterim, alcançou o seu apogeu, as ondas batiam ameaçadoramente aos pés do morro.
Então Dakhir voltou-se para a multidão genuflexa, os cânticos sagrados silenciaram e a voz do mago chegou até as últimas fileiras.
Em palavras enérgicas, ele anunciou que chegara a hora de todos se dirigirem à catedral para purificar o santuário; pois assim, talvez a ira celestial se aplacasse.
Que me sigam os mais corajosos, que nutrem uma fé inabalável na graça de Deus, pois os covardes, os que duvidam e os fracos de espírito que pereçam!
Mas na multidão electrizada não houve quem não quisesse ficar para trás e todos gritaram em uníssono.
- Iremos todos com você, mestre!
Os discípulos de Dakhir distribuíram agilmente aos presentes velas acesas e a multidão de homens, mulheres e crianças, pôs-se a caminho entoando cânticos sagrados.
Liderando ia um homem com o crucifixo, seguido de Dakhir e Edith com a estátua da virgem.
Eles caminhavam intrépidos apesar da tempestade e da água a cobrir-lhe os joelhos; a multidão estava tão exaltada, movida por fé inabalável e com tanto destemor, que – oh, milagre!
A água começou a baixar, parecendo abrir-se para os lados, dando passagem à procissão, que sem qualquer dificuldade alcançou a catedral.
Lá, o dilúvio provocou estragos terríveis.
Tudo estava destruído ou arrastado; os portões do templo verificaram-se quebrados com a pressão da água; as ondas enfurecidas devoraram e arrastaram todos que ali se encontravam, varrendo o santuário de toda a imundice que o aviltara.
Logo a água abaixou e as ondas murmurejavam suavemente sobre os degraus inferiores do templo.
Cada vez mais inspirada com a fé inquebrantável, a procissão adentrou o templo e, a mando de Dakhir, todos começaram a pôr as coisas em ordem. O mago estendeu sobre o altar uma toalha dourada e nele colocou a estátua da Virgem e o Crucifixo; os castiçais espalhados foram recolocados em seus lugares, depois que as velas negras foram substituídas por brancas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 29, 2016 7:30 pm

Quando todos se puseram de joelhos, Dakhir entoou um cântico com sua bela e sonora voz:
“Louvamos no, Senhor”; um velho órgão abandonado começou a tocar sozinho, secundando por acordes majestosos o hino de acção de graças.
A tempestade amainou e ao alvorecer ambos os rios foram retornando a seus leitos, enquanto os raios do sol ascendente iluminavam o quadro desolado daquela terrível noite.
Nas ruas e, sobretudo, nos andares baixos, amontoavam-se cadáveres; muitos dos moradores que sobreviveram à catástrofe ficaram loucos.
Apesar de todo o seu poder, Dakhir se sentia extenuado ao voltar para casa; Edith estava totalmente pálida de cansaço, mas mesmo assim o seu rosto brilhava de felicidade celestial.
- Oh, Dakhir, como foi maravilhosa esta noite terrível! – exclamou ela, abraçando-se ao seu pescoço.
Jamais senti tão forte a presença de Deus e a força do bem a triunfar sobre o mal.
E você, então, meu querido!
Eu estava prestes a orar-lhe de joelhos ao ver os fachos de luz que de você se desprendiam, a vinda dos exércitos de espíritos a você submissos, ao contemplar como você comandava as forças da natureza e como sua vontade fazia dardejar milhares de faíscas eléctricas sobre aquela multidão, sugerindo-lhes a coragem de segui-lo.
Quês espectáculo divino assistir a luz absorvendo as trevas!
Agradeço a Deus por essa graça inédita que a mim foi concedida – a de ficar ao seu Aldo.
Dakhir abraçou-a carinhosamente.
- Não superestime os maus parcos conhecimentos, nem diminua o seu próprio valor.
Agradeço-lhe por sua coragem, que me deu liberdade de acção.
Eu senti que não estava sozinho naqueles minutos angustiantes e que um coração que me ama compartilhava comigo o triunfo alcançado.
A terrível desgraça que abateu sobre a cidade e as circunvizinhanças chocou a todos; um efeito não menos eficaz foi alcançado pela predição de Dakhir, feita alguns dias depois na catedral.
Analisando o acontecimento, ele anunciou que aquilo era apenas o começo da punição do Céu, que, afrontado com o acúmulo do mal, infligia-o a seus difamadores, por ousarem desafiar o Senhor do Universo.
Estas palavras causaram um grande rebuliço na população.
Foi com ímpeto frenético que se deu o início da busca de antigos objectos de veneração; pessoas se reuniam em orações conjuntas, e, não pouco ateístas, lutando no leito da morte, revelavam um obstinado esforço em guarnecer a casa com crucifixo, benzê-la e acender velas diante de um velho ícone.
As hecatombes previstas por Dakhir e Supramati desabaram bem antes que poderiam imaginar os incrédulos que zombaram dos “falsos profetas”.
A primeira dessas terríveis catástrofes feriu cruelmente a própria Edith.
Nas proximidades da cidade portuária, onde vivia seu pai, um enorme vulcão entrou em actividade.
Certa manhã, os surdos abalos subterrâneos e a monumental agitação do oceano assustaram os moradores.
Depois, subitamente, o fundo do oceano se levantou e a terra assentou-se ruidosamente, fazendo desabar os edifícios e os imponentes arranha-céus de concreto armado, sepultando sob os escombros tudo o que era vivo.
Simultaneamente sobre essas ruínas caiu uma chuva de pedras e cinzas, e uma enxurrada de água fervente inundou tudo.
Por fim, um derradeiro abalo abriu um abismo e tudo que ainda sobrara da malfadada cidade desapareceu nas ondas borbulhantes, soterrando em sua mortalha mais de um milhão de pessoas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:27 pm

Entre aquelas vítimas estava também mister Dickson, e sua terrível morte levou Edith ao desespero.
Sua afeição ao marido e à filha acentuou-se; tão logo diminuiu a primeira dor da perda, ela retomou com fervor a sua missão beneficente.
Além das curas e predições, Dakhir organizou, para os discípulos e os fiéis mais desenvolvidos e activos, sessões de palestras, em que eram discutidas as futuras calamidades, as formas de como eles poderiam salvaguardar os seus bens e os acervos artísticos ou científicos.
Ele ensinou-lhes também os locais nas montanhas, onde poderiam encontrar um abrigo seguro para suas famílias.
Calamidades isoladas ocorriam em toda parte do mundo.
As chuvas torrenciais formavam dilúvios; as tempestades com granizo infringiam enormes devastações; gases mortíferos desconhecidos contaminavam o ar e as pessoas se asfixiavam; por fim, doenças inéditas dizimavam populações inteiras.
Mas todos aqueles avisos e mostras da realidade insustentável não produziam o devido efeito.
A turba crescente e egoísta, degenerada em consequência do ateísmo e viciosidade, permanecia surda e cega; e, uma vez que as desgraças até aquele momento não haviam chegado a atingir Czargrado, e não se observavam quaisquer indícios reais que pudessem quebrar a tranquilidade de seus moradores, o gozo dos prazeres, os sacrilégios e a adoração a Lúcifer seguiam o seu ritmo em meio à zombaria a Supramati e seus partidários.
Houve até quem se dispusesse a matá-lo na esperança de que o seu fim terminasse com o movimento da renovação que tanto os constrangia.
Sem entenderem a missão do mago, intrigava-os, sobretudo, pó que o hindu tentava restabelecer uma velha doutrina “ultrapassada” como o cristianismo.
Houve muitos atentados contra a sua vida, naturalmente sem nenhum êxito, e Supramati não lhes dava qualquer atenção.
Outras ideias e sentimentos ocupavam a mente do mago.
Nele havia despertado o homem – não com aquelas paixões tempestivas e desordenadas, não; em seu coração, que batia com tranquilidade imperturbável, revivia o mais penoso dos sentimentos que martiriza a alma humana:
o medo de perder a criatura amada.
Para seu olho iluminado, o fim próximo de Olga estava por demais evidente.
Ela se tornava cada dia mais diáfana e vaporosa, era acometida de debilidade inesperada e somente a poderosa vontade de Supramati e os seus conhecimentos conseguiam prorrogar-lhe por algum tempo a vida, ainda que o frágil organismo definhasse a olhos vistos.
Um sentimento angustiante e opressor cravava garras em seu coração, quando ele se convencia da rapidez com que se processava a extinção.
Ele havia-se afeiçoado à encantadora mulher, discreta e meiga, que o amava irrestritamente; habituara-se à sua proximidade.
Gostava de ouvir os seus gorjeios, ora alegres e ingénuos, ora sérios e impregnados de desejo de entendê-lo.
A felicidade que se lia em seus olhos, quando ela brincava com o filho, despertava nele um indescritível sentimento de júbilo e ventura.
Em breve tudo aquilo deveria acabar...
Novamente ele ficaria sozinho e em alguma gruta subterrânea, remota e isolada, ele retomaria o trabalho penoso da busca da luz; pesquisaria o infinito, desvendaria os novos mistérios e adquiriria novas forças poderosas.
E, com tudo isso, viveria... viveria sem fim, sem contar os séculos, sem um interesse particular, tendo por única companheira a ciência, que não dava descanso bem paz.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:27 pm

“Avante! Avante ao objectivo final!” – ordenava a lei inexorável que o impelia para frente.
Seu corpo imortal não conhecia cansaço e o cérebro jamais fraquejava; entretanto no fundo da alma, algo se agitava e suplicava:
“Apiede-se! Devolva-me as faculdades humanas, com as suas fraquezas, alegrias e tristezas!...”
E nestes minutos ele sentia subitamente um vazio, semelhante a um sorvedouro sombrio.
Certa noite Supramati estava sozinho, soturno e preocupado, em seu gabinete.
Ele relembrava o acesso matutino da fraqueza de Olga, mais prolongado que o de costume; os pensamentos sombrios dilaceravam-no.
De repente até ele chegou uma voz longínqua:
- Não procure o que é impossível de achar; não chore por aquilo que desapareceu para sempre.
A alma do mago deve aspirar somente à luz da perfeição, e o seu coração deve permitir acesso a todos os sentimentos, menos ao da fraqueza.
Supramati passou a mão pela testa e empertigou-se.
De facto, para ele já não havia retorno.
Ele era ligado à humanidade apenas pelo sofrimento, para lembrar-lhe que, no fim das contas, permanecia sendo um humano.
Levantou-se foi para o boudoir de Olga.
O quarto estava vazio; mas, levantando o reposteiro do dormitório, Supramati se deteve na soleira e com o olhar anuviado de tristeza olhou para a esposa, parada de joelhos junto ao berço.
Ela parecia ter a mesma cor que o seu peignoir branco rendado; sua cabeça pendia baixo sobre a criança adormecida; seus olhos expressando um indescritível amor estavam pregados a ela e lágrimas graúdas rolavam-lhe pelas faces, caindo sobre o coberto de seda.
Os pensamentos que vagavam na cabeça expressavam o pavor da morte se aproximando e da angústia da separação da pessoa amada e do filho.
Dó e compaixão comprimiram o coração de Supramati.
Seu olhar passeou distraído pelo luxuoso quarto e deteve-se na porta escancarada do terraço.
A lua tinha acabado de subir e inundava o recinto com luar prateado; do jardim vinha o aroma de rosas e jasmins.
Diante dele estava um panorama de profunda paz e felicidade límpida, maravilhosa.
A ideia de separar-se de tudo aquilo podia realmente despertar um sentimento de agonia, de pena até, na alma límpida do mago, mas Supramati não queria ser fraco.
Aproximando-se da jovem esposa, ele a levantou e levou para o terraço, onde a fez sentar ao seu lado num pequeno sofá macio.
Daquela altura, diante deles se abria um panorama feérico, iluminado pelo luar misterioso.
Aos pés deles, avistavam-se os jardins com os chafarizes cintilantes, estátuas, arbustos florescentes; ao longe reverberava o Chifre de Ouro.
- Meu Deus! Como tudo é maravilhoso, como sou feliz e... entretanto, deverei morrer...
Eu sei, Ebramar me antecipou que por uma bem-aventurança, tão breve como um segundo, eu deverei pagar com a vida, mas como é cruel esta terrível condição!
Caindo subitamente de joelhos, ela se abraçou a Supramati.
- Eu não quero me separar de você e de nosso filhinho!
A vida é tão maravilhosa que eu quero viver e viver.
Tenha piedade, Supramati, deixe-me viver!
Supramati se sentia o próprio carrasco e uma dilacerante angústia comprimiu-lhe o coração.
Dispondo da fonte de longa vida e tendo recompensado com ela muitas pessoas, a ele indiferentes, ele era obrigado a negá-la ao ser amado, que lhe suplicava a sua jovem vida.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:27 pm

Jamais antes, como naquele minuto, ele sentira em si o peso da provação assumida e todo o seu profundo significado.
Os sofrimentos daquele minuto eram uma paga por sua vida no mundo, por seu contacto com os homens.
Todos aqueles bilhões de seres que cruzaram de relance a terra depositaram no altar da morte tudo que lhes era caro e próximo.
Tiveram de sofrer tanto por eles mesmos, como por seus entes queridos, a terrível lei da destruição; então por que ele, chamado para ser regente e mestre dos povos infantes, teria direito a uma excepção?
Por quê? Por que a lei, que existe equitativamente para todos, deveria ser revogada só porque ele estava amando?
Não apesar do seu poder, ele deveria suportar a provação e se igualar, no sentido amplo da palavra, a todos os seres humanos.
E seria a imortalidade realmente uma dádiva para a jovem mulher, na alma da qual não havia espaço para nada mais além do amor por ele?
Ela ainda não estava preparada para a iluminação – isso ele não ignorava – e o que aconteceria a ela, sem ele, naquela vida infinita, tal qual uma flor sem água?
Ela teria de suportar milhares de mortes.
Tais pensamentos perpassaram sua mente. Curvando-se sobre Olga, ele a levantou e novamente a fez sentar-se ao seu lado.
Este momento, minha querida, é o mais difícil em minha vida – iniciou ele perturbado -, mas chegou a hora de uma explicação séria.
Como você sabe, estou fazendo uma rápida visita neste mundo.
Eu vivo em função da ciência e as condições de minha existência obrigam-me a ficar na paz e isolamento, distante dos homens.
Eu não posso modificar este meu estado essencial de existência, sendo assim, a nossa separação é inevitável.
Além disso, eu encaro a morte sob outro ponto de vista; não a temo, porque conheço os seus mistérios.
Somente um criminoso pode tremer diante da morte, pois com a destruição da vida acaba a sua impunidade; para você, entretanto, inocente e pura, a morte nada mais é que uma passagem a um estado mais elevado, e nem a nossa separação será total, já que os meus olhos enxergam o invisível, e a sua alma, feito uma borboleta, irá adejar perto de mim.
Mas você é tão jovem, que a separação d ávida é um sacrifício por demais duro; então ouça o que eu vou dizer e depois faça a sua escolha.
De meus mentores eu posso obter uma permissão para lhe dar uma vida muito longa, mas sem mim, pois o que a faz se consumir é justamente a sua união comigo.
Além disso, está chegando a hora em que devo voltar ao isolamento para dedicar-me à ciência.
Entretanto, o seu futuro será mais garantido, pois lhe legarei riquezas imperiais, e a viúva de Supramati bastará apenas levantar um dedo para formar uma nova família.
Você poderá casar-se de novo e ter seus filhos, enquanto o nosso ficará com você até sete anos; depois ele terá de ser educado entre os adeptos.
Olga o ouvia pálida e com os olhos arregalados; de súbito ela ruborizou.
- Será que eu o entendi bem? – disse ela em voz trémula.
Você me dá, feito uma esmola, uma vida longa, uma velhice desditosa sem você e sem o nosso filho e ainda, como recompensa, entrega as suas riquezas, que me são repugnantes ao ter que usufruir delas sozinha.
Por quem me toma?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:27 pm

Você, que lê nos corações humanos, e sabe os seus pensamentos, será que você não enxerga o meu amor?
O que eu fiz para merecer uma proposta tão ofensiva?
Como você pode, ainda que por um instante, achar que eu aceitaria uma vida parecida com um deserto, sem mais ouvir a sua voz e sem mais vê-lo ao meu lado?
Não, não! – gritou ela fora de si. – se eu for condenada a viver sem você, então aceito a morte como uma esmola e só quero uma coisa:
morrer em seus braços.
Que seja por sua vontade que se rompa o fio da minha vida! Oh, que louca eu fui!
Eu não tinha consciência de que a morte era muito mais caridosa que os sábios himalaios.
Tudo o que eles têm lá é a ordem, a harmonia, a ascensão à luz...
Que importância tem um coração humano, esmagado com o pé do mago?...
Ela cobriu o rosto com as mãos e recostou-se no espaldar do banco.
Pálido e perturbado, Supramati atraiu-a junto de si, separou as suas mãos do rosto e beijou-a forte.
- A infelicidade a torna ingrata, Olga, mas eu lhe agradeço por ter suportado dignamente esta prova, expressa em minhas palavras.
Seu sentimento em relação a mim cria entre nós um elo inquebrantável, o que me permite no futuro ser os eu protector e esteio.
Saiba, pois, que você irá viver enquanto eu estiver no mundo dos homens e não a abandonarei até que você retorne ao mundo dos espíritos, para onde o meu amor a seguirá.
Enquanto ele falava, o rosto de Olga desanuviava-se e os belos olhos marejados brilharam de novo.
Com ímpeto inerentes a crianças, ela subiu pulando no sofá; depois, abraçou-se ao pescoço de Supramati e apertou-se a ele com a sua face aveludada.
- Perdoe-me a ingratidão!
Eu esqueci que cada hora que passo junto a você vale, pelo menos, um ano inteiro de vida comum.
Não mais me lamentarei da morte, porque você não irá abandonar-me até o meu fim, podendo a minha alma aparecer para você.
Você vai me deixar que o visite frequentemente, não é verdade?
- Sem dúvida...
Serão os momentos mais felizes da minha vida solitária, querida.
Mas agora chega de tristeza.
Enxugue as lágrimas e não vamos anuviar com pensamentos sombrios a felicidade do presente.
Vamos usufruir as horas de ventura e paz – dádiva de Deus -, e, para que você se acalme, que tal dar uma volta no jardim?
A noite está maravilhosa e o ar fresco lhe fará bem.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:28 pm

Capítulo XXIV

A partir daquele dia Olga já não falava mais da morte.
Ela se sentia melhor e, além do mais, outros acontecimentos ocupavam a atenção e todos.
Algo de anormal acorria com a natureza. O ar tornava-se incrivelmente pesado, todos respiravam com dificuldade, sofriam de dores terríveis de cabeça, e houve muitos casos de morte repentina.
Até os satanistas ficaram alarmados, apesar das declarações tranquilizadoras de seus lúgubres líderes; o inferno – ladino com sempre – mesmo agora antegozava as hecatombes prestes a se desencadearem.
Não foi em vão que as emanações funestas dos malefícios, vícios, abusos, e os miasmas contagiosos de sabás, impregnaram o ar e romperam com o equilíbrio fluídico.
À semelhança da facilidade com que um inimigo se infiltra numa fortaleza através de brechas, a desequilibrada e profana atmosfera do planeta foi tomada de assalto por nuvens monstruosas e mortíferas de seres ávidos em saciar-se dos fluídos vitais das massas dos moribundos e de corpos em decomposição.
A cada minuto as forças caóticas desenfreadas, movidas por elementais, poderiam aniquilar com o último obstáculo que os detinha e desencadear catástrofes terríveis.
Debalde Supramati professava o retorno à forma decente de vida, explanava o mecanismo das leis fluídicas infringidas pelos homens, e vaticinava as calamidades medonhas como uma consequência daquilo.
O número de convertidos era reduzido e só os ensinamentos em sua escola esotérica apresentavam bons resultados.
Lá se formou um número significativo de seguidores enérgicos e convictos, e Supramati delegou-lhes a tarefa de circular pelo país, transmitir os conhecimentos à população e salvar aqueles que podiam ser convencidos, ensinando-lhes os abrigos seguros durante as hecatombes.
O trabalho de Dakhir e Edith teve melhores resultados, pois que os pobres e deserdados eram mais receptivos ao chamado de arrependimento e conhecimento de Deus do que os ricos e os poderosos; enterrados em ouro e embriagados de orgulho, eles consideravam-se acima de qualquer lei ou credo.
Certo dia, para grande desespero dos moradores e admiradores do mestre e benfeitor, Dakhir e a esposa desapareceram subitamente.
Eles retornavam ao seu palácio em Czargrado, levando a criança que nasceu durante a longa ausência daquela cidade.
A volta inesperada agitou a sociedade por alguns dias; mas, aparentemente, o grande interesse que outrora despertavam os ricos hindus havia arrefecido consideravelmente; os amantes das diversões prazerosas e orgias odiavam-nos, chamavam-nos de “charlatães”, “profetas de desgraças” ou agentes enviados por tolos que acreditavam em Deus para apavorar as pessoas.
Entretanto, os acontecimentos confirmando as predições do profeta indesejável começaram a suceder, bem antes que imaginassem.
Um furacão devastador estrondou pelo planeta; mal conseguiam se recuperar de uma desgraça sucedia-lhes outra.
Os vulcões que permaneceram quietos por séculos inteiros exibiram a sua actividade sinistra; terremotos rasgavam o solo.
Não foi uma única “Messina” que sucumbiu à chuva de fogo, às torrentes de água e granizo, soterrando sob seus escombros centenas de milhares de sacrílegos arrogantes que se insurgiram contra o seu Criador, achando-se gigantes, e que agora rolavam agonizantes, mais impotentes que míseros insectos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:28 pm

De chofre, sob o açoite férreo das forças enfurecidas, reviveu a fé, ao se perder qualquer esperança no auxílio e poder da ciência humana; as pessoas começaram a suplicar clemência e a chamar por Deus.
Como que por encanto, ressurgiram os símbolos sagrados, as estátuas e os ícones dos santos outrora venerados e esquecidos; procissões infindáveis descalças, portando velas e entoando hinos, percorriam cidades e aldeias; ou postadas de joelhos, as multidões oravam noite a fora em alguma igreja abandonada.
De seus lábios transmitiam-se relatos de que o Céu se apiedara, de que Deus se compadecera; contavam que em muitos locais as orações tinham tanta força, que sobre as multidões pairavam figuras límpidas, envoltas em largo clarão: a elas os elementos se submetiam por elas as correntes de lavas recuavam e as águas revoltosas retornavam aos seus leitos, salvando-se assim muitas cidades.
Não era sem razão que, por séculos, os homens eram levados a perderem o hábito de qualquer princípio moral condicionante; toda a crueldade da turba despertou com o pavor da morte impendente e voltou-se contra aqueles que ela considerava culpados da ira Divina.
Os covis satânicos entregaram-se, então, a destruição selvagem, e a seguir sobreveio à vez dos próprios luciferianos: qualquer um que fosse capturado.
Ao imaginarem que o sacrifício dos criminosos dissolutos aplacasse a Divindade enfurecida, as turbas acendiam fogueiras e queimavam vivos todos aqueles malfeitores.
A crueldade tresloucada das turbas enraivecidas não conhecia limites; por toda parte ardiam autos-de-fé e o odor nauseabundo da carne queimada contagiava o ar.
Por fim, a vez das calamidades públicas chegou a Czargrado.
De manhã o sol, sequer apareceu; o céu estava lúgubre e quase negro, o ar – pesado e sufocante.
Após dois dias de angustiante calor abrasador desabou uma chuva, cada vez mais forte, e logo já não era uma chuva, mas uma enxurrada de água torrencial como um dilúvio profetizado.
Em poucas horas as ruas da capital se transformaram em rios; as ondas espumosas arrastavam urrando os cadáveres e os destroços, enquanto a feroz ventania vinda do mar levantava montanhas de água e as açoitava sobre a infeliz cidade.
Supramati, Dakhir, Olga, Edith, as crianças e os empregados – todos se transferiram para uma torre alta, construída por ordem de Supramati.
Aliás, mos elementos poupavam, aparentemente, a moradia do mago; sofreram apenas os jardins e os andares inferiores inundados.
Do alto da torre, porém, divisava-se um quadro terrível de devastação e de natureza descontrolada; a tempestade aumentava e a inundação parecia não ter fim.
Estes dias terríficos tiveram um efeito malsão sobre Olga.
Sua fraqueza aumentara repentinamente um pouco antes das calamidades trágicas, e agora, a excitação nervosa e a visão dos acontecimentos nas ruas dilaceravam sua alma, causavam-lhe desmaios prolongados e muita fraqueza.
Na noite em que a tempestade parecia mais feroz e os rolares dos trovões abafavam, de tempos em tempos, até os uivos dos ventos e o barulho das ondas, Olga não conseguia pegar no sono.
De repente ela se levantou e agarrou a mão do marido que estava sentado na cama.
- Eu tenho um grande pedido para você, Supramati – sussurrou em voz suplicante.
- Atenderei antecipadamente a qualquer um, minha pobre pequenina. Você gostaria de ir embora daqui, não é verdade?
- Sim! – respondeu ela com os olhos brilhando.
Sinto que o meu fim está próximo e eu gostaria de morrer em paz absoluta no palácio do Himalaia, para onde você me levou certa vez no começo de nossa união e onde você me mostrou tanta coisa maravilhosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:28 pm

Eu queria rever aquelas magníficas salas envoltas em silêncio; os jardins com os chafarizes murmurejando suavemente e as floreiras aromáticas; o grande pátio com o elefante branco passeando – o Oríon.
Queria estar longe deste terrível caos; contemplar aquela divina e calma natureza com você ao meu lado, onde a sua voz não fosse abafada pelos urros dos elementos enfurecidos.
É horrível morrer aqui, em meio a estes silvos, trovões e todo o terror da morte e destruição...
Com os olhos marejados, Supramati inclinou-se sobre ela e a beijou.
- Seu desejo será atendido imediatamente.
Espere um minuto!
Ele saiu e logo retornou com uma taça cheia de um líquido vermelho e tépido, que Olga tomou e sentiu um bem-estar indescritível; alguns minutos depois ela adormeceu.
Ao abrir os olhos, no início ele pensou estar sonhando ou que a terrível passagem para o outro lado havia se consumado.
Não se ouvia nenhum barulho da tempestade, não se via o céu sulcado de raios, as ondas revoltosas não batiam mais nos muros das torres, até os seus ouvidos não chegavam os gritos de desespero.
Estava deitada num leito de seda na sala redonda com colunas de jaspe e lápis-lazúli; através de um grande arco, abria-se uma vista para o terraço e mais adiante se divisava a vegetação densa do vasto jardim.
Lá, a vegetação tropical abrilhantava-se em toda a sua exuberante grandeza e apenas um leve murmurejar do chafariz e o tilintar das risadas argênteas do filhinho quebravam o majestoso silêncio.
No tapete do terraço, seu filho e a filha de Dakhir brincavam com o cachorro e Supramati, vigiados por irmãs da comunidade; a alguns passos deles, o elegante branco parecia acompanhar, com seus olhos inteligentes, as brincadeiras das crianças; Olga contemplava fascinada aquela cena de paz, beleza e felicidade; mas o súbito pensamento de que ela deveria abandonar tudo aquilo e partir para o mundo desconhecido comprimiu-lhe o coração.
Aliás, ela não teve muito tempo de se entregar aos pensamentos tristes.
Supramati, Dakhir e Edith entraram na sala, sentaram-se ao seu lado e iniciou-se uma animada conversação.
Durante alguns dias, Olga passou em doce tranquilidade e, não fosse uma enorme fraqueza, ela se sentia bem.
Mas, certo dia, após o almoço, ela foi acometida de uma forte inquietação sucedida de desmaio.
Assustado, Supramati a carregou ao dormitório.
Ao abrir os olhos, Olga viu que estava sozinha; sentia um enorme cansaço e seus olhos vagavam angustiantes pelo quarto.
Onde estaria Supramati?
Neste instante a Corina se levantou e entrou o marido.
Ele estava em traje hindu e em seu peito fulgia em milhares de luzes a insígnia de mago.
Ele estava pálido e em seu belo rosto estampara-se uma expressão triste de sofrimento.
Sentando-se ao lado da moribunda e ao ver que esta tentava levantar-se, ele a ergueu e beijou.
Olga se apertou imóvel a ele.
- Supramati, você não vai incinerar o meu corpo? – sussurrou ela.
Eu tenho medo de fogo...
- Não, minha querida, não tema!
Nada será feito que possa entristecer a sua alma.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:28 pm

Você descansará aqui, no túmulo que eu preparei para você entre a exuberante vegetação que você tanto adora; lá você ficará em paz até a sua ressurreição, para depois me acompanhar ao novo mundo.
Trabalhe minha, adorada, para ficar pronta para o grande dia.
Neste ínterim chegou à babá trazendo o filho.
O pequeno mago já contava cerca de dois anos; era uma criança encantadora, de inteligência acima das crianças de sua idade, a fugir-lhe nos grandes olhos a expressão de brilhos dos imortais.
- Dê um beijo em nosso filho e o abençoe! – disse Supramati perturbado.
Como se entendendo as palavras do pai, o menino estendeu as mãozinhas em direcção à mãe, abraçou-a e algumas lágrimas rolaram em suas faces.
Aquilo era uma manifestação da alma consciente no corpo da criança, e Olga entendeu isso.
- Oh, Deus todo-poderoso! – murmurou ela, tremendo de perturbação.
Ele sabe e entende que esta se despedindo da mãe moribunda. Que mistérios me cercam.
Visivelmente exausta, ela se inclinou sobre o peito do marido, enquanto a babá se retirava com a criança.
Iniciou-se um solene silêncio. Uma paz profunda dominou Olga, ela se deliciava da bem-aventurança de ainda estar com Supramati e sentir o aperto cálido de suas mãos.
Ela não havia entendido o sentido enigmático do que lhe disse o marido.
Mas acreditava piamente em todas as palavras sua:
a sua alma o seguiria até o novo mundo, e isso era suficiente!
Neste ínterim, lágrimas quentes caíram-lhe no rosto; ela estremeceu e abriu os olhos.
Suas faces brancas purpurearam levemente e um raio de alegria límpida fulgiu em seus olhos.
- Supramati?
Você, um mago, lamenta e chora por mim?
Oh! Poderia eu lastimar-me da morte que me entrega todo o seu amor?
- Sim, Olga, eu choro porque sou um homem apesar da estrela de mago, e assim deverá ser; devo conhecer o gosto amargo das lágrimas e a dor lancinante da separação. Por acaso não chorou com lágrimas humanas a Virgem Maria, postada sob os pés do crucifixo?
O coração, minha querida, é a taça em que o Criador alojou o Seu sopro divino; o coração é um bem de todas as criaturas.
Desde o átomo até o arcanjo...
Nele se encerra a essência divina do amor, da piedade, do perdão e de todas as virtudes; ele é justamente aquele santuário, assediado pelo inferno.
Quanto maiores forem as chamas inflamadas pelo coração.
Mais rápido será a sua ascensão no caminho da perfeição...
Gostaria de ver Dakhir, minha querida? – acrescentou ele.
Ele que lhe dar uma palavra de consolo celestial.
Olga apertou-lhe a mão.
- É claro que quero entrar no mundo dos espíritos armada com toda a sua luz.
Que fim maravilhoso você preparou para mim, indigna, e como lhe sou grata, quando comparo com o fim de outros.
Neste minuto entrou Dakhir.
Ele trazia um cálice encimado por uma cruz.
Após Olga beber dele, Dakhir a beijou e saiu, deixando os cônjuges sozinhos naquele minuto solene.
Exausta, Olga adormeceu apoiada por Supramati; este inseriu o leito num círculo mágico para que os espíritos vagantes não pudessem se aproximar da moribunda nos últimos instantes e assustá-la com seu aspecto repugnante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:28 pm

Um silêncio profundo pairava em volta.
Era uma daquelas noites feéricas, quente e odorante, iluminada com luar suave.
Com lágrimas nos olhos e coração oprimido, Supramati não desviava o olhar daquela que agora partia; uma respiração mal visível soerguia o seu peito.
Subitamente, Olga endireitou-se com tal força, que dela não se suspeitaria.
- Supramati, eu estou com medo...
O que está acontecendo comigo?
Tudo parece se abrir em minha frente e eu estou sendo arrastada por uma rajada de vento... – soltou-se de seu peito.
Seu olhar entristecido deteve-se no rosto do marido.
Supramati ergueu a mão e, no mesmo instante, ouviu-se um canto suave e majestoso, enquanto sopros de vento aromático enchiam o quarto.
- É o canto das esferas!
Como é maravilhoso! – sussurrava a moribunda, enquanto ele a ajeitava no leito e colocava no peito dela a sua insígnia luzidia.
Feito isso, Supramati se levantou, ergueu ambas as mãos e pronunciou uma fórmula, Instantaneamente, do leito de Olga fulgiu, perdendo-se no espaço, um largo feixe de luz; dos dois lados daquela límpida trilha se ergueram vultos alados, brancos e diáfanos; atrás dos guardiões da luz apinhavam-se, envoltos em fumaça negra, seres monstruosos com caras deformadas e olhos que ardiam de ódio e hostilidade – eram os espíritos atormentadores, que normalmente se reúnem junto ao leito de morte.
Os acordes harmónicos tornavam-se cada vez mais audíveis; parecia que centenas de vozes se fundiam num coro maravilhoso e, neste minuto, bem no fim daquele caminho claro, surgiu um espírito iluminado num fulgor ofuscante.
Supramati colocou a mão na testa de Olga e pronunciou em voz autoritária:
- Espírito imortal, desvencilhe-se de seu invólucro perecível e volte ao nosso lar eterno!
Imediatamente na fronte e no peito de Olga inflamaram-se duas chamas tremeluzentes e de todo o corpo começaram a desprender-se colunas de faíscas.
A névoa reluzente densificou-se lentamente e tomou o aspecto de Olga, ainda mais bela na aparição celestial.
Seu olhar vago deteve-se em Supramati, que com os fachos ígneos cortava rapidamente os últimos fios que a uniam à carne.
Jamais, talvez, Supramati pareceu tão belo como naquele minuto, quando ele, sereno e autoritário, cumpria os seus sublimes desígnios de mago, prestando à sua amada o último apoio supremo.
O espírito de Olga ascendeu, vacilando por uns instantes sobre o leito de morte e, lançando um derradeiro olhar de amor infinito para Supramati, voou feito um floco de neve para as alturas, pela luz límpida que, em direcção ao espírito claro, parecia envolvê-lo em seu manto alvo. Depois, a aparição enuviou-se e sumiu.
Os braços de Supramati se soltaram e o seu olhar deteve-se no corpo exânime.
Branca como alabastro, Olga jazia tranquila como uma criança adormecida.
Supramati ajoelhou-se junto ao leito e mergulhou numa prece extasiada que levou a sua alma longe da terra, de suas desgraças, até o Ser infinito, que prodigalizava todas as venturas.
Enquanto ele orava, do espaço começaram a cair flores brancas cintilantes, pairando silenciosamente feito flocos de neve; o corpo de Olga cobriu-se por mortalha aromática, ficando descoberta apenas a cabeça em meio a uma névoa azul-celeste.
Quando Supramati se levantou, abriu-se a cortina e entraram as sete irmãs da ordem e Edith, trazendo uma coroa de flores fosforescentes sobre a almofada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:29 pm

As mulheres esfregaram o corpo com substâncias aromáticas e o vestiram numa túnica larga de um tecido prateado, fino como gaze, que reverberava as cores do arco-íris; em seguida, Edith colocou uma coroa na cabeça de Olga.
Quando a falecida ficou pronta, entrou Dakhir com sete cavaleiros do Graal trazendo velas acesas, seguidos de Nebo e Nivara carregando um caixão de sândalo, revestido por dentro com cetim branco.
Supramati ergueu o corpo, colocou-o com o auxílio de Dakhir no caixão e jogou em seu interior flores do espaço.
Dakhir realizou a turibulação, pronunciou uma prece e uma fórmula mágica, e a procissão partiu.
Todos carregavam velas e entoavam um hino.
Saindo do palácio, atravessaram os jardins e foram em direcção às montanhas.
Ali, numa rocha fora esculpida uma entrada, lembrando um pilar egípcio; atrás dela, estendia-se um corredor estreito que terminava numa gruta alta e com arcos, inundada em luz azul-clara.
O caixão foi deixado num nicho fundo de três degraus.
Embaixo destes havia quatro trípodes de bronze, onde ardiam crepitando substâncias resinosas, espalhando uma fragrância vivificante.
Todos os presentes se postaram de joelhos e entoaram uma oração; em seguida, um a um, levantaram-se e saíram.
Supramati ficou só.
Cruzando os braços, ele se recostou à coluna e o seu olhar se fixou no belo rosto da mulher, única que o amara. Olga parecia estar dormindo.
Ele mergulhou em suas reflexões tão profundamente que não ouviu um leve ruído harmónico e só o encostar da mão de alguém o fez voltar a si.
Ao seu lado estava Ebramar.
Em sua mão reluzia a espada mágica e nos lábios vagava um sorriso bondoso.
- Querido discípulo, eu vim para dizer que você suportou com dignidade a tarefa imposta.
Você foi homem em pleno sentido da palavra, sem deixar de ser mago.
Misturou-se à turba humana e amou as pessoas, apesar dos vícios que lhe provocavam aversão; enfrentou corajosamente a dura luta interior.
Para o altar do mago você trouxe em sacrifício o seu coração; resignado, como um simples mortal, oferecendo à grande lei o que lhe era mais caro.
Por esse grande triunfo sobre si, receba agora o segundo facho de mago.
Tanto você como Dakhir trabalharam correctamente e ele terá a mesma recompensa.
Muito emocionado Supramati se pôs de joelhos; Ebramar apoiou sobre ele a espada mágica e da sua fronte inflamou-se o segundo facho.
Depois de erguê-lo, abraçou e cumprimentou-o.
- Agora vamos conversar sobre os seus futuros estudos – acrescentou ele.
Eu sei que vocês gostariam de passar algum tempo junto aos hierofantes da pirâmide.
Aprovo tal ideia. Lá encontrarão muita coisa para seu aprendizado.
Irei visitá-los com frequência, além disso, um novo lugar não irá incitar recordações penosas.
- Agradeço mestre.
Gostaria de fazê-lo o mais rápido possível.
Sinto grande necessidade de ficar sozinho; nada mais me une ao mundo exterior.
Meu filho, eu sei, está em boas mãos, e o meu coração ainda sofre da dura perda; assim, o trabalho irá restabelecer o meu equilíbrio espiritual – concluiu Supramati em tom triste.
Pela derradeira vez ele se despediu da amada e orou.
Cobrindo o caixão com um grande manto de gaze, borrifou o nicho e as paredes com o líquido do frasco, e ambos saíram da gruta.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:29 pm

Supramati fechou com o seu sele a porta de entrada e pronunciou uma fórmula mágica; um minuto depois, uma névoa cinzenta cobriu a entrada ao túmulo.
A pilastra pareceu se embutir na parede, e, quando a Corina nevoenta se espalhou, a rocha parecia intacta.
Em passadas lentas eles se dirigiram ao palácio.
Ao retornarem da gruta,
Dakhir sentou-se no sofá e fez um sinal para que Edith se sentasse ao seu lado.
A jovem esposa olhou para ela alarmada e fixamente:
ela não se lembrava de tê-lo visto assim, tão pálido e preocupado.
- O que há com você? – indagou.
Dakhir puxou-a com ímpeto para si e a beijou.
- Minha querida, tenho uma coisa importante para lhe contar.
Sei que será tão difícil para mim como para você, mas você sempre foi tão forte e valorosa que acho que será também agora:
devo dizer-lhe que chegou a hora de nossa separação.
Edith empalideceu como cadáver.
- Separar-nos?
Será que devo morrer da mesma forma que Olga? – balbuciou ela, apertando as mãos contra o coração disparado.
- Oh, não! Você não vai morrer.
Acho que está na hora de explicar-lhe tudo.
Você nunca me perguntou do passado, quem sou eu e de onde vim.
Agora saberá de tudo.
Ele relatou-lhe resumidamente as aventuras de sua misteriosa existência.
- E assim, sou um cavaleiro do Graal – da Távola Redonda da Imortalidade -, o que significa que sou imortal.
Depois de conhecê-la e ter-me apaixonado por você, eu lhe dei a substância primeva, e assim você é tão imortal como eu.
Se errei, impondo sobre você uma carga por demais pesada, perdoe-me, querida – o mal está feito.
Mas creio que a sua alma valorosa suportará a provação.
Sou obrigado a retornar ao silêncio e isolamento para continuar na busca do conhecimento perfeito, enquanto você deverá ingressar na comunidade de nossas irmãs imortais, onde sob a direcção das magas, você conhecerá os mistérios dos seres e das coisas. É grandioso e rico o campo desse trabalho, pois as belezas da criação são infinitas.
Não tema o tempo, pois ele só amedronta pessoas ociosas, que contam assustadas as horas de sua vida inútil, angustiadas com o pavor da morte.
Para um iluminado, o tempo não existe.
Se Entregue ao trabalho, ele veleja incansável pelo mar do conhecimento, tão rico em descobrimentos.
Devo lhe dizer: não estivesse convencido de sua capacidade de atravessar os degraus da iluminação, eu não lhe teria dado o elixir da longa vida.
Se você souber suportar condignamente as inevitáveis provações, nós nos encontraremos no grandioso minuto da morte do planeta, quando iremos nos juntar pela última vez com os homens.
Edith ouvia atenta e trémula.
Pelas suas faces escorriam lágrimas amargas.
Abraçando-se, de súbito, ao pescoço do marido, ela apertou-se ao seu peito e começou a chorar convulsivamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:29 pm

- Chore pobre Edith, solte as lágrimas; elas fazem parte da nossa fraqueza humana – disse emocionado Dakhir.
Para mim esta hora é também muito dura e o meu coração esvai-se em sangue só de pensar na separação; mas nada posso fazer para deter o destino que me impele para frente.
Edith aprumou-se.
Caindo de joelhos, encostou os lábios à mão de Dakhir e ergue para ele os olhos azuis, brilhantes em êxtase.
- Não, eu não quero ser fraca, muito menos tornar ainda mais difícil esta hora; não quero ser ingrata por tudo o que você já me fez.
Você é o senhor da minha vida e, assim, ordene:
eu obedecerei, pois quero estar digna de você naquele minuto de que você me falou.
Devo estar pronta para lutar ao seu lado.
Nada no mundo irá nos separar.
Eu conheço o poder do pensamento, a minha alma voará par perto de você e o verei no arrebatamento do êxtase, tal qual eu o vi socorrendo os santos e puros espíritos.
Então, vá em paz ao seu retiro e trabalhe meu querido cavaleiro do Graal!
Quanto maior for a sua luz e mais perfeito for o seu conhecimento, tanto mais orgulhosa ficarei de você.
E agora me diga quando deverei ingressar na comunidade.
Dakhir ouviu-a em silêncio e seus olhos brilharam de amor e gratidão.
- Obrigado por sua resposta corajosa! – exclamou abraçando-a.
Devo confessar que tinha medo de enfrentar esta explicação e o seu desespero; ao passo que com sua firmeza, você diminuiu pela metade a angústia da separação,
Vamos agora falar com Ebramar e Supramati para decidirmos juntos os detalhes.
- Estou pronta.
Permita-me apenas mais uma pergunta.
O que será de nossa filha?
Deixarão que eu cuide dela?
- Sem dúvida!
Posso garantir que você manterá todos os seus direitos de mãe sobre ela.
- Eu gostaria que também me confiassem o filho de Supramati; serei a mãe de ambos – a assegurou emocionada;
Ebramar e Supramati andavam pela sala conversando, quando entraram Edith e o marido.
Dakhir caminhou até Ebramar e colocou em suas mãos a mãozinha da esposa.
- Mestre, eu lhe trago a noviça e confio-a a sua protecção. Tenho certeza de que ela será digna de você – acrescentou, mal contendo a emoção.
- Ela será bem-vinda, e cuidarei como um pai deste tesouro que você me confia – declarou Ebramar, impondo a mão sobre a cabeça de Edith.
Depois de discutirem o futuro, decidiram que os amigos partiriam naquele mesmo dia, e, já no outro, Ebramar levaria Edith com as crianças para uma das escolas da comunidade secreta.
Dois dias depois da emocionante despedida de Edith, das crianças e de Ebramar, a aeronave de Supramati levava os magos para Czargrado, onde eles tinham de acertar ainda alguns assuntos antes de desaparecerem da arena mundial.
A enorme cidade, que em algumas semanas anteriores ainda era alegre, rica e cheia de vida e animação, apresentava-se agora como uma imensa e melancólica ruína.
O furacão é verdade, havia amainado, as águas borbulhantes haviam retornado a seus leitos e o sol brilhava intensamente como se nada tivesse acontecido, inundando com os raios vivíficos a terra devastada e a população, tão cruelmente punida pela ira Divina.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:29 pm

Os vales que cercavam a capital eram um pântano só, de água parada, que a terra ainda não conseguira absorver; a maioria das estufas estava destruída, uma parte substancial de casas estava em ruínas, outras, com as portas e as janelas quebradas, pareciam enormes esqueletos.
As vítimas se contavam em milhares; não obstante, os que sobreviveram às hecatombes, com a teimosia própria dos humanos, retornavam aos seus lugares de assentamento para consertar, reconstruir e recuperar aquilo que fora danificado ou destruído pelas forças da natureza.
Acabrunhados, entraram Dakhir e Supramati em seus palácios, que por uma estranha casualidade muito pouco sofreram devido à inundação.
Mas para ambos, as maravilhosas edificações eram tão monótonas como um deserto desabitado, pois tudo nelas os fazia lembrar de duas jovens e belas mulheres, cuja presença lhes animou a vida e que para lá nunca retornariam.
Os seus corações ainda se esvaíam depois da separação de Olga e Edith; eles não viam a hora de se entregarem ao trabalho árduo e difícil que lhes restabeleceria o equilíbrio emocional.
Foi com muita energia que começaram a resolver os assuntos pendentes.
Ambos os palácios deveriam ser adaptados para abrigos: um para órfãos, outro para idosos, que ficaram sem tecto depois das tragédias. Foram separados recursos monetários para a manutenção e até para ampliação de ambas as instituições; a administração dos bens e dos abrigos ficou a cargo de Nebo e Nivara.
Era uma noite calma e clara.
Feito uma cúpula azul pontilhada de estrelas, a velha terra do Egipto abraçava o céu.
Tal como nos velhos tempos, erguia-se o enigmático testemunho do passado impenetrável:
a esfinge. O velho colosso resistiu às tempestades, da mesma forma como sobrevivera há milhares de séculos.
Em seu redor, o furacão recolocou tudo no lugar a tinta e o ouropel; varreu da cabeça honorável o chapéu de palhaço e o restaurante; destroçou as instituições bancárias e as casas de diversão; arrancou com raiz e tudo os bosques de palmeiras.
Tal como antes, até onde podia enxergar o olho humano, em volta se estendia o deserto; nem música barulhenta, nem canções festivas quebravam o majestoso silêncio da natureza adormecida.
A aeronave desceu silenciosamente perto da grande pirâmide.
De lá saíram quatro homens, dois dos quais estavam em quitons Alves de cavaleiros do Graal; por baixo dos seus elmos alados reluziam chamas douradas.
Eram Dakhir e Supramati; o terceiro era Narayana.
Ele ficou de bem com a irmandade e novamente foi aceite em seu meio, tendo expressado o desejo de trabalhar na sede da comunidade, enquanto a ordem não fosse restabelecida no planeta – sobretudo nas capitais, visto ser avesso à vida sem as devidas comodidades.
Ele quis acompanhar os seus amigos até o novo local da permanência deles.
O quarto viajante era Nivara, que muito se afeiçoou a Supramati.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 30, 2016 7:30 pm

Chorando copiosamente, ele caiu de joelhos e dele se despediu. Supramati o abençoou, e lhe desejou muita força e coragem para as provações do futuro, depois o ergueu e beijou.
- Agradeço meu filho, pela fidelidade e dedicação!
Venha logo para ser meu discípulo; você sempre encontrará em mim um amigo e conselheiro.
Depois Supramati e Dakhir abraçaram Narayana, muito emocionado.
Apertando pela última vez as mãos dos amigos, os magos dirigiram-se à entrada da pirâmide; Narayana e Nivara embarcaram na nave.
- Uma ascensão mísera ao objectivo desconhecido – resmungou Narayana, e lágrimas ardentes brilharam em suas faces.
Nesse ínterim, Dakhir e Supramati entravam nas galerias secretas, cuja soleira jamais foi traspassada por um profano. Junto aos degraus do canal subterrâneo, por eles aguardava um velho barco com dois remadores egípcios, que os saudaram com reverência.
Os magos ficaram em pé abraçados e olhando pensativos para o longo canal, em cujas águas lisas deslizava silenciosamente o barco a levá-los para um novo trabalho e outras descobertas no campo desconhecido do conhecimento infinito e perfeito...

São Petersburgo
1909

§.§.§- O-canto-da-ave
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