Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 7:48 pm

Ele tirou detrás do cinto um bastão e começou a girá-lo no ar; feixes de fagulhas caíram dele em cascata.
De repente, sentiu-se uma forte rajada de vento; sua tépida corrente vermelho-ígnea agarrou os três e começou a arrastá-los com tal velocidade estonteante, que Supramati achou que ia se sufocar.
Quanto tempo voaram naquela velocidade extraordinária, ele não teria condições de dizer.
Quando a velocidade diminuiu, Supramati divisou embaixo de si uma cidade que se espalhava ao longe.
As ruas e os telhados estavam cobertos de neve; numerosas igrejas erguiam em sua direcção cúpulas douradas, encimadas por cruzes, e as largas faixas de luz faziam ficar em destaque aqueles abrigos sagrados da humanidade em meio aos prédios que os rodeavam.
Os viajantes do espaço desceram à terra junto a uma pequena capela repleta de fiéis, e envolta numa luz tão intensa, que parecia incendiar-se.
Em altos castiçais de prata ardia uma infinidade de velas.
Algumas delas eram circundadas por uma larga faixa dourada e as velas ardiam vivamente, suas chamas esticavam-se e parecia fundirem-se com o foco de fogo e luz no fundo da capela; outras velas ardiam toscamente, crepitavam e a cera derretia-se para fora.
No centro do foco de luz podia ser visto um grande ícone sob uma guarnição de ouro, incrustado de pedras preciosas, e da antiga pintura sobressaia-se o semblante de beleza celestial, respirando misericórdia divina e tristeza contemplativa.
Os olhos, incrivelmente vivos, fitavam compenetradamente a multidão genuflexa com uma expressão de amor e pena indescritíveis.
E, para cada um que se aproximasse do ícone, o olhar radioso lançava um jacto ígneo que perpassava, aquecia e fortificava o fiel naquela morada de luz celeste, calor e harmonia.
- Vocês vêem aqui uma das imagens da Virgem Santíssima! – disse Ebramar, pondo-se de joelhos diante do ícone.
Ambos os discípulos seguiram-lhe o exemplo e de suas almas elevou-se uma prece ardente à Consoladora de todos os que sofrem e choram no vale de lágrimas e clamam por Sua misericórdia.
Quando eles entraram, uma nova multidão de homens, mulheres e crianças, ricos e pobres, sem distinção de posição social, irrompeu na capela; logo apareceu o sacerdote e teve início um Te-déum conjunto.
À medida que a prece, conforme a pureza moral do fiel ascendia-se menos ou maus em brilhantes espirais douradas, presenciava-se um espectáculo extraordinário.
No centro da luz que envolvia o ícone fervilhava crepitando uma espécie de lava, da qual se desprendiam largas ondas de chamas multicores, caindo sobre as cabeças abaixadas reverentemente, deixando nelas claras manchas fosforescentes.
Toda a capela parecia estremecer sob as poderosas vibrações da extraordinária harmonia, que não se constituía de nenhuma determinada melodia, mas que era a conjugação dos mais eficientes acordes que se fundiam numa tempestade de consonâncias: aquilo eram as vibrações da prece conjunta.
- Vocês vêm, meus amigos, o grandioso mistério da força divina, avocada e trazida pela prece humana.
Ela cura, fortalece, renova, oferece tempo para esquecer as paixões e infortúnios terrenos.
Vejam: alguns choram, outros parecem subitamente acometidos de perspiração; essa é a tépida e pura irradiação do bem que expulsa do organismo os miasmas nocivos – observou Ebramar, quando eles saíam da capela.
Junto da entrada, Ebramar deteve-se de repente e apontou com o dedo para um homem jovem, muito magro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 7:49 pm

Ele caminhava cabisbaixo, olhando para o chão, e em seu rosto, mortalmente pálido, congelara-se a expressão de ódio furioso.
- Olhem para aquele homem.
Ele está prestes a acabar com a vida; em seu bolso ele carrega um frasco de veneno.
Faltam-lhe forças e vontade de levar sua existência, enfrentar os problemas cotidianos e a matilha de demónios que o molestam.
Olhem como as sombras negras pairam sobre ele, sugerindo-lhe rancor, atiçando amargura e aversão à vida.
Mas não foi fortuitamente que o espírito-protector desse coitado o trouxe a esta fonte de salvação.
O mago ergueu a mão, e por debaixo dela fulgiu um raio brilhante de luz.
O desconhecido parou como se fulminado por um golpe; o bando do inferno começou a recuar, sibilando e contorcendo-se.
Um raio dourado envolveu feito uma serpente o desconhecido e arrastou-o junto da capela, que ele adentrou praticamente inconsciente e, sufocando-se em correntes puras, agudas e penetrantes, ele caiu pesadamente sobre o chão.
Por alguns minutos ele permaneceu aturdido, exausto, como se paralisado.
Mas os olhos de Nossa Senhora já estavam voltados piedosos para o infeliz; correntes de luz e calor jorravam atingindo seu corpo, perpassando-o com fagulhas, e dele começou a sair uma fumaça negra, que espargiu em chuva de espinhas multicores, estourando e espalhando mau cheiro, imediatamente abafado pelo ar puro da capela.
À medida que se purificava o seu organismo, diminuía a sua apatia mortificativa, e o olhar baço e exausto do infeliz deteve-se no semblante da Virgem Santíssima.
Pausadamente, denotando esforço, pronunciou uma oração; levantou quase maquinalmente a mão e persignou-se por três vezes.
Imediatamente diante dele e ao seu lado, surgiram três crucifixos fulgurantes e ele foi envolto numa branca névoa brilhante.
Ao verem tudo aquilo, os demónios que se apinhavam junto da saída agitaram-se zumbindo, assoviando e lançando fluídos fétidos.
Eles sabiam que a vítima lhe havia
Escapado e, quando p infeliz saiu da capela, arremessa furiosos sobre ele, mas já estavam impotentes ao darem de encontro com as cruzes, iluminando o caminho do pecador e protegendo-o juntamente com o espírito puro que para ali viera.
A matilha negra de demónios recuou; e, um pouco depois, o desconhecido tirou o frasco com o veneno e o quebrou jogando ao chão. Sob a sua fronte pairava uma tremeluzente luz.
- Ele já não mais perecerá, pois adquiriu a fé, e esta couraça faz com que um homem seja invulnerável – disse Ebramar.
Os três viajantes invisíveis se alçaram ao espaço. Um sorriso de satisfação iluminava o rosto do mago: ela acabava de orientar uma alma humana.
- E para onde iremos agora, mestre? – indagou Supramati.
- Vamos até um dos maiores e magníficos protectores deste infausto país, contra o qual o inferno está conduzindo agora uma invasão cruenta.
Desta vez foram suficientes apenas alguns minutos para eles chegarem ao destino.
Avistaram um muro dentado e as cúpulas douradas de um antigo mosteiro.
Os viajantes invisíveis entraram num amplo templo de paredes maciças.
À esquerda da porta sagrada, sobre uma elevação, erguia-se o sepulcro de um santo, junto à cabeceira do qual se postavam em fila alguns monges.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 7:49 pm

Mas lá não repousa nenhum finado, às relíquias do qual se reverenciava; sob o sepulcro avolumava-se a figura alta e majestosa de um ancião.
Uma imensa claridade envolvia sua cabeça e dele partiam favos de brancura e brilho ofuscante, reluzindo feito a neve sob o sol, subiam com asas enormes, perdendo-se nas alturas das abóbadas.
Erguendo as mãos sobre aqueles que dele se aproximavam, o espírito inundava-os com luz prateada.
Ebramar também se pôs reverencioso de joelhos e obteve em troca uma corrente de respingos dourados, que imediatamente foram absorvidos pelo corpo puro e límpido do mago.
- É difícil a missão desse grandioso espírito! – observou Ebramar.
Graças a sua pureza, sabedoria e força, ele poderia ter se elevado às esferas radiantes; no entanto, permaneceu, voluntariamente, acorrentado a terra, a esta atmosfera pegajosa cheia de miasmas, e, a cada minuto, é obrigado a se tocar com todas as chagas humanas.
Mas o grande amor ao povo, no meio do qual ele vive, infunde-lhe tanto compadecimento profundo, tal quantidade inesgotável de misericórdia, que o seu fardo não lhe parece penoso.
Vejam como ele sem cessar ou cansar-se verte sobre todos que se aproximam a radiação vivifica e giratória.
Sua força é incrível, e tudo ao redor está inundado de luz; até o óleo que queima nas lamparinas junto ao sepulcro está saturado de luz e aromas milagrosos.
De facto, que boas-vidas felizardos nós somos em comparação com ele!
Nós fugimos das trevas, de qualquer contacto com o impuro; nós estudamos e saboreamos na quietude de nossos palácios as maravilhas da ciência, enquanto que ele, que poderia estar gozando de todos os esplendores das esferas superiores, da harmonia e tranquilidade da plenitude da bem-aventurança de um justo, permanece aqui.
Nada consegue abalar a sua misericórdia infinita; ele cura e fortalece, e o seu ouvido, tanto como o coração, está aberto a todos que lhe levam os seus pecados, dúvidas, desgraças ou esperanças.
Ele chora e ora com eles, dá-lhes apoio, incute neles a vontade de viver para que possam levar até o fim sua provação terrena.
Como somos insignificantes diante destes grandiosos espíritos que se sacrificam em prol da humanidade, protegendo-a da malícia e do ódio de demónios, que não respeitam até esses espíritos em seus ataques!
Se os homens soubessem o quanto poderiam ajudar esses amigos e protectores de cima, chamados de santos, se eles vissem a força que existe na oração, não pereceriam tantos infelizes.
- Mestre, e o arrependimento e a oração após a morte por acaso não conseguem salvar uma alma? – perguntou Dakhir.
- Sem dúvida que podem.
Por meio da prece e do arrependimento foi salvo um número incontável de almas; só que, para aquele que caiu no fosso, é necessário ter muita paciência para sair dele, e nem todos são fortes.
Sobre essas almas hesitantes, pecaminosas, normalmente caídas em desespero, lançam-se furiosos os espíritos do mal e atraem-nas seduzindo com encantos de uma vida luxuosa, impunidade de crimes ou gozo de tudo que se constitui de prazer para uma alma devassa.
Com muita frequência, esses espíritos se tornam servos do inferno e por longos séculos desviam do caminho translúcido do aperfeiçoamento.
Isto serve para explicar um trecho no Evangelho, que, para um ignorante, perece ser injusto:
“Haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento”.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 7:49 pm

- Durante minha última estada entre as pessoas, observei que o espírito religioso se extinguia cada vez mais e mais; o que vai acontecer se um sentimento tão imprescindível, como a fé, desaparecer por completo na humanidade? – indagou Supramati.
- Naturalmente que a primeira consequência disso para a humanidade será um enorme aumento da criminalidade; e à medida que os homens avançarem no caminho de vícios, crimes e outras torpezas, a espécie humana vai se desfigurar, degenerar-se e diminuir rapidamente.
Por outro lado, em proporções terríveis crescerá aquela úlcera do mundo invisível, a qual, já presentemente transforma a primeira camada atmosférica num verdadeiro purgatório – se não num inferno – para qualquer espírito que abandonou o seu corpo.
Falo de exércitos de abortados, de espíritos infelizes que estão pregados à atmosfera terrestre.
Introduzidos na carne pela lei cósmica da reencarnação e, mais tarde, sendo arrancados à força desse meio durante a formação do corpo físico, eles permanecem no espaço com o astral coberto por uma espécie de grosso invólucro, juntamente com seus fluídos vitais, acumulados durante um expressivo número de anos de existência terrena. Então ocorre para o espírito uma situação muito estranha e penosa; o corpo astral, ao nutrir-se com estas reservas vitais, que ficaram sem uso, cresce, desenvolve-se de uma forma artificial, e torna-se uma espécie de anfíbio – semi-homem, semi-espírito; pregado, entretanto, a terra e sentindo as necessidades terrenas.
Esses seres se transformam normalmente em demónios, a espreitarem os homens e animais para sugar-lhes a força vital; às vezes, eles se imantam em uma pessoa viva para saciar-se com ela dos prazeres carnais. Sendo espíritos geralmente possessivos e maléficos, eles empurram o homem para o crime ou levam-no a sofrer uma desgraça, catástrofe, etc., para saciarem-se de sangue derramado, cujo cheiro os inebria e proporciona um prazer indescritível.
O povo em sua intuição infalível chama-os de quiquimoras; mas as pessoas nem imaginam o terrível poder dessas criaturas larvais e vampíricas.
Bem, meus filhos, agora a caminho!
Está na hora de voltarmos – acrescentou Ebramar.
E suavemente, feito nuvens carregadas por vento, todos os três se dirigiram ao palácio isolado no Himalaia.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 17, 2016 7:49 pm

Capítulo IV

Ebramar foi embora e os discípulos começaram o trabalho com novo ímpeto.
Agora eles se dedicavam, sobretudo, ao desenvolvimento da visão, olfacto, audição e tacto; surpresos, convenciam-se de como se ia desenvolvendo, aos poucos, os sentidos, até então desconhecidos para eles.
Diante de seus olhos, agora abertos, descortinava-se a vida misteriosa de seres vivos e da natureza.
Eles podiam ver, sem nenhum esforço, como as corporações de espíritos-operários aspiravam no espaço os eflúvios vegetais nutritivos; já podiam observar o emurchecer ou a morte de plantas, seus olhos podiam distinguir a macha escura absorvendo a última gota da matéria primeva que se depreendia de um organismo vegetal.
Não com menor interesse estudavam todas as fases de encarnação de animais – esses irmãos menores do homem – cuja língua eles aprenderam.
Finalmente, o estudo das inúmeras propriedades do elixir vital e das diversas formas de sua utilização apresenta-lhes como um campo infinito de trabalho.
Essa actividade mental apaixonante os absorvia tanto, que eles não tinham, praticamente, uma vida particular.
Certa vez, quando estavam descansando no terraço após um trabalho particularmente exaustivo, Dakhir perguntou de chofre:
- Quanto tempo você acha que passou desde que nós chegamos aqui?
Deve ter passado bastante.
- Oh, claro. Mas para que contá-lo?
Somente a humanidade ordinária conta os anos pífios de sua vida efémera, a metade da qual, alias, ela passa dormindo, comendo e pecando.
O tempo não tem nada a ver connosco – respondeu sorrindo Supramati.
- Em sua última visita, Ebramar disse que nossos conhecimentos avançaram tanto, que nos permitem testá-los na prática – observou Dakhir após um breve silêncio.
Mas confesso que isso me deixa nervoso. O que ele vai querer que a gente faça:
A que prova nos submeterá?
Não poderá acontecer que nossos sentidos e paixões, que julgamos dominados, despertem novamente e comecem a nos atormentar?
Supramati suspirou.
- Você tem razão.
Por certo teremos pela frente várias batalhas morais.
Em cada um de nós, o “mundano” está profundamente enraizado.
Mas para que sofrer por antecipação?
O mistério terrível do nosso extraordinário destino ordena que avancemos e é o que vamos fazer.
Ele estendeu a mão ao seu colega de infortúnio e labor; o outro a apertou calado.
Dois dias depois dessa conversa, quando estavam terminando o frugal almoço, eles viram um barco aproximando-se.
No início acharam que era Ebramar, mas depois viram que eram dois adeptos desconhecidos.
Após atracarem, eles foram até o terraço e apertaram as mãos dos exilados, que os receberam cordialmente.
Eram dois jovens belos; em seus olhos espreitava-se uma expressão de profunda introspecção, o que fazia trair-lhes o fardo secular.
- Viemos buscá-los irmãos – disse um dos adeptos.
Vistam seus melhores trajes e dentro de uma hora partiremos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:19 pm

- E para onde iremos? – indagou Supramati.
- Para a reunião de irmãos – respondeu o enviado.
Uma hora depois, Dakhir e seu amigo já se estavam acomodando no barco.
Trajavam agora vestes solenes; do pescoço pendia um amuleto de substância primeva, seus dedos eram ornados com o anel dos cavaleiros do Graal.
Tomando o mesmo caminho pelo qual vieram ao palácio, eles retornaram à gruta da fonte da vida eterna.
Desta vez uma numerosa multidão reuniu-se em um semicírculo junto da rocha onde estava o cálice.
De um lado postavam-se os homens, de outro – as mulheres, cobertas por véu,
No centro, diante do cálice, estava Ebramar, que com um sinal chamou para junto de si Dakhir e Supramati.
Logo, todos os presentes entoaram um cântico em coro, e a maravilhosa melodia pela primeira vez, impressionou-os profundamente.
Quando os últimos poderosos acordes silenciaram, Ebramar teve a palavra e em seguida recitou uma oração, pedindo que o Ser Supremo desse força, coragem, paciência e protecção a todos ali reunidos, para que eles pudessem percorrer sem vacilar o caminho espinhoso de seu estranho destino, traçado pelo Pai Celeste.
Prostrando-se de joelhos, todos proferiram um agradecimento, reverenciaram a fonte da vida e a seguir foram para uma ampla gruta contígua, no fundo da qual estava uma mesa posta com cadeiras em volta.
Mas antes de sentarem, todos se misturaram, procurando por seus amigos e conhecidos, há muito tempo não vistos.
Supramati saiu cumprimentando alguns cavaleiros; mas nisso, seu coração palpitou intensamente.
Uma das mulheres, retirando o véu, aproximava-se sorridente em sua direcção. Era Nara.
Emocionado, Supramati abraço-a fortemente e a beijou.
Ela parecia ainda mais bela.
Em sua leve e fosforescente túnica brilhante, envolta em cabelos dourados, ela lembrava uma aparição angelical; seus olhos exprimiam um amor tão ardente, profundo e puro, que o coração de Supramati se invadiu de indescritível deleite.
Que surpresa inesperada em revê-la, minha querida – sussurrou ele.
Esta felicidade recompensa todo oi meu trabalho e o longo tempo da separação.
- Ingrato! – exclamou Nara sorrindo.
Será que você não tem ouvido a minha voz nem sentido o meu hálito em seu rosto.
As nossas almas nunca se separaram.
Mas confesso que sinto uma imensa alegria em revê-lo pessoalmente.
Depois do almoço teremos muito tempo para conversar agora de um abraço em Nurvadi e seu filho.
Olhe, eles estão vindo para cá.
Perturbado, Supramati dirigiu-se ao encontro da bela indiana que se aproximava em companhia de um jovem de cerca de dezoito anos, os imensos olhos negros fitavam o pai com alegria e amor.
- Sandira, minha querida criança!
Estou feliz em saber que as consequências do meu acto ignorante e criminoso vão se atenuando aos poucos.
Você e quase um adulto – exclamou Supramati em meio a uma forte emoção.
- Sim, estou crescendo rapidamente e daqui a uns dez anos terei bigode – disse Sandira prazenteiro.
Não se censure, querido pai – ajuntou ele, beijando a mão de Supramati.
Em seu grande amor por mim, temendo perder-me, você me deu de beber o elixir da imortalidade, sem calcular que a dose era muito grande para uma criança de colo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:19 pm

Mas isso é perdoável e Deus me livre de censurá-lo.
Além disso, o seu descuido proporcionou-me um bem valioso; a protecção e amor de Ebramar.
Ele dirige os meus trabalhos, orienta-me e toma conta de mim como se eu fosse o filho dele; e você sabe muito bem o quanto é bom ficar sob o amparo de um espírito tão excelso.
A conversa foi interrompida com o convite para o almoço.
Com curiosidade compreensível, Supramati pôs-se a examinar os presentes e a mesa.
Decorada com muito luxo, pelo visto muito apreciado pela irmandade misteriosa.
A louça, os aparelhos, os cestos – tudo era de metal precioso; gravadas com incrustações e acabamento em esmalte- todas aquelas amostras de obras de arte tinham um quê especial, eram de estilo desconhecido e, aparentemente, antiquíssimas.
Quando as pessoas presentes faziam parte de diversas classes da comunidade secreta; contudo, naquele repasto fraterno não se observava qualquer distinção hierárquica.
Cavaleiros do Graal tomavam assento ao lado dos magos superiores, irradiando fulgores difíceis de serem aguentados.
Não lhe fugiu da observação o facto de que as cabeças dos adeptos, inclusive as de Dakhir, também estavam envoltas em fachos radiosos.
Sem condições de verificar se o mesmo ocorria com ele, concluiu que a sua mente pura e desenvolvida também emanava idêntica luz – o que o deixou muito feliz.
O almoço em si, apesar do serviço luxuoso, era bem frugal.
Consistia de arroz e vegetais, pães de mel e uma espécie de geleia cinzenta e cheirosa, ainda não experimentada por Supramati.
Esse estranho manjar foi servido em minúsculos pires, em bolinhos do tamanho de uma noz.
Ao saboreá-lo, Supramati sentiu um calor vivificante; todo o seu ser parecia dilatar-se, encher-se de misteriosa energia e concentra uma enorme força de vontade e sede de actividade.
Após o almoço, todos entoaram uma oração de agradecimento e, divididos em grupos, espalharam-se em grutas adjacentes.
Numa dessas, Supramati ficou com Nara, Nurvadi e Sandira.
Só então ele examinou atentamente a jovem indiana.
Ela parecia rejuvenescida e os seus grandes olhos, de expressão humilde e meiga, irradiavam a luz de uma mente desenvolvida.
- Você não está desiludida com sua nova vida, não se lamenta do passado, Nurvadi? – perguntou ele amistoso.
Nurvadi corou.
- Não, eu estou feliz!
Trabalho e estudo e com as descobertas científicas no campo da criação não há tempo para tédio. Sandira tem-me visitado com frequência, o que me proporciona muita alegria; só não paro de pensar em você, a quem devo toda a minha felicidade.
Mas agora o meu amor por você é outro.
Os receios de ciúme e os desejos terrenos já não me atormentam; a paz e a harmonia reinam em meu coração e eu o adoro como a um génio protector – concluiu ela, apertando aos lábios as mãos de Supramati.
Sandira também falou de si e logo se entabulou uma animada conversa em que Nara trocou, com o marido, as impressões sobre os trabalhos científicos.
- Está ouvindo o sino? – indagou ela.
É o sinal de que o nosso encontro chegou ao fim.
Ficaremos separados carnalmente por um longo tempo.
Segundo Ebramar, você e Dakhir têm uma tarefa difícil pela frente; após o que iremos dar uma volta pelo mundo e então, senhor mago, novamente transformado em mortais comuns, vamo-nos divertir-nos no convívio com a sociedade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:20 pm

Só não vou permitir que você procure por Pierrete – troçou ela maliciosamente, dando-lhe um puxão de orelha.
Supramati desatou a rir.
A ideia de reencontrar Pierrete pareceu-lhe divertida.
- Você acaba de confirmar que o rancoroso espírito de mulher também é imortal! – observou ele sorrindo sagazmente.
A brincadeira veio a propósito para interromper e dissipar a profunda inquietação que se apoderou de Supramati com a ideia de uma longa separação de Nara; ele conscientizou-se, amargurado, de quando ainda existia de terreno em seus sentimentos em relação à esposa.
Nesse instante, junto da entrada da gruta surgiu Ebramar e, com um gesto, chamou o discípulo.
Supramati beijou apressadamente Nurvadi e o filho, abraçou-se a Nara e despedindo-se de todos, seguiu o mago.
Na gruta anexa, encontraram Dakhir, esperando por eles.
Através de labirintos subterrâneos, alcançaram o canal, onde eram aguardados por um barco com remador; Ebramar assumiu o leme.
À medida que deslizavam sob as escuras e baixas abóbadas rochosas ao longo do canal, iluminadas não se sabe de onde por uma luz verde-pálida, uma sensação de angústia e cansaço apoderou-se de ambos os discípulos-magos; pouco depois, sem se darem conta, suas pálpebras cerraram-se e eles dormiram um sono profundo.
Era difícil calcular a duração do sono; acordados por um bafejar de vento frio, estremeceram e se endireitaram, examinando surpreso o ambiente que os cercava.
Por todos os lados se estendia uma superfície aquática; era difícil inferir se aquilo era mar ou um imenso lago.
O ar era bem mais frio do que aquele ao qual estavam acostumados; pelo firmamento cinzento corriam nuvens pesadas, a água esverdeada era turva; rajadas de vento eriçavam ondas espumosas que sacudiam violentamente o barco.
Nesse instante, no horizonte surgiu uma faixa de terra, da qual se aproximavam velozmente.
Diante deles se estendia uma margem rochosa e isolada, ao longe divisavam-se escarpas pontiagudas e nuas.
Dakhir e Supramati trocaram olhares de preocupação; seus corações bateram mais forte quando o barco encostou-se aos degraus de pedra e eles puderam ver melhor o quadro desolador que se abria diante deles.
O solo era estéril e pedregoso; ao longe, divisava-se uma cadeia de montanhas e, até onde a vista alcançava, não se enxergava nenhuma árvore, nenhuma vegetação.
Diante deles se estendia um verdadeiro deserto.
Ebramar saltou para a terra e fez um sinal para que os discípulos o seguissem.
Acostumados a obedecerem sem discutir, desembarcaram; mas, à medida que caminhavam, eram dominados por uma angústia dilacerante.
Para onde quer que se olhasse não se enxergava o menor sinal de vegetação; nem ao menos uma nesga de musgo dava vida ao solo escuro e poeirento ou aos negros rochedos fissurados; nem o menor fio de água murmurejava entre as pedras.
Com toda certeza, eles estavam num deserto.
Ebramar, entretanto, continuava a caminhar para frente.
Ao alcançar o penedo mais próximo, ele parou por um instante e depois entrou através de uma larga fenda numa espaçosa gruta, levemente iluminada por um archote fixado na parede.
A avermelhada chama fumarenta reflectia-se nas estalactites escuras da abóbada, possibilitando-lhes divisarem na penumbra dois leitos, uma mesa de pedra e duas cadeiras.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:20 pm

Supramati e Dakhir empalideceram ao examinarem perplexa a gruta vazia e escura, aparentemente destinada para habitação deles, com apenas dois míseros leitos.
O coração palpitou e a cabeça tonteou só com a ideia de ter de morar no deserto, naquele buraco medonho, acostumados que estavam ao luxo e ao conforto do palácio no Himalaia, em meio à exuberante e magnífica natureza que mais parecia co um cantinho do paraíso.
Ebramar, que observava os discípulos, deu um leve sorriso.
- seus receios, meus amigos, são infundados.
Eu na os trouxe para cá de castigo.
Mas no intuito de vocês exercitarem as suas habilidades.
Chegou a hora de praticarem os conhecimentos adquiridos.
Vocês não terão de morar num local tão inóspito; cabe a vocês mesmos transformá-lo num cantinho do paraíso.
Para tanto, dispõem de recursos necessários.
A vontade disciplinada governa os elementos, e os sentidos aguçados permitem que vejam e ouçam muita coisa inacessível para um mortal comum; aprenderão a pesquisar a substância primeva, subtrair dela as sementes da vida que ela encerra e, finalmente, vocês detêm as fórmulas da magia branca, que lhes permitirão juntar e dissipar as moléculas do espaço.
Em outras palavras, estão providos de poderes necessários para fertilizar este lugar estéril; utilizem todos os seus conhecimentos neste enorme campo de batalha.
De simples e ignorantes mortais, a energia transformou-os em magos; então demonstrem serem dignos da iniciação e cumpram valorosamente esta tarefa.
Ela é grandiosa, nobre e útil.
Não tenham pressa, vocês tem tempo suficiente.
E agora, meus filhos, vou embora e só volto quando este lugar selvagem se cobrir de vegetação, quando as árvores fornecerem sombras refrescantes, quando as frutas suculentas tiverem amadurecido para restaurarem-me as forças, e as flores me deleitarem os olhos e o olfacto.
Não longe desta gruta, numa depressão do penhasco, há um sino colocado no alto, fundido em horas místicas a partir de liga especial de metais, e que detém forças mágicas. Quando o programa por mim traçado for cumprido integralmente e suas almas clamarem por mim, o sino repicará sozinho e seus sons misteriosos chegarão até mim; então eu virei para cá com outros magos, meus irmãos, para cumprimentá-los e checar o trabalho.
Adeus, meus filhos! Que as forças do bem os ajudem!
Ebramar abraçou os discípulos, abençoou-os e abandonou a gruta.
Por cerca de um minuto Dakhir e Supramati permaneceram aturdidos; entretanto, quando pelo esforço da vontade eles sacudiram o torpor e lançaram-se para acompanhar Ebramar, o mago já havia sumido.
Calados, com a cabeça pesada e coração oprimido, eles retornaram à gruta, sentaram-se nas cadeiras de pedra e, apoiando a cabeça nos braços, afundaram-se em devaneios profundos.
Jamais os corajosos labutadores se sentiram tão desanimados.
A dificuldade do programa fixado parecia-lhes intransponível e a tarefa de transformar o deserto no paraíso, deixava-os desalentados.
Era sem dúvida um minuto difícil, um minuto de fraqueza espiritual, aquele em que duvidavam de seus próprios conhecimentos, e o medo do fracasso comprimia-lhes o coração feito tenazes.
Supramati teve a impressão de que ele não sabia absolutamente nada, de que todos os seus conhecimentos se haviam evaporado que ele estava desarmado diante da tarefa impossível e, por entre os seus dedos, caíram algumas gotas de lágrimas cálidas.
Por um instante ele lembrou-se com saudade de seu quarto em Londres e da ignorância feliz do pobre médico Ralf Morgan.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:20 pm

Neste ínterim, uma mão acetinada tocou em sua testa e uma voz bem familiar sussurrou:
- O que é isso, Supramati?
Como pode fraquejar tanto?
Permanecendo Morgan, você jamais conheceria Nara, enquanto que eu me apascento com a ideia de que você jamais se tenha se arrependido disso.
Como se ferroado por uma abelha, Supramati saltou da cadeira e ruborizou-se todo.
Em seus olhos fulgiu a energia de sempre.
Aproximando apressado de Dakhir, ainda sentado cabisbaixo, Supramati tocou-o no ombro.
- Não desanime amigo!
Nara acabou de repreender-me pela pusilanimidade; e ela está certa!
Comportamo-nos como dois colegiais e não como pessoas que almejam conquistar a coroa de magos.
Eu me envergonho só de pensar em Ebramar.
Dakhir aprumou-se e enxugou apressadamente os olhos húmidos.
- Sou grato por você ter-me feito acordar – disse ele com firmeza.
As lamúrias não irão melhorar a nossa situação e, se não quisermos passar por necessidades, teremos de trabalhar.
A Supramati voltou o seu ânimo habitual.
- Vamos dar uma volta pelos nossos novos domínios e examinar o campo da actividade, está dádiva tão generosa.
O ar fresco nos fará bem, pois este buraco nojento com seu fumegante archote fétido, esta me deixando nervoso.
Rindo, ele pegou pelo braço Dakhir e o puxou para fora.
Não longe dali, encontraram o sino misterioso, futuro mensageiro do êxito deles.
Era de metal que reverberava todas as cores do arco-íris e estava suspenso bem alto, sob um penhasco íngreme; como estava ele ali pendurado? – era difícil de saber.
- Oh, meu querido sino, como ficarei feliz quando você repicar anunciando a nossa partida deste maravilhoso cantinho – suspirou Supramati.
O passeio durou algumas horas.
Eles chegaram à conclusão de se encontrarem numa ilha de dois quilómetros de circunferência, no máximo, dividida ao meio por uma montanha.
- Nenhuma fonte, nenhum sinal de vegetação.
Essa natureza morta é um nojo total, temos de começar a trabalhar depressa.
Ebramar tem razão:
sob esta escura e poeirenta crosta corre o sangue primevo da criação e eu ouço o ruído de fontes subterrâneas – observou Dakhir.
Exaustos, voltaram à gruta e deitaram-se nos desconfortáveis e duros catres.
Mas, passado algum tempo, Supramati saltou da cama.
- Eu fico possesso, Deus me perdoe, com essa tocha!
Ela fumega, fede e, além do mais, aqui está tão escuro que nãos e enxerga nada.
E estou com fome.
Custa-me acreditar que nem ao menos para a primeira noite nos deixaram algo para comer!
É cruel obrigar-nos a dormir nesse leito com estômago vazio.
Dakhir desatou a rir.
- É verdade! Também estou faminto e esta penumbra me irrita.
Que tal a gente arrumar uma luz eléctrica condensada?
- Eureca! Boa ideia, Dakhir!
Vamos providenciar isso!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:20 pm

Eles se postaram um em frente ao outro a certa distância e, erguendo seus bastões mágicos, começaram a girá-los com rapidez estonteante sobre a cabeça.
Logo, na extremidade dos bastões, surgiu uma luz azulada, ziguezagues ígneos cintilaram no ar e iam sendo absorvidos por aquela luz que ia crescendo e tomando forma esférica.
Condensando-se e tornando leitosa.
Quando a esfera, como se executada de uma massa azulada, alcançou o tamanho de uma laranja, Supramati tirou-a do bastão, recolocado, então, atrás do cinto; amassou-a levemente na mão, encostou-a na parede e ergueu a mão; por baixo de seus dedos fulgiu um facho ígneo que pareceu acender a esfera, dela irradiando-se imediatamente uma luz brilhante.
Dakhir fez a mesma coisa, e, quando a sua esfera se acendeu também, a gruta iluminou-se como se fosse dia e até os seus cantos mais remotos podiam ser enxergados nitidamente.
Supramati arrancou a tocha, apagou-a e a atirou enojado para fora.
Agora já se podia ver que no fundo da gruta havia dois armários, dois baús de madeira, e sobre eles estavam postas duas caixas de ébano entalhadas com os instrumentos mágicos.
Nos baús havia roupa e nos armários eles encontraram alguns livros, papiros, duas grandes ânforas com vinho e duas caixinhas com um pó escuro, muito aromático.
- Vinho e um pó nutrítico?
Pelo menos não teremos desarranjo estomacal – observou Supramati em tom azedo.
Nesse ínterim, Dakhir tirou calados, os trajes de gala que vestia e colocou uma túnica de lã cingida por uma faixa de couro.
Supramati seguiu-lhe o exemplo.
Eles tomaram um cálice de vinho e comeram uma colher do pó.
- Por hoje precisamos contentar-nos com este repasto de monges, amanhã tentaremos arrumar algo melhor – resmungou Supramati, espreguiçando-se na cama.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:20 pm

Capítulo V

No dia seguinte, com o nascer do sol, os amigos se levantaram revigorados, dispostos e bem humorados.
Durante o modesto desjejum, consistente em uma taça de vinho e uma colher do pó alimentício, Supramati observou:
- A ilha está dividida em duas partes por uma cadeia de penedos; cada um fica com a metade:
você vai trabalhar uma e eu – a outra.
Na hora do almoço nos reuniremos aqui para comentarmos os resultados de nossas experiências.
- Excelente! Uma óptima ideia!
Então, vamos nos separar.
Com que metade você quer ficar?
- A que circunda a nossa gruta, se você não tiver nada contra.
- Absolutamente!
- Continuando a conversar, eles saíram.
- Por onde você acha que devemos começar? – perguntou Dakhir.
- Vou invocar uma torrencial para emudecer e limpar o ar denso e pesado que parece prenunciar uma tempestade.
Até agora não vi o sol aparecer por aqui.
E você o que vai fazer?
- Procurarei pior fontes subterrâneas e tentarei fazer com que elas aflorem a terra.
As duas experiências são boas e nos ajudarão a revitalizar o deserto.
Trocando apertos de mão, os amigos se separarão.
Dakhir transpôs o penedo que delimitava os seus domínios, tirou o bastão mágico e, inclinando-o para o solo, foi andando ao longo da montanha em direcção ao lugar onde, no dia anterior, ele tinha ouvido o ruído de águas subterrâneas.
Subitamente, o seu bastão começou a vibrar e inclinar-se para frente, arrastando o seu dono até uma fenda na montanha.
Dakhir apurou o ouvido e à sua audição aguçada chegou nitidamente o borbulhar de uma fonte invisível, presa nas entranhas da terra.
Após guardar o bastão atrás do cinto, Dakhir tirou da bainha a espada mágica.
Desenhando com a lâmina brilhante um triângulo ígneo mo ar e, a seguir alguns sinais cabalísticos, pronunciou as fórmulas que invocavam os espíritos dos elementos.
Por sobre o fio da espada fulgiu uma chama azulada; Dakhir fincou rapidamente a misteriosa arma dentro da fenda.
No mesmo instante ouviu-se uma explosão.
A fenda subitamente se abriu em forma de funil e dela começaram a ser expelidas pedras e terras, jorrando logo depois um jacto de água tão forte, que cobriu os pés do mago, e que o teria derrubado se ele não cravasse imediatamente a sua espada no chão.
As ondas espumosas dividiram-se em dois braços e começaram a encher a depressão entre os montes.
Feliz consigo mesmo, Dakhir acompanhou a corrente por algum tempo, depois virou à direita e examinou o vale. Logo descobriu uma enorme cavidade que parecia o leito seco de uma lagoa.
A experiência com o bastão mágico convenceu-o de que a água que havia sumido da superfície, devido a alguma catástrofe, ocupava as cavernas e bastava apenas chamá-la para cima.
Sem perder tempo, ele pegou a espada mágica, desenhou com ela no ar um grande círculo e pronunciou as fórmulas.
As veias em sua testa intumesceram sob o esforço da vontade; nos olhos, agitaram-se chamas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:21 pm

Subitamente, com um silvo ríspido no ar, cintilou uma espécie de relâmpago vermelho feito metal em brasa, que se cravou no centro do círculo desenhado pro Dakhir.
A terra estremeceu e começou a se fissurar com estalos, formando fendas largas; por todos os cantos começou a afluir água e as ondas turvas foram enchendo o antigo leito lacustre.
Absorto em seu trabalho, Dakhir não se apercebeu de que o céu se havia coberto de densas nuvens plúmbeas e uma tempestuosa rajada de vento levantara um turbilhão de poeira.
Quando rolou um retumbante som de trovão, ele ergueu a cabeça e viu que o firmamento escurecido era sulcado por raios reluzentes.
- Ah! Supramati está cuidando da tempestade – murmurou ele sorrindo.
Sem dar atenção ao trabalho do companheiro, observou como o lago ia se enchendo e a ventania eriçando as ondas espumantes.
Nesse ínterim, a tempestade foi se transformando em furação; o rolar dos trovões sacudia a terra, os relâmpagos ferozes iluminavam funestamente o vale estéril e os contornos esdrúxulos e denteados dos penhascos sombrios.
O vento revoltoso rugia, assobiava e, de súbito, desabou uma chuva torrencial.
- Começo a achar que ele está exagerando – resmungou Dakhir, sacudindo a roupa encharcada.
Preciso ir até lá para cumprimentá-lo pela tempestade bem sucedida e chamá-lo para se abrigar dentro da gruta.
Ele correu em direcção à divisa montanhosa que separava os seus domínios.
Supramati estava de pé numa saliência da montanha, com o bastão erguido; seu olhar fulgia, ele parecia conduzir a tempestade.
Com alguns saltos, Dakhir viu-se perto dele e o sacudiu pela mão.
- Parabéns! A tempestade foi digna de um mestre.
No entanto, eu acho que ela poderá prosseguir sozinha, enquanto a gente retorna à gruta.
Você desencadeou um verdadeiro dilúvio.
- Talvez eu tenha utilizado uma fórmula muito forte na minha primeira experiência.
Mas olhe como estão trabalhando os espíritos elementais.
Dakhir ergueu os olhos para o céu escuro e ambos ficaram admirando o trabalho eu ali realizava.
Em todas as direcções, exércitos de sombras cinzentas atravessavam o ar em fileiras cerradas.
Seu caminho era marcado por biliões de faíscas que se fundiam e, em ziguezagues ígneos, riscavam o firmamento plúmbeo-escuro.
Outras colunas de espíritos empurravam as nuvens acumuladas, como se moldassem e concentrassem algo no espaço.
- Deixe que trabalhem!
Eles estão fazendo tudo de acordo – assegurou Supramati.
Vamos voltar à gruta.
De facto, está um pouco húmido aqui.
Confesso que não é fácil comandar os elementos.
Rindo a valer, ambos correram para dentro de sua moradia.
Após trocarem de roupa e enxugarem os cabelos, postaram-se na entrada da gruta observando como a tempestade ia aos poucos amainando; o vento espalhava as nuvens e a chuva foi parando.
Finalmente surgiu uma nesga de céu azul e brilhou um raio de sol, invadindo a terra com luz e calor.
Fascinado, Supramati ergueu os braços para o céu.
- Saúdo-o, astro-rei, esteio de todas as forças criadoras, fonte vivifica de luz, calor e esperança.
Eu sei que os mais sábios dos povos, os filhos do Egipto, veneravam-no de joelhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:21 pm

Onde você aparece, o coração humano se reanima e na alma nasce a esperança; o homem abatido levanta a cabeça, encorajado e fortalecido.
E reinicia o trabalho com as novas forças.
Para nós, também, ó benfeitor celeste, Rá vitorioso, a fonte da vida e fartura, envia os seus raios e felicita-nos sorrindo pelo nosso trabalho.
Dakhir olhou participativo para o rosto emocionado do amigo.
- Sim, o primeiro dia de nosso serviço foi produtivo – disse ele com um amplo sorriso.
Já temos um lago, uma fronte brotando, céu azul e sol.
Espero que logo, com o auxílio de Rá, tenhamos grama e demais utilidades.
- Ah! Se houvesse ao menos um melão, uma pêra ou qualquer outra fruta suculenta!
Sinto tal fome, como se ainda fosse o pobre mortal Ralf Morgan! – exclamou Supramati, voltando inesperadamente à realidade.
- Aguente um pouco! Com o surgimento da vegetação, plantaremos frutas de modo acelerado; enquanto isso se contente com o pó nutritivo.
- Nem pensar!
Agora mesmo providenciarei um almoço bem substancioso – anunciou Supramati, puxando o bastão.
- Você pelo jeito está querendo tirar o almoço da cartola! – brincou Dakhir.
- Não! Para um pirata ousado e célebre que foi você não me parece muito criativo, meu amigo Dakhir.
- Não é para menos, perdi as manhas do meu antigo ofício, não obstante começo a entender.
Você quer subtrair um almoço pronto! – arriscou Dakhir.
- Ih! Que expressões vulgares para um mago imortal!
Eu só quero, a título de experiência, ordenar que os espíritos elementais nos tragam do palácio do Himalaia uma refeição mais substanciosa.
De acordo com Ebramar, é de nós que depende ter o que quisermos.
Ele não proibiu que utilizássemos os poderes mágicos ou fórmulas cabalísticas. Venha até aqui.
Com seu bastão, ele inseriu os dois num grande círculo, reverenciou o norte e o sul, o leste e o oeste; pronunciou as fórmulas invocando os espíritos elementais e ordenou-lhe que cumprissem a ordem.
Um barulho ensurdecedor ressoou na gruta; seguiram-se batidas secas e começaram a surgir sombras cinzentas e nebulosas, salpicadas de manchas fosforescentes; luzes multicolores rodopiaram além, do círculo em uma dança louca; gritos, alaridos e assobios encheram o ambiente.
Supramati ergueu a mão, pronunciou a fórmula e um silêncio se fez.
A parede pareceu se abrir fulgiu um largo clarão e naquela luz azul-fosfórea apareceu um ajuntamento espectral de criaturas cinzentas, arrastando e empurrando velozmente um objecto nebuloso, incolor e leve feito teia de aranha, que tremia e oscilava, e tinha o aspecto de uma mesa cheia de iguarias.
Subitamente um ziguezague ígneo recortou o ar, a terra estremeceu, como se atingida por um raio, e o volumoso e pesado objecto pôs-se crepitando no centro do círculo.
As massas espectrais das criaturas inferiores foram-se dissipando no ar, feito fumaça.
Supramati baixou a mão, recolocou o bastão atrás do cinto e enxugou o suor da testa.
- Bravo! A comida está aí em quantidade suficiente até para um glutão!
Você interpretou bem as palavras de Ebramar ao dizer que só de nós dependeria levar uma vida regalada – riu Dakhir.
- Vejamos o que nos trouxeram – disse Supramati, examinando com satisfação a mesa da qual exalava um aroma apetitoso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:21 pm

No centro, destacava-se um belo melão e uma torta coberta com geleia; em volta, havia alguns pratos com verdura, manteiga fresca, pão, queijo, mel e uma jarra de leite.
- Provavelmente eles surripiaram este manjar luculiano da cozinha de algum rajá – aventou Supramati, admirado não tanto com o almoço, mas pela maneira como foi conseguido.
Os amigos comeram com grande apetite e uma parte das provisões foi deixada para o jantar.
Ficou decidido que futuramente eles se alternariam no abastecimento das refeições.
Nos dias subsequentes, os magos prosseguiram com busca e extracção de novas fontes subterrâneas, cujas águas eles desviavam para os barrancos.
Descobriram também que em alguns lugares a água das fontes e da chuva havia arrastado a areia e desnudou um solo adequado ao cultivo.
Graças à clarividência, adquirida ao longo do tempo de trabalho de desenvolvimento de sentidos, eles não tiveram dificuldades em encontrar algumas artérias subterrâneas, vermelhas e abrasantes, ocultas aos não iniciados, que recortavam a terra em todas as direcções.
Era a substância primeva – o sangue do planeta que fluía procurando uma saída da crosta endurecida.
E então eles se puseram à extracção da substância, para dela tirar as sementes da fauna e flora, os gérmens da vida nela contidos, que apenas aguardavam que a umidade terrestre os impregnasse e os fizesse germinar.
Com os conhecimentos científicos, eles aceleraram o longo trabalho da natureza.
A poderosa vontade dos adeptos fazia com que as riquezas da terra aflorassem de suas entranhas, indo espalhar pela superfície do solo os princípios vitais, extraídos a partir da substância primeva.
Supramati fez um mapa dos seus domínios, marcando cada ponto com o nome de uma planta que gostaria que ali vicejasse; depois dividiu a terra em lotes, cultivando-os alternadamente.
Postado ali com as mãos erguidas, as veias da testa intumescidas devido ao terrível esforço, ele parecia transformar-se.
De todo o seu corpo emanava luzes fosforescentes e ondas de calor; de seus dedos ora dardejavam longos jactos ígneos que atravessavam a terra, ora feixes de luz branca prateada que se espalhava pela superfície e cobria o solo com uma ténue fumaça.
Logo seus esforços se coroaram de êxito.
Certa manhã, saindo para o campo, Supramati emocionou-se ao notar que a terra se ouriçava em vapor esverdeado e até as rochas estavam musguentas.
Não vamos vigiar os passos diários dos dois adeptos, nem descrever com detalhes o seu trabalho.
Basta dizer que, aos poucos, p programa traçado por Ebramar ia sendo executado e o deserto estéril e pedregoso transformava-se num vale florescente e frutífero.
Não menos alegria proporcionou aos magos o aparecimento de habitantes vivos: nos galhos frondosos começaram a nidificar os primeiros passarinhos canoros, nas fendas dos rochedos instalaram-se os pombos, no lago cintilaram em escama prateada os peixes, e entre as flores voejaram borboletas e abelhas.
Eles trabalhavam exaustivamente para ornamentar e enriquecer aquele cantinho de paraíso que lês devia a existência.
Era com dedicação ciosa que eles amainavam a força das tempestades, espantavam as nuvens que ameaçavam com granizo, ou aplacavam a fúria destruidora dos ventos tempestivos.
E toda vez que os elementos se submetiam à sua vontade, que a natureza reagia segundo as suas intenções e os espíritos do espaço obedeciam-lhes, um sentimento indescritível de orgulho e de consciência de seus poderes despertava na alma dos magos, só de pensar que eles detinham um conhecimento misterioso que os investia de poderes miraculosos, praticamente os da criação.
E nesses momentos, a sua vida, quase infinita, não lhes parecia um fardo, mas, pelo contrário, um bem valioso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:21 pm

A medida que se desenvolvia o trabalho espontâneo da natureza, Supramati e Dakhir tinham mais tempo livres; mas, acostumados como eram à actividade constante, decidiram se testar também na arte.
De início, esculpiram uma coluna representando uma haste de lótus e, da flor desabrolhada, fizeram brotar um busto de Ebramar, extraordinário em sua semelhança e acabamento; mais tarde, com a mesma perfeição, Supramati fez uma estátua de Nara.
Ambos os trabalhos foram colocados na gruta e adornados com flores.
Não raro, quando os artistas contemplavam as suas obras, parecia-lhes que as cabeças de mármore ganhavam vida e os saudavam com sorriso e olhares afectuosos.
Eles se distraíam também com a extracção de metais; fundiam cestos, vasos e taças de ouro e prata.
- Utensílios de fabricação própria a serviço dos magos – dizia rindo, Supramati.
Finalmente tudo estava pronto.
Graças à vontade e à arte mágica, o deserto transformou-se num exuberante jardim.
Nos campos férteis, agitava-se o mar dourado de espigas maduras e o tapete verde da grama encheu-se de flores; árvores vergavam-se sob o peso de diferentes tipos de frutas; cascatas cristalinas jorravam murmurejando entre as rochas musguentas; nos arbustos e floreiras, espalhados por todas as partes, as flores raras com suas pétalas de cores vivas exalavam aromas deliciosos; no ar, ouvia-se o canto dos pássaros e, na lagoa, nadavam cisnes brancos e negros, serenos e majestosos.
Como que despertado de um sono duradouro, tudo vivia, respirava, trabalhava.
Certa manhã, depois de passar em revista o seu cantinho do paraíso, os amigos foram até o sino misterioso e puseram-se a olhá-lo pensativamente.
A planície, antes estéril, que se estendia aos pés do rochedo escarpado, estava agora coberta por gigantescas palmeiras, cujas folhagens frondosas formavam uma copa verde, cintilando feito esmeralda sob os raios solares.
- Acho que tudo está pronto; demos conta de nossa tarefa!
Só não entendo por que o sino está mudo, já que ele deveria chamar Ebramar com os outros magos para examinarem o nosso trabalho – disse Supramati.
Também estou achando que a gente empregou em toda a plenitude os conhecimentos recebidos.
Será que nos esquecemos de algo?
Comparados aos grandes buscadores da verdade nos infinitos e indecifrados mistérios da criação, os nossos conhecimentos são míseros.
- Você tem razão – balbuciou Supramati, esfregando nervosamente o rosto com a mão.
Onde fica a crista daquela onda que nos agarrou e nos arrasta?
Eles calaram e abaixaram os olhos.
Mas o sino permanecia mudo e assim eles retornaram à gruta, certos de terem deixado escapar alguma coisa.
Depois de examinarem minuciosamente cada partícula de seu pequeno reino, que adornava e animava cada canto que ainda lhes parecia imperfeito, eles se entreolharam.
- Oh, Deus! O que estará faltando aqui para satisfazer os nossos mestres?
- Eu sei – respondeu Dakhir, após um profundo silêncio.
Falta um altar ao Senhor!
- Ah! Como pudemos esquecer a coroação de nossa obra! – exclamou Supramati, e seus olhos fulgiram.
Sem perderem um minuto, começaram o trabalho.
Logo, sob a saliência do rochedo, surgiram dois degraus de mármore.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:21 pm

Obedecendo à vontade férrea dos magos, da rocha separou-se um enorme bloco cúbico, deitando-se obre os degraus. Imediatamente, por debaixo da rocha, cintilou uma chama viva, densificou-se e tomou a forma de uma cruz a brilhar como um diamante.
Com veneração, prostraram-se ambos os magos diante do símbolo místico da salvação e eternidade e, de seus corações, verteu-se uma oração cálida ao Pai por todas as coisas existentes, ao criador inescrutável de todos os milagres com que é povoado o Universo.
Nesse ínterim, o sino começou a repicar e os seus sons estranhos, poderosos, tal qual o trovão e ao mesmo tempo suaves como uma melodia celestial, fizeram vibrar todas as fibras.
Supramati e Dakhir levantaram-se serenos.
Nenhuma pena é capaz de descrever o que eles sentiram naquele minuto.
A harmonia que lhes encheu a alma obliterou e dissipou todas as sombras da dúvida e do sofrimento que devoram o coração do homem profano, cujos instintos carnais o prendem em garras afiadas.
O sino silenciou, mas, ao longe, ouviu-se um suave som melódico, como o de uma harpa de Éolo.
- Ebramar está vindo – anunciaram em uníssono Dakhir e Supramati, e dirigiram-se apressadamente para a margem.
O barco já havia encostado e dele saiu Ebramar com mais dois homens em vestes alvas, carregando um objecto sobre as almofadas vermelhas:
Ebramar segurava um pequeno escrínio de ouro.
Eles se aproximaram solenemente dos jovens adeptos, inquietos e hesitantes.
- Saúdo-os, obreiros valorosos, que utilizaram condignamente os conhecimentos e os poderes.
E agora aceitem a recompensa e os presentes dos magos, seus irmãos – disse Ebramar, abrindo o escrínio.
Dakhir e Supramati ajoelharam-se.
Ebramar untou um pincel num líquido azulado que se encontrava no escrínio e desenhou com ele um sinal na fronte de cada um.
Imediatamente, em suas cabeças acendeu-se uma chama dourada.
- Este é o primeiro pistilo da coroa dos magos: por meio dele vocês serão reconhecidos por todos os adeptos e as forças do mal os temerão.
Pegando de uma das almofadas duas grandes insígnias de ouro com pedrarias luzidias, ele as colocou no pescoço dos discípulos; de outra almofada, apanhou dois cálices mágicos, que também passou às suas mãos. Depois, fez os discípulos se levantarem, abraçou e osculou-os; os outros dois magos repetiram o gesto.
A seguir, após orarem junto à ara, todos se dirigiram à gruta, onde os anfitriões ofereceram às visitas um almoço, feito exclusivamente dos produtos provenientes da ilha.
Encetou-se uma animada conversa e Ebramar comunicou aos alunos que os irmãos que o estavam acompanhando haviam decidido se instalar na ilha, tornada fértil por eles, e ali construir uma casa para estudos científicos especiais.
Esses irmãos partiriam na mesma tarde e retornariam alguns dias depois; enquanto que Ebramar passaria na ilha todo o dia seguinte para examinar detalhadamente o reino de seus discípulos, retornando à tarde, e todos seguiriam, então, para um dos palácios no Himalaia.
No dia seguinte, Ebramar e seus pupilos saíram em inspecção pela ilha.
Tudo foi verificado minuciosamente; Supramati e Dakhir fizeram um relatório dos métodos empregados para fertilizar e povoar aquele torrão desértico que a eles foi confiado.
Ebramar elogiou, deu sua opinião e explicações, completando a inspecção com instruções teóricas e práticas quanto aos recursos técnicos utilizados.
De volta para a gruta, a conversa prosseguiu sobre o mesmo tema.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:21 pm

Supramati mostrou a aparelhagem eléctrica com o auxílio da qual ele tinha acelerado o desenvolvimento dos gérmens dos animais e plantas, extraídos da matéria primeva, e comentou o seu desapontamento em não ter podido utilizar directamente a substância misteriosa, que poderia, num piscar de olhos, restabelecer ou criar um novo organismo.
Tal como uma árvore ou até um ser humano.
- Você nos havia prescrito para avançarmos por um caminho científico lento e nos tentamos cumprir fielmente esta instrução.
- Tal restrição foi necessária para que vocês se consagrassem a todos os detalhes de funcionamento do mecanismo da natureza.
Utilizar-se apenas da matéria primeva é relativamente fácil – disse Ebramar sorrindo.
Não estou protestando contra essa instrução – sabia e profícua como tantas outras – retrucou Supramati.
Eu queria abordar uma questão diferente.
Reconhecendo na matéria primeva as propriedades de animar e restaurar, não poderíamos com o seu auxílio simplesmente evitar o fim do planeta, reanimando as seivas exauridas da nossa terra?
Essa substância é tão fecunda, que basta algumas partículas para realizar milagres.
Não se poderiam fazer reservas do elixir em locais inacessíveis dos nossos abrigos e, quando minguarem ou se esgotarem as fontes internas, bafejar a vida de outro modo?
Por exemplo:
irrigar a terra, reflorestá-la e recuperar a vegetação desaparecida – pelo menos de trigo, para alimentar os deserdados durante uma época de fome?
- Em termo do planeta todo, isso seria difícil; mas em alguns locais tal ajuda seria viável.
De qualquer forma, isso não passaria de uma fecundação artificial e, assim que a reserva da substancia que fosse colocada ou borrifada num determinado local ficasse esgotada – já que não haveria uma fonte de reposição – tudo viraria cinzas e se transformaria em deserto.
Seria um simples paliativo. O organismo do planeta não é como o ser humano; suas exigências são bem mais complexas.
Mesmo nós, não somos momentaneamente atingidos pela morte ao tomarmos o elixir da longa vida, devido à terrível força absorvida dos elementos:
Só depois é que se processa a ressurreição e o organismo renovado está pronto a nos servir quase infinitamente.
Lembra da vítima de Narayana, cujo corpo ele mergulhou no líquido contendo a matéria primeva?
Lembra como se refez seu organismo?
- Sim, mestre.
Em poucos meses ela se reduziu a uma velha decrépita, achando que ia morrer de apoplexia, mas logo se deu conta de que se havia tornado novamente jovem e forte.
- Justamente. Por uma morte incompleta e ressurreição passam também os planetas.
É o que, segundo as tradições hindus, é chamado de “noite de Brahma”.
As transformações geológicas abalam o planeta, a vida parece sustar-se e, depois de um descanso, a terra, renovada e com as forças recuperadas, retorna ao seu antigo trabalho, até a catástrofe definitiva, que pode ser apressada ou adiada, dependendo dos habitantes do planeta terem esbanjado ou poupado as forças de sua ama de leite – concluiu Ebramar.
- Isso está claro, mas o que eu acho PE que a ordem estabelecida no nosso planeta é irracional e contribui para a sua destruição.
Por que a humanidade que povoa a Terra não pode ser imortal, ou seja, viver uma vida planetária e, dentro de certos limites, adquirirem aqui uma educação espiritual?
Dando uma dose necessárias às crianças de colo, seria possível criar uma nova geração de pessoas e educá-las nas condições desejadas – o que tornaria o seu aperfeiçoamento mais rápido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:22 pm

Por é por demais triste e perverso observar como a humanidade herda uma da outra as características cada vez piores, mesquinhas e viciosas.
A quantas vidas inúteis e nocivas assistimos; por quanta desgraça e sofrimento, perdas difíceis, acontecimentos terríveis, passam os seres humanos, sendo mais tarde substituídos por seres da mesma forma desnecessários e maus.
Se o planeta é predestinado a viver por milhões de anos, por que impedir que ele seja povoado por uma geração sadia, forte, bela e iluminada?
Um frasco de matéria primeva seria suficiente para milhões de pessoas; falta de espaço também não existe.
Tomemos por exemplo o nosso planeta.
Quantos milhões de pessoas além da população actual ele poderia alimentar?
Quantas terras inaproveitadas poderiam ser cultivadas, quantas ilhas ou até pequenos continentes poderiam ser criados, à medida que a população fosse aumentando, pois o espaço ocupado por oceanos é imenso.
Supramati falava com entusiasmo e Ebramar ouvia-o atentamente, sem interromper. Quando se calou, o mago sorriu e alisando a barba disse:
- Tudo o que você diz parece lógico e justo, entretanto o seu projecto manqueja em muitos aspectos.
Primeiro mais cedo ou mais tarde virá o dia em que faltará espaço para todos; segundo, você se esquece de que a nossa Terra nada mais é que uma escola – por sinal de nível bem baixo – que os espíritos frequentam para lutar, trabalhar e aprimorar as suas tendências quer boas, quês más.
Como em qualquer escola, a população do planeta se modifica, pois é preciso liberar lugar para os que vem de baixo.
Terceiro você não esta levando em conta as diferenças individuais e não é qualquer um que consegue passar por uma iniciação como a nossa, por exemplo; o quanto ela é difícil, vocês sabem por experiência.
Imaginem o que faria uma pessoa com tendências criminosas, dotada de imortalidade e dos poderes terríveis que dão os conhecimentos científicos?
- Você tem razão. O meu lindo projecto seria apenas uma utopia – balbuciou Supramati embaraçado.
- Por que utopia?
Como você pode afirmar que a experiência da qual você fala já não foi tentada em algum lugar do espaço infinito?
Devo acrescentar que o pensamento humano não consegue imaginar algo que não existente.
O impossível não pode nascer no pensamento e, portanto qualquer ideia por mais esdrúxula que possa parecer.
Existe em algum lugar, caso contrário, a mente não poderia formulá-la.
Assim, aquilo – de que você fala – existe e quanto mais o espírito e o pensamento forem desenvolvidos, trabalhados e flexíveis, tanto mais rica será a imaginação sobre o possível; pois para o impossível não existe expressão nem cotejo.
Aquilo que pode ser criado e expresso numa ideia pura, já existe de facto.
Não aqui, talvez, mas em algum outro lugar do universo e – como já disse – quanto mais elevado e desenvolvido for o espírito, tanto mais ampla será a sai noção sobre o possível e provável, expresso da mesma forma que um artista personifica no quadro a sua ideia.
- Ah! – fez Supramati.
Se fosse possível alcançar todo o mecanismo da criação; compreender e enxergar o objectivo dessa ascensão que parece infinita; conhecer aquilo que se nos afigura estranho e até injusto, triunfar sobre a dúvida e o medo que nos sugere o objectivo final e nos permanece desconhecido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 18, 2016 7:22 pm

E se esse caminho à perfeição não tiver um limite?
Se isso é uma lei de circulo vicioso que nunca interrompe a sua acção:
morrer para reviver e viver para morrer?
- Não meu amigo – respondeu Ebramar animadamente.
A sapiência Divina do Ser Supremo é Inescrutável, do Qual tudo principia e ao Qual tudo retorna, não pode ser inconsequente.
Sem dúvida, tudo segue conforme um plano perfeito, só que nós não estamos em condições de entender e apreender o Universo em seu todo.
Não se esqueça de que diante de nós o infinito se abre em todas as direcções.
Quem nos poderá afirmar onde termina o oceano etéreo em que navegam biliões de sistemas planetários e de nebulosas?
Pelo que sabemos ninguém jamais chegou até os seus limites e por maior que seja o espaço a nós acessível, ele é nada em comparação com o todo.
Nessa imensidão, o nosso pensamento imperfeito sempre esbarra com o invisível, perturba-se e indaga assustado:
“afinal, existe um fim”?
Mas a lógica responde: onde reina e governa uma força tão sábia, divina e misericordiosa, também impera a justiça perfeita; e quando nós triunfarmos sobre a última dúvida e passarmos pelo derradeiro degrau, a nossa força e os conhecimentos encontrarão, indubitavelmente, uma explicação condigna.
Por enquanto, não vamos procurar por aquilo que é impossível de achar, não vamos tentar alcançar o inalcançável, mas trabalhar arduamente em nosso minúsculo reino.
Além do mais, vocês não irão subir, mas descer para a esfera da humanidade ordinária.
Bem, esta na hora de partirmos, meus amigos.
Despeçam-se do recanto que lhes deve a vida, e a caminho.
Supramati e Dakhir obedeceram em silêncio e, sem tardar, puseram nas caixas os frascos com a matéria primeva e as diversas miudezas que queriam conservar como lembrança.
Lançando um olhar de despedida para a gruta, moradia de suas vidas estranhas, oraram junto ao altar erguido com a força da mente, sob o qual fulgia uma cruz luzidia – aquela luz misteriosa que emanada das entranhas da terra, deslocada por desejo deles.
Após uma breve, mas ardente oração, eles se dirigiram em passos lentos à margem areenta; um peso comprimia-lhes o coração.
Jamais uma árvore, um arbusto ou uma flor pareceram-lhes tão próximos ou caros como agora, no momento em que eles os deixavam para sempre.
Não entendo por que sinto tanta tristeza de me separar deste lugar.
Ele não passou de um local de estudos, no entanto tenho a sensação de que uma espécie de corrente invisível me prende aqui a cada objecto – observou Supramati com lágrimas nos olhos.
Dakhir também enxugou apressado os olhos marejados.
- O que vocês sentem é bem natural, meus amigos.
Será que não atinam com a razão disso? – surpreendeu-se Ebramar.
As correntes que sentem foram moldadas a partir de suas próprias forças e emanações, da chama astral da existência de vocês.
A cada arbusto, a cada objecto, vocês são unidos pelos fios límpidos de suas aspirações, formando uma espécie de entrelaçamento, e a sua ruptura fluídica faz com que vocês experimentem uma sensação de angústia.
À medida que se aproximam da margem, aos adeptos achegavam-se numerosos grupos de habitantes da ilha, vindos para se despedir de seus mentores e protectores, que entendiam a sua língua e sempre demonstraram por eles amor e preocupação.
Nos olhos inteligentes dos animais, reflectia-se o reconhecimento e a tristeza da separação.
Dakhir e Supramati afagaram os sôfregos amigos e beijaram as cabecinhas sedosas dos passarinhos que pousaram em suas mãos; entraram no barco e este os levou para longe daquele lugar, onde, sobre as suas frontes, reluziu a estrela dos magos – a primeira flor da coroa mística da iniciação superior.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:26 pm

Capítulo VI

Ebramar levou os seus discípulos para descansarem no palácio do Himalaia, onde Supramati vira pela primeira vez o seu mestre e protector.
Ebramar disse-lhes que eles deveriam se ajustar à vida mundana, acostumar-se aos trajes usados na Europa e aprender a língua universal – algo como volapuque ou esperanto -, adoptada nas relações internacionais, ou seja; era-lhes imprescindível um grande preparo antes de ingressarem na multidão humana, para não levantarem suspeitas.
A ideia da empreitada consternou visivelmente os amigos.
Desabituados a azáfama mundana, sentiam-se tão bem em seu isolamento, em meio à belíssima natureza, exercendo um actividade mental que os obrigava a esquecer do tempo, que a necessidade de abandonarem aquele tranquilo e fastuoso abrigo lhes era indiscutivelmente desagradável.
- Explique-nos, mestre, por que é que a gente deve reingressar ao convívio da humanidade ordinária?
Ficamos tão felizes em ficar aqui com você.
Francamente, só de pensar eu me misturar àquela multidão ignorante, torpe e devassa, fico enojado – lastimou-se Supramati, quando, sentados no terraço, todos conversavam sobre a viagem que iam empreender.
- É verdade. Já há muito tempo não voltamos à Europa e lá deve ter mudado muita coisa: a moral, os costumes; ficaremos totalmente deslocados, sem saber como nos comportarmos – acrescentou Dakhir.
Você, Dakhir, deveria ser mais consciencioso, visto ter passado por experiências semelhantes ao sair do século XV e para no século XIX, e sempre, no entanto, conseguiu se arrumar muito bem.
Em vez de dar uma força a Supramati, o mais jovem de nós, você aumenta o seu desânimo – redarguiu Ebramar denotando insatisfação.
Entendam, meus filhos, a alma inflexível do mago deverá saber se dobrar e adaptar-se a todas as situações e, ale, do mais, não pode se tornar totalmente alheia à humanidade.
No papel que desempenharemos no futuro, a condição precípua é que nós tenhamos, até certo ponto, laços e contactos com as gerações que se vão sucedendo na Terra.
É a lei fundamental de nossa irmandade – sempre cumprida fielmente...
Os nossos membros iam ao mundo como simples mortais, misturavam-se à multidão e vigiavam o seu progresso físico e intelectual.
Assim, este é um compromisso que deve ser cumprido e eu estou certo de que vocês o honrarão tão escrupulosamente como em relação à ilha estéril – concluiu sorrindo Ebramar.
- Você tem razão, mestre!
Eu entendo a necessidade de aparecer de tempos em tempos na sociedade, apenas me é aversivo ter de enfrentar diariamente aquele corre-corre – observou Supramati.
Dakhir, envergonhado com a observação de Ebramar, baixou a cabeça.
- Ah, que dia! Sempre que eu tenho de lembrar a um mago de primeira iniciação que, antes de encetar alguma coisa, ele deverá expulsar de si a aversão e a dúvida – dois micróbios que minam na raiz qualquer sucesso no empreendimento?
Ao notar que Supramati também corou e baixou à cabeça, Ebramar disse com bonomia:
- Vamos, meus amigos e discípulos, por que encarar a excursão ao mundo passageiro da humanidade terrestre de forma tão trágica?
Analisemos seus aspectos positivos e tomemos, por exemplo.
O lado moral.
A aversão que vocês sentem se deve, em parte, à consciência da sua superioridade intelectual em relação à multidão; é-lhes repugnante enfrentar toda sorte de torpezas e tolices humanas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:26 pm

Mas, meus filhos, o próprio conhecimento é uma noção relativa.
Conheço mais que vocês e, diante de um profano, sou um semideus; entretanto não sou nada – sou um cego e humilde átomo diante de um arcanjo.
Tal comparação com os degraus superiores da escada do conhecimento é um balde de água fria para o nosso orgulho e presunção.
Mas, da forma que o homem foi criado, às vezes agrada-lhe mais ficar na primeira fila entre os inferiores – isso lhe aumenta a auto-estima.
Você tem a impressão de ser importante e se imbui do sentimento humilde da dignidade própria.
Tal realização pessoal aguarda também por vocês, junto com seus conhecimentos e o elixir da eternidade.
Vocês também serão considerados semideuses.
Serão capazes de realizar “milagres” e, ao mesmo tempo, trazer inúmeros benefícios; ninguém os impedirá de se tornarem os benfeitores do género humano, cujos nomes serão inscritos nas crónicas populares.
Esses nomes poderiam até ser tão imortais como vocês, se não arquitectasse o planeta a traiçoeira conspiração de se desmoronar, desaparecendo com os seus despojos no espaço invisível, juntamente com os nomes de todos os heróis dos quais se orgulham os terrestres.
Os discípulos, que ouviam com atenção concentrada desataram a rir.
- Ah! Você pinta um quadro atraente propositadamente em cores sombrias para que a nossa vaidade não aumente demasiado e não nos ofusquemos com a imortalidade e a glória passageira e frágil!
Exclamou Supramati, ao qual retornou a alegria e o bom humor.
Vocês são ingratos tentando distorcer as minhas palavras – replicou Ebramar, rindo com bonomia.
Ainda que a glória de vocês não venha a ser eterna aqui na Terra, ela será mais duradoura no outro mundo.
Será que vocês se esqueceram de que terão de sobreviver à nossa Terra e, num outro planeta, nos nós tornaremos os fundadores de nova civilização, cujos nomes serão venerados como o de Hermes, Rama, Zaratustra e os demais mentores da humanidade, os quais nas tradições dos homens são tidos como “reis divinos”, contemporâneos ao “século de ouro”?
O chiste de Ebramar dissipou o estado angustiante dos discípulos.
A conversa continuou animada e os jovens magos troçavam de sua estreia na sociedade e das aventuras que por eles aguardavam.
Ultimamente Supramati notara que o alimento servido se tornava cada vez mais substancial e sentiu que seu corpo adquiria mais peso.
Ao indagar Ebramar, este explicou que era necessário que o organismo deles se adaptasse às novas condições, para eles terem uma vida livre no meio da sociedade sem chamarem atenção.
- Vocês não podem continuar alimentando-se de pó.
Como simples mortais, deverão viver beber e comer como todos, ainda que usando alimentos vegetarianos.
E quando retornarem, não se preocupem; nós os purificaremos bem rapidinho – disse Ebramar.
Mais tarde, Ebramar proveu-os de livros com regras gramaticais e um dicionário da língua internacional em uso – uma mistura de línguas de todo o mundo, incluindo a chinesa.
Tendo-se habituado aos estudos mais complexos e abstractos, os adeptos não tiveram qualquer dificuldade em aprender o novo linguajar que lhes apareceu, francamente, cacófato e vulgar.
- Que língua selvagem! – opinou Supramati.
Decidiu-se que eles iriam ao palácio nas cercanias de Benares, antiga moradia de Nurvadi; lá deveriam ser recepcionados por um jovem iluminado, de grau inferior, que seria o guia e que mais tarde os deixaria no lugar da destinação.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:26 pm

Ele exerceria também as funções de secretário, cumprindo tarefas que um simples mortal não teria condições de entender.
Algumas coisas ficaram no ar?
A data do ano corrente, as transformações ocorridas no mundo durante sua vida de ermitões e o local de futuras actividades – o que Ebramar insistia em não revelar.
- Que isto seja uma surpresa; não quero estragar o encanto do inesperado.
A simples menção do nome ou data, ano ou mês, nada representa sem a realidade que lhes serve de ilustração – ajuntou ele enfático.
Finalmente chegou a hora da partida.
Ebramar abençoou e abraçou-os demoradamente, deu algumas instruções finais e os acompanhou até a saída.
- Não vou me despedir, porque a qualquer hora nós podemos nos comunicar se for preciso.
Boa viagem, meus filhos! Perto da grade do portão, atrás do jardim, aguardam-nos cavalos de montaria com um séquito.
Até Benares, vocês irão à moda antiga – aqui há poucas inovações; mais tarde, é por conta da civilização moderna.
Um vagalhão de vida nova arrebatou Dakhir e Supramati, quando a grade se fechou atrás deles. Montarem magníficos cavalos, ricamente adornados, e acompanhados por alguns hindus, partiram para Benares.
Já era noite quando eles chegaram ao palácio, totalmente intacto, como se eles o tivessem abandonado na véspera.
Foram recebidos respeitosamente pela criadagem, menos numerosa que a de outrora; na ante-sala, aguardava-os um jovem, com aquele olhar surpreendente que distingue os imortais, e que se apresentou como o secretário de Sua Alteza, o príncipe Supramati – Leôncio Nivara.
Foi com vivo interesse que os amigos examinaram o novo secretário em seus trajes hindus.
Vestia uma espécie de longa sobrecasaca cinza-clara, com gola virada, camisa branca de seda com listras azuis, cingida por uma larga faixa de couro no lugar do colete.
- É nova moda! – pensou Supramati, contendo-se para não rir ao ver o traje e o corte de cabelo de seu secretário.
Deus misericordioso, e eu terei de me enfeitar assim! – atormentava-se ele, lamentando profundamente ter de abandonar suas vestes de linho, leves e confortáveis, às quais já se havia acostumado.
Após um lauto jantar que há muito tempo não saboreavam, o secretário convidou-os para irem ao banheiro para trocarem de roupa.
Nivara sugeriu-lhes que se banhassem no quarto ao lado, onde havia duas banheiras cheias de água rosada, muito aromática.
A seguir, o secretário ajudou-os a se vestirem.
Ele tirou de um cesto de vime dois trajes completos, constituídos de duas camisas de cambraia com pequenas pregas no peitilho, duas calças acetinadas que substituíam os antigos coletes, duas sobrecasacas longas de veludo preto, abertas no peito e com golas largas ricamente bordadas em fios de seda coloridos, formando colarinho em cima e que desciam até a cintura; nos braços, havia o mesmo tipo de canhão, por baixo do qual se viam as mangas brancas de linho.
Embaixo da camisa, Supramati pendurou numa fita azul a sua estrela de mago; ela brilhava feito um pequeno sol fulgurante e Supramati escondeu-a atrás da faixa.
Sobre o colarinho reversível da camisa, ele atou uma gravata preta de seda macia e fincou nela um alfinete com safira, um presente de Nivara, submetendo-se depois a um exame no espelho.
O traje caia-lhe bem, fora executado com muito gosto e refinação simples, mas do penteado ele não gostou.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:26 pm

Nivara cortou-lhe curto os cabelos na nuca e só no cocuruto e nas laterais deixou-lhe madeixas densas que caíam livremente sobre a testa.
Dakhir também estava pronto e, aproximando-se do amigo, bateu-lhe no ombro.
- Bem, chega de contemplar-se.
Está bonito; não se preocupe, pois não lhe faltarão conquistas.
Ninguém saberá que você é um velho pândego – troçou-o.
Supramati se virou e examinou Dakhir.
- Você também está óptimo:
o corte à girafa fica melhor em você que em mim.
Olhando para você, ninguém dirá que você é quatrocentos anos mais velho que eu – retrucou Supramati caindo na risada.
Quanto às conquistas, acho que você fará mais sucesso; ou um homem casado e sério.
- Ah! Está com medo de Nara e inveja a minha liberdade?
Pelo menos serei poupado de escândalo; quero ver você, caio saia para procurar a mademoiselle Pierrete – troçou Dakhir.
A chegada do secretário interrompeu a conversa.
- Sua carruagem está pronta – disse ele.
Da bagagem, vocês só pegarão esses dois baús? – perguntou ele, apontando para as enormes caixas de sândalo com cantos em prata.
- Sim! – respondeu Supramati.
Os amigos jogaram nos ombros capas pretas com forro de seda, colocaram chapéus de feltro de abas largas, pegaram da mesa luvas de pelica amarela e foram atrás do secretário que subiu a escada em caracol, dando na plataforma de uma torre alta, cujo tecto chato era ladeado, por corrimão.
Supramati curioso examinou ao redor,; pelo visto não iriam pegar um trem.
Subitamente ele viu no ar uma enorme estrela que se aproximava com velocidade estonteante.
- Espero que a gente não vá de estrela? – certificou-se ele, rindo.
- Justamente! É a sua aeronave – replicou sorrindo o secretário.
Um minuto depois, uma caixa comprida em forma de charuto, com duas grandes janela redondas iluminadas na extremidade, parou na altura da plataforma.
Nivara abriu a portinhola do corrimão, uma segunda escancarou-se na lateral do charuto e do seu interior foi jogada uma ponte, que o secretário fixou aos anéis de ferro, embutidos na parede. O aparelho assoviava e tremia.
Dakhir e Supramati passaram para bordo da nave e atrás deles entrou Nivara; um criado hindu transportou os dois baús.
Na pequena passagem iluminada, eles encontraram um senhor, todo de preto, que após uma mesura os levou a um minúsculo salão revestido de cetim dourado, com poltronas baixas e macias e mesinhas pretas laqueadas.
O avião lembrava pela decoração de seu interior um vagão de três compartimentos.
Dois deles eram sala de estar e dormitório, depois vinha um quarto para o secretário, e, nos cubículos, na ponta, eram as instalações do mecânico, criado, e depósito para a bagagem.
No dormitório, de tamanho menor do que a sala de estar, havia duas camas baixas e estreitas e uma pia com mesa de toalete – tudo laqueado; no revestimento e acabamento predominavam as cores brancas e azul, mescladas com dor dourada. Cada um dos recintos possuía uma janela redonda, fechada naquela hora por uma cortina de seda.
A ponte foi retirada instantaneamente; a porta se fechou e um sacolejar suave indicava que o avião havia partido.
Um pouco depois, o criado trouxe chá com biscoitos e retirou-se em silêncio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:26 pm

Nivara não apareceu mais.
Após conversarem um pouco, Dakhir sugeriu que eles dormissem.
- Já é tarde e estou me sentindo cansado.
Estão nos levando ao nosso destino e, se for necessário, nos acordarão.
A curiosidade, a impaciência e a tensão nervosa não deixaram que eles dormissem por muito tempo, e, tão logo clareou, saíram para o salão; Supramati levantou a cortina.
Bem no fundo, abaixo deles via-se a terra; vez ou outra podiam ser enxergadas algumas construções e extensões de água; mas a velocidade do voo impedia que vissem os detalhes.
Foi então que ele se deu conta de que a carruagem aérea tinha muitos acompanhantes; massas pretas de aeronaves de todos os tamanhos surgiam no ar por todas as direcções.
Supramati entediou-se em ficar olhando e se sentou; logo apareceu Nivara e em seguida o criado com o desjejum.
Enfastiados, os amigos examinaram detalhadamente o mecanismo da nave espacial. De modo geral, gostaram do novo método de locomoção; o conforto era total, enquanto a viagem era mais rápida e menos cansativa do que de trem.
Veio o dia e o sol brilhava tanto, que eles tiveram de baixar as cortinas.
- Bem! Estamos longe de nosso destino?
A propósito, estamos indo a Paris? – perguntou Supramati, esticando-se na poltrona.
- Oh, não!
Paris não existe há muito tempo:
foi destruída pelo fogo.
Supramati empalideceu.
- Que enorme deve ter sido o incêndio para aniquilar uma cidade tão grande! Provavelmente queimou apenas uma parte dela?
- Queimou tudo; até os fundamentos! Foi uma catástrofe total.
Primeiro, do interior da terra irromperam gases asfixiantes que contaminaram a atmosfera; depois o solo cedeu, muitos edifícios ruíram e do interior da terra brotaram as chamas.
Todos os gasodutos e fios eléctricos pegaram fogo.
Era um mar de chamas que devorava tudo.
Estou levando Vossa Alteza para Czargrado, antiga cidade de Constantinopla – ajuntou Nivara, tentando aparentemente dissipar a impressão angustiante que se reflectia nas feições dos viajantes -, logo mais estaremos lá.
- Constantinopla ainda pertence ao império otomano? – interessou-se Dakhir.
- Não! Os muçulmanos foram expulsos para a Ásia há muito tempo, onde eles fundaram um estado único, muito forte actualmente, apesar da rivalidade coma China, que também progrediu e dominou a América, agora invadida por amarelos.
Quanto a Czargrado, a cidade agora é a capital do Império Russo, uma das maiores potências do mundo, liderando a grande Aliança Pan-Eslavista.
A Áustria também acabou, desmembrando-se em etnias que as compunham.
Uma parte – a dos germânicos puros – juntou-se à Alemanha; os outros, incluindo os húngaros, fundiram-se no mar eslavo.
Viena, a propósito, pertence agora aos tchecos...
Bem estamos nos aproximando – interrompeu a sua narrativa o secretário, olhando pela janela.
A nave está aterrissando.
Dakhir e o amigo entreolharam atónitos.
- teremos que estudar toda a geografia e um bom pedaço da História para não fazer feio na sociedade – observou Supramati, suspirando.
Aproximando-se da janela, ele suspendeu a cortina; Dakhir ficou em pé ao lado.
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