Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:27 pm

A nave espacial já havia diminuído a altitude e a velocidade, o que permitia divisar claramente o panorama que se estendia abaixo deles.
A enseada do Chifre de Ouro, no Estreito de Bósforo, pouco mudou e às margens do mar, tranquilo e liso como espelho, estendia-se a cidade de proporções colossais salpicada de edificações em forma de torres de faróis, a sobressaírem-se de outras construções.
Em volta daquelas torres comprimiam-se, zunindo feito abelhas junto à colmeia, atracando e partindo, numerosas naves do mais diferentes tipos e tamanhos.
Poucos minutos depois, a aeronave dos magos aproximou-se de uma ampla plataforma apinhada de gente.
Agora os nossos viajantes viram-se no topo de um enorme edifício da altura da torre Eiffel; uma ponte comprida unia o local onde eles estavam a outro edifício de igual tamanho; pela ponte corriam, num vaivém, trenzinhos com passageiros.
Nivara explicou aos magos que uma daquelas construções era o aeroporto de chegada e a outra – de saída; mas como em ambas havia hotéis e restaurantes, o movimento entre elas era muito intenso.
Ainda que Supramati, Dakhir e o secretário não se distinguissem em nada de outros por seus trajes, havia algo neles que chamava a atenção, e muitos olhares curiosos detinham-se nos viajantes, enquanto eles, acompanhados de Nivara e do criado, andavam lentamente pela plataforma e depois desciam ao salão do elevador.
A descida terminava num amplo salão redondo ladeado de portas em arco e elevadores.
Os vãos entre as portas eram ocupados por plantas, poltronas e sofás de couro vermelho, mesas e estantes com livros e revistas; no centro do salão brotava o jacto prateado do chafariz.
Através de uma das inúmeras portas, eles saíram para uma ampla plataforma de acesso a céu aberto, onde por eles esperava uma carruagem parecida com automóvel, ainda que fosse mais leve e elegante.
Decidiu-se entre eles que Dakhir reapareceria na sociedade sob o nome de Príncipe Dakhir, irmão mais novo de Supramati.
Coisa natural, pois os dois gostavam um do outro e consideravam-se irmãos.
Quando os magos se instalaram no carro, Supramati perguntou:
- Para onde iremos agora?
- Para seu palácio, onde tudo está pronto para a recepção de Vossa Alteza e de seu irmão.
Ordenei que não tomássemos o caminho directo, mas fôssemos pela cidade para que vocês pudessem conhecê-la – acrescentou Nivara.
À velocidade lenta, aparentemente proposital, o carro começou a percorrer as ruas arborizadas, repletas de jardins com chafarizes e floreiras:
de um modo geral havia muito verde.
O aspecto externo das casas pouco mudara; apenas as fachadas, esquisitamente pintadas em novo estilo, pareceram a Supramati pouco elegantes e com pretensões de beleza.
O carro entrou por baixo de uma arca trabalhada em bronze com a inscrição “galerias comerciais” e achou-se num belíssimo jardim.
Sob as alamedas sombreadas viam-se coretos, quiosques e galerias de lojas.
Ali estavam reunidas as mais diversas e valiosas obras de todos os países do mundo.
Centenas de carros moviam-se em todas as direcções; nas alamedas para os pedestres estavam instalados numerosos bancos ocupados por visitantes.
A Nova Constantinopla tornou-se, sem dúvida, uma cidade magnífica; os velhos quarteirões de estilo oriental, as ruas estreitas, as feiras, com aquela população surpreendentemente típica, já não se viam mais.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:27 pm

Indagado sobre isso, Nivara revelou que nos arredores da cidade ainda se preservara um quarteirão tipicamente oriental; sobrou também uma parte de muros bizantinos, preservados e mantidos como uma curiosidade histórica.
O interesse vivo excitado com a visão da cidade, fervendo de vida, da qual Dakhir e Supramati se desacostumaram completamente, absorvia-os tanto, que eles não sabiam para onde olhar e suas impressões se embaralhavam.
Não obstante, algumas pessoas no meio da multidão surpreenderam-nos sobre maneira; Supramati não conseguiu se conter e exclamou:
- Olhe Dakhir, para aqueles três!
Talvez eu esteja enxergando mal, mas será que em locais públicos é permitida tal sem-vergonhice?
Naquele exacto momento eles estavam cruzando a rua e alguns pedestres pararam dando passagem ao carro.
A atenção de Supramati foi chamada para duas mulheres e um homem vestidos, ou melhor, despidos de uma maneira totalmente despudorada na opinião de pessoas ainda impregnada de velhos conceitos da decência.
As mulheres vestiam uma espécie de camisa de gaze até o tornozelo, mas tão transparente, que o corpo podia ser visto em todos os detalhes.
Na cinta colorida de seda, do lado direito, pendia uma grande bolsa rendada; os pés estavam calçados em sandálias de couro dourado com anéis nos dedos; nas mãos havia luvas de couro até os cotovelos; o chapéu de palha sobre um alto penteado empinado e o guarda-chuva completava a indumentária.
O traje do homem não era menos modesto.
A camisa de mangas curtas era do mesmo tecido transparente, cingida por uma faixa de couro, sobre a qual se viam penduradas de ambos os lados, as mesmas grandes bolsas de couro; do pescoço pendia uma corrente de ouro com relógio e uma agenda de anotações, sobre a cabeça ele envergava um chapéu de abas largas como o de Supramati.
Segurando sob as axilas uma pasta, ele fumava e palreava animadamente com as mulheres que, pelo visto conhecia bem.
Que indecência!
São doidos ou maníacos?
E como permitem que eles apareçam assim nas ruas, ferindo os costumes da sociedade?
Indagou irado Supramati.
-Eu já vi esses tipos no aeroporto e dentro das galerias comerciais; fiquei extremamente chocado – observou Dakhir.
O jovem secretário lançou um olhar indiferente para os pedestres e, aparentemente, não deu qualquer importância ao aspecto deles.
- Eles são da sociedade “Beleza e Natureza”.
Segundo as suas concepções, o corpo humano – a criação máxima da natureza – não pode ser indecente e só a hipocrisia e a falsa moral tentam encobri-lo.
Se for permitido que se mostrem as mãos, o rosto, o pescoço, e assim por diante – dizem eles – então é ridículo ocultar o restante, tão belo, perfeito e útil.
A nudez, assim como a beleza, é “sagrada” segundo as suas concepções; e como actualmente há uma liberdade de pensamento, eles são deixados em paz e ninguém lhes dá a menor atenção
E são muitos os devotos da “nudez sagrada”?
Bem e no inverno eles também andam nus pelas ruas? – perguntou irónico Dakhir.
- Eles são numerosos, sobretudo na França e Espanha; normalmente podem ser encontradas em todos os lugares.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:27 pm

No século XX foram feitas as primeiras tentativas de incluir no código civil o direito da nudez; no início houve muita resistência, que aos poucos foi desaparecendo, e, como os partidários eram firmes em suas convicções, eles conquistaram este status.
Primeiro apareciam nus no teatro e no cinema, depois começaram a formar círculos especiais, quando chegou à época da liberdade total, começaram a andar pelos locais públicos.
Actualmente todos se habituaram a eles; e nos dias frios se vestem normalmente e, fora disto, permanecem fiéis aos seus ideais.
- Belos ideais! – resmungou Supramati.
Nesse ínterim, um membro da sociedade “Beleza e Natureza” atravessava a rua; Supramati virou o rosto enojado.
Estavam agora percorrendo uma rua arborizada ao longo de uma cidade às margens do Estreito de Bósforo; a carruagem virou para o pátio calçado com piso de mármore, e parou junto da entrada com colunas.
Dois serviçais se apressaram para ajudar a descer o senhorio e, na ante-sala, toda criadagem se reuniu para recepcioná-los.
O administrador, com ar majestoso, dirigiu-lhes saudações e os levou aos aposentos internos que ocupavam o primeiro andar.
Ao liberar o criado e anunciar o desejo de ficar só descansando até o almoço, Supramati examinou as suas novas acomodações pessoais:
o dormitório, o gabinete de trabalho, a biblioteca, a sala de jantar e a de estar.
Tudo era decorado com luxo imperial; o que mais lhe agradou foi o dormitório.
As paredes eram revestidas de marfim trabalhado num fundo esmaltado da cor da cereja; a cama, os móveis e a toalete – tudo, se não era de marfim, parecia ser de um material que a este se assemelhava; a roupa de cama e as cortinas eram de seda e da tonalidade carmesim.
Mas todo aquele mobiliário deixou de interessá-lo, quando ele viu sobre a mesa do gabinete um monte de revistas e jornais.
Impaciente, pegou o primeiro jornal, abriu-o e procurou pela data:
esta anunciava “14 de julho de 2307”.
O jornal tremeu-lhe na mão e os joelhos embaçaram.
Dominado por uma fraqueza repentina, afundou-se na poltrona junto à mesa e agarrou a cabeça com as mãos.
Três séculos se passaram ao largo e ele nem sequer notara isso...
Seu coração comprimiu-se por um sentimento, antes estranho, de desespero, medo e consciência da solidão.
Mas a fraqueza foi passageira.
A vontade poderosa do mago venceu-a e lhe devolveu a serenidade habitual.
O que é tempo?
Um gigante escapadiço, apenas percebido pela humanidade terrestre efémera que tenta determiná-lo, ao passo que o seu trabalho intelectual fez com que ele o esquecesse.
E que diferença fazia, no final das contas, se duas ou Três gerações se sucederam indo embora do palco da vida durante a sua ausência.
Todas elas eram estranhas da mesma forma...
Supramati suspirou pesadamente, passou a mão pelo rosto como se tentando afugentar pensamentos enfadonhos e aprumou-se.
Ele pegou novamente o jornal e, neste instante, o seu olhar deteve-se em sua mão branca e delgada, com pele acetinada – a mão de um homem co menos de trinta anos de idade.
Abrindo o jornal, intitulado com o nome de “A Verdade”, começou a ler.
Antes de qualquer contacto com as pessoas, ele deveria situar-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:27 pm

Percorrendo com os olhos os jornais que tratavam essencialmente dos acontecimentos cotidianos.
Supramati achou na Biblioteca uma enciclopédia e começou a folheá-la.
De imediato ele queria estudar as condições económicas da vida actual e tentar compreender o sistema monetário.
Além disso, precisava saber de que bens ainda dispunha na Europa e verificar as contas junto aos administradores.
Continuava absorto no estudo das moedas, quando foi chamado para o almoço.
Dakhir já estava na sala de jantar e apresentou-lhe o seu secretário particular.
O almoço, ainda que fosse vegetariano, verificou-se excelente.
À mesa falou-se de amenidades e depois do almoço os secretários retiraram-se modestamente, enquanto os amigos passaram às acomodações de Supramati.
Ao se instalarem nas poltronas do gabinete, Supramati estendeu calado o jornal a Dakhir, apontando a data.
- Eu já sei que estamos três séculos mais velhos.
Um exemplar idêntico aguardava por mim em meu quarto – antecipou-se Dakhir rindo.
Já tive muitas surpresas desse género em minha vida.
Mas não foi para isso que vim para cá – ajuntou ele.
Amanhã estou pensando em sair daqui...
- Como: Você esta querendo abandonar-me? – interrompeu-o Supramati.
- Sim! Vamos nos divertir cada um por si – replicou rindo Dakhir.
Eu conversei com o meu secretário – um jovem magnífico, aliás – e decidi, inicialmente, dar uma passada no palácio do Graal, visitar alguns amigos.
Depois, eu e o meu secretário – Nebo – iremos à França e a Espanha, onde espero encontrá-lo, quando você se entediar de Czargrado.
- Você irá provavelmente, a um lugar onde um dia ficava Paris – disse pensativamente Supramati.
- Não! Isso é o que menos me interessa!
Eu soube que esses países se unificaram num reino judeu; estou curioso em ver como é que se arrumaram esses destruidores de sistemas estatais; esses espezinhadores de todas as leis, e como eles administram a vida de pessoas decentes.
Além disso, eu soube de uma coisa que vai deixá-lo triste, se é que sob o invólucro do mago em você ainda vive um inglês.
- “Será que também Londres sofreu a mesma catástrofe de Paris” – Assustou-se Supramati.
- Bem é pior que isso!
A terrível calamidade destruiu a maior parte da Inglaterra, logo depois devorada pelo oceano.
Supramati estremeceu empalidecido e debruçou-se sobre a mesa.
Nesse instante ele se esqueceu de sua imortalidade, de seus conhecimentos mágicos e de séculos idos; agora ele era Ralf Morgan, um patriota inglês, abatido pela desgraça inédita que acabou com sua nação.
Seguiu-se um breve silêncio.
- Você conhece os detalhes da tragédia?
Quando isso aconteceu? – indagou ele com o seu habitual sangue frio.
- Uns cento e oitenta – duzentos anos atrás – não sei exactamente -, houve um terrível terremoto; a parte inglesa da ilha desmoronou-se, ficando intacta só a parte montanhosa da Escócia, formando uma nesga de terra.
E imagine, Nebo me contou que o velho castelo na Escócia, onde você passou pela primeira iniciação, resistiu no penhasco.
Tiveram de fazer apenas algumas reformas, muito pequenas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:28 pm

- Foram medonhas as desgraças que abalaram o mundo durante a nossa ausência; eu vou empreender um estudo histórico das transformações ocorridas.
Sem dúvida a superfície da Terra já sofrera enormes mudanças externas; ruíram continentes inteiros e, em vista da destruição definitiva que está por acontecer, essa catástrofe parcial não é nada; de qualquer forma, o “decrépito homem”, que vive em nós, é tão obstinado, que a aniquilação da minha velhota Inglaterra me atingiu no coração e eu não posso aceitar a ideia de que Londres com seus milhões de habitantes, com todos os seus tesouros históricos e científicos, descanse no fundo do oceano!
- Temos de nos acostumar a tudo!
É uma forma de preparação para outras provações duras que nos aguardam, quando o nosso planeta começar a morrer – retorquiu suspirando Dakhir e, enfiando os dedos por entre a vasta cabeleira negra, acrescentou:
- Estamos aqui para viver entre os homens.
Assim, sejamos homens e comecemos a viver como mortais felizes.
Você vai sair hoje?
- Não, passarei a tarde lendo esta enciclopédia para ter alguma noção sobre geografia e história.
Faça-me companhia! Amanhã falarei com o administrador para acertar a minha situação financeira – disse Supramati.
- Excelente! Vamos estudar a história moderna e amanhã, depois do meio-dia, eu viajo.
Além disso, precisamos dormir cedo para tentar acalmar os nervos.
- Ah, sim! Dormir, dormir!
Todos os dias eu agradeço a Deus pelo facto de que a nossa imortalidade não nos privou da dádiva divina de sono.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:28 pm

Capítulo VII

No dia seguinte, após um desjejum excelente, Dakhir partiu.
Assim como durante aquele frugal repasto do almoço da véspera, os magos se embeveceram com os magníficos acordes da música instrumental e de canto, tocada – segundo Nivara – por uma espécie de toca-discos aperfeiçoado ao máximo.
Após a partida do amigo, Supramati sentiu-se ainda mais solitário.
O período da manhã ele passou trabalhando com uma dúzia de administradores e Nivara, tendo-se convencido de ainda possuir algumas fazendas, palácios e um bom capital em praticamente todos os cantos do mundo. Impressionado com o fato de deter nas mãos uma parte substancial de seus antigos imóveis, resolveu fazer uma inspecção neles.
Entretanto, o contacto com as coisas materiais, a que ele estava desacostumado, deixou-o mais exausto do que após um difícil trabalho de magia.
Supramati retirou-se ao gabinete, sentou-se junto da janela aberta e ficou assim por algumas horas, meditando sobre o passado, recordando os velhos tempos e admirando o magnífico panorama de Bósforo com os seus barcos tremeluzentes.
Com o bafejar do frescor vespertino, ele decidiu dar uma volta pela cidade; era o melhor meio de ver as pessoas e relacionar-se com elas.
Tocou a campainha.
Imediatamente veio o criado que o acompanhava desde Benares e o ajudou a vestir-se. Desta vez ele pôs um traje preto, mas não de veludo.
O tecido extremamente macio e sedoso lembrava linho fino; o forro era de seda vermelho-escura e a gola era rendada com os fios da mesma cor.
Supramati colocou no bolso a planta da cidade e já estava prestes a pôr as luvas e o chapéu, quando entrou Nivara; o criado se retirou imediatamente.
O secretário deu-lhe um relógio, uma carteira com moedas de ouro e cartões de crédito.
- Vossa Alteza vai sair sem levar o relógio?
Supramati rompeu em riso;
- Você tem razão, meu amigo!
O que eu faria na rua sem relógio e dinheiro?
Eu ainda não me acostumei a ver as horas e pagar seja lá o que for.
Passeando sem pressa pelas ruas da cidade, ele estudava atentamente as casa as lojas e, sobretudo, as multidões.
Ao chegar até um jardim, viu nos fundos um luxuoso restaurante.
Resolvido a comer alguma coisa, entrou, sentou-se à mesa, à sombra de árvores, e pediu vinho, pastéis e frutas.
Junto com o pedido atendido, trouxeram-lhe algumas revistas ilustradas.
Saboreando aos pequenos goles o vinho, experimentou as frutas; estas lhe pareceram menos suculentas que as de sua ilha desértica.
Pôs-se a examinar o ambiente em volta.
De início, notou que a população, de um modo geral, era mais franzina que em seu tempo; um nervosismo sobressaltado reflectia-se nitidamente nos homens e mulheres de compleição frágil, de rostos pálidos, marcados por murchamento prematuro.
Impressionou-o, sobretudo, o pequeno número de crianças.
Turmas alegres e barulhentas de crianças, da mais variada idade, que na sua época animavam os jardins, agora não se viam.
Para ele, um homem de sensibilidade aguçada, o aspecto astral daquela gente era aversivo e suas emanações pesadas e malcheirosas provocavam náuseas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:28 pm

Ele, porém, se dominou; para fazer parte da sociedade era necessário se acostumar a ela.
No momento de chamar o garçom para pagar a conta, Supramati sentiu, de chofre, alguém lhe pousar a mão no ombro e ouviu uma voz sonora e debochada:
- Boa tarde, Ralf Morgan!
Prazer em vê-lo.
Já não nos víamos há mais de trezentos anos.
Supramati virou-se constrangido, dando de frente com Narayana, a fitá-lo sorrindo com seus belos olhos negros.
Ele não havia perdido nem um pouco a sua beleza demoníaca; estava vestido no grito da moda e graciosidade requintada; ninguém imaginaria que aquele estranho e misterioso ser era meio-homem, meio-espírito.
- Pelo amor de Deus, tenha cuidado, Narayana!
Alguém poderá ouvi-lo.
Vamos para algum lugar reservado, onde poderemos conversar sem testemunhas.
Se quiser, podemos ir até em casa, se você não tem onde ficar.
Não tenho onde ficar?
O que você acha que eu sou?
Não vivo pior que você!
Graças a Deus, na gruta do Monte Rosa há ouro de sobra.
Venha, eu vou levá-lo a minha modesta moradia.
Supramati acertou a conta.
Narayana pegou-o pelo braço e, quando eles já se dirigiam para a saída, um grupo de jovens entrando aproximou-se deles rapidamente.
- Que sorte encontrá-lo príncipe – disse um jovem apertando a mão de Narayana.
- Estávamos a sua procura para convidá-lo ao teatro – ajuntou outro.
- Antes de tudo, senhores, permitam-lhe que eu lhes apresente o meu primo, o príncipe Supramati, um jovem magnífico com queda para ciência.
Sejam tão bons para ele como são para comigo!
E ele recitou rapidamente seus nomes russos.
Após os apertos de mão, um dos homens, o conde Minin, explicou que eles procuravam por Narayana para convidá-lo para assistir a uma nova peça de teatro e ficaríamos felizes caso o primo dele também se juntasse a eles.
- Acreditem, senhores, eu lamento profundamente não poder aceitar o gentil convite – respondeu Narayana.
Já tenho um compromisso para esta noite.
Meu primo acaba de chegar de Benares e como não nos víamos há muito tempo precisamos discutir alguns assuntos familiares inadiáveis.
Amanhã estaremos à sua inteira disposição.
Mas devo preveni-los de que Supramati não é dado a farras como eu.
Vive mergulhado em livros, é mais discreto e acanhado que uma donzela, ainda que eu ache que a gente possa dobrá-lo e pervertê-lo um pouquinho – ajuntou Narayana, piscando malicioso e significativamente.
Em meio a um riso geral, todos se despediram.
- Você é incorrigível, Narayana!
Sua cabeça continua repleta com as mesmas bobagens de trezentos anos atrás, desde a época de sua morte carnal.
- Absolutamente!
O meu lema – mulheres, alegria e vinho – jamais será diferente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:28 pm

Confesso-lhe que graças AP elixir divino, levei o meu corpo a tal ponto da densidade que posso gozar os prazeres.
Eu sempre fui um químico bastante eficiente e nesse sentido as aulas de Ebramar não foram inúteis – jactou-se Narayana.
Espero que você não tenha vindo para fazer o papel de um monge!
Antecipo-lhe que durante as suas excursões ao mundo, vocês podem fazer o que quiserem, contanto que se adaptem bem à sociedade e a estudem a fundo.
Pelo que sei vocês podem até se casar e Nara não teria nada com isso! – acrescentou ele maroto.
- De qualquer forma, até agora eu ainda não encontrei nenhuma mulher com que eu quisesse fazê-lo – disse Supramati com desdém.
Nesse momento, Narayana se deteve diante de uma grade dourada, abriu o portão com a chave e eles adentraram um amplo jardim.
No fundo dele, erguia-se um gracioso palacete todo branco.
Por uma porta que abria para o terraço, eles entraram numa luxuosa sala rosada, toda com flores, e, de lá, à sala de estar, onde havia uma mesa posta com algumas garrafas de vinho espumante dentro de potes de gelo.
- Você não mantém empregados? – perguntou Supramati, ao notar que em nenhuma das salas vazias havia uma alma sequer.
Nesse instante seu olhar deteve-se nas iguarias sobre a mesa e ele perguntou surpreso:
- Você está comendo carne, ou isso é só para enganar os tolos?
- Nem um tiquinho!
É mais para ostentar que estou bem de vida; a carne é só para os mais ricos:
o preço é proibitivo.
Quanto à primeira pergunta, bem, eu tenho empregados, mas não gosto que esses velhacos fiquem rodando por aí.
Você entende que devido a minha existência...
Um tanto estranha, é desgastante ser perturbado numa hora imprópria.
Por isso sempre tenho tudo pronto e os criados só aparecem quando eu os chamo.
Como vê... estamos a sós, ninguém irá perturbar-nos e podemos falar o que quisermos.
Tenho muita coisa para perguntar-lhe, já que você é uma pessoa bem relacionada e a minha missão é a de conviver na sociedade.
- Oh, não há nada mais fácil!
Sou um frequentador assíduo da alta-roda, não só aqui, mas também em outras capitais.
Sou recebido na corte – você deve saber que os russos ainda tem um imperador -, e bem quisto na família imperial; enfim, eu sou mimalho da aristocracia local.
Tenho muita popularidade entre as mulheres – aquelas que ainda preferem homens.
Possuo amigas por todos os cantos, mesmo as que não gostam de homens, inclusive entre as “amazonas”.
A única coisa que temo é a concorrência.
Belo e rico como o czar, dotado de enormes conhecimentos, você é o próprio semideus.
Com seus prodígios, você arrebatará de mim os corações das mulheres, que nem de longe suspeitam da sua idade venerável – concluiu pensativamente Narayana, cortando um pedaço de torta.
Supramati não conseguiu conter uma gargalhada.
- No que diz respeito a ocultar a idade, você o faz melhor que eu, e, comparado a você, não passo de uma criança de colo.
Mas acalme-se, não tenho a mínima intenção de concorrer com você diante do sexo frágil.
Sou um marido fiel!
- Você é um burro!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:28 pm

- Admitamos que eu fosse.
Mas sinceramente, poderia eu cair na farra e divertir-me feito um homem comum depois de tudo que sei?
Por fim, teríamos este direito?
Nós – os iniciados - entregarmo-nos às diversões torpes, enquanto terríveis catástrofes são eminentes e tantas desgraças e sofrimentos estão por desabarem sobre a humanidade?
Fomos chamados para fazermos o bem, utilizar os nossos conhecimentos para aliviar o infortúnio do próximo, dar-lhe o nosso apoio, e não para divertir-nos e pensar em bobagens – desabafou Supramati.
Narayana se debruçou sobre a mesa e afastou o prato com a torta.
- Concordo! O nosso planeta está que não aguenta mais, e os seus amáveis habitantes concorrem para acabar com ele.
A temperatura da Terra está baixando; lá onde havia calor escaldante, já se contentam com 20º C; e muitas regiões se transformaram em desertos, os desastres geológicos vêm aumentando e são cada vez mais terríveis.
Por enquanto aqui, nós temos um oásis de vegetação exuberante e rica; mas, de maneira geral, ela depauperou-se – o que você verificará por si mesmo.
Eu lhe disse que a carne é só para os ricos.
Isso se deveu, principalmente, ao facto de diversas epidemias terem dizimado o gado, e as causas a “ciência” – observou ele num esgar de riso – não conseguiu estabelecer.
Resumindo: o gado diminui a proporções colossais.
Algumas espécies, numerosas nos eu tempo, estão extintas.
Já há muito tempo desapareceram as baleias, focas, lontras, elefantes, bisões, veados, etc.
A sobrevivência de algumas aves só foi conseguida em criadouros especiais e zoológicos.
É impossível enumerar tudo o que foi extinto ou desapareceu do reino aquático e terrestre.
Sim, sim! A nossa Terra esta se organizando para a morte.
Isto me amargura.
Eu gosto desta velhota, ainda que não tenha tido a felicidade de presenciar a sua formação e ajudar na sua civilização.
Tenho dela muitas recordações bonitas e agradáveis, mas...
Ele passou a mão pelo rosto como se quisesse afugentar pensamentos tristes.
- Bem não adianta chorar!
Iremos sobreviver ao planeta e vocês me levarão consigo!
Lá eu serei muito útil para aumentar a população da nova terra e difundir o gosto pela beleza.
Mas, antes, vamos gozar o presente.
Viva a vida e a substância primeva.
Ele novamente aproximou o prato com a torta, encheu dois copos de vinho e tomou “a saúde” de Supramati; este meio sério, meio de brincadeira, também tomou a saúde do outro.
- E agora, Narayana, pare com as palhaçadas e brincadeiras.
Interessa-me sobretudo a religião.
Qual é o credo dominante?
Sei que o cristianismo existe, pois vi muitas igrejas aqui em Czargrado.
- Sim, o cristianismo ainda sobrevive na Rússia e todos os povos eslavos o professam agora – respondeu Narayana.
A necessidade da coesão política levou à unidade religiosa.
Nesta imensa massa popular, que é à Aliança Pan-Eslavista, ainda há numerosas igrejas, locais sagrados, mosteiros, etc.
Conservou-se também a maioria de ritos e sacramentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 19, 2016 7:29 pm

Quanto ao cristianismo católico, cujo declínio se iniciou no século 20, ele perdeu as forças devido à indiferença de seus seguidores e contradições de seus dissidentes.
Há mais de cinquenta anos o papado foi extinto e o Vaticano,
hoje é um museu; mesmo nos antigos países católicos, os templos mais belos e historicamente importantes foram transformados em museus, e aquilo que era chamado de culto religioso não existe mais.
A Alemanha, que se tornou totalmente racionalista e, em consequência disso descrente, suprimiu Deus.
Existem muitas seitas – a propósito elas são numerosas na Rússia – com seus templos ocultistas, onde se invocam os espíritos, mas é claro, não de primeira linha.
Os judeus, a partir do momento em que constituíram o seu próprio estado, dirigido pela antiga seita de maçons franceses, dispensaram o seu velo YHWH e restabeleceram o culto a Bafonete, ao qual veneravam os tamilieros; assim, eles adoram abertamente o bode satânico e realizam “magníficos” ritos populares, que outrora constituíam morte certa na fogueira para os pobres cavaleiros do templo.
Então, é isso! Como você vê, tudo está mudado.
Os povos asiáticos são mais firmes em suas convicções.
A República da China continua a venerar Confúcio e Buda, e o mundo muçulmano até hoje aclama:
“É grandioso o Alá e seu profeta, o Mohamed!”
Quanto à religião, acho que estes sãos os aspectos principais.
Devo apenas acrescentar que, apesar da existência dos fanáticos, a indiferença religiosa está se espalhando cada vez mais e mais.
Obrigado!
Já tenho uma noção geral; não é difícil de completar os detalhes.
Agora, se possível, fale-me da moral no contexto cotidiano.
Narayana sorriu e coçou a atrás da orelha.
- Moral! Hmm!... Ela nunca foi forte na nossa Terra, que eu saiba, desde o tempo do Grande Macedónio.
Que ela claudicava em sua época – isso você sabe -, mas, agora, com a evolução os conceitos mudaram.
Por exemplo, o matrimónio! Na Rússia ele permanece como sacramento, abençoado pela igreja, ainda que o ritual religioso em si não seja obrigatório.
O divórcio é permitido, desde que sejam transcorridos dez anos de casamento, em vista do grande número de abusos.
Além disso, a igreja e a sociedade fizeram uma concessão AA tendência da modernidade.
Assim, o adultério – como diziam antigamente – é tolerável e ninguém é julgado por essa falta, e, desde que praticado dentro das normas, tudo é feito às claras e legalizado em cartório.
Por exemplo, se um homem casado quiser ter uma amante, ele informa sua intenção à sua esposa legal e firma com a sua nova paixão um contrato de dez meses, obrigando-se a depositar uma soma suficiente para garantir o sustento da mãe e de seus filhos, no caso de relacionamento dele com a outra ter uma sequência.
Se a mesma amante assinar, por um descuido, na vigência dos dez meses, outro contrato, o primeiro se tornará invalidado e todas as despesas e prejuízos correrão por conta do segundo parceiro.
Da mesma forma, uma mulher casada não poderá ter um amante, sem antes obter de seu marido dez meses de férias conjugais, em cujo período ele renuncia a seus direitos sobre ela.
Uma criança, nascida nestas condições, leva o sobrenome da mãe, a qual, juntamente com o seu novo parceiro, deposita um capital para a subsistência e educação dela.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:39 pm

O filho espúrio é ducado no seio da família, havendo para tanto um consentimento expresso do marido.
A mulher tem o direito de visitar o seu amante durante as férias, mas este é proibido de ir a casa onde ela mora com o marido.
Como você vê, tudo é feito às claras, mediante um contrato e com garantia monetária.
Assim, não há mais parceiros infiéis.
Se um homem gosta de uma mulher, ele lhe confessa o seu amor; esta requer do marido uns meses de férias sem abandonar, a seu critério, o tecto conjugal.
O marido, por sua vez, não recusa o pedido, pois pode usufruir dos mesmos direitos ao encontrar outras mulheres de que ele venha a gostar.
Não é uma coisa original?
E que fonte de material para os romancistas!
Um género literário totalmente novo! – desatou a rir Narayana.
O facto é que agora há poucas separações e bem menos, relativamente adultérios, pois todas estas transacções custam caro e os que sabem o valor do dinheiro preferem se contentar com a felicidade institucionalizada.
Entretanto nós ainda não esgotamos a questão matrimonial.
Nos países ateístas, o casamento é firmado por cinco, dez, quinze ou vinte anos.
Depois de vinte, a união é rescindida automaticamente; se as partes quiserem continuar com ela, é feita a sua revalidação mediante um novo contrato.
Para prevenir-se de travessuras extraconjugais, “lês coup de canif”, existem leis específicas semelhantes às que acabei de citar.
- E os divórcios por causa do ciúme?
Ou este sentimento, existente até nos animais, está agora totalmente atrofiado? – indagou Supramati.
- Oh, não! Brigas e dramas familiares continuam existindo, só que bem menos que antes.
Primeiro todo o género humano está degenerando e tornou-se apático, pusilânime e medroso, incapaz de arrebatamentos de paixão, heróicos e elevados; segundo, o hábito é a segunda natureza, e, por fim. Os crimes do tipo: sufocar a esposa, cortar a garganta do marido ou da amante, são punidos com muito rigor.
Isso não evita, contudo, os frequentes homicídios e- aqui eu destaco – a criminalidade, em geral é terrível.
Mas, voltando às mulheres.
Eu ainda não lhe falei de uma categoria de mulheres, as assim chamadas “amazonas”.
Totalmente independentes, elas evitam se prender quer através de casamento, que de contrato; ainda que reservem para si o direito de terem filhos à hora que lhes der na veneta, sem dar satisfação a ninguém.
É um mundo completamente à arte.
- Mas será que num país cristão, onde se professa em certa medida, determinados preceitos da moral, tal liberdade é admitida e tolerada? – perguntou Supramati.
- Tiveram de admiti-la por força das circunstâncias, pois foi necessário permitir que as mulheres fundassem suas próprias universidades, clubes, abrigos, hospitais, etc.
Entre os cientistas de todas as categorias há representantes femininos e que, por sinal, são de grande destaque; como você ia querer que tais mulheres, independentes intelectual e financeiramente – e elas não ganham pior que os homens -, não tivessem o direito de viver do jeito que elas bem quisessem?
Elas educam os seus filhos, assumem a maternidade e não exigem nada em troca para mantê-los.
Oh, as mulheres deram um grande passo em sua emancipação!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:39 pm

Há algumas que conseguiram entrar no sacerdócio.
Aqui na Rússia, entre os cristãos, não há mulheres cléricas, mas na maioria das seitas, os ofícios são celebrados por jovens mulheres, ainda que para tanto elas devam ser vestais.
Os fiéis vigiam-nas atentamente; coitadas delas, se começarem a flertar!
Supramati suspirou.
- Como é duro ter de viver num mundo assim!
Sinto-me um alienígena ao deparar com as mudanças que contrariam todas as convicções profundamente enraizadas em minha alma.
- Eu sei como é isso!
Recordo do choque que tive ao saber que não havia mais escravos e que os vassalos se transformaram em cidadãos.
Narayana deu uma risada.
- Falemos de outra coisa, de algo que não o perturbe!
Preciso distraí-lo meu amigo!
Quer que o leve até as minhas lindas amazonas?
Por sinal, algumas são lindíssimas. Ou você prefere ir ao teatro?
- Então os teatros ainda existem!
Iremos sem falta um dia desses.
Quanto às amazonas, ainda temos muito tempo.
Mas, já que você tocou no assunto, diga-me como progrediram as artes?
Você sempre foi um especialista no assunto – observou Supramati, pondo mais vinho em sua taça.
Narayana sorriu.
- tenho a alma de um heleno e sempre gostei do belo em todas as suas formas.
Quanto à arte, sob o aspecto prático, esta fez enormes progressos; as máquinas funcionam com tal perfeição, que parecem espiritualizadas.
O homem domou todas as forças da natureza e as explora com a cobiça febril; as riquezas pessoais aumentam e as naturais depauperam.
Alimentar o gado torna-se tão dispendioso, que ele diminui a cada dia.
O povo, é obrigado a se acostumar ao vegetarismo, é menos sujeito a epidemias, hoje bastante raras; mas, por outro lado, vicejam as doenças fluídicas.
E da demência, suicídios, marasmo e subnutrição prematura, sucumbem não menos pessoas do que antigamente da cólera e peste.
- Entendo: a higiene física progrediu e a espiritual regrediu – observou Supramati,
- Justamente! E esta decadência espiritual repercutiu, antes de tudo, na arte.
A arte, no sentido restrito da palavra, tal como a pintura, a escultura e a música, toda é eivada de cinismo, que caracteriza a época actual.
- Então o teatro também se transformou numa escola de obscenidades?
- Como sempre, ele é o reflexo da sociedade.
- E os artistas continuam presunçosos e exigentes, e tão cobiçosos e insuportáveis como o eram no nosso tempo? – indagou rindo Supramati.
- Oh, essas virtudes nunca mudam! – exclamou Narayana maroto. – Só que agora os artistas têm uma situação mais segura.
De um modo geral o teatro tornou-se tão necessário como a comida; e por isso é que seu número aumentou tanto.
Em qualquer cidadezinha há um teatro; nas metrópoles e capitais eles são centenas, cada cidadão – seja rico ou pobre – deseja ter a sua distracção, quer no teatro, quer em casa.
Todas as casas particulares são ligadas com diversos templos da arte, o que possibilita, sem sair da sala de estar, assistir a qualquer apresentação de seu interesse.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:40 pm

Imagine o volume de recursos pessoais necessários para atender a esta demanda.
Por esta razão há muitas escolas teatrais, verdadeiras universidades, em termos de número de alunos e diversidade de cursos; da mesma forma existe uma enorme quantidade de asilos para os artistas que em consequência da velhice ou doença não conseguem mais trabalhar.
Essas magníficas e luxuosas instituições proporcionam aos seus abrigados, até o fim da vida, todos os prazeres e conforto a que eles se acostumaram.
Em outras palavras, isso é uma corporação arquimilionária, que se permite um luxo incrível.
Por exemplo, aqui em Czargrado os artistas proeminentes abriram uma sociedade para a construção de um palácio próprio, onde cada um terá luxuosas acomodações individuais; lá mesmo haverá salões comuns para reuniões, salas de recepção, bibliotecas e doze anfiteatros, com palcos especialmente projectados para os ensaios.
Como você vê, dá-se muito valor ao conforto.
Quanto à administração, a mesma se acha totalmente nas mãos do Estado, constituindo-se de um ministério separado.
As nomeações para os cargos de chefia são baseadas no critério de talento e de reputação que um determinado artista conseguiu merecer ou granjear junto ao público.
Os salários são altíssimos.
- De um modo geral, eu vejo que a corporação dos artistas conseguiu muita coisa em termos de recursos materiais, privilégios e posição social – observou Supramati sorrindo.
Pena que o fim do mundo esteja próximo e que nem eles, nem a pobre humanidade desconfiam – ajuntou ele num tom mais sério.
- Aí é que você se engana!
A intuição sugere às pessoas que algo de nefasto está por acontecer.
Profetas vaticinando o fim do planeta estão por toda parte; eles só não se entendem quanto ao tipo da catástrofe.
Uns arriscam que seremos aniquilados por um cometa; outros – que nós morreremos congelados; terceiros dizem que as erupções vulcânicas implodirão a Terra.
Resumindo: são previstas as formas mais diversas de morte, mas a opinião dominante é a de que haverá um novo dilúvio arrasando a Terra, sem, no entanto, destruí-la por completo.
Cientes destas previsões, os empreendedores ingénuos projectam prédios que supostamente possam resistir ao dilúvio.
Eu, entretanto, sou mais pela construção de uma arca como a de Noé, que pode ser mostrada na próxima exposição – concluiu Narayana às gargalhadas.
Supramati também não conseguiu conter o riso.
- Sou de opinião que as consequências da catástrofe serão imprevisíveis – acrescentou ele, novamente em tom sério.
Eles não têm ideia da exaustão da Terra e não dão a devida atenção aos diversos avisos da natureza.
Ambos se calaram, ocupados com as suas reflexões.
Olhando distraído para a mesa, Supramati notou um cesto de frutas, onde havia uma enorme pêra com duas ameixas do tamanho de uma grande laranja; as uvas, da dimensão de ameixas normais, completavam o conteúdo do recipiente; ao lado, num prato de cristal havia um morango do tamanho de uma maçã.
- Será que agora só se cultivam frutas enormes?
Ainda em casa, quando para mim e Dakhir serviram de sobremesa quatro cerejas, eu julguei que aquilo fossem romãs, e, há pouco, no restaurante, deram-me um cassis de tamanho anormal.
- Justamente, anormal!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:40 pm

Os legumes, frutas e cereais alçavam hoje dimensões enormes; são simplesmente gigantes – e tudo graças ao novo método de tratamento com o auxílio de electricidade – explicou Narayana.
Eu já lhe disse que a Terra se depauperou e glebas imensas se transformaram em deserto:
o cultivo de frutas e legumes é feito em gigantescas estufas.
- Mas como é possível cultivar trigo, aveia e outros cereais em estufas? – interrompeu Supramati.
Um sorriso enigmático surgiu nos lábio de Narayana.
- Amanhã eu o levarei para a cidade das amazonas e mostrarei as suas estufas; elas são célebres por seus magníficos produtos, uma das principais fontes de riqueza da comunidade das damas emancipadas.
Por enquanto apenas lhe adianto que graças à electricidade são obtidos vegetais de tamanho colossais, mais bem adaptados a atuais condições de vida e às necessidades humanas.
Essas condições mudaram radicalmente, enquanto você trabalhava para ganhar a sua estrela de mago; mas fique tranquilo, logo você assimilará tudo.
- Vamos esperar, no momento eu estou totalmente perdido – disse Supramati suspirando e, depois de ver as horas no relógio, acrescentou: - já é tarde; está na hora de voltar para casa!
Estou tão cansado que parece que fiquei o dia inteiro trabalhando com enxada e ainda quero pegar a enciclopédia para me situar melhor na História.
Não posso passar por um estúpido no meio dessa gente.
- Você está assim, porque perdeu o hábito de estarem em contacto com os fluídos dos seres humanos materiais e devassos, ainda piores que na nossa época – observou Narayana.
Mas espere, vou lhe dar um livro em que você encontrará descrita, de maneira sucinta e clara, a história dos três últimos séculos, de modo que você se familiarizará com ela em linhas gerais.
Narayana se levantou e um minuto depois retornou com o livro, que deu ao amigo.
- Agora vamo-nos, eu o levo para casa na minha máquina e amanhã passo para pegá-lo para o nosso primeiro passeio – disse ele.
Eles foram até o quarto contíguo e, pela escada em caracol, subiram à plataforma da torre.
Lá se encontrava amarrada ao corrimão, feito um barco no cais, uma aeronave pequena, com painel eléctrico semelhante a um relógio, equipado com bússola e alavanca.
O assento macio, revestido com tecido de seda escuro, estava calculado para duas pessoas; na frente havia um banquinho baixo para o mecânico.
O leve tejadilho de couro estava levantado, mas Narayana baixou-o; fez Supramati se sentar, sentou-se também e, soltando o cabo, pôs o veículo em funcionamento.
Suavemente como um pássaro, o barco aéreo alçou voo e tomou a direcção necessária.
- Você não mantém mecânico? – perguntou Supramati.
- Tenho dois: um para o carro terrestre, outro para o aéreo; mas isso não impede que eu saia muitas vezes sozinho.
Confesso que hoje em dia o número de serviçais está diminuindo e mantê-los é um custo fabuloso.
Só os muito ricos podem se permitir ao luxo de ter um cozinheiro, criados, camareiros; mesmo assim, estes não são empregados de carreira, mas antigos funcionários públicos.
Conheço famílias numerosas e muito ricas que se contentam apenas com uma empregada, duas no máximo, e, honestamente, isso já basta, o trabalho de casa é feito por máquinas.
Você precisaria ver isso!
A propósito, que tal a gente visitar amanhã um amigo meu, o doutor Pavel Pavlovitch Rantsev?
Gente finíssima!
Presentemente ele está sozinho; sua esposa requereu “férias”, lá você poderá verificar as instalações da casa dele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:40 pm

Narayana levantou uma tampa junto ao motor, deixando escancarado um aparelho redondo e chato, no qual se enfileiravam diversos botões metálicos.
- Veja Supramati! Este aparelho é uma versão aperfeiçoada do antigo telégrafo de Marconi. Por ele posso comunicar-me com quer que seja.
Vou perguntar ao doutor se ele pode nos receber.
Ele pressionou alguns comandos e, pouco depois do centro do aparelho surgiu uma fina folha de papel enrolado, no qual eram vistos sinais fosforescente.
- Viu só? O doutor aguarda por nós no almoço; depois – as amazonas.
A aeronave pousou suavemente junto a uma torre, semelhante à da casa de Narayana.
Supramati saiu, os amigos se despediram e a carruagem espacial desapareceu na escuridão.
Ao entrar em seu quarto, Supramati ordenou que lhe trouxessem o roupão e depois dispensou o camareiro.
Ele queria ler o livro de História que Narayana lhe dera, mas depois de folheá-lo e de ler um pouco sobre a invasão da Europa pelos amarelos, no século 20, sentiu-se tão cansado que largou o livro e foi dormir.
Aparentemente as emanações maléficas e os pesados e fétidos fluídos, prodigalizados pela multidão, contaminando a atmosfera, reflectiram-se dolorosamente sobre o organismo purificado do mago, estafando-o mais que um trabalho mental pesado e as mais complexas experiências mágicas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:40 pm

Capítulo VIII

No dia seguinte, após um refrescante banho, Supramati se sentiu bem mais revigorado e disposto, mesmo, contando ainda com um leve peso, do qual não pode se desfazer desde que chegou a Czargrado.
Sem vontade de sair de casa, passou a manhã lendo História e ao mesmo tempo pesquisando na enciclopédia a biografia de pessoas famosas, cujos nomes ia encontrando no livro.
O administrador de uma de suas longínquas propriedades, que lhe trouxe também uma polpuda soma de dinheiro, ele finalmente, começou a se aprontar para a chegada do amigo.
Já eram cerca de três horas quando chegou Narayana – disposto, sorridente e enfeitado como sempre.
- Não está muito cedo para o almoço? – Indagou Supramati.
- Sem dúvida, à hora para um almoço normal ainda é imprópria.
Mas, como nós ainda iremos até as amazonas, o doutor, com quem conversei hoje de manhã, sugeriu que a gente tomasse café bem reforçado com ele.
Eu lhe disse que é a primeira vez que você vem à Europa e gostaria de conhecer o que existe de mais moderno em termos de conforto. Assim, ele lhe mostrará a casa dele.
Desta vez Narayana veio numa carruagem idêntica à que Supramati chegou do Aeroporto, e, meia hora depois, o carro parou diante de um edifício de doze andares, com um jardim pra frente.
Era um verdadeiro palácio, construído num estilo moderno, estranho e pouco acolhedor.
Em cada andar havia amplos terraços com flores, ladeados por corrimões entalhados, e, praticamente junto a todos, viam-se amarrados as aeronaves dos proprietários.
- Porque não viemos de nave? Seria mais cómodo, ainda mais que o doutor reside num andar alto – observou Supramati.
Ele mora no décimo andar e o porteiro nos levará até lá de elevador; mas antes eu gostaria de lhe mostrar o saguão de entrada.
- Como? Ainda existem porteiros? – admirou-se Supramati, rindo.
- Sim, mas eles pouco se assemelham aos antigos.
É um tipo de empregado indispensável em qualquer prédio, que tem de si um alto conceito. Ganha cerca de quinze mil, fora o apartamento; tem quatro ajudantes, que recebem uns seis mil e uma moradia, sendo que cada um serve apenas uma das entradas, cinco no total; esta é a principal.
Conversando, eles galgaram alguns degraus da escadaria e entraram no saguão.
Obedecendo ao gosto do tempo que visava impressionar em tudo, o saguão verificou-se uma enorme sala com colunas de cerâmica esmaltada; no centro, o tecto chegava até o ápice do edifício, encimado por uma cúpula de vidro com pinturas coloridas.
Naquela espécie de fosso, quatro elevadores corriam para cima e para baixo; não se via, porém, quem operava as máquinas.
As grandes janelas, com vidros coloridos, iluminavam o salão; dois chafarizes dentro das piscinas de mármore espalhavam um agradável frescor; aqui e ali, entre as flores e plantas, viam-se sofás e poltronas rodeando mesinhas com livros e revistas.
Numa das laterais, sobre os balcões e prateleiras, alinhavam-se diversos tipos de alimentos: legumes imensos, frutas, manteiga e queijos – tudo arrumado com muito gosto e parecendo apetitoso, disposto em cestos forrados com folhas verdes, em meio a adornos rendados de papel recortado.
- Que mercado é esse? – perguntou Supramati.
- São mantimentos que se expõem diariamente para que os moradores possam se certificar, com seus próprios olhos, de sua boa qualidade, e escolher o que quiserem.
Está vendo ali, sobre o estrado, aquele senhor todo chique sentado à escrivaninha amontoada de livros de escrituração e outros papéis?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:40 pm

É o próprio porteiro – explicou Narayana, aproximando-se do homem.
O porteiro ao vê-los, levantou-se e fez uma mesura.
- O príncipe deseja subir no décimo andar, apartamento 12?
Por favor tomem o elevador de número dois.
Ao agradecerem, os amigos tomaram o elevador e Narayana apertou o botão.
A máquina subiu velozmente e parou instantes depois.
Eles saíram numa plataforma decorada com flores e um enorme espelho; ao Aldo, havia duas portas com placas de porcelana, onde estavam escritos os nomes dos moradores.
Narayana apertou a placa. Imediatamente a porta se abriu silenciosa e eles se viram num hall de tamanho pequeno.
Na parede, estava embutido um armário, fechado por uma porta de cristal.
Neste armário, as visitas colocaram as suas capas, os chapéus e as bengalas; nesse ínterim, entrou o doutor e os saudou alegremente.
Era um homem jovem, de uns trinta anos, magro e um tanto franzino como a maioria da população, de aparência inteligente, agradável e bondosa.
- Como vai, senhor Pavel Pavlovitch?
Como vê, nós somos pontuais. Eis aqui o meu primo, príncipe Supramati; devo avisá-lo que a sua curiosidade é insaciável.
Peço amá-lo e ser bom com ele! Sua ânsia de saber, entretanto, é procedente, já que ele acaba de vir do velho palácio no Himalaia, tendo recebido de sua ciosa mãe uma educação um tanto silvícola.
- Que recomendação!
OI doutor realmente vai me tomar por um selvagem impertinente e curioso – retorquiu Supramati sorrindo.
No entanto, confesso que, em termos de conforto, os avanços tecnológicos ainda não chegaram ao palácio onde me criei.
Assim, eu gostaria de conhecê-los para, mais tarde, incorporá-los em minha casa.
- Terei prazer em mostrar-lhe o que for de seu interesse, príncipe, mas temo que o modesto conforto do meu cantinho não possa satisfazer as exigências de um homem de sua posição e património – respondeu em tom sincero o doutor, fazendo as visitas entrarem numa pequena sala, decorada com muito bom gosto, adjacente a amplo terraço, servindo de desembarcadouro para as naves.
- Não se querendo ter uma vista do terraço, desloca-se este biombo – explicou o doutor, apertando um botão.
Imediatamente deslizou uma divisória e fechou a porta do terraço tão hermeticamente, que a parede parecia inteiriça.
- Aqui fica o meu gabinete, sem nada de interessante; e aqui é o dormitório – prosseguiu o anfitrião, levando-os a um grande quarto bem iluminado, com paredes laqueadas que brilhavam feito cetim; algumas poltronas e o sofá, revestidos de couro, dois toaletes de madeira com espelhos redondos e uma infinidade de gavetas embutidas de madrepérola para diversas miudezas completavam o mobiliário.
- E onde ficam as camas? – interessou-se Supramati.
Em minha casa, elas ocupam um espaço considerável.
- Aqui é diferente.
O senhor ocupa sozinho um palácio inteiro, enquanto eu moro num apartamento, onde o espaço é apertado – respondeu sorrindo o doutor.
Ele accionou um comando na parede e imediatamente surgiu uma belíssima cama com acabamento em metal, coberta com uma colcha vermelha de seda.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:41 pm

- Veja Supramati, o colchão e o travesseiro são de cautchu, apenas revestidos por tecido de seda – observou Narayana.
- Oh, sim! O frouxel custa o peso do ouro, pois as aves tornaram-se uma raridade – explicou o doutor.
- Aqui nos guardamos a roupa – acrescentou ele, abrindo um largo armário, também embutido na parede.
Ali se empilhava tudo o que poderia ser necessário no dia-a-dia de uma pessoa.
Ele tirou uma camisa, uma toalha e um lençol e estendeu a Supramati para este os apalpasse.
- É tão macio, fino e sedoso!
Não parece de cambraia? No entanto, isto não passa de um papel chinês ou japonês, muito prático e higiénico.
Hoje em dia já não se lava a roupa mais; que é que faria isso?
Além disso, não há mais lavandarias e a roupa usada é simplesmente jogada no lixo; não há que ter pena: um milheiro de lenços custa dez rublos.
- Por que é então que tanto a minha roupa como a de meu primo é de linho e seda? – indagou Supramati.
- Isto é capricho de bilionários, com condições de terem suas próprias lavandarias; os simples mortais vestem roupas de papel.
Vamos, senhores, quero lhes mostrar o quarto de banho e a cozinha; e depois comeremos algo.
O quarto de banho era um recinto de tamanho médio, cujas luzes se acenderam assim que a porta se abriu; no junco, havia uma banheira baixa de porcelana e móveis de junco.
Andando, o proprietário explicou que eles tinham água quente o dia inteiro e, em seguida, levou-os para mostrar a cozinha que, apesar do nome sonoro, não passava de um minúsculo cómodo com um fogão eléctrico do tamanho de uma travessa para chá.
- serve apenas para alguns casos excepcionais, quando é necessário cozinhar ou esquentar alguma coisa à noite; a comida vem-nos pronta – explicou Pavel Pavlovitch. – Oh, não precisamos mais daquela parafernália volumosa de nossos antepassados; as donas de casa não têm necessidade, hoje em dia, de se irritarem com a sujeira e a indolência das domésticas ou cozinheiras bêbadas e ladras.
Nossas esposas têm mais tempo livres, porque tudo é fornecido já pronto para nós; mesmo a limpeza da casa é feita por uma máquina, que recolhe e absorve a poeira e a incinera imediatamente.
Agora vamos até a sala de jantar; mandarei vir comida.
Desta vez o cómodo já era grande, revestido por madeira polida.
Dois bufês com prataria cara de porcelana guarneciam o ambiente; no meio, ao redor de um espaço livre, achavam-se as cadeiras, sendo que ao lado de uma, aparentemente destinada ao dono da casa, havia dois pilares chatos, inserido num gradeado fino e dourado.
O pedido limitou-se ao aperto de um botão metálico num dos pilares.
Enquanto eles conversavam aguardando a comida, o doutor observou:
- Frequentemente me pergunto como os nossos antepassados podiam viver naquelas condições sem o mínimo de conforto.
Por exemplo, uma simples mudança para outra casa.
Imaginem o trabalho de carregar todos os pertences de uma casa para outra, ou ainda pior:
de uma cidade para outra.
- O senhor nunca teve necessidade de se mudar? – perguntou sorrindo Supramati.
- Deus me livre fazê-lo como antigamente.
Para mim, a mudança de casa não apresenta dificuldade alguma:
eu deixo aqui tudo o que vocês vêem, e recebo na nova casa tudo o que preciso. O que existe neste apartamento – os móveis, a prataria, a louça, as flores, etc. – é propriedade da empresa locadora; eu só respondo por coisas quebradas ou danificadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:41 pm

Assim não preciso levar comigo este montão de coisas.
Estão tocando! Chegou a nossa “comida”
O piso se abriu e de lá se ergueu uma mesa, ricamente posta, adornada de flores e louça de cristal.
Primeiro eles tomaram uma sopa de verduras, acompanha de pastéis, depois o doutor colocou a louça suja sobre a coluna do lado esquerdo, accionou um mecanismo e a louça desceu; da coluna direita surgiu o segundo prato.
E assim, sequencialmente, vieram os outros pratos, incluindo a sobremesa de frutas e o vinho espumante.
A degustação do magnífico almoço procedeu-se com acompanhamento de uma agradável música melodiosa, cujo volume não atrapalhava a conversa.
Após o repasto, a mesa desapareceu como se por encanto.
Eles passaram à sala de estar e sentaram diante do terraço, conversando e tomando o café, enquanto o doutor e Narayana fumavam charutos.
- Permita-se fazer uma perguntinha indiscreta, senhor Pavel:
por quanto lhe sai o apartamento, incluindo as refeições, serviços, etc.?
Em vista do luxo que o cerca, acredito que não sai muito barato – disse Supramati.
- Eu pago relativamente pouco.
Tudo o que o senhor vê me custa trinta mil ao ano, e como o meu salário anual é de sessenta mil, sobra-me ainda metade para outras necessidades e a diversão.
- O senhor então é um médico com muita experiência?
- Posso dizer que sim! Sou médico daqui deste prédio, considerado ainda pequeno, pois conta somente com três mil moradores; outros prédios têm até quinze mil ou vinte mil moradores.
Mas a determinação nestes conjuntos é sempre igual: cada um tem seus próprios médicos, farmacêuticos, dentistas, mecânicos, etc....
Que assinam com a administração contractos vitalícios ou a longo prazo.
Aqui somos três médicos, a minha obrigação é atender, a qualquer hora da noite ou dia, os moradores dos quatro andares que se encontrar sob a minha responsabilidade.
Nesse sentido estamos bem melhor que os nossos colegas de séculos passados, obrigados a saírem à caça dos pacientes; uns nadando em ouro, outros morrendo de fome.
Ainda que hoje, se um médico tiver que depender de uma clientela eventual, também não sobrevive; cada um busca uma coisa fixa que lhe garanta o sustento.
É claro que existem diferenças nos salários; assim os de nível dois e três recebem menos, embora seja uma receita certa.
Ah, deixei de mencionar que o meu almoço foi calculado para três pessoas:
para mim, minha esposa e filha.
A minha esposa actualmente se encontra fora e a filha está visitando a avó; no entanto, a porção vem para três pessoas e posso convidar meus amigos. Se convidar mais pessoas, tenho de pagar a parte.
Quando o médico mencionou a esposa, Supramati fitou-o curioso, sabendo de Narayana que ela estava de “férias conjugais” com um amante; mas debalde ele procurou no rosto de seu anfitrião e mesmo até em sua mente, cujos pensamentos sabiam ler, qualquer sombra de tristeza, ciúme ou sofrimento moral.
As feições joviais do médico emanavam a mais afável serenidade e seus pensamentos reflectiam uma viva e aguçada curiosidade em relação à personalidade de Supramati.
O doutor pressentia na visita algo de extraordinário.
- Lá na Índia as pessoas ainda são extremamente conservadoras; disso eu me convenço a cada minuto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:41 pm

De facto, estamos desfasados em pelo menos um século – observou Supramati sorrindo.
Com o risco de ser tomado por um homem saído do século passado, meu querido senhor Pavel, permita-me fazer mais algumas perguntas, objectivando empregar uma parte do meu grande património para implantar as novíssimas conquistas da civilização europeia.
- Pois não Alteza!
Terei prazer em tirar suas dúvidas.
- Agradeço. Poderia me dizer alguma coisa sobre medicina, equipamentos hospitalares, combate a epidemias, mortalidade, etc.?
Eu soube que na medicina houve uma grande reviravolta; as antigas doenças contagiosas cederam lugar a outras, mas as informações que tenho são superficiais.
- Isso é natural!
O senhor ainda é muito jovem para adquirir conhecimentos em campos especializados da ciência.
Tentarei responder às suas perguntas pela ordem.
Assim, primeiro falarei da medicina.
Esta teve um enorme progresso e mudou muito em função da própria transformação da humanidade, que hoje tem pouco em comum com a de antigamente, conforme eu pude constatar pela literatura.
Se o senhor já estudou a história dos séculos idos, sob estes aspectos então...
Ah, sim – interrompeu Supramati – eu me esqueci de mencionar que tenho uma verdadeira paixão pela arqueologia, e antiguidade me absorve a tal ponto que me sinto deslocado no tempo.
- Entendo-o perfeitamente.
Também adoro revolver o passado, ler aquelas obras de medicina antiga, fazer as minhas comparações com a vida de antes...
Às vezes até acho que as gerações antigas eram mais felizes que as de hoje, apesar das dificuldades e da inexistência das comodidades atuais.
Aliás, isso é coisa de um sonhador, pois o mundo hoje tem suas atracções para não lamentarmos o passado.
Mas, voltando ao assunto.
A geração actual é fraca; tudo é artificial.
O calor do sol é insuficiente para os seres humanos e as plantas.
As frutas, legumes e demais culturas são privadas do impulso natural de crescimento; as plantas desenvolvem-se e amadurecem com o auxílio da electricidade; nossos organismos saturados estão débeis e extremamente irritados.
O actual género humano é inquieto, febrilmente excitado e, ao mesmo tempo, intensamente voluptuoso, ainda que tenha perdido o antigo vigor.
A electricidade fez gerar doenças totalmente desconhecidas antigamente.
Reconheço que existem menos doenças.
Já não se ouve falar de cólera, peste e difteria; a humanidade soube pesquisar e triunfar sobre o mundo dos bacilos, sobretudo após o extermínio de ratos no fim do século 20.
Mas, por sua vez, as doenças de fundo nervoso alcançaram níveis alarmantes; a meningite, por exemplo, é hoje o flagelo de homens e mata em algumas horas.
Apareceu também uma doença incurável, estranha e terrível: o mal de Santo Elmo.
O enfermo começa a soltar fogo, primeiro da ponta dos dedos e depois da boca e das narinas.
É perigoso se aproximar dele:
por mais estranho que pareça, a doença é contagiosa.
Depois de dois ou três dias de sofrimentos medonhos, o infeliz morre; o corpo parece intacto, mas os órgãos internos ficam calcinados.
De facto, a artificialidade da vida parece se vingar!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:41 pm

Os talentos ficam cada vez mais raros, o cérebro enfraquecido suporta a muito custo um trabalho intenso e prolongado.
A taxa de nascimentos está decrescendo a olhos vistos; já não se vive mais com os sentimentos, mas com as sensações; aquilo que antes era amor transformou-se em sensualidade.
Repito: tudo se vinga. A ociosidade e a apatia dominaram o género humano.
Assim, os cientistas ou os trabalhadores mais esforçados não raro caem em tal letargia, que só depois de alguns meses de descanso estão em condições de reiniciar as tarefas.
Por outro lado, existem pessoas que passam a metade da vida numa modorra, incapazes de despertar e trabalhar.
Para estes existem várias instituições especializadas.
As doenças, por serem menos frequentes, tornaram-se mais complexas, e devido às mudanças que ocorreram no organismo humano, os antigos métodos de tratamento já não surgem efeito.
As doses alopáticas, tal qual eram administradas antigamente, teriam, hoje, um efeito devastador matando os doentes; assim, às vezes, eu me surpreendo:
que gigantes devem ter sido os seres humanos de dois a três séculos atrás, que conseguiam não só sobreviver mas também se curar tomando aqueles remédios bárbaros.
- Então com a alopatia, não estando mais em voga, suponho que agora goza de consideração a nossa medicina hindu à base de plantas e do magnetismo? – observou sorrindo Supramati.
- Ah! Tenho certeza de que hoje em dia ninguém mais se trata com alopatia.
A homeopatia substituiu-a totalmente e o uso do magnetismo é o que se vê; actualmente, um médico não consegue se diplomar se não fizer um curso de magnetismo e não for um bom magnetizador.
Existem magnetizadores especializados que detêm dons exclusivos.
Eles têm um regime de vida especial em institutos de medicina, de onde esses curadores são chamados para casos sérios e perigosos.
- O senhor disse doutor, que a natalidade vem diminuindo em níveis assustadores.
Isso explica por que se vêem tão poucas crianças nas ruas.
É um quadro muito triste para a humanidade! – salientou Supramati.
- Sim! O futuro apresenta-se não só triste, mas angustioso – corrigiu o médico suspirando.
As estatísticas comprovam o fenómeno constante da mortalidade superando os nascimentos; o governo tenta velar pela geração que cresce e protegê-la de eventuais ameaças.
Em consequência disso, as crianças são levadas a instituições específicas assim que nascem.
- Isto é um acto de violência em relação aos pais! – tornou Supramati.
- Absolutamente!
Aos pais carinhosos é permitido que fiquem com os filhos, desde que mandados à escola a partir de seis anos.
Um veículo escolar, com um funcionário especialmente treinado, vem buscar as crianças às nove da manhã, trazendo-as de volta às cinco da tarde.
No recreio, elas recebem leite quente, ovos frescos e frutas.
Mesmo assim, já não há famílias na antiga concepção da palavra.
Aonde isso tudo irá levar, só Deus sabe, pois as condições de vida estão se tornando insuportáveis.
Nos países quentes, como por exemplo, aqui, ainda é suportável; mas no Norte, nas regiões de frio intenso – e não é qualquer u que consegue sair de lá – a existência é praticamente artificial.
Os infelizes obrigados a viverem naquele clima inóspito, são acometidos de tal sonolência ou torpor, a ponto de voltarem a si cinco a seis dias depois, apenas para se alimentar um pouco.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:41 pm

Quanto aos moradores polares – estes desapareceram por completo.
Neste instante, ouviu-se um som melodioso, mas tão forte que podia ser ouvido em toda a casa. O médico se levantou e aproximou-se de uma tela de metal, em cuja superfície surgiram sinais fosforescentes.
- Perdoem-me, senhores, estou sendo chamado para atender um paciente – desculpou-se Pavel, dirigindo-se às visitas. – não posso faltar, desculpe!
Talvez os senhores possam esperar por mim. Eu volto rápido.
Mas as visitas agradeceram e declinaram da proposta, dizendo que tinham ainda uma visita às amazonas.
Supramati convidou o médico para almoçar com ele num dia próximo e eles se despediram.
O doutor correu até o terraço para pegar a sua nave e voar até o terraço de seu paciente, enquanto os amigos desceram até o carro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:42 pm

Capítulo IX

O povoado das amazonas localizava-se fora da cidade, a menos de uma hora de viagem.
A rodovia, excelentemente conservada e lisa como um tapete, serpenteava entre prados verdes e jardins; por todos os lados, até onde a vista podia alcançar, viam-se gigantescos hibernáculos e estufas, cujas cúpulas de vidro brilhavam ao sol.
Ao passarem ao lado de um enorme prédio, já nos arredores da cidade, Narayana disse:
- Veja, ali é a fábrica de ovos!
Lá são confinados vários milhões de galinhas que põem ovos dia e noite.
É um óptimo negócio para a companhia, pois as vendas são garantidas para corporações residenciais, daquele tipo onde mora o médico, que são mais de duzentas mil numa cidade de vários milhões de habitantes.
Bem, já estamos nos aproximando da cidadezinha das belas amazonas!
O caminho era uma leve subida e, já no alto do morro eles divisaram ao longe os muros dos edifícios multicoloridos e pictóricos, e os imensos jardins da bizarra comunidade.
Alguns minutos mais tarde, o automóvel parou diante do portão de entrada.
Era um portal alto com colunas de mármore branco, encimado por placas imensas, também de mármore, que representavam pintura de um homem, deitado de costas, segurando nos dentes a metade da maça bíblica, uma mulher com a cabeça erguida altivamente, pisava com um pé o peito do homem dominado; na mão levantada ela portava um estandarte com uma inscrição em letras vermelhas:
“EVA – A VENCEDORA”.
Eva que destronou a tirania e expulsou o esposo – explicou Narayana depois de ler, sarcástico, a inscrição.
Homem nenhum pode viver aqui.
- Oh, e você tem a pretensão de entrar e ser recebido! – zombou Supramati.
- Visitas até que elas recebem; o difícil é seduzi-las:
grande parte pertence ao “terceiro sexo”.
No entanto, se você agradar a alguma poderá ser recompensado, talvez por uns dias de amor fugaz, o que não lhe assegurará nenhum direito no futuro.
É como uma xícara de chá, servida a uma visita e que não obriga a coisa nenhuma.
- E estas anfitriãs hospitaleiras aceitam presentinhos: - indagou maroto Supramati.
- Claro se você quiser dar.
Mas quem quiser cair nas graças das amazonas e ser bem recebido, deve fazer uma doação para a benfeitoria da comunidade.
Aqui se chama “puxar a sardinha para a brasa comum”.
Comigo, aliás, elas são bem boazinhas.
Doei um milhão para a minha “brasa” e tomei muitas xícaras de chá.
Seu pândego incorrigível! – admoestou Supramati.
Narayana deu uma gargalhada.
- É à força do hábito, meu querido amigo! Devo dizer que algumas são sensacionais, na maioria artistas.
As melhores obras são normalmente vendidas nas exposições que elas promovem.
Bem, vou tocar a campainha para que nos abram os “portões do paraíso”.
Ele se aproximou da grade e apertou um botão metálico.
Alguns minutos, depois, o portão se abriu e na entrada surgiu uma mulher vestida faceiramente, de idade indefinida, alta e magra.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:42 pm

Calçava botinas de couro laqueadas de amarelo e meios azuis de seda, trajava uma saia curta e pantalonas bufantes escuras, uma blusa da mesma cor e chapéu de feltro com uma pena azul.
- Ah, é o senhor príncipe? Esta acompanhado por quem? – indagou ela, estendendo a mão a Narayana.
Quando este apresentou o primo, a Supramati também foi dada a honra de ser cumprimentado com a mão.
- Entrem senhores!
Quanto ao carro, sabe onde deixá-lo, senhor Narayana – ajuntou ela.
Depois de estacionar o automóvel numa cobertura ao lado do muro, os três dirigiram-se através de uma alameda areenta até um edifício com enorme portão.
Ao cruzarem uma ante-sala circular, encimada por cúpula de vidro multicolor, eles deram num salão aberto – um verdadeiro vestíbulo do reino das amazonas.
Dali se abria uma magnífica vista para um parque enorme, entrecortado por alamedas areentas; ao longe Luzia a superfície lisa do lago, por entre a vegetação densa, aqui e ali, entreviam-se as cúpulas de caramanchões e telhados das casas, espalhadas no fundo do bosque.
Na sala de paredes brancas, decoradas por uma tela de arame fino, serpenteavam trepadeiras com flores e hastes densas; as flores viçosas – com predomínio de rosas – espalhavam um cheiro embriagador; no centro de uma piscina de mármore jorrava alto um chafariz, reverberando em cores do arco-íris.
- Não gostariam de dar uma volta pelo parque, caros senhores?
As nossas damas ainda não estão prontas; elas estão se arrumando para o concerto.
Será no pavilhão principal; apareçam lá dentro de meia hora.
Queiram me desculpar, preciso cuidar de algumas coisas e ainda me trocar.
Não se preocupe connosco, Praída Petrovna, cuide de seus afazeres!
Nós iremos dar uma volta neste maravilhoso e interessantíssimo parque e com a sua permissão, daremos uma olhada nos hibernáculos e estufas.
- Fiquem à vontade! Até breve.
Ela fez um sinal de despedida e desapareceu feito uma sombra numa das veredas laterais.
- De fato, essas mulheres estão bem instaladas – observou Supramati, examinando a magnífica paisagem.
- Sim, elas são muito ricas, apreciam a arte e vivem decorando a sua morada.
Vamos, quero lhe mostrar primeiro as grutas e, depois, os hibernáculos, que, aliás, são famosíssimos – disse Narayana.
Sem se apressarem, caminharam ao longo da alameda.
O parque era mantido numa ordem surpreendente.
Por todos os lados havia floreiras, pavilhões, como se esculpidos de coral, madrepérola ou lazurita; em enormes viveiros voejavam pássaros raros, bandos inteiros de pavões brancos e negros fulgiam por entre a grama em plumagens multicolores.
Depois de andarem por cerca de quinze minutos, eles se aproximaram de um grupo de rochas.
Por entre as fendas cresciam arbustos e do ápice descia uma cascata, formando embaixo um riacho que desaparecia no fundo do parque.
Eles entraram numa abertura estreita e alta, em forma de porta, e Supramati, atónito, viu-se numa linda gruta de estalactites da cor de safira, iluminada por uma suave luz azul-celeste.
No fundo da gruta, dentro da depressão, erguia-se a estátua de uma mulher em cristal azul; numa das mãos, ela segurava uma jarra, da qual despencava murmurejando um fio de água para dentro de uma piscina, também de cristal; com a outra mão, segurava um globo azul em forma de lâmpada.
Alguns outros nichos eram ocupados por pequenos bancos de bronze dourado, guarnecidos de almofadas de seda azul e franjas douradas; nas mesinhas, viam-se travessas com xícaras e jarras de porcelana, cheias de um líquido escuro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 20, 2016 7:42 pm

Bem perto, havia mais duas grutas triangulares, com o mesmo acabamento; apenas as cores das estátuas, da luz e das almofadas eram diferentes:
enquanto numa gruta eram cor de esmeralda, na outra eram cor de rubi.
- Descansemos um pouco; aqui é tão bonito!
E o que é mais interessante? Praticamente tudo aqui é trabalho das próprias amazonas.
Por exemplo, as estátuas foram executas em um material inventado há uns cinco a dez anos atrás; como você vê, pelo brilho e reverberação das cores parece com cristal de rocha, no entanto, ele pode ser tingido em qualquer cor e talhado como se fosse mármore.
As lâmpadas utilizam aquele gás que você já conhece, e que dura uma eternidade; a luz é tão intensa que as lâmpadas devem ficar dentro de globos coloridos.
Isso permite obter efeitos magníficos.
Bem, você deve ter esse tipo de luz em casa.
- Sim, eu vi numa das salas e na biblioteca.
- A propósito, no último vernissage, um artista expôs algumas estátuas, embutindo nas pupilas dos olhos esse tipo de luz.
O rosto tinha uma expressão incrivelmente real; ainda que, confesso um tanto demoníaca.
Bem, está na hora de irmos, se você quiser ver as estufas.
Narayana aparentemente conhecia bem o local e levou rápido o seu amigo até as enormes construções com cúpulas de vidro.
Ao entrarem na primeira, verificaram que se tratava de uma larga galeria, infinitamente comprida.
Ao longo de ambas as paredes estendiam-se prateleiras triplas, sustentadas por colunas de bronze, à semelhança de terraços, sobre as quais repousavam caixas, recipientes e canteiros de terra com plantas.
- Aqui são cultivados os cereais: centeio, trigo, etc. – explicou Narayana, subindo a escada metálica que levava ao primeiro patamar.
Ali, em caixas e recipientes, vicejava em arbustos o centeio; as enormes espigas vergavam sob o peso dos abundantes grãos do tamanho de uma ervilha; cada arbusto continha um feixe considerável daqueles tufos monstruosos.
- Quando as espigas amadurecem, são moídas numa máquina eléctrica, semelhante ao antigo moedor de café.
Agora, na cidade, muitas famílias pobres cultivam assim os cereais em caixotes, moendo o trigo em casa.
Isso sai mais barato.
Mas como uma família inteira consegue se sustentar só de farinha de trigo amadurecido no balcão? – observou sorrindo Supramati.
Narayana também riu.
- Talvez porque as pessoas comam bem pouco.
Quando eu lembro de quanto comíamos no século 20 e comparo com o que se satisfaz uma pessoa agora, fico assombrado.
Antigamente – tomemos de exemplo o pão – um homem, em perfeito estado de saúde, sobretudo um operário, comia tranquilo um quilo e meio diariamente; hoje, você não consegue encontrar que possa digerir meio quilo, e assim vai...
Uma batata é suficiente para uma família, uns dois morangos já é uma porção grande. Você viu o quanto que comeu o médico hoje?
Três ou quatro colheres de sopa, um pastel do tamanho de uma noz, um aspargo – é verdade que do tamanho do antigo pepino -, um bolinho de arroz do tamanho da antiga batata e um morango; o pão ele nem tocou.
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