Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:35 pm

Servisse você um almoço assim a Lormeil ou mesmo a Pierrete, eles teriam morrido de fome três dias depois.
Há-há...! – desatou a rir Narayana.
Supramati sorriu.
- É verdade! Segundo os nossos padrões antigos, é pouco; mas a diminuição paulatina do apetite dos seres humanos deixou de ser novidade.
Você que presenciou os cavaleiros medievais se empanturrando de comida nos banquetes homéricos, dos quais também participou, quando se serviam javalis inteiros, pode dizer o quanto são pigmeus, comparados aos gigantes enclausurados em armaduras, os homens do século 20, que não conseguem dar conta nem ao menos de uma torta salgada.
Agora quando o fim está eminente, a queda é ainda mais rápida.
Os produtos vão se escasseando, seus preços subindo, e o homem cada vez mais irritado e carcomido pelo excesso da electricidade, em meio a uma vida de devassidão, tenderá a comer cada vez menos; o seu débil organismo exigirá alimentos mais leves.
Aliás, já se deu um enorme passo nesse sentido nos três últimos séculos; a própria visão desses vegetais, tão anormais quanto os seus cultivadores, deixa-me intrigado.
- De facto, tudo é enorme e artificial.
Dê uma olhada nesta espiga; ela contém cerca de mil grãos do tamanho de uma fava, e pesa, no mínimo, algumas libras.
Mas, de qualquer forma, as condições de vida melhoraram e o trabalho chegou ao mínimo.
Olhe, por exemplo, para aquela ducha sobre as diversas culturas.
Três vezes ao dia é aberta uma torneira na entrada da galeria; imediatamente, a água, levada pelas inúmeras tubulações, irriga por aquelas duchas todas as plantas.
Dez minutos depois, dependendo da necessidade, um mecanismo automático desliga a torneira.
Usam-se as máquinas também para a realização rápida da colheita.
A terra nos caixões é substituída no máximo a cada cinco ou seis anos, já que recebe constantemente uma adubação de massa gelatinosa – mistura de produtos derivados de petróleo e de outros elementos, que não tenho condições de dizer agora:
os nutrientes são imediatamente absorvidos e mantém a fertilidade do solo.
- E o que há em outros hibernáculos e naquele imenso pavilhão redondo? – interessou-se Supramati, apontando para as construções ao longe.
- Nos hibernáculos cultivam-se frutas e legumes de tamanho colossal, conforme você já viu; e ali é uma verdadeira floresta de uma espécie de árvore da qual se extrai um leite vegetal, de muita aceitação, sobretudo depois que o preço do leite de gado se tornou proibitivo.
Como vê, tudo aquilo se acha protegido por cúpulas de vidro e não teme nem as intempéries, nem as agruras de um agricultor de antigamente, já que não há mais quebras de colheita.
A torre redonda é o moinho de trigo, atrás dele ficam os depósitos de produtos, conservas, frutas desidratadas, etc.
As amazonas dedicam-se o dia inteiro às plantações, colheitas e outras tarefas; mas como são muito ricas, contratam ajudantes e mantêm empregadas.
Bem, acho que você já viu o bastante. Vamos até o lago dos cisnes; ali fica o edifício principal e as demais administrações.
Através da alameda, ladeada de floreiras e arbustos, eles tomaram a direcção do lago.
Na sua superfície especular nadavam imponentes cisnes negros e brancos; no centro, numa ilha verde-esmeralda, erguia-se uma casinha de cisnes e um grande viveiro; na margem estava amarrado um barquinho, brilhando como um brinquedo de ouro esmaltado.
Por entre os arbustos e árvores seculares, cingindo o lago, espalhava-se uma série de edifícios.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:35 pm

No primeiro plano, erguia-se uma enorme construção de doze andares de tijolo esmaltado:
a casa era a residência principal das amazonas.
Um pouco depois, via-se um palacete, todo rosado, da dirigente da comunidade – a “rainha das amazonas”, como era denominada – e mais além, dois grandes edifícios, um azul e outro vermelho, com galerias, colunatas e altos pórticos, aos quais se chegava por escadarias.
- O templo azul é o das artes – explicou Narayana.
Ali ficam as oficinas de pintura, gravação em madeira e escultura, biblioteca, escolas de música, declamação, canto, etc.
No vermelho fica o teatro, as salas de concertos e reuniões, danças, ginástica e diferentes desportos.
Sons longínquos de música chegavam aos seus ouvidos, enquanto caminhavam pela galeria do palácio azul; já no interior da sala de concertos, viram que esta se encontrava repleta de público.
No fundo, drapejado por cortinas vermelhas, elevava-se o palco, ocupado por artistas.
As poltronas, revestidas por tecido vermelho, acomodavam os espectadores; bem em frente ao palco numa depressão arredondada, estava instalado um grande camarote, decorado em vermelho e ouro.
Suas poltronas de espaldares entalhados estavam ocupadas pela “chefia” da comunidade:
mulheres lindíssimas em trajes leves e chiques, na maioria brancos; os seus pescoços e braços eram cingidos por brilhantes; os cabelos soltos e enrolados – por flores.
No centro do camarote, sentava-se a “rainha das amazonas” – uma mulher jovem e muito bonita, de cabelos e olhos negros.
Narayana levou Supramati justamente para aquele camarote.
Após apresentar o seu “primo”, eles foram convidados a ocuparem os lugares atrás da rainha, ao lado de dois outros senhores de aparência judaica.
Eram directores de teatro, vindos para convidar as cantoras da comunidade para apresentação em seu palco, mediante um cachê bem polpudo, é claro.
As jovens artistas cantaram magnificamente, entretanto Supramati não gostou de suas estranhas melodias, às vezes totalmente selvagens, que respiravam certa sensualidade caótica.
Ambos os directores, ao contrário, ficaram fascinados e já no primeiro intervalo acertaram com a dirigente da comunidade que já no dia seguinte, de manhã, viriam para assinar o contrato.
Supramati estranhou também que alguns números de canto eram acompanhados por instrumentos ocultos.
Os acordes profundos com modulações suaves secundavam magnificamente as vozes das cantoras.
Parecia que aqueles instrumentos inéditos enlevavam.
Tudo impecável; Supramati, porém, mal tocou na comida, tão cansado estava.
O ar parecia-lhe denso, um peso comprimia-lhe o peito e por vezes tonteava-lhe a cabeça.
Das sombras lúgubres, que se cruzavam por entre os presentes, bafejava um frio gélido.
Ele foi dominado por uma profunda angústia e ficou a olhar a desenvoltura de Narayana a palrear alegre e despreocupado com a sua bela vizinha; ele comia com muito apetite e se sentia, pelo visto, bem à vontade.
A sensação de que alguém olhava para ele fixamente tirou Supramati do devaneio.
Ele se virou e viu que os olhos negros da mulher sentada à sua frente o fitavam com tanta curiosidade ávida, com tanta admiração incontida, que um sorriso involuntário se estampou em seu rosto.
Pega em flagrante, a dama pareceu embaraçar-se, suas feições transparentes ruborizaram e ela se virou.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:35 pm

Mas, um minuto depois, o seu olhar, como enfeitiçado, deteve-se novamente em Supramati; desta vez, ele estudou-a melhor.
Era um ser encantador, muito jovem, de cabelos dourados e tez branca como porcelana; nos lábios purpúreos, denotava-se energia.
Após o jantar, todos foram fazer um passeio pelo parque magnificamente iluminado; Narayana levava pelo braço a “rainha das amazonas”, e esta não fazia o mínimo esforço em disfarçar que gostava dele.
É claro que jamais lhe viria à mente que o belo jovem, namorando-a como um simples mortal, ser estranho e enigmático – era na verdade um anfíbio entre o mundo visível e invisível.
Quando Supramati ia descendo pela escada, a bela mulher que o olhava durante o jantar subitamente se postou ao seu lado.
- Permita-me, príncipe, mostrar-lhe o nosso jardim! Meu nome é Olga Aleksándrovna Bolótova; sou sobrinha da presidenta da nossa comunidade – disse ela sem qualquer constrangimento, sacudindo de leve a cabeça.
- Pois não, ficarei muito grato! – respondeu Supramati, fazendo uma mesura e estendendo-lhe a mão.
Repentinamente ela estremeceu e ergueu para ele um olhas perscrutador.
- Que corrente estranha emana do senhor.
Ela está me electrizando até agora; é como se eu tivesse levado um choque! – observou ela um instante depois.
- Foi impressão sua! – disse Supramati, reprimindo imediatamente, com o esforço da vontade, a sensação que sentia a jovem.
- É verdade!
Agora já não sinto mais.
E ele começou a tagarelar, submetendo o seu cavalheiro a um interrogatório ingénuo:
de onde e quem ele era, e assim por diante.
Supramati a ouvia atentamente, mas as suas respostas eram prudentes, descoloridas e um tanto frias.
A tagarelice vazia começou a enfadá-lo; flertar como Narayana ele não conseguia.
Pesava-lhe a grandiosidade e a importância de sua posição – como a do mago e do pensador, que acabara de sair do silêncio e meditação; a harmonia e o êxito da vitória sobre as paixões carnais gravaram-se em seus traços com uma beleza espiritual ímpar.
Ele sentiu-se aliviado, quando Narayana se aproximou e disse-lhe que era hora de partir.
Já dentro do automóvel, Narayana começou a troçar de Supramati.
- Meus parabéns pela conquista!
Você ganhou o coração da mais bela das amazonas; ela praticamente o comeu com os olhos.
Aposto que logo mais virá visitá-lo, depois convidar para sua casa, e tudo terminará com... “xícara de chá”!
- Que eu não estou afim – replicou em tom calmo Supramati.
- Por que não?
Eu já lhe falei, e você também sabe perfeitamente que, durante as suas incursões pelo mundo, as relações amorosas não são proibidas.
Ninguém, nem a sua secular esposa Nara, terá alguma coisa contra, pois um mago precisa, uma vez ou outra, mergulhar na vida real.
E assim, por que é que vai recusar o amor daquela encantadora criança que o adora?
Até agora, ela é totalmente pura – se é que podemos empregar esta palavra; o que eu quero dizer é que ele não se entregou a ninguém, quer homem, quer mulher, ainda que haja muitas que estão louquinhas por ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:36 pm

Assim, você é a sua primeira paixão; em se, com lembrança de sua passagem por aqui, você ainda lhe deixar um maguinho, isso talvez a livre de outras tentações e ela se dedicará exclusivamente à criança. Há-há-há!
E você ainda praticará uma boa acção.
Supramati sorriu.
- Seus argumentos são ímpares e provam a sua fama de traquinas travesso inveterado.
Só não entendo como você iniciado em parte, não consegue atinar que o grau de purificação que obtive me impede de encontrar prazer em tais andanças.
Já a simples presença dessas pessoas, com suas emanações pesadas, impuras e fétidas, prejudicam-me; o que dirá se eu começar um relacionamento assim?
Além disso, ela é praticamente uma criança e só me incita à pena; seus fluidos e pensamentos comprovam que ela é menos devassa que as suas amigas e menos contaminadas por vícios que a cercam.
Ela é sensível porque, logo no início, sentiu fortemente a corrente pura que emanava de mim, que, aliás, não conseguiu perfurar a carcaça fétida e grossa de outras pessoas.
Por isso eu vou tentar empregar o sentimento que inspirei, para despertar nela anseios mais nobres e arrancá-la daquela imundície em que se encontra.
A nossa missão é perscrutar os corações e procurar por aqueles que ainda podem ser salvos; iniciá-los à medida do possível, para que depois eles sejam levados ao novo planeta enorme e povoado de seres que acabaram de sair do estado animal.
A tarefa é grande e nós precisaremos de ajudantes e mentores imbuídos de intenções puras.
Pense sobre isso, Narayana!
Você também irá connosco, não é verdade?
- Ah, não me fale desse futuro tenebroso! – exclamou ele.
Tenho vontade de chorar, quando penso que a nossa pobre velhota esta sentenciada à morte e vive seus últimos dias.
Temos de aproveitar a oportunidade de gozar a vida cultural, divertir-nos e dar atenção à moribunda, admirando e papando tudo que ela nos oferece.
No novo planeta haverá tanta coisa para fazer! É fácil falar:
civilizar aquele zoológico!
Vou me sentir tal qual um gladiador ou domador de feras.
Enquanto nós não nos adaptarmos àquelas espécies inferiores, não consigo imaginar como é que vamos passar sem teatro, restaurantes, ferrovias, automóveis, naves espaciais, etc.
Nada a não ser aquele ermo...!
Em sua voz soava tanto desespero cómico, que Supramati desatou a rir.
O carro neste momento parou junto do palácio e um dos criados apressou-se ao seu encontro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:36 pm

Capítulo X

No dia seguinte, tomando o desjejum no terraço aberto com vista para o jardim, ele viu pousando, junto da pequena torre, uma nave, da qual saltou Dakhir em companhia de seu secretário.
Cinco minutos depois, sorrindo alegre, Dakhir apareceu no terraço.
- Como? Você já terminou o seu périplo em três dias? – surpreendeu-se Supramati.
- Só fui até o templo do Graal e passei na Escócia – respondeu alegre Dakhir.
Os seus amigos e o dirigente da irmandade mandaram-lhe abraços.
Estão com saudade de você.
O encontro foi emocionante e me reanimou, principalmente depois de tudo que ouvi sobre a degeneração física e moral do mundo, quando fiquei muito angustiado.
Dakhir suspirou.
- Além dó mais, eu me senti muito sozinho.
Acostumei tanto a compartilhar com você os meus pensamentos e impressões, que as andanças por este mundo novo se tornou detestáveis.
Assim, como em Czargrado há muita coisa interessante, e mais, a sua companhia, e decidi voltar.
Supramati estendeu-lhe a mão e o olhar trocado entre eles era uma prova de quão forte e inabalável era o afecto que os unia.
- Mas o que é que você perdeu na Escócia? – interessou-se Supramati.
- Nada de especial!
Simplesmente fiquei com vontade de rever o local onde nós passamos pela primeira iniciação. Ah, que sensação deprimente ver que as ondas cobriram o lugar onde antes eram os vales férteis, as cidades e o porto da mais orgulhosa das frotas, a nova Cartago.
A parte montanhosa da Escócia sobreviveu, entretanto, à terrível catástrofe, e o nosso antigo ninho ainda se abriga no penhasco; ele parece tão indestrutível como nós.
Eu quero até sugerir-lhe, Supramati, passar lá algumas semanas para descansar deste convívio irritante com a sociedade repleta de vícios que temos de aturar.
Lá poderemos estudar em liberdade a história dos três últimos séculos passados, não percebidos por nós, e aquele silêncio mudo, com a vista para o oceano, nos fará muito bem.
Supramati ouviu cabisbaixo e o seu coração comprimiu-se angustiado; mas dominou energicamente a sua fraqueza e concordou com a proposta de Dakhir, dizendo-lhe que, na primeira oportunidade, eles a poriam em prática.
Em seguida, narrou ao seu amigo o encontro com Narayana, assim como tudo o que viu durante a sua ausência.
Ele terminava de contar sobre a sua visita às amazonas, quando chegou Narayana, mais humorado que de costume.
- Ah, Castor e Pólux estão juntos novamente! – troçou ele, apertando a mão de Dakhir.
Por acaso, ele está lhe fazendo um relatório de suas conquistas junto às amazonas?
Continue, continue Supramati!
Se deixar escapar algum pormenor interessante, eu completo.
Aposto que ele não mencionou o seu brilhante sucesso.
A mais bela das amazonas está a seus pés, palpitando de paixão; enquanto que ele, insensível feito um toco de madeira, encerrou-se em sua blindagem orgulhosa de mago.
- Que mago seria eu se me guiasse pelo orgulho, ou pior, deixasse me arrebatar pela paixão! – atalhou Supramati, dando de ombros.
- Ele simplesmente está com medo de que a ciumenta Nara lhe caia na alma e faça um escândalo, malgrado toda aquela pose dos dois – troçou Narayana, piscando malicioso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:36 pm

Supramati não conseguiu conter a gargalhada.
- Isso só prova o medo que infundia Nara a você mesmo, s e até hoje você lembra bem da disciplina conjugal.
Dakhir começo a rir; Narayana deu de ombros impaciente.
- Brrr! Você precisa lembrar seu monstro, todos os escanda-los, juras e brigas por causa de algumas simples bobagens?
Melhor falarmos de outras coisas!
Ele tirou do bolso algumas folhas impressas e abriu-as.
- Aqui estão alguns anúncios que devem interessá-los.
Há certos lugares que vocês devem conhecer, como, por exemplo:
“Templo Espiritual Neutro”.
Lá não se professa nem deus nem o diabo e só se aceita a ciência pura e o poder das fórmulas.
Eles têm as subdivisões:
invocação de espíritos, profecias, astrologia, clarividência; resumindo, lá eles mostram no espelho mágico o passado e muita coisa desconhecida aos seres humanos; predizem o futuro, preparam poções mágicas, mandingas de amor ou ódio, fazem horóscopo.
Há especialista para todos os gostos.
E, quase que esqueço:
lá invocam os mortos, mas só que da primeira esfera e não mais que cinquenta anos apos a sua morte.
- Realmente, isto é muito interessante!
Vamos hoje mesmo a este templo, Supramati! – disse Dakhir.
- Vamos. Estou curioso em ver como eles profetizam, de que espelhos mágicos dispõem e que tipo de poções fabricam – aquiesceu Supramati.
- Peçam-lhes para fazer o horóscopo e deixem que eles quebrem a cabeça – interpôs Narayana.
Dakhir prometeu seguir a sugestão.
- Excelente! Agora passaremos à segunda parte do nosso programa.
Esta é ainda mais interessante, pois Supramati vai ter um papel activo, e você também, Dakhir, já que está aqui.
- Você está pretendo nos exibir por dinheiro? – perguntou Supramati.
- Não, meu amigo!
Vou lhe dar um papel mais nobre e quero distraí-lo, dar-lhe algo para fazer.
Você, em suas cavernas do Himalaia, transformou-se num inglês decrépito e mal-humorado – retorquiu Narayana.
Agora, ouçam! Aqui existem duas lojas de satanistas e eles tem muitos partidários.
A sede dos satanistas é na França, mas as suas filiais estão espalhadas por todos os países.
Daqui a alguns dias, haverá festejos em todas elas e aqui está o programa, deveras interessante.
Narayana abriu uma enorme folha, na qual se lia em letras garrafais vermelho-sanguíneas:
“Programa da reunião dos irmãos da loja de Lúcifer”.
Dia tal, hora tal.
– I. Missa negra, celebrada pelo próprio Lúcifer.
– II. Vexação da deidade.
– III. O cálice sanguíneo de Satanás.
– IV. A dança diabólica.
– V. Sacrifício de uma criança, distribuição de sangue e carne.
Grande banquete com as larvas, íntimas dos membros actuantes, recém-iniciados.
– VII. Invocação dos mortos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:36 pm

- E vocês acham que isso é pouco?
Acham que é um papel indigno para você ou Dakhir comparecer por lá e salvar, com seus poderes mágicos, os infelizes comprados de pais pobres, que as respeitosas lojas de Lúcifer ou Baal tem intenção de imolar! – ajuntou Narayana com ar de satisfação, dobrando o programa.
- Hum! Devo confessar que não estou muito a fim de pisar naquele covil sacrílego; mas de qualquer forma, você não deixa de ter certa razão.
Já que nos misturamos à turba humana, o nosso dever é combater as trevas e os crimes por meio do poder puro e límpido de que somos investidos.
Então, como é que nos vamos entrar naquelas distintas reuniões? – perguntou Supramati, após uma breve reflexão.
Se eles farejarem a nossa identidade, não nos deixarão nem chegar perto de seu diabólico ninho.
- Fiquem tranquilos, eu lhes conseguirei as entradas.
Amanhã há um sarau de gala na casa do barão Morgenshield – um amigo meu, gente finíssima.
Eu prometi levar a casa dele o meu primo ou os primos que chegaram da Índia; assim, vocês encontrarão lá toda a nata da sociedade de Czargrado.
Mas como o barão é um satanista ferrenho, é membro da loja de Lúcifer, e o seu tio é um dos manda-chuvas da loja de Baal, vocês podem entender o prazer que eles terão em lavá-los a essas reuniões!
Claro, numa doce ilusão de convertê-los, homens tão ricos, para sua religião.
Meus queridos satanistas nem de longe desconfiam a peça que vou lhes pregar.
.Depois de discutirem todos os detalhes, os amigos se separaram.
Narayana, segundo as suas palavras, foi fazer umas visitas; Supramati e Dakhir se trocaram e foram ao templo Espiritualista Neutro.
Era um enorme edifício de basalto, de estilo extravagante.
Degraus largos levavam à entrada, sustentada por colunas; junto a uma grande porta de bronze, sobre trempes altas, ardiam ervas que espalhavam um odor acre e forte.
Nas almofadas da porta, estavam desenhados enormes pentagramas vermelho-ígneos, que emitiam uma luz fosforescente à noite.
Quando Dakhir apertou um trinco metálico que travava a porta, esta se abriu silenciosamente e eles entraram numa sala abobada com tecto de vidro azul-celeste.
No meio da sala, havia um balcão com duas recepcionistas.
- Para que seção os senhores querem as entradas? – perguntou a mulher à qual eles se dirigiram.
Se os senhores são simplesmente profanos, existem seções bem interessantes:
espelhos mágicos, horóscopos e a de evocação de mortos.
Aliás, aqui está a relação; tenham a bondade de escolher!
- Não somos totalmente profanos – anunciou modesto Supramati -, gostaríamos de ver o que há de mais interessante neste templo; queira nos dar as entradas para todas as seções.
Depois de pagarem uma importância bastante elevada, o caixa gritou no aparelho:
- Um gruía para dois estrangeiros visitarem todas as seções!
Um pouco depois apareceu um jovem bem apessoado e se apresentou como guia; ao lançar um olhar nos cartões de visita, ele fez uma respeitosa reverência.
- Vossas Altezas vieram da Índia, o berço de nossas ciências misteriosas; assim, não podem ser profanos, no sentido lato da palavra.
Por qual seção desejam começar? – perguntou ele, assumindo ares de protector.
- De fato, detemos alguns fragmentos de conhecimentos ocultos. Gostaríamos primeiro, de ver as invocações – respondeu Dakhir com sorriso irónico.
- Neste caso, vamos às tumbas e poderão invocar, ao seu desejo, as almas de seus parentes falecidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:37 pm

Uma escada bastante comprida levava ao subterrâneo.
O guia encaminhou-os a uma sala circular revestida de preto, iluminada, não se sabe de onde, por uma meia-luz; no recinto, sentia-se um odor acre.
Junto da porta estava de pé, vestindo longos casacões, um grupo de jovens, discutindo algo com uma moça em trajes de luto.
Ela, aparentemente, queria invocar duas pessoas. Um dos jovens anunciou-lhe bem categórico que, neste caso, ela deveria pagar em dobro, pois uma entrada não dava direito para chamar duas almas.
Com a entrada de Dakhir e Supramati, os evocadores fizeram uma mesura respeitosa.
O guia levou-os até um nicho onde havia duas cadeiras, e perguntou a quem eles gostariam de invocar.
À dama de luto foi proposto que esperasse, enquanto não acabasse a sessão para os ilustres estrangeiros.
- Oh, não, por favor, continuem com ela! – interveio Supramati.
Não queremos invocar ninguém, só gostaríamos de assistir a um fenómeno desses.
Suponho que aquela dama quer chamar o marido e o filho, perecidos num naufrágio. Será muito interessante para nós.
Os invocadores se entreolharam estupefactos, sem entenderem de que forma o visitante estaria informado das circunstâncias das mortes que eles próprios desconheciam; no entanto, da parte deles, não se seguiu nenhuma objecção.
A dama foi convidada a sentar-se numa cadeira em outro nicho, e um dos jovens, cingido por uma faixa desenhada com estrelas – sinal de que era o principal invocador -, ocupou o lugar no centro de um disco metálico, imitando tapete.
Os ajudantes trouxeram três trempes acesas e as dispuseram num triângulo fora do disco.
Em seguida, o evocador tirou detrás do cinto um papel com as fórmulas escritas e o bastão, com o qual ele começou a desenhar no ar uns sinais cabalísticos, pronunciando as fórmulas.
Uma leve penumbra envolveu a sala.
Ouviu-se um rolar de um trovão remoto, assoviou o vento e ressoou o marulho furioso de ondas; do disco metálico começou a se desprender uma fumaça negra, cobrindo o evocador. Do tecto relampejou um raio cintilante; a fumaça se dissipou e escancarou-se o mar aberto.
Pelo céu cruzavam nuvens felpudas e junto aos pés dos espectadores rolavam ondas espumosas, perdendo-se na lonjura nevoenta.
As ondas batiam e inundavam os fragmentos do navio destruído; não longe, um homem jovem e um meninote de uns dez anos, agarrados a uma taboa, lutavam contra a tempestade, tentando chegar até a margem, vagamente divisada no horizonte.
A dama em trajes de luto gritou apavorada e quis se lanças nas águas, mas um dos ajudantes do invocador conseguiu segurá-la.
Por mais algum tempo, as imagens dos náufragos ainda eram vistas, depois se dissiparam e tudo desapareceu.
A dama desmaiou.
Aparentemente contente consigo, o evocador saiu do disco e aproximou-se de Supramati, na esperança de receber um provável elogio à sua habilidade e poder.
- O senhor não nos mostrou os espíritos dos falecidos – observou calmamente Supramati -, mas o simples reflexo do passado com os incólumes inertes e amorfos.
O rosto do evocador cobriu-se de rubor.
- Vossa Alteza, só em casos muito raros podemos invocar o próprio espírito.
- Então os senhores devem designar as coisas com o nome certo.
Não é muito ético de sua parte – acrescentou Dakhir, dirigindo-se com o amigo para a saída.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:37 pm

Constrangido o “hierofante” acompanhou-os com um olhar furioso e desconfiado.
Até o mestre do ritual, qual não pronunciara palavra alguma, olhou de soslaio para os estrangeiros.
Eles tiveram mais sorte na seção do espelho mágico, onde contemplaram o terraço e o cantinho do jardim de um dos seus palácios no Himalaia.
Mas, na seção de horóscopo novamente surgiram desentendimentos.
O astrólogo repetiu por diversas vezes as perguntas sobre alguns detalhes, examinou as palmas de suas mãos, mexeu e remexeu no mapa, fez e refez cálculos da tabela e, finalmente largou tudo.
- Não entendo absolutamente nada em seus destinos, senhores – disse ele desesperado.
Os acontecimentos são tão confusos que, decididamente, estou perdido: não se vê nem o início nem o fim de suas vidas e as linhas da mão parecem infinitas.
Eu não posso fazer seus horóscopos.
Quem são os senhores, afinal?
- Somos simples pessoas inofensivas como o senhor.
Não entendo o que pode atrapalhá-lo ao fazer o nosso horóscopo – estranhou Dakhir em tom ingénuo, dando de ombros.
Diabos! Nunca vi uma vida terminar em catástrofe e renovar-se como se nada houvesse acontecido! – justificava-se desesperado o astrólogo.
- deixe pra lá! Provavelmente os nossos fluidos não se batem e agem negativamente sobre a sua clarividência! – disse Supramati.
E com esta nebulosa explicação, despediram-se.
Com as médiuns, porém foi bem pio.
Algumas em transe caíram no chão gritando que não conseguiam aguentar a luz ofuscante que irradiava daqueles dois homens.
Este incidente foi sobremaneira desagradável para os magos; eles perceberam que não era fácil esconder a sua grandeza espiritual.
Assim, como já tinham uma noção sobre os rumos do espiritualismo actual, Supramati quis ir embora, enquanto Dakhir insistia em ver seu futuro.
Deixando-o sozinho, Supramati dirigiu-se à saída.
Ao passar pelo corredor, uma porta se abriu repentinamente e, no umbral, apareceu um homem jovem e alto, em trajes brancos justos e uma capa preta.
Do pescoço pendia uma corrente de ouro com pentagrama, em forma de medalhão, decorado com pedras preciosas.
Ele fitou Supramati com um olhar longo e perscrutador; depois fez uma mesura e, com um gesto, convidou o mago a entrar.
Assim que a porta se fechou atrás deles e ficaram sozinhos, o homem que se verificou ser o dono daquele estabelecimento pôs-se sobre um dos joelhos.
- Saúdo-o, mestre!
Bem-vindo a este Téo e não nos negue a sua graça – disse ele em tom reverente.
Todas as honras lhe são dadas e os espíritos das esferas protejam todos os passos eu.
Supramati entendeu que fora reconhecido.
- Filho meu, você de facto é um iniciado já que me reconheceu – disse Supramati, colocando a mão sobre sua cabeça.
Mas guarde silêncio, pois esta é a ordem do Alto.
Nada mais sou que um servidor, modesto da ciência superior, a quem foi ordenado que viéssemos ao mundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:37 pm

Estou pronto a aceitá-lo como membro de meus discípulos esotéricos, quando eu voltar para cá novamente, mas você não deve revelara ninguém o mistério do meu grau hierárquico.
- Agradeço-lhe, mestre, a graça recebida: seu pedido é uma ordem – respondeu o adepto, beijando respeitosamente a mão de Supramati.
No caminho, ele relatou a Dakhir aquela conversa.
- Pelo visto – observou este, meneando a cabeça – os empregados levantaram suspeitas quando apareceram visitantes um tanto incomuns; estou prevendo sérias ameaças ao nosso anonimato.
Os amigos passaram o dia seguinte todo em visitas.
Narayana havia feito uma relação de pessoas ilustres e famílias ricas e hospitaleiras, acostumadas a fazerem muitas recepções em casa, e que, segundo ele, os dois deveriam conhecer.
Estafados com essas andanças mais do que se tivessem ido criar uma sucessão de tempestades, retornaram para casa e tomaram um banho.
Ao recuperarem as forças, vestiram suas roupas caseiras de seda e, após o almoço, instalaram-se no terraço do jardim que se tornou o lugar predilecto de descanso para Supramati.
As roseiras e outras flores enchiam o ar com o seu aroma; por entre a densa vegetação, reluziam os jactos dos chafarizes, e aquele quadro tranquilo, aquele silêncio da natureza, acalmavam os nervos cansados do contacto com a multidão.
Esticados comodamente em suas redes, conversaram tomando café e trocando impressões.
De repente, ouviu-se um barulho e um objecto bastante volumoso foi visto pousando sobre uma pista de areia perto do terraço.
Era uma nave de apenas um lugar.
Surpresos, os amigos viram saindo dela a belíssima amazona, Olga Aleksándrovna.
Ela subiu os degraus e estendeu-lhes a mão.
Supramati estava embaraçado e bravo; Dakhir mal conseguia se conter para não rir.
- O senhor parece não estar muito feliz com a minha vinda, príncipe? – disse ela em tom afável. – mas eu queria tanto vê-lo.
Supramati, é claro, protestou contra aquela conjectura, explicando que preferia ser avisado antes da sua honrosa visita para recebê-la condignamente.
Em seguida, apresentou-lhe o seu irmão, o príncipe Dakhir.
A jovem estremeceu ao ouvir o nome e uma expressão indefinida reflectiu-se em seu rosto; mas sem pensar muito se dirigiu alegremente a Supramati.
- Odeio visitas enfadonhas e cheias de cerimónias; gosto de aparecer de surpresa.
Eu os encontrei em casa; o que mais importa?
Se quiserem ser gentis, ofereçam-me então uma xícara de café com biscoito.
E depois, senhores, deitem-se em suas redes.
Não vim para atrapalhar, mas para conversar, e as formalidades chinesas são simplesmente ridículas neste século iluminado e livre.
Ela aproximou a sua cadeira de junco para perto da rede de Supramati e saboreou uma pequena xícara de café, mastigando uma torrada crocante que o anfitrião mandara servir.
Iniciou-se uma conversa animada.
Olga era mais espirituosa e instruída do que se podia imaginar.
Entre outras coisas, ela contou que vinha da casa de uma amiga, cuja família recebera os dois príncipes naquele dia.
- Todos estão encantados pelos senhores e querem vê-los de novo.
A propósito, os senhores irão à festa do barão Morgenshield?
- Sim, nós recebemos um convite muito gentil – respondeu Dakhir.
- Ah, então é verdade! Ele telefonou para todos os seus amigos anunciando a sua presença; haverá bastante gente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:37 pm

- Fico lisonjeado, só que não entendo muito bem o motivo de tanta atenção da sociedade em relação a mim e a meu irmão – observou Supramati.
Pelo visto pressentem nos senhores alguma coisa diferente – arriscou Olga em tom maroto. – Um primo da minha amiga, evocador do Templo Espiritualista, contou que os senhores estiveram lá e armaram a maior confusão. Os senhores criticaram violentamente as evocações, que, segundo eles, foram realizadas com sucesso; as médiuns dissera, que dos senhores irradia uma imensa luz, tal qual a do sol, e os astrólogo caiu doente de desespero após passar por um fracasso humilhante com os seus horóscopos.
- Isto prova que aqueles senhores contam principalmente com visitantes totalmente ignorantes e crédulos, falando e predizendo tudo o que lhes vem à cabeça.
Nós viemos da Índia, onde sabem a diferença entre uma simples casca e a individualidade psíquica, porque as ciências ocultas são muito desenvolvidas.
Entretanto, lamentamos por termos magoado o pobre evocador.
Todos os três riram.
Supramati, no entanto, quis dar outra orientação à conversa; às suas perguntas Olga respondia com sinceridade ingénua.
Ela contou que era órfã, tinha um património considerável e se retirou para a comunidade para ter liberdade total.
- Estou muito bem com a tia – acrescentou Olga.
Ela nunca interfere em meus assuntos; vou para onde quiser, recebo quem tenho vontade, e, como gosto muito de ler e estudar tem à minha disposição uma das melhores bibliotecas do mundo, salas de estudo e belíssimas oficinas.
Resumindo: todas as comodidades e liberdades.
Durante a conversa, ela olhou várias vezes para um livro sobre a mesa; finalmente não aguentou e perguntou:
- Posso ver o que o senhor está lendo, príncipe?
- Sem dúvida!
O livro parece-me interessante; peguei-o hoje na minha biblioteca – disse Supramati, estendendo-o.
- Ah! “O passado e o Futuro” – leu ela.
Realmente interessante, ainda que o autor vaticine para o futuro muita desgraça e veja tudo com pessimismo.
Ele prediz o fim do mundo, reviravoltas terríveis e a segunda vinda do anticristo; enfim, só horror.
Entretanto, a obra tem algumas lacunas.
Assim, o autor não menciona a primeira vinda do anticristo, ainda que a lenda seja tão curiosa.
Segundo a tradição, o anticristo veio há alguns séculos atrás e ocasionou muitos males.
Ignoro, entretanto, se quanto a isso existe uma lenda diferente.
Não me lembro bem que fim ele teve – disse Supramati.
Se quiserem, eu lhes contarei.
É bem interessante, juntando-se o facto de que muita gente séria afirma que a segunda aparição do anticristo está próxima.
Os amigos certificaram a sua bela visita de que ficariam agradecidos por isso.
Ela pensou um pouco e começou:
Sucedeu no fim do século 20. Era uma época dura.
Os actos de destronamento assumiam proporções gigantescas e os súbditos, também, todos estavam contagiados com o bafejo da insanidade.
As traições e revoltas minavam as riquezas e o poderio dos estados; o povo foi acometido pela mania de destruição, impunidade e sacrilégios.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:37 pm

A hostilidade a Deus e Cristo tomou dimensões até então inéditas.
Foi nessa época então que apareceu o anticristo.
Ele viera da América, era filho de uma judia com um monge dissidente católico – um apóstata.
Segundo a lenda, era uma pessoa encantadora, de beleza diabólica.
Adquiria poder sobre todos que tivessem contacto com ele; sabia excitar paixões populares, controlava a turba de acordo com os seus objectivos e, onde que estivesse desabavam tempestades de ódio, revoltas sanguinárias e guerras fratricidas.
O satanismo tornou-se tão poderoso, que qualquer um que ousasse ainda crer em Deus e atravessar o umbral da igreja sofria as perseguições.
Mas, apesar das grandes vitórias do anticristo, ainda restava muita gente piedosa e crente – pois o cristianismo sempre teve raízes profundas.
Formou-se facções, cada qual defendendo furiosamente as suas convicções.
Os cristãos instalaram em suas portas escudos com cálice entalhado, encimado por um crucifixo; nas entradas dos templos, defumava-se constantemente o ládano, embutiam-se cálices achatados com água benta nas soleiras das igrejas, que só podiam ser transpostas com os pés descalços, pronunciando-se orações que espantavam os demónios.
Os fiéis, para se fortificarem, reuniam-se para as preces conjuntas e comungavam diariamente; para garantir a realização daquelas reuniões, assim como dos ofícios divinos e das procissões, quando eles se arriscavam a sair dos limites da igreja, foi formado um corpo voluntário de cristãos.
Por fim, como um sinal diferenciador de um cristão, cada fiel fazia tatuar na palma de sua mão uma cruz e, ao entrar numa reunião, levantava a mão aberta mostrando a crucificação e assim revelando o partido ao qual pertencia.
Os partidários de Satanás não deixavam por menos.
Eles faziam representar em suas casas e nas mãos um bode com chifre ou algum outro sinal diabólico.
Naquele tempo, os confrontos sangrentos com os fiéis e seus assassínios era um fato corriqueiro.
O anticristo estimulava todos aqueles crimes, a fé em Deus ia diminuindo e o inimigo do género humano triunfava.
E justamente naquela hora, quando o seu poderio alcançou o apogeu e só lhe faltava dar alguns passos para conquistar o ceptro mundial, o anticristo desapareceu misteriosamente, e o povo assombrado perguntava debalde o que poderia ter-lhe acontecido.
No início ninguém sabia de nada, mas, depois, começou a correr a seguinte versão sobre o fim do anticristo.
Entre os cristãos havia uma jovem de beleza angelical; sua tez era de alvura liliácea.
Os cabelos como fios dourados, os olhos – azul-celeste.
Ao vê-la, o anticristo apaixonou-se perdidamente e, desejando possuí-la de qualquer maneira, empregou todos os artifícios de sedução, mas tudo foi em vão.
Na bela cabecinha, então, amadureceu um plano para acabar com o génio do Mal.
Ela fingiu dobra a paixão do anticristo, anunciando, entretanto, que por medo do partido não podia unir-se abertamente a ele e, desta forma, atraiu-o para uma caverna isolada nos Alpes.
Lá, devendo entregar-se, apesar do ódio e horror que ele lhe infundia, colocou-lhe no vinho um soporífero e, quando este adormeceu, ela o crucificou.
Os demónios ficaram furiosos e lançaram-se para libertá-lo, mas a jovem defendia-se corajosamente com o crucifixo, chamando o auxílio de Cristo, os santos e o exército celestial.
Então a cruz, na qual estava pregado o anticristo, cravou-se por uma força desconhecida no interior da rocha, a caverna se fechou e diante de sua entrada surgiu também uma cruz esculpida em rocha.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:37 pm

Os demónios irados recuaram, mas depois agarraram a jovem cristã e a lançaram num abismo da geleira.
O Cristo, por quem ela clamara, transformou-a numa rolinha, que desde então sobrevoa a entrada da gruta e vigia o calabouço do anticristo.
E quando chegar a hora instituída pelo destino para o triunfo de Satanás, os demónios se lançarão ao ataque da caverna; a andorinha voará para o céu, a rocha se abrirá e o anticristo ganhará a liberdade, aniquilará todos os que permaneceram fiéis a Deus e inundará a Terra com o sangue de suas feridas; e este sangue se transformará num dilúvio tão grande, que a humanidade se afogará nele, enquanto a Terra, abandonada até pelos demónios, perecerá.
- Uma lenda muito curiosa! Mas em que se baseia a suposição de que o anticristo se libertará logo de seu cativeiro: - indagou Supramati, não sem antes agradecer à narradora.
- Não sei exactamente, mas é um prognóstico geral.
Está no ar, se podemos expressar-nos assim. Eu fiquei muito impressionada com as palavras de um velho sacerdote ortodoxo, nosso parente, de quem eu gosto muito.
É uma pessoa impressionante: parece de outro século!
Ele leva uma vida de eremita, jejua e reza dia e noite; sua fé é tão grande que, às vezes, quando me encontro com ele, começo a acreditar e tento orar.
É claro que isso é passageiro, mas é o que acontece.
Ela riu.
– De qualquer forma, as palavras do reverendo Filaretos têm um grande significado para mim.
Devo acrescentar que esse respeitado ancião tem uma veneração especial por um santo que viveu no início do século 20, de nome João, conhecido como João de Kronchadt, igual ao nome da ilha que já não existe mais, onde ele foi um sacerdote por muitos anos.
Assim, o padre Filaretos tem visões:
aparece-lhe o padre João e, pelo visto, faz-lhe predições, pois certo dia ele me disse:
“Oh! Como os homens são cegos!
Eles dançam a beira do vulcão e não querem perceber que a força de Satanás aumenta a cada dia.
Ele, aos poucos, vai agarrando com, as suas patas toda a humanidade, e o anticristo já está conseguindo se mexer em seu calabouço; os pregos que o seguram já estão afrouxando-se.
Logo baterá a hora em que ele sairá, fervendo de ódio e orgulho, para esmagar tudo que restou de bom e puro.
Mas a punição não tardará em fulminar essa orgia do Mal, e mão direita do Senhor baterá tão forte nesse ninho de infelicidade, que ele desmoronará”.
Ufa! Eu fiquei arrepiada quando ele disso isso, mas depois pensei:
o padre está exagerando.
O mundo não está assim tão mal; temos muita liberdade, conforto, conhecimento, e estamos bem melhor de vida que os nossos antepassados.
Por que é que tudo deve ser criminoso?
Talvez o anticristo até venha e, com ele, todas as desgraças, mas isso ainda vai levar alguns séculos.
- Vamos esperar que sim! – disse sorrindo Supramati.
De qualquer forma, hoje há tantos satanistas, que a repetição daquilo que aconteceu no século 20 é possível.
É verdade! Eles são muitos.
Mas professam uma religião como outra qualquer e têm os mesmos direitos de cultuar a Lúcifer como os outros, que preferem Deus e Cristo; não se pode obrigar a alma.
Ou o senhor é de outra opinião?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:38 pm

- Não, não tenho a intenção de cercear a liberdade de consciência, mas confesso que os veneradores de Satanás não me sugerem qualquer simpatia.
- De facto, há entre eles indivíduos bem asquerosos.
Principalmente um, que eu não suporto! – exclamou Olga enfática.
- A ofensa dele deve ter sido grave, para a senhora estar tão aborrecida com esse coitado! – disse Dakhir, não sem um tom de brejeirice.
Olga corou.
- Ele que ousasse me ofender!
Estou simplesmente farta dele.
Os anfitriões sorriram; riu também a visita.
- Sabem o que está acontecendo? – acrescentou ela decidida.
Ele está apaixonado por mim e quer que eu me case com ele; mas só fico com quem eu amo.
O que me deixa louca é que ele não me larga,
Vai me estragar a festa que teremos na casa do barão.
Ele é primo do anfitrião e, com toda certeza, será convidado; isso significa que vai me atormentar com seus cortejos.
Bem, esta na hora de ir!
Temos visitas na casa da tia – concluiu ela, levantando-se.
Despedindo-se dos anfitriões, ela sentou-se agilmente em sua nave que, pouco depois, ganhou rapidamente a altura e desapareceu.
Assim que os amigos ficaram a sós, Dakhir não se conteve e soltou uma sonora gargalhada.
- Parabéns, Supramati!
A sua conquista é impressionante.
Se você resistir a essa jovem sedutora, duplamente mais perigosa devido a sua ingenuidade, você será mais firme que Santo António.
- Ah, deixe-me em paz!
Nada poderia ser pior que essa conquista!
O meu azar é que não foi você o primeiro a conhecer as amazonas; assim, quem sabe...
O seu coração amoleceria...
- Por que eu? E para que todo esse orgulho?
Você se esquece de que, uma vez misturados à turba, os seus fluídos nos influenciam; e, a despeito do nosso saber, continuamos sendo seres humanos, ainda que imortais, cujos instintos carnais de um corpo cheio de vida e de energia, nem a idade, nem as doenças, conseguem extinguir.
Para dominar as paixões que ainda espreitam no âmago de nosso ser, incitáveis pelo ambiente cheio de vícios e luxúria que nos cerca, nós só dispomos da força de vontade.
Dessa forma, não é à toa que durante as nossas excursões pelo mundo tudo nos é permitido.
- Acho justo, mas será a nossa vontade suficientemente forte para nos preservar de arrebatamentos fúteis?
A única certeza é que nada sinto por aquela ventoinha; o que eu gostaria é de arrancá-la da imundície que a cerca; pois, no fim das contas, a sua índole não é assim tão má – concluiu Supramati meio sério, meio em tom de brincadeira.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 21, 2016 7:38 pm

Capítulo XI

A casa do barão, localizada na parte nobre de Czargrado, era um enorme prédio de estilo moderno, com uma entrada monumental e duas torres que serviam de aeródromo.
Os convidados vinham chegando em vários tipos de veículos, congestionando as ruas e as torres.
As salas já fervilhavam de gente, no momento que Supramati e Dakhir entraram.
Centenas de olhares se voltaram para eles, quando estes cumprimentavam o anfitrião e uma velhota – sua parenta -, que fazia as honras de dona da casa, pois o barão era solteiro.
Para os magos, aquela era a primeira grande festa de que participavam e por isso sua curiosidade era natural.
Impressionara-os, sobretudo, o imenso salão com o bufê aberto e as mesas, onde as máquinas automáticas serviam às visitas chá, sopa, vinhos e outras bebidas, e até sorvete.
O número de empregados era escasso; Narayana explicou que os jantares já não estavam maios em voga: cada um pegava o que quisesse no bufê.
Depois, como era de se esperar, a atenção dos magos foi despertada para a sociedade representada, e eles se puseram a observar a multidão barulhenta e animada que os cercava.
É claro, não faltavam ali bonitos rostos femininos, ainda que, de modo geral, em toda aquela geração franzina, subnutrida e nervosa, de olhar febril e movimentos bruscos, viam-se estampados os sinais da degeneração.
As figuras altas de Dakhir e Supramati destacavam-se na multidão baixinha.
Todos estavam trajados primorosamente:
as mulheres cintilavam em suas jóias; a roupa dos homens sobressaía-se pela riqueza e colorido.
A presença de muitos membros da sociedade “Natureza e Harmonia” apenas deixou Supramati melindrado.
Por cima das camisas de gaze, cingidas por largas cintas com jóias, as mulheres traziam pendurados enormes colares; na cabeça de algumas, viam-se penachos coloridos; de outras – grinaldas e diademas.
As camisas dos homens eram bordadas com fios de seda multicolores; os cintos, as correntes e carteiras eram um trabalho de fino artesanato.
A presença daqueles despudorados e a impertinência com a qual eles circulavam expondo sua nudez revoltava e aborrecia Supramati.
Dakhir foi levado por um grupo de jovens; Supramati conversando com Narayana reparou num jovem que discutia animadamente com Olga no fundo do salão.
O indivíduo todo de preto, era indubitavelmente belo.
Bastante alto, magro e esbelto, de rosto regular e expressivo, cabelos densos e uma barbicha pontiaguda preto-azulada, destacava-se dentre outros; mas a expressão sombria e cruel dos grande olhos negros e a palidez cadavérica do rosto denegria o seu aspecto agradável.
Olga estava belíssima.
Seu vestido branco e vaporoso, bordado a prata, cingia-lhe as curvas flexíveis e esbeltas; os maravilhosos cabelos, suspensos por guirlandas de pérolas e rosas, estavam soltos e caiam abaixo dos joelhos; um colar de pérolas enfeitava o pescoço.
Nas mãos, envoltas em luvas brancas, ela segurava um leque rendado, ora o abrindo, ora o fechando impacientemente.
Dava a impressão de que ouvia displicentemente seu interlocutor, enquanto procurava com os olhos ávidos alguém na multidão.
Ao que tudo indicava, o cavaleiro nutria por ela uma intensa paixão, o que transparecia nos seus olhos que não se desgrudavam da figura da jovem.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 22, 2016 8:13 pm

Subitamente o rosto de Olga se afogueou ao ver Supramati; mas, ao perceber que ele estava conversando com uma mulher, suas feições cobriram-se de uma expressão de fúria e ciúme.
Ela deu as costas ao seu cavaleiro e foi em direcção de Supramati.
Seu admirador empalideceu de raiva e lançou um olhar sombrio para Olga e Supramati; um minuto depois, ele se misturou na multidão.
Supramati viu toda aquela cena, porém, não querendo que Olga ostentasse a sua emoção, recebeu-a fria e cordialmente, continuando a conversa iniciada.
Magoada, Olga embaraçou-se e em seu rostinho entristecido reflectiu-se frustração; levemente empalidecida, ela virou-se de costas e assumindo ares de cansaço e indiferença caminhou para junto de seus conhecidos.
Nesse ínterim, o admirador de Olga passava por perto e Supramati perguntou à sua interlocutora o nome dele.
- É Chiran de Richville, francês, que há alguns anos se mudou para Czargrado.
É muito rico e benquisto na sociedade – respondeu a dama.
Neste momento, aproximaram-se algumas pessoas e a conversa mudou de rumo.
Passou-se cerca de meia hora e Supramati sentia-se exausto; ele novamente estava acometido por uma sensação de cansaço e opressão que normalmente experimentava em reuniões com muita gente.
Saindo da sala, foi a um vasto jardim que ocupava toda a área dos fundos da casa.
O local parecia vazio e só o murmurejar de uma fonte quebrava aquele silêncio profundo.
Supramati sentou-se num banco debaixo de loureiros e laranjeiras, coberto por uma pelúcia verde, imitando grama artificial, e suspirou aliviado.
Nem poucos minutos haviam transcorrido, quando ele ouviu passos, o farfalhar de uma saia de seda e a voz irritada de Olga.
- Peço-lhe me deixar em paz!
Já disse que estou com dor de cabeça e quero ficar sozinha.
- Desculpa esfarrapada Olga!
Refutou uma voz sonora.
A senhora simplesmente está me evitando; mas, se pensa que vai se livrar de mim com essa desculpa está redondamente equivocada.
Estou cheio de seus caprichos sem nenhum fundamento racional.
A senhora divertiu-se alcançando o seu objectivo; provocou-me e excitou-me a paixão.
Eu a amo e a desejo, por isso pare com esse jogo cruel, essa comédia inútil.
A senhora é uma amazona livre, a quem nada impede de recompensar com amor a quem quer que seja; por que é que então a senhora me rejeita?
- Porque eu o odeio!
É mentira sua que lhe dei margem para alguma coisa ou que tenha provocado ou estimulado o seu amor; eu repito mais uma vez, sempre o evitei porque o detesto.
Sim, tenho liberdade de amar quem quer que seja, de ter tantos amantes quanto quiser – ainda que não tenha tido algum até agora -, mas o senhor não será o primeiro!
Ouviu-se uma exclamação surda:
- Ah! A senhora me rejeita porque está apaixonada por aquele forasteiro hindu, que não se sabe de onde veio.
E a senhora acredita que cederei a ele a felicidade de ser o seu primeiro homem? – balbuciou em voz rouca, sufocando-se em fúria, Chiran.
Oh, você ainda não me conhece o bastante!
Somente a mim e a mais ninguém você ira pertencer...
E bem rapidinho.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 22, 2016 8:14 pm

Supramati levantou-se, virou para dentro da palma da mão a Pedro do anel do Graal e pronunciou uma fórmula mágica.
Quase imediatamente, a silhueta do mago esmaeceu e pareceu diluir no ar.
Na gruta artificial do jardim de inverno prosseguia, entrementes, uma tempestuosa cena entre Chiran e Olga.
- Como o senhor ainda ousa abusar de mim?
O senhor ficou louco? – bradou furiosamente à jovem, a custo contendo o medo e a angústia que se apoderaram dela.
O local onde eles se encontravam, era isolado e seria necessário conhecer bem o jardim de inverno para, naquele momento, sem a ajuda de alguém, achar a entrada para o salão.
Que descuido... Ir para lá sozinha!
Ela se virou para correr, mas estacou de repente, soltando um grito surdo, como se atingida por um golpe.
Chiran deu uma sonora gargalhada e ergueu os braços.
De seu anel com pedra vermelha, usado no dedo, reluziu uma luz esverdeada atingindo a cabeça de Olga; esta gritou, cambaleou e espichou o corpo; seus membros penderam, a cabeça caiu exânime para trás e ela, feito um robô desligado, resvalou para a cadeira.
Chiran aproximou-se e, sem deixar de fitá-la, focalizou em seus olhos a luz que se irradiava do anel.
- Ordeno-lhe que me ame e que se entregue voluntariamente a mim, esquecendo e odiando o hindu – pronunciou-o estentóreo.
Agarrando os bastos cabelos da jovem, ele os puxou aos seus lábios.
- E agora tire o vestido! – ordenou ele, aprumando-se.
Quero me embevecer com a beleza de suas formas, extasiar-me mentalmente, antes de possuir o seu corpo.
No momento que os lábios de Chiran tocaram nos cabelos da adormecida Olga, esta gemeu fracamente e esboçou um movimento.
Neste instante, seu rosto iluminou-se num sorriso de felicidade e, estendendo as mãos em prece em direcção a algo invisível, ela cochichou quase inaudível:
- Mestre! Me salva e me proteja.
Um luz brilhou entre ele e Chiran; um jacto de ar cálido jogou-o com força para trás.
Com os olhos esbugalhados, o satanista fitava furioso e apavorado a figura alto do homem em branco, inesperadamente surgido no ar e se interpondo entre ele e Olga.
Uma névoa límpida cobria os seus traços; no peito Luzia uma estrela brilhante, sobre a testa ardia uma chama ofuscante.
O braço da visão estava erguido e por baixo da mão e dos dedos jorrava feixes de faíscas.
- Fora, escravo mísero da carne! – pronunciou a voz autoritária.
Não ouse macular esta jovem com seu corpo pernicioso!
Eu a protejo com um círculo intransponível, seu profanador imprestável da verdade e da luz.
Ao ver que em volta de Olga se inflamou um círculo fosforescente, Chiran recuou com a boca espumando; ergueu ameaçadoramente os dois braços, desenhou no ar um sinal cabalístico e pronunciou um feitiço satânico. Mas, no mesmo instante, um raio reluzente atingiu-o no peito e derrubou-o no chão.
- De joelhos ante o seu senhor, que governa bestas inferiores como você! – ressoou a voz.
Saia rastejando daqui de quatro, conforme merecem as criaturas demoníacas como você.
Vencido e como se pregado a terra, Chiran uivou queixosamente e rastejou para a saída.
Parecia-lhe que golpes de punhal cravavam-se-lhe nas costas – o que não era nada mais que os raios límpidos emanados das mãos do mago.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 22, 2016 8:14 pm

Supramati virou-se para Olga ajoelhada, e colocou-lhe a mão na cabeça caída.
- Durma tranquila e, daqui a quinze minutos, acorde! – disse ele e saiu da gruta.
Um verdadeiro tumulto formou-se na sala.
As visitas gritavam agitadas e corriam para a sala ao lado do jardim de inverno.
A causa daquela confusão toda era Chiran, que vinha rastejando com o rosto desfigurado e gemendo de dor.
Algumas pessoas se lançaram para ajudá-lo, mas não havia condições de colocá-lo de pé: ele parecia pregado ao chão e, sempre que tocado, contorcia-se em sofrimentos.
Entre os curiosos que vieram, alertados por gritos nos quartos vizinhos, estava Narayana.
Ele percebeu imediatamente a razão do estranho acontecimento, surgindo-lhe na mente uma forma de contornar a situação.
- Richville padece de dores na coluna – um mal com que já me deparei muito na índia – mas eu posso ajudá-lo – gritou ele.
Só preciso ficar a sós com o doente!
Visivelmente contrariada, a multidão curiosa foi para o fundo da sala.
Narayana abaixou-se de joelhos, fez alguns passes, depois tirou detrás da gola um objecto em forma de cruz e encostou-se à testa de Chiran, nas suas costas e no plexo solar.
- Agora, levante-se, vá embora e não diga mais nada.
E daqui por diante, não subestime as forças superiores! – sussurrou ele no ouvido do satanista.
Ajudado a ficar de pé, Chiran continuava cambaleante; Narayana pegou-o pelo braço e levou-o até a porta.
Vieram alguns amigos e levaram-no até o carro.
Nesse ínterim, Narayana explicava aos curiosos que o doente estava com convulsões nervosas na espinha e que a enfermidade somente minorava com a sobreposição de objectos feitos a partir de uma liga especial de metais.
Como era de se esperar, o caso de Chiran virou o centro das conversas e logo Dakhir, que estava jogando xadrez no quarto vizinho, também soube do ocorrido e logo concluiu que aquilo fora uma punição aplicada por Supramati no satanista ao ser flagrado, provavelmente fazendo alguma coisa errada.
Narayana convencido do mesmo e desejando conhecer os detalhes, saiu à procura de Supramati, já há um longo tempo sumido.
Como Chiran havia entrado rastejando do jardim de inverno, ele concluiu que a aventura tivesse tido lugar justamente ali, o que o fez dirigir-se para lá.
Não obstante, ele não achou a quem procurava, embora Supramati para ele fosse visível.
Em vez dele, topou no fundo do jardim com Olga.
Pálida e abalada, com lágrimas nos olhos, estava em pé junto a um arbusto.
- Ah! Eu não me enganei!
A jovem estava no meio da confusão.
Meu amigo Morgan defendeu-a e vingou-se cruelmente – pensou Narayana.
Simulando indiferença, ele se aproximou da jovem.
- Estou procurando o meu primo; a senhora não o viu por acaso?
Mas... O que eu vejo?
Olhinhos cheios de lágrimas, o rostinho pálido!
O que há com a graciosa senhorita?
Abra-se comigo!
Esteja certa de que sou seu amigo e não vou abusar de sua confiança!
Ele pegou-a pela mão e apertou-a amistosamente, Olga lançou-lhe um olhar perscrutador.
Aparentemente, seu coração de dezassete primaveras estava transbordando e ansiava por abrir-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 22, 2016 8:14 pm

Ela explicou que nem mesmo ela entendia como Chiran conseguiu levá-la até aquela gruta isolada, de cuja existência não suspeitava; e lá fez aquela cena terrível, ousando, inclusive ameaçá-la.
- Depois – prosseguiu ela -, eu senti como se alguém me desse uma pancada na cabeça; ai, não me lembro de mais nada.
Quando voltei a mim, Chiran já não se encontrava aqui; a gruta, porém, estava repleta daquele aroma incrivelmente agradável, que eu sempre sinto na presença do príncipe Supramati, como se dele exalado.
Tenho absoluta certeza de que foi ele quem me salvou daquele nojento Richville e depois foi embora.
Ele despreza até a minha gratidão, entretanto só Deus sabe como eu o... – ela se embaraçou e corou feito uma peónia.
- Amo – completou Narayana, olhando maroto para ela.
- Não! Eu queria dizer que o respeito e admiro muito, pois não só sinto como sei que ele é um homem incomum.
Aliás, o senhor e o príncipe Dakhir não são o que querem demonstrar; mas de todos os três, pessoas enigmáticas, Supramati é quem mais me excita.
Dele se irradia uma corrente que me arrepia, susta-me a respiração e ao mesmo tempo atrai feito um ferro ao imã.
Seus olhos tranquilos e profundos, como o mar, espreitam-se algo insondável; entretanto, tenho a impressão de que eu poderia admirá-los por toda a eternidade sem me cansar.
Oh, como devem ser felizes os que podem contar com a sua amizade.
Ela se animou: suas faces ardiam, os olhos brilhavam em êxtase e reflectiam um amor tão patente que Narayana sorriu involuntariamente.
- Juro pela minha barba, bela amazona!
A senhora se apaixonou por meu primo!
É óbvio que, se encontrasse em seus olhos misteriosos um pouquinho de amor, a senhora não teria nada contra!
- Oh! Eu teria dado a minha vida pelo amor dele! – exclamou ingenuamente Olga, mas ao ver que o seu interlocutor desatou a rir, ela empalideceu e baixou os olhos.
- A situação está preta, minha jovem amiga.
Supramati é, infelizmente, um monstro, insensível e teimoso.
É uma pena que a senhora não tenha se apaixonado por mim; sou mais jeitoso e... Inflamável.
- Ah, príncipe, o senhor é tão belo como uma estátua grega; talvez até mais que ele – isso eu sei.
Mas do senhor gosta a minha tia, e eu não quero magoá-la.
O que fazer? Cada um tem o seu gosto e eu dou preferência a ele.
Querido príncipe, o senhor é meu amigo; diga-me o que posso fazer para merecer o amor de seu amigo?
É difícil de lidar com ele; ele é muito turrão.
E talvez até não esteja disponível.
- Ah! Como eu podia ter esquecido!
Ele é o marido de Nara! – Soltou-se de chofre do peito de Olga e ela agarrou a cabeça com as mãos.
Isso foi tão inesperado, que até Narayana ficou perplexo por uns instantes.
- Que coisa! Isto já está passando dos limites! – exclamou ele em tom de pavor cómico.
De que está falando, sua imprudente?
Sabe que eu deveria fazê-la silenciar para sempre, para não tagarelar mais de coisas ocultas para os mortais?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 22, 2016 8:14 pm

Agora, confesse-me quem lhe contou este absurdo?
Olga olhou desconfiada e temerosa para ele.
- Ninguém me contou nada; eu mesma li toda a história dos senhores...
- Está ficando cada vez pior! – não parava de espantar-se Narayana.
- Bem, já que me trai, contarei de onde tirei estas informações – decidiu-se Olga.
- Sou todo ouvidos! – disse Narayana, levando-a até o banco e sentando-se junto.
- Um dos nossos ancestrais era um ocultista obstinado e reuniu ao longo da vida uma vasta e valiosa biblioteca das obras mais raras neste campo do conhecimento.
Durante a invasão amarela ele conseguiu se salvar e, por sorte, levar consigo uma boa parte da biblioteca, com alguns objectos a que ele dava muito valor.
O senhor provavelmente tem conhecimento dos difíceis tempos de então, e de quantas riquezas da arte e ciência foram perdidas para sempre; mas ele teve sorte, como eu disse, e refugiou-se num dirigível com parte de suas riquezas.
Naquela época, a navegação aérea ainda não era tão aperfeiçoada como agora, mas, de qualquer forma, podia-se transportar de quarenta a cinquenta passageiros e mais um bom volume de carga.
O meu ancestral escondeu-se no Cáucaso, onde tinha uma propriedade num desfiladeiro isolado.
Foi lá que ele se instalou; mas, depois da sua morte, jamais alguém conseguiu encontrar um livro sequer de sua biblioteca e todos ficaram impressionados com o seu desaparecimento.
Apesar de todas as vicissitudes do destino, a propriedade acabou voltando para as mãos de nossa família e, no ano passado, foi transferida para mim como herança do meu primo; assim, nós fomos para lá para examiná-la.
Gostei da casa; apesar de ser antiga, era feita de pedra e bem resistente; de um dos lados ela geminava com um alto penedo.
Segundo uma lenda, um dos quartos daquela parte da casa era gabinete do feiticeiro – assim era chamado o meu sábio ancestral.
Aquele quarto me despertava uma curiosidade especial; parecia-me familiar.
Eu ficava o tempo todo nele a procurar algo, mas o quê, não tinha a menor ideia.
Certa vez, admirando e examinando pela centésima vez um antigo entalhe que decorava as paredes, sem percebê-lo accionei uma mola e, imagine, na parede abriu-se uma porta, tão bem camuflada que jamais alguém suspeitara de sua existência.
Entrei numa sala abobadada, esculpida dentro da rocha, e lá – imagine a minha felicidade – encontrei intacta e em ordem a biblioteca desaparecida.
Entre as riquezas que lá se encerravam encontrei dois livros do século 20 com a descrição de três pessoas enigmáticas:
Narayana, Dakhir e Supramati.
A cada cem anos ou mais, eles apareciam no mundo, certos de que a nova geração nada saberia deles.
Agora julgue o senhor mesmo, que estranha coincidência: o aparecimento em Czargrado de três pessoas com aqueles mesmos nomes, e que correspondem totalmente às descrições dos incríveis livros.
- Muito curioso, mas insisto que isso é uma mera coincidência – contrapôs Narayana.
- Não, não! Coincidências assim não existem.
Além do mais, existe uma narração que diz que no Himalaia vivem sábios misteriosos que vez ou outra aparecem no mundo.
- Eu vejo que a senhora bate na mesma tecla.
Mas me diga quem é esse escritor patife que ousou, bem ou mal intencionado – tanto faz -, representar de uma forma duvidosa pessoas tão parecidas connosco?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 22, 2016 8:14 pm

- Não consigo lembrar agora o nome do autor...
Mas, se não me engano era uma mulher.
- Mulher? Era o que eu imaginava!
A humanidade ainda haverá de acabar por causa da língua delas!
Mas, voltando ao assunto principal da nossa conversa:
a senhora ama Supramati sem se importar que ele seja um Supramati antigo ou novo? – interessou-se Narayana sorrindo.
- Oh, queria que fosse novo!
Neste caso nada impediria que ele se apaixonasse por mim.
Se eu pudesse conquistar o coração dele... – suspirou Olga.
Mas, infelizmente, ele é o antigo mago, marido de Nara.
- Se ele fosse o antigo, imagine quão velho seria!
A senhora deve estar muito apaixonada – observou maliciosamente Narayana.
- Velho, ele?
O senhor é bem mais velho que ele e, ainda por cima, é um defunto ressuscitado – replicou em tom zangado Olga, corando.
- Eu, um defunto?
Protesto, e muitas mulheres poderão confirmar-lhe que eu estou bem vivo e o meu aspecto comprova que a sua escritora do século 20 não passa de uma vidente, ao prever a nossa existência – exclamou Narayana, fingindo ser atingido por aquelas palavras.
Olga empalideceu.
- Suplico-lhe, esqueça as minhas palavras tolas!
Agora o senhor está bravo comigo e não vai querer me ajudar.
Ela estava prestes a cair em pranto.
- Não, eu sou indulgente com belas mulheres e estou disposta a esquecer a ofensa.
Como, no entanto, poderei ajudá-la.
- Diga-me: Nara é muito ciumenta?
- Hum! Que mulher não o é?
- Mas ela não pode se opor a dar umas férias, se ele pedir?
Isso está na lei! – exclamou Olga, animando-se.
- Com os diabos, que ideia! – exclamou Narayana, surpreso com aquele saída.
Espere minha querida senhorita, acabo de ter uma brilhante ideia!
Supramati tem um mentor, o mago Ebramar...
- Ebramar? – interrompeu-o Olga.
É aquele que salvou Nara quando esta era uma vestal e foi emparedada viva?
É o que está escrito naquele livro.
- Sabe, essa sua dama do século 20 é incrivelmente precisa!
Sim, é o mesmo Ebramar!
Antigamente, ele não considerava o amor um pecado mortal; e mesmo agora, estou certo, apesar de sua elevada distinção de mago de três fachos, não irá recusar um favor a uma dama.
Talvez eu a ajude a invocar Ebramar.
Vou lhe providenciar espelho mágico, martelo, disco, e depois lhe ensino certas fórmulas.
Que aconteça o que acontecer!
Ebramar é o único que pode arrumar umas férias para Supramati e, assim talvez o outro se apaixone pela senhora...
Ele tem que ter afinal de contas, certas obrigações em relação aos seus contemporâneos!
- Como lhe sou agradecida por este enorme serviço que o senhor me presta! – agradeceu Olga, apertando calorosamente a mão de Narayana.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 22, 2016 8:14 pm

E quando o senhor me trará aqueles objectos e me ensinará as fórmulas para a invocação? – tremendo de impaciência, acrescentou ela.
- Assim que preparar tudo.
Teria a senhora um lugar privado onde pudesse, isolada e fazendo jejum, preparar-se para tão importante ritual?
- Eu tenho, não muito longe da cidade, uma pequena dacha com jardim.
Lá só mora um velho caseiro e eu posso ficar o tempo que quiser.
- Excelente! Eu a aviso com antecedência; por enquanto, um último conselho:
nunca revele a ninguém aquelas conjecturas, baseadas no velho livro do século 20; caso contrário, poderá haver aborrecimentos que nos obrigarão a ir embora daqui.
Quem é que quer ser objecto da curiosidade indiscreta e mexericos ridículos?
Desta vez o tom da voz de Narayana era severo e o seu olhar tão sombrio e autoritário, que Olga se embaraçou por completo.
- Se eu fiquei quieta até agora, ficarei mais muda que um peixe – murmurou ela corando.
- Neste caso permaneceremos bons amigos – concluiu Narayana.
Para distrair a jovem, ele lhe contou da desventura de Chiran e de sua súbita partida da festa.
A satisfação que Olga experimentou ao ouvir a humilhação do homem que ousou ofendê-la fez com que ela voltasse ao seu bom humor; e como ela estava impaciente para conversar com as amigas a respeito daquele inusitado incidente, os novos amigos saíram do jardim, que há esta hora começava a se encher de gente.
Numa das salas, Olga viu Supramati conversando em companhia de homens; o assunto era a política.
Ela não se aproximou dele e juntou-se a um grupo de damas que continuavam uma animada conversa sobre uma nova e estranha doença que vitimara o coitado do Chiran.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 22, 2016 8:15 pm

Capítulo XII

A pedido de Narayana, o barão de Morgenshield mandou entregar aos príncipes indianos as entradas para as reuniões satânicas que se realizariam em duas lojas luciferianas:
a de Baal e a de Lúcifer.
À noite, um dia depois da festa narrada, os nossos amigos se aconselharam com os secretários, deram-lhes algumas instruções especiais e, em seguida, dirigiram-se cada um com o seu ajudante, para lados opostos, pois as lojas se localizavam em partes diferentes da cidade.
Acompanhado por Nivara, Supramati foi de aeronave e, minutos depois, pousava numa grande plataforma, no centro da qual se erguia um edifício circular de tecto plano, ladeado de colunas.
Toda a edificação era negra como ágata.
Supramati saltou da nave, subiu pela galeria com colunas que cercavam o templo satânico e bateu três vezes na porta, junto da qual se erigiam duas estátuas de demónios, de basalto preto.
A porta se abriu silenciosamente e ele adentrou uma ampla sala redonda, de paredes pretas, iluminada por meia-luz avermelhada.
No centro dela, num enorme pedestal, erguia-se uma estátua colossal de satanás, sentado não numa rocha – como de costume -, mas no globo terrestre.
Com uma pata, ele espezinhava a cruz tombada; numa das mãos, o czar das trevas segurava um saco com a inscrição em letras ígneas:
“O ouro sufoca todas as virtudes”; na outra – uma taça com a inscrição:
“Sangue dos filhos de Deus”.
Na base, junto aos pés do ídolo, via-se uma portinhola estreita, ladeada por dois demónios com chifres, de rocha preta, com tochas acesas nas mãos.
Com a chegada de Supramati, dele se aproximou um homem envolto em capa.
Depois de examinar a entrada, ele lhe estendeu uma máscara e o convidou a segui-lo.
Mal abriu a porta no pedestal e Supramati transpôs a soleira, ouviu-se um crepitar sinistro e, em algum lugar remoto, ressoou uma espécie de explosão.
- Coloque a máscara! – disse o guia, lançando para Supramati um olhar perscrutador e um tanto surpreso.
Supramati colocou a máscara e eles desceram por uma escada de mármore preto, iluminada por luzes vermelhas, dando numa grande sala subterrânea, já lotada de público.
Todos os presentes – homens e mulheres – estavam envolvidos em longas capas negras e se comprimiam na primeira parte do recinto, de modo que a parte dos fundos estava vazia.
Ali, numa elevação de alguns degraus, erguia-se um altar de pórfiro vermelho diante da estátua de Bafonete; cinco lâmpadas vermelhas, dispostas em forma de pentagrama sob a cabeça do bode satânico, inundavam a sala com uma luz vermelho-sanguínea.
Diante da estátua, num pesado castiçal dourado de sete braços ardia crepitando sinistramente velas de cera pretas.
Diante do altar, no chão, engastava-se um grande disco metálico e, ao lado, nas trípodes, ardiam ervas e galhos, espalhando um odor de enxofre e resina.
Ao contacto com as emanações impuras da atmosfera, um suor frio cobriu o corpo de Supramati; cada nervo seu tremia; mas, com um esforço da vontade, ele venceu imediatamente a fraqueza.
Apertando forte na mão a cruz de magos, que tirou por trás do cinto, ocupou em silêncio um lugar na segunda fileira e concentrou a atenção em três sacerdotes luciferianos, postados no centro do disco, junto a um grande reservatório quase cheio até as bordas de sangue.
No pescoço dos sacerdotes – totalmente nus e com cabelos amarrados em cima com fita vermelha – pendiam do peito insígnias esmaltadas pretas; seus corpos estavam sujos de sangue dos animais que tinham acabado de sacrificar, cujas carcaças estavam estiradas ali mesmo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 22, 2016 8:15 pm

Nesse momento eles transferiam para o reservatório o sangue da última vítima – a de um cabrito preto -, e iam se postando em triângulo, entoando um dissonante hino selvagem.
Pouco depois, o sangue no recipiente começou a si agitar, e logo – a ferver, exalando uma fumaça negra.
Com isso, os presentes começaram a cantar – se é que se podia chamar de canto aquele alarido destoado e selvagem, por vezes interrompido por gritos:
- Gor! Gor! Sabá!
Uma espécie de loucura tomou conta dos presentes.
As vozes se tornavam cada vez mais sáfaras, as capas desceram descobrindo a nudez daquela turba endemoniada; os olhos como enfeitiçados, pregaram-se no reservatório.
Agora, de lá, erguia-se uma figura humana em trajes negros, corpo transparente, através do qual parecia espalhar-se um fogo líquido; os traços do rosto – mais compacto - eram sinistramente belos, mas a expressão de ódio diabólico o fazia repulsivo.
Assim que o ser enigmático começou a se formar sobre o reservatório, um dos sacerdotes luciferianos ergueu do chão um embrulho vermelho e o abriu.
Dele tirou e colocou sobre o altar uma criança de alguns meses, que pelo visto estava dormindo.
Dois outros sacerdotes se postaram nos degraus de ambos os lados do altar; um segurava nas mãos um punhal reluzente, outro – uma taça de ouro.
- Gloria! Gloria!
Gloria a você, Lúcifer! – uivavam os presentes.
O espírito lúgubre saltou neste ínterim do reservatório e o seu corpo era tão denso, que ele parecia real.
Por trás de suas costas começaram a surgir sombras cinzentas que logo se iam densificando e materializando-se.
Eram larvas-mulheres; de beleza tão surpreendente que apavorava olhos esverdeados, lábios vermelho-sanguíneos e gestos insinuantes.
Mas algo parecia não agradar e incomodar, aparentemente, os visitantes do inferno, pois os seus corpos flexíveis estremeciam e contorciam-se; os olhares alarmados examinavam perscrutadores a turba reunida.
Lúcifer agarrou o punhal de sacrifícios e dizendo fórmulas ergue-o sobre a criança imóvel.
Subitamente ele estremeceu, deixou cair o punhal e virou-se rapidamente.
Seu rosto deformou-se numa asquerosa convulsão; da boca semicerrada gotejava espuma esverdeada.
- Traição! – urrou ele em voz rouca, agarrando-se na ponta do altar.
Supramati desenvencilhou-se da capa e da máscara.
Sua cabeça reluzia num clarão prateado, sobre a testa ardia à chama mística do seu poder oculto, e da estrela que pendia no peito se irradiava feixes ofuscantes, envolvendo toda a sua figura numa larga auréola; na mão erguida, brilhava a cruz mágica.
Era uma cruz de ouro puro, consagrada pelos magos de grau superior; de suas pontas vertiam, em feixes, raios de luz; no centro, desenhava-se um cálice.
Erguendo para o alto aquela poderosíssima arma sagrada e pronunciando as fórmulas da iniciação superior, Supramati foi em direcção do altar satânico em passos firmes.
Nesse instante o rolar do trovão fez estremecer o prédio até os alicerces; Lúcifer rugiu feito uma fera selvagem, contorcendo-se em convulsões.
As velas e outras luzes se apagaram; as trípodes coaram para o chão e a sala encheu-se de gritos que dilaceravam a alma.
Apenas uma luz brilhante que se desprendia do mago iluminava, como dia, o espectáculo repugnante em volta.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 3: A IRA DIVINA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 22, 2016 8:15 pm

Atrás de Supramati alastrava-se um largo feixe de luz, onde se viam massas agitadas de espíritos inferiores, subordinados a ele; seus rostos reflectiam inteligência, nos peitos brilhavam chamas azuladas.
Evocados por seu senhor, eles vieram em auxílio para enfrentar os espíritos do inferno.
E o enfrentamento foi feroz.
A matilha satânica cerrou suas fileiras junto do altar protegendo Lúcifer, enquanto este, espumando pela boca asquerosa, lançava em direcção do mago feixes de faíscas e colunas de fumaça negra e fétida, indo atingir, em forma de grandes machas escuras, as vestes claras de Supramati, que, no entanto, logo se dissipavam e desapareciam.
As flechas brancas e incandescidas coavam arremessadas pelas larvas e sacerdotes satânicos.
Mas Supramati, feito uma coluna de luz, continuava a avançar, sereno e corajoso.
Ao chegar até o disco metálico, ele ergueu a mão com a cruz mágica e, em voz sonora e límpida, pronunciou alto as fórmulas, cobrindo na sala o barulho medonho que ali se estabelecera.
No mesmo instante, da cruz fulgiu um raio que atingiu directamente o peito de Lúcifer.
O espírito ímpio urrou e rolou escada abaixo, contorcendo-se em terríveis convulsões aos pés de Supramati.
- Apodreça encarnação diabólica, criatura imprestável e criminosa.
Eu o expulso da atmosfera terrestre!
Vague nos reflexos do passado, contemple seus malefícios ignóbeis e reflicta sobre ele a sós!
À medida que o mago falava, Lúcifer pára de se debater e, por fim, espichou-se imóvel.
Mas, subitamente, o seu corpo se desfez com um barulho de tiro de canhão e, daquela massa ensanguentada e disforme, saiu voando uma criatura apavorante, algo como uma serpente alada com listas pretas e amarelas e cabeça de homem.
Aos silvos e urros, o monstro atravessou a sala e desapareceu.
No instante em que Lúcifer saiu derrotado, as larvas começaram a adquirir formas de animais sórdidos; os satanistas, espumando pela boca e uivando, lançavam-se uns contra os outros.
Intervieram também as larvas e teve início uma batalha memorável.
Só se viam corpos desnudados a se agarrarem e a rolarem pelo chão, dilacerando com os dentes e sufocando uns aos outros, urrando e uivando em vozes inumanas; os três sacerdotes luciferianos jaziam mortos; seus corpos enegreceram como se fulminados por um raio.
Sem dar a mínima atenção àquele espectáculo horripilante, Supramati pegou do altar a criança ainda imóvel, como se mergulhada na letargia, e abraçando-a ao peito saiu andando de costas para trás, continuando a ler as fórmulas mágicas.
Na ante-sala, esperava por ele Nivara, lívido e assustado.
Supramati viu que a estátua de Satanás, tombada do pedestal, estava quebrada; as grossas paredes do templo do inferno estavam rachadas em três lugares de cima para baixo.
- Pegue a criança, Nivara!
Ela ficará connosco, pois seus pais não merecem ficar com ela; para eles, ela desapareceu para sempre! – ordenou Supramati, envolvendo-se na capa que o secretário lhe havia estendido.
Na saída, por eles aguardava a nave que os levou de volta.
Já em casa, Supramati foi com Nivara até os aposentos para dedicar-se à tarefa de reanimar a criança.
Era uma linda menina de uns seis meses, e quando ela abriu os grandes olhinhos azuis, Supramati afagou carinhosamente a cabecinha encaracolada da inocente pequerrucha, salva de uma morte ignóbil.
Nisso veio Dakhir, também carregando uma criança que ele acabara de salvar.
Era um menino de um ano e meio.
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