Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:19 pm

A MORTE DO PLANETA
Wera Ivanovna Krijanovskaia

J. W. ROCHESTER

Capítulo I

Sob maciço rochoso da antiga pirâmide de consagração, repousa desconhecido e para todo o sempre inacessível para os mortais comuns, o mundo subterrâneo.
Lá sobrevive o que restou do Antigo Egipto, lá se esconde os tesouros de sua portentosa ciência, que permanece envolta em mistérios, protegida dos olhos de curiosos, tal como ocorria naquela época em que o povo de Kemi ainda reverenciava seus hierofantes, enquanto os Faraós saíam com ostentação para guerrear contra seus vizinhos. Os hierofantes e os Faraós foram paulatinamente descansar em seus túmulos subterrâneos; o tempo — que a tudo destrói - continuou a destronar e a transformar a civilização antiga.
Outros povos, outras crenças começaram a surgir no Egipto e jamais alguém chegou a suspeitar que toda uma falange de pessoas misteriosas — que viveram muitos séculos antes, quando ainda começaram a surgir as maravilhosas obras, cujas ruínas provocam admiração - continua a viver no abrigo fantástico, conservando piamente seus trajes, tradições e ritos da fé em que nasceram.
Ao longo de um comprido canal subterrâneo, que se estendia a partir da esfinge de Gizé até a pirâmide, deslizava silenciosamente um barco de proa dourada, enfeitada com flor de lótus.
Um egípcio de tez escura que parecia ter acabado de descer vivo de um antigo afresco, remava lentamente.
Dois homens, vestidos em trajes de cavaleiros do Graal, em pé no barco, contemplavam os amplos salões abertos em ambos os lados do canal, onde se podiam ver sábios misteriosos inclinados sobre as mesas de trabalho. Quando o barco atracou junto a uma escadaria de apenas alguns degraus, os adventícios foram recebidos por um venerável ancião vestido numa longa túnica branca e Klafta, portando uma insígnia no peito e tendo três fachos de luz fulgurante sob a fronte, indicando a importância da ascendência do mago.
— Supramati! Dakhir!
Meus queridos irmãos, bem-vindos ao nosso abrigo.
Após tantas provações terrenas, venham recuperar suas forças em um trabalho novo!
Revigorem-se com novas descobertas no campo ilimitado da sabedoria absoluta.
E acrescentou afectuosamente:
- Deixe-me abraçá-los a todos fraternalmente e apresentá-los a novos amigos.
Aproximaram-se alguns hierofantes e novamente beijaram os recém-chegados.
Após uma conversa amistosa o velho mago disse:
- Vão, irmãos, lavem-se e descansem antes de lhes serem mostrados os locais de suas actividades.
E tão logo os primeiro raios de Rá iluminem o horizonte, nós estaremos esperando por vocês no templo para o divino ofício, que será realizado, como sabem, segundo os rituais de nossos antepassados.
Ao sinal do hierofante, dois jovens adeptos que se mantinham até aquele momento discretamente de lado, aproximam-se e foram acompanhar os visitantes.
Atravessando primeiro um longo e estreito corredor, eles desceram por uma escada íngreme e apertada que dava numa porta decorada com a cabeça da esfinge com lâmpadas azuladas no lugar dos olhos.
A porta levava a uma sala redonda com aparelhos e instrumentos científicos e mágicos, enfim, havia nela tudo de que o laboratório que um mago iniciado poderia precisar.
Nesta sala havia três portas, sendo que uma dava para=um pequeno quarto com banheira de cristal, cheia de água azul clara, que vinha escorrendo pela parede.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:20 pm

Nos banquinhos já estavam prontos os trajes de linho e listradas.
Outras duas portas levavam a quartos totalmente idênticos, com camas e móveis de madeira entalhada e almofadas de seda; a mobília dos quartos, devido a seu estilo inusitado e desconhecido reproduzia, pelo visto, o ambiente de uma antiguidade lendária.
Junto à janela, fechada por uma cortina pesada de tecido azul com desenhos e Franjas, havia uma mesa redonda e duas cadeiras.
Um grande baú entalhado, junto à parede, destinava se, por certo, a guardar vestimentas.
Nas estantes de parede amontoavam-se rolos de antigos papiros.
Antes de tudo, Dakhir e Supramati tomaram um banho.
Com o auxílio de jovens adeptos, vestiram novas túnicas de linho com cintos decorados por pedras mágicas e colocaram as Klaftas e as insígnias, obtidas em virtude de seu grau hierárquico.
Assim, em indumentárias antigas, tornaram-se eles contemporâneos àquele ambiente estranho em que se encontravam.
- Venha me chamar, irmão, quando precisar - disse Supramati ao adepto, sentando-se na poltrona junto à janela.
Dakhir recolheu-se em seu quarto, uma vez que ambos sentiam uma necessidade incontrolável de ficarem a sós.
Seus espíritos ainda estavam oprimidos pelo peso do último período de suas vidas na Terra, mas a saudade daquilo, ainda que tivessem triunfado, arrastava-os invariavelmente a um pensamento:
seus filhos e esposas.
Soltando um triste suspiro, Supramati debruçou-se sobre a mesa; o jovem adepto, antes de se retirar, puxou a cortina que ocultava a janela.
Supramati se pôs em pé, impressionado com a extraordinária beleza e austeridade do espectáculo:
jamais tinha visto algo igual.
Diante de seus olhos estendia-se a superfície de um lago, liso feito um espelho; as águas imóveis, sonolentas e azuis como safira, eram de transparência cristalina; ao longe podia ver se o pórtico branco de um pequeno templo, cercado de árvores com folhagem escura que fazia com que ela parecesse preta, sem ser agitada sequer por um sopro mínimo de vento.
Em frente da entrada do templo, sobre a ara de pedra ardia um grande fogo que, feito um luar, difundia para longe suas luzes, envolvendo, como uma névoa prateada, a dormente natureza imóvel, atenuando seus contrastes de contorno.
Mas onde está o firmamento deste fantástico quadro da natureza?
Supramati ergueu os olhos e viu que, em algum lugar próximo, em cima, perdido na escuridão cinzenta, abria-se uma cúpula violeta.
O deslumbramento de Supramati foi interrompido por Dakhir, que havia admirado o mesmo quadro de sua janela e viera compartilhar a sua descoberta com o amigo, sem saber que este já estava se deliciando com a fascinante visão.
Que grandioso!
Um deleite para a alma esta tranquilidade da imóvel natureza, placidamente adormecida!
Quantos mistérios novos e ainda inimagináveis terão que estudar – observou Dakhir ao sentar-se.
Supramati não teve tempo de responder, surpreendido por um novo fenómeno ocorrido, e ambos soltaram um ai de admiração.
Da abóbada cintilou um feixe largo de luz brilhante, de cor dourada, iluminando tudo ao redor...
Luz solar sem sol?
De onde vinha e como penetrava ali aquela luz dourada, eles não tinham a menor ideia.
Instantes depois, seus ouvidos captaram os sons de um canto remoto, poderoso e harmónico.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:20 pm

- Não deve ser um canto das esferas, mas sim de vozes humanas – observou Dakhir.
Veja, ali estão os nossos acompanhantes.
Eles estão vindo nos buscar de barco.
Você não notou que de seu quarto há uma saída para o lago? – acrescentou ele, levantando-se e dirigindo-se com o outro para a porta de saída.
Feito uma flecha, o barco deslizou pelo lago, indo parar junto à escadaria de um templo egípcio em miniatura.
Uma comunidade misteriosa estava lá reunida; homens em trajes antigos, com semblantes austeros e concentrados; mulheres, vestidas de branco, com aros dourados na cabeça, cantavam sob o acompanhamento de harpas.
As estranhas e poderosas melodias ressoavam sob as abóbadas e o ar era impregnado de um aroma suave.
A cena impressionou profundamente Supramati e seu amigo.
Aqui, o tempo também se deslocou em mil anos; era uma visão ao vivo do passado, uma dádiva que lhes era concedida para dela participarem em virtude de um acontecimento estranho em suas extraordinárias existências.
Assim que silenciou o último som do hino sacrifical, os presentes Formaram duas fileiras e junto com o superior dirigiram-se, através de uma galeria arqueada, a sala onde já os aguardava o desjejum matinal.
Era simples, porém bem substancioso para os iniciados.
Compunha-se de pãezinhos escuros, que derretiam na boca, verduras, mel, vinho, e de uma bebida branca, densa e espumante, que não era creme de leite, mas parecia muito.
Dakhir e Supramati estavam famintos e honraram o alimento.
Ao notar que o hierofante supremo, ao lado do qual ambos estavam sentados, olhava para eles, Dakhir comentou um tanto sem jeito:
- Não é uma vergonha, mestre, que os magos tenham tanto apetite?
O ancião sorriu.
- Comam, comam meus filhos!
Seus corpos estão esgotados devido ao contam com a massa humana que lhes sugou toda a força vital.
Aqui, na paz de nosso retiro, isso será superado.
O alimento que nós retiramos da atmosfera é puro e fortificante; seus componentes são adequados ao nosso modo de vida.
Comer não é um pecado, pois o corpo, ainda que seja de um imortal, necessita de alimento.
Após o desjejum, o hierofante supremo fez com que os visitantes conhecessem todos os membros da comunidade.
Antes de tudo, aproveitem para descansar, meus amigos — observou ele ao se despedir.
– Por cerca de duas semanas vocês dedicarão seu tempo para conhecerem nosso abrigo, repleto de tesouros históricos e científicos; além disso, vocês encontrarão entre nós muitas pessoas interessantes, com as quais terão muito prazer em conversar.
Mais tarde, juntos, planearemos suas tarefas:
não aquelas que dizem respeito a Ebramar, mas a outras, com que vocês terão que se familiarizar.
Depois de agradecerem ao hierofante supremo, Supramati e Dakhir foram até seus novos amigos, travando com eles uma animada conversa.
Pouco depois os membros da comunidade se dispersaram, indo cada um cuidar de seus afazeres até a hora do desjejum seguinte.
Permaneceu somente um dos magos que propôs aos visitantes mostrar o local e algumas das colecções de antiguidade lá guardadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:20 pm

A caminhada pelo local e o exame das colecções despertaram um interesse profundo em Supramati e Dakhir.
O relato do acompanhante sobre a origem da pirâmide, da Esfinge e do templo, sepulto sob a terra ainda na época de primeiras dinastias, abriu lhes os horizontes longínquos da origem da Humanidade.
E quando algum objecto valioso de 20-30 mil anos ou uma folha metálica com inscrições ilustrava a narração, eles, involuntariamente, eram dominados por respeitoso tremor de admiração, ainda que, já há muito tempo, fossem mimados com conhecimentos da Antiguidade.
Após o jantar, Supramati e Dakhir recolheram se em seus quartos, cada um sentindo a necessidade de ficar a sós.
Seus espíritos ainda sofriam as consequências da ruptura dos vínculos carnais, que os acatam durante alguns anos a vida de humanos mortais.
Sentado, com a cabeça abaixada nas mãos.
Após o jantar, Supramati e Dakhir recolheram-se em seus quartos, cada um sentindo a necessidade de ficar a sós.
Seus espíritos ainda sofriam as consequências da ruptura dos vínculos carnais, que os acatam durante alguns anos a vida de humanos mortais.
Sentado, com a cabeça abaixada nas mãos, Dakhir estava triste e pensativo.
Ele sentia o pensamento que lhe vinha de Edith e a Saudade o atormentava.
Até então ele não tinha a consciência de quanto havia se apeado àqueles dois seres, que passaram rapidamente por sua longa, estranha, laboriosa e solitária existência, à semelhança de raios quentes e do sol vivificante.
Esse vínculo verificou-se ser muito forte e não podia ser rompido a bel-prazer.
Ele tocara nas cordas do coração e essas vibravam agora em duas direcções como um fio electrizado.
Por isso a troca de pensamentos e sentimentos não cessava.
Da mesma forma como as ondas se batem contra as margens, os pensamentos recíprocos repercutem em ambos os lados.
Dakhir sentia a dor de Edith; e esta, ainda que desejasse, não conseguia dominar o poderoso sentimento que invadia todo o seu ser e abafar a dor cruciante da separação da pessoa amada.
Ebramar, que tão bem pôde estudar o coração humano e até de um mago - ao se despedir de Dakhir disse que, enquanto o tempo e as ocupações não conseguissem acalmar a saudade dolorida do espírito, ele poderia ver Edith com a criança no espelho mágico e conversar com a esposa.
Agora, lembrando-se dessas palavras.
Ele saiu apressado para o laboratório.
Aproximando-se de um grande espelho mágico, Dakhir pronunciou as fórmulas e desenhou sinais cabalísticos.
Ocorreu o que era esperado: a superfície do instrumento embaralhou-se, encheu-se de faíscas, a névoa se dissipou e como se através de uma grande janela divisou-se diante dele o interior de uma das salas do palácio do Himalaia, onde habitavam as irmãs da irmandade.
Era um local amplo e luxuosamente decorado; no fundo, junto à cama com cortinas de musselina, podiam ser vistos dois berços com acabamento em seda e rendas.
Em frente do nicho, no fundo do qual havia uma cruz, encimada por um cálice de ouro dos cavaleiros do graal, estava Edith em posição genuflexa.
Vestia uma longa túnica branca - vestimenta de irmãs - e os maravilhosos cabelos soltos envolviam-na como um manto de seda.
As belas feições de Edith estavam pálidas e cobertas de lágrimas:
diante de sua visão espiritual pairava a imagem de Dakhir.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:20 pm

Não obstante, era visível que ela lutava contra esta fraqueza, procurando na oração um apoio para preencher o vazio que se formou com a partida da pessoa amada.
O amor preenchia-lhe tudo o ser; no entanto, esse sentimento era puro, como pura era a alma de Edith; não havia nela sombra mínima de lascívia, somente o desejo de ver, ainda que uma vez ou outra, a pessoa adorada, ouvir no silêncio da noite a sua voz e saber o que ele achava dela e da criança.
Um arrebatamento profundo de carinho e compaixão apoderou-se de Dakhir:
- Edith, - sussurrou ele.
Por mais fraco que tenha sido este sussurro, a audição espiritual da jovem mulher o havia captado; ela estremeceu e levantou-se, sentindo a presença do ser querido.
No mesmo instante, ela viu uma faixa de luz formada pelo espelho mágico que já conhecia, e nele a imagem de Dakhir.
Sorrindo-lhe e saudando-a com a mão.
Soltando um grito.
Edith correu e estendeu-lhe a mão, mas, subitamente, enrubesceu-se e parou embaraçada.
- Meus pensamentos o atraíram, Dakhir, eu talvez tenha interrompido seus importantes afazeres.
Oh! Perdoe querido a minha fraqueza incurável.
De dia, eu trabalho, e ainda consigo, de certa forma, enfrentar a dilacerante saudade de você.
Sinto sua falta como do ar que respiro; tendo a nítida impressão de que com você ficou uma parte de meu ser e sofro por causa desta ferida aberta.
Todos aqui são bons comigo.
Estudo uma nova ciência que me revela maravilhas; mas nada me faz mais feliz.
Perdoe-me por ser fraca e indigna de você.
- Nada tenho a perdoar-lhe, minha boa e dócil Edith.
Assim como você, eu sofro devido à nossa separação, mas devemos obedecer à lei imutável de nosso estranho destino, que nos obriga a caminhar sempre para frente e para frente...
Com o tempo, a tensão dessa nostalgia vai passar e você acabará pensando em mim com sentimento tranquilo até a nossa reunificação derradeira.
Hoje eu vim à sua presença para lhe dar uma boa notícia.
Ebramar deixou-me vê-la uma vez por dia; e a estas horas tranquilas, vou visitá-la e à criança.
Nós vamos conversar, eu vou guiá-la, ensiná-la e acalmá-la, sabendo que eu estou a seu lado, vai sofrer menos por causa de separação.
Enquanto ele falava, o rosto encantador de Edith modificou-se totalmente.
As faces emagrecidas ficaram coradas, os grandes olhos irradiavam felicidade e a voz denotava alegria.
- Oh! A bondade de Ebramar é infinita!
Como posso expressar-lhe a gratidão por esta graça que faz voltar o ânimo e a felicidade?
Agora eu poderei viver sempre de um encontro a outro, e esses momentos serão a recompensa por meu trabalho diário.
Você irá me explicar o que eu tenho dificuldade de entender e seus fluídos acalmarão meu coração rebelde...
Repentinamente ela se calou e correu em direcção a um dos berçários, e tirando dele uma menina, mostrou-a a Dakhir.
- Veja como ela está ficando bonita e se parece com você; seus olhos, seu sorriso.
O que seria de mim sem esse tesouro? – acrescentou ela toda feliz, apertando apaixonadamente a criança contra o peito.
A pequenina acordou, sem chorar em seguida, e, sorrindo ao reconhecer o pai, estendeu-lhe os bracinhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:21 pm

Dakhir mandou-lhe um beijo pelo ar.
- Esta menininha revela-se uma maga – disse Dakhir sorrindo.
Você disse que ela se parece comigo?
Ela é o seu retrato.
Quando Edith deitou a criança, que logo adormeceu, Dakhir perguntou:
Como está Airavala?
Eu creio que amanhã Supramati vai querer visitar o filho.
- Será óptimo, porque ele anda muito triste e só se anima vez ou outra quando vê a mãe; até a chama pelo nome e estende os bracinhos.
Pobre pequeno mago!
Após conversarem por cerca de uma hora, Dakhir observou:
- Está na hora de você se deitar e dormir, querida Edith.
Agora que você me viu e sabendo que logo nos encontraremos de novo, tenho certeza de que vai se acalmar e o sono irá fortificá-la.
- Ah! Como o tempo passou rápido! – suspirou Edith.
Eu vou me deitar – acrescentou, dirigindo-se obediente à cama -, mas não vá embora antes de eu pegar no sono.
Dakhir desatou a rir e ficou junto à sua janela mágica; quando ela se deitou, ele levantou a mão e através de seus dedos jorrou uma luz azulada que envolveu Edith como um véu radiante.
Quando a luz se apagou e a névoa havia se dissipado, a jovem dormia um sono profundo e são.
Enquanto o descrito acontecia no quarto de Dakhir, Supramati deitado na cama reflectia sobre o passado.
Há muito tempo seu espírito não era tão incomodado com o peso do destino fatídico que lhe facultava amar algo para em seguida tirá-lo dele.
Pondo-se de pé, ele se sentou à mesa e começou a por em ordem folhas antigas de papiro, para serem examinadas mais tarde, dadas de manhã por seu acompanhante como documentos extremamente interessantes.
Como era de seu hábito, ele queria dissipar seus pensamentos desagradáveis com aquele trabalho.
Mal ele havia começado a ler as primeiras linhas, estremeceu subitamente e retesou-se:
sua audição aguçada captou um leve ruído como o farfalhar de asas que batiam contra alguma coisa.
Em seguida, ouviu-se um som trémulo, pungente e lastimoso, à semelhança de um choro contido.
Olga, ela está a minha procura! – pensou alto Supramati, pondo-se de pé.
Pobrezinha!
A aflição esta a cegando e a imperfeição impõe um muro entre nós!
Ele pegou se bastão mágico girou-o cerca de um minuto no ar e em seguida desenhou no chão um círculo de linhas ígneas; depois fez um gesto com se dissipasse a atmosfera com o bastão, e, acima do círculo, formou-se um facho de luz; o espaço transparente e azul que se via nele parecia estar envolvido por um gás gelatinoso, que tremia e crepitava.
Agora, no meio do círculo, pairava uma cinzenta sombra humana que rapidamente ia se corporificando e adquirindo forma e cor determinadas.
Era Olga.
Em seu rosto encantador a expressão de melancolia e infortúnio parecia ter-se congelado, e, os olhos, expressando receio e ao mesmo tempo uma clara felicidade, miravam aquele que para ela era um deus terreno.
Irradiadas de Supramati, grandes correntes de luz e calor eram absorvidas pelo corpo transparente da visão, conferindo a ela uma forma viva e beleza exuberante.
A chama fulgurante acima da fronte iluminava as feições do rosto e a vasta cabeleira dourada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:21 pm

Por fim a visão adquiriu o aspecto de mulher viva e Olga, com ar suplicante, estendeu as mãos fechadas a Supramati, que a acompanhava com o olhar de afeição e ternura.
- Olga, Olga!
Onde estão as suas promessas de ser corajosa e forte, de trabalhar e aperfeiçoar-se com as provações terrenas?
Você anda vagando tristemente no espaço feito um espírito sofredor, enchendo-o ar com seus gemidos.
Você é esposa de um mago!
Não esqueça minha pobre Olga, você ainda tem muito trabalho pela frente.
Você terá que enriquecer o seu intelecto, desenvolver as forças e as capacidades espirituais para que eu receba o direito de levá-la ao mundo novo, para onde o destino me arrasta.
Seu tom de voz era levemente severo e o rosto de Olga adquiriu a expressão de susto e vergonha de uma criança que fez algo de errado.
Perdoe-me a fraqueza, Supramati; é tão difícil ficar longe de você, consciente dos obstáculos que me impedem de aproximar-me.
- À medida que se aperfeiçoe os obstáculos irão diminuindo, até desaparecerem por completo.
Eu já lhe disse que você terá de purificar-se e trabalhar no espaço.
Na atmosfera terrena, repleta de sofrimentos e criminalidade.
Haverá sempre muito trabalho para um espírito bem intencionado.
- Oh! Eu estou repleta de boas intenções.
Envie-me para a Terra num corpo novo para qualquer provação, por mais penosa que seja, e eu suportarei submissa todos os sofrimentos, quaisquer privações, porque quero ser digna de segui-lo; e, por fim, poderá esquecer, pelo menos por algum tempo, aquela felicidade da qual eu pude usufruir.
Seus lábios tremiam as lágrimas a sufocavam.
Supramati abaixou-se e disse carinhosamente:
- Não se aflija minha querida!
Não tenho a menor intenção de repreendê-la pelo infinito amor que você tem por mim, porque ele me é extremamente caro e eu a amo:
mas você não pode deixar que ele a domine.
Esteja certa de que eu nunca vou perdê-la de vista e vou observá-la durante as suas provações terrenas; mas você deverá aproveitar e aperfeiçoar suas forças morais e intelectuais e isso você tem bastante, pois você é minha discípula.
Empregue os poderes e os conhecimentos que eu lhe transmiti para ajudar as pessoas; encontre entre esses aqueles que você poderá orientar para o bem e tente provar-lhes a imortalidade da alma e a responsabilidade de cada um por seus aros; estude as leis fluídicas que lhe possibilitarão proteger e auxiliar seus irmãos mortais.
Em seguida, Supramati abriu uma caixa tirou dela um pedaço de uma espécie de massa fosforescente, fez dela uma bolinha e entregou ao espírito.
- E agora, olhe bem para mim.
Eu estou aqui, você não me perdeu.
Nossos espíritos estão se comunicando e, com o auxílio desta bolinha, poderá chegar a mim:
mas só depois que aproveitar com dignidade o tempo para o trabalho e o estudo, e não para lamentos insensatos.
Denotando alegria e candura, Olga pegou a bolinha.
Levantando para Supramati seus grandes e radiantes olhos, com sorriso desconcertado, sussurrou timidamente:
- Vou cumprir tudo o que você disse; vou procurar um médium para trabalhar e não me queixar; dê-me apenas um beijo para que eu tenha certeza de que você não está zangado pelo facto de a esposa do mago andar vagando feito uma mendiga, ao redor do paraíso perdido.
Supramati, sem poder conter um riso, puxou-a para si e beijou-lhe os lábios e a cabeça de cabelos louros.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:21 pm

- E agora, minha incorrigível turrona, vá e cumpra com suas promessas.
Eu a abençoo.
E se você precisar de minha ajuda, me chame em pensamento e a minha resposta terá a forma de uma corrente tépida e vivificante.
Ele Fez alguns passes e o espírito rapidamente descorporificou-se, tornou-se transparente e feito uma névoa desapareceu no éter.
Supramati sentou-se empurrando as folhas e debruçando-se sobre a mesa começou a pensar.
Uma mão sobre o seu ombro o tirou das reflexões e levantando a cabeça encontrou o olhar afectuoso de Dakhir.
- Olga esteve aqui. Coitada!
A separação é demais pesada para ela:
mas eu acho que seu forte amor vai ajudá-la em suas provações, elevando-a até você.
Em seguida ele contou sobre o seu encontro com Edith e acrescentou:
- Venha amanhã, quando eu for conversar com Edith.
Airavala está muito triste segundo ela; ficará muito feliz em vê-lo.
Pobre criança subtraída subitamente do pai e da mãe.
Ambos suspiraram.
Quem sabe se não despertarão no fundo dos espíritos dos magos os sentimentos que afligem os mortais comuns?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:22 pm

Capítulo II

Eles utilizaram o tempo de seu descanso para conhecerem mais detalhadamente o extraordinário sítio onde se encontravam e para apreciar as impressionantes colecções ali guardadas.
À noite, quando no quarto de Dakhir se abria à enigmática janela para a sala de Edith, Supramati também ia conversar com a jovem mulher e dar uma olhada no filho.
A alegria da criança, que impaciente lhe estendia os braços, e a sua frustração em não poder alcançar o pai, produziam no coração de Supramati sentimentos de felicidade e amargura.
Dentre os novos conhecidos, eles se afeiçoaram principalmente a dois.
O primeiro – um mago, portando um único facho, era um jovem bonito de rosto pensativo e no resplendor dos anos.
Chamava-se Cléofas.
Durante o exame de colecções antigas, entre as quais havia maquetas de monumentos, conhecidos ou não, mas que se destacavam pela sua arquitectura e ornamentação chamou a atenção de Supramati um magnífico trabalho de um templo em estilo grego.
- É o templo de Serápis em Alexandria e a maqueta é de minha autoria – explicou Cléofas, e, com um pesado suspiro, acrescentou:
Fui um sacerdote de Serápis e testemunha da destruição selvagem daquela obra arquitectónica, santificada pelas orações de milhares de pessoas.
Dakhir e Supramati se restringiram a apertar-lhe solidariamente as mãos, e, à noite, quando os três se reuniram no quarto de Cléofas para conversar, Supramati perguntou se não era penoso contar sobre o passado. - Ao contrário – respondeu Cléofas sorrindo.
Causa-me prazer reviver com meus amigos aquele passado remoto que já não me aflige.
E após um instante de reflexão, começou a falar:
- Nasci justamente na época de declínio da nossa antiga religião.
A nova fé do Grande Profeta de Nazaré dominava o mundo.
Entretanto, a eterna verdade da luz e do amor, propagada pelo Deus-homem, já estava distorcida, tendo adquirido tal ferocidade e brutal fanatismo que até o Filho de Deus, em sua humildade e misericórdia, teria censurado severamente.
Mas eu, naquele tempo confuso de lutas, não o percebia, sendo um ardoroso adepto de Serápis, assim como os outros eram de cristo.
Eu odiava os cristão tanto como eles a nós.
Pois é, meus amigos, a história de Osíris, morto por Tifão, que depois espalhou os restos ensanguentados do deus da luz pela face da Terra, é tão antiga quanto o mundo e permanecerá viva até o fim dos tempos.
Não pleiteiam os homens entre si o Criador inconfesso do Universo e a verdade única que Dele emana, imaginando inocentemente que podem enclausurá-lo exclusivamente em sua crença, em detrimento de todos os outros?
Seu ódio fratricida e as guerras religiosas – não será isso a disseminação dos restos ensanguentados da Divindade?
Contudo, passarei a contar sobre mim.
Sendo filho do Sumo Sacerdote, eu cresci no templo e desde a infância servi ao deus.
Eram tempos difíceis.
Nós, os assim chamados "sacerdotes pagãos", já éramos desprezados, odiados e perseguidos.
Só de pensar que os nossos santuários estavam sendo destruídos -, e este seria também o destino do templo de Serápis, deixava-me louco de desespero.
E o terrível dia chegou...
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:22 pm

Cléofas calou-se por um instante e apontou para uma estatueta de marfim que repousava sobre uma pequena coluna junto à cama:
- Eis, meus amigos, a miniatura da estátua do deus.
Ela pode dar-lhes uma ideia aproximada da beleza ideal e da expressão realmente divina que um genial artista conseguirá dar a essas feições.
É claro que vocês entendem como me senti quando a mão sacrílega de um fanático levantou o machado para quebrar esta incomparável obra de arte, como se fosse cortar uma reles ora de madeira.
Muitos dos nossos sacerdotes foram assassinados naquela dia, enquanto eu escapei por um milagre ou destino.
Gravemente ferido fui levado por companheiros à casa de um amigo de meu pai, um sábio, que morava retirado nos arredores da cidade.
Lá, eu me restabeleci e fiquei curado; e com o tempo tomei consciência da terrível realidade:
o templo de Serápis, arrasado até as fundações, não mais existia.
Não vou tentar descrever-lhes o desespero que tomou conta de mim.
No início, fiquei tecendo planos de vingança; mas depois percebendo a inviabilidade, caí num profundo marasmo e decidi suicidar-me.
Certa noite cheguei ao meu protector e implorei-lhe que me desse veneno.
Agora que não posso servir ao meu deus... a não ser assistir aos insultos e humilhações de tudo aquilo que eu adorava, eu prefiro morrer.
O ancião ouviu-me em silêncio.
Depois, tirou do armário uma taça e despejou nela algumas gotas de um líquido flamejante.
Em seguida, estendeu-me a taça e, com um sorriso enigmático, disse:
- Tome e morra por tudo o que já foi destruído; renasça para reverenciar e servir à Divindade de sua fé...?
Eu tomei e caí fulminado.
Quando voltei a mim, já estava aqui, vivo cheio de energia, cercado de paz, silêncio e novos amigos, com amplas possibilidades de estudar e solucionar os imensos e terríveis problemas que nos cercam.
Vivo assim já há muitos séculos, absorto no trabalho, esquecendo até que em algum lugar existe ainda outro mundo, no qual nasce e morre a humanidade efémera...
O outro adepto, com quem Dakhir e Supramati estabeleceram um relacionamento estreito, também era um homem de tipo incomum, no vigor dos anos, de rosto vermelho-cobre, e grandes e profundos olhos negros feito breu.
Chamava-se Tlavat e a história de sua vida causou uma profunda impressão nos ouvintes...
Eles contemplaram, quase com um sentimento de superstição, aquela criatura semi-legendária – o representante vivo da poderosa raça-vermelha dos Atlantes, cujos pés pisaram o chão do que restou do imenso continente que ficou na memória sob o nome de ilha de Posídon.
Combinaram encontrar-se sempre à noitinha para conversar, após os afazeres diários, revezando os seus aposentos a cada encontro.
A conversa com Tlavat foi extremamente interessante.
A história do continente desaparecido, contada por uma testemunha viva daquele fabuloso passado, adquiria uma nova vitalidade.
Os olhos negros do Atlante brilhavam apaixonadamente quando ele descrevia as terríveis catástrofes que arrasaram o seu continente; factos que não presenciou pessoalmente, mas as lembranças das mesmas estavam vivas e claras na memória de seus contemporâneos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:22 pm

Tlavat descrevia, com toque de orgulho étnico, a cidade dos portões de ouro – a capital da grandiosa nação já desaparecida no tempo, mas que deixou mapas, vistas e descrições pormenorizadas no santuário dentro do qual Tlavat foi iniciado, e com cujos sacerdotes emigrou para o Egipto antes da reviravolta geológica, prevista pelos iluminados, que afundou a ilha de Posídon.
É claro que o ponto de maior interesse se constituía da história do Egipto primitivo, das pirâmides onde habitavam, da Esfinge e do templo sepultado pelas areais.
Pelas contas de Tlavat, aqueles monumentos, erigidos por iniciados que emigraram da Atlântida, tinham no mínimo, vinte mil anos.
Os mesmos emigrantes construíram o mundo subterrâneo, onde agora viviam, concentrando nele a realização das consagrações, lá compondo os poderosos talismãs para se protegerem dos cataclismas cósmicos.
O tempo do descanso passou rápido e certa manhã, após a oração no templo, os cavaleiros do Graal foram convidados a falar com o hierofante supremo.
- Chamei-os aqui, meus filhos, para montarmos em conjunto o programa de seu trabalho.
Vocês já aprenderam muito, mas...
Na trilha que caminhamos, o campo de conhecimentos que ainda nos resta é praticamente ilimitado.
Proponho-lhes dedicarem-se ao estudo do espaço de nosso sistema solar, desconhecido de vocês.
Da mesma forma, vocês terão a oportunidade de estudar a cadeia planetária e a influência dos planetas, visíveis ou não, que cercam a nossa Terra tanto física como psiquicamente.
Paralelamente vocês conhecerão as particularidades das leis cósmicas que regem o nossos sistema.
Esta "geografia" do espaço, a nós acessível, representa um grande interesse e abrirá para vocês horizontes inesperados, um novo campo da infinita e imensurável sabedoria do Ser Supremo.
Dakhir e Supramati concordaram em se submeter à decisão do seu guia e, ao receberem as primeiras instruções juntamente com o material necessário, iniciaram no mesmo dia o trabalho, com a paixão que lhes era característica.
Para um simples mortal, o tempo é um fardo de lamentações e falhas do passado, grandes preocupações do presente e fastio e incerteza do futuro.
A paz e a quietude, tão valiosas para os sábios, parecem entediantes para um ser imperfeito, de cabeça oca, para o qual o tempo é um tirano cruel, caso ela não seja preenchido por diversões torpes, intrigas e paixões não satisfeitas.
E esse turbilhão de hostilidade mútua, inveja mesquinha e desejos selvagens é arrebatado pelo microcosmo, chamado de organismo humano, de forma não menos destrutiva que os terremotos que sacodem o mundo físico.
Pelas nossas veias correm, no oceano purpúreo do sangue, milhares de pequenos mundos, nos quais se reflectem as tempestades do coração humano, transmitindo-lhes instintos, paixões e desejos.
Oxalá o olho clarividente do homem pudesse enxergar a devastação causada por uma tempestade moral de sua alma, por um acesso de ira!
Lá, naquele sangue rebelde, ocorrem catástrofes similares às cósmicas; milhões de células e glóbulos perecem afogados e queimados, lançando-se à aura os restos contagiosos desses organismos microscópicos mortos, enquanto que o homem, exaurido por abalos internos, sente-se pesado, fraco e desesperado.
Para um ser humano purificado, que trabalha com o espírito, o nascer e o pôr-do-sol indicam apenas o início e o término de um dia de trabalho.
O mundo espiritual, o silêncio e o êxtase da oração criam uma paz beatífica, proporcionando ao ser humano saúde física e moral; nada perturba o mundo interior que ele controla, e a irritante presença do formigueiro humano ao seu redor não exerce sobre ele qualquer influência.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:22 pm

Envoltos pela impressionante harmonia da atmosfera da pirâmide, Supramati e Dakhir readquiriram o equilíbrio espiritual, alterado pela vida terrena e, com o costumeiro afinco, iniciaram a difícil tarefa.
Seu guia, neste novo trabalho, era o hierofante Siddártha – de aparência jovem, mas cuja idade se perdia nas nebulosas profundezas dos séculos.
Com a arte e a paciência próprias de um ser superior, Ele conseguiu aos poucos transmitir seus imensos conhecimentos aos dois irmãos mais novos, alegrando-se com a luz que os iluminava, respondendo às suas manifestações de gratidão sempre da mesma maneira.
- Vocês nada me devem; estou lhes dando somente o que recebi e o que, por sua vez, vocês darão a outros irmãos, que, como nós, estão subindo os degraus do conhecimento perfeito.
Irmãos, os meus conhecimentos, que lhes parecem tão grandes, nada são comparados com o que ainda lhes resta adquirir.
Entretanto, apesar de seus esforços, energia e esperança no futuro e apoio do pai Celestial, Supramati e Dakhir eram acometidos por momentos que, se não eram de desespero, seriam pelo menos de fraqueza.
Isso acontecia quando alguma nova verdade, como um raio ofuscante, abria repentinamente os horizontes desconhecidos, de opressiva imensidão, dos arcanos do Universo de cuja existência eles nem suspeitavam.
Com angustiante tristeza no espírito, os magos se perguntavam se havia algum objectivo, um limite para esse conhecimento tão ilimitado quanto o próprio infinito.
Conseguiram eles saber, alcançar e acomodar todo este conhecimento colossal em seus míseros cérebros?
Um dia Siddártha notou um desses momentos de fraqueza e quando Dakhir e Supramati, respondendo à sua pergunta, expressaram seus receios e dúvidas, o sábio balançou a cabeça em sinal de desaprovação.
- Estou surpreendido, irmãos, como vocês, magos de dois fachos, não entenderam ainda que a indestrutível faísca psíquica, criada pelo Ser Superior, contém embriões de seu conhecimento e de seu poder, e a nossa tarefa se resume somente em desenvolver e trabalhar esses dados.
A cada degrau superior do conhecimento adquirido, forma-se no cérebro um novo núcleo de fogo, um foco de conhecimento e poder.
E este mesmo cérebro, que nos degraus inferiores da evolução era simplesmente uma massa de material inerte, com alguns poucos e mal enraizados fios eléctricos, transforma-se num mundo especial, num laboratório dinâmico de terrível força, capaz de controlar os elementos e criar mundos.
Possui tal poder e permanecer humilde, pondo obsequiosamente o conhecimento adquirido a serviço da vontade Divina:
esse é o maior objectivo Dos magos e a única ambição que lhes é permitida.
- Meus filhos, penso que seria agradável animar com música este nosso trabalho insípido, ainda que muito interessante.
A arte é um ramo da magia; e se até agora vocês foram obrigados a dispensá-la em função de outros afazeres mais complexos, chegou à hora de estudar também esta grande força em que se propaga o pensamento divino...
- Mestre, o senhor adivinhou o nosso desejo – respondeu animado Supramati.
Nós, tanto Dakhir como eu, adoramos a música – um presente dos céus, que alegra, eleva e consola o ser humano.
Mas, confesso que não a estudamos como ciência mágica.
- Dediquem a ela uma parte do seu tempo.
Os magos do seu nível devem conhecer a composição química do som e das vibrações, como também as dimensões dessa força.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:23 pm

As pessoas comuns, com sentidos não desenvolvidos, mesmo que sintam o encanto da música, não possuem nenhuma noção sobre a variedade dos efeitos causados por ela.
No arsenal de um mago, a música é uma arma a mais.
- De maneira geral, eu só sei que as vibrações harmónicas acalmam, reúnem e animam, enquanto que as dissonantes funcionam destrutivamente; provocam tempestade, terremotos, etc..
Sabe-se também, que as vibrações musicais podem acalmar ou excitar os desejos humanos e até agir sobre animais.
Isto é tudo que sabemos neste campo – explicou Dakhir.
Está claro. Mas vocês devem aprender a controlar de maneira totalmente consciente esta força geradora tão poderosa; saber regular o ritmo, composição e gradação do vigor da harmonia vibratória, de forma a controlar a energia astral e conter os elementos caóticos, se o desejarem; ou, ao contrário, provocá-los e dar-lhes liberdade.
Vocês ainda não tentaram por meio de vibrações produzirem venenos perigosos ou praticar as curas que os profanos certamente chamariam de "milagrosas"?
Ou fecundar a terra, sem ser com fórmulas ou essências primevas, mas com música, já que tudo se move e se mantém em equilíbrio através de vibrações?
A natureza ao redor do profano ressoa, exala perfumes, brilha com milhares de cores, mas ele não se apercebe disso porque não enxerga nem sente o invisível.
E agora vamos – disse Siddártha, levantando-se.
Vocês irão ouvir uma música mágica e vou introduzi-los no mundo astral onde verão o trabalho das vibrações harmónicas.
Assim como o imã atrai o ferro, os sons atraem os sons e as ondas harmónicas juntam-se em vibrações cada vez mais poderosas.
A tarefa de vocês é aprender a medir, avaliar e controlar esse poder – continuou ele.
E o hierofante levou seus discípulos à sala de iniciação musical.
Era uma caverna ampla, redonda e totalmente escura.
Possuidores de visão espiritual, os magos sentaram-se em poltronas baixinhas.
Siddártha pegou uma lira de cristal e disse rindo:
- Fechem seus olhos espirituais e vejam como a música provocara a luz.
Ouviram-se então sons vibrantes de estranha modulação, e, e, seguida, fulgurou na escuridão um facho ígneo que se fragmentou em milhões de faíscas multicoloridas.
À proporção que a música aumentava de volume, os sons tornavam-se cada vez mais cheios e poderosos, espalhando-se feito fagulhas e cruzando-se como estrelas cadentes, formando incríveis desenhos geométricos diferentes.
Este fogo de artifício transformou-se em correntes de raios de arco-íris que, caindo sobre a terra, fragmentavam-se em milhares de gotículas claras fazendo um ruído de água.
De repente, a caverna iluminou-se por uma luz ofuscante e o ar encheu-se de um aroma atordoante forte, porém agradável. O hierofante parou de tocar e baixou a lira.
Dakhir e Supramati como se subitamente acordados, olharam em volta e só então perceberam que de um lado da caverna havia se formado uma campina.
Siddártha apontou para ele e tornou a tocar.
A melodia agora era diferente.
A luz ofuscante perdeu o brilho adquirindo matiz esverdeado, enquanto a terra parecia transparente, avistando-se nela claramente diversos grãos e embriões.
De chofre, teve-se a impressão de que as luzes multicolores se cravaram na terra assimilando-se aos embriões, e, à medida que aumentava a força das vibrações harmónicas, sobre o solo começaram a cair ondas esverdeadas; os embriões neste meio tempo entumeciam e lançavam rebentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:23 pm

O hierofante fez uma pausa, e mudo, com o olhar fixo no espaço, ficou extasiado, mas os sons da lira que em seguida se ouviram eram de uma beleza divina.
A luz tornava-se cada vez mais fraca, adquirindo uma tonalidade azulada e, nesse suave fundo aveludado, começaram a se desenhar quadros de rara beleza.
Como que partindo de um caleidoscópio, vinham surgindo prados verdes, vales sombreados, florestas com vegetação gigantesca e penhascos fantásticos, em cujas fendas ferviam e borbulhavam cataratas multicoloridas.
Nos ramos florescentes, esvoaçando de uma flor a outra se via seres de meiga beleza – irradiação imaculada do cérebro do mago, sua aspiração à luz...
Eram também seres dotados de conhecida vitalidade que faziam parte do mistério da força criadora, ignorada pelos profanos.
Supramati estava fascinado e ouvia tudo esquecido, sem sentir nada além do deleite em admirar tantas maravilhas.
De repente, uma ideia inesperada veio-lhe ao pensamento:
- Suponhamos que eu fosse capaz de alcançar e aprender isso com meus sentidos para transmitir e explicar esses mistérios às multidões...
Em que língua eu lhes falaria para convencê-los, uma vez que eles só querem enxergar e compreender aquilo que conseguem tocar e perceber com seus sentidos vulgares?...
Eles ririam de mim e me tomariam por habitante de manicómio, se eu, apontando para um criminoso, lhes dissesse isso:
Olhem para a miríade de demónios criados por ele com sua mente criminosa; vejam como torvelinham no espaço essas larvas à procura de grudar-se em alguém...
Ou então:
Eu lhes mostrarei os pensamentos puros e esplendorosos de um eremita e abstinente, mensageiro da paz e harmonia...
Oh, que sagrada verdade foi dita por Cristo:
- Bem-aventurados são os pobres de espírito porque deles será o reino de Deus??.
Não, não, os grandes mestres da verdade estavam totalmente certos:
não se pode revelar tudo às multidões; a iniciação deverá ser feita na quietude e mistério, longe do caos hediondo de paixões humanas; os surpreendentes e terríveis conhecimentos devem ficar ocultos como os tesouros e o inviolável juramento de silêncio deverá ser guardado neste sagrado lugar secreto...
Quando Siddártha parou de tocar, Supramati exclamou admirado:
- Como isso é belo!
Serei eu, algum dia, capaz de produzir sons de tal beleza e força?
O hierofante sorriu e pôs a mão sobre o seu ombro.
- Não pensa você por acaso, que durante o tempo que eu dedico a algum trabalho sério, utilizo para tocar um método didáctico pré-estabelecido e regras especiais?
Não, os sons que você acabou de ouvir, eu crio das profundezas do meu ser; eles são a expressão da harmonia do meu espírito.
Pegue a lira e tente...
- Mas, eu não sei tocar lira.
Vou dilacerar seus ouvidos com minha cacofonia – disse Supramati enrubescendo.
- Não tenha medo.
Eleve seu espírito até a beleza divina, se entregue à inspiração, ore, e o arrebatamento de seu espírito irá jorrar em vibrações maravilhosas como as que acabaram de deixá-lo impressionado.
Submisso às palavras do mentor, Supramati pegou a lira e, concentrando-se em oração ardente, colocou os dedos sobre as cordas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 01, 2016 7:23 pm

Todo o seu ser mergulhou no amor, fé e aspiração respeitosa às moradas supremas...
Sem qualquer esforço, seus dedos, como se movidos por força superior, tocaram nas cordas, espalhando magníficos e suaves sons, provocando formas de rara beleza, iluminadas por correntes de luz multicolorida.
A harmonia formava-se, tornando-se cada vez mais bela e emocionante.
Surpreendido com a própria música, o mago ouvia e perguntava a si mesmo se suas aspirações ao Bem eram realmente tão fortes que se revestiram de som e se tornaram acessíveis à percepção.
Quando cessaram os últimos acordes, Siddártha abraçou Supramati e disse:
- Veja meu filho, o quanto seu espírito se purificou e se tornou belo.
Não houve sequer uma dissonância que pudesse quebrar o encantamento da paz alcançada.
Agora, Dakhir, deixe-nos ouvir o eco harmónico de seu espírito e depois vocês ouvirão uma música desordenada e não harmoniosa, que ocasiona males e pode até matar.
A apresentação de Dakhir, assim como de seu amigo, mereceu total aprovação do hierofante.
Posteriormente, ele os levou à escola de arte musical e chamando um dos alunos da classe mais atrasada, ordenou-lhe que os seguisse.
Para surpresa de Dakhir e Supramati, eles saíram da Pirâmide.
Era noite.
A luz fraca da lua, da última fase, envolvia com penumbra pálida o deserto inóspito.
Tudo ao redor era só vazio e quietude. Instruído pelo hierofante, o aluno começou a tocar e, enquanto o ar era perpassado por sons estrídulos e agudos, ao longe se ouviram em resposta urros e rosnados.
Em seguida, da escuridão surgiram diversos animais selvagens:
um casal de leões, algumas panteras, hienas e chacais.
Todas estas feras, visivelmente irritadas e assustadas, saíram de tocas, gretas e covas abandonadas onde se escondia de dia.
Com urros ensurdecedores e pêlos em pé, fustigando as ancas com o rabo, os predadores irados observavam-se uns aos outros com os olhos fosforescentes na escuridão.
Quanto mais bruscos e potentes eram os sons do instrumento, tanto mais crescia a irritação dos animais.
Subitamente, eles lançaram-se uns contra os outros pondo em uso dentes e garras.
Não era um combate de vida, mas de morte.
Até as hienas e os chacais, normalmente medrosos e ladinos, enlouqueceram de raiva.
A briga por certo, terminaria com vítimas se a música não tivesse parado.
Depois, submetendo-se à vontade do mago, as feras dispersaram-se aos seus covis.
- Estão vendo, meus amigos – disse Siddártha quando todos retornaram à Pirâmide – como os sons dessa natureza invocam os espíritos do Mal?
As pessoas de audição vulgar e estúpida não conseguem ouvir a música diabólica que bandos de demónios dirigem um a outro, enquanto que a mente astral ouve e sente as vibrações dissonantes do ar, sendo dominada por agitação furiosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:44 pm

CAPÍTULO III

Anos e séculos passavam ao largo.
Dakhir e Supramati estudavam com fervor.
Finalmente, chegou o dia em que eles foram chamados para a reunião com os hierofantes, e o superior da comunidade secreta saudou-os com as palavras:
- Amigos e irmãos:
Os estudos que nós lhes planejamos terminaram.
Vocês estão bastante versados e munidos para dar início às provações necessárias à sua elevação.
Irão como missionários para levar a luz às trevas.
O que vou dizer-lhe, Supramati, refere-se também a você, Dakhir, pois salvo pequenas diferenças, a missão de vocês é idêntica.
Assim, Dakhir, você irá só ao mundo, onde reina o ateísmo.
Mesmo tendo repudiado a Deus, aquela humanidade alcançou um alto nível de cultura, mas seus costumes e leis são cruéis e sanguinários.
Sem admitir qualquer princípio divino e atribuindo toda criação às cegas forças cósmicas.
Os homens fizeram do egoísmo a sua lei básica de vida.
Sua tarefa será árdua, pois não será fácil pregar as verdades eternas àqueles seres.
Não obstante, sua palavra e fé deverão provocar uma reviravolta e renascimento moral.
Sua pregação advirto, suscitará uma feroz animosidade, mas, não obstante, jamais e sob pretexto algum, você poderá se utilizar seus conhecimentos ou do seu poder para defender-se ou sequer fazer com que o seu trabalho seja menos duro.
Seus conhecimentos apenas poderão servir para aliviar os sofrimentos alheios.
Lá, você será uma pessoa pobre, desprovida de tudo, excepto da força espiritual adquirida e da fé em Deus e em seus mentores.
Entretanto, se você suportar as provações, será coroado de glória e alegria pela consciência de que, num mundo impuro, você acendeu um foco de chama sagrada de amor a Deus.
Lembre-se de que a luta que o espera é árdua e pungente.
A hediondez humana se desmoronará sobre você com toda a sua torpeza.
Em troca do bem que você fizer às pessoas, receberá somente o ódio e sofrimento.
Apesar disso, do alto de seu desenvolvimento espiritual e da clarividência do mago, você deverá ser piedoso e amar aquelas criaturas, que ainda rastejam ao pé da escada da perfeição.
Você não deverá condená-las, mas nivelar-se a elas, como um sábio faz diante de um ignorante.
Um ser humano comum combate com as mesmas armas; a inimizade é paga com inimizade, o ferimento, com ferimento, pois a multidão é cega, nela imperam e competem entre si os sete princípios carnais, os assim chamados sete pecados capitais.
E aquele que triunfar sobre esses pecados, estará armado com as sete virtudes capitais e deverá semear somente o amor, pagar a escuridão com a luz, a ofensa com o bem.
Agora, meus filhos, digam-me se vocês se sentem suficientemente fortes para iniciar as provações, dominar todas as fraquezas humanas e, voluntariamente, assumir toda a responsabilidade por essa difícil, mas gloriosa missão, com todos os seus imprevistos e dificuldades.
Respondam com sinceridade e lembrem-se de que vocês são livres; nós somente sugerimos essas provações, sem impô-las.
Supramati e Dakhir ouviram pálidos e confusos:
tudo o que lhes restava de humanos comuns tremia com um sentimento doloroso e horripilante de homens puros, que teriam de partir à cloaca do Mal.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:44 pm

Quase que involuntariamente, Supramati fitou vagamente o hierofante, cuja roupa alva parecia coberta com pó de diamante e, por debaixo da Klafta, irradiavam-se raios de luz – símbolos da vitória no campo do combate espiritual; os grandes e radiantes olhos do sábio olhavam-no penetrantes e severos.
E ele sentiu, instintivamente, que chegara o importante momento de sua vida antes de seu último passo que o elevaria cima de um se comum, que o libertaria da escravidão da carne para torná-lo mestre da luz e um ser realmente superior.
Subitamente uma grande claridade envolveu sua cabeça, um raio de fé e de força de vontade brilhou em seus olhos e, estendendo as mãos ao hierofante, ele exclamou:
- Discípulo será digno de seus caros mestres.
É com alegria e confiança que eu aceito essas provações, pois para o espírito, liberto da ignorância e do fardo do corpo, não poderá haver nenhum obstáculo.
Já não terei eu vencido a matéria, apagado as paixões e derrotado o dragão da dúvida?
Poderei eu depois de tudo isso temer descer a escada, quando, graças aos seus ensinamentos e apoio, subi vários degraus?
Ordene mestre, quando deverei iniciar as minhas provações?
- E você, Dakhir? -, perguntou o hierofante, sorrindo bondosamente.
- Mestre, o meu espírito faz coro a cada palavra de Supramati.
Assim como ele estou pronto para as provações e espero não fraquejar, cumprindo a tarefa sagrada a mim incumbida pelos dirigentes, e propagar a magnificência do Criador.
Nesse instante a sala encheu-se de uma névoa; uma música suave como o canto das esferas, propagou-se no ar em poderosas ondas, e, junto à poltrona do hierofante, surgiu à figura alta de Ebramar; seu rosto irradiava a alegria.
- Deixem-me abraçá-los e abençoá-los, filhos queridos de minha alma.
A resposta de vocês é uma certeza de nova vitória! – exclamou, estendendo as mãos sobre eles.
Uma corrente de luz dourada envolveu seus discípulos amados e sobre suas cabeças começou a radiar uma cruz radiante, diamantina, enquanto Supramati e Dakhir caíram de joelhos, como simples mortais diante de seu iniciador.
Ao se levantarem, foram cercados por hierofantes.
Em amistosa conversa, o hierofante supremo informou-lhes que eles deveriam preparar-se para as provações com um regime especial, porque dentro de três semanas seriam levados à gruta de Hermes.
- Você Supramati, irá primeiro.
Os iniciados de lá, membros de irmandade secreta, irão recepcioná-lo e dirigir os seus primeiros passos.
Dakhir partirá no dia seguinte – acrescentou Ebramar.
Na noite do mesmo dia, Ebramar e Siddártha acomodaram-nos numa gruta isolada, passando com eles longas horas, dando instruções especiais, esclarecendo-lhes as dúvidas e preparando-os para a importante missão.
Além disso, foram-lhes ministrados os fundamentos da língua do país onde eles agiriam.
Eles alimentaram-se com uma substância especial, muito aromática, parecida com mel, e bebiam um líquido azulado e fosforescente, que os transportava ao estado de êxtase.
Ao término da preparação, à gruta vieram Ebramar e o hierofante supremo, acompanhados de seis outros sábios.
Todos usavam vestimentas sagradas, portando no peito as insígnias que denotavam suas ascendências.
Atrás dos magos vinham os adeptos, carregando em pratos de ouro diversos trajes, seguidos por cantores com harpas na mão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:44 pm

Supramati percebeu que havia chegado o momento decisivo e levantou-se prontamente.
Os adeptos rodearam-no e o vestiram numa malha, parecida com a de seda, mas fina como teia de aranha.
Por fim colocaram uma túnica branca e curta com cinto vermelho.
A cabeça ficou descoberta, mas entre os dois fachos do mago agora reluzia, feito um brilhante gigante, uma cruz, invocada do espaço por Ebramar.
Ebramar e o hierofante postaram-se nos dois lados de Supramati e saíram da gruta, na entrada da qual os aguardava uma numerosa multidão.
O cortejo perfilou-se e à frente dos hierofantes, quatro adeptos carregavam uma espécie de lume, onde ardiam crepitando ervas e substâncias que difundiam um aroma surpreendentemente vivificante.
Atrás seguiam os sacerdotes, entoando cânticos e cobrindo o caminho dos magos com pétalas de flores.
O cortejo parou junto à gruta sagrada de Osíris; os que carregavam o lume retiraram-se, colocando-o sobre a cuba de mármore no meio da gruta.
No local permaneceram apenas os hierofantes e Supramati, que carregava a cruz dos magos.
Seu rosto belo e extasiado denotava concentração.
Diante do lume erguia-se uma mesa do altar e nela resplandecia o cálice da irmandade do Graal, encimado por uma cruz.
O altar era rodeado por cavaleiros em suas armaduras prateadas; entre eles estava Dakhir.
Supramati ajoelhou-se nos degraus do altar, sendo seguido por todos os presentes; fez-se um silêncio solene, apenas quebrado por um canto baixo e suave que vinha de fora.
O superior da irmandade do Graal pegou o cálice com as essências fumegantes da vida e da luz e passou-o a Supramati; e quando este tomou do cálice, o Superior pôs as mãos sobre a cabeça do missionário e fez uma oração.
Em seguida aproximou-se Ebramar, e retirando do altar um instrumento estranho, entregou-o a Supramati.
Era algo parecido com uma harpa, só que de suas cordas vertiam cores do arco-íris.
- Leve com você este instrumento de consolo e de apoio.
A harmonia divina que você extrair dele o erguerá acima dos infortúnios quotidianos – disse Ebramar, beijando Supramati.
Tomado por alegria, Supramati, agradecido, pegou o instrumento e beijou em despedida os presentes.
A última e mais longa despedida foi com Dakhir.
Em seguida, em companhia apenas dos hierofantes e de Ebramar, ele desapareceu atrás de uma pesada cortina metálica que ocultava a gruta de Hermes.
Ali reinava uma escuridão azulada com redemoinhos de nuvens prateadas.
Os magos levaram Supramati a um sarcófago aberto, no qual ele deitou sobre uma almofada de pedra.
Seus dedos dedilharam as cordas da harpa e soou uma magnífica melodia, estranha e poderosa; toda a beleza do espírito do grande artista vertia-se em sons por ele criados, que se extinguiam pouco a pouco.
Ebramar e os hierofantes prostraram-se genuflexos elevando as mãos, enquanto que em cima iam se juntando nuvens, salpicadas por faíscas cintilantes.
Formas com contornos indefinidos, como se urdidas de fogo branco, envolveram o sarcófago em que o mago jazia imóvel, submerso em sono mágico.
Uma espécie de trovoada rolou remotamente; depois uma rajada brusca de nuvens e, no meio delas, ergueu-se uma coluna de fogo cintilante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:44 pm

Instantaneamente, a massa de nuvens alçou-se para as alturas e dissipou-se na escuridão, seguindo-se um silêncio.
O sarcófago estava vazio; somente em seu fundo ficaram espalhadas algumas flores brancas, exalando um forte aroma.
* * *
Os raios avermelhados do sol iluminavam um quadro estranho e selvagem:
um local desértico, cheio de altas e escarpadas montanhas azuladas, apenas cobertas aqui e ali por ralos arbustos cinzentos.
Entre as pontiagudas escarpas e precipícios serpenteava uma estreita vereda, pela qual caminhavam duas pessoas em capas escuras.
Pela aparência, via-se que eles pertenciam a raças diferentes.
Um muito alto, magro, mas de complexão robusta, com feição angulosa e imberbe; seus olhos eram de cor indefinida e o rosto de uma lividez surpreendente, como se em suas veias corresse sangue da cor branca e não vermelha.
Ágil e decididamente ele subia pelo caminho abrupto de pedras – o que denotava sua jovialidade.
Seu acompanhante era um jovem de uns trinta anos de idade, esbelto e ágil, grandes olhos claros, rosto de boa aparência, como se de uma pessoa terrena, e densos cabelos escuros saindo do capuz abaixado.
Falavam num linguajar estranho – a língua interplanetária, sagrada para todos os iniciados de grau superior.
- É irmão Supramati, você dominou bastante bem a nossa língua local para dar início a sua missão.
A gruta para onde eu o estou levando é bem apropriada para sua primeira aparição.
Lá foi o último santuário à Divindade existente em nosso maléfico mundo.
O caminho nessa parte do local ia-se curvando.
O acompanhante e Supramati contornaram alguns rochedos e adentraram uma fenda estreita que depois se alargou e deu lugar a uma ampla galeria subterrânea, que através de numerosas curvas sinuosas descia do alto.
Por fim, eles vieram parar numa ampla caverna; num dos lados da mesma havia uma saída que dava para uma larga plataforma.
Aparentemente, este local antigamente servia de capela, a julgar pelo fato de que no fundo, na altura de dois degraus, via-se um altar de pedra, de um azul de safira, encimado por uma cruz.
Sobre o altar havia um grande cálice metálico com gravação de símbolos do zodíaco e duas trípodes com ervas.
Numa pequena gruta anexa achavam-se um leito, uma mesa e um banco, feitos de madeira.
Do interior da parede, junto à mesa, jorrava uma nascente de água pura e cristalina, que, borbulhando, caia num reservatório oval bastante profundo.
O acompanhante de Supramati levou-o à esplanada sobre um grande precipício, no fundo do qual retumbava e espumava um rio agitado.
A margem oposta do precipício era bem mais baixa e mais adiante descia íngreme para uma imensa planície, onde pastava gado...
Bem ao longe, desenhavam-se vagamente prédios altos e construções maciças de uma grande cidade.
- Você está vendo, irmão, a nossa capital – disse o hierofante deste outro planeta, retornando à caverna.
Permita-me abençoá-lo e invocar a bênção do Ser Supremo, aos pés do qual você quer devolver seus filhos pródigos.
Ele abriu os braços e imediatamente sobre a sua cabeça surgiram cinco fachos de luz ofuscante e seu peito resplandeceu em luzes multicoloridas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:44 pm

De suas mãos caíram feixes de fagulhas sobre Supramati genuflexo:
em seguida, formou-se um redemoinho de névoa azulada, e, quando Supramati se levantou, o hierofante já na mais estava lá.
Ficando a sós, ele tirou debaixo da capa a harpa de cristal e colocando-a sobre o banco, junto à sacola de couro que trouxera consigo, foi orar diante do altar.
À medida que realizava suas preces, sobre o altar acenderam-se duas pequenas trípodes; depois surgiu uma chama dourada, iluminando o líquido purpúreo que o preencheu.
Quando Supramati terminou as preces, a noite já havia descido sobre a Terra.
Ele saiu para a rampa diante da caverna e sentou sobre uma grande pedra, olhando pensativo o céu cor de cobre, semeado de estrelas que brilhavam como diamantes róseos.
A saudade do mundo distante – sua pátria – apertou-lhe o coração e, naquele instante, a tarefa assumida pareceu-lhe pesada e improdutiva.
Mas essa fraqueza foi fugaz e ele venceu-a com um esforço da vontade.
Este planeta, como outro qualquer, era a "morada" na casa do Pai Celestial, cujo amor se estende igualmente a todas as suas criaturas, aqui, como na Terra, ele está trabalhando para a glória do Criador e deve cumprir isso com alegria.
Nos vales que Supramati via do alto do seu abrigo, havia naquele dia uma grande agitação.
Ali pastavam grandes rebanhos pertencentes a cidadãos ricos.
E eis que diversos pastores, que tomavam conta do gado, gente alta e forte, começaram a juntar-se em grupos ou correr confusos, apontando para cima do precipício.
Todos viram quando o céu iluminou-se de repente por um grande clarão e uma esfera de fogo, coroada por um estranho sinal, pareceu elevar-se por trás dos picos das montanhas ao mesmo tempo em que ao longe se ouvia o ribombar do trovão e, à noite, sob a esplanada pairava um círculo de fogo resplandecente.
O que poderia significar aqueles estranhos fenómenos, e ainda mais junto ao abismo – lugar tenebroso, amaldiçoado, que todos evitavam?
No distante e montanhoso vale, protegido de todos os lados por rochas e precipícios, com acesso somente através de passagens subterrâneas, os iniciados construíram seu refúgio.
Lá estavam os palácios dos sábios, templos e bibliotecas secretas, onde eram guardados os tesouros da ciência e os arquivos do planeta.
Entre os habitantes corria a lenda sobre uma comunidade de homens misteriosos que se escondiam nas montanhas, possuíam grande poder e permaneciam fiéis ao Deus rejeitado.
Mas ninguém jamais os havia visto e esta tradição permanecia principalmente entre a classe trabalhadora.
Já a aristocracia, o meio cientifico e toda a intelligentsia do planeta, não se dando ao trabalho de verificar a verdade, eles riam de todos aqueles "contos da carochinha".
Foi nesse abrigo dos hierofantes que Supramati acordou do seu sono mágico e foi cercado de cuidados e amor.
Assim, ele passou as primeiras semanas no novo e desconhecido mundo, submetendo-se a uma dieta especial para adaptar seu organismo às condições estranhas, inclusive atmosféricas.
Ao mesmo tempo ele se aperfeiçoava no conhecimento da língua local, estudava concomitantemente a história, geografia e situação política desta pequena Terra, que pela sua dimensão se assemelhava aproximadamente à Lua.
Ele soube que no planeta habitavam somente duas raças:
os Marautas – população operária, povo de estatura alta, forte e activo, mas pouco desenvolvido intelectualmente e totalmente escravizado pelos Rudrassos, povo aristocrático e intelectualmente desenvolvido de cujo meio emergiam cientistas, artistas, burocratas e todo tipo de "intelligentsia".
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:45 pm

Esta raça dominante era fraca e frágil sujeita a certas enfermidades neuro cerebrais, paralisias sem causa aparente, demência repentina, cegueira e outros males. Um monarca vitalício reinava no planeta; entretanto os Marautas eram governados pelo vice-rei, seu preposto.
E esse povo monárquico encontrava-se numa situação totalmente excepcional, com pretensão de ser originário de dinastias divinas que na aurora da civilização governavam a Terra e deram início a todas as ciências e artes.
Supramati passou seu período de preparação totalmente sozinho, chegando apenas a se relacionar com alguns membros da comunidade, entre os quais um homem de aparência jovem, chamado Sarta, que prometeu visitar Supramati após o mesmo se instalar no local escolhido, e ajudá-lo no estudo das novas condições de vida. No dia seguinte à sua chegada à caverna, Supramati ficou contente com a visita do amigo.
Sarta presenteou-o com frutas e ambos acomodaram-se para conversar junto à entrada.
- Não me é permitido visitá-lo irmão, pois você deverá fazer tudo sozinho, e a tarefa que você tem pela frente é muito difícil, uma vez que o nosso género humano é muito cruel, egoísta e absorvido por coisas materiais – observou Sarta, suspirando.
- Deus me ajudará e concederá a felicidade de despertar neles a fé, a misericórdia e o amor – retrucou Supramati com certeza inabalável.
E vocês nunca tentaram orientar os cegos para o caminho da verdade?
- É claro que tentamos, mas todas as nossas tentativas fora inúteis.
Talvez ainda não tenha chegado à hora.
Além do mais, as leis daqui são tão severas que as pessoas têm medo até de ouvir pregações religiosas.
Independente disso, os rumores que correm sobre nós são considerados tão absurdos e risíveis que, se alguém suspeitasse de que está vendo um "montanhês", como eles nos chamam, daria no pé rapidamente, pois eles estão convencidos de que regressando à sua primitiva doutrina religiosa, nós lhes enviamos, a cada solenidade toda sorte de desgraças, tempestades, inundações, doenças contagiosas e toda espécie de prazeres.
Ambos desataram a rir.
- Esta é a nossa sina:
não sermos reconhecidos – observou brincando Supramati.
Mas, diga-me, irmão Sarta, quais foram os motivos que levaram seu género humano até esse ódio feroz à Divindade, que interpôs até barreiras de lei contra o Pai Celeste?
Creio que preciso saber isso.
- Levaria muito tempo para contar tudo em detalhes, entretanto eu de bom grado relatarei resumidamente o que levou a essa situação lamentável – respondeu Sarta reflectindo um pouco.
Não há necessidade de contar-lhe que nós tivemos a nossa "época de ouro", quando reinavam os iluminados que, tanto nós aqui, como vocês lá chamavam de "dinastias divinas".
Era um tempo de apogeu da civilização e naturalmente do desenvolvimento de capacidades espirituais.
Em seguida, veio à decadência, começaram os abusos com a prática de feitiçaria e magia negra, culminando com a ruptura do governo dos iniciados.
À medida que ia se ampliando a prática da magia negra, os instintos sórdidos do homem prevaleceram e agiram sedutoramente.
A depravação e crueldade adquiriram dimensões terríveis e o povo bestificado chegou até a prática de sacrifícios humanos.
Entretanto, apesar de tudo isso restava ainda adeptos dos mestres e perceptores do ensinamento das dinastias divinas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:45 pm

A população dividiu-se em dois pólos:
o de Deus branco e o de Deus negro, loteados para um rei branco e um rei negro.
Começaram guerras cruéis, que iam adquirindo, com o decorrer do tempo, carácter cada vez mais selvagem e sangrento.
Sob a influência das paixões desenfreadas, os defensores de Deus branco conservaram só o nome de seu partido, esquecendo os princípios básicos e as leis que ele deveria representar.
O banditismo, os sacrifícios humanos, a utilização para o mal de todas as forças espirituais criaram uma situação incrível.
Foi aí que no cenário mundial apareceu um homem extraordinário, cujo destino era, por fim, transformar o mundo.
As reviravoltas cósmicas, em consequência da disseminação do Mal, devastaram o nosso planeta; um dos continentes estava tomado de água e pérfidas enfermidades ceifavam a vida da população.
Amocra – esse era o nome do homem – aproveitou-se desse momento angustiante de confusão geral para tomar o poder.
Sua origem era obscura.
Na época de matanças que precederam a inundação, ele perdera todos os seus parentes.
Para consolidar sua posição, ele adoptou um pequeno órfão que considerado o filho do antigo rei branco.
Medidas enérgicas e sensatas tomadas por ele para restabelecer a ordem, reparar os estragos, desenvolver o comércio e a indústria, logo lhe trouxeram amor e confiança gerais.
Então, certo de estar gozando de ilimitada autoridade, ele deu início a uma inédita reforma social que excluía até o nome de nossa Divindade no planeta.
Qualquer profissão de fé do ser supremo - fosse ele branco ou negro, foi eliminada.
As cerimónias religiosas foram proibidas sob pena de castigos severos; da mesma forma as relações com o mundo invisível, devido ao facto de que qualquer religião, sendo uma relação com seres extraterrenos, somente dava origem à desordem, animosidade, guerras e desencadeava paixões selvagens.
Pois, se existia um mundo do além-túmulo que os próprios espíritos libertados do corpo se arranjassem cada um a seu gosto, que fossem recompensados ou expiassem seus pecados, contanto que não perturbassem os vivos!
Em função disso, eram sujeitos à queima imediata e, em suma, ao aniquilamento total todos aqueles locais onde aparecessem visões, fossem ouvidos sons ininteligíveis ou ocorressem fenómenos estranhos.
No que se refere à magia branca ou negra, os culpados eram castigados com a pena de morte.
E assim nós vamos vivendo, há cerca de mil anos, segundo esse belo programa, deliciando-nos com a surpreendente civilização, impossível de ser imaginada.
É verdade: ar artes e a indústria alcançaram um alto nível, mas, por outro lado, não menos floresceu o egoísmo, a crueldade e a injustiça.
O princípio básico de nossa "cultura" é o utilitarismo:
qualquer um te o direito de defender seus interesses, ainda que inescrupulosamente; enquanto que os crimes contra os interesses estatais são punidos severamente.
Existem leis positivas terríveis, mas em geral, o conceito de justiça foi totalmente atrofiado.
Sarta calou-se, suspirando pesadamente e, no olhar enérgico de Supramati, continuo brilhando a mesma fé e esperança.
Numa conversa posterior, Sarta propôs a seu novo amigo, ir incógnito à cidade para familiarizá-lo com o local de sua futura actividade.
Supramati aceitou agradecido o convite.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:45 pm

Algumas horas depois, eles saíram da caverna vestidos modestamente em trajes usados pela população e se dirigiram à cidade.
O caminho era bem conservado, os campos excelentemente trabalhados, surpreendendo com a variedade de plantações.
A vegetação, em suma, era exuberante e Supramati interessou-se pelas explicações de Sarta sobre as diferentes árvores frutíferas que cresciam pelo caminho.
A mais incrível que ele achou era uma árvore com frutos grandes parecidos com pepinos terrenos, porém brilhantes, como se fossem cobertos por esmalte.
- Esta vendo, Supramati, esta árvore com tronco grosso, verde embaixo e escuro em cima?
No outono, quando os frutos amadurecerem, todo o tronco ficará seco e oco por dentro.
Ao colherem seus frutos, todo o tronco é coberto por uma massa resinosa, substituída duas semanas depois e deixada desse jeito para o inverno.
Na primavera, a árvore começa a cobrir-se de folhas e flores, como se não tivesse morrido.
- Em todo lugar a natureza nos aponta um exemplo de ressurreição – observou Supramati sorrindo.
- Eu ainda não lhe disse que desta árvore original é produzido um excelente licor, o qual, quanto mais velho fica-se, torna-se mais forte. - acrescentou Sarta.
A capital verificou-se ser uma cidade enorme, dividida em duas partes totalmente diferentes.
Uma, a parte maior, pertencia aos Marautas.
Eles pelo visto, gostavam de cores vivas, a julgar pelas casas rodeadas de pomares que luziam com as cores azuis, vermelhas, amarelas, e assim, por diante.
Da mesma tonalidade eram também os tecidos vendidos em amplos pavilhões redondos, vazados de todos os lados.
Havia também teatros, pois os Marautas gostavam de diversão não menos que de trajes e enfeites, enquanto que os Rudrassos, que usavam os Marautas
Como seus criados e que tinham neles excelentes compradores, protegiam-nos e organizavam todo tipo de diversão possível.
E pelo facto de que as classes operárias se acostumaram a obter tudo dos Rudrassos, de cujo meio, exclusivamente, saiam cientistas, médicos, artistas, músicos e artífices de tudo que é requintado, os Marautas veneravam-nos e até os temiam, considerando uma grande honra servi-los.
A cidade de Rudrassos era de tipo diferente, mais elegante e artística: pequenos sobrados, decorados e acabados como objectos de joalharia, mergulhavam na sombra da vegetação exuberante; e até seus moradores diferiam em muito dos altos e fortes Marautas.
Os Rudrassos, ao contrário, eram de estatura baixa, frágeis de traços finos, feições intelectuais; mas seus olhos escondiam algo cruel e diabólico, o que fazia com que eles não parecessem simpáticos.
Inúmeras vezes a atenção de Supramati foi atraída para faixas largas de tecidos da cor lilás-escuro, penduradas nas portas de entrada de algumas casas.
- Diga-me irmão, o que significam estas faixas de tecidos?
Todas estão marcadas por um símbolo vermelho, e acham-se tanto nas casas dos Marautas como nas dos Rudrassos, e, o que é mais estranho, nas moradias que pertencem, pelo visto, às pessoas de diferentes posições sociais.
No rosto de Sarta, apareceu uma expressão de descontentamento e sorriso amargo.
- Aquelas faixas, caro Supramati, é um símbolo da vergonha para nosso mundo e significam que no meio dos habitantes desta ou daquela casa há um doente desenganado ou aleijado condenado à morte, ou melhor, fadado aos espancamentos com base numa lei vergonhosa.
Supramati continuou sem entender e olhou interrogativamente para Sarta.
- O que significa isso?
Aqui os doentes são assassinados?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:45 pm

Com que direito e como uma família pode concordar com tal crueldade inaudita?
Sarta pôs-se a rir.
- Com que direito?
Para o bem da sociedade.
Mas eu tenho que lhe explicar mais detalhadamente para que você entenda a subtileza utilitária da lei que você chama de cruel.
É de seu conhecimento que o ideal espiritual e tudo que se refere às leis divinas é proibido aqui.
Isso significa que, livre de qualquer freio ético, a humanidade viu-se definitivamente, em poder dos instintos da carne.
A moral está mais do que fraca e, sob o ponto de vista, por exemplo, poder-se-ia dizer que ela simplesmente não existe; ao contrário, vicejam em profusão todos os géneros de vícios e paixões vergonhosas, e o povo, principalmente os Rudrassos, devido ao facto de serem mais fracos fisicamente, tornou-se susceptível a diferentes tipos de enfermidades, tais como: demência repentina, paralisia, convulsões, que deformam totalmente os membros, chagas, semelhantes à nossa lepra, e finalmente, a perda da visão para sempre.
Todas essas doenças são extremamente contagiosas e de difícil tratamento, e, uma vez que os médicos estudam e só conhecem a matéria, podem tratar apenas do corpo, sem buscar qualquer motivo oculto do mal; as doenças motivadas por obsessão, mau-olhado de terceiros, sofrimentos espirituais, entre outras, permanecem fora de sua competência.
Além do mais, a criminalidade, os vícios e a depravação atraem os espíritos malignos e seu número cresce a cada dia que passa; e visto que a humanidade cega está desprovida de defesa contra as terríveis forças ocultas, as devastações por elas causadas aumentam mais e mais...
Pois tudo que mantém e purifica – a prece, a fé em Deus, a invocação das forças do bem – é proibido e até perdeu o seu significado.
Devido ao facto de que todo o nosso sistema governamental é baseado exclusivamente no utilitarismo, só tem direito à vida aquele que tiver alguma utilidade que puder servir para seu próprio prazer ou prazer de um estranho.
Desta forma fica claro que os dementes incuráveis, os cegos, os portadores de câncer, os filhos retardados, ou seja, os seres que não poderão ter alguma utilidade para o governo.
Representam apenas focos de contágio e um fardo incomodo para a família, pois exigem, ao mesmo tempo, gastos desnecessários, atrapalhando as pessoas de gozarem a vida e tratarem de seus afazeres.
Entretanto, apesar da bestificação da população, a faísca divina oculta nas profundezas do ser humano não raro provoca um apego aos doentes desditosos e uma amargura ao conscientizar-se de que a sua eliminação é necessária.
Em função de numerosos e fortes protestos, a legislação, por fim, foi atenuada no sentido de que, para o tratamento de doentes, foi estabelecido um prazo fixo com uma ressalva:
se ao término desse prazo às esperanças de cura não se concretizarem, esse ser "prejudicial" e "inútil" deve ser eliminado.
- Oh, Deus todo poderoso!
E como eles são mortos? – perguntou Supramati, pálido de horror.
- Bem, não há por que fazer cerimónia!
Mensalmente, num dia marcado, um funcionário do governo passa em todas as casas com doentes e verifica a duração da enfermidade baseada na determinação médica.
Se o prazo estiver vencido, então se marca o dia da pena de morte.
Saindo da casa, ele pendura um faixa de tecido em sinal da certificação de que ali se encontra um dos sentenciados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:45 pm

Todos os condenados do mês corrente são executados num mesmo dia.
Ao alvorecer, eles são levados juntos ao abismo, sob o qual se encontra o seu abrigo, e lá o mesmo funcionário em companhia de alguns subalternos lê uma acta explicando os motivos da execução capital, relacionando as pessoas "inúteis", acompanhadas por seus parentes próximos.
Em seguida, dão-lhes uma bebida que as deixa drogadas e as jogam no abismo.
- Que horror! O abismo já deve estar quase cheio, se no transcorrer de séculos lá são lançadas tantas vítimas.
- Oh, não!
A corrente, cujo barulho você ouve no fundo do precipício, desemboca, pelo visto, numa fenda insondável, arrastando consigo os cadáveres.
A propósito, Supramati, você terá a oportunidade de ver tudo isso pessoalmente, pois uma execução semelhante esta marcada para amanhã ao alvorecer.
Supramati ficou pensativo e em silêncio.
- Será que nenhuma mãe tenha se revoltado, tenha se insurgido contra essa monstruosidade? – Perguntou ele finalmente.
- O que se pode fazer?
Todos estão submetidos à lei e devem obedecer a ela, inclusive o próprio rei.
Ocorrem. É claro, gemidos e lágrimas, mas ninguém se atreve a opor uma resistência aberta.
- Bem, se aqui são severos com os doentes, simplesmente porque são inúteis, que punição, então é dada aos criminosos - perguntou Supramati a caminho da caverna.
Sarta desatou a rir.
- Com esses a cerimónia é menor.
Os culpados de crime do Estado, em assassinatos de pessoas úteis, roubam de dinheiro destinado a causas sociais, e assim por diante, são enforcados como base na sentença sumária.
No que se refere aos vagabundos, vigaristas e pedintes e as pessoas em geral que saíram do convívio da sociedade e não trabalham, querendo viver à custa dos outros, esses são levados a locais inóspitos e depois, ainda que para isso não haja propriamente uma ordem de execução, caso isso aconteça, o assassino normalmente não é procurado e desta forma, não fica sujeito ao castigo.
- Que estado lamentável de coisas! – observou com tristeza Supramati.
Pedirei a Deus que ele me apoie para que eu possa dissipar a escuridão e orientar para o caminho da perfeição essas almas perdidas.
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