Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:46 pm

- Como quiser.
Por ora, ordene que os elementos se acalmem e diga aos seus empregados para pararem de lutar contra os meus, para que eu possa sair do seu palácio livremente e sem embaraços.
Supramati virou-se para a janela e, levantando a mão, desenhou no ar alguns sinais fosforescentes.
Quase no mesmo instante, ouviu-se um barulho ensurdecedor, as rajadas de um vento forte varreram as negras nuvens plúmbeas, o céu abriu-se, vindo de longe, uma música surpreendentemente suave, e, atrás da grande janela juntaram-se seres leves e transparentes que oscilavam feito fluidos ao sabor do vento.
Um sorriso de felicidade infinita iluminou as belas faces do mago, enquanto Shelom cabisbaixo, pálido como cadáver, saiu feito um furacão do palácio em companhia de Madim.
Uma angústia estranha apoderou-se do coração do czar do mal, tolhendo-lhe a respiração.
Um sentimento opressivo de ódio, amargura e inveja dilacerava-o.
De onde aparecera tal sentimento?
Será que se remexia, obrigando-o a sofrer na carne o amaldiçoado "aquilo", oculto no fundo do meu ser – aquela herança divina do Pai Celeste, que não poderia ser destruída, e constrangia o triunfo de Satanás ao reter a ascensão das almas à luz?...
Mal notando a saída de Shelom, o olhar exaltado de Supramati fixou-se numa visão maravilhosa.
Bem longe, numa ampla auréola dourada, ele viu o reflexo de seu querido dirigente.
Ebramar, e inspirando prazerosamente os aromas da luz pura, que o iluminavam em cascatas douradas, ele sentiu o calor vivificante das poderosas correntes do bem que iam sendo arrebatadas por sua alma, e um sentimento indescritível de felicidade e gratidão apoderou-se dele:
- Oh! Que deleite é tomar consciência da força do bem e da detenção da harmonia das esferas!
A luta, os sofrimentos e o labor através dos séculos são recompensados, por milhares de anos, por este único minuto de felicidade indescritível!
Avante, avante, sem parar, em direcção à luz.
Após a saída de Shelom, Nivara entrou devagarzinho e parou ao ver o mestre e amigo numa profunda concentração.
Jamais Supramati lhe pareceu tão belo e encantador como naquele momento de despreendimento exaltado.
Ao ouvir as palavras por ele murmuradas, Nivara ajoelhou-se e com lágrimas nos olhos encostou aos lábios as mãos do mago.
Supramati estremeceu e pôs afavelmente a mão sobre a cabeça do discípulo.
- É Nivara, nós estamos felizes, e infinita é a misericórdia do Criador, que nos deu a dádiva de contemplar e alcançar grandes segredos da criação.
Que destino glorioso promete pela frente esta força do bem, adquirida através de nosso trabalho.
No início teremos muita luta, mas eu espero arrancar do inimigo bem mais do que um milhar de almas; em seguida, será dada a nós a oportunidade de pregar a palavra de Deus e nos lançaremos as bases das leis do Senhor em um novo mundo.
Avante, Avante, Nivara!
O caminho para a meta do conhecimento total é muito longo, mas nós já sentimos as nossas asas.
Temos de nos submeter à grandeza do infinito e sermos inabaláveis na fé; estas asas nos levarão de um degrau para outro na escala da perfeição.
Não é grande o nosso mundo, menos importante ainda são os nossos actos, mas Deus, em sua misericórdia, avalia somente as dimensões de nosso esforço, julgando-nos com amor e medindo a nossa força e os conhecimentos adquiridos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:47 pm

Supramati calou-se, e ambos, muito emocionados, voltaram ao laboratório.
No dia seguinte, trabalhando com seu discípulo no gabinete, Supramati indagou-o, inesperadamente:
- Será que você, Nivara, está suficientemente preparado para enfrentar a festa de Shelom?
Lá seremos tentados de todas as formas.
- Oh! Nada temo em sua companhia e, fora isso, ainda teremos a ajuda de Ebramar! – respondeu intrépido Nivara.
Você já não me disse inúmeras vezes, querido mestre, que com um archote na mão não se teme nenhuma escuridão, pois a luz revela todas as armadilhas e ilumina todos os sorvedouros?
Graças a seus ensinamentos e ao meu esforço pessoal, os meus olhos espirituais se abriram.
Eu vejo o invisível e ouço a harmonia das esferas; os odores contagiosos dos vícios e os sentimentos mundanos me são repulsivos.
Poderei eu, depois de tudo isso, ser vulnerável às tentações torpes?
- Bravo Nivara!
Eu percebo que os seus olhos estão abertos de facto e que você será cuidadoso.
Mas, meu amigo, nunca subestime o inimigo por mais insignificante que ele possa parecer; ele poderá se tornar perigoso no exacto momento em que nos adormecermos, embalados pela convicção de nossa invulnerabilidade.
O melhor é acreditar que a sua blindagem possua defeitos, ficando em alerta para que nenhuma flecha atinja o lugar desprotegido.
Ao perceber um leve rubor do jovem adepto, Supramati acrescentou afavelmente:
- Não há porque corar.
Eu sei que você sempre permaneceu firme e assim o será.
E como, provavelmente, Shelom vai querer "descansar" após sua visita, antes de organizar o belo banquete e preparar todas as ciladas em nossa homenagem, eu acho que teremos tempo de visitar Dakhir com Narayana.
Nós lhe contaremos a respeito do ocorrido e do convite de Shelom e aproveitaremos a oportunidade para ver ali que estratégia eles desenvolveram para as suas acções e como estão indo os preparativos.
Algumas horas depois, a nave espacial de Supramati levava-os em direcção a antiga Moscou, pois Dakhir e Narayana optaram pela Rússia e suas circunvizinhanças para o campo de seu trabalho.
Voando à velocidade estonteante, em algumas horas já podiam divisar abaixo deles uma imensa planície russa.
Sempre de aspecto uniforme, adquiria ela, agora, uma visão bem monótona e lamentável.
Os imensos campos arenosos e estéreis eram puro deserto; as grandes e verdejantes florestas desapareceram e entre os poucos lugares de vegetação rala e baixa já não se viam os verdes ou azuis zimbórios das igrejas com crucifixos dourados que outrora animavam a vastidão campesina.
Próximo à cidade, a perder de vista, estendiam-se imensas estufas, nas quais agora se concentrava toda a agricultura; entretanto o quadro geral era indescritivelmente cadavérico e monótono.
- E aqui outrora era a "Santa Rússia" – lamentou Supramati, suspirando e lançando um olhar penalizado para a cidade que sobrevoavam.
- Sim – respondeu Nivara ao lamento do mestre -, os crucifixos e as cúpulas já há muito tempo foram retirados e tudo que lembrava a religião dos ancestrais foi eliminado impiedosamente.
Já não se ouvem mais os sinos que chamavam os fiéis para o ofício divino; sob as velhas abóbadas já não se entoam mais os cânticos sagrados; todo e qualquer sentimento religioso acabou...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:47 pm

Mas nenhum outro lugar choca tanto como este aqui, pois o povo russo era outrora animado por fé ardorosa e comovente.
- Eu sei. Já estive aqui com Ebramar e observei as surpreendentes filas de devotos que se concentravam em diferentes locais sagrados.
Pobres, vestidos em farrapos, só com um vintém no bolso, quando muito, vinham esses romeiros dos confins do país, extenuados pelo longo caminho e famintos, mas cheios de tal fé que todo o cansaço e os infortúnios eram esquecidos tão logo eles caíam aos pés das relíquias sagradas ou do ícone milagroso; e quando, então, ao acenderem uma vela fininha ou ao segurarem um pão eucarístico, tudo era uma verdadeira festa.
Como era pura e forte a oração que se elevava do coração dessa gente deserdada!
E quantas graças foram por eles recebidas daqueles a quem iam pedir!
Purificados e revigorados, partiam eles, de novo, em sua penosa romaria terrestre.
- Mestre, será que existe um castigo bastante severo para aqueles diabólicos devassos que por fraqueza, leviandade, ambição ou perversão arrancaram desse povo a fé que o sustentava, romperam seus elos com a Divindade e transformaram as boas e piedosas pessoas em bandidos e apóstatas.
- Sim, eles assumiram uma penosa responsabilidade.
Não foi à toa que Jesus Cristo dizia:
"Ai daquele que provocar a sedução", referindo-se ao que aconteceria àquele "que seduzisse uma daquelas crianças" – observou Supramati.
Contudo, eu estou surpreso.
Como pôde decair tão rápido um povo profundamente piedoso e, se defender, abandonar tudo aquilo que adorou e venerou por séculos?
- Foi como uma gangrena moral.
No entanto, houve casos de resistência.
Um de nossos irmãos, que aqui se encontrava durante a última revolução, contou-me como destruíram o mosteiro "Trindade de Sérguiy".
A indignação tomou conta de todos; as pessoas ficaram possuídas de demência sacrílega de ódio a Deus.
Igrejas foram profanadas e incendiadas, sacerdotes foram mortos aqui e ali.
Junto à igreja de Iversk, ocorreu uma luta sanguinária.
O príncipe de uma família centenária russa saiu com a espada na mão em defesa de um antigo santuário, mas foi morto e o seu sangue espirrou sobre um ícone; os cadáveres ficaram amontoados por toda a capela.
Que fim levou o ícone... ninguém sabe.
Naquela época o perigo rondava o mosteiro constantemente, assim como os ícones que lá estavam.
Os mais ciosos, preparando-se para morrer, rezavam dia e noite junto ao sepulcro do santo.
Em Moscou, entrementes, a violência passou dos limites, e o nosso irmão nos disse que o que lá aconteceu ultrapassou o inimaginável.
É claro que os patifes decidiram acabar também com o mosteiro, ainda que para isso não tivessem fixado o dia.
Não tiveram, porém, tempo de executarem o seu plano torpe.
Certa noite desencadeou-se lá um temporal sem precedentes; os raios provocavam incêndios de dimensões inéditas; o granizo matava gente e animais; o furacão arrancava árvores junto com as raízes, destelhava as casas, derrubava as torres; e para cúmulo das desgraças, os rios transbordaram.
A tempestade bravejou por vinte e quatro horas; pereceram milhares de pessoas e muitos perderam o juízo de medo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:47 pm

Quando enfim, o temporal passou, a cidade de Moscou e as circunvizinhanças pareciam palco de guerra sanguinária.
As pessoas e objectos de peso eram alçados por vento e arremessados, feito palha, a distâncias incríveis.
O velho mosteiro também se transformou em ruínas.
O temporal concentrou-se sobre ele e os raios incendiaram-no; do poço, cavado por São Sérguiy, jorrou uma água espumosa que, juntamente com outras águas desmoronaram e em seu lugar a água trouxe montanhas de areia, sendo tudo amontoado com cadáveres de monges e moradores vizinhos.
Que destino teve o sepulcro do santo?
Ninguém sabe; mas a relíquia havia sumido.
Presume-se que os monges a haviam retirado por caminhos secretos.
Ninguém se atreveu a pesquisar, pois um medo supersticioso espantava as pessoas para longe do local.
Supramati ouviu em silêncio a narrativa de Nivara e depois sentenciou:
- Malucos! Que inferno deve ferver em suas almas por eles terem se lançado com tal encarniçamento sobre tudo que lhes podia lembrar Deus.
Será que essa turba cega que cobre a funesta Terra com crimes e discórdia, condenando-a à morte, imagina que com este átomo planetário terminam os domínios do Criador?...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:47 pm

Capítulo XII

Estamos Chegando, mestre.
Veja, esta é Moscou, e lá, onde paira uma nuvem esbranquiçada sobre o prédio, vivem os nossos amigos – explicou animadamente Nivara.
Minutos após, a nave espacial parou junto a uma pequena torre e, mal os viajantes pisaram na plataforma, ouviu-se da escadaria a sonora voz de Narayana.
Ele exclamou alegremente:
- Eles chegaram!
Mas que bela ideia que vocês tiveram de nos visitar!
E, com a sua costumeira impetuosidade, abraçou Supramati e Nivara.
Atrás dele apareceu Dakhir, que também os cumprimentou calorosamente, e, após as boas-vindas, todos se dirigiram ao refeitório onde Narayana começou de imediato, a preparar uma refeição.
- Sabem onde vocês estão agora? – perguntou ele, colocando na mesa uma jarra de prata com vinho e uma enorme cesta de frutas.
Vocês estão dentro do antigo Kremlin, ou melhor, do que sobrou dele.
Quando ele virou propriedade nacional, foi leiloada e certo Goldenbliuk comprou o Grande Palácio e o transformou em residência, mobiliada para pessoas ricas que pudessem pagar uma verdadeira fortuna.
O neto dele é o nosso senhorio, e como sou um apreciador de bons objectos antigos aluguei toda a casa para mim e Dakhir.
De modo que as salas, que abrigaram grandes imperadores, agora abrigam modestamente dois príncipes indianos, "missionários do fim do mundo" – concluiu Narayana, com o seu fértil humor.
- Prezados amigos, previno-os de que a refeição é frugal, pois os géneros alimentícios já não possuem o sabor e a suculência de outrora; somente o vinho é bom.
Ele provém de nossas antigas adegas, onde Narayana guarda as assim chamadas reservas "inesgotáveis" – acrescentou Dakhir, rindo.
- É verdade, tudo perdeu o sabor, como se a mãe-terra quisesse que tivéssemos nojo dela para não lamentar a sua perda.
Para que serve o dinheiro, se este já não tem o mesmo valor?
A natureza parece ter endoidado; as mudanças de temperatura são insuportáveis; ora o frio polar, ora o calor tropical; e tudo aos saltos, sem intervalos.
A primavera e o outono praticamente deixaram de existir; a passagem do verão para o inverno acontece com incrível velocidade.
Acrescente-se a isso terríveis furacões, terremotos e miasmas venenosos que surgem do mar ou da terra, sufocando as pessoas.
No reino vegetal também está tudo invertido.
As plantações em estufa ficaram tão ruins que se tentou voltar à jardinagem ao ar livre, mas estas tentativas não tiveram êxito; ou tudo congela ou tudo queima, ou, então é devorado pelos vermes.
Assim, já tivemos que tomar um vinho com gosto de cera e comer frutas sem sumo ou gosto que lembrasse as árvores; resumindo, porcarias iguais a esta.
E ele pegou da cesta uma fruta e, raivosamente, jogou-a num canto da sala.
A maça abriu-se revelando uma polpa seca e murcha.
Todos riram do exaltado estado de espírito do incorrigível comilão.
- Pois é. O Céu tem enviado avisos à humanidade criminosa – observou Dakhir -, mas, infelizmente, está não quer entendê-lo e permanece surda ao clamor das forças cósmicas que perderam seu equilíbrio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:12 pm

- A Terra inteira é um deserto – disse Narayana.
Você se esquece de um cantinho da nossa Terra moribunda que permaneceu como estava – contestou Supramati.
A Índia, o berço da humanidade, onde certo dia pousaram "os imortais", vindos de outro mundo em extinção, grandes legisladores e introdutores da primeira época de luzes.
Lá, eles ensinaram o abecedário das grandes leis aos povos inexperientes, leis que sustentavam a ordem social e moral, abrindo sabiamente a estes povos tanta luz quanto estes estavam em condições de assimilar.
Lá, o seu espírito parece proteger os lugares, onde moravam e onde construíram o arquivo do mundo.
E a desordem atmosférica e os miasmas venenosos, todo, enfim, foi afastado dos lugares onde a vontade desses "grandes espíritos" arde como fogo eterno e age como um escudo protector daquele fantástico reino.
Jamais um simples mortal, um infiel, que pudesse contar com seus sacrilégios macular aqueles vales alegres, conseguiu se aproximar dos palácios dos magos; nenhum olho curioso conseguiu vulgarizar os abrigos dos sábios, onde a própria natureza respira harmonia.
E somente o último e definitivo golpe é que vai abraçá-los em fogo, invariavelmente puros e castos.
- Você está certo, Supramati.
Nos nossos mágicos palácios indianos ainda se vive bem; mas aqui é horrível, parece estarmos sob o jugo de um pesadelo.
Figo gelado só de ver os outros passando frio; as pessoas daqui são dignas de dó.
Uns vivem em constante torpor de orgias e crimes; outros vagueiam como lúgubres misantropos, sem encontrar a paz, como se tivessem perdido algo, sem conseguir achá-lo – suspirou Narayana.
- É verdade. Eles perderam e procuram por sua antiga fé, seu Deus e os santos protectores, tudo aquilo que alimentava a sua alma.
E agora, fartos dos vícios, sem apoio moral e sentido que ao seu redor está acontecendo algo de anormal, ficam apavorados e o futuro lhes parece um sombrio abismo – observou Dakhir.
- E eu calculo que são exactamente esses misantropos que serão os mais fáceis de serem atraídos pela nossa pregação – acrescentou Narayana, animado com a bebida e colocando mais vinho nos copos das visitas.
A conversa animou-se e Supramati contou sobre o seu encontro com Shelom, lembrando o seu desafio e o convite para o armistício.
- Ah! Então ele já percebeu que você é perigoso! – exclamou Dakhir.
- Exacto. E até tentou me subornar, oferecendo mil almas só para que fossemos embora, mas eu declinei da oferta – e Supramati desatou a rir.
– Contudo, a segunda oferta, um nobre duelo, eu aceitei, e nós vamos medir as nossas forças ocultas.
Ele afirma que tudo o que eu posso fazer com o poder puro, recebido de Deus, ele poderá fazer através do poder diabólico.
- Epá! Suponho que deve haver certa diferença entre esses dois poderes.
E quando vai acontecer esse magnífico duelo de poderes mágicos?
Espero que você permita a minha presença e a de Dakhir. - sem dúvida.
Eu faço questão da presença de ambos.
Obviamente, reunir-se-á uma grande multidão e eu pretendo começar a conversão a partir desse duelo.
Mas, quando isso vai acontecer, ainda não sei.
Acredito que será após o famigerado banquete, durante o qual eles esperam me enfraquecer ou matar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:12 pm

- Ah! Que piada!
Mas, de qualquer maneira, tome cuidado, Supramati!
Se dentro de você sobrou algo do velho Adão, a senhora Iskhet conseguirá despertá-lo – exclamou Narayana, soltando uma gargalhada.
- O caso é o seguinte – acrescentou ele modesto -, a minha queda pelo belo sexo ainda não se extinguiu totalmente.
Por isso eu fiz um pequeno reconhecimento para dar uma olhada na amiga do "anti-cristo" e convenci-me de que ela é perigosa.
Vamos torcer para que eu resista aos seus encantos e que o velho Adão continue a dormir nas profundezas do meu íntimo – argumentou Supramati sorrindo.
À tarde, quando os magos e reuniram para conversar nos aposentos de Dakhir, Supramati disse, respirando profundamente:
- Sinto que por aqui há uma igreja. - seu nariz não o enganou.
Aqui realmente existe uma pequena capela, cuja entrada foi camuflada por alguns dos fiéis, mas nós a encontramos e abrimos.
A entrada está atrás daquele bar - concordou Narayana, rindo.
Ele empurrou para o lado o pesado bar e atrás do mesmo surgiu uma porta que dava para uma pequena capela, cheia de diversos objectos sagrados.
Eles acenderam as velas e sua luz iluminou as faces severas dos antigos ícones.
Os magos ajoelharam-se e rezaram com fervor.
Quando saíram e recolocaram o bar no lugar, Narayana contou que aquela entrada tinha sido tão bem camuflada que um simples mortal jamais a teria achado.
- Em geral – aditou ele -, esta vergonhosa época pela qual a Terra está passando gerou muitos factos curiosos do nosso ponto de vista, é claro.
Por exemplo, a catástrofe com Petersburgo, de cujos detalhes eu soube aqui.
Ah! Conte, conte.
Eu sabia que a antiga capital já não existia mais. Só não conhecia os detalhes e, mesmo Noivara, provavelmente, nada sabe sobre isso, pois nunca me falou a respeito.
- É um prazer – aquiesceu Narayana.
Antes de tudo, devo lembrar que aqui, como em todo lugar onde restaram fiéis, existem locais subterrâneos, onde esses se escondem.
Eu e Dakhir obviamente estivemos lá e conhecemos certo ancião que me contou o que vou transmitir-lhes agora.
A catástrofe aconteceu logo após a derrubada do grande mosteiro "Trindade de Sérguiy".
Mas, muitos anos antes, o clima de Petersburgo ia ficando cada vez mais rigoroso a cada ano.
As geleiras polares se aproximaram tanto que o norte da Suécia, Noruega e Rússia se tornaram inabitável.
Bem, em Petersburgo ainda dava para sobreviver, ainda que o verão se tornasse cada vez mais curto e o inverno mais prolongado e frio.
Então, o espírito criativo da humanidade inventou um paliativo: quarteirões inteiros foram cobertos por campânulas de vidro e aquecidos com electricidade.
Resumindo:
a muito custo conseguiam sobreviver.
Entretanto, os sacrílegos e todos os vícios que sempre os acompanham aumentavam mais rápido do que o frio; como o governo de então usurpava tudo dos governados, foi promulgada uma lei mandando fechar e vender em leilão todas as igrejas.
Apesar disso, ainda restaram, principalmente entre o povo, pessoas que preservaram os velhos costumes e a antiga fé.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:12 pm

Assim, uma turma de empreendedores trapaceiros adquiriu, por atacado, todos os templos e começou a vender assinaturas com o direito a visitar igrejas, assistir missas e comungar, e os sacerdotes contratados pela firma celebravam os ofícios religiosos.
Diziam os empreendedores:
- "Porque não aproveitar a ignorância do povo?"
Mas como as assinaturas custavam muito, e grande número dos pobres não podia arcar com isso, a população começou a perder o hábito de ir as igrejas e, finalmente, a empresa faliu.
A raiva desses espertalhões foi algo indescritível e, como eles tinham muita influência junto ao governo, conseguiram que o mesmo aprovasse um decreto que, vejam só, deveria acabar de vez com todos os "velhos e estúpidos preconceitos".
Com essa finalidade, foi ordenado que fosse juntado tudo que se relacionasse com a antiga fé e queimado em praça pública.
Esqueci de contar que antes disso, quando ainda se mantinha alguma fé, foram comprados os restos mortais de São Nicolau, que estavam à venda em Bari pelos italianos.
Essa relíquia foi colocada numa igreja, especialmente construída perto da cidade...
E então, essas relíquias, assim como todos os outros santuários, foram condenados à fogueira.
O dia para esse auto-de-fé foi adiado até a primavera, devido ao inverno particularmente rigoroso.
Pela última vez o povo se indignou e seu coração tremeu ao pensar que seria destruído tudo o que fora venerado por seus antepassados juntamente com as relíquias, milagrosamente preservadas, de seus benfeitores e protectores.
Entre a população começaram a surgir protestos, mas como os insurgentes eram uma minoria, ninguém lhes deu ouvidos e o Céu parecia surdo e cego a todos aqueles crimes, blasfémias e sacrilégios.
E para acabar de vez com toda aquela agitação "absurda" e "incómoda", decidiram apressar o "auto-de-fé".
Entretanto, a primavera atrasou-se e depois de alguns dias quentes, que degelaram parte da crosta de gelo que acorrentava o mar, o frio voltou novamente.
E certa vez, à noite, desabou uma terrível tempestade.
Com ruídos que pareciam tiros de canhão, o gelo partia-se e o vento furioso empurrava sobre a cidade ondas e grandes pedaços de gelo.
A cidade foi inundada com incrível rapidez, mas a desgraça ainda não estava completa.
Naquela mesma terrível noite, um golpe vulcânico levantou levemente o fundo do Lago Ládoca; a água transbordou e as agitadas e espumantes ondas varreram tudo em seu caminho, e, precipitando-se feito larva, alcançaram Petersburgo, inundando-a.
O que aconteceu foi indescritível.
Morreram de imediato algumas centenas de milhares de pessoas e, quando a água baixou, o resto da cidade ficou coberto por uma crosta de gelo que não derretia.
Aquele mesmo golpe vulcânico que transbordou o Lago Ládoca trouxe as geleiras polares que se deslocaram ao longo da costa da Suécia e fecharam o mar Báltico.
Hoje em dia, em todas aquelas localidades, o clima é pior que o dos esquimós e Petersburgo representa um quadro "sui-generis" da cidade de Pompeia sob o gelo, pois, como contam, quarteirões inteiros permaneceram intactos, com seus palácios e grandes edifícios.
Dizem que antes da catástrofe surgiram profetas místicos, que andavam pelas ruas e anunciavam que a criminalidade havia esgotado toda a paciência dos Céus e que os sacrílegos, que ousaram querer queimar todas as relíquias sagradas junto com os outros santuários, morreriam antes de conseguirem realizar seus intentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:13 pm

Tentando convencer os fiéis abandonarem a cidade condenada, muitos deles foram chamados de loucos perigosos, sendo sumariamente assassinados.
Mas em seu lugar vinham surgindo outros, e os fiéis, profundamente impressionados, deixaram a cidade, enquanto que os livres-pensadores e os satanistas ficaram e morreram todos.
Mais tarde, quando os elementos da natureza se acalmaram, alguns dos fiéis visitaram o local do desastre e acharam algumas igrejas e casas ainda intactas.
Como a perseguição à fé ficava cada vez mais insistente e feroz, eles resolveram estabelecer-se definitivamente naquele local inabitável, e lá, aos poucos, formou-se uma pequena comunidade que vive no antigo mosteiro de Neva.
Os crentes reúnem-se lá para rezar, enquanto que os satanistas fugiram da cidade arrasada e, graças a isso, o pequeno rebanho de Cristo vive lá em paz e segurança.
Este relato interessou tanto a Supramati e aos amigos que eles resolveram partir no dia seguinte para visitar os destroços de Petersburgo.
À medida que se aproximavam da cidade morta, o frio aumentava e o quadro da desolação causava profunda tristeza.
Desembarcaram perto do mosteiro de Neva, onde ainda se notavam traços da actividade humana; uma trilha polvilhada com areia levava ao templo, de cuja entrada havia sido tirado o gelo, e das chaminés das residências saíam pequenas fumaças.
Na entrada do templo ardiam dois barris de piche e dentro dele estavam acesos pequenos fornos móveis.
Desta maneira, a temperatura interna, em comparação com a de fora, era suficientemente quente e agradável.
O santuário estava bem limpo e os estragos feitos pela inundação foram sanados na medida do possível.
Junto ao túmulo intacto do santo havia algumas velas acesas e cerca de quinze homens e mulheres.
Ao término da leitura do evangelho, eles começaram a cantar e os magos juntaram-se aos fiéis.
Quando acabaram as orações, os viajantes apresentaram-se e foram carinhosamente aceitos como irmãos e levados á residência para se aquecer e alimentar.
Nos quartos, antigamente habitados pelo metropolita, haviam se instalado algumas famílias. Os outros membros da comunidade acomodaram-se em outros prédios.
Lá estava quente; no grande forno ardia uma chama vivaz e as anfitriãs serviram aos visitantes vinho quente, pão e um prato de arroz.
Após a refeição, a conversa animou-se e Supramati perguntou sobre o tamanho da comunidade e da dificuldade de se viver naquele deserto gelado, entre os destroços e morte.
Um sorriso de satisfação iluminou os rostos dos anfitriões.
- Oh, não! – responderam a uma só voz.
– Aqui é tão bom e calmo, longe dos cruéis sacrílegos.
O trabalho e a prece não deixam perceber o tempo passar e, além disso, temos naves espaciais que usamos para buscar provisões, combustível e outras coisas.
E o frio, na verdade, ainda é suportável.
Os que chegam para cá de outras cidades sentem muito frio, e alguns congelam de vez, por isso quase todos fogem daqui.
Nós e os outros moradores não sofremos com o frio e estamos bem.
Ninguém nos proíbe de celebrar ofícios; foi preservado um santuário, o qual veneramos, e gostamos de isolamento.
Desistimos da vida mundana e nos consideramos mais felizes do que todos os milionários com seus palácios.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:13 pm

- Mas há previsões de uma grande fome.
Como vocês irão sobreviver? – Questionou Dakhir curioso.
- A chama do Senhor arde dentro de nós e vai nos apoiar– replicou inabalável fé um dos anciãos.
Depois desta conversa os magos deliberaram entre si e, em seguida, Supramati perguntou se junto aos limites da comunidade não haveria algum jardim ou pedaço de terra qualquer que tivesse sido antes um jardim ou uma horta.
- Como não?
Restou ainda um lugar que foi o jardim do metropolita, e mais além, atrás do mosteiro, havia antes algumas hortas, mas todas estão cobertas de gelo e neve.
A pedido dos visitantes, os magos foram levados para aquele local e os membros da comunidade viram-nos colocando em baldes com água o conteúdo de pequenos frascos que traziam consigo, regando copiosamente o solo.
A seguir, os magos despediram-se dos hospitaleiros anfitriões, pretendendo na volta visitar a cidade morta.
A nave espacial passava em silêncio ao longo da rua que fora outrora a principal artéria da antiga capital.
A visão era sombria e desoladora.
Em alguns lugares, o lixo e os destroços das casas desmoronadas acumulavam-se nas ruas, deixando-as intransitáveis.
Outros prédios estavam destelhados e pareciam balançar; mas também havia esqueletos ou corpos aparentemente intactos, que pareciam fazer caretas sob a camada de gelo.
Onde quer que fosse o quadro era quase o mesmo; os magos dirigiram sua nave para cima e, profundamente abalados, deixaram a cidade criminosa pela "ira divina".
Uma agradável surpresa aguardava os ermitões da Pompeia glacial.
À noite, após a despedida dos magos, a neve e o gelo que cobriam o jardim e as hortas, desapareceram sem deixar vestígios.
Após alguns dias, começou a brotar uma farta e fresca vegetação e algumas semanas depois as árvores reviveram, esticando ao céu seus ramos viçosos, cobrindo-se em seguida com frutos.
Por todo o lugar desabrocharam flores e nas hortas amadureciam legumes.
Esse cantinho do paraíso vicejava, florescia e exalava aromas agradáveis apesar dos ventos gelados e do deserto glacial em sua volta.
Sem acreditar no que viam, os habitantes deliciavam-se com a visão do milagre e, por dentro, começaram a acreditar que foram visitados pro santos, ou talvez anjos, enviados do alto para diminuir seu fardo e recompensá-los pela fé em Deus.
A visita à cidade morta causou nos magos uma profunda impressão.
Antes de deixar Moscou, Supramati desejou visitar as cavernas subterrâneas, onde se escondiam os fiéis.
Certa noite, eles desceram até as galerias subterrâneas que se encontravam sob um dos antigos mosteiros.
A população ali era pequena, porém diferente.
Numa pequena capela estava sendo celebrada a missa da tarde, oficiada com seriedade e concentração por alguns velhos sacerdotes em trajes brancos.
Debilitados pelo jejum e pela vida de ascetismo, seus rostos eram de palidez transparente e os olhos do mago captaram uma luz azulada que emanava deles e uma fulgente aura que envolvia suas cabeças.
Absorvida pela profunda prece, a multidão de fiéis ajoelhados também transpirava radiações puras, que como nuvem dourada, pairavam sob a abóbada.
Todas as pessoas ali reunidas eram de "outro mundo"; suas almas abriam caminho para o Céu, no qual eles acreditavam.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:13 pm

Os magos e Nivara ficaram de joelhos, fundindo-se em uma única prece com os fiéis e seus olhos vagavam perturbadamente por este abrigo de fé banida.
Ao longo das paredes estavam os túmulos dos santos e cada um deles parecia um lume emitindo feixes de luz dourada.
No momento solene, quando o sacerdote saiu do altar trazendo a eucaristia, um profundo silêncio apoderou-se do ambiente.
Subitamente, a caverna iluminou-se com uma fantástica luz e sob a abóbada soou um canto celestial – um poderoso cântico de fé – e no ar pairavam imagens claras e transparentes como uma névoa alva.
Nesse instante, sobre o cálice envolto em feixes de luz ofuscante surgiu a cabeça de Cristo com a coroa de espinhos.
O rosto Divino possuía uma expressão de profunda tristeza.
Instantes depois, a visão começou a desvanecer-se e somente o cálice continuava a arder uma chama dourada que desapareceu em seguida para o interior do sagrado recipiente.
Uma fervorosa prece de agradecimento elevou-se dos corações dos magos e dos presentes; todos se sentiam felizes como nunca, por ainda restarem lugares na Terra onde o Senhor revelava a sua misericórdia e onde ainda não havia se rompido o contacto entre o Criador e sua obra.
Após a missa, os magos conheceram os fiéis e visitaram a cidade subterrânea.
Narayana apresentou a Supramati o ancião, citado anteriormente, o qual convidou o mago à sua cela – um minúsculo quarto com uma mesa, cadeira, cama e uma imagem da Mãe de Deus.
Oferecendo ao visitante a única cadeira, ele começou a indagar de Supramati sobre o que estava acontecendo no mundo do qual ele se afastara totalmente.
A aproximação do fim do mundo não o surpreendeu nem um pouco, e ele, por sua vez, contou que em Moscou aconteciam coisas estranhas, que indicavam que o Céu estava finalmente farto dos delitos praticados na terra pela humanidade decadente.
Assim, um de seus parentes, que vivia na cidade, contou-lhe que na data em que outrora se comemorava a Páscoa, os demónios ficavam totalmente alucinados e entre os satanistas aconteciam muitos assassinatos suspeitos e casos de mortes repentinas.
Alguns diziam que na noite de Páscoa ouviam-se gritos, lamentos e urros nos templos satânicos, e pelas ruas corriam manadas de asquerosos animais.
Enquanto que nas antigas igrejas, ao contrário, ouvia-se o som de sinos que não mais existiam, sob as abóbadas soavam cânticos, louvando a Ressurreição de Cristo, e do céu caiam milhares de fagulhas.
Durante aqueles fenómenos celestiais, os satanistas ficavam completamente atordoados, escondiam-se e sofriam convulsões.
No dia seguinte, após a visita à cidade subterrânea, Supramati viajou, instruindo Dakhir e Narayana a visitá-lo após o banquete com Shelom.
- Vocês com certeza, encontrarão, na casa muitas coisas interessantes, pois a bela Iskhet pretende seduzir-me – brincou ele.
- Ainda bem que Olga nada sabe sobre as pretensões de tão perigosa concorrente.
Isto poderia estragar toda a sua provação – observou maliciosamente Narayana.
Todos riram e, após apertarem de novo as mãos, separaram-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:13 pm

CAPÍTULO XIII

Alguns dias após sua volta a Czargrado, Supramati recebeu o convite para ir, junto com Nivara, ao banquete no palácio de Shelom.
O convite foi trazido pelo próprio Madim.
No entanto, dessa vez o satanista não estava com aquele seu usual ar de auto-confiança: estava pálido e seu olhar casmurro denotava medo, desconfiança e ódio contido.
Supramati recebeu-o amigavelmente e prometeu ir.
No dia do banquete, bem antes da hora de saída à casa de Shelom, Supramati chamou Nivara ao laboratório e ambos tomaram um banho eléctrico usual.
A seguir, o mago abriu um baú metálico e colocou sobre a mesa diversos objectos retirados.
- Hoje vamos precisar de uma toalete bem especial – disse ele sorrindo e estendendo a Nivara uma malha azul fosforescente que o outro se apressou a vestir.
O tecido fino e extraordinariamente fofo aderiu-se ao seu corpo e, para surpresa de Nivara, parecia irradiar para o corpo um calor.
Nas costas, no peito e também nos flancos havia inscrições a ouro de sinais cabalísticos e fórmulas.
Por cima dessa malha Nivara vestiu um festivo traje azul comum, com cinto de prata, sobre o qual colocou um paletó de veludo, também azul, sem mangas, bordado a prata.
- Não se esqueça do bastão mágico e esconda no cinto este punhal; ele poderá ser útil.
Esteja pronto para tudo, Nivara.
E cuidado, porque tentarão nos liquidar por todos os meios: veneno, serpentes, prisão e vai se saber...
Mas tudo isso não levará a nada.
Pegue mais este anel mágico que poderá iluminar a mais escura das celas e abrir qualquer fechadura, por mais complexa que seja.
Certamente você sabe usá-lo.
- Sim mestre.
Mas o que me intriga é como esse tal de Shelom, detentor de poder tão infernal, pode ignorar que nem veneno nem animal conseguem matar um "imortal".
- Você tem razão.
Apesar do se grande poder maléfico, ele pouco sabe sobre o bem.
O segredo da essência primitiva está cuidadosamente guardado e apesar de que ser desvendado, ele não conhece todas as propriedades e métodos de utilização dessa substância misteriosa.
De qualquer modo, se ele não tem esperança de me matar, então calcula me enfraquecer com o veneno ou através de tentação.
Enquanto conversavam, Supramati vestiu uma finíssima e brumosa malha que brilhava como se fosse urdida de diamantes, reflectindo todas as cores do arco-íris.
Nas costas, nos quadris e também nos braços e pernas, viam-se fórmulas e sinais cabalísticos flamejantes.
No peito, bem no centro da estrela de mago, o cálice dos cavaleiros do Graal parecia arder encimado por uma cruz.
A estranha vestimenta aderiu tão bem ao esguio corpo do mago quanto uma segunda pele.
A seguir ele postou-se no centro de um grande e circular disco metálico, desenhado com sinais cabalísticos, e Nivara ajoelhou-se aos seus pés.
Supramati traçou um círculo com a espada mágica, reverenciou todos os quatro lados e desenhou no ar símbolos luminescentes com a espada, recitando fórmulas para invocar os espíritos dos elementos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:13 pm

As ervas colocadas em três trípodes junto ao disco incendiaram-se subitamente e, por um instante, o laboratório encheu-se de fogo e fumaça.
A cada movimento da espada aparecia uma multidão de seres nevoentos, de cores violeta, vermelha, esverdeada e azulada.
Seus corpos não possuíam contornos definidos; viam-se nitidamente apenas as cabeças, os olhos brilhavam denotando inteligência e grande poder.
Eles ficaram em volta do mago, formando quatro círculos concêntricos, parecendo anéis.
Abaixo de todos estavam os de cor violeta, depois os esverdeados, seguindo-se os vermelhos e finalmente os espíritos aéreos azulados.
- Espíritos dos elementos sob meu comando, ordeno-lhes que me cerquem e me protejam, assim como meu discípulo – proferiu autoritariamente Supramati.
Ouviu-se um surdo ruído, como o do farfalhar das folhas das árvores, e as figuras nebulosas empalideceram e se derreteram no ar.
- Agora a nossa nobre guarda foi avisada e não nos abandonará – afirmou o mago, saindo do disco e prosseguindo com sua toalete.
Ele estava de branco.
Vestia uma malha com um largo cinto de prata, incrustado de diamantes, um, sobretudo de veludo prateado, sem mangas, com abas bordadas com diamantes e uma gravata de uma espécie de renda que já não existia mais.
- Meu Deus! Como você está bonito, mestre!
Admirou-se Nivara, fitando-o.
Supramati assentava o cabelo diante do espelho e não conseguiu conter o riso:
- Não se apaixone por mim no lugar da madame Iskhet.
A visão de dois adeptos apaixonados seria mais curiosa do que o banquete de Shelom – gracejou ele, continuando:
- E agora, para concluirmos os preparativos, só nos resta beber a essência que irá decuplicar as nossas forças físicas e astrais.
Supramati tirou do armário uma caixa entalhada contendo dois frascos, um vermelho e outro azul, e duas taças, uma de prata e outra de ouro.
Encheu a taça de prata com o conteúdo do frasco vermelho:
um líquido vermelho, denso, fumegante e parecido com sangue fresco.
- Esta é para você – e ofereceu a taça a Nivara que a esvaziou de um único gole.
E esta é para mim.
Encheu a outra taça com um líquido azulado e fosforescente.
- Ufa! Agora estou me sentindo capaz de arrancar um carvalho com raiz e tudo! – exclamou Nivara, inspirando o ar profundamente.
- Em vez do carvalho, teste a sua força nisto – propôs Supramati, dando-lhe uma barra de ferro que retirou do canto da sala.
Sem nenhum esforço aparente, Nivara transformou-a numa espiral e comentou todo satisfeito.
- É nada mau, mas eu teria maior prazer em fazer uma espiral do próprio Shelom.
* * *
O palácio de Shelom estava magicamente iluminado.
A grande praça frontal e as ruas adjacentes estavam apinhadas de gente que aguardava a chegada do príncipe indiano.
O hall imenso, bem iluminado, também estava repleto de pessoas bem vestidas e curiosas.
Com a aproximação do mago, a multidão abriu-se e, tomada de uma sensação incómoda, recuou instintivamente.
Supramati subiu calmo e altivo a larga escada coberta por uma passadeira e cercada de estátuas de sátiros e demónios.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:14 pm

De repente, um bonito diabinho de mármore negro que, provavelmente, não estava bem apoiado no suporte, rolou escada abaixo e feriu alguns satanistas que se juntaram num grupo e cochichavam, acompanhando os adeptos com o olhar malévolo.
Na entrada do grande salão, Shelom saudou o mago com mesura:
- Estávamos à sua espera, príncipe.
Todos os convidados já chegaram – disse, respeitosamente, convidando-o a entrar e conduzindo-o directamente a um patamar de alguns degraus no fundo da sala.
Lá estavam três poltronas douradas; no encosto de duas delas havia cabeças de bode, com olhos de rubi, que brilhavam como se tivessem vida, e na poltrona do meio, havia um pentagrama invertido.
Junto a uma das poltronas estava Iskhet, e seus grandes e negros olhos examinavam a esguia figura branca do mago que se aproximava.
A estranha vestimenta da jovem mulher caia-lhe admiravelmente bem.
Em lugar da malha, tão em moda naquele tempo, Iskhet vestia uma espécie de saia com pérolas negras e rubis, a qual descia até os pés, terminando numa larga franja confeccionada com as mesmas pedras.
A cintura, fina e esguia, era cingida por um largo cinto cunhado a ouro e enfeitado de diamantes; do cinto saía um semi-corpete de gaze púrpura, recortado em forma de lua crescente, que descobria os seis levemente encobertos por pingentes de diamantes.
No pescoço brilhava um colar de vários fios que descia em ângulo pelo centro do colo e juntava-se com o corpete.
Os vastos cabelos de Iskhet estavam soltos e envolviam-na como uma capa de seda negro-azulada.
Uma fina argola de ouro juntava as mechas rebeldes e sobre a testa destacava-se um pequeno morcego com as asas abertas – um milagre da arte mundial; o corpinho e as asas do morcego eram feitos de diamantes negros, pérolas cinza e filigranas, e os olhos – de rubis.
A beleza demoníaca da jovem mulher, indubitavelmente, nunca esteve tão ofuscante – era a real encarnação da volúpia em sua forma mais sedutora.
Quando Supramati a cumprimentou respeitosamente, seus olhos negros como a noite, brilharam num fogo abrasador e ela com um sorriso encantador acenou-lhes com a cabeça.
Supramati sentou-se e começou a examinar o salão, cuja mobília, iluminação e os magníficos e pesados cortinados, bordados a ouro, formavam um ambiente estranho e mágico.
Em compensação, a multidão que ali se juntou, pela expressão bestificada dos rostos, indecência geral da raça decadente e inédita imoralidade das vestimentas, parecia repelente ao mago.
Perto dele sentaram-se Nivara e Madim.
Ao sinal de Shelom teve início o primeiro número do espectáculo.
Ouviu-se um canto estranho e selvagem e de duas entradas laterais apareceram grupos de dançarinos.
Todos estavam nus, enfeitados somente por colares, cintos e diademas de pedras preciosas; as mulheres usavam largas echarpes de gaze e os homens seguravam leques de seda.
A luxuria da dança que executavam estava além de qualquer imaginação.
Um tremor de asco passou pelo corpo de Supramati, mas a sua vizinha causava-lhe uma sensação de dor ainda maior.
Dizem que os opostos se atraem e neste caso, com em confirmação deste paradoxo, o máximo de virtude atraía o máximo de voluptuosidade.
Sem prestar atenção ao espectáculo, Iskhet devorava com os olhos o rosto tranquilo e belo do mago e o seu perfume leve e suave embriagava-o.
Ela sentia que jamais havia encontrado um ser tão atraente e, em comparação com ele, Shelom parecia repelente e sujo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:14 pm

Ela já não necessitava de nenhuma ordem para fazer uso de sua arte diabólica para seduzir aquele homem que lhe agradava como ninguém; o seu porte despertava nela todos os desejos impuros.
Supramati percebia a desordenada influência da tempestade de sentimentos animalescos que se desencadeava a seu lado, mas a límpida serenidade de seu rosto não revelava os seus pensamentos.
Para ele era até divertido observar o temor de Iskhet, tentando esconder de Shelom a comparação que fazia entre ambos, receando, provavelmente, algum impiedoso castigo como consequência.
O olhar soturno do terrível anfitrião passava por ele, tentando adivinhar a impressão que o convidado tinha do espectáculo e dos olhares ardentes da vizinha.
As danças exaltaram os ânimos dos convidados; sussurros apaixonados, risos e gritos histéricos soavam de diferentes partes do salão, os rostos enrubesceram e os olhos brilharam.
Quando os dançarinos saíram, diante do patamar foi estendido um grande tapete e entrou um homem de meia-idade, vestido de negro, tendo sobre a cabeça um lenço comprido em forma de turbante.
Parando no centro do tapete, dois homens colocaram diante dele um instrumento parecido com uma harpa de diferente fabricação.
Ele começou a tocar, acompanhando uma estranha canção, com modulações vibrantes e estridentes como silvos cortando o ar.
Aos poucos, tudo ficou envolto por uma névoa avermelhada.
De chofre, ouviu-se um silvo, acompanhado de um estalido e, de todos os lados, surgiram serpentes de diferentes tamanhos, arrastando-se entre as fileiras dos convidados assustados.
Mas as víboras não prestavam nenhuma atenção à confusão formada, dirigindo-se directo para o tapete, onde cercaram o músico e, levantando-se sobre a cauda, começaram uma característica e terrível dança; seus olhos brilhavam com luz fosforescente e das bocas abertas gotejava uma espuma esverdeada.
A excitação dos répteis era excessiva, mas o vapor que pairava no ar condensou-se rapidamente e despejou sobre o tapete outra quantidade numerosa de cobras.
As que apareceram primeiro, ao verem as recém-chegadas, enfureceram-se e atacaram-nas.
Os corpos delgados enroscavam-se, suas línguas pontiagudas surgia e desapareciam.
Nesse instante, aconteceu algo horripilante.
As cabeças das cobras que apareceram do ar transformaram-se em cabeças humanas e começaram a assobiar a melodia dilacerante que se fundia com o assobio estridente das cobras terrenas.
A seguir alguns homens arrastaram até lá um rapaz e uma moça aterrorizados, jogando-os no monte de víboras.
Os répteis se desenroscaram rapidamente e atacaram as presas ofertadas.
Neste momento, Supramati levantou a mão.
Do seu anel mágico ao virar a pedra para cima, saíram feixes de fagulhas; e encantamentos curtos pronunciados com voz sonora, encobriram o ruído existente no salão.
As víboras caíram por terra como se fulminadas por um raio, ficando imobilizadas por alguns instantes; acto contínuo, as duas espécies de répteis partiram em ataque ao estupefacto feiticeiro, derrubaram-no e começaram a sugar-lhe o sangue; ao contrário das cobras terrenas, que se arrastaram para fora do tapete e se dirigiram para Supramati.
À frente vinha uma enorme serpente de escamas esverdeada que, ao aproximar-se do patamar, se empinou sobre a cauda e colocou aos pés do mago uma reluzente pedra azulada que trazia na boca.
Este fez com a mão um gesto amigável e, à meia-voz, pronunciou algumas palavras estranhas, aparentemente entendidas pelo animal que começou a se arrastar de volta, dando um assobio estrídulo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:14 pm

As outras cobras, como se estivessem obedecendo a este sinal, voltaram e dispersando-se para todos os lados, desapareceram.
Neste ínterim, sobre o tapete surgiu um redemoinho de fumaça.
Em seguida, um surdo ruído de vento ouviu-se no salão e tudo silenciou.
No chão estava caído o cadáver do feiticeiro e as suas duas vítimas haviam desaparecido.
Tudo isso, que levaria muito tempo para descrever, aconteceu em poucos minutos e toda a massa de convidados emudeceu apavorada.
O próprio anfitrião estava atónito e se sufocava de ódio; somente Iskhet olhava para Supramati com apaixonada admiração.
- Não fica bem, príncipe, alterar a ordem da casa de outrem com truques fora da programação – pronunciou Shelom, com voz rouca, um minuto após, com os olhos brilhando raivosamente.
- Desculpe, senhor Shelom, eu não me permitiria interromper isso, se todos os participantes do espectáculo fossem seus súbditos; mas considero minha obrigação defender os membros do meu rebanho sempre e em qualquer lugar – refutou Supramati com a sua soberba tranquilidade.
Shelom mordeu os lábios, mas, dominando-se, retrucou com desprezo:
- Sob este ponto de vista, você tem razão, e por isso, príncipe, vamos continuar com a programação da festividade e ouvir o concerto que preparei em sua homenagem.
Enquanto dialogavam, o tapete e o cadáver tinham sido rapidamente removidos e o lugar foi ocupado por uma orquestra de sessenta músicos e vinte cantores.
Os músicos traziam violinos, violoncelos e algumas flautas; todos eram repugnantes e seus rostos traziam as marcas de todos os vícios e paixões animalescas.
- Você está vendo diante de si uma orquestra arcaica, já que semelhantes instrumentos foram há muito tempo descartados pela nossa arte musical.
Mas como vocês "imortais" contam os séculos como as pessoas contam os anos, pensei em agradá-los com um concerto à moda antiga – revelou Shelom e o seu frio e irónico olhar fixou-se nos olhos azuis do mago.
Este em sinal de concordância anuiu somente com um aceno de cabeça, pois, naquele momento, os cantores entoaram uma canção bacante, ao final da qual a orquestra iniciou a sua música realmente infernal.
Soube-se que as cordas dos instrumentos foram feitas de intestinos humanos, mais exactamente de mulheres e crianças torturadas com a máxima crueldade até à morte.
Até mesmo a inabalável e blindada alma de Supramati estremeceu ao ouvir os sons e deparar com a visão espiritual que se abriu diante dele.
Lá, entre nuvens de névoa avermelhada, giravam em remoinho os corpos esguios das larvas e diversas criaturas, com olhos cobiçosos e lábios sangrentos, e, no meio deles, em impotente indignação, contorciam-se os corpos das vitimas martirizadas.
A música infernal continuava, os sons gemiam, berravam e choravam.
Nessas terríveis, mas expressivas melodias – executadas sem dúvida, por grandes artistas – ouvia-se toda a gama de sofrimentos humanos, desde a furiosa blasfémia até o soturno desespero do impasse.
Nivara tingiu-se de uma palidez cadavérica, da sua testa escorria suor e até o límpido e sereno olhar de Supramati ficou sombrio.
Realmente, tudo o que estava acontecendo ficava cada vez mais repulsivo e revoltante.
Os animais-servos serviram aos convidados taças cheias de sangue fresco.
Também Shelom e Iskhet esvaziaram prazerosamente as taças com a bebida medonha, inspirando gulosamente os miasmas contaminados que enchiam o ar, e deixando-se penetrar pelos embriagantes aromas destinados a excitar os sentimentos eróticos.
No salão, começou então a elevar-se um vapor avermelhado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:14 pm

A manada humana, reunida naquele palácio, então enlouqueceu e o que ocorreu em seguida no meio dos presentes – foi indescritível...
Os olhos ardentes de desejo animalesco também estavam voltados para o patamar.
Supramati provocava desejos luxuriosos e os seres decadentes, que se sujeitavam a todas as formas de lascívia, não entendiam como podia ele ficar impassível entre tantas tentações da carne – um homem bonito e além do mais jovem, a encarnação da força viril e de exuberante saúde.
Também causava surpresa o facto de Iskhet e Shelom, que habitualmente participavam de todos os eventos da orgia, permaneciam apenas como espectadores.
Mas para aquela turba, que ansiava por sangue e devassidão, não havia nenhum freio e, logo, um grupo de mulheres – sempre mais sequiosas tanto para o mal, como para o bem – abriu caminho até o patamar e, após um instante de hesitação, começou a galgar seus degraus com habilidade felina.
Pouco havia de humano nos seus rostos inflamados, olhos ardentes e respiração ofegante.
Uma das bacantes caiu como uma flecha aos pés de Shelom, começando a beijar seus joelhos, e outra se pôs a abraçá-lo.
Respirando com dificuldade nesta densa e contagiosa atmosfera e estremecendo de aversão, Supramati afundou-se na poltrona, olhando para o chão.
As outras devassas já estavam prontas para se atirarem sobre ele, mas Iskhet levantou-se de um pulo, em sua mão surgiu um estilete e ela desferiu um golpe no peito de uma das mulheres, o que fez as outras debandarem.
Sem dar qualquer atenção á sua vítima caída, esvaindo-se em sangue, Iskhet correu para Supramati, fora de si de paixão e ciúmes, enroscou-se nele como uma cobra e tentou encostar seus lábios nos dele.
O mago não se moveu, mas, no mesmo instante, Iskhet foi repelida, parecendo ter sido atingida por um choque eléctrico, caindo desfalecida nos degraus.
Shelom levantou-se e proferindo repulsivos palavrões afastou violentamente as duas mulheres como se fossem cobras.
Depois, debruçando-se sobre Iskhet, levou ao seu nariz um frasco que tirou do cinto.
Com o rosto marmóreo, traços de camafeu e formas maravilhosas, ela parecia uma fantástica estátua.
Alguns minutos depois, ela começou a se mexer e gemeu baixinho.
Shelom fez um sinal e algumas mulheres a levaram embora.
Houve um silêncio momentâneo.
Sombrio, como uma nuvem de tempestade, Shelom ficou pensativo, apertando com a mão trémula o cabo do punhal em seu cinto.
No salão, a orgia continuava excitada pelos violinos da orquestra infernal.
Supramati procurou Nivara com os olhos e percebeu que ele mal conseguia se livrar das mulheres e homens que o cercavam, tentando obrigá-lo a beber uma taça de sangue e participar da orgia.
Supramati concentrou-se; um raio de luz brilhou de seus olhos qual um foguete e voou em socorro do fiel discípulo, derrubando as pessoas semi-animalescas que assolavam Nivara.
Shelom estremeceu de ódio e, se Supramati não fosse "imortal e mago", o olhar abrasador que lhe foi dirigido o teria derrubado mortalmente.
Um instante após, Shelom levantou-se e avaliou, com voz rouca.
- Estou percebendo, príncipe, que a sua presença está perturbando a diversão dos meus convidados e, portanto, proponho que me acompanhe até a sala vizinha, onde poderemos conversar à vontade.
Supramati se levantou sem contestar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:14 pm

Eles passaram pelo meio da turba exasperada e entraram numa pequena sala preparada, aparentemente, para um jantar íntimo, pois a mesa estava posta somente para dez pessoas, mas com requinte de realeza:
os pequenos bufês estavam cheios de frutas, doces e vinhos.
Pelas amplas e entalhadas arcadas, via-se uma série de quartos com mesas postas para banquete com o qual deveria ser encerrada a festa, após o sacrifício a Satanás.
Shelom levou Supramati até a poltrona, sentou-se em frente e estendeu-lhe uma travessa com carne assada.
- Agradeço – recusou Supramati -, não se esforce em regalar-me, Shelom.
Os lábios de um mago não podem tocar o seu alimento impuro, assim como seus olhos não podem admirar a horrível orgia que você preparou para mim.
Eu poderia parar este espectáculo infame e destruir os seres imprestáveis que você chama de convidados, mas não quero usar armas contra você em sua própria casa.
Além do mais, ainda não chegou a hora de nossa batalha.
Aliás, não destrua Iskhet, sua horrível companheira; as tentativas dela de me possuir são inúteis e você deveria saber que os voluptuosos e picantes atractivos femininos já não tem poder sobre mim.
Eu só posso amar a beleza espiritual.
Shelom mediu-o com o olhar sombrio.
- Você é um homem de carne e osso e as coisas humanas não lhe são alheias; você deve sentir todas as fraquezas humanas.
Como a beleza e o amor são impotentes diante de você, se o seu sempre jovem organismo está cheio de vida e forças?...
Neste instante, chegou Madim trazendo numa pequena travessa uma taça de vinho que foi oferecida a Supramati.
Este pegou a taça, mas, quando a colocou na mesa, o líquido começou a soltar fumaça, incendiou-se e queimou em chamas coloridas.
- Serviram-me veneno; portanto, prezado anfitrião, permita-me responder-lhe com as próprias palavras que acabou de proferir:
"não fica bem oferecer veneno a um convidado e a tentativa de assassinato não constava do programa de seu convite".
Shelom rugiu de fúria e seu rosto contorceu-se num espasmo.
Instantaneamente, ouviu-se um leve ruído e a poltrona de Supramati começo a cair com velocidade estonteante, deixando-o surpreso, pois não sabia se caia num abismo ou num poço.
Quando a queda parou, Supramati deu-se conta de que estava numa ampla sala circular, fracamente iluminada por lâmpadas vermelhas.
Mal ele se levantou da poltrona e esta voou celeremente de volta para cima.
Ele não deu importância ao facto e examinou o ambiente.
No meio da sala havia somente um sofá, uma poltrona e uma mesa sobre a qual estava colocada uma grande bacia de prata com sangue; nas paredes, em doze nichos apareciam estátuas de demónios em poses indecorosas, enquanto que nos suportes queimavam ervas, exalando um odor cáustico e pesado que provocava um frenesi erótico.
Por todos os cantos, viam-se caras repelentes de larvas materializadas, lisas, inchadas de sangue consumido, tomadas de paixão animalesca e prontas para atacarem o mago, somente sendo contidas pelos espíritos dos elementos.
Estes, entretanto, estavam muito debilitados pelas emanações contagiosas da casa e, não obstante, lutavam bravamente.
Supramati, aliás, também se defendia por conta própria.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:15 pm

Com a sua poderosa vontade, que poderia deslocar rochas de granito, ele esvaziou prontamente os nichos jogando ao chão as estátuas que se quebraram em pedacinhos.
Em seguida, da sua mão levantada surgiram labaredas de fogo que eliminaram o sangue na bacia e apagaram as trípodes com as ervas.
Por fim, uma chuva de faíscas caiu sobre as larvas, fazendo-as gritar e gemer, e derreteu-as rapidamente.
O sangue consumido saía de suas entranhas num vapor vermelho de cheiro nauseabundo.
Finalmente, elas desapareceram, como se houvessem entrado na parede, e, por alguns minutos, o subterrâneo ficou em completo silêncio.
Mas Supramati sabia que isso era somente uma pequena trégua.
Uma porta oculta na parede abriu-se silenciosamente e surgiu Iskhet – a última tentação do mago.
Estava nua e somente a exuberante juba de cabelos negros cobria-a como um manto.
Ela parou a dois passos de Supramati, devorando-o com os olhos; seu corpo, de formas magníficas, tremia de paixão.
- Infeliz o que você quer de mim?
Tome cuidado ao se aproximar, pois a minha pura chama interior poderá queimar o seu corpo envenenado de vícios – pronunciou severamente Supramati.
- O que eu quero?
Eu quero você.
Você é maravilhoso, como uma ilusão encantadora...
Amo você e o desejo tanto, como a nenhum outro homem na minha vida, e você deve me pertencer!
Jamais mortal algum resistiu aos meus encantos e você não será o primeiro...
Ela abriu rapidamente um frasco que trazia na mão e derramou em volta de si o conteúdo.
O ar pareceu incendiar-se e as paredes do subterrâneo estremeceram como numa explosão de dinamite.
Os espíritos dos elementos, afectados pelo choque, empalideceram e sumiram pela acção dos miasmas venenosos, deixando Supramati desarmado.
Iskhet, que o observava com os olhos inflamados de paixão, aproveitando este momento, jogou-se sobre ele, abraçou-o e, num acesso de loucura, enfiou os dentes aguçados em sua mão.
Neste instante, as larvas surgiram novamente e acudiram Iskhet, envolvendo Supramati e tentando derrubá-lo.
Entretanto, eles subestimaram as forças do mago, que, com a velocidade de um relâmpago, concentrou a sua poderosa vontade e livrou-se rapidamente de todas as víboras, arremessadas para todos os lados.
Levantando as mãos, Supramati pronunciou um encantamento, e Iskhet, que se agarrava a ele, foi levantada no ar e caiu sobre as lajotas.
Neste átimo, Supramati estava maravilhoso e terrível.
Puro e límpido, o olhar luminoso, ele estava parado como um feixe de luz, pois de cada poro de seu corpo saía um fogo interior e nesta chama pura apareceram novamente os espíritos dos elementos que adquiriram forças renovadas, cercando-o novamente.
Um ziguezague de fogo correu pelo subterrâneo e desabou sobre Iskhet que ainda jazia no chão.
- Criatura inútil – trovejou a voz de Supramati.
Como castigo pela sua ousadia, você ficará cega e muda até o dia em que desejar por si própria ver a luz da verdade e do arrependimento.
E nenhum senhor do inferno poderá lhe devolver a visão e a palavra.
Um instante depois, o ribombar do trovão sacudiu o prédio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 7:15 pm

Uma lufada de vento agitado passou pelo subterrâneo, levado pelos espírito dos elementos,
Supramati elevou-se para a superfície, e após alguns minutos já estava em seu laboratório.
Um pouco mais tarde chegou Nivara, descorado, com hematomas por todo o corpo e roupa rasgada, mas com ar triunfante.
- Oh, mestre! – Exclamou.
Agora já posso dizer que escapei do inferno.
Só uma coisa me preocupa:
parece-me que acabei com uns vinte satanistas; enfim, não calculei direito e os choques eléctricos foram muito fortes.
- Você agiu no seu direito de legítima defesa.
Quem encosta-se a um aparelho eléctrico deve aguentar as consequências.
Mas não se preocupe, Shelom irá ressuscitá-los.
Já eu fiz algo mais cruel.
Para castigar Iskhet, tirei-lhe a visão e a fala e nem Shelom conseguirá curá-la, pois ela ousou tocar em um mago.
Mas chega de falar nisso.
Precisamos tomar um banho rapidamente para limpar-nos e lavar as nossas roupas, pois estamos cheirando a carniça.
Uma hora mais tarde os dois adeptos se sentaram para um frugal jantar.
- Mestre, o que fazer com as duas vítimas salvas por você?
Apesar de estarem em seu palácio, elas não são cristãs.
- Não, elas são indiferentes a qualquer credo.
Entretanto, os acontecimentos de hoje certamente curaram-nas do satanismo e assim tentaremos convertê-las.
Na grande batalha que se aproxima serão exactamente estes "indiferentes" os mais fáceis de converter.
Como você sabe, Shelom prepara um duelo ocultista comigo; lutas semelhantes acontecerão em todos os lugares, pois os satanistas começarão a desafiar os nossos irmãos e isso é muito bom.
O orgulho dos filhos de satã força-os a esse combate ousado, no qual eles certamente serão derrotados.
Nós contamos com esta derrota para realiza inúmeras conversões.
- Vai ser um espectáculo curioso! – obtemperou Nivara.
- Demasiado curioso e instrutivo.
Todo o mal acumulado por séculos entrará na arena para testar o seu poder.
E ai daqueles que pervertem a multidão e a empurram para o mal.
Eles estarão todos reunidos aqui e o seu primeiro castigo será o aniquilamento total do seu orgulho diante do poder do Criador e a revelação de toda a fraqueza do seu suposto poder.
Cegos! Eles imaginam que todo o interesse do universo está concentrado nesta partícula que vagueia entre biliões de partículas semelhantes e gigantes planetários deste infinito, onde todos saúdam a glória e a sabedoria do Criador.
Se eles pudessem perceber toda a sua insignificância e como são extremamente ridículas as suas tempestades numa gota d‘água, então eles se sentiriam envergonhados e com pena de si próprios.
Quem conduz os cegos à morte com suas acções é sempre algum dos "grandiosos" e famigerados sacrílegos e apóstatas de Deus, que numa raiva impotente lhe declara guerra e desfaz das suas leis.
E este apóstata, cheio de orgulho, pretendendo ser mais sábio do que Deus e invejando a gloria de Cristo, será que ele, em algum momento, esteve em condições de opor-se às leis cósmicas?
Poderia ele parar uma tempestade ou afastar a morte?
E quando este rebelde, vencido pelo terrível e desconhecido poder, for colocado no leito da morte, seus lábios que pronunciaram tantas palavras sacrílegas se calarem por ordem divina, e seu corpo for nada mais do que um pedaço de carne destinada à decomposição, aí então todos perceberão como era fraco, insignificante e lastimável tudo aquilo que eles consideravam "grandioso".
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:42 pm

CAPÍTULO XIV

Assim que Shelom e Supramati deixaram o salão, o banquete tomou rapidamente um novo rumo.
Os sacerdotes satânicos entraram, trazendo um grupo de homens.
Mulheres e crianças amarradas.
Sob gritos histéricos da turba enfurecida, os prisioneiros foram arrastados até a estátua de Satanás, localizada no fundo do salão, e sangrados, recolhendo-se o seu sangue em enormes bacias metálicas.
Quando Shelom retornou ao salão, sentando-se no trono, os sacerdotes satânicos principiaram a recitar encantamentos mágicos reunindo e materializando larvas de ambos os sexos para a orgia.
Shelom, entretanto, não quis participar, pois há muito estava cansado de tudo que pudesse ser inventado pela mais desenfreada depravação.
Com o olhar impiedoso e indiferente, ele observava as vítimas nos últimos estertores, vomitando maldições e ofensas; a dança infernal que se realizava diante dele também não o atraía.
Ele somente se comprazia em esvaziar as taças de sangue servidas, sem conseguir matar a sede que o atormentava.
De repente, aconteceu algo inesperado.
Um terrível trovão estremeceu o palácio, o suporte da estátua rachou e o ídolo caiu no chão com estrondo, esmagando os que estavam parados a seus pés.
No mesmo instante, uma luz cegante brilhou como um raio e uma rajada de vento puro – corrente dos quatro elementos - passou pelo salão derrubando Shelom e os invocadores satânicos.
Instantaneamente, todas as tochas se apagaram e de todos os lugares se ouviram rugidos, gemidos e gritos de desespero – as larvas atacaram a multidão, pois seus invocadores perderam temporariamente o poder sobre os monstros que conjuraram das trevas.
Shelom foi o primeiro a sair da estupefacção.
Levantou-se celeremente, espumando de ódio, recitou poderosíssimos encantamentos mágicos e, com seu poder incontestável, acudiram demónios a seu chamado e reacenderam o fogo.
Depois, ele espantou as larvas usando descargas eléctricas e só então examinou o campo de batalha em que havia se transformado o salão.
Muitas pessoas foram estraçalhadas e seus restos ensanguentados se espalhavam pelo piso; muitos dos sacerdotes luciferianos também foram mortos e jaziam no chão com profundas feridas no pescoço.
Berrando, rugindo e aos empurrões, a turba assustada correu para a saída, mas o ameaçador chamado de Shelom deteve-os.
Ele sufocava com o pensamento de que os convidados postos para correr pelo poder do mago, convencidos da sua derrota, tentavam salvar-se fugindo do palácio.
Mal teve tempo de se recuperar para pronunciar um discurso condizente com a situação, quando no salão irromperam algumas mulheres junto com Madim – o horror estampava-se em seus rostos.
Pálido e transtornado, Madim informou ao seu senhor que Iskhet fora encontrada desfalecida no subterrâneo, mas o mais terrível é que ela estava envolta por uma névoa azulada que não permitia a aproximação de ninguém.
- É o maldito fluído do mago – cochichou Madim.
Shelom ficou estarrecido por instantes, mas esforçando-se para recuperar o autodomínio, gritou roucamente:
- Sangue! Preciso de sangue para um banho!
Correram para os reservatórios, mas estes estavam vazios e o sangue recolhido das jarras não foi suficiente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:42 pm

Shelom saltitava de fúria, mas inesperadamente, ao ver perto dele um homem jovem e forte, agarrou o punhal e enfiou-o em sua garganta.
Com o sangue que correu em abundância encheram alguns grandes recipientes, no entanto nada mais poderia conter a multidão em fuga.
Sabia-se que em momentos de fúria, ninguém, nem mesmo o mais íntimo, estava a salvo do punhal de Shelom, e mesmo que o assassinato tivesse se tornado algo comum que não despertava a atenção de ninguém, cada um queria salvar a própria pele.
Shelom não deu importância ao rápido desaparecimento de seus convidados.
Acompanhado por Madim e pelos carregadores de sangue, ele desceu ao porão, onde Iskhet ainda jazia imóvel.
Quando a molharam com sangue ainda quente, a névoa azulada desapareceu por completo e já se podia tocá-la.
Assim, levaram-na aos seus aposentos.
Shelom mandou preparar um banho, despejou na banheira alguns preparados de odor forte e lá deitou Iskhet, ainda paralisada.
As mulheres saíram e Shelom ficou a sós com o secretário.
O corpo de Iskhet estava cheio de queimaduras, e, estranhamente, duas faixas de luz branca cobriam como ataduras seus olhos e boca.
- Eu lhe avisei e implorei para não desafiar o mago.
Ele possui um terrível poder.
Veja os ferimentos de Iskhet!
- Vou curá-la imediatamente – retrucou Shelom, com uma ponta de orgulho.
Madim balançou a cabeça.
- Você se esquece de que estas queimaduras não são comuns.
Elas foram provocadas pelo fogo celestial que o ermitão do Himalaia possui.
Madim acertara.
Nem encantamentos nem remédios mágicos ajudaram e, ao contrário, só aumentavam as feridas.
Por fim, os gemidos e espasmos de Iskhet indicaram que ela voltava a si.
Aprumando-se com esforço ela gesticulou indicando que queria escrever.
Madim trouxe imediatamente lápis e papel e Iskhet, com a mão trémula, rabiscou:
- "Ele me deixou cega e muda; não consigo ver e nem pronunciar uma palavra.
Salve-me, Shelom; se você é tão poderoso quanto ele, devolva-me a visão e a fala".
E acometida por novas convulsões, ela voltou a deitar-se.
* * *
A partir daquele dia, começou uma feroz batalha entre as forças do inferno e a vontade do mago.
Shelom empregava em vão todos os seus esforços e conhecimentos, invocando poderosíssimos demónios e convocando os mais destacados sábios luminares do satanismo; todos os esforços se dissolviam contra a inquebrantável vontade de Supramati.
Desanimada, indiferente a tudo e sofrendo dores torturantes, Iskhet permanecia deitada, cada dia mais só.
As visitas de Shelom à sua rainha ficavam cada vez mais raras; na presença dela, dominava-o uma estranha, obscura e antagónica irritação, além de torturante consciência da própria impotência.
E como Iskhet não podia mais participar das festividades, sua beleza murchou, o seu corpo perdeu a flexibilidade e seu aposento, no silêncio mortal do quarto vazio, iluminado somente por uma lamparina vermelha diante da estátua de satanás, a alma de Iskhet passava por todas as fases de fúria impotente, indignação e desespero: ela começava a duvidar do poder absoluto de Shelom. O ?outro? fechou os seus impudicos olhos e calou os lábios blasfemos e nem o próprio satanás conseguiu abri-los...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:43 pm

Certa vez, pareceu-lhe ver que ao longe se agitava uma nuvem luminescente envolvendo a cabeça de Supramati, olhando-a com severidade e tristeza.
Ele castigou-a cruelmente; e, mesmo assim, a sua lembrança perseguia-a e aos poucos, em algum lugar do mais profundo do seu ser, algo começou a acordar, agitando-se como um passarinho contra as grades de sua gaiola.
Quiçá fosse a herança do Céu, aquela indestrutível e divina realidade com a qual é criada a alma, e que cansada das trevas anseia por liberdade e luz, anseia por algo que é terrível e desconhecido para a criminosa criatura que passou toda a sua vida mergulhada na imundície moral.
Uma vez, à noite, quando Iskhet meditava sobre a própria vida passada em crimes e embriagada pela devassidão, sentiu pela primeira vez uma repugnância por este passado e, imediatamente, a escuridão que a envolvia iluminou-se por uma suave e azulada luz e neste fundo cegante delineou-se nítido o belo rosto do mago; seu olhar luminoso parecia cair sobre ela como um cálido e perfumado orvalho, aliviando a torturante dor.
Admirando este quadro, a paciente distraiu-se e, quando a visão desapareceu, duas lágrimas quentes correram pelo magro rosto de Iskhet.
Neste instante, pareceu-lhe que diante dela postou-se o demónio, cuja estátua enfeitava seus aposentos, e cujos olhos vigiavam a sua alma condenada.
Agora, estes olhos vermelhos olhavam-na furiosa e maldosamente, mas... que estranho! – ela não sentia medo algum.
A visão desapareceu após um cascalhar infernal do demónio derrotado.
Na medida em que Iskhet mergulhava cada vez mais fundo no seu mundo interior, ficavam menos suportáveis até as raras visitas de Shelom.
Certa vez, quando serviram sangue fresco, ela rejeitou-o dizendo que este estava com gosto ruim e cheirava a podre; em troca pediu leite e frutas.
As mulheres que a serviam, estupefactas e raivosas, queixaram-se a Shelom sobre as manhas dela, afirmando que o sangue servido era fresco, de criança recém-abatida.
E que para elas era muito desagradável entrar nos aposentos da paciente, pois, depois do que aconteceu, lá frequentemente havia um insuportável odor de flores ou de perfume que provocava náuseas.
Shelom ouviu taciturno este relato e cerrou os punhos; em resposta, ordenou secamente que, se ela não queria sangue, que lhe dessem frutas e água.
Mas, a partir deste dia, ele praticamente deixou de visitar a paciente e as antigas amigas abandonaram-na completamente.
Não raro, por dias inteiros, não lhe davam comida e muitas vezes ela passa sede, mas Iskhet nada exigia e a ausência da sua corte satânica causava-lhe um indescritível bem-estar.
Iskhet absorvia com calor crescente o silêncio e a meditação; explorando o seu ser interior, ela se questionava e não encontrava as respostas que tanto queria obter.
Por vezes, parecia-lhe ouvir uma doce e harmoniosa música inaudita, ou sentia um suave e revivificador aroma.
Nestes momentos Iskhet se sentia triste e preocupada, todo o seu ser ansiava por algo que não entendia, mas que queria cada vez mais, e que lhe parecia um abrigo, um tranquilo e pacifico porto seguro.
Certa noite, quando novamente lhe afluíram tais pensamentos, ela teve a impressão de ter visto brilhar uma luz ofuscante e à pouca distância dela apareceu Supramati, como se fosse real.
Em sua mão levantada fulgia aquele símbolo contra o qual tão ferozmente lutavam seus irmãos luciferianos:
a cruz resplandecente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:43 pm

Ao vê-lo, Iskhet sentiu uma terrível dor; pareceu-lhe que seu corpo ardia e tudo nela estava se rompendo em pedaços.
De repente, ela desceu da cama, caiu de joelhos e uma torrente de lágrimas inundou seu rosto.
- Oh!
Ouviu-se com sofreguidão do fundo de sua alma dilacerada.
– Quem me poderá dizer onde está a verdade:
nas trevas ou na luz?
O olhar luminoso do mago parecia denotar tristeza e compaixão.
- Volte para a luz com a qual você foi concebida, faísca divina e sopro do Criador.
Junto ao Pai Celestial aguarda-a somente a misericórdia e o perdão.
Bata na porta sempre aberta do arrependimento e os puros servos do Criador se aproximarão de você, e irão tirá-la da imundície, irão limpá-la da desonra e substituirão os seus andrajos por alvas vestimentas.
Iskhet ouvia encantada esta harmoniosa e indescritivelmente serena voz; seu som pareceu envolver-lhe o sofrido corpo com um bafejar vivificador.
Entrementes, à sua volta, começava uma verdadeira tempestade.
De todos os lugares surgiam seres repugnantes, monstros, semi-humanos, semi-animais, com a boca coberta por uma fétida espuma.
No ar ouviam-se rugidos, assobios e toda a turba cercaram Iskhet, ameaçando-a e pronta a atacá-la, mas sendo contida por uma força invisível.
Ela parecia nada ver nem ouvir; toda a sua alma aconchegou-se à cruz que o mago lhe estendeu.
De repente, a porta se abriu ruidosamente e Shelom irrompeu no quarto como um furacão.
Ele estava positivamente terrível, com o rosto distorcido e deformado pela ferocidade, espumando pela boca, os olhos injectados de sangue e rugindo feito animal.
- A! A desprezível renegada!
Você resolveu adorar aqui o ermitão do Himalaia, adorar aquele a quem deve amaldiçoar e pisotear.
Sua infeliz e imprestável!...
E nem pense fugir de mim.
Por sua traição e blasfémia contra Lúcifer, pagará com a vida...
Ele sacou rapidamente o punhal, derrubo-a e feriu-a no peito.
Em seguida, levantando Iskhet com a leveza de uma pena, ele levo-a até a janela, abriu a jogou Iskhet para fora, rindo diabolicamente e gritando:
- Isto é para você!
Esfrie na rua com os ossos quebrados e seja a primeira mártir do miserável hindu.
Mas, estranhamente, uma corrente de vento apanhou Iskhet no ar, sustentou-a e deitou-a no chão a certa distância do palácio.
O sangue corria torrencialmente da ferida, mas Iskhet ainda estava viva; teve forças até para levantar e tentar andar às apalpadelas.
Dando alguns passos cambaleantes ela apalpou uma parede e encostou-se na mesma.
- Maldito filho de Satanás!
Vou abandoná-lo e começarei a adorar aquele a quem você odeia e insulta – dizia ela por dentro.
Sentindo-se novamente fraca, ela ajoelhou-se e de sua sofrida alma irrompeu uma fervorosa prece ao Eterno.
- Deus, todo-poderoso, Cujo nome eu maldizia e Cujas leis profanava, perdoe meus pecados.
E Você Jesus, Filho celestial de Deus, compadeça-se de mim e me salve com a força da Sua cruz!...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:43 pm

As lágrimas caiam em torrentes pelo rosto e, de repente, alguém pegou na sua mão, ajudou-a a levantar-se e sustentou-a com cuidado.
Iskhet pensou que estava morrendo.
A ferida ardia em brasa e as forças a abandonavam; ela enfraquecida, mas não perdia a consciência.
Um braço forte sustentava-a e praticamente a carregava levando-a rapidamente para algum lugar.
Ela sentia que subia degraus e finalmente entraram num quarto cheio de um aroma vivificador.
Seu guia parou e ouviu-se uma voz melódica que ela reconheceu imediatamente, mesmo tendo-a ouvido uma única vez.
- Você quer renegar todas as suas ilusões, cortar ligações com o inferno, purificar a alma com prece de arrependimento e adorar a cruz, símbolo da eternidade e salvação?
Iskhet fez um esforço para responder, mas neste instante sentiu a sua língua destravar-se e exclamou alegremente.
- Sim eu quero! Eu quero.
Ela estendeu as mãos e, sentindo um apoio, encostou a cabeça.
De repente, uma torrente de fogo passou por ela e abrindo bem os olhos ela entendeu que a sua visão tinha voltado.
Ela estava parada aos pés de um grande crucifixo, e ao seu lado estava Supramati olhando-a feliz.
- Cumprimento-a, filha querida – disse ele, pondo a mão sobre sua cabeça abaixada -, pois você conseguiu de volta a sua alma.
Você adorou a Deus, seu Criador, e a Seu Filho Divino; a partir deste instante o Espírito Santo vai abençoar o seu caminho.
Mais uma vez cumprimento-a, filha pródiga, com a volta ao lar paterno.
E nós estamos imensamente felizes.
Lá fora, gemia, uivava e rugia em impotente fúria a matilha infernal que sofreu um grave revés; o poder do mago arrancou do meio do seu rebanho a sua rainha, principal sacerdotisa de Satanás, provando ao que se autodenomina "rei do inferno" que ele não é invencível.
Do pequeno grupo que estava no fundo da sala, aproximaram-se Nivara e uma jovem mulher de incomparável beleza, que trazia numa bandeja de ouro vestimentas brancas; era Edith, esposa de Dakhir.
Ela segurou amigavelmente Iskhet pela mão e com o auxílio de Nivara levou-a a uma sala contígua – uma capela no centro da qual havia um grande reservatório, construído ao nível do chão.
Junto com outra mulher da comunidade, Edith conduziu Iskhet para um quarto anexo onde lavaram o sangue que a cobria, mas que já tinha estancado, e vestiram-na com uma camisola branca.
Em seguida, levaram Iskhet de volta à capela, onde Edith e Nivara a ajudaram a entrar na piscina.
- Somos os seus padrinhos – disse Edith.
E agora, ajoelhe-se dentro da água para que sejam recitados os encantamentos sagrados e cortados seus laços com o inferno-
Então se aproximou Supramati, e com uma taça de ouro derramou água por três vezes sobre a cabeça de Iskhet.
Depois estendeu as mãos e recitou palavras místicas que a introduziam na comunidade dos cristãos.
Em seguida acrescentou:
- Eu tiro de você seu nome anterior, que servia de símbolo da desonra, a baptizo com o puro e santo nome de Maria.
Use-o com dignidade.
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