Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:43 pm

Mas a força pura, que descera sobre Iskhet, foi demasiada para o sofrido corpo da mulher, recém arrancada da própria cratera do inferno, e ela caiu desacordada.
Nivara segurou-a e a levou para o quarto, onde Edith e outra irmã da comunidade cuidaram dela e untaram seu corpo com uma pomada que quase imediatamente reduziu as marcas de queimaduras e fechou o ferimento no peito.
Pentearam seus bastos cabelos em tranças e, quando Iskhet voltou a si, vestiram-na com uma roupa branca trazida por Edith e levaram-na à capela onde Supramati orava fervorosamente.
Iskhet ficou de joelhos diante do altar, e o mago, subindo os degraus, pegou a taça de ouro enfeitada por uma cruz e levou-a aos lábios da nova convertida.
- Tome e purifique-se com o sangue divino do Filho de Deus.
Você experimentou do seu poder e misericórdia.
Ele salvou a sua alma com um milagre e a partir deste momento recebe você no grupo de seus fiéis.
Em seguida ele pegou no altar um pequeno crucifixo pendurado numa corrente colocou-o no pescoço dela.
- Esta é a sua protecção contra os demónios que pretenderem atacá-la.
Ele a fez levantar-se e beijou-a na testa; Edith e Nivara repetiram o seu gesto e juntos passaram para a sala contígua, onde estava reunido um grupo de homens e mulheres que a receberam como uma nova irmã.
Iskhet ou Maria, como iriam chamá-la daí por diante, cumpria tudo obedientemente; mas a terrível comoção pela qual passara ainda a fazia tremer; por momentos, seus pensamentos atrapalharam-se e o triste olhar fixava-se em Supramati com expressão de medo e amor.
Ele percebeu isso, tomou-a pela mão e colocou a na mão de Edith.
- Aceite a sua irmã espiritual, eu a faço responsável por ela; vigie-a e proteja-a dos inimigos que podem atacá-la.
- Esteja certo, irmão, eu a apoiarei.
Irei velá-la e orar junto dela como uma mãe com seu recém-nascido.
Mas agora ela precisa descansar; a irmã Maria está cansada física e espiritualmente.
No acampamento satânico o desaparecimento de Iskhet causou espanto:
todos estavam convencidos de que Shelom a havia matado, mas ignoravam como e porquê.
Ao saberem do ocorrido por Shelom e seus favoritos, foram tomados de uma indescritível fúria.
Eles não somente haviam sofrido uma terrível derrota, como haviam perdido uma das principais partidárias – a "Rainha do Sabbat!, que era difícil de substituir.
No começo, Shelom tentou trazer a fugitiva de volta; ele ardia de sede de vingança e só imaginava novas torturas como punição para a fugitiva.
E, embora ele apelasse para a sua ciência, invocasse legiões de demónios e se esvaísse em encantamentos e feitiçarias, Iskhet permanecia desaparecida.
Ela não saía dos muros do palácio de Supramati, proibido para a matilha de Shelom.
Finalmente, um belo dia, a traidora desapareceu de Czargrado e quando Shelom conseguiu localizar seu rastro ela já estava em segurança na casa de Dakhir, para onde foi levada por Edith.
Mesmo fervendo de fúria impotente, Shelom decidiu adiar temporariamente a perseguição de sua vítima para guardar todas as suas forças para o terrível duelo ao qual desafiou Supramati.
Agora ele sabia que a luta com o eremita do Himalaia seria terrível e perigosa; o resultado da luta era duvidoso até para ele, e mesmo entre seus mais ferrenhos defensores vislumbrava-se um medo aparente e dúvida quanto à vitoria.
Algumas vozes até pediam a Shelom para desistir e não se arriscar nesse enfrentamento, não tentar as terríveis forças do Céu; mas foi tudo em vão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:43 pm

Em sua vaidade satânica, Shelom estava surdo e cego; a sede de vingança e a esperança de humilhar o inimigo entorpeciam qualquer outro tipo de raciocínio.
Ele queria provar a Supramati que o mal era o seu património e que nesta área ele era e continuaria a ser o senhor, quebrando qualquer reacção.
Além disso, ele contava com a atmosfera impregnada de miasmas maléficos, sangue e crimes; por outro lado, em vista da grande quantidade de luciferianos, havia para cada crente pelo menos um milhar de descrentes.
Todos estes motivos, tomados como um todo deveriam consumir e destruir a luz, o que enfraqueceria o mago, ou talvez, até o paralisaria, ainda que fosse ajudado pelos irmãos himalaios, cujo número deveria ser bastante reduzido.
Os adeptos de Shelom nunca antes o tinham visto tão sombrio, cruel e raivoso; seu ódio ao poderosíssimo oponente e a Deus, adorado pelo mesmo, tomou uma incrível dimensão e ele se preparava para o combate furiosa e energicamente.
Convocou de todas as partes do mundo poderosíssimos magos negros, com os quais passava dias e noites invocando demónios e legiões de espíritos das sombras, e repassando os "milagres" que iria usar no duelo.
E como, até então, conseguia realizar tudo facilmente, o orgulho e a certeza da vitória apoderaram-se dele cada vez mais, enchendo o seu coração com um triunfo cheio de ódio.
Sua derrota só poderia acontecer por acaso.
Por mais blasfémias que ele proferisse, por mais crimes que cometesse e mergulhasse triunfalmente em quaisquer obscenidades – a terra não o engoliu, o vento não o varreu, a água não o afogou e o fogo do céu não o devorou.
Positivamente, a Divindade permanecia muda.
Ele, Shelom Iezodot, era e continuaria sendo o senhor invulnerável desta Terra condenada e os povos cairiam a seus pés, adorando-o como a um deus benfeitor, esbanjando bens.
Finalmente todos os dirigentes das regiões receberam ordens para anunciar em todos os cantos, através de anúncios, telefones e para todos os meios disponíveis a data em que Shelom Iezodot, filho de Satanás e senhor do mundo, iria medir forças num duelo de magia com o príncipe indiano Supramati, mago do Himalaia.
Para este estranho torneio foram convidados cidadãos de todos os países, para que eles próprios pudessem constatar que o poder do inferno é igual e até superior ao poder Celestial.
Os cientistas e os indiferentes foram especialmente convidados para este espectáculo, cujo programa era extremamente atraente e oferecia aos dois oponentes todas as possibilidades de mostrar seus poderes.
Shelom propunha-se transformar pedras e areia em ouro, que depois seriam distribuídos aos presentes; ao seu comando deveriam crescer florescer e cobrir-se de frutos diversas árvores; ele ressuscitaria mortos e, por último, obrigaria o mago a adorar Lúcifer e a oferecer-lhe sacrifícios.
Como arena para este original espectáculo foi escolhido um grande campo fora da cidade, onde caberiam facilmente mais de duzentas mil pessoas.
Foram construídas enormes arquibancadas, camarotes para autoridades e pessoas famosas, cientistas, dirigentes regionais e, principalmente, dois grandes camarotes para os adversários e seus amigos.
Ao lado foram construídos gigantescos bufês para servir carne, frutas, doces e bebidas.
O interesse do público foi enorme, e como os lugares eram distribuídos gratuitamente, faltaram muitos ingressos e lugares, acrescentaram-se onde fosse possível mais lugares e o número de interessados crescia cada vez mais.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:44 pm

É evidente que todos queriam estar presentes num espectáculo tão peculiar, um desporto especial tipo "fim do mundo", quando na arena iria medir forças o Céu e o Inferno.
Supramati simplesmente aceitou o desafio, sem anunciar qualquer tipo de programação.
Ele se preparava em silêncio e em prece para este momento difícil, não quanto ao seu poder de fogo, mas pelo ambiente infectado onde deveria agir.
Nivara estava excitadíssimo, não porque tivesse qualquer dúvida sobre a vitoria do mestre.
O que o irritava e o deixava indignado era a situação actual, que tornou possível tal torneio e desafio a Deus.
Certa noite, alguns dias antes do grande evento, o mago jantava com seus discípulos e, bebericando vinho, olhou sorrindo para o rosto sombrio de Nivara tão entretido em seus pensamentos que não percebia o que se passava ao seu redor.
- Você parece uma nuvem de tempestade.
O que o preocupa, meu amigo, - perguntou o mago amavelmente.
- Ah! Mestre, eu me pergunto se a turba ímpia tem alguma razão quando afirma que não existe nada, já que o Céu permanece silencioso, não importando o quão indignas forem as ofensas dirigidas a ele.
Porque o poderoso exército celestial não se apresenta em defesa de seus altares e da verdade?
Por que permitiram a destruição da Terra, em vez de interceder e parar no seu início a sarabanda dos negadores de Deus, que pregam contra quaisquer leis da moral, contra qualquer sentimento de ideais e anunciando, por exemplo, que a verdadeira benfeitoria é não reagir ao mal, ou que a propriedade é roubo e mais uma centena de idênticos paradoxos absurdos, prejudiciais e até criminosos?
E nós:
Nós também vamos nos apresentar na arena para provar o nosso poder, enquanto o mundo está morrendo...
Supramati aprumou-se e observou severamente:
- Meu amigo, o nosso Senhor e Criador deu-nos a chave que abre a porta do Céu:
ninguém tem culpa se os homens não querem pegá-la nem entender a lei Divina.
Nada é dado sem luta; nós vemos isso em cada ser, mesmo nos mais minúsculos microorganismos; em todos os lugares enfrentam-se dois princípios.
Jesus disse claramente: "... o reino do céu é tomado á força e os esforços utilizados têm a sua admiração".
Ele também dizia:
- "Pedi, e dar-se-vos-á; batei e abrir-se-vos-á".
E explicava que a fé remove montanhas.
A culpa do abandono da igreja e do enfraquecimento da fé recai sobre aqueles que, tendo sido iniciados aos serviços de Deus, deveriam estoicamente defender o altar, evitando a sua profanação.
Eles, que executavam os grandes sacramentos e eram intermediários entre os homens e o Céu, tinham a obrigação de, por meio de fervorosas preces, invocar o poder celestial, exigir auxílio superior, atrair para si os crentes e numa jubilosa prece conjunta, pedir a ajuda das forças invisíveis para defender os santuários.
Existem muitas evidências de que tais preces são ouvidas.
Eu já não falo de Moisés, que invocou o fogo celestial sobre os ímpios e o fogo obedeceu a sua vontade; ele era iniciado dos templos egípcios, cuja ciência colossal ainda não foi desvendada.
Mas até simples mortais conseguiram idênticos resultados durante as epidemias e inundações.
Certa vez, uma avalanche de lava recuou diante de uma procissão que levava a imagem da Virgem Santíssima; o medo da morte provocou na multidão aquela poderosa lufada de fé que deu vida à prece colectiva e accionou as forças cósmicas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:44 pm

Milhares de curas milagrosas, em todos os tempos, foram a consequência deste mesmo motivo, assim como os apelos dos condenados inocentes, exigindo que os seus inimigos e perseguidores fossem levados para o julgamento Divino.
O apaixonado apelo à Divindade é ouvido e o céu responde; é como o palito de fósforo que, uma vez esfregado na caixinha, provoca o fogo.
Quando no início do século XX começou a difundir-se, feito uma loucura contagiosa, a revolução e o anarquismo, derrubando a conjuntura social, a moralidade, suicídios, sacrilégios e outros fenómenos psicopatológicos de massa, ficou claro a todos que quisessem ver que havia algo de anormal, e que aquelas pessoas estavam tomadas pelas forças malignas que pululam no espaço.
Os remédios conhecidos e testados estavam à mão:
preces conjuntas, procissões, pregações, e neste caso não me refiro à conversa fiada ou altercações escolásticas, mas àquela palavra fervorosa e convicta que electriza a multidão, invoca o fogo sagrado e cria os mártires e os heróis.
Você sabe Nivara que a camada atmosférica mais baixa que cerca a Terra é povoada pelos que retornaram à dimensão invisível como espíritos, cujos crimes e maldades os impedem de subir ao nível superior devido a seu corpo astral pesado como chumbo, cheio de excreções carnais.
Não é por acaso que na prece ao Senhor, deixada por Cristo, está dito:
"Livrai-nos do mal".
Todos estes espíritos maus estão tentando invadir o mundo e quanto maior o número deles a entrar no planeta, tanto mais se ampliará o venenoso contágio.
Estas hordas selvagens enchem o ar e destroem tudo sem eu caminho para satisfação dos seus instintos animais e à procura de alimento:
eles se alimentam de sangue e dos vapores densos, pesados e malcheirosos da devassidão, alcoolismo e todos os prazeres animais.
Como se fossem venenosos vibriões, os vapores destes monstros do mundo invisível enchem o ar e os homens os respiram, sujeitando-se a uma epidemia fluídica.
A fé, a prece, a misericórdia e as boas acções são a guarda celestial que protege o mundo terreno da invasão dos inimigos do mundo invisível.
A lei é única.
Da mesma maneira que a desinfecção material é feita com luz, sol e aromas próprios, também o contágio é prevenido com limpeza e boa alimentação.
E é exactamente assim que a prece e a fé, fontes de luz e calor, purificam a atmosfera espiritual, e a saudável alimentação espiritual guarda a pureza da alma do contágio moral.
Por este motivo, a ciência sobre a alma sempre foi desprezada e perseguida; enlamearam-na e cobriram-na de risos.
Entretanto, esta ciência renegada jamais fez mal a alguém, pelo contrário, muito ensinou aos homens, iluminando a escuridão que os cercava e armando os vivos contra os perigosos e imperceptíveis inimigos, revelando a existência destas criaturas, que preferiam que jamais alguém soubesse de sua existência para poderem se locupletar, sem obstáculos, da humanidade cega e ignorante.
Esta grande e pura ciência que estuda o mundo invisível é uma terrível arma contra os espíritos do mal e já salvou uma infinidade de almas de suas garras traiçoeiras.
Concluindo, repito que a responsabilidade pelo ocorrido recai sobre a indiferença da Igreja e da sociedade, especialmente de crentes.
A união faz a força, mas esta força não foi accionada e a invasão dos espíritos das trevas não foi rechaçada.
Os homens não sabem e nem querem compreender a alavanca de poder colossal que vem a ser, para o mundo astral, o reflexo do fluído puro de uma fervorosa prece ou de um arroubo de vontade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:44 pm

E o incêndio que esse fluído provoca, queimando com o fogo purificador horríveis miasmas, inúmeras larvas, seres infames invisíveis, bacilos venenosos e muito lixo astral.
O ar fica mais saudável e as pessoas readquirem a razão.
Se nos hospícios, junto com os duches, fossem utilizados encantamentos e introduzidas música sacra, séria e elevada, instituídas preces ininterruptas e a aplicação de água benta ou magnetizada, os resultados seriam surpreendentes.
Mesmo agora se poderia reunir a pobre humanidade para um único ímpeto ao Céu e este responderia; pode ser que conseguíssemos salvar o planeta por algumas centenas de milhares de anos.
Mas não!
Os homens não farão isto e cumprir-se-á o destino da infeliz Terra – concluiu Supramati, suspirando.
Algumas horas mais tarde chegaram Dakhir, Narayana e Niebo para assistirem ao combate de seu amigo com Shelom.
Ficou decidido que os três dias que restavam para aquele terrível duelo, eles passariam no laboratório, orando e guardando forças para a luta que seria o prelúdio dos futuros acontecimentos trágicos do fim do mundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:44 pm

CAPÍTULO XV

A animação na cidade crescia e ao afluxo de curiosos era tanto que, quando já não havia mais lugares em terra, foi decidido utilizar o espaço aéreo, com naves pairando sobre a arena, proporcionando boa visão aos passageiros.
Este espectáculo, excepcional pelo género e ainda inédito, prometia dar enorme satisfação e já ocorriam apostas nas quais a maioria, obviamente, apostava na vitória de Shelom.
Era de inaudito atrevimento este indiano, absolutamente desconhecido, querer lutar com o mais poderoso homem da época, filho do próprio Lúcifer.
Estava claro que o príncipe Supramati era um jovem muito bonito, imensamente rico e excêntrico ao ridículo.
Entretanto, era idiotice supor que ele pudesse competir com uma pessoa tão extraordinária como Shelom Iezodot.
Finalmente chegou o dia decisivo e a própria natureza parecia colaborar.
O tempo estava excelente e há muito tempo não se via o sol tão brilhante e o azul do céu tão maravilhoso.
O grande círculo que serviria de arena para a competição fora dividido ao meio por uma linha vermelha e os camarotes dos oponentes ficavam um em oposição ao outro.
Shelom Iezodot foi o primeiro a chegar, carregado no trono por famosíssimos magos negros e acompanhados por numerosa corte que lotou o camarote.
Ao ocupar o seu lugar de destaque, ele lançou u olhar triunfante e orgulhoso sobre a incontável multidão.
Pela primeira vez ele usava em público seu traje cerimonial de "grandes invocações".
Vestia uma malha negra e uma túnica curta feita de um material cinzento, com laivos metálicos, que, à distância, parecia feita de aço.
No peito havia uma imagem de cabeça de bode com olhos de rubi e do cinto pendia uma espada mágica de cabo negro, inteiramente cravada de diamantes.
Na cabeça usava uma larga faixa dourada com símbolos cabalísticos esmaltados, coroada por dois chifres maciços e retorcidos.
Sobre os ombros destacavam-se duas asas dentadas, feitas de um metal fino e maleável – um raro trabalho de arte – que estavam amarradas com fitas do mesmo material cinzento.
O traje, lúgubre, mas original, combinava bem com a beleza demoníaca de Shelom, tendo impressionado a multidão que o saudava com muito barulho, enquanto os feiticeiros traçavam círculos no chão, preparavam trípodes com ervas e resina ou erigiam o altar onde Lúcifer deveria aparecer.
O Camarote do príncipe indiano permanecia vazio e a turba ficava cada vez mais impaciente.
Alguém até gritou:
- Ele ficou com medo... Desistiu e fugiu!
Mal esta frase correu pela multidão, o camarote do mago se iluminou com uma suave, mas brilhante luz azulada, e junto a balaustrada, surgiram cinco homens vestidos de branco.
De onde eles apareceram?
Ninguém os viu entrar e nenhum veículo terrestre ou aéreo havia se aproximado do camarote.
Isto causou um grande espanto, provocou um profundo silencio e os olhos dos presentes fixaram-se naquelas misteriosas pessoas – jovens, bonitos, com rostos sérios e olhos flamejantes.
Quase imediatamente toda a atenção se concentrou em Supramati, que descia lentamente os degraus para a arena.
Ele também usava pela primeira vez em público seu traje de mago:
uma longa e alvíssima túnica, amarrada por um cinto de seda, e um turbante de musselina.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:45 pm

O símbolo sobre seu peito brilhava com uma luz ofuscante e na mão trazia a espada mágica, cuja larga e brilhante lâmina parecia em chamas.
A multidão olhava-o com involuntário respeito e jamais Supramati esteve tão belo e encantador como nesse instante, caminhando calma e dignamente.
Seus grande e luminosos olhos brilhavam com aquela vontade poderosa ante a qual tudo parecia se submeter.
A certa distância do camarote parou, levantou a espada e traçou no ar um sinal fosforescente que, cintilando e silvando, cortou o ar feito um raio e desapareceu no espaço.
Alguns instantes após, o profundo silêncio foi rompido pelo ribombar de um trovão como se aproximasse uma tempestade e no céu apareceu um enorme objecto incandescente voando em altíssima velocidade.
Logo se pôde perceber que caia um meteorito de raras proporções.
A multidão ficou pasma de terror e até se ouviram gritos quando o bólide caiu na terra a alguns passos do mago, enterrando-se profundamente na terra.
Supramati subiu calmamente sobre a pedra ainda incandescente e parou, apoiando-se sobre a empunhadura da espada mágica como se a espera de seu oponente.
Um rubor passageiro percorreu o rosto de Shelom.
Ele levantou-se e em altos brados dirigiu-se à multidão, anunciando em poucas palavras que decidiu participar daquela competição com o mago indiano, que ousara desafiar o rei das trevas, para provar a todos o poderio do seu pai, Lúcifer, e, portanto, estava convencido de sua vitória sobre o fanfarrão himalaio.
Indiferente a suas palavras, Supramati permaneceu impassível, Shelom desceu para a arena e iniciou suas invocações.
As veias na sua testa incharam, as asas negras injectaram-se de rubor ígneo e a espada mágica cintilou no ar, traçando sinais cabalísticos.
Nuvens negras juntaram-se, desceram ao chão e línguas de fogo lambiam o ar e a terra.
Quando as nuvens se dissiparam, todos viram que a areia e as pedras, previamente preparadas, brilhavam ao sol feito ouro.
Entre os espectadores ouviram-se gritos de admiração e a multidão devorava com os olhos os montes do cobiçado metal que os especialistas confirmaram na hora ser realmente puro.
Shelom lançou um olhar triunfante para Supramati e com um gesto apontou-lhe para os montes de areia ali preparadas.
Supramati levantou sua espada, sua ponta acendeu-se em luz ofuscante, no ar surgiram sinais cabalísticos e uma chuva de faíscas caiu sobre as pedras e areia.
Incendiadas imediatamente, estas reflectiam todas as cores do arco-íris e, quando apagaram, também havia se transformado em ouro.
Mas, no mesmo instante, da mão levantada de Supramati cintilou um relâmpago que caiu sobre os montes de ouro de Shelom.
Estes se cobriram de uma fumaça negra, crepitaram e transformaram-se numa massa cinzenta que se desmanchou em cinzas.
- Tente destruir a minha obra como fiz com a sua – propôs calmamente Supramati.
Shelom e seus assessores vociferavam de ódio, mas apesar de todas as suas tentativas não conseguiram destruir o ouro do mago, que os especialistas reconheceram ser de extrema pureza, sem qualquer aditivo. Aliás, os magos negros rapidamente desistiram de suas tentativas, pois os fluídos que emanavam o ouro de Supramati os enfraqueciam e provocavam tonturas.
Um rumor de espanto correu pelo público, mas os olhares ferozes de Shelom e o seu rosto deformado pela ira infernal amedrontaram os espectadores e a multidão emudeceu.
- Você é um feiticeiro mais forte do que eu imaginava, mas isto ainda é ninharia – zombou Shelom, medindo Supramati com um olhar hostil.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:45 pm

E virando-se de costas, iniciou novos encantamentos.
Logo, da terra e do ar apareceu uma densa fumaça que, rodopiando velozmente em espiral, enrodilhou-se.
Quando a fumaça se dissipou, todos viram claramente um tronco de árvore que emergia lentamente da terra, cobrindo-se de folhagens e frutas verdes que amadureciam rapidamente, assumindo uma coloração dourada.
Os feiticeiros arrancavam os frutos e os arremessavam para a multidão, que satisfeita agradecia aos brados ao ver que eram laranjas de primeira qualidade.
Os olhares curiosos dirigiram-se agora para Supramati.
Este levantou em silêncio a espada, girou-a sobre a cabeça e depois, reverenciando todos os quatro pontos cardeais, pronunciou fórmulas e traçou sinais que dominavam os elementos.
Um instante depois a luz do dia transformou-se numa penumbra violeta através da qual mal se distinguiam os objectos.
O vento levantou nuvens de poeira e relâmpagos cintilantes cortavam o céu.
Toda a atmosfera parecia estalar e ferver com um surdo ribombar e diferentes aromas, por vezes cáusticos, por vezes suaves, que mudavam com a velocidade estonteante.
No meio deste caos, destacava-se nitidamente na penumbra a alva figura do mago, cercada de feixes de faíscas. A turba estupefacta emudeceu de espanto, mas quando se dissipou a penumbra violeta ouviram-se por todos os lados gritos de admiração. Numa grande área da arena, reservada para Supramati, verdejava um pequeno bosque de árvores frutíferas e arbustos cobertos de flores. Por entre a folhagem entreviam-se diversas frutas e uma grande macieira estava toda florida como se coberta por uma camada de neve.
- Tudo o que vêem aqui - dirigiu-se Supramati à multidão fascinada – é o trabalho da chama purificadora do éter.
Enquanto aquilo – e apontou para a laranjeira de Shelom – é uma manifestação do diabo, que cria as coisas a partir dos dejectos do caos.
Portanto, que desapareça e se desfaça a enganadora ilusão do inferno!
Ele estendeu a mão, virando o cabo cruciforme da sua espada na direcção da obra do oponente.
Imediatamente a cruz soltou uma chama que incendiou a árvore.
As folhas enrolaram-se com estalo e os frutos arderam como bolas incandescente, tomando uma aparência esverdeada, expelindo uma fumaça amarela e malcheirosa.
Em seguida, diante dos olhos dos espectadores, as laranjas transformaram-se em cobras que aos silvos desapareceram por dentro da terra.
Quase ao mesmo tempo ouviram-se gritos na multidão:
os que comeram as laranjas caíram em convulsões e Niebo e Nivara acorreram imediatamente sem seu auxílio.
Com os olhos injectados de sangue e os braços cruzados no peito, Shelom mal podia conter a raiva.
Espumando pela boca ele vociferava impropérios, enquanto os magos e feiticeiros que o assessoravam tremiam de medo e estavam pálidos como sombras.
Eles sabiam que se Shelom não resistisse ao poder do "feiticeiro" todos estariam arriscados a perecer de uma morte horrível.
A excitação da multidão fascinada aumentava cada vez mais.
Não havia dúvida de que o prestígio de Shelom estava abalado.
O filho de Satanás sentiu isso e foi buscar auxílio na própria insolência.
Endireitando-se orgulhosamente, ele gritou com voz rouca:
- O que aconteceu aqui nada prova.
Isso é brincadeira de crianças.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:45 pm

Eu quero ver se ele pode ressuscitar um morto, um morto de facto – rugiu ele.
E antes que as suas pretensões pudessem ser percebidas, Shelom correu para uma das tribunas, junto da qual se aglomerava o povo, agarrou uma encantadora jovem e golpeou-a no peito com seu punhal.
A infeliz caiu sem um gemido, cobrindo de sangue o assassino e o chão da arena.
Mas Shelom não deu importância ao facto.
Ele levantou o corpo e o jogou sobre u tapete negro com símbolos cabalísticos, que havia sido rapidamente estendido por um dos feiticeiros.
A seguir, arrancou a roupa do cadáver expondo o corpo nu à multidão estupefacta, porém em geral habituada a espectáculos sangrentos e às crueldades arbitrárias de seu senhor.
A excitação de Shelom chegou às raias da loucura; ele traçava com a espada sinais cabalísticos e com voz enfurecida gritava encantamentos.
Seus auxiliares, sombrios e nitidamente deprimidos, cobriram neste ínterim o peito da morta com um tecido vermelho, queimando sobre ele ervas resinosas que expeliam densa fumaça cáustica, com tanta profusão que incomodava a todos, visto ter-se espalhado por toda a arena.
A multidão começou a ficar terrivelmente perturbada, pois os aromas difundidos pelos feiticeiros provocavam insanidade erótica.
E enquanto Shelom, totalmente enlouquecido, realizava sobre o defunto uma pérfida profanação, a multidão em volta certamente começaria uma orgia colectiva se os magos não tivessem agido rapidamente e derramando no chão alguns frascos de essências, cujo poderoso aroma absorveu o odor tóxico dos feiticeiros, restituindo desta maneira, certa calma.
Quando os espectadores recuperam totalmente a consciência, a ponto de conseguirem ver o espectáculo, acabaram vendo algo estranho e horrível.
O corpo da jovem assassinada mexeu-se.
Ergueu-se e lançou para a multidão em volta um olhar selvagem.
Depois, pondo-se de pé com incrível leveza, a jovem correu até Shelom, caiu de joelhos e beijando suas mãos, exclamou num apaixonado ímpeto de agradecimento:
- Senhor da vida e da morte, eu lhe sou grata por ter-me devolvido a vida.
Triunfante, Shelom mostrou-a ao povo.
Parte dos espectadores ovacionaram-no, mas muitos permaneceram em preocupado silêncio.
Shelom não tomou conhecimento disso e disse com desprezo:
- Tragam ao indiano qualquer carniça para que ele possa mostrar o seu poder.
- Não me é necessário – respondeu Supramati em voz clara e sonora.
E com a ponta da sua espada traçou no ar um círculo que voou e cercou a "ressuscitada".
– Eu quero provar ao povo aqui reunido que a vida que você deu a este corpo é fictícia.
Você não devolveu a alma desta infeliz, mas introduziu em seu corpo uma daquelas ignóbeis criaturas do mundo invisível que são dominadas pela sua ciência das trevas.
E quanto a você, infeliz verme, animado somente com sangue e putrescência, saia deste corpo que não lhe pertence!
A ponta da espada de Supramati expeliu uma chama que com a velocidade do pensamento voou em direcção à mulher e bateu-lhe no peito, exactamente no mesmo lugar do ferimento.
Ouviu-se um lúgubre e dilacerante grito, a mulher caiu como se atingida por um raio e diante da multidão estupefacta aconteceu algo terrível e asqueroso.
Da boca aberta do corpo saiu uma espécie de serpente, cuja cabeça, com olhos injectados de sangue, tinha algo de humano.
Mal a asquerosa criatura saiu de dentro de sua vítima, ela atacou Shelom e instantaneamente se enrolou nele tentando sufocá-lo.
Fosse Shelom um simples mortal, seus ossos teriam estalado imediatamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 7:45 pm

Agora ele lutava contra um mostro que ele mesmo invocara das profundezas das trevas e, com a ajuda do poderoso feiticeiro Nadim, conseguiu dominá-lo.
O corpo flexível da criatura enfraqueceu, caindo por terra, morto ou desfalecido.
Enquanto se desenrolava esta cena, muitos dos feiticeiros rolavam no chão em convulsões.
O corpo da falecida tomou novamente a aparência de cadáver.
Erguido por uma força invisível, ele foi transportado para o outro lado da linha vermelha e depositado no chão a alguns passos de Supramati.
Imediatamente aproximaram-se Niebo e Nivara e derramaram duas taças de um líquido prateado e faiscante sobre o corpo, ainda coberto por uma espumosa e pegajosa massa negra fétida.
O líquido imediatamente começou a crepitar e chiar como água jogada sobre ferro em brasa; depois subiu um denso vapor que envolveu o cadáver por um minuto.
Quando a nuvem esbranquiçada se dissipou, o corpo readquiriu a brancura original, os traços do rosto adquiriram uma serena beleza.
A espuma que a manchava desapareceu completamente e somente uma mancha vermelha indicava o lugar da ferida mortal.
Então Supramati ajoelhou-se, segurou as duas mãos da falecida e levantando os olhos para o céu, proferiu com sentimento:
- Permita meu Pai Celeste, através do meu poder puro, que a alma banida deste corpo de modo criminoso e à força retorne para a sua moradia terrena.
Senhor Jesus Cristo, apoie-me e me auxilie, fazendo seu servo digno de vencer o inferno.
Ele inclinou-se sobre a falecida e disse imperiosamente:
- retorne sopro divino, a esta nova vida, concedida novamente pelo Todo-Poderoso e se consagre ao louvor do seu nome e suas leis.
O corpo da jovem começou a tremer.
Respirando profundamente, seus olhos se abriram e como se despertasse de um longo sono ela olhou em volta, misto de medo e estupefacção.
Nivara cobriu sua nudez com uma túnica branca de largas magas e ajudou-a a levantar-se.
- Adore seu Deus e beije o sagrado símbolo da eternidade e salvação – disse Supramati estendendo-lhe o cabo cruciforme da sua espada, que ela beijou respeitosa e piedosamente.
- Agora, volte para os seus pais e diga-lhes que é preciso buscar a luz e não as trevas.
Prove a sua gratidão ao Criador vivendo de acordo com as suas leis.
Cambaleante, mas feliz, a jovem correu para seus pais.
Estes, plenos de felicidade, correram para ela cobrindo-a de lágrimas e carinhos.
Seria difícil descrever o que se passava na multidão.
Os nervos das pessoas, debilitadas por depravação e anomalias, já não suportavam tantas emoções.
O horripilante silêncio que permaneceu até aquele instante rompeu-se de repente.
As pessoas gritavam, riam, rugiam, choravam e, oscilando entre o medo e a dúvida, perguntavam se era realmente possível que Shelom Iezodot, o senhor do mundo, fosse um demónio, enquanto que o mago hindu, que os impressionara com a sua beleza e poder, era um enviado daquele antigo Deus há muito esquecido e renegado.
Calma e impassivelmente Supramati subiu novamente sobre a sua pedra, e olhou para o pálido e perdido Shelom, que ofegante tentava recuperar-se após a terrível luta.
Minutos depois ouviu-se a voz sonora do mago.
- Eu lhe proponho Shelom Iezodot, iniciar o derradeiro acto do nosso duelo.
O sol já está se pondo e os espectadores, assim como nós aguardam um desfecho.
Eu não imaginava que você tinha tanta pressa em reverenciar Lúcifer e sua grandeza.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:11 pm

- Aguarde um pouco, enquanto eu faço os últimos preparativos – respondeu Shelom com um sorriso malévolo.
E, virando-se entrou no seu camarim e que tinha um quarto privativo.
Supramati também aproveitou a pausa e, prevendo que esta seria bastante longa, subiu ao camarote para descansar conversando com os amigos.
Nos fundos da parte da arena reservada a Shelom havia ruínas de uma antiga igreja destruída por satanistas; suas paredes desmoronadas e a torre do sino formavam uma grande escarpa.
Os espectadores tinham ficado intrigados com o facto de aquelas ruínas não terem sido retiradas.
Mas foi naquele lugar que erigiram o altar para Lúcifer:
um bloco cúbico de mármore negro, rebaixado e maciço, sob o qual se elevava o que restou da abóbada da igreja.
Aos poucos nuvens cinza-avermelhadas cobriram o céu e um vento forte levantou a areia da arena e agitou o verde do bosque criado por Supramati.
A escuridão aumentou rapidamente e ao longe ouviram trovões se aproximando.
Sob a abóbada das ruínas cintilaram rubras línguas de fogo e, por fim, um brilho purpúreo e agourento iluminou a arena e as ruínas.
Em alguns locais, em grandes bacias de bronze foi aceso alcatrão, cuja luz enfumaçada deu ao cenário um ar fantástico e arcaico.
De repente ouviram-se berros, uivos e por detrás das pedras começaram a sair como sombras, hienas, tigres, leopardos e outros animais selvagens.
De pêlo em riste e olhos brilhando de ódio ele se postaram em semicírculo diante da rocha negra, rugindo baixinho e agitando nervosamente as caudas.
Vendo isso, Supramati levantou-se, ocupou novamente seu lugar no aerólito e desta vez foi seguido por quatro amigos que ficaram perto dele.
Logo apareceu Shelom Iezodot acompanhado de doze feiticeiros.
Ele estava nu e trazia consigo, em vez da espada, um forcado em brasa.
Os chifres sobre sua testa também pareciam estar em brasa.
Enfileirando-se em ambos os lados junto à rocha negra, os doze feiticeiros caíram de bruços, Shelom permaneceu de pé diante da pedra onde deveria aparecer o seu terrível senhor, traçando com o tridente sinais cabalísticos e entoando uma estranha canção de notas agudas e dilacerantes.
Aos poucos o canto mudou para um tempestuoso recitativo no qual ele relatava a Lúcifer todos os seus serviços realizados para o inferno, todos os crimes e sacrilégios, resumindo, todos o enorme trabalho executado pelos servidores das trevas objectivando o fim da humanidade.
O desencaminhamento fora um sucesso, pois a humanidade foi subtraída da fé e de qualquer apoio moral, atada às próprias paixões e caída aos pés de Lúcifer; e agora ele, Shelom Iezodot, seu fiel servo, exigia a recompensa.
Com palavras sacrílegas, cheias de ódio, ele insistia que Lúcifer aparecesse e destruísse o hindu atrevido que ousara competir com ele e contar bravatas.
Cada vez mais concentrado, espumando pela boca, ele insistia que Lúcifer o vingasse e destruísse o inimigo, mandando a terra engoli-lo e o fogo queimá-lo, privando-o antes do poder para depois alquebrá-lo e prostrá-lo a seus pés.
Um forte trovão explodiu como resposta a este terrível chamado, a terra tremeu e as ruínas iluminaram-se como um clarão.
Sob a abóbada acenderam-se fogos multicolores e, de repente, sobre a rocha apareceu uma titânica e horrível figura.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:11 pm

Sobre o fundo sanguíneo delineava-se claramente a típica cabeça de agourenta beleza, cujo rosto possuía a marca de todos os crimes, paixões e sofrimentos espirituais...
As enormes asas dentadas elevavam-se dos ombros e, em cima da testa, os chifres retorcidos, símbolo da besta-fera.
- Ajoelhe-se, maldito hindu, verme desprezível!
Ajoelhe-se e reverencie o nosso e seu senhor, pois o seu poder não poderá afectá-lo – rugiu Shelom.
O espírito das trevas soltava redemoinhos de fumaça que o vento levava em direcção ao mago.
Supramati ao sentir o contacto com os fluídos nocivos empalideceu, ficando da cor da própria túnica, mas nos seus olhos ardia como sempre a poderosa vontade e a sua voz ecoou serena e confiante:
- tenho um só Senhor a quem reverencio: Deus.
E uma única arma:
a minha fé e o símbolo da salvação, abençoado com o sangue do Filho de Deus.
E sacando de dentro da roupa a cruz dos magos, que emitia torrentes de luz ofuscante, ele correu em direcção ao poderoso demónio, atravessando corajosamente a linha de demarcação.
Enquanto ele falava, Dakhir e Narayana desembainharam as suas espadas e Niebo e Nivara empunhavam seus bastões mágicos apoiando o seu amigo com toda a força dos seus poderes.
Supramati como se levado pelo vento, aproximou-se rapidamente do altar satânico e atacou ameaçador, com a cruz levantada sobre a cabeça:
- Para trás, demónio negativo, artífice do mal e desgraças.
Desapareça, retorne ao abismo do qual saiu para a perdição da humanidade.
Eu o esconjuro e firo com esta arma de luz! – trovejou a voz do mago, atacando corajosamente o espírito maligno.
De repente, o rosto do demónio empalideceu, um forte abalo fez a terra tremer e, no lugar onde se elevava o altar ímpio, a terra abriu-se formando uma grande rachadura, profunda como um precipício, tragando Lúcifer.
Supramati parou, deu um suspiro de alívio e com a cruz resplandecente traçou sobre ao abismo um sinal de redenção.
Imediatamente, sobre o lugar do demónio destronado, brilhou no ar uma cruz luminosa de enormes proporções que iluminou com sua luz suave e azulada os mais longínquos arredores.
Shelom e seus asseclas estavam estupefactos, pois tudo se passou com rapidez incrível.
E quando brilhou a cruz fulgurante, os magos negros começaram a gritar e uivar, alguns caíram mortos e os outros fugiram.
Shelom, apanhado por um forte vento foi jogado para longe da arena, local de sua terrível derrota...
Obviamente para as pessoas dos séculos passados, como por exemplo, do século XX, tais acontecimentos ao ar livre, em plena luz do dia e diante dos olhos de milhares de espectadores pareceriam inacreditáveis, mas a regra geral é esta:
quanto mais se desenvolve o poder, maior é a sua manifestação.
O mesmo aconteceu com o poder ocultista.
Quanto maior poder adquiria o invisível, tanto mais frequentemente e com maior intensidade ele revelava a sua presença.
Infelizmente, o inferno manifestava mais; o Céu e o número de fiéis diminuía.
Apáticos, indiferentes e desunidos, eles desperdiçavam a sua força e poder, enterravam os dons recebidos, enquanto o quartel-general das trevas, enérgica e ameaçadoramente, abria o seu caminho...
O que aconteceu ao público foi indescritível.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:11 pm

A multidão, estarrecida e quieta, assistiu ao aparecimento e desaparecimento do demónio.
Entretanto, a visão da cruz teve o efeito da queda de um raio.
Uns começaram a correr feito loucos, outros, profundamente abalados, olhavam para aquele símbolo tão profanado e há muito tempo esquecido, outrora adorado por seus ancestrais.
Neste instante se ouviram no ar sons harmoniosos abafando a gritaria geral e agindo como um lenitivo aos nervos excitados dos presentes, mantendo-os nos lugares.
Quando a estranha música acabou, Supramati começou a falar:
- Aproximem-se, filhos de Deus, e adorem ao seu Criador.
Arrependam-se e retornem à fé esquecida.
Vocês cegados pelo encantamento dos espíritos das trevas insultaram a Divindade.
E o que ganharam com tantas maldades e sacrilégios?
Vocês quebraram o equilíbrio das forças cósmicas que destruirão o planeta.
Eu sou um missionário dos últimos dias e lhes digo:
a hora do Juízo, anunciada pelos profetas, está mais próxima do que imaginam.
E vocês, junto com a sua terra, estão condenados à morte da qual o inferno não poderá salvá-los.
Aproveitem este curtíssimo adiamento, arrependam-se e purifiquem-se para escapar do terrível castigo.
Reabram os templos vazios, estes centros de oração e força colectiva, reergam o altar do Senhor, cantem os cantos sagrados, cujos sons afastarão as forças impuras.
Exorcizem os demónios que se apoderaram de suas almas, destruíram e macularam seus corpos.
Tudo morre e se transforma em sopro divino do Criador.
Salvem, pois, esta fagulha celestial para que a mesma se eleve para a luz e não caia no abismo das trevas...
Quando Supramati se calou, uma inusitada agitação tomou conta de parte dos espectadores e, enquanto os devassos satanistas fugiam, sofrendo de dores dilacerantes e espumando pela boca, uma multidão de pessoas humildes, com alegria e lágrimas nos olhos de denotando medo supersticioso, aproximou-se e prostrou-se diante da cruz resplandecente – o adorado símbolo de outrora, sagrado talismã de seus ancestrais.
Naqueles antigos tempos a felicidade em viver era maior; na Terra ainda existia a fé, quando o símbolo da salvação recebia o recém-nascido, purificava e separava-o dos inimigos invisíveis ou ficava sobre o túmulo, guardando o falecido dos ataques das criaturas impuras.
E eis que esse símbolo, por tanto tempo perseguido, reergue-se diante deles, puro, resplandecente, visível para todos, e misericordiosamente chama para si a infeliz humanidade que, renegando Deus, entregou-se ao poder das forças obscuras e foi atada pelas mãos e pés.
Tomados de um êxtase repentino, estas pessoas que desaprenderam a orar caiam de bruços, elevavam as mãos para a Cruz e com lágrimas nos olhos repetiam as palavras que os magos lhes ensinaram:
- "Tenha piedade de nós, Senhor, e perdoe os nossos crimes!"
Em resposta a este apelo, nos casos em que o suplicante desafogava toda a sua alma, aconteciam milagres:
surdos voltavam a ouvir, mudos a falar e os paraplégicos a movimentar-se livremente.
Supramati, deixando a multidão adorando a Cruz, voltou para a sua parte da arena acompanhado pelos amigos e, quando se aproximava do camarote, viu perto da entrada uma dezena de pessoas cujas cabeças eram envoltas por largas auras.
À frente estava Ebramar.
Com os olhos húmidos de lágrimas, ele estendeu-lhe as mãos e disse, apertando-o contra o peito:
- Parabéns pela vitória, meu querido filho e discípulo!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:11 pm

Os outros magos também o abraçaram.
A multidão ao ver o grupo de pessoas estranhas em trajes prateados e cercados de aura de luz tomou-os por santos descidos do Céu para aparecerem aos homens.
- E agora, amigos, vamos passar uns dias no nosso abrigo do Himalaia, porque uma tempestade irá desabar.
Os espíritos do caos, o exercito das trevas de Lúcifer pretendem vingar-se da derrota por meio da destruição.
Mais tarde uma nave espacial diferente, de construção desconhecida para os simples mortais, levou os magos, a uma velocidade estonteante, para um dos seus inacessíveis abrigos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:12 pm

CAPÍTULO XVI

A previsão de Ebramar logo se confirmou.
No dia seguinte, desencadeou-se um terrível furacão jamais visto e durou por três dias seguidos, causando muitos estragos.
Quando o temporal finalmente se acalmou, a terra estava devastada por centenas de milhas.
Nos campos, tudo foi destruído opor um vento medonho ou derrubado pelo granizo; as estufas destruídas; as casas destelhadas e inúmeras pessoas esmagadas sob as ruínas dos prédios desmoronados.
Dando sequência a essa desgraça iniciou-se outra.
Veio um calor tão escaldante que a terra rachou, a água secou nos lagos e rios e os peixes pereceram.
As árvores que sobreviveram ao furacão ardiam, perdiam as folhas e pareciam postes queimados.
Os animais domésticos morriam feito moscas; a fome crescia gradualmente e grassaram terríveis epidemias.
Mesmo as pessoas mergulhadas em ouro, no interior de seus palácios, sucumbiam de inanição e sufocamento em razão de estar o ar impregnado de fumaça da turfa ardente.
Esses fenómenos cósmicos eram por certo contagiantes, pois de todos os cantos chegavam noticias lastimosas sobre furacões e calor tropicais inéditos que transformavam a Terra em deserto.
Por uma estranha casualidade, somente o bosque criado por Supramati durante o seu duelo com Shelom resistiu facilmente à intempérie:
a crua radiante flutuava tranquila no ar, iluminando com luz misteriosa aquele pedacinho de terra; de suas entranhas jorrou uma nascente de água fria e cristalina.
Aos poucos, todo o local foi cobrindo-se de árvores carregada de frutas, aonde multidões famintas vinham saciar sua sede e fome.
Somente os satanistas evitavam o local sem se beneficiar do mesmo, justificando que a água lhes causava dores internas e as frutas eram indigestas.
O estado moral das pessoas não era menos lastimoso.
Endoidecidos e famintos, em vão clamavam eles pela ajuda de Lúcifer, pois o inferno parecia surdo e mudo às suas súplicas.
Ele lhes dera ouro para adquirir o que bem quisessem inclusive as almas divinas.
Agora de posse de todos os bens, estes foram aniquilados e ultrajados.
Deus foi banido dos corações humanos e sobre os homens desabaram terríveis desgraças; sobrara para a humanidade criminosa apenas o ouro, o qual já não podia comprar nada para abastecer os celeiros e despensas
Tudo fora vendido pela humanidade ao demónio do ouro; riquezas naturais; seivas da terra; florestas verdejantes que sucumbiram sob o machado do negociante; petróleo, carvão mineral e electricidade – tudo foi consumido sem a parcimónia precavida de um ricaço sensato, mas com a despreocupação demente de um esbanjador que não pensa nem no presente nem no futuro, e que com barbárie selvagem sacrifica os legados de seus ancestrais em prol dos deleites efémeros do presente.
Arruinados física e moralmente, as pessoas chegaram à beira do precipício que iria engolir o mundo – que bem poderia sobreviver por mais algum tempo, fértil e verdejante, servindo às inúmeras gerações de escola para o aprimoramento e a purificação...
O descontentamento das massas começou a se revelar tanto mais veemente quanto perigoso, pois a turba depravada e desacostumada a obedecer não conhecia qualquer tipo de freio.
O povo se juntava diante do palácio de Shelom, exigindo, insistente, aos gritos e ameaças, que ele pusesse termo ao calor escaldante e abrasamento da Terra.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:12 pm

- Você é filho de Satanás, equivale a Deus e submete os elementos.
Então, acabe com a seca, dê-nos pão e água.
Ou, ameaçando-o com punhos cerrados, as pessoas gritavam desatinadas:
- Não queremos mais seu ouro, queremos ar, pão e água.
Prove que você é poderoso, que não é farsante nem gabarola, já que foi vencido pelo hindu.
Foram vocês, satanistas, que chamaram sobre nós a ira de Deus! – gritavam outros.
– Lá, onde a cruz paira no ar, há uma grande fartura de frutos e água!
Devolva-nos o antigo Deus, restitua-nos a fé anterior, caso contrário não sobrará pedra sobre pedra de seu palácio e nós destruiremos todos os seus templos.
A indignação crescia a cada dia; princípio de uma guerra interna já se podia sentir em vista da fome e sede terríveis que assolavam a Terra e os homens.
Nas ruas acorriam combates sanguinários; os rebeldes atacavam os satanistas onde quer que eles se encontrassem, armando-se de crucifixos de ferro ou madeira.
Invadiam templos satânicos, demoliam altares e quebravam estátua de Lúcifer.
Eram assassinatos ensandecidos, rebeliões, desespero; a turba enfurecida procurava por Shelom para aniquilá-lo, mas este parecia ter sumido, sem aparecer algures.
As informações que chegavam de todas as partes davam conta de que o quadro de ódio e pobreza era geral, enquanto que a natureza imperturbável prosseguia em seu afã destruidor.
O sol queimava implacavelmente, iluminando o deserto estéril e os cadáveres em decomposição de homens e animais. Jamais o desprezo ao ouro tomou tais dimensões.
De bom grado ele seria trocado aos punhados por uma caneca de água, um pedaço de pão e um sopro de ar fresco e puro.
Pela primeira vez, provavelmente, o vil metal tornava-se morto e inútil nas mãos de seus proprietários.
O tumulto e o clamor dessa guerra fratricida, sem trégua ou misericórdia, não chegavam até Shelom, escondido no subterrâneo.
Era uma sala ampla, mobiliada com luxo imperial:
as paredes eram revestidas por um tecido vermelho bordado a ouro; os móveis eram de madeira preta com incrustações e o chão estava coberto com tapete macio como pele.
No nicho fundo havia uma grande estátua de Lúcifer, indiferente aos sofrimentos e lutas provocadas por ele, a figura soturna do demónio sobressaía-se no ambiente e em seu semblante petrificado congelou-se um sorriso de escárnio.
Diante da estátua, num candelabro de sete braços, ardiam velas negras de cera.
No meio da sala havia uma mesa grande, sobre a qual estava um enorme jarro de vinho, uma taça e um antigo livro aberto.
Shelom estava sozinho.
Sentado numa poltrona de espaldar alto, recostando a cabeça numa almofada vermelha, reflectia brincado impacientemente com a adaga mágica, presa na cintura.
Seu rosto estava sombrio, desfigurado pela fúria interior e orgulho ferido; depois de enfrentar o mago, ele sentia-se fraco e as forças voltavam por demais lentamente.
Tremia de ódio só de pensar que ele, Shelom, era obrigado a se esconder feito um ladrão daquelas pessoas que o veneravam como a uma divindade.
Nas longas horas de solidão no subterrâneo, ele, repentinamente, era tomado de dúvida – essa força terrível, criada pelo inferno para sugerir às pessoas a descrença na existência de Deus.
E este monstro que dilacera os corações humanos, estava agora em pé junto à poltrona de Shelom; sua cabeça de serpente inclinou-se até seu ouvido, os olhos esmeraldinos fixavam-no, cheios de mofa indescritível, e a voz diabólica murmurava:
- Onde está o seu poder?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:12 pm

O que você pode fazer contras as leis que são mais fortes que o seu conhecimento?...
O hindu e os próprios factos provam, claramente, que no grande tudo, você é uma criatura ínfima...
Quem sabe?... Talvez o senhor a quem você serve não se compare Àquele outro e você jamais poderá vencer o Céu, pois sua causa talvez seja ignóbil...
Um arrepio de rancor violento tomou conta dele ao pensar que talvez ele não passasse de um joguete nas mãos do cruel senhor que se inebriava com o sangue por ele derramado, abandonando-o naquela hora difícil, sem forças para sufocar a rebelião, uma ameaça directa a ele, visto as paixões desenfreadas não conhecerem fronteiras.
Sua alma contorceu-se invadida pela sensação dolorosa de que o inferno não era tão poderoso quanto ele imaginava...
Mas Shelom era diferente daquela turba torpe e indecisa que desconhecia e nem queria acreditar seja no bem, seja no mal.
Ele se aprumou e com a mão atirou para trás as madeixas de cabelo que haviam se grudado em sua testa suarenta.
- Caia fora, monstro covarde da dúvida.
Você não poderá vencer-me? - pensou ele.
Secou avidamente a taça de vinho e depois bateu sobre uma campainha metálica.
Ao seu chamado veio Madim.
- Eu quero chamar Lúcifer e exigir sua ajuda – bradou Shelom.
Está na hora de pôr um fim a todas essas desgraças.
Ele deve ter meios para indicar-me a saída, revelando o prometido segredo da essência, a fonte da vida.
A lei é uma só:
- Peça e receberá, bata e a porta se abrirá?.
Tanto faz a porta em que você estiver batendo, a do Céu ou a do Inferno.
Se você sabe exigir, uma se abrirá em algum lugar.
Preocupado e absorto, Madim ajudou-o nos preparativos, iniciados imediatamente.
Diante da estátua de Lúcifer, eles acenderam as trípodes com ervas resinosas, fizeram a defumação e apagaram as luzes.
Agora somente as velas negras de cera e a chama fumegante das trípodes iluminavam a sala.
Shelom pegou um tridente e ficou descalço, enquanto Madim postou-se de joelhos diante dele com um livro aberto em cima da cabeça.
Com uma voz estrídula Shelom começou a ler fórmulas mágicas, fazendo sinais cabalísticos com tridente, que batia no chão em lugares específicos, e aumentando a velocidade da recitação de fórmulas.
Logo toda a sala subterrânea se encheu de fumaça multi-colorida que pareceu dissipar-se, dando lugar a uma verdadeira legião de diabos de todas as cores e tamanhos, que voavam em volta daquele que os invocara.
No mesmo instante, no fundo negro do livro, desenharam-se em linhas ígneas alguns sinais cabalísticos e os capetas desapareceram como se varridos pelo vento; em seguida, retornaram trazendo com visível dificuldade, um grande punhal com diversos sinais cabalísticos que fosforesciam na lâmina negra.
Shelom pegou a arma mágica e fez um sinal com o tridente:
os diabinhos sumiram e as trípodes se apagaram.
Com a voz roufenha, ele ordenou que Madim acendesse as lâmpadas e ao examinar atenciosamente os sinais na lâmina, disse suspirando aliviado:
- É necessário preparar o sacrifício exigido por Lúcifer e, depois ele nos levará ao local onde jorra a essência primeva que recupera as forças da natureza.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:12 pm

Dois dias depois, encontramos Shelom longe de Czargrado, nas montanhas do Líbano.
Uma ampla caverna subterrânea foi adaptada para invocações a pedido de Lúcifer.
As tochas, enfiadas entre as pedras, fumegavam e com uma luz avermelhada iluminavam um quadro diabólico e repugnante.
No meio da caverna, em três compridas e maciças barras de ferro estava suspenso um enorme caldeirão, cheio até as bordas com um líquido vermelho fumegante.
Sob o caldeirão, numa lareira de tijolos estava o combustível – um amontoado de cadáveres, dispostos feito lenhas e impregnados com breu e outras substâncias resinosas.
Um cheiro nauseante de carne queimada tomava conta da caverna e a fumaça espessa ia para o alto e lá desaparecia, saindo, provavelmente, através de fendas.
Shelom e Madim, ambos nus, com ganchos de ferro nas mãos cuidavam do fogo, mas assim que o cozido nojento começou a ferver, eles largaram as ferramentas.
Shelom peou a forquilha mágica e Madim, o livro negro, que ele colocou sobre a cabeça, ficando de joelhos diante de seu mestre.
À medida que Shelom lia as fórmulas e desenhava sinais cabalísticos, uma miríade de pontos negros começou a surgir da fumaça, tomando a forma de uma legião de capetas.
A caverna povoou-se de gemidos e gritos agónicos; a terra tremeu com uma forte explosão e do caldeirão surgiu à figura medonha do demónio, vencido por Supramati durante o duelo mágico.
Uma crueldade infernal deformava-lhe sinistramente as belas feições; os olhos injectados de sangue cintilavam, e entre os lábios rubros brilhavam os dentes pontiagudos de uma fera.
O ser medonho levantou-se e sua voz surda fez-se ouvir:
- Eu vim a seu chamado, Shelom Iezodot, e lhe darei meios de vencer a Terra de novo.
Na primeira vez, eu lhe dei ouro, que perverteu o mundo; na segunda, aproveite-me da arte da impressão de livros, inventada por homens com o objectivo de trazer a luz, mas que em minhas mãos e nas mãos de meus servidores serviu para que os capetas negros percorressem o universo, espalhando a escuridão, devassidão e sacrilégios, penetrando com a mesma facilidade nos palácios e lares humildes, envenenando desde uma criança até um velho.
Entrego-lhe, agora, a minha terceira dádiva:
a vida eterna, a colheita sem labor, os prazeres sem limites nem doenças.
Eu entrego em suas mãos a seiva, o sangue do planeta, e verei o que você conseguirá fazer de tudo isso...
Ao recuperar o reino, crie fertilidade e pujança, torne-se igual a Deus...
E agora, deixe que Madim tome conta do fogo e me siga.
Pulando lépido do caldeirão, ele dirigiu-se à fenda que se perdia nas profundezas da terra.
O caminho era terrivelmente difícil, através de passagens estreitas que mal permitiam passar uma pessoa; mas com o seu temível acompanhante, Shelom nada receava.
Destemido e incansável, rastejava pelas grutas, trepava ao longo dos abismos, galgava as escarpas, passava por dentro das cavernas com sufocantes vapores sulfúricos.
Finalmente eles alcançaram uma ampla gruta, cheia de vapor prateado e luz ofuscante que se reflectia em estalactites multicoloridas, dando-lhes um aspecto de um tecido bordado com pedras preciosas.
No meio, jorrava o interior da terra, elevando-se por alguns metros, um fino jacto dourado parecido com uma chama líquida, indo cair em seguida, num reservatório natural, onde o líquido parecia perder-se no fundo em filetes dourados.
- Eis aqui a fonte da vida!
E eu que imaginava que nós teríamos de enfrentar os ermitãos do Himalaia, que zelosamente protegem os seus segredos; mas, pelo visto, eles estão mais preocupados em proteger a fonte principal ou, quem sabe, já desistiram de lutar – ridicularizou o demónio e acrescentou em tom zombeteiro:
- Em todo caso, estamos aqui, a fonte da vida está em suas mãos e eu só tenho de abrir-lhe um caminho mais fácil para vir até aqui.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:13 pm

Por enquanto, vamos levar aquele recipiente...
Encha-o. Ele apontou para Shelom uma depressão onde se encontrava um grande jarro de cristal e quando esse já estava cheio até as bordas, pegou-o e os dois se dirigiram à gruta das invocações.
Quando lá chegaram, Lúcifer mostrou a seu discípulo o método de se utilizar da terrível substância e completou:
- Quando o líquido estiver pronto para o uso, ordene que os jardins e os campos sejam espargidos por ele, abasteça todos os governantes regionais para que em todos os lugares sejam feitas as irrigações.
Convém ainda, que o ar seja pulverizado pelo líquido para sua purificação.
O que temos por enquanto é suficiente, mas devemos achar uma forma mais fácil de pegar o elixir.
Indicando o melhor meio de levar à gruta a essência primeva, o terrível demónio se enfiou lentamente no caldeirão e pareceu dissipar-se dentro do sangue que lá fervia.
Ficando novamente a sós com Madim, Shelom aprumou-se, orgulhoso com seu triunfo e raiva saciada.
- E então Madim?
Você é um grande idiota por ter ousado duvidar de mim e tremer diante do hindu!
Entende agora que forças eu tenho na mão?
Quando eu devolver a vida a este planeta, ao atrevido Supramati nada mais restará senão esconder-se com todos os seus eremitas nos redutos onde eles passam até hoje – exultou em tom de desprezo Shelom, espreguiçando seu corpo esguio, como de um gato.
- Oh! Você é o autêntico senhor do universo e o seu poder não tem igual! – Exclamou Madim, jogando-se aos pés e respeitosamente beijando as mãos de seu nefasto soberano.
Algum tempo depois correu um boato que mais tarde chegou ao mundo inteiro; não tão rápido como antigamente, pois os telefones só funcionavam aqui e ali e o telegrafo sem fio pior ainda.
As naves espaciais não conseguiam levantar voo numa atmosfera densa e escaldante, voavam muito baixo e os desastres eram frequentes.
Apesar de tudo, tornou-se pública, com a rapidez possível, a informação de Shelom Iezodot, em tom ufanista, de que ele tinha o segredo de devolver ao planeta ar puro, água em abundância e a fertilidade de outrora.
"Está de volta o século de ouro!" – anunciou ele, - "não haverá mais nem mortes nem doenças e todo o ser vivente agora na Terra que reconhecer o poder de Shelom, o filho de Satanás, será eterno, belo e sadio, gozando de todas as benesses terrenas".
Pouco depois, surgiu o anuncio que oferecia aos interessados provar do elixir da vida eterna, devendo comparecer, para tanto, na grande praça em frente ao palácio de Shelom no dia seguinte, quando então haveria a primeira distribuição.
Ao alvorecer como experiência, os detentores da essência primeva espargiram com ela o ar e...
Realmente, a atmosfera ganhou uma coloração azulada, onde todos sentiram um frescor agradável.
A multidão que viera de manhã e que encheu a praça e as ruas adjacentes logo sentiu a mudança na temperatura e concluiu admirada que as promessas de Shelom estavam sendo cumpridas.
Diante do palácio, num tablado comprido, foi colocado um barril com um líquido rosa do que desprendia leves vapores, e uma quantidade enorme de copinhos cheios da bebida misteriosa.
Com uma cobiça enlouquecida, a turba humana lançava-se junto ao tablado secando o conteúdo dos copos.
Mas, ai, aconteceu algo inesperado...
Mal os primeiros haviam acabado de engolir a bebida ofertada, caíram mortos e os que vinham atrás recuaram apavorados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:13 pm

No primeiro instante, todos foram tomados de pânico, mas depois a multidão enfurecida começou a gritar:
- Ele quer nos envenenar para ficar livre de nós!
As pessoas ensandecidas lançaram-se contra Shelom e Madim com vistas a retalhá-los.
Com muito custo conseguiram salvar a pele fugindo ao palácio, fechando atrás de si uma porta maciça.
Então a multidão lançou-se sobre o pretenso "veneno", quebrou os copos e derrubou o barril.
Devido ao contacto com o líquido, em muitos apareceram queimaduras e feridas, o que aumentou a fúria ainda mais.
Apesar de tudo, Shelom era temido e ninguém se atreveu a invadir o palácio.
Amaldiçoando e soltando impropérios, a multidão dispersou-se, carregando seus mortos e feridos.
Escondido atrás da cortina, Shelom observava através da janela o fim do espectáculo; pálido e desanimado, Madim estava ao seu lado.
E quando, finalmente, Shelom virou-se sombrio e com cenho carregado, o secretário perguntou-lhe timidamente:
- Mestre, não será isso outra artimanha do maldito hindu?
- Bobagem, talvez a dose seja um pouco forte.
Eu ainda não peguei o jeito de manipular a substância e nem tive tempo de estudá-la.
E quanto líquido precioso destruiu aqueles malditos animais!...
Ele pensou um pouco e acrescentou:
- Ainda é perigoso pegar alguém para ajudar, à noite, caro Madim, nós vamos fazer uma nova experiência.
Vamos irrigar os jardins do palácio, alguns jardins públicos e, sobretudo, as árvores no bulevar que parecem postes queimados.
Vamos ver como é que vai ficar.
Com a chegada da noite, armados de bombas pneumáticas – dessas que são utilizadas para a irrigação de ruas – e de grandes baldes de líquido pronto, eles foram ao jardim e regaram árvores, relvados e canteiros.
À medida que os finos respingos caíam ao solo, subia um vapor avermelhado e ouvia-se um estranho crepitar da árvore seca.
Depois eles irrigaram o jardim público vizinho, uma parte do bulevar, e o que sobrou do líquido jogaram, ao voltarem para casa, no lago do parque público praticamente seco.
Embora a quantidade do líquido misterioso fosse muito pequena, em contacto com a água provocou um fenómeno estranho para ambos os pesquisadores.
Ouviu-se algo parecido com uma explosão, a água começou a ferver, a superfície agitou-se em ondas e o seu nível subiu, como se o fundo empurrasse a água para cima.
Devido ao forte estrondo, os "pesquisadores" foram jogados para longe e, quando recuperados do susto, eles se convenceram de que o lago adquiriu a sua forma normal; acalmaram-se e retornaram ao palácio, surpresos e contentes, aguardando curiosos pelos resultados de seu trabalho.
E estes se verificaram surpreendentes, além das expectativas mais promissoras.
Em todo o lugar onde havia caído o líquido enigmático, em poucas horas surgiu uma vegetação exuberante; as árvores do bulevar que eram secas cobriram-se de densas folhagens, formando copas verdejantes; o lago enche-se de água e borbulhava com peixes; o ar tornou-se agradável e fresco, o calor sufocante deixou de existir.
Surpresa e fascínio extraordinários tomaram conta dos moradores; sobretudo deixou-os atónitos, a notícia, que correu tão rápido quanto um raio, de que permaneciam vivos justamente aqueles que se julgavam mortos.
E não bastasse o facto de estarem vivos, aconteceu a eles uma verdadeira transformação.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:13 pm

Todos rejuvenesceram e ficaram em perfeita saúde:
os surdos ouviam, os cegos enxergavam, os surdos-mudos falavam e os paraplégicos andavam.
Só continuaram mal os que ficaram queimados.
A cidade era um só alvoroço.
Todos estavam amargamente arrependidos com o impensado ímpeto de raiva do dia anterior; enquanto os que não tiveram tempo de beber, desesperavam-se só de pensar que ainda ontem haviam destruído, irreflectidamente, tal quantidade de elixir renovador.
Shelom era de fato um ser extraordinário, dotado de poder e conhecimentos sobrenaturais.
Não seria ele então, então, um benfeitor da humanidade se, porventura, restabelecesse em todo o planeta a fertilidade, a fartura de tudo, a temperatura normal e- o que é mais importante – curasse todas as doenças humanas e os preservasse da morte?
Por que ele não poderia fazê-lo, se à vista de todos havia uma prova cabal de seu poderio?
E, não obstante, ele foi magoado e até quiseram matá-lo.
O que aconteceria se ele agora desse as costas aos ingratos, deixando-os entregues à própria sorte?
E a turba leviana e exaltada que ainda ontem queria acabar com ele, novamente se dirigiu ao palácio de Shelom, mas desta vez para glorificá-lo, agradecer e reverenciá-lo.
Aos gritos fortes o povo o conclamava; contudo ele os fez esperar por um longo tempo, e, quando finalmente apareceu no terraço tinha o rosto sombrio e o olhar gélido e severo.
Deve-se acrescentar que em todos os lugares onde, na véspera fora derramado o líquido do barril e dos copos, e onde a substância misteriosa entrou em contacto com o solo, surgiu, durante a noite, uma estranha vegetação – um pequeno bosque de arbusto entrelaçados, à semelhança de cactos, com enormes folhas de uns vinte centímetros de espessura, cobertas de longos e afiados espinhos, como uma lâmina, cheias de grossas nervuras sanguíneas.
Em alguns lugares, através da folhagem escura e troncos baixos, grossos de cor vermelho-pardo, viam-se pendendo bulbos florais em forma de melão, surpreendentemente parecidos com nacos de carne, levemente envoltos em névoa cinza de matiz violeta.
A força com que esses arbustos-monstros brotavam da terra quebrou ou arrancou, arremessando para bem longe, as placas de asfalto que revestiam as ruas.
Com o surgimento de Shelom no terraço, a multidão abriu os braços gritando:
- "Perdoe-nos, perdoe-nos..."
Shelom de início passou-lhes um severo sermão, censurando-os pela ingratidão e estupidez por terem destruído o líquido precioso que poderia ter dado a vida eterna a milhares de pessoas; em seguida, apontando para o bosque espinhoso que ocupou a metade da praça, acrescentou:
- A essência por mim descoberta, como vêem, possui tanto poder que mesmo derramada criminosamente consegue dar a vida.
A diferença é que, quando ela é manipulada sensatamente por uma mão experiente, provoca fertilidade e fartura, ao passo que se for derramada irracionalmente e sem medida, ela cria monstruosidade tal como essa aí, em frente de vocês.
A multidão assustada e quieta recuou bruscamente e novamente ouviram gritos, choros e súplicas de perdão.
Shelom pareceu comover-se e em seu discurso anunciou que Lúcifer, o senhor misericordioso a quem ele servia, perdoava a seus súbditos, afectados pela fome, sede e medo.
- Ele lhes perdoa seus sacrilégios – continuou Shelom – mas vocês deverão corrigir as suas faltas.
Vão, então, reergam os templos de Satanás, acendam as trípodes e ofereçam-lhe em sacrifício os ímpios que se atreveram a insultar o seu nome e subestimar o seu poder.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:13 pm

Já houve Deus que recompensasse seus leais servos com tantas dádivas como Satanás, que nada lhes poupa?
Ele acabou com a morte, a fome e as doenças, e os que o veneram irão gozar de primavera eterna e colher sem plantar.
Os infiéis, os que renegam Satanás, deverão ser eliminados até o último; não há lugar para eles entre nós.
E sendo que eles não poderão beber a essência vital, permanecerão mortais vindos a perecer na fogueira...
Ou melhor, na cruz.
Já que eles veneram esse símbolo, vão gostar de morrer crucificados.
Só precisamos atraí-los daquelas fendas e subterrâneos onde se escondem sem deixar escapar nenhum.
E enquanto isso vamos aplicar-lhes a pena merecida; deixem que aquele.
Ao qual eles oram, desça do céu para defendê-los e salvá-los.
O discurso provocou um imenso entusiasmo.
Mas quando a multidão ia se dispersando para invadir os templos restantes, ocorreu um terrível e inesperado facto.
Uma mulher de meia-idade que ia passando perto dos arbustos enroscou sua saia no espinho de uma folha.
Para o espanto dos presentes, quando a folha endireitou-se, agarrou e arremessou a mulher para o meio do bosque, feito uma pena.
No mesmo instante, das folhas surgiram longos e delgados caules antes despercebidos, grossos como braços; em suas pontas havia curvos acúleos, feito uma mão com garras,
Instantaneamente essa cordoalha viva envolveu e derrubou sua vítima, ocultando assim o final de um drama fatal, pois os gritos da infeliz haviam cessado.
A multidão ficou estupefacta, mas o engenhoso Shelom bradou em voz alta:
- Eis o lugar onde nós vamos lançar os veneradores da cruz; essa tortura equivale a uma fogueira e os ermitãos do Himalaia serão os primeiros a experimentar esse tipo de morte.
Algumas manifestações de apoio se ouviram em resposta, mas a impressão deixada pelo acontecimento era por demais deprimentes para ser retomado o entusiasmo; a multidão dispersou-se às pressas, tratando de abandonar a praça o quanto antes.
Mas, a partir daquele dia, em todos os cantos da Terra iniciou-se uma actividade febril; Shelom enviava, ininterruptamente, grandes quantidades do líquido misterioso a todos os governantes regionais, sub cuja direcção era feita a irrigação, trazendo efeitos surpreendentes.
O mais impressionante era a rapidez com a qual surgia e se desenvolvia a vegetação; qualquer lugar que tocasse aquele extraordinário orvalho, o solo estéril transformava-se em jardins verdejantes, e, com tal rapidez, como se os anos contassem em dias.
A agitação no meio dos cientistas era enorme; e, vão tentavam analisar a inédita substância; ela não se decompunha e os seus elementos continuavam incógnitos.
Sem poderem conhecer a razão, restringiam-se a simples constatação dos factos.
E a Terra de facto se transformava em paraíso. A vegetação era exuberante, os rios encheram-se de água e peixe, em todo o lugar nasceram fontes de água, a velhice deixou de chegar e a população rejuvenescida e florescente parecia estar repleta de viço até então desconhecido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:13 pm

CAPÍTULO XVII

Aguardando pelo momento em que os inimigos os desafiariam para a última e grandiosa batalha, nossos amigos se retiraram para um dos palácios do Himalaia, o mesmo aonde, como vimos antes havia falecido Olga.
Novamente Dakhir, Narayana e Supramati tornaram a morar sob o mesmo tecto, e pela amplitude do palácio cada um poderia imaginar-se em sua própria casa e entregar-se, a sós, a seus afazeres e reflexões.
Certa noite, Supramati se sentara sozinho no terraço, onde Olga costumava passar as horas angustiantes de seus últimos dias na Terra.
As lembranças avolumavam-se diante dele e a imagem da encantadora mulher, que o amava com todo o ser, erguia-se viva em sua memória.
Subitamente, a imagem da igreja do mosteiro cavernal no monte Sinai surgiu-lhe nitidamente e genuflexa, diante do altar, embevecida em fervorosa prece, estava a jovem prioresa da comunidade.
Em seus pensamentos pairava a imagem de Supramati, tal como ela o encontrara em sua visita à gruta, e toda sua alma se entregava à prece:
"Enviando Divino, revele-me quem é você e diga-me seu nome.
Todo o seu ser se agitou quando o vi e fui ao seu encontro.
Eu o conheço, venero e amo como a um enviado de Deus, mas quero saber o seu nome"...
Um sorriso perpassou o belo semblante do mago.
Ele levantou a mão e de seus dedos delgados cintilou uma faixa de luz que parecia alcançar e envolver a jovem ajoelhada em prece; os olhos dela se fecharam e o corpo deixou-se cair sobre os degraus.
Quase no mesmo instante, junto à adormecida, surgiu uma sombra clara e transparente que, com a velocidade do pensamento voou para o espaço e parou junto ao mago, densificou-se e tomou o aspecto humano.
Era Olga em sua actual encarnação.
Sua cabeça estava envolta numa aura dourada. Supramati levantou-se, pegou a mão da "visão" e a beijou.
Os olhos dela se iluminaram de alegria indescritível.
- Supramati!
Agora eu sei o seu nome e o reconheço.
Sua imagem sempre viveu, inconscientemente, em minha alma como um ideal inacessível. – murmurou em voz fraca, mas nítida.
- Você não me esqueceu, coração fiel, apesar de muitos séculos de nossa separação, das provações penosas e das novas formas que o seu espírito adquiriu?
Perguntou Supramati emocionado.
- Esquecê-lo? Seria isso possível?
Não, não faça tais indagações tolas; diga-me, antes, se eu trabalhei o suficiente para permanecer junto a você e ser sua discípula?
Não existem provações nem sofrimentos que eu não possa assumir com alegria para merecer essa sublime recompensa.
Mas talvez o meu amor a você deverá purificar-se ainda mais?
- Não, minha querida, ame a mim como lhe sugere o seu coração, porque seu amor é puro como é pura a sua fé.
A hora de nossa reunificação está próxima, mas...
Você deverá suportar a última e difícil provação, vencendo o obstáculo que nos separa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:14 pm

Você me deixou através da morte e através da morte devera retornar para mim.
Uma luz radiante de alegria iluminou os olhos claros de Olga e uma poderosa energia ressoou em sua voz.
- Não receie meu querido mestre.
Não pense que eu vacilarei diante da morte, tanto mais agora que estou forte e purificada; pois mesmo antes, sendo ignorante, cega e um espírito indeciso, eu enfrentei a morte pela felicidade de tornar-se sua esposa.
Não, Supramati, eu não irei fraquejar.
Sem nada temer, eu propagarei a palavra divina, salvarei almas como exemplo da minha fé inabalável e da morte valorosa.
Morrerá tão somente o corpo, que liberto voará ao seu encontro.
Como lhe sou grata por ter me chamado!
Sua aparição, sua palavra deram-me novas forças.
- Vá então minha fiel amiga, retorne ao seu invólucro corpóreo e esteja certa de que em todos os momentos difíceis que irá enfrentar eu estarei junto de você.
- Eu sei disso, Supramati, você será o meu escudo.
Eis a arma que me fará invencível e diante da qual recuarão todas as forças do inferno – respondeu ela, levantando a mão que segurava uma reluzente cruz.
E fazendo um sinal de despedida, a visão recuou, empalideceu e sumiu na névoa nocturna.
Supramati deu alguns passos pelo terraço, recostou-se no corrimão, contemplando pensativamente o panorama mágico dos jardins mergulhados na luz prateada do luar.
Repentinamente ele foi tomado por um sentimento cruciante de piedade pela destruição antecipada da Terra, ainda tão bela.
Sem poder dar-se conta do tempo que passou em suas reflexões, um leve som o despertou dos devaneios.
Estremecendo ele virou-se rapidamente e exclamou alegremente, estendendo as mãos em direcção de Ebramar.
- Mestre, como estou feliz em vê-lo!
Acabei de pensar em você.
Ou será que você ouviu o meu chamado?
- Justamente. Eu ouvi o seu lamento em razão do fim de nosso planeta e vim consolá-lo – respondeu Ebramar rindo.
- De facto! Estou sendo atormentado pela ideia de que a Terra a nossa Terra, deverá morrer.
Diga-me, não haveria uma forma de salvá-la?
Pois há tantos fluídos puros que se elevam, tantas mortes que serão voluntárias pela grandeza do ideal divino, e junte-se a isso a ajuda de nossa ciência...
Não poderíamos tentar preservá-la?
Eu sinto como se devesse morrer algo próximo e caro, enquanto estou sem fazer nada.
- Eu o entendo caro amigo – disse suspirando Ebramar.
Será que você pensa que nós não sofremos ao imaginar que teremos de abandonar o nosso lar, onde nos tornamos o que somos agora?
Somos impotentes, entretanto, diante das terríveis leis cósmicas que foram accionadas.
Como você irá parar a explosão de uma dinamite se o estopim já está aceso?...
O caos embrenhou-se por tempo demais, aos poucos corrompendo e pervertendo as pessoas.
Os servidores do Mal mantiveram essa derrocada e contribuíram com todos os meios para a destruição dos focos da fé, pureza e luz, que, de certa forma.
Mantinham o equilíbrio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 7:14 pm

E, agora, o demente Shelom, distribuindo sem limite nem medida a essência primeva, transborda a taça da morte e acelera a catástrofe.
Diante de tais circunstâncias, o que nós poderemos fazer?
- Você está certo, mestre, a minha esperança era absurda e foi-me sugerida pela fraqueza, sentimento de medo diante de um novo mundo para onde teremos de ir, assumindo essa terrível responsabilidade.
- E verdade, a responsabilidade é enorme e ao mesmo tempo mais difícil em função de que nos deveremos trabalhar sozinhos, pois os nossos dirigentes estão se transferindo para um sistema superior.
Mas, se a tarefa é grande, é grande, por consequência, a recompensa.
Não será imensa a alegria de levar pelo caminho do Bem os povos nasciturnos, estabelecer leis sábias, que no decorrer dos infinitos séculos irão manter a harmonia ou dirigir a humanidade vacilante em seu caminho da ascensão?
Foi nos dada a oportunidade de criar os séculos de ouro, sermos cientistas e legisladores, czares lendários, que na memória popular serão lembrados como deuses, personificados em corpos humanos, czares das dinastias divinas.
E, como última recompensa, nós nos libertaremos deste corpo putrescível para, purificados e límpidos, retornarmos à morada natal eterna.
Ebramar animou-se.
Os grandes olhos negros pareciam admirar no espaço uma visão resplandecente e os olhos de Supramati também faiscaram.
- E onde é que fica esse mundo no qual será representado o último acto de nossa extraordinária existência?
Em que estado de desenvolvimento ele se acha agora, mestre?
- E um mundo de nosso sistema, invisível para os nossos olhos e bastante distante.
Quanto ao nível de seu desenvolvimento, ele está completamente formado, pois lá existem, raças humanas, fauna e flora.
Entretanto, tudo isso está concentrado em um só continente; a parte restante do planeta, não coberta por água, é formada de imensas planícies inóspitas, pobres em vegetação, com vulcões activos e um reino intensamente profuso de animais de dimensões gigantescas.
As raças humanas encontram-se no primeiro degrau de desenvolvimento intelectual e são, é claro, meio selvagem, mas constituem-se de um material bem adequado para ser trabalhado.
No centro do continente habitado encontra-se o "paraíso terrestre", o "reino do século de ouro", o "Shangrilá", que até o final dos séculos permanecerá na memória popular.
E esse paraíso acha-se junto à principal fonte da matéria primordial, onde a natureza profusamente saciada com a essência vital já revelou essas riquezas de um novo mundo, concentrando recursos vegetais, minerais e animais.
É lá que nos desceremos, buscaremos um lugar para nossos arquivos, ergueremos templos e palácios e de lá iremos governar o mundo a nós confiado.
Não teremos a necessidade de beber mais o elixir vital, pois os nossos organismos já terão adquirido uma força vital extraordinária, nosso tempo de vida será longo, vida de patriarcas, e aqueles que nós levarmos serão os pioneiros da civilização, a quem nós indicaremos o caminho...
Quer ir até o seu novo lar? – Perguntou sorrindo Ebramar, ao notar o interesse com que o ouvia Supramati.
Eu tenho de ir até lá e vim com a intenção de convidar você, Dakhir e Narayana para me acompanharem.
Supramati revigorou-se como se estivesse electrizado.
- Ah, como você é bom mestre!
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