Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:26 pm

Eu sonhava com isso, mas não ousava esperar tal graça! – Exclamou Supramati, apertando efusivamente a mão de seu dirigente.
- Estou vendo, meu querido discípulo – disse rindo Ebramar, batendo-lhe no ombro -, que embora seja um mago com três fachos, o "velho Adão da curiosidade" ainda está vivo em você.
Olhe, não vá querer, sendo lá um simples turista, provar da maça da "árvore de conhecimento do bem e do mal".
Supramati riu também.
- Vamos avisar os nossos amigos.
Arrumem suas coisas, vão até minha casa, e à noite, partimos para a excursão.
- Arrumar as coisas?
Está brincando, mestre?
Será que precisamos levar alguma coisa além de nós mesmos?
E para que?
- Eu sugiro que cada um leve um saco de viagem com os objectos que queira guardar.
A notícia sobre a viagem ao local de suas futuras actividades entusiasmou Dakhir e Narayana, e eles rapidamente arrumaram seus pertences.
Supramati e Dakhir pegaram um grande escrínio metálico com diversas lembranças e preciosidades mágicas, enquanto que a bagagem mais volumosa foi a de Narayana.
Ele juntou numerosas jóias, verdadeiras maravilhas da arte de joalharia e incluiu até um monte de esplendidas rendas "para as damas" – o que provocou um riso geral.
Duas horas depois, todos se dirigiram à casa de Ebramar e ao entardecer subiram na plataforma da montanha, de onde outro dia tinham partido para inspeccionar a gigantesca nave destinada à emigração da Terra moribunda.
Com o mesmo formato, mas de tamanho reduzido, a nave espacial flutuava, amarrada à plataforma.
Ebramar fez entrar seus discípulos, fechou hermeticamente a porta, depois mostrou a nave.
Eles acomodaram a bagagem nas cabinas laterais do salão da aeronave, comprido, mas estreito.
Sobre a mesa, que ficava no meio da sala, havia um jarro e um cesto de pães pequenos e escuros que derretiam na boca.
- Bebam ao sucesso de nossa viagem – propôs alegremente Ebramar, enchendo as taças, que os discípulos tomaram à sua saúde.
A seguir cada um comeu um pequeno pão e Ebramar disse-lhes para ocuparem três poltronas que se encontravam no salão.
Cortando com descarga eléctrica as amarras, Ebramar accionou as máquinas da nave, que começou a levantar voo rapidamente.
- Agora fiquem quietos enquanto eu for dirigindo – disse Ebramar.
Os amigos recostaram-se quietos no espaldar de seus assentos, caindo, imediatamente num sono pesado.
A alegre e sonora voz do mestre, finalmente, despertou-os:
- Bem, levantem-se dorminhocos!
Faz dez dias que vocês estão roncando, e eu acho que já é suficiente.
Surpresos e embaraçados, os amigos levantaram-se.
- Meu Deus!
Por que é que nos deixou dormindo tão desavergonhadamente, mestre? – censurou-o Supramati.
- Foi melhor assim, acalmem-se.
Eu só brinquei e vocês não têm culpa nenhuma por terem dormido tão profundamente – respondeu Ebramar.
Reconheço, eu os fiz dormir de propósito, pois é a minha primeira viagem para lá e tive receio de que vocês, com a sua tagarelice, fossem me atrapalhar na manutenção do rumo desejado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:27 pm

Contudo, estamos nos aproximando do nosso objectivo.
Venham perto das janelas.
Com a pressa compreensível, os três baixaram uma placa metálica que escondia um vidro grosso e olharam através da janela.
A nave ia com tal velocidade estonteante que era difícil distinguir os objectos.
Entretanto, seus olhos experientes conseguiram divisar abaixo deles uma superfície infinita de água, separada por imensas regiões cinzentas, ora seccionadas por gigantescas cordilheiras.
Aos poucos a velocidade foi diminuindo, a nave desceu numa depressão coberta de vegetação e cercada por altas montanhas.
Mais alguns minutos e a roda dianteira parou de girar lançando faíscas.
Por fim, a aeronave parou com leve sacolejo.
Ebramar abriu a porta e saltou lépido para o solo.
Emocionados, os discípulos seguiram-no e, involuntariamente, todos caíram de joelhos.
Após uma breve, mas arrebatadora oração, eles beijaram respeitosamente a terra dos eu novo lar, aquela terra virgem que pela vontade do Eterno lhes era confiada para nela serem introduzidas as suas leis.
Somente depois, eles se levantaram e curiosos passaram a vista ao redor.
Achavam-se num imenso platô, circunvizinho, por um lado, de altas montanhas e, de outro, de terraços que desciam até a planície coberta de vegetação exuberante.
Da altitude em que se encontravam, divisava-se um fascinante panorama.
Bem na linha do horizonte via-se uma faixa de água, quase imperceptível, e contornando lateralmente os vales escondia-se, até perder de vista, a massa escura de florestas.
O próprio platô era um Oásis alegre.
Um macio musgo cinza-azulado cobria a terra, feito um tapete; pelos seixos brancos da cor de marfim corria uma fonte cristalina, reverberando-se em matizes de safira.
Das gigantescas árvores, cobertas por exuberante folhagem verde-azulada caíam uma agradável sombra; e os desfiladeiros, a terra e os arbustos – tudo era decorado por maravilhosas flores de formas e cores jamais vistas.
O ar era puro, transparente, saturado de oxigénio e agradáveis aromas; os passarinhos cantavam nas folhagens e os raios solares iluminavam e aqueciam aquele quadro cheio de placidez total.
- Oh, Deus! Como aqui é bonito! – exclamou Dakhir fascinado.
- É de facto. Aqui se sente a plenitude das forças e a beleza virgem da terra jovem.
Aqui é o "paraíso terrestre", berço das civilizações futuras.
A humanidade selvagem ainda não achou o caminho para cá; tudo aqui está do jeito como foi criado pela generosa natureza.
E agora amigos, vamos desfazer a nossa bagagem e colocá-la em lugar seguro.
Imediatamente eles retiraram da nave os escrínios, cestos, diversos embrulhos e levaram tudo para o interior de uma gruta que Ebramar havia indicado nas imediações.
Era um local amplo, de difícil acesso, iluminado, não se sabe de onde, por uma suave luz rosada, que rutilava magicamente nos estalactites da abóbada e das paredes.
Ao lado havia uma segunda gruta, de tamanho menor, com menor luminosidade, reverberada por ametistas encravadas em cantos e cavidades.
Ali eles deixaram os seus pertences.
Supramati propôs que todos descessem até o vale, o que era bastante fácil graças ao facto de que o local era composto de terraços; a descida era em declive, formando uma gigantesca escadaria.
À medida que os magos desciam, a natureza tornava-se cada vez mais exuberante e diversificada e, para um olho agudo e subtil, aquelas riquezas naturais não constituíam segredo, Ebramar chamou atenção dos acompanhantes para a abundância e diversidade dos metais preciosos, mármores e demais rochas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:27 pm

- Vejam amigos, que fartura e beleza de materiais ocuparão o tempo e a mente dos nossos futuros pintores, em vez do ócio, depravação e sacrilégios.
Aqui há com que preencher os gostos e habilidades.
Ao alcançarem a planície, eles viram que esta era um imenso platô no centro de uma grande cordilheira, cujos cumes pareciam eriçados.
A riqueza da vegetação era surpreendente.
As árvores vergavam sob o peso de frutas nunca vistas, flores desconhecidas exalavam um aroma estonteante e, em todos os lugares, entre as escarpas, gorgolejavam as cascatas e as fontes.
Nascentes cristalinas serpenteavam esdruxulamente entre as árvores e desapareciam ao longe. - Que lugar mágico! – Observou Supramati.
- É gostei! Vou construir aqui um palácio – exclamou Narayana – pois eu tenho de construir um ninho para minha futura família.
Ebramar já se referiu a uma "dinastia divina" neste mundo; então, é claro, vou me casar terei um filho.
Será uma recompensa mínima pelo trabalho que tive para me tornar um mago.
- Você precisará de muito tempo para isso.
Mas, não vem ao caso.
Se você conseguiu o primeiro facho, talvez se torne algum dia, até um bom marido – observou Ebramar.
- Oh! Isto é mais difícil, mas, de qualquer forma, pode-se tentar – e Narayana fez uma careta.
As mulheres são muito ingratas e exigentes.
Não sendo Nara, Supramati provavelmente não vai ceder-me Olga.
E Nara? Oh! Ela é um demónio de ciúme em pessoa.
Um riso geral, incluindo o do próprio Narayana, seguiu-se ao gracejo do mais divertido dos magos.
- Fique tranquilo.
Tenho certeza de que Nara não desejará para si a felicidade de ser sua esposa pela segunda vez – disse Ebramar, quando acabou o arroubo de animação.
E acrescentou em tom sério:
- espero que além de suas obrigações conjugais você assuma a nobre tarefa de dirigir e inspirar os artistas que, sob a sua direcção, criarão a nova arte com as suas obras-primas.
Você é o filho do povo em que se corporificou a arte perfeita; dessa forma, a você mais do que a ninguém, compete a missão de formar artistas e trabalhadores, principalmente aqueles que trouxermos para cá, arrancando-os do caos do ócio e da criminalidade, para ensinar-lhes as artes e preencher-lhes a longa vida com trabalho útil e nobre.
- Prometo-lhe caro mestre, dedicar todo o meu empenho a essa nobre causa – respondeu Narayana e em seus belos olhos negros acendeu uma chama enérgica.
Aqui, em algum abrigo secreto, vocês erguerão provavelmente os primeiros santuários.
- Sem dúvida – respondeu Ebramar.
Eu sei que nos censuram pelo facto de escondermos os santuários e nos chamam de egoístas por mantermos em segredo e acervo de nossa ciência.
Mas, será que não agimos acertadamente ao ocultarmos dos mortais comuns os segredos perigosos?
O lamentável e prematuro fim da nossa Terra, que pelas leis ocultas deveria existir por mais dois ciclos, não é uma prova de que os homens não conseguem utilizar sensatamente os elementos que caíram em suas mãos inexperientes?
Somente os estúpidos podem "brincar" com os gigantes cósmicos e chamar, levianamente, a sua força dinâmica.
Ao laboratório do Eterno somente têm acesso os cientista iluminados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:27 pm

A conversa continuou sobre o mesmo tema, quando Narayana disse estar morrendo de fome e sede e que o calor começava a ficar insuportável, Ebramar concordou com ele e levou os discípulos a uma gruta singular com porta natural, e janela totalmente entrelaçada por plantas trepadeiras; no interior, o tecto e as paredes eram todas brancas, como se cobertas de neve.
A temperatura do ambiente era bem refrescante.
Narayana e Dakhir colheram, agilmente, as mais variadas frutas e Supramati com Ebramar foram à procura de mel que, segundo as palavras do último, deveria haver nas imediações.
De facto, pouco tempo depois, eles trouxeram numa larga folha um pedaço recém-colhido de favo de mel, muito denso, da cor de rubi, mas muito gostoso, ainda que se distinguisse do mel terráqueo.
Após um animado repasto, os magos retornaram ao platô onde estava estacionada a nave e iniciaram uma conversa sobre o futuro e os trabalhos que os aguardavam.
A pedido dos discípulos, Ebramar concordou em pernoitar no local e partir ao amanhecer.
Esta primeira noite no novo lar estava tranquilo, o ar suave e perfumado, a abóbada celeste cintilava em milhares de estrelas.
Nessa penumbra misteriosa divisavam-se vagamente os picos nevosos de altas montanhas e no vale preitejava o mar de imensas florestas – abrigo de povos nasciturnos que dormiam o sono dos leigos, não tendo provado do fruto venenoso do "bem" e do "mal".
A conversa parou.
Mergulhados na contemplação do magnífico panorama, envoltos pela imensa quietude da natureza, os magos reflectiam sobre o passado e o futuro.
De repente, chegaram até a sua audição apurada os sons do nível superior.
Levantando-se rapidamente, eles viram como no azul-escuro da noite estrelada brilhou um facho largo de luz que ia se afastando do fundo, como se abrisse o céu.
E surgiu, então, o génio do planeta, envolto por feixes de luz ofuscante; a seu redor pairavam plêiades de espíritos, trabalhadores do espaço, e no ar fluíam sons de harmonia maravilhosa.
Com uma das mãos o génio apertava contra o peito uma cruz fulgurante e, na outra, ele tinha tamanha força de chama que iluminou o espaço até os seus confins mais extremos.
E lá, nas profundezas incomensuráveis daquela exuberância de luz, cintilou, como uma chama infinita, o Santuário Supremo – a morada dos espíritos perfeitos, o último abrigo dos espíritos libertos de qualquer matéria.
Lá haveria de ser vencida a última dúvida da pura faísca divina que retorna à casa do Pai.
E junto àquele obstáculo flamejante, desenhavam-se vagamente, à semelhança de nuvens de diamante, as formas dos sete misteriosos guardiões do grande enigma.
Os magos prosternaram-se, entregando-se com toda a alma à contemplação do quadro de beleza celestial.
E como se fosse um sopro da harmonia divina, ouviu-se a voz do génio:
- Esse é o caminho de vocês, filhos da verdade, e a recompensa por todos os sofrimentos, por todas as vitórias sobre a carne.
Filhos diligentes da ciência conservem em seus corações a fé inabalável e que a sua mente crie apenas a luz. Os arcanos do reconhecimento perfeito abriram-lhes as portas, trabalhadores obstinados, vencedores do mal; não receiem, no reino infinito do Eterno haverá sempre um trabalho para cada partícula de seu sopro...
A visão esvaeceu, a cúpula azul se fechou e a alma dos magos ardia de exaltação pelo inesquecível momento.
Acalmando-se um pouco, Supramati pegou a mão de Ebramar e beijou-a:
- Oh, mestre, o que fez de nós, míseras e vacilantes criaturas, e que dívida de gratidão eterna recaí sobre nós.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:27 pm

Ebramar puxou-o para perto de si e abraçou-o.
- Tragam-me discípulos como vocês e a sua dívida será paga – respondeu ele sério.
E agora está na hora de pensarmos sobre o nosso retorno à coitada de nossa terra.
Os nossos novos dirigentes abençoaram-nos para a derradeira batalha, e assim...
Avante para a luz!
Uma hora depois, a porta atrás dos viajantes se fechou e a nave espacial com velocidade incrível dissipou as ondas da atmosfera.
Os magos ocuparam novamente seus lugares nas poltronas, desta vez sem dormirem; em suas almas ainda permaneciam as lembranças vividas há pouco e cada um mergulhou em seu pensamentos.
À semelhança dos quadros de um filme, as recordações de cada fase da estranha existência de Supramati passavam diante dele.
Surpreendentemente vivaz, ergue-se em sua lembrança a sua modesta residência em Londres, onde o moribundo jovem médico Ralf Morgan, com angústia no coração, sofria ante a incógnita da morte.
E o aparecimento repentino de um desconhecido transformou-o num príncipe hindu, Supramati imortal, ao qual cabia a necessidade fatídica de presenciar a morte do planeta.
Ele se tornou não somente um imortal, mas também um iniciado, dotado de imenso conhecimento e poder, podendo migrar, feito um pássaro, de um planeta para outro.
Um giodo bruto transformou-se em pedra preciosa nas mãos de Ebramar; e, ainda assim, a simples ideia de quanto ele ainda tinha de aprender, do caminho que tinha de percorrer para alcançar o limiar misterioso, atrás do qual se oculta o último enigma – ser ou não ser – fazia-o suar e ele passou a mão pela testa.
Narayana também estava profundamente abalado.
Tudo que havia visto produziu uma reviravolta em sua alma apaixonada.
Seu coração estava ávido em prosseguir no caminho da verdade; do fundo de sua alma afluiu um poderoso ímpeto em direcção à luz, que transporta os homens para o supremo degrau do êxtase, elevando a sua vontade até o apogeu.
Uma chama cintilou em seus olhos negros e ampla aura iluminou-lhe a cabeça.
No olhar de Ebramar, que o observava, surgiu uma expressão de alegria e amor.
Narayana era seu "filho prodigo" e esse momento de arrebatamento puro, essa luz em sua testa era uma recompensa por longos séculos de paciência e trabalho dedicados para educar aquela alma rebelde.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:28 pm

CAPÍTULO XVIII

Ao palácio do Santo Graal foram convocados todos os membros da ordem e jamais uma reunião de irmãos e irmãs fora tão numerosa porque, agora, pela última vez eles se reuniriam naquele abrigo feérico, onde foram empatados tantos conhecimentos e trabalho, tanta luta moral e triunfos do espírito sobre o corpo.
Ebramar e outros membros que já haviam alcançado os degraus hierárquicos superiores também estavam presentes.
Celebrava-se o ofício divino num clima de profunda veneração e emoção.
Os olhos de todos estavam húmidos quando os membros um a um, aproximavam-se do cálice e recebiam a bênção do superior da irmandade.
Mais tarde foi feita uma reunião em que se discutiram as últimas decisões e foi fixado o prazo da partida final.
Após o almoço e uma visita de despedida a todo o templo do Graal e suas áreas de serviço, os irmãos e as irmãs se retiraram aos locais que lhes foram estabelecidos para desenvolver sua actividade.
Assim, Supramati retornou a Czargrado, sem aparecer, entretanto, em nenhum lugar.
Externamente o magnífico palácio parecia fechado e vazio; no seu interior, entretanto, o trabalho era árduo.
Toda noite, no pátio ou nos jardins do palácio, desciam passageiros com pálidos rostos ascéticos e olhares que exprimiam poderosa fé exaltada.
Agora, junto ao mago havia um quadro completo de jovens adeptos.
Eram os ajudantes de Supramati que sob a direcção de Nivara realizavam rondas em uma região preestabelecida, reuniam os fiéis e passavam-lhes o recado do grande missionário.
Todos os que permaneciam leais a Cristo e que serviam a Deus saíam obedientes dos esconderijos e se dirigiam ao palácio do príncipe hindu, que servia de ponto de reunião.
Enquanto os últimos guerreiros do bem cerravam suas fileiras e se preparavam por meio de jejum e orações contínuas para a grande batalha, em todo o mundo se desencadeava um inaudito bacanal.
A transformação de terra estéreis em exuberantes jardins prosseguia com rapidez incrível.
Parecia que o globo terrestre de facto se transformava num paraíso; a fartura de tudo era tão gritante que não correspondia à necessidades da população, cujo número diminuiu bastante.
Além disso, toda a natureza adquiriu certo carácter anormal:
as frutas e os legumes de dimensões imensas e de cores mais vivas que antigamente tinham um gosto acre; o ar, ainda que agradável e quente, era pesado como na véspera de uma tempestade, e húmido como uma sauna. As pessoas eram acometidas por uma espécie de languidez e, não raro, por sonolência, como se estivessem sob o efeito de narcótico; por essa razão, nas festividades satânicas comparecia menos gente do que se esperava.
Na verdade, a ignorância diabólica no uso da estranha substância já podia ser sentida, mas embevecido e cego pelo sucesso, Shelom nada temia e se divertia com esta terrível força, como com um brinquedo.
Em todos os lugares, por sua ordem, eram erguidos templos satânicos, organizavam-se orgias e, com o auxílio da própria essência primeva, materializavam-se exércitos de larvas.
Esses nojentos e perigosos seres, invocados do espaço invisível, participavam das festas e procissões.
Entretanto, apesar de seu triunfo, Shelom não estava contente; um ódio secreto corroía-o todo.
Ele não pode aceitar a perda de Iskhet, desaparecida sem deixar vestígios, e seus agentes não conseguiam encontrá-la.
Ele era oprimido e atormentado pela conscientização de que o hindu ousara e conseguira arrancar praticamente de suas mãos a mulher do próprio âmago de seu poder.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:28 pm

E de algum tempo para cá, mais uma circunstância nova começou a irritá-lo.
A vegetação monstruosa que apareceu em frente de seu palácio no dia seguinte à distribuição do elixir da vida começou subitamente a murchar e secar, deixando Shelom possesso, pois ele gostava de assistir aos fiéis sendo devorados pela vegetação sanguinária.
Para efeito de experiência, ele sentenciou a essa morte alguns suspeitos em anti-satanismo e ali lançou também alguns animais domésticos velhos ou doentes.
Assim convencido do fim próximo de seu entretenimento, decidiu animar os arbusto com a matéria primeva.
Mas qual não foi a sua surpresa e espanto, ao ver que mal algumas gotas da essência vital haviam atingido as folhas amareladas, estas entravam em combustão, feito uma fogueira.
Dez minutos após, do pequeno bosque cheio de espinhos sobrava apenas um montículo de cinzas, logo espalhadas pelo vento.
Shelom não tinha a menor dúvida de que aquilo fora uma nova artimanha do "hindu".
Seu ódio cresceu ainda mais, se tal ainda fosse possível.
Certa noite, após uma festança num remoto templo satânico, Shelom, com uma procissão sumptuosa, voltava ao palácio.
Sentado num trono móvel, cercado por uma multidão nua e desgrenhada que entoava uma canção alucinante e despudorada, Shelom contemplava cheio de satisfação, a multidão bestificada que se apinhava a seus pés.
Passando por uma rua, no fim da qual se podia ver o palácio de Supramati, a procissão parou atónita, pois um clarão de luz rubra parecia envolver a residência do mago.
De repente, a luz densificou-se, subiu e no azul-escuro do céu, sobre o palácio resplandeceu um gigantesco crucifixo.
Quando viram aquele símbolo invencível, os satanistas foram apoderados de terror; muitos caíram em convulsões, outros começaram a debandar.
Os carregadores largaram o trono móvel e fugiram.
Somente os mais chegados e leais correram em auxílio de Shelom, caído no chão.
Levantaram-no e o levaram ao palácio, enquanto a multidão, com ódio mal contido, tratou de se dispersar rapidamente, escondendo-se cada um, feito cães, em suas tocas.
Seria impossível descrever a fúria de Shelom.
Espumando pela boca, agitando punhos cerrados, rugia dizendo se vingar e provar, mais uma vez, ao maldito hindu que ele ia se dar mal por ter provocado Shelom Iezodot.
Enquanto isso, no local do acontecimento, mal a multidão havia se dispersado, os portões do palácio ficaram escancarados, saindo de lá uma procissão.
Em fileiras cerradas vinham os homens vestidos de branco, carregando crucifixos, velas acesas.
Estandartes, turíbulos e ícones salvos, muito venerados.
Atrás dos homens iam as mulheres, também de branco, em longos véus e com velas nas mãos.
Em frente delas, carregando o estandarte com a imagem da Virgem Santíssima, ia uma mulher bem jovem, de beleza angelical.
Nuvens de incenso ascendiam e o ar enchia-se de poderoso cântico melodioso.
A procissão seguia directamente à grande praça da cidade e, de lá, grupos maiores e menores se separavam da massa principal e se dirigiam para as ruas e praças menos importantes, inclusive para a praça que ficava em frente do palácio de Shelom.
Mudos de assombro, os remanescentes da multidão e os raros pedestres olhavam apavorados para aquelas pessoas de rosto severo, cujos olhos ardiam de fé exaltada.
Para qualquer lugar que fosse a procissão, altares eram erguidos, cruzes e ícones do Salvador colocados, e quando, com o levantar do sol, começaram a surgir os pedestres, que paravam curiosos e surpresos, iniciaram-se as pregações.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:28 pm

Com a força que lhes era sugerida pela convicção inabalável, eles anunciaram a aproximação do fim do mundo, dizendo que os dias já estavam contados e que aquele que não quisesse perder a alma e o corpo, deveriam rejeitar o senhor das trevas e venerar o Deus único, Criador do Universo.
Nos intervalos entre as pregações era lido o Evangelho e entoadas orações.
Aos poucos, diante daqueles altares começaram a juntar-se multidões.
Descrentes inveterados e convictos davam as costas com risos, ofendendo e achincalhando os "trouxas" anti-diluvianos que vieram espalhar suas "idiotices".
Felizmente, em sua opinião, o mundo já há muito tempo já se livrara daquele ridículo obscurantismo.
Muitos não obstante, ficavam intrigados e ouviam atentamente.
Os infelizes nasceram e cresceram sem conhecer a Deus; jamais alguém lhes falou da misericórdia do Pai omnipresente, da morada da alma, da força do bem.
É verdade, existia uma lenda de que houve um tempo em que se venerava a Deus e aos Santos, ou seja, pessoas que por suas virtudes e vida exemplar foram merecedoras de graças especiais e utilizavam-nas entre os viventes para praticarem curas milagrosas, ou dando auxílio moral e minorando os sofrimentos.
Mas tudo aquilo – ensinava-se – eram superstições, contos de fada, para enganar os trouxas e as pessoas crédulas.
E eis que aparecem pessoas que anunciam corajosamente aquelas mesmas convicções de tempos antigos e dizem coisas inéditas.
Aos poucos a multidão começou a se agitar; uns fugiam, outros se aproximavam, feitos mariposas à luz, examinando acanhados o severo e sofrido semblante de Cristo ou a dócil imagem da Virgem Santíssima, que parecia fitá-los com extraordinária bondade e misericórdia.
Calafrios horripilantes perpassavam pelo corpo dos ouvintes, quando um velho com olhos cheios de convicção fervorosa e exaltados, ou uma mulher inspirada, repleta de enorme fé, dizia em voz alta:
- Abandonem suas casas e os bens perecíveis!
Nada já lhes pertence, pois tudo será engolido por elementos desenfreados.
Salvem suas almas.
Busquem um abrigo aos pés de seu Criador.
Muitos dos que ouviam pareciam transpor o círculo mágico que os separava do mal e que acendia em suas almas obscurecidas a chama de renovação; eles caíam de joelhos ou se apinhavam junto aos altares, pedindo que lhes ensinassem a rezar.
Estranho foi aquele dia.
As procissões dos fiéis percorreram com as cruzes todas as ruas da cidade; os satanistas, sofrendo enjoos das defumações de incensos, fugiam furiosos, pedindo ajuda e conselhos junto aos seus sacerdotes ou iam levar relatórios a Shelom.
Entretanto, ninguém ousou atacar abertamente os adventícios; estes não eram os "pseudos-fiéis" de outrora, que, de forma desavergonhada, haviam feito concessões, esconderam-se, permitiram seu banimento, cedendo o caminho para os apóstatas e satanistas.
Não, estes, com toda a sua fé destemida, sugeriam involuntariamente o respeito; sentia-se que ali havia uma força e nenhuma mão ousara levantar-se contra eles.
Shelom estava abalado e furioso com as notícias inesperadas sobre os acontecimentos, tanto em Czargrado como em todas as regiões que davam conta sobre o "ataque" dos cristãos, saídos de seus abrigos, que inundaram as cidades, pregando o fim do mundo e o arrependimento.
- Esses animais que saíram de suas tocas ou são loucos ou idiotas!
Acharam o momento de propagar o fim do mundo!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Será que estes palhaços desconhecem que temos a matéria primordial?
Ou eles estão cegos e não enxergam que o planeta jamais experimentara tal bem-estar?
A natureza lhe doa em profusão todos os bens terrenos, o clima é magnífico, a humanidade está em perfeita saúde, rica, feliz, e, não obstante, tudo isso deverá acabar?
Porquê? Isso é um absurdo!
Não desanimem meus leais amigos, deixem que esses idiotas digam asneiras.
O próprio povo irá justiçá-los!
- Mestre, em algumas poucas horas eles conseguiram seguidores – observou Madim, preocupado.
- Bem e daí?
Se eles provocarem por demais as desordens, nós declararemos uma guerra, cairemos em cima deles e será uma bela oportunidade de eliminá-los de uma vez por todas.
Agora, quando uma vida eterna e um bem-estar ilimitado aguardam por nós, é desejável que haja paz e tranquilidade, ainda que seja de utilidade conhecer os covardes que renegaram a Deus e, sem dúvida, renegarão a Lúcifer.
Devemos depurar o rebanho de todas as ovelhas imprestáveis e deixar que os hindus voltem às suas tocas inexpugnáveis no Himalaia.
Nós os deixaremos em paz, pois eles nos são inofensivos.
- Então você ordena que seja dada, temporariamente, a esses idiotas, uma liberdade de acção e que eles não sejam presos? – perguntou Madim.
- Justamente. Mas, ao mesmo tempo, ordene que os governadores regionais vigiem esses imbecis e façam uma relação meticulosa de todos aqueles quês e corromperam e nos renegarem.
Enquanto isso nós ficaremos em nossas fortalezas a salvo de suas expansões contagiosas.
- Oh! Quanto aos contágios fluídicos, o seu foco não está longe de seu palácio – troçou Madim.
Eu vi esses profetas e profetisas vindo para cá.
Entre eles há uma mulher bela como um sonho, e ela, sem, dúvida, produzirá uma forte inquietação entre a nossa juventude, que se grudará nela feito moscas.
Para falar a verdade, não me lembro de ter visto um ser tão encantador.
Já a imaginou em lugar de Iskhet?
- Sem dúvida, caro Madim, quando chegar a hora.
Eu farei dela a "Rainha do Sabbat" e suas grandes virtudes físicas assegurarão fidelidade a mim – respondeu rindo Shelom.
Algumas horas depois, ele se retirou com seu séquito para uma das fortalezas satânicas, chamando para lá os mais renomados membros do luciferismo para o grande desafio e discussão de um plano detalhado, urdido por ele para a erradicação dos apóstatas.
De acordo com a decisão do terrível líder do satanismo, aos missionários não seriam criados obstáculos para trabalhar.
Percorrendo incansavelmente as cidades e as regiões, eles conclamavam o povo para o arrependimento e oração, anunciando que as horas da vida na Terra já estavam contadas e somente as almas poderiam ser salvas.
Entre as mais ferrenhas pregadoras estava Taíssa.
Na maior praça da cidade fora erguido um altar tão grande que podia ser visto de todos os cantos.
Em seus degraus estava a jovem pregadora e suas palavras eloquentes e convincentes atraíram numerosos ouvintes.
No início, os homens eram atraídos pela rara beleza da jovem, a que se somava a sua voz melodiosa e um olhar límpido e inocente; de sua própria beleza emanava pureza tão poderosa e clara que ela subjugava instintos animais.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:28 pm

Mas Taíssa dirigia-se, sobretudo, às mulheres, falava-lhes do seu papel de esposas e mães, do grandioso dever e da terrível responsabilidade que recaíam sobre elas.
Nesse grande e difícil campo de batalha, a mulher havia decaído, seus delitos contribuíram muito para os cataclismos iminentes, carregavam muita culpa pela morte antecipada do mundo.
A mulher deveria ser uma guardiã do lar, protectora do altar divino, uma mãe que educa seu filho, incutindo nele, no caminho da existência, a fé em deus, ensinando as obrigações humanas e civis.
No momento em que uma mulher negligencia seu papel de mãe para tornar-se concubina ou até voltar-se com cinismo inaudito contra a natureza, renegando a maternidade, ela assina a sentença de morte da humanidade, sendo tudo engolido pela decadência física e moral.
Os filhos insurgem-se contra os pais, os pais odeiam os filhos, o irmão parte contra irmão, a animosidade toma lugar do amor.
E da forma como a mulher repele o berço, ela derruba o altar do lar e negligencia o sacramento nupcial, que sempre diferenciou da concubinagem.
E os cônjuges tornam-se amantes, a mãe e a esposa – bacante, sacerdotisa da volúpia.
Oh, é terrível o crime da mulher que, em vez de utilizar a sua influência para elevar e enobrecer o homem perverte-o e transforma-o num animal.
Não raro Taíssa descrevia os quadros do passado, quando sob o amparo da cruz floresciam as famílias, cresciam génios e heróis populares.
Ela recordava os tempos remotos quando as leis divinas impunham um freio às paixões humanas, quando se celebravam as comoventes festas, como Natal e Páscoa, que reuniam as pessoas em oração e que despertavam nos corações sentimentos de piedade, humildade e amor fraternal.
Actualmente, pelo contrário, o mundo é dominado pela criminalidade, violência e devassidão, as leis desfeitas nada mais protegem e cada um fica à mercê do mais forte...
Tais discursos produziam uma impressão profunda.
Muitos homens e mulheres começavam a ruborizar diante da sua nudez despudorada, começavam a vestir roupas brancas com uma cruz vermelha no peito, vinham orar diante dos altares e suplicavam aos missionários que fossem orientados para deus.
Era estranho ver como depois de uma oração fervorosa e borrifadas com água benta, as pessoas se transformavam totalmente; algo de bondoso e humilde emanava delas e nos olhos iluminados já não ardia a chama de animosidade, avareza e aspirações animalescas.
Frequentemente, no coração dos ouvintes assomava-se uma irritação profunda que se expressava em conversas e brados:
"Fora Lúcifer! Fora o anticristo Shelom Iezodot!"
E a multidão irritada reunia-se ameaçadoramente em frente do palácio de Shelom gritando:
"Devolva-nos a nossa antiga crença em justo e misericordioso Deus, o qual ordenara que cada um amasse o próximo e perdoasse as ofensas, pagasse o mal com o bem!
Devolva-nos as alegrias familiares e as leis de nossos ancestrais".
A mesma actividade intensa se desenvolvia em Moscovo, outrora coração da Santa Rússia.
Dakhir trabalhava com a tranquilidade que lhe era característica; Narayana se arrebentava de trabalhar, seguindo sua natureza entusiástica.
Dakhir pregava, promovia curas, purificava vindo a adquirir em pouco tempo uma aura misteriosa que incutia uma mistura de respeito, gratidão e medo supersticioso.
Narayana estava presente em tudo; sob sua direcção os servidores das igrejas destruídas abandonavam seus abrigos secretos e, em conjunto com outros fiéis, ocupavam os mais importantes lugares.
Seu número era limitado, porém sua fé era imensa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:28 pm

Calmos e destemidos, eles se apossavam dos templos abandonados, transformados em museus ou profanados pelos satanistas, e purificavam-nos.
Foram erguidos altares e instaladas cruzes, reacesos círios e lâmpadas.
Sob abóbadas há muito tempo silenciosas ouviram-se cânticos sagrados e ascenderam-se nuvens de incenso.
Narayana pregava nas praças seu discurso eloquente e a personalidade surpreendentemente encantadora atraía grandes multidões; as pessoas, aturdidas, cativadas e convencidas por ele, seguiam-no à igreja e em suas almas despertava o eco do passado.
Sob as antiquíssimas abóbadas dos templos, gravaram-se no decorrer de séculos, as exteriorizações invocatórias das orações elevadas e tal qual uma harpa de Zodo, que só aguarda um sopro de vento para soar, assim começou a falar a alma obscurecida do povo infortunado, outrora tão forte em fé, do qual foram tirados todos os bens terrenos e espirituais, inclusive sua compreensão de Deus, corrompendo-o sistematicamente com literatura suja e amoral.
Os locais das pregações e as igrejas ficavam, como dissemos, cheios de gente; o atavismo despertava o passado, carregando como onda poderosa o ateísmo e os sacrilégios, instalando nas almas novas esperanças.
Cheios de fé, amor e comoção contemplavam eles as imagens de Cristo, Virgem Santíssima, os santos protectores, aos quais veneraram por séculos inteiros, e os poderosos guardiães da Santa Rússia não ficaram surdos ao clamor assustado de seu povo, ao seu profundo e sincero arrependimento.
Quando dos corações palpitantes e vulneráveis se ouvia a súplica:
"Deus tenha piedade de nós e não nos abandone execrados!" – do éter surgiam correntes de fogo e luz, iluminando a multidão prostrada, e varrendo a sordidez trazida pelos crimes e obscenidades.
Como antes, na primeira missão, a ira de Deus ainda não se desencadeara.
Dakhir encontrara apoio e colaboração em sua fiel companheira Edith.
Agora ela era guiada não só pelo amor, mas também pelo conhecimento, adquirido pelo trabalho tenaz e vontade ardente de se elevar até o grau do grande mago que o destino lhe reservou para esposo.
Ela foi morar com a filha em Moscovo e assumiu a responsabilidade de cuidar da purificação e educação religiosa de mulheres que, retornando a Deus, deveriam ser preparadas para a prova de martírio.
As recém-convertidas desconheciam, sem dúvida, que aquela terrível provação, suportada valorosamente, possibilitaria a elas abandonarem o planeta sentenciado à morte; e, desta forma, aquelas que julgava incapacitadas para tal excelso feito, ela tentava convencer de que, por nada deste mundo, tocasse o elixir da vida, distribuído pela mão generosa de Shelom, pois isso apenas aumentaria os seus sofrimentos no grande e derradeiro momento.
De modo especial ela se apegou a Iskhet.
Essa criatura jovem, pervertida desde seu berço e milagrosamente arrancada do inferno, incutia nela um profundo apego.
Com paciência e amor, Edith guiava e ensinava Iskhet, surpreendendo-se como esta, transformada em Maria, sacudia de si todas as impurezas, florescendo como uma flor tirada de um porão escuro e colocada sob o sol.
Não era muito difícil adivinhar que no cerne daquela metamorfose espreitava um profundo amor a Supramati, porém um sentimento puramente terreno só poderia agravar a provação da jovem mulher.
Edith buscava de todas as maneiras enobrecê-la, incutir-lhe a ideia de qualquer sentimento carnal iria afastá-la do mago com um precipício intransponível, e que somente pelas virtudes, cumprimento de seu dever e uma vida útil e pura, ela poderia provar a Supramati seu amor e reconhecimento.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:29 pm

Seus esforços não foram inúteis.
À medida que Maria começou a entender a si própria e a Supramati, a paixão carnal deu lugar a uma adoração do ser superior que a arrancara do abismo.
Os casos de conversão tornaram-se mais frequentes.
A poderosa e exaltada fé dos tempos passados, com a força cada vez mais crescente.
Despertava nos corações humanos; as pessoas largavam seu trabalho e afazeres, substituindo os locais dos prazeres pela igreja.
Tal estado de coisas provocava uma imensa inquietação.
Em todas as camadas da sociedade só se falava sobre o fim do mundo, procurando-se sofregamente no céu e na Terra evidências da terrível catástrofe, mas nada se notava; os raios solares inundavam o planeta, tudo florescia magnificamente, e, no meio da sociedade inquieta, começaram a se ouvir vozes irritadas exigindo o banimento dos "meio-loucos", que vieram não se sabe de onde e confundiam as pessoas, restabelecendo o antigo "obscurantismo" e as velhas superstições tolas; outros apenas riam, dizendo que quando reina a liberdade individual e de pensamento, não se deve proibir as pessoas de serem tolas, se isso é de seu agrado.
Entretanto, nos observatórios começou a se notar certa apreensão dos astrónomos.
Os aparelhos indicavam que perto do globo terrestre começava a se formar uma larga faixa de fumaça ténue que aos poucos ia aumentando, formando ao redor do planeta um invólucro gasoso, invisível a olho desarmado, mas que dificultava a observação do firmamento estelar.
Paralelamente, foi notado que às vezes naquela névoa surgiam cintilações ígneas que se moviam feito raios em ziguezague ou se enrolavam em espirais e desapareciam no espaço.
As causas desses fenómenos estranhos ficavam sem explicação e os factos não eram divulgados, temendo-se inquietar a população pelas profecias dos missionários do fim do mundo.
No observatório de Moscou havia um jovem astrónomo de sobrenome Kalitin, famoso por algumas descobertas surpreendentes.
Os fenómenos acima referidos deixaram-no muito impressionado; motivado pelo interesse científico ele começou a aperfeiçoar um instrumento por ele inventado, mantido sob segredo de todos.
Quando finalmente ele utilizou seu aparelho, uma combinação de telescópio e microscópio ficou atónito e pela primeira vez na vida sentiu um pavor supersticioso.
Toda a atmosfera era uma ténue retícula ígnea que tremia e se agitava como se fosse impulsionada pelo vento, e, entre os grandes elos dessa estranha retícula, pairavam nuvens escuras, cujos contornos ainda que não nítidos, pareciam com as figuras fantásticas dos demónios, da forma como eram representados nos tempos antigos.
O número dessas criaturas feéricas que voavam em todas as direcções constituía uma legião.
Convencido de que não estava sonhando e de que no espaço visível ocorria, sem dúvida nenhuma, algo estranho e sinistro, o cientista pensou muito e decidiu ir até o príncipe hindu que anunciava abertamente o fim do planeta.
Se alguém no mundo sabia da verdade, esse alguém era ele.
Dakhir retornou da cidade à noite e estava se trocando para jantar com seus amigos, quando Niebo anunciou-lhe a chegado do cientista, cujo nome era conhecido por ser uma pessoa com muitos méritos científicos.
Dakhir ordenou que ele fosse introduzido.
O astrónomo era um homem jovem, magro, de estatura mediana, de rosto agradável e sério e uma larga testa de pensador.
Para o olho perspicaz de um mago bastava lançar-lhe um olhar para entender que ele era uma pessoa honesta, bem menos depravada que os seus conterrâneos e que de facto dedicara suas forças e a vida em prol da ciência.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:29 pm

Faltava em seu trabalho apenas a faísca viva – a fé.
- Em que lhe posso ser útil, senhor? – perguntou Dakhir, apontando ao visitante uma cadeira.
- Príncipe, eu vim lhe pedir para que me tire uma dúvida muito importante.
Peço que perdoe minha ousadia, mas...
Nas ruas ocorrem coisas estranhas e, pelo visto, também no céu.
Dizem que o senhor é iniciado em magia superior e anuncia abertamente o fim do mundo.
Assim eu lhe pediria que me dissesse com toda a franqueza se nós estamos na véspera de uma catástrofe.
O fim do mundo já fora previsto há muito tempo, mas ninguém conhece a data exacta.
Se o senhor sabe mais coisas, diga-me.
Se a catástrofe for parcial, talvez haja um meio de preveni-la e salvar-se.
Seria, por certo, desagradável ter de largar as mais interessantes pesquisas que estou realizando.
Mas veio-me à cabeça:
será que o demente do Shelom não afectou alguma força desconhecida, desencadeando o fogo dos gases atmosféricos, levando a uma catástrofe inevitável?
Essa personalidade enigmática se intitula filho de Satanás, em quem eu não acredito.
Estou convicto de que existem leis com que devemos lidar com cuidado, e, Shelom, sendo um vaidoso iletrado, talvez tenha mexido em seu equilíbrio.
Dakhir fitou com olhar perscrutador o rosto inteligente do cientista e respondeu sério:
- O senhor tem razão, professor.
Os fenómenos que foram observados pelo senhor, o invólucro gasoso, as cintilações ígneas e as legiões de criaturas obscuras, tudo isso é prelúdio de uma catástrofe final e não parcial.
Estamos na véspera do fim do mundo e isso é inevitável em função da situação actual das forças cósmicas.
É uma grande pena que o planeta, que deveria ainda existir por muito tempo, servindo de escola para aperfeiçoamento de uma infinidade de gerações, tenha um fim tão horrível em consequência de abusos inéditos, mas... não há o que fazer.
O cientista empalideceu.
- Príncipe, o senhor diz que a situação é séria e inevitável e, no entanto, o senhor permanece calmo?
- E por que não deveria estar?
Há muito tempo nós estamos nos preparando para este grande momento, enquanto que a humanidade, em sua vaidosa cegueira, dança à beira do abismo, sem dar ouvidos aos profetas e até aos avisos da natureza.
E vocês, cientistas, também são orgulhosos com seus conhecimentos imediatos, não conseguiram prever a catástrofe nem compreender que vocês são simples átomos em comparação com as grandes forças do Universo, e que, para o equilíbrio do mundo, é necessário um punhado de grãos do bem para opor ao mal.
Esse equilíbrio foi quebrado e os desenfreados e devastadores elementos desabarão sobre o globo terrestre, causando-lhe o fim.
Como se tomado por uma vertigem, o astrónomo agarrou-se involuntariamente ao braço da poltrona; mas sua debilidade perdurou menos de um segundo e ele levantou-se tranquilo.
- Estou firmemente convicto e leio em seus olhos que o senhor e outros reclusos do Himalaia não irão perecer, preparando para si um meio de salvação.
Salvem-me também.
Sou uma pessoa boa e poderei ainda ser útil.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:29 pm

- O senhor acha que é tão fácil? - perguntou sorrindo Dakhir.
Lá, para onde nós vamos, precisaremos de gente humilde e crente em Deus.
- Um cientista autêntico está sempre pronto a desistir de seus equívocos quando os compreende.
Diga-me as condições da salvação, prove-me que eu, além da matéria, possuo uma alma imortal, convença-me de que sou simplesmente um escolar inocente na escada de conhecimento e eu renegarei humildemente os meus equívocos e me renderei diante da ciência suprema.
- O senhor deseja saber se possui alma?
Ou por outra, existiriam os espíritos?
Quem vocês acham que são os seres obscuros que vocês invocam em seus templos satânicos?
- Eu não sou um satanista, sou indiferente.
O que se refere aos seres de que o senhor fala, eu os considero pensamentos animados dos invocadores, pois diferentes experiências provaram que o pensamento humano cria formas vivas.
Por exemplo:
um poeta cria os heróis de seu poema ou um artista, as figuras do seu quadro, animados pela concentração de seus pensamentos, dando-lhes uma vida real, ainda que temporária.
É bem natural que os invocadores dos demónios criem os demónios, e, uma vez que a quantidade de pensamentos humanos é incomensurável, o espaço está repleto de diferentes personalidades que nós podemos ver e invocar, mas não podemos verificar a sua existência temporária.
- Eu lhe darei a prova que deseja – disse Dakhir, levantando-se e pondo a mão sobre o ombro do visitante.
Nestes grandiosos dias, quando tem inicio a agonia do mundo, uma inteligência pura e audaz tem direito de ser convencida da verdade.
Siga-me ao meu laboratório.
Perto de uma janela aberta achava-se um aparelho desconhecido ao cientista.
Dakhir pôs a visita diante do aparelho, disse-lhe para aproximar o olho no orifício circular, fechado por uma lâmina, e depois lhe cobriu a cabeça com um pano escuro.
Accionando molas, ele apertou diversos botões eléctricos.
Pouco depois, sob o pano que se mexia, ouviu-se um grito abafado.
- Não se mexa, - disse autoritário Dakhir.
Quinze minutos depois, a cabeça do professor apareceu por baixo do pano.
Ele estava lívido feito cadáver e recostou-se na parede para não cair.
- Meu Deus! – Murmurou ele – A atmosfera está no caminho da decomposição.
Eu não entendo os elementos por mim desconhecidos que lá aparecem.
Então é assim o verdadeiro mundo visível!
Eu não podia imaginar nada semelhante!
Acrescentou ele pouco depois fechando os olhos e apertando a cabeça com as mãos.
- Vê, professor – sorriu enigmaticamente Dakhir -, os nossos conhecimentos são maiores que os seus e nós possuímos aparelhos mais aperfeiçoados.
Mas não desanime, na escada infinita do conhecimento nós também somos ignorantes.
Somente num sentido nós somos superiores a vocês.
É que nós temos consciência de nossa insignificância e nada descartamos irreflectidamente, ou seja, não gritamos que tal coisa é impossível só porque não a entendemos.
Agora vamos, eu lhe mostrarei que o senhor tem mais alguma coisa além da matéria.
Ele levou o professor até um grande aparelho de parede, colocou-lhe a mão sobre a cabeça e começou a pronunciar a meia-voz, fórmulas numa língua desconhecida.
À medida que ele falava, começou a surgir uma névoa rubra que se concentrou no peito e na cabeça do cientista.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 7:29 pm

Em seguida a nuvem vermelha deslizou para o lado, ficando a uma distância de um metro, ligada ao corpo por uma luminosa faixa vermelha.
Pouco depois, amassa nevoenta se densificou, alargou-se e tomou a forma exacta do professor, com a única diferença de que a figura astral parecia mais viva, enquanto que o corpo azulado de olhos vítreos parecia um cadáver.
Colocando as mãos nos ombros de uma e outra figura, Dakhir disse:
- Está vendo, o senhor é apenas um pedaço da matéria; esse, do lado esquerdo, é o seu invólucro carnal, temporariamente abandonado pelo princípio vital, tendo adquirido a forma de um cadáver; o dublê do corpo é a sua individualidade, aquilo que pensa, trabalha, e é o corpo astral.
E lá, em seu dublê de éter, aquele algo azulado com matizes dourados de chama, aquilo que se agita entre o coração e o cérebro é a sua alma, faísca indestrutível, ainda obscurecida por muitos fluídos imperfeitos, mas que por meio do trabalho e provações poderá se purificar.
Chegando o dia em que a chama divina pura, libertando-se de todas as amarras materiais, comparecerá ante o altar do Criador.
Veja professor, o senhor é uma grande obra de arte saída das mãos do Criador, do Pai infinitamente bondoso, que lhe legou uma partícula de seu sopro divino e deu-lhe a oportunidade de compreender e alcançar tudo.
Dakhir tirou a mão e o dublê astral com a velocidade de um raio, reentrou no corpo, mas, provavelmente, o professor havia sofrido uma vertigem, pois cambaleou e teria caído se não fosse amparado pro Dakhir, que o ajudou a sentar-se na poltrona.
Um minuto depois, ele endireitou o corpo e murmurou, agarrando com as mãos a cabeça:
- Neste minuto eu soube mais que durante todos esses anos de trabalho intenso na escuridão.
- Sim – retrucou Dakhir – todos os que trabalham na escuridão não querem saber que o foco de luz está tão próximo deles.
Ela está dentro de nós mesmos, é só querer chamar por ele.
A chama interna deve ser acesa pela contemplação e trabalho de reflexão.
Ela iluminará a nossa aura e nos dirá o que nós não sabemos.
Todas as riquezas do conhecimento estão dentro de nós, se quisermos utilizá-las.
Todas as molas do trabalho intelectual se encontram em nosso sistema nervoso.
Só devemos saber controlar esses mecanismos complexos.
- Eu quero estudar tudo isso! – exclamou com entusiasmo o professor, levantando-se.
Porém, subitamente, baixou a cabeça e acrescentou em tom triste:
- Mas, talvez, já seja tarde iniciar.
O fim está próximo e eu morrerei esquecendo este grandioso momento; quando a verdadeira luz iluminar as trevas de minhas pesquisas, perecerei feito um cego, um átomo rude que se considera "grande" e não tinha condições de entender as gigantescas forças que o cercavam.
Só uma coisa que não me seja negada:
antes de morrer, diga-me quem é o senhor, ensine-me a adorar aquele que o senhor adora.
E quem dispõe dos destinos da humanidade?
- Sua pergunta é boa e sensata – respondeu sorrindo Dakhir.
– Quem sou eu?
Sou o profeta do final dos tempos.
Agora veja – ele deu um passo para trás e foi subitamente iluminado por uma espécie de corrente de luz, que parecia irradiar-se de sua cabeça e corpo, envolto em uma aura azulada.
Como se transformado numa visão resplandecente, com a coroa de três fachos de luz, Dakhir ficou postado diante do professor aturdido.
– O senhor vê diante de si um simples mortal que, através do trabalho, adquiriu uma força astral.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 7:19 pm

Qualquer um que queira se esforçar poderá alcançar um estado semelhante, concentrar em si mesma a chama do éter e utilizar-se inteligentemente dela.
E eis a quem venero – com gesto autoritário ele levantou a mão e pronunciou algumas palavras em uma língua estranha.
No mesmo instante no ar acendeu-se um cálice de ouro com uma cruz encimada por coroa de espinhos.
– Isto é a fé no símbolo enigmático da eternidade, cujo centro é Deus, um Ser indescritível e inconcebível, a ideia do qual resplandece em todo o Universo por Ele criado.
A coroa de espinhos são os sofrimentos, através dos quais a alma se purifica e se eleva pelos degraus do aperfeiçoamento infinito.
No grande esforço dessa ascensão nada se perde, não há nada inútil, tudo serve para a espiritualização e salvação de nossos irmãos pela humanidade.
Como se movido por uma força superior, o cientista caiu de joelhos e, pela primeira vez na vida, seus lábios pronunciaram, num ímpeto de fé e comoção:
- perdoe-me, Pai Celeste, e tenha piedade de mim.
Logo que ele se levantou, a visão desapareceu, o mago também, e diante dele estava Dakhir, em seus trajes sociais nos quais ele era conhecido.
O professor olhava para ele com um misto de medo e curiosidade, e disse vacilante:
- Não entendo o que houve comigo!
Parece que um pesadíssimo fardo me caiu dos ombros e o meu cérebro trabalha com uma incrível velocidade, os quadros de pensamento voam, uns após outros com rapidez e facilidade jamais experimentadas; enquanto que antes eu trabalhava com muito esforço.
- O senhor ficou aliviado da negação preconceituosa, da descrença e da ideia preconcebida que escondia do senhor o invisível, escravizando seus pensamentos.
- Eu deixei de ser descrente e quero trabalhar de olhos abertos.
Como faço para segui-lo?
- Para seguir-me deve-se morrer voluntariamente e depois ressuscitar!
Observou sorrindo Dakhir, lançando um olhar perscrutador no professor.
- O sentido de suas palavras é-me obscuro – respondeu o cientista, balançando tristemente a cabeça.
Contudo, a minha fé é tão forte que eu aceito, sem discutir, tudo o que o senhor mandar-me fazer.
Não retornarei mais ao observatório, pois sei agora que sou um ignorante e os trabalhos futuros são inúteis em vista da aproximação da catástrofe.
Pela mesma razão, não tenho que me ocupar com a salvação de bens terrenos e, sendo assim, suplico-lhe deixar-me ficar aqui para morrer junto com o senhor.
- Senhor tem medo da morte?
- Não - respondeu com firmeza o jovem cientista.
Dê-me uma taça com veneno e eu o tomarei como prova de que eu sou capaz até de morrer para alcançar pelo menos um degrau superior.
- E não lhe ocorre sequer uma dúvida quanto ao facto de que se o planeta não vier a morrer o senhor fará um sacrifício inútil, privando-se da vida que poderia ser longa num corpo forte e sadio?
- Não tenho a menor dúvida quanto ao fim inevitável do planeta e estou plenamente convicto de que o senhor me dará o apoio e me ajudará quanto ao meu estado espiritual.
- Sem dúvida – respondeu Dakhir, aproximando-se de um armário e tirando de lá dois frascos, um grande e um pequeno.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 7:19 pm

Enchendo pela metade uma taça de cristal, ele verteu algumas gotas do frasco pequeno; o líquido efervesceu e adquiriu uma cor rosada.
– Aqui dentro está a morte e a ressurreição.
Aquele que tomar o líquido sem uma sombra de temor salvará a alma e se elevará à luz em vez de fenecer nas trevas.
Ele estendeu a taça a Kalitin, enquanto este olhava para ele pálido e concentrado.
Mesmo assim, ele pegou decididamente a taça e observou:
- Se não me engano, eu li em algum lugar que os cristãos, ao morrerem, diziam:
"Senhor Jesus, entrego em suas mãos a minha alma"!
Dakhir fez um sinal de anuência.
Então o professor repetiu com deferência a frase, persignou-se e, sem piscar um olho, tomou o líquido de um só gole.
Um segundo ainda ele ficou de pé, envolto em chama que parecia sair de seu corpo, e em seguida caiu fulminado.
Dakhir apoiou, depois levou o corpo sem vida para o sofá e cobriu-o com cuidado com uma coberta vermelha.
- Alma valorosa, você irá atrás de nós, pois em você estão lançados os princípios de um mago – pronunciou ele, olhando com amor para Kalitin estendido.
Trancando em seguida a essência e a taça, Dakhir foi para a sala, onde o aguardava um modesto almoço em companhia de seus familiares e amigos.
Dakhir amava apaixonadamente a vida em família com suas puras e tranquilas alegrias, mas durante a sua estranha existência de muitos séculos, absorvida por constante trabalho intelectual, ele estava sempre só.
Por esta razão, os poucos anos passados com Edith em Czargrado pareciam-lhe um oásis no meio da rigorosa, difícil e solitária vida de asceta.
Seu amor se concentrou todo em sua filha.
A criança despertava nele os sentimentos de um simples mortal, servindo de elo vivo com a humanidade.
Urjane crescia lentamente como todos os filhos dos mortais; sob a sombra do santuário, sob a vigilância de Ebramar e das mulheres iluminadas, florescia essa estranha flor humana, vindo a desabrochar em toda a sua beleza virgem.
Realmente, Urjane era linda como um sonho.
Ela parecia com Dakhir:
tinha tez pálida e cabelos enrolados negros, mas a esbelteza aérea do porte alto e os grandes olhos azuis lembravam a mãe.
Seus olhos exprimiam uma profunda e sonhadora contemplatividade, característica de todos os seres enigmáticos que vivem de certa forma, fora do mundo.
Sob a vigilância de Edith, Urjane tomou sob seus cuidados toda a casa, que logo adquiriu um aspecto aconchegante.
Narayana que, apesar do facho de mago, sempre gostava de comer, disse certa vez que até um iluminado de sete fachos é um pobre coitado se não tiver uma dona de casa como ela, pois até um corpo inúmeras vezes espiritualizado era dotado de um estomago.
Dakhir e Edith riram muito da troça original do mago, surpreendendo-se que mesmo após tantos séculos de luta e vicissitudes a sua alma conservou traços puramente humanos e uma capacidade inesgotável de usufruir prazeres.
Feliz com o elogio quanto a seus conhecimentos culinários, Urjane, a partir daquele dia – para a diversão dos pais – caprichava no requinte da mesa, mais que modesta, inventando para seu amigo, tio Narayana, os mais deliciosos pratos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 7:19 pm

Quando Dakhir entrou na sala de jantar, Edith ainda não tinha chegado e os amigos estavam sentados à mesa, ocupados, pelo visto com uma conversa muito interessante.
Narayana falava calorosamente de alguma coisa, ilustrando suas palavras com desenhos numa grande folha de papel branco.
Enrubescida de emoção, Urjane ouvia, os olhos brilhando de curiosidade.
Ao ver o pai, ela se jogou em seus braços.
- Ah! Se você soubesse quanta coisa interessante me contou o tio de sua vida passada!
- É? – Sorriu Dakhir.
Por exemplo, o confronto de bigas no Bizâncio durante a guerra entre os "verdes e azuis", quando ele esse saiu vencedor; depois o torneio durante as cruzadas do qual ele participou.
Deus! Que tempos interessantes eram aqueles; nem melhores do que os de hoje.
- E você lamenta por não ter vivido naquela época? – perguntou Dakhir sentando-se.
- Não, o tio prometeu-me as mesmas diversões no novo planeta e como eu gosto muito do seu palácio no Himalaia, para onde eu fui uma vez com a mamãe e o nosso mestre Ebramar, ele me deu a sua palavra de construir um igualzinho no novo mundo.
Em volta dele, quer fundar uma cidade, dando-lhe, em minha homenagem, o nome de "Urjane" – concluiu alegremente a jovem, satisfeita consigo.
- Estou vendo que a actividade colonizadora e civilizadora de Narayana será útil e diversificada – observou Dakhir com sorriso levemente zombeteiro, olhando maliciosamente para o amigo de séculos.
Com isso, visivelmente constrangeu-o, pois nos grandes olhos de Narayana brilhou uma expressão de satisfação e embaraço.
Mas a conversa foi interrompida com a chegada de Edith com Iskhet, Niebo e Nivara.
O secretário de Supramati trouxe uma mensagem e contou que as perseguições, provavelmente seriam retomadas em breve em todos os lugares, visto que em Czargrado seriam presos alguns fiéis, e Madim, à frente de um bando, atacaria a jovem pregadora Taíssa, encarcerando-a no palácio de Shelom.
- Vocês conhecem aquele espírito encarnado!
O mestre, sem dúvida irá protegê-la, mas, mesmo assim, será uma provação difícil e terrível que irá custar-lhe sem dúvida, a vida – acrescentou Nivara.
Iskhet, que o ouvia atentamente, pensou profundo e, levantando-se inesperadamente, aproximou-se de Dakhir.
- Mestre, deixe-me voltar a Czargrado.
No palácio eu conheço todos os recantos e esconderijos.
Eu ajudarei na fuga da moça de que fala Nivara, e também de todos os prisioneiros, sob a orientação do mestre.
- A sua vontade de ser útil é elogiável, minha filha.
Mas, você já parou para pensar que perigos a aguardam ao decidir entrar no palácio de Shelom ou no templo satânico?
Você poderá novamente cair em mãos do miserável – observou Dakhir, olhando perscrutadamente para ela.
- Eu espero que o meu conhecimento do local vá me salvar; mas, ainda que Shelom consiga me pegar, será torturado apenas o meu corpo, pois a minha alma já se libertou para sempre dele.
Não temo nem morte nem tortura, ainda mais pelo facto de que os meus sofrimentos seriam justos e uma expiação merecida pelos antigos delitos – redarguiu ela, e em seus belos olhos negros brilhou uma chama enérgica e exaltada.
Todos olharam para ela com amor e Dakhir pôs a mão em sua cabeça abaixada. - Que seja como você quer.
Nivara a deixará em Czargrado.
A casa de Supramati servirá para você de abrigo seguro e você agira segundo os seus conselhos.
Iskhet parecia feliz com a autorização obtida e algumas horas depois o avião de Nivara levou-a de Moscou.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 7:20 pm

CAPÍTULO XIX

Conforme já se descreveu, Shelom Iezodot refugiou-se com seus comparsas numa fortaleza satânica.
Ali levando uma vida de orgias.
Diariamente, de todos os cantos chegavam notícias sobre os êxitos dos cristãos e o aumento alarmante do número de desertores, mas Shelom levava tudo na brincadeira, respondendo com desprezo às observações dos conselheiros e amigos.
- Deixem-nos! Quanto mais desertores, maior a nossa chance de acabar com eles de uma só vez.
Vocês sabem o nosso senhor gosta do cheiro de sangue e carne frita.
Os gritos e gemidos desses canalhas, que pagarão com a própria pele por todas as baixezas, serão uma música agradável para seus ouvidos.
A invocação do poderoso demónio pareceu confirmar a opinião de Shelom.
O espírito das trevas deu uma resposta evasiva e o líder dos satanistas continuou sua vida devassa.
Entretanto, a desordem no meio do povo aumentou a tal ponto, e as baixas do partido de satanistas foram de tal monta, que por fim Shelom se alarmou e achou que havia chegado à hora de agir energicamente.
Ele começou pela invocação solene de Lúcifer e assumiu o papel de supremo sacerdote na celebração do culto satânico.
O príncipe do inferno veio ao chamado e quando inquirido por Shelom para indicar aos seus leais servidores o programa das acções, respondeu com uma caustica gargalhada, secundada feita um eco, por milhares de vozes, Shelom estremeceu sem entender...
Por que essa risada do terrível líder das forças obscuras?
Seria ela de felicidade ou escárnio?
Quando cessou a alegria funesta, o demónio ordenou que fossem seguidas suas nas grandes praças de todas as cidades, e diante de cada imagem sua fosse armada uma fogueira e queimados todos aqueles que se negassem a trazer sacrifícios e a venerar Satanás.
Os sacrifícios seriam repetidos três vezes ao dia, e feito isso, Lúcifer concordaria em apoiar seus leais seguidores.
Shelom decidiu agir imediatamente e, na mesma, dirigiu-se a Czargrado com toda a sua corte.
A cada governante regional foi enviado um despacho com a ordem expressa de iniciar sem protelação, a perseguição aos fiéis a mando do próprio Lúcifer.
Durante toda a noite, em todos os templos satânicos reinou uma grande agitação e, ao alvorecer, do palácio de Shelom partiu uma caravana bem convincente.
Uma estátua de Satanás ia sendo carregada solenemente, e, liderando a procissão ia Shelom rodeado por conselheiros e principais sacerdotes dos templos satânicos.
Quando a procissão alcançou a praça principal, esta já estava tomada pelo povo.
Em volta do altar, erguido e decorado com uma cruz, havia uma imensa multidão de mulheres, homens e crianças prostrados de joelhos.
Todos já haviam encoberto a sua nudez com túnicas brancas e, com lágrimas nos olhos, ouviam a pregação de uma mulher, parada num degrau para ser mais bem vista.
Era Taíssa, que atraia as massas com suas palavras arrebatadoras e fé ardente.
A beleza fascinante da jovem acentuava-se ainda mais naquele momento, quando sua alma fremia exteriorizada em voz harmónica e olhar inspirado.
As pregas suaves da túnica branca contornavam sua figura esbelta e, no calor da pregação, o véu que lhe cobria a cabeça caíra de seus ombros e a vasta cabeleira envolveu-a como aura dourada.
Shelom parou imóvel e seus olhos cobiçosos fixaram a jovem pregadora, que parecia flutuar, feito uma visão radiante, acima da multidão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 7:20 pm

- Madim! – murmurou ele, apertando a mão de seu comparsa - eis a mulher que eu quero possuir.
Se você tem amor à vida, trate de prendê-la e levá-la para mim.
- Sua ordem será cumprida – respondeu Madim com sorriso cínico.
Era dela que eu lhe falei aquela vez, dizendo que ela bem que mereceria substituir Iskhet!
Não estava certo? Há-há!
- Não sei se ela substituirá Iskhet, mas que será minha e morrerá sob as minhas carícias...
Isso é certo! – respondeu Shelom continuando o caminho.
Entre os que estavam presentes na praça, ocorreu um pânico com o aparecimento da procissão satânica.
Gritando e empurrando uns aos outros, a multidão dispersou-se pelos cantos.
Só uma parte conseguiu se salvar, o resto foi afastado para trás pelos asseclas de Lúcifer que ocuparam todas as ruas adjacentes.
A cruz foi imediatamente derrubada e sobre a mesa do altar foi colocada a estátua do espírito das trevas, diante da qual os satanistas começaram a armar uma imensa fogueira.
No meio do corre-corre, Madim, ajudado por alguns homens, agarrou Taíssa que, que foi amarrada e levada ao palácio de Shelom.
Mas a jovem pregadora era por demais amada e conhecida para que seu desaparecimento não fosse notado.
A notícia sobre o facto chegou rápido até Nivara que, preocupado, apressou-se em transmiti-la a Supramati.
Este o ouviu calmamente.
- Meu leal amigo, preocupa-o a notícia de que ela está em poder de Shelom, visto ser de seu conhecimento o segredo que me une a ela.
Você sabe que Taíssa é Olga.
Acalme-se, sem dúvida eu a protegerei com a minha força astral; além do mais, a sua própria fé lhe servirá de escudo e Shelom jamais conseguirá maculá-la.
E se ele sentenciá-la à morte, isso será a grande prova de martírio que lhe falta para elevar-se até mim.
Não tenho poderes para livrá-la disso, mas o seu amor é tão forte, seu ânimo é tão poderoso, que ela praticamente não sentirá o horror da morte.
Taíssa foi trancafiada numa das salas subterrâneas do palácio de Shelom.
Era um quarto redondo, mobiliado com luxo sombrio, pois tanto os cortinados como as tapeçarias e móveis eram negros; a Lâmpada do tecto jorrava uma luz vermelho-sanguíneo.
A jovem prisioneira tinha sido jogada, fortemente amarrada, num largo sofá de camurça preta e estava sem crucifixo e sem roupa.
Naquele fundo negro, seu corpo virgem e branco parecia uma estátua de mármore; sua ondulada cabeleira dourada esparramava-se pelo piso em mosaico.
Vergonha e medo tomavam conta de seu coração; orando fervorosamente, ela repetia com fé e comoção:
"Deus, Todo-Poderoso, protector dos fracos e inocentes, guarde-me, me salva da violência do impuro, não permita que ele me macule!
Deixe-me morrer glorificando Seu Santíssimo nome".
Por vezes, ela estremecia como se acometida por acesso de febre devido ao frio subterrâneo e ar tóxico.
Subitamente se ouviu um barulho, seguido de um leve tilintar a semelhança do som produzido por sino; seu rosto foi bafejado por um sopro de ar tépido e aromático.
Minutos depois, mãos invisíveis cortaram as cordas que a amarravam, enxugaram seu rosto com pano molhado, cheirando a aroma, e vestiram-na numa túnica fina de linho.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 7:20 pm

Taíssa levantou-se, olhando alegre e assustada para uma nuvem branca que pairava diante dela, se densificando rapidamente.
No alto e esbelto um homem de branco que Taíssa reconheceu imediatamente a Supramati caindo de joelhos.
- Mestre! Você veio para libertar-me! – Murmurou ele, estendendo-lhe as mãos.
- Não, não para libertar, minha filha, mas para reconfortá-la e animá-la.
Eis a cruz em lugar daquela que lhe tiraram.
Pegue esta taça de vinho, um pedaço de pão e uma caneca de água benta.
Estas provisões você receberá de mim diariamente.
Não toque aqui em nada; em nenhum alimento contaminado pelo hálito satânico – ele pôs a mão sobre sua cabeça e ela sentiu todo o seu poder perpassado por uma corrente de calor benéfico.
Agora eu posso deixá-la minha criança.
Você está preparada.
Seja valorosa e firme:
a hora da recompensa está próxima.
Uma nuvem azulada envolveu a figura do mago e ele desapareceu.
Taíssa tomou o vinho, comeu o pão e sentiu-se mais forte.
Depois, ajoelhou-se no mesmo local onde aparecera Supramati e onde parecia ainda brilhar uma luz azulada.
Mergulhada em prece ardente ela não sentia o tempo passar e só um brusco barulho do relógio batendo a meia-noite tirou-a do devaneio.
Uma súbita angústia apoderou-se de Taíssa.
De todos os lados do quarto, levemente iluminado, ouvia-se um barulho estranho, sons de garras arranhando, respiração ofegante.
Quando ela decidiu olhar em volta, estremeceu de pavor, de todos os cantos escuros surgiam, arrastando-se em sua direcção, seres horripilantes, semi-homens, semi-animais.
Que ela jamais tinha visto.
Suas caras cadavéricas, desfigurada por toda sorte de paixões, eram medonhas; os olhos ardentes penetravam Taíssa, e mãos em forma de garras estendiam-se a ela na tentativa de agarrá-la.
Taíssa recuou até à parede, onde acabara de se desenhar a imagem de uma cruz radiante, e recostou-se apertando ao peito o crucifixo fulgurante, trazido pelo mago.
A choldra nojenta recuou.
O fedor que invadia o subterrâneo pressionava seu peito e tonteava-lhe a cabeça; não obstante Taíssa não perdia a coragem e rezava com todo fervor...
Passada talvez uma hora, a porta em sua frente abriu-se silenciosamente e nos eu limiar surgiu Shelom, parado, imóvel cerca de um minuto, ele devorava com os olhos a jovem; trancando a porta atrás de si, ele se aproximou e disse em voz surda:
- Largue essa cruz, Taíssa.
Ela impede que eu me aproxime.
Não vim como inimigo; eu a amo como jamais amei uma mulher e você será minha, pois é esse o meu destino e jamais alguém conseguiu se opor a ele.
Não gostaria de recorrer a violência.
Você tem o meu amor a seu alcance.
Eu lhe ofereço todos os prazeres e riquezas terrenas.
Compartilhe comigo o trono do mundo.
E agora, repito, largue essa cruz que me impede de apertá-la ao meu coração. Louco de paixão.
Taíssa nada respondeu, caindo de joelhos e levantando a cruz feito um escudo ela continuou orando.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 7:20 pm

Shelom ficou possesso.
As radiações azuladas emitidas pela cruz provocavam dores insuportáveis por todo o seu corpo, mas a paixão animalesca era mais forte que a dor.
Com fúria crescente ele tornava a exigir que Taíssa largasse a cruz.
E, como esta continuasse calada, ele tirou um estilete e se preparou para lançar-se sobre ela, a fim de arrancar de suas mãos o símbolo odioso, com risco de feri-la.
Mas o estilete subitamente voou para o chão, arrancado por uma força invisível e Shelom acabou caindo.
Louco de raiva, levantou-se de um pulo e uma cena repulsiva teve início.
O mostro arremessava-se sobre Taíssa tentando agarrá-la, e quando achava que já ia dominar sua vítima, com as mãos tocando a túnica de linho, entre eles surgia um obstáculo invisível, empurrando-o e derrubando-o no chão.
Ele rodopiava e, convulsão, espumando pela boca, proferia terríveis impropérios, chamava pela ajuda dos demónios; estes vinham, brilhando em cor amarela, vermelha e verde, mas desapareciam imediatamente.
Por fim totalmente exausto com essa luta inédita, Shelom rastejou-se para a saída, onde os seus lacaios o levantaram, levaram-no aos seus aposentos e ele dormiu.
Ao ficar sozinha, Taíssa agradeceu a Deus que a salvara milagrosamente das mãos do demónio e sentou-se exausta no sofá.
No mesmo instante diante dela apareceu uma sombra clara e uma voz remota pronunciou:
- Durma sem medo. Você está sendo guardada!
Repleta de fé e gratidão, Taíssa acomodou-se no sofá e dormiu um sono profundo.
Quando despertou, ela viu sobre a mesa a taça de vinho e o pedaço de pão prometidos.
Ao recuperar as forças, começou a rezar.
O tempo passava languidamente.
Taíssa ouviu o relógio batendo, porém não se dava conta se era dia ou noite.
Não veio ninguém, nenhum barulho quebrou o silêncio reinante.
De repente, junto ao nicho que ficava perto dela, ouviu-se o crepitar de uma mola e surgiu um vulto escuro envolto em uma capa:
descobrindo-se, Taíssa reconheceu Iskhet.
- Rápido! Pegue esta capa e me siga.
Eu vim para libertá-la e vou tirá-la daqui através de um caminho secreto – disse ela apressada.
- Irmã Maria, você teve a coragem de vir até aqui, directo à boca do leão?
Se ele encontrá-la, você pagará com a vida.
- Não temo a morte e, visto o fim do mundo estar próximo, de qualquer forma terei de morrer.
O martírio me salvará a alma e você rezará por mim, pois é imaculada e o fétido sopro do "maldito" não tocará em você.
Rápido! Vamos!
Ela envolveu Taíssa numa capa escura, cobriu-lhe a cabeça com capuz e quando ambas já estavam perto do nicho, a porta subitamente se abriu, entrando Shelom em companhia de algumas pessoas.
- Vejam, há dois ratos em vez de um! – exclamou ele.
De um salto ficou junto às mulheres e arrancou a capa de uma delas.
Taíssa correu para a parede onde novamente surgiu a cruz radiante.
- Iskhet? – Soltou Shelom, dando uma gargalhada sarcástica.
Bem, eu não tinha perdido as esperanças de encontrá-la, minha encantadora esposa.
E eu a pego em flagrante aqui, quando você ia raptar a minha pombinha celeste?
Há-há-há! Não serão ciúmes, bela "Rainha do Sabbat?"
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 7:20 pm

De qualquer forma, sua nova fé deixou-a mais bonita ainda e eu juro por Satanás que vale a pena pegá-la de volta para a converter à crença anterior.
Taíssa estremeceu, sentindo uma raiva infernal soar na voz de Shelom e brilhar em seus olhos.
O que acontecerá a infeliz que arriscou a sua vida e liberdade para salvá-la?...
Mas, a ex-Iskhet não se intimidou bem um pouco; ela era realmente bela e fulgia com uma beleza totalmente diferente.
A pureza e a harmonia adquiridas transformaram seus traços e o seu rosto pálido e magro espiritualizou-se.
Vestindo uma túnica comum, cabelos vastos trançados, ela parecia mais alta e mais esbelta que antes.
Com a fala de Shelom, seus grandes olhos negros faiscaram; medindo seu terrível inimigo com um olhar de desprezo, ela apertou ao peito a cruz e disse calmamente:
- Equivoco seu, Shelom Iezodot!
Jamais você me pegará, pois não tem mais poderes sobre mim e o inferno já não tem a menor importância.
No máximo você poderá tirar-me a vida, pois a alma pertence a Deus.
- Só a vida! Entretanto, minha cara, existe muitos métodos de se tirar uma vida e, entre esses, há os mais desagradáveis, como por exemplo, ser queimada viva – redarguiu Shelom com gargalhada maldosa.
Por enquanto vamos acomodá-la num lugar seguro e veremos se a fome, a sede e outras delícias não afarão mais sensata.
Felizmente, não faltam meios de dissuasão e eles quebram pessoas bem mais fortes do que você – acrescentou ele com desprezo, fazendo um sinal a dois homens para que a levassem.
Iskhet recuou rapidamente e levantou a cruz sobre a cabeça.
- Eu vou sozinha, não se encostem a mim! – Disse ela aproximando-se de Taíssa.
Esta a beijou e murmurou nos eu ouvido:
- Seja firme, Maria, você será apoiada!
Iskhet se despediu e saiu apressada em companhia de dois luciferianos.
Shelom e Taíssa ficaram a sós.
Desta vez o terrível feiticeiro apareceu armado de toda a sua ciência negra.
Sem se chegar a ela, ele cercou-a de pequenas trípodes, nas quais em pouco tempo começaram a arder ervas e pós, espalhando odores sufocantes.
Ao mesmo tempo, ele começou a pronunciar invocações, e, ao seu chamado, do espaço saíram seres asquerosos, formando um semicírculo, que, lenta, mas, firmemente, aproximavam-se de Taíssa.
Eles gritavam e se contorciam diante da cruz fulgurante, como se açoitados, mas continuavam a rastejar para frente.
O coração de Taíssa quase se partia de pavor, mas ela enfrentava corajosamente o medo e sua fé não enfraquecia.
Somente quando as medonhas caras dos demónios se aproximaram mais perto e as mãos com garras iam agarrá-la, ela, subitamente, pensou em Supramati e de seus lábios soltou um chamado sôfrego!
- Mestre, venha me ajudar!
No mesmo instante, do éter surgiu uma nuvem clara que envolveu a jovem numa espécie de glóbulo transparente e a corja infernal, arremessada para trás como se por uma forte rajada de vento, juntou-se rugindo atrás de Shelom.
Inutilmente ele agitou a sua espada mágica, desenhou sinais e pronunciou poderosíssimas fórmulas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 7:21 pm

As faíscas que partiam de sua espada ricocheteavam no glóbulo luminoso, como se ele fosse de bronze, e algumas delas vieram a acertar o próprio Shelom, causando-lhe queimaduras e ferimentos doloridos.
Tal resistência, aliada à derrota de sua força mágica deixaram-no furioso e feriram o seu amor próprio.
Rugindo feito uma fera e espumando pela boca, todo ensanguentado, partiu ele desesperado sobre o glóbulo luminescente, mas trombou com a barreira intangível e espatifou-se em convulsões no chão.
Quando ele se levantou, algum tempo depois, pálido feito cadáver e tremendo com todo o corpo, dirigiu-se à saída e parando na porta virou-se, agitando os punhos cerrados, gritando em voz rouca:
- Sórdida criatura, joguete do maldito hindu, você não perde por esperar!
Eu me vingarei e lhe idealizarei uma morte que até o inferno irá estremecer!...
Iskhet também foi trancafiada numa cela subterrânea, porém essa era vazia.
Um monte de palha servia-lhe de leito; no meio do recinto havia uma mesa de pedra, repleta de pratos com comida, cestos e garrafas de vinho.
Apesar da fome e sede, a jovem mulher não tocou em nenhuma iguaria, convencida de que tudo aquilo esta misturado com perigosas drogas que poderiam até matá-la.
A terrível fome e sede começaram a martirizá-la com a visão da comida preparada e o vinho aromático.
Mas Iskhet resistia valorosamente, tentando sôfrega buscar apoio na prece.
Na inexistência de relógio e devido à semi-escuridão do ambiente, ela não conseguiu se dar conta de quanto tempo passara presa, mas, sentindo-se enfraquecida, deitou-se e fechou os olhos, tentando concentrar-se para continuar a prece, pedindo a morte como forma de libertação.
De repente, ela ouviu um leve barulho e uma voz conhecida que chama por ela.
- Irmã Maria! Pondo-se de pé rapidamente - e muda de surpresa, ela viu Nivara, o bondoso e corajoso discípulo de Supramati, que estava diante dela com um cesto nas mãos, sorrindo.
- Aqui estão as provisões, irmã Maria.
Fortaleça-se e esconda os restos.
Tenha fé, esperança e reze.
Estamos pensando em você e logo você ficará livre – disse ele carinhosamente, desaparecendo da mesma forma que havia aparecido.
Pelas cidades e povoados foi instituída uma verdadeira caça aos fiéis.
Bandos armados faziam buscas pelas ruas e caminhos, detendo aqueles que eram considerados "convertidos", levando-os às prisões e depois para o sacrifício de Satanás.
Em todos os lugares ocorriam cenas chocantes, gritos e gemidos pairavam no ar.
Pessoas eram torturadas e mortas nas prisões e diante das fogueiras para obrigar aos infelizes a trazer sacrifícios ao demónio.
Como a carne é impotente, somente os espíritos muito fortes enfrentavam a morte tranquila e destemidamente, resistindo às torturas com o heroísmo de mártires.
A humanidade parecia estar enlouquecida; ruas pareciam campos de batalha, o tempo pareceu deslocar-se para trás, e os carrascos de Shelom bem que poderiam dar aulas de crueldade aos carrascos de Diocleciano ou Nero.
Ressurgiam até os métodos arcaicos de tortura; homens e mulheres, enlouquecidos de tanto sofrimento, urravam sob os açoites e tenazes de ferro, maldizendo os demónios e em desespero chamando por Deus e Cristo.
Alguns fraquejaram e acabaram trazendo sacrifícios a satanás, outros permaneceram firmes e, quando, com o cair da tarde, era acesa uma enorme fogueira, eles eram arrastados para ela sob os aplausos e gritos selvagens da turba bestificada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 7:21 pm

Entre os não muitos que subiam na fogueira tranquilos e com fé inabalável, havia sempre um sacerdote e quando os sentenciados com os olhos brilhando de exaltação prostravam-se de joelhos e de todos os lados, começava crepitar o fogo, os sacerdotes incógnitos oferecia a esses uma grande taça, fazendo-os tomar um gole do líquido fulgurante.
Nuvens de fumaça escondiam dos espectadores o que vinha depois.
Apenas um facto estranho, que, no entanto se repetia diariamente, começou a provocar preocupação e curiosidade.
Toda vez qua fogueira era acesa, desencadeava-se uma tempestade, ribombavam os trovões, o vento espalhava as chamas e ao céu se levantavam colunas de densa fumaça negra, que virava uma espécie de parede.
O fogo devorava tudo e ninguém jamais conseguiu encontrar um osso sequer de algum mártir...
Já há muitos dias que a temperatura se tornava cada vez menos agradável; o ar estava pesado, denso e saturado por um aroma caustico que dificultava a respiração.
Através do céu cinzento já não penetrava mais nenhum raio solar e algo de funesto pairava naquela penumbra
Pálida, qual não foi, então, o pavor de todos quando pela manhã não veio o amanhecer; os relógios apontavam meio-dia, no entanto a escuridão não só não havia se dissipado como se tornava mais acentuada.
Uma abóbada negra parecia ter descido sobre a Terra.
No firmamento não se via sequer uma estrela; as lâmpadas eléctricas que iluminavam a escuridão tremeluziam estranhamente, reverberando cores ou vermelhas, ora amarelas, ora arroxeadas.
Que pena é capaz de descrever o pânico ensandecido da população?
As pessoas largavam o trabalho e abandonavam as casas; as multidões em transe se juntavam nas ruas, olhando perplexas para o céu da cor de guache e respirando com dificuldade no denso ar pesado.
Ninguém tinha visto nada igual:
isso não pressagiava coisa boa.
Não seria aquilo um aviso funesto da catástrofe prevista por profetas e cristãos?
A certeza da aproximação do perigo inevitável fez com que o coração de todos disparasse desesperado.
Milhares de vozes bramiam como ondas do mar enfurecido e o instinto de preservação dizia às pessoas para buscarem abrigo, onde fosse possível.
Uns corriam aos observatórios astronómicos, outros, ao palácio de Shelom.
Ele, filho do Satanás, conseguiria evitar o perigo.
Outros tantos foram aos templos satânicos, que pareciam ainda mais terrificantes em sua negritude na penumbra pálida.
Entretanto, uma parte significativa de homens e mulheres correu para o palácio do príncipe indiano, e a multidão desnorteada parou perplexa diante da residência de Supramati; todos os portões estavam escancarados.
Quando os mais corajosos entraram no interior do palácio, viram que a magnífica habitação estava vazia e tudo se encontrava aberto.
Na enorme sala, iluminada por uma surpreendente luz azulada, via-se uma grande cruz preta e nela o Cristo crucificado com a coroa de espinhos na cabeça; em seu semblante divino gravou-se uma expressão de tristeza e autêntica compaixão; feixes de luz envolviam a cabeça do Salvador.
Mudos de amargura e medo, a turba olhava para aquele, o qual eles negaram, o qual afrontaram, cujo nome ultrajaram, cujos preceitos sagrados renegaram.
Então era isso que lhes deixou o grande hindu – a imagem do Redentor, filho de Deus, o qual, crucificado, orava pelos seus verdugos!
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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