Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:45 pm

CAPÍTULO IV

Supramati passou a noite inteira orando fervorosamente e só ao alvorecer, quando ao longe se ouviram passos, gemidos e choro da multidão chegando, ele levantou-se dos degraus do altar e olhou para fora.
Do lado da cidade, pelo caminho em direcção ao abismo, arrastava-se uma numerosa procissão, à frente da qual uma pessoa levava, como se fosse um estandarte, uma faixa de tecido lilás-escuro, que Supramati já tivera a oportunidade de ver nas portas das casas.
Atrás, seguia um grupo de funcionários e, por fim, numa fileira sem fim, em carroças ou em macas iam os condenados, rodeados por familiares chorosos.
Os mais desesperados, pelo visto, eram as mulheres carregando filhos aleijados, corcundas e paraplégicos, que se agarravam com as mãozinhas no pescoço de suas mães.
Ao chegar à beira do abismo, a procissão macabra parou e se perfilou em um grande semicírculo, no meio do qual se postaram os funcionários com capacetes dourados, adornados com uma ave de asas abertas – símbolo da liberdade incondicional -, e o secretário, segurando o livro de registos da cidade, do qual ele iria riscar os nomes dos infelizes à medida que eles iam desaparecendo no abismo.
Havia até uma orquestra, mas sua presença destinava-se a abafar com música os gemidos dos presentes e das vítimas, caso alguém, apesar de drogado, ainda tivesse forças para gritar.
Em cima de uma mesa, posta adiante, os médicos começaram a distribuir em taças a bebida anteriormente preparada.
Quando um dos representantes do governo se preparava para ler a sentença, na esplanada que se erguia sobre o abismo apareceu um homem em trajes brancos com uma harpa na mão.
O primeiro raio do sol nascente iluminou com a cor púrpura suas alvas vestimentas, seu belo rosto exaltado e o instrumento de cristal que brilhava feito um diamante.
Um minuto após, os dedos finos do homem misterioso tocaram as cordas e ouviu-se então uma melodia estranha, ora suave, ora áspera.
A multidão reunida no lado oposto ficou imóvel, como encantada, e todos os olhares se fixaram no músico desconhecido, enquanto este continuava a tocar e cantar.
Os sons tornavam-se cada vez mais fortes, enlevando e estremecendo com sua harmonia cada fibra, fazendo despertar sentimentos vagos e desconhecidos, elevando o espírito dos homens e amolecendo-os como cera.
A multidão, incluindo os funcionários, como sob hipnose, começou aos poucos a se prostrar de joelhos; centenas de pássaros vindos de todos os lugares sobrevoaram a esplanada e, rodeando destemidamente o músico, pousaram a seus pés e nos ombros.
Ele, entretanto, parecia nada notar e continuava a tocar.
Agora, dele partia uma névoa azul prateada que o envolvia com larga aura.
E desse foco jorravam raios de luz, caindo como serpentinas sobre os enfermos, sendo absorvidos por seus organismos.
Então se deu um espectáculo magnífico.
Do corpo dos doentes levantaram-se redemoinhos de fumaça negra, e, à medida que os miasmas fétidos se desprendiam de seus organismos, os membros paralisados começaram a se mover; os olhos dos cegos – a recuperar a vista; as feridas – a cicatrizar; e as faces anémicas e definhadas – a adquirir vitalidade.
Sem acreditar em seus olhos, as mães fitavam perplexas seus filhos, que em pouco tempo estariam mortos e agora alegres moviam livremente as mãos e os pés afectados ou endireitavam as costas corcundas ou o corpo curvado.
Não passou nem uma hora e as carroças e as macas ficaram vazias.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:46 pm

Todos os condenados, agora devolvidos à vida e ao trabalho por força desconhecida, ajoelhados como todos os outros, contemplavam o misterioso músico repletos de gratidão.
Subitamente, os sons interromperam-se.
O desconhecido baixou a harpa, olhou satisfeito para a multidão de joelhos e desapareceu no interior da gruta.
Como que despertado do feitiço, o povo levantou-se e ouviram-se gritos de alegria; os familiares dos condenados à morte beijavam seus entes queridos restituídos à vida.
Perplexos com os acontecimentos, os funcionários confirmaram que não havia mais doentes, não havendo, portanto, a necessidade da execução, e deram ordens para retornar à cidade.
Uma agitação e curiosidade tomaram conta da multidão e cada um era atormentado por uma pergunta:
quem poderia ser aquela pessoa que só com sons de uma harpa havia curado doentes desenganados?
Ninguém sabia quem ele era e de onde viera, mas, já após algumas horas, em toda a capital corriam relatos sobre o misterioso forasteiro e os seus feitos milagrosos.
Os rumores sobre o acontecimento inusitado chegaram até o palácio do rei.
No início ele não quis dar ouvidos a ninguém, mas, quando um dos funcionários que estivera presente no local lhe confirmou o facto, o rei expressou a vontade de ver alguns dos ex-doentes conhecidos.
Então levaram ao palácio um homem, outrora paralítico, uma mulher leprosa e cega, uma criança surda-muda, um homem que sofria de convulsões, cujo rosto e membros deformados eram assustadores, e várias outras pessoas anteriormente doentes.
Convencido com seus próprios olhos de que todos estavam perfeitamente sadios, o rei mandou que eles descrevessem o que sentiram durante o processo de cura.
Todos unanimente, disseram que tão logo o desconhecido começou a tocar, sentiram uma comichão no corpo inteiro.
Em seguida viram raios de cor azulada que desceram em ziguezague sobre eles e absorveram-se em seus corpos.
No mesmo instante, começou a percorrer-lhes uma corrente de fogo, perfurando-os feito flechas pontiagudas, enquanto eles sentiam o bafejo de uma brisa fresca e aromática, que lhes proporcionava um indescritível deleite.
De que forma tinha ocorrido à cura?...
Disso os beneficiados não tinham a menor ideia; mas os sofrimentos haviam cessado, os olhos recuperaram a visão, as mãos e os pés ganharam a flexibilidade, desapareceu até qualquer vestígio da doença.
Ao ficar sozinho com o velho presidente do Conselho, um amigo já experimentado, o rei expressou sua preocupação perguntando, meio sem jeito, que pessoa seria aquela e de onde teria vindo.
Que objectivos, enfim, ele perseguia e o que, em suma, eles deveriam pensar sobre toda aquela história?
O provecto ancião reflectiu e depois disse meio inseguro:
- Eu espero majestade que por força de tais circunstâncias excepcionais me permitirá desta vez expressar algumas questões proibitivas.
- Sem dúvida. Estamos a sós e eu lhe permito falar abertamente de tudo – respondeu o rei.
Assim, o próprio lugar, escolhido pelo forasteiro para praticar esses trabalhos surpreendentes, já me leva a tirar as seguintes conclusões.
A gruta, onde ele buscou o abrigo, era o templo do antigo Deus branco.
Naquele abismo, segundo dizem, foi lançada a última estátua divina juntamente com o fiel sacerdote que relutara em abandonar o local sagrado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:46 pm

A lenda reza que, antes de morrer, ele vaticinou que Naquele mesmo lugar seria erguido o primeiro templo da Divindade branca e a luz triunfaria sobre as trevas.
Preocupa-me o facto de que no futuro ele possa provocar desordens, mas, neste momento, eu creio ser insensato agir com crueldade em relação ao homem que salvou a vida de tantos infelizes.
Esperemos e vejamos o que vai acontecer – ponderou o rei depois de reflectir.
A cidade toda nesse ínterim, estava alvoroçada.
Nas casas dos ex-condenados à morte amontoavam-se visitantes e tudo foi tomado por um clima de festa.
Os outrora doentes – agora sadios e felizes – circulavam entre os amigos e conhecidos sem apresentar algum cansaço e recontavam as sensações e as impressões vividas por eles e seus familiares, produzidas pelo extraordinário homem.
Esses relatos causavam impressões ainda mais fortes nas famílias onde havia enfermos que seriam, com toda certeza, condenados ao extermínio no mês seguinte.
Na alma dessas pessoas confrontavam-se o infortúnio que se avizinhava e uma vaga esperança de salvação, pois o coração humano é feito de modo que nenhuma lei ilegítima pode modificá-lo e arrancar do seu interior os sentimentos de faísca psíquica, indestrutível, colocada pelo Criador.
No dia seguinte, uma caravana dirigiu-se ao abismo levando e carregando doentes.
Ao chegar ao local, prostrou-se em silêncio de joelhos, ansiosa e sem saber o que fazer.
Através de todos aqueles séculos, jamais alguém lhes ensinara como se dirigir a Deus e como se deveria orar.
Feito uma manada assustada, eles ficaram de joelhos olhando ansiosos para Supramati, que acabara de aparecer na esplanada sobre o precipício.
O coração magnânimo do mago encheu-se de uma profunda misericórdia em relação àqueles infelizes, cruelmente privados de qualquer ideia sobre Deus, que sequer desconfiavam da poderosa força neles adormecida que poderia acender a chama da fé e reuni-los ao Criador.
Com os olhos cheios de lágrimas, Supramati contemplava esses deserdados e pobres de espírito que, feito crianças desamparadas, comprimiam-se assustados uns nos outros, olhando para ele com tristeza nos olhos.
Uma prece fervorosa verteu-se de sua alma ao Pai omnipresente para dar-lhe forças para salvar os infortunados, devolver-lhes a mais valiosa das dádivas, a inesgotável riqueza a todos acessível – a fé em Deus e o amor ao Bem.
Nesse instante, no coração de Supramati – que nada mais era que o próprio mundo ali enviado – despertou o amor a esses habitantes de outra terra e ele sentiu claramente uma afinidade fraterna que unia todos os seres de todos os mundos e todas as esferas – desde um átomo até o arcanjo – como uma corrente indivisível, a qual, como um raio cintilante, irradiava-se do coração do Eterno, percorria todos os sistemas e retornava à sua fonte primitiva.
Então, era esse o grande mistério do sopro divino que, à semelhança da chama que acende milhares de outras, nunca se extingue, mas se transfere de um átomo a outro, animando a matéria e extraindo do protoplasma um mago com conhecimentos perfeitos!...
Nesse momento de elevado significado, Supramati compreendeu a recôndita e divina ideia:
lançar no exacto momento da criação, no pequeno e frágil ser, o poderoso sentimento do amor que une as pessoas e os mundos – a alavanca da criação.
Tudo que até aquele momento era obscuro tornou-se claro; o peso da missão aliviava-se; a tarefa por ele assumida já não era uma obrigação, mas se constituía em felicidade de poder fazer o bem àqueles que amava.
Entre ele e os pobres de espírito, que se dobraram de joelhos diante dele, formou-se, graças à comiseração, um poderoso elo que unia os seres de Deus.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:46 pm

Uma imensa alegria invadiu o coração do profeta: sua missão tornava-se maravilhosa e ele recebia a recompensa...
Toda a aura de Supramati encheu-se de fulgores dourados e todo o seu ser respirava com força gigantesca.
Ele pegou a harpa e os sons por ela tirados eram a música das esferas – uma vibração poderosa que subjugava os elementos da natureza e reunia os mundos.
Como uma corrente de fogo, sua poderosa vontade transmitia-se à multidão ignara que ele contemplava com amor. Todos os olhares estavam pregados à figura branca do mago, lágrimas corriam e ninguém suspeitava que aquilo fosse o despertar da alma com o orvalho dadivoso que neles reacenderia a fé no Criador.
Todos os enfermos ficaram curados e o fluido da força vivificante que se irradiava de Supramati era tão forte que até o tronco de uma velha e ressequida árvore, junto ao abismo, voltou à vida e se encheu de seiva.
Esse novo "milagre" provocou uma estupenda admiração e os relatos a respeito do homem "sobrenatural", que vivia na gruta, ganharam repercussão lendária.
Essa agitação chegou novamente ao palácio, visto que ainda, entre os que tiveram a cura milagrosa, encontrava-se a jovem Medkha, amiga da princesa Vispala, neta do rei.
O rei, de nome Nikhazadi, já era velho e seus dois únicos filhos foram vítimas da terrível lei, descrita anteriormente.
Os príncipes sofriam de incurável doença e, não obstante a sua elevada posição, perderam, sequencialmente, as suas vidas no abismo.
Restava ao velho monarca apenas a sua neta, sua herdeira, filha do caçula, pela qual nutria uma excepcional adoração.
Vispala era uma moça encantadora, no auge da juvenil beleza, e Medkha, desde a infância, era sua melhor amiga.
A ideia de perdê-la custou à jovem princesa muitas lágrimas, podendo-se imaginar o quanto ela ficou feliz ao ver sua amiga totalmente saudável.
Vispala enchia-a de perguntas sobre o misterioso homem que fazia tantos milagres, enquanto Medkha, feliz com a cura, descrevia entusiasmada como era Supramati.
- Jamais eu vira um homem tão belo...
E o que é surpreendente é que ele em nada se parece com os nossos homens.
Ainda que seu rosto seja pálido, percebe-se que seu sangue é vermelho, pois as faces estavam rosadas.
Seus cabelos são ondulados e de cor indefinida, de tonalidade dourada.
Seus olhos...
É difícil descrevê-los... Só mesmo vendo.
Eles parecem respirar fogo, mas expressam tal vigor físico e ao mesmo tempo tanta bondade que eu poderia ficar a vida inteira ajoelhada admirando-os – dizia Medkha.
Eu preciso vê-lo! – exclamou Vispala, e seus olhos brilharam. – mas como e de que jeito?
- Não há nada mais simples princesa.
Todos os dias, diante da escarpa onde se processam as curas se amontoam o povo, ele fica bem à beira da esplanada com a harpa nas mãos e pode ser visto sem problemas.
Enquanto que à noite, contou-me a tia, uma luz azulada envolve a gruta e a esplanada, e ele fica tocando e cantando fora.
Jamais alguém ouvira cantos semelhantes; cada fibra parece estremecer, no coração sente-se um comichão e as ideias mais estranhas vem à mente.
Até os animais parecem ficar enfeitiçados por ele; os pássaros, por exemplo, pousam nos ombros, nos joelhos e diante dos pés desse estranho homem.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 02, 2016 7:46 pm

Simplesmente não dá para acreditar.
Dias após, Vispala com sua amiga conseguiram chegar a altas horas da noite ao abismo, onde já havia uma multidão de pessoas, entre as quais elas se misturaram.
De facto, uma luz estranha, azul prateada, envolvia com amplo espectro o abrigo do mago.
A esplanada estava vazia, mas nuvens de pássaros pontilhavam o solo e as saliências das escarpas.
Logo depois, apareceu Supramati, sentando-se numa grande pedra que lhe servia de banco e começou a cantar.
Em meio ao crepúsculo misterioso, sua esbelta figura branca, seu belo rosto expressando inspiração, as inusitadas e desconhecidas melodias que partiam de seus dedos finos, sua possante e aveludada voz provocavam um profundo arrebatamento.
Muda, como se estivesse enfeitiçada, Vispala olhava para ele; todo o seu ser tremia com uma sensação desconhecida e ela só conseguiu voltar para casa depois que ele voltou à gruta.
A fama de Supramati correu com rapidez inacreditável: o povo vinha de todos os cantos para dar uma olhada no misterioso desconhecido...
Tratar da saúde e ouvir seus cantos maravilhosos.
Sem ter mais forças para vencer a curiosidade, o velho rei decidiu ir à gruta e interrogar o forasteiro enigmático, dotado do incrível dom da cura.
Os caminhos subterrâneos à esplanada não eram conhecidos ao rei, mas, na parte externa, ainda se conservava uma escada esculpida na escarpa, que nos velhos tempos levava à capela, sendo que esse caminho, apesar de estar danificado, ainda servia para passar.
A muito custo o rei conseguiu subir e, muito acabrunhado e agitado, parou em frente da entrada da gruta.
Tudo no interior estava inundado por uma luz azul-clara, como já haviam lhe contado, e saturado por um aroma suave.
No fundo, sobre a mesa do altar, fulgurava envolto por feixes de raios, o cálice dos cavaleiros do Graal encimado pela cruz.
Sobre o banco de pedra estava sentado o próprio homem misterioso, que já enxugara tantas lágrimas e minorara tantos sofrimentos dos outros, lendo rolos de pergaminho.
Ávido de curiosidade, o rei examinou pescrutadoramente Supramati, que se levantou com a sua chegada.
Perplexo com a beleza de Supramati, o monarca compreendeu, assim que o viu que diante dele estava um homem diferente, de raça desconhecida.
Após alguns instantes de exames mútuos, eles trocaram as reverências.
- Quem é você, forasteiro, de onde veio, pois você não se parece com gente de nossa Terra, e onde adquiriu essa força de arrancar a morte dos seres condenados pela ciência? – perguntou Nikhazadi.
- Sou um enviado de nosso Criador.
Vim trazer a luz para as trevas e lembrar à gente dessa Terra a sua origem divina.
Chegou a hora de restabelecer o contacto do Criador com a sua criação; já faz muito tempo que seu género humano perdeu o apoio da fé.
Vim falar aos corações dos homens e interpretar-lhes a infinita bondade do seu Pai Celeste.
Eu lhes preservo a vida e recupero a saúde para que eles glorifiquem o nome de Deus e dêem graças ao Senhor...
- Desgraçado! – Bradou o rei, pondo-se de pé bruscamente.
As suas intenções já condenam você à morte.
Será que desconhece que a nossa Terra rompeu voluntariamente qualquer relação com o Céu?
Qualquer enviado daquele que você chama de Deus será rejeitado aqui; além do que uma lei implacável o condena à morte.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:26 pm

Supramati sorriu:
- Não temo a morte e a salvação de meus irmãos é-me mais cara que a vida.
Para o ser humano, o alimento espiritual é mais necessário do que o material.
Ele só deverá se conscientizar que é cego, e de que onde a ciência terrena é impotente deverá prosternar-se e invocar o invisível.
Assim, eu vim para lembrar à sua humanidade as verdades esquecidas e ensinar-lhes a orar.
Vaticino-lhe, rei, que você será um dos primeiros a render-se ao poderoso símbolo da eternidade e salvação.
Nikhazadi estava lívido e respirava com dificuldade.
Sob o olhar poderoso de Supramati, sua alma alvoroçou-se e de repente ele foi tomado por uma vontade irresistível de ouvir sobre aquele invisível, aquilo a que se recorre em momentos difíceis da vida.
Um minuto depois, ele sentou-se no banco e disse vacilante:
- Fale-me daquilo que você pretende pregar aos meus súbditos.
Eu tenho o direito de ouvir primeiro.
Quando, uma hora depois, Nikhazadi saiu da gruta, em sua testa formou-se uma ruga e seu olhar demonstrava pensamentos sombrios.
Nas semanas seguintes não houve nada de especial.
As curas continuavam e a multidão que se reunia à beira do terrível abismo, que já engolira tantas vítimas, crescia cada vez mais.
No entanto agora, o estado de ânimo das pessoas havia mudado um pouco; a música, o estranho canto e a agitação provocada pela volta da saúde e da vida comoviam as almas.
Nessas pessoas, que até perderam a noção do Bem e do aperfeiçoamento espiritual, que viviam apenas em função de seus desejos e prazeres do presente, despertavam as aspirações de fundir-se com algo lúcido e puro que se irradiava daquele que os curava e conhecer um pouco, se possível, sobre sua ciência maravilhosa.
Como resultado, sete daqueles que tinham vontade de se tornarem discípulos de Supramati galgaram certa noite a velha escada de pedra e em seguida pararam timidamente junto à entrada da gruta.
Eles ficaram profundamente impressionados com a visão do altar e da cruz radiante.
O incrível encantamento que reinava no abrigo do mago subjugou-os a todos e as radiações puras que saturavam o ar tontearam-lhes a cabeça.
Quando Supramati apareceu no degrau da gruta alva, os corajosos caíram de joelhos e estenderam suplicantes as mãos em sua direcção.
Aproximando-se rapidamente, Supramati ajudou a levantá-los e disse em tom afável:
- Bem vindos os primeiros sedentos da luz da Verdade.
Vocês querem ser meus discípulos?
Eu os aceito de boa vontade, porque seu pobre mundo tem muita necessidade de pregadores que possam ensinar-lhes a reencontrar o caminho da perfeição ainda que, meus amigos, seja de minha obrigação preveni-los de que a tarefa a que se propõem é muito difícil.
Os ensinamentos que eu vou transmitir-lhes devem ser passados a seus irmãos até com risco de vida, uma vez que a fé, sem as acções, não tem vida.
Reflictam, assim, se vocês se sentem bastante fortes para assimilar na prática os meus ensinamentos.
Deliberando entre si cerca de um minuto, um deles saiu à frente e disse sem hesitar:
- Mestre, somos tão fracos, tão ignorantes e cegos, que nos parece por demais corajoso prometer aquilo que talvez não possamos cumprir.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:26 pm

Seja magnânimo, teste-nos e prometemos fazer todo o possível para sermos dignos de seus ensinamentos.
- A resposta de vocês dá muitas esperanças.
Aquele que reconhece ser cego tem diante de si a possibilidade de conhecer a luz eterna, enquanto que o vaidoso permanecerá cego, porque não vê nada além de sua pretensa "grandeza".
Vou dizer-lhes novamente, amigos, sejam bem-vindos!
Vocês ficarão aqui comigo, mas antes eu devo purificá-los e tirar-lhes o invólucro de miasmas.
Ele levou-os a uma gruta anexa, mandou que se despissem, entrassem no reservatório e ficassem de joelhos – o que foi feito sem objecções.
Então Supramati estendeu a mão, desenhou-se no ar um símbolo cabalístico, e, no mesmo instante, surgiu do espaço um amplo feixe de luz e sob as cabeças curvadas acenderam-se, feito uma abóbada ígnea, luzes multicoloridas que em seguida pareceram ser absorvidas pelos seus corpos.
Ao notar que seus rostos expressavam pavor e perplexidade, Supramati explicou:
- Nada temam.
Esse fogo purificador do éter irá penetrá-los e eliminar os maus fluídos que os envolvem.
Depois disso, ele deu-lhes túnicas brancas comuns, calçados de palha trançada e levou-as junto ao altar, onde eles ficaram ajoelhados, e, após, deixou que eles beijassem o cálice e colocassem em seus peitos pequenos crucifixos de madeira aromática.
A partir daquele dia, as horas matutinas e as noites eram dedicadas aos ensinamentos.
Em primeiro lugar, Supramati explanou-lhes a natureza dual do homem – a material e a astral – e a lei imutável que unia as pessoas com o mundo invisível, de onde essas saíam para a encarnação e voltavam ao morrerem.
Ele mostrou-lhes a população invisível do espaço e explicou seus perigos para a alma e o corpo dos mortais.
Mais tarde, como dedução obvia, ele indicou a única arma efectiva contra esses riscos e começou a ensinar-lhes a grande arte de fazer preces.
- Essa força, tão poderosa como os elementos da natureza, à imagem de um raio, acende a chama divina nos altares, fertiliza a terra e penetra nas profundezas do oceano, e passa como um furacão no espaço, desconhecendo obstáculos:
a prece, a primeira das ciências, poder extraordinário, talismã mágico que acciona forças desconhecidas.
E não apenas um mago, mas qualquer um que possuir uma fé ardente e pura poderá dispor dessa gigantesca força, governar sobre os elementos da natureza, apaziguar as tempestades, acabar com as epidemias, reunir e colher finos e delicados elementos para a cura de doenças...
Atónitos e entusiasmados, os alunos ouviam reverenciosos o mago.
E esses homens, que até aquele momento viviam apenas em função dos prazeres da carne, humildemente e cm toda a fé se curvavam diante da cruz e tentavam orar.
Inúmeras vezes eles sofriam fracassos, ficavam extenuados e caíam em desânimo – porque a capacidade de orar não é tão fácil como se imagina.
Esses têm três aspectos:
primeiro – exige concentração;
segundo – renúncia de tudo que é material e que sobrecarrega a alma e acorrenta-se à terra;
e, terceiro – uma poderosa força de vontade que ascende e desprende uma chama pura, dispersando a aura do homem pecaminoso para a percepção de irradiações divinas.
De qualquer modo, graças a seus esforços e apoio do mago, os discípulos tiveram rápidos progressos.
Agora, eles já sabiam que tinham espírito desencarnável, cuja principal destinação era a perfeição.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:26 pm

Eles alcançavam o mistério da existência e a grande lei do amor que dita ao ser humano suas obrigações com o próximo.
Aos poucos, Supramati preparava seus discípulos para sua missão – jorrar luzes de fé nas almas obscurecidas de seus irmãos carnais.
- Os seus deveres são devolver aquilo que vocês mesmos receberam.
É difícil, é claro, incutir nas pessoas as grandiosas leis do Bem, detê-los no caminho trilhado de abusos e vícios.
Vão odiá-los, pagar o bem com o mal, mas isso não poderá assustá-los; e se a sua missão for marcada com sangue, essa será uma vitória das mais gloriosas.
Saibam que o nosso sangue é um orvalho vivificante que se derramará sobre o solo estéril da descrença e egoísmo e, ao lembrarem-se de vocês como uma chama imortal, acenderá a fé nas almas de muitos.
Assim, queridos irmãos, não temam a morte, porque a morte de um mártir é um aroma celeste que dispensa os miasmas pestilentos que cercam a atmosfera de um malfeitor.
- Mestre, se eu entendi bem os seus ensinamentos – observou um dos discípulos -, nós nunca devemos pagar o mal com a mesma moeda, para nos defendermos; mas, uma vez que as nossas leis estimulam a vingança e a destruição de tudo que possa se constituir em vantagem, então seremos mortos, sem nenhuma utilidade.
Supramati sorriu.
- São justamente as suas pregações que devem acabar com suas leis selvagens e injustas; mas não pensem que vocês estarão desarmados.
Aquele que prega a verdade, inspirado por amor a seu dever e armado da cruz, é invencível.
- Mestre, por favor, explique-nos por que você acredita que a cruz é dotada de força especial?
Sei muito bem que este símbolo era antigamente muito venerado aqui, entretanto eu não consigo entender as origens dessa adoração – indagou Khaspati, um dos discípulos mais zelosos de Supramati, que a este se afeiçoou sobremaneira.
- Quando voes amadurecerem e fizerem avanços nas ciências, vocês aprenderão a entender, ainda que parcialmente, as particularidades benévolas deste símbolo da eternidade e salvação.
A cruz, meu filho, terrível no que se refere a seu poder, é um símbolo, é uma arma de ataque e defesa.
Sendo artífice e força destruidora, ela é a bússola do iluminado.
Onde quer que seja, em todos os mundos visíveis no firmamento, a cruz revela o seu poder, pois suas linhas, sendo orientadas para os quatro lados penetram o Universo.
Certa noite, Supramati estava sentado na esplanada com os seus discípulos e ensinava-lhes a arte de desenvolver o domínio da vontade, comprovando com exemplos práticos a potência dessa energia.
Sob a acção de sua força de pensamento, floresceu um arbusto ressequido e desabou uma tempestade que a seguir foi acalmada a seu comando.
- Vêem, meus filhos, esta vontade desenvolvida e consciente faz submeterem-se os elementos cósmicos, tornando-os maleável feita cera derretida.
É claro que para alcançar o grau do meu poder é necessário muito tempo e trabalho; mas isso é possível através da persistência e compreensão dos objectivos a serem alcançados.
Os discípulos contemplavam-no com um misto de fascínio e quase um medo supersticioso.
Khaspati perguntou hesitante:
- Mestre, diga-nos quem é você, de onde veio e de quem obteve esses conhecimentos colossais?
Explique-nos por que no transcorrer de tantos séculos, antes de você não apareceu ninguém para revelar-nos as grandes verdades por você propagadas?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:27 pm

Supramati reflectiu um pouco olhando para o espaço, e retrucou:
- Sou de longe; sou um filho humilde da ciência, enviado por tutores do bem e da verdade para dissipar as trevas de equívocos humanos e devolver ao Senhor seus filhos pródigos; pois todos vocês são filhos dele, partículas indestrutíveis e divinas dele originadas.
Vendo-os perdidos na intransitável selva da ignorância, escravizados pela carne, cruéis e cheios de vícios, os grandes tutores da humanidade enviaram-lhes um dos seus leais servos, armado da cruz e do amor, para orientá-los ao caminho da verdade.
E a minha vinda não será inútil:
não estou sozinho, já tenho discípulos fiéis que transmitirão meus ensinamentos a seus irmãos e prosseguirão com a minha causa, se eu perecer.
- O que você diz mestre!
Você, que é o benfeitor de santos sofridos, perecerá?
Seria horrível?
O que será de nós sem os seus ensinamentos?
Nós não teremos condições de continuar a sua causa! – Exclamou Khaspati com lágrimas nos olhos, abraçando-se ao seu consagrador.
Supramati afagou a cabeça abaixada de seu discípulo.
- A causa de salvar a alma da morte de ignorância e descrença não raro é paga com a vida.
Mas isso não tem a menor importância; a semente da verdade por mim plantada, a libertação dos grilhões seculares de ateísmo brutal pro mim preconizada a meus irmãos sobreviverá à minha existência carnal.
Enquanto que vocês, meus filhos, não deverão ter medo ao ficarem sem os dirigentes.
Invoquem os mentores que habitam as montanhas em retiro espiritual e eles lhes trarão em profusão, o pão e o vinho espirituais que alimentarão as suas almas.
- Porque então eles não apareceram até agora para nós iluminar e nos curar? – atalhou visivelmente desgostoso, um dos jovens discípulos.
- Evite julgar sem fundamento aquilo que você não entende – admoestou Supramati.
Como saber?
E se o aparecimento deles tivesse ocorrido antes da hora certa e provocasse morte indolor?
Eu vim para preparar-lhes o caminho, lanças as bases de um empreendimento que mais tarde será desenvolvido por meus irmãos.
Serão eles que reactivarão a sua antiga fé, restabelecendo aquilo que foi deturpado ou esquecido por séculos.
E depois, se for necessário, aparecerão outros e sustentarão a verdade.
Seu caminho será iluminado por fachos de luz.
Assim como eu, eles cumprirão seus desígnios – compartilharão com seus irmãos da verdade e da luz, por sua vez obtidas de outros.
A observação de Supramati embaraçou Khaspati.
- Agradeço mestre.
Na próxima vez serei mais cuidadoso e vou me conter para não fazer conclusões por demais apressadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:27 pm

CAPÍTULO V

Era com grande satisfação que Supramati observava os rápidos progressos de seus discípulos, cujas habilidades pessoais começaram a se revelar claramente.
Enquanto um se interessava exclusivamente pela música, outro, pelo estudo da força oculta dos planetas, e um terceiro pelas maravilhas do céu estelar.
Só num único juntavam-se todas as aspirações, sem excepção, de estudar a misteriosa e poderosa força da vontade, essa grandiosa alavanca de forças cósmicas, força motriz que governa os elementos da natureza.
A vontade, sendo desenvolvida e disciplinada, representa a força semelhante aos próprios elementos da natureza.
Agora Supramati, em companhia de seus discípulos, saía às vezes da gruta fazendo curas em povoados e cidades circunvizinhas, eventualmente pregando e incutindo nos seus ouvintes a necessidade do amor a Deus para que nas provações e sofrimentos da existência se buscasse nele ajuda e apoio.
A fama que cercava o homem sobrenatural acabava por protegê-lo, e ninguém ousava detê-lo pela violação insolente da lei que proibia até pronunciar o nome de Deus.
Assim, convenientemente, todos silenciavam, enquanto que em surdina, os inimigos do mago tornavam-se coesos e seu número crescia rápido.
Nas primeiras fileiras estavam os médicos, que se julgavam prejudicados em termos de dinheiro.
Além de feridos em seu amor próprio "de cientistas".
Não menos descontentes eram todos aqueles que achavam mais cómodos não serem constrangidos por uma norma de moralidade, consciência ou dever, visto que o próprio conceito de Deus e suas leis eram odiados por se tornarem um freio de suas desorganizadas e animalescas paixões.
E o número desses adversários transformava-se numa legião.
Supramati que lia a alma humana e os pensamentos alheios via obviamente a hostilidade crescente, sem dar-lhe, entretanto, qualquer atenção prosseguindo com as curas e as pregações.
Certo dia, ao voltarem de uma visitação dentro de uma floresta, o mestre e os discípulos sentou-se exaustos para descansar e comer um pouquinho.
No bosque cerrado, coberto de arbustos e vegetação rasteira, Supramati divisou atrás de um amontoado de ramos quebrados um monte de ruínas.
- Vêem aqueles restos do templo destruído?
Espero que ele seja reerguido e, sob a sua abóbada, soem os cânticos sagrados; e que a prece conjunta atraia aos crentes as poderosas e renovadoras ondas da bem-aventurança divina.
- Mestre você realmente tudo sabe e enxerga o passado.
Caso contrário como iria adivinhar que aquelas ruínas disformes eram outrora um dos mais majestosos templos em nosso país? – Exclamou Khaspati surpreso.
Todos evitam esse local, porque, durante a destruição do santuário, aqui aniquilaram um grande número de sacerdotes que nele buscavam esconderijo – continuo o jovem discípulo.
Dizem até que o lugar está encantado, mas ninguém a lembrar o facto temendo punição.
Que tempos horríveis foram aqueles!
Espero que jamais se repitam – afirmou um dos jovens presentes.
Mas, diga-me, mestre, voltará novamente o sacerdócio, quando por fim se restabelecer a adoração a Deus?
- Sem dúvida.
O ofício requer sacerdotes e eu suponho que vocês, meus amigos, assumirão este mister grandioso e difícil em função de sua responsabilidade – respondeu sério Supramati.
Não pensem que tudo correrá sem luta – continuou ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:27 pm

O Bem sempre tem adversários, pois as trevas odeiam a luz.
Do sorvedouro sairá um monstro de mil cabeças da descrença e dúvida, cobrindo tudo com seu cuspe venenoso em nome da "ciência".
O monstro obviamente atacará o templo e tentará de tudo para abalar seus alicerces; mas uma das atribuições dos guerreiros da fé é a defesa do santuário, que representa a ideia da Divindade e é para a humanidade uma inesgotável fonte de salvação da alma e do corpo.
Ai daqueles sacerdotes iniciados que permitirem que se profane, humilhe ou rapine o tesouro a ele confiado.
Um sacerdote é o primeiro cultor de Deus, um intermediário directo das forças divinas do mundo invisível.
Um mistério singular envolve os servidores do altar, foco de luz para o qual desce e onde se concentra o poder Divino.
Sua vida deve ser casta e seus pensamentos dirigidos para o céu, pois ele é o vaso dentro do qual é vertida e do qual é distribuída para os mortais a bem-aventurança da salvação.
Ai do sacerdote que, sendo impuro de alma e corpo, ousar aproximar-se do altar para apreender a luz Celestial; ele apenas a obscureceria e macularia, dela privando os que buscam ajuda e salvação.
É grandiosa e sublime a missão do sacerdote, cultor verdadeiro de Deus.
Sua tarefa é preservar no coração e praticar todas as verdades por Ele propagadas, de modo que o crente olhe para esse agente da luz de baixo para cima.
Não se esqueçam meus filhos, de que o declínio da religião começa a partir do momento em que na alma do homem se insinua desdém ao sacerdote de Deus.
Da mesma forma que um pastor é responsável por todas as ovelhas do rebanho, o pastor do rebanho do Senhor deverá conhecer a alma de suas ovelhas.
Khaspati se inclinou e beijou a mão de seu guia.
- Jamais, honrado mestre, esqueceremos as suas palavras e pediremos a Deus que Ele nos transforme em verdadeiros sacerdotes, como você acabou de nos descrever.
À medida que aumentava o número dos seguidores, Supramati agia cada vez mais abertamente.
Fazendo suas pregações até na capital, ele conseguiu juntar os crentes em comunidades que se reuniam para fazer preces conjuntas e usavam no pescoço pequenos crucifixos de madeira, feitos de árvore aromática, distribuídos por seu mestre adorado.
É evidente que todos os inimigos de Supramati – e eram numerosos – espumavam de ódio quando viam sua impunidade.
Alguns membros do Conselho Monárquico exigiam abertamente nas reuniões a detenção do feiticeiro e seu julgamento pela corte, visto que sua insolência crescia dia a dia, enquanto que suas "tolas" pregações ameaçavam provocar distúrbios e por abaixo as leis vigentes.
- Se a maioria do Conselho optar pela detenção, eu não me pronunciarei contra – respondeu Nikhazadi.
Reflictam bem, entretanto, antes de sua decisão, tomando o cuidado de se certificar de que a detenção do homem que salvou da morte centenas de pessoas não resulte em distúrbios que vocês, tanto temem.
O desconhecido dispõe para as curas de indiscutíveis e poderosos meios, e qual de vocês poderá garantir que amanhã mesmo não terá que recorrer à ajuda do curandeiro?
Um silêncio fez-se na sala.
O último argumento era irrefutável e a decisão final foi adiada.
Entretanto, esse adiamento enfureceu os mais intransigentes; então, eles resolveram agir escondido e eliminar o "feiticeiro" a qualquer custo.
Nesse ínterim, a ocorrência de um facto novo fortaleceu a sua intenção ignóbil.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:27 pm

Após ter visto Supramati, Vispala ficou acometida por uma ardente e desvairada paixão por ele, própria das pessoas daquele mundo pervertido.
Todas as noites ela se dirigia com Medkha para a beira do penhasco para espiar o mago, enquanto este conversava com seus discípulos, tocava ou cantava.
Como enfeitiçada, ela não conseguia Despregar o olho do belo semblante de Supramati, iluminado por insólita luz azul-clara que parecia irradiar-se dele.
Sua paixão ia crescendo a cada dia.
Aproveitando a visitação da cidade pelo mago, Vispala conseguiu passar-lhe uma mensagem.
Em sua carta, ela declarou-lhe o seu amor desmedido, dizendo que o elegia para seu esposo, o que lhe daria direito ao trono.
- Meu avô não possui sucessor de sexo masculino e eu sou a sua única herdeira e o meu esposo dera o rei, porque eu tenho direito de dar ao povo um monarca, sem poder, entretanto, governar eu mesma?.
Essa mensagem, assim como a segunda do mesmo género, ficou sem resposta e, consequentemente, Supramati deixou de aparecer na esplanada à noite.
Vispala achava que ia enlouquecer.
Dia e noite ela só pensava no profeta desconhecido; o sangue lhe fervia nas veias e os planos – um mais arrojado que o outro – fervilhavam em sua cabeça excitada.
Certa vez, ela conseguiu aproximar-se do mago quando este estava na cidade.
Pelo visto, Supramati não a havia notado, mas, no instante que ela quis tocá-lo com a mão, sentiu um forte choque que a arremessou para o lado, como se por uma rajada de vento.
Vispala perdeu o sono e o apetite e caiu em tal desespero que acabou ficando doente.
As longas e contínuas emoções provocaram uma daquelas terríveis doenças de fundo nervoso, contra as quais os médicos, não conheciam a cura.
A jovem perdeu a visão e convulsões horríveis contorciam-lhe os braços e as pernas.
Nikhazadi ficou desesperado e mesmo o povo compartilhava de seu infortúnio, pois todos gostavam demais da encantadora mulher.
Em virtude disso, à gruta dirigiu-se um séquito de representantes das diversas classes da população.
Se alguém pudesse salvar a princesa, esse era, sem dúvida, somente Supramati.
O mago prometeu visitar Vispala e ordenou a seus discípulos que orassem na sua ausência.
Dirigiu-se então ao palácio onde foi imediatamente levado ao aposento da enferma.
Terrivelmente deformada pelo mal, Vispala estada deitada no leito, Supramati olhou penalizado para aquela criatura, vítima do contágio de suas próprias radiações impuras, que perecia em plena juventude. Seu sensual e perturbado amor causava-lhe aversão, mas...
Não era para desprezar os seus irmãos inferiores que ele viera para este mundo.
Ele devia amá-los, burilar os diamantes brutos, e com exemplos de pura afeição enobrecer o sentimento congestionado, onde, apesar de diversas sombras a obscurecê-lo, permanece, ainda assim, um sentimento sublime, chamado amor.
Supramati notou ao primeiro olhar, a fétida e pegajosa névoa que envolvia, como um gelatinoso invólucro, o corpo da doente.
Seres asquerosos atraídos do além pela sua paixão carnal rastejavam por seu corpo e sugavam-lhe a vitalidade feito sanguessugas.
Supramati ordenou que o deixassem a sós e, quando todos se retiraram, ele encheu com água uma pequena bacia e colocou dentro dela o anel que retirou do dedo.
A água tornou-se azulada com tonalidade prateada.
Molhando uma toalha na bacia, Supramati esfregou com ela o rosto, as pernas e os braços da jovem.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:27 pm

Enclausurando a doente num círculo mágico, ele persignou-a e, quase imediatamente, o círculo por ele desenhado acendeu-se em fogo e circundou o leito com uma chama multicolor.
Crepitando e lançando fagulhas, o fogo do espaço, começou a absorver a negra e pegajosa atmosfera que envolvia Vispala.
Assobiando e contorcendo-se em turbilhões, os abjectos seres iam se espatifando por todos os cantos ou acabavam sendo devorados pelas chamas.
Aos poucos, a nuvem escura foi desaparecendo e deu lugar a uma maravilhosa luz vermelha, que preencheu todo o aposento, iluminando o corpo de Vispala deitado exânime.
Enquanto as forças renovadoras trabalhavam, ele perdera os sentidos.
Agora, do interior do corpo da enferma começaram a se desprender nuvens de fumaça preta, rapidamente absorvidas pela luz vermelha.
Cessado o fenómeno, Supramati molhou outra toalha que parecia salpicada com pó de diamante, passou por todo o corpo da doente e cobriu-a.
Em seguida, pegou a harpa, sentou-se junto à cabeceira e começou a tocar.
Jorraram sons de extraordinária harmonia e o quarto encheu-se de um suave aroma.
A maravilhosa luz pareceu apagar-se, sendo substituída por um lusco-fusco violeta.
E neste fundo escuro de ametista surgiram seres transparentes, como se urdidos daquela mesma névoa, rodeando o leito da princesa que jazia imóvel.
Suas formas aéreas oscilavam pelo corpo imóvel de Vispala.
Aos poucos, as visões começaram a embaraçar-se e dissiparam-se dentro da névoa.
Enquanto isso, Supramati prosseguia a tocar e em seu rosto congelou-se a expressão de alegria extasiada.
Neste momento, quando mais uma vez ele conseguira devolver à vida um ser sofrido e condenado á morte, ele deliciava-se com os frutos do seu trabalho.
O deleite produzido pela melodia, o dom de ordenar aos poderosos agentes dos aromas e cores, encheu-lhe o coração de felicidade e gratidão.
Entregue aos seus pensamentos, Supramati não percebeu que Vispala abrira os olhos e, levantando-se devagar, observava-o com olhar tímido e amoroso.
Ela se sentia recuperada, mas todo o seu ser passou por uma surpreendente transformação.
A impetuosa e voraz paixão que dilacerava seu coração havia desaparecido, dando lugar à compreensão do abismo que a separava do ser superior por ela amado, e essa conscientização apresentou-se a ela com toda a clareza.
Ao mesmo tempo, todo o seu íntimo encheu-se de infinita gratidão e felicidade profunda em poder vê-lo ali, junto dela.
Descendo da cama, ela ajoelhou-se diante dele e, levantando as mãos em prece, murmurou com a voz embargada.
- Mestre, como eu posso agradecer-lhe por ter-me salvado a vida?
Supramati parou de tocar, abençoou-a e, reerguendo-a, disse-lhe:
- Não é a mim que você deverá agradecer, mas a Deus, seu Criador e Pai Celeste.
Seja digna de sua saúde espiritual e carnal que lhe foi concedida.
Não se esqueça de que no calabouço carnal arde uma chama imortal que lhe mostrará o caminho do farol que ilumina, apoia e protege tudo o que existe.
Ele levantou a mão e apontou para uma cruz clara que no ar brilhava feito um diamante.
- Você, benfeitor de todos os infortunados, ensine-me a grande ciência:
crer e amar, não com o corpo, mas com o coração! – Murmurou Vispala.
- Creia em seu Criador; tenha fé em Sua misericórdia; ame-o com todo o seu ser e você encontrará o caminho da salvação.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:28 pm

À medida que sua alma for se purificando, você aprenderá a amar com o coração e dominará as impuras paixões carnais.
E agora, vá aos braços de seu avô, que passou por muitos sustos e sofrimentos durante a sua enfermidade.
Vispala segurou impetuosamente a mão de Supramati e encostou-a aos lábios.
Em seguida levantou-se e correu aos aposentos do rei, onde este, rodeado por alguns acólitos, esperava receoso pelos resultados da cura.
O rei ficou profundamente feliz ao ver a neta totalmente sadia, e, quando ele e seu séquito quiseram agradecer ao mago, este já havia sumido.
Ao alvorecer do dia seguinte, o rei foi à gruta expressar sua profunda gratidão pela cura de Vispala.
O velho rei estava muito emocionado.
Ele ficou um longo tempo conversando seriamente com o mago, após o que, como já predissera Supramati, ajoelhou-se humildemente ante o altar, professando a Divindade e pronunciando o nome do qual era proibido por lei.
A cura da herdeira da coroa causou uma enorme repercussão e a popularidade do mago aumentou ainda mais; na mesma razão, praticamente, cresceu o ódio de seus adversários.
A gota d‘água foram os boatos de origem desconhecida que começaram a correr no meio do povo.
À boca pequena, é verdade, mas em todos os lugares corriam os rumores sobre o futuro rei, pois Nikhazadi já estava velho e o seu fim estava próximo, em virtude do que, na opinião geral, Supramati deveria ser o seu sucessor.
- Poderia a princesa escolher para esposo alguém melhor que esse benfeitor de todos os sofredores? – Falava-se na sociedade.
– Ele é jovem e belo; sua origem, claro, é obscura, mas pelo menos a princesa é de estirpe nobre.
Além do mais, ele é pobre...
Mas isso apenas comprova o seu desinteresse, pois do contrário...
Fosse ele mais prático...
Poderia ser a pessoa mais rica do planeta.
Quanto não lhe pagariam por salvar um ente próximo e querido de morte certa?
A conclusão que se tirava dessas conversas era de que seria preferível que o futuro monarca fosse um homem bondoso, belo e sábio.
Mas, se os anseios do povo em ter em Supramati o seu rei eram enormes, a simples possibilidade de tal combinação provocava uma verdadeira tempestade oposicionista e trazia às suas hostes pessoas bastantes. Dentre esses, havia alguns jovens que por sua origem e elevada posição nutriam esperanças de serem eleitos por Vispala.
Mas a paixão da jovem pelo belo mago já não era um segredo e nisso as aspirações nacionais poderiam lograr êxito.
O meio mais certo de prevenir os aborrecimentos seria eliminar o perigo, e, assim, numa reunião secreta, os inimigos decidiram acabar com ele, custasse o que custasse.
Dando-se sequência à conspiração.
Supramati foi surpreendido por um atentado à sua vida quando saia de uma fazenda, onde acabara de tratar do gado acometido por uma doença malévola.
Um golpe desfechado às pressas não acertou, contudo, seu peito, pegando apenas o ombro.
O malfeitor tentou fugir, mas acabou sendo detido e trazido pelos pastores indignados.
Verificou-se em seguida que ele era uma das pessoas que Supramati havia salvado da morte.
Com toda a certeza a multidão o teria linchado, não fosse a interferência do mago, que afirmou que ninguém tinha o direito de puni-lo, pois ele próprio perdoava ao culpado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:28 pm

Não obstante, o criminoso teria vindo por um dos adeptos mais fervorosos de Supramati, caso ele não prevenisse o patife, ajudando-o, inclusive a fugir.
O segundo atentado foi bem mais engenhoso e para cuja consecução foi escolhido um animal.
Era uma fera que habitava os pântanos, meio-leão, meio-touro, mas de extraordinária força e astúcia.
Medindo menos que o touro que habitava o planeta, tinha uma juba parecida com a de leão.
O uru – como era conhecido o animal – tinha três chifres, retos e afiados feito punhais, uma enorme goela cheia de dentes fortes e suas patas mais pareciam com os pés de macaco.
A domesticação desse animal era impraticável, mas o público sempre gostou de assistir as lutas desses urus, muito em voga antigamente.
O facto que tornava o espectáculo ainda mais interessante é que esse animal era difícil de ser dominado, além de que era uma raça em extinção.
Naquele dia acabavam de trazer do pântano duas daquelas enormes excepcionalmente ferozes feras, escolhidas para dar cabo traiçoeiramente de Supramati.
As feras eram mantidas em jaulas de ferro, guardadas num galpão aberto.
No instante em que o mago atravessava a rua, acompanhado por dois discípulos e uma grande multidão, um dos animais escapou da jaula e cego de fúria, atiçado com os gritos de perseguição, partiu para cima do mago, prestes a pegá-lo com os chifres.
O perigo era inevitável e mortal.
A fera enraivecida voava em direcção de Supramati, enquanto a multidão em pânico se espalhava por todos os cantos.
Subitamente, porém a dois passos de Supramati o animal estacou bruscamente, cheirou o ar e virou-se em direcção de um dos discípulos; Supramati, neste ínterim, levantou a mão e o uru caiu com as patas dobradas, como se tivesse recebido uma forte pancada na cabeça.
Os espectadores ouviram pasmados o mago pronunciar umas palavras desconhecidas, estranhamente repetidas por todos, tocando em seguida a harpa.
Ao ouvir a música, o uru, como se encantado, aproximou-se vagarosamente de Supramati e deitou-se a seus pés.
O mago acariciou-lhe a cabeça, deu-lhe um pedaço de pão, tirado do bolso, e o animal começou a comê-lo.
Continuando a tocar e a cantar a meia-voz, Supramati foi ao galpão, seguido do uru que, obedecendo a seu comando, entrou submisso na jaula.
- Da próxima vez sejam mais cuidadosos e não deixem a jaula aberta.
Eu não sou o único a andar pela rua e quantas pessoas inocentes poderiam ser vitimadas em meu lugar – advertiu calmamente Supramati aos guardas, visivelmente embaraçados.
Esse acontecimento originou um tremendo barulho e ao mesmo tempo uma insatisfação na população, que começava a pressentir um atentado contra a vida de seu benfeitor.
Os conspiradores sossegaram, suspendendo por algum tempo seu intento sanguinário.
Odiando ainda mais seu ?inimigo?, decidiram esperar por um momento oportuno enquanto iam arregimentando mais partidários.
Pouco depois, Nikhazadi teve morte súbita.
O velho rei era muito amado e seu falecimento provocou comoção geral.
Somente aqueles que o acusavam de fraqueza e de haver permitido as pregações de Supramati alegraram-se com o fim do monarca.
Para Vispala foi um golpe muito duro.
A conscientização de estar sozinha no mundo atormentava-a.
Todo o período de luto, ela passou totalmente enclausurada, cercada apenas por poucas amigas recém-convertidas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:28 pm

Enfim, chegou o dia em que, segundo a lei, Vispala deveria anunciar aquele que ela escolhia para seu esposo e rei, visto que, conforme já foi dito acima, ela mesma não poderia governar, mas tinha o direito de eleger um monarca dentre a juventude de alta nobreza.
O Conselho de Estado estava todo reunido quando Vispala chegou e com humilde dignidade ocupou o assento monárquico, anunciando que a única pessoa que ela considerava digna no mundo de suceder a seu querido e inolvidável avô era Supramati, o benfeitor nacional que devolvera a saúde e a vida para milhares de pessoas.
O embaraço dos presentes era evidente.
- Sua escolha, rainha, contraria a todas as leis – replicou o presidente do Conselho, recuperando-se do choque.
Você quer eleger para nosso rei uma pessoa que é, sem dúvida nenhuma, digna disso.
Entretanto, sua origem é uma incógnita.
É pertencente a uma raça totalmente diferente e desconhecida, o que poderá contaminar os seus descendentes com sangue talvez impuro, inferiorizando a sua antiga e gloriosa dinastia, da qual você é a última representante.
Pense sobre isso, nossa amada rainha, e não decida nada sem uma reflexão amadurecida.
- Eu analisei tudo isso antes de vir para cá e a minha decisão é irrevogável – obtemperou firmemente Vispala.
Sei também que o Conselho poderá acatar ou não a minha opção.
Suas conclusões podem até serem justas, ainda que, a meu ver, as inúmeras boas acções de Supramati sirvam de melhor exemplo para confirmar sua nobreza.
Eu estou pronta para submeter-me à decisão do Conselho; mas, em caso de recusa, abro mão de todos os meus direitos hereditários ao trono e vou me retirar para a vida particular.
O Conselho e o povo que escolham seu rei, segundo as suas leis e buscando o bem-estar da nação.
Daqui a três dias vocês me darão a resposta.
Deixando os conselheiros em total perplexidade, Vispala saiu da sala e voltou aos seus aposentos.
Uma acalorada discussão tomou conta da sala.
As opiniões divergiam; uns nem ao menos quiseram ouvir a opção Supramati; outros receavam perturbações em caso de recusa, levando em conta o amor que o povo tina pela jovem rainha e a adoração pelo profeta que promovia as curas.
Os ânimos se acirravam.
Os inimigos do mago brandiam que com a subida ao trono desse desconhecido "feiticeiro" iriam começar novos distúrbios religiosos, pois era evidente que ele iria querer restabelecer o antigo culto, recolocar o símbolo outrora rejeitado – a cruz – e exigir que se reverenciasse Deus esquecido, sem o qual se vivia optimamente graças às "sábias leis".
Os opositores contra-argumentavam, dizendo que já havia muito anos seus ancestrais viveram com fé em Deus e os tempos eram melhores, as leis menos cruéis, mais justas, e que, de qualquer forma, segundo o vaticínio, a fé branca deveria renascer.
Para acalmar os ânimos exaltados, um conceituado dignatário propôs que fosse escolhido um candidato ao trono e que atendesse a todas as condições, pondo fim às altercações inúteis.
No início, tal proposta foi aceita unanimente, mas, na hora de escolher, o espírito partidário, a ambição pessoal e as paixões se esquentaram a tal ponto entre aquela gente que crescera em meio a total egoísmo que ninguém acabou sendo escolhido.
Numa reunião cansativa, irritante e nervosa, convocada pela maioria dos votos, decidiu-se enfim enviar uma comitiva a Supramati com a proposta da rainha, abstendo-se da votação muitos dos que preferiram a opção pelo desconhecido em prejuízo aos seus pares cuja ascensão poderia afectar a sua própria vaidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Em vista dessa decisão, logo após as doze horas daquele mesmo dia, a comitiva, composta dos mais altos dignatários, partiu para a gruta.
Calmo e pensativo ouviu Supramati o exposto e só esboçou um sorriso quando começaram a lhe descrever todas as honrarias que por ele esperavam.
Respondeu-lhes condignamente que a proposta era demais importante para que pudesse tomara decisão sem analisá-la e pediu à comitiva que esperasse até o dia seguinte por uma resposta definitiva.
Ao ficar sozinho, ordenou que os discípulos se retirassem para a gruta pequena, ajoelhou-se frente ao altar, mergulhando numa prece exaltada.
Todo seu espírito aspirava impetuosamente unir-se a seus membros e obter deles um conselho:
deveria ele assumir tal responsabilidade?
Já fazia muito tempo que seu espírito purificado estava livre de qualquer sombra de ambição, mas, nesse instante, ele não sabia se a sua ascensão ao trono seria desejável e útil para a missão.
Todo seu espírito ansiava por um conselho ou qualquer instrução visível de seus dirigentes.
Subitamente, a conhecida e querida voz e Ebramar soou em seus ouvidos, como se fosse uma remota e suave música:
- Vá adiante sem vacilar, valoroso filho da luz.
Para alcançar seus objectivos você deverá aceitar a coroa do poder, dando lugar, talvez em seguida, ao martírio.
Supramati orou muito e quando se levantou estava calmo e decidido, sabendo o que tinha de fazer.
Ao alvorecer, Supramati juntou os seus discípulos e, anunciando que ao se tornar rei devia deixá-los, deu as últimas instruções.
Apertando as mãos de cada um de seus discípulos e fazendo longas preces, Supramati os abençoou e deu para cada um pequeno crucifixo de madeira.
- Em qualquer lugar que vocês meus amigos, venham a se estabelecer, ergam o símbolo da salvação e da eternidade em três dimensões:
altura, largura e profundidade.
Este sublime sinal, sinete do próprio Deus, a cruz, deve ficar nas portas de suas casas e em suas mãos.
Com ela, vocês irão curar as doenças, expulsar os demónios, domar as tempestades e prevenir as catástrofes.
Mas não se esqueçam de que a miraculosa força desta misteriosa arma funcionará apenas concorde com a fé e o amor de vocês a Deus; quanto mais forte for a fé, tanto mais terrível será a força da cruz.
Preguem e, principalmente, provem com as acções o seu amor a qualquer criatura, pois o amor elimina o ódio e a delinquência, dignifica o homem e aumenta suas forças em centenas de vezes.
Amem a Deus mais que tudo, e, em todo o ser vivo, amem a faísca divina que o anima.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:28 pm

CAPÍTULO VI

Quando no dia seguinte a comitiva retornou, Supramati anunciou que havia concordado em aceitar o poder governamental que lhe conferiam, sendo, no mesmo instante, coberto de cumprimentos lisonjeiros e servis e manifestações de alegria dos dignatários presentes.
Mal podiam eles desconfiar que o olhar perspicaz do mago lia seus corações hipócritas, seus pensamentos hostis e invejosos e as intenções traiçoeiras.
Porém, os belos e claros olhos de Supramati nada revelaram.
Ele retribuiu amistosamente os cumprimentos, deixou que eles o vestissem num curto traje branco, bordado a ouro, e numa capa azul, colocando sobre sua cabeça uma grande coroa de ouro com incrustações de pedras preciosas.
Feito isso, ele dirigiu-se ao palácio real.
Na parte superior da escada, Supramati era aguardado pela noiva.
Abalada pelas emoções pelas quais passava. Vispala ergueu timidamente seus olhos cheios de lágrimas, fitando-o amorosamente.
E quando ele com um sorriso afável pegou-lhe a mão, beijou-a e pronunciou algumas palavras carinhosas, seus olhos brilharam de alegria e radiante de felicidade ela dirigiu-se com ele para a sala do banquete.
O casamento foi marcado para seis semanas depois; no entanto as rédeas do governo foram passadas, de imediato, às mãos do novo rei; após presidir pela primeira vez a reunião do Conselho, Supramati retirou-se aos seus aposentos.
Para auxiliá-lo em seus serviços pessoais, Supramati convocou dois de seus discípulos – facto que lhe criou novos inimigos.
Os cortesãos, achando que tais funções eram seus direitos inalienáveis, foram preteridos por "capricho" desse "forasteiro" que ousou preferir pessoas tão ignorantes e míseras como ele próprio.
Supramati sabia que seu ilusório reinado não seria longo.
Assim, tratou de aproveitar o melhor possível o tempo que tinha para introduzir transformações e lanças as bases da religião que fizesse o povo se voltar para o Criador, há tanto tempo renegado.
Graças às suas acções enérgicas conseguiu, enfim, revogar a revoltante lei que condenava os doentes à morte e, mais tarde, suprimir outros dispositivos legais menos importantes, porém igualmente cruéis e injustos.
A muito custo dissimulando o descontentamento, os dignatários ouviam esse homem, totalmente estranho falando-lhes de misericórdia, perdão, bondade para depois com a mão "ousada" – como eles diziam – derrubar o sistema sócio-político do Estado há muito tempo existente.
Boas ou más... Todos tinham se habituado a essas leis e a maioria tinha interesse em sua manutenção.
O descontentamento das classes privilegiadas crescia com a arregimentação de novos adeptos.
Supramati parecia não se dar conta do facto, prosseguindo em afã de transformações.
Diariamente dedicando a Vispala algumas horas da noite, ele passava-lhe ensinamentos e desenvolvia-lhe a mente.
Já cônscia de sua inferioridade em relação ao esposo eleito, a jovem rainha aspirava chegar ao nível do seu desenvolvimento intelectual.
Ela suplicava para Supramati iluminá-la e incutir nela a doutrina por ele professada, e, naturalmente, não havia discípula mais dedicada, convicta e fervorosa que ela.
Entrementes, começaram a correr no meio do povo os mais vis e alarmantes rumores a respeito do novo rei.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:29 pm

Em primeiro lugar, acusavam-no caluniosamente de bruxaria, com a ajuda da qual ele teria assassinado o velho rei e enfeitiçado a sua herdeira para usurpar o poder.
A harpa, com o auxílio da qual Supramati promovia as curas, seria também uma arma de feitiçaria.
Sem dúvida nenhuma, ele havia aparecido na condição de um perigoso agente dos "montanheses", que tencionavam restabelecer com sua ajuda os velhos preconceitos e bruxarias, punidos com a morte.
Os rumores tomaram tal intensidade que os amigos e Supramati acharam por bem alertar Vispala sobre uma revolta em processo de preparação.
Supramati estava trabalhando quando sua noiva, lívida e trémula, entrou correndo no gabinete.
Com voz engasgada, ela lhe transmitiu o que acabara de ouvir.
- Eu sei de tudo – disse com calma Supramati, fazendo-a sentar-se.
- Sabe... e não faz nada para evitar o perigo mortal que o aguardas?
Caindo de joelhos, ela estendeu-lhe as mãos e implorou:
- Fuja Supramati, esconda-se até que seus inimigos sejam eliminados.
Eu saberei desmascarar e punir os miseráveis, e, depois que eles forem lançados ao fundo do abismo, você poderá voltar desimpedido.
Supramati apressou-se em levantá-la e falou-lhe balançando a cabeça:
- Que belo exemplo eu daria em vez de por em prática os meus ensinamentos.
E você acredita realmente que eu seja um feiticeiro?
- Não, absolutamente!
Mas você tem tantos inimigos que o odeiam...
- Você deveria entender que as grandes verdades que eu professo e que devem se enraizar em vocês provocam a fúria dos habitantes do inferno, e aqui eles encontram infelizmente, instrumentos que servem para seus objectivos nas pessoas pervertidas, ainda que inconscientemente.
Não seria digno de minha parte fugir do destino.
Acalme-se, Vispala, eu nada temo:
só poderá acontecer aquilo que terá de acontecer.
Triste e com maus presságios na alma, a jovem rainha retirou-se.
Encorajados com a aparente estupidez e inoperância de Supramati, os conspiradores tornaram-se mais ousados e enérgicos e, sentindo-se bastante fortes, decidiram fixar o dia do casamento real para a consecução de seu plano.
Mas, apesar de todos os esforços, Supramati contava com muitos partidários entre a gente simples e, sobretudo, na classe trabalhadora.
Os conspiradores decidiram misturar nas iguarias que seriam servidas na solenidade um narcótico muito forte.
Assim, os defensores de Supramati iriam cair no sono e não atrapalhariam a execução do plano, e até que eles acordassem, dando-se conta do estaria acontecendo, seu amado profeta já não estaria entre os vivos.
Chegou finalmente, o dia do casamento.
A cerimónia civil foi festejada com pompa e logo depois o casal percorreu em cortejo as ruas da cidade, animadamente ovacionado pelo povo que, em seguida, espalhou-se por diversos locais da cidade, onde foram preparadas diversões, comida e presentes.
No palácio do rei já estava preparada uma mesa com duas cadeiras para os recém-casados e num jarro de ouro de fino acabamento foi posto um vinho caro e envelhecido.
Supramati estava tranquilo, já a rainha aparentava tristeza e preocupação...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 03, 2016 7:29 pm

Assim que se sentaram, Supramati inclinou-se ao ouvido da jovem esposa e sussurrou:
- Não beba desse vinho, caso contrário você entrará num sono perigoso.
- É veneno? – indagou ela assustada.
- Não, é um soporífero muito forte – respondeu Supramati, fingindo beber e retribuindo os brindes dos convidados.
A festa estava em pleno apogeu.
Aproveitando o barulho da música e das conversas, Supramati novamente se inclinou no ouvido da esposa e disse em tom carinhoso, mas firme:
- Junte toda a sua coragem, Vispala arme-se de sentimento de dignidade de mulher e rainha.
Aproxima-se um momento difícil – ele apertou-lhe fortemente a mão.
Vão nos separar e a minha hora provavelmente, chegou...
- Então morrerei junto com você! – Murmurou ela em voz baixa Vispala, tremendo como vara verde.
Supramati fez um sinal de desaprovação.
- Não, viva para manter e continuar com a minha missão.
Lembre-se de mim com amor.
Ainda que eu seja invisível, sempre responderei ao seu chamado...
Ele foi interrompido pelo barulho e gritos de fora e à sala adentrou uma numerosa multidão de homens armados, liderados pelo antigo pretendente à mão da princesa.
- Peguem esse bruxo que com sua torpe feitiçaria apoderou-se do trono, matou Nikhazadi e cegou o coração da rainha! – brandiu ele, apontando para Supramati em pé, agarrado com força por Vispala.
Formou-se na sala um barulho infernal.
Os partidários de Supramati lançaram-se em sua defesa, travando uma luta em volta do pedestal real.
Mas, como os revoltosos estavam em maior número e ainda encontraram na sala seus correligionários, saíram-se vitoriosos e o líder dos conspiradores subiu no pedestal.
Nesse ínterim, Supramati tirou a coroa de rei e disse calmamente:
- Para que toda essa luta?
Eu não estou me defendendo.
- Isso não tem a menor importância.
A questão agora não é essa ou aquela, mas sua defesa diante da Corte – argumentou o líder dos revoltosos, rindo.
Vispala soltou um grito abafado, pôs-se de joelhos e começou a implorar, em prantos, a soltura do esposo.
Supramati levantou-a rapidamente e disse em seu ouvido:
- Envergonhe-se de implorar a piedade...
Por uns instantes, sob a influencia da poderosa força do mago, Vispala pareceu acalmar-se e Supramati aproveitou o momento para beijá-la e abençoá-la.
Na hora de levarem o rei deposto, ela novamente agarrou-se a ele, mas foi separada bruscamente do esposo, perdeu os sentidos e foi retirada do local.
Uma corte Suprema provisória, composta dos inimigos mais fervorosos do profeta, reuniu-se às pressas no salão nobre do Conselho.
Postado em pé diante desse areópago, que efervescia de hostilidade e paixões, Supramati observava triste e pensativo as feições embrutecidas de seus invejosos juízes, que não haviam dado o necessário valor a um ser superior, jogado por destino à mercê deles.
Perplexo e desconfiado observava o presidente àquela névoa azulada que envolvia Supramati, porém, recompondo-se rapidamente, gritou ensandecido:
- Defenda-se, atrevido usurpador, das terríveis acusações que pesam contra você.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 04, 2016 7:05 pm

Usando de seus sortilégios, você ousou restaurar em nosso planeta o símbolo da cruz, rejeitado há muitos séculos.
Você teve a coragem de conclamar Deus por nós renegado, cuja adoração é proibida sob pena de morte.
Você seduziu as multidões para contacto criminoso com o mundo invisível, descortinou o véu que encobre as discórdias e outros mistérios funestos.
Com sua música estranha e aromas venenosos, retirados do éter, você encanta e seduz pessoas... a tal ponto, que acabou por seduzir o coração de nossa rainha... e ela elegeu você para esposo e rei, um forasteiro de origem obscura.
E agora, confesse antes de tudo, quem é você pessoa de raça ignota e estranha.
Onde você nasceu?
Quem são seus pais?
Onde você aprendeu essa ciência maléfica que utiliza para aniquilar-nos, pois não há dúvida de que sua doutrina provocará uma guerra interna.
Supramati ouviu quieto a maledicente acusação de seu juiz e, quando este silenciou, respondeu calmamente:
- Eu sou filho da luz.
Meu Pai é também o Pai de vocês.
Eu fui gerado pela mesma faísca divina que deu vida a vocês e os meus poderes sobrenaturais são a consequência da supremacia de um sábio sobre um ignorante.
Uma pessoa cega e ignara é escrava das contingências e de todos os infortúnios que lhe sucedem.
Um sábio prevê acontecimentos futuros e consegue prevenir suas consequências.
- Que sábio então é você, que não pode prever os nossos intentos e suas consequências bastante duras? – ironizou, arreganhando os dentes um dos pseudo-juízes.
- Engana-se Ragaddi.
No mesmo dia em curei o seu único filho, eu já sabia que você estava participando de uma reunião, onde se discutia minha morte.
Quem de nós dois estava semeando a discórdia?
Isso, contudo, não vem ao caso:
estou aqui pela vontade de meus mestres para semear entre vocês o amor e a fé.
A luz com que eu iluminei as trevas já não se apagará mais.
A minha missão está cumprida.
Façam agora o que têm de fazer; quebrem as correntes que me amarram a este mundo.
Este é o destino do profeta:
marcar com o próprio sangue os ensinamentos por ele pregados.
- Você ficou bem mais dócil grande bruxo.
Por que não se defende com sua bruxaria?
Se você consegue transformar animais selvagens em cordeiros, porque, então, não utiliza os poderes de que dispões?
Ou será que lhe falta a harpa e todo o seu poder está exactamente naquele talismã.
- Não lhes é indiferente onde esta o meu poder, uma vez que, de qualquer forma, eu não quero utilizá-lo?
Repito, façam o que têm de fazer, matem o profeta para que seu sangue purifique essa ímpia atmosfera.
- Então, não vamos mais perder tempo para não atrapalhar a "purificação da atmosfera" – atalhou jocosamente o presidente, e proferiu a sentença:
Supramati deveria ser crivado de flechas e em seguida, queimado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 04, 2016 7:05 pm

- Ao alvorecer, sua sentença será executada e quando o vento dispersar suas cinzas e nada sobrar de você, nós arrancaremos pela raiz todos os seus equívocos semeados – acrescentou ele com expressão de ódio mortal.
Com a mesma tranquilidade, Supramati deixou que fosse acorrentado e levado a uma masmorra subterrânea onde ficou trancafiado.
Ao ficar sozinho, deitou-se sobre um monte de palhas, colocadas no canto.
Como suas vestes luxuosas e festivas contrastavam com aquele cenário subterrâneo, lúgubre e bolorento!
Enquanto reflectia, foi acometido por um estranho estado de ânimo.
Ele ouvira que a iniciação suprema exigia o sacrifício do adepto Como prova da vitória sobre o corpo e si mesmo...
Mas, sendo imortal, conseguiria ele morrer?
É certo que ele se encontrava num outro mundo, de outra composição química, onde a matéria original do planeta talvez não produzisse o efeito normal.
No primeiro atentado contra sua vida, ele fora ferido e até sofrera com o ferimento, ainda que suas cicatrizes tivessem fechado com excepcional rapidez.
Em caso de morte ele ficaria separado carnalmente de seus mestres, como, por exemplo, de Ebramar e consequentemente seria privado da possibilidade de ir para um novo planeta, para onde os seus irmãos iriam como legisladores...
Onde então e de que forma ele aplicaria os conhecimentos por ele adquiridos?
Sem dúvida, por meio da ciência, os mestres poderiam juntar uma matéria nova em seu corpo astral, mas isso já seria algo inusitado, ou seja... o futuro estava incerto e o caminho nem sequer estava traçado nem claro...
Supramati ficou constrangido ao sentir certa angústia; um peso parecia oprimir-lhe o espírito, sua cabeça tonteou levemente.
Pareceu-lhe que o ar se tornava escasso e, possuído por uma fraqueza repentina, recostou-se na parede.
Nesse estado semiconsciente, ele ouviu vozes remotas:
Para que você abandonou o refugio do Himalaia?
Para onde o levou sua sede insaciável da perfeição?
Buscando uma gloria imaginária e vã de se tornar um profeta, você deverá agora morrer e ficar no meio do caminho.
Os mestres por você venerados enganaram-no simplesmente, empurrando-o para as provações que liquidarão com seu corpo, enquanto os frutos da recompensa serão colhidos por outros.
E que fim horripilante espera o seu corpo perfeito e espiritualizado!
O vento o dispersará em átomos que irão para no caos...
Arrepios perpassaram por todo o corpo de Supramati.
De repente, ele se sentiu como se lhe atravessassem agulhas afiadas, causando-lhe uma terrível dor.
Perto dele foi acesa uma fogueira, alastrando um calor insuportável, e as labaredas arrastavam-se em sua direcção e lambiam-lhe os pés que estremeciam sob o fogo...
Uma voz chistosa murmurava-lhe no ouvido:
- Está sentindo como as flechas traspassam-lhe e as chamas devoram o seu corpo?
Você tem poderes de acalmar os elementos da natureza.
Entretanto isso lhe foi negado...
Veja você não ousa utilizar seus conhecimentos para se defender!
Que maldade! Há-há-há-há!...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 04, 2016 7:05 pm

Do horror diante dos sofrimentos inumanos que o dilaceravam, um suor gelado cobriu o corpo de Supramati; alguma coisa estremecia, rebatia-se e indignava-se dentro dele.
Com um olhar vago observou a fogueira que parecia estar desaparecendo sob um abismo que se abria.
E acima da voragem, à semelhança de uma nuvem negra, drapejava o funesto cúmplice Sarmiel, o Dragão da dúvida, acompanhado por uma comitiva de monstros, gerados pelas trevas e que normalmente cercam os homens escravizados pela carne.
Lá rastejavam o asqueroso e o infame pavor, as degradantes fraquezas que paralisam os homens, e a angústia opressiva diante do desconhecido...
O Dragão junto ao limiar – sinal da dúvida – é um inimigo tenebroso.
Espreitando as fraquezas carnais, ele se aproxima decidido, do filho da luz como um simples mortal.
Do degrau inferior da escada da sombra de tudo que é existente – uma sombra fatídica tanto para um ser prodigioso, como para um homem comum.
Em todo momento difícil de desilusão e sofrimento, a voz diabólica murmura:
Fique sob a minha protecção.
Eu lhe darei tudo e o libertarei dos conhecimentos e da consciência que o atormentam.
Dispensarei diante de seus olhos os equívocos que o fazem perecer...
A fraqueza de Supramati aumentava cada vez mais.
Dores insuportáveis dilaceravam-lhe o corpo e as ideias embaralhavam-se.
A despeito de tudo, ele compreendeu o perigo e, pelo esforço estranho da vontade, sacudiu a fraqueza da desilusão que dele se apoderava e a repugnante dúvida a espreitar-lhe furtivamente, ressurgindo o poderoso e puro espírito.
Sim, a dúvida mostrou-se uma terrível e covarde inimigo.
Não foi à toa que os seus mentores o preveniram desse traiçoeiro e voraz pântano, dentro do qual ele poderia sucumbir, tornando inútil o trabalho em todos esses séculos.
- Meus mestres e dirigentes, não me abandonem – gritou ele fora de si, e, no mesmo instante, nas trevas do submundo resplandeceu uma cruz fulgurante.
Supramati ergue-se como que electrizado.
Uma pesada rocha parecia deslizar-lhe das costas e levantando o braço, ele ordenou:
- Afaste-se e desapareça, criatura do inferno!
Pode tentar-me, mas não me aprisionar.
Com fé e amor, eu entrego o meu destino nas mãos dos meus dirigentes e a alma ao meu Criador.
Que seja feita a vontade dele!...
Ele deixou-se cair de joelhos e começou a rezar tão fervorosamente que não notara as correntes caindo-lhe dos braços e das pernas, logo desaparecendo qualquer tipo de dor; e a voragem sumiu entre as nuvens negras junto com os trovões da tempestade.
Subitamente, o subterrâneo iluminou-se de uma suave luz prateada e diante de Supramati apareceu o supervisor da irmandade do Graal.
Suas vestes pareciam tecidas de diamantes, e o manto, que lhe caía dos ombros, perdia-se na escuridão feito uma névoa de prata.
Nas mãos ele segurava o cálice, adornado com a cruz.
- Nosso Senhor envia-lhe o seu sangue divino para fortificá-lo e ajudá-lo a levar a cabo a missão iniciada.
Tome da fonte da vida eterna.
Feliz e repleto de fé e comoção, Supramati tomou do líquido purpúreo que se espalhou em corrente ígnea por suas veias, fornecendo-lhe forças e um sentimento de indizível tranquilidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 04, 2016 7:05 pm

A visão desapareceu e ele começou a orar com tal entusiasmo, que o seu espírito foi arrebatado da Terra e se elevando às esferas da harmonia e paz...
A guarda armada que entrou no calabouço tirou Supramati de seu estado de êxtase, mas a luz ofuscante que envolvia o prisioneiro deixou todos em pânico.
O chefe da guarda ordenou vacilante, que Supramati o seguisse, enquanto que os seus comandados olhavam assustados, as correntes caídas no chão.
A despontante aurora envolvia o planeta com a alvacenta luz dormente.
O prisioneiro foi levado a um pequeno pátio adjacente, cercado por altos muros.
A porta atrás foi trancada.
Mal ele deu alguns passos, da sombra destacou-se uma mulher, envolta num cobertor, e que se lançou, em prantos, de joelhos diante dele, agarrando-o.
Era Vispala. Supramati se ergueu e beijou-a, tentando consolá-la, feliz por vê-la mais uma vez.
- Deram-me a permissão de despedir-me de você, mas eu não quero sobreviver a você.
Não tenho forças!
É por demais terrível perdê-lo no momento em que nos uni-mos para sempre.
Eu compreendo toda a minha insignificância diante de você, mas para o amor não existe distância.
Por mais que eu seja mísera, eu o amo mais que a vida...
As lágrimas sufocaram-na.
Supramati ergueu a sua cabecinha caída e a olhou carinhosamente nos seus olhos cheios de lágrimas.
- Você está certa.
O amor puro que eu lhe ensinei não conhece fronteiras e, espiritualmente, você não poderá separar-se de mim, porque seu amor por mim nos uniu indissoluvelmente para todo o sempre.
Esta união divina sempre levará até mim o seu pensamento e lhe trará a minha resposta.
- Pois, então, não me amargure nesta grandiosa hora com suas ideias criminosas de suicídio.
Tal facto me afastaria ainda mais de você.
Pelo contrário, viva e honre a minha lembrança com actos de misericórdia, trabalho profícuo, difundindo ensinamentos, e toda alma perdida que for orientada por você ao Criador será para mim um presente precioso.
Uma fé jubilosa brilhou nos belos olhos de Vispala.
- Eu vou viver Supramati, para tornar-me digna e aproximar-me de você, um ser maravilhoso que Deus com sua graça, deu-me a oportunidade de conhecer e amar.
Todo o resto de minha vida, eu dedicarei para difundir seus ensinamentos.
Ela abraçou Supramati e beijou-o, estremecendo no mesmo instante.
- Seus lábios estão secos, meu querido, a sede o atormenta!
Esses monstros não lhe deram nem água...
Eu pressentia... Tome!
Ela tirou do bolso uma suculenta fruta vermelha e a deu a Supramati, que realmente estava com sede.
Ele saboreou a fresca e aromática fruta; segurou por uns instantes, na palma de sua mão o caroço, grande como uma maça. e em seguida, curvando-se, enterrou-o no solo.
- Para marcar este momento de minha gratidão pelo sentimento bondoso de sua intenção em fortalecer-me, eu vou deixar aqui uma árvore, cujos frutos servirão como fonte de saúde para pobres e deserdados.
E agora reze comigo.
Ele estendeu as mãos sobre o local onde semeou o caroço e de seus dedos jorraram feixes de luzes multicolores; das palmas das mãos começaram a desprender-se nuvens de vapor que caindo sobre a terra eram absorvidas pelo solo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 04, 2016 7:06 pm


Ele pareceu transformar-se.
De seus olhos espargiam-se luzes ofuscantes e, de algum lugar, ouviu-se uma música surpreendentemente melodiosa.
Vispala ajoelhada e com o coração palpitando, olhava extasiada para o fenómeno que se passava diante dela.
Ela sentiu a terra estremecer, partir-se e viu a primeira haste crescendo a olhos vistos, vindo a tornar-se uma impressionante árvore jamais vista.
Seu tronco alvo era fosforescente e translúcido, de forma que através de sua casca podia-se ver fluindo a seiva vermelha.
Supramati baixou os braços e dirigindo-se a Vispala disse-lhe:
- A árvore florescerá e dará frutos o ano todo.
Eu a abasteci de benévolas propriedades medicinais e todo aquele que dela se aproximar com fé e amor nela encontrará a saúde do corpo e da alma.
E agora, minha querida, adeus, ou melhor, até breve.
Virão me buscar agora – disse Supramati, erguendo Vispala, infeliz e emocionada.
Ele a beijou abençoou e, tirando de si uma cruz, colocou-a no pescoço de Vispala.
- Esta cruz lhe servirá de apoio e protecção.
Lego para você também a minha harpa que foi escondida por meus discípulos.
Vocês a colocarão no primeiro templo que for erguido a Deus.
Minhas ideias e a vontade estarão gravadas no instrumento, e suas cordas soarão, quando for necessário, produzindo somente os cânticos de paz, fortalecendo a todos, moral e fisicamente.
Ele foi interrompido pelo barulho da porta se abrindo com a chega de uma escolta armada.
Dois soldados levaram a rainha desmaiada, enquanto os outros escoltaram Supramati, calmo e feliz, como se fosse a uma festa, e não para ser executado.
Não longe de seu cativeiro, um pequeno grupo de discípulos e amigos leais aguardava no caminho para despedir-se de seu benfeitor.
O chefe da escolta, cedendo às súplicas, deixou que eles se aproximassem do condenado.
Supramati os beijou e abençoou um por um e em despedida disse em tom firme:
- Em vez de chorarem, contemplem a minha morte.
Mais de um de vocês terão de marcar, provavelmente, com o próprio sangue a verdade por mim propagada.
Preparem-se, pois, para suportar condignamente essa hora.
A troco de um cruel escárnio, a fogueira foi armada exactamente naquele local, diante da caverna, onde habitava Supramati.
O meio pelo qual se faria a execução parecia sugerir que o próprio era mais forte do que o abismo fatal, do qual ele conseguira salvar milhares de pessoas.
A correnteza agitada no fundo do precipício jamais bramara com tal intensidade nem espumara com tal fúria.
Parecia que ela se apossara de ira contra a monstruosa injustiça que seria perpetrada pelos homens.
Supramati não ofereceu resistência quando foi amarrado ao poste.
Seu semblante cintilava com profunda, tranquila e exultante fé.
Nada agora conseguia abalar a tranquilidade de sua alma; fora vencido aquele terrível e asqueroso monstro – a dúvida – que se avizinha de qualquer pessoas prestes a morrer, constrangendo e obscurecendo o sublime momento em que se resolve o enigma da vida.
O mago, sem qualquer arrependimento, ia ao encontro da morte carnal para renascer na luz eterna.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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