Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:20 pm

- Certo – respondeu um dos magos.
Devemos inicialmente nos dirigir para os locais onde a sagrada comunhão ainda ata os homens à Divindade; nestes locais os magos se revelarão aos seus irmãos e juntos organizarão reuniões para pregarem a aproximação do fim do mundo e organizarem procissões, acompanhadas de cantos sagrados, cujos sons purificarão a atmosfera.
- A nossa tarefa é árdua, mas também será difícil para os que responderem ao nosso chamado e desejarem salvar-se – observou Dakhir.
Lá, onde o ateísmo e o culto a Satanás romperam qualquer contacto com Deus, somente o sangue poderá estabelecer essa união.
À semelhança dos primeiros cristãos, teremos de provar a nossa fé em Deus com martírios e através da fé fazê-los dignos de nos seguirem.
- Sim, esse caminho para a salvação, apesar da sua dificuldade, é inevitável.
Somente aqueles que nunca renegaram Deus e não fraquejaram em sua fé, apesar de todas as provações, podem se livrar do martírio, isso se eles mesmos não quiserem aceitá-lo voluntariamente, para purificarem-se e alcançarem um nível superior – explicou Supramati.
- Oba! Os satanistas também terão muitos problemas e desgostos, assim que nós perturbarmos sua doce tranquilidade – exclamou Narayana, com brilho nos olhos.
Já estou pressentindo o momento em que as vibrações da prece conjunta e os cantos sagrados os atingirem tal qual veneno mortal, provocando convulsões, crises nervosas próximas da loucura e outras doenças psíquicas.
- Só que eles não morrerão disso – contestou um dos magos -, pois deverão suportar o terrível castigo dos últimos dias que anteciparão o fim do mundo, para cuja destruição eles contribuíram com seus delitos.
Os mais fracos serão deixados aqui, visto que sua presença no novo mundo seria um germe da morte.
Eles experimentaram da ciência maldita, criada pelos banidos do céu para contaminarem as almas, esqueceram que os filhos da Terra devem amar e respeitar sua mãe comum, que foi seu berço e será sua sepultura, sem profanar a sua sagrada ama de leite, com faz actualmente esta geração infernal que a povoa. - Não permita Deus que alguém caia tão fundo e tropece, pois difícil e estreito é o caminho da ascensão, e o luminoso farol da sabedoria total, que acena com o descanso para o viajante cansado, brilha de longe por entre a névoa – disse Supramati.
E esta trilha tortuosa passa entre abismos onde estão de tocais muitas tentações.
"Homo sum" somos seres humanos e sujeitos a diversas fraquezas da carne e do espírito; dentro de nós se escondem milhares de desejos insatisfeitos, todas as indignações do orgulho desenfreado e o único apoio do equilíbrio do sentido é a em si mesma. Estou dizendo isto – acrescentou Supramati – para os jovens adeptos presentes.
Eles devem rezar e concentra-se para que nenhuma fraqueza os perturbe naquele vendaval do mal para onde iremos.
Após o jantar de despedida, os magos, cavaleiros e adeptos despediram-se para iniciar sua ronda preliminar antes de se reunirem pela última vez no palácio do Graal.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:20 pm

Capítulo IX

Dois dias depois, Dakhir viajou acompanhado de Narayana – que preferiu trabalhar com o primeiro -, enquanto que Nirvana ficou com Supramati.
Seguindo o conselho do fiel secretário, Supramati resolveu inicialmente visitar a cidade para examinar, pessoalmente, as novas instituições e conhecer "in loco" o que aprendera por enquanto só na teoria.
Eles decidiram dar esta primeira volta na cidade durante o dia por sentirem-se mais livres, não querendo ser incomodados pela multidão, pois naquele tempo de decadência as coisas estavam de cabeça para baixo.
O Satanás adora a escuridão e abomina a luz e por isso seus admiradores também passaram a viver à noite, sendo que a maioria da população dormia de dia e se divertia à noite.
Como as saturnálias, "sabbats", orgias e sacrifícios satânicos eram realizados, preferencialmente, à noite, todos os que podiam recolhiam-se para dormir ao amanhecer e levantavam-se ao pôr-do-sol.
Os prédios mais altos da enorme capital tinham um relógio com um gigantesco galo negro, o qual com seu agudíssimo canto anunciava por todos os arredores a chegada da hora do encerramento das negras comemorações e o momento de descanso.
O passeio pela cidade vazia e ruas com raros transeuntes deixou em Supramati uma triste impressão.
A forma dos prédios não tinha mudado; no entanto, o material de construção era diferente e, na maioria das vezes, era de vidro grosso e ferro.
Utilizava-se vidro das mais diferentes cores, e, qualquer que fosse a casa, ela tinha a pretensão de parecer-se com um palácio.
Conforme já foi dito, havia uma enorme quantidade de teatros, que se destacavam por suas grandes dimensões:
no frontispício, grupos ou pinturas alegóricas, asquerosamente indecentes, davam uma ideia dos espectáculos que eram apresentados naqueles palcos.
Havia também grande quantidade de templos satânicos e ídolos em homenagem a Lúcifer, Bafomé e outros príncipes das trevas. Os enormes templos imitavam, ostensivamente, a pesada e maciça arquitectura das construções babilónicas.
Suas portas de bronze estavam escancaradas e em seu interior via-se uma imensa estátua de Satanás, cercada de castiçais com velas pretas; sobre inúmeros trípodes fumegavam ervas e essências, cujo forte aroma caustico era enervante, podendo ser sentido até na rua.
Encontravam-se, ainda, as assim chamadas capelas, construídas provavelmente por troça, no estilo de capelas cristãs ou mesquitas muçulmanas, come seus finos minaretes ou torres góticas.
Obviamente, Supramati e Nivara não entraram em nenhum desses templos pagãos, mas, quando eles passavam ao lado de um deles, dentro do covil diabólico começou a soprar uma forte ventania, cujo bramir e ronco abafado se espalhou sob as abóbadas do recinto.
- Para conhecermos a vida real precisamos esperar pela noite – observou Nivara.
Assim poderemos ver, também, a nova raça de serviçais:
animais humanizados – acrescentou com repugnância.
Com a chegada da noite, da alta torre começou a tocar um grande sino e no surdo som, que serviria para acordar as pessoas para a vida e actividade, havia algo de sombrio e triste.
Desta vez, em lugar do veículo aéreo, foi colocado à disposição de Supramati algo parecido com um automóvel, que Nivara dirigia com destreza por entre inúmeros veículos e pedestres que agora congestionavam as bem iluminadas ruas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:21 pm

Todas as casas pareciam iluminadas, em todas as torres havia enormes sóis eléctricos que enchiam a cidade de luz.
Em todo lugar, por ar e por terra, havia o vaivém da multidão; veículos com homens e mulheres cruzavam-se em todas as direcções.
Para seu espanto e repugnância, Supramati notou que a maioria das damas e cavaleiros era acompanhada de animais de tamanho inusitado, em geral pertencentes a espécies de feras selvagens, raras na época de sua última estada no mundo.
Entretanto a aparência desses tigres, macacos, leopardos ou leões parecia alterada:
a cabeça possuía algo de humano e a sua compleição denotava estranhas anomalias;
todos eram particularmente ágeis e pareciam desempenhar o papel de criados.
- Veja mestre, aqueles mutantes, meio-homens, meio-animais, são os criados atuais – observou Nivara.
Como os seus semelhantes não queriam mais serem serviçais, a humanidade prática criou aquilo para ser um tipo especial de criadagem.
Muitas espécies de animais serviram muito bem para essa adaptação.
Estas criaturas – como já disse – meio-homens, meio-animais.
São muito espertas, mas perigosas pela sua selvageria, ferocidade e raiva diabólica, apesar de serem mantidas sob severa submissão, o que não as impedia de buscar avidamente o amor humano.
O ser humano possui a necessidade e o instinto de mandar e ser servido; mas quando ele inventou para seus semelhantes a total igualdade e liberdade, pensou em criar espécies de criaturas submissas que fossem inferiores a ele a ponto de temê-lo e suportar seus maus tratos, e ao mesmo tempo, suficientemente espertas para entendê-lo e servi-lo.
- Tem razão, Nivara.
Para esta época satânica só faltava à espécie de seres inferiores – observou Supramati amargurado.
No dia seguinte, Nivara propôs a Supramati visitar um renomado cientista, especialista em avatares.
- O professor Chamanov transplanta as almas dos velhos ricos para os corpos de meninos, que ele fabrica por um processo químico.
É muito interessante.
- É claro, mas por que ele transplanta velhos sátiros em corpos de crianças em vez de fazê-lo em corpos adultos?
E será que ele transplanta também as velhas coquetes em corpos de meninas ou apenas sabe fazer meninos? – indagou Supramati curioso.
- Não, ele fabrica ambos os sexos.
É um grande químico.
Vou avisá-lo de nossa visita.
Ele utiliza nos avatares os corpos infantis, pois se presume que esses corpos artificiais não vivam até a maturidade, caso não haja astral.
Poderemos visitá-lo até durante o dia, pois os clientes de Chamanov mal conseguem esperar até a noite para efectuar a "mudança".
Ele paga tão bem aos seus assistentes que estes concordam em sacrificar algumas horas do dia em prol da ciência.
Na tarde do mesmo dia, o veículo aéreo de Supramati aterrissou no jardim de um amplo palácio.
Os visitantes foram conduzidos para uma sala de recepção, luxuosamente mobiliada, onde logo a seguir apareceu o professor para cumprimentar o príncipe indiano desejoso de visitar seu estabelecimento.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:21 pm

Chamanov era um homem de idade madura, ombros largos, forte, com uma grande cabeça e uma testa alta de pensador; os olhos eram bem afundados nas órbitas, mas o olhar era frio, cruel e diabólico.
Transpirava muito orgulho e auto-estima.
Ele recebeu Supramati desmanchando-se em mesuras e afirmações de imensa satisfação de tê-lo por visita.
- Fico contente, príncipe, com a possibilidade de mostrar-lhe neste momento um dos avatares de seu interesse.
O cliente já está totalmente preparado e eu já vou iniciar a operação.
Nivara ficou na recepção, enquanto Supramati seguiu o professor.
A sala de operações era ampla e equipada com diversos aparelhos; no centro havia duas mesas compridas e sobre uma delas encontrava-se um objecto coberto com lençol branco.
O professor pediu a Supramati para observar tudo por trás da cortina para não constranger o paciente e foi até a poltrona que ficava ao lado de uma mesa vazia.
Lá estava sentando um homem, vestido num avental, e Supramati achou jamais ter visto em sua vida um ser tão repugnante.
Este, sem dúvida, era o moribundo, e, ainda por cima, um velho que a ciência conservou com a aparência jovem:
mas a aproximação da morte estragou-lhe a aparência fictícia e criou algo horrível.
Os cabelos negros e espessos caíram em diversas partes da cabeça formando regiões calvas, as faces do rosto afundaram e adquiram uma cor terrosa.
Quando Chamanov se aproximou do velho nojento, este se endireitou com muito esforço e perguntou alarmado, agarrando o braço do cientista:
- Caro professor, o senhor vai começar a operação?
Tem certeza de que vai dar certo?
- Sem dúvida, duque, fazemos muitas operações e todas com sucesso.
- E o senhor escolheu para mim um corpo sadio e forte?
O senhor sabe que o dinheiro para mim não é o problema e eu quero que o senhor me dê o melhor.
- Julgue o senhor mesmo as qualidades de sua "nova moradia" – disse o professor, retirando o lençol sobre o objecto da outra mesa.
Lá estava o corpo de um menino de 12-13 anos de idade; ele parecia sadio e forte, mas a extrema palidez, os olhos fechados e a total ausência de expressão no rosto, imóvel feito máscara, causavam uma estranha e opressiva impressão.
- Como o senhor vê – continuou Chamanov -, este corpo saiu muito bem feito, sem defeitos, forte e poderoso como um jovem carvalho.
Depois de uns quatro anos, necessários para assimilação e desenvolvimento do organismo, o senhor irá desfrutar novamente de uma vida longa e feliz.
– Não tema, caro duque.
Tenha coragem e beba isto, é hora de começar.
Quando o senhor acordar, terão desaparecido todas as suas dores atuais, tudo estará novo e a máquina começará a funcionar de modo absolutamente racional.
Ele pegou uma taça servida por um dos assistentes e estendeu-a ao moribundo, que a secou com avidez.
Após alguns minutos, ele adormeceu profundamente.
- Vamos ao trabalho – disse o professor, fazendo um sinal para Supramati aproximar-se.
Com a ajuda de seus assistentes, ele despiu o cliente e colocou-o sobre a mesa de operações, toda de cristal.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:21 pm

O corpo nu, parecendo um cadáver, foi coberto por uma campânula de vidro com alguns tubos que a ligavam a um dos aparelhos, e posto para funcionar.
A campânula de vidro encheu-se de vapor, ocultando completamente o corpo.
- É um vapor especial e serve para abrir os poros e facilitar a saída do corpo etéreo – explicou o professor.
Depois de vinte minutos de banho de vapor, a campânula de vidro foi retirada, sendo colocado um grosso tubo de vidro em formato de U.
Uma de suas extremidades foi colocada na boca do moribundo e a outra na boca do menino...
Sobre o corpo do velho foram instalados alguns pequenos aparelhos eléctricos que sacudiam e esvoaçavam à semelhança de asas de pássaros; os aparelhos eram ligados a um maior, que trabalhava ruidosamente, feito uma máquina a vapor.
Em seguida, os dois corpos foram cobertos com tampas de vidro.
Tudo isso já durava cerca de três quartos de hora, quando, de repente, ouviu-se um estalido, o corpo do velho contorceu-se e de sua boca saiu uma nebulosa e azulada massa fosforescente, como uma gelatina, uma chama de vela que parecia reflectir de dentro para fora.
A massa vaporosa e esbranquiçada preencheu totalmente o tubo e, quando, a seguir, passou para a boca do menino, o tubo foi retirado rapidamente.
O corpo do velho ficou com cor esverdeada e sua boca permaneceu aberta.
Era sem dúvida um cadáver; cobriram-no com um lençol e levaram-no embora.
O professor que controlava a operação inclinou-se sobre o menino, cujo corpo tremia e se agitava como se tivesse levado um choque eléctrico.
- Acredito que a operação foi um sucesso! – afirmou ele, satisfeito consigo.
Veja príncipe – acrescentou, dirigindo-se a Supramati -, como tudo é simples e como eram ignorantes os nossos antepassados que, para aliviar as dores e salvar uma vida, engoliam terríveis compostos ou ainda se sujeitavam a horríveis operações cirúrgicas, deitando-se sob bisturi.
Não é mais confortável tomar um novo corpo?
Isto é a mesma história que o ovo de Colombo.
- Os nossos antepassados não tiveram a sorte de ter um grande sábio como o senhor, professor, que fez esta sensacional descoberta.
- Agradeço príncipe, mas não posso tomar exclusivamente para mim a glória da descoberta; eu só consegui por definitivamente em prática os trabalhos de muitas gerações de cientistas.
- E quantos avatares deste tipo são realizados?
- Relativamente muitos.
Tenho alunos que praticam as operações na maioria das grandes cidades; entretanto, elas custam caro e somente as pessoas muito ricas se permitem a isso.
- E quando seu cliente voltará a si? – perguntou Supramati.
- Normalmente eles são deixados inconscientes por três ou quatro horas, conforme as circunstâncias, mas vou verificar se é possível, para atender à sua curiosidade, obrigá-lo a dizer algumas palavras agora mesmo.
Ele retirou cuidadosamente o termómetro debaixo do braço do menino e auscultou o coração.
- A temperatura está normal e o coração bate regularmente.
Isso significa que podemos arriscar – disse o professor, destampando um pequeno frasco e levando-o perto do nariz do menino.
Este estremeceu e, após um instante, abriu os olhos.
E então, duque, como se sente? – perguntou o professor sorrindo.
- Bem... Mas um pouco incómodo – respondeu uma voz fraca e os olhos fecharam-se novamente.
Ele permanecerá por seis semanas na minha clínica para que eu possa acompanhar pessoalmente a total assimilação e o incondicional repouso antes de voltar para casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:21 pm

Sem suspeitar que estava tratando com um cientista, o professor deu a Supramati uma série de explicações.
- Se quiser príncipe – acrescentou -, eu posso mostrar-lhe a última conquista da ciência, o nosso laboratório de recriação de seres humanos.
O senhor verá que nós não só triunfamos sobre a morte, mas também podemos criar a vida.
Resumindo, nós dispomos de tudo o que nossos antepassados, devido à crassa ignorância, atribuíam ao poder de seu Deus.
Criador, o Senhor do universo.
Ah-ah-ah! Já não precisamos mais deste Deus nem para morrer nem para viver, e também não impomos às mulheres estes terríveis sofrimentos.
Supramati agradeceu-lhe, dizendo que se interessava muito por aquelas maravilhosas descobertas e o feliz professor levou-o a outra parte do enorme estabelecimento.
Eles entraram numa ampla sala circular, sem janelas, mergulhada numa fraca e azulada penumbra.
Lá havia longas fileiras de mesas, com estreitas passagens entre elas.
Sobre cada mesa havia uma espécie de caixa comprida, coberta por lençol, e ligada por fios e tubos a grandes aparelhos eléctricos, instalados em duas extremidades da sala.
- Os da esquerda lhe serão menos interessantes.
Estes receptáculos contém somente embriões no primeiro estágio de fermentação e formação.
Veja que nós alcançamos a possibilidade de recriar o corpo humano graças a um amálgama químico dos princípios masculino e feminino.
Isto ainda é o começo e a última palavra será dita quando nós conseguirmos extrair da atmosfera vital a "substância racional".
Mas estou convicto de que conseguiremos.
- O senhor está se referindo àquela substância que passou de um corpo para outro, estou certo?
Será que a sua tão desenvolvida ciência ainda não encontrou a chave para a determinação da composição daquilo que o senhor de substância racional? – perguntou Supramati.
- Infelizmente, ainda não.
Só sabemos que está substância é infinitamente diluída, diríamos fogo rarefeito, mas até hoje a substância estranha, permanece imperceptível e não pode ser pesquisada.
E agora, príncipe veja isto.
Ele dirigiu-se a uma mesa da direita, retirou o lençol azul que cobria uma caixa de vidro escuro, girou um botão esmaltado e então Supramati notou um orifício ou uma janelinha circular na extremidade da caixa, através da qual o professor queria que Supramati olhasse.
Ele viu que o interior estava iluminado por uma espécie de luz azulada e, sobre um monte de substância gelatinosa, estava deitado o corpo de uma pequena criança, aparentemente bem formada e que parecia dormir. Através de tubinhos de vidro, passava para o interior daquele corpinho uma leve névoa esbranquiçada, que o corpo parecia absorver; era, provavelmente, a alimentação artificial do bebé.
A criança respirava bem, o organismo funcionava e a obra de arte química realmente era um sucesso.
- Os seus conhecimentos são grandes, acaso professor, mas falta algo à sua obra de arte...
- O que, por exemplo?
Interrompeu animadamente o professor.
- Ela não tem alma.
- O senhor que dizer que lhe falta "substância racional".
Mas eu já lhe falei que o segredo de sua composição ainda nos escapa.
Temporariamente utilizamos o método que acabei de mostrar.
A situação torna-se ainda mais lastimável para mim, pelo facto de no ar pairarem "substâncias" semelhantes, despojadas do corpo material, cuja origem ignoramos...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:21 pm

- E o senhor não sabe a forma de atraí-las para estas formas humanas, que faz com tanta arte?
Perguntou Supramati e em seu rosto surgiu um enigmático sorriso.
Neste ínterim, ele percebeu que nos cantos escuros da sala brilhavam os olhos das larvas, espantadas pela sua presença; seus corpos escuros serpenteavam na ávida expectativa de possuir um corpo daqueles.
- Não – Lamentou-se o professor -, não há como atraí-las, elas vêm por si só... são seres misteriosos.
Eu também não consigo entender a razão de seu malefício, pois assim que entram no corpo recém-formado, este começa a decompor-se como se estivesse com gangrena, e em seguida... morre.
Mas isso são pequenos detalhes.
O importante é que a ciência está em vias de descobrir o segredo da criação do homem e nisso, sem dúvida, está a grande glória do nosso século – encerrou orgulhosamente o professor.
Supramati fitou pensativamente o "sacerdote da ciência", dotado de um cérebro privilegiado, que conseguiu com seus conhecimentos resolver a difícil questão da criação do corpo humano ou animal, mas que não podia dar-lhes uma vida real.
Este era o verdadeiro representante da sombria e fatal ciência do fim do mundo.
- Professor, o senhor é um grande sábio e artista e, reconheço, faz jus a este nome.
Entretanto, isso... esse "algo" que o senhor procura e não consegue achar é a alma humana e essa o senhor jamais poderá recriar, pois ela é uma obra de Deus, aquele Deus, que fora arrancado do coração dos homens.
A alma é a chama divina, maravilhosa e indestrutível, que tornou o senhor um grande sábio, um corajoso e incansável pesquisador.
É o espírito que anima seu cérebro e o torna mais receptivo ao aprendizado de tudo.
Perca as suas esperanças de conseguir um dia submeter à análise esta centelha divina, cuja composição química sempre lhe escapa.
E nem a procure, pois seus segredos se resume na plenipotência de Deus.
E por mais que a humanidade renegue os eu criador, Ele existe e nenhuma sentença infernal, nenhum sacrilégio ignóbil tirará dele uma infinitésima partícula sequer do seu poder absoluto.
O professor franziu o cenho e, por sua vez.
Lançou um olhar perscrutador sobre a altiva figura dos eu interlocutor e para seus grandes e brilhantes olhos azuis, cujo olhar parecia oprimi-lo.
Mas a enorme auto-estima superou esta impressão.
Ele endireitou-se com altivez e respondeu, com desprezo mesclado de raiva:
- Príncipe, o senhor me surpreende; parece um homem esclarecido e mesmo assim acredita em Deus, ao qual atribui um poder ilimitado.
Estas convicções absurdas serviam para os povos ignorantes dos séculos passados.
Actualmente, quando cada um de nós pode competir com esse legendário Deus, tais ideias, o senhor me desculpe...
São no mínimo engraçadas.
Os olhos de Supramati brilharam e a sua voz soou séria e rigorosa.
- Infeliz! O diabólico orgulho está levando-o ao abismo.
O senhor ousa comparar-se ao Todo-Poderoso, que cria e controla o universo infinito!
O senhor considera o seu pobre saber equivalente à omnisciência e sabedoria de Deus.
Pois aguarde!
E quando a ira divina desencadear-se sobre esta humanidade criminosa, quando trovejarem à sua volta os elementos descontrolados, aí então o senhor compreenderá que, diante do Todo-Poderoso, o senhor é um mísero átomo ou uma partícula de pó que a tempestade levantará e levará embora.
Pense e envergonhe-se desse seu orgulho ridículo e indigno de um sábio autêntico.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:22 pm

O professor empalideceu.
A ira e a auto-estima afrontada lutavam dentro dele contra uma sensação estranha de uma repentina e indefinida conscientização de que a pessoa diante dele representava uma força, cujas dimensões estavam além do seu entendimento.
- O senhor considera o meu saber desprezível – disse ele, após alguns instantes. – talvez o senhor, usando dos seus conhecimentos, possa colocar uma alma nesse corpo?
- Não posso.
Eu, tal como o senhor, também não tenho o poder de criar uma alma.
Eu ainda posso atrair um espírito do éter e obrigá-lo a animar este corpo, mas este espírito seria uma larva ou um espírito errante e sei que fazê-lo seria perigoso e sem propósito.
O senhor também poderia.
Mas saberia o senhor dizer qual seria a duração dessa força vital, se ela possuiria tudo o que seria necessário para as acções do espírito e se possuiria, em sua composição química, tudo para que a assimilação do astral e da matéria fosse completa?
Quanto a isso o senhor nada sabe.
O professor abaixou a cabeça.
Ele – um pesquisador – sabia que ainda faltava muito para aperfeiçoar a sua obra e nesses muitos anos de trabalho concentrado ela não conseguiu nem capturar nem pesquisar essa misteriosa centelha psíquica que o indiano chamava de "fogo celestial".
- Quem é o senhor, estranho, que possui uma fé absoluta em Deus, há muito esquecido por todos? – perguntou ele, após pensar por instantes.
- Sou um missionário dos últimos tempos, pois se aproxima a hora da destruição e a humanidade surda e cega está dançando sobre um vulcão que irá engoli-la.
O professor abaixou a cabeça e sorriu.
- Epá! O senhor é um profeta do fim do mundo?
É uma estranha fantasia, príncipe, para um homem jovem, bonito e rico, e que, além disso, parece instruído.
- Mesmo que isso lhe pareça estranho, o fim do planeta está próximo.
A própria humanidade antecipou este tempo, quebrando a harmonia e o equilíbrio dos elementos.
As pessoas chegaram ao momento crucial e em sua arrogância levantaram a sua ímpia e sacrílega mão até contra o santuário de Deus.
Não vou negar que possuo conhecimentos.
O Eterno arma com a força da ciência os servos submissos e fiéis, que sobem passo a passo a escada do aperfeiçoamento para a luz, e todo o conhecimento adquirido é utilizado somente pela vontade divina – respondeu Supramati, despedindo-se do cientista.
Esta visita deixou uma péssima impressão em Supramati, que se condoía de ver os equívocos em que havia caído uma mente tão notável.
Ele recordava aqueça cabeça e a testa proeminente, característica de pensador, que não harmonizava com o olhar impiedoso e a cínica expressão animalesca que costuma existir em pessoas que varreram de sua alma o "ideal", dando liberdade ao "animal" que se esconde no ser humano para dirigir suas acções...
Entretanto, este encontro também despertou em Supramati o desejo de saber como estava a saúde daquela estranha humanidade, saber que tipo de doenças a afligiam e como eram tratadas.
Esta questão interessava sobretudo àquele que um dia era o médico Ralf Morgan.
Ao ser informado do seu desejo, Nivara sugeriu-lhe visitar um médico que gozava de alta notoriedade.
Na sociedade, ele era considerado esquisitão e quase maníaco, pois estudava línguas antigas, Nivara, contudo via-o como um autêntico cientista.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:22 pm

O médico, tendo sido previamente avisado da visita de Supramati, recebeu-o muito polidamente e levou-o directamente para um grande terraço, anexo ao gabinete, decorado por plantas trepadeiras.
O doutor Rezanov era um homem ainda jovem, magro e de tez pálida, sério e calmo, com grandes e pensativos olhos que denotavam inteligência.
- Estou ao seu dispor, príncipe, e considerarei um prazer fornecer-lhe, na medida do possível, as informações que quiser – disse ele, quando ambos se instalaram nas confortáveis poltronas de bambu.
– O que o senhor deseja saber especificamente?
- Ah! Muita coisa, doutor, e por isso temo abusar de sua amabilidade.
Por exemplo:
como o organismo humano suporta esta vida antinatural?
Como assimila este excesso de electricidade e outras substâncias que servem para os organismos fortes e saudáveis e não para pessoas bestificadas e com os nervos em frangalhos, como as que o senhor trata?
Que tipo de doenças e epidemias provoca este estado de coisas?
Como vocês as tratam?
E a mortalidade, é alta?
- Tem razão, este é um assunto bastante amplo, alteza – respondeu sorrindo o doutor -, mas tentarei, inicialmente, transmitir-lhe o quadro geral e depois detalharei os pontos que mais lhe interessarem.
Devo dizer que, em geral, a higiene de um gigantesco passo à frente.
O asseio tornou-se uma lei obrigatória e a electricidade, com seus poderosos choques, destruiu os focos infecciosos.
Desta forma desapareceram por completo as epidemias, como a peste bubónica, a cólera, a tuberculose e outras tão letais nos tempos antigos.
E mesmo assim, infelizmente, a humanidade não ficou nem mais forte nem mais imune e a raça actual que povoa a Terra é nervosa anormal e fraca.
Houve tal miscigenação étnica que hoje é praticamente impossível achar uma pessoa de raça pura para se poder determinar que tipo de pessoa ele é:
se é alemão, italiano, árabe ou russo.
Restaram somente as denominações das nacionalidades, mas já não existem diferenças raciais características.
Estou convencido de que semelhante amálgama de elementos tão diferentes é fatal para a humanidade; isso porque não só cada raça, mas cada povo possui suas particularidades psíquicas entre as demais, as quais, devido às frequentes miscigenações, são perdidas e causam às vezes o aparecimento de seres muito estranhos e, por fim, levam a humanidade à extinção total.
Esta é a situação actual da sociedade, composta inteiramente de pessoas anormais, e o mal, cujo florescimento presenciamos agora, tem origens bem antigas.
Veja, eu tive a paciência de estudar as línguas antigas, actualmente substituídas pela gíria internacional, e li as obras contemporâneas àquele passado remoto.
O estudo demonstrou a profundidade das raízes da principal doença que nos aflige e que se chama "demência".
Imagine que ainda no século XX havia a tendência de explicar muitos sintomas como doenças do cérebro.
Um cientista italiano daquela época, chamado Lombroso, considerava que todas as pessoas geniais são psiquicamente anormais e que todos os crimes são produtos de loucura.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:22 pm

Mas o que naquele século era ou parecia ser somente um paradoxo, actualmente se transformou em triste realidade.
E a população de todos os recantos do mundo é composta de loucos, de maior ou menor periculosidade. O senhor me parece surpreso príncipe?
Mas continuo a sustentar o meu ponto de vista.
Eu também sou louco como os outros; em muitos aspectos, meu cérebro não é normal.
É extremamente curioso estudar o início da demência social, não considerada sequer uma terrível e perigosa epidemia psíquica e que se revelava de diferentes formas.
Inicialmente surgiu uma especulação descontrolada, a corrida pelo ouro e a especulação no mercado de capitais, que enriqueciam ou empobreciam em poucos dias, e por vezes, em horas, abalando até as bases do sistema nervoso das pessoas.
Os jogos de azar tinham o mesmo resultado.
Depois, esta ânsia de novas sensações suscitou a loucura por todo tipo de desportos:
bicicletas, automóveis, aviões, competições de velocidade, etc.
À medida que aumentava a força do mal, surgiu a epidemia de assassinatos, suicídios, vícios antinaturais, orgias e loucuras eróticas.
As revoluções com suas explosões cruéis e sangrentas, matanças sem motivo, hecatombes humanas, excitavam as paixões, e o espírito da destruição apoderou-se das massas.
Foi declarada guerra ao Criador, profanaram-se seus templos, mataram seus cultores e tudo isso era feito sob a égide da suporta "liberdade".
Isso era realizado por hordas de dementes, que não assumiam.
Muitos deles eram considerados pessoas inteligentes.
Infelizmente, entre as pessoas que permaneceram, sãs, não apareceu uma mão suficiente firme para estancar a gangrena.
Deixaram-na desenvolver-se e ela apoderou-se do mundo.
Com uma indiferença e apatia, para mim absolutamente incompreensível, a sociedade contemporânea permitiu estes factos, assistindo a todos os actos antinaturais, e, além de não reprimi-los, não trancafiou aqueles loucos em hospícios.
Resumindo, não tratou dos doentes por todos os meios possíveis para provocar neles uma reacção salvadora.
Desta maneira, surgiu, cresceu e disseminou-se pela face da Terra esta "grande neurose" fatal, tal qual o pior dos venenos, e ninguém reagiu energicamente contra o frenesi da liberdade, orgia e negação.
A grande invasão dos amarelos provou certa reacção, mas por pouco tempo; o mal estava profundamente enraizado e renasceu em seguida ainda mais forte.
E novamente ficaram indiferentes todos aqueles que podiam e deviam influir.
Esta psicose incendiou todo o mundo e queimou tudo de fio a pavio na escada social.
Ninguém a combatia e todos se limitavam a olhar e admirar a grandiosa visão desta fúria descontrolada, sem vontade de reflectir sobre o perigo e dando-lhes nomes soberbos e pomposos.
A sociedade actual surgiu como consequência disso tudo...
O professor calou-se, balançou a cabeça pensativo e suspirou profundamente.
- Lamento príncipe, por ter-me empolgado pelas minhas reflexões – desculpou-se, após um minuto de silêncio e enxugando a testa com a mão.
- Oh! É absolutamente natural que o senhor reflicta.
Tudo o que disse é por demasiado triste para não se pensar demoradamente – argumentou Supramati suspirando.
- Pois é para entender o presente eu estudei minuciosamente o passado dos povos e cheguei à seguinte questão:
será que estamos no limite da existência da Terra, ou pelo menos, na véspera de alguma terrível catástrofe que irá alterar a aparência do nosso mundo?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:22 pm

A humanidade actual está, indubitavelmente, condenada à morte.
São pessoas antinaturais, como plantas sem raízes, ou ainda, uma vegetação artificial cultivada para que floresça e, terminando o florescimento, seque por falta de seivas vitais.
Tudo em nossa volta indica caduquice.
A terra, antes tão fértil, está se tornando cada vez mais estéril e depauperada e o deserto avança ao redor; o clima ficou tão alterado, tanque, às vezes, parece que as estações climáticas se misturaram; a mortandade cresce a níveis assustadores, a taxa de nascimentos continua a cair e está claro que não serão as pessoas fabricadas pelo doutor Chamanov que nos darão uma raça com físico e moral poderosos.
Com excepção de um número extremamente limitado de cientistas que ainda trabalham e gostam da ciência, todos os outros fogem do trabalho intelectual, nada querendo da vida além de prazeres e satisfação de suas luxúrias e instintos animalescos.
Por vezes, eu lamento amargamente pelo passado, com a sua crença em Deus Criador, com suas castas, amor à pátria, ambições e até, se quiserem, guerras, sangrentas, é claro, mas cheias de glórias e heroísmos.
Naquela época a vida era melhor do que agora, sem guerras...
E por quê?
Porque foram inventadas armas terríveis e com tal poder de destruição que durante as últimas décadas destruíam-se com gélida impiedade, cidades inteiras com todo o seu conteúdo e até exércitos inteiros.
- Eu estou percebendo, doutor, que dentro do senhor está ressuscitando um firme princípio de atavismo – sorriu Supramati.
– Aliás, eu estou inteiramente de acordo com o senhor:
antigamente se vivia melhor.
Mas agora, tenha a bondade de contar, que tipo de doenças provocou o estado actual da sociedade.
O senhor diz que já não existe cólera, peste bubónica, difteria.
O que temos em seu lugar?
- As doenças são sempre consequências das causas que as provocam.
Antigamente, a cólera e a peste bubónica surgiam pela falta de higiene, por um lado, e pela inexistência de sua cura, por outro. Hoje, a constante excitação do sistema nervoso e o excesso de electricidade provocam o adoecimento dos centros nervosos, letargia e debilidade geral do organismo.
Nós combatemos estas doenças, fazendo o doente adormecer artificialmente por algumas semanas ou até meses, despertando-o somente para se alimentar.
Desta forma, prescrevendo um repouso incondicional, nós damos descanso a todas as funções do corpo e recuperamos as forças do doente. Os doentes também são mandados para as montanhas, na região das neves, onde o ar ríspido e fresco os renova.
Já os que sofrem de excesso de electricidade são enterrados em terra fresca até o pescoço ou recebem banhos especiais.
A medicina que existia nos séculos passados já não existe.
Mas ainda é utilizada a homeopatia; depois, apelou-se para as plantas medicinais; os óleos vegetais também são muito usados em todas as doenças epidérmicas.
Eis o resumo, príncipe, da situação física e moral da humanidade.
Para que ainda é necessária esta festiva turba "intelectual", que gastou a sua energia nervosa, cansada de viver, com o cérebro em frangalhos e aparentemente destinada à extinção?
Só o futuro dirá!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:22 pm

Mas, repito, estou convencido de que estamos nos aproximando de algumas catástrofe.
Supramati olhou curioso para o semblante inteligente do jovem cientista, um dos últimos representantes da ciência desta Terra moribunda, coberta de destroços dos impérios caídos e templos derrubados, tomada pela esterilidade e pelo sombrio culto da escuridão e do mal, como um indicador da tendência humana.
Após conversarem sobre algumas questões de seu interesse, Supramati despediu-se.
O ar da cidade oprimia-o e parecia-lhe infectado; somente em sua casa ele se sentiu bem.
Durante o jantar ele transmitiu a Nivara a sua conversa com o jovem médico e opinou que deveriam esforçar-se para salvar aquele trabalhador, que seria útil no novo mundo, já que em sua alma parecia estarem acesas algumas fagulhas do bem.
- Oh! Muitos ainda se converterão e se arrependerão quando chegarem os dias de horror, após a luz divina deixar de iluminar a Terra e os homens não terem nem com que se aquecer.
É claro que então será tarde demais.
Entretanto, mestre, tem razão, o doutor Rezanov merece ser convertido a tempo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:23 pm

Capítulo X

Após alguns dias, que foram gastos em passeios pela cidade e seus arredores ou dedicados a diversas visitas.
Supramati decidiu visitar alguns locais sagrados remanescentes, entre os quais, primeiramente Jerusalém.
O relato de Nivara sobre a estranha e maravilhosa catástrofe ocorrida naquele local despertou nele um vivo interesse.
Quando a nave espacial alçou o voo sobre a capital, Supramati olhou pensativo e tristonho para a cidade, inundada pela luz eléctrica.
- Quando eu voltar para cá novamente e sobre o meu palácio brilhar a cruz fulgurante, delimitando o abrigo dos mago-missionários, então começará a dura e decisiva batalha da luz contra as trevas.
Quantos triunfarão e quantos sucumbirão, só Deus sabe? – pensou ele, suspirando.
Jerusalém mudou muito.
O monte onde certa vez Davi construiu sua cidade fortificada partiu-se ao meio em consequência do terremoto, e aquela parte onde ficava o Santo Sepulcro arriou, formando uma gigantesca depressão, em cujo interior agora ficava o velho santuário.
Diversos destroços do solo acumularam-se em volta da rocha, formando uma espécie de muro de protecção do profundo vale, e lá, em volta do templo, enegrecido pelo tempo, localizava-se uma cidadezinha cristã.
Não era grande e constituía-se de pobres casinhas de fiéis servos de Cristo, em meio a uma densa vegetação de ciprestes e figueiras.
Além dos limites do muro rochoso, a terra parecia abandonada e somente em alguns lugares ao longe se viam campos ou hortas com rala vegetação.
Esses lugares causavam uma indescritível tristeza.
Os satanistas evitavam-nos devido aos péssimos episódios e se, eventualmente viam-se por lá, acabavam por sentir um mal-estar prolongado; além disso, um incompreensível medo interior afastava-os do local.
As rochas que cercavam o vale estavam tão povoadas quanto a cidade.
Em cada grande fenda, em cada minúscula caverna, vivia um ermitão, passando a vida em jejum e preces.
Em todos aqueles abrigos havia um crucifixo ou uma imagem do Salvador e uma lamparina acesa; os olhares de seus habitantes denotavam aquela fé ardorosa e infinita que movia montanhas.
Junto ao portão, formado naturalmente pelo desabamento de rochas que impediam qualquer outro acesso ao vale, havia um velho de guarda.
Ele também servia de guia aos peregrinos estrangeiros que chegavam para rezar ou para fugir de perseguições.
Supramati e Nivara declinaram agradecendo seus serviços de guia e dirigiram-se ao templo.
Infelizmente, nada havia restado da antiga grandiosidade e riqueza; sob as antigas abóbadas imperava uma escassa meia-luz e o traje dos sacerdotes era tão simples e pobre como os adornos da igreja.
O ofício era realizado por um velho bispo, vestindo um traje de tecido branco.
Desde há muito tempo as missas eram celebradas de maneira contínua.
Dia e noite a fio os fiéis aguardavam na fila sua vez de assistirem ao santo ofício.
A falta de lugar era um resultado da danificação de algumas partes do templo pelo desabamento da rocha, que acabou ruindo de vez, salvando-se apenas uma parte do templo onde ficava o Santo Sepulcro, que escapou ileso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:23 pm

No intervalo, após a celebração da missa, Supramati aproximou-se do bispo e pediu permissão para conversarem a sós.
Ambos dirigiram-se à cela do padre e conversaram longamente.
À tarde do mesmo dia, uma estranha multidão encheu o templo.
A população da cidade e dos rochedos reuniu-se ali a pedido do bispo.
Quando se abriram as portas do santuário, apareceu Supramati acompanhado do bispo.
Pela primeira vez diante dos mortais, ele ostentava o traje de cavaleiro do Graal e a sua cabeça estava envolta em uma ampla aura.
O povo que enchia como uma massa compacta todos os cantos do templo caiu de joelhos, imaginando estar diante de um santo vindo do céu.
Quando por ordem do bispo, todos se levantaram, Supramati aproximou-se dos degraus do púlpito e começou a falar.
Em palavras eloquentes descreveu a situação do mundo, pintou o quadro de desgraças e as bestificação da humanidade, que, esquecendo a sua origem divina, deixou-se dominar pelo espírito do mal.
- E, agora irmãos – continuou -, estão chegando os tempos profetizados:
o fim do mundo se aproxima.
Nos terríveis minutos, de acordo com a profecia, o invisível se tornará visível, um julgamento será feito e as ovelhas puras serão separadas das impuras, conforme está nas escrituras.
Aqueles que nunca declinaram da fé e honraram a Deus, os que sempre permaneceram unidos pelo luminoso e invisível ele com seu Criador, receberão naquele minuto uma recompensa pela sua lealdade.
Eles verão Jesus e os espíritos do planeta, que os iluminarão com a luz celestial, e ouvirão a rigorosa condenação das hordas diabólicas de sacrílegos e sedutores que cegaram e desencaminharam tantas almas, quebrando laços entre o Deus-Pai e seus filhos.
É claro que para o Eterno Todo-Poderoso seria fácil quebrar e aniquilar o espírito rebelde que se considera tão poderoso junto com suas hordas de partidários, mas o Senhor deu-lhes a liberdade de opção, pois o mal é obstáculo que testa o bem e a tentação do mal é o teste suprema para a alma.
Vocês, irmãos, são considerados "fiéis" ao Senhor, pois preservaram a sua fé nele e foram os incansáveis guardiões do altar e de seus divinos sacramentos.
Em suas almas, vocês mantém acesa a chama sagrada que ilumina o tortuoso caminho dos homens ao seu Criador, e entoam o sacramentado hino da Ressurreição.
Até o dia de hoje, vocês permaneceram firmes, suportando a pobreza e as perseguições destes tempos difíceis, quando Satanás hasteou sua bandeira sobre altares profanados e insolentemente ofendeu o Criador e suas leis.
Agora irmãos, resta-lhes cumprir o último dever nesta Terra condenada à morte.
Vocês devem abandonar este abrigo onde realizam a suas preces e sacramentos para novamente aparecer entre as pessoas e combater o mal.
Devem pregar a palavra de Deus e conclamar as pessoas para o arrependimento e as preces, dizer-lhes da aproximação da hora, quando não haverá mais tempo para a salvação.
Devem ser corajosos e nada temer, nem a morte, pois irão lutar pela salvação das almas humanas, e cada alma salva será um tesouro de inestimável valor que vocês depositarão aos pés do Eterno.
A responsabilidade que lhes cabe é sublime e difícil.
O reino pecaminoso está findando; as hordas satânicas já tentaram e destruíram um numero demasiado de almas; seus templos serão arrasados e purificados com o sangue que os mártires derramarão voluntariamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 7:23 pm

Respondam-me, meus irmãos, vocês se consideram suficientemente fortes para travar este grandioso combate, sem recuar diante de nenhum sacrifício e contribuir para a vitória da luz divina sobre a escuridão do mal?
Enquanto Supramati falava, a multidão, aos poucos, ia ficando de joelhos, sem perder de vista o maravilhoso e inspirado rosto do orador, que, em seu traje alvo e com sua aura prateada sobre a cabeça, perecia-lhes um espírito das esferas.
Quando ele se calou, ouviu-se em resposta uma exclamação uníssona, todos estendendo as mãos em sua direcção.
- Sim nós queremos lutar e colocar as nossas forças e a vida para salvar nossos irmãos!...
Ajude-nos Senhor, a lutar pela gloria do Seu Nome – ouviram-se centenas de vozes.
Os rostos de todos transpiravam coragem e energia; uma fé ardente espelhava-se nos olhares e uma inesperada beleza interior parecia transfigurar a aparecia de todos.
Com o encerramento da missa, todos os presentes comungaram, jurando lutar contra Satanás, sem recuar diante de qualquer perigo.
Em seguida, Supramati falou novamente. Irmãos e irmãs!
Resta-me dizer-lhes que no momento em que no céu surgir uma cruz resplandecente, a gruta do Santo Sepulcro acender-se feito lume e os sinos começarem a tocar sozinhos, significará que chegou a hora de entrar em sagrado combate, armados de cruz e de sua inabalável fé.
E até chegar este momento, rezem, preparem-se e juntem toda a força moral de que puderem dispor.
Encerrando a última prece, os fiéis se dispersaram, enquanto Supramati, Nivara e os sacerdotes reuniram-se na cela do bispo para discutir a situação de Jerusalém e de outras comunidades cristãs da Palestina.
Nesta reunião, Supramati soube que nas montanhas, nos arredores do Sinai, formou-se uma verdadeira cidade subterrânea.
Um andarilho do deserto encontrará por acaso, grandes cavernas que formavam labirintos, logo ocupados por cristãos fugidos das perseguições.
Lá eles erigiram igrejas, moradias, cemitérios e abriram novas passagens, cuidadosamente encobertas e conhecidas somente pelos fieis.
Nesses inacessíveis abrigos eram guardadas as relíquias mais veneradas, ícones milagrosos e todos os santuários que conseguiram ser salvos da ira sacrílega dos satanistas.
Lá vivia uma população incomum e asceta, imbuída de enérgica fé, que passava o tempo em jejum e ininterruptas preces.
A região parecia dividir-se em duas camadas: na superfície imperava o furioso satanismo, enquanto que nos subterrâneos ouviam-se cânticos sagrados, celebravam-se missas e festas religiosas.
Por um estranho capricho do destino, foi exactamente nas catacumbas que cresceu e adquiriu sua inabalável força a fé cristã; e agora ela novamente se preparava para ressurgir das profundezas das cavernas, tão límpida e forte como ao nascer, para receber um novo, porém último baptismo, através do sangue dos mártires.
Isso tudo foi contado a Supramati pelos sacerdotes, lembrando um deles que alguns anos atrás, nas cavernas formou-se uma pequena comunidade feminina, cuja prioresa era uma jovem moça, tão benevolente e devota, que foi escolhida para a função por unanimidade.
- Essa é uma criatura incomum – continuou o ancião.
Sua inteligência e força de carácter não condizem com a sua idade.
Seus pais eram crentes e pertenciam a uma antiga família cristã, mas, infelizmente sucumbiram às tentações e caíram no satanismo.
No entanto, Taíssa, contando na época com apenas 10 anos, permaneceu firma na fé e fugiu de casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:45 pm

Sua fuga foi particularmente milagrosa.
Diz-se que um anjo a havia conduzido para cá numa pequena e frágil canoa.
A seu pedido, ela foi introduzida na comunidade que actualmente dirige.
A sua enorme fé e a vida exemplar sempre encantaram e surpreenderam as colegas; além disso.
Taíssa possuí um espírito sagaz e tem visões.
Ela está convencida, por exemplo, de que sua vida é uma provação suprema ou uma missão e parece estar sempre à procura de algo ou esperando alguém.
Ao ouvir o relato, Supramati sorriu.
Ela sabia quem era aquela moça que, através das provações, sustentada por amor inabalável e fé consciente, abria o caminho em sua direcção.
Em seguida a conversa mudou de assunto e concentrou-se na personalidade de um homem que preocupava demasiadamente os fiéis.
Eles viam nele a encarnação do próprio mal e a mais perigosa das criaturas que já existiu na face da Terra.
Supramati já ouvira falar dele em Czargrado e convenceu-se de que a sua extrema influência sobre as mentes aumentava a cada dia.
Entretanto, Supramati não conseguiu vê-lo, pois Shelom Iezodot – era esse o seu nome – residia então numa outra cidade e estava retornando de uma viagem de inspecção pelo mundo, pois se considerava o senhor do planeta.
O seu poder ilimitado sobre as pessoas, sob todos os aspectos, praticamente, dava-lhe o direito de assim ser chamado.
Interessado em ouvir opiniões a respeito desse homem, vindas de simples mortais, Supramati pediu que lhe contassem tudo o que se referia a ele.
A origem de Shelom Iezodot era misteriosa e já cercada de lendas e, dessas, a mais verossímil, era a que dizia ser ele um filho bastardo de um judeu bilionário que ao dotou e o fez seu herdeiro.
Ele próprio se autodenominava de "filho único de Satanás", acrescentando zombeteiro parecer-se com Cristo, chamado de Filho de Deus.
No mais, deixava que as pessoas falassem o que bem entendessem.
Vindo da Ásia ainda moço, cheio de energia e diabolicamente belo, ele iniciou a sua escalada triunfal.
Praticava "milagres", transformava pedras em ouro, realizava curas milagrosas, desencadeava e acalmava tempestades, invocava demónios.
Em outras palavras, ele parecia mandar na natureza e aparentemente possuía tesouros inesgotáveis, a julgar pela quantidade de ouro que jogava aos punhados no ar e distribuía para todos os que dele se aproximavam.
Um dos sacerdotes, que havia visto Shelom, disse que o seu semblante tinha realmente algo de enfeitiçador e o seu olhar inegavelmente subjugava e dominava.
- Então, irmão Supramati, já que você diz que a derradeira hora esta chegando, não seria esse homem o profetizado "Anti-Cristo?" – indagou preocupado o ancião.
Supramati nada respondeu e despediu-se em seguida.
Ele pretendia viajar para o Sinai ao amanhecer e visitar o mundo subterrâneo, que servia de abrigo ao exercito de Cristo.
Foi com grande inquietação que Supramati entrou nas galerias onde os cristãos perseguidos juntaram os seus valiosos tesouros e esconderam dos sacrílegos.
O abrigo das mulheres, que viviam sós, estava totalmente separado do abrigo dos homens solteiros e possuía entradas independentes.
As famílias ocupavam prédios especiais naquela enorme cidade subterrânea.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:45 pm

Supramati e Nivara hospedaram-se na residência de uma família que lhes pediu que aceitasse a sua hospitalidade.
O dono da casa – jovem e entusiasmado devoto – mostrou-lhes as cavernas.
Cheios de surpresas, eles admiráramos ambientes talhados pela própria natureza e as amplas igrejas, altas como catedrais, onde estavam guardados os tesouros espirituais salvos da destruição.
Uma mulher que tinha uma parente na comunidade dirigida por Taíssa ofereceu-se para conduzir Supramati até lá, visto ser ele um profeta que preconizava o fim do mundo.
A entrada de Nivara não foi permitida.
Devido aos boatos caluniadores, disseminados pelos satanistas sobre as mulheres cristãs, não era permitida a entrada de nenhum homem, e somente nas grandes festividades, em comemoração ao nascimento e morte de Cristo, permitia-se a entrada de um sacerdote octogenário para a celebração do ofício.
Através de galerias tortuosas, com celas de cada lado e cavernas de diversos tamanhos, Supramati penetrou junto com sua acompanhante na igreja da pequena comunidade onde se reuniam as freiras – se é que poderia chamá-las assim.
Era uma grande caverna com paredes cobertas por estalactites e uma abóbada muito alta que se perdia na penumbra.
Em seu interior, numa elevação de alguns degraus, estava erigido o altar e sobre ele a estátua da Virgem Santíssima, em tamanho maior que um ser humano; em seus braços abertos Ela segurava o menino Jesus, como se o mostrasse aos fiéis; em sua volta agrupavam-se figuras de santos muito venerados nos tempos antigos.
No altar, coberto por uma toalha de brocado prateado, havia um antigo cálice de ouro.
De cada lado dos degraus enfileiravam-se vinte mulheres, trajadas de branco, com longos véus sobre a cabeça, que cantavam um hino a gloria da Virgem Santíssima e do Salvador.
Todas eram jovens e belas.
O canto harmonioso de vozes jovens espalhava-se pelo templo como sons de órgãos.
Contudo, a atenção de Supramati foi atraída para uma delas, também trajada de branco, com um véu transparente na cabeça; somente uma cruz de ouro que pendia do seu peito distinguia-a das outras.
Ela estava genuflexa no último degrau, de mãos juntas e olhar pregado na imagem; sua voz maravilhosa, sonora, forte e aveludada sobressaía-se de todas as outras.
Era uma jovem de uns dezoito ou dezanove anos, tão frágil, branca e transparente, que parecia sem vida; os longos cabelos, loiros e ligeiramente ondulados, desciam até o chão e os grandes olhos azuis eram claros e límpidos como os de uma criança.
Terminada a oração, a acompanhante de Supramati aproximou-se da irmã e informou-a da chega do extraordinário visitante.
Todos se apressaram em se aproximar dele, mas Taíssa, chegando a dois passos de Supramati, de repente, parou, estremeceu e arregalou os olhos ao fitar o mago.
Num ímpeto caiu de joelhos, pôs as mãos sobre a cabeça e murmurou.
- Eu o conheço.
Você é o enviado das forças superiores e aparece em minhas visões, mas... não consigo lembrar o seu nome...
Supramati colocou a mão sobre a sua cabeça, levantou-a e disse carinhosamente.
- Seu coração me reconheceu.
Eu vim para dizer que a sua provação final está próxima.
Ao enfrentá-la com dignidade e superada a última barreira, aí então lembrará o meu nome e o passado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:45 pm

Mas agora eu devo dizer algumas palavras para você e suas companheiras.
Ele descreveu a situação do mundo, apontou os eu fim próximo e explicou que os fiéis teriam pela frente uma grande e decisiva luta, cuja finalidade era de arrancar das forças do mal, aquelas almas que ainda poderiam ser salvas.
- Até agora irmãs, vocês preservaram suas almas da sordidez que as cercam – acrescentou.
Entretanto, é mais fácil preservar a pureza e a fé estando no retiro, longe de quaisquer tentações, do que no meio de pessoas devassas, sob a ameaça de infâmias, perseguições e, bem possível, até da própria vida.
E é neste formigueiro, caras irmãs que eu espero ver o seu puro, forte e invencível exército, resgatando as almas das tramas diabólicas.
As irmãs repletas de fé e submissão juraram usar todas as forças para permanecerem à altura da vocação.
Já Taíssa parecia transformada.
A fé exaltada e a grande firmeza iluminaram-lhe o belíssimo rosto levemente ruborizado de excitação e os olhos azuis encaravam Supramati com uma expressão inexplicável.
- Eu enfrentarei a última provação, vencerei as dificuldades e Deus me apoiará e abrirá meus olhos espirituais – murmurou ela, e uma energia inusitada manifestou-se em sua voz.
Os olhos de Supramati flamejaram de alegria.
Ao abençoar as moças, ele sugeriu que elas rezassem constantemente e retirou-se.
A visita às cavernas agradou muito a Supramati.
O ar dali era bem diferente e lembrava o dos palácios do Himalaia.
Ele se sentia bem e passava longo tempo nas grutas onde estavam guardados antigos talismãs da humanidade em martírio:
relíquias de santos e ícones milagrosos, diante dos quais as pessoas expunham, por séculos, as puras inclinações da alma e obtinham graças incontáveis.
E o poder dos grande e invisíveis benfeitores não enfraqueceu nem um pouco depois de expulsos dos luxuosos templos e obrigados a descerem às escuras galerias subterrâneas:
eles continuaram a pedir ao Céu para que fossem perdoados os pecados e os crimes dos cegos, que se insurgiram contra o Poder Supremo controlador do Universo. Supramati rezava por horas a fio, pedindo a esses espíritos elevados para que o apoiassem, inspirassem e lhe enviassem a compreensão para torná-lo um verdadeiro e submisso pregador da palavra "divina".
Ele era um mago, formado no laboratório de seus mestres, armado de enorme saber; ele sabia governar sobre os elementos da natureza, compreender e dirigir os grandes motores cósmicos da máquina planetária, mas... durante o tempo dessa longa ascensão, ele foi completamente afastado do redemoinho humano e, ao conhecer o complicado mecanismo do infinito, desaprendeu a compreender aquele microcosmo, que se chama alma humana.
Ele esqueceu aquilo que se esconde no coração humano:
a luta e a tempestade, a maré alta e a maré baixa, a queda e o queixume deste minúsculo e peçonhento insecto chamado "homem".
Individualmente, esta partícula racional nada representa com a sua mísera vaidade, orgulho, egoísmo e espírito rebelde; já aos biliões, ela se revela como uma devastadora nuvem de gafanhotos que corrói o planeta, rodopiando e saltando entre o Céu e o abismo...
E Supramati, numa prece fervorosa, pediu a todos os benfeitores aflitos, cuja grande misericórdia não se exauriu ao contacto com as chagas humanas, para que o ensinassem a entender os pecadores, ser condescendente no seu julgamento e conduzi-los com amor ao Pai Celeste.
Os seus mentores transformaram o pobre Ralf Morgan num mago de três fachos de luz:
com amor e paciência corrigiram, purificaram e inspiraram cada meandro de sua alma.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:45 pm

Fizeram de um moralista aleijado, com sentidos brutalizados, um ser elevado, capaz de ver, sentir e entender o desconhecido.
Chegou a hora de pagar esta dívida de amor, devolvendo aos mentores aqueles bens que lhe deram com tanta profusão.
Em profunda submissão, o mago ficou genuflexo diante dos espíritos elevados cheios de piedade divina, que abriram mão do sossego de sua bem-aventurança pessoal e, voluntariamente acorrentaram-se à Terra, auscultando, incansavelmente todas as lágrimas e amarguras com que os aflitos vinham à sua presença, pedindo feito crianças, tudo de que a vida lhes privara:
saúde, bens terrenos, perdão dos pecados e delitos.
- Ensinem-me, mestres supremos, a amá-los e a compreendê-los da forma como vocês amam e entendem estas criaturas criminosas que renegaram a Deus.
Não me permitam esquecer que eu sou fraco e cego diante do segredo do coração humano, para que o orgulho do conhecimento nunca empane a minha visão espiritual e eu cumpra, condignamente, a difícil missão de levar a luz do Criador para aquelas gerações humanas que estarão sob a minha guarda no novo mundo.
E na escuridão das cavernas acendiam-se grandes focos de luz; os espíritos benfeitores vinham até o mago, olhando-o com amor e condescendência, ensinando-lhe a difícil arte de entender a alma e prometendo-lhe ajuda e apoio.
Nesta atmosfera de luz e calor o corpo de Supramati enchia-se de novas forças.
Todo o seu íntimo estremecia de amor sagrado à humanidade e a desordem moral desta parecia-lhe menos repelente apesar de seus vícios, crimes, cegueira e hostilidade fratricida.
Através de toda aquela imundície, ele vislumbrava o brilho da "fagulha divina", o sopro imortal do Criador, que nenhuma sordidez, conseguia aniquilar ou apagar e que espreitava em toda a sua primitiva pureza, agitava-se até o coração cruel de Satanás.
E esta dádiva do Céu jamais alguém conseguira tirar de um ser criado por Deus.
Após algumas semanas de vida em isolamento, preces e ascese, Supramati deixou a cidade subterrânea e, com as forças renovadas, regressou a Czargrado.
Desta vez ele apareceu na sociedade e os magníficos salões do seu palácio ficaram cheios dos mais elegantes, ricos e famosos representantes da sociedade.
A multidão festiva, leviana e ignara, examinava com avara curiosidade os valiosos tesouros artísticos reunidos em grande quantidade naquela casa luxuosamente mobiliada, com muitos serviçais, o que já era absolutamente inusitado e incrível na época de "igualdade" geral, quando o serviços era feito por máquinas ou animais.
As mulheres estavam completamente caídas pelo encantador e belo homem, que se destacava de todos.
Entretanto, apesar de toda a ousadia e despudor das damas "do fim do mundo", alguma coisa no olhar severo e no sorriso enigmático de Supramati constrangia-as e mantinha-as a uma respeitável distância.
Mas, além do grande interesse que despertou a personalidade do encantador príncipe indiano, a cidade estava tomada de curiosidade e cheia de mexericos por ocasião do retorno à capital de Shelom Iezodot, acompanhado por uma numerosa e ilustre corte que ele sempre arrastava consigo.
No local do antigo templo de Santa Sofia, que mais tarde foi transformado em mesquita, o filho de Satanás construiu um enorme palácio, aproveitando ao máximo as velhas paredes.
Parte do palácio, onde ficavam os restos da igreja, servia de aposentos privativos de Shelom Iezodot e Iskhet Zemumam – uma estranha mulher que nunca o abandonara e que despudoradamente se autodenominava mãe e esposa do rei do Universo.
Nos anexos do prédio foram preparadas residências para a corte, sacerdotes satânicos, mulheres e outros monstros morais que participavam das incríveis orgias e repugnantes sacrilégios, divulgados em todos os lugares onde se estabelecia Shelom e seu asqueroso estado-maior.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:45 pm

Tudo o que tinha sido venerado pelo velho mundo pagão e cristão foi emporcalhado e profanado por esses monstros dos últimos tempos.
As notícias, transmitidas avidamente, diziam como, um por um, os países iam se submetendo, voluntariamente, a Shelom Iezodot, visto ninguém possuir tantos bens terrenos como ele e distribuí-los com tanta magnanimidade.
Em todas as casas onde estivera Supramati não se falou de outra coisa e, aliás, contavam quem em todas as regiões que se submetiam a ele, Shelom deixava seus sátrapas, cuja obrigação era supervisionar o bem-estar da região, distribuindo ouro aos necessitados; promover festividades e orgias satânicas, e exterminar, onde quer que fosse tanto os fiéis como tudo que se referisse à antiga fé.
Para auxiliar nesse trabalho tão útil, junto a cada sátrapa era indicado um conselho com um número ilimitado de membros.
Entretanto, para conseguir receber o título de conselheiro deveriam ser realizados explicitamente, "sete pecados capitais", pelo menos um assassinato e algum sacrilégio inédito e picante.
A cidade de Czargrado, conforme se dizia, fora escolhida por Shelom como sua capital.
Chegou finalmente o dia em que o terrível e misterioso homem chegou à cidade.
Ainda na véspera, a multidão exaltada começou a encher as ruas e com a chegada da noite surgiu, cercada pela frota área da corte, o iate negro, com incrustações de ouro e iluminado por uma brilhante luz vermelho-sangue.
Era a nave que levava Shelom.
Feito um espírito das trevas, ele desceu do espaço para instalar-se na capital escolhida.
A chegada de Shelom foi comemorada com procissões de satanistas e sacrifícios, massacre de algumas pessoas publicamente reconhecidas como fiéis, e orgias que superaram, por seu despudor e inauditos sacrilégios, tudo até então.
Mas Shelom não se limitou às comemorações e condecorações; ele iniciou também as reformas económicas, e a primeira delas causou uma satisfação geral.
A população ficou isenta de pagar passagens de trens aéreos; em troca disso, foi estabelecido um pequeno imposto anual, que permitia a qualquer um viajar gratuitamente por todo o mundo.
"Isso porque – explicava em sua lei o novo patriarca da Terra, - não se podia cercear a liberdade das pessoas, obrigando a permanecerem num único lugar, pois elas podiam querer mudar-se para outros lugares e o transporte aéreo era de todos, assim como o próprio ar".
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:46 pm

Capítulo XI

Duas semanas após sua chegada, encontramos Shelom sentado em seu aposento.
Era uma sala de proporções médias; as paredes forradas em tecido preto com desenhos em vermelho; os móveis eram de madeira preta, os encostos decorados com cabeça entalhada de bode e estofados em tecido vermelho de seda.
Lamparinas eléctricas vermelhas inundavam o quarto com a luz cor de sangue.
Shelom estava sentado à mesa numa larga poltrona de espaldar alto, ouvindo atenciosamente o que lhe dizia um dos conselheiros, que, de pé e gesticulando muito, fazia um relatório com ardor inusitado.
Uma estrela negra em seu pescoço apontava o grau elevado de sua hierarquia satânica.
O czar do mal era um homem jovem, muito alto, e tão delgado, magro e flexível que os movimentos de seu físico, coberto de malha negra, lembravam uma serpente.
As feições do rosto, ainda que fossem anguladas, eram regulares; os olhos – grandes, cinzentos, com forte matiz esverdeados, encimados por sobrancelhas que quase se juntavam no intercílio – fosforesciam de tal forma que pareciam ser os de uma fera selvagem.
Por trás dos lábios carnudos, vermelhos feito sangue, luziam afiados dentes brancos; os cabelos negros, densos e encaracolados e a barbicha acentuavam ainda mais a tez pálida e cinzenta do rosto.
Em resumo, ele poderia até ser chamado de belo, não reflectisse a sua fisionomia todos os vícios e as aspirações ímpias e se o seu olhar não fosse tão gélido e ao mesmo tempo tão selvagem e cruel.
Ao lado de Shelom, numa cadeira mais baixa, estava sentada uma mulher de beleza fascinante.
A malha que a vestia, contornando as maravilhosas formas, deixava a descoberto o pescoço e os braços da alvura de marfim.
Suas feições lembravam um camafeu antigo; grandes olhos negros e sombrios brilhavam por detrás dos cílios vastos, como se iluminados por uma luz interna; a pequena boca vermelha denotava volúpia; os elegantes cabelos negros, excepcionalmente densos, desciam abaixo dos joelhos; um aro largo de ouro, decorado com a cabeça de bode com olhos de esmeraldas, sustentava-lhe a vasta cabeleira negra.
A mulher era, no sentido literal da palavra, de beleza diabólica e a encarnação autêntica da sensualidade, como se criada para provocar as paixões e seduzir as pessoas para o sorvedouro, de onde ela mesma havia saído.
- E então, Madim, você acha que o hindu é perigoso? – inquiriu Shelom, afagando a barbicha e olhando com um sorriso zombeteiro para o homem que acabara de lhe fazer o relatório.
- Sim, considero o meu dever chamar sua especial atenção para ele.
Esse homem, provavelmente, saiu de uma toca secreta de antigos cristãos e está cercado por uma atmosfera tão nauseante que quando passa com seu secretário ao lado de nossos santuários, parece desabar uma tempestade.
Sua casa está cheia de empregados, no entanto nenhum deles se interessou em conhecer os nossos nem participar de nossas cerimónias.
Conforme eu já havia relatado, o príncipe Supramati aparece na sociedade e organiza recepções luxuosas, mas sabe-se que seu relacionamento com todos é muito discreto e o que é mais extraordinário:
ele não tem nenhuma amante.
- Precisamos arrumar-lhe – zombou Shelom.
- Isso não será fácil – preocupou-se Madim.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:46 pm

Tanto mais, porque Maslot, nosso grande vidente e astrólogo, disse-me que essa pessoa juntamente com algumas outras, foi enviado por nossos inimigos e vai causar-nos aborrecimentos.
Já me passaram a informação de que o hindu conversou com o doutor Chamanov, dizendo-lhe que o fim do mundo estaria próximo e que ocorreriam catástrofes medonhas, fome, terremotos e ninguém sabe o que mais.
Shelom desatou numa sonora gargalhada.
- Teremos de tirar de Maslot o seu título de clarividente, pois ele está começando a ficar cego.
E você, Madim, que eu considerava mais inteligente!
Será que você acha que eu não sei o que devo fazer?
Eu estou a caminho da revelação e domínio de uma substância misteriosa, ou sangue do planeta ou também o "elixir da vida", como ela é chamada pelos desprezíveis egoístas que se escondem no Himalaia.
Esperto era aquele que conseguir destruir-nos depois que nós tomarmos a essência primeva, que nos assegurará a vida planetária.
De que forma vai haver fome, se a mesma substância produz em todos o lugar uma farta vegetação e abundância de todos os produtos?
Bem, admitamos até que ocorra a catástrofe!
Restar-me-á apenas um passo para entrar em contacto com os mundos vizinhos, para onde nos mudaremos; e depois... deixe que a velhota Terra desmorone com todos os seus tolos escondidos, sua fé idiota e toda sua "velharia", cuidadosamente escondida por eles em grutas e galerias subterrâneas.
Shelom endireitou-se, seus olhos brilhavam e todo ele respirava de orgulho desmedido e consciência de seu poder.
Madim e aquela mulher, juntamente com algumas pessoas que se encontravam na sala, contemplavam-no deslumbrados e cheios de medo supersticioso.
- A propósito numa coisa você está certo – prosseguiu Shelom.
Será bom desarmar o príncipe Supramati e torná-lo inofensivo.
Esta será a sua tarefa, Iskhet.
Você tentará e seduzirá esse homem que não conseguirá resistir a seus encantos.
Arrepios perpassaram o corpo da jovem mulher, e ela, assustada, fechou-se dentro da capa vermelha que estava em seus ombros.
- Senhor, sua ordem é cruel!
Aquele homem deve possuir um imenso poder, já que só a sua aproximação provoca o tremor nos nossos santuários.
Como, então, você quer que eu me aproxime dele?
Um sorriso gelado e implacável estampou-se no semblante de Shelom.
- Isso já é com você.
Para isso que você é Iskhet Zemumam.
A propósito, vou lhe facilitar a tarefa e organizarei um banquete em que ele vai estar presente.
Acredito ser o bastante para você atraí-lo a seus braços.
Amanhã vou visitar Supramati.
Providencie para que tudo esteja pronto – disse ele, dirigindo-se a Madim.
No dia seguinte, encontramos Supramati com Nivara no laboratório anexo à sala.
O mago estava pálido e pensativo, mas ao encontrar o olhar um tanto preocupado de Nivara sorriu-lhe.
- E assim, você está preocupado com a futura visita de Sua Excelência, o czar da blasfémia.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:46 pm

Eu também não posso admitir que isso me traga prazer.
Mas, como o encontro é inevitável, temos de nos acostumar a isso.
Por enquanto, vamos aproveitar que estamos no laboratório e façamos alguns preparativos para recebê-lo.
Instruído por Supramati, Nivara accionou um grande aparelho eléctrico que começou a soltar longos feixes de luz, envolvendo-os e formando uma espécie de retícula.
Pouco tempo depois, tudo se dissipou.
- Bem-vindo agora!
Animou-se Nivara, parando a máquina.
– É uma pena que ainda não chegou a hora de mostrarmos a esse monstro diabólico com quem ele está lidando.
Não é recomendável para um adepto ficar feliz com a desgraça alheia, mas eu não consigo me afastar do sentimento de uma profunda satisfação só de pensar sobre o castigo eminente que desabará sobre esse ser miserável.
Supramati balançou a cabeça.
- Aquilo que os aguarda é tão horrível que devemos ser condescendentes e misericordiosos.
Uma hora depois, o quarto foi percorrido de repente por uma rajada de vento gélido e, de fora, ouviu-se um barulho apenas perceptível, obviamente, aos iniciados.
- A nossa visita está chegando.
Eu mandei que o levassem ao salão azul – disse Supramati levantando-se.
– Venha comigo, Nivara, ele também está com o seu secretário Madim.
O resto de seu séquito será detido por nossos amigos junto ao portão – acrescentou ele, ao ver que os espíritos dos elementos da natureza, por ele comandados, haviam-se reunido e circundaram-no para protegê-lo.
De facto, à entrada do palácio iniciou-se uma batalha – invisível, é claro, para os olhos dos mortais – dos espíritos dos elementos contra as larvas, vampiros e outros seres sórdidos do inferno que compunham a comitiva de Shelom.
O exército do mago, entretanto, saiu-se vitorioso e nenhum dos impuros conseguiu penetrar no palácio.
Para quem olhava de fora, a batalha entre as partes beligerantes traduziu-se na formação de nuvens negras que cobriram o céu, no ar pesado e no ribombar surdo dos trovões.
Quando Supramati entrou, o Salão Azul, que dava para o jardim, estava envolto num lusco-fusco alvacento, e, através de uma grande janela, podia-se ver como os raios riscavam o céu e um vento escaldante alçava colunas de poeira.
Shelom está sozinho, parado no meio da sala.
Uma convulsão nervosa desfigurava-lhe o rosto de lividez cadavérica.
Madim, por certo, ficara atrás da porta, assim Nivara, por modéstia, também se retirou da sala.
Os dois poderosos adversários ficaram a sós e entreolharam-se medindo um o outro.
Eles conheciam a importância das perturbações atmosféricas.
O olhar de Supramati continuava tranquilo e translúcido como antes, enquanto que nos olhos esverdeados de Shelom brilhava ódio e inveja, como se todo o inferno dos sentimentos caóticos espreitasse de sua alma obscura.
Como se por encanto, seu olhar mão podia se desgrudar da alta e esbelta figura do mago, que parecia fulgir em maio à luz azulada que se concentrava acima de sua cabeça em forma de aura radiante.
Para uma leve mesura de Supramati, Shelom retribuiu inclinando a cabeça bem abaixo do usual, diga-se de passagem.
Naquele ambiente do palácio, a luz parecia esmagá-lo como um peso de chumbo e um gélido tremor percorria seu corpo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:46 pm

Não se deram as mãos, visto que o costume já fora abolido há muito tempo.
Essa prática estava em voga na época em que as leis do ocultismo eram praticamente ignoradas e ninguém tinha consciência do poder do contacto directo de duas forças opostas.
Os satanistas conheciam essa lei e evitavam estender a mão aos infiéis.
- Saúdo-o, príncipe Supramati!
Eu vim oferecer-lhe a paz – começou Shelom, um minuto depois.
Eu sei que vocês e seus irmãos abandonaram seu refúgio no Himalaia para virem combater-me.
É óbvio, também, que neste mundo só há lugar para um.
A Terra, com as suas delícias e riquezas, é a minha área, e vocês, aqui, não têm o que fazer, pois o seu reino "não é deste mundo".
O enfrentamento será terrível, pois, como é de seu conhecimento, o meu poder é idêntico ao de vocês.
Da mesma forma como vocês, eu governo os elementos da natureza, conheço os segredos da cura e legiões de espíritos me são submissos.
Eu ressuscito os mortos e transformo pedras em ouro.
Mas, antes de iniciarmos esse combate decisivo, eu lhe proponho um negócio vantajoso.
Vocês querem salvar as almas?
Tudo bem, tudo bem!
Diga-me, em quantas almas você avalia a sua permanência aqui e eu lhas darei de bom grado.
Quer cinco mil... dez mil... cinquenta mil...
Só que as peguem e vão embora.
Não fiquem no meu caminho.
- Sua proposta é brilhante, mas inaceitável, pois não posso pegar as almas simplesmente.
Elas é que terão de vir até mim.
Somente um combate poderá purificá-las e libertá-las por completo, quando então elas poderão optar pelo bem ou pelo mal.
Os olhos de Shelom faiscaram de ira.
- Eu sei com o que vocês estão contando:
com a milagrosa força da essência original que vocês "imortais", consideram como sua propriedade exclusiva.
Bem, então vocês estão equivocados, pois eu descobri o que vocês escondem com tanto zelo e farei mais milagres que vocês, raposas, depositários indignos das tradições, que privaram as pessoas deste tesouro.
Diante de seus olhos, pode se dizer, vieram a perecer inúmeras gerações humanas; contudo, vocês nem se moveram, enquanto eu tenho dado a qualquer um a oportunidade de gozar da dádiva preciosa, a vida.
Vocês vaticinaram o fim eminente do mundo, cuja destruição nada poderá impedir?
Aqui estou eu! – Shelom endireitou-se soberbo e continuou.
Eu deterei a decomposição do planeta e cobrirei a Terra com vegetação e a fertilidade será inesgotável; as pessoas sempre sadias e jovens, dotadas de vida planetária, gozarão de todas as benesses e me endeusarão como seu benfeitor.
- Olhe lá, Shelom Iezodot, para que o remédio não se verifique pior que a enfermidade.
Tome cuidado para que em vez de imperar sobre as leis cósmicas, estabelecidas por Deus, estas não se voltem contra você.
Ao ouvir o nome do Eterno, um tremor de repugnância desfigurou o rosto de Shelom e num ímpeto de fúria ele gritou:
- Eu só conheço um senhor, às leis do qual me submeto:
o Satanás, meu pai!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 4: A MORTE DO PLANETA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 7:46 pm

A última palavra ainda não foi dita, ninguém sabe se triunfará este ou aquele...
- Louco ignorante e cego! – censurou Supramati.
Embriagado por seu ódio e vícios, você esquece que o próprio Satanás, seja ele o que for, é também filho de Deus.
Nenhuma revolta, nenhum vitupério ou ódio poderá retirar dele a essência de seu Pai; ela permanecerá nele até o fim dos séculos, pois o que foi criado por Deus é indestrutível.
E você é um indigno rebento da Divindade.
Sob o invólucro de sordidez, crimes e rebelião, lá, no fundo de seu ser, agita-se a chama que lhe deu a vida.
E essa chama é sagrada, ela é o sopro do Eterno do seu e de meu Pai, e essa faísca sagrada você não tem condições de macular nem destruir.
Enquanto Supramati falava, Shelom dobrou-se, tomado de tremor nervoso.
Sua figura dava aversão, seu rosto estava desfigurado e uma sanguinolenta baba apareceu em seus lábios.
A tempestade lá fora parecia aumentar.
Nas rajadas de vento parecia ouvirem-se queixumes e gemidos.
Não estaria o inferno chorando pela sua impotência na luta contra a luz celestial!...
Subitamente Shelom endireitou-se e com os punhos cerrados ameaçou Supramati, que continuava tranquilo e diáfano como antes.
- Pare com suas exortações, eremita do Himalaia; eu não vim aqui para ouvir os seus sermões.
Você não quis a paz, então vamos à luta e veremos quem haverá de ceder.
Testaremos as nossas forças diante do povo e ele que decida a quem deverá pertencer o reinado.
- Não tenho a menor intenção de governar o mundo agonizante, mas tampouco tenho razões para recusar o seu desafio.
Apenas o advirto de que você não está suficientemente armado contra a catástrofe que você acha que tem condições de evitar.
Você diz que possui a essência primeva?
Está bem. Mas você não sabe como empregá-la, sendo assim, tenha cuidado.
Caso contrário, repito mais uma vez, o remédio poderá se tornar pior que a enfermidade – recomendou calmamente Supramati.
- Não me preocupo com isso, eu respondo por meus actos.
Entretanto, se você aceita o meu "desafio", como você o chama, aceite também o meu convite, príncipe Supramati, e venha à festa que estou organizando.
Um sorriso enigmático perpassou os lábios de Supramati.
- Se você, Shelom Iezodot, não teme a minha presença em sua casa, irei sem falta.
- E você irá sozinho, como eu vim até a sua?
- Você não veio com seu secretário Madim?
Eu o estou vendo tremer de frio atrás da porta.
Assim, eu também irei co o meu secretário Nivara.
- O qual eu vejo cheio de empáfia atrás da outra porta – refutou em tom zombeteiro Shelom.
Agradeço pelo prometido, príncipe.
Estarei aguardando-os na festa e sem qualquer enfrentamento, cedo-lhe de presente algumas centenas de almas que vocês poderão salvar a bel-prazer em seus refúgios confortáveis.
- Agradeço. Você é muito condescendente, mas eu não tenho hábito de receber nada sem esforço, nem mesmo almas criminosas.
Só tem valor aquilo, que vem do trabalho.
Shelom soltou uma risada seca.
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