A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:32 am

Capítulo 22

Esfregando as mãos com agonia, Eva não parava de consultar o relógio, aguardando, com ansiedade, a volta de Celso.
Não entendia o que podia ser tão importante a ponto de exigir a presença dela em um compromisso marcado com Tobias.
Justo com Tobias!
Dera-se por satisfeita quando Celso dissera que o convencera a voltar atrás na chantagem, embora sua alegria durasse pouco, já que Denise voltara com ele pouco tempo depois.
Assim que ouviu a chave rodar na fechadura, Eva escancarou a porta, deixando Celso parado com a mão no ar.
— Finalmente! — exclamou Eva, puxando-o para dentro.
— Meu Deus, Eva, você quase me matou de susto!
— E você quase me matou de agonia.
Não vê meu estado?
— Tenha calma. Eu mal chego a casa e é assim que você me recebe?
Deixe-me primeiro tomar um banho e depois conversaremos.
Celso foi para o banheiro, com Eva atrás dele:
— Você sabe que ficar perto daquele homem não me agrada.
— Não acha que você devia se esforçar para superar esse ressentimento?
— Não é ressentimento.
É que, quando olho para ele, a imagem que vejo é a da pequena Bruna.
— É só isso mesmo?
— Você não tem o direito de fazer insinuações — rebateu Eva, com fúria.
— Tem razão, perdoe-me.
Não queria ofendê-la.
— Eu só quero evitar o sofrimento da minha filha.
Denise merece um homem melhor.
— Creio que Denise pensa que o melhor para ela é estar com Tobias.
— Você aprova esse namoro! — constatou Eva, aturdida.
Como não percebi isso antes?
— Eu não aprovo nem desaprovo.
Apenas não gosto de me envolver na vida da minha filha.
— Tobias me chantageia e você ainda o apoia!
Não compreendo.
— Já disse que a chantagem foi apenas um acto de desespero.
Tobias gosta de Denise e não quer que ninguém se interponha entre eles.
— Isso é o que ele diz.
Mas tudo bem, não adianta discutir com você.
Agora, esse encontro com ele é que não entendo.
Por que você quer me obrigar a encarar novamente aquele sujeito?
— Você não devia ter raiva dele, mas não foi propriamente para desfazer nenhuma inimizade que marcamos esse encontro.
— Sei. E para que foi?
Até agora, não vejo motivo algum para isso.
— O motivo existe e é um só: a verdade.
— Como assim?
Celso saiu do banho em silêncio.
Vestiu-se sem pressa, ocasionalmente se virando para estudar as feições ansiosas de Eva.
Não eram nada indecifráveis.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:33 am

O que ia na cabeça dela não era nenhum segredo para ele.
Estava pronto para sair, mas tinha que colocar a mulher a par da situação antes de chegarem à casa de Alicia.
Ele estirou as mãos para a esposa, conduzindo-a até a cama.
Sentado a seu lado, deu um suspiro de cansaço e comentou:
— Tem uma coisa que você precisa saber.
— O que é? — Eva demonstrou curiosidade.
— Nossos segredos, aos poucos, estão vindo à tona — Eva emudeceu, atónita.
E o primeiro deles diz respeito a Bruna.
Alicia já sabe sobre ela.
— O quê? Isso é impossível... — calou-se, desconfiada.
Foi Tobias, não foi?
Ele cumpriu a promessa.
— Tobias não teve nada a ver com isso.
Alicia é inteligente e desconfiou de tudo.
— Mas como?
De onde ela tirou a ideia de Bruna?
Do nada?
Sem fazer rodeios nem omitir qualquer parte, Celso narrou toda a história, desde os sonhos de Alicia até a revelação da irmã gémea.
— Tudo está perdido — lastimou Eva, afundando o rosto nos travesseiros.
Sinto que vou perder minhas filhas.
— Não seja tão dramática, Eva.
Nós dois sabíamos que era apenas questão de tempo até Alicia descobrir a verdade.
Só lamento não termos sido nós a lhe contar tudo.
— E agora, Celso, o que faremos? — ela tinha lágrimas nos olhos, e a voz dava sinais de que ia fraquejar.
Alicia vai nos odiar.
— Não vai, não.
Ela só quer saber a verdade.
É direito dela. E de Denise também.
É por isso que vamos nos encontrar hoje.
Para que possamos esclarecer essa parte da história.
Quero evitar surpresas.
— Você se acha no direito de desenterrar o passado — Eva acusou.
Mas eu não posso sentir saudades de Bruna.
— Eu nunca disse isso.
Apenas não quero que você sofra por causa dela.
— “Deixe o passado enterrado, pois remexê-lo só vai trazer mais dor” é o que você sempre diz.
Isso só vale para mim?
— Minha querida, não devemos nos acusar.
Eu estou do seu lado.
Tudo o que fiz até hoje foi para protegê-la.
Você ainda duvida disso?
Durante alguns minutos, Eva permaneceu a olhá-lo, evocando lembranças remotas que ainda estavam vivas em seus pensamentos.
— Não posso duvidar — sussurrou Eva, arrependida.
Mas é que tudo ficou tão difícil após a morte de Bruna!
— Bruna está bem.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:33 am

— Eu gostaria de ter a sua certeza.
Gostaria de voltar no tempo e fazer tudo de novo, mas de uma maneira diferente.
— Você sabe que isso é impossível.
O passado pertence ao tempo, não a nós.
— Mas, se o tempo é uma ilusão, o passado também deveria ser.
— São ilusões que estão fora do nosso alcance de compreensão e, consequentemente, não sabemos ainda lidar com elas.
Para nós, tudo acontece como se fosse parte de um universo real.
— Não é justo.
Minha filha nem teve a oportunidade de conhecer o mundo em que escolheu nascer.
— Não pense dessa forma.
Pense que, em alguma outra vida, em outra dimensão, nossas meninas podem estar bem, vivendo com saúde e alegria, uma ao lado da outra.
— Ouvir você falando desse jeito até que me dá certo conforto — confessou e continuou:
— Mas não apaga minha dor.
A Bruna de outra dimensão não é a minha Bruna.
E, mesmo que fosse, não está comigo.
Gostaria que a ciência tivesse avançado ao ponto de permitir viagens inter-dimensionais.
Eu poderia chegar a esse mundo em que minhas gémeas vivem bem.
— Quando falei para você pensar nisso, não foi para sofrer.
Foi para você ter esperança.
Celso saiu, conduzindo-a pelo elevador até a garagem.
Eva caminhava a seu lado, pensativa.
Entrou no carro ainda em silêncio e, assim que se acomodou ao lado dele, retomou a conversa:
— Eu teria esperança se pudesse vê-la, senti-la, tocá-la.
— Faça uma viagem astral e isso será possível.
— A ciência devia ter evoluído a ponto de levar as pessoas ao futuro ou passado em corpo físico, não apenas em corpo astral.
— Minha querida, você fala como se o mundo invisível não fosse real, quando a verdadeira ilusão está aqui.
— Não foi bem isso o que quis dizer.
Compreendo as dimensões subtis, mas as várias realidades paralelas são muito confusas de se entender.
Eu acredito, mas não entendo como o universo pode se comportar dessa maneira.
— Não é o universo, mas os universos.
Vivemos em um universo que se processa da forma como você falou, num mundo físico e outros subtis.
Além deste, existem vários outros, processando-se da mesma forma, embora com as chamadas realidades alternativas, que são variáveis desta que conhecemos.
Nesses universos, cada eu possui seu outro eu, vivendo histórias total ou parcialmente semelhantes ou distintas.
E não são bem realidades paralelas, mas perpendiculares também.
Em algum ponto, pode haver uma intercessão entre elas:
a mesma situação abre um leque de possibilidades de escolha, que pode provocar diferentes acções e, consequentemente, diferentes efeitos, criando outras histórias a partir desse ponto.
O tempo não é uma linha recta, onde os acontecimentos avançam linearmente, mas uma sucessão de possibilidades tornadas reais pela escolha derivada da vontade humana ao se deparar com um ramo de atitudes possíveis diante de um mesmo facto.
Cada um desses ramos gera distintas consequências, criando, então, realidades distintas ou, se preferir, dimensões diferentes, embora não totalmente autónomas.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:33 am

— Seriam então, várias almas correspondendo a uma única alma?
Haveria outros eus iguais a mim, mas que não seriam o mesmo eu que represento nesta realidade?
Ou são fragmentos da mesma alma, dividida para criar esses universos paralelos?
— Somos todos um só, criados pelo mesmo Deus, em qualquer dimensão.
O Deus omnipresente e omnisciente é apenas um, é absoluto, é infinito, apenas é...
Sendo assim, partilhamos a mesma essência primária.
Como a alma vem ao mundo para experienciar, cada uma dessas dimensões representa uma experiência diferente da qual ela, simultaneamente, participa, em suas várias formas de expressão.
É como uma fonte de energia irradiando em várias direcções, sendo, cada um desses raios, uma manifestação diferente da centelha que anima o mesmo Eu.
E estas se propagam, porém, jamais se distanciam ou se perdem de sua origem, que, por sua vez, está ligada a todas as demais, a estas a um único Deus.
— Não sou burra, Celso, mas isso é muito difícil de entender.
— Pense que tudo no universo possui sua porção espiritual.
Agora, imagine o Sol como o Deus do nosso sistema solar, gerado a partir de um poder infinito e absoluto, gerador de todos os universos, cujo propósito é favorecer o desenvolvimento espiritual de toda a criação.
Ao irradiar sobre a Terra, o Sol emite raios que se estendem por todo o orbe e, embora tais raios iluminem em tempos e lugares diferentes para cada habitante do planeta, eles provêm de uma única fonte.
Pois bem:
pense que cada um desses raios é uma centelha espiritual originada do Deus Sol ou, se preferir, uma alma.
Todas possuem a mesma essência, embora atuem em locais e horários distintos espalhados por todo o globo.
Agora, imagine que cada um desses raios incida sobre um prisma.
Como você sabe, o prisma é um sólido que decompõe a luz.
Ao incidir sobre ele, a luz branca sofre refracção e se divide em sete raios, que correspondem ao espectro de cores visíveis ao ser humano.
Isso não impede, contudo, que outras cores sejam obtidas dessa decomposição, mas que nossos olhos e nosso cérebro ainda primitivos não conseguem captar.
Muito bem. Se cada alma é um raio de sol, cada raio emergido do prisma onde incide o raio é uma ramificação dessa mesma alma, capaz de transpor os limites estreitos da terceira dimensão e adentrar outras, as chamadas dimensões paralelas, onde estão contidos universos inteiros.
Lá, vivem suas próprias experiências para cada momento da história, que nós conhecemos ou criando outras histórias.
Terminado o ciclo de existências propostas para os seres de todos os universos e dimensões, as cores do prisma se recolhem e retornam à fonte, dando lugar à luz branca novamente.
Isso quer dizer que todas as extensões da alma retornarão à sua centelha, que, por sua vez, retornará à essência primária.
Será quando tornaremos a nos fundir à divindade, repletos de sabedoria, vivenciando o amor pleno por todas as coisas.
— Parece que você está descrevendo o próprio Deus.
— Não somos todos deuses, embora sem essa consciência?
— Somos?
— Sim. A mente de toda a humanidade está conectada à mente universal, fazendo com que tudo o que existe no macrocosmo exista também num microcosmo.
Assim, os atributos da divindade, embora latentes, estão contidos em cada um de nós.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:33 am

Eva abaixou os olhos, chorando de mansinho.
Nunca ouvira o marido falar daquela maneira.
Ele parecia diferente agora, muito mais maduro e sereno do que o homem que conhecera por toda a sua vida.
O tempo havia transformado suas ideias, as experiências tinham deixado nele uma marca de sabedoria e humildade em que ela nunca antes havia reparado.
— Você mudou — afirmou Eva, fixando nele os olhos húmidos.
E eu não tinha percebido.
— Todos nós mudamos.
As experiências nos fazem mudar.
— Você se culpa?
— Um pouco.
Compreendo a roda da vida, embora não me sinta à vontade com o que fizemos.
— Tobias foi inocentado.
— Mas ficou marcado pelo resto da vida.
Tão marcado que teve que deixar o Brasil.
— É por isso que quer ajudá-lo?
Pelo remorso?
— Quero ajudá-lo por amizade, amor e gratidão... porque ele merece.
A serenidade que tomou Eva durante a conversa com Celso desapareceu no exacto momento em que ela avistou Tobias.
Logo que entrou na casa de Alicia, reparou que Denise e ele bebiam vinho e conversavam como dois apaixonados.
— Que bom que chegaram! — desabafou Alicia.
Não sabia mais o que fazer para me fazer simpática a Tobias.
Não fosse por Juliano, acho que ele teria percebido o meu desagrado.
— Seu pai não devia ter concordado com essa reunião — censurou Eva.
Ainda mais na sua casa.
— Foi ideia de Juliano, conciliador como sempre.
— Seu marido é um bom homem — elogiou Celso.
Devia agradecer à vida por ele ser assim.
— Eu agradeço. Todos os dias.
— Papai! — exclamou Denise, aproximando-se.
Lamento não tê-los esperado, mas tive que ajudar Alicia com os preparativos de nossa pequena reunião, embora eu não esteja bem certa se essa foi realmente uma boa ideia.
— Por que diz isso, minha filha? — questionou Celso.
— Bom, parece que paira um mistério no ar.
Todo mundo está com cara de espanto.
Tobias não quer demonstrar, mas sei que está preocupado.
Alicia tenta disfarçar, mas está com cara de poucos amigos.
Juliano parece se virar como pode, para manter a conversa em um nível sociável, e agora, mamãe, você parece estar prestes a explodir.
— E estou — confirmou Eva.
— Por quê? O que foi que houve?
— Acalme-se, Eva — pediu Celso.
Deixe-me explicar.
— Não venha me repreender como se eu fosse criança ou caduca — havia muita raiva em seu olhar, tanta que ela não conseguiu se conter:
— Você sabe muito bem por que estou prestes a explodir.
Você sabe, Celso!
E você também, Tobias!
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:37 am

— Tenha calma, mamãe — interveio Alicia.
Deixe papai explicar.
Quero ouvir o que ele e Tobias têm a dizer sobre tudo isso.
— Pelo visto, a única que não sabe de nada aqui sou eu — observou Denise.
Posso saber o que está acontecendo entre vocês?
— Pergunte a ele — Eva apontou Tobias com o queixo.
Tenho certeza de que ele adorará explicar tudo a você.
— Explicar o quê?
Pelo amor de Deus, gente, dá para me contarem logo?
Vocês estão me assustando.
Parece até que mataram alguém.
Sem dar tempo a ninguém de preparar uma resposta, Eva se adiantou, atropelando as palavras sem ocultar o ódio:
— Exactamente, minha filha.
Foi exactamente isso que ele fez.
Tobias matou sua irmã!
— O quê? — Denise indignou-se.
Que história é essa?
Pai, o que está acontecendo? Que irmã?
— As coisas não são bem assim como sua mãe está dizendo — Celso tentou contemporizar.
— Que coisas?
Tobias, do que eles estão falando?
Alguém quer, por favor, me contar a verdade?
— Eu vou lhe contar — garantiu Tobias.
— Acho bom mesmo — falou Alicia.
Ou vou ler a reportagem que encontrei para todos.
- Que reportagem? — era Denise.
Sério, gente, não aguento mais.
Se querem fazer mistério, façam sozinhos.
Vou embora.
— Não — objectou Tobias, segurando-a pelo braço.
Fique. É importante.
— Por que não deixa que eu faça isso? — pediu Celso.
Afinal, foi a minha filha quem morreu.
Sob o olhar curioso de Denise e o acusador de Alicia, Celso contou tudo, desde sua dificuldade de gerar filhos, passando pela fertilização in vitro, até a separação das gémeas, realizada pelas mãos de Tobias.
— Essa é uma história e tanto... — balbuciou Denise, perplexa.
Por que nunca nos contaram isso antes?
— Porque vocês eram crianças, não iriam entender.
— E porque preferiram nos enganar — rebateu Alicia, magoada.
— Você sabe que isso não é verdade — objectou Celso.
— Por que está aborrecida, Alicia? — retrucou Denise.
Essa história faz parte do passado, não foi culpa de ninguém.
Entendo sua frustração, mas você devia deixar isso para lá.
A reacção de Denise causou espanto em todos os presentes.
Em alguns, de forma significativamente positiva, ao passo que, em outros, de um jeito indisfarçavelmente incrédulo.
— Concordo com Denise — acrescentou Juliano, satisfeito por ter encontrado uma aliada.
Eu mesmo venho dizendo isso a ela.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:38 am

O que aconteceu, ninguém pode desfazer.
O que importa é daqui para a frente.
— É muito fácil falar quando não se é parte do problema — contrapôs Alicia.
— Mas eu sou parte do problema, sim — tornou Denise.
— Bruna podia ser sua gémea, mas também era minha irmã.
— É, mas não foi graças à morte dela que você sobreviveu.
— Porque se sente culpada por algo que aconteceu quando você ainda era bebé?
Você sobreviveu porque tinha que ser assim.
— Eu não me sinto culpada! — Alicia exasperou-se.
— Por favor, meninas, procurem manter a calma — implorou Celso.
Vocês nunca brigaram antes.
Não vão fazer isso agora, vão?
— Não... Claro que não... — balbuciou Alicia, transtornada.
Mas é que Denise está defendendo Tobias, como se ele não tivesse feito nada de errado.
— Não quero brigar com ninguém — continuou Denise:
Mas Tobias, realmente, não fez nada de errado.
Não foi culpa dele se a cirurgia não deu certo.
E francamente, pessoal, não vejo nenhuma utilidade prática em ficarmos discutindo isso.
Vocês deviam ter nos contado?
Deviam. Se não o fizeram, tinham lá seus motivos.
Não vou ficar aqui questionando quais são, porque já não interessa mais.
É passado.
— Fácil falar...
Alicia nem conseguiu terminar a frase.
Um estrépito inesperado fez todos se sobressaltarem.
Eva havia atirado uma taça de vinho ao chão, que se espatifou em vários pedacinhos de cristal, tingindo o piso branco de vermelho.
— Vocês não têm o direito de discutir minha vida! — esbravejou.
Bruna era minha filha tanto quanto Alicia e Denise.
Uma mãe não esquece!
Eu não quero esquecer.
Você pode até se casar com Tobias, Denise, mesmo contra a minha vontade, mas não pense que o trará para nossas vidas.
Isso, não! Morro antes de partilhar com ele a minha família!
Foi um espanto geral.
Eva saiu derrubando cadeiras, para surpresa de Celso, que nunca a havia visto daquele jeito.
Sem dizer nada, correu atrás da esposa.
Os que permaneceram ficaram mudos de assombro.
Ninguém sabia o que dizer.
Somente seus olhares se cruzavam, revelando sentimentos confusos e contraditórios.
Alicia não ocultava a raiva.
Juliano demonstrava preocupação.
Tobias abaixou a cabeça, na atitude típica de quem se sente culpado.
Apenas Denise parecia manter a calma.
Na verdade, não compreendia por que tanto drama.
Não via sentido em ficar remoendo uma dor do passado, a não ser que a pessoa gostasse de sentir dor.
— Acho melhor irmos também — anunciou Denise, puxando Tobias pela mão.
— Tudo bem — concordou Alicia.
Denise beijou Alicia no rosto e afirmou, olhando fixamente em seus olhos:
— Não se esqueça de que você é minha irmã e que, haja o que houver, sempre vou amar você.
— Eu sei — disse Alicia, emocionada.
Também amo você.
Amava, mas não aguentava mais a presença de Tobias.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:38 am

Capítulo 23

De frente para o espelho, Jaqueline tocou o hematoma em seu rosto o mais delicadamente que pôde, a fim de checar se ainda havia dor.
Apesar de não doer mais, a marca continuava bem visível.
Ela esfregou um pouco mais de base no rosto, até que o arroxeado se igualasse ao tom de sua pele.
O reflexo de Maurício surgiu atrás dela, olhando-a com um misto de piedade e censura.
— Vai encontrar aquele homem de novo? — indagou o garotinho.
Jaqueline se virou lentamente, tentando disfarçar a tristeza.
Estendeu os braços para o irmão e, assim que ele neles se aconchegou, tranquilizou-o:
— Vou sim. Mas não precisa se preocupar.
Nada de mau vai me acontecer.
— Não acredito.
Da última vez, você ficou toda machucada.
Ele fez igualzinho ao Dimas.
— Não vai acontecer de novo, está bem? — ela tentou convencê-lo, assombrada pela lembrança do padrasto.
Ele deu de ombros.
Não acreditava nela, mas não sabia o que dizer.
— Até quando vamos viver esta vida? — tornou, com lágrimas nos olhos.
A pergunta doeu no coração de Jaqueline.
Maurício merecia coisa melhor do que aquela vida miserável que ela tinha a oferecer.
Mas o que poderia fazer?
Dá-lo para adopção?
E quem garantia que ele seria adoptado, e mais, por alguém que realmente se importasse?
Sem contar que jamais poderia abrir mão do irmão, assim como ele não sobreviveria sem ela.
— Eu não sei — Jaqueline engoliu em seco.
Estou fazendo de tudo para conseguir uma vida melhor.
— Ser garota de programa não é uma vida melhor.
— Eu sei — concordou ela, grata por ele não dizer: prostituta.
Mas foi o que consegui por enquanto.
— Você é inteligente.
Podia arranjar um emprego.
— Esqueceu-se de que, provavelmente, sou procurada pela polícia?
Ao dizer isso, Jaqueline levantou os olhos para a janela ao lado, temendo ver o espectro de Dimas novamente.
Para seu alívio, ele não estava lá.
— Posso trabalhar — sugeriu Maurício.
Conheço uns caras que vendem bala no sinal.
Ou posso aprender a fazer aqueles malabarismos com laranjas.
— Nem pensar, Maurício!
Você ainda é muito jovem.
— Quero ajudar.
— Você me ajuda frequentando a escola e se esforçando para ter um bom futuro.
— Se tiver um bom futuro, posso tirar a gente daqui?
Jaqueline o encarou com ternura.
O irmão era tudo por que valia a pena viver ou lutar.
Estreitou-o com força, quase o sufocando, mas ele não se queixou.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:38 am

— Acho que é a única maneira — respondeu ela, sonhadora.
Mas não quero que se preocupe comigo.
Estude para ser um homem decente, honesto, de bem.
Arranje um bom emprego e viva sua vida com a dignidade que eu não posso ter.
— Não fale assim, Jaque. Você tem dignidade.
Não é culpa sua se Dimas nos atacou.
Também não é culpa sua se nossa mãe não gostava de você.
— Deixe isso para lá — pediu, com pesar.
Não gosto de relembrar esses factos.
— Eu sei. Mas prometo, mana.
Prometo que, se eu conseguir um bom emprego, vou tirar você dessa vida.
Ninguém nunca mais vai tocar em você. Eu juro.
Jaqueline pensou que seria impossível amar alguém mais do que ela amava o irmão.
Abraçou-o novamente, sentindo os bracinhos do menino ao redor de seu pescoço, pensando que gostaria de morrer assim, em um momento de pura emoção.
Batidas suaves na porta a trouxeram de volta à realidade de que ainda tinha muito que viver.
A morte podia esperar.
Ela beijou o irmão, que se levantou de seu colo e foi, ele mesmo, abrir a porta.
— Oi, Maurício — cumprimentou Cezar, não sem antes perceber o ar de contrariedade do menino.
Tudo bem?
— Se você vai levar minha irmã para aquele cara, não posso estar nada bem.
A resposta seca o deixou desconcertado.
Cezar olhou de Maurício para Jaqueline, esperando uma intervenção, mas ela não fez nada.
Levantou-se, passou batom, apanhou a bolsa e, após dar um beijo na cabeça do irmão, disse a Cezar, com frieza;
— Estou pronta.
Seguiram em silêncio até o carro.
Cezar abriu a porta para Jaqueline, que se sentou calmamente, tentando aparentar confiança.
— Está tudo bem? — a moça assentiu.
Você não disse nada.
Nem me cumprimentou.
— O que quer que eu diga, exactamente?
Que é um prazer rever o homem que vai me conduzir ao meu algoz?
Cezar desviou os olhos, envergonhado, fitando a rua como se realmente lhe prestasse uma atenção além da necessária para não causar um acidente.
— Eu sinto muito — foi o que conseguiu dizer.
— Eu também.
Subitamente, Cezar deu uma freada.
Por sorte, não vinha ninguém atrás.
— Por que não desiste disso tudo? — aconselhou, realmente querendo levá-la de volta.
Você não precisa se sujeitar a Lafayete.
Não é propriedade dele.
Pode simplesmente não aparecer.
— Posso. Mas e depois?
E meu irmão, como fica?
— Seu irmão vai continuar estudando.
— Onde? Numa escola ruim, sem nenhuma chance de passar para uma boa faculdade?
— Ele não tem uma bolsa de estudos?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:38 am

— Tem, mas quem garante que conseguirei mantê-la?
Lafayete é o único que tem condições de assegurar o futuro de Maurício.
Você sabe que, sem estudo, não se chega a lugar algum.
Veja eu, por exemplo, até onde cheguei.
— Você concluiu o ensino médio, não foi?
— Foi.
— Então, podia arranjar um emprego.
— Você está parecendo meu irmão.
Ambos se esqueceram de que a polícia deve estar atrás de mim.
— Vou apurar essa história para você — Cezar se esticou para apanhar um bloco e caneta no porta-luvas.
Escreva aí seu nome completo, data de nascimento, filiação, identidade e os dados de seu padrasto.
Se houver algum inquérito ou acção contra você, vou descobrir.
— Como?
— Na internet, no site da Polícia Civil e do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.
Também tenho conhecidos por lá, advogados que conheço em congressos e que acabam se tornando amigos do Facebook.
Uma esperança luziu no peito de Jaqueline.
E se, por um absurdo qualquer, o corpo de Dimas ainda não houvesse sido encontrado?
Não, isso era impossível.
O mau cheiro, com certeza, teria atraído a atenção dos vizinhos.
— E se houver?
— Veremos.
Era uma esperança remota, mas, ainda assim, uma esperança.
Podia também ter uma certeza:
a certeza de que fora, oficialmente, declarada uma criminosa, apesar de ainda não ter sido julgada.
O medo atiçou seu coração, que disparou descontrolado.
Agora, não sabia se queria descobrir.
— Tenho visto o espírito do Dimas — sussurrou ela, com medo.
— Espírito?
— É. Por quê? Não acredita?
— Acredito — Cezar respondeu vagamente.
Mas não sei se acredito.
— Não entendi. Acredita ou não?
— Acredito em espíritos, mas não sei se eles ficam por aí se exibindo para os vivos.
— Se há espíritos, por que não podemos vê-los?
— Não sei.
Chegaram, finalmente, à mansão de Lafayete.
As luzes estavam acesas, muito embora não se vislumbrasse nenhum sinal de vida.
Por alguns instantes, limitaram-se a fitar a casa iluminada; Jaqueline hesitando em sair e Cezar evitando deixá-la.
Após alguns segundos, ela o encarou.
Havia lágrimas em seus olhos, que os tornavam tão brilhantes quanto as próprias luzes que irradiavam das janelas.
— Não tenha medo — Cezar a encorajou.
— Como posso não ter medo?
Ainda sinto no rosto o resultado de meu primeiro encontro com o doutor.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:38 am

— Lafayete não vai fazer mais isso.
Ele prometeu...
Antes que ele terminasse a frase, Jaqueline tomou uma atitude impensada.
Mais do que impensada, imprudente.
Atirando--se em seus braços, beijou-o com ardor.
Cezar não reagiu.
Na verdade, não fez nada além de corresponder de uma maneira fria e mecânica.
Notando que Cezar não se envolvia no beijo, Jaqueline afastou-se dele, indagando com frustração:
— Você não me quer?
Durante algum tempo, Cezar permaneceu olhando a noite escura, vestido com uma indecifrável máscara de gelo.
Até que olhou para ela e respondeu com certa indiferença:
— Não. Gosto de você, mas não a quero.
Sou apenas seu amigo.
— Você é um covarde — Jaqueline reagiu, com raiva e frustração.
Ele não contestou.
Debruçando o corpo por cima do dela, abriu a porta do carona para a moça sair.
— Vai dar tudo certo — foi só o que disse.
Engolindo a mágoa, Jaqueline saltou do carro.
Limpou o borrado do batom, cobrindo os lábios com uma nova camada do cosmético.
Sem olhar para trás, tocou a campainha.
O portão se abriu após alguns minutos, fechando-se em seguida, fazendo parecer que Jaqueline se perdia para sempre.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:39 am

Capítulo 24

Em seu gabinete particular, Lafayete relembrava os momentos de prazer que passara com sua mais nova aquisição.
Jaqueline era uma moça linda e muito bem treinada para satisfazer todos os caprichos de um homem.
Estivera com ela na noite anterior, quando lhe pareceu, particularmente, mais ardorosa.
Talvez estivesse começando a gostar dele, talvez se esmerasse para ganhar um bom dinheiro.
De qualquer forma, deixara-o satisfeito, apesar de ele precisar se conter para não permitir extravasar seu sadismo.
Não resistira a uns tapas e beliscões, mas nada muito doloroso ou que deixasse marcas.
A entrada repentina de Sofia o fez desviar-se do êxtase das lembranças.
Ela lhe pareceu ridícula, toda empetecada, como se estivesse pronta para um baile de debutantes.
O vestido cor de salmão, com pequenos babados brancos, dava-lhe um ar de donzela velha, realçado pela sombra rosa que passara nas pálpebras e pelo vermelho sangue do batom.
— Está ocupado? — perguntou Sofia, sentando-se na mesa, diante dele.
O escorregar proposital do vestido, deixando à mostra um par de coxas flácidas, causou-lhe certa repulsa.
Outros, no seu lugar, admiravam as formas maduras das esposas, exaltando-lhes a beleza bem conservada, o corpo ainda elegante, as rugas que lhes davam um ar de imponência e sabedoria.
Para ele, tudo aquilo não passava de desculpa que os amigos encontravam para justificar a velhice das esposas.
Só que ele não apreciava a maturidade.
Gostava mesmo era da juventude, da rigidez de um corpo sem marcas, sem estrias nem celulites, do frescor dos lábios carnudos das meninas.
O facto de Sofia fingir-se de mocinha só fazia acentuar sua repugnância, ainda mais no dia posterior ao que se fartara com Jaqueline.
— O que você quer?
Lafayete procurou disfarçar, pousando a mão, displicentemente, no joelho dela.
Sentiu um arrepio não de prazer, mas de nojo.
A mulher parecia uma boneca de pano mal costurada.
— Pensei se você não gostaria de almoçar comigo hoje, só nós dois, num lugar especial.
— Que lugar especial?
— Reservei a suíte presidencial de um hotel de luxo.
— Você o quê? — Lafayete quase a jogou da mesa, tamanho o salto que deu da cadeira.
Ficou louca?
Você não pode sair por aí gastando o meu dinheiro à toa desse jeito!
O que os eleitores vão pensar?
— Os eleitores não sabem da nossa vida.
E não gastei dinheiro à toa.
Investi em nós dois, só isso.
— Que absurdo, Sofia!
Cancele essa reserva imediatamente!
— Agora não dá mais.
Se não aparecermos, perderemos o dinheiro.
O olhar de Lafayete foi tão fulminante que, por pouco.
Sofia não caiu electrocutada.
Ela não podia ver, mas fagulhas de ódio saíam não apenas de seus olhos, mas de todo o seu corpo emocional, atingindo-a em cheio por todos os lados.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:39 am

Uma forma-pensamento horrível se atirou sobre ela, penetrando em seu campo áurico graças à raiva que crescia dentro dela, pois a reacção do marido fora justamente oposta à que ela esperava.
Somadas as raivas, o resultado não podia ser bom.
— Não posso ir — afirmou rudemente.
Tenho mais o que fazer.
— Pensei que você quisesse viver aventuras diferentes comigo.
— Isso não é nenhuma aventura.
É idiotice, desperdício de dinheiro e falta de ocupação.
— Nós não vamos? — perguntou Sofia, mordendo os lábios de tanto ódio.
— Não.
— Mas vamos perder o dinheiro!
Eles foram bem claros em frisar que não há devolução.
— Vire-se. Vá sozinha ou leve o Fábio com você.
Furioso, Lafayete saiu batendo a porta, deixando a mulher sozinha, tremendo com igual furor.
Como ele se atrevia a mandá-la para um hotel em companhia de outro homem?
Era o máximo do desrespeito e do pouco caso.
O ódio que sentiu naquele momento foi tão grande que ela pensou que fosse explodir.
Ele a jogava para outro por causa de uma prostituta!
Sofia ainda retinha na memória a fotografia da vagabunda com quem ele se deitara na noite anterior.
Fábio seguira o carro do marido até uma mansão no Joá, onde, pouco depois, a mulher chegou, acompanhada de Cezar.
Mesmo na escuridão, Fábio conseguira fotografá-la, quando ela parou embaixo da lâmpada do portão.
Era bonita e jovem, tudo o que Sofia não era.
Pouco depois da saída do marido, Fábio entrou no gabinete.
Ver Sofia naquele estado deplorável fez estremecer seu coração, levando-o a sentir vontade de tomá-la nos braços e protegê-la para sempre.
— O que houve? — perguntou.
Por que o doutor saiu daqui daquele jeito?
— Não deu certo, Fábio.
Ele se recusou a ir ao hotel comigo.
E ainda sugeriu que eu levasse você.
Sofia estava em lágrimas, e ele, boquiaberto, perplexo.
Por um instante, Fábio pensou que ela fosse atirar-se em seus braços, mas não foi o que aconteceu.
Sofia passou por ele toda trémula, esfregando as mãos de nervosismo.
— O que você quer que eu faça, Sofia?
Quer que eu dê um jeito na garota?
— Não. Isso não basta.
O que eu preciso é reconquistá-lo.
As palavras dela doeram em seu coração.
Fábio sabia que não tinha chance alguma com a mulher de um deputado, mas não podia deixar de amá-la.
Tentava ocultar-lhe seu segredo, embora reconhecesse que não o fazia satisfatoriamente.
Ele vivia a desenhá-la, e ela sabia.
Lafayete chamou Cezar e saiu de carro.
O que tinha para lhe falar não podia ser ouvido por mais ninguém além dele e de Jonas, em quem confiava cegamente.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:39 am

— Aconteceu alguma coisa? — questionou Cezar, notando a grande contrariedade de Lafayete.
— Ainda não, mas precisa acontecer.
— O quê?
— Preciso me livrar de Sofia.
Ela se transformou num estorvo que não dá mais para controlar ou suportar.
— Está pensando em pedir o divórcio?
— É claro que não, estúpido!
Um homem na minha posição não pode se dar ao luxo de ser divorciado.
— Então o quê?
Pretende mandá-la em uma viagem sem volta pela Europa? — ele não respondeu com palavras, mas com o olhar irritado da impaciência.
— Não vai me dizer que você... — Cezar levou a mão à boca, calando-se, temeroso — que você... pretende matá-la...
Mais uma vez, Lafayete não respondeu. Nem precisou.
Em suas feições se lia que era esse o plano, o que levou Cezar a soltar um grito de espanto.
— Você só pode estar brincando! — duvidou Cezar.
Não teria essa coragem.
— Pessoalmente, não.
Não pretendo sujar minhas mãos.
— Isso é loucura, Lafayete!
Você não é assassino.
— É por isso que você vai ficar encarregado de encontrar o assassino para mim.
— O quê?
— É isso mesmo que você ouviu.
Quero que você ache alguém que faça o serviço.
— Ficou doido?
Não quero ter participação alguma nessa história.
— Você me deve, trabalha para mim, faz o que eu mando.
— Isso é demais.
Extrapola qualquer dívida que possa ter com você.
— Está se recusando a me ajudar?
— Estou. E, francamente, Lafayete, não sei se vou permitir que você faça uma coisa dessas.
— Posso saber como pretende me impedir?
Por acaso vai me delatar à polícia?
— É claro que não.
— Ainda bem.
Você tem muito a perder, se fizer isso.
— Não se trata de polícia, mas da vida de sua mulher.
Pelo amor de Deus, homem, pense bem!
— Eu já sabia que você é um covarde.
— Não sou covarde.
Só não quero ser cúmplice num homicídio.
Pelo espelho retrovisor, Lafayete trocou olhares com Jonas, o motorista, e silenciou.
Estava claro que não podia contar com Cezar.
A lealdade de seu assessor não ia tão longe quanto ele imaginava, a despeito de todas as armas que possuía contra ele.
Não podia contar com Cezar nem confiar no seu silêncio.
— Você tem razão — mentiu Lafayete, fazendo cara de arrependimento.
Não sei onde estava com a cabeça para pensar numa loucura dessas.
Eu, hein! Agora veja se eu falei sério.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:39 am

Foi só uma explosão do momento, por causa das maluquices de Sofia.
Ela agora deu para querer me reconquistar e fez uma grande besteira.
Imagine se o meu eleitorado me vê desperdiçando dinheiro em uma suíte de luxo de um hotel em minha própria cidade!
Coisas de Sofia, que tem a cabeça oca.
Eu não devia me irritar com essas bobagens da minha mulher, mas não aguentei.
Bem, deixe para lá. Vamos aos negócios.
Seguiu-se um silêncio constrangedor.
Fingindo-se concentrado nos documentos que retirou da valise, Lafayete não olhou mais para Cezar.
Este, por sua vez, remoía as palavras do deputado, pesando as verdades e as ameaças nelas contidas.
Daquele dia em diante, Lafayete não tocou mais no assunto.
A menos, não com Cezar.
Mas assim que se viu livre da companhia do assessor, bateu no ombro de Jonas e disse, sem esperar que ele se virasse.
— Agora é com você.
O motorista, calado como sempre, apenas assentiu.
Cumprir as ordens de seu patrão era o que lhe dava mais prazer e, ao contrário de Cezar, não iria falhar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:39 am

Capítulo 25

Os pensamentos de Jaqueline giravam todos em torno de Cezar.
A sensação dos lábios dele colados aos seus ainda permanecia viva e quente, apesar da frieza com que ele a tratara.
Mesmo sem querer admitir, sabia que estava apaixonada por ele, o que era um erro e um risco, não apenas porque Lafayete jamais permitiria que ela se envolvesse com seu assessor e irmão, mas porque Cezar parecia não corresponder a seus sentimentos.
Com a mente transbordando da imagem de Cezar, ela saiu.
Precisava ir ao mercado fazer umas compras.
Maurício merecia que ela gastasse o dinheiro ganho do doutor para lhe dar um pouco de prazer, coisa que ele nunca tinha.
— Vou comprar-lhe um chocolate — pensou alto, assim que atravessou a portaria do prédio.
— Deu para falar sozinha agora, é? — soou uma voz a seu lado.
Jaqueline se virou, tendo a desagradável surpresa de dar de cara com Lampião.
Havia muito não o via nem sabia dele.
— O que está fazendo aqui? — indagou, com desagrado.
— Nada. Estava só passando.
Lampião deu um passo na direcção dela, e Jaqueline recuou depois.
— O que quer? — tornou, receosa.
— Nada, já disse.
Por que está com medo de mim?
— Não estou.
— Não? Parece.
— Então, dê-me licença.
Preciso passar.
— É claro, gata.
Quando ela passou, Lampião segurou o seu braço, obrigando-a a voltar o rosto para ele.
— Não gosto que fujam de mim — grunhiu.
— Solte-me.
— Você agora pensa que está com o rei na barriga, só porque virou protegida de um deputado.
Jaqueline puxou o braço com força, retrucando cheia de raiva:
— Um deputado que lhe paga um óptimo preço para você se manter afastado de mim.
— Nem tão óptimo — ironizou.
Ele pode pagar mais.
— Dê um tempo, Lampião.
Chantagem não é uma boa ideia.
Imagine só, você lutando contra um político influente.
Quem você acha que vai ganhar?
Sem esperar resposta, Jaqueline rodou nos calcanhares e saiu apressada, deixando Lampião parado na calçada, fitando-a com olhar esquisito.
Aquele olhar carregava uma mensagem que ela não soube decifrar.
Seria possível que Lampião estivesse pensando em chantagear o deputado?
Era um risco muito grande e não fazia o género dele.
Não era assim que costumava trabalhar.
Lampião nunca se metia com gente poderosa; sabia que era quem mais tinha a perder.
Resolveu não pensar mais naquilo.
Não era problema dela.
Se Lampião queria arriscar a vida ameaçando Lafayete, o problema era dele.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:40 am

Concentrou-se no que realmente importava, que, naquele momento, eram as compras que faria no supermercado: carne, queijo, arroz, feijão, batata, legumes e muitas frutas.
Talvez até fizesse um bolo de laranja, que era o preferido de Maurício.
Sem contar o chocolate, um refrigerante, suco de uva, biscoito, um xampu decente, e...
A lista mentalmente elaborada foi bruscamente interrompida pela visão fantasmagórica do outro lado da rua.
Jaqueline estacou, aterrada, quando o espectro encontrou seus olhos.
Dimas estava parado, imóvel, fitando-a com ar maléfico, tão próximo que bastavam apenas alguns passos para tocá-lo, não fosse o movimento de carros circulando pela rua estreita.
De repente, ele sumiu.
Ela fechara os olhos por apenas um segundo e, quando tornara a abri-los, ele não estava mais lá.
A assombração se esvanecera.
Jaqueline olhou de um lado a outro, sabendo que não tornaria a vê-la.
Fez as compras em silêncio, presa do mau agouro causado pela visão do espírito desassossegado de Dimas.
Talvez fosse boa ideia procurar um centro espírita, mas o medo de que, de alguma forma, Dimas revelasse a alguém o motivo de sua morte, fê-la desistir.
Não entendia nada de espiritismo, mas já ouvira falar de espíritos que revelavam coisas ocultas, e que depois se provavam reais.
Não. Decididamente, precisava lidar com Dimas sozinha.
Quem sabe uma missa na igreja?
Ao menos lá, tinha certeza de que ele não a delataria.
Quando se aproximou mais do prédio, seu coração acelerou.
Aquele era o dia dos encontros inesperados.
De longe, reconheceu a silhueta esguia e elegante do homem encostado na parede do sobrado.
Um brilho intenso ofuscou seus olhos, que reviravam de contentamento.
Depois da abordagem de Lampião e da visão agourenta do espírito de Dimas, nada melhor do que a presença física e agradável de Cezar.
— Oi — cumprimentou ela, parando diante dele.
— Bom dia, Jaqueline — respondeu Cezar formalmente, apanhando as sacolas de compras das mãos dela.
Vamos subir? Preciso falar com você.
Jaqueline saltou os degraus da escada no mesmo ritmo em que seu coração pulava dentro do peito.
Queria beijá-lo novamente, provocá-lo até que ele confessasse que também estava apaixonado por ela.
A frieza dele, porém, mais do que se repetir, se acentuou.
Cezar olhou para ela, impassível.
Dava até para sentir o hálito frio que exalava de suas palavras.
— O doutor já voltou de Brasília? — perguntou Jaqueline, sem graça diante da indiferença de Cezar.
Quer me ver vestida de vermelho ou pode ser de preto desta vez?
— Voltou, mas não foi por isso que vim até aqui.
Ele acha que você não devia mais viver neste lugar.
Mandou-me colocá-la em um de seus muitos apartamentos, em Vila Isabel.
Já está tudo pronto para você se mudar.
Vim ajudá-la com a mudança.
— Mudança? — surpreendeu-se, esquecendo-se de suas ironias.
Não acredito! Vamos mesmo sair daqui?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:40 am

— Vão. É agora.
— Eu não acredito! — repetiu.
Será mesmo verdade que meu maior sonho se realizou?
Vou mesmo deixar esse cortiço?
— Vai. E agora corra, vá arrumar suas malas.
— Que malas?
Não tenho nada para levar comigo além de uns poucos pertences pessoais.
Posso arrumar tudo em alguns instantes.
E Maurício também tem pouca coisa.
Não vou demorar nadinha para ajeitar tudo.
— Vou esperar. Foi para isso que vim.
— Fiz compras para o almoço, mas isso pode esperar.
Quem sabe já não cozinharei na casa nova?
— Quem sabe? — devolveu ele, feliz com o entusiasmo dela.
— E esse apartamento? — ela quis saber.
Foi Lampião quem alugou para mim.
— Esqueça Lampião.
De hoje em diante, ele não faz mais parte da sua vida.
O doutor lhe deu uma significativa importância para que ele não a incomode nunca mais.
Jaqueline limitou-se a assentir.
Arrumou seus pertences rapidamente, inclusive os de Maurício.
Mal conseguia conter a euforia.
Só de pensar em morar num lugar decente, não importava de que classe social, a fazia tremer de felicidade.
Assim que Maurício chegou da escola, sem perder tempo, partiram para Vila Isabel.
O deslumbre de Jaqueline e Maurício ao verem a nova residência fez Cezar esquecer sua frieza.
O apartamento era uma cobertura de 190 metros quadrados, com duas suítes e uma piscina, localizado numa área nobre do tradicional bairro da zona norte.
— Nunca vi nada mais bonito! — encantou-se Jaqueline.
Parece até coisa de cinema.
— Nem tanto — retrucou Cezar, ainda com o celular na mão.
É uma boa cobertura, e o bairro é de classe média, mas perigoso.
Tenham cuidado ao sair à noite.
— Posso conhecer a escola de samba?
— Quando tiver ensaio, talvez a leve lá.
Nesse momento, Maurício entrou correndo na sala:
— Mana'. Mana'. — chamou. — Venha ver os quartos.
Tem até banheiro dentro!
— São duas suítes — esclareceu Cezar.
Uma foi preparada para ela, e outra, para você.
— A minha é a que tem o papel de parede do espaço, não é? — Cezar assentiu.
E tem até uma televisão gigante só para mim!
Jaqueline seguiu Cezar até as duas suítes, cada vez mais deslumbrada com o que via, certa de que valia o sacrifício que estava fazendo.
A alegria de morar num lugar decente afastou de suas lembranças o sadismo de Lafayete.
Por um momento, pensou mesmo que ele não existia e que aquele apartamento maravilhoso era fruto de um trabalho honesto.
— Onde fica a cozinha? — ela quis saber.
Uma ocasião como essa merece um almoço especial.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:40 am

Seguiram juntos até a cozinha, onde Jaqueline depositou as sacolas ainda com as compras que fizera mais cedo no supermercado.
— Você vai almoçar com a gente? — Maurício perguntou a Cezar.
— Se sua irmã me convidar...
— É claro que está convidado.
“E como poderia não estar?”, ela pensou.
Tudo o que mais queria era uma vida como aquela, ao lado do irmão e do homem que amava.
Ainda que Cezar não pensasse a mesma coisa, fazia-lhe bem estar na companhia dele.
Durante aqueles momentos, podia fingir que eram uma família completa e feliz.
Enquanto o arroz e o feijão cozinhavam, Jaqueline desfez a pequena mala com seus parcos pertences.
Em poucos minutos, colocou tudo no armário, pendurando, no compartimento próprio, vestidos de luxo comprados para satisfação do deputado.
O almoço foi servido no terraço, ao lado da piscina.
Um luxo que tanto Jaqueline quanto Maurício jamais haviam imaginado existir.
Ela estava tão feliz que Cezar relutava em dar-lhe a notícia de que, logo, teria que deixar o conforto do lar recém-inaugurado para satisfazer as taras de Lafayete.
— Estava uma delícia — elogiou Cezar, limpando a boca com o guardanapo.
Você é uma excelente cozinheira.
— Jaqueline já pode casar — comentou Maurício, de forma inocente.
Por que não se casa com ela, Cezar?
— Deixe de bobagem, Maurício — repreendeu Jaqueline. embora a ideia a agradasse.
Você nem sabe se Cezar tem namorada.
— Tem? — questionou o menino, olhando para ele com ansiedade.
— Não — Cezar respondeu, pouco à vontade.
Mas minha relação com sua irmã é apenas profissional.
A resposta feriu Jaqueline profundamente, mas ela não protestou.
Do que podia reclamar se, no fundo, era aquilo mesmo?
— Pare de constranger o Cezar — censurou Jaqueline.
Ele tem a vida dele.
Maurício não insistiu, e Cezar sentiu-se grato pela interferência de Jaqueline.
— Por que não vai brincar em seu quarto novo, enquanto sua irmã e eu lavamos a louça? — sugeriu Cezar.
— Vocês querem conversar, não é?
Ante a aquiescência de Cezar, Maurício foi para o quarto.
Estava inebriado com sua nova televisão de LED, com TV a cabo e internet.
Depois que ele saiu, Cezar ajudou Jaqueline a tirar a mesa, lavar e enxugar a louça.
— Satisfeita? — questionou Cezar.
— Muito. Me fez até esquecer que o doutor Lafayete é algo bem próximo de um monstro.
— Essa é uma coisa que você nunca deveria esquecer.
O que ele faz, faz por motivos egoísticos.
Esse apartamento não é seu, por isso, ele vai mantê-la aqui enquanto for de seu interesse.
— Sei disso, não precisa me lembrar.
Mas, enquanto eu servir ao doutor, vou aproveitar tudo o que ele tem a oferecer.
E mesmo que esse apartamento não seja meu, está agora à minha disposição.
Se Lafayete tem interesse em me manter por perto, também tenho interesse em usar o dinheiro dele para ter um pouco de dignidade e assegurar o futuro do meu irmão.
— Falando em doutor — Cezar aproveitou a deixa —, ele quer vê-la esta noite.
— Tudo bem.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 11, 2016 9:40 am

— Deu-me instruções específicas para o seu vestuário.
Vamos sair e comprar o que ele pediu.
E ele também quer que você faça uma tatuagem.
— Tatuagem?
— Apenas um sinal, nada mais.
É um dos caprichos dele:
mulheres com uma pinta no canto da boca.
— Era só o que me faltava — queixou-se ela.
Não gosto de tatuagem.
Vai ser um péssimo exemplo para Maurício.
— Um pequeno sinal nem vai parecer tatuagem, mas um sinal de nascença.
— Não posso fazer com o lápis?
— Ele falou tatuagem...
— Vou fazer com o lápis.
Ele nem vai notar a diferença.
— Vai, sim.
Lafayete percebe tudo.
— Mas eu não quero fazer tatuagem alguma.
Não tenho nada contra quem faz, mas não é meu estilo e ponto final.
Apesar do medo das consequências que a rebeldia dela podia trazer, Cezar não disse nada.
Queria evitar mais discussões.
— Você é quem sabe — arrematou.
Mas eu avisei.
Lafayete gostava de cuidar de assuntos pessoais dentro do carro.
Era um óptimo gabinete, seguro, silencioso, discreto.
O único que presenciava todos os negócios que ele tratava ali era o motorista, inclusive aqueles poucos dos quais Cezar não participava.
Jonas era tão leal quanto um cãozinho adestrado e silencioso como uma pedra, que não emite som nem quando é vergastada pelo vento.
Tamanha lealdade tinha um motivo:
na época em que era policial militar, Jonas fazia segurança na casa de Lafayete, a fim de engordar o orçamento.
Certo dia, durante uma batida na favela, após render um traficante, desfechou dois tiros à queima-roupa no sujeito, facto testemunhado por uma moradora.
Desesperado, Jonas procurou Lafayete, que pagou pelo silêncio da moça.
Ficou o dito pelo não dito.
Jonas foi absolvido, mas expulso da corporação.
Desse dia em diante, assumiu o cargo de motorista particular de Lafayete, cuidando de seus negócios mais sujos e obscuros.
O homem que Jonas contratara aguardava que Lafayete terminasse as instruções, quando o celular tocou.
Após uma rápida olhada no visor, Lafayete fez um sinal para ele e atendeu.
— Ela já está devidamente instalada na cobertura — anunciou Cezar, na outra ponta da linha.
— Óptimo. Ela gostou?
— Está deslumbrada.
— Excelente. Acabei de chegar ao Rio também.
Você a avisou de que quero vê-la ainda essa noite?
— Avisei.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:31 am

— Compre-lhe um vestido deslumbrante, transparente, e envie-a sem nada por baixo.
Mande que faça uma maquiagem discreta, e não se esqueça da tatuagem no canto da boca.
Quero uma pintinha lá para sempre.
Mas só isso, ouviu?
Detesto mulher toda tatuada.
— Mais alguma coisa? — tornou secamente.
— Por enquanto, é só.
— Tudo bem. Até mais tarde.
Quando desligou, Lafayete sorriu para o homem sentado a seu lado, mas este não devolveu o sorriso, aguardando até que o doutor desse a conversa por encerrada:
— Muito bem, voltando ao nosso assunto:
quero que seja rápido e indolor.
Tem que parecer um acidente.
O homem simplesmente assentiu.
Acostumado àquele tipo de serviço, não precisava de muitas instruções.
Escolheria algo seguro, sem incidentes nem vestígios, como um desastre de carro ou um assalto.
Ninguém teria motivos para desconfiar de Lafayete, que apenas precisaria cumprir seu papel de viúvo desconsolado.
A ideia da viuvez o encheu de desejo por Jaqueline.
Embora não a amasse, gostava de sua companhia.
Ela era linda, inteligente e submissa.
Mal via a hora de encontrar-se com ela naquela noite.
A moça seria só dele para sempre. Lafayete sorriu.
Estava acostumado a conseguir tudo o que queria.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:31 am

Capítulo 26

Desde que saíra de Brasília, Lafayete não parava de pensar em Jaqueline.
Havia algo de especial naquela moça, algo que não encontrara em nenhuma outra.
Não é que fosse amor.
Ele estava bem certo de que não era.
Nem sequer se tratava de paixão, mas de um desejo insuflado pelo poder.
Ela era tão especial que ele colocara Cezar para cuidar dela, abrindo mão de sua assessoria diária.
Ao menos por enquanto.
Após a viuvez, como tencionava levar Jaqueline com ele para Brasília, teria seu assessor de volta.
Talvez o irmão dela fosse um problema, contudo, já tinha uma ideia de como resolvê-lo.
Mandá-lo-ia estudar na Europa, no mesmo colégio para onde mandara seus próprios filhos.
Tudo isso eram planos para o futuro.
Precisava se concentrar no agora.
E o principal, nesse momento, era se livrar do estorvo em que se transformara a mulher.
Para seu desagrado, ela o esperava à porta de casa.
Jonas deu a volta com o carro, para deixá-lo bem na entrada, seguindo depois para a garagem.
— Voltou mais cedo essa semana — observou ela, beijando-o nos lábios.
Foi com muito esforço que ele conseguiu conter a repulsa, devolvendo-lhe o beijo com uma indiferença tocante.
Sofia preferiu fingir que não havia notado, imaginando que ele a beijara com paixão.
Para compensar sua frieza, ela o abraçou, beijando-o novamente, dessa vez com mais intensidade.
— Senti saudades — Sofia falou, quase como se não percebesse que ele se forçava a suportá-la.
— Também senti — Lafayete mentiu, embora sem nenhuma convicção.
Pensar que aquilo, em breve, estaria terminado, foi o que lhe deu ânimo para suportar a repugnância.
Tudo estava arranjado, embora ele não soubesse a hora, ou o lugar, ou as circunstâncias em que o episódio ocorreria.
Achou que seria melhor não saber, para poder fingir surpresa com mais naturalidade.
Pouco depois, Cezar chegou de carro.
Foi um alívio para Lafayete, que o usara como desculpa para se livrar das garras da mulher.
— Tudo bem por aqui? — indagou o deputado, chamando Cezar para seu gabinete.
— Tudo.
Cezar sabia que por aqui se referia a Jaqueline.
Conhecia-o há tempo suficiente para ler em seu olhar as tintas da luxúria.
Ele sentia falta dela, ansiava por ela, dormia pensando nela.
Tudo para contentar sua insaciável volúpia.
Não foi apenas Cezar que o acompanhou ao gabinete.
Sofia também seguia com eles.
— Deseja alguma coisa? — Lafayete perguntou de má vontade.
Preciso cuidar de assuntos profissionais agora.
— Sei disso, querido — retrucou ela, a voz tão melíflua que o enojou.
Mas antes de você se fechar aí dentro por horas com o Cezar, quero lhe dizer uma coisa.
Tenho ingressos para o Teatro Municipal esta noite.
Estou lhe avisando a tempo, que é para você não ter desculpas para se atrasar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:31 am

— O quê? — ele espumou.
De novo, fazendo planos sem me consultar?
Não posso ir, de jeito nenhum.
— Por quê? Chequei sua agenda.
Você não tem compromisso nenhum para hoje à noite.
— Quem foi que lhe deu permissão para fuçar meus compromissos? — Lafayete questionou com ódio, fitando Cezar meio de indignação.
Antes que Cezar pudesse dizer:
“não fui eu”, ela esclareceu:
— Peguei com a sua secretária, em Brasília.
— O quê? Quem lhe deu o direito...? — calou-se, por pouco não engasgando com o próprio ódio.
— Pensei que seria bom para você — tornou Sofia, agora em tom quase de desculpa.
Ser visto em público, ao lado da esposa dedicada.
— Saia — foi a resposta seca.
— Não sem antes você me dizer que está satisfeito, que não está aborrecido e que vai comigo ao teatro.
— Eu estou com cara de quem está satisfeito?
Responda: estou?
Sofia não sabia o que dizer.
Confusa, balançou a cabeça de um lado a outro, sentindo certo medo da reacção do marido.
Sabia que ele relutaria um pouco, mas não imaginou que ficaria tão transtornado.
— Lafayete tem uma reunião hoje à noite, Sofia — intercedeu Cezar pacientemente.
Você consultou a agenda dele em Brasília, mas quem cuida dos compromissos dele aqui no Rio sou eu.
— Mas a secretária disse que ele não tinha nada...
— Ela não sabia.
A decepção foi tão grande que Sofia mal conseguiu reagir.
Tinha como certo que desfrutaria de uma noite agradável na companhia do marido.
Depois do teatro, planeara até um jantar surpresa, à luz de velas, como preliminar da noite de amor que ela havia preparado, com direito a champanhe e à lingerie sensual.
Lafayete fingiu não compreender seu olhar de súplica nem sua decepção.
Muito menos seu desespero.
Estava tão frio que ela, por pouco, não sentiu o sangue gelar.
Seu coração esfriara com ele, bem como o seu entusiasmo, suas esperanças.
Não compreendia a mudança súbita, não sabia como proceder.
— Sinto muito — foi só o que conseguiu dizer.
Não queria causar-lhe nenhum transtorno.
A voz hesitante, que as lágrimas faziam tremular, despertou a compaixão de Cezar, mas não a de Lafayete, que permanecia inabalável feito uma pedra de gelo.
— Saia — ordenou novamente, fulminando-a com um raio congelante.
Sem dizer nada, Sofia se foi, derrubando o busto de Getúlio Vargas ao passar.
Cezar o apanhou em silêncio, sem saber o que dizer ou fazer.
Tudo aquilo fora muito constrangedor, ainda mais porque ele conhecia o motivo da raiva de Lafayete.
— Maldita — sussurrou Lafayete, entre os dentes.
Mal vejo a hora disso tudo acabar.
— Acabar como?
— Falta pouco — prosseguiu ele, falando mais para si do que para Cezar.
Muito pouco para me ver livre de você para sempre.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:32 am

— Como assim?
Do que é que você está falando, pelo amor de Deus?
Só então o deputado se deu conta de que pensava alto.
Fixou o assessor com olhos enigmáticos, deu um sorrisinho sarcástico e respondeu:
— De nada. Vamos trabalhar?
— Não sem antes você me responder o que quis dizer com isso.
Não está pensando naquela loucura de matá-la, está?
— Não sei do que você está falando, Cezar.
É claro que não pretendo matá-la.
Onde já se viu?
E agora, vamos ao trabalho.
Tenho algum compromisso?
Mesmo desconfiado, Cezar não insistiu.
Talvez aquilo não passasse de um delírio de Lafayete.
Cezar não negava que a quisesse morta, e era esse desejo, provavelmente, que alimentava aquela fantasia mórbida.
— Nada além de Jaqueline, você sabe — ele tentou se concentrar no trabalho.
Fiz como você me pediu, não marquei nada para o fim de semana.
— Óptimo. E fez os preparativos que mandei?
— Sim. Ela só se recusou a fazer a tatuagem.
— Por quê? — Cezar deu de ombros.
Tudo bem. Cuidarei disso depois.
Sofia saiu do gabinete feito um trem desgovernado.
Não sabia se o que seu coração mais vibrava era ódio ou tristeza.
Ou as duas coisas.
Passou pelos criados sem falar com nenhum deles, correndo, desabalada, para o quarto, onde se atirou na cama para chorar.
Pouco depois, apanhou o celular na mesinha e discou o número do segurança particular.
Não demorou muito para que Fábio batesse à porta de seu quarto.
— O que foi que houve? — indagou Fábio, preocupado com o estado em que ela se encontrava.
O que foi que ele fez dessa vez?
— Você não tem o direito de falar assim — censurou Sofia.
Ele é meu marido.
— Parece que ele se esqueceu disso.
— Não o chamei aqui para ouvir você recriminar o Igor.
Preciso da sua ajuda.
— O que você quiser.
— Quanto você já descobriu sobre a nova amante dele?
— É uma prostituta — informou Fábio, estendendo-lhe mais fotografias de Jaqueline.
Sofia deu a volta no quarto com as fotos nas mãos, digerindo lentamente as palavras de Fábio.
— Trair-me com uma garotinha é um disparate!
Trair-me com uma rameira é um acinte!
Quem ele pensa que é? — Fábio não respondeu.
Quero falar com ela. Imediatamente.
— Posso saber para quê?
O que pretende dizer a ela?
— Quero-a fora do meu caminho.
— Você mesma disse que, se a fizer desaparecer, ele cuidará de pôr outra no lugar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:32 am

— Que eu farei desaparecer também, e quantas mais ele arranjar.
Só assim ele estará livre para eu reconquistá-lo.
— Não seja ingénua, Sofia.
Lafayete gosta de meninas novas, de rameiras.
E você sabe que ele gosta de bater nas mulheres.
Quanto tempo acha que vai levar até ele começar a bater em você também?
Se é que já não fez isso.
— Não fez nem vai fazer.
Vou reconquistá-lo apenas com a minha sensualidade.
— Você está se iludindo.
Lafayete não vê mais sensualidade em você.
— Cale-se! Nunca lhe dei o direito de falar assim comigo.
— Perdoe-me — rebateu Fábio, vermelho até as orelhas.
Eu... não pretendi ofendê-la.
Queria apenas proteger você...
— Não preciso desse tipo de protecção!
Você é meu segurança, não meu pai.
Muito menos meu marido.
Ponha-se no seu lugar ou serei obrigada a despedi-lo.
A raiva só não foi maior do que a vergonha.
Ele fora longe demais, reconhecia, mas ela não precisava tratá-lo daquela maneira.
— Sinto muito... — balbuciou.
Isso não tornará a acontecer.
— Acho bom mesmo.
E agora, vamos ao que interessa.
Quero que você marque um encontro com essa moça.
Ela vai desaparecer, custe o que custar.
— Está me dizendo que pretende eliminá-la?
— Não seja ridículo. Não sou nenhuma assassina.
Mas não há nada que o dinheiro não possa comprar ou que uma ameaça não consiga resolver.
Agora vá. Já sabe o que fazer.
Deixe-me sozinha.
Fábio se foi, deixando-a com a sensação de que nada do que planeava daria certo.
Se fosse mais inteligente, fingiria que de nada sabia.
Mas seu temperamento possessivo trancava a inteligência atrás das grades do ciúme, de onde ela não conseguia se libertar.
Tinha que confiar na venalidade da vagabunda.
Era sua única saída, sua única chance de tentar reencontrar o caminho para ser feliz.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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