A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Página 6 de 13 Anterior  1, 2, 3 ... 5, 6, 7 ... 11, 12, 13  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:32 am

Capítulo 27

Já era tarde da noite quando Cezar deixou Jaqueline nos portões da mansão do Joá, onde Lafayete a esperava.
Ela estava linda em um vestido branco transparente, velado por fios prateados que deixavam entrever suas formas voluptuosas.
Por debaixo da roupa, nada.
— Acha que ele vai gostar de mim? — indagou ela, embora a pergunta fosse direccionada ao próprio Cezar.
— Impossível não gostar.
Você está linda.
— Obrigada.
— Vá. Ele não gosta de ficar esperando.
Com um sorriso triste, Jaqueline desceu do carro.
Dentro de casa, Lafayete a recebeu com um beijo ardente.
Ofereceu-lhe uma taça de champanhe, levando-a directamente para o quarto.
Ansiava por ela e não queria esperar.
Fez com que ela se exibisse para ele, dançando como dançam as strippers das boates.
A dança repugnava Jaqueline, mas ela obedeceu sem se queixar.
Tudo por uma boa educação para Maurício.
— Venha cá — ordenou Lafayete, antes de a música acabar.
Ela obedeceu.
Com um andar sensual, aproximou-se, permitindo que ele a tocasse e beijasse como bem entendesse.
Ver-se na posse daquele corpo lindo e frágil acendeu a chama do desejo que, para Lafayete, vinha temperada de violência.
Ele mordeu os lábios dela, deixando-a com um gosto ácido de sangue na boca.
Jaqueline pensou em protestar, mas nem teve tempo.
Antes que abrisse a boca para falar, ele já segurava seu queixo com brutalidade, esfregando o rosto dela na altura em que pintara o sinal.
— Mandei você fazer uma tatuagem, não borrar a cara como fazem as putas de cabaré — rosnou ele, enfurecido.
— Não gosto de tatuagem...
A resposta dela não lhe interessava, mas sim a desculpa que encontrara para extravasar sua brutalidade.
Foi muito rápido o murro que lhe desferiu no rosto, levando-a ao chão com um susto.
— Vagabunda! — vociferou ele.
Pago a você, e muito bem, para fazer o que eu mando, não para questionar minhas ordens. Levante-se!
Jaqueline se levantou tropegamente, a mão cobrindo a face dolorida.
— Venha cá — ele ordenou novamente.
Ela se aproximou, encolhendo-se toda à visão dos punhos dele.
Lafayete não bateu mais nela.
Divertia-se só com o medo pulverizado em seu corpo trémulo.
— Você gosta de apanhar, não gosta? — ela meneou a cabeça.
Não minta para mim, sei que gosta.
— Por favor... — gemeu Jaqueline.
Ele a silenciou com um beijo.
Dali em diante, não falou mais, pondo-se a usá-la como queria.
Jaqueline limitava-se a fazer o que ele mandava, entregando-lhe seu corpo como se já não mais lhe pertencesse.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:32 am

Era um brinquedo, um utensílio, um recipiente onde ele podia entornar o fruto de seu desejo e depois quebrá-lo, se assim o desejasse.
Quando tudo terminou, ele tornou a encher as taças com champanhe, estendendo uma para Jaqueline.
Seu corpo todo doía, principalmente o rosto, cujo resultado do murro não queria nem ver.
Pela dor, sabia que ganhara um inchaço, que Lafayete parecia não perceber ou com o qual não se importava.
— Você foi incrível — elogiou ele, como se não houvesse acabado de lhe dar uma surra.
Você é especial, Jaqueline.
Sabe disso, não sabe?
Sem saber ao certo o que ele queria ouvir, ela respondeu cautelosamente:
— Se você diz que sou, então eu sou.
— Garota esperta.
Você é muito especial para mim.
Gosto de você como jamais gostei de nenhuma outra.
É por isso que a quero sempre ao meu lado, não como minha mulher, porque você é muito vulgar, mas como minha amante exclusiva.
Quero estar com você à hora que desejar, sem ter que dar satisfações em casa nem inventar desculpas.
— E sua esposa? — ela perguntou, horrorizada ante a perspectiva de que um divórcio a pusesse diuturnamente à disposição dele.
— Minha esposa?
Em breve não terei mais esposa.
— Vai se divorciar?
Lafayete entornou o champanhe de um gole, sentindo a cabeça rodar sob o efeito da bebida.
— Não, tolinha, não posso me divorciar.
Mas essa não é a única maneira de acabar com um casamento, é?
— Não estou entendendo.
Não pretende matar sua mulher, pretende?
Disse aquilo sem pensar, mais como uma ironia do que como algo em que acreditasse.
Lafayete, contudo, fixou nela os olhos quase negros, deixando um sorriso mordaz pendurado no canto da boca por alguns segundos antes de responder:
— Não... Pessoalmente, jamais sujaria minhas mãos com um homicídio.
— O que quer dizer com isso?
Contratou alguém para matá-la?
— Você é muito curiosa, menina.
Deixe isso para lá.
Jaqueline não sabia se ele dizia aquelas coisas em razão da enorme quantidade de álcool que havia ingerido ou se havia algum fundo de veracidade em suas palavras.
Mesmo assim, sentiu medo.
O homem que tinha diante de si não era apenas um corrupto mentiroso.
Era também um assassino.
Ela quis continuar a interrogá-lo, mas a taça de champanhe caiu de sua mão, mostrando que ele pegara no sono.
- Doutor! — chamou Jaqueline. — Doutor!
Não durma. Vai me deixar aqui sozinha?
— Vá-se embora.
Não preciso mais de você.
Deixe-me dormir em paz.
Ele apagou. Mais que depressa, Jaqueline se vestiu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:32 am

Na sala, ligou para Cezar, pedindo que fosse buscá-la.
Quando ela entrou no carro, nem ligou para o choque estampado no rosto dele ao ver o inchaço em seu rosto.
— Ele bateu em você! — constatou ele.
— Isso é óbvio. Mas não ligue.
Não estou preocupada com isso.
— Canalha!
— Não acredito!
Está ofendendo o poderoso chefão?
— Não gosto que ele bata em você.
É muita covardia.
— Covardia maior é o que ele pretende fazer com a esposa.
Ele está planeando matá-la.
— Ele disse isso? — surpreendeu-se.
— Praticamente.
— Não pensei que ele chegasse tão longe.
Achei que tudo era fruto do seu incontido desejo de se libertar de Sofia.
— Você sabia?
— Ele vem falando coisas do tipo há dias.
— E o que você fez?
— Nada. O que posso fazer?
— Não sei. Ir à polícia, tentar impedi-lo.
— Não tenho provas.
E como posso impedir algo que nem sei se vai acontecer, ou quando, ou como?
— Não acredito que você vai ficar nessa passividade!
Meu Deus, Cezar, estamos falando de um assassinato!
Precisamos fazer alguma coisa.
— Não há nada que possamos fazer.
E depois, nós nem sabemos se isso é verdade.
— Você pode falar com ela, alertá-la.
— Ficou maluca?
Sofia vai rir na minha cara, se não mandar que ele me despeça.
— Não posso deixar isso acontecer, não posso.
— Não misture as coisas, Jaqueline.
Não é porque você teve que matar seu padrasto que vai ser obrigada a impedir os outros de morrerem.
— Isso não é justo.
Matei Dimas em legítima defesa, e Deus sabe o quanto me arrependo disso, todos os dias.
Mas o que o doutor pretende fazer é assassinato puro e simples.
— Sei que é horrível, mas é melhor não se envolver, ou vai acabar sobrando para você.
— Não acredito no que estou ouvindo.
Sua covardia chega ao ponto de fazê-lo fechar os olhos para um homicídio?
— Ninguém morreu, portanto, não há homicídio algum.
— Mas vai haver, se não tomarmos nenhuma atitude.
Após alguns minutos de silêncio, Cezar tentou acalmá-la.
Discutir com a moça não levaria a lugar algum.
Jaqueline era teimosa e parecia muito decidida a fazer alguma coisa.
— Muito bem. Deixe comigo.
Vou pensar em algo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:32 am

— Tem que ser logo!
Não podemos esperar até que ela morra.
— Tenha calma. Darei um jeito de fazer chegar a Sofia uma mensagem.
Está bem assim?
— Será que adianta?
— Vale a pena tentar.
Notando que ela se acalmara, Cezar ligou o carro.
Estava cansado, assim como Jaqueline.
A noite sem lua tornava a rua ainda mais escura do que já era.
Sem notar o carro parado nas sombras mais atrás, Cezar saiu, despreocupado.
Maldizendo-se por não ter colocado um GPS no carro de Cezar também, Fábio seguiu-os pela rua, de faróis apagados, mantendo uma distância segura.
O carro negro passaria despercebido na escuridão, mas, assim que o sol nascesse, teria que tomar um novo rumo.
Por sorte, conseguiu segui-los até Vila Isabel antes do raiar do dia, passando directo pela porta do edifício diante do qual Cezar estacionou.
Já sabia onde Jaqueline morava.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:33 am

Capítulo 28

Durante o resto do fim de semana, Cezar não fez outra coisa a não ser pensar no que faria para evitar aquele homicídio.
Precisava agir depressa.
A mensagem chegou ao celular de Sofia logo no começo da tarde, quando Lafayete ainda se encontrava no Rio.
O número era-lhe desconhecido, proveniente do celular descartável que Cezar comprara numa loja de departamentos.
Logo no topo da mensagem, lia-se:
“URGENTE!”, o que levou Sofia a crer que se tratava de mais uma propaganda indesejada das operadoras de celular.
Com essa ideia, deletou a mensagem sem nem mesmo dar ao trabalho de lê-la.
Cezar aguardava que ela lhe enviasse uma resposta, mesmo sem saber quem mandara a mensagem.
Não foi o que ocorreu.
Resolveu mandar outra, e outra em seguida, e várias outras.
À medida que as mensagens eram ignoradas, mais Cezar se desesperava, sem saber se Sofia as havia recebido ou não.
Como fizera com a primeira, ela deletara todas, cada vez mais irritada com a inconveniência das propagandas.
— Que saco — reclamou ela, deletando uma em seguida da outra, até que pararam de chegar.
Quando o celular de Cezar tocou, anunciando a chamada de Lafayete, ele atendeu com um sobressalto.
Será que, antecipando-se às suas previsões, Lafayete resolvera agir?
Mas não. Era apenas um chamado regular, uma ordem para que ele comparecesse a sua casa.
— Algum problema? — sondou.
— Precisa ter algum problema para meu assessor me assessorar?
Cezar engoliu a vontade de lhe dizer que não era obrigado a trabalhar aos domingos, mas ir à casa dele seria uma excelente desculpa para verificar se Sofia estava bem.
— Já estou indo — respondeu rapidamente.
Poucos minutos depois, Cezar entrava no gabinete de Lafayete, onde tudo parecia normal.
Nenhum movimento estranho na casa, nada que indicasse a ocorrência de uma tragédia.
Na entrada, notou o carro de Fábio estacionado no pátio, sinal de que. se o segurança estava ali, Sofia também estava.
— Vou viajar amanhã logo cedo — anunciou Lafayete, sem nem ao menos cumprimentar o outro.
Preciso que deixe tudo em ordem para quando eu voltar.
— Tudo o quê, exactamente?
— Pretendo lançar minha candidatura ao cargo de senador.
Cansei de ser deputado.
— Ainda falta muito para as próximas eleições.
— Eu sei, mas quero começar a me preparar desde já.
Preciso que você organize minha agenda.
Não posso perder tempo.
O povo do Rio, que me elegeu deputado, há de me eleger também senador.
Você não acha?
— Tenho certeza.
— Óptimo. Então tome nota — Cezar abriu o tablet.
Comece com algum tipo de visita de caridade.
Isso sempre impressiona o eleitorado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:33 am

— Certo.
- De preferência, arranje algo com crianças.
Adolescentes me irritam e velhos me entediam.
— Como quiser.
— Compre alguns brinquedinhos para doação.
Nada muito caro, viu?
Dê um pulinho lá no Saara e compre umas bonecas e uns carrinhos.
— Do tipo que soltam os braços e as rodinhas?
Lafayete parou o que estava fazendo para encará-lo com olhar hostil.
— Está de brincadeira comigo?
— Não, doutor.
Eu só quero saber a qualidade dos brinquedos que devo comprar.
— Você sabe muito bem a qualidade.
Não são para meus filhos.
São para crianças que nem têm onde cair mortas.
Qualquer coisa serve.
— Qualquer coisa serve... — Cezar repetiu, tomando nota.
— O que há com você, Cezar?
Deu para ficar engraçadinho agora, é?
— Desculpe. Não foi minha intenção.
É que eu não entendo bem dessas coisas.
Talvez Sofia pudesse me ajudar...
— Deixe Sofia fora disso.
Ela não tem nada a ver com minha candidatura.
Não é tarefa dela, é sua.
— Mas ela é sua esposa.
Não acha que cairia bem se ela fosse vista comprando brinquedos para as criancinhas pobres, em seu nome?
— Não acho nada.
Sofia tem os afazeres dela.
Não quero misturar as coisas.
— Tudo bem. Você é quem manda.
— É bom que não se esqueça disso.
— Mais alguma coisa?
— Sim. Quero ver Jaqueline hoje de novo.
— Já sabia disso.
— Sei que sabia.
Só que, dessa vez, precisa ser mais cedo.
Como disse, viajo de manhã e não quero correr o risco de perder o voo.
— Certo. E a que horas quer que eu a leve ao Joá?
— Antes do almoço.
Mandarei preparar algo especial.
- Ok. Só isso?
— Não. Compre uma jóia para ela.
Preciso me desculpar.
— Desculpar-se por quê?
— Você sabe.
Pode ser uma jóia pequena, como um anel ou brinco de ouro.
Ligue para meu ourives particular.
Ele sempre tem alguma coisa em stoque.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:33 am

— Tudo bem.
— Anotou tudo?
— Anotei.
— Óptimo. Agora pode ir.
Cezar se foi.
Tinha uma lista enorme de obrigações a cumprir, de forma que não poderia dedicar muito de seu tempo a salvar a vida de Sofia.
Pensando bem, nem sabia com certeza se ela precisava ser salva.
Lafayete não fizera mais nenhuma observação mórbida, e os comentários de antes bem podiam ser fruto de sua irritação, nada para ser levado a sério.
De qualquer forma, Sofia estava bem e fora devidamente avisada.
Não foi com muita alegria que ele deixou Jaqueline na mansão do Joá.
Daquela vez, Lafayete não fizera exigências, permitindo que ela se apresentasse do jeito que quisesse.
Ela escolheu um vestido azul simples, porém, sensual.
— Não sei se vou aguentar outra surra — lamentou Jaqueline, os olhos brilhantes de lágrimas.
— Ele não vai bater em você.
O que quer, hoje, é se desculpar.
— E você? Não quer nada de mim?
— Jaqueline, por favor, não comece.
Creio que já deixei bem claro o que sinto por você.
— Que é: nada.
Para você, eu não passo de uma tarefa a ser cumprida com competência.
Não é verdade?
— Não é bem assim.
Gosto de você, me preocupo com você, mas não a amo.
- Tudo pela lealdade ao doutor.
Tudo bem, já entendi.
Jaqueline saiu do carro chorando, muito embora os olhos já estivessem secos ao tocar a campainha no portão.
Jonas o abriu e permitiu que ela fosse sozinha ao andar de cima, onde já sabia que Lafayete a estaria esperando.
Ela bateu na porta e entrou.
A cama, coberta de pétalas vermelhas, recendia a essências florais, com um toque de baunilha, que haviam sido borrifadas de um frasco de perfume francês, acomodado entre corolas de rosas vermelhas.
Ao lado, um candelabro de prata iluminava a toalha de renda francesa, que ornava uma mesa onde fora posto um simples e apetitoso banquete.
À sua frente, segurando em uma das mãos uma taça de champanhe e, na outra, uma caixinha cor de vinho, Lafayete a recebeu com um sorriso.
— Seja bem-vinda, minha querida — saudou ele, oferecendo-lhe o champanhe.
Veja o que mandei preparar para você.
Jaqueline forçou um sorriso, enquanto Lafayete se aproximava com a caixinha na mão, abrindo-a bem diante de seus olhos.
De dentro, reluziram dois pequenos brilhantes, que ornavam um elegante par de brincos de ouro branco.
— Posso? — indagou ele, fazendo menção de colocar os brincos em suas orelhas.
Ela não disse nem que sim, nem que não.
Mesmo assim, ele pôs os brincos nela, tomando cuidado para não espetá-la.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:33 am

— Ficou lindo! — elogiou Lafayete.
Quase tão lindo quanto você.
Venha se olhar no espelho.
Jaqueline foi. Não ousava desobedecer.
Ele encarava o reflexo dela com um ar de embevecimento idiota, como um noivo apaixonado diante da mulher de sua vida.
Jaqueline não conseguiu evitar o pensamento de que ele devia ser bipolar. Só podia ser.
— Agora venha. Vamos almoçar.
Depois, vou amá-la como nenhum homem antes a amou.
Ela forçou-se a comer o frango ao curry e o arroz pilaf.
Quando chegou ao bolo indiano, já estava mais calma e conseguiu engolir a iguaria sem ter vontade de vomitar.
— E então? Gostou?
— Sim.
— Sabia que você ia gostar. Agora venha.
Vamos aproveitar os momentos que nos restam.
Em breve, isso não será mais preciso e poderemos nos amar livremente.
Lá vinha ele com aquela conversa de novo.
Estava claro que andava tramando alguma coisa.
— Como assim? — perguntou Jaqueline, agora mais preocupada.
— Você confia em mim? — sem opção, ela assentiu.
Também confio em você.
— Que bom...
Então, por que não me conta o que quer dizer com isso?
- Quero dizer que a vida é imprevisível.
Num momento estamos vivos e, no outro, não estamos mais.
Não é assim?
— É... Mas o que isso tem a ver com amar livremente?
— Tem tudo a ver.
A morte liberta, em vários sentidos.
Espere só para ver.
Jaqueline queria perguntar mais, porém, ele não permitiu.
Iniciou seu estranho ritual de amor, ao qual ela se submeteu com medo, o rosto ainda doído da última surra.
Inesperadamente, contudo, ele foi gentil, carinhoso, atencioso, um verdadeiro gentleman.
Decididamente, ele era bipolar.
Quando Lafayete a dispensou, o fez com gentileza, pedindo que ela chamasse Cezar para levá-la em casa.
Só saiu depois que ela se foi.
Fizera um esforço danado para conter sua violência instintiva, mas valera a pena.
Não queria correr o risco de perder Jaqueline da mesma forma como perdera as outras.
Ainda mais agora, que Sofia estava prestes a sair de seu caminho de uma vez por todas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:33 am

Capítulo 29

Na segunda-feira pela manhã, Lafayete saiu sem dizer nada.
Sofia não perguntou aonde ele ia, nem ele fez qualquer menção de lhe dizer.
Desde que brigara com ela por causa do teatro, quase não se falavam.
Sofia cedera os ingressos a dois de seus empregados, que jamais haviam ido ao Municipal na vida, e o marido nem ficou sabendo.
Mesmo que soubesse, não se importaria.
Sofia suportou em silêncio o desprezo de Lafayete.
Por intermédio de Fábio, soube que ele passara a tarde com a amante, em sua misteriosa casa no Joá.
No dia seguinte, logo na primeira hora, ele partiu.
— Ele já saiu — disse Sofia ao celular, assim que o carro dele desapareceu no portão.
Quero que o siga.
Certifique-se de que ele foi mesmo para o aeroporto.
— Pelo sinal do GPS, foi sim.
— Sozinho?
— É o que parece.
O caminho que ele tomou não é o da casa da amante, mas o do Santos Dummont.
- Aguarde até ter certeza.
Depois, ligue-me de volta.
— Está bem.
Desligaram, e Fábio pôs-se a acompanhar a trajectória do carro de Lafayete.
Ele saiu da Barra pela Linha Amarela, pegando a para a Avenida Brasil, que o levaria ao Santos Dumont.
Se fosse para Vila Isabel, teria ido por outro lado.
— Ele foi para o aeroporto sozinho, com certeza — anunciou Fábio, ligando novamente para Sofia.
— Óptimo. É agora que vamos agir.
Venha imediatamente para cá.
— Não acha que é muito cedo?
— Cedo ou tarde, não posso esperar nem mais um segundo.
Depois de muito trânsito, chegaram à frente do edifício de Jaqueline.
Sofia estudou-o cautelosamente.
Não era exactamente um prédio de luxo, mas percebia-se que tinha estilo e que os apartamentos ali não deviam ser baratos.
— Qual é o apartamento dela?
— Acho que é na cobertura.
— Você acha?
Não se certificou antes de vir?
— Não deu tempo.
— Não faz mal.
Conhecendo Igor como conheço, só deve ser na cobertura.
Ele não daria à amante nada menos do que isso.
— Como vamos fazer para entrar?
— Você vai até lá e pede para falar com ela.
Como é o nome dela mesmo?
— Jaqueline. Foi fácil de descobrir.
Lá na pocilga onde ela vivia, todos a conheciam.
— Muito bem. Vá até lá e anuncie-se como amigo de Cezar.
Diga que precisa falar com ela com urgência.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 12, 2016 9:34 am

— E você?
— Estarei logo atrás e entraremos juntos.
Foi o que fizeram.
Na portaria, Fábio se certificou de que Jaqueline morava na única cobertura do prédio.
Pediu ao porteiro que ligasse para lá.
Jaqueline, que acordava cedo a fim de mandar Maurício para a escola, logo atendeu o interfone.
— Sim?
— Dona Jaqueline, tem um senhor aqui querendo falar-lhe.
Diz que é da parte do doutor Cezar.
Jaqueline estranhou, mas não fez perguntas.
— Mande-o subir.
— Ela disse que o senhor pode subir — anunciou o porteiro.
Fábio deu-lhe um sorriso de agradecimento, mas, antes de ir em direcção ao elevador, fez um sinal para fora, onde Sofia aguardava, sem ser percebida pelo porteiro.
O homem estranhou, mas não disse nada.
A mulher era por demais elegante para representar algum tipo de ameaça.
Fábio tocou a campainha.
Sem nem mesmo olhar pelo olho mágico, Jaqueline abriu a porta, surpreendendo-se ao dar de cara com Fábio e Sofia.
Mesmo sem conhecê-la, sabia de quem se tratava.
Aproveitando-se da surpresa, Fábio a empurrou para dentro, entrando com Sofia atrás.
Jaqueline parecia fascinada.
Devia estar constrangida, mas não estava.
Naquele momento, só podia pensar que fora Deus quem mandara aquela mulher ali, não importava por que motivo, mas a mandara ali a fim de ser poupada do assassinato que fora programado para ela.
— Quem são vocês? — perguntou, embora já soubesse a resposta.
O que querem?
— Acho que isso é meio óbvio, não? — Sofia respondeu, sem rodeios.
Sou Sofia, esposa do deputado Lafayete.
Estou aqui para negociar com você.
— Não estou entendendo.
— Acho que está, mas, mesmo assim, vou deixar ainda mais claro.
Igor é meu marido e não pretendo perdê-lo para alguém feito você.
Diga-me seu preço para sumir da vida dele.
Jaqueline não respondeu.
É claro que a presença da esposa de Lafayete ali não podia significar outra coisa além de chantagem ou ameaça.
Jaqueline podia muito bem aceitar a oferta dela e não dizer nada.
Se ela morresse, ficaria com seu dinheiro e também com seu marido.
Mas não. Não era assim que ela era.
— Dona Sofia — respondeu humildemente, sem saber como lhe dar aquela notícia honesta.
Não sei como a senhora descobriu meu endereço, mas foi Deus quem a mandou aqui.
Agora foi a vez de Sofia se surpreender.
Seria possível que aquela menina quisesse brincar com ela?
— O que está querendo, garota? — tornou, irritada.
Você é cínica, retardada ou o quê?
Quero-a fora da vida do meu marido e estou disposta a pagar por isso.
E Deus não me mandou aqui para lhe fazer essa oferta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:48 am

Acho mesmo que Deus tem mais o que fazer além de se importar comigo ou com você.
O negócio é somente entre nós.
Ou você aceita o dinheiro que lhe ofereço, ou vai ser pior para você.
— A senhora não está entendendo...
— Quem não está entendendo é você.
Estou lhe oferecendo dinheiro, muito dinheiro, para você sumir da vida do Igor.
Peça o que quiser e pagarei.
Jaqueline permaneceu alguns segundos estudando a mulher, que não parecia disposta a ouvi-la.
Ao contrário, estava tão ansiosa para se ver livre dela, que talvez o melhor fosse deixar aquela história de lado e correr com ela dali.
Afinal, não seria culpa sua se a mulher fosse assassinada.
Poderia dormir tranquila, certa de que tentara alertá-la.
Mas será que poderia mesmo?
Não. Decididamente, não poderia.
Já lhe bastava a culpa por ter matado Dimas.
Não precisava se sentir responsável pela morte de mais ninguém.
Tinha que falar, ainda que Sofia não quisesse ouvir.
— O negócio é o seguinte, Dona Sofia — disparou sem rodeios —, seu marido está pretendendo matá-la.
Não sei quando nem onde, mas sei que isso vai acontecer.
— O quê?! — indignou-se Sofia, levando a mão ao coração para poupá-lo do choque.
Era só o que me faltava!
Não se enxerga, não, garota?
Acha mesmo que vou acreditar num absurdo desse?
— A senhora pode não acreditar, mas é a verdade.
O próprio doutor me falou...
— Ah! Falou, não é? E quando falou?
Numa de suas orgias, quando você se deixava montar feito uma cadela no cio?
Deixe de ser burra, moça!
Não vê que Igor usa você?
Que ele a ilude, a manipula e humilha?
Não quer se libertar de tudo isso?
Posso lhe pagar bem mais do que ele lhe paga.
Para começar, que tal um apartamento melhor do que esse, mas na sua terra natal?
De que buraco você saiu mesmo?
— Aposto como a senhora recebeu, em seu celular, uma mensagem urgente.
A senhora a leu?
— Não recebi mensagem alguma — objectou ela, que nem se lembrava das mensagens deletadas.
— Mas é verdade, eu juro!
— Digamos que seja mesmo verdade.
Por que você me alertaria de algo que só lhe favoreceria?
Com a minha morte, você só tem a lucrar.
— Posso ser prostituta, mas não sou assassina.
Não desejo o mal de ninguém.
Por um breve instante, Sofia se deixou emocionar.
Não imaginava que uma simples garota de programa fosse dotada de algum tipo de consciência ou de sentimentos.
Mesmo assim, aquilo parecia uma história fantástica, dita num delírio de embriaguez, somente para impressioná-la.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:48 am

— Não perca seu tempo, menina.
Não acredito em você.
E agora, voltemos ao que interessa — ela sacou um talão de cheques da bolsa.
Qual é o seu preço?
— Lamento, mas não estou à venda — protestou Jaqueline, entre a frustração e a revolta.
— É claro que está.
Você não se vendeu a Igor?
Pois posso comprá-la por um preço bem mais alto.
É só você me dizer quanto.
Jaqueline não respondeu, mas as lágrimas falaram por ela.
— Se eu fosse você, aceitaria essa oferta — intercedeu Fábio.
Dona Sofia está disposta a ser generosa.
Da próxima vez, você pode não ter essa sorte.
— Por quê? O que está dizendo?
Que vocês vão me matar?
— Não diga tolices — Sofia irritou-se.
Não preciso descer tão baixo para me livrar de você.
Digamos que tenho outros métodos, embora não tão generosos.
— Que métodos? — retrucou assustada.
— Você tem um irmão, não tem? — Jaqueline não respondeu.
Para começar, o que acha de ele ter a matrícula recusada em qualquer bom colégio desta cidade?
— Por favor, deixe meu irmão fora disso.
- Deixe meu marido fora disso e me esquecerei do seu irmão.
Não se iluda, garota.
Posso transformar sua vida num verdadeiro inferno.
O que posso fazer com seu irmão não representa nem um décimo do que posso fazer com você.
Não preciso matá-la.
A própria vida se encarregará de fazê-la desejar morrer — Jaqueline manteve a cabeça baixa, tremendo de medo.
— Vou lhe dar um tempo para pensar.
Digamos, até sexta-feira, que é quando Igor volta de Brasília.
— Não seja estúpida, menina — aconselhou Fábio.
A oferta é generosa, e você não tem saída.
E se disser alguma coisa do que aconteceu aqui ao doutor Lafayete, eu mesmo acabo com você.
O ar ameaçador de Fábio assustou-a ainda mais.
Precisava falar com Cezar.
Ele lhe diria o que fazer.
— Vamos, Fábio — chamou Sofia, caminhando em direcção à porta.
A mocinha tem muito no que pensar.
— Dona Sofia, não se esqueça do que lhe falei — avisou Jaqueline, superando o medo.
Tenha cuidado.
— Se eu fosse você, eu é que tomaria cuidado — advertiu Fábio.
Você é quem tem muito a perder.
Os dois saíram sem se despedir.
No elevador, Fábio segurou Sofia pelos braços, pois ela tremia dos pés à cabeça.
Nunca antes ameaçara alguém.
Nem mesmo seria capaz de levar adiante suas ameaças e jamais prejudicaria uma criança.
Jaqueline, contudo, não sabia disso.
Para ela, Sofia era uma mulher poderosa, capaz de qualquer coisa para salvar seu casamento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:48 am

Assim que Fábio deu partida no carro, outro automóvel se moveu lentamente.
Dentro dele, o homem deu um sorriso mordaz, engatou a primeira marcha e acelerou.
O homem misterioso seguia o carro de Sofia a distância, à espera de um momento oportuno para fazer o serviço.
O diabo era que, naquelas ruas movimentadas, não via chance de se aproximar do carro dela.
Não podia esperar mais.
Precisava desencavar uma oportunidade, caso contrário, o doutor e Jonas ficariam furiosos.
Prometera-lhes resolver aquele assunto antes que a sexta-feira chegasse.
Sofia, sem de nada desconfiar, não tomou nenhuma precaução além daquelas a que já estava acostumada, muito embora Fábio, por cautela, mantivesse a arma sempre pronta para ser usada.
Pelo sim, pelo não, era melhor não facilitar.
— Vamos ao shopping — anunciou Sofia, após se acalmar.
Preciso espairecer.
Aproveito para comprar um presente especial para Igor, para comemorarmos o desaparecimento de Jaqueline.
— Ela ainda nem aceitou sua proposta.
— Mas vai aceitar.
— Eu não teria tanta certeza.
— Deixe de ser pessimista.
— Digamos que não aceite.
O que você vai fazer?
— Sei lá. Depois eu penso nisso.
No momento, quero acreditar que venci.
No shopping, Sofia foi directo à sua joalharia preferida.
Comprou um lindo Rolex todo em ouro, último lançamento, que custou uma pequena fortuna.
Lafayete, ou melhor, seu casamento, merecia.
Fingindo admirar a vitrine, o homem vigiava todos os passos de Sofia e Fábio.
Viu quando ela comprou o relógio e o colocou-a bolsa.
Antes que ela saísse, o segurança olhou para os lados, certificando-se de que ela estava segura.
Não é que Fábio estivesse propriamente desconfiado, mas o aviso de Jaqueline o deixara com a pulga atrás da orelha.
Fábio caminhava com uma das mãos pousada no ombro de Sofia, numa atitude tão protectora que desestimularia qualquer ladrãozinho barato.
Mas não ele. Não era ladrão, muito menos, barato.
Era um profissional sério e competente, que nunca havia deixado nenhum cliente insatisfeito.
Já no estacionamento, o homem acelerou o passo, estucando o local para ver se havia alguém por perto.
Não podia deixar testemunhas. Não havia ninguém.
Quando Fábio e Sofia chegaram ao carro, o homem fingiu que tentava abrir a mala do veículo ao lado.
Acostumado à observação, Fábio olhou para ele discretamente e postou-se atrás de Sofia, entre os dois carros estacionados.
Fábio, contudo, não previu o imprevisível.
Aproveitando-se de que ele lhe virara as costas, o homem adiantou-se e, silencioso como um gato, desferiu um tiro à queima-roupa nas costas de Fábio.
Em seguida, acertou o motorista, que segurava a porta aberta, bem entre os olhos.
Foi tudo muito rápido.
Sofia nem teve tempo de pensar, muito menos de reagir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:48 am

Com grande agilidade, o homem virou o revólver na direcção da mulher e atirou, um tiro único e certeiro no coração.
Ela tombou sobre Fábio, já sem respirar, sem nem sequer sentir o sangue dele se misturando ao seu.
— Agradeço pelo relógio, em nome do doutor Lafayete — sussurrou ele ao ouvido dela, de forma praticamente inaudível, arrancando a bolsa de suas mãos.
Em seguida, enfiou a bolsa na mochila, ajeitou o paletó e saiu caminhando naturalmente, ziguezagueando entre os carros estacionados.
Quase no portão que dava para a rua, ouviu um grito lancinante e percebeu a correria em direcção aos três corpos caídos no chão.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:48 am

Capítulo 30

Seria um encontro nada convencional.
Alicia caminhava pela praia, de mãos dadas com Juliano, tentando não pensar na surpreendente descoberta que fizera havia pouco.
Tudo em sua mente permanecia confuso e sentimentos e sensações misturavam-se.
— Não me conformo, Juliano.
Denise é uma moça tão bonita, tão jovem.
Como foi se envolver justo com Tobias?
— Você sabe que o amor não está nem aí para essas convenções, não sabe?
— Mesmo assim...
Alicia calou-se abruptamente.
Foi como se o mundo, de uma "ora para outra, parasse de rodar.
Em sua direcção, vinha caminhando ninguém menos do que a moça de seus sonhos, de suas visões.
Ela andava devagar, chutando a areia da praia com olhar triste.
De repente, levantou os olhos e deu de cara com Alicia.
A moça a olhou com espanto, como se também a houvesse reconhecido.
Foi com estranha emoção que Alicia a sentiu aproximar-se.
A outra chegou bem perto, olhando ao redor como se buscasse uma explicação para o que via.
Estendeu a mão trémula na direcção do rosto de Alicia e o tocou levemente, retirando-a com pressa.
— Quem é você? — perguntou.
— Alicia. E você, quem é?
— Jaqueline.
— Há muito venho sonhando com você.
— Eu também.
— Você também sonha comigo?
— Sonho. Ao menos, é o que parece.
— De onde você veio?
— Daqui.
— Eu também sou daqui, mas é a primeira vez que a vejo assim, pessoalmente. Por quê?
Jaqueline deu de ombros.
Não entendia o que estava acontecendo.
— Você deve ser apenas outro sonho — constatou.
— Não. Sou real.
Pensei que, talvez, você é que fosse o sonho.
— Quero crer que também sou real.
— O que acha disso, Juliano?
Ao olhar na direcção do marido, Alicia se assustou.
Estava sozinha.
— Quem é Juliano? — Jaqueline quis saber.
— Meu marido.
Você não o viu?
— Não.
— Não é possível.
Ele estava bem aqui agorinha mesmo, parado ao meu lado.
— Não vejo ninguém. Só você.
— Você está viva ou morta?
— Viva, ora essa!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:49 am

— Então, não é um espírito.
— É claro que não.
E, por acaso, você é?
— Não... Quero dizer, acho que não.
Confesso que não sei de mais nada.
— Estranho...
Não conheço você, contudo, sinto que é parte de mim.
— Engraçado que sinto a mesma coisa.
Em que ano você nasceu?
— Em 1995. Por quê?
— O que foi que disse?
1995? Mas isso é mais de dois séculos atrás!
— Dois séculos? Ficou louca?
Em que ano você pensa que está?
— Estamos em 2219.
— O quê? Eu, hein!
Que maluquice é essa?
A imagem de Jaqueline foi dissipando-se aos poucos, apesar dos gritos de Alicia para que ela não se fosse.
Alicia estendeu a mão para segurá-la, mas os dedos tocaram o vazio.
Tentou correr atrás dela, contudo, ela havia desaparecido por completo, como se tivesse atravessado uma porta invisível.
— Espere! Jaqueline, espere!
Não se vá! Jaqueline! Jaqueline!
— Alicia! Alicia!
Aterrorizado, Juliano a sacudia com força, tentando, desesperadamente, trazer Alicia de volta à realidade.
— O quê...? — balbuciou ela. — O que foi?
— Meu Deus, Alicia, dessa vez você saiu mesmo do ar.
— Eu a vi de novo, Juliano!
— Quem? A moça de seus sonhos?
— Não foi sonho.
Muito mais do que uma visão, foi um encontro.
— Não pode ser.
Não havia ninguém aqui além de nós dois.
— Havia Jaqueline.
Ela veio andando de lá — apontou a direcção oposta da praia —, parou e conversou comigo.
Disse que se chamava Jaqueline e que também me conhecia.
Mesmo aparentando ser mais nova do que eu, e fisionomicamente diferente, pensei que ela poderia ser minha irmã perdida e perguntei em que ano ela nasceu.
Agora, o mais intrigante:
ela disse que nasceu em 1995!
— Não vejo nada de tão intrigante nisso.
Se ela nasceu em 1995, é óbvio que é um espírito.
— Ela não é um espírito.
Está tão viva quanto eu.
— Como você sabe disso?
— Ela mesma disse.
— Muitas pessoas não sabem que morreram.
Na certa, é o caso dessa moça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:49 am

— Ela não é um espírito! Sei que não é.
Senti energia de vida partindo do corpo dela.
— Você está confusa, Alicia.
Qual seria a explicação para o aparecimento dessa moça?
— Eu não sei. Talvez ela esteja vivendo em algum universo paralelo.
— Um contacto entre esses universos é algo extremamente improvável.
— Nem tanto.
Você sabe que tudo no universo é energia e tem uma frequência.
E se, em algum ponto, meu universo e o dela vibrarem na mesma frequência?
Não seria possível uma alternância entre eles?
Ou seja, eu não poderia acessar o mundo dela, e ela, o meu?
— É claro que existem outros universos contidos em outras dimensões.
Isso começou a ser estudado ainda no século 20.
Mas por que você estaria em contacto com alguém de outro universo?
E como isso seria possível?
Você não saiu daqui, disso tenho certeza.
— Pretendo descobrir todo esse mistério.
— Acho melhor esquecer esse assunto ou procurar um médico.
— Não estou louca, Juliano.
— Eu não disse isso.
Mas essa obsessão por sua irmã morta pode estar lhe causando algum tipo de distúrbio.
— Não está. Sonho com essa moça e a vejo desde muito antes de saber da existência de Bruna.
— Pode ser coincidência.
— Você sabe que isso não existe.
Pense comigo, Juliano.
Podemos abrir uma janela do tempo quando visualizamos o futuro.
Quantas pessoas você conhece que têm premonições?
De onde elas tiram essas imagens?
— Tiram de uma das muitas realidades coexistentes, que, em razão de sua especial sensibilidade, conseguem acessar; como se abrissem uma janela para outra dimensão, que vive o futuro, e espiassem através dela.
Mas acessar é uma coisa.
Misturar-se a ela é outra bem diferente.
— Você não entende.
Quando se acessa outra realidade, ela não existe em um plano imaginário ou virtual.
É concreta, real, embora não perceptível pelos sentidos físicos no plano em que vivemos.
Ele parou por alguns minutos, a mão no queixo demonstrando que reflectia.
Olhou para ela ainda em dúvida, mas acabou admitindo:
— Pensando bem, pode ser.
Poderia até ser uma explicação bem razoável.
Contudo, partindo do princípio de que nada na vida existe sem um propósito, fico imaginando que propósito haveria nesse intercâmbio entre vocês.
— Essa é a única explicação para ver alguém que está vivo e nascido em 1995.
— Se é assim, lá do outro lado, essa moça deve estar com as mesmas dúvidas.
— O nome dela é Jaqueline.
E creio que as dúvidas dela devem ser piores do que as minhas, porque, há duzentos anos, as pessoas eram muito cépticas.
O mundo ainda vivia um contexto de corrupção, mentiras, egoísmo, violência.
Poucas pessoas estavam abertas aos novos conhecimentos espirituais.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:49 am

A maioria ainda permanecia apegada aos valores mesquinhos de nossa natureza primitiva, e o conhecimento espiritual era rejeitado por muitos.
Havia até guerras de religião.
Não era como hoje, em que a única religião é o amor, independentemente da forma como esse amor é cultuado e disseminado.
Deus está em toda parte para nós, em qualquer forma de manifestação, ao passo que, no século 21, que é quando Jaqueline deve estar, a humanidade separava a força divina em várias formas, praticamente humanizando-a e atribuindo-lhe sentimentos muito semelhantes aos das próprias pessoas.
— Nisso, você tem razão.
No entanto, por mais que, hoje, a física quântica tenha comprovado a existência de outros universos e outras dimensões, ninguém conseguiu ainda empreender uma viagem entre eles.
— Não em corpo físico.
Mas em corpo astral ou mental, as limitações da matéria se dissipam.
A experiência é individual, junto de faculdades específicas da mediunidade, inerentes a cada um.
Lembre-se de que eu vi Jaqueline; você, não.
E ela também não viu você.
De alguma forma, nós duas temos uma ligação especial e conseguimos nos unir na mesma sintonia vibracional, aproximando nossos dois universos e fazendo-os se tocarem a partir de nós.
Somos o ponto de intercessão entre eles e, por isso mesmo, visível apenas por nós duas.
— Até que sua teoria faz bastante sentido.
Levando em consideração o salto quântico, sabemos que ele ocorre quando um eléctron ganha energia e salta de um nível atómico para outro mais alto.
No momento do salto, o eléctron aparentemente desaparece, não pode ser visto entre as duas órbitas.
Daí a conclusão de alguns físicos de que ele só pode estar em uma dimensão paralela, à qual nossos olhos, limitados por um mundo tridimensional, não possuem acesso.
— E...?
— E vejo aí duas possibilidades:
pode ser que vocês sejam duas vivendo em dimensões paralelas, como podem ser a mesma pessoa, vivendo realidades distintas.
Alicia teve um sobressalto.
Não havia pensado nisso, mas bem podia ser uma possibilidade.
Como faria para descobrir quem era aquela Jaqueline, nascida em algum lugar do Brasil, no ano de 1995?
Precisava colectar mais dados.
Precisava compreender por que ela e Jaqueline, de vez em quando, entravam numa espécie de intercessão entre as dimensões e se encontravam.
Ela daria tudo para saber como Jaqueline estaria se sentindo naquele exacto momento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:49 am

Capítulo 31

Se havia alguém capaz de entender o que se passava com Alicia, esse alguém era seu pai.
Celso era um estudioso não apenas da ciência genética, mas também da física e da química.
Gostava de tudo o que aproximasse o homem dos mistérios da natureza.
Não foi por outro motivo que Alicia foi procurá-lo, levando-lhe imensa alegria por vê-la em sua casa.
— Você não sabe como fico feliz de vê-la aqui — entusiasmou-se Celso.
Sinal de que você me perdoou.
— Não sei se perdão é a palavra certa.
Ainda estou tentando compreender.
— Você sabe que tudo o que fiz foi por amor a vocês.
A morte de Bruna foi uma fatalidade.
— Você não acredita em fatalidades tanto quanto eu.
Mas não foi exactamente para falar de Bruna que vim procurá-lo.
— Não? — Celso espantou-se.
— Não. Na verdade, tenho algumas perguntas a lhe fazer.
Celso ergueu as sobrancelhas, curioso.
Aos poucos, Alicia foi narrando tudo o que se passara entre ela e Jaqueline.
Ele ouviu em silêncio, surpreendendo-se a cada passagem do relato.
— Eu já imaginava que essa podia ser uma possibilidade — confessou Celso, quando Alicia terminou.
— Mas por que ela aparece para mim?
Tem alguma ideia de quem pode ser? — Celso levantou os ombros, em dúvida.
— Juliano diz que posso ser eu mesma, numa dimensão de outro tempo.
— Essa explicação é bem razoável.
Jaqueline pode ser seu alter ego do passado, vivendo em um tempo em que você, em outra vida, já viveu, só que em sua própria história.
— Ou seja, ela é meu passado vivo.
— E se você fizer uma regressão, é bem capaz de se lembrar de uma encarnação passada em que se chamou Jaqueline e era exactamente como essa moça.
— Embora confusa, essa é uma ideia bastante sensata.
Só o que não entendo é por que ela aparece para mim, e eu para ela.
— Vocês partilham um ponto comum, uma intercessão inter-dimensional, uma faixa vibracional, em que as ondas mentais de cada uma colidem e se interceptam, permitindo o contacto do corpo mental de ambas.
É como se duas pessoas se encontrassem em um campo neutro na fronteira entre dois países.
— Se é assim, isso quer dizer que Jaqueline não é Bruna.
— Eu já lhe disse que Bruna morreu.
Acredita agora?
— Acho que sim.
Mas será que Jaqueline não é Bruna em uma encarnação passada?
— Pode ser.
Como pode ser qualquer pessoa, inclusive você.
— Como vou descobrir?
— Fazendo uma regressão.
Se você conseguir se lembrar de alguma vida como Jaqueline, essa vida não será aquela em que Jaqueline está vivendo agora, mas apenas uma lembrança do que você, nesta dimensão, já viveu.
— E não será o que eu vivi exactamente igual ao que ela vive?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:49 am

— Pode ser que sim, pode ser que não.
As possibilidades são infinitas, porque cada eu vive sua própria história, modificando-a conforme suas escolhas.
Talvez a Jaqueline da outra dimensão faça escolhas diferentes das que você fez quando viveu no século 21, levando a dimensão dela a dissociar-se da linha de acontecimentos até agora coincidentes, para criar um futuro diverso do seu.
— Quer dizer que é possível modificar o passado?
— Seu passado, não.
Ele já aconteceu na sua linha do tempo, já faz parte da sua história, das suas lembranças remotas.
Mas você pode alterar o futuro de alguém que vive hoje o que você viveu no passado, só que em outra linha do tempo, vivendo outra história e que, dali para a frente, guardará lembranças diferentes das suas.
— Isso, partindo do princípio de que nós duas somos a mesma pessoa.
— Não é que sejam a mesma pessoa.
São fragmentos da mesma centelha.
Quando se diz que somos todos um só, essa é uma afirmação literal.
Quando o universo começou seu actual processo de expansão, após o Big-Bang, permitiu que tudo o que nele existe fosse criado a partir da mesma matéria original.
Então, estamos todos interligados, em qualquer parte, tempo e dimensão.
Somos partes momentaneamente fragmentadas de um mesmo todo.
Cada um de nós é como uma onda luminosa, que, ao atravessar um prisma, se divide em vários feixes coloridos e pode assumir diversas trajectórias.
A partir de sua origem, podem seguir unidos para depois se afastar uns dos outros e convergir em determinado ponto, seguindo como se fossem um só por toda a vida ou depois se dissociar novamente, como podem seguir em linhas paralelas e idênticas, sem nunca se cruzar.
Isso quando não sofrem algum tipo de refracção, desviando-se do percurso original, e depois outra refracção, e outra, e mais outra.
Daí podem retornar à linha inicial, ou a outra, paralela ou perpendicular, aproximando-se ou afastando-se da linha inicial indefinidamente.
— Que refracção seria essa?
— As escolhas.
Quando algo muda nossa visão do mundo, modificamos também nossas escolhas.
— Você se refere ao nosso livre-arbítrio?
— Ou à ilusão que temos dele.
Deus jamais será surpreendido por nada que façamos.
Ele sabe tudo a nosso respeito, conhece nossos recantos mais secretos, aqueles que procuramos ocultar até de nós mesmos.
Mas apenas Ele sabe disso, assim como alguns poucos espíritos de elevadíssimo grau de espiritualização.
Não é coisa para a aura que circunda nosso planeta.
Os que sabem nada dizem.
Então, para o resto de nós, criaturas imperfeitas ainda a caminho da perfeição, o livre-arbítrio funciona como instrumento de progresso, já que é por intermédio dele que vamos aperfeiçoando nossas relações com nós mesmos e com o mundo.
Eu não tenho conhecimento da jornada evolutiva que Deus traçou para mim, nem da sua, nem daquela de sua mãe, nem da de ninguém.
Logo, tudo aquilo que eu fizer, ou você fizer, ou qualquer outra pessoa fizer, será recebido como fruto da vontade individual, que, em última análise, reflecte a vontade de Deus.
E se Ele permite que, muitas vezes, nos demos mal, é porque é dessa maneira que aprenderemos a fazer escolhas melhores.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:50 am

— Os espíritos que nos auxiliam sabem disso?
— A maioria, não.
Do contrário, não perderiam tempo tentando nos aconselhar nem nos intuir coisas boas.
Os espíritos que atuam com o planeta, por mais iluminados que sejam, ainda não se adiantaram o suficiente para conhecer os caminhos do livre-arbítrio, ou da ausência dele.
Ninguém sabe tudo o que irá acontecer, por isso, as escolhas são importantes.
Deus quer que aprendamos a trilhar, sozinhos, um caminho de flores em lugar de espinhos.
E somente nos espetando é que aprenderemos, realmente, a evitar os espinhos.
Se alguém sempre nos disser o que eles são ou onde estão, quando nos virmos sozinhos, fatalmente pisaremos neles.
Entenda uma coisa, Alicia:
o conhecimento da verdade sobre nós, nosso passado, presente e futuro é atributo de muito poucos, mas muito poucos mesmo.
Talvez não se possa nem dizer que sejam espíritos, mas energias que se encontram tão purificadas que prescindem até mesmo de forma física, existindo como energia pura.
— Certo, pai, entendo tudo isso.
O que não entendo é o porquê.
Partindo do princípio de que o universo não dá passos inúteis, qual a utilidade de eu conhecer o passado e ela, o futuro?
— Alguma coisa na vida de ambas pode ser modificada.
Lembre-se de que, para você, ela vive no passado e, para ela, você vive no futuro, mas, para cada uma, o que se vive é o presente.
O que ficou para trás na dimensão de cada uma de vocês não pode ser modificado, mas o que é futuro, tanto para você quanto para ela, é mutável em razão de suas escolhas.
— Foi por isso que nos cruzamos?
Para modificarmos alguma coisa?
— Provavelmente.
Quando alguém tem uma premonição ruim, isso não acontece para atiçar sua curiosidade nem para fazê-la sofrer.
Se a alguém foi dada a oportunidade de ver o mal que se aproxima, é porque o indivíduo tem a chance de modificá-lo e transformá-lo num bem.
É por isso que tudo pode ser modificado.
Em cada dimensão, o que se vive é o presente, independentemente da época que se vive em outra.
— Se eu posso acessar o passado através de uma regressão, posso me lembrar do que aconteceu na minha dimensão e evitar que o mesmo se repita na dimensão de Jaqueline.
É isso?
— Sim.
— Tudo bem.
Mas o que ela pode fazer por mim?
Ela não tem conhecimento do meu futuro.
— Procure não se preocupar tanto com o que ela pode fazer por você.
Concentre-se no que você pode fazer por ela.
Jaqueline é de uma época difícil.
Se você diz que ela tem por volta de vinte anos e que nasceu em 1995, então, está vivendo no ano de 2015, actualmente.
— Por aí.
— O século 21 foi particularmente complicado.
Representou o século da mudança, da separação do joio do trigo, quando muitos espíritos tiveram a oportunidade de reencarnar para tentar uma modificação que lhes permitisse continuar habitando este planeta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:50 am

Por isso se sucederam tantas barbáries e tantos absurdos.
Muitos, ainda empedernidos, desperdiçaram sua última chance em busca da satisfação dos prazeres da matéria, priorizando o orgulho, a vaidade, o dinheiro, o poder.
A corrupção, a mentira, a ambição e o egoísmo imperavam, secundados pela inveja, a arrogância e a vingança.
Sentimentos como perdão, amizade, solidariedade, honestidade e amor ficaram restritos aos poucos, dispostos a se ver e se transformar.
Daí porque a população mundial foi paulatinamente diminuindo; menos crianças foram nascendo, porque já não era interessante ter muitos filhos; pessoas pereceram em desastres naturais e guerras.
Muitos espíritos levados daqui perderam o direito de reencarnar na Terra, seguindo com seres iluminados em direcção a um planeta mais primitivo, onde formaram as primeiras raças, que iniciaram outra humanidade.
Tal qual aconteceu com a Terra há milénios, esses seres, muitos dotados de inteligência extrema, lá estão para auxiliar o progresso intelectual do mundo, em troca de uma nova oportunidade de desenvolvimento moral.
Eles habitarão e povoarão esse novo mundo por séculos e séculos, assim como nós, expulsos de planetas mais evoluídos, povoamos a Terra.
— Como posso mostrar isso a Jaqueline?
E de que adianta apenas uma pessoa conhecer essa verdade?
Nem sei se ela acreditará em mim.
— A semente precisa ser lançada em algum lugar.
Há outros que, como você, estão em contacto com pessoas de outras dimensões, mostrando a elas um futuro melhor.
Talvez, assim elas se esforcem para alcançá-lo.
— Não seria bom, também, mostrar a alternativa?
— Quem garante que ninguém está fazendo isso?
Você não sabe se há pessoas de dimensões caóticas tentando, desesperadamente, alertar seus irmãos do passado para que eles não repitam os mesmos erros no futuro.
— É verdade. Obrigada, pai.
Sabia que você poderia me esclarecer esse assunto.
— Eu é que tenho que agradecer à vida pela sua dúvida.
Só assim você veio me procurar.
— Pai...
— Não precisa dizer nada.
Não estou lhe fazendo nenhuma cobrança.
Quero apenas que você saiba o quanto a amo.
A você e a Denise, assim como amei e amo Bruna, onde quer que ela esteja.
— Você é uma pessoa muito especial, sabia? — Alicia confessou, não resistindo a abraçá-lo.
Não dá para ficar com raiva de você.
— Então, não fique.
— Não estou. No fundo, Denise é quem tem razão.
Já passou e não vale a pena a gente remoer o que não pode ser modificado.
Vou me concentrar em Jaqueline, por quem, talvez, ainda tenha a possibilidade de fazer alguma coisa.
— Uma decisão inteligente, bem ao seu feitio.
Inteligente e altruísta, bem de acordo com a boa pessoa que você é.
Alicia sorriu e beijou o pai com carinho.
Não poderia mesmo ficar zangada com Celso.
Talvez sua dificuldade estivesse em aceitar o passado e conviver com ele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:50 am

Se era assim, envidaria todos os esforços para perdoar e ser perdoada; para modificar os males sujeitos à transformação e aprender a conviver com aqueles sobre os quais não tinha nenhuma influência.
Ela tentaria deixar o passado imutável nos registos da memória e concentrar-se em ajudar quem ainda tinha a possibilidade de ser ajudado.
 Quanto a Bruna...
Não tinha mais dúvidas de que ela estava morta.
Essa certeza funcionou como um alívio, um sentimento de liberdade que fez sua alma flutuar.
Não conhecera Bruna, mas sentia por ela um grande afecto, algo que encontraria explicação nos mistérios ocultos das encarnações passadas.
 Com a alma livre, Alicia agradeceu a Bruna pela vida que lhe dera.
Por ela, não podia fazer mais nada agora.
Por Jaqueline, sim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:51 am

Capítulo 32

A rua era escura e suja, uma espécie de beco encravado no centro da cidade.
Por ali transitavam prostitutas e viciados pessoas acostumadas a todo tipo de sordidez.
A calçada, quase inexistente, era ladeada por sobrados antigos e decadentes.
Alguns, em ruínas, ostentavam apenas a frente de tijolos nus, uma casca oca guarnecendo terrenos entulhados de pedras e lixo.
Um ruído de coisa se arrastando partiu de uma das portas descascadas e manchadas.
A porta, empenada, arranhou o chão ao se abrir, produzindo um som de atrito.
De lá saiu uma figura singular:
um meliante todo vestido de preto, encolhido num casaco de moletom, aspecto selvagem, olhos de quem sai na noite a procura de diversão e sangue.
Era um ser maligno, com certeza.
O homem caminhou pela rua com a segurança de quem sabe aonde está indo.
Dobrou a esquina, gingando o corpo à moda da malandragem.
Mais à frente, parou diante do que parecia ser um ponto de ônibus, aguardou a chegada do colectivo e entrou.
Assobiando um funk da moda, seguiu até um bairro não muito distante, saltando numa rua tranquila, cheia de casas e condomínios bem construídos.
Um bairro residencial de classe média.
Seguindo as sombras, o homem parou na calçada oposta à de um edifício alto, observando o movimento de moradores e visitantes.
Câmaras de segurança afixadas na portaria e nas grades em volta do prédio desestimulavam a entrada de pessoas indesejáveis, mas ele não precisava entrar.
Bastava aguardar que a pessoa esperada saísse.
Por volta das sete horas, ela saiu.
Foi nesse momento que Alicia teve um sobressalto, sentindo medo no sonho.
O medo era tão real e visível, que ela não teve dúvidas.
Estava diante dela mesma, em outro corpo, outra vida, outra encarnação.
Sentia que era ela, embora com outra aparência.
Sabia que não se tratava daquela Jaqueline das visões, mas da projecção de outra vida sua, uma vivência retirada do corpo subtil que retém a memória das vidas passadas.
Ela vinha de roupa de ginástica e ténis, os cabelos presos em um rabo de cavalo gracioso, sem levar nada nas mãos.
Assim que saiu do campo de visão das câmaras de segurança do prédio, o vulto a abordou, segurando-a pelo braço e praticamente arrastando-a pela rua.
Com o susto, Jaqueline tentou reagir, mas um soco na lateral do corpo a deixou sem ar, dando-lhe a impressão de que o agressor havia quebrado uma de suas costelas.
Ela se curvou com a dor, mas ele a susteve, grunhindo entre os dentes:
— Endireite-se.
Até no último inferno, Jaqueline reconheceria aquela voz.
Com as mãos ainda na lateral do corpo, ela ergueu o tronco e fitou o homem nos olhos.
— Dimas — balbuciou.
Você não está morto?
— Eu pareço morto, cadela?
Em seu sono, Alicia se agitava, sem que Juliano, placidamente adormecido a seu lado, percebesse alguma coisa.
Seus lábios se entreabriram num sussurro inaudível e aterrorizado pelo reconhecimento:
— Tobias...
No sonho, Jaqueline estacou, paralisada de terror.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 13, 2016 9:51 am

Tentou tirar o braço, mas a força de Dimas sobrepujava a sua.
Sem contar a dor, que a impedia de produzir movimentos rápidos.
— O que você quer?
— Vingança.
Sem dizer mais nada, Dimas saiu arrastando Jaqueline em direcção ao fim da rua, onde um terreno baldio e abandonado serviria muito bem a seus propósitos.
Ela ameaçou gritar, contudo, ele espetou a ponta de uma faca bem na altura de seu fígado.
Uma pequenina gota de sangue brotou do minúsculo furo que a lâmina produziu na pele da moça, desestimulando-a de lutar.
— O que vai fazer comigo? — ela choramingou.
— Nada. Se você não gritar, vai terminar logo.
Se gritar, corto seu corpo aos pouquinhos.
Certa de que ele pretendia estuprá-la como forma de vingança, ela se deixou conduzir.
No terreno abandonado, o mato crescia à vontade, e alguns ratos fugiram à passagem dos dois.
Cada vez mais assustada, ela pensou em implorar que ele a deixasse, mas, como conhecia Dimas muito bem, sabia que aquilo só serviria para excitá-lo ainda mais.
O jeito era aguentar a dor e a humilhação, nada que Dimas já não houvesse feito e a que já não estivesse acostumada.
Mesmo assim, um impulso a fez resistir.
Ver-se ali, subjugada pelo homem que ela detestava e pensava ter matado, fez seu instinto despertar fazendo-a lutar pela sobrevivência.
Ela se contorceu o quanto pôde, tentando libertar-se do agressor. Inútil.
Com facilidade, Dimas a dominou e a estuprou quantas vezes conseguiu.
Depois, saiu de cima dela, encarando-a com ar de vitória e satisfação.
— Gostou? — perguntou ele, mordaz.
Sentiu a minha falta?
Sou melhor do que seu doutorzinho e aquele borra-botas do capacho dele?
Jaqueline não respondeu.
Apertava o corpo doído, simplesmente à espera de que ele se desse por satisfeito e partisse.
Dimas, contudo, parecia se divertir.
Caminhou ao redor dela, passou por cima de seu corpo, fingindo que pisaria em seu estômago, abaixou-se para puxar o cabelo dela e morder-lhe os lábios.
Tudo isso ela suportou sem se queixar, na esperança de que ele, tão logo satisfizesse sua sanha vingativa, a deixasse em paz.
Mas, quando a faca reluziu diante dela, Jaqueline experimentou o que era, realmente, medo.
Ele se sentou sobre ela, prendendo-lhe os braços com os joelhos.
As pernas livres não conseguiam impedir que ele a contivesse, dando-lhe a oportunidade de agir como queria.
Ele passou-lhe a faca pelo rosto, mesmo quando um pequeno corte tirou sangue de sua face.
— Então? Está gostando?
— Dimas, por favor...
— Que favor?
O mesmo que você fez quando me esfaqueou?
— Foi sem querer. Eu estava com medo.
— Medo faz bem.
A gente mata ou morre por causa dele.
Só que eu não morri.
— Me perdoe, Dimas, pelo amor de Deus!
Maurício depende de mim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70114
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 6 de 13 Anterior  1, 2, 3 ... 5, 6, 7 ... 11, 12, 13  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum