A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:50 am

Capítulo 49

Aflito por notícias, Celso ouviu o bip do celular, anunciando a entrada de uma nova mensagem: Tarde demais.
Depois, veio uma outra, que parecia prosseguimento da primeira:
Ela não sabe o que eu fiz depois.
Celso não resistiu.
Ligou para Tobias, que continuou sem atender.
Sem saber o que fazer, ligou para Alicia também.
Assim como Tobias, ela não atendeu.
Mais tarde, foi à sua casa.
Juliano o recebeu com a usual cordialidade.
— E Alicia, onde está? — indagou Celso.
— No banho.
— Ela não quer falar comigo, não é?
— Por favor, Celso, tente entender.
Ela está magoada.
Ela vinha superando bem todas essas revelações, mas saber que Tobias é pai dela foi um tremendo choque.
— Eu sei. E é por isso que preciso falar com ela.
Alicia entrou na sala pouco depois.
Não lhe deu o costumeiro beijo nas faces.
Em vez disso, sentou-se numa poltrona mais afastada e o encarou.
— Não quero conversar com você — ela foi directa.
Não agora.
— Minha filha, por favor, deixe-me explicar — suplicou ele.
— Tobias mentiu? — ele meneou a cabeça.
Então, já está tudo mais do que explicado.
— Não é bem assim.
Há coisas que você não sabe...
— Imagino. Mais segredos obscuros.
— Não era você que queria revolver o passado? — retrucou ele, com esperança.
Pois o passado veio à tona, da forma como você tanto desejou.
Por que quer evitá-lo, agora que ele se deu a conhecer?
— Não quero evitá-lo.
Quero apenas um tempo para digerir as coisas.
— Quanto tempo?
— Não sei.
De nada adiantaram as súplicas de Celso.
Decidida a não tocar mais no assunto, Alicia permaneceu junto a ele, ostentando um ar glacial que o desestimulou.
Ela fazia questão de demonstrar frieza.
Desse dia em diante, por mais que Celso tentasse, Alicia não se abria.
Falava com ele formalmente, como se falasse com um estranho a quem devia respeito.
Nada de demonstrações de afecto nem sinais de compreensão ou perdão.
Para Celso, foi difícil esconder a situação de Eva, mas conseguiu, graças, em parte, ao silêncio de Alicia.
Ela não falava com o pai nem com a mãe.
Disposta a não magoar Eva ainda mais, optou por silenciar.
Celso seguiu sem vê-la até o dia em que Denise teve alta do hospital.
Ele e Eva compareceram logo cedo, a fim de levá-la para casa.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:51 am

— Vou ficar com Alicia por uns tempos — anunciou Denise.
— Por favor, minha filha, venha para casa — ele quase implorou.
Lá, posso cuidar melhor de você.
— O que você pode fazer, eu também posso — objectou Alicia.
— Deixe-a ir — aconselhou Eva.
Melhor na casa de Alicia do que na de Tobias.
À simples menção daquele nome, Alicia sentiu um calafrio.
Discretamente, olhou para Denise, que mantinha os olhos no chão, evitando encarar qualquer um deles.
— Vou passar em sua casa mais tarde, mãe — avisou Alicia.
Para pegar umas roupas para Denise.
— É claro, minha filha.
Vou separá-las para você.
— Óptimo. Então, vamos?
— Vamos.
De mãos dadas com a irmã, Denise saiu do hospital.
— Vou acompanhá-las até em casa — disse Celso.
— Não precisa — objectou Alicia.
Sei o quanto você deve estar ocupado no trabalho.
— Não... — ele começou a protestar.
— Alicia tem razão, pai — concordou Denise.
Não se preocupe comigo.
Preocupe-se com o seu trabalho. Tchau.
Celso não tinha mais o que dizer.
Ao lado de Eva, observou--as entrarem no carro de Alicia.
— Por que será que tenho a impressão de que elas queriam se livrar de você? — considerou Eva.
— Queriam? — ele tentou disfarçar. — Não creio.
Elas não têm motivos para isso.
Da janela do carro, Denise percebia a frustração de Celso.
— Ele está arrasado — observou ela.
— Sei que está — concordou Alicia.
— Será que é certo o que estamos fazendo?
Não devíamos falar com ele?
— Por enquanto, não me sinto com ânimo para conversar sobre isso com ele.
— Deve ter sido difícil descobrir que ele não é seu pai.
— Isso não tem nada a ver.
Descobrir que Tobias é meu pai biológico não altera em nada o que sinto por eles.
Meu pai é quem me criou, quem me deu amor.
Tobias é um estranho para mim.
— Um estranho por quem estou apaixonada.
— Isso, sim, é um problema.
— Agora compreendo por que ele olhava tanto para você.
Cheguei até a ficar com ciúmes.
— Ciúmes de mim?
Ora, Denise, francamente!
— É verdade.
Eu, achando que ele estava interessado em você, e ele admirando a filha que nunca pôde conhecer.
— Não sou filha dele — protestou, aborrecida.
Meu pai se chama Celso.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:51 am

— Tudo isso é muito esquisito — retrucou ela, ignorando os protestos de Alicia.
Minha irmã, filha do meu namorado.
— Ele ainda é seu namorado? — surpreendeu-se.
— Não sei... Não deveria, mas eu o amo.
Não sei o que fazer.
— Ele tem procurado você?
— Ele ligava todo dia para o hospital, para saber como eu estava, mas nunca pediu para falar comigo.
Sempre falava com a enfermeira de plantão.
— Covarde.
— Ele está escabreado, Alicia, e com razão.
Pudera, depois do que ele fez...
— Ele mentiu, Denise.
Não tem medo de que ele a engane?
— Não. Tenho medo de não conseguir superar a mentira.
Seguiram sem se falar, cada qual embrenhada nos próprios pensamentos.
Mais tarde, acomodada no quarto de hóspedes, Denise pensava em Tobias.
Queria falar com ele e não queria.
Os dias foram se passando, e nada de ele a procurar.
Cada vez que o telefone tocava, ela se sobressaltava, achando que poderia ser ele.
Nunca era. O celular dela também se mantinha quieto, compactuando com o silêncio dele.
Alicia, por outro lado, dava graças a Deus por ele não aparecer nem ligar.
Quanto mais ausente ele se fazia, mais Denise perceberia que o amor dele não era de verdade.
Sabia que confundia os sentimentos, fazendo reflectir sobre a irmã a antipatia que sentia por Tobias, mas não podia evitar.
Seu pai biológico era diferente do pai que a criara e, o que era pior, era responsável pela morte de sua outra irmã.
Pensar em Bruna lhe trouxe ainda mais dúvidas.
Ela podia não gostar de Tobias, mas tinha que reconhecer a veracidade das palavras dele.
Ela e Bruna, provavelmente, haviam sido inimigas mortais em outras vidas, optando por nascerem xifópagas para ver se conseguiam superar as adversidades.
Ainda com esse pensamento, adormeceu.
Era tarde da noite, quase de madrugada, quando seus olhos se fecharam, despertando em sua mente as lembranças que atendiam ao chamado dos sonhos.
Alicia vinha caminhando por um imenso gramado, de um verde tão vivo, que mais parecia um tapete novo e felpudo.
Ao longe, uma espécie de cortina branca esvoaçava ao vento, atraindo seus passos.
À medida que se aproximava, notou um jardim cultivado num círculo, como uma ilha de flores em meio a um mar de grama.
A cortina esvoaçante não era cortina, mas um tecido finíssimo, cor de pérola, suavemente ondulado pelo sopro ameno da brisa.
O tecido fazia parte de um vestido muito simples, mas que emitia raios perolados cada vez que o sol incidia sobre ele.
Já bem próxima do maravilhoso jardim, parou admirada.
O vestido foi ganhando forma, as pontas esvoaçantes se juntaram, delineando a silhueta de uma mulher abaixada, de costas para ela, colhendo flores coloridas e perfumadas.
Antes que Alicia tivesse tempo de perguntar onde estava e quem era ela, a moça se virou, exibindo um rosto bem delineado, bonito pela quantidade de luz que emanava dele.
Não era propriamente uma luz, mas uma aura cristalina que pairava ao redor dela.
A moça sorriu.
Com um punhado de flores nas mãos, levantou-se, estendendo-as para Alicia.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:51 am

— Pegue — estimulou. — Colhi para você.
 Alicia pegou.
Eram flores que ela nunca havia visto, tão lindas que pareciam feitas à mão.
 — Obrigada — agradeceu.
Mas quem é você?
Que lugar é esse?
 — Você não se lembra mais de mim?
Fala tanto no meu nome e não sabe quem eu sou?
 O rosto da moça não lhe era totalmente estranho.
Havia, em seu sorriso, uma familiaridade que ela não sabia bem precisar.
 — Você não é Jaqueline — observou.
 — Muito esperta.
 — Sei que a conheço — afirmou.
Mas de onde?
 — Venha aqui.
 Alicia foi.
Chegando à frente dela, a moça mexeu no que parecia ser um bolso interno do vestido, dele retirando um espelho pequeno, todo trabalhado em prata.
Ainda sorrindo, ela ergueu o espelho bem diante dos olhos de Alicia.
A imagem nele reflectida lhe causou uma espécie de choque.
Ela olhou do espelho para a moça e, em ambos os casos, o que via era sua própria imagem.
 — Bruna! — exclamou.
É você mesma?
 — É claro que sou.
 — Como não percebi antes?
Você é igualzinha a mim.
 — Somos gémeas, lembra-se?
 — Mas você morreu ainda bebé.
Como pode ter crescido e ficado com a minha cara?
 — Você sabe que eu não morri.
Posso ter desencarnado ainda bebé, mas meu espírito já viveu muitas vidas, assim como o seu.
E você faz ideia de quantas vidas desperdiçamos, insistindo em um ódio que não tinha razão de ser? — ela meneou a cabeça.
— Muitas. E foi por isso que nós duas resolvemos reencarnar como xifópagas, para ver se dávamos um jeito em tanta animosidade.
 — Mas você morreu logo.
Nem tivemos a chance de nos conhecer.
 — Quando soube de mim, o que você sentiu?
 Ela pensou por alguns minutos, até que respondeu:
 — Pena, pesar e... um inexplicável amor.
 — Então deu certo, viu?
 — Você morreu para que eu vivesse. Por quê?
 — Porque queria provar a mim mesma que sou capaz de renunciar em nome do amor.
Em nossa última encarnação, deixei primeiro a vida física, mas continuei presa ao seu magnetismo.
Eu a odiava, considerando-a culpada por todo o meu infortúnio.
Aos poucos, comecei a perceber que meu ódio não passava de ilusão e pensei em mudar.
Contudo, quando nos reencontramos no mundo espiritual, senti que fraquejava.
Tinha medo de que, outra vez na matéria, livre das lembranças, todo o meu ódio retornasse.
Mas eu já estava cansada.
Não queria mais odiar você.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:51 am

Foi então que tive a ideia de reencarnar grudada em você, como uma forma de dizer a mim mesma que eu sou capaz de amar e de renunciar em nome desse amor.
Do meu coração, partiu o sangue que a alimentou durante um breve período de tempo, até que a separação me trouxe de volta e deu a você a vida.
Era o que eu queria e você aceitou.
— Mas por que Tobias?
— Alguém tinha que fazê-lo, não tinha?
E como ele bem observou, ele foi o instrumento mais adequado na época.
É por isso que venho pedir-lhe para não o odiar.
Tobias sofreu muito com tudo isso.
Ele não teve escolha.
— Me desculpe, Bruna, mas acho que a gente sempre tem uma escolha.
— É verdade. Mas nem sempre se escolhe entre um bem e um mal.
Às vezes, podemos optar entre dois bens ou dois males.
Quando isso acontece, o que você escolhe?
— O bem maior ou o menor mal.
— Viu só aonde quero chegar?
— Tudo bem, entendi.
Tobias escolheu o menor mal.
E qual era a outra opção?
— Isso, você vai ter que esperar ele dizer.
Eu não tenho esse direito.
— Por que está me contando isso agora?
— Tudo tem um tempo de maturação.
Nem antes, nem depois, mas cada coisa há de vir no momento certo.
Se você colher a fruta antes, vai comê-la verde e terá dor de barriga.
Se colher depois, vai comê-la estragada e qual será o resultado?
Dor de barriga também.
— Certo, Bruna, estou entendendo.
Você quer que eu perdoe Tobias, não quer?
— Quero que você esqueça o passado.
Passou, não volta mais.
Aproveite o presente, não perca tempo sofrendo por coisas sobre as quais você não tem domínio algum e não pode modificar.
Tobias nem se lembra de Dimas.
Você o está punindo por algo que ele desconhece.
— Mais ou menos.
No fundo, a alma sabe.
— Tudo isso está registado em suas lembranças remotas.
Ele não precisa delas para prosseguir sua jornada.
E você também não.
— Se não precisasse, não me recordaria.
Não é verdade que tudo tem um motivo?
— E qual acha que é o seu motivo?
— Perdoar? — sugeriu, a contragosto.
— Como você mesma disse, a alma sabe. Perdoe.
Afinal, você também não foi nenhuma santinha.
— Vou pensar.
— Você já teve muito tempo para pensar.
Faça isso por mim.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:51 am

Não, faça por você mesma, mas porque gosta de mim.
Você gosta de mim, não gosta?
— Você sabe que sim.
Sinto uma ligação muito estreita com você.
— Nós sempre fomos muito próximas mesmo.
Infelizmente, nem sempre como amigas.
Na maioria das vezes, como inimigas.
Até que, na nossa última encarnação, resolvi ser sua mãe.
— Você foi minha mãe? — surpreendeu-se.
— Fui mãe de Jaqueline.
— Então é isso. Está explicado.
— Muitas coisas ainda carecem de explicação, mas não são necessárias nesse momento.
Você não precisa se preocupar com o passado.
Esqueça, perdoe, viva.
— Vou tentar. Prometo.
Bruna segurou a mão de Alicia, a mesma em que ela segurava as flores.
— Lembre-se de que dar flores é um gesto carinhoso de pedir perdão e uma grande prova de amor.
— É verdade...
Com um beijo suave, Bruna começou a esvanecer, aos poucos reduzindo o brilho de pérola que a envolvia.
Alicia olhava fascinada.
Nunca vira coisa tão bonita.
Subitamente, a imagem de Bruna parou de sumir, mantendo-se em uma aura diáfana e brilhante.
— Mais uma coisa — falou apressada, como se, de repente, se lembrasse de algo que não poderia ser esquecido.
Diga a papai que não teria adiantado nada.
Só então ela se foi.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:52 am

Capítulo 50

O sonho da noite anterior trouxe-lhe tanto bem-estar que Alicia adormeceu de novo, sonhando com mais flores e jardins, embora não mais com Bruna.
Como era sábado, acordou um pouco mais tarde, correndo ao quarto de Denise.
A irmã não estava na cama, mas sentada na varanda, tomando café ao lado de Juliano.
— Bom dia, minha querida — cumprimentou ele, puxando a cadeira para ela se sentar.
— Que horas são?
- Quase dez horas.
— Vocês acordaram agora também?
— Também. E fui eu que fiz o café — anunciou Juliano.
Por isso, trate de comer tudo.
Ele estava de bom humor, assim como Denise.
Ela se sentou em uma cadeira de frente para a porta da varanda, de onde podia ver todo o interior da sala.
— O que é aquilo? — indagou surpresa, apontando para dois buquês de flores cuidadosamente arrumados em duas jarras de cristal.
— São flores — respondeu Juliano.
— Eu sei que são flores, engraçadinho.
Mas quem as mandou?
— Um buquê é para mim — esclareceu Denise.
O outro é para você.
O buquê destinado a Denise era de flores vermelhas e rosa, enquanto o de Alicia continha flores brancas e amarelas.
Curiosa, Alicia se levantou e retirou o cartão pregado no buquê que lhe pertencia.
Espero que, um dia, você consiga me perdoar.
Se não o fizer, compreendo e jamais lhe cobrarei nada.
Você tem razão.
Mas vou viver até o fim dos meus dias aguardando o seu perdão.
Tobias.
— É de Tobias... — falou o que todos já sabiam.
— É claro que é — confirmou Denise.
— Também recebi um. Quer ver?
— Na verdade, não.
Dá para imaginar o que está escrito.
— Ele me pede perdão...
— E diz que compreende se você não o perdoar e que vai viver até o fim de seus dias aguardando o seu perdão, e blá-blá--blá — ironizou.
Com um leve sorriso, Denise sacou o cartãozinho de dentro do envelope e leu em voz alta:
Minha querida, perdoe-me.
Sei que errei, mas pensei que fazia o certo.
Entre erros e acertos, uma única certeza me resta:
a de que você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
Amo você mais do que tudo.
Volte para mim.
— Que coisa mais piegas — desdenhou Alicia.
E desesperada também.
Você vai perdoá-lo?
— Acho que as duas deviam perdoar — aconselhou Juliano.
Como ele mesmo diz, pensou que fazia o certo.
Quem de nós nunca fez uma besteira?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:52 am

— Assim? — indignou-se Alicia.
Enganando todo mundo?
— Dar flores é sinal de amor e a melhor maneira de pedir perdão — observou Denise.
Você não acha?
As palavras soaram familiares aos ouvidos de Alicia.
Onde foi mesmo que as ouvira?
Tentando identificar de onde vinha aquela familiaridade, lembrou-se do sonho.
— Estranho você dizer isso — comentou ela.
Tive um sonho em que alguém me dizia a mesma coisa, quase com as mesmas palavras.
— Um sonho? — Juliano se preocupou.
Foi com Jaqueline?
— Quem é Jaqueline? — Denise quis saber.
— Alguém com quem sua irmã sempre sonha.
— Não, dessa vez não foi com Jaqueline — Alicia esclareceu.
— Foi com Bruna.
— Nossa irmã?
Como é que você sabe que era ela?
— Ela era igualzinha a mim.
— O que foi que ela disse? — interessou-se o marido.
— Não me lembro direito.
Tinha a ver com flores, amor e perdão.
E acho que ela falou que foi minha mãe em outra vida.
— Sua mãe? — tornou Denise.
Em que vida?
— Na vida em que eu me chamava Jaqueline — explicou Alicia.
— Jaqueline? A do outro sonho?
Agora mesmo é que não estou entendendo nada.
— Durante muito tempo, achei que Jaqueline era minha irmã.
Quando descobri que eu tive uma gémea que morreu, pensei que fosse ela.
Depois, descobri que não.
A gémea era Bruna, e Jaqueline, eu mesma.
— Explique-me isso, por favor.
Alicia explicou.
Denise ouviu a tudo atentamente, sem duvidar de uma palavra sequer.
— Por que nunca me contou isso? — perguntou Denise.
Eu poderia ter ajudado.
— Não queria influenciá-la.
— Influenciar-me? Como assim?
— É que Dimas foi Tobias.
O olhar de espanto de Denise causou mal-estar em Alicia.
Embora não gostasse de Tobias, não queria que Denise terminasse com ele por causa dos problemas dela.
— Veja só a chance que a vida está lhe dando, Alicia! — exclamou Denise, realmente entusiasmada.
Se você sabe de tudo, tem que perdoar.
É a oportunidade que vocês dois estão tendo de terminar com uma inimizade.
Você e Bruna já tiveram sua chance e acho que conseguiram.
Agora só falta Tobias.
— Você não ficou chocada?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:52 am

— É claro que não!
Quantas pessoas você conhece que têm a chance de, conscientemente, dissolver desavenças do passado?
A maioria de nós não se lembra de nada, por razões óbvias.
Mas você, não.
Deus lhe mostrou o porquê da sua antipatia por Tobias.
Não fosse por isso, você permaneceria na ignorância e não se esforçaria para aceitá-lo.
Mas agora que você já sabe, dá até para compreender por que ele aceitou ser seu pai biológico.
Você não entende, Alicia?
Tudo agora se encaixa.
Você só soube disso para poder perdoá-lo, tanto por ele ter mentido para você, quanto por tê-la assassinado no passado.
Quem estava em choque era Alicia.
Jamais poderia esperar aquela reacção da irmã.
Pensou mesmo que ela fosse odiar Tobias, que nunca mais quisesse falar com ele.
Havia muito sentido no que a irmã dizia.
É claro que ela devia perdoar, mas agora, tudo se tornara mais difícil.
— Perdoá-lo pelo crime do pretérito, eu já estava conseguindo — confessou Alicia.
Até saber que ele é meu pai verdadeiro.
— Não use isso como desculpa — objectou Juliano, veemente.
Você não gosta de Tobias, e agora que sabe que ele é seu pai, apegou-se a isso como justificativa para não o perdoar.
— Deixe de bobagem, minha irmã — acrescentou Denise.
Tudo isso é passado.
Em outra vida ou nessa, o que foi já passou.
Ninguém deve se apegar ao passado nem se preocupar com ele.
Essa história de reviver vidas passadas é um grande desperdício de energia, que poderia ser direccionada para coisas mais úteis.
— Você acha que é bobagem, é? — Alicia irritou-se.
Se fosse bobagem, Deus não permitiria que eu tivesse acesso ao passado.
— É por isso que lhe digo que é uma oportunidade única.
Ninguém tem que ficar se prendendo ao passado, mas se você descobriu, isso só tem um motivo: perdoar.
Não serve para mais nada.
Perdoe Tobias e jogue o resto de volta na gaveta das lembranças.
Daqui para a frente, concentre-se em realizar o seu maior sonho, que é ser mãe.
É com isso que você deveria se ocupar, porque seu filho é a esperança do futuro.
Deixe de lado o que já foi e preocupe-se com o que será.
— No fundo, você tem razão — divagou Alicia.
Talvez eu esteja insistindo apenas para não ferir o meu orgulho.
— Agora você está começando a ser sincera — notou Juliano.
E se você já detectou qual é o problema que a impede de perdoar, fica mais fácil resolvê-lo.
É o orgulho que impõe a barreira do perdão.
Você é uma pessoa boa, ninguém duvida, mas tem dificuldade em perdoar.
Será que Tobias não está lhe dando a chance de vencer essa barreira?
— Juliano chegou ao fundo da questão — acrescentou Denise.
Desde criança, você tem dificuldade em perdoar.
E tudo por quê?
Por causa do orgulho.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:52 am

Mas orgulho não leva a nada além de sofrimento.
Por ele, fazemos coisas das quais nos arrependemos depois e sofremos pelas nossas ilusões.
Você não vai se diminuir, se perdoar.
Ao contrário, dará mostras da grandeza do seu carácter.
Você não é uma pessoa vingativa nem rancorosa, Alicia.
Por que se envenenar com seu próprio orgulho?
— Tem razão — admitiu ela, após uma rápida reflexão.
Os dois têm. No fundo, eu já sabia dessa minha dificuldade, e agora, ouvindo vocês falarem, chego à conclusão de que foi isso mesmo que Jaqueline veio me ensinar: o perdão.
Acho mesmo que já estou começando a perdoar.
Insistir no ódio cansa a mente e o coração.
— Muito bem — elogiou Juliano.
É assim que gosto de ouvir você falar.
— Mas e você? — Alicia dirigiu-se a Denise.
Também vai conseguir perdoar?
— Já perdoei.
Depois que fui atropelada, reflecti sobre muitas coisas e cheguei à conclusão de que, se a vida estava me dando uma nova chance de viver, não era para fazê-lo com mágoa no coração.
— Mesmo que Tobias não a tenha acompanhado no hospital?
— Ele não foi porque achou que sua presença incomodaria a mim, a você e a mamãe.
Mas ligava todos os dias.
E me mandou flores.
Ela finalizou, embevecida, apertando de encontro ao peito o cartãozinho que Tobias lhe escrevera.
Denise tinha enorme facilidade de perdoar, coisa que Alicia ainda estava tentando aprender.
Por mais que a mente insistisse que o perdão era o caminho, o impulso do orgulho freava seu coração.
— Denise tem razão — concordou Juliano.
Perdoar é o certo para ambas.
Mas vocês só estão se esquecendo de uma coisa.
— O quê? — as duas perguntaram, quase ao mesmo tempo.
— E Celso?
Também não merece perdão?
— Tenho falado com ele todos os dias — contou Denise.
— E você, Alicia?
O silêncio de Alicia substituiu a resposta.
Somente quando começou a se sentir mal com o olhar de expectativa dos dois foi que desabafou:
— O que papai fez foi terrível.
Enganou a todas nós.
— É verdade — concordou Juliano.
Mas por que perdoar Tobias, e não o seu pai?
— Tobias é um estranho.
Meu pai é meu pai.
— Tobias é seu pai biológico — lembrou Juliano.
Será válido usar dois pesos e duas medidas?
Por que um é digno de perdão, enquanto o outro só merece o desprezo?
— Ele está certo, mais uma vez — considerou Denise.
Papai não devia ter nos enganado, mas também achou que fazia o certo.
— Sim, mas o que era o certo na visão dele?
Tenho minha própria teoria sobre o motivo que o levou a fazer isso.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:52 am

— Que teoria? — tornou Denise, curiosa.
— Acho que papai tinha vergonha do fracasso — esclareceu ela.
Um homem que curou tanta gente e não conseguiu curar a si mesmo.
— Será?
— Só ele poderá lhes dizer — comentou Juliano.
— Exactamente. E mamãe precisa saber.
Não é justo que ela viva o resto da vida acreditando em uma mentira.
— Uma mentira que não mudará nada a sua vida.
— Ainda assim, uma mentira.
Ser feliz na ignorância não é desculpa para continuar mentindo.
— Desculpe-me, Denise, mas acho que, dessa vez, Alicia tem razão — ponderou Juliano.
Acho que Eva precisa saber, mas quem tem que contar não são vocês, e sim, Celso.
Alicia olhou-o agradecida.
Era a primeira vez, desde que Tobias surgira em suas vidas, que ele lhe dava razão em alguma coisa.
— Concordo com Juliano — disse ela.
Nós não temos que falar nada.
Quem tem que contar é papai.
— Será que eu sou mesmo filha dele? — questionou Denise.
De Tobias, sei que não sou, mas não serei de outra pessoa?
— Pelo que eu entendi, quando você foi concebida, papai já havia descoberto a cura para a azoospermia.
Ele mesmo foi seu primeiro paciente.
— É verdade. Não duvide disso.
Seu pai não mentiria, e toda a imprensa da época noticiou a descoberta.
Ele ficou famoso por isso — Juliano fez uma pausa, observando as duas.
Não duvidem de que Celso ama vocês.
Isso é inquestionável. E ninguém é perfeito.
Por que acham que só ele tem que ser?
Alicia não estava mais ouvindo.
Na verdade, olhando as flores, descortinava na mente o sonho da noite passada, tentando relembrar as exactas palavras de Bruna.
Ela também dissera algo do pai, só que ela não conseguia se lembrar.
Por mais que se esforçasse, a memória não encontrava aquela passagem do sonho.
Seria, por acaso, mais um mistério que ela teria que desvendar?
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Ave sem Ninho

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:53 am

Capítulo 51

Celso não sabia mais como contornar a pressão.
Devia ter adivinhado que, mais dia, menos dia, a verdade tentaria atropelá-lo.
As filhas já sabiam de tudo.
Agora, só faltava a mulher.
O medo da reacção de Eva o fazia hesitar diante da revelação.
Mas ele precisava contar.
Não podia mais esconder aquele segredo que, por quase trinta anos, o assombrava diuturnamente.
O telefonema de Alicia o deixara preocupado e, ao mesmo tempo, esperançoso.
Se a filha ligara, talvez estivesse aceitando a ideia de perdoá-lo.
Ou então, iria acusá-lo de mais coisas, fazendo-o sentir-se pior do que já se sentia.
— Você não vem para casa? — ouviu Eva dizer, ao celular.
Olhou para a tela do aparelho, onde a imagem da mulher o fitava, preocupada.
Vem ou não vem?
— Agora, não.
Vou dar uma passada na casa de Alicia primeiro.
— Porquê?
— Ela quer falar comigo.
— Sobre o quê?
— Não sei.
— Ela anda esquisita.
Não vem aqui e você não vai à casa dela.
Será que tem alguma coisa a ver com a morte de Bruna?
Pensei que ela havia superado isso.
— Eu também. Mas não se preocupe.
Não deve ser nada sério.
Desligou, pensando mesmo se não seria, e fez sinal para o primeiro táxi que apareceu.
Após falar o endereço para que o computador de bordo o registasse, recostou-se no banco e suspirou profundamente.
Precisava ter coragem.
Ao entrar na sala de Alicia, a primeira coisa que viu foram as flores sobre o aparador, logo deduzindo que eram de Tobias.
— Como vai, pai? — cumprimentou Alicia, beijando-o de leve no rosto.
O beijo era sinal de que, pelo menos, a raiva devia ter passado.
— Com muita saudade de vocês e preocupado com Denise — respondeu.
— Denise está bem.
Nem parece que foi atropelada.
— E Juliano?
— Ainda não voltou do trabalho.
— Você podia ter me dado notícias — queixou-se ele.
Telefonei várias vezes.
— Pensei que a própria Denise o mantivesse informado.
E mamãe vem sempre aqui.
— Eu sei. Com Denise, falo regularmente, apesar de não poder vê-la.
Mas você tem me evitado, e sua mãe, é claro, já percebeu.
Ela pensa que ainda é por causa de Bruna.
Denise entrou em seguida, caminhando devagar, mas sem aparentar dor.
Ele correu ao seu encontro, segurando seus braços como se ela estivesse prestes a cair.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:53 am

— Estou bem, pai, sério — afirmou ela, deixando-se abraçar.
— Finalmente posso vê-la.
Você não imagina a minha preocupação.
— Imagino sim.
Mas, como vê, estou óptima.
Ainda abraçando-a, Celso a conduziu até o sofá, sentando-se a seu lado.
Do aparador, as flores exalavam um perfume suave, que Celso recebeu como um bálsamo para suas aflições.
Aquele perfume foi capaz de amenizar sua angústia e desacelerar seus batimentos cardíacos.
Ele ficou ali, absorvendo a energia revitalizante das flores, até que se sentiu revigorado em sua coragem.
— Está com raiva de mim? — perguntou calmamente a Alicia.
— Não — foi a resposta imediata.
— Então, por que tem me evitado?
— Precisava reflectir.
— Reflectiu?
— Sim.
— E a que conclusão chegou?
— No princípio foi difícil, não posso negar — confessou Alicia.
Mas agora, acho que consegui entender.
— Conseguiu?
— Você, um cientista jovem e idealista, apaixonado pela mulher, fez de tudo para lhe dar um filho.
Como não podia, lançou mão da única pessoa em quem confiava para ceder-lhe o espermatozóide: seu melhor amigo.
— Foi isso mesmo — ele assumiu, envergonhado.
Se eu procurasse um banco de esperma, sua mãe saberia que eu é que era infértil.
— E daí, pai? — redarguiu Denise.
Que mal há nisso?
— Mal, não há.
Mas sua mãe queria que os filhos tivessem os nossos genes.
— Isso é uma grande bobagem — censurou Alicia.
Hoje em dia, todo mundo que não pode ter filhos adopta uma criança ou recorre à reprodução assistida.
Não tem nada de mais.
— Para sua mãe, tinha.
Ela queria porque queria que nossos filhos se parecessem connosco.
E Tobias é parecido comigo.
— Isso não é motivo — contrapôs Denise.
Os bancos de sémen possuem cadastro das características físicas do doador.
— Mas não conhecem seus antepassados.
No caso de Tobias, tudo foi muito bem estudado para reduzir as chances de termos um filho com a genética muito diferente da minha.
— Ainda assim, não é motivo.
O atavismo poderia explicar muitas coisas.
Durante alguns minutos, um silêncio perturbador se estabeleceu entre eles.
Denise e Alicia olhavam para Celso com ar céptico, aumentando, cada vez mais, seu constrangimento.
Quando, por fim, olhou de uma para outra, Alicia firmou nele um olhar que pretendia não ser acusador, mas que não conseguiu disfarçar, e disparou:
— A verdade é que você não queria se expor.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:53 am

Não queria que todos soubessem que o grande geneticista Celso Vieira da Cunha não fora capaz de descobrir a cura para sua própria esterilidade.
Ele abaixou os olhos, sentindo as lágrimas aquecerem seus olhos.
— Foi isso, pai? — Denise questionou, embora de forma mais branda.
Se foi, pode dizer.
Ele não queria, mas não podia mais guardar aquele segredo.
Era mais um dos muitos que devia revelar.
— Não me arrependo do que fiz — disse ele.
Arrependo-me apenas de ter feito tudo às escondidas.
Eu não devia ter escondido nada nem de Eva, nem de vocês.
Devia ter-lhe contado a verdade sobre a minha esterilidade, consultando-a sobre a ideia de usarmos o sémen de Tobias.
Devia ter revelado tudo a vocês desde o princípio.
— E por que não o fez?
— Deixei-me levar pelo orgulho — assumiu, com dificuldade.
Onde ficaria a minha credibilidade se todos soubessem que eu não podia curar a mim mesmo, em primeiro lugar?
— Que orgulho mais besta, pai — contestou Denise.
Você é só um cientista; não é Deus.
— Compreendo isso agora.
— Compreende porque já descobriu a cura, não foi? — questionou Alicia.
Você é o pai de Denise.
— Sou. Do contrário, jamais permitiria que ela e Tobias se aproximassem.
— Fui seu primeiro experimento? — tornou Denise.
— Não é bem assim... — ele tentou protestar.
- Fui ou não fui?
— Foi — admitiu, relutante.
Foi através de você que tive certeza de que havia descoberto a cura.
— Ainda bem que fiz uma coisa boa — rebateu ela, demonstrando, com seu bom humor, que não estava aborrecida.
Fui a número um da cura.
— Não pense que você foi só um experimento.
Eu queria muito ter filhos.
Você foi uma experiência bem-sucedida e maravilhosa.
Foi o meu milagre particular.
— Não duvido — afirmou Denise.
— Nem eu — concordou Alicia.
Seu amor por Denise é inquestionável.
— E por você também — completou Celso.
— Sei disso. Mas gostaria de entender por que Tobias aceitou participar dessa farsa.
— Tobias sempre foi meu amigo.
Faria tudo que eu lhe pedisse.
— Por quê? — era Denise.
— Por amizade, já disse.
— Isso não convence muito — duvidou Alicia.
Você lhe deu dinheiro?
— Meu Deus, não!
Tobias jamais aceitaria dinheiro de mim ou de qualquer outra pessoa.
O que vocês pensam que somos? Mercenários?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 19, 2016 9:53 am

— Só estamos tentando alcançar a verdade.
— A verdade é essa que vocês já sabem.
Sua mãe queria filhos; eu era estéril e recorri a Tobias para ceder seu sémen, por medo e vergonha de ser ridicularizado pela comunidade científica.
Nasceram Alicia e Bruna, gémeas xifópagas, separadas pouco depois do nascimento.
Bruna não resistiu, mas Alicia, sim, ambas filhas biológicas de Tobias.
Depois, quando descobri a cura da azoospermia, fiz meu primeiro teste em Eva, que engravidou de Denise.
Essa é toda a verdade.
— Isso ainda não explica a participação de Tobias — insistiu Denise.
Já sabemos que mamãe foi apaixonada por ele e que você sabia.
O que não sabemos é por que você escolheu justo esse homem para ser pai de sua filha.
Celso fechou os olhos, lutando contra a vergonha.
Anos depois, ao visualizar o passado, via como fora injusto e se aproveitara de Tobias.
— Na verdade... — gaguejou — Tobias se sentia em dívida comigo.
— Como assim? — indagou Alicia.
— Eu o ajudei em vários momentos, inclusive dando-lhe a maior oportunidade de sua vida, que era trabalhar comigo.
Quando descobri que Eva o amava, fiz uma espécie de chantagem com ele.
Disse que não acreditava que eles não haviam tido um caso.
Ele jurou várias vezes que nada havia acontecido, mas eu fingi não acreditar.
Foi então que pedi a ele para ser o doador.
Ele não quis, claro, mas eu insisti.
Disse que ele me devia isso.
E ele, por se sentir mesmo em débito comigo, concordou.
— Papai! — horrorizou-se Denise.
Você o chantageou!
— Não pense que não me envergonho do que fiz.
Dia após dia, peço perdão em pensamento a Tobias.
— Você devia desculpar-se pessoalmente.
Não é justo deixá-lo acreditando nessa mentira.
— Ele tem a consciência tranquila.
Sabe que nunca correspondeu aos desejos e sentimentos de Eva.
— Mas ele pensa que você não acredita nele — contrapôs Alicia.
Não imagina como ele deve se sentir, achando que o amigo o julga um traidor, mesmo que ele não o seja?
— Sei que o que fiz foi horrível, mas estou arrependido.
No momento certo, pretendo lhe dizer isso.
— E qual será o momento certo? — Denise quis saber.
— Quando me sentir mais fortalecido para falar.
Por enquanto, ainda estou tentando ganhar coragem.
— E isso inclui contar a mamãe que Tobias é meu pai biológico? — questionou Alicia, mas ele não respondeu.
— Você jamais deveria ter permitido que eu me aproximasse de Tobias — Denise declarou.
Se sabia que mamãe foi apaixonada por ele, por que não me avisou?
Eu o teria evitado.
— Pensei que aquilo estivesse superado e que sua mãe não se importaria.
— É claro que ela iria se importar! — tornou Alicia.
Que mãe gostaria de ver a filha envolvida com um cara por quem já foi apaixonada?
— Acho que, no fundo, você me usou para mostrar a ela que Tobias nunca a amou — afirmou Denise, como se só agora aquela ideia lhe passasse pela cabeça.
Foi isso, não foi?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:52 am

— Não sei — admitiu ele.
Pode ter sido...
Por favor, minha filha, perdoe-me.
A última coisa que eu queria era magoar você.
— As coisas nem sempre saem como planeamos.
Não dá para a gente confiar que o outro vai seguir à risca o nosso plano.
As pessoas têm vontade própria.
— Sei que cometi muitos erros, um atrás do outro...
Mas se tivesse que fazer, faria tudo de novo, embora de outra maneira.
Vocês duas são meus maiores tesouros.
— Não duvidamos disso — falou Alicia.
Mas o problema agora é o relacionamento de Tobias e Denise.
— E agora me diga, pai — completou Denise.
Como é que eu vou fazer para aceitar Tobias de volta e ainda encarar a mamãe?
— Sua mãe não gosta mais dele — afirmou, convicto.
— Será mesmo? — questionou Alicia.
Será que ela não guarda nenhum tipo de mágoa?
— Eva já viveu a vida dela... — murmurou ele.
— Você tem ainda muito que viver, Denise.
Sua mãe vai entender e aceitar.
— Você acha que eu devo continuar com Tobias mesmo assim? — ele assentiu.
Será que isso é o certo?
— O que é certo, afinal?
Abdicar da felicidade para não ferir outra pessoa?
Acho que nem sua mãe gostaria disso.
Quando ela perceber que vocês realmente se amam, estou certo de que não procurará mais intervir.
Pense bem, Denise.
Todos nós temos muito em que pensar antes de tomarmos qualquer decisão.
— Estamos todos enredados numa trama urdida pelo destino com um certo requinte de humor negro — disse Denise.
— Não acho nada engraçado — objectou Alicia.
Concordo que estamos todos ligados nessa trama, mas chegou a hora de cada um puxar o fio que lhe pertence.
Só assim conseguiremos desatar tantos nós.
— Você está certa.
Vou fazer como me pedem — revelou Celso, após alguns minutos de reflexão.
Preciso me livrar desse peso.
Vou contar tudo a Eva.
Acho que o momento é agora.
Deus há de me dar forças e coragem.
— Vai fazer isso mesmo? — sondou Denise.
— Vou. Está decidido.
Quero que voltemos a ser uma família unida.
Vocês são mais importantes do que tudo para mim.
Quero que me perdoem.
— Da minha parte, já está perdoado — falou Denise, imediatamente.
— Da minha, também — acrescentou Alicia, demorando um pouco mais.
Estava se esforçando.
Celso abriu os braços, onde as duas se aninharam como faziam quando crianças.
Precisavam confiar na força do amor e do perdão.
Acima de tudo, precisavam enfrentar suas próprias escolhas e assumir as consequências que delas advieram.
Celso, mais do que ninguém, sabia o quanto isso era importante.
Para ele, para as filhas e para Eva também.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:52 am

Capítulo 52

A prisão de Jonas e suas consequências deram um pouco de descanso a Jaqueline.
Preocupado com seu futuro, Lafayete deixou-a em paz por alguns dias.
— Eu sabia que tinha sido ele — afirmou ela, acompanhando os mergulhos de Maurício na piscina.
— O problema é ele ser condenado — admitiu Cezar.
Ele é um político influente.
— Por que não o deixa agora?
— Você sabe.
Ela apenas assentiu.
Consultou o relógio e mudou de assunto:
— Está quase na hora da academia.
— Você não devia ir.
Dimas, em carne e osso, anda rondando por aí.
- É por isso que você vai me fazer o favor de ficar aqui cuidando do Maurício. Não vai?
— Se é o que quer...
— Apesar de Dimas andar sumido, acho que seria uma boa ideia — fez uma pausa e prosseguiu:
— Por que será que ele sumiu?
— Duvido que ele tenha mesmo sumido.
Um bandido feito ele só pode estar aprontando alguma.
— Ele não é, propriamente, bandido.
Só está com raiva de mim.
— Um homem que estupra a sobrinha e enteada é o quê?
Ela não respondeu.
Consultou o relógio novamente e se levantou:
— Já estou indo. Está na hora.
— Tome cuidado.
— Tomarei. E nada de pizza!
— Quanto a isso, não posso prometer nada.
De dentro da piscina, Maurício riu.
Gostava de Cezar.
— Até logo, mana.
— Juízo, hein!
Atirando um beijo para o irmão, ela se foi.
Saiu à rua com cuidado, olhando para os lados, certificando-se de que Dimas não estava nas proximidades.
Como não o viu, sentiu-se segura para sair.
Quando voltou para casa, logo ouviu a algazarra vinda do terraço.
Fazia muito calor, o tempo seco elevava a temperatura ainda mais.
É claro que Maurício convencera Cezar a entrar na água.
— A farra está boa, não é? — constatou ela, vendo que Maurício dava um caldo em Cezar.
— Oi, mana! Venha dar um mergulho.
A água está uma delícia!
— Imagino. Mas não, obrigada.
Acabei de chegar da academia.
Vou tomar um banho e preparar o jantar.
Assim que ela entrou na cozinha, de volta do banho, Cezar já a aguardava, envolto em uma toalha da cintura para baixo.
Ela o olhou discretamente, estudando seu corpo bem-feito, seus músculos bem torneados, sua pele bronzeada, arrepiada pela brisa da noite.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:53 am

— Está com frio? — indagou ela, para disfarçar o motivo pelo qual o olhava tanto.
— Não. É só porque acabei de sair da água.
— Você e Maurício estão se dando muito bem mesmo. Fico feliz.
— Eu também.
Mas, depois que você saiu, fiquei pensando...
Não acho certo você frequentar uma academia à noite com Dimas rondando por aí.
— De novo com essa história?
— Você tem o dia todo livre.
Por que não o aproveita?
— Porque, de dia, tenho que cuidar do apartamento, da roupa, da comida, de Maurício...
Esqueceu-se de que não tenho empregada?
— Sua situação pode mudar.
Você sabe disso, não sabe?
— Sei que tudo vai mudar.
Principalmente agora, que Lafayete foi desmascarado.
Mas não se preocupe. Eu também vou mudar.
— Como assim?
— Agora que sei que Dimas está vivo, pretendo arranjar um emprego honesto e deixar Lafayete.
A primeira coisa que preciso fazer é um bom curso de inglês.
— Essa é uma ideia excelente!
— Quero me preparar para conseguir uma coisa melhor, sabe?
Você acha que tenho capacidade?
— É claro que tem!
Você é inteligente, simpática, tem boa aparência.
Dominando outra língua, vai ser mais fácil.
— É o que espero.
— Mas você tem que ser rápida.
— Porquê?
— Porque Lafayete está planeando levá-la com ele para Brasília.
— O quê?! - surpreendeu-se.
Não posso. E Maurício?
— Ele pretende mandar Maurício estudar na Europa, onde os filhos dele estudam.
— Nunca! Jamais me separarei de meu irmão.
— Se você não for, o trato estará desfeito.
— É impressão minha, ou você está adorando essa novidade?
Quer se ver livre de mim?
— É impressão sua.
Também não gostaria que você fosse, mas, ao menos, sei que estaria segura, longe de Dimas.
— Você se preocupa demais com Dimas.
Ele não vai me matar.
— Como é que você sabe?
O cara é perigoso.
— Mais do que Lafayete? — ele não respondeu.
Você não tem medo de Lafayete me matar de pancada?
— Tenho esse receio sempre que você está com ele — admitiu, bem baixinho.
— Contudo, não faz nada.
— Você sabe que não posso.
— Deixe isso para lá.
Não tenho o direito de lhe fazer cobranças.
Nós não somos nada um do outro.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:53 am

— Somos amigos.
Ela suspirou, como se lembrar de que só o que havia entre ambos era amizade a deixasse decepcionada.
— É, somos amigos — repetiu, ao mesmo tempo em que pensava:
“Preciso esquecer você”.
— Não quero que nada de mau lhe aconteça.
Seguiu-se um mutismo desconcertante.
Cezar evitava encarar Jaqueline, que, por sua vez, o olhava de soslaio.
— O jantar está pronto? — a vozinha de Maurício, que veio da piscina pingando água por toda cozinha, desfez o silêncio e o mal-estar.
— Quase — disse Jaqueline, saindo da momentânea inércia e colocando água no fogo para fazer um macarrão rápido.
Vá tomar seu banho. Está molhando tudo.
— Por que vocês estão discutindo?
— Não estamos discutindo.
— Conheço você, Jaque.
Sei quando está aborrecida.
— Não estou aborrecida — garantiu ela, conduzindo-o na direcção do quarto.
Mas vou ficar, se você não tomar logo esse banho.
E o que é isso no joelho?
Só então ela reparou o corte no joelho de Maurício.
— Levei um tombo quando saí da piscina. Não foi nada.
— Vamos limpar isso daí e colocar um curativo.
Jaqueline saiu com Maurício em direcção ao quarto dele.
Limpou o sangue e esterilizou o machucado.
— Agora, entre no banho — acrescentou.
Quando sair, coloco o band-aid.
Depois que ele abriu o chuveiro e entrou debaixo da água, Jaqueline voltou para a cozinha, mas não encontrou Cezar.
Ele se fora sem ao menos se despedir.
Jaqueline tentou, mas não conseguiu evitar a tristeza.
Quanto mais Cezar a rejeitava, mais ela o amava.
Era algo além de suas forças, um sentimento que ela não podia controlar.
Naquela noite, foi dormir com a ameaça de que Cezar tomasse conta de seus sonhos, mas sua imagem não surgiu uma única vez.
Ao contrário, parecia que sua mente se encontrava vazia.
Foi assim até tarde da noite, quando, subitamente, sentiu que era arrancada do leito.
Sem resistir, deixou-se levar por uma força invisível e poderosa, que a conduziu até a praia, no mesmo local onde antes havia encontrado a mulher chamada Alicia.
— Você de novo por aqui? — perguntou ela, sem se surpreender.
— Fiz de tudo para encontrá-la — falou Alicia.
Relaxamento, mentalização, reza, concentração, tudo o que você possa imaginar.
— Não estou entendendo nada — estranhou Jaqueline.
— Enfim, nem sei qual dessas técnicas deu certo, talvez, nenhuma delas, mas o facto é que consegui chegar até aqui.
Meu corpo mental, pelo menos.
— Você só fala por enigmas.
Mas afinal, de onde foi que você veio?
— Daqui mesmo, só que de outro tempo.
— De novo aquela história de dois mil duzentos e pouco?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:53 am

— Não é história. Eu estou vivendo no ano 2219.
Mais de duzentos anos à sua frente.
— Isso é um sonho maluco mesmo.
Como em sonho vale tudo, posso perguntar o que você quer sem medo das consequências.
— Aí é que está.
Há consequências, e é sobre isso que quero alertá-la.
— Sobre quê?
— Dimas. Ele vai matar você.
— Como é que é?
Como pode saber disso?
Nós duas nem nos conhecemos.
— Você e eu somos a mesma pessoa.
— Como assim?
Que absurdo é esse?
— Sei que você andou sonhando comigo também.
Não sente uma familiaridade ao me ver? — ela assentiu, em dúvida.
Não acha isso estranho?
— Estranho é, mas daí a sermos a mesma pessoa, vai uma grande diferença.
— Não é que sejamos a mesma pessoa.
Somos como fagulhas da mesma centelha divina, momentaneamente separadas para adquirir várias experiências ao mesmo tempo.
Eu já vivi a sua vida, mas na minha dimensão.
Lembrei-me de meu passado, onde, quando era Jaqueline, fui assassinada por Dimas.
— Essa é a coisa mais louca que já ouvi.
Estamos vivendo algo do tipo: eu sou você amanhã?
Alicia não conhecia a antiga propaganda da vodca Orloff, mas entendeu bem o significado da frase.
— É mais ou menos isso — concordou.
Pode-se dizer que eu sou você amanhã.
— E eu fui você ontem? — completou Jaqueline.
— Exactamente.
— Que coisa mais louca.
Você fez algum tipo de viagem no tempo?
— Não. Isso ainda não é possível na prática, ao menos em corpo físico.
Mas os corpos subtis não têm as mesmas limitações, e é com eles que viajamos.
Nossa matéria continua no nosso tempo, mas nós duas avançamos ou retroagimos em corpo mental, como agora.
— Não sei se acredito nisso.
— Já ouviu falar em premonição?
— É claro.
— De onde você acha que surge a premonição?
— Sei lá.
— De algo que já aconteceu em outro tempo e alguém conseguiu ver.
— Até aí, tudo bem.
Mas como é que você está tentando mudar o passado?
Não dizem que isso é impossível?
— Não estou mudando o passado.
Estou tentando modificar o seu presente.
O meu passado já passou, não tem mais jeito.
Mas para você, ainda não aconteceu.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:53 am

E isso porque vivemos em dimensões diferentes.
O passado de uma dimensão pode ser o presente ou futuro de outra, e vice-versa, mas o que já aconteceu na dimensão em que se vive não se pode mais modificar.
Apenas o presente e o futuro são mutáveis.
— Sei. E você quer mudar o meu futuro. É isso?
— Quero tentar.
Se você permitir que a sua vida transcorra simetricamente à minha, você vai ser assassinada, tal qual eu fui em outra vida.
Mas, se acreditar em mim, sua escolha pode determinar um novo futuro para você.
Sua dimensão não será mais paralela à minha, mas tomará um novo rumo a partir de então.
— E isso não modifica a história?
— Não, porque, na sua dimensão, a história ainda não aconteceu e pode vir a acontecer de várias formas.
Deus seria muito sem imaginação se pusesse infinitas dimensões, em infinitos universos, para que toda a história se repetisse de forma idêntica, indefinidamente.
— Acho que estou entendendo.
Só não sei se acredito.
Parece fantástico demais.
— Tudo bem, é difícil mesmo.
Mas por favor, acredite quando digo que Dimas irá matar você.
— Quando? Onde?
— No dia 29 desse mês, à noite, quando você sair para a academia.
Ele a levará a um terreno baldio, onde a estuprará e a matará em seguida.
Jaqueline sentiu um arrepio, mas não se convenceu totalmente.
Na certa, a mente dela estava misturando as coisas, fazendo reflectir no sonho o alerta de Cezar, juntamente com seus receios e a lembrança dos lugares por onde passava.
— Isso é muita piração — disse, mais para si mesma do que para Alicia.
— Não é. Por favor, Jaqueline, confie em mim.
Não saia mais à noite sozinha.
Por favor, por favor...
A voz de Alicia foi sumindo.
Um ruído na porta do quarto a fez despertar.
Ainda zonza de sono, mal se lembrando do sonho que acabara de ter, Jaqueline acendeu a luz do abajur, quase desmaiando de susto ao dar de cara com um vulto negro parado ao lado de sua cama.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:53 am

Capítulo 53

Nada justifica a prática de qualquer crime, e quem quer que o cometa deve sujeitar-se à lei e à Justiça.
Rico ou pobre, feio ou bonito, culto ou ignorante, cada um há de ser responsabilizado pelas suas atitudes, iniciando-se pelo próprio plano material.
A justiça dos homens é falha e pode deixar livre o autor de um delito, mas a vida, que executa a obra divina e, por isso mesmo, é sempre justa, não permite que nada passe impunemente.
Nada se oculta aos olhos de Deus.
Esse foi o pensamento que aflorou na mente de Jaqueline ao dar de cara com Lafayete, livre como quem não guarda na consciência a culpa sobre nenhum crime.
A prisão de Jonas não o intimidou.
Consciente da imunidade, sabia que nada lhe aconteceria.
Apareceu todo vestido de preto, como o criminoso que era, buscando a camuflagem das sombras.
— O que está fazendo aqui? — indagou ela assustada, após se certificar de que não era um ladrão.
— Preciso de você — respondeu Lafayete, já se despindo.
Não pude esperar até o fim da semana.
— Como foi que entrou?
— Cezar abriu para mim.
— Cezar? — surpreendeu-se.
Desde quando ele tem a chave do meu apartamento?
— Isso não importa.
Sem lhe dar a chance de dizer qualquer outra coisa, Lafayete atirou-se sobre ela.
Jaqueline não resistiu.
Em silêncio, engolindo as lágrimas, permitiu que ele a dominasse.
Para espanto seu, ele não bateu nela uma única vez.
Foi agressivo, um pouco rude, mas nada violento.
Quando terminou, virou de barriga para cima, arfando como quem acaba de disputar uma prova de corrida.
— Acho que estou ficando velho — observou.
Ainda não tinha reparado no quanto tudo me cansa.
— Não sabia que Cezar tinha a chave do meu apartamento — disse ela, ainda incomodada com o facto.
— Em primeiro lugar, o apartamento não é seu; é meu.
Em segundo lugar, Cezar tem a chave porque eu mandei que guardasse uma cópia com ele, exactamente para ocasiões como essa.
Ele não lhe contou?
Ela engoliu a raiva.
Quando falou, sua voz soou quase normal:
— O senhor não devia estar em Brasília?
— Sou um viúvo agora.
Quem vai estranhar que eu sinta vontade de estar na casa que dividi com minha amada esposa por tantos anos?
— Sei — falou secamente.
— Não acredita? — ela não respondeu.
Pois devia.
Não fica bem para uma amante desconfiar de seu protector.
Isso pode ser bastante desagradável.
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Ave sem Ninho

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:54 am

Havia uma ameaça velada nas palavras dele, que Jaqueline não deixou passar despercebida.
O medo percorreu suas veias, fazendo gelar seu sangue e estremecer sua voz:
— Por que está dizendo isso?
— Por nada. E agora, por que não me prepara algo para comer?
Estou com fome.
— Já são quase cinco da manhã — protestou.
Vai acordar Maurício.
— E daí? É bom que ele se acostume comigo.
Em breve, será da família.
— Como assim?
O que o senhor quer dizer com isso?
— Estive pensando, Jaqueline, e resolvi me casar com você.
Não agora, é claro; preciso cumprir as formalidades do luto.
Mas daqui a um ano, mais ou menos.
Nada mais natural que eu refaça minha vida e eleja uma linda e jovem esposa como companheira.
Maurício será meu cunhado.
— O senhor só pode estar brincando.
A ideia a horrorizava mais do que as surras que ele lhe dava.
Casar-se com aquele monstro assassino era a última coisa que ela desejava.
— No princípio, rejeitei essa ideia — prosseguiu ele, ignorando a reacção dela.
Mas depois, acabei me convencendo de que é o melhor.
Assim não preciso mais me esconder e posso assumir a mulher que amo oficialmente, como minha esposa.
Não é maravilhoso?
— Acha isso prudente?
Quer dizer, diante de tudo o que está acontecendo...
— E o que está acontecendo?
— O senhor sabe.
Os jornais noticiaram, e as redes sociais estão explorando bem o assunto.
— Se está se referindo à acusação de que fui eu que mandei matar minha esposa, esqueça.
Nada vai me acontecer.
— Mas foi mesmo o senhor que mandou matá-la?
A pergunta saiu sem querer.
Ela pensou que Lafayete reagiria com violência, mas ele simplesmente não respondeu.
Levantou o queixo dela e, em tom de benevolência, esclareceu:
— Daqui a um ano, tudo terá caído no esquecimento, como sempre acontece.
Será o tempo necessário para você aprender boas maneiras, a se comportar como a dama que deverá ser.
E já está na hora de você parar de me chamar de senhor.
De agora em diante, sou apenas Lafayete para você.
— Está bem. Como quiser.
— Você é uma menina obediente.
E agora, vamos comemorar. Trouxe champanhe.
— Por que acha que vou aceitar me casar com você? — ela contrapôs, não sem irritação.
Apesar do espanto, ele nada demonstrou.
Limitou-se a fitá-la friamente, como se ela tivesse dito uma insignificância qualquer.
- E por que não aceitaria? — retrucou, sem qualquer emoção.
Você e seu irmãozinho não têm onde cair mortos.
Ou será que você tem mais alguém além de mim?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:54 am

— É claro que não — defendeu-se ela.
Mas casamento implica amor.
E nós não nos amamos.
— Casamento é conveniência.
Nesse momento, é conveniente tanto para mim quanto para você.
— Não sei se concordo com isso.
Vai fazer com que acreditem que você é um assassino.
— Escute aqui, Jaqueline — ele deu mostras de irritação.
Não se envolva com essa história de assassinato nem se deixe impressionar pela imprensa marrom.
Jornalista é tudo igual, só o que quer é vender jornal.
— Você ainda não me respondeu se foi o responsável pela morte de dona Sofia.
Ele se manteve em silêncio por alguns minutos, estudando-a com ar cauteloso.
Quando falou, parecia firme e convicto, embora ela soubesse que o que ele dizia era mentira:
— Não. E se você pretende manter seu irmão numa boa escola, não toque mais nesse assunto.
Ou se casa comigo, ou perde tudo.
Acho que você não tem escolha.
Jaqueline quis dizer que sempre havia uma escolha, mas achou melhor se calar.
Precisava ganhar tempo para ajeitar sua vida com calma.
Não podia simplesmente largar tudo e arriscar o bem-estar de Maurício.
— Vou preparar sua comida — anunciou ela, vestindo um roupão e seguindo para a cozinha.
Fez tudo no máximo de silêncio que pôde.
Com a porta do quarto fechada, Maurício não acordou.
Era o que ela queria e, no fundo, o que Lafayete queria também.
Não tinha mesmo intenção de confraternizar com o irmão dela.
Depois de comer, Lafayete saiu, deixando em Jaqueline uma horrível sensação de inutilidade.
Era, de facto, uma inútil, suas atitudes eram inúteis, seus pensamentos, inúteis também.
Estava chateada.
Não queria se casar e queria que Cezar estivesse ali.
Ele podia, ao menos, ter-lhe dito que possuía a chave de sua cobertura.
Quanto mais pensava nisso, mais percebia que sempre arranjava um motivo para pensar em Cezar.
Era um desperdício de energia, já que Cezar nem devia lembrar que ela existia.
Nem bem o relógio bateu seis da manhã, a campainha soou rapidamente, quase como se a pessoa do lado de fora sentisse medo de apertá-la. Era Cezar.
— Você não tem a chave? — perguntou ela, sarcástica.
Por que precisa tocar a campainha?
— Sinto muito, Jaqueline.
Eu devia ter-lhe contado.
— Devia mesmo. Teria evitado que eu quase morresse de susto.
— Eu só tenho a chave porque Lafayete mandou.
Jamais a usaria para entrar em sua casa sem o seu consentimento.
— Mas ele pode, não é mesmo?
Ah! Eu havia me esquecido.
Não é a minha casa.
O doutor fez questão de me lembrar que o apartamento é dele, não meu.
Só faltou dizer que podia entrar e sair à hora em que bem entendesse.
E o pior é que pode mesmo...
— Lamento se ele a assustou.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:54 am

— Se eu tivesse uma arma, teria atirado nele.
Pensei que fosse um bandido.
Mas não foi isso que me irritou.
Foi o facto de você não ter me prevenido de que isso poderia acontecer.
— Sinto muito...
— Já sei que você sente muito, mas isso não resolve.
Não quero esse homem invadindo a minha vida.
— Você sabe que ele tem planos para você.
— Ele quer se casar comigo! — ela gritou.
Não se contenta mais em ser meu amante.
Quer ser meu marido! — vendo que ele não dizia nada, ela constatou, atónita:
— Você sabia!
— Não, Jaqueline, eu juro.
Só soube ontem à noite, quando ele mandou que o trouxesse aqui.
— Você subiu com ele?
— Tive que subir.
Não queria que o porteiro o reconhecesse, ainda mais agora, com o escândalo que paira sobre o nome dele.
— Foi por isso que ele veio todo de preto?
Para não ser reconhecido?
— Exactamente.
Abri a porta para ele e depois fui embora — ela não disse nada, e ele prosseguiu:
— Bom, foi por isso que vim até aqui.
Precisava me explicar.
— Já se explicou. Pode ir.
Para desgosto de Jaqueline, ele obedeceu, deixando-a à beira das lágrimas.
Mais um pouco de olheiras não lhe fariam mal.
A noite mal dormida deixara profundas marcas ao redor.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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