A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 05, 2016 8:25 am

O Rio de Janeiro fora sua primeira escolha de fuga.
O lugar que sempre sonhara conhecer se transformaria em seu esconderijo.
Sem dinheiro, foram para o Rio de carona.
Depois de muito tempo com o dedo estendido, finalmente um motorista de caminhão parou para eles, mas cobrou seu preço.
Jaqueline não possuía nada além do seu corpo, já acostumado a violações brutais.
Mais uma vez não faria diferença.
Por uma noite de prazer para o motorista, Jaqueline conseguiu não apenas a carona, mas uma refeição para ela e o irmão.
Quando chegaram ao Rio Jaqueline não fazia a menor ideia do lugar para onde iria.
Nas primeiras noites, dormiram ao relento, escondendo-se da polícia.
Utilizavam banheiros de postos de gasolina, lavando-se precariamente na pia e trocando de roupa.
Desesperados e famintos, mendigavam.
Não era fácil conseguir dinheiro nas ruas.
As pessoas a tomavam por aproveitadora, forçando uma criança a arranjar dinheiro para ela.
Essa situação encheu-a de vergonha.
O que precisava mesmo era de um emprego.
Com uns trocados, comprou um jornal e saiu à procura de uma vaga, mas não encontrou nada.
Sem carteira de trabalho era difícil.
Tinha medo de procurar qualquer repartição pública e ser reconhecida.
A polícia devia estar atrás dela e, provavelmente, sua foto já teria sido enviada para todas as delegacias do país.
Ela era uma assassina.
Matara em legítima defesa, para que Dimas não a matasse e ao irmão, mas o medo de que não acreditassem nela levou-a a fugir.
Agora era uma fugitiva e precisava se esconder.
Vagabundeando pelas ruas, foram dar na zona portuária.
Maravilharam-se com os transatlânticos que atracavam no porto carioca, para conduzir passageiros em cruzeiros pelo país.
Quando a fome apertou, tiveram que esmolar.
Não foi possível se aproximar dos turistas, pois a vigilância era grande.
O jeito então foi tentar abordar os que iam e vinham do trabalho.
Em meio à multidão apressada, pouco conseguiram juntar.
Mais uma vez, Jaqueline viu-se compelida a fazer a única coisa de que era capaz naquele momento: vender o corpo.
Sabia que era bonita, mas, com sua aparência desleixada, não conseguiria arranjar muita coisa.
Ainda mais com uma criança a tiracolo.
Precisava encontrar um lugar seguro para deixar o irmão, enquanto procurava algum cliente.
Jaqueline escolheu uma lanchonete.
O máximo que deu para comprar com o dinheiro arrecadado foi um queijo quente e um refresco.
— Não saia daqui, Maurício — ela ordenou.
Coma seu sanduíche o mais lentamente que puder, que é para dar tempo de eu voltar.
— Aonde você vai?
— Arranjar mais algum dinheiro.
— Como?
— Você não precisa saber.
— Do mesmo jeito que fez com aquele motorista de caminhão?
Jaqueline mordeu os lábios, segurando a vontade de chorar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 05, 2016 8:25 am

— Deixe de ser curioso — censurou.
Você não devia ser tão esperto.
Faça o que lhe digo e não saia daqui.
E tome cuidado com sua mochila.
Com o coração confrangido, Jaqueline deixou o irmão na lanchonete.
Sem que ele visse, ajeitou a roupa.
Enrolou a saia várias vezes na cintura, tornando-a tão curta que, por pouco, não se via o fundo de sua calcinha.
Tirou o sutiã e esticou a camiseta ao máximo, deixando os seios quase à mostra.
Pena que não tinha um salto alto nem batom.
Com a mochila nas costas, saiu rebolando pela rua, lançando olhares convidativos aos homens que passavam.
Alguns mexiam com ela, outros a ignoravam, e havia ainda os que lhe faziam propostas de sexo, mas sem pagar.
Até que, finalmente, um senhor parou em frente a Jaqueline.
— Quanto você cobra? — foi logo perguntando.
Ela o olhou em dúvida.
Não havia pensado naquilo.
Sexo tinha um preço, mas ela nem desconfiava qual seria.
— Eu... — balbuciou. — Deixe ver...
— Você é nova nesse ramo, não é, garota?
Jaqueline abaixou os olhos, enrubescida:
— Dá para perceber?
— É claro. Você tem todo o jeito de principiante.
Bem se nota que não tem experiência no assunto.
É virgem?
— Não, senhor.
— Que pena...
Está se arriscando, sabia?
A concorrência aqui é grande.
Alguma mulher mais tarimbada pode achar que você está tentando tomar o ponto dela, e aí vai dar a maior confusão.
— Não quero o ponto de ninguém.
Só quero... comer.
— Está com fome? — ela assentiu.
Tem onde dormir? — Jaqueline meneou a cabeça.
— Ora, ora, me deparei justo com uma novata morta de fome e sem tecto.
— Por favor, senhor, me ajude.
Faço para o senhor bem baratinho.
Qualquer coisa serve.
— Faz o que para mim?
Ele parecia se divertir com o constrangimento dela.
Encarava-a com ar divertido, aguardando uma resposta, que chegou quase num sussurro:
— Sexo.
— E posso lhe pagar qualquer coisa? — Jaqueline confirmou.
Então, venha comigo.
Antes de segui-lo, Jaqueline deu uma olhada para a lanchonete.
Maurício já havia acabado o sanduíche e permanecia sentado à mesa, embora o garçom gesticulasse para ele sair.
Nesse momento, o homem a seu lado quase deixou de existir.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 05, 2016 8:26 am

Sua única preocupação era o irmão, que ficaria tremendamente assustado ao ser posto na rua sem sua companhia.
 — Então? — queixou-se o homem.
Vamos ou não vamos?
 — Só um segundo.
 — Por quê? Olhe, garota, estou na hora do meu almoço e não posso demorar muito.
 — Já vou.
 Mas ela não foi.
O garçom praticamente expulsou Maurício da lanchonete, abrindo espaço para outro freguês.
Sozinho na rua, o menino olhou ao redor, procurando pela irmã.
Como não a viu, começou a caminhar a esmo, em direcção oposta àquela em que ela se encontrava.
 — Maurício — chamou.
Estou aqui. Pare.
 O menino estacou, virando para ela o rosto lívido de susto.
 — Onde você estava, Jaque?
Fiquei morrendo de medo.
 — Estou aqui, meu bem. Vamos embora.
 — Para onde?
 Ela deu um suspiro sentido, respondendo com sinceridade:
 — Não sei.
 Apanhou o menino pela mão e seguiu rua acima, a caminho de lugar nenhum.
O homem que a abordara já caíra no esquecimento.
Jaqueline vira ali uma boa oportunidade de ganhar dinheiro, mas não podia deixar o irmão sozinho.
 Pararam para atravessar a rua, quando um homem parou junto a ela.
Olhando-o distraidamente, Jaqueline se assustou.
O mesmo senhor que falara com ela havia pouco encontrava-se a seu lado.
 — Agora compreendi tudo — comentou ele.
É seu irmãozinho?
 — É, sim.
 — Os dois estão na rua sozinhos?
 — Estamos.
 — E seus pais?
 — Não temos pais. Eles morreram.
 — Vocês não são daqui, são?
 — Viemos de Vila Velha, no Espírito Santo.
 — Como você se chama, menina?
 — Jaqueline. E este é meu irmão, Maurício.
 Maurício fitava o desconhecido com desconfiança, sem dizer nada, apertando a mão de Jaqueline.
 — Quantos anos tem, Jaqueline?
 — Vou fazer vinte, em breve.
 — Tem certeza?
 — Pode conferir, se quiser.
 Jaqueline retirou a carteira de identidade da mochila e lhe mostrou, só então pensando no risco que corria.
Se fosse um policial à paisana, ela poderia ser presa.
Mas era tarde demais.
O homem já tinha em mãos sua identidade, fazendo ar de satisfação.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 05, 2016 8:29 am

— Muito bem, Jaqueline — tornou ele, devolvendo-lhe a carteira.
Quero ajudá-la, mas precisava ter certeza de que você não é menor de idade.
— Vai nos ajudar? — retrucou ela, agora certa de que ele não era nenhum policial.
Como? Por quê?
— Uma coisa de cada vez.
Vou colocá-los em uma pensão minha conhecida, aqui perto mesmo.
Lá, vocês terão um tecto, comida e segurança.
Em troca, você terá que trabalhar para mim.
— Trabalhar? — animou-se, pensando que ele pretendia contratá-la como faxineira ou coisa parecida.
Fazendo o quê?
— O mesmo que você fazia ainda agorinha mesmo.
— Quer que eu me prostitua para o senhor? — Jaqueline horrorizou-se.
Quer me transformar numa prostituta?
— Não vou transformá-la em nada além do que você já é.
— Não sou prostituta — objectou baixinho.
Ia me vender por necessidade, para alimentar meu irmão.
— E não é por isso que todas se prostituem?
Por necessidade?
— Não vou ficar nessa vida.
Só vou fazer isso até me firmar.
— Você não faz ideia de quantas vezes ouvi essa conversa.
E sabe no que dá? — ela fez que não.
Todas continuam na vida até morrer.
Não seja ingénua, garota.
Você não tem para onde ir, não conhece ninguém aqui, está sozinha com uma criança.
Quem vai lhe dar emprego?
E o menino? Não vai estudar?
Quer que ele seja como você?
Estou lhe dando a oportunidade de ganhar dinheiro honestamente, de se sustentar e dar uma chance ao seu irmão.
Não gostaria de ir para a escola? — terminou, dirigindo-se a Maurício, que se encolheu atrás de Jaqueline.
— Não quero me prostituir — revidou ela, em lágrimas.
— E se você perder a guarda da criança? — ele prosseguiu, ignorando o lamento dela.
Sem dinheiro, você não tem como mantê-lo.
Mais dia, menos dia, aparece alguém do Conselho Tutelar e o carrega para um abrigo.
— Isso não! Jamais permitirei!
— Infelizmente, você não tem escolha.
Sem dinheiro, não pode ficar com o menino.
— Mas o que mais tem por aí são crianças abandonadas!
— Que, de vez em quando, são recolhidas.
— Não quero ser recolhido — protestou Maurício, fazendo beicinho.
Quero ficar com você, Jaqueline.
— A opção é sua — considerou ele.
Comigo, vocês terão uma chance de sobreviver.
Sem mim, fatalmente acabarão separados ou mortos de fome — diante da indecisão dela, ele ainda insistiu:
— Não sei por que tanta relutância.
Você mesma disse que não é virgem.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 05, 2016 8:29 am

E estava procurando um programa quando eu a encontrei.
Não estou exigindo nada além do que você já sabe fazer.
E, em troca, você só tem que me dar uma percentagem do seu lucro.
- Que percentagem?
— Setenta por cento.
— Setenta por...?
Mas isso é quase tudo!
— É o meu preço para lhe arranjar clientes e cuidar de vocês.
Sob a minha protecção, estarão seguros.
Pense logo, Jaqueline.
Como você, há muitas garotas por aí.
Pense no menino.
Olhando para Maurício, o coração de Jaqueline quase parou de bater, tamanha a aflição.
No fundo, sabia que ele estava certo.
Que futuro poderia ter uma assassina fugitiva, sem formação alguma?
— Está certo — disse ela, por fim.
O senhor me convenceu.
Mas antes, quero um quarto para nós, com uma cama, um banho e uma refeição decente.
Não temos isso há semanas.
— Feito. Basta me seguir.
— O senhor ainda não me disse o seu nome.
— Pode me chamar de Lampião.
— Lampião? — espantou-se Maurício.
— Ganhei esse apelido quando me casei com uma moça chamada Maria Bonita.
— Onde ela está?
— Morta. Chegamos, é aqui.
A pensão era ruidosa e suja, quase uma ruína, mas, pelo menos, eles teriam um quarto, camas com lençol e até uma televisão antiga, além de um banheiro colectivo com água quente.
Não era perfeito, mas servia.
— Vou mandar um menino trazer uma quentinha para vocês.
Comam, tomem banho, descansem.
Amanhã à noite, será sua estreia.
Ah! E a camisinha é por minha conta.
Com os olhos banhados em lágrimas, Jaqueline viu Lampião se afastar.
Fechou a porta do quarto, estudou o ambiente escuro e lúgubre.
Sentada na cama, em prantos, sentiu o abraço reconfortante de Maurício.
— Não fique assim, Jaque.
Tudo vai acabar bem.
Abraçada a ele, Jaqueline duvidou do destino e até mesmo de Deus.
Por mais que ela quisesse, parecia que a prostituição a perseguia.
Era como se fosse o seu destino.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:06 am

Capítulo 7

Daquele dia em diante, a vida deles mudou, embora Jaqueline não soubesse dizer, com certeza, se para melhor ou para pior.
Ao menos, tinham o que comer, o que vestir e onde dormir.
Depois de um tempo, conseguiu até juntar o suficiente para alugar uma quitinete na Saúde.
Era um sobrado antigo, meio descuidado, empoeirado e sacudido pelo ruído das obras no bairro.
Mesmo assim, era um lugar onde ela podia viver em relativa paz com o irmão.
A muito custo, conseguiu uma bolsa de estudos para Maurício estudar em um bom colégio.
A vida parecia melhorar.
— Venha tomar seu café — chamou a moça.
Uma boa alimentação é fundamental para que o cérebro funcione bem.
Ao se aproximar da mesa, o menino abraçou-a e deu-lhe um beijo prolongado no rosto.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, e ela devolveu o abraço, estreitando-o em seu peito.
— Amo você, mana — confessou o menino, emocionado.
Mais do que amava nossa mãe.
— Não diga isso — retrucou ela, enxugando as lágrimas.
Mãe é mãe.
— E daí? Nossa mãe só se importava com Dimas.
— Gostaria que não tocasse mais nesse nome — ela retrucou, acabrunhada.
— Por quê? Ele não pode mais nos fazer mal.
— Porque eu o matei, e isso me faz mal.
Vivo atemorizada, com medo da polícia.
Sem falar na minha consciência, que não me dá trégua.
— Mas foi para nos defender que você fez isso!
— Mesmo assim. Tirei uma vida.
— Não fique triste, mana.
Estou aqui com você.
— Eu sei. Isso é o que me dá forças para sobreviver.
Você é tudo para mim.
Abraçaram-se novamente, misturando as lágrimas.
Ao final de um tempo, se separaram. Maurício não podia chegar atrasado à escola.
Jaqueline aproveitaria esse tempo para pôr em dia os afazeres domésticos.
Arrumou a casa, passou roupa, fez comida.
Cada tarefa a fazia lembrar-se da mãe, que se matara de tanto trabalhar, mas que nunca lhe demonstrara afecto.
Terminada a arrumação, Jaqueline colocou um vestido melhorzinho e saiu.
Na esquina, comprou o jornal, sentando-se num banco para folhear os classificados, em busca de um emprego.
Seleccionou alguns, como de balconista, por exemplo, que era o máximo que saberia fazer.
Mas a todos os lugares que ia, a resposta era a mesma.
Ela não tinha carteira de trabalho nem experiência, logo, não servia.
De volta a casa, procurou não deixar que o desânimo a delatasse.
Não queria preocupar o irmão com mais aquele problema.
Colocaria o almoço antes que ele chegasse, para disfarçar a frustração.
Ao dar o primeiro passo na escada que levava ao sobrado, um vulto saiu das sombras, quase a matando de susto.
— Lampião! — exclamou Jaqueline, pondo a mão no coração.
Pensei que fosse um bandido.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:07 am

— Bem, pode-se dizer que sim — gracejou ele.
Onde você foi?
Estou aqui esperando-a a manhã inteira.
— Fui resolver uns assuntos — tentou disfarçar.
— Que assuntos?
Até parece que você tem negócios a tratar.
— Tive que ir à escola do Maurício.
— Por quê? O que foi que o moleque aprontou dessa vez?
— Nada. Fui lá para saber como ele está nas aulas.
Não podemos perder essa bolsa.
Jaqueline rodou nos calcanhares, subindo as escadas com Lampião atrás.
— Sabe de uma coisa, Jaqueline? — tornou ele, malicioso.
Acho que você está mentindo.
Acho que você saiu para procurar emprego.
— Eu, hein, Lampião! — disse ela, com o coração acelerado.
Que ideia...
— Mostre-me a bolsa.
— Por quê? Não tem nada que lhe interesse aí.
Só coisas de mulher.
Sem lhe dar atenção, Lampião puxou a bolsa do ombro dela.
Quando a abriu, o jornal amassado praticamente pulou de dentro dela.
Ele o desdobrou, imediatamente identificando os anúncios circulados à caneta.
— E o que é isso? — ele exigiu saber.
Um jornal com empregos só para mulheres?
— Eu... — ela balbuciou.
Estava só curiosa.
Queria ver se tinha capacidade e...
O tapa que Jaqueline levou fê-la engolir as palavras.
De modo brusco, Lampião a estapeou novamente e a empurrou, jogando-a ao chão.
— Quantas vezes preciso lhe dizer que você só trabalha para mim? — rosnou ele.
— Por favor, Lampião, perdoe-me.
Eu estava só curiosa.
Queria ver se era capaz...
— Conseguiu alguma coisa? — Jaqueline meneou a cabeça.
Pois então, já sabe que não é.
E agora levante-se.
Lave o rosto e sirva-me o almoço.
— Temos pouca comida...
— Não lhe perguntei nada. Estou com fome.
— Mas Maurício já vai chegar da escola!
— Óptimo. Almoçaremos juntos.
Lutando para que a raiva não a desequilibrasse, Jaqueline pôs mais um prato à mesa, olhando de soslaio para ele.
Lampião parecia distraído, prestando atenção à reprise de um jogo de futebol na televisão.
Ela acendeu o fogão, para esquentar a comida.
Naquele dia, comeriam carne ensopada com legumes, arroz e feijão.
Só Deus sabia o quanto ela teve que trabalhar para comprar aqueles pedacinhos de músculo.
E agora, era obrigada a dividir o pouco que tinham com aquele malandro.
— Oi, mana — falou Maurício, que acabara de abrir a porta.
O que temos para o almoço?
O cheiro está bom.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:07 am

— Vá lavar as mãos e venha sentar-se. Já vou servir.
O menino parou de falar, surpreso com a presença de Lampião ali, àquela hora.
— Não fala com os mais velhos, garotinho? — indagou ele, fazendo cara de interessado.
Sua irmã não lhe dá educação?
— Como vai, Lampião? — tornou o menino, quase não conseguindo disfarçar o desagrado.
O que está fazendo aqui a essa hora?
— Não é da sua conta.
Tenho assuntos importantes a tratar com sua irmã.
Jaqueline levantou os olhos para ele, imaginando o que estaria aprontando.
Quando os abaixou para o irmão, Maurício percebeu o leve hematoma em sua face.
— O que aconteceu com você? — espantou-se ele.
Seu rosto está todo roxo!
— Eu caí da escada — mentiu ela, olhando disfarçadamente para Lampião.
Maurício sabia que era mentira.
Sentiu ódio de Lampião por ter batido na irmã.
Já não bastava terem apanhado de Dimas, agora tinham que se submeter a um cafetão.
Mesmo criança, Maurício compreendia as coisas.
Podia não saber defini-las exactamente, mas entendia que Lampião obrigava a irmã a prostituir-se e lhe tomava a maior parte do dinheiro.
Desde cedo, tivera que se acostumar àquilo e não se importava.
Só o que queria era viver em paz com Jaqueline.
— Vamos comer? — chamou Lampião, ignorando o ar indignado do menino.
Estou morrendo de fome!
Lampião foi o primeiro a sentar-se à mesa, servindo-se do ensopado sem nenhuma cerimónia.
Não se incomodou com a quantidade, colocando em seu prato vários pedaços de carne, uma porção generosa de arroz e outra de feijão.
De mãos agora lavadas, Maurício sentou-se à mesa, olhando o fundo da panela com desgosto.
O que sobrara era quase nada.
Rapidamente, Jaqueline o serviu, praticamente entornando o que ainda havia de carne em seu prato.
Eram apenas uns poucos pedacinhos, mas daria para matar sua fome.
— E você, Jaque? — perguntou Maurício, engolindo a raiva.
Não sobrou nada para você.
— Não estou com fome — foi a resposta rápida.
Todos sabiam que era mentira.
Jaqueline alimentava-se mal, deixando para Maurício as melhores porções de comida.
— Se você não comer, vai acabar doente — ironizou Lampião, enfiando um rechonchudo naco de carne na boca.
— Não se preocupe com isso.
— Ah! Mas eu me preocupo.
Você trabalha para mim.
— Você tem outras garotas.
— Nenhuma como você.
São todas velhas, meio gastas. Sabe como é.
Ela sabia.
Jaqueline tornara-se a mina de ouro de Lampião.
As outras moças eram bem mais velhas, já passavam dos trinta anos, de forma que ela acabava sempre com os melhores clientes e os maiores lucros.
A inveja que isso despertou levou Jaqueline ao isolamento.
Como as mulheres não podiam lhe fazer mal, por medo de Lampião, resolveram ignorá-la.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:07 am

Jaqueline não tinha amigas, ninguém com quem contar.
As “colegas” de trabalho a evitavam, mal falavam com ela, nem mesmo para lhe dizer algum desaforo.
Simplesmente agiam como se ela não existisse.
Quando ela se aproximou da mesa, trazendo uma garrafa de água, notou que Maurício havia dividido com ela sua carne, o que resultou em três pedacinhos para cada um.
Com lágrimas nos olhos, ela meneou a cabeça.
Espetou a carne com o garfo para devolvê-la ao prato do irmão, mas o olhar de tristeza que ele mostrou foi tão grande, que ela pôs na boca o último pedaço.
Comeu o que sobrou dos legumes, do arroz e do feijão.
Não era muito, mas daria para tapear o estômago.
— Agora vá brincar lá fora — ordenou Lampião, assim que terminaram de comer.
Quero falar a sós com sua irmã.
A um olhar de Jaqueline, Maurício obedeceu.
Apanhou uma bola murcha, que havia resgatado de uma lixeira, e foi jogar na rua.
Quando o irmão saiu, Jaqueline lançou a Lampião um olhar indagador.
— Tenho um servicinho extra para você — ele foi logo dizendo.
Um cliente muito especial.
— Cliente? Mas você não gosta que fiquemos fixos com ninguém.
— Esse é especial, já disse.
E você não tem que me questionar.
Basta me obedecer.
— Posso saber quem é ele?
— Um figurão da política.
— E o que um político importante quer com uma prostituta?
Na certa, pode arranjar coisa melhor.
— Pelo que entendi, ele tem certas preferências que nem sempre uma coisa “melhor” pode lhe dar.
— O quê, por exemplo?
— Isso, você vai descobrir quando estiver com ele.
— Quanto vou receber?
— Muito mais do que você poderia imaginar.
O cara vai pagar bem para ter exclusividade.
A perspectiva de melhorar de vida, entregando-se a um homem só, a animou.
Até que não seria tão ruim assim.
E depois, um político devia ser uma pessoa mais refinada, diferente dos grosseirões com que estava acostumada.
— Tudo bem. Quando começo?
— Assim que você for aprovada.
— Aprovada em quê?
Vou logo avisando que não tenho qualificação nenhuma.
— Não é desse tipo de aprovação que você precisa.
— Não estou entendendo.
— Pois vou explicar.
O cara quer uma garota só para ele, mas ainda não escolheu.
Por isso, mandou convocar vários “empresários” do ramo.
Cada um vai concorrer com uma garota.
A que ele escolher leva o prémio.
“Empresário do ramo” era novidade para Jaqueline.
Um belo eufemismo para quem não passava de um cafetão barato.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:07 am

— E você? — redarguiu ela.
O que leva?
— Minha percentagem de sempre.
— Só?
— E mais uma pequena comissão, claro.
Afinal, eu sou o seu “agente”.
Nada mais justo do que receber a minha parte na negociação.
— Nada mais justo — repetiu ela, em tom mordaz.
— Antes disso, você tem que passar nos exames.
— Que exames?
— Para começar, o cara só está interessado em garotas saudáveis.
Não quer que lhe passem nenhuma doença.
Já estou com a requisição dos exames aqui.
Lampião estendeu alguns papéis para Jaqueline.
Eram pedidos para exames de sangue, de urina e de fezes.
— Para que tudo isso?
— Não sei e não quero saber.
O homem está pagando, logo, eu não discuto nem faço perguntas.
— Onde vou fazer esses exames?
— Deixe comigo.
Virei buscá-la daqui a três dias, que é o tempo necessário para você fazer as colectas.
Faça tudo direitinho e, nesse período, não transe com ninguém.
Prometi isso a ele.
Agora, deixe-me explicar como proceder para colectar o material — terminou a frase com um tom de ironia que a deixou envergonhada.
Depois de tudo explicado, ele foi embora, deixando com ela os frasquinhos para os exames.
Jaqueline ficou parada, olhando para aquilo tudo sem saber se devia ficar alegre ou preocupada.
Ter um cliente fixo era bom, principalmente, porque ganharia mais.
Mas a que particularidades seriam essas às quais Lampião se referia?
De que aquele homem podia gostar que outras mulheres não podiam fazer?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:07 am

Capítulo 8

Quando Tobias abriu a porta do apartamento, a surpresa de ver Eva ali parada só não foi maior do que o constrangimento.
Esperava encontrar Denise, dando-lhe a chance de se desculpar.
Dar de cara com a mãe dela foi não apenas surpreendente, mas um choque.
— Eva! — exclamou, embaraçado. — Que surpresa...
Não esperava vê-la aqui.
Ainda mais a uma hora dessas.
— Eu acordo cedo — tornou Eva, adiantando-se pela porta antes de perguntar:
— Não me convida para entrar?
— Desculpe. Por favor, entre e fique à vontade.
Nem bem terminou de falar, ela já estava sentada no sofá, as mãos juntas sobre as pernas cruzadas, apertando a alça da bolsa como se aquilo lhe desse algum tipo de protecção.
— O que posso fazer por você? — perguntou ele, entre curioso e preocupado.
— Você sabe por que estou aqui.
— Posso imaginar.
— Se é assim, não percamos tempo com rodeios.
Você sabe que vim aqui para falar de Denise.
Tobias a encarou, tentando não parecer pouco à vontade.
— Sei o que aconteceu na noite passada.
— Eva, por favor, deixe-me explicar...
— Não precisa.
O que me aborrece não é o facto de minha filha ter passado a noite na cama de um homem, mas o facto de que esse homem tenha sido você.
— Isso não devia ter acontecido — ele tentou se desculpar.
— Não devia mesmo.
Você tem idade para ser pai dela.
— Mas não sou.
— E por causa disso, pensa que pode abusar dela?
— Eu não abusei dela.
Denise pode ser jovem, mas não é mais criança.
É uma mulher feita e sabe o que quer.
— Sabe, porque não conhece o passado.
Experimente contar-lhe o que aconteceu.
— Conte você, se achar que deve.
Ela é sua filha, não minha.
— Você não mudou nada, não é?
Continua o mesmo arrogante de sempre.
— Não queria lhe dar essa impressão, mas você não me deixa escolha.
Sei que errei em muitas coisas no passado, mas não no que se refere a você.
— Será mesmo? — Eva enfureceu-se.
Porque não foi você quem ficou com a humilhação e a vergonha, mas eu!
— Sinto muito.
Não era o que eu queria, mas você não me deu escolha.
— Eu era jovem e burra.
— Não fale assim.
Por que você não pode simplesmente passar por cima do que aconteceu?
Já faz quase trinta anos, nós mudamos...
— Você continua o mesmo — cortou ela.
Ainda é um homem insuportável.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:08 am

— Você quer me agredir.
Tudo bem, vá em frente.
De alguma forma, devo merecer isso.
— Não se faça de vítima, Tobias.
Não combina com você.
— Por favor, Eva, eu só quero viver em paz.
Estou tentando refazer minha vida, como você refez a sua.
— Com a minha filha?
— Comigo mesmo.
— E qual o papel da minha filha nessa história?
Aliás, das minhas filhas?
Pensa que não percebi como você olhou para Alicia durante toda a noite da festa?
— Não é o que você está pensando...
— É claro que não!
Você pensa que pode obter o perdão dela, para aplacar a sua culpa.
Mas Alicia nunca vai perdoar você.
— Por que me acusa de tantas coisas, Eva?
Já não basta eu ter-me exilado voluntariamente?
— Eu o acuso de ter estragado a minha vida e a da minha filha.
Nem tente fazer isso outra vez.
— Você está exagerando.
E se alguém estragou sua vida, não fui eu.
Foi você mesma.
— Como se atreve? — Eva esbravejou.
Já se esqueceu do que fez?
Você acabou comigo por duas vezes.
Duas vezes, Tobias!
Por sorte, meu marido é um homem bom e foi graças à bondade dele que consegui superar.
— Celso sempre a amou.
Não é o suficiente?
— E até esse amor você quis destruir.
— Você está sendo injusta.
Quem quase destruiu tudo foi você.
— Destruiu e quer tentar destruir novamente — prosseguiu Eva, fazendo-se surda aos protestos dele.
— Não diga tolices.
Francamente, Eva, não vejo a que essa conversa vai nos levar.
Com certeza, a nada de útil.
— Você está louco para que eu vá embora, não é?
Quer se livrar de mim, para não ter que enfrentar a verdade.
— Não me interessa a verdade! — explodiu Tobias.
Estou tentando ser educado com você, mas está ficando difícil.
Você não tem o direito de vir até a minha casa me fazer acusações.
Por favor, retire-se.
— Eu vou — concordou Eva, trémula.
Mas não pense que terminamos por aqui.
Quero você longe das minhas filhas, principalmente de Denise.
— Não cabe a você decidir isso.
Denise é maior de idade.
Se ela quiser tornar a me ver, você não tem como impedir.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:08 am

— Depois de tudo, duvido que ela queira vê-lo novamente.
— Por quê? — tornou, acabrunhado.
O que foi que ela lhe disse?
— Nada. Denise não foi para casa.
Depois que você a enxotou, ela foi chorar as mágoas no colo de Alicia.
Foi por ela que eu soube o que aconteceu.
— Primeiro, eu não enxotei Denise.
Segundo, isso não é problema seu.
Por favor, não se intrometa.
— Sou mãe, Tobias, tenho o direito de me preocupar com minhas filhas.
E agora, com licença.
Já disse o que tinha a dizer-lhe.
Espero, sinceramente, que você esqueça Denise de uma vez por todas.
Você não serve para ela.
Tobias não queria mais discutir.
Preferiu se omitir em vez de retrucar.
Caminhando mansamente, abriu a porta, esperando que Eva saísse.
Ela se levantou calmamente, mas, antes de cruzar o umbral da porta, virou-se para ele e disse em tom de ameaça:
— Afaste-se de Denise!
Vai ser melhor para todos.
Mesmo sem querer, Tobias bateu a porta quando Eva saiu.
Fora muito atrevimento dela, mas será que, no fundo, ela não tinha razão?
Nem mesmo ele entendia por que ainda pensava em Denise.
Não sabia se pretendia tornar a vê-la ou desculpar--se apenas.
Não sabia nem se ela era apenas um elo entre ele e Alicia.
A noite de sono estava perdida.
Mesmo sem se dar conta, as horas haviam-se passado, e a manhã exigia de Tobias o cumprimento de suas obrigações.
Precisava fazer um esforço para ir trabalhar e encarar Celso, mesmo achando que não conseguiria mais fazê-lo.
Não podia, contudo, simplesmente se omitir.
Depois da conversa franca que haviam tido, o mínimo que Celso merecia era honestidade.
Independentemente do que acontecesse, Tobias não fugiria.
Passara tempo demais fugindo de si mesmo, de seu passado, de suas escolhas.
Agora era hora de confrontar-se com seus medos e arrependimentos.
Quando chegou ao trabalho, entrou cautelosamente, procurando não chamar muito a atenção dos colegas.
Distraído com um microscópio, Celso pareceu não notar a presença dele.
Tobias vestiu o jaleco e foi para seu posto, evitando olhar na direcção do amigo.
Não adiantou.
Assim que levantou os olhos do aparelho, Celso o avistou.
— Está tudo bem? — indagou baixinho, ao ouvido de Tobias.
Você está com uma cara horrível!
Pelo visto, Eva não lhe contara de sua visita extemporânea logo nas primeiras horas do dia.
Tobias suspirou aliviado.
Não tinha mais imaginação para inventar desculpas nem justificar as insanidades alheias.
— Não dormi muito bem a noite passada — esclareceu ele.
Acho que foi alguma coisa que comi.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:08 am

— Está engolindo sapos? — Celso brincou.
Pois não devia.
Ponha para fora o que o incomoda.
Assim, vai se sentir melhor.
Tobias riu do gracejo.
Não tinha a menor intenção de contar ao amigo o que se passara entre ele e Eva.
Muito menos, entre ele e Denise.
— Não foi nada — Tobias desculpou-se.
Já estou melhor.
— Você é quem sabe — arrematou Celso, com ar de dúvida.
E Denise? Como foi o jantar?
Ela não dormiu em casa.
Passou a noite com você?
— Não sei se esse é um assunto que eu gostaria de discutir com você — retrucou Tobias, cauteloso.
Mas, de verdade, estou um pouco arrependido de ter saído com ela.
— Por quê? Não é de novo aquela história de idade, suponho.
— Também. Mas não é isso que mais me preocupa.
— E o que é?
— Eva... Ela pode não gostar.
— Eva?
— Eu mal consigo encará-la.
— Entendo...
— Será que entende mesmo?
— Você precisa superar isso. É passado.
— Desculpe, Celso, mas quem não entende sou eu.
Toda essa sua conversa de tentar acertar as coisas me deixa muito confuso.
Parece contraditório...
— Não o culpo.
No final, a maior vítima, se é que se pode chamar assim, foi você.
— Vítima, eu?
— Vítima é aquele que não alcança o perdão.
E como você não perdoa a si mesmo, sim, meu caro, a maior vítima aqui é você.
— Você me perdoou?
— Mas é você quem tem que me perdoar!
— Eva não me perdoou — Tobias rebateu, sem graça.
— Ela perdoou.
Só não sabe como demonstrar — afirmou, sem muita convicção.
— Acho que nem você acredita nisso.
— Se não perdoou, estamos todos tendo essa chance agora.
O silêncio de Tobias encerrou a conversa.
Ele não sabia mais o que dizer.
Não queria falar sobre a visita de Eva, muito menos sobre o desastre que fora a noite com Denise.
Celso se afastou, cheio de uma esperança que ele mesmo não sentia.
Num derradeiro impulso, Tobias apanhou o telefone e falou rapidamente, logo que ela atendeu do outro lado da linha:
— Preciso falar com você.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:08 am

Capítulo 9

Eva irrompeu no restaurante como se entrasse numa jaula, pronta para o ataque de uma fera.
O rápido telefonema de Tobias a deixara apreensiva.
Depois da conversa desagradável, horas antes, pensou que nunca mais ouviria a voz dele.
— O que quer? — indagou, sentando-se à mesa de frente a ele.
— Quer beber alguma coisa?
— Uma água com gás, por favor — pediu ao garçom, virando-se para Tobias em seguida:
— Muito bem, estou esperando.
— Estive pensando.
Não acho justo seu pedido para que me afaste de Denise.
Quero que você saiba que não fizemos nada de mais.
— Foi para isso que me chamou aqui?
Não perca seu tempo, pois não preciso ouvir suas explicações.
— Não acho que tenha obrigação de lhe explicar nada.
E, embora compreenda seus motivos, não concordo com eles.
— Você não é mãe.
— Eu acompanhei toda a gestação de Alicia.
Acha que não me sinto responsável?
— Acho que se sente, e é por isso que precisa deixar Denise em paz.
— O que preciso é me libertar dessa culpa.
— Ah! Então quer dizer que admite que é culpado?
— Admito que me sinto culpado.
Se sou ou não, cabe a Deus responder.
— Deus não está aqui e não interfere em nossas atitudes.
É você quem tem que prestar contas à sua consciência.
— No entanto, o que você me pede é que preste contas a você.
Eva hesitou.
No fundo, ele tinha razão.
Mesmo assim, não desistiria.
Não podia desistir.
— Fala como se só dependesse de você — Eva mudou de assunto.
Denise não quer mais vê-lo.
— Se isso é verdade, por que você está tão preocupada?
— Sou mãe, já disse.
Quero o melhor para minhas filhas.
— Celso também.
Ainda assim, ele me perdoou.
— Celso é um tolo sentimental.
Esquece tudo rapidamente.
— Ele é meu amigo.
Não gostaria que você fosse minha inimiga.
Eva titubeou.
Não tinha inimigos, considerava-se uma pessoa de bem, generosa, compreensiva.
Mas seus sentimentos mudavam quando se tratava de Tobias.
Devia lutar contra aquilo; era falta de caridade, amor, perdão, compreensão, de tudo o que há de mais nobre no sentimento humano.
Só que ela não conseguia.
Era mais forte do que ela.
— Aonde está querendo chegar, Tobias?
Você está me enrolando e ainda não disse qual o propósito desta conversa.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:08 am

— Muito bem, vamos ao que interessa.
Como disse, não acho justo que você queira me afastar de Denise, ainda mais deixando que ela pense que sou um canalha.
— E você não é?
Não foi possível, naquele momento, controlar a energia de raiva que explodiu dos olhos de Tobias.
E se antes havia algum remorso impedindo que ele fizesse o que pretendia fazer, agora aquilo não existia mais.
— Não, Eva, não sou — afirmou categoricamente.
Sou um homem comum, com erros e acertos.
Mas agora quero fazer a coisa certa.
E a verdade é que gosto de Denise.
Não estou disposto a abrir mão dela porque você não consegue me aceitar.
Sei que você passou a vida fazendo de tudo para que ela e Alicia não descobrissem a respeito do passado.
Então, ou você nos deixa em paz, ou contarei tudo a elas.
— O quê? — exaltou-se.
— É isso mesmo que você ouviu.
Conto tudo. Tudo mesmo, inclusive o que aconteceu entre nós.
— Isso é um absurdo! — Eva esbravejou, indignada.
Não aconteceu nada entre nós!
— Deixe que elas mesmas decidam isso.
— Não! De jeito nenhum!
— Ou você nos deixa em paz, ou contarei tudo.
Esse é o preço do meu silêncio.
— Você está me chantageando!
— Estou lhe dando uma opção.
— Isso é um absurdo!
— Absurdo é o que você está tentando fazer comigo e com Denise.
Quer controlar nossas vidas.
— Eu o proíbo — Eva disse baixinho, tão baixo que ele mal conseguiu ouvir.
Proíbo-o de dizer uma palavra sequer sobre esse assunto para minhas filhas.
— Sinto muito, Eva, mas você não tem esse poder.
Você tem até amanhã à noite para me dar uma resposta.
Se não o fizer, entenderei que você optou pelo silêncio e que vai sair do nosso caminho, deixando-me livre para me entender com Denise.
Certo de que dissera tudo o que pretendia, Tobias largou o dinheiro para pagar a conta em cima da mesa e se levantou sem pressa.
Passou por ela olhando para a frente, com medo de que seu olhar revelasse que estava blefando.
Eva, por sua vez, não sabia se gritava ou chorava.
Talvez fosse melhor fazer as duas coisas, que eram óptimas para extravasar a frustração e o desespero.
Quando se levantou, não viu mais Tobias.
Ela não esperou.
Apanhou o celular e ligou para o marido.
— Vai chegar tarde hoje? — perguntou calmamente, tentando evitar que ele percebesse o pânico em sua voz.
— Acho que não. Por quê?
— Preciso falar com você com urgência.
Por favor, vá logo para casa.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:09 am

— Aconteceu alguma coisa?
— Ainda não, mas vai acontecer, se não agirmos rapidamente.
Nem era preciso perguntar para saber que Eva se referia a Denise.
Celso desligou o celular, preocupado.
Olhou ao redor, procurando Tobias, mas não o encontrou.
— Viu o doutor Tobias? — perguntou à secretária.
— Ele foi almoçar e ainda não voltou.
Talvez a saída dele não tivesse nada a ver com Eva, mas sua intuição lhe dizia que tinha.
Após considerar a situação por alguns minutos, Celso resolveu ir para casa.
A ansiedade na voz de Eva era preocupante.
Encontrou-a no quarto, andando de um lado para outro.
Logo que Celso entrou, ela atirou-se em seus braços, chorando tanto que mal conseguia falar.
— Por favor, querida, acalme-se — Celso procurou tranquilizá-la.
O que aconteceu para você ficar assim?
— Todo nosso mundo está por ruir.
Tobias está prestes a destruir nossas vidas... De novo!
— Por quê? Do que você está falando?
— Ele me procurou... para me chantagear!
— O quê? Não acredito.
— Acredite.
O preço para não contar toda a verdade a nossas filhas é que os deixe em paz.
Isso é ou não é chantagem?
— Não compreendo.
Por que Tobias faria uma coisa dessas?
Pensei que ele e Denise estivessem se dando bem.
— Porque eu fui procurá-lo e exigi que ele deixasse Denise em paz.
— Mas por que, em nome de Deus, você fez uma coisa dessas? — Celso indignou-se.
— Porque ele dormiu com ela e depois a escorraçou de casa. Foi por isso.
— Você agiu mal.
Denise é adulta, não precisa mais de você para resolver seus problemas.
— Ah, claro, quem agiu mal agora fui eu.
Tobias é só um coitadinho.
— Ninguém é coitadinho, mas vamos ser justos.
Que interesse teria Tobias em revelar a verdade às meninas?
— Ele quer nos destruir.
E pretende usar Denise para alcançar esse objectivo.
Sabendo que nossa filha está apaixonada por ele, vai usar isso para fazê-la sofrer e, consequentemente, nos fazer sofrer também.
Você não pode permitir, Celso, não pode.
— Tem algo nessa história que não se encaixa.
Conversei com Tobias outro dia, e ele não deixou transparecer nenhuma intenção de nos destruir.
— É claro que ele não deixaria transparecer.
Ele não é burro.
Mas se não é por isso que está me chantageando, por que é então?
As palavras de Eva não faziam sentido.
Celso conhecia Tobias, conhecia cada meandro de sua vida passada.
Sabia de seus medos, suas frustrações, suas escolhas.
Conhecia, sobretudo, sua gratidão.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:09 am

— Você não está entendendo, Eva.
Desde que voltou, Tobias tem se demonstrado contra a ideia de revelar a verdade a Alicia e Denise.
Por que mudaria de opinião agora, só para chantagear você?
— Não acho que chantagem seja uma coisa sem importância.
Ele estava enganando você, mas a mim não conseguiu enganar.
Revelou suas intenções, assim que viu em mim um possível obstáculo para alcançar seu objectivo.
Mesmo assim, nada fazia sentido.
Durante todos aqueles anos de ausência, Celso não deixou de manter contacto com Tobias um único dia sequer.
Comunicavam-se pela internet e pelo celular.
Mantinham-se actualizados sobre os pensamentos e sentimentos de um e de outro.
Não fora por outro motivo que Celso resolvera que já era hora de Tobias voltar.
— Tudo isso pode ser evitado se revelarmos a verdade a elas — sugeriu Celso.
— Se fizermos isso, estaremos fazendo o que ele quer.
— E daí? Talvez seja o que eu quero também.
Eva abriu a boca, estupefacta.
Não podia crer no que estava ouvindo.
Celso só podia estar brincando.
— Em nome da nossa felicidade, espero que você não esteja falando sério, Celso.
Isso destruiria nossas vidas.
— Ao contrário.
Acho que isso nos traria paz e liberdade.
— Elas não vão entender.
Alicia, principalmente, vai sofrer muito, vai nos acusar, nos virar as costas.
Não posso suportar viver sem minha filha.
— Alicia é uma pessoa inteligente e compreensiva.
Vai saber nos entender e perdoar.
— E se ela se sentir culpada também?
— Ela é a única que não teve culpa de nada.
— Mas e se ela não pensar assim?
Por Deus, Celso, não permita que isso aconteça.
Por mim, convença Tobias a se afastar de Denise sem lhe contar coisa alguma.
— Vou tentar. Conversarei com ele.
Aposto como ele tem uma explicação razoável para essa atitude aparentemente insana.
O ocorrido deixou em Celso a sensação de que todos cometiam erros em cima de erros.
Não era possível segurar a verdade por tanto tempo.
Com ou sem chantagem, era chegada a hora de revelar seus segredos.
Ninguém podia viver ocultando a verdade por toda a vida.
Como a planta que quer brotar do solo, a verdade sempre arranja um jeito de vir à superfície e se exibir.
O que ele precisava era decidir que tipo de planta ele queria que viesse à tona: uma linda flor ou um cacto cheio de espinhos.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:09 am

Capítulo 10

Alicia não podia parar de pensar que Denise merecia coisa melhor.
Um jovem inteligente e simpático, não um velho ranzinza feito Tobias.
A irmã encasquetara com ele.
Mesmo depois da grosseria que lhe fizera, praticamente expulsando-a de seu apartamento, Denise ainda o queria.
Denise saiu do banheiro já vestida e apanhou o celular, conferindo as ligações.
Não havia nada de Tobias.
Desanimada, jogou o aparelho dentro da bolsa, preparando-se para sair.
— Não vai tomar café? — perguntou Alicia.
— Não estou com fome.
— O que é isso, minha irmã?
Vai deixar que um idiota qualquer tire o seu apetite?
— Tobias não é idiota.
E não foi ele quem tirou meu apetite.
— Tudo bem, não precisa se zangar.
Eu só acho que você está dando valor demais a quem não liga a mínima para você.
— Por que você acha isso?
— E ele liga?
Fez o que fez e nem sequer a procurou para se desculpar.
— Podemos deixar esse assunto de lado?
Não quero falar sobre isso.
— Você está fugindo da realidade.
Tobias é um homem maduro, está acostumado com mulheres maduras também.
Você é só uma garotinha, uma diversão passageira.
— Não sou, não.
Tenho certeza de que ele ainda vai perceber que gosta de mim.
Ele está é com medo, por causa da nossa diferença de idade.
Mas não é nenhum canalha, como você está pensando.
— Eu não disse isso.
— Nem precisava.
— Você não percebe que eu me preocupo com você?
— Dá para você mudar de assunto, por favor?
— Você está tentando fugir.
Não quer ouvir a verdade.
Esse homem não gosta de você.
— Mas eu gosto dele.
Sendo assim, tenho o direito de ter esperança.
— Você está magoada, o que é normal.
Eu também ficaria, se alguém dormisse comigo e, logo na primeira noite, me desse um fora.
— Por que está sendo tão cruel?
Pensei que você me apoiasse.
Na mesma hora, o arrependimento tocou o coração de Alicia.
O que fazia com a irmã não passava de pura maldade.
Não tinha o direito de permitir que sua antipatia por Tobias a fizesse descontar tudo em Denise.
— Tem razão, perdoe-me.
É que não gosto que magoem minha irmãzinha.
— Não sou mais sua irmãzinha. Sou sua irmã.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 06, 2016 9:09 am

— É claro que é.
Você já é uma mulher, mas é difícil me acostumar a isso.
— Pois acostume-se.
E depois, nossa diferença de idade nem é tão grande assim.
— Você está certa.
Por favor, não brigue comigo.
Você sabe que eu a amo e não quero vê-la sofrer.
— Eu sei — Denise se aproximou da irmã, abraçando-a com carinho.
Não vou brigar com você. Também a amo demais.
— Fico feliz. Não gostaria que nada nem ninguém se interpusesse entre nós.
— Isso não vai acontecer.
Gosto de Tobias, mas sei separar as coisas.
— Óptimo. Faça como achar melhor.
Mas se precisar, não se esqueça de que estou aqui para apoiá-la.
— Sei disso. Obrigada por tudo.
Alicia queria muito que Denise permanecesse com ela, mas a irmã, agora mais fortalecida, resolveu voltar para casa.
Mal ela fechou a porta, Juliano apareceu para o desjejum.
— Bom dia, meu amor — cumprimentou ele, beijando-a nos lábios.
Dormiu bem?
— Dormi.
— E sua irmã? Já foi?
— Já. Não entendo Denise.
Podia ficar aqui connosco, longe daquele Tobias, mas preferiu ir para casa, onde corre o risco de encontrá-lo.
Ele é amigo de papai.
— Sua irmã tem que viver a vida dela.
Isso inclui enfrentar seus problemas.
— Eu sei, mas não é justo.
Denise é jovem e linda.
— Isso vai passar, querida, você vai ver.
— Eu sabia que esse encontro não ia dar certo — desabafou.
E não é porque ele é mais velho.
É porque não presta.
— Não acha que está sendo muito severa em seu julgamento?
Dizer que alguém não presta é uma crítica muito séria.
— Pode ser, mas é isso que sinto.
— Até quando você vai tomar as dores da sua irmã?
Ela passou anos nos Estados Unidos, longe de você, defendendo-se sozinha.
Não acha que ela já aprendeu a se virar?
— Denise é frágil, insegura.
Os Estados Unidos não mudaram isso.
— Acho que você está enganada.
Mesmo assim, não temos que nos meter na vida dos outros.
Ela e Tobias são adultos.
— Tobias é mais adulto do que ela.
— Nem eu entendo qual o motivo de tanta antipatia.
Tudo bem que o cara é meio carrancudo, mas você está exagerando.
Você devia cuidar mais de mim e deixar sua irmã em paz.
Subitamente, um flash inesperado trespassou a mente de Alicia, fazendo doer suas têmporas.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:08 am

Em sua mente, a imagem da moça se delineou.
Jovem, bonita, uma desconhecida vestida com vulgaridade.
— Alicia! — chamou Juliano, preocupado.
O que foi que houve, querida? Sente-se mal?
— Uma terrível dor de cabeça...
— Você ficou meio fora do ar.
— Tive uma visão, um sonho, sei lá.
— Uma visão?
— Sabe aquele sonho recorrente? — Juliano assentiu.
Então? Me pareceu a mesma moça.
— Estranho.
— Sonhar acordada é sonho? — duvidou Alicia.
Acho que o que tive foi uma visão.
— Visão, do tipo, com espíritos?
— Não sei se a garota está viva ou morta.
— Acho que isso tudo é imaginação.
— Não é.
— Querida, isso foi apenas um sonho.
— Não foi. Estava acordada, já disse.
— Talvez então seja melhor consultarmos um médico.
A dor de cabeça pode estar associada a essas ilusões.
— Você não entende. Não foi ilusão.
Sinto que essa moça existe de verdade, e a dor de cabeça foi consequência da descoberta.
Talvez minha mente, em algum lugar bem escondido, a tenha reconhecido.
— De onde?
— Não sei.
— Se não é imaginação nem espírito, talvez seja uma visão de outra vida — deduziu Juliano, após alguns minutos de reflexão.
— Será?
— É bem possível, não é?
— Na verdade, sim. Foi tão real!
A dor de cabeça aumentou, estabelecendo o silêncio.
Mesmo preocupado, Juliano não disse nada.
Queria levá-la ao médico, mas o olhar alheado da mulher o deteve.
Na verdade, Alicia acabara de pensar em algo que a deixara surpresa.
Era só uma vaga desconfiança, mas algo que podia ser real.
Ela remoeu o pensamento por alguns minutos, olhando para Juliano sem realmente o compreender.
A ideia, a princípio, pareceu-lhe absurda, mas depois se tornou viável. Tinha que ser.
Assim que Alicia terminou o café da manhã, não perdeu tempo.
Beijou o marido e anunciou:
— Vou chegar um pouco atrasada hoje.
— Por quê? Aonde você vai?
— Falar com meu pai.
— Sobre Denise?
— Não. É outro assunto.
Pretendo descobrir se ele conhece essa moça.
No laboratório, Celso conversava com os membros de sua equipe.
A uma rápida passada de olhos pelo ambiente, Alicia não viu Tobias em lugar algum e não conseguiu conter a curiosidade.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:08 am

Assim que a reunião terminou, ela foi logo perguntando ao pai:
— Onde está o Tobias?
Ele não veio trabalhar?
Celso deu um suspiro cansado e respondeu:
— Telefonou dizendo que está doente.
Mas venha, vamos até meu consultório.
Acomodada na poltrona defronte à mesa de trabalho do pai, Alicia cruzou os braços, olhando-o em dúvida.
Precisava tomar cuidado com as palavras, por isso o melhor seria ir devagar, com cautela.
— Tenho tido uns sonhos estranhos — iniciou Alicia.
— Que sonhos?
— Sempre com a mesma pessoa, uma moça bonita, porém, vulgar.
— Alguma conhecida?
— Aí é que está.
Não a conheço, mas ela não me parece totalmente estranha.
Dá para entender?
— Mais ou menos.
— E hoje de manhã, por acaso, tive esse sonho novamente, só que estava acordada.
Foi mais uma visão, sabe?
— E você acha que isso significa alguma coisa além de um sonho?
— Você está falando igual ao Juliano.
A gente sonha quando dorme.
Quando se está acordado, isso se chama visão.
— Que seja.
Mas não estou entendendo aonde você quer chegar.
— Nem eu sei ao certo.
Mas tem algo que me incomoda muito, algo que preciso perguntar-lhe.
Alicia hesitou, estudando o rosto do pai.
— Muito bem — falou Celso, sem qualquer alteração em suas feições.
Faça sua pergunta. Se puder, responderei.
— Vou ser directa, pai.
Por acaso, eu tenho outra irmã?
Os olhos de Celso, de repente, se esbugalharam.
Ele ergueu as sobrancelhas, demonstrando a enorme surpresa que o acometera.
Por uns instantes, não conseguiu falar.
Depois, sem dizer nada, levantou-se da cadeira e aproximou-se da janela.
Quando olhou para a filha novamente, Alicia já sabia o que ele ia dizer.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:09 am

Capítulo 11

Todos os espelhos do mundo não seriam suficientes para conter a vaidade exibicionista de Igor Lafayete.
Era um homem orgulhoso, ciente de sua beleza, de sua inteligência e de seu carisma.
Desde pequeno, seus dons já eram visíveis.
Era o mais bonito da escola, tirava as melhores notas, se dava bem com todo mundo.
As professoras o adoravam, as meninas o admiravam, os colegas o invejavam.
Os pais faziam tudo por ele, mimavam-no ao extremo, certos de que Deus lhes havia mandado o filho perfeito.
Tudo isso era verdade, menos a ideia da perfeição de Lafayete.
Ele possuía uma peculiaridade que muito poucos conheciam, além das prostitutas que tinham o desprazer de parar em sua cama.
Doutor Lafayete, como gostava de ser chamado, era um homem rígido.
Iniciou-se cedo na política, até ser eleito para o cargo de deputado federal, que exercia com entusiasmo.
Aparentemente, não era dado a subornos nem nepotismo.
Tinha fama de incorruptível, embora não o fosse.
Não suportava aduladores nem aproveitadores, isso lá era verdade, mas sabia aproveitar--se deles quando era de seu interesse.
O bom senso de Lafayete era um pouco distorcido e ele, absolutamente, não tinha compaixão.
Era implacável.
Quem cruzasse seu caminho, ou andava na linha que ele traçara e fazia o que ele queria, ou assumia o risco de ser espezinhado, humilhado, destruído.
Era um homem frio, duro, insensível.
Não se compadecia da fome alheia, da miséria do povo, das dificuldades das pessoas.
Para ele, quem não encontrava trabalho era vagabundo, quem não tinha cultura era preguiçoso, quem não estudava era marginal.
Não aceitava as “desculpas” da falta de emprego, da necessidade de parar de estudar para sustentar a família, das limitações da inteligência.
Os erros alheios eram inaceitáveis.
Somente os dele eram toleráveis, porque nunca eram descobertos.
Para Lafayete, não existia a palavra perdão.
Casado, pai de dois filhos que ele nunca via, passava a semana em Brasília, indo ao Rio de Janeiro apenas nos feriados e fins de semana.
Era quando, segundo ele, aproveitava o convívio em família, que considerava de suma importância, embora os filhos estudassem num internato em Londres e ele pouco ficasse em casa com a mulher.
Sua plataforma política estava assentada na preservação do bem maior da família, que ele de tudo fazia para preservar e manter na ignorância a respeito da vida que ele realmente gostava de levar.
Sim, porque todas essas características ocultavam uma faceta muito peculiar de Lafayete, que, se descoberta, poderia levá-lo à prisão.
E, por mais que ele tentasse não delatar sua maior fraqueza, a compulsão não detinha o ímpeto que sentia de revelar, na intimidade, seu maior segredo.
Era um dos luxos dos quais Lafayete não abria mão:
desfrutar dos favores de belas garotas de programa.
Mas, devido à sua posição, precisava tomar cuidado.
Não podia ser visto em companhia de uma mulher que não fosse sua esposa.
Para isso, pagava, e pagava muito bem.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:09 am

Comprava não apenas os favores das mulheres, mas, também, sua discrição.
Naquele momento, porém, as coisas não andavam muito fáceis para ele.
Já conhecido no meio, tornara-se impopular entre as garotas de programa que trabalhavam por conta própria e que não o queriam mais como cliente.
Ele insistiu, ofereceu mais dinheiro, mas não houve jeito.
Elas não queriam e pronto.
O jeito foi apelar para outra fonte.
Mandara seu assessor em busca de alguém que lhe servisse, e Cezar voltou com a ideia.
Por que não fazer um concurso para escolher a garota ideal?
As concorrentes seriam recrutadas entre os maiores cafetões da cidade e a vencedora teria o privilégio de servi-lo com exclusividade.
— Ao menos elas não sabem do seu passado — justificou Cezar, quando Lafayete se opôs ao plano.
— Você está sugerindo uma puta — rebateu ele, entre irado e incrédulo.
Uma bem ralé.
— Não se trata disso.
Há garotas bem bonitas nesse ramo.
E novinhas também, do jeito que você gosta.
— São mulheres usadas, sem classe.
Não quero uma prostituta.
Quero alguém com quem possa estar sem me sentir num puteiro.
A vulgaridade de Lafayete aborrecia Cezar.
Tinha vontade de gritar-lhe para ter um pouco de compostura, mas não adiantaria nada.
Lafayete era intransigente, arrogante, não aceitava reprimendas.
Havia muitas razões, além do alto salário que recebia, que faziam Cezar engolir as grosserias daquele homem e não se envolver emocionalmente em seus assuntos.
Por mais que não lhe agradasse aquele papel de intermediário sexual, obedecia sem questionar, procurando não avaliar o aspecto moral de suas acções.
— Bom, Lafayete, você não me deixa escolha — rebateu ele.
As garotas de programa não querem atendê-lo, nem recebendo mais.
Então, ou você aceita esse novo jogo, ou se contenta em ficar só com sua mulher.
Por muito pouco, Lafayete não batera em Cezar.
Achou uma petulância aquela resposta, mas, no fundo, sabia que ele estava certo.
Não compreendia bem a recusa das moças, já que lhes pagava um valor bem acima do mercado, para silenciar suas queixas.
Do que elas reclamavam?
Nenhum cliente devia ser tão generoso quanto ele.
— Está certo — convenceu-se, afinal.
Providencie tudo.
Mas quero que as garotas seleccionadas apresentem exames clínicos, feitos em laboratório de minha confiança, para certificar sua saúde.
— Certo.
Após a saída de Cezar, Lafayete reflectiu sobre o que se passara.
Até que a brincadeira podia ser divertida.
Para começar, seria boa ideia dar uma olhada nas meninas.
Nunca interagira com aquele tipo de prostitutas, e a perspectiva o deixara excitado.
Poucos dias depois, Cezar reaparecera trazendo novidades.
Lafayete trancara-se com ele em seu gabinete particular, longe dos ouvidos da mulher.
— E então? — indagou Lafayete, alisando o busto de Getúlio Vargas que mantinha sobre um aparador embaixo da janela.
Como estão os preparativos para o concurso?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:09 am

— Bem. Conheci alguns cafetões e fiz a proposta.
É claro que eles adoraram.
Vão seleccionar suas melhores garotas.
— E os exames?
— Disse-lhes que era condição sine qua non.
Quero tudo pronto, inclusive os resultados, para daqui a quinze dias, que é quando você estará de volta ao Rio.
— Óptimo. Faremos a selecção em minha casa no Joá.
Localizado num dos menores e menos populosos bairros da zona oeste do Rio de Janeiro, o Joá abriga mansões cercadas por altos muros, ocultas atrás de árvores, praticamente indevassáveis.
Numa dessas, Lafayete construiu sua garçonniére, um lugar exclusivo, de luxo, guardado por seguranças escolhidos a dedo.
Livre dos olhares curiosos, inclusive de vizinhos indesejáveis, a mansão mal era vista da rua, propiciando a privacidade que mantinha os encontros de Lafayete longe da imprensa, das fofocas e, principalmente, da família.
— Consegui um total de sete cafetões mais ou menos apresentáveis — prosseguiu Cezar.
Havia outros, porém, muito vulgares.
— Sete garotas está bom.
Talvez fique com uma ou duas.
— Não acho uma boa ideia.
Lembre-se de que essas garotas são rivais, disputam a mesma clientela.
Seus cafetões podem até se conhecer, mas não se iluda:
qualquer amizade entre eles a falsa e interesseira.
Em pouco tempo, elas acabarão brigando e colocando em risco sua reputação.
— Tem razão. Mas agora, vamos ao que interessa.
Quero dar uma volta por aí, conhecer as meninas de rua.
— Você o quê?
— Não me faça repetir, Cezar, você ouviu.
Quero dar uma olhada nas prostitutas.
— Você acha que é prudente?
Alguém pode reconhecê-lo.
— Não pretendo me expor.
Quero dar uma circulada, olhar as garotas de longe.
Quem sabe até pegar alguma?
— Tudo bem, se é o que quer.
Não adiantava discutir com Lafayete.
Quando ele metia uma ideia na cabeça, ninguém conseguia dissuadi-lo.
Ele ia saindo quando a esposa o interceptara.
— Vou precisar sair para resolver uns assuntos — avisou, antes que ela o interpelasse.
— A essa hora? — Sofia protestou.
— Não se preocupe, não vou demorar.
Volto o mais rápido possível.
Sofia silenciara.
Assim como Cezar, sabia que não adiantava discutir com o marido.
Sabia também o que ele ia fazer. Lafayete pensava que a esposa não desconfiava do que ele fazia, mas ela não era tola.
Bastava olhar para Cezar para ter certeza.
Sempre que o marido ia ao encontro de alguma vagabunda, Cezar não conseguia encará-la.
O assessor tinha a vergonha que faltava ao marido.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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