A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:54 am

Capítulo 54

Ao passar pela portaria do prédio, Jaqueline teve a impressão de ter visto, reflectida no vidro, a imagem de Dimas.
Virou-se rapidamente, mas a figura esvaneceu num átimo, deixando-lhe a dúvida se não estaria vendo coisas.
Vivo ou morto, Dimas era seu fantasma.
A visão evocou o sonho de algumas noites atrás.
Agora se lembrava.
A moça chamada Alicia a alertava sobre uma possível emboscada de Dimas.
Quando fora mesmo que ela dissera que aconteceria?
Não, ela não dissera.
Só sabia que seria numa noite, a caminho da academia.
Na certa, tivera aquele sonho devido aos avisos de Cezar.
Sim, só podia ser isso.
Cezar estava tão preocupado com Dimas, que deixou nela aquela apreensão.
Como Alicia era uma personagem intrigante, que sempre aparecia em sonhos estranhos, ela acabou misturando as coisas, colocando Alicia e Dimas na mesma situação.
O encontro que tivera com Alicia não podia ser outra coisa além de um sonho maluco.
Agora se lembrava de que Alicia lhe dissera que era ela, mas numa outra dimensão, que vivia o seu futuro.
Talvez fosse melhor parar de ver filmes de ficção científica com Maurício.
Do jeito que andava tão cheia de preocupações, nada mais natural do que a mente criar um subterfúgio extraordinário para explicar suas alucinações.
Nem bem ela entrou no prédio, Dimas se levantou, saindo de trás do carro estacionado no meio-fio.
Por pouco ela não o vira.
Uma buzina soou ao lado dele com estridência.
Dimas deu um pulo, embora já soubesse quem era.
— O que está fazendo aqui? — indagou Lampião, irritado.
— Vigiando — respondeu Dimas calmamente, debruçando-se na janela do carona.
— Você devia estar era chantageando.
— Não posso fazer isso ainda.
Preciso de elementos para...
— Você não precisa de elemento algum.
Está é me enrolando.
Você só está interessado em pegar a garota.
— E daí? Tenho meus motivos.
— Parece que você se esqueceu do nosso trato.
Preciso de mais dinheiro.
— Não deixe que ele o convença — vociferou Rosemary, ao lado dele.
Temos que cuidar de Jaqueline primeiro.
Dimas mal registou a presença do espírito, talvez porque o desejo de atacar a enteada fosse seu único objectivo.
Rosemary não lhe sugeria nada que ele já não desejasse.
— Estou perdendo a paciência — prosseguiu Lampião.
— E daí? — desafiou Dimas.
Vai fazer o quê?
— Não se esqueça de que você só a encontrou porque eu lhe disse onde ela estava.
Você está me devendo.
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Ave sem Ninho

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:54 am

— E se eu não pagar?
Vai me matar?
Para ela, já estou morto — ironizou.
— Então, ninguém vai sentir a sua falta, não é mesmo?
Lampião acelerou o carro, quase derrubando Dimas no chão.
Seria impressão ou havia ali uma ameaça velada?
Lampião pretendia mesmo dar cabo dele, caso não cumprisse sua parte no trato?
— Ele quer matar você — afirmou Rosemary.
Você tem que se livrar dele primeiro.
— Idiota — rosnou Dimas. — Fazendo ameaças...
Ele não me conhece, não sabe do que sou capaz.
— É isso mesmo. Dê cabo dele.
— Ninguém vai sentir a minha falta... — repetiu, com desdém.
Quem ele pensa que é? Alguém importante?
O próprio doutor deputado, cuja ausência todo mundo perceberia?
Ele vai ver só uma coisa.
— Isso! Assim é que se fala!
Se Rosemary parasse para se ver e ouvir, questionaria todo o seu comportamento.
Quando encarnada, podia não ter sido uma pessoa das mais iluminadas, mas era decente.
Ao menos, nunca pensara em cometer nenhum crime.
Livre da matéria, julgava-se acima da lei e, portanto, inacessível à Justiça dos homens.
Nem se apercebia de que, muito mais grave do que as leis humanas são as leis da natureza, estabelecidas por Deus e, portanto, inderrogáveis.
Não é porque vive em espírito que o ser desencarnado tem liberdade de fazer o que quer.
Agora julgando-se fora do alcance de qualquer tipo de consequência, Rosemary dava livre curso a seus instintos mais primitivos.
A matéria física e a maternidade haviam arrefecido um pouco a chama da vingança, já que os deveres de mãe funcionavam como uma espécie de freio para o seu ódio, levando-a a questionar seus sentimentos e tentar impor, ainda que de forma racional, a aceitação daquela que recebera como filha.
Contudo, o desenlace libertara todo o ódio que alimentava havia muitos séculos, fazendo renascer a ideia de um revide que achava ser de seu direito.
A lembrança da maternidade havia sumido, junto com os deveres que toda mãe deve ter com seus filhos.
Mas Jaqueline não era, propriamente, sua filha.
Agora se lembrava.
Fora empurrada para ela, de forma quase compulsória, para que elas experimentassem o amor em família, na tentativa de desfazer inúmeras desavenças.
Rosemary agora não tinha mais motivos para fingir.
Podia assumir, para si e para o mundo, que era uma pessoa cruel e que odiava Jaqueline.
E pensar que Sofia quase a convencera.
Por uns instantes, deixara-se impressionar pela sua fala macia, uma sentimentalóide do astral.
Sofia veio com aquela conversa mole de mãe e filha, de perdão, de deveres, e ela se deixou levar, envolvida pela pieguice barata da outra.
Chegou mesmo a considerar a inutilidade da vingança.
Não fosse a certeza de que Dimas ainda cobiçava Jaqueline mais do que sempre a desejou, teria dado ouvidos a Sofia e estaria agora a caminho de algum reformatório invisível.
Decididamente, não era o que ela queria.
Queria que Dimas vingasse sua morte e, para isso, ele precisava ser rápido.
Não podia dar a Lampião a chance de agir primeiro.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:55 am

Dimas pegou um ônibus para a Praça Mauá, onde Lampião deveria estar àquela hora.
Procurou-o pelas redondezas, indo encontrá-lo onde já imaginava que ele estaria:
no mesmo bar de sempre, na ladeira do Morro da Conceição.
Óptimo, pensou.
O sol já se punha, e logo Lampião percorreria os pontos de suas meninas, onde permaneceria até altas horas da madrugada.
Sem ser visto, Dimas foi para a casa do cafetão, uma quitinete minúscula ali mesmo pela Saúde.
Esperou até que o movimento diminuísse para sair de seu esconderijo nas sombras, tomando cuidado para que ninguém o visse.
Quando se sentiu confiante, entrou no edifício decadente, indo directo até o apartamento de Lampião.
Sem dificuldade, forçou a porta e entrou, pondo-se à espera dentro do banheiro.
Já quase adormecia quando ouviu um ruído na porta.
De um salto, Dimas ocultou-se atrás da porta do banheiro.
Do lado de fora, Lampião tirou a chave do bolso e enfiou na fechadura, surpreendendo-se ao perceber que ela não estava trancada.
— Tenho certeza de que tranquei a porta — disse para si mesmo.
Precavido, sacou o velho revólver da cintura, rodou a maçaneta e empurrou a porta lentamente, à espera de que algum elemento saltasse sobre ele.
Nada aconteceu.
Ainda hesitante, deu um passo para o lado de dentro, tacteando a parede em busca do interruptor.
De seu esconderijo, Dimas viu o vulto de Lampião contra a luz do corredor, logo percebendo que ele carregava uma arma.
Uma gota de suor pingou de seu rosto.
Devia ter previsto que o outro estaria armado.
Pensou em desistir, mas não podia.
Como explicar a Lampião sua presença ali?
Esconder-se indefinidamente também era impossível.
Tão logo Lampião passasse pelo banheiro, ele seria descoberto.
Sendo o apartamento tão pequeno, é claro que Lampião sabia, ou, ao menos, imaginava, que o invasor estaria escondido no banheiro.
Era o único lugar que ele não podia ver da porta da sala.
Ambos os homens sentiam medo; Dimas, mais do que Lampião.
A vantagem da arma de fogo sobre a faca era muito grande.
Se quisesse sair vivo dali, Dimas tinha que ser mais rápido.
Não podia mais contar com o factor surpresa, já que Lampião claramente sabia onde ele estava escondido.
Pisando de mansinho, Lampião foi se aproximando da porta do banheiro, temendo que o invasor, também armado, lhe desse um tiro.
A luz do aposento havia inundado o ambiente, projectando-se pela abertura da porta, desvendando apenas uma parte do interior do banheiro.
O invasor só podia estar escondido atrás da porta.
Dimas maldizia a si mesmo.
Péssima ideia, emboscar o inimigo em sua própria casa, onde não havia como arquitectar uma emboscada.
Onde estava com a cabeça?
Deixar a porta destrancada fora a maior mancada.
É lógico que ele iria desconfiar.
E por que não imaginou que ele poderia estar armado?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:55 am

— Vá embora, Dimas — suplicou o espírito de Rosemary, que acompanhava tudo sem poder intervir.
Vir aqui foi um erro.
— Não tenho como ir embora — Dimas respondeu a seu próprio pensamento.
O jeito é enfrentar o bicho.
— Ele vai matar você — ela choramingou.
Não quero que você morra...
Lampião estava próximo demais, quase chegando ao banheiro.
Dimas podia sentir sua respiração ofegante, assim como Lampião, se não estivesse tão apavorado, teria sentido a dele.
Mesmo assim, avançou.
Posicionado defronte ao vão da porta, Lampião espiou.
Reflectido no espelho acima da pia, a imagem de Dimas, escondido atrás da porta semiaberta, se fez nítida.
Era agora ou nunca.
Ao mesmo tempo em que Lampião tentava dar a volta na porta, Dimas a empurrou em cima dele com violência.
Por uns instantes, pensou que seria fácil apanhá-lo.
Atordoado, Lampião desabou no chão, batendo com a cabeça na parede de ladrilhos.
Dimas saltou sobre ele, a faca buscando sua garganta.
Lampião reagiu.
Dimas não esperava que ele ainda mantivesse a arma na mão, mas ele conseguira segurá-la.
Na mesma hora, virou-a para o agressor, que não teve outra opção, senão soltar a faca e segurar o revólver.
Iniciou-se então uma luta pela sobrevivência.
Atracados, Dimas e Lampião brigavam pela posse não da arma, mas do gatilho.
Quem controlasse o gatilho, naquele momento, controlaria a vida.
A arma oscilava, ora encostando no peito de um, ora no de outro, ora no de ninguém.
E a pressão de ambos sobre o gatilho seguia o rumo da arma.
Dimas ainda pensou em usar a faca, mas ela havia voado para longe.
Foi quando o revólver se decidiu, e o gatilho se destravou perante a mão do mais forte.
No corpo a corpo que se seguiu, a arma encostou no peito dele, enquanto o outro, com a maior força possível, vencendo a resistência do inimigo, conseguiu, finalmente, pressionar o gatilho.
A arma disparou um único tiro, porém, fatal.
Dimas e Lampião se olharam com espanto, mal acreditando que um acabara de vencer, enquanto o outro sentia a vida se esvair.
De olhos arregalados, um acompanhou o outro desfalecer, ambos surpresos com o final inesperado.
Cada um jurara a si mesmo que não iria morrer.
Não houve mais tempo para espanto nem dúvida.
A arma escapuliu da mão dele e caiu sobre o piso do banheiro antes mesmo que o corpo sem vida tocasse o chão.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 9:55 am

Capítulo 55

Quando Dimas resolveu que mataria Lampião, esqueceu-se de levar em conta as possibilidades de reacção do outro.
Pensava mesmo que tudo sairia como ele planeara, esquecendo-se de que Lampião era um malandro inteligente e malicioso, conhecedor das manhas dos marginais.
Já se livrara de poucas e boas graças a sua astúcia.
Não seria agora que se deixaria apanhar, e logo por um caipira ignorante e burro.
Os dois homens, naquele momento, lutavam pela vida, cada qual apostando em sua vitória, pois perder, naquele jogo, significava a morte.
Mesmo assim, ambos temiam pelo pior.
Ao mesmo tempo em que acreditavam que iriam vencer, não subestimavam a possibilidade iminente de morrer.
Para Dimas, o que ficou foi a certeza de que julgara mal o inimigo e supervalorizara a si mesmo.
A Lampião, restou a surpresa de que o caipira estúpido era também um homem audacioso e forte.
O jogo seguiu empatado pelo que pareceu, a ambos, um sem-fim de horas, mas que levou poucos minutos para alcançar seu desfecho.
Quando a arma disparou, o olhar de espanto dos dois foi genuíno, revelando a surpresa diante da vida e da morte.
Logo que o gatilho se resolveu e a bala se projectou do cano do revólver com velocidade incrível, a situação ficou resolvida.
Ninguém podia evitar o desfecho nem se desviar do destino, que ali fora selado sem chance de desistência ou arrependimento.
O estampido quase o deixou surdo.
Imediatamente após o disparo, o sangue jorrou aos borbotões, empapando a camisa de Dimas e exalando um cheiro acre de morte.
Por uma última vez, os olhares dos dois homens se cruzaram, a boca seca de ambos tentando falar o indizível.
O revólver escapuliu das mãos deles, caindo no chão segundos antes de o corpo morto de Lampião desabar sobre os azulejos brancos, espalhando sangue ao seu redor.
Dimas arfava, exausto e surpreso.
Puxou a camisa, encharcada de suor e sangue, incomodado com aquela coisa viscosa que se grudava em sua pele.
Não tinha tempo para pensar nisso.
Precisava fugir dali o mais rapidamente possível.
Apanhou o revólver e a faca, enfiando-os na cintura, passou por cima do cadáver ensanguentado e correu.
Na rua, desacelerou o passo, para não chamar a atenção.
Estranhou a quietude da noite.
Ninguém parecia ter ouvido o tiro nem percebido a briga.
Ou então, o que era mais provável, ninguém se importava.
Mesmo assim, era melhor ele sumir por uns tempos.
Os comparsas de Lampião podiam desconfiar dele e empreender uma vingança.
Não pretendia ser tocaiado por nenhum malandro enquanto caminhasse pelas ruas escuras do porto.
Achou melhor fugir para o lado oposto.
Andou até a Praça XV, onde apanhou um ônibus para a Pavuna.
Lá, caminhou a esmo, sem saber para onde ir, obrigado a dormir ao relento.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:55 am

No dia seguinte, indagando aqui e ali, conseguiu alugar um barraco baratinho na comunidade, onde pretendia permanecer escondido até que as coisas se acalmassem.
Aí então, estaria livre para cuidar de Jaqueline.
Fazia mesmo algum tempo que Dimas andava sumido.
O medo que Jaqueline sentira no princípio, ao iniciarem as aparições do padrasto, cedera lugar a uma certa segurança, ante o desaparecimento dele.
Até que, numa noite, pensara tê-lo visto à saída do prédio.
Fora muito rápido, mas o suficiente para deixá-la preocupada novamente.
Esse facto, aliado aos avisos de Cezar, trouxe de volta a velha paranóia.
A cada dia, ao sair de casa, Jaqueline olhava para os lados para ver se avistava algum sinal de Dimas.
Nada. Aos poucos, a preocupação foi relaxando, até que ela começou a se sentir segura e confiante novamente.
— Vai ver que ele desistiu — dizia a si mesma, porque era no que queria acreditar.
Havia ocasiões em que sonhava com ele, como naquela noite.
Jaqueline se remexia na cama, sentindo o suor escorrer de seu rosto como se estivesse deitada sobre uma fornalha que acabara de ser acesa.
Vozes se misturavam em sua cabeça, ora acusando-a, ora ameaçando-a, ora tentando acalmá-la.
— Está doendo, cadela?
É a mesma dor que eu senti.
Parecia a voz de Dimas, mas Dimas estava morto.
Ou será que não estava?
— Você tem que pagar! — gritou outra voz, estranhamente familiar.
A voz tomou forma, virando para ela o rosto furioso.
Estava diante das feições desfiguradas da mãe.
Depois, pareceu-lhe que Sofia tentava intervir, pondo-se a seu lado para defendê-la:
— Deixe-a em paz, Rosemary.
Você é a mãe dela.
Por último, em sua mente reverberaram as palavras de Alicia, que vinha do além-mundo para alertá-la novamente:
— Tenha cuidado com Dimas.
Não vá à academia...
— Vagabunda...! — alguém gritou, de forma esganiçada.
— Você vai me pagar!
Vai me pagar...! Vai me pagar...!
O suor invadiu os olhos de Jaqueline, levando-a a dar um salto da cama, assustada com a sucessão de vozes.
Parecia que todos os fantasmas de seu passado resolveram atormentá-la ao mesmo tempo:
Dimas, Sofia, a mãe... e Alicia, embora esta fosse a única que não pertencia ao passado.
Quanto a Alicia, seus alertas não eram novidade.
Inusitado mesmo foi a defesa de Sofia.
— Só em sonho mesmo — disse em voz alta.
Imagine se dona Sofia ia me defender.
Do lado invisível, Sofia encarou Rosemary, que dava gargalhadas sinistras.
— Você está parecendo uma louca — provocou.
E das mais dementadas.
— E você é uma idiota! — rebateu Rosemary, com fúria.
A vagabunda rouba seu marido e sua vida, e você ainda a defende.
É muito trouxa mesmo.
— Jaqueline é uma boa pessoa.
Agora, desencarnada, é que posso ver isso.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:55 am

— Boa... — desdenhou. — Tão boa quanto uma facada no peito.
— Pensei que você já houvesse superado isso, mas lá vem você de novo com essa história.
Esqueça, Rosemary. Você é mãe dela.
Devia se envergonhar do que está fazendo.
— Eu não queria ser mãe dela.
Fui obrigada.
— E daí? Obrigada ou não, a verdade é que foi.
Não dá para mudar isso.
E olhe o que está fazendo agora com sua própria filha!
— Eu não fiz nada — defendeu-se.
— Você a está aterrorizando.
Fica jogando a imagem de Dimas na cabeça dela.
— O que você tem com isso?
A filha é minha, faço o que quiser.
— Agora ela é sua filha, é?
Para lhe fazer mal você quer ser mãe dela, mas para amá-la, ela não serve?
Nesse momento, Maurício entrou na cozinha, onde Jaqueline preparava o café.
— Oi, mana — cumprimentou ele, abraçando-a pela cintura.
— O que foi que houve, meu bem? — tornou ela.
Está assustado?
— Tive um pesadelo. Sonhei que Dimas queria matar você.
Isso não vai acontecer, vai?
— É claro que não, bobo. Foi só um sonho.
Eu não posso morrer, lembra?
Deus me deu a incumbência de cuidar de você.
O olhar que Rosemary lançou a Sofia foi de espanto e surpresa.
Não via os dois assim juntos havia muito tempo.
Até se esquecera do quanto gostava de Maurício.
— Então? — perguntou Sofia.
Vai querer fazer mal a seu filho também?
Quem sabe deixá-lo órfão para crescer num abrigo ou na rua e se tornar trombadinha ou traficante?
Rosemary sentiu raiva e vergonha.
Junto, veio o medo de que o filho se tornasse um bandido.
Afinal, era graças a Jaqueline que o menino não se perdera nem se tornara um marginal.
Contudo, não queria mais ouvir as palavras de Sofia.
Da outra vez, ela quase a convencera.
Não lhe daria a chance de fazê-lo novamente.
Sem ter o que argumentar, lançou à outra um olhar de desprezo e falou secamente:
— Cale a boca.
Sem esperar resposta, Rosemary sumiu, deixando o ambiente mais calmo e repousante.
Jaqueline sentiu a súbita mudança energética, embora não soubesse definir o alívio repentino.
Assim que Maurício saiu para a escola, resolveu sair também.
Queria, pela última vez, certificar-se de que Dimas havia realmente sumido.
Trocou de roupa e desceu, pondo-se a caminhar de um lado a outro.
Atravessou a rua, foi até uma esquina, voltou, caminhou até a outra, passando por um terreno baldio cercado por um muro esburacado e um portão de madeira arrebentado.
Sem se deter, passou adiante, até que a lembrança do sonho fez com que recordasse a advertência de Alicia, que dissera algo sobre um terreno abandonado.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:55 am

Jaqueline balançou a cabeça e seguiu adiante, mas uma estranha sensação de perigo não permitiu que prosseguisse.
Mais à frente, estacou.
Ainda em dúvida, virou para a direcção de onde viera, fitando o muro em ruínas.
Mesmo achando que era besteira, voltou.
Foi ladeando o muro, tentando espiar pelos buracos, sentindo a pele toda se arrepiar ao ver o lado de dentro:
uma depressão na terra, cheia de mato, pedras e lixo.
O reconhecimento foi tão forte que parecia que ela via a cena descrita por Alicia.
Assustada, puxou o rosto e se afastou às pressas.
Uma sensação estranha de perigo iminente a acompanhou durante todo o percurso de volta.
Pouco depois de fechar a porta do apartamento, ainda ofegante da corrida de volta à segurança, ouviu o toque da campainha.
Deu meia-volta e olhou pelo olho mágico, apesar de saber quem era.
Abriu a porta para Cezar, que entrou apressado, carregando um jornal debaixo do braço.
— Já viu isso? — indagou ele, sacudindo o jornal na frente dela.
Jaqueline apanhou o periódico e leu em voz alta:
— Encontrado, na tarde de ontem, o corpo de Joaquim José de Barros Ferreira, famoso cafetão que actuava nas ruas da zona portuária da cidade, mais conhecido como Lampião.
Os vizinhos, atraídos pelo mau cheiro, entraram em seu apartamento, cuja porta se encontrava destrancada, e encontraram o corpo no banheiro, já em avançado estado de decomposição.
A polícia não tem suspeitos...
Ela soltou o jornal e encarou Cezar, perplexa.
— Que horror! — exclamou, realmente impressionada.
Lafayete já sabe disso?
— Já, e não deu a mínima.
Para ele, foi até melhor, visto que não precisa mais pagar o infeliz.
— Será que... — calou-se, receosa.
— ... Foi ele quem mandou apagar o cara? — completou Cezar.
Não creio. Isso talvez acontecesse se ele estivesse sendo chantageado, o que não era o caso.
— E se estivesse?
Você não sabe se Lampião estava chantageando o deputado.
— Eu saberia. Lafayete me teria dito.
Não fazia muito sentido, mas a notícia da morte de Lampião trouxe com ela um indefinível desassossego.
Não havia motivo aparente, mas uma sensação de perigo causou-lhe medo, como se, de alguma forma, a morte de Lampião estivesse ligada ao desaparecimento de Dimas.
Mas como, se eles nem se conheciam?
— O que você tem? — indagou Cezar, notando a palidez repentina de Jaqueline.
— Não sei dizer.
Uma impressão ruim, um mau agouro.
Cezar, estou com medo.
— Medo de quê?
— Não sei explicar.
Uma sensação esquisita, um medo de que Dimas nos faça algum mal.
— Dimas? Por que foi se lembrar de Dimas justo agora?
Ele e Lampião, por acaso, se conheciam?
— Que eu saiba, não.
— Você o viu?
— Na outra noite, pensei tê-lo visto, mas acho que foi impressão.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:56 am

— Viu só? Eu bem que avisei.
Você tem que se cuidar, Jaqueline.
Esse cara é perigoso.
— O que eu posso fazer?
— Talvez seja melhor falar com Lafayete.
Ele logo arranjaria alguém para dar um sumiço no espertinho.
— Já disse que não quero que ele morra.
— Eu não estava falando desse tipo de sumiço.
Pensei em algo mais simples, como ele ser expulso da cidade.
Quem sabe ele não volta para Vila Velha?
— Ah, Cezar, estou com tanto medo!
Ao dizer isso, Jaqueline se aproximou dele, encostando a cabeça em seu peito.
O perfume de seus cabelos subiu até as narinas de Cezar, que os alisou docemente.
Sentindo as mãos dele sobre sua cabeça, Jaqueline deu vazão ao desejo.
Sabia que não deveria, mas não conseguia se conter.
Ela amava Cezar, não podia mentir para si mesma.
Por que ele tinha que ser gay?
Mesmo sabendo disso, ela não resistiu.
Aos poucos virando a cabeça, seus lábios encontraram os de Cezar.
Estimulada pela passividade dele que, até então, não a rejeitara, Jaqueline investiu mais, beijando-o com uma sofreguidão desesperada e procurando tocar em suas partes íntimas.
Cezar deu um pulo.
Limpando os lábios, disparou:
— O que está fazendo?
Ficou louca?
— Cezar, eu... me perdoe...
Pensei que você estava gostando.
Mas você estava gostando, não estava?
Senti a resposta do seu corpo.
— Não se iluda, Jaqueline — contestou ele, as faces e a voz endurecidas.
Não é como você está pensando.
Não sinto nada por você.
— Não é verdade. Diga que você está mentindo.
Ela tentou abraçá-lo, mas ele segurou seus braços, mantendo-a à distância.
— Não faça isso. Pelo bem de nós dois, pare!
— Por quê? Você sabe o quanto o amo.
— É um amor impossível.
Gosto muito de você, mas não como mulher.
— É mentira. Você não pode ser gay...
Ele arregalou os olhos, fitando-a com uma expressão indefinível.
Aos poucos, afrouxou as mãos, que deslizaram sobre seus braços.
Ela o olhava com ansiedade, tentando ler os seus gestos e reconhecer algum sinal de atracção.
Não percebeu nada.
O que viu nos olhos dele foi uma espécie de angústia indizível, que se transfigurou numa indiferença casual, sem sentido.
— Sinto muito — disse ele, em tom quase inaudível.
Depois disso, não houve mais nada.
Cezar rodou nos calcanhares e saiu calmamente, como se nada tivesse acontecido.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:56 am

Capítulo 56

Não foi com a habitual espontaneidade que Jaqueline recebeu Cezar.
Ao contrário, mostrava uma formalidade excessiva, totalmente artificial.
Bem se via que não estava à vontade naquele novo papel de mulher de cerimónias.
— Vai a algum lugar? — indagou Cezar, vendo-a de roupa de ginástica.
— Vou à academia — respondeu ela, em tom de desafio.
— Acha que devia?
— Por que não?
— Talvez porque haja um assassino psicopata solto por aí, atrás de você.
— Sem exageros, Cezar.
Dimas sumiu.
— Ué! Não foi você quem disse que tinha um mau agouro?
Que estava com medo?
Onde foi parar aquele medo todo?
— Eu andei pensando e cheguei à conclusão de que não posso parar a minha vida por causa de Dimas.
Já estou cheia dessa paranóia.
Vou à academia e pronto.
Não era bem verdade.
Ela ainda sentia medo, mas fazia aquilo só para contrariar as recomendações de Cezar, pensando que, assim, conseguiria prender a atenção dele.
Já ia saindo quando Cezar a puxou pelo braço.
— Você está se arriscando — ponderou.
Sabe que Dimas é perigoso.
— Não sei por que você se importa — retrucou ela, com uma certa ironia.
Você nem gosta de mim.
— Isso não é verdade.
— Foi o que você disse.
— Não foi, não.
Disse que não gosto de você como mulher, o que é bem diferente.
Ela ia contestar, mas Maurício entrou correndo, abraçando-a pela cintura.
— Jaqueline, Jaqueline! — chamou, quase em lágrimas.
— Ei! — fez ela. — O que foi, rapazinho?
Você não estava dormindo?
— Tive um sonho horrível.
Sonhei que Dimas pegava você.
— Bobagem — protestou ela.
Foi só um pesadelo, porque você sabe que Dimas andou rondando a nossa casa.
— Mas foi tão real!
— Todos os sonhos são.
Mas é isso o que eles são: sonhos.
Não são de verdade.
Apenas parecem — ela o beijou na testa e acrescentou:
— Está com fome?
— Estou. O que tem para o jantar?
— Estrogonofe com batatas fritas.
— Oba! Minha comida predilecta!
— Janta connosco, Cezar? — ela convidou.
— Eu posso?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:56 am

— Claro. É só me esperar voltar.
— Voltar de onde? — Maurício quis saber.
— Da academia — disse Cezar, encarando-a com ar de repreensão.
— - Academia? — repetiu Maurício, apavorado.
Não vá, mana.
Dimas vai pegar você.
Um arrepio se cravou em sua nuca, mas ela não se deixou vencer.
Fingindo que tudo estava bem, segurou o queixo do irmão e contestou:
— Tolinho. Não vai, não.
— Por favor, não vá. Só hoje.
Cezar vai jantar com a gente.
— Cezar vai cuidar de você um minuto, não é, Cezar? Volto logo.
— Concordo com Maurício que você não devia sair — objectou Cezar.
— Dimas desapareceu.
Acho que voltou para casa.
— Eu não teria tanta certeza.
— Nem eu — concordou Maurício.
Tem o meu sonho...
— Vamos parar de bobagem, pessoal?
Eu não vou demorar, tá?
Não adiantava discutir.
Jaqueline estava decidida a manter Cezar por perto, utilizando-se de todos os artifícios de que pudesse dispor para alcançar aquele objectivo, ainda que eles revelassem uma forma de manipulação perigosa e egoísta.
— Por favor, mana — suplicou Maurício.
Não pode fazer o que estou pedindo?
— Não vai me acontecer nada, eu prometo.
Vá ver televisão com Cezar.
Voltarei tão depressa que nem vai dar tempo de vocês sentirem a minha ausência.
Com um último beijo, ela saiu, apesar do mau pressentimento que ainda arrepiava sua pele.
Não podia ser nada.
Seria possível que Dimas resolvesse atacá-la justo naquele dia?
A seu lado, os espíritos de Sofia e Rosemary a acompanhavam, invisíveis.
Ao mesmo tempo em que a primeira tentava intuir-lhe o perigo a que estava, deliberadamente, se submetendo, a outra fazia de tudo para incentivá-la a prosseguir.
— Se não quer ajudar, vá embora — sugeriu Sofia, preocupada.
— Posso saber o que você pretende fazer?
Por acaso, vai dar um murro na cara do Dimas?
— Não sei. Na hora, vou ver.
Jaqueline se aproximava da esquina com os dois espíritos atrás.
Imagens do sonho perambulavam em sua mente, enquanto a voz de Alicia ecoava em seus pensamentos.
Ao longe, avistou o muro do terreno baldio, encoberto pelas sombras.
Ela olhou para cima, procurando o poste de luz, maldizendo a prefeitura ao constatar que a lâmpada estava queimada.
Ao se aproximar do terreno, a advertência de Alicia estourou como uma bomba que despenca sobre o alvo.
Um pânico incontrolável fez tremer suas pernas, levando seu coração a bombear mais sangue e a respiração a sair ofegante.
Medo. Era só o que sentia naquele momento.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:56 am

Presa de um terror quase paralisante, Jaqueline parou diante do terreno baldio, a poucos passos do portão arrebentado.
O pavor já a havia consumido por completo.
Ela não estava sozinha.
Mesmo sem se virar, sabia que havia mais alguém com ela.
Seu peito subia e descia freneticamente.
O excesso de adrenalina fez aumentar sua respiração, ao mesmo tempo em que seu coração disparou de tal modo que parecia querer abandonar o peito em desabalada fuga.
Ela tremia da cabeça aos pés, sentindo o suor encharcar sua camisa como se tentasse lavar o temor.
Ela não queria, mas uma força incontrolável e desgovernada tomou conta de seu corpo, virando-o vagarosamente para trás.
Uma última olhada para a frente a fez certificar-se de que ninguém vinha em sua direcção.
Atrás dela, ninguém viria além daquele que estava prestes a se transformar no agressor.
Finalmente, as pernas seguiram o tronco, e ela se viu voltada para trás.
As pupilas se dilataram num último toque de pânico, quando viu a pessoa que ela, o tempo todo, sabia que estaria ali.
Dimas não lhe deu tempo de gritar ou correr.
Enfiou as unhas sujas em sua pele macia, apertando seu braço, ao mesmo tempo em que ordenava com secura:
— Ande.
Apesar do medo, ela tentou reagir.
Dimas, porém, desferiu em suas costelas um soco tão violento que o ar, já escasso, praticamente faltou.
A dor fez seu corpo curvar.
Ela só não caiu porque ele a susteve.
— Endireite-se — ordenou.
Ela ergueu o corpo, mas pôs-se a se debater, provocando ainda mais a sua ira.
Ele a agarrou com violência, sem perceber o desespero do espírito a seu lado, que tentava, inutilmente, levantar os dedos que se fechavam ao redor do braço de Jaqueline.
— Solte-a, seu monstro! — gritava Sofia.
Deixe-a em paz, seu bruto, covarde!
— Não vê que isso não adianta nada? — avisou Rosemary.
Que ele não sente a sua presença?
— Ele vai matá-la.
Rosemary deu de ombros.
Oscilando entre a satisfação e o medo, retrucou friamente:
— Não posso fazer nada.
— Talvez possa — suplicou Sofia, em pânico.
— Fazer o quê?
Não posso segurar a mão dele.
— Pode tentar falar com ele.
Por favor, ela é sua filha! — vendo que a outra não se mexia, implorou:
— Faça alguma coisa, Rosemary!
Ele vai matá-la!
Rosemary parecia paralisada, acompanhando-os como se um repentino fascínio a houvesse tirado do mundo real.
Queria impedir, mas não queria, dizendo a si mesma que não tinha condições de ajudar.
Tentava convencer-se disso quando os gritos de Sofia quase explodiram seus tímpanos astrais:
— Você não está vendo o que vai acontecer?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:56 am

Ele vai matar sua filha!
É isso o que você quer?
Que ela venha para o lado de cá acusando você de ter colaborado com a morte dela?
— Não estou colaborando com nada! — objectou, irritada.
— Sua energia de ódio e vingança está alimentando Dimas.
Não percebe?
— Não posso ser responsabilizada pelas atitudes de Dimas.
— E pela sua omissão?
Não é responsável?
A vozinha fraca de Jaqueline interrompeu o diálogo do invisível:
— Dimas... Você não está morto?
— Eu pareço morto, cadela?
— O que você quer?
— Não imagina? — ela meneou a cabeça.
Vingança.
Dimas empurrou o portão quebrado e entrou no terreno coberto de mato e lixo.
O medo triplicou nas veias da moça.
Por dentro, o lugar era ainda mais aterrorizante.
Mesmo não havendo ninguém nas proximidades que pudesse ouvi-la, Jaqueline gritou.
Na mesma hora, uma dor aguda se insinuou na altura do fígado, por onde um fiozinho de sangue começou a escorrer lentamente, manchando de vermelho sua camiseta empapada de suor.
— O que vai fazer comigo? — ela choramingou.
— Nada. Se você não gritar, vai terminar logo.
Se gritar, corto seu corpo aos pouquinhos.
— Terminar o quê?
— Você vai ver.
A gargalhada dele foi diabólica.
Tudo se sucedia, praticamente, como Alicia dissera.
— Socorro!
Seu grito foi silenciado pelo murro que ele desferiu em sua boca.
Com a mandíbula aparentemente quebrada, ela não se arriscou a gritar novamente.
— Cale a boca! — esbravejou Dimas.
— Mate-me logo — ela suplicou aos sussurros.
Acabe com isso de uma vez.
— Por que a pressa?
Antes, vamos nos divertir, como nos velhos tempos.
Certa de sua impotência, Sofia chorava.
Pela última vez, tentou chamar Rosemary à razão.
Ela e Dimas possuíam uma afinidade energética muito grande.
Podia ser que ele captasse o pedido dela e poupasse Jaqueline da morte.
Rosemary, porém, não estava mais ali.
Em completo silêncio, havia desaparecido.
— Não quero morrer — suplicou Jaqueline.
— Decida-se, vagabunda.
Quer que a mate logo ou não quer?
Ele a empurrou no chão com violência.
Ela caiu, sentindo nas costas a dor de ossos se quebrando, juntamente com os arranhões provocados pela aspereza da terra.
— Dimas, por favor... deixe-me ir.
Não direi nada a ninguém. Eu juro...
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:57 am

— Vou deixar.
E é claro que você não vai dizer nada a ninguém.
Mortos não falam.
Jaqueline fechou os olhos e chorou quando sentiu que ele batia com a cabeça dela contra as pedras.
Daquele momento em diante, não viu mais nada.
Podia ser que Dimas houvesse enterrado a faca em seu corpo, podia ser que não.
De qualquer forma, não sentia dor.
Uma paz absurda amansou seus tremores, levando-a a ceder à tentação de dormir... ou morrer.
Seu cérebro se fechou para os acontecimentos, e a última coisa de que mais tarde se lembraria foi de sentir o corpo de Dimas deitando-se sobre o seu.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:57 am

Capítulo 57

A demora de Celso em voltar para casa deixava Eva angustiada.
Alguma coisa havia acontecido para que as filhas o evitassem.
Sempre que ela tentava tocar no assunto, Alicia disfarçava e Denise fingia dormir ou pretextava cansaço.
Nenhuma das duas lhe explicava por que o pai nunca ia visitar a filha convalescente, o que seria natural.
Na cabeça de Eva, só podia haver um motivo: Tobias.
Fazia muitos anos que ela não pensava em Tobias.
Achava mesmo que o esquecera, até que ele surgira em sua casa de repente.
Justificando para si mesma que o odiava por considerá-lo responsável pela morte de Bruna, Eva alimentava a raiva que decorria da rejeição.
Depois, quando ele se aproximou de Denise e ela correspondeu, foi como se o mundo perdesse a cor, tornando-se cinzento, sem alegria nem esperança.
Sua filha estava apaixonada pelo homem que ela ainda amava, mas que jurara não amar.
A imagem de Tobias passeou pela sala, bem diante de seus olhos.
Não do Tobias de hoje, velho e carrancudo, mas daquele outro, jovem e sonhador, por quem se apaixonara um dia, muitos anos atrás, quase em outra vida.
Foi numa viagem que ela revelou seu amor.
Celso havia sido convidado como palestrante em um congresso sobre os novos métodos de fertilização in vitro e resolveu levá-la para um passeio em Lisboa, onde se realizaria o encontro.
Naquela época já apaixonada por Tobias, Eva viu ali a oportunidade que tanto queria de estar ainda mais próxima a ele.
Na primeira noite, logo após o término das palestras, os participantes se reuniram no salão do hotel para um coquetel oferecido pela equipe de produção do evento.
Eva havia levado seu vestido mais bonito, que a deixava linda e sensual como uma diva.
Fez um penteado elegante, perfumou-se, colocou suas jóias mais bonitas e usou uma maquiagem que lhe realçava a beleza dos olhos.
Tudo para impressionar Tobias.
Ao adentrar o salão onde se realizava o coquetel, notou os olhares que se voltavam para ela.
De braços dados com Celso, procurava por Tobias discretamente.
— Você está um deslumbre — dissera Celso, orgulhoso por ver como todos a admiravam.
O sorriso que ela lhe deu não foi de gratidão, mas uma forma rápida de livrar-se da atenção dele.
Ela quase tropeçou e caiu quando viu que Tobias se aproximava.
Foi preciso muito esforço para manter as pernas no lugar, já que elas insistiam em amolecer, de tão trémulas que estavam.
— Oi, Celso — cumprimentou ele.
Que bom que chegaram.
A Eva, ele lançou apenas um sorriso simpático, porém, formal, frio, sem qualquer emoção.
Foi uma decepção, pois o que ela esperava era que ele elogiasse sua beleza.
Tobias, contudo, evitava até mesmo olhar na direcção dela.
Na cabeça de Eva, ele fazia isso para não demonstrar o que sentia por ela, ao passo que o que ele realmente pretendia era mostrar-lhe que não estava interessado.
O salão foi-se esvaziando, até que sobraram uns poucos cientistas, ainda presos em discussões que não despertavam nela qualquer interesse.
Na verdade, nada que não fosse Tobias lhe interessava.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:57 am

— É melhor eu ir dormir — avisou Tobias, bocejando.
Passei um pouco da conta na bebida.
— Acho uma excelente ideia — concordou Eva.
Está tarde, e estou cansada.
Vamos subir também, Celso?
— Vou ficar um pouco mais — contrapôs o marido.
Se você não se importar, querida.
É claro que ela não se importava.
Sentiu mesmo vontade de beijá-lo e gritar que demorasse o quanto quisesse, que lhe era grata por deixá-la livre.
No entanto, não foi isso que disse.
— Tudo bem, se é o que você quer.
Só que eu não aguento mais.
Meus pés estão me matando.
— Mulheres — gracejou Celso.
O mundo evolui, elas estão cada vez mais inteligentes, mandam em tudo, mas ainda continuam sofrendo por causa da beleza.
— Isso não vai mudar nunca — admitiu ela, forçando-se a manter um tom espirituoso.
— Pode acompanhá-la até o quarto, Tobias?
— É claro.
Tobias aceitou a incumbência, embora muito a contragosto.
Desde que vira Eva chegar, percebera que ela não tirava os olhos dele.
Não sabia como Celso não notara.
— Boa noite então, querido.
E não me acorde quando entrar.
Ela o beijou rapidamente nos lábios, temendo que ele percebesse o tremor que agitava os seus.
Seguiu ao lado de Tobias, que se mantinha afastado e procurava não falar muito.
Sozinhos no elevador, ela tentou puxar assunto:
— A noite foi óptima, não foi?
— Maravilhosa. Celso é um génio.
Notou como as pessoas ficaram impressionadas com as ideias dele?
— É verdade.
— Tenho muito orgulho de trabalhar com ele.
Celso é a melhor pessoa que já conheci.
— Tem razão.
— Ele foi o único a acreditar em mim, sabe?
Nunca fui brilhante feito ele, mas Celso me deu uma chance, convidou-me para ser seu colega.
Ele não parava de falar em Celso.
Seria proposital? Eva achava que sim.
Ele estava tentando justificar por que não podia ficar com ela.
Em nome da amizade, ele estava disposto a abrir mão de seus desejos e esquecê-la.
Ao menos, era nisso que Eva acreditava.
O elevador parou no quinto andar, onde ficavam os quartos de ambos.
Tobias acompanhou Eva até sua suíte, seguindo para a dele, que ficava duas portas depois.
Despediu-se com um boa-noite formal, sem qualquer tom de insinuação nas entrelinhas.
Eva não teve jeito, senão entrar em seu quarto e preparar-se para dormir.
Mas não pôde.
Quanto mais tentava conciliar o sono, mais este se afastava, deixando em seu lugar a lembrança de Tobias.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:57 am

Eva estava enfeitiçada, não conseguia parar de pensar nele.
Dali a pouco, Celso retornaria da festa e ela perderia a chance de se declarar, de fazê-lo entender que nada nem ninguém poderia contrapor-se ao seu amor.
Precisava dizer-lhe isso.
Saiu da cama, vestiu o penhoar e seguiu para o quarto de Tobias.
Bateu na porta uma, duas, três vezes.
Somente na quarta ele abriu, esfregando os olhos assustados.
— Eva! — exclamou, entre surpreso e preocupado.
O que foi que houve?
Está tudo bem com Celso?
— Celso ainda não voltou.
— Ora, não se preocupe.
Tenho certeza de que ele está bem.
Deve estar bebendo e trocando ideias com os amigos.
— Não estou preocupada com Celso.
Estou preocupada connosco.
— Connosco? Como assim?
— Não dá mais para escondermos o que sentimos — desabafou ela, quase sem conseguir respirar.
Eu o amo, Tobias, sempre o amei.
De tão aturdido, ele não ofereceu resistência quando ela o empurrou para dentro do quarto, atirando-se sobre ele na cama.
Com uma fúria da qual ele não a julgava capaz, Eva pôs-se a beijá-lo e a sussurrar palavras de amor.
— Eva, por favor... — ele tentou objectar.
— Não se preocupe — insistiu ela, tentando silenciá-lo com sua própria boca.
Celso vai ter que entender.
— É você quem não está entendendo, Eva.
Eu não a amo.
— Não precisa fingir, querido.
Sei o quanto você gosta de Celso, mas não podemos abrir mão da nossa felicidade por causa dele.
— Pare, Eva, por Deus!
Você está se enganando.
Quando digo que não a amo, é porque não a amo mesmo.
Não é porque Celso é meu amigo.
É porque não sinto nada por você.
Ela estacou, perplexa.
Não podia acreditar no que estava ouvindo.
Não era verdade, não podia ser.
— Não acredito! — gritou ela.
Você está é com medo de Celso.
— Por favor, fale baixo.
Assim, vai acordar o hotel inteiro.
— Que se dane!
Ninguém tem nada com a nossa vida, com o nosso amor.
— Que amor?
Eu não a amo, Eva, será que você não entende?
Quantas vezes terei que repetir?
Eu não a amo.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:57 am

— Pare, pare! — suplicou ela, agora em prantos.
Diga que não é verdade.
Você só está com medo de Celso.
Ou não quer magoá-lo. É isso, não é?
Sua amizade por Celso o impede de magoá-lo.
— É verdade, mas não é por isso que a evito.
É porque, realmente, não amo você.
— Por quê? Por acaso, me acha feia?
— Você é linda, inteligente, perfeita.
Mas eu não a amo.
Não sinto nada por você além de respeito pela mulher de meu melhor amigo.
— E se Celso não fosse seu amigo?
Ele pensou por alguns momentos antes de responder com frieza:
— Então, meu sentimento por você seria praticamente nulo.
A verdade a atropelou com violência.
Muito mais do que ele
Não a amar, o que mais doeu foi a indiferença com que o disse.
— Mas... Pensei que você me amasse tanto quanto eu o amo.
— Não sei o que fiz para levá-la a acreditar nisso, mas peço que me perdoe se foi culpa minha.
Jamais tive a intenção de alimentar em você qualquer tipo de ilusão.
O choque da revelação a trouxe de volta à realidade.
Ela ouvia a voz dele sem conseguir entender como aquilo podia estar acontecendo.
Parecia que ele falava de outra dimensão, onde era apenas um estranho.
Só que as palavras vinham do homem diante dela, que repetia, incessantemente, o quanto ela lhe era indiferente.
— Por favor, não diga mais nada — cortou ela, rubra de vergonha.
Eu... lamento pelo constrangimento que lhe causei.
— Sou eu que lamento a confusão.
Não queria que você me interpretasse mal.
— Você não fez nada.
Eu é que fui burra, ingénua, infantil.
Acreditei numa ilusão criada pelo meu próprio desejo.
E agora, como vou encarar meu marido?
— Você disse alguma coisa a ele? — horrorizou-se.
— Não. Mas você não vai dizer?
— De minha parte, você tem a promessa de que jamais direi qualquer coisa.
Não tenho interesse em destruir seu casamento só porque você se deixou levar por uma fantasia.
Volte para seu marido.
Ele a ama muito mais do que eu jamais poderia amar qualquer mulher.
— Fui infiel, beijei outro homem, atirei-me em seus braços, tentei seduzi-lo para que dormisse comigo.
— Nada aconteceu, Eva.
Tudo não passou de um engano.
Nenhum mal foi feito, você não levou avante essa loucura.
— Porque você me impediu.
— Isso não importa.
Você não ama Celso?
— Amo — respondeu, sem muita convicção.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:58 am

— Você ama, tenho certeza.
Só está confusa por minha causa.
Mas isso vai passar.
Volte para seu quarto e aja como se nada tivesse acontecido, como se tudo não passasse de um sonho que nunca mais se repetirá.
— É assim que tem que ser?
— É assim que será, porque...
— Já sei. Você não me ama.
— Não fique magoada.
Como eu disse, logo, logo, tudo isso vai passar.
Mas não passou.
Eva saiu do quarto de Tobias arrasada, sentindo o peso da humilhação por ter sido rejeitada.
Retornou à sua suíte, aliviada porque Celso ainda não havia voltado.
Tirou o penhoar, deitou-se e apagou a luz.
Logo em seguida, a porta se abriu silenciosamente.
Celso entrou com cuidado e foi para o banheiro.
Pouco depois, de banho tomado, deitou-se ao lado dela.
— Ah, minha querida — sussurrou, alisando os cabelos dela.
Como amo você.
Virada para o outro lado, Eva conseguiu evitar que Celso visse seus olhos.
O mais difícil foi conter o peito, açoitado pelos soluços.
Foi preciso muito esforço para engoli-los sem emitir qualquer ruído nem sacudir o corpo.
Não conseguiu.
As lágrimas se atiraram por seus olhos, atropelando-se na queda pelas faces.
O pranto a consumiu, levando o peito a arquejar, sufocado pela dor.
— Não fique assim, querida — confortou ele.
Tudo vai acabar bem.
— Ah, Celso, você não sabe... não sabe o que eu fiz...
— Não me interessa. Nós vamos conseguir.
Vamos ter o nosso bebé.
As lágrimas se multiplicaram, despencando em uma queda quase suicida.
A dor da rejeição cedeu lugar ao remorso.
Nunca mais Eva olharia para outro homem da forma como olhara para Tobias.
Não era justo com Celso, que era um marido bom e a amava.
Efectivamente, daquele dia em diante, Eva passou a evitar Tobias.
Quis recusar quando Celso a colocou nas mãos dele, para que acompanhasse sua gravidez, mas não podia fazê-lo sem levantar suspeitas.
Depois da cirurgia mal sucedida de separação das gémeas, Eva viu ali a desculpa que tanto esperava para odiá-lo.
E foi o que fez dali para a frente.
Todo o amor que ela, um dia, sentiu por ele, fez transformar em ódio pela morte de sua filha.
Um ódio que, agora, não podia mais enfrentar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 9:58 am

Capítulo 58

A porta se abriu em silêncio, deixando entrever a sala escura e abafada.
Celso deu dois passos à frente, entrando no ambiente sufocante.
Foi até a janela e a abriu, permitindo que o ar fresco da noite purificasse o ambiente.
Inspirou várias vezes, satisfeito com o suave aroma de maresia que vinha a distância.
Por alguns momentos, permitiu-se apenas sentir o presente da natureza, orando para que Deus lhe desse forças para fazer o que tinha que ser feito.
Com esse pensamento, suspirou demoradamente e se virou.
Foi quando viu Eva adormecida no sofá.
Parou, olhando-a com uma ternura ainda maior do que a que sentira quando se casara com ela, e mais medo de perdê-la do que na noite em que descobrira que ela se apaixonara por Tobias.
Foi num congresso a que fora em Lisboa.
Convidado como palestrante, abrira o ciclo de palestras falando sobre a infertilidade masculina e a fertilização in vitro, um assunto vastamente debatido ao longo dos anos, com avanços em algumas áreas e estagnação em outras.
Ao final da palestra, os participantes se reuniram no salão nobre do hotel para um coquetel de boas-vindas.
Eva havia se ausentado pouco antes do fim da palestra, de forma que ele teve que subir para buscá-la no quarto.
Ele nunca a havia visto mais bonita do que naquela noite.
Vestia um vestido verde-água, cintilante em alguns pontos esparsos, como estrelas verdes piscando embaixo da água.
No pescoço, um colar de minúsculos diamantes, intercalados de esmeraldas, chamava a atenção para seu colo bem-feito.
— Nossa! Você caprichou mesmo — avaliou ele.
Vai ser a mulher mais bonita da festa.
Eva sorriu, oferecendo-lhe o braço, que ele tomou gentilmente.
Ao entrarem no salão, foi com orgulho que ele notou os olhares, tanto masculinos quanto femininos, que se voltavam na direcção deles.
Eva chamava a atenção.
Era, provavelmente, a mulher mais linda que já pisara aqueles salões.
— Você está um deslumbre — elogiou, esperando um sorriso de retribuição.
O sorriso veio, mas não da forma como ele desejava.
Parecia que ela lhe sorria com uma impaciência mal contida, como se lhe desse apenas algum tipo de prémio de consolação.
Ela olhava para todos os lados com um nervosismo que procurava ocultar, só que ele, que a conhecia havia tanto tempo, não se deixou enganar pelo seu disfarce mal encenado.
No momento em que Tobias se aproximou, a fisionomia de Eva sofreu uma transformação inacreditável.
A aflição cedeu lugar a um excitamento dissimulado, os olhos adquiriram um brilho intenso, quase como se estivessem sob o efeito hipnótico de alguma droga alucinogénia.
Ela, realmente, parecia fascinada com a presença de Tobias.
O amigo, por sua vez, não deu mostras de que sabia ser o centro das atenções de Eva.
Ao contrário, cumprimentou-a o mais friamente que conseguiu sem ser grosseiro.
Durante o resto da noite, Eva acompanhou-o a quase todos os lugares em que Tobias também estava, dando desculpas de cansaço todas as vezes em que o colega se ausentava.
Voltava para a mesa e lá permanecia, bebendo champanhe até que Tobias surgisse, para então aproximar-se novamente.
Não era possível que Tobias não percebesse, porque ele percebia.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:39 am

Uma dúvida começou a incomodá-lo, enterrando um espinho de inquietude cada vez mais fundo em seu coração.
Será que Tobias correspondia ao interesse de Eva e apenas fingia não se interessar?
A dúvida foi consumindo-o aos poucos, levando-o a vigiar cada passo que um ou outro dava para longe dele.
Em nenhum momento Tobias se aproximou de Eva.
Nem sequer olhou para ela.
Seria um disfarce ou ele a estaria evitando?
Que ele não tivesse percebido era difícil, porque até mesmo os colegas cientistas pareciam ter notado, pela forma desconfortável como olhavam de um para outro.
Disposto a desfazer aquela dúvida, Celso esperou.
À medida que o salão ia sendo esvaziado, ele insistia em permanecer, só para ver como Eva faria para livrar-se dele e ficar a sós com Tobias.
Se é que isso iria mesmo acontecer.
E aconteceu.
Já era tarde da noite quando Tobias, finalmente, resolveu se recolher.
— É melhor eu ir dormir — disse Tobias, entre um bocejo e outro.
Passei um pouco da conta na bebida.
Celso quase podia ouvir o coração de Eva pulando dentro do peito.
Por uma fracção de segundos, ela não soube o que fazer, até que ele tornou a encher sua taça de champanhe, num sinal de que pretendia ainda ficar.
O resultado foi o que ele esperava.
Eva sabia que ele gostaria de terminar seu champanhe primeiro, mas não parecia disposta a esperar.
Foi com ansiedade que disse:
— Acho uma excelente ideia.
Está tarde e estou cansada.
Vamos subir também, Celso?
É claro que ele não ia subir.
Não naquele momento.
A alegria dela chegava à beira do frenesi.
Se ele tinha alguma dúvida de que ela estava apaixonada por Tobias, agora, só de olhar para ela, já não tinha mais nenhuma.
Restava saber se ele a correspondia e se já haviam chegado ao ponto sem retorno da traição.
Após alguns gracejos cuidadosamente elaborados, Eva e Tobias seguiram lado a lado em direcção ao elevador.
De onde estava, Celso não podia mais vê-los, mas aguardou o tempo suficiente para que eles deixassem o saguão.
Tentando não deixar transparecer sua própria ansiedade, Celso ainda aguardou alguns minutos, deu um último gole no champanhe e se despediu:
— Sabem de uma coisa?
Acho que também estou cansado.
Meus pés não estão me matando, mas o sono está.
Boa noite, amigos.
Foi preciso muito controle para não correr.
O elevador da direita encontrava-se no quinto andar, onde ficavam os quartos de ambos, mas o da esquerda permanecia parado no térreo.
Celso apertou o botão do sexto andar, sem conseguir conter a ansiedade.
A porta do elevador se abriu com um tlim dissonante, e Celso saltou às pressas, correndo pelo corredor vazio em direcção às escadas.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:39 am

Não queria ser surpreendido saindo do elevador, por isso, foi até o sexto andar e desceu.
Queria chegar de mansinho, sem ser notado.
Pela escada, poderia observá-los e ouvi-los sem ser visto.
O corredor do quinto andar também estava vazio.
Pé ante pé, Celso aproximou-se do quarto de Tobias e colou o ouvido à porta.
Nenhum ruído vinha do lado de dentro.
Correu a seu próprio quarto e escutou.
Nada também. Será que se enganara?
Suspirando de alívio, ia introduzindo o cartão-chave na fechadura quando sentiu que a maçaneta era mexida pelo lado de dentro.
Celso pensou e agiu rapidamente.
Como uma bala recém-lançada, disparou pelo corredor, alcançando o vão da escada no exacto momento em que ela saía.
Escancarou a porta de incêndio, aparando-a pouco antes de ela bater na parede e fazer um estrondo.
Teve medo até de espiar.
Se o fizesse, corria o risco de dar de cara com Eva, já que o quarto de Tobias ficava perto das escadas.
Segurando a respiração, conseguiu ouvir um som abafado de batidas na porta.
Alguns segundos depois, ela se abriu.
Vozes muito abafadas chegaram até ele, de forma tão indistinta que era impossível entender o que diziam.
Mais um pouco, e elas silenciaram, substituídas pelo som de uma porta se fechando.
Ganhando coragem, Celso espiou.
O corredor estava vazio novamente, assim como, imaginava, seu próprio quarto.
Passos abafados pela maciez do tapete, Celso se aproximou, mais uma vez encostando o ouvido à porta.
Dessa vez, as vozes chegaram mais nítidas, permitindo-lhe ouvir quase toda a conversa.
Em alguns momentos, elas se transformavam em sussurros, às vezes, silenciavam, enchendo seu coração de ciúmes ante a ideia de que eles estariam se amando.
Assassinatos eram, praticamente, coisa do passado.
Sempre que havia um crime, o facto se tornava manchete nos jornais.
Latrocínio, tráfico, homicídio, estupro, sequestro, estelionato e outros delitos dolosos e violentos, havia muito, tinham deixado de existir.
Os crimes passionais, contudo, ainda ocorriam.
Em menor frequência, é verdade, pois as pessoas já haviam atingido maturidade suficiente para resolver seus problemas com uma conversa franca.
Mas o choque do momento ainda levava uns poucos a perderem a cabeça e matarem, para depois cair num arrependimento profundo, principalmente porque o acto não podia mais ser desfeito.
Nesses casos, o julgamento conduzia o criminoso à prisão, onde permanecia alguns anos trabalhando, estudando e com acompanhamento psicológico e espiritual.
Ao saírem da cadeia, os criminosos estavam reabilitados, arrependidos e prontos para reiniciar suas vidas, embora o remorso não pudesse ser curado por nenhuma terapia da Terra.
Havia poucas celas em poucos presídios, porque ambos eram praticamente desnecessários.
Seria ele uma excepção naquela realidade?
Sua vida seria arruinada, sua carreira, destruída, seu nome, atirado na lama?
Pior do que tudo, perderia Eva para sempre? Não.
Precisava manter a calma e se controlar.
Quanto mais ouvia partes da conversa, mais se convencia de que nada daquilo seria necessário.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:40 am

Eva procurava seduzir Tobias, mas este a repudiava de todas as formas.
O nome dele fora citado várias vezes, ora pela voz sincera do amigo, ora com um toque de raiva da mulher.
Em dado momento, ela gritou, seguindo-se a súplica de Tobias para que se calasse.
Ele não a amava.
Dissera isso várias vezes, de forma segura e categórica.
Eva não queria acreditar, mas essa era a verdade.
Depois, quando veio o choro, a lamentação, a decepção por se ver rejeitada, Celso se afastou, satisfeito com o resultado de sua investigação improvisada.
Tobias não amava Eva, e Eva voltaria para ele.
Novamente escondido no patamar da escada, Celso aguardou.
Em poucos minutos, Eva saiu.
Ele lhe deu um tempo para se ajeitar na cama, antes de retornar ao quarto.
Abriu a porta em silêncio, como se não desejasse acordá-la.
Foi para o banheiro, tomou um banho para esfriar a cabeça.
Quando se deitou ao lado dela, sentiu os soluços que maltratavam seu peito.
Um misto de tristeza e amor comprimiu seu coração.
Ele a amava tanto que estava disposto a perdoá-la, mesmo se ela tivesse dormido com Tobias.
Jamais teria coragem de matá-la.
— Ah, minha querida — sussurrou ele, gentilmente alisando os cabelos dela.
Como amo você.
Por mais que ela tentasse, não conseguiu manter a prisão do choro.
De dentro do peito, o pranto explodiu como uma torrente de água que rompe o frágil açude que o prende.
— Não fique assim, querida — ele conseguiu dizer, dominando suas próprias lágrimas.
Tudo vai acabar bem.
— Ah, Celso, você não sabe... não sabe o que eu fiz...
— Não me interessa.
Nós vamos conseguir.
Vamos ter o nosso bebé.
Ela chorou ainda mais.
Pensava que ele interpretara seu desespero como frustração por não conseguir engravidar.
Era nisso que ele queria que ela acreditasse.
O remorso a traria de volta, fazendo-a esquecer Tobias de uma vez por todas e concentrar-se no desejo de ser mãe.
Aquele episódio ocorrera muito tempo atrás.
Ambos eram jovens, cheios de sonhos, ingénuos sobre o amor e a vida.
Agora, porém, mais maduros, não podiam mais segurar a torrente de mentiras que foram se acumulando ao longo dos anos.
Sentado ao lado dela, Celso acariciava seus cabelos tal como o fizera naquela noite, tantos anos atrás.
Sentindo a mão dele em sua cabeça, Eva abriu os olhos aos pouquinhos, custando a identificar, na penumbra da sala, o rosto do marido.
— Celso — murmurou ela.
Você demorou.
Estava esperando você e acabei pegando no sono.
— Estou aqui, querida.
Você sabe o quanto a amo, não sabe?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:40 am

Ela assentiu, retrucando com preocupação:
— Por que está me dizendo isso?
Aconteceu alguma coisa?
O olhar dele foi de medo, um medo que parecia escondido desde sempre.
Ela se endireitou no sofá e segurou a mão dele.
— Precisamos conversar — disse ele, olhando-a bem fundo nos olhos.
Sem lhe dar muito tempo para se preparar, Celso iniciou a narrativa.
Não foi preciso muito para que a reacção de Eva surgisse.
À medida que ele falava, ela sentia uma estocada em seu coração.
Era como se uma faca invisível se enterrasse cada vez mais em seu peito, abrindo uma ferida que ela não sabia se, algum dia, deixaria de sangrar.
Ela encarou Celso com lágrimas nos olhos.
Entreabriu os lábios para dizer alguma coisa, contudo, nenhuma palavra saiu além de um som gutural de desespero, de frustração e revolta.
Celso tentou estreitá-la, mas só o que conseguiu foi amparar o seu corpo antes que ele tombasse no chão.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:40 am

Capítulo 59

Tudo parecia um sonho.
Ou um pesadelo de mau gosto.
Não era possível ter sido enganada durante todos aqueles anos.
O que mais queria era ser mãe.
Ter um filho com o homem que amava seria o mais lindo presente que a vida poderia lhe conceder.
Mas agora sabia que esse homem não apenas lhe dera filhas, como também matara uma delas.
Aos poucos recobrando a consciência, Eva fitou o rosto preocupado de Celso.
Assim que ela se sentiu desperta o suficiente para se sentar, ele enfiou em suas mãos uma xícara de chá fumegante, obrigando-a a beber.
— Isso vai reanimá-la.
Você sofreu um terrível choque.
Ela bebeu em silêncio, tentando se lembrar das palavras que lhe causaram tamanho impacto.
— Vocês não tinham o direito de fazer isso comigo — ela, finalmente, conseguiu dizer.
— Não... Mas você queria tanto um filho!
— Se você tivesse me dito que era infértil, eu teria aceitado recorrer a um banco de sémen.
— Pensei que você quisesse que o filho tivesse nosso DNA.
— Eu queria, mas não a esse ponto.
E de que adiantou querer?
De toda forma, Alicia não tem o seu.
E você tinha que escolher justo o Tobias? Por quê?
Ele hesitou, mas agora que havia começado não podia voltar atrás.
Bastava de meias-verdades.
Ele já revelara o pior.
— Sei que é horrível, mas tive medo de ser ridicularizado pela comunidade científica.
Eu, um grande geneticista, incapaz de curar minha própria infertilidade.
— Não acredito.
Fez isso por orgulho?
— Foi.
— E Tobias aceitou.
Foi tão traiçoeiro quanto você.
— Tobias não teve escolha.
A verdade é que o chantageei.
— Chantageou? Como assim?
Era agora ou nunca.
Desviando os olhos dela, ele confessou:
— Sei o que aconteceu naquela noite em Lisboa.
Na noite do congresso, depois que você subiu com Tobias.
A muito custo ela conseguiu decifrar o que ele dizia.
Não esperava que ele soubesse de algo acontecido havia quase trinta anos, algo que ela mesma gostaria de esquecer.
Quando se deu conta de que ele falava daquela única vez em que ela tivera algum contacto com Tobias, desatou a chorar, envergonhada.
— Não aconteceu nada — argumentou, aos prantos.
Eu juro.
— Sei que não.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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