A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:40 am

Ouvi tudo o que se passou naquele quarto — ante o olhar de espanto dela, acrescentou:
— Eu já andava desconfiado de seu interesse por Tobias.
Você vivia olhando para ele de uma maneira estranha.
Naquela noite, resolvi segui-los.
Eu tinha que saber se vocês estavam tendo um caso.
Subi logo após vocês terem saído.
Vi você bater à porta do quarto dele, ouvi sua conversa.
— Se você ouviu, sabe que ele me rejeitou — rebateu, atónita.
— Sei. E foi isso que me deu a ideia de pedir a ele para ser o doador.
Contei-lhe que havia visto você entrar no quarto dele.
Ele, assim como você, jurou que não houvera nada, que não tinha interesse em você.
Fingi não acreditar e foi então que lhe pedi.
Ele não quis, mas eu o convenci de que ele me devia isso, pelo facto de ter dormido com a minha esposa.
Ele sempre se sentiu em débito comigo.
Quando acrescentei mais essa dívida, ele não teve como recusar.
Eva chorava, agora muito mais pela decepção do que pela descoberta.
— Eu jamais poderia esperar isso de você, Celso.
Sabia, em meu íntimo, que você desconfiava, embora nunca tivesse falado nada.
Mas isso...
— Eu era um homem desesperado, Eva.
Meu amor por você e meu orgulho de cientista me tornaram cego.
Fiz coisas das quais me arrependi pelo resto da minha vida.
— Por que está me contando isso agora?
Justo agora?
— Quero consertar as coisas.
— Você não tem mais como consertar a genética.
Alicia não é sua filha e nunca vai ser.
— Ela é minha filha.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
E Denise? Também é filha de Tobias?
Você permitiu que sua filha vivesse uma relação incestuosa?
— É claro que não!
Denise é minha filha.
Você não pode duvidar.
Você engravidou dela logo após a minha descoberta, lembra?
— Óptimo, ela é sua filha.
Isso não muda nada.
Você enganou todo mundo por anos.
— Será que você não pode me perdoar?
Agora compreendo que eu jamais deveria ter feito o que fiz.
— Estou cansada, Celso.
Não aguento mais o inferno em que nossa vida se transformou após a chegada de Tobias.
Não tenho nem forças para odiar você.
— Isso já é um consolo.
Eu sempre a amei.
Tinha muito medo de perdê-la.
E você? Você me ama?
— Aprendi a respeitá-lo e admirá-lo pelo seu amor por mim, do qual nunca duvidei.
— Mas você não me ama, não é?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:41 am

— À minha maneira, sim.
Quando nos casamos, eu o fiz por amor.
Mas quando conheci Tobias, não sei, algo em mim se modificou.
Jamais consegui esquecê-lo.
— Tobias ama nossa filha.
— Eu sei. Isso me deixa louca.
— De ciúmes?
— Talvez... — admitiu, envergonhada e hesitante.
Vivo em conflito com meus sentimentos...
Fico dizendo para mim mesma que Denise não deve se casar com Tobias... porque ele é muito mais velho... mas, no fundo, não sei se conseguiria... se conseguiria... — fez uma pausa, o olhar turvo de lágrimas, antes de confessar:
— suportar ver minha filha casada com o homem que ainda amo.
Ouvi-la falar do amor por outro homem com tanta naturalidade foi como receber um murro na boca do estômago.
Celso engoliu em seco, lutando consigo mesmo para não reagir.
Se pensava que ela o enganara, o que diria de si mesmo?
Suas mentiras não teriam tido consequências muito mais graves?
— É preciso muita coragem para assumir isso — considerou Celso, acabrunhado.
— Por que não deveria assumir, se você sempre soube a verdade?
E depois, considero o seu segredo mais terrível do que o meu.
O que você fez seria mais ou menos como se eu tivesse tido um filho de outro homem.
Em ambos os casos, estaríamos enganados quanto à verdadeira paternidade da criança.
Mal comparando, era aquilo mesmo.
Celso abaixou os olhos, envergonhado.
Não tinha nem coragem de encará-la.
— Sinto muito — foi só o que conseguiu dizer.
— Ambos somos responsáveis pelos desdobramentos de nossas mentiras.
Escondi de todos que amava Tobias, e, agora, minha própria filha está apaixonada por ele.
Fico imaginando o que ela faria se soubesse...
— Ela sabe.
O olhar de angústia de Eva foi indescritível.
Ela escondeu o rosto entre as mãos, falando entre soluços:
— Quem contou? Foi Alicia?
Não, foi Tobias.
No dia em que ela foi atropelada.
Foi por isso que ela foi atropelada, não foi? — Celso assentiu.
Agora compreendo por que nossas filhas se afastaram de mim.
Elas não me perdoam, principalmente, Denise.
— Elas se afastaram de mim, pelo que eu fiz, não de você.
Tanto que você sempre vai à casa de Alicia.
— Elas podem não ter se afastado de mim fisicamente, mas já não são mais as mesmas.
Sinto que há algo se interpondo entre nós.
— E há. Mentiras e mais mentiras.
Todas criadas por mim, não por você.
Você não fez nada.
— Elas o perdoaram?
— Sim — sussurrou. — E você
Será que também é capaz de me perdoar?
Ela não respondeu.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:41 am

Desviou dele os olhos, fitando a escuridão da sala.
— Não quero mais sentir nada por Tobias — foi o que conseguiu dizer.
Nem amor, nem ódio.
Quero que ele me seja indiferente, mas quero tratá-lo com respeito.
Ao menos pela nossa filha.
— Está dizendo que pretende abrir mão dele por Denise?
— Não posso abrir mão do que nunca me pertenceu — ela abaixou a voz, envergonhada.
Tobias nunca me amou.
Chegou a hora de acabar com essa ilusão.
— Você é uma mulher de muita coragem — elogiou ele, apertando-lhe as mãos.
Tenho orgulho de ser seu marido.
— Não temos nada do que nos orgulhar — rebateu ela, puxando as mãos.
Somos semelhantes em razão de nossas fraquezas.
— Você me ama? — ele perguntou de repente.
E sem essa de aprendi a amá-lo e respeitá-lo.
Quero uma resposta directa.
— Não sei o que lhe dizer.
São tantas coisas que não consigo compreender!
Nem sei mais o que sinto por você ou como encarar tudo isso.
De quem é a culpa?
Minha? Sua? De todos nós?
— Ou de nenhum de nós?
Celso tentou tomá-la nos braços, mas ela se esquivou, claramente demonstrando que não o havia perdoado.
— Eu sempre a amei — confessou ele.
Por você, teria suportado qualquer coisa.
Seria até capaz de perdoá-la se você e Tobias realmente tivessem tido um caso.
— Você não sabe o que está dizendo.
— Sei. Naquele dia, descobri.
Pensei se não seria capaz de matá-la se descobrisse que você me traía e a resposta foi imediata: não.
Eu a amo, Eva, sempre a amei.
É por isso que tanto me dói saber o quanto a magoei.
— Acho que nos magoamos reciprocamente.
— Não guardo mágoa nenhuma de você.
Gostaria que você também não guardasse de mim.
— Não me peça isso, por favor — ela se afastou dele, o coração transbordando de ressentimentos.
Não agora, quando me sinto confusa e desanimada.
— Você nunca vai me perdoar, não é mesmo? — Eva desviou os olhos e não respondeu.
Ainda mais quando souber de toda a verdade.
— Toda a verdade? — repetiu, sem conseguir segurar por mais tempo a raiva.
Ainda tem mais?
— O pior ainda está por vir.
É a última coisa que me falta revelar.
Não adiantou Eva insistir para que ele lhe revelasse tudo.
Celso estava disposto a contar, mas queria fazê-lo diante de todos os envolvidos.
Seria o momento de encerrar aquele ciclo de mentiras e fechar, de uma vez por todas, sua caixa de Pandora.
Somente após reencontrar-se com a verdade é que poderia voltar a viver em paz com a sua consciência.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:41 am

Capítulo 60

As paredes verdes do quarto pareceram estranhas diante dos olhos dela.
Não se lembrava de como fora parar ali.
Parecia um hospital, mas não tinha certeza.
Não tinha certeza de nada.
Nem sabia se estava viva ou morta.
Aos poucos, as lembranças retornaram.
Fora Dimas. Ele a atacara naquele terreno baldio contra o qual Alicia tanto a alertara.
Talvez estivesse morta e alguém a houvesse levado para um hospital no espaço.
Já ouvira falar desses hospitais.
Vira algo do género no filme Nosso Lar.
Sim, só podia ser isso.
Desencarnara e algum bom espírito a colocara ali para se recuperar.
Que bom que, ao menos, merecera isso.
Com um suspiro de resignação, ela abriu os olhos.
Tinha que encarar sua nova realidade.
Levou um tremendo susto ao identificar a primeira pessoa que surgiu diante dela.
Ele estava ferido, com alguns cortes no rosto e um olho roxo.
Será que morrera também?
— Cezar! — surpreendeu-se.
O que está fazendo aqui?
Estamos mortos?
E agora, quem vai cuidar de Maurício?
— Ei! — retrucou ele, sem ocultar a alegria.
Vá com calma. Ninguém morreu.
— Ninguém morreu? — repetiu, quase com incredulidade.
Então, onde estou? Num hospital?
— Sim.
— Como vim parar aqui?
Quem me trouxe?
— Você veio de ambulância.
Não se lembra?
— Não sei... Mais ou menos...
E Dimas? O que houve com ele?
— Está preso.
— Preso?
— Em flagrante.
— Não estou entendendo.
Alicia me disse...
— Não sei quem é Alicia, mas foi graças a ela que você não morreu.
Depois que você saiu, Maurício não parava de falar esse nome, contando que sonhara com uma tal de Alicia, que lhe dizia para não deixá-la ir à academia.
Contou que Dimas ia levá-la para um terreno baldio e matá-la.
— Maurício sonhou com Alicia?
Por que ele não me disse nada?
— Ele tentou, mas você não lhe deu chance.
Cortou a conversa e se mandou para a academia.
Ele estava nervoso, falando que a tal Alicia havia dito que Dimas a atacaria no dia 29 de outubro, aquele dia, a caminho da academia.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:41 am

— É verdade... — reconheceu ela, agora se lembrando do alerta de Alicia.
Sonhei com ela, que me disse a mesma data.
Por que não lhe dei ouvidos?
— Graças a ela, conseguir chegar a tempo.
— Você acreditou em Maurício?
— Pelo sim pelo não, achei melhor não arriscar.
Saí pela rua atrás de você.
Segui em direcção à academia, procurando por algum terreno baldio.
Quando encontrei o terreno, espiei para dentro.
O portão estava mal fechado e deu para ver o interior.
Foi aí que vi Dimas se deitando sobre você.
— O que você fez?
— Perdi a cabeça.
Como o terreno era cheio de pedras, não tive dúvidas.
Agarrei a primeira que vi e mandei na cabeça dele.
— Você o quê?
— Dei uma pedrada nele.
Ele caiu, meio tonto, e parti para cima dele.
Nós nos engalfinhamos feito dois galos de briga.
Ele só não levou a melhor porque estava zonzo da pedrada.
Aproveitei para lhe dar uns murros.
Então, comecei a gritar, atraindo a atenção de algumas pessoas.
Alguém chamou a polícia, que apartou a briga.
Vendo você ali estendida no chão, desmaiada, os policiais deduziram tudo.
Dimas foi preso em flagrante, e você, trazida para o hospital.
— Você está todo ferido.
— Não foi nada.
E você, como se sente?
— Com dor — ela apalpou a lateral do corpo, onde tudo doía.
Ele me cortou, não foi?
E quebrou algumas costelas?
— Nada sério.
Os cortes não foram profundos, e houve apenas fracturas simples de duas costelas, sem lesão a qualquer órgão interno.
Foi muita sorte.
O médico disse que, em algumas semanas, você vai estar pronta para outra.
— Algumas semanas?
Vou ficar de molho por mais de sete dias?
— Não necessariamente de molho.
Você vai ter que evitar esforços físicos.
— Entendi. E Maurício, onde está?
Quem está cuidando dele?
— Ele está lá fora, morrendo de preocupação.
— Por que você não o deixou entrar?
— Ele entrou, viu você e depois saiu.
Você está num hospital de primeiro mundo, Jaqueline.
Maurício está aos cuidados de uma assistente social.
— Não posso vê-lo?
— É claro que pode. Vou chamá-lo.
Ele voltou logo em seguida, acompanhado de Maurício e da assistente social.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:41 am

A mulher foi muito gentil, sorriu para ela, perguntou como se sentia, oferecendo-se para ajudá-la a superar aquele momento, caso necessitasse.
Jaqueline agradeceu, mas não precisava de nada, só de Maurício.
— Você nos deu um susto danado, Jaque! — exclamou ele.
— O que eu ia fazer da vida sem você?
— Cezar ia cuidar de você — ela olhou para ele de soslaio.
— Não ia, Cezar?
— É claro que ia.
Mas Maurício não quer ser cuidado por mim.
Quer a irmã ao lado dele.
— É isso mesmo, mana.
Adoro Cezar, mas não gosto de ninguém mais do que gosto de você.
Nem da mamãe, quando era viva.
Ela alisou os cabelos dele, emocionada.
Em seguida, acrescentou:
— Cezar me disse que você teve um sonho. Como foi?
— Sonhei com uma moça chamada Alicia.
Foi ela quem me falou o que ia acontecer.
— Ela disse que seria hoje?
Ou ontem, sei lá.
— Foi ontem — esclareceu Cezar.
Você está aqui há quase vinte e quatro horas.
— Não me lembro — respondeu Maurício.
Só sei que ela disse que aconteceria a caminho da academia.
Quando você disse que ia malhar, lembrei do sonho e fiquei agoniado.
Então, contei tudo a Cezar e ele saiu atrás de você.
O que nenhum dos três sabia era que a certeza de que algo estava acontecendo com Jaqueline naquele exacto momento veio mais da influência de Rosemary do que do sonho com Alicia.
Alicia alertara o menino, era verdade, mas foi quando Rosemary se aproximou do filho que o perigo se tornou iminente.
Ela saiu do lado de Sofia às pressas, finalmente decidida a não permitir que Dimas matasse sua filha.
Encontrou os dois ainda conversando sobre o tal sonho, de modo que se acercou do filho, detalhando o local do acidente, enquanto ele transmitia tudo a Cezar.
Em seguida, colocou a mesma sugestão na mente de Cezar, acompanhada da certeza de que, naquele momento, Jaqueline podia estar sendo agredida.
— Meu herói — acrescentou Jaqueline, embevecida.
Os dois são meus heróis.
Não fosse por ambos, nós não estaríamos aqui tendo essa conversa.
— Não sou herói — protestou Cezar, sem jeito.
Levei uma surra danada do tal Dimas.
— Ele foi preso graças a você.
— Só porque estava tonto.
Senão, teria me matado e dado o fora.
— Não interessa.
Você foi mais esperto do que ele.
Lutou com as armas que tinha.
— Quando você vai para casa? — Maurício quis saber.
— O médico disse amanhã — esclareceu Cezar.
Por enquanto, ela ainda está em observação.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:42 am

— Que pena — lamentou Maurício.
Posso dormir aqui com você? Posso?
— Infelizmente, crianças não são permitidas como acompanhantes — disse Cezar.
Mas podemos ficar até o término do horário de visitas.
— Você vai ficar com ele? — indagou Jaqueline.
Até eu voltar?
— Vou, é claro.
Não se preocupe, vou cuidar dele direitinho.
— Obrigada. Só mais uma coisa.
Lafayete já sabe o que aconteceu comigo?
— Como eu disse, você está num hospital de primeiro mundo.
Quem pensa que está bancando tudo isso?
— Não quero que pense que não sou grata, mas a verdade é que não queria mais depender dele.
— Será que já não está na hora de você sair daquela cobertura?
Você pode trabalhar e fazer o curso de inglês.
— Você vai fazer isso, mana? — Maurício se animou.
Vai deixar o doutor?
— Não sei. Eu já lhe disse que, se fizer isso, nossa vida vai mudar. E para pior.
— Nossa vida não pode mudar para pior se você deixar de apanhar — ponderou o menino.
— Maurício tem razão — concordou Cezar.
Você não precisa mais dele.
Ainda mais agora, que ele está morrendo de medo de ser processado, cassado ou sei lá mais o quê.
— Ele não me pareceu com medo.
— Mas está.
— Gostaria muito de deixá-lo, mas não temos para onde ir.
— Vocês podem ficar na minha casa até conseguirem alugar um apartamento.
— Na sua casa? Não quero atrapalhar.
— Deixe de bobagens.
Vocês nunca vão me atrapalhar.
— Mas e Lafayete?
Já imaginou o que ele fará com você quando souber?
— Ele não precisa saber.
Lafayete raramente vai à minha casa.
Para todos os efeitos, vocês vão simplesmente sumir.
— Aceite, mana, vamos! — Maurício quase implorou.
Estou doido para você sair dessa vida.
Quero que seja livre novamente.
Livre. Havia muito, Jaqueline não sabia o que era liberdade.
Seria bom escolher o que fazer, o que falar, como se vestir e, principalmente, quando e com quem gostaria de transar.
Mas será que conviver com Cezar sem poder tê-lo para si não a colocaria em outro tipo de prisão?
— E então, Jaqueline, o que me diz? — insistiu Cezar.
Posso preparar o quarto para vocês?
— Vai ter um quarto só para nós? — animou-se Maurício.
— Meu apartamento é pequeno, só tem dois quartos, mas dá para ajeitar o outro para vocês dois.
E aí, mocinha? Posso ou não posso?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:42 am

Não foi preciso muito tempo de reflexão.
A prisão que poderia resultar da oferta de Cezar não chegava nem aos pés da vida que ela levava ao lado de Lafayete.
— Pode — decidiu-se.
E Maurício já pode ir, se quiser.
— Oba! — fez o garoto.
E pode deixar, mana.
Eu mesmo vou arrumar suas coisas.
— Não leve tudo.
Quero que deixe lá as jóias, os sapatos e as roupas caras que ele me deu.
— Muito bem — falou Cezar, orgulhoso da dignidade dela.
Deixe tudo connosco.
Amanhã, quando você sair do hospital, terá uma nova casa.
Ao contrário do que Dimas pensava, não foi fácil sair da cadeia.
Por ser réu primário, e achando que seu crime não passaria de lesão corporal, acreditava na concessão da fiança.
Mas não foi o que aconteceu.
Dimas estava sendo acusado por tentativa de estupro, lesões corporais e, o mais grave, homicídio, visto que fora encontrado com a arma que pertencera a Lampião.
Ao serem digitalizadas, qual não foi a surpresa do papiloscopista ao constatar que as impressões digitais de Dimas conferiram com as encontradas na casa do cafetão assassinado.
A balística também comprovou que a arma utilizada no crime era a mesma apreendida com ele.
Não havia dúvidas.
Dimas era o criminoso.
Pressionado, acabou confessando que matara Lampião e que só fora atrás de Jaqueline porque ela tentara matá-lo quando ainda residiam no Espírito Santo.
— Vingança não é permitido pelas nossas leis, senhor Dimas — alertou o investigador.
— Mas ela tentou me matar! — objectou ele, querendo incriminá-la também.
— O senhor tem alguma prova disso?
— Sim. Veja, ainda tenho a cicatriz da facada que ela me deu.
O investigador conferiu a cicatriz, constatando, inclusive, que era recente.
— Isso mais parece coisa de briga de malandro do que uma ferida provocada pela mocinha que o senhor colocou no hospital.
— Não foi. Foi Jaqueline, eu juro!
— O senhor deu parte na polícia? — ele não respondeu.
Foi o que pensei.
Alguém viu ou ouviu alguma coisa?
Também não. Então, sinto muito, seu Dimas.
Jaqueline é vítima, não criminosa, como o senhor quer fazer parecer.
— Maldita — murmurou entre os dentes.
Quero um advogado!
— O senhor tem algum que possamos chamar?
— Exijo pagar fiança!
— Ah! Tem dinheiro, então.
Ele ficou confuso.
Não tinha nem um tostão.
Mesmo assim, insistiu:
— Todo mundo consegue sair pagando fiança.
Por que só eu é que não consigo?
Sou réu primário.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:42 am

— Verdade. Mas lamento.
Somando tudo aquilo de que o senhor está sendo acusado, sua pena pode passar de, digamos, uns trinta anos, certo?
Então, nada feito.
Não estou autorizado a lhe conceder fiança.
O senhor vai ter que esperar as vinte e quatro horas até eu enviar os autos ao juiz, e ele é quem vai decidir.
Agora, dado o seu histórico, e se o seu requerimento cair nas mãos de um juiz linha dura, não sei não...
O juiz não concedeu a liberdade provisória de Dimas, nem com fiança, nem sem fiança.
Vários factores contribuíram para a denegação do pedido.
Era um assassino confesso, admitira o desejo de vingança e agredira uma mulher que, além de sua enteada, era também sua sobrinha.
Não. Decididamente, Dimas merecia a cadeia, que passaria a chamar de lar desde aquele dia até muitos anos à frente.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 11:42 am

Capítulo 61

Quando Jaqueline saiu do hospital, ainda não se sabia que Dimas fora o responsável pela morte de Lampião.
Por isso, temendo a concessão da fiança, Cezar procurou não descuidar dela e de Maurício nem um minuto sequer.
Ao levá-la para sua casa, cuidou para que Dimas não estivesse à espreita.
Ele já a encontrara duas vezes.
Podia muito bem encontrá-la uma terceira.
— Será que ele vai sair sob fiança? — indagou Jaqueline.
— Ainda é cedo para saber, mas não podemos facilitar. — disse Cezar.
Ele pode ser solto a qualquer momento.
— Ou não. Vamos torcer para que isso não aconteça.
Ele a conduziu até o quarto, onde havia um sofá-cama de casal, que ela dividiria com Maurício.
— Sei que não é grande coisa — ele falou, em tom de desculpa.
Mas acho que vai servir.
— Está óptimo, Cezar — elogiou ela.
Não podia esperar coisa melhor.
— Deixei um espaço no meu closet para você e Maurício.
Ele já guardou suas coisas.
— Maurício é um amor. Onde está?
— Na escola.
Achei que não deveríamos interromper sua rotina.
— Fez muito bem. E Lafayete?
Teve notícias dele?
— Até o momento, nada.
É estranho, mas ele não tem me procurado.
— Será que está aprontando alguma?
— Não creio.
Ele está tentando evitar chamar a atenção, na esperança de que o escândalo seja esquecido.
— A polícia não está atrás dele?
— Não. Por causa da imunidade, tudo vai ser decidido em Brasília.
— Mas que droga, Cezar!
O cara faz o que faz e ainda tem imunidade.
É muito fácil cometer crimes sob a protecção da lei.
É por isso que existe tanta impunidade.
— Procure não pensar nessas coisas.
— Não consigo. Sinto-me acuada pelos dois lados.
De um, tem o Dimas, querendo me matar.
De outro, Lafayete, capaz sabe-se lá de quê. É complicado.
— Nada vai lhe acontecer.
Dimas não sabe onde moro e Lafayete não sabe que você está aqui.
— Será que ele não desconfia?
— Esperemos que não.
Cezar não sabia o quanto estava enganado.
No meio da cobertura vazia, Lafayete grunhia de ódio.
Ao ligar para o hospital, fora informado de que Jaqueline tivera alta e que fora levada por um amigo, um homem bem apessoado, bem-vestido e bem falante.
Só podia ser o Cezar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:45 am

Foi um custo convencer o porteiro a deixá-lo subir.
Somente após se identificar e ameaçar mandar prendê-lo, mesmo sem um motivo real, foi que o homem permitiu que ele subisse.
A porta estava destrancada; o apartamento, vazio.
Jaqueline não estava.
Não havia ninguém em casa.
Os pertences dela haviam sumido, excepto as coisas luxuosas que ele lhe dera.
Se ela e Cezar pensavam que ele era algum idiota, estavam muito enganados.
Ele sabia onde Cezar escondia a cadela.
Só podia ser em sua casa.
Jaqueline não tinha dinheiro nem coragem para morar sozinha, ainda mais com uma criança.
Ele arrancou todos os vestidos do armário, espalhando-os pelo chão juntamente com colares e anéis de brilhante.
Depois que se acalmou, recolheu as jóias, os vestidos e guardou tudo numa sacola, levando-os consigo.
Afinal, era o seu dinheiro que estava ali, e eram artigos caros que poderiam servir em outra rameira de sua escolha.
De volta ao carro, pensou para onde iria.
Tinha que resolver aquele assunto, e era uma pena não poder contar com a lealdade de Jonas.
Talvez tivesse que fazer tudo sozinho.
Se ele mesmo houvesse cuidado do problema, não teria sido o desastre que foi.
Entrou no carro e ordenou ao segurança, que fazia às vezes de motorista:
— Para a casa de Cezar.
Parado em frente ao edifício de Cezar, Lafayete remoía a dúvida.
Sua vontade era subir e atacar aquele cretino, que pensava que podia fazer o que bem entendia.
Mas não podia mais se meter em escândalos.
Já bastava o delegado ter divulgado o resultado daquele inquérito.
Agora, toda a imprensa sabia que ele era acusado de ter mandado matar a mulher.
Seu advogado lhe garantira que ele seria absolvido pelo Supremo, mas, de qualquer forma, sua carreira estaria arruinada.
Ao menos enquanto o povo não esquecesse.
— Espere-me aqui — ordenou.
Lafayete abriu a porta do carro e saltou.
Não era homem de engolir desaforos.
Cezar e Jaqueline mereciam ouvir poucas e boas.
Passou directo pela portaria, sem dar atenção aos protestos do porteiro, que só não o impediu de subir porque o havia reconhecido.
Entrou no elevador, antevendo a cena em que daria um murro na cara de Cezar e outro na de Jaqueline.
E, se precisasse, socaria também o fedelho.
Ao ouvir o som da campainha, Jaqueline teve um sobressalto.
Cezar acercou-se da porta e espiou pelo olho mágico.
— É Lafayete — avisou, surpreso.
— Você vai abrir? — horrorizou-se Jaqueline.
— Não sou covarde.
O murro veio tão logo a porta se abriu.
Foi tão inesperado, que Cezar nem teve tempo de se defender.
— Calhorda! — rugiu Lafayete, esquecendo o medo do escândalo.
Não conseguiu controlar sua inveja, não foi?
Tinha que me tomar tudo, até a mulher?
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Ave sem Ninho

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:45 am

— Não lhe tomei nada — Cezar defendeu-se, limpando o filete de sangue que escorria da boca.
E nunca tive inveja de você.
— Mentiroso! Porque você é meu irmão, paguei sua faculdade, investi em você, dei-lhe um emprego decente, e tudo isso para quê?
Para você me apunhalar pelas costas?
— Tudo isso para atender os seus interesses.
Você queria um escravo para satisfazer todos os seus desejos, e sua arma para obter isso foi a chantagem.
— Engano seu, Cezar.
Você pode não acreditar, mas fiz o que fiz porque você é meu irmão.
Bastardo, mas, ainda assim, irmão.
— Vai querer agora me convencer de que o facto de eu ser seu irmão tem alguma importância para você?
— É claro que tem.
— É claro que não tem.
Se fosse assim, você jamais teria me chantageado para que eu fosse trabalhar para você.
Nunca teria acusado meu pai por um desfalque que foi você quem deu.
— Um pouco tarde para isso, não acha?
Mas eu ainda posso ferrar com a vida dele e, indirectamente, com a sua.
— Quer saber, Lafayete? Faça isso.
Já estou cheio de você mandar em mim por causa de uma ameaça.
— Está ficando corajoso agora, é?
Tudo isso para impressionar Jaqueline?
— Saia daqui! — exigiu Cezar.
Você está na minha casa.
— Casa que você comprou com o meu dinheiro.
— Casa que comprei com o dinheiro que você pagou pelo meu trabalho.
Fui seu escravo por dez anos.
Não acha que já chega?
— Vou acabar com a sua vida — ameaçou.
Vou fazer com que você não consiga emprego nem como balconista de botequim de subúrbio.
Vou destruir você.
— Faça isso e vai complicar ainda mais a sua situação.
— Que situação?
Refere-se àquela ridícula acusação de homicídio?
Você devia saber tão bem quanto eu que isso não vai dar em nada.
— Não sente remorso por ter mandado matar sua mulher?
A mãe de seus filhos?
— Não mandei matar ninguém.
— Não precisa mentir para mim, Lafayete.
Conheço-o muito bem, sei que foi você.
Por que não assume logo o que fez?
— E daí? — enraiveceu-se, após alguns segundos.
Mandei matá-la mesmo, já não aguentava mais aquela baranga choramingando atrás de mim, fantasiando-se de mulher sensual, pensando que podia me seduzir.
Quase vomitava quando me obrigava a dormir com ela.
Se ela tivesse se contentado em aparecer ao meu lado em público, estaria viva até hoje.
Mas não. Ela queria mais.
Queria a minha atenção, os meus carinhos, o meu sexo.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:45 am

Sofia teve o que mereceu.
Só lamento não tê-la matado com minhas próprias mãos.
Gostaria de ter visto a cara dela quando morreu.
— Acha que vai se safar dessa?
Que a polícia federal vai desconsiderar sua confissão gravada?
— Vai. Meu advogado está pronto para contestar essa prova.
A polícia civil não tem competência para investigar um deputado federal.
Logo, a prova obtida não tem valor contra mim.
— Isso é um absurdo!
A escuta foi autorizada pela Justiça e não foi o seu aparelho que foi grampeado.
— Por tabela, foi.
Ninguém pode usar a conversa de um deputado federal sem autorização do Supremo Tribunal Federal.
Como isso não aconteceu, meu advogado vai dar um jeito de anular essa prova.
Sem ela, eles não têm nada contra mim.
— Acha mesmo que isso vai colar?
— É claro que vai.
A Justiça favorece os ricos e influentes.
— É o que você pensa.
Sua prepotência, um dia, vai acabar.
— Veremos.
— Existem outras provas contra você.
— Que provas? O assassino morreu.
Jonas está preso e não vai falar.
Esse, sim, é leal a mim.
— Canalha. Saia daqui, Lafayete.
— Ou o quê? Vai chamar a polícia para me prender?
— Você está muito enganado se pensa que pode tudo.
— Enganado está você. Eu posso tudo.
Vou embora porque quero, porque não tenho mais o que fazer nesse buraco.
E não preciso nem dizer que você não trabalha mais para mim — finalizou, apontando para Jaqueline.
Saiu pisando firme, como um monarca reinando absoluto num reino de terror.
Lafayete se mostrava cada vez mais autoritário, arrogante, maligno.
Teve a coragem de contar, com todas as letras, que mandara mesmo matar Sofia, e sem nenhum remorso.
— Você está bem? — Jaqueline correu para Cezar, depois de trancar a porta.
— Estou. Acho que Lafayete enlouqueceu.
A megalomania dele chegou a um ponto exorbitante.
Ele pensa que é Deus.
— Ele não é Deus e podemos provar.
— Se ele pensa que a Justiça vai desconsiderar a gravação obtida do telefone de Jonas, creio que está enganado.
Além do mais, tem o Fábio, que ouviu o assassino falar o nome dele.
— E temos isto.
Jaqueline mostrou a Cezar seu celular, ligando o gravador.
A conversa que acabara de ter com Lafayete ressoou pela casa:
— E daí? Mandei matá-la mesmo, já não aguentava mais aquela baranga choramingando atrás de mim, fantasiando-se de mulher sensual, pensando que podia me seduzir.
Quase vomitava quando me obrigava a dormir com ela.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:45 am

Se ela tivesse se contentado em aparecer ao meu lado em público, estaria viva até hoje.
Mas não. Ela queria mais.
Queria a minha atenção, os meus carinhos, o meu sexo.
Sofia teve o que mereceu.
Só lamento não tê-la matado com minhas próprias mãos.
Gostaria de ter visto a cara dela quando morreu.
Desligou, fitando Cezar com ar de vitória.
— Você gravou tudo? — surpreendeu-se.
— Quase tudo. Ao menos, a parte que mais interessa, que é a confissão dele.
Quero ver se agora a prova não vai ser válida.
— Lafayete vai dar um ataque.
É a segunda vez que gravam a conversa dele.
— O valor dessa prova é inquestionável, não é?
— Depende. Normalmente, os tribunais aceitam gravação feita pelo próprio interlocutor.
— Óptimo! Peguei o primeiro celular que apareceu na minha frente, que, por sorte, era o seu.
— Você é demais!
Com tantas provas contra o doutor, duvido que ele não seja formalmente acusado.
— Tomara.
Ela olhou para ele, novamente sentindo o desejo aflorar em sua pele.
Não se conformava de não poder estar com ele.
Devia esquecê-lo, mas não conseguia.
Fitando-o assim, a boca ferida, o cabelo desalinhado, as mãos machucadas, ela quase não resistiu.
Bem lentamente, tocou seus lábios, limpando o filete de sangue com seus próprios dedos.
Ele parecia tão frágil!
O silêncio era absoluto, mas não era um silêncio constrangedor nem tormentoso.
Era aquele silêncio no qual nada é preciso dizer.
Estimulada pela debilidade do corpo de Cezar, Jaqueline, mais uma vez, não resistiu.
Sabia que ele a rejeitaria outra vez, mas tinha que tentar.
Era mais forte do que ela.
Sem conseguir conter a respiração ofegante, ela aproximou o rosto do dele, chegando tão próximo que seus hálitos se misturaram.
Seus lábios roçaram levemente, causando espanto em Cezar, que recuou assustado.
Apesar da iminente rejeição, ela insistiu.
Os sinais que vinham do corpo dele pareciam contraditórios, confusos, mas ela não se deixou abater.
Moveu o corpo para a frente, seguindo o dele que recuava, até que seus lábios se encontraram novamente.
Mas o beijo não aconteceu.
De maneira abrupta, a porta se abriu e Maurício entrou, gritando assustado ao ver a reviravolta que acontecera no apartamento de Cezar.
Jaqueline apertou os olhos, transtornada, pensando em prosseguir e beijá-lo mesmo assim.
Mas o momento passou, veloz como uma bala.
Cezar afastou o rosto dela e, com um sorriso maroto, levantou-se para acalmar o menino.
O encanto se havia desfeito.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:45 am

Capítulo 62

O delegado Estêvão enviou as peças do inquérito para a polícia federal, que tratou logo de encaminhá-las ao Supremo Tribunal Federal.
Diante das inúmeras evidências, a mais alta Corte do país determinou a abertura de inquérito na polícia federal, dando-se início às investigações oficiais.
A primeira testemunha ouvida foi Fábio, que repetiu a declaração que dera na civil.
Jaqueline também foi chamada a depor, mas não pôde esclarecer muita coisa.
Junto aos autos do inquérito, as transcrições das duas gravações, uma obtida pela polícia, outra, pelo assessor do deputado.
Encerrado o inquérito, o Supremo Tribunal Federal aceitou a denúncia feita pelo Procurador-geral da República, dando-se início à acção penal.
Por mais que o advogado de Lafayete tentasse, não conseguiu desqualificar as gravações oferecidas como prova.
A princípio, pairaram dúvidas sobre a possibilidade de usar-se contra o deputado aquela prova obtida pela polícia civil, já que o deputado não era alvo das investigações e a revelação da conversa violaria sua intimidade.
No entanto, ao escutar a reprodução da conversa havida entre Lafayete e seu assessor, os ministros foram unânimes em aceitá-la como prova mais do que suficiente para comprovar a participação de Lafayete como mandante do crime.
Na casa de Cezar, o clima era de alívio.
Parecia que, finalmente, as coisas entravam nos eixos.
Enquanto Cezar e Jaqueline recebiam Fábio para uma visita, Rosemary e Sofia decidiam o que fazer dali em diante.
— Você está feliz agora, não está? — indagou Rosemary.
Sofia olhou para ela.
Havia angústia em seu olhar.
Ouvir o que o marido dissera sobre ela fora muito duro.
— Ele precisa pagar pelo que fez — comentou.
Todo mundo tem que assumir os seus erros.
— A história dele terminou. E a sua?
— Não terminou.
Ainda há um longo trajecto até o julgamento e uma possível condenação.
Mas já estou satisfeita.
Não cabe a mim decidir o final dessa história.
— O que vai fazer?
— Vou embora.
Vou me recolher a algum canto, rezar e esperar que alguém venha me buscar.
— Acha que é assim que as coisas acontecem?
— Creio que sim.
É assim que li nos livros.
Sempre devemos rezar.
— Bom para você. Faça isso.
— E você, Rosemary?
Não vai embora também?
— Não sei. Acho que não.
— Dimas está preso e, pelo visto, vai ficar um bom tempo na cadeia.
Por que não vem rezar comigo?
Alguém pode vir buscá-la também.
— Não sei se é isso que quero.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:46 am

— Não está mais pensando em perturbar Jaqueline, está?
— Não.
— Você sabe que foi graças a você que Cezar decidiu ir atrás dela, não sabe?
— Talvez sim, talvez não.
Não tem importância.
O que importa é que Jaqueline foi salva.
— Graças a você, insisto em dizer.
— Tudo bem, se é nisso que quer acreditar.
- O que a fez mudar de ideia?
— Não sei...
Acho que, de tanto ouvir você falar, senti que deveria intervir.
Afinal, sou a mãe de Jaqueline...
— Não sente mais raiva dela?
— O mais estranho é que não.
De repente, tudo pareceu sem sentido.
— E é. Vingança não leva a nada.
— Pode ser, mas ainda tenho muito no que pensar.
E agora, vá; não se preocupe comigo.
Siga o seu caminho. Seja feliz.
— Não quero deixá-la.
Venha comigo, Rosemary, por favor.
— Não posso.
Acho que ainda não estou pronta para deixar Dimas.
— Ele está preso!
— Eu sei. Também estou presa a ele e a Jaqueline.
— Você disse que não vai mais atrás de Jaqueline.
— Não vou. Mas existe um magnetismo que não permite que me desligue dela.
— Bem, você é quem sabe.
— Vá. Não se preocupe comigo.
Ficarei bem.
Rosemary sabia que era hora de Sofia partir, mas estava em dúvida sobre o que ela deveria fazer.
Um vazio imenso preencheu seu corpo fluídico, transformando a vida em uma aventura inútil e sem sentido.
Ao menos Sofia conseguira o que queria.
Quanto a ela, tinha ainda um longo caminho a percorrer antes de se sentir forte o suficiente para se libertar.
O noticiário do canal a cabo relatava, em minúcias, todo o caso do deputado Igor Lafayete.
Jaqueline assistia com os olhos pregados na tela, mal acreditando que o doutor, finalmente, teria o que merecia.
A seu lado, Cezar comentava os acontecimentos com Fábio, que, como os outros dois, torcia para ver Lafayete atrás das grades.
— Finalmente! — desabafou Fábio.
Não vejo a hora de a justiça ser feita.
— Tenha calma, amigo — considerou Cezar.
Esse caso mal começou.
— Não é possível que ele se safe desta.
Não depois de tudo o que fez.
— Você amava Sofia, não é mesmo? — perguntou Cezar.
Dava para perceber só no seu olhar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:46 am

— Não posso mentir, embora sempre soubesse que era um amor impossível.
Sofia jamais teria olhado para mim, um simples segurança.
— Você não é um simples segurança — Sofia soprou ao ouvido dele, após aproximar-se para ouvir a conversa.
Era o meu melhor amigo.
Mesmo não sabendo definir, Fábio sentiu a presença dela, arrepiando-se até a raiz dos cabelos.
— Você devia estar feliz com o que fez — disse Jaqueline.
Não fosse o seu desenho, nada teria sido descoberto.
— É verdade — concordou Cezar.
Foi graças a Fábio que a polícia chegou até Tião, dele a Jonas e deste, finalmente, a Lafayete.
— Sem contar o que você ouviu.
O cara foi muito burro em falar o nome do deputado.
— Ele pensou que eu também estava morto — considerou Fábio.
— Azar o dele — acrescentou Cezar.
Teve o que mereceu.
— Não fale assim — protestou Jaqueline.
Ninguém merece morrer daquele jeito.
Ele devia era ter sido preso.
Silenciaram, voltando a atenção ao noticiário, que agora informava sobre a descoberta de corrupção numa prefeitura do interior.
— Isso não vai acabar nunca? — indignou-se Jaqueline.
— Um dia vai acabar — falou Sofia, mas ninguém a ouviu.
Graças a pessoas como vocês, tem que acabar.
— Será que Sofia está bem? — questionou Fábio, subitamente.
— Como assim? — tornou Cezar. — Ela morreu.
— Não acredita em vida após a morte?
— Eu acredito — respondeu Jaqueline, antes que Cezar pudesse responder.
— Ela tem razão — concordou Sofia.
Eu estou viva e sou muito grata a vocês três, principalmente a você, Fábio.
Novo silêncio, em que Fábio pensava em Sofia.
Parecia mesmo que ela andava por ali.
— Estou aqui, meu querido — informou ela, passando a mão sobre os cabelos dele.
Mas não posso ficar. Tenho que partir.
Não chore por mim.
Um dia, todos tornaremos a nos encontrar.
Só não tenham pressa.
Ela beijou um a um, e cada um percebeu sua proximidade à sua maneira.
A sensação mais intensa foi a de Fábio.
Subitamente, uma indescritível falta de Sofia levou lágrimas a seus olhos, que ele enxugou rapidamente.
Aproveitando-se do intervalo, Fábio resolveu sair.
Queria curtir sozinho a sua saudade.
— Não se esqueça de nós — pediu Cezar.
Vamos manter contacto.
— Com certeza.
Despediram-se, como novos amigos que se haviam tornado.
Depois que Cezar fechou a porta, Jaqueline comentou:
— Coitado do Fábio.
Era apaixonado por dona Sofia e ela nunca soube.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:46 am

— Ela sabia.
E acho que Lafayete também.
Só que ele nunca se importou.
— Lafayete é um canalha.
Parece até mentira que a justiça será feita.
— Não se precipite — aconselhou Cezar.
Ainda falta muito para o julgamento, e muita coisa pode acontecer.
— Será que ele ainda pode se safar?
— Nunca se sabe.
— Acho tudo isso muito interessante.
Quero dizer, essa coisa toda de justiça, de leis, de provas.
— Acha mesmo? Já pensou em estudar Direito?
— Eu? Imagine. Quem sou eu?
— Você é uma pessoa como todas as outras.
Não concluiu o ensino médio?
— Concluí.
— Pois então, que tal fazer uma faculdade?
Podemos abrir um escritório juntos.
— Está falando sério?
— Muito sério. Você é jovem, inteligente, íntegra.
Daria uma excelente advogada.
— Sabe que você tem razão?
Nunca havia pensado nisso, mas até que não é má ideia.
Vou trabalhar de dia e estudar à noite.
Só vou ter que esquecer o curso de inglês.
— Tenho uma ideia melhor.
Você se casa comigo, estuda de dia e dorme comigo à noite. O que acha?
Ela o encarou com mágoa e tornou sentida:
— Você não devia brincar com meus sentimentos.
— Não estou brincando.
— Que raio de proposta é essa? — explodiu.
Isso é caridade?
— Não. Eu a amo.
Quero me casar com você.
— Essa é boa. Quer dizer que agora você deixou de ser gay?
— Eu nunca disse que era gay.
Foi como um choque eléctrico percorrendo o corpo de Jaqueline.
Ela olhou para ele em dúvida, querendo, mas com medo de acreditar.
— Está brincando comigo?
— Já disse que não.
— Você não é gay?
— Não.
— Mas eu pensei...
Você disse que não gostava de mulher...
Cezar, como pode?
— Você pensou errado.
E eu nunca disse que não gostava de mulher.
Disse que não gostava de você como mulher.
E antes que você pergunte, eu menti.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:46 am

— Como assim, mentiu?
Quer me explicar isso direito?
Se for o que estou pensando, juro que lhe dou uma surra.
— Pois então, pode começar a me bater.
A verdade, Jaqueline, é que eu não podia me aproximar de você.
Lafayete proibiu.
Acho que percebeu alguma coisa entre nós.
— Alguma coisa entre nós? — repetiu, entre irritada e incrédula.
Você só fez me rejeitar!
O que poderia haver entre nós?
— Amor. Amo você desde a primeira vez que a vi.
— Está falando sério?
Em lugar de uma resposta, Cezar provou o que dizia com um longo beijo apaixonado.
Ela correspondeu, porque não podia evitar amá-lo tanto quanto o amava, mas não deixou escapar a promessa de lhe dar uma surra.
Quando ele afastou os lábios dos dela, Jaqueline iniciou uma sucessão de tapinhas em seu peito e seu ombro, batendo nele com a mão espalmada, mais se assemelhando a carícias do que a tapas irados.
Ele riu gostosamente, apanhou as mãos dela e as beijou.
— Seríssimo.
Ela não conseguiu evitar as gargalhadas.
Não achava nada engraçado.
Ria mesmo era de alegria.
Todos os seus sonhos se resumiam àquele momento único que vivia ao lado de Cezar.
Não queria morrer, mas, se fosse inevitável, morreria feliz só por poder estar ao lado dele, desfrutando daquele amor verdadeiro.
— Ah, Cezar, você não sabe o quanto sonhei com isso.
— Eu também sonhei, com a diferença de que você podia expressar seus sentimentos; eu, não.
Fui obrigado a guardar tudo para mim para protegê-la.
— Por que demorou tanto para se declarar?
Se você soubesse as noites que passei em claro, só imaginando você no quarto ao lado, sozinho naquela cama fria.
— Minha cama não é fria — gracejou.
Mas é claro que ficaria muito mais quente com você ao meu lado.
- Você não respondeu à minha pergunta.
Por que só agora me diz isso?
— Não sei. Acho que não me senti à vontade.
Depois de todas as vezes em que a rejeitei, quando minha vontade era abraçá-la, achei que não tinha mais esse direito.
— Você é mesmo um idiota.
Eu aqui, sofrendo por achar que estava apaixonada por um gay, e você me enrolando esse tempo todo.
— Eu não estava enrolando você.
Queria apenas tomar coragem e esperar o melhor momento.
— E o melhor momento é agora.
— Agora e sempre.
Beijou-a novamente, dessa vez com mais volúpia.
Deitou-a gentilmente no sofá, amando-a com uma delicadeza que ela nunca imaginou existir em um homem.
Só o que conhecera deles, até então, fora a brutalidade de suas exigências.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:46 am

Eles a usavam como se ela fosse uma coisa sem sentimentos nem vontade.
Pela primeira vez, sentiu prazer.
— Como eu amo você, Cezar! Sempre amei.
Sofri muito, achando que você não me queria.
— Perdoe-me, Jaqueline.
Foi difícil para mim também.
Mas entenda que eu só queria proteger você da violência de Lafayete.
Ele jamais permitiria que você o deixasse para ficar comigo.
— Não tenho do que perdoar você. Já passou.
Entendo o que você fez por mim e imagino o quanto deve ter sido difícil para você também.
— Eu a amo. Vamos nos casar o mais breve que pudermos.
Quero você sempre ao meu lado. Você e Maurício.
— Por falar em Maurício, é bom nos recompormos.
Ele já deve estar voltando da piscina.
Efectivamente, Maurício chegou pouco depois.
A primeira coisa que notou quando entrou foi o clima de romantismo que tornava o rosto de Jaqueline muito mais iluminado.
— Tudo bem com vocês? — perguntou ele.
— Tudo — responderam em uníssono.
— Vocês estão esquisitos — observou ele, tentando ler as feições dos dois.
Vão me contar o que é ou vou ter que adivinhar?
Mas vou logo avisando:
não sou bom em adivinhações.
— Venha cá, meu amor — chamou Jaqueline, abrindo os braços para recebê-lo.
Cezar tem uma novidade para você.
— Estou todo molhado.
— Não faz mal.
Ele olhou para Cezar, ansioso pela tal novidade.
— Espero que seja coisa boa — aventou.
— Acho que você vai gostar — afirmou Jaqueline.
— Anda logo, gente!
Estou morrendo de curiosidade.
— Sua irmã e eu vamos nos casar — anunciou Cezar, sem maiores rodeios.
— O quê? — duvidou.
Mas você não é gay?
Cezar fitou Jaqueline com ar divertido e ambos caíram na gargalhada.
Jaqueline pensou que nunca sentiria tanta felicidade na vida.
A vida simples, ao lado do homem que amava, cuidando de Maurício, era tudo com que sempre sonhara.
Ela sentou Maurício em seu colo, apanhou o controle remoto e mudou o canal da televisão.
— Ei! — Cezar reclamou.
O jornal ainda não acabou.
— Mas nós já acabamos — observou Jaqueline.
Não quero mais perder o meu tempo com Lafayete.
Vendo que ela accionava o controle repetidas vezes, mudando de canal seguidamente, Maurício perguntou:
— O que está procurando, mana?
Algum filme legal?
— Não é um filme, mas é muito legal — ela continuou trocando os canais, até que achou o que procurava.
Sabia que estava aqui.
— O que é isso? — Cezar questionou, sem entender.
— Um programa só de noivas.
Vou escolher o meu vestido.
Dessa vez, até Maurício riu.
Também ele começava a descobrir o que era felicidade.
Ao lado de Cezar e Maurício, Jaqueline pensou que nada mais poderia dar errado em sua vida.
Todos os seus desejos estavam reunidos ali: uma vida decente, digna, repleta de carinho e amor.
Essa era a única felicidade pela qual valia a pena lutar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:47 am

Capítulo 63

Ninguém queria saber dele.
Ao menos, era isso que Lafayete sentia com relação aos seus amigos.
Que amigos? Depois do inquérito, todos que o bajulavam pareciam querer evitá-lo.
Até sua secretária em Brasília pedira demissão.
Só podia contar com Jonas.
Conseguira libertá-lo pagando uma fiança astronómica, mas valera a pena.
Jonas era o único que se mantinha leal a ele e agora também o servia em casa, como um mordomo fiel.
Os pensamentos se embaralhavam sob o efeito do álcool.
Diante de Lafayete, uma garrafa de uísque lhe servia de consolo.
Na verdade, era a segunda.
Bebera a primeira quase sem sentir, assim como pretendia beber a segunda e a terceira se necessário fosse.
Todos os canais de TV noticiavam seu infortúnio.
Para onde quer que se voltasse, havia alguém apontando para ele.
Não podia nem ver televisão em paz.
A todo instante, vinha um telejornal tu-piniquim para denegrir sua imagem com sensacionalismo barato.
Mas ele ainda era um deputado, e as pessoas deviam tratá-lo com mais respeito.
Seu advogado lhe garantira que ele não seria condenado, porém, ele não já tinha tanta certeza.
Dissera também que o inquérito morreria ali e, agora, a polícia federal tinha autorização para investigar o caso.
Todas as provas, sobretudo as gravações e o depoimento de Fábio, pesavam muito contra ele.
Àquela hora, Jaqueline e Cezar deviam estar juntos, divertindo-se à custa de sua desgraça.
E se Sofia estivesse viva, estaria se divertindo também.
A lembrança de Sofia, subitamente, dominou seus pensamentos.
Com a mulher morta e ele preso, quem cuidaria de seus filhos?
Pela primeira vez, pensou nos filhos, morando em Londres, envenenados por notícias divulgadas por pessoas à toa, que adoram explorar escândalos.
Os dois haviam telefonado mais cedo, mas ele lhes dissera que não tinham com que se preocupar, pois tudo não passava de mentiras inventadas pela oposição.
Os filhos acreditavam nele.
Queriam voltar para casa, contudo, ainda não era o momento.
A fisionomia de Cezar atravessou seus olhos enevoados.
Ele deu um longo gole no uísque, para afastar a imagem do irmão.
Cezar seria a primeira pessoa em quem pensaria para cuidar de suas crianças.
Mas isso fora antes que ele o traísse.
Agora, só podia contar com os parentes de Sofia.
A mãe dela, talvez.
Seu único irmão tornara-se seu inimigo.
Se ele quisesse, podia acabar com a vida dele e do papaizinho dele, mas não valia a pena.
Na verdade, Lafayete tinha medo.
As provas que possuía contra o pai de Cezar haviam todas sido forjadas por ele.
Depois daquela acusação de homicídio, talvez a polícia não lhes desse crédito e acreditasse na palavra de Cezar.
Não podia se arriscar a ver seu nome envolvido em mais um escândalo.
Mais um pensamento tenebroso, mais um gole de uísque.
Bebera tanto que já não mais concatenava as ideias.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:47 am

Por que será que Sofia não saía de seus pensamentos?
Talvez ele estivesse experimentando o início do remorso.
Não podia se deixar levar pela tentação da culpa.
A única culpada pela morte da mulher era ela mesma.
Se não houvesse sido tão insistente, podia ser que ainda estivesse viva.
Com essa ideia, bebeu de novo.
— Quer dizer que você manda me matar e a culpa ainda é minha? — perguntou Sofia, que acompanhava todos os seus pensamentos.
Ele não ouviu a voz do espírito.
Apenas na lembrança é que a escutava, pensando que a imagem dela não era mais do que uma espécie de alucinação provocada pelo excesso de álcool.
— Vá embora, Sofia — gaguejou, a voz engrolada, balançando a cabeça para afastar seus fantasmas.
Você está morta.
— Não se arrepende do que fez? — ela perguntou dentro de sua cabeça.
— Não sei se me arrependo do que fiz — ele respondeu mentalmente, sem saber que respondia às indagações do espírito.
Queria me livrar de você e foi o que fiz.
— Você podia ter se divorciado.
— Divórcio estava fora de questão.
E minha reputação, onde ia ficar?
— Onde está sua reputação agora?
Um deputado assassino... e bêbado.
Não sei se isso é o que se pode chamar de reputação ilibada, que é o que todo político deveria ter.
— Saia da minha cabeça, Sofia! — exclamou ele, aturdido.
Não quero mais pensar em você.
— Sou eu que não quero mais pensar em você, Igor — rebateu ela.
Quero seguir o meu caminho, livre de você.
Vim aqui apenas para me despedir.
Ele não respondeu.
Pensava estar enlouquecendo.
Não acreditava em espíritos nem em Deus.
Só acreditava no poder.
— Vá embora de uma vez! — gritou, agitando os punhos para o ar.
Deixe-me em paz! Suma daqui! Desapareça!
Tomado pela fúria, atirou o copo de uísque na parede.
O som de vidro se quebrando chamou a atenção de Jonas.
O mais calmamente que pôde, ele bateu à porta do gabinete.
Como não ouviu resposta, entreabriu-a apenas o suficiente para espiar lá dentro.
Lafayete falava sozinho, tentando espantar seus demónios.
— Está tudo bem, doutor? — perguntou Jonas, preocupado.
Lafayete levou um susto.
Por alguns minutos, permaneceu encarando o motorista, como se tentasse se lembrar de onde é que o conhecia.
Quando o rosto dele se tornou familiar, o deputado se tranquilizou, respondendo com apatia:
— Está, Jonas, obrigado.
Deixe-me a sós e não me interrompa. Preciso pensar.
Era óbvio que não estava nada bem.
A sala cheirava a álcool, e as faces rubras do deputado revelavam o quanto ele havia bebido.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:47 am

Jonas teve vontade de ficar ao lado dele, mas Lafayete tratou de despachá-lo rapidamente.
Não queria sua ajuda nem precisava dela.
— Isso vai passar — Jonas tentou confortar.
O senhor vai ser inocentado, e o povo logo esquece.
Nas próximas eleições, o senhor vai se eleger senador.
Ante o silêncio de Lafayete, Jonas não insistiu.
Fechou a porta com cuidado, retomando seus afazeres.
— Viu só, Sofia? — ele continuou seu aparente monólogo.
Jonas acredita em mim.
Você também devia ter acreditado.
Perdeu a chance de se tornar mulher de um senador.
Não, na verdade, quem perdeu essa chance foi Jaqueline.
Eu a amava, sabia?
— Você não ama ninguém — rebateu Sofia.
Só o que ama é o poder.
— A cadela... — rugiu, entre os dentes, entornando a bebida na boca directamente da garrafa.
Aposto como agora está na cama de Cezar.
— Esqueça Jaqueline, Igor.
Ela é uma boa moça e merece um bom homem feito Cezar.
— Traidores...
As palavras de Lafayete reverberaram na inquietude de sua consciência.
Por mais que ele dissesse não ter arrependimentos, sua alma se ressentia da atitude insana.
Matar Sofia fora um acto de desespero que desencadeara sua loucura.
Precisava parar de pensar em Sofia.
Muitos outros o haviam prejudicado:
Cezar, Jaqueline, Fábio...
Maldito segurança!
Quem poderia imaginar que o tiro de Tião falharia em matá-lo e que ele o reconheceria a ponto de fazer um desenho de próprio punho?
Tião fora de uma estupidez inigualável.
Falar seu nome sobre o cadáver de Sofia fora a maior burrice que ele poderia cometer.
Lafayete tinha certeza de que fora o depoimento de Fábio que lançara suspeitas sobre ele.
E o delegado, muito esperto, fingiu que ele nada dissera até conseguir pôr as mãos em Tião e Jonas.
Não fosse isso, ele sairia impune e todos estariam vivos e bem.
— Eles devem estar se regozijando com a minha desgraça — falou em voz alta.
Mas não vou dar a ninguém o gostinho de me ver cair.
Pretendo sair dessa com dignidade.
Lentamente, abriu a gaveta da mesa, dela retirando um revólver calibre 38.
Mesmo zonzo, conseguiu alisar seu cano longo e prateado, experimentou o gatilho, fez pontaria no busto de Getúlio Vargas que repousava sobre o aparador.
E deitou o revólver sobre um livro aberto na mesa, que contava a história do presidente que se matara em agosto de 1954.
— Não faça nenhuma besteira — aconselhou Sofia.
Aceite a responsabilidade pelo que você fez e enfrente as consequências.
Matar-se não vai aliviar o peso da sua consciência.
Lafayete não a escutou.
Fitando o busto do presidente, chorou.
Não era esse o final que queria para sua vida.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:47 am

Queria ser poderoso, influente, destemido.
Um homem que todos temessem e respeitassem.
Tudo o que fizera fora em nome da política.
E agora, seus inimigos triunfavam.
O escândalo maculava sua reputação; a vergonha era um mancha em seu nome que talvez nunca mais se apagasse.
Os demais parlamentares deviam estar realizados com a sua derrota.
Poucos o apoiariam naquele momento.
Achava mesmo que ninguém o faria.
Não. Igor Lafayete, deputado federal eleito pelo povo do estado do Rio de Janeiro não podia se deixar vencer.
Deixaria a política sim, mas o faria com honra.
A honra dos que não têm mais nada a perder.
Com mãos trémulas, apanhou o revólver.
Durante muitos minutos, permaneceu a olhá-lo, como se ele pudesse convencê-lo a não fazer aquilo.
Não podia.
A arma se grudava em sua mão como se fosse um prolongamento de seu braço.
Não podia lutar contra uma parte de seu corpo.
Se o cérebro dava uma ordem, todo o resto tinha que obedecer.
Estava decidido.
— Não faça isso, Igor! — Sofia gritou a seu lado.
Ele não a ouviu.
Tentou conter a hesitação pensando em Getúlio Vargas.
Avidamente, esvaziou o conteúdo da garrafa, para dar coragem e sorte.
Com a imagem do ex-presidente viva em sua memória, ergueu o cano do revólver, encostando-o em sua têmpora.
Permaneceu assim por mais alguns segundos, sentindo as lágrimas limparem seu rosto.
Quando, enfim, achou que já havia esperado o bastante, ergueu a cabeça e estufou o peito.
A exemplo de um general que encara com altivez o pelotão de fuzilamento, Lafayete abriu a boca e repetiu, com orgulho, as palavras de Getúlio Vargas:
— Saio da vida para entrar na História.
E atirou.
Sofia deu um pulo e viu, horrorizada, o sangue escapar da testa do marido.
Sombras desfiguradas se acercaram de seu corpo, esticando os dedos descarnados para tocar a energia vital que, num jorro incontrolável, se esvaía.
Ela quis ajudá-lo, mas não viu como.
Os vultos malignos a encararam com ar ameaçador, fazendo-a recuar.
Paralisada, ela viu o corpo fluídico de Lafayete ser expulso do físico, acompanhando, com horror, os seres que se atiravam sobre ele.
Ao longe, uma luzinha ínfima reluzia, mas Lafayete não a viu.
Apenas Sofia foi capaz de discerni-la.
Assustada, caminhou em direcção a ela.
Quis chamar o marido, mas ele não podia vê-la nem ouvi-la.
Ligara-se aos espíritos das sombras e foi com eles que partiu.
Lafayete saía da vida para entrar num mundo de trevas, que nunca pensou fazer parte da sua história.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 23, 2016 11:47 am

Capítulo 64

Toda a família de Celso estava presente no jantar marcado por ele.
Um clima hostil percorria o ambiente, conduzido pelos olhares de acusação que uns lançavam aos outros.
Eva, principalmente, deixava entornar do peito ondas e mais ondas de raiva e indignação.
Desde que Celso lhe dissera aquelas barbaridades, não falava com ele, limitando seus diálogos a sim e não diante das perguntas inevitáveis que envolviam a rotina diária.
Tobias também compareceu, apesar de se sentir um estranho.
Durante muito tempo, pensou se deveria ou não aceitar o convite do amigo.
Mas ele dissera que era importante, que a conversa serviria para pôr um ponto final naquela sucessão de mal-entendidos e segredos do passado.
Tobias não falava com Denise havia muito tempo.
Mandara-lhe flores, implorando perdão, e só o que recebera em troca fora um telefonema de agradecimento.
Denise o perdoara, mas havia ainda algumas questões a resolver até que tomasse uma decisão sobre o futuro de ambos.
Tobias sabia que a decisão só podia estar relacionada à paixão de Eva por ele.
Foi a própria Denise quem atendeu a porta quando a campainha tocou pela última vez.
Tobias mal conseguiu conter a emoção ao vê-la, mais linda do que se lembrava.
— Você está muito bem — elogiou ele.
Está totalmente recuperada?
— Estou. E você, como está?
— Podia estar melhor, se você tivesse aceitado me ver.
— Eu não podia — ela confidenciou.
E você sabe por quê.
— Sei que a magoei, mas você não pode duvidar de que a amo.
— Eu não duvido.
Mas existe outra pessoa que o ama.
— Está falando de sua mãe?
— Tem mais alguém?
— Isso foi coisa do passado, uma inconsequência da juventude.
Eva não gosta mais de mim.
— Será?
— Já experimentou perguntar a ela?
— Não tenho coragem.
Acho que tenho mais medo da resposta do que de constrangê-la.
— Pois devia perguntar.
E mesmo que ela diga que sim, ela não tem o direito de estragar a sua felicidade.
É a você que eu amo, não a ela.
— Ela é minha mãe — finalizou, um tanto ou quanto irritada.
Tobias seguiu-a até a outra sala, onde o resto da família se encontrava reunida.
Cumprimentou a todos, evitando o olhar acusador de Eva.
— Tobias, meu amigo — Celso apertou-lhe a mão.
Que bom que aceitou meu convite.
— Espero que eu não me arrependa.
— Você não vai se arrepender. Prometo.
Todos mantinham os olhos grudados em Celso.
O último a se acomodar foi Tobias, que se sentou ao lado de Juliano, que, além de Celso, parecia o único com olhar amistoso.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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