A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:57 am

— Como vai, Tobias? — cumprimentou ele, tentando ser gentil.
— Vou bem.
— Podemos começar? — pediu Celso, acomodando-se em uma poltrona de onde podia ver o rosto de todos.
— É com você, pai — falou Denise.
A festa é sua.
— Muito bem — ele pigarreou, inspirou fundo e prosseguiu:
— O que vou dizer não é fácil para mim, mas se tornou impossível guardar mais segredos.
São revelações que atingem a todos nós e a Tobias também...
— É claro.
Afinal, ele também é parte da família — ironizou Eva, sem conseguir se conter.
É pai de uma das minhas filhas.
— O pai das suas filhas sou eu — rebateu Celso, com calma.
De todas as três.
— Por favor, mamãe, sem provocação — suplicou Denise.
— Como eu ia dizendo, muitas revelações foram sendo feitas aos poucos, desvendando um passado obscuro que eu fiz de tudo para esconder.
Mas a vida não compactua com a mentira nem permite que as coisas permaneçam ocultas para sempre.
Como tinha que acontecer um dia, a verdade veio à tona, trazendo choque, decepção e arrependimento — fez uma pausa, tomando coragem, e continuou:
— Acho que todo mundo já conhece as circunstâncias do nascimento de Alicia e de sua irmã gémea, Bruna, que morreu numa cirurgia de separação de xifópagos.
— Podemos pular essa parte — sugeriu Alicia.
Não é preciso relembrar momentos tristes que já são do conhecimento de todos.
— Mais ou menos — acrescentou Celso.
Não pretendo contar a história toda novamente.
Atribuo somente a mim a responsabilidade por tudo o que aconteceu.
Quando descobri que Eva era apaixonada por Tobias, resolvi pedir a ele que me cedesse o seu sémen, pois só assim conseguiria esconder do mundo que o maior geneticista da actualidade era infértil.
Tobias relutou em aceitar, mas eu insisti — nova pausa para inspirar profundamente, como se, junto com o ar, entrasse também a coragem.
Essa é apenas mais uma das minhas culpas, Tobias.
Eu sempre soube que você e Eva não haviam dormido juntos.
Fingi que não acreditei em você para forçá-lo a aceitar minha proposta.
Sabia que, por medo de que eu me afastasse, você acabaria cedendo, como cedeu.
— Você sabia? — indignou-se Tobias.
— Sabia. Eu menti para você.
Os olhares, dessa vez, se voltaram para Tobias.
Ele permanecia sereno, indecifrável.
Por dentro, as emoções se atropelavam, mas havia uma, em especial, que não conseguia dominá-lo.
Tobias não sentia raiva.
— Continue, Celso, por favor — pediu ele.
Celso respirou fundo novamente, tossiu algumas vezes e prosseguiu:
— Como todos sabem, a fertilização in vitro consiste na retirada dos óvulos do corpo da mulher para fertilizá-los, em laboratório, com o sémen do homem e transferir os embriões daí resultantes para o útero.
A ovulação é induzida, e os óvulos são colectados no dia programado.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:57 am

Para que isso ocorra, alguns medicamentos são utilizados, a maioria deles, de origem natural.
Talvez essa medicação tenha provocado a gravidez de gémeas e facilitado a formação de xifópagas.
Normalmente, o embrião se divide entre o nono e o décimo segundo dia de gestação, sendo que, no caso dos gémeos siameses, isso só acontece após o décimo terceiro dia.
Nessa hipótese, a divisão tardia leva à formação conjunta de algumas partes do corpo, que passam a ser divididas por duas pessoas — ele parecia perturbado, mas conseguiu continuar:
— Essa é uma condição particular extremamente rara.
Até o século 21, estimava-se que um em cada cem mil nascimentos seriam de xifópagos.
Hoje, essa percentagem caiu para um caso em quinhentos milhões.
Mais do que raras, são anomalias praticamente erradicadas da condição humana.
— Eu devo me sentir privilegiada por ter sido um caso raro na natureza e na medicina actual? — desdenhou Alicia.
— Não faça isso, meu amor — censurou Juliano, baixinho ao ouvido da mulher.
Não vê que seu pai está arrasado?
Por favor, Celso, não pare.
— Obrigado, Juliano.
Espiritualmente falando, sabemos que gémeos são pessoas ligadas por extremo amor ou extremo ódio.
Xifópagos, é claro, não se ligam por amor, já que o amor não causa sofrimento.
Trata-se de uma forma de reconciliação de duas pessoas unidas pelo ódio há muitas encarnações.
Se essa união atravessa os séculos unindo duas criaturas por um ódio descomunal, como pode a sabedoria divina estimulá-las a converter toda essa energia em amor?
O ódio é uma energia poderosa, assim como a do amor também o é.
O que fazer para ir de um extremo a outro quando todas as oportunidades de reconciliação voluntária falharam?
— Nascendo xifópagos — respondeu Denise.
Essa é uma forma cruel de reconciliação.
— Não deixa de ser.
Mas lembre-se de que tanto a crueldade quanto a generosidade encontram-se dentro do coração humano.
É a própria consciência do homem que o leva a optar por caminhos tão dolorosos de crescimento.
Se Deus pudesse falar, nos diria que todos os nossos erros estariam superados se passássemos a nos conduzir pelo amor.
Mesmo assim, Ele nos fala, na medida em que coloca bons espíritos para nos ajudar e nos fez dotados de inteligência, bom senso e mediunidade, condição que nos torna capazes de perceber o mundo invisível, sobretudo, pela intuição.
O ser humano só falha porque quer e só sofre porque acha que não merece não sofrer.
— Quem o ouve falar desse jeito não imagina que você foi capaz de tantas atrocidades — rebateu Eva, não sem uma certa raiva.
Nem sei como você conquistou o direito de reencarnar na Terra.
Devia ter seguido com a horda de criminosos para o novo planeta de expiação.
— Não devemos julgar, mamãe — censurou Denise.
Se papai permaneceu aqui, é porque as coisas boas que possui superam suas falhas.
O mundo se modificou, mas ainda não existe quem seja perfeito.
— Compreendo sua reacção, Eva, e não a culpo — considerou Celso.
Sei que errei muito, mas estou tentando fazer o que é certo agora.
Será que você pode me dar essa oportunidade?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:58 am

— Antes tarde do que nunca, não é?
— Antes a tempo de obter o perdão de todos vocês hoje, do que esperar por uma outra vida.
— Papai está certo — concordou Alicia.
Viemos aqui para ouvir tudo o que ele tem a dizer.
Vamos ouvir.
Celso agradeceu com o olhar.
— Agora vem a pior parte, a mais difícil para mim.
Ele engoliu em seco.
Tentou falar, mas a voz não saiu.
Juliano ofereceu-lhe um copo de água, consciente da dificuldade que ele deveria estar atravessando para se expor daquela maneira.
— Força, Celso — sussurrou ao ouvido do sogro.
Você é um homem de muita coragem.
As palavras do genro o acalmaram.
Ele sorveu a água aos pouquinhos, tentando ganhar tempo para sua coragem.
Em seguida, estalou a língua, encarou um a um e prosseguiu:
— Mesmo contra a vontade de Eva, fiz com que Tobias acompanhasse toda sua gestação.
Eu não podia confiar em mais ninguém.
Quando as meninas nasceram, e vimos que a cirurgia era necessária... — calou-se, o pranto consumindo-o de emoção.
— Papai, você está bem? — indagou Alicia, preocupada.
— Eu estou bem.
Vocês não imaginam como é difícil confessar o que fiz.
— Você não fez nada — Tobias saiu de seu mutismo.
Fui eu...
— Não adianta, Tobias, não posso mais carregar essa culpa.
Deixe-me contar como tudo, realmente, aconteceu.
— Mais surpresas? — tornou Eva.
— Sim — concordou Celso.
Surpresas tenebrosas, das quais me arrependo amargamente.
— Muito bem. Estamos esperando.
— Foi uma decisão terrível.
Primeiro, Tobias e eu divergimos quanto ao momento da cirurgia.
Ele queria esperar, eu optei por operarmos logo.
Bruna estava fraquinha, não resistiria muito tempo.
— Você quis operar logo? — Alicia se surpreendeu.
Essa não foi a decisão de Tobias?
— Não. Foi minha.
Tobias disse que havia sido dele porque continuava querendo me proteger.
O ar de assombro de todos foi interrompido pela voz de Juliano:
— Não vejo nada de terrível nisso.
Você fez uma opção médica.
Foi uma escolha sensata.
— Isso não foi o pior — prosseguiu Celso.
O pior veio depois.
— Celso, não... — Tobias quase implorou.
— Deixe-me terminar, Tobias.
Preciso libertar-me desse peso — respirou fundo outra vez, bebeu água e foi adiante:
— Ao separarmos as duas, Bruna teve uma parada cardiorrespiratória.
Na mesma hora, Tobias iniciou o procedimento de reanimação.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:58 am

Ele fez tudo correctamente, mas Bruna não respondia, e o tempo foi passando.
Quando, finalmente, ela voltou a respirar, haviam-se passado mais de quinze minutos, tempo mais do que suficiente para causar uma lesão grave no cérebro.
Mesmo assim, prosseguimos com a cirurgia.
Estávamos fechando o peito dela quando nova parada sobreveio.
Tobias preparou-se para executar a reanimação, mas eu...
— Pelo amor de Deus, Celso, não faça isso! — Tobias gritou de repente.
— Eu preciso, Tobias, você não entende?
Só assim ficarei em paz com a minha consciência.
— O que foi que houve, Celso? — Eva ansiava por saber.
O que você fez?
— Eu simplesmente segurei as mãos de Tobias, impedindo que ele realizasse a reanimação.
Bruna já havia ficado muito tempo sem oxigenação no cérebro.
Podiam ter ocorrido lesões irreversíveis.
Eu não queria que Bruna sofresse ainda mais, que crescesse vegetando em alguma cama de hospital.
Foi por isso que não permiti que Tobias a reanimasse e declarei o óbito.
O mutismo foi geral.
Ninguém ousava falar, apenas olhar para Celso com ar de assombro.
Percebendo o sofrimento dele, Denise ameaçou se levantar, mas Eva a segurou pelo punho e esbracejou, rubra de fúria:
— Como é que você podia saber que os danos eram irreversíveis?
Com tantos avanços na medicina, como você pôde ter certeza de que ela viveria para sempre em estado vegetativo?
Quantas pessoas você conhece que vivem assim hoje em dia?
E mesmo que isso acontecesse, Bruna era nossa filha.
Não deveríamos cuidar dela em qualquer circunstância?
— Você foi covarde, pai — lamentou Alicia.
Teve medo de ter que ficar preso para sempre a uma filha entrevada.
— Não foi isso — choramingou ele.
Eu não pensei em mim.
Só pensava no sofrimento de Bruna.
Não queria que ela sofresse ainda mais do que já havia sofrido.
— Você nos deixou acreditar que Tobias foi o responsável pela morte de Bruna — lembrou Denise.
Por quê?
— Eu não queria, mas Tobias insistiu...
— Por que, Tobias?
Por que fez isso?
— É difícil explicar — disse ele, inseguro.
Eu podia simplesmente dizer que foi por amizade, para que minha filha não crescesse sem o pai.
Mas a verdade pura e simples é que eu faria qualquer coisa para continuar trabalhando com Celso.
Isso também pesou na hora de ceder o meu sémen.
— Você fez tudo por egoísmo? — acusou Eva.
Para defender seus próprios interesses?
Não foi porque Celso o chantageou?
— Foi um somatório de causas — confessou, envergonhado.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:58 am

— Não importa — constatou Alicia.
Foi papai quem deixou Bruna morrer.
Se ele ativesse ressuscitado, talvez minha irmã estivesse hoje entre nós.
— É isso mesmo, Celso! — bradou Eva.
Você não tinha como saber.
Bruna podia estar viva! Assassino!
— Vamos com calma — aconselhou Tobias.
Celso não a matou.
Apenas não permitiu que ela fosse reanimada. É diferente.
— Bruna já estava morta — tornou Celso.
Eu jamais mataria minha própria filha.
— Ela não era sua filha — objectou Eva.
Não teria sido por isso que a deixou morrer?
— Se fosse para deixá-la morrer, eu não teria sequer tido a ideia de permitir que nascesse.
— Isso não faz sentido, mãe — contornou Denise.
Papai não ia pedir a Tobias que cedesse seu sémen se fosse para depois matar a criança.
— Não sei mais o que pensar — admitiu ela, transtornada.
Só o que sei é que podia ter criado Bruna como criei você e Alicia.
Os olhos de Alicia pareciam girar nas órbitas.
Era como se ela observasse alguma coisa que passava muito rápido à sua frente.
Juliano acercou-se dela, pensando que ela havia entrado em um de seus costumeiros transes.
— Alicia! — chamou ele, esfregando as mãos dela.
Está me ouvindo? Alicia!
— Eu a vi em meus sonhos — falou mecanicamente.
Sonhei com Bruna.
Era igualzinha a mim.
— Foi apenas um sonho — ponderou Juliano.
Provocado por tudo o que você tem vivido.
— Não foi só um sonho, Juliano, e você sabe disso.
Foi real. Fui ao seu encontro.
Era tudo tão lindo!
— O que ela lhe disse? — interessou-se Eva, ansiosa.
— Muitas coisas. Estava feliz.
Falou-me do passado, das nossas desavenças que duravam séculos, da escolha que ela fez de renunciar à vida para que eu pudesse viver.
Doou sangue directamente de seu coração para mim, como se me doasse amor.
Disse que estava tudo certo e que agora aprendera a me amar.
Estavam todos atónitos.
Eva e Denise choravam, enquanto Celso permanecia quieto, a dor em seu coração parecendo, aos poucos, diminuir.
— Minha querida, você tem certeza? — indagou Celso.
Tem certeza de que era ela?
— Absoluta. Foi o espírito dela, não tenho dúvidas.
— E daí? — objectou Eva.
Isso não muda nada.
Bruna pode ser um espírito iluminado, mas isso não apaga o que seu pai fez.
— Não acha que já é hora de vocês pararem de se culpar? — interveio Denise.
De que adianta isso?
O tempo levou tudo.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:58 am

Agora, só temos uns aos outros.
Por que perder tempo com acusações que só farão nos afastar e nos tornar infelizes?
— Você está insinuando que seu pai merece perdão? — rebateu Eva, quase em fúria.
— Quem não merece perdão?
Deus nunca nos acusa de nada.
Por que temos que nos acusar mutuamente?
Silêncio.
Todos evitavam olhar uns para os outros, preferindo manter as cabeças baixas e os olhos pregados no chão.
— Denise está certa — Juliano se adiantou.
Acusações não resolvem nada.
Tenho certeza de que todos aprenderam com tudo isso.
Ninguém sai ileso de uma história como essa.
— Acho muito bonito você defender seu sogro, Juliano, mas esse não é o nosso sentimento — contrapôs Eva.
Você não foi directamente afectado pelo que ele fez.
Nós fomos. É difícil perdoar...
— Fale por si mesma, mamãe — ponderou Denise.
Eu já o perdoei.
— Eu também — acrescentou Tobias.
— Para vocês é fácil perdoar, visto que não foi a sua gémea que morreu, Denise. — prosseguiu a mãe.
E você, Tobias, é tão culpado quanto ele.
O que quero saber é se Alicia consegue perdoar.
Todos os olhares se voltaram para Alicia ao mesmo tempo.
Desde que narrara o sonho com Bruna que se mantinha em silêncio.
— Minha dificuldade em aceitar Tobias nunca foi segredo para ninguém.
Desde que o conheci, não consegui simpatizar com ele.
Mais tarde, descobri que ele estava ligado ao meu passado, tanto recente quanto remoto, de uma forma bastante complicada.
Depois, entendi porquê.
Por tudo o que aconteceu com Bruna e por ter me matado em outra vida.
— O quê? — espantou-se Eva.
Que história é essa?
— Por favor, mamãe, outra hora lhe conto tudo.
O facto é que, finalmente, entendi o porquê de tanta aversão.
Isso me fez reflectir.
Juliano me ajudou muito nesse processo, até que, finalmente, consegui entender que a dificuldade estava comigo, não com Tobias.
O passado passou, não importa mais.
Importante mesmo é como vamos proceder daqui para a frente.
Quando consegui compreender isso, o perdão ficou mais fácil.
Sei que nada acontece por acaso e que a reencarnação é a melhor oportunidade que temos de nos reconciliarmos uns com os outros.
Quero aproveitar essa oportunidade, e é por isso que hoje posso dizer, com toda tranquilidade, que não tenho mais nenhuma antipatia por Tobias.
Não sei exactamente se devo perdoá-lo; acho que ele não fez nada que desafiasse o meu perdão.
De qualquer forma, seja no que se refere a Jaqueline, seja no que se refere a Bruna, sinto-me em paz comigo mesma e com ele.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:58 am

Não guardo mais nenhum rancor nem mágoa contra Tobias. Acabou.
Eva quis perguntar quem era Jaqueline, mas o olhar recriminador de Denise a fez desistir.
De qualquer forma, não fora isso que perguntara.
— Muito bonito, minha filha, mas não foi o que perguntei.
Quero saber se você perdoa seu pai.
— Calma, mãe, vou chegar lá.
Assim como Tobias serviu de instrumento à vontade divina, acredito que meu pai fez a mesma coisa.
Serviu à vontade de Bruna, que não programou viver além das poucas semanas em que permaneceu ligada a mim, transfundindo sangue do seu coração para o meu.
Porque ele aceitou essa incumbência, não saberia dizer, assim como não me arrisco a falar porque Tobias tomou as atitudes que tomou.
A cada um pertencem seus motivos, e somente às próprias consciências é que eles interessam.
— Você não pode saber isso — protestou Eva, com raiva.
Você não sabe se a intervenção dele foi o que causou a morte de Bruna.
— Aí é que está.
Com intervenção ou sem intervenção, Bruna não ia sobreviver.
— Como é que você sabe?
— Sei porque ela me disse.
— Como ela pode ter lhe dito? — duvidou Eva.
No sonho?
— Exactamente. Tudo agora faz sentido.
Antes de Bruna desaparecer, ela se paralisou num halo de luz; voltou apenas para me dizer uma única coisa.
— O quê? — Denise estava curiosa.
— Ela disse:
“Diga a papai que não teria adiantado nada”.
O pranto de Celso transbordou de seu peito na forma de soluços sentidos e repletos de gratidão.
Pela primeira vez em quase trinta anos, sentia uma leveza em seu coração.
Durante todo aquele tempo, acusara-se de ter matado Bruna, mas agora ela aparecia para lhe dizer que nada do que ele fizesse teria evitado sua morte.
Com a vista nebulosa por causa das lágrimas, acercou-se das filhas, que o abraçaram com carinho, mais uma vez superando suas falhas em nome do amor.
Tobias também o abraçou, reafirmando uma amizade que sobrevivera aos distúrbios da vida.
Apenas Eva se manteve distante.
Nenhum deles podia ver a luz envolvendo Celso.
Bruna estava presente, tão igual à irmã que pareciam o espelho uma da outra.
Ela sorria. Estava feliz.
Finalmente, chegara o momento com o qual tanto sonhara, desde quando deixara o corpo de Rosemary.
Sentia que havia se reconciliado consigo mesma, com seu passado, com sua filha e sua irmã.
Não queria que Celso guardasse aquele remorso destrutivo em sua alma.
Ele combinara tudo com ela, aceitara conduzi-la pela estrada da vida durante aqueles poucos meses na Terra.
Não era justo que se culpasse apenas por ter feito a vontade dela.
Para completar sua felicidade, gostaria que Eva também compreendesse e o perdoasse.
Bruna acercou-se de todos, espargindo pequenas partículas de luz branca ao redor de cada um deles.
Fez isso em Celso, Alicia, Bruna, Juliano e Tobias, detendo-se por uns instantes a mais diante de Eva.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:59 am

A mãe pareceu sentir sua presença, pois uma forte emoção tomou o seu peito.
Eva chorou de mansinho, sem saber que Bruna recolhia suas lágrimas, transformava-as em pétalas de luz e soprava-as de volta em seu coração.
Quando o pranto de Eva silenciou, acalmado pela energia de tranquilidade da filha, Bruna aproximou-se ainda mais e tomou-a nos braços.
Para Eva foi como se, de repente, um peso enorme escapulisse de seu peito, arrancado por uma força superior e irresistível.
Ela não chorou mais.
Sentiu saudade de Bruna, mas não uma saudade desesperada, senão aquela que é fruto do mais puro amor.
— Não fique triste, mamãe — sussurrou Bruna ao ouvido de Eva.
A reanimação não teria surtido efeito.
Foi o que eu escolhi.
Teria partido de qualquer maneira, porque foi ali, na mesa de cirurgia, para dar vida a Alicia, que escolhi morrer.
Papai segurou a mão de Tobias por amor a mim, porque era essa a minha vontade.
Eva arregalou os olhos, como se, de alguma maneira, houvesse entendido as palavras da filha, embora soubesse que não as ouvira.
Viu a família toda reunida num abraço e permitiu que a emoção a invadisse.
Ao se deparar com o semblante sofrido de Celso, não duvidou mais.
Como poderia ter duvidado? Ela o amava.
Amara-o por toda a vida, embora acreditasse que não.
Em seu íntimo, o perdão já havia se estabelecido.
O que faltava agora era superar o orgulho e dar vazão ao amor.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:59 am

Capítulo 65

Era um lindo entardecer de outono.
Um friozinho gostoso fazia arrepiar a pele, insinuando-se cada vez mais, à medida que o sol descia no horizonte.
De braços dados para se aquecer, mãe e filha caminhavam na praia, aproveitando os últimos momentos de calor que ainda persistia na Terra.
— Você não imagina como fico feliz por você ter perdoado papai — comentou Denise.
Depois de tudo por que passaram, ambos merecem ser felizes, sem culpas nem ressentimentos.
— Vou lhe confessar uma coisa — disse Eva.
Naquela hora, quando vocês estavam todos abraçados, senti a presença de Bruna.
— Sério?
— Foi o que me fez reavaliar meus sentimentos e compreender que todo mundo é humano.
Ninguém erra, mas faz o que pensa ser o melhor.
— Exactamente.
— E foi pensando no melhor que convidei você para esse passeio.
— Como assim?
— Estou preocupada com a sua felicidade.
Já tivemos desgostos demais nessa família.
— Eu estou bem.
— Não está.
Você e Tobias estão separados.
— Somos amigos.
Acho que, no fundo, você tem razão.
Ele é velho demais para mim.
— Não precisa fingir para mim.
Sei que vocês se amam.
— Não é verdade...
— É verdade, sim.
E sei também que você não fica com ele por minha causa.
— Não é nada disso, mãe.
Você é casada com papai, não é?
— Mas você sabe que fui apaixonada por Tobias — Denise silenciou.
Tenho certeza de que é esse o motivo que a levou a afastar-se dele.
Pois você não devia.
Eu não amo Tobias. Acho que nunca o amei.
O que alimentei esses anos todos foi o orgulho, ferido por ter sido rejeitada.
— Mamãe, você não precisa fazer isso...
— Fazer o quê? Dizer a verdade?
A verdade é essa mesma.
Não amo Tobias e, se um dia o amei, isso ficou para trás.
Você não precisa evitá-lo por minha causa.
— Não mesmo?
— Não mesmo. Pode acreditar em mim.
O que mais quero agora é que você seja feliz ao lado dele.
— Isso não vai fazê-la infeliz?
— Juro que não.
Denise aproximou-se da beira da praia, sentindo o contacto gelado da água em seus pés.
— Posso perguntar uma coisa, mãe?
— É claro que pode.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:59 am

— Você ama papai?
— Amo. Hoje, posso dizer, com segurança, que sempre o amei.
Camuflei esse amor sob a névoa de orgulho, mas o amor estava lá.
Denise a abraçou comovida.
Queria muito que os pais se acertassem.
— Agora que já estamos entendidas, o que está esperando, Denise?
— Esperando...
— Esperando para ir ao encontro de Tobias e dizer que o ama?
— Não sei, mãe, não quero magoá-la.
— Você é teimosa mesmo, hein!
Não disse que não amo Tobias?
Ele está livre para você. Vá.
Corra antes que uma outra o fisgue antes de você.
— Tem certeza?
— Absoluta. Vá, ande.
Não perca mais tempo.
— E você?
— Vou pegar o meu carro e voltar para casa calmamente.
— Mamãe, eu a amo.
Denise beijou-a várias vezes nas faces.
Mal via a hora de encontrar-se com Tobias e dizer-lhe que poderiam ficar juntos sem culpa nem medo.
Vendo a filha se afastar, Eva teve a certeza de que fizera a coisa certa.
Entrou no carro com alegria, certa de seu destino.
Ao sair do laboratório, Celso se surpreendeu ao ver Eva encostada em seu carro, parado na porta do prédio.
— Eva! — exclamou, mal contendo a alegria.
— Como vai, querido? — foi a recepção calorosa.
— O que está fazendo aqui?
— Vim buscar meu marido à saída do trabalho. Não posso?
— É claro que pode.
Algum motivo especial?
— Sim. O amor.
Beijou-o suavemente, como há muito não o beijava, permitindo que a emoção fluísse de seu corpo para o dele.
Pela primeira vez, Eva dizia aquilo sem medo de o estar enganando.
Nunca antes percebera que realmente o amava.
Podia não ser uma paixão avassaladora como a que sentira por Tobias, mas o amor verdadeiro dispensa o fogo do desejo.
É um sentimento para ser vivido, acima de tudo, no coração.
Como Denise queria encontrar Tobias sozinho, foi esperá-lo na portaria do prédio onde ele morava.
Não foi preciso aguardar muito.
Tobias chegou do trabalho cansado, olhos fitando o nada, e passou pelo saguão quase sem a notar.
Denise saiu das sombras e se postou diante dele.
Um sorriso foi a única reacção que ele teve.
— Não está feliz em me ver? — perguntou ela.
— Tenho medo de sentir felicidade.
Sempre que penso que a tenho, ela escapole de mim.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:59 am

— Você foi incrível nessa história toda.
Um homem de valor.
— Isso quer dizer alguma coisa?
— Quer dizer muitas coisas.
Principalmente, quer dizer que amo você.
Sem saber bem o que aquelas palavras significavam, ele não esboçou nenhuma reacção.
Apenas chamou o elevador, convidando-a para subir com ele.
— Você não vai dizer nada? — indagou ela, enquanto o elevador avançava pelos andares.
— Não sei o que quer ouvir.
— Quero ouvir a verdade.
— Já disse toda a verdade.
Não há mais nada.
— Não é isso.
Quero saber o que você sente por mim.
— Você sabe.
Nunca escondi que a amo.
— Ainda?
— Por acaso haveria algum motivo para eu deixar de amá-la?
Havia tanta emoção circulando ao redor dos dois, que o espaço minúsculo do elevador não foi suficiente para conter a fúria de seus corações.
Tobias a puxou para si, beijando-a com ardor.
Quando a porta se abriu, ele a ergueu no colo, conduzindo-a pelo corredor como se fossem recém-casados.
Beijava-a tanto que quase caiu com ela.
Denise riu da atitude dele e o abraçou bem apertado, como se nunca mais quisesse soltá-lo.
— Não acredito que isso está acontecendo — segredou ela.
É um sonho.
— Você é o meu sonho — tornou ele, embevecido.
O sonho mais bonito que um homem pode ter.
— Deixe de ser meloso, Tobias — protestou ela, rindo.
Está parecendo um açucareiro.
— É você que é muito doce.
Ele abriu a porta de seu apartamento sem colocá-la no chão, seguindo com ela na direcção do quarto.
Amaram-se como nunca, o coração de ambos transbordando uma luminosidade rósea que inundou todo o ambiente.
Depois de saciados, Denise contou a ele a conversa que tivera com a mãe.
— É só por isso que você está aqui?
Porque sua mãe consentiu?
— Pelo amor de Deus, Tobias, não vá estragar tudo agora!
Você sabe que eu não conseguiria passar por cima dos sentimentos da minha mãe em nome da minha felicidade.
— Nunca concordei com isso, mas, como você disse, não pretendo estragar tudo agora.
Na verdade, acho que só tenho que ser grato a Eva.
Se essa foi a única maneira que a vida encontrou de mandar você de volta para mim, quem sou eu para questionar?
Eu a amo, você me ama, e isso é o que importa.
— Ainda bem que você conseguiu entender.
Me deu um arrepio, só de pensar que você ia criar um caso comigo por causa da minha mãe.
— Vou criar um caso com você, sim, mas por outro motivo.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:59 am

— Que motivo?
— Quero me casar com você e não aceito um não como resposta.
— Quem disse que eu diria não?
— Você aceita?
— O que você acha?
— Hum... Deixe ver...
Acho que você aceita.
Ela o abraçou com tanta felicidade que quase o sufocou.
— Tenho apenas uma condição — considerou Denise.
— Qual é? — perguntou ele, com ansiedade e medo.
— Que você nunca mais fale que sou muito nova para você.
Ele deu um sorriso de alegria, que se transformou em riso franco, para depois ceder lugar a gargalhadas de felicidade.
Ambos riam e se abraçavam, beijavam-se e tornavam a rir.
Nada mais importava além do amor que sentiam.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 9:59 am

Capítulo 66

Fora um convite inesperado.
Desde a reunião em casa de Celso, Alicia não falava com Tobias.
Sabia, porque ela mesma dissera, que não sentia mais nenhum ressentimento com relação a ele, mas ela não fizera nenhum movimento para estreitar a relação entre eles.
Por isso ele estranhara quando Juliano lhe telefonou, convidando-o para uma conversa em sua casa.
— Como vai, Tobias? — cumprimentou Juliano, fazendo-o entrar em seu apartamento.
Espero que não o estejamos atrapalhando.
— De forma alguma!
— E o apartamento novo?
Está indo bem?
— Sim. Deixei Denise cuidando dele.
Ela está adorando fazer a decoração.
— Quando pretendem se casar?
— Daqui a um ano, talvez, se nossa experiência de viver juntos for bem sucedida, que é o que espero.
— Vocês se amam.
Quando há amor, tudo dá certo.
Alicia entrou nesse momento.
Vendo-a, Tobias pensou que ela era uma das mulheres mais lindas que já vira em toda sua vida, concorrendo apenas com Denise.
Ela parou diante dele, fitando-o com ar expressivo, cheio de um sentimento que ele podia não identificar, mas que não passava perto nem do ódio, nem da mágoa.
— Como vai, Alicia? — falou ele, tentando conter a emoção.
Não sabe o quanto fiquei feliz com o seu chamado.
— Por quê? — tornou ela.
Você nem sabe o que tenho a dizer.
— Não importa. Só de saber que você quis falar comigo, já fico feliz.
Ela fitou os olhos dele com ansiedade.
Em seguida, falou, lutando para não deixar a voz tremer:
— Quero nos dar uma oportunidade.
Uma oportunidade de nos conhecermos melhor.
— É tudo o que mais quero — admitiu ele, também trémulo de emoção.
— Ainda acho estranho meu pai biológico se casar com minha irmã e se tornar meu cunhado, mas vou tentar superar essa esquisitice.
Tenho que me lembrar que você não é pai de Denise.
— Não pretendo tomar o lugar do seu pai nem espero que você me ame como a ele.
Celso é e sempre será seu verdadeiro pai.
Eu fui apenas o doador, mas não podemos negar que existe um elo entre nós.
Sei que você vai falar da outra vida, de Jaqueline e Dimas, e sei que deve ter sido isso mesmo.
Essa história só faz reforçar minha crença.
Ninguém doa sémen ao acaso.
Mesmo num banco de esperma, o acaso não existe.
Pode ser que, para nós, seres humanos, tudo pareça surpresa.
Mas, para o mundo espiritual, as coisas não passam de uma sucessão de eventos programados.
— Concordo com você.
Com certeza, geneticistas que atuam no plano espiritual seleccionam os gametas necessários à reprodução, que é mesmo assistida.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 10:00 am

Tanto os médicos do mundo físico quanto do invisível planeiam, executam e acompanham todo o processo.
— Exactamente. Deus está no comando de todas as coisas.
Nada se processa sem que seja de sua vontade ou com a sua autorização.
Só o orgulho do homem para achar que a reprodução assistida, ou qualquer outra forma de conquista da ciência, ultrapassa o governo de Deus.
Quando a ciência avança, foi porque Deus assim o permitiu.
Não há contraposição entre ciência e Deus.
Entre ciência e religião pode até ser, visto que a religião é obra dos homens, que interpretam a mensagem divina à sua maneira.
Mas ciência e Deus são a mesma coisa, sendo a ciência a expressão da vontade divina.
— É no que acredito também.
Antigamente, algumas pessoas achavam que podiam atentar contra a ordem divina.
Isso é um absurdo.
Todas as ordens são divinas, ainda que o homem pense o contrário.
Ninguém interfere no plano de Deus.
O ser humano pensa que sim, mas isso não acontece.
Ele, na verdade, não cria nada.
Apenas reproduz o que Deus criou e deixou em estado latente até o momento certo de ser desvendado.
O que fazem os grandes génios é revelar ao mundo a obra divina, e o fazem sob a orientação de grandes génios que atuam no espaço.
Ninguém faz nada sozinho.
— É difícil dividir os créditos, mas a verdade é que todos os segmentos geniais da actividade humana, seja nas artes, na ciência, nos desportos ou qualquer outro ramo, são acompanhados de perto por espíritos igualmente dotados de genialidade, que somam seus conhecimentos ao dos encarnados para, juntos, colaborarem com o progresso.
Tudo é uma via de mão dupla.
Seja para o bem ou para o mal, o ser humano nunca está só.
— É por acreditar em tudo isso que reflecti muito sobre o que aconteceu entre nós — esclareceu Alicia, visivelmente admirada com as palavras de Tobias.
Como disse antes, não me importo mais com o passado.
Consegui me libertar de tudo isso e aceitar que você hoje é outra pessoa.
Quero que sejamos amigos.
— Por tudo o que lhe tenha feito, volto a pedir que me perdoe, por essa ou por qualquer outra vida em que a tenha prejudicado.
— Para mim, tudo isso foi uma lição.
Hoje compreendo que ninguém passa por experiências das quais não necessita para seu aprimoramento.
E tudo tem uma causa.
Boa ou ruim, esta causa está sempre em nós, ainda que ela se reveze ao longo dos anos, passando de um para outro, num eterno vaivém de causa e efeito.
Ora nos colocamos na posição de agredidos, ora na de agressor.
Na verdade, nossas posições se alteram entre sujeitos activos e passivos de atitudes geradas por nós mesmos.
Quando, finalmente, entendi isso, de coração, e não com a mente, foi que consegui aceitá-lo.
— Você me perdoou?
— Perdoar, perdoar, não — ele a fitou, abismado, e ela arrematou:
— Porque você não fez nada que demandasse o meu perdão.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 10:00 am

— Alicia... — emocionou-se.
Você não sabe como fico feliz em ouvir isso.
Você e Denise são tudo o que importa para mim nessa vida.
— Acredito que o seu amor é sincero. Por nós duas.
E, para demonstrar o quanto estou disposta a aceitá-lo em nossas vidas, gostaria de lhe pedir um favor.
— Você, me pedir um favor?
O que você quiser.
— Tenho consciência do bem que a reprodução assistida tem feito a milhares de pessoas ao redor do mundo.
Não falo apenas pelo lado físico, do desejo de se tornarem pais, mas do lado espiritual mesmo.
Os processos de infertilidade estão ligados a problemas cármicos decorrentes do mau uso da fertilidade no passado, como abortos, abandono de bebés e coisas do género.
— Só um aparte.
Esses problemas cármicos, como você chama, decorrem de uma má compreensão das leis da vida.
Usemos o exemplo do aborto.
Quem praticou ou se submeteu a ele não necessariamente será infértil.
Tudo depende da forma como aquele ser encara suas próprias atitudes.
Se o remorso o levar ao extremo da culpa, pode ser que ele opte por uma encarnação em que encontre problemas para engravidar, mas pode ser que também escolha ficar do outro lado, como eu, ajudando pessoas que não podem ter filhos a realizar seu sonho.
— Sei disso.
Entendo que não precisamos da Lei de Talião para buscarmos um equilíbrio entre as acções e reacções que governam nossas vidas.
Quem fez o mal não precisa ser vítima desse mesmo mal.
Pode fazer diferente, pode escolher ajudar em vez de se vitimar.
Mas estou falando daquelas pessoas que, mesmo sabendo disso, não conseguiram se libertar integralmente de suas culpas.
Isso ainda é comum no caso da gravidez, pois muitas pessoas não podem ter filhos.
— Certo. Se uma pessoa, homem ou mulher, escolhe nascer infértil, sem chance de recuperação, seu corpo será ajustado para atender àquele desejo, carregando a anomalia, que pode ser irreversível.
Nessa hipótese, por mais que a pessoa se perdoe e busque engravidar, não conseguirá, pois o meio físico não oferece as condições favoráveis a uma gestação.
Surge então a reprodução assistida, como caminho de esperança ou de milagre, e duas coisas, então, podem acontecer:
Ou a pessoa consegue, finalmente, ficar em paz com a própria consciência, ou prefere seguir na frustração como forma de amadurecimento.
No primeiro caso, a fertilização é um sucesso.
No segundo, tende ao fracasso.
— O que você está querendo dizer — intercedeu Juliano —, é que, nos casos de infertilidade, a cura ou sucesso da reprodução assistida vai depender do facto de a pessoa conseguir ou não perdoar a si mesma.
— Isso. Quem se perdoa consegue.
Quem não se perdoa vai amargando até entender que o auto-perdão é a melhor forma de superar suas imperfeições morais.
— E quando se descobre a cura?
— É um sinal claro da divindade de que aquele caminho de sofrimento não precisa mais ser trilhado nem ser seguido até o fim.
Ou pode ser evitado, ou, em algum momento, modificado.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 9:50 am

— Todos esses esclarecimentos foram óptimos para mim — admitiu Alicia.
E me trazem de volta ao meu pedido de ajuda.
— Que você ainda não disse qual é.
— Juliano e eu estamos tentando ter um filho há uns dois anos, e até agora, nada.
Será que você pode nos ajudar?
— Celso diz que Alicia e eu não temos nenhum problema físico — explicou Juliano.
Mas achamos que podíamos ter uma segunda opinião.
— Você faria isso por nós? — tornou Alicia.
Tobias mal conseguia respirar de tanta emoção.
Se Celso dissera que não havia nenhum problema físico com os dois, com certeza, não havia.
Celso não errava em seus diagnósticos.
Mas só de saber que Alicia pedira sua ajuda em um assunto tão delicado, fazia com que ele se sentisse o mais gratificado dos homens.
— Quando vocês quiserem! — anunciou ele.
Estou à sua disposição.
Sem que ele esperasse, Alicia o abraçou.
Era um abraço caloroso, filial, cheio de sentimentos verdadeiros.
Tobias correspondeu com lágrimas nos olhos.
Afinal, era sua filha quem estava ali.
Mesmo que ela não tivesse sido criada por ele, a natureza os colocara naquela posição para que se amassem, e agora lhes dava a chance de fazê-lo.
Naquela noite, Alicia e Juliano fizeram amor como nunca antes haviam feito.
Alicia estava muito mais calma, confiante, serena.
Nada de ansiedade nem da usual pergunta:
Será que hoje vai dar certo?
Na verdade, não se importava muito com aquilo.
Queria apenas sentir o amor do marido e entregar-se a ele sem outras preocupações além do sentimento que os unia.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 9:50 am

Epílogo

A noite chegou com muitas estrelas, e a luz da lua incidiu nas faces de Alicia, que se espreguiçou na rede da varanda.
Sonhara com Jaqueline entrando na igreja, conduzida pelo braço do irmão.
No altar, Cezar a aguardava, um homem tão lindo que, só de olhar para ele, Alicia tremeu de emoção.
O casamento de Jaqueline trouxe a certeza de que ela sobrevivera ao atentado à sua vida.
De alguma forma, ela conseguira evitar o assassinato.
Ela modificara a realidade dela.
A Jaqueline que vivia hoje em 2015 não teria o futuro daquela que vivia em 2219.
A partir dali, ambas seguiriam histórias de vida diferentes, e tudo graças a ela.
Graças a ela só, não.
Graças também a Maurício.
Alicia nunca o havia visto nem sonhado com ele, até a noite em que tudo aconteceu.
Fora uma surpresa para ela.
Deitara-se como de costume, fazendo suas usuais orações.
Assim que o sono a dominou, sentiu--se arrancada de sua cama, de sua casa, de seu tempo.
Lá estava Jaqueline, pronta para ir à academia.
A diferença era que, dessa vez, Jaqueline não a via nem ouvia.
Ela, ao contrário, podia identificar todo o ambiente de Jaqueline, bem como as pessoas que com ela conviviam.
Maravilhada, Alicia acompanhava os acontecimentos como mera espectadora, sem neles tomar parte.
Tentou falar com Jaqueline, chamar-lhe a atenção, mas nada aconteceu.
Era como se estivesse olhando a cena do lado de fora de uma janela.
Tinha que mudar aquela situação.
Precisava passar para o lado de dentro.
Ou talvez Jaqueline conseguisse pular para fora, para onde ela estava.
Pensando bem, por que estava tão interessada em falar com Jaqueline naquele momento?
O que iria lhe dizer?
Nem mesmo ela sabia por que motivo fora até ali.
Talvez fosse melhor tentar ir embora, voltar para seu próprio tempo.
Seus olhos, porém, avaliaram Jaqueline com maior clareza.
Ela estava vestida para ir à academia.
Agora, reparando melhor, ela e o namorado discutiam exactamente sobre isso.
Ele não queria que ela fosse.
Então, era por isso que ela fora levada até ali.
Aquele era o dia.
De algum modo, o mundo espiritual conspirava para que ela evitasse aquela tragédia.
Mas por quê?
— Vamos dar a essa Jaqueline uma nova experiência — ela ouviu uma voz dentro de si dizer.
Alicia nem perguntou de onde surgira aquela voz.
Ou era seu Eu superior, ou algum espírito amigo. Não importava.
Somente o aviso é que tinha importância.
Ela gesticulou, gritou, puxou Jaqueline pelo braço.
Nada surtiu efeito.
Jaqueline, totalmente desperta, sequer registava sua presença, uma presença subtil, que estava e, ao mesmo tempo, não estava ali.
Alicia era como um espectro sem voz, uma aparição incapaz de interagir com pessoas vivas.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 9:50 am

Desesperada, partiu em busca de ajuda.
Pela primeira vez, via a casa de Jaqueline, seu quarto e, o que mais lhe interessava: o irmão dela.
Maurício dormia um sono leve, o corpo fluídico pairando acima do físico, quase pronto para despertar.
Alicia percebeu a iminência de perder a oportunidade de falar com ele.
Mais que depressa, acercou-se do leito e sacudiu o corpo astral do menino.
— Maurício — sussurrou. — Acorde.
Tenho algo urgente a lhe dizer.
O menino abriu os olhos, tentando entender o que acontecia.
Sentou-se em cima de seu corpo adormecido, sem se dar conta de que estava sobre ele.
Quando viu Alicia parada a seu lado, com aquele ar de desespero, assustou-se.
— Não tenha medo — tranquilizou ela.
Não vim aqui para lhe fazer nenhum mal.
— Quem é você?
— Me chamo Alicia.
— Alicia? Não conheço.
— Não faz mal.
Você é um menino esperto, não é? — ele fez que sim.
Pois então, acorde e corra até Jaqueline.
Diga a ela que Dimas a está esperando.
— Dimas?
— Isso, Dimas.
É hoje que tudo vai acontecer.
Não perca tempo, menino. Vá!
O corpo fluídico de Maurício retornou ao físico com tanta violência, que ele quase não conseguiu se levantar.
A lembrança do sonho pulou em sua mente.
A sensação de que Jaqueline corria perigo era real demais para ele ignorar.
Maurício, enfim, conseguiu dar um salto da cama, correndo pela casa feito louco, à procura da irmã.
Quando a viu na sala com Cezar, o alívio fez desacelerar seu coração.
Ele chorou, implorou que ela não fosse, mas Jaqueline não cedeu.
Decidida, saiu.
Daquele ponto em diante, Alicia não pôde mais acompanhá-la.
Havia retornado a seu próprio plano.
Juliano ainda dormia a seu lado, a noite ainda era escura, tudo continuava quieto.
De Jaqueline, nem sinal.
Ela agora fazia uma leitura clara do ocorrido.
Sua interferência surtira efeito.
Jaqueline fora salva e estava se casando com o homem que amava.
Era maravilhoso! Alicia sorriu dormindo.
Estava em paz consigo mesma e o mundo.
A rede em que estava deitada afundou subitamente, agitando-se como se alguém a balançasse.
— Deixe-me dormir, Juliano — queixou-se ela.
A noite passada me deixou exausta.
Como ele não respondesse, e a rede continuasse balançando, Alicia abriu os olhos.
Levou um tremendo susto.
Não era Juliano quem estava sentado ao lado dela, mas um menino bonito, de seus nove ou dez anos, exibindo um sorriso encantador, que ela achou muito familiar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 9:51 am

— Quem é você? — perguntou ela.
Já não nos vimos antes?
O menino sorriu também.
Alisou o rosto dela com ternura, deixando a sensação de que ela jamais experimentara carinho tão gostoso.
Em seguida, tocou de leve em sua barriga, iluminando todo o seu interior.
— Eu voltei, Jaque, eu voltei — disse ele, numa vozinha límpida e ritmada.
Foi então que Alicia, verdadeiramente, abriu os olhos, sentindo que havia sonhado.
Fora mesmo um sonho?
Suas mãos pousaram sobre o ventre, causando-lhe um choque inesperado.
Não doeu, mas transmitiu-lhe uma certeza.
Ela alisou o ventre com um sorriso de satisfação nos lábios.
Não podia explicar nem imaginava de onde vinha toda aquela certeza.
Mas ela sabia...
Sabia que aquele menino estava ali junto com ela, dividindo a vida com ela.
Não tinha mais dúvidas.
Finalmente, a certeza: seu filho ia nascer.

Fim

Nascida no Rio de Janeiro, em 1962, Mónica de Castro tornou--se uma das maiores escritoras espíritas da actualidade.
Em parceria com seu mentor, Leonel, já psicografou mais de vinte livros, que figuram entre os mais vendidos do país em seu segmento.
Comprometida com o movimento espírita independente, acredita no amor como o único caminho para a verdadeira liberdade.


movimentoecrescimento.com/monicadecastro.autora

§.§.§- Ave sem Ninho
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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