A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:09 am

— Bom dia, doutor — cumprimentou Jonas, abrindo a porta do carro.
Lafayete acenou com a cabeça e deu ordens para que o motorista circulasse pela zona de meretrício da cidade.
Apesar de estranhar aquela ordem, Jonas não questionou.
Era como um cãozinho amestrado, grato ao deputado por tê-lo livrado de uma grande encrenca.
Em silêncio, levara-os para dar uma volta pelas ruas tomadas de prostitutas.
Vê-las causou uma estranha, porém conhecida, comoção em Lafayete.
Era a excitação do sexo proibido, a proximidade de mulheres de quem ele achava que podia abusar da maneira que mais lhe aprouvesse.
Durante muito tempo, limitara-se a olhar, pelo vidro escuro do carro, as mulheres que faziam a vida.
Satisfeito, ia mandar o motorista fazer o caminho de casa, quando uma moça, em especial, lhe chamara a atenção.
Bonita, jovem, pernas bem torneadas, ar inocente, gestos delicados.
Um rosto que parecia de anjo, o corpo de uma deusa.
— Quero aquela mulher — disse imediatamente.
— Que mulher? — Cezar quis saber, procurando entre as pessoas.
— Aquela — Lafayete apontou.
Vá buscá-la para mim.
Cezar viu.
Saiu do carro, atravessando a rua na direcção de Jaqueline.
Quando chegou perto, não conseguiu falar com ela.
Passando na sua frente, um homem que cheirava a peixe a abordara.
Ele disse alguma coisa ao seu ouvido, ela respondeu com um sorriso amargo.
O homem assentiu, puxando-a pelo braço em direcção a um motel.
Quando se virou, Cezar vira o olhar de raiva de Lafayete.
O vidro da janela estava abaixado, de forma que Lafayete podia gesticular à vontade.
Pela expressão de ódio do outro, Cezar compreendera que deveria fazer de tudo para conseguir aquela moça.
— Espere um momento! — gritou.
Moça, espere! Você aí, pare!
Ouvindo a gritaria, Jaqueline se virou.
Era realmente muito bonita, mas não valia o risco.
Mesmo assim, Cezar se aproximou.
— Está me chamando? — perguntou Jaqueline.
— O que você quer, playboyzinho? — retrucou o homem, mal-encarado.
Vá dando o fora.
Essa não é a sua praia.
— Quero apenas falar com a moça — Cezar desculpou-se.
— Mas ela não quer falar com você.
Ande, vamos embora. Estou com pressa.
Os punhos do sujeito eram grossos demais para alguém do tamanho de Cezar confrontar.
O jeito foi deixar a garota partir.
Assim que ela entrou no motel com o grandalhão, Cezar reuniu coragem para enfrentar Lafayete.
O deputado estava furioso, espumando de indignação.
— Por que a deixou ir com aquele idiota? — indagou, mal-humorado.
— Porque aquele idiota tinha duas vezes o meu tamanho, ia me dar uma surra.
— Medroso. Era só oferecer mais dinheiro que ela viria.
— Senti medo, sim.
Afinal, era a minha cara que estava na recta dos punhos do sujeito, não a sua.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:09 am

— Olhe lá como fala comigo, Cezar!
Perdeu o respeito?
— Não, deputado, desculpe — Cezar rebateu arrependido, engolindo em seco.
É que o homem era muito grande e...
— Tudo bem, não precisa mais justificar a sua covardia.
Vá procurar o cafetão dela.
Ofereça-lhe dinheiro para levar a guria ao concurso.
— Agora?
- Agora. Vá!
Sem dizer nada, Cezar atravessou a rua novamente.
Olhando de um lado a outro, pôs-se a procurar homens com pinta de gigolô, até que encontrou Lampião.
— O que você quer com a minha garota? — sondou, desconfiado.
— Meu chefe se interessou por ela.
— Quem é seu chefe? Cadê ele?
— Está no carro.
Não pode vir até aqui, é uma figura importante.
— Importante, é? — Cezar assentiu.
E ele quer transar com a menina?
— Ele quer que ela participe de um concurso.
— Que história é essa de concurso?
Tipo miss e essas coisas?
— Não exactamente.
Pacientemente, Cezar explicou a Lampião tudo sobre a escolha da garota.
O outro ouviu com atenção, sem ocultar o interesse.
No fim, deu seu aval.
É claro que Jaqueline participaria do concurso.
— Só tem uma coisa — contrapôs Lampião.
— O quê?
— Não tenho como pagar exame médico para ela.
Ainda mais com essa urgência toda.
— Não se preocupe.
Diga-me onde encontrá-lo, e amanhã mesmo, você terá as requisições e o dinheiro para os exames.
— Se é assim, tudo bem.
Foi assim que os exames médicos foram parar nas mãos de Jaqueline.
Ela desconhecia esses detalhes, nunca ouvira falar de Lafayete.
Mesmo assim, aceitou o desafio.
Nem imaginava que o doutor ansiava por aquele momento como uma criança anseia por seu primeiro passeio ao parque de diversões.
Para Lafayete, a moça que ele escolhesse se tornaria seu mais novo e exclusivo brinquedo.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:10 am

Capítulo 12

Aquele era o dia, finalmente.
Lafayete sorriu para o homem que o encarava pelo espelho, pensando em como era bem-apessoado.
Ninguém diria que já passara dos quarenta.
Deu o último nó na gravata, preparando-se para sair.
Antes que tivesse tempo de se virar, o reflexo de Sofia surgiu por detrás do dele.
— Aonde você vai? — Sofia exigiu saber.
— Tenho uma reunião importante.
— Não entendo.
Você passa a semana inteira em Brasília, trabalhando, e quando volta para casa, trabalha também?
— Minha querida, sou um representante do povo.
Não posso fechar os olhos ao dever, simplesmente porque é meu dia de folga.
— Mas que dever é esse?
Que eu saiba, o Congresso fica em Brasília.
Ou será que a capital voltou para o Rio?
— Vou relevar sua ironia porque, no fundo, você tem razão.
Sei que deveria passar mais tempo com você, mas surgiram assuntos importantes que preciso resolver.
Tenho conseguido, com os empresários, várias conquistas para o povo.
— Ainda não sei bem que conquistas são essas.
Sua função não é propor novas leis?
— Leis que melhorem a vida do povo, em especial, que promovam a manutenção da família.
E, com a ajuda do empresariado, tenho condições de propor normas mais justas e dignas.
As palavras de Lafayete não faziam sentido.
Não eram nada além de enrolação.
Ele a subestimava, julgava-a uma tonta, que nada sabia fazer além de posar como esposa afortunada de um deputado, exibindo sua família feliz.
O marido nunca fora uma pessoa honesta, muito menos interessada no bem do povo ou da família.
Como ele podia pensar que a enganaria com aquela lenga-lenga despropositada?
— Por que não me leva junto? — Sofia provocou.
Na certa, esses empresários têm esposas.
Poderíamos fazer um grupinho só de mulheres.
— Nenhum deles vai levar esposa, do contrário, eu a teria chamado.
E o assunto é chato, você não vai se interessar.
— Se diz respeito ao bem da família, não pode ser um assunto chato.
— Confie em mim, querida.
Você não vai gostar.
— Por que não deixa que eu decida?
Você pode se surpreender.
— Outro dia, sim?
E agora, um beijo.
Já estou atrasado.
O beijo frio que ele pousou nos lábios de Sofia revirou-lhe o estômago.
Sempre que podia, Lafayete evitava se deitar com a esposa.
Não suportava mais seu corpo flácido, que ela lutava, em vão, para manter atraente.
Às vezes, era difícil arranjar desculpas, mas ele sempre inventava algo:
cansaço, dor de cabeça, dor de dente, de barriga, qualquer coisa para mantê-la longe de si.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:10 am

Chegando ao Joá, Cezar foi ao encontro de Lafayete.
Tinha em mãos vários papéis, referentes às oito moças que tinham comparecido para a selecção.
— E então? — indagou Lafayete. — Tudo pronto?
— Tudo. As moças já estão todas aí.
— E os exames?
— Tudo certo.
São todas saudáveis.
— São bonitas?
— São.
— Gostosas?
— Creio que sim.
— Todas elas?
— Todas.
Cada vez mais excitado, Lafayete entrou na casa.
Por ordem sua, as garotas encontravam-se em outra sala, aguardando a vez de serem chamadas.
A seu lado, os cafetões, orgulhosos, apostavam entre si, cada qual certo da vitória de sua concorrente.
Havia moças louras, morenas e negras.
Lafayete não tinha nenhuma predilecção.
Desde que fossem mulheres bonitas, todas faziam seu tipo.
Como Lafayete estava com pressa, Cezar tratou de dar início ao concurso.
Colocou as garotas em fila e mandou que entrassem na sala, vestidas apenas de biquíni.
O deputado trocara de roupa ao chegar, disfarçando-se para não correr o risco de ser reconhecido.
A última coisa de que precisava era que uma prostituta contasse aos jornais o que ele estava fazendo.
De roupa desportiva, óculos escuros e um boné que cobria a maior parte de seu rosto, dificilmente alguém o reconheceria.
Mesmo assim, dava para perceber que o tal político era um homem de boa aparência.
Não um velho caquéctico, como elas imaginaram, ávido por uma garota que o fizesse sentir-se vivo.
Algumas meninas até se animaram na presença de Lafayete, caprichando no desfile, sorrindo sedutoramente.
Todas queriam ser escolhidas, menos Jaqueline, que lutava entre o medo e a esperança.
Jaqueline era a última da fila, sem pressa de se exibir.
Permanecia parada, olhando a movimentação das outras moças, imaginando o que a mãe diria se a visse ali, naquela situação.
Seria um bom motivo para acusá-la de sem-vergonha, provocadora de homens.
A lembrança da mãe a fez sentir vergonha de si mesma.
O que estava fazendo?
Dando-se o título de prostituta profissional?
Se ingressasse naquele esquema, talvez sua situação se consolidasse e ela nunca mais conseguisse sair.
— Quero ir embora — sussurrou ao ouvido de Lampião.
Não estou me sentindo bem.
— De jeito nenhum! — objectou o cafetão, temendo que Cezar os ouvisse.
Se precisar, vá ao banheiro.
Mas só sairemos daqui depois que esse tal de doutor der uma boa olhada em você.
Jaqueline silenciou.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:10 am

Sabia que Lampião não permitiria que ela desistisse.
O jeito foi se conformar e aguardar.
Depois que as garotas, inclusive Jaqueline, desfilaram, Lafayete mandou que Cezar entrasse sozinho.
A expectativa aumentou significativamente.
Todos se entreolharam, imaginando de quem seria a vitória.
Não demorou muito para que Cezar retornasse.
Fitou um a um dos presentes, cafetões e prostitutas, e, com ar formal, declarou:
— Ele gostaria de entrevistar cada uma, individualmente.
Foi uma euforia geral.
As meninas pensavam que teriam que fazer algum tipo de demonstração de suas qualidades profissionais, já se preparando para uma exibição caprichada.
— Não acha isso uma estupidez? — Jaqueline cochichou com a garota da frente.
Ele não vai dar conta de oito.
A outra deu de ombros.
Mal podia esperar para que chegasse a sua vez, e, se alguma concorrente não estava disposta a mostrar o que sabia, tanto melhor.
Como Jaqueline era a última, acabou cochilando no sofá, levando petelecos de Lampião por trás da orelha.
— Componha-se! — Lampião ordenou a meia voz.
Não quer chegar lá com o rosto amassado e a maquiagem borrada, quer?
Jaqueline se endireitou na poltrona.
Passara a maior parte da noite acordada com Maurício, que, por causa de um resfriado, tossia sem parar.
Enquanto aguardava, resolveu estudar o ambiente, na tentativa de permanecer desperta.
A sala era muito bonita, elegante.
Do lado de fora, via-se uma piscina de águas azuis, iluminada por reflectores, que a deixou animada.
Pensou que, já que estavam de biquíni, bem podiam aproveitar para dar um mergulho.
Sorriu ante sua indizível ousadia.
Continuou passando os olhos ao redor, observando cada detalhe, tentando imaginar o que aconteceria se fosse a escolhida.
Analisou suas concorrentes e seus cafetões, indagando quais seriam mais bonitas do que ela.
E olhando um a um, até que seus olhos encontraram os de Cezar, demorando-se neles um pouco mais.
Incomodado com o olhar insistente da jovem, Cezar virou para o outro lado.
Aos poucos, a sala foi-se esvaziando.
As entrevistadas eram dispensadas e podiam ir embora com seus gigolôs.
O resultado viria depois.
Quando, finalmente, chegou a vez de Jaqueline, só havia ela, Lampião e Cezar na sala.
Ele abriu a porta de um pequeno gabinete, fechando-a em seguida, sem dizer palavra.
— Sente-se — foi uma imposição, não um convite.
Como se chama?
— Jaqueline.
— Quantos anos tem, Jaqueline?
— Dezanove.
— Está há muito tempo nessa vida? — Jaqueline meneou a cabeça, evitando olhar para ele.
Não tem família?
— Apenas um irmão mais novo.
— Quem cuida dele?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:10 am

— Eu.
Lafayete a encarava por detrás dos óculos, satisfeito não apenas com sua beleza, mas com as respostas que a moça lhe dava.
Sustentar um irmão mais novo demonstrava vulnerabilidade, algo que podia ser explorado e usado a seu favor.
Chantageá-la e manipulá-la com ameaças ao menino parecia-lhe uma boa maneira de dominá-la.
Tudo isso eram desculpas.
A verdade era que Lafayete já havia se decidido antes mesmo de mandar chamá-las.
— Muito bem, Jaqueline, já me decidi.
Espere lá fora um instante.
Jaqueline saiu, sentando-se ao lado de Lampião, que roía as unhas, de nervoso.
— Já? — espantou-se ele, com a brevidade da entrevista.
— Ele não me perguntou quase nada.
— Você acha que foi bem?
— Não sei. Ele me mandou aguardar.
— Então, você foi a escolhida.
Todas as outras foram embora. Vitória, garota!
Eu sabia que você era a mais gostosa.
Um arrepio percorreu sua pele.
Pensando bem, aquela selecção não fazia muito sentido.
Por que um homem importante se daria ao trabalho de escolher uma amante dentre prostitutas do baixo meretrício?
Não seria porque poderia abusar delas como bem entendesse, certo de que ninguém ligaria se as maltratasse?
Talvez ele não fosse o que parecia ser.
Talvez vencedoras fossem as outras, que se livraram de um possível degenerado.
— Estou com medo — Jaqueline desabafou, contendo as lágrimas.
— Medo de quê?
Sua vida vai melhorar.
— Do que ele gosta tanto que não pode fazer com outras mulheres?
— Todo mundo tem seus fetiches.
Ele deve ter fantasias bem malucas, que a mulher ou a namorada não vão querer experimentar.
— Malucas ou sádicas?
— Deixe de bobagens.
Um homem desses não deve ser nenhum tarado.
Jaqueline agora não estava bem certa.
Quando a porta se abriu novamente, Lafayete passou sem olhar para eles, seguido por Cezar, que se sentou defronte aos dois.
— Muito bem, seu Lampião — começou.
Você já deve imaginar que sua moça foi escolhida.
— Imaginei — retrucou o outro, lutando para conter a animação.
— Bom, a única condição do acordo é que Jaqueline não trabalhará para mais ninguém além do doutor.
Caso contrário, o trato estará desfeito.
— Certo — concordou Jaqueline. — Acho justo.
— E eu? — intercedeu Lampião.
— Você vai receber sua parte mensalmente, para ficar calado.
— Onde vou encontrá-lo? — indagou Jaqueline.
— Aqui — esclareceu Cezar.
A menos que o doutor especifique outro lugar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:10 am

— E qual o nome desse doutor, posso saber? — questionou Lampião.
Como vou tratar com ele?
— Você só vai tratar comigo — respondeu Cezar.
Serei seu único contacto com o doutor.
Lampião deu de ombros.
Mais tarde, descobriria o nome dele por Jaqueline.
— Tudo bem — disse o cafetão, tentando aparentar indiferença.
Se preferem assim...
— Então? — tornou Cezar. — Tudo certo?
Podemos considerar feito o trato?
— Está tudo certo — concordou Lampião, mais que depressa.
Não está, Jaque?
— Sim.
Era visível o desgosto na voz da jovem.
Os lábios dela tremiam, como se tentassem não delatar as lágrimas, um sinal de que ela estava com medo.
— Não se preocupe — Cezar se pegou falando gentilmente.
Vai dar tudo certo.
Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo.
Ela apenas balançou a cabeça.
Cezar sentiu-se o mais vil dos homens pelo que estava fazendo.
Tinha plena consciência de que levava a menina para uma armadilha, contudo, não tinha meios nem coragem para evitar.
Se contasse a Jaqueline o que sabia sobre Lafayete, ela poderia desistir e ele perderia não só o emprego, mas a liberdade do pai.
Voltaram para casa com ânimos opostos.
Enquanto Lampião vibrava de alegria, Jaqueline segurava a vontade de chorar.
Assim que a moça abriu a porta, todos os seus receios se dissiparam.
Os braços de Maurício ao redor de seu pescoço eram como um bálsamo em qualquer ferida.
Por ele, valeria a pena o sacrifício, se é que seria mesmo um sacrifício.
Talvez ela se desse bem com o tal doutor, talvez ele fosse um homem bom, talvez a ajudasse.
Jaqueline afastou Maurício e deu-lhe vários beijos nas faces.
Como amava aquele menino!
O irmão era tudo o que lhe importava.
Com esse amor aquecendo seu coração, estreitou-o novamente, fechando os olhos para sentir seu calor.
Quando os abriu, levou um susto.
Atrás de Maurício, uma porta se escancarou.
Do outro lado, uma moça que, embora não se parecesse com ela, a fazia lembrar-se de si mesma, espreitou para o lado de cá.
Por uns momentos, as duas se encararam espantadas, incrédulas, confusas.
Jaqueline abriu a boca num espanto mudo.
Ia gritar, dizer qualquer coisa, estampar sua indignação, mas a moça do outro lado arregalou os olhos e, como uma fada vaporosa, de repente, sumiu.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:11 am

Capítulo 13

Com muito espanto, Alicia esfregou os olhos.
Estava acordada, sabia que estava, esperando Juliano à mesa de um restaurante.
E, mesmo assim, vira a garota de seus sonhos.
Vira, não sonhara.
Ainda sob o efeito da curiosa visão, balançou a cabeça de um lado a outro, para espantar seus fantasmas, lembrando--se, nitidamente, da última conversa que tivera com o pai:
— E então, pai?
Estou esperando uma resposta.
Eu tenho ou não tenho outra irmã?
— Não entendo por que essa pergunta.
Você devia concentrar-se em engravidar, não em remexer o passado.
Não é o que quer? Ser mãe?
— Quero saber a verdade.
Então? A resposta é sim ou não?
O olhar de Celso foi de sofrimento e súplica.
Parecia que queria contar tanto quanto sentia medo.
— Para que tentar reavivar o passado, filha?
Isso não faz bem a ninguém.
— Quer dizer então que a resposta é sim.
Eu sabia! Só podia ser.
Onde ela está?
— Vá com calma.
Eu não disse que tinha.
— Nem precisa!
Se estou revolvendo o passado, é porque existe algo para ser revolvido.
— Não é o que você está pensando.
— O que estou pensando?
Que você teve uma filha com outra mulher?
— Mas que absurdo! — indignou-se, o queixo caído em sinal de assombro.
— Olhe, pai, tudo bem se teve.
Sua vida amorosa não é problema meu.
Eu só quero saber se possuo outra irmã rondando por aí.
Tenho esse direito.
Celso permanecia sem falar, cabeça baixa, as lágrimas insinuando-se nos olhos, fazendo-os arder de dor.
Queria fugir dali, contudo, não podia.
Parecia que chegara o momento de revelar o primeiro dos muitos segredos que escondia.
Afinal, não fora ele que demonstrara o desejo de revelar tudo?
Pois então! A vida estava apenas tornando viável a realização de sua vontade.
Se era assim, não podia deixar passar aquela primeira oportunidade.
E Alicia tinha o direito de saber.
— Muito bem, minha filha, se você insiste, vou lhe contar.
Acho mesmo que já está na hora de você saber a verdade.
Sua mãe e eu quisemos poupá-la, mas você agora tem maturidade suficiente para compreender.
O espanto, dessa vez, foi de Alicia:
— Mamãe sabe?
— Seria possível uma mãe não saber da existência de um filho?
— A menina é filha dela também?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:11 am

— Era. Ela morreu.
— Como? Não estou entendendo.
A confusão de Alicia era visível.
— Sente-se aqui, minha filha.
Vou lhe contar tudo.
Tente entender e não sofra.
— Você está me assustando, pai.
O que foi que aconteceu com minha outra irmã?
Com um suspiro sentido e profundo, Celso começou a contar:
— Você teve uma irmã gémea.
O nome dela era Bruna.
Na verdade, você e Bruna eram mais do que gémeas.
Eram... xifópagas.
— O quê?
Durante alguns segundos, Alicia pareceu perturbada, mas logo levou a mão ao coração, tocando, por cima da blusa, a pequena cicatriz da infância.
— É isso mesmo — confirmou Celso, seguindo a direcção de seus dedos.
Foi por aí que vocês nasceram unidas.
Alicia desabou na cadeira, ocultando o rosto entre as mãos.
Não sabia o que dizer, o que pensar.
— Se eu tive uma irmã xifópaga que morreu, enquanto eu sobrevivi, então, ela não resistiu à cirurgia de separação — Celso assentiu, cabisbaixo.
Como, pai? Você é geneticista, devia ter meios de perceber essas coisas.
E a medicina, hoje em dia, está bastante avançada.
Além de serem raríssimos os casos de gémeos xifópagos, eles são separados com sucesso quase absoluto.
— Disse bem: sucesso quase absoluto.
Quando vimos, no ultra-som, que vocês estavam ligadas na altura do coração, pensamos em operá-las ainda no útero, mas o medo de perder uma das duas era grande, havia muitos riscos.
Decidimos adiar a separação até que vocês completassem seis meses de vida, mas não foi o que aconteceu.
Vocês foram operadas poucas semanas depois de nascerem.
Você e Bruna estavam ligadas por uma veia que fazia uma espécie de transfusão, levando o sangue dela para você.
Não queríamos operar, não tão cedo, mas não tivemos escolha.
Bruna estava muito anémica, ia morrer de qualquer jeito.
A solução foi arriscar e autorizar a cirurgia.
Infelizmente, ela estava muito fraquinha e não resistiu.
— Ela morreu, e eu sobrevivi — Alicia constatou com pesar.
Ela morreu para que eu pudesse viver.
— Não é bem assim.
Ela morreu porque estava muito fraca.
— Porque eu lhe roubei o sangue.
— Você era um bebé.
Não teve culpa nenhuma.
— Mesmo assim. Estou viva graças à morte de minha irmã.
— Você está viva porque era mais forte, porque desejou viver, porque Deus assim o permitiu.
Não entre nessa de culpa, minha filha, não por algo que aconteceu quando você era recém-nascida e sobre o qual não tinha nenhum controle.
Não seja orgulhosa a esse...
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 07, 2016 9:11 am

— Orgulhosa? Chama isso de orgulho?
Estou me sentindo péssima.
— É orgulho, na medida em que você pensa que poderia ter o domínio de algo que estava totalmente fora de suas mãos.
Você não tem o poder de decidir sobre quem vive e quem morre.
— Não fui eu que decidi. Foram vocês.
— Foi a vida.
Alicia se levantou lentamente.
O pai tinha razão.
O que ela, um bebé recém-nascido, poderia ter feito para salvar a vida de outro bebé?
— Por que não me contaram antes?
— O que você disse ainda agora? — Alicia o olhou em dúvida.
Que estava péssima.
E agora, que já tem maturidade.
Imagine saber disso quando ainda era muito jovem?
Será que não ia dar um nó nessa cabecinha?
— Tem razão, pai — concordou ela, abraçando-o com carinho.
Você e mamãe não têm culpa de nada. Ninguém tem.
— Fico feliz que pense assim.
Nós rezamos muito por ela, pedimos a Deus que a levasse para um bom lugar.
— Vou fazer isso também... — Alicia parou de falar, horrorizada com a ideia que brotara em sua mente.
Mas pai, e se ela ainda estiver viva?
— Isso não é possível.
Vi seu corpinho inerte e frio.
— O que teria acontecido se ela tivesse sobrevivido?
— Não sei. Talvez desenvolvesse algum tipo de cardiopatia grave.
— Mas eu não tenho nada.
— Graças a Deus, você era mais forte.
— Acho que Bruna pode ter sobrevivido.
— Não pode. Eu estava presente quando ela foi cremada.
Eu mesmo espalhei suas cinzas sobre o mar.
— Você viu o corpo de uma criança.
E se não era Bruna?
— Deixe de loucura, Alicia.
Sua imaginação está indo longe demais.
— Talvez ela esteja por aí, em algum orfanato.
— Você acha que eu teria abandonado minha filha doente? — Celso contrapôs, aborrecido.
— Não, claro que não. Mas essa moça dos meus sonhos...
— Não sei quem ela é, mas, com certeza, não é a Bruna.
— E se o médico tivesse errado e dado a menina como morta, deixando-a cheia de sequelas?
Não ia querer trocar o bebé e esconder seu erro?
— Médico nenhum faz isso.
— Mas digamos que esse faça.
— Não acredito nisso.
Você está tentando se convencer de uma impossibilidade.
Ainda não existe cura para a morte.
Morreu, não volta mais.
Não no mesmo corpo nem na mesma vida.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:37 am

A voz do pai foi sumindo na lembrança, ao mesmo tempo em que a imagem subtil de seu fantasma reaparecia.
Vira-a nitidamente através de uma janela invisível no restaurante.
Foi muito breve, uma fracção de segundos, até que ela retornou ao presente, atraída pela voz de Juliano:
- Alicia! Alicia! Está tudo bem?
A muito custo, Alicia conseguiu focar a visão no interlocutor.
Parado à sua frente, Juliano tentava despertá-la de seu aparente transe.
— Juliano! — Alicia exclamou, sentindo uma pontada de dor de cabeça.
O que foi que houve?
— Você estava ausente outra vez.
Estou começando a me preocupar.
— Você não sabe o que aconteceu — comentou ela, sem crestar atenção à preocupação do marido.
— Espero que você me conte.
Não foi para isso que me chamou para almoçar?
Em detalhes, Alicia narrou tudo, culminando com a desconfiança de que a irmã poderia ainda estar viva.
— Essa história é realmente fantástica.
Você, gémea siamesa.
Jamais poderia imaginar.
— Nem eu, mas é a realidade.
E se Bruna ainda estiver viva, pretendo encontrá-la.
— Acho que você está imaginando coisas.
Não tem como essa menina ter sobrevivido.
— Por que não?
O médico ia querer acobertar o seu erro.
— Correndo o risco de ser preso? Acho que não.
— Mas eu tenho sonhado com essa moça.
E, se quer saber, acabei de vê-la agorinha mesmo.
— De novo?
— Como vejo você.
E, mais uma vez, estava acordada, não dormindo.
Ainda não convencido, Juliano fitou-a.
Ela parecia perturbada, inflexível.
— Muito bem — tornou Juliano.
Se essa moça que você viu é sua irmã gémea, então, ela deve ser igualzinha a você. Ela é?
Alicia pensou por alguns instantes, buscando uma semelhança entre ambas, qualquer uma.
Ao final de um tempo, admitiu:
— Não. Na verdade, ela não se parece nada comigo.
Acho até que é mais bonita.
E mais jovem também.
— Viu só? Ela não poderia mesmo ser sua irmã.
— Mas os sonhos são confusos, misturam-se com outras coisas.
— Você acabou de dizer que estava acordada quando a viu.
— Eu posso ter me confundido.
Posso ter cochilado momentaneamente.
— Você parecia em transe.
Chamei seu nome várias vezes e você não ouviu.
Podia mesmo ter sonhado, mas isso não significa que seu sonho seja real e que ela seja sua irmã.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:37 am

— Mas Juliano, você não entende!
— Entendo que isso pode virar uma obsessão.
Não será mais provável que o que você esteja vendo seja o espírito de Bruna?
Já pensou nisso?
— Ou então, meu pai pode mesmo ter tido uma filha com outra mulher.
— Você não acha que está julgando mal o seu pai?
Se fosse isso, ele lhe teria dito.
Você está exagerando, Alicia.
Se essa moça existisse de verdade, já teria aparecido.
Na minha opinião, ela é um espírito.
— Ela é o meu fantasma.
Aonde vou, sua imagem me acompanha.
— Desligue-se disso.
Não gere uma obsessão desnecessária.
Já basta o Tobias.
— Você tem razão.
Estou mesmo obcecada por essa moça.
Mas por Tobias, não.
— Para que fui tocar no nome de Tobias?
— Porque você, no fundo, sente por ele o mesmo que eu sinto.
— De onde tirou essa ideia?
— Não é verdade?
— Você está ficando doida — gracejou.
Acho melhor pararmos por aqui.
Com irmã ou sem irmã, com Tobias ou sem Tobias, a verdade é que amo você.
Juliano conseguiu o que queria:
desviar o pensamento da esposa daquela ideia fixa de irmã perdida e de Tobias.
— Também amo você — falou Alicia, emocionada.
— Vamos ter nossos próprios filhos, e você vai se esquecer desses sonhos malucos.
— Acha que é isso que são?
Sonhos malucos decorrentes da minha dificuldade de engravidar?
— Quem garante que não são?
Você quer tanto ser mãe que já está vendo sua filha adulta.
— Era só o que me faltava, Juliano!
Você tem cada ideia...
— A ideia é termos nosso próprio bebé.
Por que não vamos para casa tentar?
O olhar de Alicia foi de esperança e dúvida. Sempre era.
Fazia alguns anos que ela vinha tentando engravidar, sem sucesso.
Como o pai era especialista no assunto, pediram sua ajuda.
Celso fizera todos os testes, tanto nela quanto em Juliano, constando que nenhum dos dois possuía qualquer problema físico que os impedisse de gerar filhos.
A explicação mais plausível era que ela andava muito ansiosa.
O pai dissera que a ansiedade podia levar a uma dificuldade meramente psicológica.
Era preciso ter calma, relaxar e esperar.
No tempo certo, a fecundação aconteceria.
Seria mesmo? Agora que sabia que sua irmã morrera por sua causa, não seria essa dificuldade decorrente de alguma espécie de culpa inconsciente?
Alicia não acreditava em punição. mas não podia negar o efeito devastador da culpa na vida das pessoas.
O facto de Alicia ser ainda um bebé quando Bruna morrera não a impedia de sentir-se culpada.
Afinal, dividira o corpo com a irmã desde o ventre da mãe. De alguma forma, estavam ligadas e seriamente comprometidas por laços do passado.
O que ela precisava era encontrar um jeito de fazer as pazes com sua própria consciência, para que seu corpo se sentisse livre e merecedor de gerar, por si mesmo, uma criança.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:37 am

Capítulo 14

As palavras de Eva ressoaram na mente de Celso pelos dias que se seguiram.
Nada do que ela dissera fazia sentido, contudo, sabia que a esposa não mentira.
Tobias devia mesmo ter ameaçado contar a verdade às filhas.
O que ele não entendia era o porquê daquela mudança súbita de opinião.
O jeito era procurá-lo para esclarecer as coisas.
Com certeza, Tobias devia ter um motivo bastante razoável para justificar o que parecia ser uma loucura.
O amigo, porém, não aparecia no trabalho desde o dia em que conversara com Eva, alegando que estava doente.
Celso sabia que não era propriamente verdade, embora acreditasse que aquela história de chantagem, se verdadeira, não devia estar lhe fazendo bem.
Ligou para Tobias várias vezes e, em todas, ele dizia a mesma coisa:
que estava doente, sem disposição para conversar.
Até que, no sábado, Celso não aguentou mais esperar.
Tobias estava evitando, provavelmente, para não explicar sua atitude precipitada.
Sendo assim, não lhe restava alternativa senão ir procurá-lo em sua residência.
Tobias atendeu à porta de roupão, com ar sonolento, mas não deu mostras de surpresa.
— Bom dia, Celso — Tobias cumprimentou, dando passagem ao outro.
Não quer entrar?
— Lamento incomodá-lo em sua casa tão cedo no sábado, mas preciso muito falar com você.
— Tudo bem. Vou preparar um café.
Celso acompanhou-o até a cozinha, sentando-se numa banqueta defronte ao pequeno balcão.
— Você anda estranho — observou Celso.
Está mesmo doente?
— Não. Lamento pela mentira.
— Foi o que imaginei.
Mas por quê, Tobias?
— Você sabe.
— Sei?
— Se não soubesse, não estaria aqui.
É por causa da minha conversa com Eva, não é?
— Ela disse que você a chantageou. É verdade?
— Não exactamente.
— Não? Então, o que você quis dizer com:
“O preço do meu silêncio é deixar a mim e a Denise em paz”?
— Foi apenas um blefe.
— Um blefe? Como assim?
— Eva está me pressionando — afirmou Tobias, com certa inquietação.
Quer que eu desista de Denise a todo custo.
— Que eu saiba, você e Denise estão brigados.
Ao menos, foi o que Eva deu a entender.
— Nós não brigamos, propriamente.
Ela falou em paixão, e eu me apavorei.
Ela ficou magoada, com razão, e foi embora aborrecida.
Desde então, não temos nos falado.
— E Eva se aproveitou disso para sugerir que vocês não se encontrassem mais.
— Mais ou menos isso.
Só que não posso concordar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:37 am

Quero me desculpar com Denise, quero mesmo.
Mas Eva está me pressionando.
Então, a maneira que encontrei de encerrar o assunto foi fingir uma chantagem.
Como sei que Eva não vai contar a verdade a elas, pensei que talvez me deixasse em paz se eu fingisse que contaria.
Mas é claro que não tenho a menor intenção de fazer isso.
Como eu lhe disse, estava blefando.
— Não sei se essa foi a melhor maneira de se livrar da pressão de Eva.
Acho que só serviu para deixá-la desesperada.
— Eu também estou desesperado.
Sei que, muito provavelmente, Denise está sofrendo, com raiva de mim, e não posso me desculpar?
— Não me leve a mal, Tobias, mas acho que, quanto a isso, Eva não tem culpa.
Você não se desculpou com Denise porque não quis.
Eva, por mais que queira interferir, não tem esse poder.
— Talvez você tenha razão.
Mas é que me sinto culpado em relação a Eva.
Não sei explicar.
É como se a permissão dela fosse um sinal de que me perdoou.
— Não é dessa maneira que se busca o perdão de alguém.
O que se consegue com chantagem é raiva e rejeição.
O que me parece é que você está usando Eva para justificar suas atitudes.
Você agiu mal com Denise e quer dizer para si mesmo que o fez por interferência de Eva, quando não foi.
Você agiu mal com Denise por medo de si mesmo.
Tobias serviu o café em silêncio, remoendo as palavras do amigo.
No fundo, Celso tinha razão.
— Acho que sou mesmo um covarde — reconheceu.
— Acho que você sente pena de si mesmo.
Fez uma escolha difícil no passado, pela qual sou eternamente grato, mas não consegue se libertar dos efeitos que essa opção trouxe para você.
— Eu nunca o culpei — Tobias afirmou, convicto.
— A mim, não.
Na verdade, você sempre culpou a si mesmo.
Por que, é que não entendo, já que o maior culpado de tudo fui eu.
— Não é assim que eu penso.
Cada um de nós fez suas escolhas e teve de conviver com elas.
Mas você tem razão quando diz que não consigo me libertar das que fiz.
Até hoje, estou tentando superar isso, mas creio que nunca irei realmente esquecer tudo o que aconteceu.
São tantos segredos guardados que tenho medo de que eles escapem todos ao mesmo tempo.
Seria como abrir uma caixa de Pandora.
— Talvez a caixa de Pandora já tenha sido aberta.
— Como assim?
— Alicia me procurou.
Tem tido uns sonhos estranhos com uma moça e cismou que ela poderia ser sua irmã.
Confrontou-me não tive escolha:
contei-lhe sobre Bruna.
— Tudo?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:38 am

— Não. Falei da ligação entre elas, da veia em comum e da cirurgia de separação, que levou à morte de Bruna.
Mas quanto tempo você acha que vai levar até que ela descubra todo o resto?
Nada foi feito em segredo.
Toda a imprensa da época noticiou o acontecido.
— Então, não vai demorar muito até que ela saiba de tudo... ou quase tudo.
Isso vai fazer Alicia me odiar ainda mais.
— Vê, meu amigo?
Com ou sem chantagem, a verdade começa a vir à tona.
Esse é apenas o fio da meada.
Em breve, todo o novelo estará desfiado.
— Já disse que a chantagem foi um blefe.
— Blefe ou não, o resultado será o mesmo.
Começou com a descoberta das xifópagas e vai terminar você sabe como.
Tudo está entrelaçado.
Não há como descobrir uma coisa sem descobrir as demais.
— Isso me apavora — Tobias sussurrou.
— A mim também.
Mas já está na hora.
Ninguém é capaz de conter o fluxo da vida.
Se a correnteza da vida leva a história para um lado, não há força capaz de barrá-la ou desviar seu curso.
O máximo que podemos fazer é controlar os efeitos da enxurrada ou, se não der, reparar os estragos.
— Você parece tranquilo em relação a tudo isso.
— E estou. A vida está seguindo seu curso e não há nada que eu, você ou Eva possamos fazer para impedir.
— E agora, Celso?
Se sua preocupação é com Eva, como ela vai ficar diante dessa avalanche?
— Como todos nós, ela vai ter que enfrentar e conviver com isso.
— Se é assim, por que está tão preocupado com uma chantagem de mentira?
— Porque não quero que ela tenha mais motivos para odiar você.
— Entendo. Bem, se é assim, diga a ela que você me convenceu, que não vou dizer nada, que não falei sério, que quis apenas assustá-la, qualquer coisa.
— Deixe comigo.
Tranquilizarei Eva e, ao mesmo tempo, lhe contarei sobre os questionamentos de Alicia.
Mais do que nós, ela tem que estar preparada para o que vem por aí.
Havia muito a considerar naquela história; tantos segredos que a verdade acabara se perdendo no meio das mentiras.
Celso se foi, deixando em Tobias a sensação de que um passo em falso na beira do precipício os faria despencar num redemoinho sem volta.
Mais do que nunca, ele gostaria de falar com Denise, de se desculpar, de entender-se com ela.
Pensou em telefonar, mas não teve coragem.
O que lhe diria?
Que sentia muito pela forma como a tratara?
Mais um cliché que cairia no vazio?
Celso, por sua vez, levou consigo o sentimento de inevitabilidade da tragédia que só estava à espera do melhor momento para acontecer.
Tentou ordenar os acontecimentos, mas eles se misturavam num turbilhão de lembranças e mentiras.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:38 am

Cada vez que tentava remediar um problema, outro se sobrepunha, transformando sua vida numa farsa sem fim.
A estrada parecia escura, e a luz no fim do túnel era o brilho da inevitável verdade.
Assim que entrou em casa, encontrou Eva e Denise sentadas no sofá da sala.
Num primeiro momento, sobressaltou-se.
Mas, vendo o ar de felicidade da filha, logo deduziu que nenhuma tragédia havia acontecido, ao menos, por enquanto.
— Posso saber por que tanta animação? — Celso perguntou, beijando as duas no rosto.
— Tenho uma novidade para lhe contar — anunciou Denise, colocando-se de pé diante dele.
— Uma novidade?
Coisa boa, espero.
— Muito boa. Ontem de manhã, fui atender a um anúncio de emprego, e hoje cedo recebi a resposta.
A vaga é minha!
Vou trabalhar nas pesquisas de um laboratório de patologia clínica.
— Denise, isso é maravilhoso! — tornou Celso, com meia alegria.
Merece uma comemoração!
Vamos abrir um champanhe.
— Não está chateado por eu não querer trabalhar com você?
— É claro que não! — interpôs-se Eva, que adorou a ideia de ter a filha longe de Tobias.
Você tem que ter sua própria vida.
— Sua mãe disse tudo — concordou Celso, ciente do motivo do entusiasmo da mulher.
— Fico feliz, pai.
Não é que eu não quisesse trabalhar com você, mas preciso me tornar uma pessoa independente.
Não quero ser apenas a filhinha do dono do laboratório.
— Você jamais seria apenas a filhinha do dono do laboratório.
É inteligente, bem preparada, brilhante.
Tenho certeza de que se destacará em qualquer lugar.
— Obrigada, pai.
— E quando começa?
— Na quarta-feira.
— Muito bem, minha filha. Parabéns.
Beberam o champanhe com satisfação.
Finalmente, um momento de alegria naquela casa, desde que Tobias voltara da Europa.
Mãe e filha, abraçadas, trocavam carinhos e palavras de ternura.
Ver Denise aconchegada nos braços de Eva tornava todos os receios da esposa fáceis de compreender.
Denise se soltou dos braços da mãe para atender ao telefone.
A expectativa se frustrou.
Não era Tobias, era Alicia.
Ligava para saber o resultado da entrevista de emprego.
Enquanto as duas conversavam, Eva fitava a filha com embevecimento.
Era visível o quanto a amava, o quanto amava as duas filhas.
Ao se desviar da moça, seus olhos se cruzaram com os do marido.
Eva bebeu um gole pequeno do champanhe, deu mais uma espiada em Denise, certificando-se de que ela se mantinha absorvida na conversa com a irmã.
Pousou a taça na mesinha e, o mais mansamente possível, aproximou-se dele.
Pondo-se na ponta dos pés, encostou os lábios no ouvido dele, como se fosse beijá-lo.
Em vez disso, cerrou os dentes e, para seu espanto, sussurrou com raiva:
— Que ninguém jamais ouse lhe contar a verdade.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:38 am

Capítulo 15

A segunda-feira foi animada pelo encontro entre Alicia e Denise, que mal conseguia esconder o quanto estava ansiosa para começar no novo emprego.
— Estou tão feliz por você, Denise! — comentou Alicia, com sinceridade.
— Obrigada.
— Como papai reagiu?
— Muito bem. Também ficou feliz por mim.
Brindamos e tudo.
— Que bom. Pensei que ele talvez pudesse ficar frustrado.
Afinal, nenhuma das filhas quis trabalhar com ele.
— E você ainda é arquitecta. Nem biomédica é.
Mas papai não liga para essas coisas.
No fundo, só o que ele quer é que sejamos felizes.
— Tem razão. Por falar em felicidade, como vai seu coraçãozinho?
Denise deu um risinho amargo e retrucou sem ânimo:
— Se está se referindo a Tobias, não sei o que dizer.
— Pois acho bom pensar em algo rapidinho, porque ele está vindo para cá.
Denise levou um susto.
Virou-se para olhar e constatou que Alicia falava a verdade.
Tobias entrou no restaurante e, assim que as avistou, encaminhou-se na direcção da mesa delas.
— Meu Deus, Alicia, o que faço agora? — suplicou.
— Sei lá. Dê-lhe um fora, se não quiser falar com ele.
Ela não teve tempo.
Em poucos instantes, Tobias estava parado junto delas.
Fingindo surpresa, Denise levantou os olhos, mas qual não foi seu espanto ao perceber que ele não olhava para ela, mas para Alicia.
— Boa tarde, moças — cumprimentou Tobias, agora concentrado em Denise.
Essa foi a surpresa mais agradável que tive hoje.
— Como vai, Tobias? — respondeu Alicia, tentando segurar a antipatia.
— Melhor agora, que as encontrei.
Posso juntar-me a vocês?
— Na verdade, já estamos terminando — objectou Denise.
— Não faz mal. Acompanho-as na sobremesa.
Sem cerimónia, Tobias puxou uma cadeira, sentando-se entre as duas mulheres, dividindo seus olhares entre uma e outra.
— O que você quer, Tobias? — Denise reagiu.
— Para ser sincero, falar com você, me desculpar.
As duas sentiram certo mal-estar.
Alicia não queria deixar Denise sozinha com Tobias, mas sabia que era exactamente isso que a irmã desejava.
— Você não precisa falar com ele, se não quiser — alertou Alicia.
— Está tudo bem, Alicia — assegurou Denise.
Não precisa se preocupar.
Quero ouvir o que ele tem a dizer.
— Você é quem sabe — tornou Alicia, limpando os lábios no guardanapo e preparando-se para levantar.
Acho que estou sobrando.
Depois me ligue, viu?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:38 am

Despediu-se com um beijo na cabeça da irmã e um aceno formal para Tobias.
Minutos depois, os dois ainda permaneciam em silêncio.
Tobias queria falar, mas tinha medo de que suas palavras piorassem ainda mais a situação.
Por fim, vendo que Denise não dizia nada, resolveu arriscar:
— Você está muito bonita, como sempre.
— Obrigada.
— Seu pai disse que você conseguiu emprego na concorrência.
Denise sorriu, achando graça na referência.
— Papai é terrível — gracejou, um pouco mais bem-humorada.
Não se trata de concorrência.
— É claro que não.
Ele falou brincando.
Está muito feliz por você. E eu também.
— Obrigada mais uma vez.
— Você não tem por que me agradecer.
Na verdade, Denise, eu é que lhe sou grato... — calou-se, experimentando o efeito de suas palavras.
— Grato por quê?
— Por você ter me dado a chance de estar com você.
Denise sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo.
Quando falou, foi com a voz trémula de quem não tem certeza do que vai dizer:
— Não foi o que pareceu.
— Eu sei, e é por isso que estou aqui, para lhe pedir desculpas por ter agido feito um canalha.
— Canalha, eu não diria.
Agora, um verdadeiro idiota...
— Um idiota também.
— A culpa não foi inteiramente sua.
Eu é que não devia fazer cobranças, ainda mais com tão pouco tempo de convivência.
Mas achei que você gostava de mim.
— Eu gosto. Sério, Denise, gosto de verdade.
— Mas então, por que disse aquelas coisas?
Por que me tratou como se eu fosse uma qualquer, alguém que você conhece num bar e leva para a cama somente por uma noite?
— Me desculpe.
Eu fiquei confuso, você me pegou de surpresa.
Que homem, na minha idade, poderia acreditar que uma moça linda feito você se apaixonaria por ele?
— Qualquer um que não seja um idiota.
— Isso, insista.
Já me convenci de que sou mesmo um idiota.
Mas tente se colocar no meu lugar.
Quando você me falou que estava apaixonada por mim, me dei conta de que eu estava transando com a filha do meu melhor amigo e que bem poderia ser minha filha também.
— Acontece que eu não sou.
Há uma grande diferença entre ser e poder ser.
— Eu sei, perdoe-me.
Sei que fui preconceituoso comigo mesmo.
Agi muito mal, tratei-a com desrespeito, grosseria e rispidez.
Você nem imagina o quanto estou arrependido.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:39 am

— Está mesmo?
— Se não estivesse, não teria vindo até aqui falar com você.
Por favor, Denise, acredite em mim.
Perdoe-me. Gosto de você, gosto mesmo.
— Também gosto de você.
Mas isso não é nenhuma novidade.
— Se gosta de mim como diz, tente me perdoar.
Senti muito sua falta e quero ficar com você.
Quero que nosso relacionamento dê certo.
— Não vai ficar paranóico por causa da diferença de idade?
Nem porque é amigo de meu pai?
— Não. Isso foi besteira minha.
Quero você. Você é tudo o que importa.
Os olhos dela brilhavam tanto, que Tobias não teve mais dúvidas.
Segurou-lhe o queixo com delicadeza e beijou os lábios de Denise com ternura.
Ela correspondeu sem relutância, sentindo a emoção percorrer seu corpo como um raio fulminante despencando do céu.
— Ah, Tobias, você nem sabe o quanto esperei por esse momento.
— Quer dizer então que estou perdoado?
— Totalmente. Vamos esquecer o que aconteceu e começar tudo de novo.
— Está disposta a enfrentar sua família por minha causa?
— Não preciso enfrentar ninguém.
Meu pai gosta muito de você.
— Infelizmente, não podemos dizer o mesmo de sua mãe e de Alicia.
Ouvi-lo pronunciar o nome da irmã causou-lhe um certo aborrecimento.
Queria perguntar-lhe por que se incomodava tanto com Alicia, mas achou melhor não dizer nada por enquanto.
Não queria parecer ciumenta nem possessiva.
— Elas vão acabar aceitando — disse com tranquilidade.
— Vamos deixá-las de lado, por enquanto.
O que me interessa neste momento somos nós dois.
Realmente, para Denise, nada mais importava.
Gostava tanto de Tobias que era como se não fosse a primeira vez que estavam juntos.
Beijá-lo era como reviver um sonho de pura alegria.
Agora que tinham feito as pazes, ela podia dar vazão àquele sentimento e assumir que o amava.
Após o bem-sucedido reencontro, Tobias voltou para o laboratório, e Denise partiu para o trabalho da irmã.
Encontrou-a entre maquetes e projectos, atenta ao desenho de uma casa.
— Já? — indagou Alicia, levantando os olhos da prancheta.
Então? Como foi?
— Maravilhoso!
— Vocês voltaram?
— O que você acha?
— Tem certeza do que está fazendo? — Alicia não conseguiu evitar.
Tobias já lhe fez uma tremenda grosseria.
Vai correr o risco de ele lhe fazer uma segunda?
— Ele não vai fazer.
E você devia parar de ser tão implicante.
Tobias nunca lhe fez nada.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:39 am

— Eu sei. Não sei explicar de onde vem essa antipatia, mas ela existe.
— Deve ser de outra vida. Não importa.
Você vai aprender a gostar de Tobias.
— Será?
— Tenho certeza.
Ele é um homem muito especial.
Alicia tinha suas dúvidas, contudo, não queria estragar a felicidade da irmã, ainda mais porque não encontrava motivos concretos para não gostar de Tobias.
Contada a novidade, Denise se foi, feliz como nunca estivera.
Tão feliz que Alicia não teve coragem de lhe contar sobre Bruna, ia aproveitar o almoço para dar-lhe a notícia, mas a chegada repentina de Tobias a impedira.
Bruna roubou seus pensamentos.
Ainda achava que a garota de seus sonhos podia mesmo ser sua irmã.
Aquela era uma história escabrosa, que merecia ser desvendada por inteiro.
— Quer saber? — pensou alto.
Vou investigar essa história por mim mesma.
Se meu pai teve outra filha, vou descobrir, se está viva ou morta.
Largou tudo e foi para o tablet, por onde começaria suas investigações.
Não seria difícil encontrar notícias sobre gémeas xifópagas ligadas pelo coração.
Realmente, foi até bem fácil.
Um caso como o seu não era muito comum naqueles dias.
Por isso, logo encontrou o que procurava.
Mas não apenas isso.
Encontrou algo muito além de suas suspeitas, algo que só fez aumentar sua antipatia por Tobias.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:39 am

Capítulo 16

Quando, finalmente, chegou o dia do primeiro encontro com Lafayete, Jaqueline não sabia o que esperar.
Teve que aguardar quase um mês para que ele a chamasse.
Durante esse período, Cezar a procurou algumas vezes, para levar-lhe roupas e dar-lhe algumas instruções.
— Se você agradar o doutor, ele irá colocá-la em um pequeno apartamento na Vila Isabel — anunciou Cezar.
— Não sei onde fica isso.
— Fica na Zona Norte.
Você vai gostar.
É um lugar de gente decente.
— É onde tem a escola de samba?
— É, sim — Cezar riu.
Jaqueline gostou da ideia.
Não tanto por ser o bairro de uma grande escola de samba, mas, principalmente, porque era um lugar de gente decente.
Como ela gostaria de fazer parte de um mundo decente!
— Virei buscá-la amanhã — prosseguiu Cezar.
Às dez em ponto, estarei à sua porta.
Vista o vestido branco que lhe dei.
O doutor adora mulheres de branco.
— Está bem.
— Use roupas de baixo vermelhas — continuou, não sem certo constrangimento.
O doutor adora o sombreado vermelho debaixo da semi-transparência branca.
— Certo.
— Ah! Já ia me esquecendo.
Os sapatos também têm que ser os vermelhos.
E não use meias.
O doutor não gosta de nada ocultando o caminho.
Jaqueline assentiu.
Pelo visto, o tal doutor era mesmo cheio de fetiches.
Bem, se esse era o máximo da tara que ele possuía, então, não teriam problemas.
— Você parece conhecê-lo bem — a moça observou.
— Bem até demais.
Meu pai e o pai dele trabalhavam juntos, eram amigos.
Quando ele entrou para a política, eu estava iniciando o curso de Direito.
Foi quando ele me convidou para ser seu assessor.
Aceitei e continuei trabalhando para ele, mesmo depois de concluir a faculdade.
— Porquê?
Cezar deu de ombros:
— O salário é bom e gozo de certa liberdade.
Não tenho que ficar batendo ponto.
— Você é mais do que um assessor, não é?
Pelo visto, é secretário, confidente e alcoviteiro.
A observação não lhe agradou.
Cezar a fitou com olhar severo, depois baixou a cabeça e sussurrou:
— Faço o que ele me pede.
Sou bem pago para isso.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:39 am

— Desculpe — Jaqueline se arrependeu imediatamente.
Não devia ter dito isso.
Não é da minha conta.
— Tudo bem. Agora, vou-me embora.
Não se esqueça: amanhã, às dez, estarei aqui.
— Estarei pronta.
No dia seguinte, Cezar chegou pontualmente à hora marcada.
Jaqueline deu um abraço em Maurício, recomendando-lhe que fosse para a cama e não abrisse a porta para ninguém.
— Pode deixar, mana — tranquilizou o garotinho.
Não sou nenhum bebezinho.
Ao entrar no carro, a preocupação de Jaqueline ainda não havia se dissipado.
Pelo resto da noite, manteria o pensamento em Maurício, rezando para que ele ficasse bem.
Ela se sentou ao lado de Cezar, que lhe deu um sorriso amistoso:
— Tudo bem? — perguntou.
— Tudo — respondeu ela, olhando para o lado, a fim de não delatar sua angústia.
Ao olhar pela janela, seu coração quase deu um salto.
Do outro lado da rua, um vulto de homem a fitava, encostado em um poste.
A figura lhe pareceu familiar, contudo, à distância, não pôde ter certeza.
Seria mesmo o Dimas?
Rapidamente, a imagem se desanuviou.
Ela continuou olhando, procurando-o por todos os lados, mas o homem havia desaparecido.
— Aconteceu alguma coisa? — indagou Cezar.
— Não. Estou apenas com medo de não agradar o doutor.
— Não se preocupe com isso.
Faça o que ele mandar e tudo ficará bem.
Jaqueline assentiu, permanecendo em silêncio pelo resto do caminho, absorvida pela beleza da lua, que iluminava a floresta por onde passavam.
Depois de muitas curvas, chegaram à conhecida mansão.
Fora as luzes acesas, não havia nenhum movimento que indicasse estar habitada.
— Chegamos — anunciou Cezar, desnecessariamente.
— O que faço agora?
— Vamos entrar.
Ele a aguarda em seu quarto.
— Você vai me levar até lá?
— Vou.
— Vai participar também?
— É claro que não! — horrorizou-se, enrubescendo.
— Desculpe. É que você faz tudo para ele.
Pensei que talvez tivesse que me provar primeiro.
— Você não é uma iguaria para ser provada — Cezar zangou-se.
E não faço tudo para ele.
Faço apenas o que é parte do meu trabalho.
— Foi o que eu disse.
Cezar não respondeu.
Saltou do carro e, antes que tivesse tempo de abrir a porta para ela, Jaqueline desceu também.
Ela estava realmente deslumbrante.
O vestido branco contrastava lindamente com sua pele morena, deixando entrever formas perfeitamente harmoniosas, mal cobertas pela lingerie vermelha.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:39 am

O segurança abriu o portão, procurando não prestar atenção em Jaqueline.
Entraram. A sala estava vazia, embora uma música suave se espalhasse por todo o ambiente.
— Vamos — Cezar a chamou, puxando-a pelo braço.
É lá em cima.
Subiram sem pressa.
No topo da escada, Cezar apontou o quarto em que ela deveria entrar.
— Você não vai me levar até lá? — Jaqueline questionou, preocupada.
— Não. Daqui em diante, serão só vocês dois.
Voltarei para buscá-la quando o doutor me ligar.
— Sabe a que horas?
— A hora que ele quiser.
Jaqueline achava que aquele doutor devia ser um homem arrogante e metido, que pensava ser o dono do mundo.
E era justamente para aquele homem que ela acabara de se vender.
Bateu na porta e aguardou.
Como ninguém atendesse, testou a fechadura, que girou com facilidade.
Abriu a porta devagar, logo acolhida pela penumbra do ambiente.
— Entre — Lafayete ordenou.
Ela obedeceu.
Entrou sem fazer barulho, lutando para não se desequilibrar em cima daquele salto agulha.
Lampião fizera-a aprender a andar com ele, mas todas as lições, agora, pareciam em vão.
As pernas trémulas quase não davam conta de suster seu corpo, tamanha a aflição que sentia.
Mesmo assim, conseguiu caminhar até Lafayete com passos relativamente firmes.
Ou, ao menos, firmes o suficiente para que ele não percebesse o seu temor.
Olhando na direcção de onde partira a voz, Jaqueline o viu sentado em uma poltrona, bebendo algo que devia ser champanhe.
Era um homem bonito.
— Sirva-se de uma taça — foi a ordem seguinte.
Mais uma vez, ela obedeceu.
Encheu a taça até a metade e bebeu, surpreendendo-se com o sabor refinado da bebida.
Nunca antes havia experimentado algo tão doce.
— Venha até aqui.
Jaqueline foi.
Parou diante dele, o corpo esguio, as pernas agora adquirindo certa firmeza.
— Dê uma volta — falou ele. — Lentamente.
Quando Jaqueline terminou a volta, ele já estava ao lado dela.
Retirou a taça de champanhe de sua mão e beijou-a avidamente.
Surpresa com aquela abordagem directa, Jaqueline recuou.
Lafayete puxou-a com força pela nuca, prosseguindo no beijo sem dizer nada.
Na mesma hora, as mãos do político se aventuraram pelo corpo dela, causando-lhe certo tremor, que logo se dissipou.
Não demorou muito para que as carícias se transformassem em beliscões, e os beijos dessem lugar a mordidas.
Jaqueline tentou protestar, mas Lafayete não lhe deu ouvidos.
Rasgou-lhe o vestido, arrancou sua roupa de baixo com furor, atirou-a na cama como se ela fosse um caixote de cebolas.
Deitado ao lado dela, começou a lhe dar ordens:
faça isso, faça aquilo, sujeitando-a a todo tipo de práticas degradantes.
Ela aguentou tudo com coragem, fingindo não ter orgulho, para suportar melhor a humilhação.
Mas quando ele tentou penetrá-la por trás, todo o horror que vivera com Dimas retornou.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:39 am

— Não — Jaqueline protestou, quase em lágrimas.
Por favor, tudo menos isso.
— Sou eu que mando aqui, garota — foi a resposta seca.
Jaqueline lutou. Não queria, mas não pôde evitar.
Era como se o tio estivesse novamente sobre ela, castigando-a por sua juventude.
Ela tentou se desenvencilhar dele, mas não obteve sucesso.
Mais forte, Lafayete a dominou, empurrando sua cabeça contra o travesseiro, tal qual Dimas fazia.
Ela esperneou, sentindo o ar faltar-lhe nos pulmões.
Percebendo que ela mal respirava, Lafayete afrouxou as mãos.
Não queria correr o risco de sufocá-la.
A relação agora se tornava uma luta.
Jaqueline lutava, desesperadamente, para evitar o que, para ela, era o maior sofrimento.
Tudo em vão.
Quanto mais ela esperneava, mais ele se comprazia.
Parecia mesmo estar gostando do confronto.
Por uns momentos, permitiu-lhe a ilusão da vitória.
Deixou que ela se virasse, encolhida na cabeceira da cama.
— Por favor — balbuciou ela, em lágrimas.
— Por favor o quê? — ele tornou, impassível.
Você é uma piranha, está acostumada a tudo isso.
— Não é verdade.
Tenho minha dignidade.
— Dignidade é algo que você perdeu há muito tempo, minha filha, não se iluda.
Agora, venha cá.
Deixe de besteira.
— Por favor. não...
— Mandei vir aqui — Lafayete ordenou com impaciência.
Obedeça-me!
A luta recomeçou.
Lafayete agarrou-a com força, desferindo-lhe um tapa no rosto.
A esse, seguiram-se vários outros.
À medida que batia, sua excitação aumentava de tal forma que, em meio à violência, conseguiu penetrá-la e alcançar o orgasmo.
A dor só não foi maior do que as lembranças.
Mais uma vez, pareceu-lhe reviver os abusos que sofrera nas mãos de Dimas, bem como as insinuações maldosas da mãe, que sempre a considerara culpada por ser alvo das taras do padrasto.
Lembrar-se deles a fez chorar ainda mais, imaginando como se sentiriam se a vissem naquela situação.
Dimas, na certa, molharia os lábios de cobiça, ao passo que Rosemary diria que ela não passava de uma vagabunda.
Quando Lafayete, finalmente, a soltou, Jaqueline soluçava.
Já havia levado uns tapas de clientes mais rudes, mas aquilo superava toda a brutalidade que podia imaginar.
O mais estranho foi descobrir que o prazer do político vinha da violência, não propriamente do sexo.
— Por que fez isso? — Jaqueline soluçou.
— Porque quis e posso.
Você agora me pertence.
Paguei por você.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 08, 2016 10:40 am

— Isso não vale todo o dinheiro do mundo.
Ele abriu a carteira, retirando várias notas de cem reais de dentro dela e enfiando-as na mão de Jaqueline.
— Não vale? — provocou.
Será que seu irmãozinho não vale um pequeno sacrifício?
Posso dar-lhe muito mais do que isso, custear uma escola de primeira.
Não quer vê-lo na faculdade?
Posso pagar por isso também.
Até em Harvard, se ele quiser.
Jaqueline não sabia o que dizer.
Sentiu vontade de atirar-lhe aquelas notas na cara, mas as palavras de Lafayete ainda ressoavam em seus ouvidos.
Pelo irmão, não valia a pena o sacrifício?
Não valia a pena sofrer para que ele tivesse tudo que ela nunca poderia ter?
Não fora com isso que sonhara, não fora por isso que fugira e se prostituíra?
— O senhor me machucou — ela tentou argumentar.
Agiu feito um cavalo.
Lafayete riu estrondosamente.
Não se importava que o xingassem.
Na intimidade de quatro paredes, até que gostava.
— Isso passa — foi o contra-argumento.
Você é jovem, tem a pele viçosa.
Logo, logo, vai se esquecer.
Bom, agora chega de conversa.
Tenho que ir embora.
Você tem o telefone do Cezar.
Peça a ele para vir buscá-la.
Ele partiu, deixando-a com o dinheiro na mão.
Jaqueline sentiu-se a pior das prostitutas por aceitar aquela humilhação sem precedentes.
Estava acostumada a vender o corpo.
Parecia que agora vendia também o respeito que ainda tinha por si mesma.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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