A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:09 am

Capítulo 17

Assim como o marido, Sofia também possuía seus métodos para conseguir o que queria.
Se Lafayete tinha um homem de confiança, ela também.
Estava disposta a descobrir quem era a amante do marido, a qualquer preço.
Para isso, podia contar com seu segurança pessoal.
Fábio a amava em segredo e ela sabia.
Mais do que um segurança, era praticamente um secretário muito dedicado, que a acompanhava por todo lado, cuidando de seus compromissos, organizando, como devia ser, a agenda da esposa de um político, cujo objectivo maior estava assentado nos valores da família.
Fábio a encontrou em seu gabinete particular, estudando sua agenda de compromissos para aquela semana.
— Boa noite, Sofia.
Mandou me chamar? — indagou ele.
— Mandei. Por favor, entre e feche a porta.
Fábio obedeceu, postando-se defronte a ela.
Sofia saiu de trás da mesa, para sentar-se no sofá.
Com um gesto, chamou Fábio para que ele se sentasse a seu lado.
— O que tem na mão? — indagou ela, notando o bloco de desenhos que ele carregava debaixo do braço.
Outro retrato meu?
Fábio sorriu meio sem jeito e lhe apresentou o desenho.
Era uma gravura muito bem-feita do rosto de Sofia, uma das muitas que ele desenhava em seu tempo vago.
— Fiz para você — disse ele, timidamente.
— Você devia ser desenhista, em vez de segurança.
— Isso não dá para nada.
— Sei. Bom, agradeço mais esse — disse Sofia, devolvendo-lhe o bloco e, em seguida, baixando a voz:
— Quero que você faça uma coisa para mim.
É segredo, ninguém pode saber.
— O que você quiser — tornou ele, feliz por dividir os assuntos de Sofia.
— Quero que você siga uma pessoa.
— Quem?
— Meu marido.
Fábio abriu a boca, atónito.
Podia esperar qualquer coisa, menos aquilo.
— Ficou louca?
Seu marido me conhece. Ele vai me ver.
— Hoje em dia, isso não é problema.
Você pode colocar um GPS no carro dele.
— Como acha que vou fazer isso sem ser descoberto?
— De madrugada, é claro.
Assim que ele chegar de uma de suas costumeiras farras.
— Jonas vai me ver.
— Espere até ele ir para casa.
— Não me leve a mal, Sofia, mas por que não contrata um detective?
— Não posso.
Meu marido é um homem público.
Não quero dar a ninguém a chance de me chantagear.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:09 am

— Chantagear com o quê?
— Você sabe, Fábio.
Pode não andar com ele, mas não é cego nem burro.
É claro que Igor tem uma amante.
Sua função será descobrir quem é ela, com o máximo de discrição possível.
— Para que você quer saber isso?
— Quero falar com a vagabunda, oferecer-lhe dinheiro para tirá-la do meu caminho.
— E você acha que isso vai dar certo?
— Por que não?
Não é o que todo mundo quer?
Dinheiro?
— Acho isso uma loucura.
E de que vai adiantar?
Se você cota uma amante para correr hoje, amanhã ele arranja outras duas.
— Pode ser, mas tenho que tentar.
Não aguento mais as humilhações que ele me faz passar.
— Por que não se divorcia dele?
— Você sabe que não posso.
Existem muitos factores em jogo.
— Ele quer fazer parecer que possui a família perfeita.
Mandou os filhos para Londres, mal fala com a esposa.
Não acha que ele merece uma lição?
— Desde quando divórcio é lição?
— Desde o momento em que ele pode perder o prestígio e metade de seus bens.
— Você não está entendendo, Fábio.
Não quero deixá-lo.
Quero que ele volte para mim.
Quem sabe, se eu me fizer mais bonita, mais sensual, ele não volte a se interessar por mim?
— Você está se iludindo.
Só isso não basta.
— O que quer dizer?
Do que mais eu preciso? — ele abaixou a cabeça e não respondeu.
Você sabe de alguma coisa que eu não sei.
O que é? Diga-me, eu exijo.
— Não é nada.
— Não sou tola, Fábio.
Ou será que você está se referindo ao facto de que eu não seria mais capaz de despertar o interesse de um homem?
— Não é nada disso — desculpou-se, embaraçado.
Você está muito bem...
— Então, o que é?
— São só comentários...
— Que tipo de comentários?
Quero saber.
— Bom, dizem que ele tem uma particularidade muito especial.
— Que particularidade seria essa?
— Corre o boato de que ele gosta de garotas jovens...
— Isso não é nenhuma novidade.
O que mais?
Ande, Fábio, estou esperando.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:09 am

— Muito bem.
Se você insiste.
A verdade, Sofia, é que todo mundo sabe que seu marido gosta de espancar mulheres.
É o que lhe dá prazer.
Ela jamais se esqueceria do choque que aquelas palavras lhe causaram.
Sempre notara certa agressividade nos gestos sexuais de Lafayete, mas nunca lhe passou pela cabeça que o sadismo o excitasse.
— Quem disse uma barbaridade dessas? — retrucou, enfurecida.
Foi o Cezar?
— Cezar não abre a boca.
Ouvi Lafayete conversando com Jonas, o motorista.
Parece que uma das garotas que apanhou ameaçou ir à polícia, mas levou uma grana para ficar quieta.
É assim que ele sempre as silencia. Com dinheiro.
Sofia levou a mão ao peito dolorido.
Queria satisfazer o marido, mas aquilo já era demais.
Sujeitar-se a apanhar só para agradá-lo estava muito além do amor.
Contendo a perplexidade, conseguiu se controlar.
— Mais um motivo para você fazer o que eu disse — ordenou, com a voz trémula.
Sabe-se lá o que essas mulheres são capazes de fazer.
— Você só vai enfurecê-lo.
— Não, Fábio, vou ganhar essa batalha.
Você vai ver.
Encarregado da compra do GPS, demorou um pouco até que Fábio conseguisse um bom aparelho pela internet.
De posse do dispositivo, aguardava a chegada de Lafayete, sentado no carro novo que Sofia comprara.
Mesmo com sono, não desgrudava os olhos da rua.
Achava aquele plano uma loucura, mas não podia falhar com ela.
Foi difícil atravessar aquela noite.
Fitando o branco do tecto do quarto, Sofia não conseguia pegar no sono.
A todo instante, consultava o relógio, sobressaltando-se a cada virada de hora.
Meia-noite chegou, depois uma, duas, três horas da madrugada.
Quando, finalmente, ouviu o carro do marido entrando na garagem, já eram quase cinco horas.
Uma euforia sem precedentes apossou-se de todo o seu corpo.
A perspectiva de que, daquele dia em diante, teria conhecimento de todos os passos do marido causou-lhe grande excitação.
Àquela hora, Fábio devia estar aguardando do lado de fora, pronto para instalar o GPS no carro de Lafayete.
Sabia que o melhor era ficar quieta, todavia, por mais que tentasse, não conseguiu se conter.
Ao perceber a entrada sorrateira do marido, seu corpo saltou quase que automaticamente.
Ela acendeu a luz do abajur e sentou-se na cama, braços cruzados sobre o peito.
— Já acordada a essa hora, querida? — perguntou ele, sobressaltado.
Ou ainda não conseguiu dormir?
— Não seja cínico, Igor.
Onde você estava?
Por que não atendeu o celular?
— Em uma reunião com políticos.
Não ouvi o celular tocar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:09 am

— Que reunião é essa que vara a madrugada?
— Bom, no final, a reunião deu lugar à descontracção.
Terminado o assunto oficial, vieram o papo, as bebidas...
— As mulheres — acrescentou Sofia.
— Nada de mulheres. Éramos todos homens.
— Quer que eu acredite nisso?
— Para falar a verdade, Sofia, pouco me importa no que você acredita.
A verdade é essa.
Se não quer acreditar, o problema é seu.
— Até quando você acha que poderá continuar me humilhando desse jeito?
A mim você não procura mais.
Só pode estar com mulher na rua!
— Não tenho mulher alguma.
— Então, por que não me procura?
Perdeu o interesse por mim?
— Isso não é hora de termos essa conversa.
Mais tarde, com mais calma, voltaremos ao assunto.
— Não! Tem que ser agora.
Não aguento mais você chegando em casa tarde da noite, cheirando à bebida e a sexo!
Responda-me: você perdeu o interesse por mim?
Lafayete quase a fulminou com o olhar.
Sentiu tanto ódio da mulher que poderia esganá-la.
Não suportava mais suas queixas nem vê-la mendigando seu amor.
Não sentia mais nenhum desejo por ela, não aguentava sequer olhar seu corpo flácido, cheio de celulites.
Se a tolerava, era em nome de sua carreira política.
Um homem que defendia os valores da família não podia ser divorciado.
— Quer mesmo saber, Sofia?
Tem certeza de que está pronta para ouvir a resposta a essa pergunta?
Ela titubeou, só agora percebendo que tinha medo da resposta.
Não queria separar-se dele.
Quando se casara, o fizera por amor, certa de que ele a amava também.
Foi duro perceber que ele só aceitara desposá-la porque o pai de Sofia o estava iniciando na política.
Ela sabia que ele tinha amantes, mas não podia deixá-lo perceber isso.
Se tal facto acontecesse, ver-se-ia forçada a tomar uma atitude que não desejava.
Ou aceitava tudo passivamente, assumindo o papel de mulher burra e submissa, ou pedia o divórcio, coisa que estava totalmente fora de seus planos.
— Por que me trata assim, Igor?
Eu o amo tanto!
— Também a amo — Lafayete mentiu, de forma pouco convincente.
Mas não posso ficar à sua disposição.
Meu compromisso é com o povo.
O resto pode esperar.
— Quero apenas um pouco de atenção.
Custa você me dar?
— Dou-lhe a atenção que posso.
Você está é mal-acostumada.
Quer exclusividade em tudo.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:09 am

— Isso não é verdade.
Sei que você é um homem importante e tem muitos compromissos, mas sou sua mulher.
A não ser que você queira o divórcio.
Sofia disse aquilo morrendo de medo de que ele concordasse.
Sabia, porém, que manter a imagem de família perfeita era importante para agradar seu eleitorado.
— Não se trata disso — rebateu alarmado, sem saber se Sofia blefava.
Só lhe peço um pouco de compreensão.
— Mais? Tudo o que lhe dou é compreensão.
E espero, espero, espero.
Mas você não volta para mim.
— Pare com isso, Sofia.
Essa conversa já está ficando melosa demais.
— Tudo o que eu quero é me sentir sua mulher novamente.
Quando você vem, sinto-me uma estranha ao seu lado.
Não acha que seria natural você me procurar após uma semana inteira longe de casa?
Lafayete a encarou com repulsa e certo receio.
Jamais permitiria que ela o deixasse.
Sofia era sua mulher e devia cumprir bem o seu papel de esposa.
E havia ainda a questão dos bens...
— Você tem razão, querida — disse ele, exibindo um ar de falsa compreensão.
Tenho trabalhado demais e negligenciado meus deveres de marido.
Mas não se preocupe.
Prometo que mais tarde vou compensá-la por tudo.
Sofia mal acreditava.
Quando ele se aproximou para beijá-la, ela correspondeu como um autómato, ainda não recuperada da surpresa.
Mas quando ela tentou abraçá-lo e puxá-lo para a cama, Lafayete gentilmente afastou seus braços, protestando com mal disfarçada doçura:
— Hoje não, meu bem.
Estou mesmo muito cansado. Amanhã.
Sofia não tinha escolha, a não ser se contentar com aquele beijo insosso, ao menos por ora.
Faltava muito pouco para que toda aquela sucessão de traições acabasse.
Se Fábio conseguisse colocar o GPS...
Ela se levantou para ir ao banheiro, parando à janela no caminho.
O marido dormia ou fingia dormir, ressonando discretamente.
Ela puxou a cortina para o lado, espiando para fora.
Da janela de seu quarto, não dava para ver a garagem, que ficava nos fundos da casa.
Por instantes, o pensamento se desviou de Lafayete para se concentrar em Fábio.
O segurança precisava ser esperto, para driblar a vigilância de Jonas e instalar o maldito GPS.
Havia dias em que o motorista, cansado, não ia para casa, preferindo dormir no quartinho em cima da garagem.
Ela não sabia se Jonas havia ficado ou ido embora.
Chegou a apanhar o celular para ligar para Fábio, mas poderia delatá-lo.
O jeito era esperar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:10 am

Capítulo 18

Pouco depois que Lafayete saiu, Cezar chegou para buscar Jaqueline.
Encontrou-a ainda na cama, nua, o corpo todo cheio de hematomas, uma marca roxa embaixo do olho esquerdo e sangue coagulado nos lábios.
Levou um susto.
Decididamente, Lafayete ultrapassara todos os limites.
— Meu Deus, Jaqueline, o que foi que ele lhe fez? — indagou, assustado, desviando o olhar para não ver sua nudez.
— Não me diga que você não sabia — objectou ela, entre a raiva e a mágoa.
Pensa que vai me fazer acreditar que você, que conhece tudo do doutor, não sabia que ele é um cafajeste, covarde, que gosta de espancar mulheres?
Ele fechou os olhos para ocultar a vergonha e o arrependimento.
É claro que sabia, mas o que poderia fazer?
— Perdoe-me... — Cezar balbuciou.
Não queria que isso acontecesse.
Dessa vez, doutor Lafayete foi longe demais.
— Agora entendo o porquê dessa palhaçada toda de consenso, essa história de fetiche, de gostos esquisitos.
Ele tem mesmo um gosto muito esquisito.
Ele gosta de maltratar, de torturar, de humilhar!
De olhos baixos, Cezar não sabia o que dizer, como se desculpar.
Sentiu-se o pior dos cafajestes, pior ainda do que o próprio Lafayete.
— Lamento muito que isso tenha acontecido — falou, com pesar.
— Será que lamenta mesmo?
Você disse que ganha bem a realizar todos os desejos dele.
E que desejos!
— Não é bem assim.
Sou pago para prestar-lhe assessoria...
— Não me venha com essa, pelo amor de Deus!
Você se vendeu, é mais uma das propriedades dele.
Assim como eu... — Jaqueline apontou para o maço de notas pousado na mesinha de cabeceira.
Também me vendi.
Não tive coragem de recusar o dinheiro imundo dele.
Vou suportar todo esse sofrimento em nome da felicidade do meu irmão.
É por ele que faço isso, para que ele tenha a chance que eu não tive.
O doutor prometeu cuidar da educação de Maurício.
É tudo o que me importa, foi por isso que me vendi.
E você? O que ele lhe dá de tão valioso que você aceitou trocar pelo seu orgulho?
— Ele me paga. Que droga, Jaqueline!
Pensa que gosto disso?
Você acha que não sofri, imaginando o que ele estaria fazendo com você?
— Você sabia, não é mesmo?
Sempre soube. Mesmo assim, me trouxe até ele.
E tudo isso por quê? Por dinheiro!
Assim como eu. Ah, eu também me vendi!
Em nome da felicidade de Maurício, vendi o pouco de respeito que ainda me restava.
Não sou melhor do que você.
Somos ambos mercadorias de alto valor.
O que faz esse doutor para pensar que é dono do mundo?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:10 am

— O nome dele é Igor Lafayete.
Ele é deputado federal.
O olhar que Jaqueline lançou a Cezar foi de angústia.
O que ela podia fazer contra alguém tão importante?
Podia ir embora, dar as costas a tudo aquilo e ao dinheiro, e nunca mais aparecer.
Seria outra fuga.
Como se não bastasse fugir do Espírito Santo, para não ser presa pelo assassinato de Dimas, teria ainda que fugir da ira de Lampião, que não ficaria nada feliz com a perda de sua maior fonte de lucro.
— Estou tão cansada! — choramingou ela.
Não aguento mais essa vida miserável!
Tudo o que eu queria era viver em paz com meu irmão.
Mas veja onde vim parar...
Silenciou as palavras com o pranto, que consumiu sua voz e sua coragem.
— Não fique assim — Cezar tentou consolá-la, passando os braços, gentilmente, ao redor dos ombros da moça.
— Ai! — gritou. — Por favor, não me toque.
Estou toda doída.
— Quer que eu a leve a um hospital?
— Para eu expor ainda mais a minha vergonha?
Não, obrigada.
— Alguns hematomas estão muito feios.
— E daí?
E se alguém chamar a polícia?
— Você pode dizer que foi assaltada.
— Não gosto de me envolver com a polícia — finalizou, acabrunhada.
Cezar limitou-se a olhá-la, pensando que ela sentia medo de Lafayete, quando, na verdade, ela temia por si mesma.
No entanto, ele sabia que qualquer suspeita sobre o nome de Lafayete, ainda que se provasse infundada, abalaria sua credibilidade, despertando nele um sentimento afiado de vingança.
Se isso acontecesse, tanto ele quanto Jaqueline podiam considerar-se liquidados.
— Pensando bem, não é uma boa ideia — Cezar confirmou, arrasado.
Você não conhece Lafayete.
Ele é capaz de qualquer coisa para se manter no poder.
— É capaz até de matar?
Cezar titubeou:
— Não sei, sinceramente.
Nunca nos defrontamos com uma situação que exigisse medida tão extrema.
Quero crer que não, mas algo dentro de mim me diz que sim.
— Você é uma boa pessoa, Cezar.
Não tem nada a ver com esse monstro.
Por que se sujeita a isso? — antes que ele respondesse, Jaqueline arrematou:
— Pelo dinheiro, já sei.
Por que dinheiro é tão importante assim?
Você é jovem, tem uma profissão.
Não poderia arranjar outro emprego?
— Tem algo que não lhe contei, Jaqueline.
Algo que me tortura dia a dia e que me faz suportar tudo isso.
Jaqueline o interrogou com o olhar, e ele prosseguiu:
— Quem custeou minha 'acuidade foi o Lafayete.
Naquela época, ele estava começando na política, era deputado estadual aqui no Rio.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:10 am

Meu pai estava atravessando uma fase difícil, e o desespero serviu de pano de fundo para colocá-lo na maior enrascada de sua vida.
— Como assim?
— Meu pai e o pai de Lafayete foram membros da directoria do mesmo banco.
Meu pai tinha um vício terrível:
gostava de apostar em cavalos.
Ganhando ou perdendo, nunca deixou de apostar.
Até que a sorte lhe virou as costas, abrindo caminho para a derrocada.
Meu pai começou a perder.
Quanto mais perdia, mais apostava.
Gastou tudo o que tinha apostado.
Quando perdeu suas últimas economias, voltou-se para a única fonte de dinheiro que lhe parecia disponível.
— O banco — completou ela.
— Não.
O pai de Lafayete havia acabado de falecer.
Achando que poderia contar com o filho tanto quanto julgou que poderia contar com o pai, meu pai confessou seu vício e pediu-lhe dinheiro emprestado.
— É claro que o doutor não emprestou.
— Mas não foi só isso.
O que meu pai não sabia era que o pai de Lafayete vinha desviando dinheiro do banco havia anos.
Ninguém desconfiava, pois as contas todas pareciam em ordem.
Para salvar o nome da família de um possível escândalo, Lafayete teve a ideia de jogar a culpa em meu pai, um homem desesperado, um jogador compulsivo, cheio de dívidas.
Quem não iria acreditar?
— Que horror!
— Foi mesmo um horror.
As provas forjadas contra meu pai eram irrefutáveis.
Ele falsificou livros, recibos e chegou a abrir uma conta na Suíça em nome de meu pai.
Tudo muito bem planeado e executado.
No fim, parecia mesmo que meu pai havia desviado dinheiro para cobrir as dívidas de seu vício.
— E seu pai foi preso?
— Não. Lafayete desistiu da ideia de delatá-lo para me aprisionar.
— Como assim?!
— Imagine o que fiz quando descobri a armação do doutor.
Fiquei furioso, como era de se esperar de um jovem impetuoso.
Fui procurá-lo, ameacei fazer um escândalo e entregá-lo à polícia.
Ele me mostrou as evidências, riu, disse que não adiantaria nada.
Ninguém acreditaria na palavra de um viciado contra a de um deputado de respeito.
Foi então que ele veio com a ideia.
Precisava de alguém de confiança para assessorá-lo.
Na hora, eu não entendi por que ele havia feito aquela proposta.
Lafayete podia ter o assessor que quisesse, qualquer um muito mais bem preparado e mais confiável do que eu.
— Ele fez isso por vingança — sugeriu ela.
— Não. Fez isso porque o pai dele pediu.
— Hã?! Agora mesmo é que não estou entendendo nada.
— Lafayete é meu irmão.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:10 am

— O quê? — tornou, incrédula.
Seu irmão?
Mas então, sua mãe e o pai dele...
— Exactamente. Minha mãe e o pai dele tiveram um caso passageiro.
Minha mãe estava desesperada com a compulsão de meu pai, que já durava alguns anos, e o procurou pedindo ajuda.
Lafayete pai não hesitou:
ofereceu-lhe ajuda, sim, mas na cama.
— Que cretino!
— Não estou dizendo que ele fez tudo sozinho.
Minha mãe já não aguentava mais meu pai e acabou se deixando seduzir.
Ela foi fraca, iludiu-se com os carinhos que ele oferecia e que meu pai lhe negava.
Você sabe como algumas pessoas tentam consertar as coisas quando vêem se aproximar a hora da morte.
Talvez ele tenha pensado que, assim, salvaria sua alma.
Antes de morrer, Lafayete pai confessou ao filho que eu era filho dele também.
Pediu-lhe que cuidasse de mim, que me ajudasse.
Foi o que ele fez.
Sem perder tempo, despejou na minha cara essa verdade terrível, ia fazer a vontade do pai dele e me ajudar, mas queria que eu permanecesse ao lado dele, na certa, para poder me vigiar.
— Espere um pouco.
Você acreditou nisso sem hesitar?
— Não, é claro.
Ele também tinha lá suas dúvidas.
Fizemos um exame de DNA, que constatou que éramos, realmente, irmãos.
— E por conta disso, você está preso a ele até hoje.
— Estou. Ele custeou meus estudos e cuidou da minha família.
Depois de formado, fiz pós-graduação em direito constitucional e administrativo, com mestrado e doutorado em ciências políticas.
Tudo graças à “generosidade” de Lafayete, que, com o tempo, passou a confiar em mim, delegando-me funções cada vez mais importantes.
Transformou-me em seu assessor.
Aceitei tudo sem relutar.
O argumento dele para me convencer era forte.
Se eu o traísse, ele entregaria as provas contra meu pai à polícia e contaria a ele que não sou seu filho.
— Que canalha!
— Compreende agora por que não posso simplesmente me demitir?
— Não me leve a mal, Cezar, mas será que seu pai já não sabe que você é filho do Lafayete?
Não seria melhor você e sua mãe lhe contarem logo?
— Talvez. Mas quanto tempo você acha que meu pai suportaria na prisão?
Ele é diabético, usa um marca-passo, é hipertenso.
— Compreendo seu receio, mas você acabou se tornando praticamente um escravo.
— Não coloque as coisas desse jeito.
Devo a Lafayete tudo o que sou.
Bem ou mal, foi ele quem custeou meus estudos.
E, enquanto o crime de que ele acusa meu pai não prescrever, estou irremediavelmente atado a ele.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:10 am

— Tudo o que ele faz, faz desejando algo em troca.
Ele não age desinteressadamente.
É assim que prende as pessoas.
Descobre seus segredos e desejos para depois comprá-las.
— Sim. Nesse ponto, ele é bastante generoso com seu dinheiro.
— Ele não é generoso, é manipulador.
Essa é a maneira que ele encontrou de controlar as pessoas.
Faz isso porque nós permitimos.
Estamos dando a ele um poder além do que ele necessita.
Se cada um de nós começar a se impor, ele vai ter que parar.
— Falar é fácil, mas não posso.
A vida de meu pai depende disso.
E não posso me esquecer de que ele é meu irmão.
— Sendo assim, você não tem direito ao nome e à herança tanto quanto ele?
— Tenho, mas não me interessa.
Reivindicar um sobrenome e a minha parte na herança não fará nenhum bem a meu pai.
— Ele nem cogitou lhe dar sua parte, pelo menos?
— É claro que não!
Não pode nem ouvir falar disso.
— Engraçado, esse doutor Lafayete.
Para chantagear você, ser seu irmão interessa.
Agora, para dividir o dinheiro que também lhe pertence, não quer reconhecê-lo como irmão.
— Lafayete é assim mesmo.
Age movido por seus próprios interesses.
No fundo, sabe o poder que tem.
— E por causa disso, você prefere se deixar chantagear e compactuar com as barbaridades que ele faz — rebateu, subitamente irritada.
Você é tão culpado desses meus hematomas quanto ele.
Talvez até mais.
Está na cara que esse homem é doente.
Mas você age por vontade própria, mesmo sabendo o que vai acontecer.
— Sinto muito — Cezar sussurrou, envergonhado.
Eu nunca havia pensado dessa forma.
— Pois agora pense.
Você não é muito diferente dele, não.
A única diferença é que ele executa a acção que você planeia e prepara.
— Lamento não ter a coragem de fazer o que deveria — Cezar desabafou.
Embora ache que você está coberta de razão.
— Ainda assim, vou fazer como você — afirmou, angustiada.
Vou me sujeitar às loucuras desse monstro pelo futuro do meu irmão.
— Talvez o melhor para você seja desistir dessa história, enquanto ainda é tempo.
Você é jovem, pode conseguir coisa melhor.
— Não posso, não — ela se retraiu, açoitada pelas lembranças.
Não depois do que eu fiz.
— O que foi que você fez?
Quando falou, a voz de Jaqueline saiu abafada pelo medo e a vergonha:
— Estou aqui fazendo-lhe acusações, mas não sou melhor do que você.
Sou uma criminosa.
— O que você fez? — Cezar repetiu, assustado.
— Matei um homem — foi o sussurro quase inaudível.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:11 am

Saiu sem querer.
O desespero a fez confessar seu crime sem pensar nas consequências.
Talvez pelo facto de que sentia poder de confiar em Cezar.
Ele era um fraco, assim como ela, mas parecia sincero.
— Você matou um homem? — tornou, perplexo.
— Em legítima defesa, mas matei.
Jaqueline contou tudo, desde a primeira vez que Dimas a molestou, até o dia em que ela lhe cravou uma faca no coração, para que ele não machucasse Maurício.
Cezar ouviu com atenção, surpreso com a coragem da moça.
— Você devia ter ido à polícia — observou ele.
Agora vão achar que você o matou e fugiu.
— E não foi isso que aconteceu?
— Não exactamente.
Quando se age em legítima defesa, o acto deixa de ser crime.
Você seria inocentada.
— Tive medo.
E se ninguém acreditasse em mim?
Minha mãe dizia que, quando uma mulher é estuprada, a culpa é dela por provocar o homem.
— Isso é um absurdo!
Sinto lhe dizer, mas o que sua mãe queria era proteger o marido.
Fugir foi pior.
Agora mesmo é que a polícia vai achar que você é culpada.
— Viu como não posso me entregar?
Terei que passar a vida fugindo, morrendo de medo todas as vezes que eu vir um policial.
Sem contar a culpa.
Dimas podia não ser boa coisa, mas era um ser humano.
Não queria tê-lo matado.
— Você não teve culpa de nada.
Ele a agrediu e ia agredir seu irmão.
Qualquer um, no seu lugar, teria feito a mesma coisa.
— Mas o remorso não passa.
E o medo de ser presa é constante.
Cezar a fitou com piedade.
O que ela fizera fora sério, contudo, tinha uma justificativa, não fosse o facto de ela ter fugido.
— Está amanhecendo — Cezar constatou.
Acho melhor levá-la para casa.
Depois veremos o que fazer em relação a isso.
Ela foi. Toda doída, machucada, ultrajada.
Por sorte, quando entrou em casa, Maurício ainda dormia.
Ela o beijou carinhosamente, alisando seus cabelos com ternura.
Ele se mexeu e entreabriu os olhos, sorrindo para ela.
Não percebeu os hematomas em seu rosto, pois voltou a dormir em seguida.
Com lágrimas nos olhos, Jaqueline sentou-se no peitoril da janela, para ver melhor o nascer do sol.
Ele surgiu, rubro e gordo, por cima dos edifícios ao longe, colorindo o céu de um amarelo ouro entrecortado de azul.
Absorvida pela demonstração daquela magia gratuita da natureza, Jaqueline se esqueceu, momentaneamente, de seus problemas.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:11 am

Até o momento em que a claridade inundou o quarto, incidindo directamente em seus olhos.
Ofuscada pelo brilho intenso do dia, Jaqueline piscou, desviando o olhar do céu para fixá-lo em um ponto qualquer do outro lado da rua.
Foi com terror que pensou ter visto o que não tinha certeza se vira.
Em meio aos círculos de fogo desenhados pela luz ofuscante do sol, entreviu uma silhueta escura, sua conhecida.
Ela quase caiu do peitoril, apavorada, piscando várias vezes para focar melhor a visão.
A vermelhidão se espalhava em sua vista cada vez que ela piscava, dificultando a identificação daquela sombra sem rosto que parecia olhar para ela.
Será que olhava?
Quando, finalmente, seus olhos se ajustaram à luminosidade natural do ambiente, ela foi capaz de identificar com clareza o dono daquele contorno.
Não apenas as formas de seu corpo delatavam a personagem, mas os olhos frios e o sorriso mordaz que direccionava para ela.
Sem conseguir suportar a verdade, Jaqueline deu um salto, para fugir da visão fantasmagórica que a assombrava.
Mas não conseguiu.
Antes que desse o primeiro passo, as pernas perderam a vontade de sustê-la, levando-a ao chão, coberta da lividez do desfalecimento.
O nome morreu em seus lábios, como se jamais devesse tornar a ser dito:
— Dimas...
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:11 am

Capítulo 19

Muito ao longe, alguém sussurrava seu nome.
Ao mesmo tempo, a seu lado, o pai afagava seus cabelos, sorrindo para ela.
Por detrás dele, uma forma feminina se sobressaía, um pouco longe, indiscernível.
Pela forma como se agitava, andando de um lado para outro, parecia-se muito com sua mãe.
— Por que me deixou tão cedo, pai? — foi a pergunta indizível.
— Foi preciso.
Meu tempo na Terra acabou, mas você ainda tem outras experiências para viver.
— Vi o fantasma de Dimas.
Ele veio se vingar de mim.
— Tenha piedade de Dimas. Perdoe-o.
Jaqueline não respondeu.
Estava por demais cansada para protestar ou discutir.
Queria que Dimas permanecesse no passado, pensava que não era justo ter que lidar com ele mesmo depois de morto.
— Quem é aquela ali? — indagou ela, apontando, com o queixo, para o vulto de mulher.
É a mamãe?
— Sua mãe? — repetiu o pai, virando-se brevemente.
Não se preocupe com ela.
Rosemary só está confusa.
— Ela não está morta?
Vocês dois estão mortos!
Antes que o pai respondesse, uma voz conhecida atingiu seus ouvidos, chamando-a com insistência:
— Jaque! Jaque!
Acorde, pelo amor de Deus!
Aos poucos, os olhos de Jaqueline deixaram o suave mundo dos sonhos para se focarem na realidade fria da matéria.
Ajoelhado a seu lado, branco feito cera, Maurício dava tapinhas de leve em suas faces.
De olhos abertos, reconhecendo o irmão, Jaqueline segurou sua mão.
Mesmo sem força, os tapinhas dele doíam em seu rosto machucado.
— Já estou bem — afirmou ela com doçura, tentando levantar-se.
— Você desmaiou. Está doente?
Jaqueline meneou a cabeça.
— Alguma coisa aconteceu. O que foi?
— Nada — mentiu.
Não queria preocupá-lo falando do espírito de Dimas.
— Foi uma leve tonteira.
— Você não está grávida, está?
— É claro que não! — contestou, horrorizada.
De onde tirou essa ideia?
— Você sabe de onde.
Agora sentada, Jaqueline segurou as mãos do irmão entre as suas.
— Compreendo sua preocupação, mas você não tem motivos para isso.
Garanto que sei me cuidar.
— Ouvi dizer que os homens pagam mais para transar sem camisinha.
O irmão falava sobre aquelas coisas de forma tão natural e directa, que ela se sentiu constrangida.
No entanto, não era hora para melindres.
Precisava tranquilizá-lo.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:11 am

— Isso não acontece comigo.
Sem camisinha, nada feito.
— E por que você está toda machucada?
Não venha me dizer que caiu da escada, porque essa é velha e não me convence mais.
— Você é muito esperto, sabia? — comentou, com um sorriso amargo.
Maurício tinha que ser.
Com a vida que levavam, a esperteza vinha da experiência.
— Peguei um cara meio irritadinho — comentou.
Mas não está doendo.
— Mentirosa. Está tudo roxo.
Se eu fosse mais velho, não deixaria ninguém fazer isso com você, Jaque.
Eu matava o desgraçado.
— Não diga isso.
Matar é uma coisa horrível.
— Nem sempre. Você matou, mas foi para nos defender.
Não tem nada de horrível nisso.
— Mesmo assim.
Acha que eu me sinto bem sabendo disso"
E o remorso?
— Quem devia sentir remorso era o Dimas, se ainda estivesse vivo.
Mas ele não sentia. Nunca sentiu.
— Nós não somos iguais a ele.
Temos consciência e sentimentos.
Sabemos o que é certo e o que é errado.
Somos pessoas boas, amigas, carinhosas.
Dimas era um pobre coitado.
— Um pobre coitado que só fez mal a você.
— Dimas está morto.
Deixemos as coisas como estão.
E agora ande. Vou preparar seu café.
Você não pode chegar atrasado à escola.
Maurício ajudou a irmã a se levantar.
A cada movimento, o corpo de Jaqueline doía, reagindo às marcas da surra.
Com as mãos nas costas, ela se sentou na cama, quase sem conseguir respirar, mas tentando não parecer muito mal para não assustar ainda mais o irmão.
Maurício, contudo, percebia seu sofrimento.
Se não disse nada, foi para não ferir ainda mais seu orgulho.
— Até logo, mana — despediu-se ele, beijando-a gentilmente no rosto.
— Não vai tomar café?
— Não estou com fome — Maurício mentiu.
Vá descansar.
E não se preocupe com o almoço.
Quando chegar, faço um macarrão para a gente.
Ela quase chorou.
Quanto mais convivia com o irmão, mais tinha certeza de que ele merecia todos os seus esforços para ter um bom futuro.
Esperou até que ele fechasse a porta para entrar no banheiro.
Um banho quente a ajudaria a relaxar e a diminuir a dor.
Não sabia por quanto tempo ficara desmaiada, mas não devia ter sido muito.
Quando chegara, já eram quase seis da manhã, hora em que o irmão costumava levantar-se para ir à escola.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 09, 2016 10:11 am

O banho aplacou um pouco a fúria dos ferimentos, trazendo um cansaço abençoado.
Deitada na cama, imediatamente dormiu.
Dessa vez, não teve sonhos.
Ao menos, não de que se lembrasse, o que também era uma bênção, pois a ausência de sonhos ajudava a repousar também o espírito.
Muito mais tarde, vozes a despertaram.
Jaqueline apurou os ouvidos, logo percebendo que o irmão discutia com Lampião.
— Saia da minha frente, pirralho — disse Lampião, irritado.
Preciso falar com Jaqueline agora.
— Ela não pode.
Está descansando.
— Ela já dormiu muito.
Chega de preguiça!
— Você não pode incomodá-la, não pode...
— Deixe, Maurício — Jaqueline interrompeu.
Estou bem agora.
— Meu Deus, Jaqueline, você está horrível! — constatou Lampião.
Quem foi que lhe deu essa surra?
— Não interessa.
O que você quer?
— O que eu quero? Isso lá é pergunta que se faça?
É hora do batente, menina.
— Cezar não me disse nada sobre trabalhar hoje.
— Quem foi que falou em Cezar?
Se o doutor não a requisita, você usa seu tempo livre trabalhando para mim. Esqueceu?
— Não foi esse o combinado.
O doutor exigiu exclusividade.
— O que ele não vê ele não sabe, não é mesmo?
Se dissermos que você é exclusiva, quem vai contestar?
- Eu. Estamos sendo muito bem pagos para isso.
E depois, eu não ia aguentar, mesmo que quisesse.
Estou toda moída.
— Não foi o doutor que fez isso com você, foi?
Jaqueline o encarou, sem expressão:
— O que você acha?
— Meu Deus, o homem é louco!
— Até parece que ele é o único que gosta de bater.
— Dar uns tapas é uma coisa.
Dar uma surra é outra bem diferente.
— Você é quem está dizendo.
— Qual é, Jaqueline? Nunca fiz isso com você.
Esse tal doutor... como é mesmo o nome dele?
— Lafayete.
— Isso! Esse tal de doutor Lafayete é um doido sádico.
— Deixe-me em paz, Lampião, por favor.
Estou doída, cansada, com fome.
Só o que quero é ficar em casa sossegada e ver televisão com Maurício.
— Você ouviu — falou o menino.
Jaqueline precisa descansar.
Antes mesmo que Lampião respondesse, alguém bateu à porta.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:30 am

— Mas quem será agora? — questionou Maurício.
Jaqueline imaginava, mas não disse nada.
Quando a porta se abriu, surpreendeu-se com sua certeza.
Cezar chegou trazendo duas bolsinhas plásticas que, pelo aroma, continham quentinhas de comida.
— Não precisa perguntar — o cafetão foi logo dizendo.
Já estava de saída.
Temendo um rompimento do trato, Lampião saiu sem causar problemas.
Assim que a porta se fechou, Cezar estudou Jaqueline de forma minuciosa, mentalmente anotando cada hematoma de seu corpo.
Daquela vez, precisava chamar Lafayete à razão.
— Como você está? — indagou Cezar.
— O que você acha?
— Jaqueline, eu... sinto muito.
— Eu sei. Não precisa ficar se repetindo — e, apontando para as sacolas, perguntou:
— O que você trouxe aí?
— Medalhão com arroz à piamontese. Gosta?
— Não sei nem o que é isso — espantou-se Maurício.
Mas, pelo cheiro, parece bom.
— Quer experimentar?
Na mesma hora, Maurício colocou a mesa, deliciando-se com a comida.
Nunca antes havia experimentado iguaria mais saborosa.
Jaqueline teria apreciado da mesma forma, não fosse a dor que espetava sua garganta cada vez que engolia a comida.
— Então? — sondou Cezar, dirigindo-se ao garoto.
Está gostando?
— Está uma delícia!
Posso comer mais um pouco?
Foi uma satisfação para Jaqueline.
Fazia tempo que Maurício não tinha nenhum tipo de prazer, principalmente, com comida.
Andava magrinho, meio pálido.
Não é que passassem fome, mas comiam apenas o estritamente necessário.
— Dormi demais — comentou Jaqueline.
Nem vi a manhã passar.
— Você precisava — considerou Cezar.
O que passou ontem não foi fácil.
— O tal doutor bateu nela? — questionou Maurício.
— Já disse para você não se preocupar com isso — censurou ela, brandamente.
Não é assunto em que criança deva se envolver.
— É, sim, quando o assunto diz respeito à minha irmã.
— Ele tem razão, Jaqueline — concordou Cezar.
Seu irmão se preocupa com você, o que é natural e devia deixá-la feliz.
— Eu fico feliz.
Só não quero levar-lhe preocupações desnecessárias.
— Você ainda não me respondeu — cortou Maurício.
O doutor bateu nela ou não?
— Bateu — não adiantava mentir.
— Porquê?
— Porque ele é doente — esclareceu Jaqueline, com pressa.
E agora chega. Não quero mais falar sobre isso.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:31 am

Terminaram o almoço falando sobre outros assuntos.
Em seguida, sentaram-se os três para ver televisão.
Jaqueline experimentou até algumas risadas com a comédia que assistiam, muito embora as costelas reclamassem e o peito se recusasse a rir.
Depois, Cezar pediu pizza e refrigerante para o jantar, algo que Maurício e Jaqueline não viam havia muito tempo.
Ao final da noite, foi preciso que Cezar levasse Maurício no colo, saciado e adormecido, até a cama.
— Amanhã é sábado — lembrou Cezar.
Muito provavelmente, Lafayete mandará chamá-la.
— Não sei se vou conseguir.
— Dói muito, não é? — Jaqueline assentiu.
Então, deixe comigo.
Explicarei que, dessa vez, ele passou dos limites.
Querendo ou não, ele vai ter que esperar.
— Obrigada, Cezar.
Apesar de tudo, você é um bom amigo.
Ele sorriu, afagando as faces feridas da moça.
Deu-lhe um beijo suave na testa e saiu, deixando em Jaqueline a sensação de que ninguém, em toda a sua vida, conseguiria superar a emoção que aquele singelo beijo provocara.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:31 am

Capítulo 20

Foi com fúria que Lafayete recebeu a notícia de que, naquela noite e na próxima, não poderia contar com os favores de Jaqueline.
— Isso é um absurdo! — esbravejou.
Estou pagando, e muito, pelos serviços daquela vadia.
— Aquela vadia está toda machucada por causa da surra que você lhe deu.
— Ela mereceu - justificou-se, um tanto ou quanto embarcado.
Quis se esquivar de mim.
— Você tem que maneirar.
Podia ter matado a garota.
— Sem drama, Cezar!
Foram só uns tabefes.
— Você sabe que não foram.
Essa sua mania de espancar as meninas está afastando todas as garotas de você.
Em breve, ninguém mais vai aceitar trabalhar para você.
— Está certo, eu posso ter exagerado dessa vez.
Mas foi só dessa vez. E ela me provocou.
— Estou lhe avisando, Lafayete, ou você controla esse génio, ou ainda vai acabar mal.
— Você está me ameaçando?
— Eu trabalho para você, e é meu dever alertá-lo.
Você ainda pode acabar morto, ou preso, ou cassado.
Você decide o que é pior.
— Acha mesmo que isso seja possível? — espantou-se Lafayete.
— Acho. Jaqueline é uma boa pessoa, mas aquele Lampião é barra pesada.
E ainda tem a imprensa.
Já imaginou se alguém descobre?
— Você está certo, Cezar, como sempre.
De agora em diante, vou tomar mais cuidado.
Nada de deixar marcas na menina.
— Nada de bater na menina.
Divirta-se com ela, mas sem violência.
Já é hora de você parar com isso.
— Eu bem que gostaria, mas não consigo.
Não sei o que é.
Tudo vai indo muito bem, até que me dá uma coisa, uma espécie de euforia que me faz desejar machucar as garotas.
É algo incontrolável, uma tara, sei lá.
— Já pensou em procurar um psiquiatra?
— Eu não! Não quero minha intimidade exposta na mídia.
— Um psiquiatra vai respeitar sua intimidade.
Faz parte do trabalho dele.
— Quem precisa de psiquiatra quando tem você?
Seus conselhos sempre foram muito sensatos.
— Pena que você nem sempre os siga.
Há quanto tempo venho lhe falando para parar de maltratar as meninas?
— Tudo bem, Cezar, chega de sermão.
Vou tentar me controlar com Jaqueline.
Gosto dela e não quero que se vá, como as outras.
— Pois então, trate-a bem.
Ela é uma moça incrível.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:31 am

— Você está gostando dela? — Lafayete desconfiou.
Porque se está, acho melhor ir parando por aí. Jaqueline me pertence.
— Não diga besteiras.
É claro que não estou gostando dela, o que não me impede de reconhecer que ela é uma boa pessoa.
— É só isso mesmo?
— É.
— Pois é bom que seja.
Nem se atreva a colocar as mãos nela.
— Já disse que não gosto dela.
— Que seja.
Voltarei para Brasília na segunda, logo pela manhã.
Até lá, preciso de uma garota.
— Não há nenhuma.
Só se você pegar uma na rua.
— Ficou louco?
Sabe que sou neurótico com esse negócio de doença.
— Por que não experimenta sua mulher?
Garanto que ela não vai lhe passar nenhuma doença.
A sugestão saiu em tom mais sarcástico do que Cezar pretendia.
Ficou aguardando uma resposta explosiva de Lafayete, mas ele não disse nada.
Apenas o encarou, com ar de contrariedade, como se, embora não gostasse do comentário, não encontrasse o que responder.
Sabia que, no fundo, ele tinha razão.
— Mande o Jonas preparar o carro. Vamos sair.
Cezar obedeceu sem questionar.
Fora longe demais, adentrara um terreno que lhe era proibido.
Lafayete não gostava de envolver a mulher em seus assuntos pessoais.
Ciente disso, Cezar não perguntou mais nada.
Saiu com Lafayete sem questionamentos, acompanhando-o em silêncio.
Foram a uma joalharia, onde ele escolheu um fabuloso anel de diamantes.
Seria para Jaqueline ou para Sofia?
À noite, quando Lafayete voltou para casa, Sofia já sabia de sua ida à joalharia.
Na outra noite, depois que Jonas foi para casa, Fábio conseguira instalar o GPS no carro do político, passando a monitorar todos os seus passos.
Sofia permaneceu em silêncio quando Lafayete chegou, aguardando para ver o que ele faria.
Ele ansiava por sexo, mas não com a esposa.
Queria Jaqueline ou, na falta dela, qualquer outra mulher.
— O que está lendo? — indagou, para puxar assunto.
— O que importa é o amor— respondeu ela, exibindo-lhe a capa.
Você não acha?
— Acho — concordou ele, sem nenhum entusiasmo.
— É um livro espírita, de um autor chamado Marcelo Cezar.
— Desde quando você se interessa por espiritismo?
— Desde que você resolveu me ignorar.
— Já disse que é por causa do meu trabalho.
Assim como disse que ia compensá-la por minha ausência.
Lafayete apanhou a caixinha no bolso do paletó e estendeu-a para ela, que a tomou nas mãos, ansiosa.
Ao abri-la, deixou escapulir um sorriso de satisfação e medo.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:31 am

Aquela era a forma como os homens, geralmente, compensavam as esposas por suas traições.
Com Lafayete, não era diferente.
— Por que isso? — Sofia indagou, experimentando o anel no dedo.
— Preciso de motivo para presentear minha mulher?
— É lindo — elogiou ela, admirando o diamante.
Mas não era bem esse presente que eu queria.
— Não?
— O que quero é você, Igor, você.
Não aguento mais essa distância.
Sofia aproximou os lábios dos dele.
Para sua surpresa, Lafayete a tomou nos braços, beijando-a ardorosamente.
Com a imagem de Jaqueline ocupando todos os recantos de seus pensamentos, levou a mulher para a cama, onde a amou quase ferozmente, imaginando que era Jaqueline quem estava ali.
A muito custo, evocando a maciez do corpo da amante, conseguiu atingir o clímax, pouco se importando com as necessidades da mulher.
Ao se deitar ao lado de Sofia, percebeu a vermelhidão se espalhando por sua pele, deixando-o em sobressalto.
— Está doendo? — Lafayete perguntou, preocupado.
— Um pouco, mas nada insuportável.
Você foi demais!
— Você gostou? — surpreendeu-se.
Ela havia odiado.
Sofia nunca fora uma mulher ardente, nem lhe agradava sexo fora do convencional, o que levara Lafayete a se afastar lentamente.
Detestava, sobretudo, ficar com marcas pelo corpo.
De tanto reclamar com o marido, ele acabou evitando-a.
Foi então que passou a procurar mulheres na rua, com quem podia extravasar seus instintos violentos.
Naquele momento, contudo, era necessário fingir.
Se não desejasse perder o marido de vez, tinha que fazer Lafayete acreditar que gostava de suas esquisitices.
Agora sabendo de suas preferências, Sofia faria de tudo para corresponder-lhe, ainda que isso significasse engolir o orgulho e suportar a repulsa.
- Eu amei, querido — mentiu.
Fazia tempo que não sentia tanto prazer.
Não imagino por que você nunca me amou assim antes.
— Achei que você não gostasse.
Você sempre foi tão... conservadora.
— O facto de ser conservadora não me impede de experimentar coisas novas.
Ainda mais com você.
— Fico feliz em saber — prosseguiu ele, estupefacto.
— Prometa-me que faremos isso mais vezes.
— Prometo...
Daqui por diante, faremos um sexo cada vez mais selvagem.
— Óptimo!
Sofia não sabia se sorria ou se gritava.
Se ainda havia uma possibilidade de o sexo ser mais selvagem do que aquilo, então, ela estava perdida.
Não apreciara um momento sequer daquela barbaridade.
Caso ele adoptasse práticas mais grotescas, ela bem seria capaz de vomitar.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:31 am

Tampouco Lafayete se sentia feliz.
A última coisa em que pensara fora em dar prazer à mulher.
Também não se iludira, achando que Sofia lhe daria prazer.
O que ela tinha a oferecer, naquele momento, era alívio.
Ele estava repleto da energia vibrante do sexo e precisava, desesperadamente, gastá-la com alguém.
Queria que fosse Jaqueline ou, na sua falta, qualquer outra prostituta.
Como não podia ter nem uma, nem outra, só lhe sobrou Sofia.
Menos ainda queria que ela insistisse e lhe cobrasse sua presença na cama.
Cada dia mais ele a detestava.
Deitar-se com ela fora um acto estratégico e de desespero, mas ele não tinha a menor intenção de repetir aquela desventura.
Sofia estava se transformando num estorvo quase descartável.
Pensando nisso, uma ideia começou a brotar em seu cérebro.
Algo que, de tão horrível e inimaginável, acabaria se tornando a solução perfeita para sua vida pessoal e política.
Algo que o colocaria na posição de vítima, conquistando a simpatia do eleitorado, ao mesmo tempo em que o deixaria livre para ter as mulheres que quisesse.
Naquele momento, decidiu que Sofia precisava morrer.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:32 am

Capítulo 21

O passado é uma coisa estranha.
Por mais que se tente apagá-lo, ele ressurge com toda a intensidade, mais vivo do que nunca.
Ninguém apaga o passado.
O que se faz é aprender com ele e utilizá-lo como fonte de renovação.
Mas ele continua lá, influenciando-nos para o bem ou para o mal, conforme as lições que retiramos de suas lembranças.
Foi essa a verdade que Alicia descobriu ao dar de cara com a velha notícia no tablet.
Não compreendia como o pai conseguira ocultar aquele incidente por tanto tempo, nem por que ele parecia tão afeiçoado a Tobias.
Depois do que ele fizera, podia-se esperar que Celso nunca mais tornasse a falar com o amigo.
Ali estava.
Na tela do tablet, encontrava-se a fotografia de um jovem médico de aparência obstinada, fria.
Um médico que daria tudo para conseguir um pouco de fama e prestígio.
Contrariando a tendência actual da comunidade científica, Tobias parecia mais interessado no sucesso do que propriamente na ciência.
Ela leu e releu a notícia várias vezes, tocando levemente as fotos com as pontas dos dedos.
Estavam todos lá:
Tobias, o pai, a mãe, ela e a irmã morta, Bruna...
CIRURGIA DE SEPARAÇÃO TERMINA EM MORTE NUM CASO RARO DE GÉMEAS XIFÓPAGAS.
Era essa a manchete estampada na primeira página do jornal electrónico.
Abaixo, vinham considerações sobre a técnica da reprodução assistida, procedimento sem qualquer tipo de risco no momento.
Ao lado, o médico responsável pelo tratamento, o geneticista Tobias do Nascimento Arruda, e a paciente, Eva Cavalcante, esposa do não menos famoso geneticista Celso Cavalcante.
Foi um choque para Alicia.
A reportagem parecia surreal, um conto fantástico saído das histórias de ficção e horror tão comuns no século 20.
Prosseguindo na leitura, veio, finalmente, o desfecho do drama:
após cinco semanas de nascimento, as gémeas teriam que se submeter a uma cirurgia para separação, já que uma veia em comum drenava o sangue do coração de uma para o da outra.
Um caso raro, principalmente porque os avanços na área da saúde humana não mais favoreciam a ocorrência de tais anomalias.
A separação tardia do zigoto chamou a atenção dos médicos, que iniciaram um processo de monitoramento dos fetos.
Pouco tempo depois, o ultra-som detectou a formação de xifópagos.
Em uma sociedade em que a medicina alcançara avanços muito além dos esperados, gémeos siameses não eram apenas raros, mas praticamente inexistentes.
Ainda assim, a cirurgia intra-uterina chegou a ser cogitada, mas logo descartada devido aos enormes riscos para os bebés.
Os nove meses de gestação foram acompanhados de perto pelo doutor Tobias e sua equipe, inclusive o doutor Celso, especialista no assunto.
A cesariana transcorreu sem maiores dificuldades, nascendo duas meninas aparentemente saudáveis, apesar de unidas pelo tórax.
Realizados os exames preliminares, logo se constatou que as gémeas não dividiam órgãos comuns, à excepção de uma única veia que ligava e drenava o sangue do coração de uma para o da outra, levando ao enfraquecimento de uma das meninas, facto que antecipou a cirurgia de separação.
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Ave sem Ninho

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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:32 am

O próprio doutor Tobias realizou o procedimento cirúrgico, contrariando a opinião de seus colegas médicos, que optaram pela realização de transfusões diárias, até que as duas meninas se encontrassem fortes o suficiente para enfrentar a operação.
A cirurgia foi um sucesso para uma das crianças.
Para a outra, porém, o resultado foi a morte.
Inocentado pela Justiça, que considerou improvada a culpa do médico, o doutor Tobias se afastou dos meios científicos brasileiros, transferindo-se para a Europa, onde prosseguiu com seus estudos, abandonando, porém, a prática da fertilização humana artificial.
Alicia desviou os olhos do tablet, impedida de continuar a leitura, não apenas pelas lágrimas, mas pela forte comoção.
Toda a história estava ali, clara, vívida, em detalhes.
Não entendia como os pais tinham sido capazes de lhe esconder aquele facto por tantos anos.
A dor que sentia no peito, a cicatriz quase imperceptível, que, por toda a sua vida, fora atribuída a uma cirurgia cardíaca realizada em tenra infância.
Contida a emoção, Alicia continuou a leitura, em busca de alguma revelação sobre o paradeiro da irmã.
Os jornais noticiavam sua morte, alguns acompanharam sua cremação, tudo levando a crer que a irmã, realmente, não havia sobrevivido.
Se era assim, quem poderia ser aquela moça com quem tinha visões tão constantes?
De uma coisa Alicia tinha certeza:
a antipatia que sentia por Tobias não era gratuita.
Sua alma reconhecera o assassino involuntário da irmãzinha, atribuindo-lhe a culpa pelo ocorrido.
Fora sua negligência, fruto da ambição, que levara Bruna ao óbito naquele dia remoto.
— Vou para casa — anunciou Alicia, beijando o marido.
Quando puder, vá também.
— Por quê? — espantou-se Juliano.
Aconteceu alguma coisa?
— Tem algo que quero lhe mostrar, mas não aqui.
É pessoal demais.
— Ah! Não, você não vai fazer isso comigo.
Vou com você agora.
Sem conseguir conter a curiosidade, Juliano deu algumas instruções aos empregados, arrumou suas coisas e saiu com a esposa.
Ainda no carro, ela começou a falar, impedindo que accionasse a ignição.
— Você nem imagina o que descobri — tornou com agitação, estendendo-lhe o tablet.
— O que é? — indagou Juliano, apanhando o aparelho.
— Leia.
À medida que lia, as feições de Juliano iam se transformando, indo da surpresa à incredulidade.
— O que significa isso? — indagou, sem saber o que dizer ou no que acreditar.
— Significa que eu tinha razão em não gostar de Tobias.
— Essa história é fantástica.
Mal dá para acreditar.
— É fantástica, porém, verdadeira.
Tobias foi o responsável não apenas pela morte da minha irmã, mas pela nossa ligação orgânica.
Acha que isso é pouca coisa?
— Não, mas ele foi inocentado pela Justiça.
— Vai ver, comprou todos os juízes.
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:32 am

— Alicia, você sabe que isso não acontece.
A cirurgia foi uma decisão médica que ele tomou com base em seus conhecimentos científicos.
Os riscos eram perfeitamente previsíveis.
Você está tentando arranjar uma desculpa para culpá-lo e dar a si mesma o motivo que tanto queria para odiá-lo.
— Isso não é verdade! — Alicia rebateu, furiosa.
Eu não sou assim.
Não sou uma pessoa rancorosa nem implicante.
Mas você tem que admitir que tenho meus motivos.
Inocente ou não, não dá para ignorar que foi ele quem aplicou uma super-dosagem de drogas na minha mãe e tentou separar a mim e a minha irmã, ainda que contra a opinião de todos os médicos.
— Você leu a coisa pela metade.
Deixou passar esse link — Juliano arrematou, apontando para a nova aba que se abrira.
Diz aqui que seus pais testemunharam a favor dele.
— O quê?! — indignou-se ela, arrancando o tablet da mão dele e lendo o restante da história.
Não acredito!
Está escrito que meus pais pediram a ele que administrasse uma dose maior da medicação em minha mãe!
— Aparentemente, sua mãe queria gémeos, a fim de não ter que se submeter ao processo novamente.
— Isso não justifica o que ele fez.
E onde fica a ética médica?
— Pense bem, Alicia.
Você não pode dizer que seu pai não sabia o que estava acontecendo, pode?
Ele também é geneticista.
Ambos trabalhavam juntos.
E sua mãe, pelo visto, estava a par de todos os riscos.
— Eles sabiam que podiam ter xifópagos?
— Não exactamente.
Gémeos xifópagos praticamente inexistem na actualidade.
Está escrito aqui que é algo em torno de um caso em meio bilião.
— Que beleza!
Uma raridade da medicina, e eu fui a protagonista. Eu e Bruna.
Só que eu levei a melhor; sobrevivi.
Ela, ao contrário, não teve a mesma sorte.
— Não acha melhor deixar essa história para lá?
Aconteceu há tantos anos!
— Deixar para lá? Nunca!
Quero saber de tudo direitinho, principalmente por que meu pai aceitou Tobias de volta.
Devia odiá-lo, assim como minha mãe.
— Sua mãe bem que não gosta dele.
— Está explicado, não é?
Por que meu pai permitiu que Tobias se aproximasse de nossa família de novo, principalmente de Denise?
— Ele deve ter lá seus motivos.
— Preciso descobrir quais são.
— Dê um tempo, Alicia.
Seus pais devem ter sofrido muito com tudo isso.
Por que reavivar essa história?
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Re: A força do destino - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 10, 2016 10:32 am

— Porque eu não acredito que minha irmã morreu.
— Lá vem você de novo.
— Eu sonho com ela, Juliano!
Ela está viva, sofrendo em algum lugar.
— Acha mesmo que seus pais teriam abandonado a própria filha?
— Meus pais, não. Tobias.
— Isso não faz sentido algum.
Tobias e seu pai eram amigos.
— Você já leu um livro antigo chamado O Guardião de Memórias, de Kim Edwards?
O cara manda a filha para um orfanato para esconder que ela tinha síndrome de Down.
E se meu pai e Tobias fizeram o mesmo, para minha mãe não descobrir?
— Agora você está viajando.
Pensa mesmo que sua irmã seria defeituosa e seu pai a descartou?
— É uma possibilidade.
— Até parece que você não conhece seu pai.
Ele é uma pessoa íntegra.
Jamais abandonaria a própria filha.
E depois, quantos casos você conhece assim? De verdade?
— Não sei — rebateu Alicia, beirando o descontrole.
Não sei mais o que pensar.
Sempre encarei meu pai como um herói, mas agora...
Tudo está tão confuso!
— Acho que você está se desgastando à toa.
Essa criança está morta.
— Só que não existe um corpo para provar.
Meu pai, convenientemente, a cremou, de forma a impedir qualquer comprovação pelo DNA.
— Pare, Alicia!
Isso está virando uma obsessão.
As pessoas não são desse jeito, não como você está falando.
Principalmente seu pai.
— Oh! Juliano, o que é que eu faço?
— Esqueça essa história.
Pelo bem de todos, deixe esse episódio enterrado no passado.
Alicia queria.
Queria muito deixar passar tudo aquilo, fingir que nunca tivera uma irmã que morrera pelas mãos de Tobias, para que ela pudesse viver.
Com os olhos revelando o pesar que castigava seu coração, Alicia abraçou Juliano, como se ele fosse a única pessoa no mundo capaz de confortar sua dor.
Mal conseguia falar, tamanha a voracidade do pranto.
Em meio aos soluços e à confusão de seus sentimentos, apertou-se ainda mais ao marido e sussurrou, sentida:
— Não posso.
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