Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 5 de 7 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 7:27 pm

- O que você quer de mim? – Perguntou friamente à jovem, fazendo-o estremecer e ficar ruborizado.
- Vim exigir meus direitos inalienáveis de posse.
Meus amigos têm suas esposas, assim você será a minha...
Sou magnânimo, no entanto, e vou deixar que você se habitue a mim aos poucos.
No momento, só quero beijar estes lábios rosados, esses olhinhos azuis-safiras, essas madeixas negras e provar-lhe que as minhas carícias não perdem para Narayana.
O que eu sinto por você é bem diferente daquele sentimento tépido e insosso de seus semi-deuses, semi-espectros.
Ao dizer isso, ele estava prestes a lançar-se sobre Urjane e envolvê-la em seus braços; mas o olhar da jovem, severo e penetrante como um punhal, coibiu aquele arroubo.
- Jamais ouse tocar no que é domínio de seu mestre!
Você se esqueceu de que sou esposa de Narayana e filha de Dakhir, mago de três fachos?
Eles saberão me defender e libertar.
Sua paixão não passa de uma obsessão de vis instintos, e nada me inspira, além de nojo.
A voz de Urjane e seus olhos incendidos denotavam tanto desprezo e aversão que Abrasack recuou, como se atingido por um golpe no rosto; sua garganta repuxou-se, ele parecia sufocar.
Empertigando-se num átimo, ele a mediu, por sua vez, com olhar irado e arrogante.
- O excesso de orgulho impede que você seja razoável, minha bela Urjane.
Não se esqueça de que ninguém, até agora, libertou-a, e você está em meu poder.
Então, rejeita uma solução pacífica?
Bem, não preciso dela!
Você será minha por bem ou por mal.
Não vou me submeter aos seus caprichos, muito menos à autoridade dos magos.
Ele virou-se e saiu furioso.
Urjane suspirou aliviada; sentia-se, no entanto, insatisfeita consigo.
Por que ela não se conteve em suas ameaças, manifestando abertamente seu desprezo e aversão por aquele homem perigoso.
Era bem provável que suas emanações desordenadas tivessem efeito sobre ela.
Urjane pôs-se de joelhos e orou ardentemente.
Tranquilizada e revigorada com a prece, levantou-se e resolveu, no futuro, ser mais amável e comedida.
No quarto de Abrasack, aguardava por Já, sentado junto da mesa e absorto em pensamentos aparentemente sombrios.
Com a chegada do líder, ele levantou a cabeça e, ao ver o semblante desanimado do amigo e a ira que lhe aflorava, um sorriso enigmático escorregou-lhe do rosto.
Entretanto, sem fazer nenhum comentário, foi directo ao assunto que o trouxera.
Abrasack deu algumas instruções breves, deixou-se cair na cadeira, passou a mão pela testa, como se afugentando um pensamento fixo, e disse:
- Você parece preocupado irmão.
O que houve? Ou a sua lua-de-mel se cobriu de nuvens?
Tenho notado que todos vocês nada dizem de sua felicidade conjugal; já faz algum tempo que só vejo fisionomias mal-humoradas.
- Tem razão, o mau tempo cobre o firmamento conjugal de seus amigos – e jan suspirou pesado.
Só num aspecto você cumpriu o prometido; nossas esposas são maravilhosamente belas, mas o génio delas deixa muito a desejar.
Ao invés de cuidarem da casa e começar, conforme fora estabelecido, a ornar os nossos lares, a maioria fica sentada desconsolada, lastimando-se da sorte.
Isso fere até o mais despretensioso orgulho, sem dizer que elas, praticamente, não escondem suas intenções de fugir, o que nos obriga a trancafiá-las a sete chaves e determinar que os nossos “macacos” não as percam de vista.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 7:27 pm

Oh! Sua Urjane, ao menos, tem a justificativa de ser casada; a minha Sita é desimpedida, no entanto...
Com os diabos, não sou pior que outros!
Ela é um encanto, estou louco por ela...
E ela chora rios de lágrimas, imputando-me o crime de sua desonra.
Basta que me aconchegue a ela, para que comece a pronunciar, sei lá como, os esconjuros que dela me obrigam a recuar.
Vou enlouquecer!
E Randolfo, irritadiço e irascível que é, ao ver sua beldade se transformar num vale de lágrimas, enfureceu-se e lhe aplicou uma bela surra.
A partir de então, ela mal abre a boca; assim que o vê, esconde-se onde puder.
Abrasack desfechou uma sonora gargalhada.
- Bem, assim já é demais!
Elas não estão acostumadas a este tipo de tratamento.
Como já lhes disse, amanhã estarei com vocês e, então, ensinar-lhes-ei uma fórmula que quebrará o encanto que Sita usa para proteger-se.
Quando a noite desceu, Abrasack pegou alguns talismãs e, silenciosamente, arrastou-se até o quarto de Urjane.
Ao examinar, cuidadoso, o interior, ele viu que ela estava dormindo.
Feito uma sombra, foi-se esgueirando até o leito, parando a alguns passos dela, como enfeitiçado, sem poder despregar seus olhos.
Jamais ela a tinha visto tão bela e sedutora como naquele momento.
Uma pequena esfera brilhante eléctrica no tecto iluminava-a com luz prateada; Urjane era a própria estátua maravilhosa de Psique adormecida.
As vestes leves delineavam-lhe as formas divinas; o semblante gracioso respirava em profundo repouso, os longos e penugentos cílios lançavam uma sombra nas tenras faces rosadas.
Um arroubo de paixão dominou-lhe o coração e a mente.
Agilmente, erguendo a mão, ele traçou no ar um sinal cabalístico, pronunciou encantamentos que manteriam Urjane em sono profundo, e lançou-se sobre ela.
Finalmente ele poderia abraçar o ser desejado e cobrir-lhe de beijos o rostinho sedutor.
Porém, algo totalmente inesperado aconteceu.
Não mais que dois metros o separavam de sua presa; subitamente, do peito de Urjane fulgiu uma luz azul pálida, atingindo Abrasack no tórax com tanta força que ele cambaleou e, como varrido por rajada de vento, caiu no canto extremo do quarto.
Tremendo de fúria, Abrasack levantou-se atónito e reiniciou a ofensiva.
Urjane parecia não ouvir suas quedas e continuava a dormir calmamente.
Agora Abrasack tratou de agir com mais cuidado.
Já não havia aquela luz límpida, mas entre ele e Urjane parecia interpor-se um obstáculo.
Ela estava tão perto que bastaria estender o braço para alcançá-la; no entanto, ele digladiava, inutilmente, com o muro invisível que protegia o leito de Urjane.
Entretanto, Abrasack não era homem de desistir fácil.
Desta vez, com força de vontade, reprimiu a sua fúria e chamou em auxílio seus conhecimentos e a força mágica.
Debalde, porém, eram suas terríveis conjurações e intimações pelos espíritos elementais e forças demoníacas:
todos os seus esforços eram inúteis.
Do enorme esforço da vontade, as veias na testa e no pescoço se intumesceram feitos cordas; o suro rolava-lhe pelo corpo, irrigando o rosto lívido, como o de um cadáver, enquanto o peito arfava, avolumando-se pesadamente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 7:28 pm

Esquecendo-se de qualquer cautela, ele vociferou em voz rouca e entrecortada as fórmulas que, a seu ver, teriam um poder medonho.
Mas... Nada o ajudava.
O muro invisível suportava os mais furiosos ataques e parecia proteger tão bem a adormecida, que esta nem sequer acordou de seu sono.
Por fim, Abrasack convenceu-se de sua derrota; estava no limiar do esgotamento completo de suas forças.
Cambaleando, feito bêbado, arrastou-se até o seu quarto e caiu sobre a primeira cadeira.
Seria impossível descrever o que ele sentia naquele minuto, e, se Abrasack fosse um mortal comum, teria morrido de enfarte.
Pela primeira vez após a sua fuga, entrava em choque com um poder maior do que o seu; ele compreendeu, então, que aqueles conhecimentos, dos quais tanto se orgulhava, pouco valiam; e, diante dos gigantes que ele desafiava, não passava de um pigmeu impotente.
A dor da própria insignificância o oprimia; seu crânio parecia estar sendo esmagado.
Gemendo roucamente, agarrou a cabeça e, como uma massa inerte, desfaleceu no chão.
Urjane, porém, nem pregara os olhos.
Pressentido que Abrasack faria uma incursão nocturna, tentando aproveitar-se de seu sono, ainda que tivesse deitado, resolveu não dormir e ficar alerta.
Seu talismã protector estava escondido debaixo das vestes, conforme as instruções do pai.
Seu ouvido apurado captou os passos, quase silenciosos de Abrasack; ela o viu entrar e, por entre as pálpebras semicerradas, com o coração palpitando e fingindo-se adormecida, acompanhou a luta renhida que se desenrolava a dois passos de sua cama.
Somente ela conseguia enxergar uma retícula incandescente protegendo-a, onde, feito um muro de pedra, se esbarravam as forças demoníacas invocadas por Abrasack.
Quando finalmente, o seu raptor saiu cambaleante do quarto, Urjane levantou-se, ajoelhou-se e rezou febrilmente.
Não só pela sua salvação ela agradecia a Deus, pedia também por aquele homem, cego de amor impuro, cuja derrota e sofrimento ela acabava de presenciar.
Voltando a si, Abrasack sentia-se alquebrado e fraco, como que após uma enfermidade grave; o golpe de reacção fora tão forte que até os eu organismo imortal ficara abalado.
Ele acomodou-se na cama e começou a reflectir; o sono não vinha, mas a mente trabalhava bem como sempre.
E esses pensamentos amargos e furiosos, que tempestuava feito ondas numa borrasca, provocavam-lhe uma dor quase física.
Jan, que acabara de chegar, entendeu de pronto, ao primeiro olhar no rosto pálido e transfigurado do amigo, que seu caso amoroso ia mal.
Sem deixar transparecer nada, depois de abordar assuntos totalmente alheios, Jan pediu que ele lhe ensinasse a magia que impediria Sita de interpor os obstáculos fluídicos.
Ao ouvir o pedido, Abrasack desfechou uma sonora gargalhada.
- Não posso ajudá-lo meu caro.
Como amigo e primo, confesso que a partir desta noite não mais acredito em meus conhecimentos...
Pelo menos em certos campos.
Dedicarei minha vida apenas à vingança.
Utilizarei toda a minha ciência e energia, apenas e unicamente, para acelerar o nosso ataque à “divina”...
Há-há-há... Cidade, e reduzirei a cinzas esse ninho de tirania e ciência maldita.
O amigo balançou a cabeça desaprovativamente.
- Não se deixe levar por isso, Abrasack!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 7:28 pm

Não desperdice seus dons.
Pelo que posso concluir de suas palavras e de seu estado, você deve ter sofrido um enorme revés, diante de poderes maiores que os seus; mas que isso lhe sirva de alerta.
Reflicta bem antes de intentar uma guerra contra aqueles que, segundo suas próprias palavras, são poderosos e imortais.
- Veremos! Somente o futuro e a luta decisiva dirão quem sairá vencedor.
Ainda que eles sejam imortais e eu não possa matá-los, vou fazer com que sofram até me revelarem todos os seus mistérios.
E ele crispou os punhos.
- Estarei viajando hoje para buscar aliados.
Descobri há algum tempo, que, não longe daqui, na região costeira das ilhas vulcânicas, habitam certos gigantes, diante dos quais os nossos “macacos” não passam de reis anões.
São mais difíceis de serem domesticados, tamanha a sua ignorância; conheço-lhes porém o linguajar primitivo, e achei um meio, ao que parece, de domá-los e submetê-los à nossa vontade.
A incrível força física deles nos servirá de grande ajuda, quando nos lançarmos ao ataque.
Partirei hoje à noite, levando Randolfo e Clodomiro; você será o chefe na minha ausência.
Sua obrigação de zelar por Urjane dispensa comentários.
Fique atento para que não se interrompam os treinamentos militares de nossos “macacos”, nem a fabricação de armas.
De facto, à noite Abrasack partiu com seus dois companheiros, sem dizer quando voltaria.
Jan cumpria ciosamente a tarefa delegada.
Ele era uma pessoa inteligente e enérgica.
Sendo dotado de muitas virtudes, não totalmente desenvolvidas, ainda que não fosse tão genial como Abrasack, era mais conciliador, mais calmo e não tão presunçoso.
Num átimo, atinou que a mulher que soube tão bem enfrentar o seu primo fogoso devia possuir um enorme saber e, talvez, pudesse ajudá-lo a amolecer o coração de Sita, restabelecendo também a paz nos lares de seus amigos.
- Aonde levará tudo isso – lamentou-se ele -, já que o mal está feito?
Sita, minha esposa, que eu amo loucamente, acusa-me de tê-la desonrado.
Sim, mas eu não queria outra coisa senão legalizar a nossa união e cumprir todos os rituais estabelecidos pelos magos, se eu os conhecesse.
Meus amigos estão na mesma situação.
Nem todos, porém, são tão pacientes como eu; um deles, de temperamento muito explosivo, até surrou a esposa.
- Chii! Vai ser difícil ele conquistar assim o coração da minha amiga! – Considerou Urjane.
Mas você está certo:
não dá para reparar o que já foi feito.
Farei o possível para convencer minhas amigas a submeterem-se ao destino, traçado pro Deus, e cumprirem dignamente os eu dever.
Hoje mesmo irei falar com Sita, ou você a traz para cá.
Gostaria de visitar também as outras, se eu pudesse andar livre pela cidade, sem medo dos gigantes.
Não tenha medo, não vou fugir, mesmo que surja uma oportunidade.
Dou-lhe a minha palavra de honra – assegurou ela sorrindo.
Jan asseverou-lhe que ela nada tinha a temer e prontificou-se a acompanhá-la para mostrar a cidade, as casas de seus amigos e indicar-lhes o melhor caminho ao templo, onde ficava Avani.
Ele contou-lhe, também, que o templo se enchia de gente nas horas do culto.
E que os “macacos” não se cansavam de se maravilhar com a deusa e de aspirar os aromas a recenderem na gruta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 20, 2016 7:28 pm

Urjane expressou o desejo de visitar primeiro Avani, e Jan levou-a a gruta, sem gente naquele momento.
Os aborígenes, segundo Avani, eram muito respeitosos.
Devido ao grande afluxo de enfermos, ela precisava de alguém que a ajudasse no acompanhamento das curas, pois que em função de seu status de “divindade” era condenada ao ócio aparente.
- Virei para ajudá-la, pois também não estou fazendo nada, e o meu fã está ausente. Tentarei também arrumar mais ajuda – adiantou-se Urjane, após uma breve reflexão.
Urjane iniciou a visitação de suas amigas, tornadas vítimas dos projectos conjugais de Abrasack.
Primeiro ela foi até a casa de Sita; e, com a veemência que lhe era característica, passou uma longa reprimenda, recordando-lhe os princípios da escola esotérica, onde ela recebera a educação.
- De que adiantou estudar tanto, aprender todas aquelas leis que nos orientam no caminho da ascensão, se, na primeira prova, toda essa bem-aventurança vem água abaixo, e, dos recônditos de sua alma, afluem os instintos baixos e abjectos, que eu julgava dominados, desequilibrando-lhe a harmonia, empanando o único caminho dadivoso de mulher que alcançou o limiar da iniciação superior.
Urjane sabia quão dura era a desventura de Sita – uma provação imposta pela vontade superior -, mas dependia dela mesma a iniciativa de transformá-la numa missão.
Educar, iluminar o homem a quem estava unida, fazê-lo ascender até o seu nível – e não descer até as suas deficiências – eis uma tarefa digna e profícua de uma mulher.
Os grandes magos, sem dúvida, aprovariam e abençoariam tal designação, cumprida escrupulosamente, e, oportunamente, consagrariam aquela união contraída em condições excepcionais, mas iluminada e purificada em trabalho conjunto de aperfeiçoamento.
Discursos semelhantes, variando conforme o caso, não deixaram de surtir os devidos efeitos nas almas de suas amigas, oprimidas por desespero, vergonha e rancor, que aos poucos se alijavam; Urjane percebia, com alegria crescentes, os corações sofridos e bem-intencionados se submeterem ao destino.
Além disso, as jovens concordaram em se revezarem na ajuda a Avani no templo.
No dia seguinte, transbordando de felicidade, Jan veio agradecer a Urjane.
Ele teve uma conversa esclarecedora com Sita; esta estava tranquila, conciliatória, e ele esperava para breve uma plena concórdia entre ambos.
A partir de então, Urjane iniciou uma intensa actividade e, além do papel de semear a paz nos lares das amigas, ajudava Avani.
Ao conquistar, no templo, diversas amizades entre os nativos, ela aprendeu-lhes a língua e iniciou a visitação de suas casas na cidade e nos vilarejos próximos.
Os selvagens tratavam-na com respeito; ainda que a temessem, obedeciam-lhe em tudo, julgando-a como Irmã da “deusa”.
Porém, seu maior tempo foi dedicado às mulheres e às crianças.
Ela ensinou-lhes o modo de trançar cestos, tangas, cordas e artefactos afins; fez que aprendessem, também, alguns ofícios não complexos.
A actividade de maior sucesso era o fabrico de adereços para cabeça, pescoço e mãos, a partir das plumas de aves mortas e de gemas coloridas.
Apesar do aspecto repulsivo dos nativos, uma vontade de agradar os outros despontou em suas almas brutas; os homens não perdiam a oportunidade de se engalanar, tanto como as mulheres.
Urjane e Avani passavam as tardes juntas, tentando em prolongadas conversas matar o tempo angustiante de banimento e sufocar a saudade pela cidade divina.
Eventualmente, alguns acontecimentos testemunhavam que elas não tinham sido esquecidas.
Assim, por exemplo, certa vez encontraram em seus quartos uma provisão de vestes, alguns aparelhos mágicos e instruções sucintas de como deveriam levar os trabalhos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:54 pm

Abrasack ainda estava ausente, mas era muito lembrado nas conversas entre Urjane e Avani; ambas lamentavam que a colossal energia daquele homem e a sua poderosa mente fossem orientadas para o mal, e que suas torpes inclinações se nutrissem de paixão tão impura e inútil.
Finalmente, ele retornou com seus dois companheiros, aparentemente feliz com os resultados da viagem.
Ele contou a Jan sobre os gigantes encontrados, muitos mais repugnantes e terríveis que os seus “macacos” – verdadeiros monstros, no sentido literal da palavra.
Providos de rabos longos, membros grossos e curtos, à semelhança de patas com garras, seus representantes do sexo masculino possuíam chifres.
Locomoviam-se de quatro e, ao se erguerem, assustavam pelo tamanho; andavam apoiando-se sobre troncos de árvores, arrancadas pela raiz.
Alimentavam-se da carne crua dos animais, mortos a pedradas ou por sufocamento.
- Jamais vi criaturas tão pouco desenvolvidas; nossos “macacos” comparados a eles são eruditos.
Alem, do mais, são praticamente destituídos do dom da fala, se é que podemos chama de linguajar alguns grunhidos guturais – acrescentou Abrasack.
- Meu Deus!
E você ficou tanto tempo no meio desta caterva?
Para que precisamos deles?
Estou surpreso de que o não tenham matado! – Exclamou Jan.
Abrasack soltou uma risada.
- Bem que tentaram; tive que dar uns choques eléctricos para entenderem com quem estavam mexendo.
A utilidade deles você verá na prática; esteja certo!
Muro algum da cidade divina resistirá à força deles.
Jan balançou a cabeça.
- E como você vai fazê-los participarem do ataque, já que eles são tão obtusos?
- Existe uma força – a força mágica da música – que pacifica e atraem todos eles, como os insectos à luz.
Com a minha harpa, eles me seguirão até o fim do mundo.
Farão tudo o que eu ordenar; feito serpentes, obedecendo aos eu encantador, eles jamais lhe farão mal.
O relatório de Jan sobre as últimas mudanças na cidade deixou Abrasack possesso.
Seu coração contraiu-se de fúria e rancor ao saber que Urjane havia instalado a paz e a concórdia entre as amigas e seus raptores, embora não tivesse revelado um mínimo de pena ou justificativa por seus sentimentos.
O encontro que se deu mais tarde com Urjane foi tenso.
Ele a censurou pela frieza a ela demonstrada, e qualificou as acções, que culminaram com a felicidade dos amigos, como forma de demonstrar seu humilhante desprezo por ele.
- Felicidade!
Que felicidade – disse Urjane -, quando minhas amigas são vítimas desditosas de uma cruel e infame traição?
Simplesmente, nada há que as una indissoluvelmente à cidade divina, e eu apenas tentei ajudar, para que se submetessem à sina inglória; assim, de boa vontade, influirão e regenerarão aqueles seres que o destino colocou como íntimos.
Por mais louvável que seja esta dificílima tarefa, dizer que existe alguma felicidade e, no mínimo, estranho, se não absurdo.
- Custa-lhe, então, assumir uma missão, não menos louvável, a de tentar regenerar-me?
Asseguro que sua existência seria bem mais amena do que se estivesse casada com Randolfo, por exemplo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:54 pm

- Estou casada com Narayana, e o amo; sua insolência em querer possuir, justamente, a esposa de seu benfeitor, torna-o duplamente asqueroso.
Sem contar o abismo que nos separa, de purificação e iniciação – concluiu Urjane.
Abrasack fitou-a com o olhar sombrio.
- Então só me resta uma coisa: obrigar os magos a revelar-me a ciência arcana que me permitiria igualar-me a você.
É meu desejo governar este mundo, para onde me trouxeram.
Quero ser deus e o senhor destes povos ínferos, que irei iluminar; e, como única recompensa de lutas e sacrifícios, quero o seu amor.
E o que eu quero, eu consigo.
Urjane nada disse, e Abrasack retirou-se sombrio, como uma nuvem carregada.
Ele não se considerava totalmente vencido, ainda que suas tentativas posteriores de possuir a jovem, usando de astúcia ou força, não lograssem êxito.
Urjane parecia protegida por um muro invisível, e ele foi obrigado, incubando de raiva, a desistir dos ataques infrutíferos.
Fervendo de ódio, retomou, activamente, os preparativos da guerra; nos momentos de maior angústia, começou a visitar Avani; o seu olhar sereno, a recepção, invariavelmente amiga, a voz profunda e harmónica produziam efeitos calmantes sobre ele.
Certa vez ele propôs levar a harpa e tocar para ela, enquanto que ela, sentada no trono, o ouviria como uma divindade benévola.
- Faria bem a ambos e eu ficaria grata.
Mas você tocará e cantará as melodias que eu pedir, e que possuem uma força de cura especial?
- Já que estou me oferecendo, sem dúvida atenderei seu pedido – assegurou com bonomia Abrasack.
Devo dizer que não sou tão ignorante na arte das vibrações harmónicas e de seus efeitos – ajuntou ele.
- Excelente, sua participação será valiosa!
Assim, entre Abrasack e sua adorável prisioneira estabeleceu-se, aos poucos, um relacionamento amigável.
Certo dia, quando ele estava por demais sombrio, nervoso e irritadiço, corroído por raiva contida, Avani que o observava, perguntou subitamente.
- O que há com você?
Aconteceu algo extraordinário?
- Nada de extraordinário...
Acabei de falar com Urjane.
Sua beleza celestial me escravizou; mas seu ódio e desprezo por mim deixam-me possesso, tanto mais pelo muro intransponível que os magos tirânicos impuseram entre nós, causa de dores quase físicas.
Avaí balançou a cabeça.
- Você se engana!
Urjane não o odeia nem despreza; tem compaixão, mas nada pode fazer.
Julgue você mesmo o quão indigno foi de sua parte, após ter recebido os conhecimentos e ser iniciado – condição primeira para domar a fera interior – nutrir um sentimento animal pela esposa alheia.
Não obstante você pode ter um amplo campo de trabalho pela frente; contribuir para o progresso desta humanidade, promover a iluminação e as sábias leis nesta terra virgem.
Será que tal missão não realizaria a maior das ambições?
Até os magos estariam dispostos a ajudá-lo nessa empreitada, no entanto, você quer lançar os selvagens contra eles.
Será que você não compreende a sua insensatez em declarar uma guerra aos habitantes da cidade divina, àqueles gigantes do saber, cujo poder equivale às forças da natureza?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:54 pm

Cuide-se para que os magos não se voltem contra você, senão eles o quebram feito um graveto e o transformarão em nada.
Quem com ferro fere, com ferro morrerá!
Submeta-se a eles, devolva a liberdade a Urjane e, talvez, eles o perdoem!
Abrasack ficou pensativo; um minuto depois, ele balançou a cabeça, desafiante.
- Agradeço as palavras movidas pela amizade.
Talvez você esteja certa; às vezes, também me pergunto se não seria uma loucura empreender essa aventura!
Mas, não posso recuar, queimei o último cartucho!
O desdém humilhante dos magos feriu-me o orgulho e reacendeu a sede de medir forças.
Vingar-me-ei da prepotência e levantarei contra eles milhões doe gigantes, tomarei a cidade e deles arrancarei os mistérios que tanto escondem de mim.
Oh, eles pagarão caro por erguerem o muro que me separa da mulher adorada!
Ele ergueu e sacudiu o punho, e em seus olhos brilhou um ódio selvagem.
- Jamais libertarei Urjane, não poderei tê-la, mas, apesar disso, alegra-me o ensejo de vislumbrar-lhe a beleza radiosa e ouvir-lhe a voz, mais doce que o canto das esferas.
Sabendo que ela está aqui, ainda que sob um tecto pobre, o único que posso lhe oferecer, pelo menos não sofro de ciúmes, estando ela com Narayana.
E erguendo-se depressa saiu da gruta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:55 pm

CAPÍTULO X

O rapto de Urjane e das jovens sacerdotisas acompanhantes, causa na cidade dos magos um enorme alvoroço.
A notícia foi trazida pela jovem que ficou na espaço nave e que presenciou o ataque; esta retornou rapidamente para soar o alarme.
A maior perturbação, entretanto, foi manifestada pelos terráqueos, saem entenderem a aparente indiferença com que os magos trataram tal crime inominável.
Quanto a Narayana o desaparecimento da esposa abalou-o tanto que houve um momento em que pareceu ruir a sabedoria e o discernimento atrelados à vontade do mago, dando lugar à fúria tresloucada de um simples mortal.
Logo, porém, esse ímpeto furioso amainou sob um profundo e severo olhar de Ebramar, advertindo-o.
- Você não se envergonha de ceder aos sentimentos que já deveriam estar totalmente dominados?
- Tem razão mestre!
Aminha imprudência e teimosia tola tiveram um castigo merecido.
Eu não consegui perceber que estava protegendo um canalha e me deu agora provas da minha cegueira.
Mas será a minha falta tão grande, que devo pagá-la com a desonra de Urjane?
Poderá Dakhir admitir que sua filha se torne vítima da paixão animalesca desse malfeitor ingrato?
- Não, Dakhir saberá defender a honra da filha; todos os demais acontecimentos, entretanto, terão o seu próprio curso escrito pelo destino, cujo instrumento cego é o próprio Abrasack.
- Talvez então seja a vontade do destino, traçado por nossos mentores superiores, que eu fique aqui plantando bananas, esperando o “destino” ou os “seus instrumentos” me devolverem Urjane – observou Narayana, e um tremor convulso dos lábios traiu-lhe a perturbação.
Ebramar colocou-lhe a mão no ombro e disse em tom afável:
- Meu filho pródigo, quando é que você se conscientizará de que a pressa é inimiga da perfeição?
Ninguém lhe pede para ficar impassível diante desses acontecimentos inquietantes; você deverá se empenhar para libertar Urjane, mas não o faça com tanta precipitação; utilize para isso os poderes de que dispomos.
Posso ler em seus olhos o “porquê isso”?
Porque, meu filho, a nossa tarefa neste planeta tem um carácter especial.
Somos legisladores, chamados para alicerçar os fundamentos de uma civilização.
Isto significa zelar e orientar os movimentos que acelerarão o desenvolvimento da actividade mental.
Para tal aceleração, infelizmente, faz-se necessária uma guerra.
Todas as crises espirituais ou políticas nos mundos ainda não evoluídos como este, em que nos encontramos, ou naquele, de onde viemos.
São acompanhados de choques fatais das massas humanas.
Para os povos já bastante desenvolvidos, a guerra é uma reacção, um despertar sanguinário da tranquilidade inerte e modorrenta e dos interesses insignificantes.
A guerra sacode e regenera os povos chamados para desempenharem um papel histórico na humanidade; ela ceifa e leva à aniquilação os povos obsoletos, decadentes moral e fisicamente.
Aqui tirita um mundaréu de seres da espécie inferior; os gigantes, uma geração primitiva das forças caóticas da natureza.
Por sua natureza e constituição, estes seres são obtusos e incapazes de desenvolverem um intelecto dilatado, enquanto que a sua numerosidade e a força física fenomenal apresentam um grande perigo para os vizinhos mais fracos, reservados para um desenvolvimento posterior.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:55 pm

Esses pioneiros da humanidade viviam numa atmosfera saturada de emanações de forças rudes, mortíferas para os seres mais fracos.
Eles já cumpriram o seu papel, na qualidade de organismos colossais condenados as digerirem o que fora descartado pelas forças caóticas da natureza, e deverão desaparecer.
Tal depuração do planeta, das raças animalescas, nocivas e onerosas, faz-se necessária, e Abrasack contribuirá para essa obra.
Não precisaremos procurar os monstros em seus covis, eles os trará para cá, e nós os liquidaremos.
- Como consegue o patife estabelecer uma relação com aquelas criaturas horríveis, quando cada uma sozinha é capaz de esmagá-lo feito a um verme?
Como ele pode subjugá-las? – Indagou irado Narayana.
- Está claro que não é com força física; o que prova que ele tem uma enorme força de vontade e inteligência notável.
Será um inimigo à sua altura – asseverou Ebramar sorrindo.
Agora, acalme-se!
Por certo você entendeu a importância dos futuros acontecimentos e concorda comigo no quanto os interesses pessoais devem ficar em segundo plano, em vista da nossa missão de legisladores.
Narayana ficou cabisbaixo; um minuto depois, empertigou-se e em seus olhos negros fulgiu uma energia extasiada, própria de seu carácter.
- Sim, mestre, entendi.
A partir de amanhã mesmo, iniciarei o recrutamento de um exército contra o ingrato.
Que a minha longa separação da querida Urjane me sirva de punição merecida pela cegueira teimosa, e tanto será mais doce a hora de seu resgate.
= É assim que eu gosto de você! – Ajuntou Ebramar.
Agora vá até Dakhir!
Nós já fizemos uma lista de seus prováveis ajudantes.
Dakhir lhe dará instruções úteis e o tranquilizará quanto a Urjane.
Dois dias depois, Narayana, em companhia de seus amigos e ajudantes briosos, dirigiu-se para o local de arregimentação do primeiro exército consciente do novo planeta.
Decorridas algumas semanas, Udea, após ter levado Narayana até as tribos por ele colonizadas, retornou para a cidade divina.
No dia seguinte, encontramos no terraço do palácio de Ebramar, além de seu dono, Dakhir, Supramati e Udea; este último fazendo um relatório da expedição.
Ele estava satisfeito com os progressos das colónias que prosperavam sob o governo sensato dos reis, seus descendentes.
Foi justamente a partir daquele núcleo que Narayana decidira formar o seu futuro exército.
O rapto de Urjane e das jovens discípulas da escola de iniciação continuava a inquietar os terráqueos.
O depoimento da jovem sacerdotisa sobre os colossos peludos simiescos fazia arrepiar os cabelos dos terráqueos; suas suspeitas de que atrás de toda aquela história estava à figura insolente do rebelde Abrasack não eram sem fundamento.
Por outro lado, constituía-se um enigma insolúvel o facto de os hierofantes deixarem-no totalmente impune.
O tema era motivo de conversas infindáveis e despertou em Kalitin um interesse alarmante.
Num dos encontros diários, ele quis informar-se com Dakhir sobre o assunto.
A despeito dessa decisão, ele estava constrangido diante do mago, pois tanto a própria curiosidade, como aquela sua preocupação, pareciam-lhe absurdas.
Se o seu poderoso protector e pai de Urjane permanecia tranquilo, prosseguindo com suas tarefas rotineiras, então poderia inferir-se que os magos superiores se sentiam donos da situação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:55 pm

Dakhir, observando Kalitin e folheando um manuscrito, disse-lhe então:
- Sua conclusão está correta, meu caro Andrei!
Estamos tranquilos, porque dispomos de poder suficiente para nos defendermos do ataque das criaturas inferiores.
Estamos cientes de Abrasack se prepara para a guerra, certo de tomar a cidade com o auxílio da numerosa horda de gigantes e monstros por ele treinados.
Entretanto, como essas massas não têm nenhuma utilidade para esta época incipiente, e o seu número é demasiadamente grande, eles estão fadados à aniquilação, ou, pelo menos, à rarefacção, para que se tronem uma minoria condenada à extinção definitiva.
As forças cósmicas, a nós submetidas, farão o seu serviço, e você será testemunha, eu espero, da destruição dessa avalanche de monstros.
- Obrigado pela explicação, mestre!
Que espectáculo grandioso e terrificante será a aniquilação dessas legiões de gigantes pelas forças elementais; serão massacrados feito um monte de formigas! – Comentou Kalitin estremecendo levemente.
- Serão exterminados apenas os seres perigosos e nocivos.
Devo acrescentar que o mesmo procedimento básico se aplica a todos os mundos inferiores; mas nem sempre se apela às forças cósmicas, pois, em outros casos, aproveitam-se as guerras.
Estamos tratando agora com raças primitivas, rebentos colossais das forças rudes da natureza abastada.
Pode ocorrer também, que ao longo de séculos, algumas nações cultas entrem em atavismos, ameaçando outros povos em volta; aplica-se, então, a mesma lei que acabei de descrever.
Os povos condenados à extinção começam por perder seu sentimento religioso, o que leva à decadência moral, pois a alma já não se orienta pelas leis divinas.
Aos poucos, degenera-lhes o cérebro.
Suas faculdades se concentram numa só coisa:
os interesses materiais.
Seu cérebro só funciona orientado na produção industrial; revela uma aptidão incrível para mecânica, química, comércio, geração de bens de conforto; ao mesmo tempo a intuição do divino vai minguando, vão exaurindo-se as irradiações emanadas da fé exaltada, e todas as artes ganham uma orientação pseudo-real e decadente.
Sob a máscara da pseudo “verdade artística”, a música torna-se barulhenta, desconexa e irritante; a pintura e a escultura servem de culto à indecência; a literatura deforma-se, idealizando os vícios e a degradação moral.
E por muito tempo, ninguém se apercebe de que, sob a próspera e altamente “culta” aparência, vai se perpetuando a degeneração física e moral.
A sociedade entrega-se às paixões animalescas; uma arrogância inaudita toma contas das mentes humanas e sua crueldade torna-se tão necessária quanto à de saciara fome ou a sede, pronta a revelar seu desatino perigoso.
Uma nação composta por estas hordas bárbaras é sempre uma ameaça para os povos que a cercam, tanto mais perigosa se for rica, disciplinada, detentora de vantagens técnicas e ímpeto psíquico.
Em tais momentos, o destino imutável gera a luz o espírito exterminador.
As circunstância levam, invariavelmente, à eclosão de uma grande guerra, por demais sangrenta, e suas vítimas são incontáveis, sobretudo em ter os perigosos perturbadores da paz geral.
Eles pertencem aos milhares e sempre são derrotados.
Kalitin interessou-se vivamente pelo assunto discutido e, assim, a conversa prolongou-se por muito tempo.
Desde a sua vinda ao mundo novo, o jovem astrónomo fizera enormes progressos e Dakhir estava feliz com sua aplicação e espírito observador, sempre evoluindo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:55 pm

Sobreveio o silêncio, Dakhir examinava o conteúdo do escrínio e dele tirou um instrumento, cujo funcionamento queria explicar ao discípulo.
Kalitin, que observava atento cada movimento do mago, curvou-se bruscamente sobre a mão do mestre a repousar sobre a mesa, e perguntou meio hesitante:
- Mestre, deixe-me olhar a sua mão.
Há tempos queria fazê-lo, pois ela me parece bem interessante.
- Por obséquio, olha quanto quiser.
O que você achou de tão curioso nela?
Tem cinco dedos, como a sua, ainda que difira um pouco na forma – disse Dakhir com bonomia, estendendo a mão alva, fina e bem cuidada, como a feminina.
- Oh, não! Existe uma grande diferença, e não só na mão, como entre os nossos corpos em geral.
Sua pele parece diferente, menos densa, e até já reparei algumas vezes que ela como fosforiza; também a sua mão...
Veja como é mais leve que a minha, que lembra uma pata rude de camponês ao lado da mão de um aristocrata.
Dakhir desatou a rir e deu um leve tapa na mão robusta do discípulo.
- De facto, você tem razão!
Um observador desatento não teria percebido uma diferença tão subtil.
Sim, meu corpo tem uma composição diferente.
No decorrer dos séculos da minha existência, ele se modificou muito; não pelo fenecimento de um mortal comum, mas devido à sua actividade astral, tal qual uma gelatina se derrete em água quente, foi-se derretendo aos poucos, a minha carne rude.
De modo imperceptível até para mim mesmo, as densas e pesadas partículas do envoltório carnal foram expelidas, como flocos varridos pelo vento, e, em seu lugar, surgiu um ténue envoltório etéreo, por sua vez substituído por um corpo mais delicado e puro.
Tal transfiguração da matéria, como já lhe disse, é uma consequência do trabalho astral, que calcina as partículas rudes da carne.
Na nossa velha Terra, isso se dava com os não-iniciados em nossos mistérios, através das reencarnações ou de vida ascética e orações incansáveis e fervorosas.
Como prova do que digo, basta lembrar as feras no circo, que, em vez de dilacerar o santos, e os mártires, deitavam-se mansamente a seus pés.
Os pagãos atribuíam aquilo à “feitiçaria” dos cristãos; entretanto, a causa era bem simples:
purificados com a prece, os mártires deixavam de emanar o cheiro da carne humana que excita a voracidade dos animais selvagens.
Gostaria aqui de fazer uma digressão quanto ao tema, o que lhe será útil ao doutrinar seus próprios discípulos.
Quero abordar a influência da alimentação e da higiene.
- Agradeço mestre, a questão vem a propósito!
Há pouco tempo eu quase me indispus com meus dois pupilos.
Ficaram furiosos comigo só porque os proibi de comerem carne e por tê-los mandado se banharem três vezes ao dia, conforme suas instruções.
- Faça-os ver que a carne sanguinolenta não só impregna com o cheiro nojento o corpo físico, mas também o astral.
Ao morrer, o homem deixa na terra apenas os restos físicos, sua parte psíquica; no entanto, o seu corpo espiritual, saturado e onerado desse fedor, arrasta para o além as emanações carregadas de cheiro asqueroso, atando-o às partes inferiores do plano astral.
Justamente por essa razão é que exigimos de nossos discípulos uma alimentação exclusivamente vegetal, que proporciona higiene ao corpo astral e a devida leveza para a sua rápida evolução.
Somente uma higiene absoluta, mantida por frequentes abluções ou banhos, facilita o metabolismo e depura a aura com os eflúvios curativos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:55 pm

Enquanto as pessoas viviam ao ar livre e cumpriam a lei de ablução, ainda que movidos por cânones religiosos, o género humano era menos sujeito a diversas enfermidades.
O suor também sempre deve ser retirado, pois ele fecha os poros, causa a fermentação e gera substâncias tóxicas e bacilos nocivos.
Queira ou não, tiramos lições de vida de nossa velha terra, pois no mundo novo tudo ainda está por brotar.
Assim, você deve estar lembrado de que nos tempos remotos as pessoas comem um pouco de tudo, tomavam vinhos fortes e, as despeito de tudo, gozavam de perfeita saúde; raramente ocorriam doenças que ceifassem a humanidade.
A razão daquilo é que a vida era ao puro ar, com abluções frequentes.
Você deve estar sabendo que, nos últimos séculos, a fraca humanidade em degeneração enfiava-se em recintos fechados, agasalhada em roupas quentes.
Nesta crosta tríplice de paredes e vestimentas, as pessoas viviam sem ao menos suspeitarem em que cloaca se encontravam, gerando activamente todos aqueles miasmas, consequência de instintos impuros, paixões desenfreadas, ódio, inveja e impropérios – haja vista a expressão dilecta das pessoas “vai para o diabo que te carregue” ou ainda “vai se danar”.
Em vez de clamar por Deus num momento de infortúnio, o homem clamava pelo diabo.
Oh! O homem se teria horrorizado, se fosse capaz de enxergar os milhares de espíritos, atraídos pelos impropérios, maldições e impurezas de suas emanações maléficas.
Mas as pessoas nada vêem e respiram tranquilamente o ar contaminado com bacilos pululantes, e, depois, ainda se queixam das dores súbitas, da tontura ou falta de sono.
Somente a prece, a água benta e o ar puro limpam tal “repositório”, onde tudo se transborda de escória astral a se assomar nutrida de emanações dos habitantes e do ar contaminado; nessas condições, a população fluídica pode se transformar em seres vampíricos, nocivos e perigosos, a tal ponto que para a sua expulsão se deve recorrer ao fogo.
Assim, a crença em água benta ou água sagrada não é uma superstição.
A água é uma substância que proporciona a maior assimilação da luz astral, a verter-se em correntes radiosas da prece – uma espécie de força acumuladora e distribuidora das lucilantes correntes dadivosas.
Dakhir silenciou por algum tempo, aparentemente imerso em reflexões; passou a mão pela testa e dirigiu-se a Kalitin, que aguardava as suas palavras, mudo e respeitoso.
- Desviamo-nos totalmente do assunto da regeneração progressiva do corpo astral através do trabalho, preces e vida ascética.
- Sim, mestre, você me disse que os eu corpo passou por várias encarnações.
- Três, meu amigo.
E, à medida que se transformava o próprio ser do meu corpo imortal, foi-se modificando os seus órgãos.
Assim, o coração deixou de desempenhar o papel principal.
Ele já nada tinha a temer por si ou por outros, a quem amava; a disciplina rígida, imposta à alma, domou a “fera” no homem e subjugou as paixões; agora o coração só sente amor puro e altaneiro, e o seu calmo e silencioso palpitar apenas regula as substâncias fosfóricas, em que se transformou o sangue em nossas veias, irrigando o cérebro, actualmente o nosso órgão mais importante.
E quanto mais ele for perfeito, mais força ele nos proporciona para concentrar e desprender o poder colossal que governa os elementos.
O estômago também foi praticamente suprimido, pois o alimento serve-nos apenas para nutrir os tecidos; a coluna vertebral é a nossa rede eléctrica; a musculatura é a distribuidora de material fosfórico.
Até as relações carnais, nas uniões dos magos de nível superior, são diferentes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:56 pm

Feito faquir de outrora, que com a força radiosa dele emanante fazia uma planta crescer, florescer e frutificar, da mesma forma, a radiosa força que une os consortes fertiliza e traz à luz seres especialmente eleitos – missionários predestinados a aperfeiçoar a humanidade.
Sem dúvida, o que acabei de dizer se aplica actualmente aos magos superiores; mas entre as humanidades que alcançaram um alto grau de perfeição, como em Júpiter e em outros planetas parecidos, a multiplicação humana realiza-se somente dessa forma.
O progresso é a lei do Universo.
Quanto mais o homem trabalhar no plano astral, quanto mais sacudir de si as paixões animais para trabalhar no campo espiritual, quanto mais ele aspirar, para dentro de sua aura e organismo, as substâncias fosfóricas, tanto mais se transforma os eu corpo, modifica-se o sangue e aumenta-se-lhe o poder.
As frontes dos santos sempre se acham envoltas num clarão radioso, e o contacto de suas mãos cura.
Esses seres superiores, prodigalizados de sopro divino, possuem o poder de reabilitar o funcionamento dos órgãos macerados por doenças; os surdos começam a ouvir os paraplégicos, a andar, os males internos cedem.
A prece, como vê, é a primeira fórmula mágica haurida pelos homens, para lutar contra a carne, que os sufoca e os suga.
Você sabe que os sons encerram uma substância fluídica de combinação variada, produzida pela vibração, tal qual o dínamo gera a electricidade.
A prece, pela essência da sua composição química, gera correntes vibratórias, fosfóricas e radiactivas, assimiladas dos quatro elementos. Essas quatro correntes tomam a fórmula da Cruz, girando velozmente.
Quanto mais pura for à prece e maior o ímpeto, tanto mais vertiginosa será a sua rotação; crepitando e dardejando feixes luminosos, a massa fluídica gira, introduzindo no corpo o calor e as partículas úteis nela inseridas.
A irradiação pura do orador eleva-se espiralada em forma de ondas azul-claras e une-se ao sopro divino.
Isso serve de fio de ligação ou, se quiser, de telefone, através do qual a criatura entra em contacto com o seu Criador e os Santos protectores.
Em consequência disso, após uma prece fervorosa, o homem sente-se tranquilizado e revigorado; às vezes, ele fica exsudado, e essa tepidez vivifica e o ajuda a livrar-se dos fluídos e de outras impurezas causadoras de doenças.
O sinal da cruz é um sinal mágico que se sobrepuja aos demais, um centro de convergência das correntes cósmicas dos quatro elementos, que compõem a fórmula da prece.
Pela intuição, o homem sempre cercou este símbolo misterioso por uma coroa de raios e a cruz corresponde ao conhecimento; a força e fé daquele que o utiliza.
Tanto faz ser uma cruz simples de madeira ou uma obra em ouro, de joalheiro, o significado de ambas é idêntico e têm o mesmo poder.
O sinal da cruz serve tanto para uma pessoa ignorante, que não Lhe conhece o poder místico, como para um mago; ele o une a Divindade, protege-o contra seres satânicos, ou forças impuras e caóticas; conclama os espíritos dos quatro elementos para se juntarem ao redor do símbolo desenhado pelo homem para sua própria ajuda.
Somente por intermédio das mãos daqueles que compreendem a importância do sinal, representado com a razão e a fé, a cruz vem a se constituir numa arma imbatível.
Este símbolo, me parece, pode ser chamado de sinete do Eterno.
Ele é o alicerce de toda a criatura, um símbolo da eternidade, que expressa e encerra os quatro elementos, no qual ocorrem todas as modificações da matéria, fonte da vida espiritual e física.
- Então o estudo da cruz é uma ciência específica?
- É enorme! Outrora, certas partes desta ciência eram repassadas aos iniciados superiores nos abrigos dos templos; em todas as doutrinas da antiguidade, este símbolo misterioso, talismã poderoso contra os ataques de tudo que é impuro, desempenhou um papel importante.
Sim, Andrei, para alcançar os píncaros deste ciência é preciso muito trabalho; começando como neófito, até o grau de mago; ainda que eu tenha trabalhado muito, estou longe de entender essa ciência maravilhosa em toda a sua magnitude.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:56 pm

CAPÍTULO XI

A vida na cidade dos magos corria tranquila.
Nas escolas havia aulas; os hierofantes ultimavam, imperceptivelmente, a defesa da cidade contra as hordas de Abrasack, empenhado nos preparativos de ataque.
Dakhir e Kalitin não interrompiam suas habituais palestras diárias sobre os assuntos mais variados.
- Você me disse. Mestre, da descrença que assolou a Terra, contribuindo sensivelmente para romper a ligação com a divindade dadivosa.
É verdade; nos meus tempos, acreditar em Criador, em santos protectores e nas preces, era visto como reminiscências arcaicas das superstições ridículas.
Graças a Deus, eu rejeitei por completo esses equívocos e, hoje, venero o que antes aviltava...
Mas uma coisa não entendo; vocês, nossos mestres, possuem fé e devoção, no entanto, não se autodenominam de santos.
- Simplesmente porque não o somos – riu Dakhir.
- Por que não? Vocês são tão caridosos e até mais sábios que a maioria dos santos, cuja vida li – insistiu Kalitin.
- Gosto de ver, meu filho, que você sempre quer chegar ao ponto da questão.
Neste caso, eu pediria que me respondesse qual a diferença dos caminhos da ascensão entre uma vida dedicada à santidade, e outra, ao labor científico?
Por favor!
Katilin permaneceu mudo.
- Veja! São dois caminhos que levam a um mesmo objectivo: a perfeição.
A santidade leva à moral ideal através da educação dos sentimentos e instintos; ela ilumina o coração, apura a concentração na prece, edifica a abnegação e o auto-sacrifício em benefício do próximo.
Igualmente, proporciona a apreensão dos meandros da alma martirizada física e moralmente em renúncia de si mesmo.
Resumindo:
é uma educação da alma e, ao mesmo tempo, o conhecer da grandeza Divina, da suprema criação do Criador – Sua indestrutível faísca.
A jornada de um adepto, uma jornada científica, busca, sobretudo, desenvolver a razão, aprender os princípios e as leis da natureza que governam as forças cósmicas.
Ou seja:
é uma busca do conhecimento da evolução do Universo e do homem, o aprender da grandiosidade do Criador em Seu laboratório.
Resumindo o que se disse, a ciência fala à razão do homem, enquanto a religião, ou seja, o preceito da santidade, fala ao coração.
Todos somos providos da razão e do coração, ainda que a primeira, normalmente, fique entorpecida e, por certo, há uma maior predominância de pessoas de coração caridoso do que com razão lúcida.
A maioria dos homens só compreende com o coração; há poucos capazes de alcançar conceitos teóricos.
Daí se infere que a religião é necessária tanto para os intelectuais – incapazes de se isolar por si só do corpo – como para as massas – para as quais não são acessíveis os píncaros das divagações abstractas.
Assim, a magia, por ser uma ciência perigosa, quebrantora das mentes fracas, não pode ser acessível à turba, restringindo-se apenas a pessoas de mente e espírito fortes.
Mas, para que a perfeição seja alcançada, o espírito humano deve possuir, em proporções iguais, os dois ramos do conhecimento; assim, os justos se dedicam, posteriormente, à ciência, enquanto os sábios se embrenham na busca do conhecimento, da abnegação e de amor a Deus e ao próximo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:56 pm

Devo acrescentar, ainda, que aquele que se torna um adepto, não sendo um justo, tem muito mais riscos de tropeçar em seu caminho e exorbitar de seus conhecimentos, pois, nos recônditos de sua alma, ainda espreitam suas paixões terrenas.
Ao contrário, um santo se despoja mais rápido de suas fraquezas humanas, e a auto-abnegação eleva-o mais alto nas límpidas esferas do que a ciência do adepto – pelo menos nos primeiros degraus do conhecimento -, pois ele há de se sacrificar, se quiser ascender pelo caminho íngreme da perfeição. Está satisfeito com a minha explicação?
- Perfeitamente mestre, agradeço-lhe muito!
- Mas, diga o que exactamente o aflige e tentarei dissipar as suas dúvidas!
- Você me lê o coração, caro mestre.
Certa vez, Nivara referiu-se a uma passagem impressa dos clichés astrais que nos ligam à nossa Mãe-Terra.
Ele afirmou que essa imagem, com que foi agora agraciada a Terra, provém de outro mundo semelhante, totalmente destruído e dissolvido a suas substâncias primordiais.
- O que há de espantoso nisso?
Na grande economia do Universo, cada partícula ocupa o seu devido lugar e trabalha para a preservação do equilíbrio geral.
A imagem ígnea com o cliché astral não pode ser destruída, porque contém a substância primeva, ou seja, as forças elementais.
A película se espirala envolvendo o planeta em órbita, e os clichés astrais nela impressos, vão se materializando, à medida que aparecem.
É como se fosse um extenso programa escolar para as criaturas de diversas habilidades.
- Sim, isto está claro!
No entanto, como tornar isso conciliável não só com o conceito da justiça – da forma que eu a entendo -, mas também com o princípio do livre-arbítrio, ou responsabilidade por nossos actos?
Nesse segundo caso, os espíritos são impelidos – se for possível essa comparação – a desempenharem o papel de atores, obrigados a viver e a comportar-se com base no cliché traçado por outro; também tem de suportar, fatidicamente, os efeitos dos actos realizados por “outros”, tornando-se tiranicamente malfeitores ou santos, segundo o cliché gravado, malgrado sua própria vontade?
- Nossa, onde você foi!
Se tudo se processasse assim tiranicamente, como você se referiu, se alguém tivesse de desempenhar um papel segundo um roteiro, impresso no cliché, isso seria realmente injusto.
Contudo, o destino apenas é traçado em linhas gerais; depois, você deve entender que uma matéria tão sensível, capaz de gravar até as oscilações de um pensamento, deve ser, ao mesmo tempo, suficientemente delicada para ceder a um impressão fresca, sem prejuízo da primeira.
As duas não se misturam, pois a composição química de cada individualidade é diferente.
Somente alguns clichés-gravuras, impressos pela vontade superior, permanecem de certa forma inalteráveis; cedo ou tarde são revelados, dependendo do desempenho do novo elenco dos atores do drama.
Por esta razão, desde tempos imemoráveis, havia predições, incrivelmente corretas, de certos acontecimentos do longínquo porvir; os eventuais erros diziam respeito somente à data de sua ocorrência.
Tanto os profetas, como os clarividentes, tinham e têm a faculdade de entrever os clichés astrais, sem compreenderem, não raro.
Alguns pormenores do quadro, pois o que viam ainda não estava descoberto na época, ou melhor, fora reencontrado, e eles o descreviam por metáforas.
Como sempre tenho de trazer um exemplo de nossa velha Terra.
Assim, o grande clarividente – autor do Apocalipse – reportou-se a um cavalo de cobre, chispando fogo, o que era na verdade uma locomotiva a vapor – uma descoberta nos séculos futuros.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:56 pm

Outro clarividente, mas humilde, chamado Suffrano, tentando decifrar, por indícios existentes, o tempo do evento disse:
“Quando os homens voarem como os pássaros com a rapidez de andorinhas, e as carroças se moverem sem os cavalos, acontecerá tal coisa...”.
Isso significa que ele não conseguia nomear – e não havia como –, automóveis e os aviões, os quais, entretanto, foram por ele divisados em funcionamento.
Analisemos, agora, a questão sob outra óptica, e decidiremos se, de facto, constitui-se de violência e injustiça aquela condição de os espíritos viventes se tornarem intérpretes de um roteiro impresso no cliché astral; ou, se nãos e formam segundo os princípios da lei de magnetismo ou atracção, através das encarnações – uma forma de avaliação geral das forças e nas particularidades das existências anteriores, na qualidade de microorganismos em seres superiores e inferiores.
Toda alma é atraída à esfera fluídica, cheia de ímpetos vividos, onde reina a influência atractiva preponderante de um dos elementos.
O fogo e o ar são elementos superiores; a água e a terra, inferiores.
Nenhum espírito com tendências e objectivos altaneiros será atraído ao plano inferior, e jamais se submeterá a influência que não lhe tenha a dominância.
De acordo com a harmonia perfeita de atracções fluídicas, cármicas, etc., com base na unidade dos povos, agrupamentos de pessoas e constituição de famílias, cada espírito é atraído justamente para o meio ao quais suas habilidades e forças morais mais se adaptem; ao mesmo tempo, isto corresponde às existências de expiação ou provação.
Nos primeiros períodos da existência, as vidas dos espíritos são sempre menos complexas; mas no grande laboratório, a enorme oficina da vida planetária achar-se-ão vagas para todos, conforme suas habilidades, nível de desenvolvimento e necessidade de trabalho no caminho da ascensão.
É um equívoco seu achar que os espíritos são impelidos, contra a sua vontade, na corrente de certo cliché.
Não, o espírito é atraído para o próprio campo de batalha, onde ele deve medir as suas forças, segundo seus gostos e tendências.
À semelhança de um tenor, que não pode cantar como um baixo, um trágico não pode interpretar o papel de cómico; um carregador de malas não pode ser um príncipe; um malfeitor não pode levar a vida de um santo – assim, também, cada um assume um papel, que ele pode, ou julga poder assumir para interpretar.
A peça é a mesma, o papel está marcado, mas o actor lhe pode dar um maior realce ou até, numa certa medida, alterá-lo, imprimindo-lhe sua individualidade.
Se ele o interpretar bem, tanto melhor; se interpretar mal e ainda se achar o supra-sumo, ele deve reiniciar...
E é só.
Os povos, tal qual algumas individualidades, se submetem às mesmas leis; eles têm o próprio cliché, as suas condições cármicas e o seu temperamento nacional, cuja natureza já lhe delineei ao abordar as transmigrações de um espírito através dos três reinos.
Nas tendências e nos traços distintivos de um povo, é de grande importância o predomínio deste ou doutro elemento na composição de seu corpo astral.
Os povos melhores dotados são aqueles em que prepondera a influência do elemento fogo:
nós os denominamos de povos solares.
Eles são religiosos, crentes, cheios de ímpetos benfazejos, dadivados por habilidades em todos os campos da ciência, são artistas natos e dotados de coragem ímpar; ao mesmo tempo, eles são calmos e obstinados feito uma chama, eles não largam a sua presa.
Sendo místicos, sonhadores e pensadores profundos por natureza, os povos solares fornecem o maior número de santos, homens de destaque, fleumáticos, ainda que por vezes de saúde debilitada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:57 pm

Os povos que saíram das corporações aéreas almejam por regiões de luz.
Eles também são dadivosos, possuem uma inteligência viva e jovial, ainda que licenciosa, pois são inconstantes e eventualmente passionais.
Deles saem os inovadores, adeptos fanáticos de seitas religiosas ou livres-pensadores impassíveis.
Aqueles, nos quais predomina o elemento água, são calmos exteriormente como um oceano num dia tranquilo; mas em seu âmago, eles são traiçoeiros, ambiciosos e ladinos.
Sendo a água o seu elemento pátrio, deles saem, sobretudo, navegadores intrépidos, comerciantes e cientistas, destacados no campo de ciências práticas.
O elemento “terra” atrai índoles vulgares; o povo, em cujo astral este elemento predomina, é normalmente formado de pessoas de corpo pesado, vorazes, cobiçosas, sedentas de sangue, interesseiras e cruéis; sua mente é pesada, rija, arrogante e malévola, suas atitudes com os outros são de desdém.
Tais povos são pouco religiosos, são os que mais fornecem ateus e apóstatas, e favorecem as forças do mal, entre eles pululam os feiticeiros e os servos de Lúcifer.
A formação das futuras nações dá-se com base nos actos de suas existências anteriores, de acordo com a lei cármica.
O cliché astral de um ou outro povo não é o resultado de sua obediência servil às impressões de seu cliché; as próprias impressões é que correspondem às tendências, carácter e temperamento daquela nação; por outro lado, as impressões vividas por aquela nação se ajustam tanto aos acontecimentos gravados, que praticamente a eles são idênticos.
No que se refere às individualidades isoladas, está claro que cada uma tenta se arrumar no âmbito de seus gostos e ideias, procurando – como se escolhe, numa loja, um traje na medida certa – um cliché existencial no qual ele espera dar-se bem, ou expiar o passado que tanto lhe onera.
Entre os biliões de espíritos que pairam na órbita de nossa velha Terra, e entre os espíritos elementais que trabalham para sua transformação, os regentes elegerão os povos planetários vindouros, com base nos seus actos passados. Essa será a população subsequente a se aprontar para uma nova evolução; composta justamente, pelo elenco de atores daquele mesmo cliché que está ligado com o mundo ressuscitado.
- Você me disse antes que o cliché, atrelado a Terra, vem de outro mundo destruído.
Por quantas vezes ele pode ser utilizado, e passa ele sempre directamente de um mundo para o outro?
- Dele se servem tantas vezes quanto se fizer necessário, e, depois de utilizado, ele volta a seu lugar nos arquivos do Universo, de onde, se for preciso, ele pode ser retirado. Devo acrescentar que a película do cliché astral é indestrutível, e, após a aniquilação do sistema planetário, retorna definitivamente aos arquivos, onde permanece como um documento do passado.
Com as novas criações, as condições são outras, ou as impressões anteriores já não atendem às necessidades das humanidades em formação, as quais ainda que passem por um curso de aprendizado, têm matérias diferentes.
- Meu Deus, como isso é interessante e complexo, no entanto simples e grandioso!
Feliz é aquele que pode compreender ao menos uma partícula dos mistérios da criação.
- Cada um que possuir boa vontade poderá vir a conhecer a verdade através do trabalho obstinado – observou Dakhir.
- Será? Há pessoas que são incapazes de entender o sentido de uma rotina da mais simples e ordinária – exclamou Kalitin. – Lembro-me de um colega na Terra.
Era uma pessoa finíssima, mas surda e cega a qualquer questão de natureza abstracta ou esotérica.
Eu sempre gostava de mergulhar em livros velhos, pois o passado me excitava, na época totalmente inexplicável.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:57 pm

Casualmente veio para em minhas mãos um livro muito antigo sobre ocultismo; falava de muita coisa incompreensível e, entre outros temas, sobre a reencarnação.
A transmigração da alma por três reinos, sobre os ciclos e assim por diante.
Essas três questões fascinavam-me; assim, depois, conversei sobre o assunto com o colega que trabalhava comigo no instituto astronómico.
Meu Deus, como ele ficou furioso!
Só de pensar que ele podia ter sido um seixo, uma cebola ou uma coruja – a relação, a propósito, é dele mesmo -, ficou indignado; da mesma forma ela não admitia os ciclos.
E eu não fosse uma pessoa de paz, a polémica científica teria acabado numa briga; ainda assim, ele me criou certos embaraços com os colegas.
Mas depois veio a catástrofe e ele provavelmente pereceu, sem mudar seu ponto de vista, já que ignoro se tomou a substância primeva.
Andrei silenciou e afundou-se em pensamentos tristes.
- Sim, como é teimosa a cegueira de alguns; mas isso é uma consequência cármica: é inútil convencê-los, pois sua existência anterior turva-lhes a razão.
Nenhuma mente pensante livre pode rejeitar os fenómenos mostrados pela própria natureza com tanta clareza.
Tomemos por exemplo, como prova da passagem do homem pelos três reinos, o processo enigmático de sua formação.
O infinitamente minúsculo núcleo do futuro ser humano é constituído de três elementos, os mesmos que constituem a Terra, sobre a qual é predestinado viver.
O espermatozóide assemelha-se a uma planta; uma de suas extremidades é a cabecinha esferóide, a outra, a cauda.
Dissecando-o, vemos que a parte restante se parece com um bulbo, consistindo de uma série de tegumentos finos, encerrando uma substância líquida.
A seguir, o ser embrionário começa a projectar seus membros para fora e fica definido.
Depois o embrião se desenvolve num fruto, adquire à forma de um girino, vivendo tal qual um anfíbio, e desenvolve-se nas assim chamadas “águas”.
Vez ou outra, o embrião adquire as propriedades de um ser humano, ele é tomado pelo primeiro estremecer do sopro eterno, move-se...
E a essência divina incorpora-se no feto, onde permanece até o momento da morte física do homem, quando este se torna novamente um espírito.
Da mesma forma que um fruto se desenvolve no meio líquido do ventre da mãe, assim as terras amadurecem no éter mundial, ou fluído astral das entranhas do Universo.
Esses nascituros cósmicos, assim como seus habitantes pigmeus, constituem-se, inicialmente, de núcleos, e só depois em embriões.
Aos poucos, eles vão amadurecendo, desenvolvem espécies minerais, plantas, animais e homens; eles nascem, crescem, envelhecem e morrem ao fim da existência.
Dessa forma, os ciclos sucedem aos ciclos, abrangidos por abrangentes até o infinito.
O embrião desenvolve-se em sua esfera pré-mater; o indivíduo, em sua família; a família na nação, a nação, na humanidade; a Terra, em nosso sistema solar; o sistema, em seu Universo; o Universo, no cosmo, e o cosmo – na causa primeira e única, impenetrável e infinita.
Oh, como é grandioso esse conhecer da vida dos mundos e seres; quanta simplicidade nas leis básicas e diversidade nas consequências!
E essa diversidade já desconcerta, perscrutada dentro dos nossos minúsculos e restritos horizontes, quem dirá das maravilhas incógnitas e insuspeitas de outros mundos e sistemas a navegarem no espaço infinito, feito arquipélagos translúcidos!
Ah, como gostaria um dia de ir para um lugar desses!
Dakhir sorriu melancólico.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 21, 2016 7:57 pm

- Quando você estiver pronto para ser um turista espacial, sem dúvida irá aos sistemas acessíveis, onde poderá ver muitas maravilhas.
E quanto mais ascender, tanto melhor compreenderá os mecanismos das leis a tornarem necessárias a fé, a prece e a prática do bem, ou seja:
tudo que precipita o extravasamento puro e ardente – um contrapeso ao mal e um factor de equilíbrio em que se alicerça a existência do mundo.
Tais eflúvios servem de contenção contra as correntes das forças e dos seres caóticos e perniciosos que operam no âmbito de massas atmosféricas insubmissas.
Lá ruge e retumba a matéria primeira em seu estado vulgar, povoada de monstros espirituais, cujo aspecto horripilante seria difícil de descrever; lá, em seu estado de poder primitivo, enraivecem os elementos, impossibilitados de sai limites planetários.
Mas, onde quer que seja retardada ou interrompida a atracção que exerce a corrente divina – uma força obediente, harmónica e poderosa -, lá se forma uma brecha, pela qual se irrompem as forças desconexas do caos com seus elementos desenfreados, que, feito um furação, aniquilam tudo em seu caminho.
- É isso que explica os chamados “milagres”, as curas miraculosas...?
Se entendi bem, as enfermidades físicas e morais assinalam o caos, a desagregação dos principais elementos do nosso minúsculo cosmo humano, enquanto que o êxtase puro da prece atrai a corrente da graça divina, proporcionando a cura de doenças, ou, em outras palavras, restabelece a harmonia e o equilíbrio.
- Sua observação é correta.
Não só a poderosa prece dos seres superiores – os assim chamados santos -, mas também a dos mortais comuns, macerados de dor; o arrebatamento da alma crente faz o corpo astral separar-se da carne vulgar; em tais momentos o espírito do homem mergulha na corrente divina afluída, ou na aura do santo, pela qual ela clama, lá encontrando todas as substâncias químicas necessárias para ele, ou para aquele por quem ora.
Com base no que foi dito, você há-de compreender a grande responsabilidade de sermos os legisladores, e o quanto é imprescindível enraizar firmemente as leis divinas, para assegurar a prosperidade do planeta.
A acção correta das correntes astrais puras deve ser consolidada com a fé dos povos, com preces conjuntas das multidões, com persuasão de que todo o apoio deve ser buscado junto às forças do bem e que, para recebê-la do alto, ele deve ser merecido.
Onde enfraquece a fé, desembestam paixões baixas, promovem-se orgias e profanações, e vicejam instintos animais lascivos; lá, sob o influxo do sopro desagregante do mal e desarmonia, estabelece-se um ambiente para espíritos caóticos, incapazes de sobreviverem fora das correntes desordenadas.
Então, desencadeiam-se as tempestades, as inundações, as estiagens; descontrola-se a temperatura; as epidemias assolam.
Diz-se então:
“tal paios foi atingido pela ira de Deus”.
Um mensageiro enviado por Ebramar para convidar Dakhir para uma reunião dos magos interrompeu a conversa.
Narayana, que acabara de chegar à cidade, queria pedir alguns conselhos aos amigos e seus superiores e relatar os últimos acontecimentos.
Na cidade fundada por Abrasack a vida corria em penosa monotonia, sobretudo para as prisioneiras, que pouco se interessavam pelos arranjos de guerra ultimados a todo vapor.
Para as jovens sacerdotisas, raptadas traiçoeiramente por Abrasack, e tornadas, a contragosto, esposas dos companheiros do rebelde insolente, o dia-a-dia era por demais duro, principalmente no primeiro ano de rapto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 7:24 pm

Elas foram atingidas como que por um furacão de sentimentos e correntes pesadas, materiais, eivadas de paixões vulgares, que modificou tudo externa e internamente.
Para Urjane, a provação era assaz penosa.
Oprimia-a a longa separação de Narayana e de seus pais; mas, sem fraquejar, encontrava paciente a paz na actividade intensa.
Se, num momento de fraqueza, a separação de seu amado parecia-lhe por demais torturantes, ela repetia o mote do pai, quando fazia alusão à angústia de suas vidas seculares:
- Vamos trabalhar amigos!
Quem trabalha, devora o tempo!
Relacionamento de Abrasack com a jovem era um tanto curioso.
Convencido de que suas investidas em possuí-la não lograriam êxito, ele também por nada concordaria em soltá-la; sempre desconfiado, ele a vigiava soturno, ainda que esta nem pensasse em fugir.
Em seus raros encontros, Urjane recebia-o amistosa; conversava com a melhor boa-vontade, e tentava elevá-lo.
Justamente essa meiguice conciliadora irritava o orgulhoso e explosivo Abrasack:
ante sua fúria intempestiva aquela docilidade impassível.
- Daria tudo por seu amor; não preciso de sua magnanimidade temperada com desprezo – atirou ele furioso certo dia, ao se retirar.
Normalmente, depois de semelhantes cenas, ele se refugiava na casa de Avani; o olhar profundo e límpido da sacerdotisa tinha a propriedade de acalmá-lo.
- Como você é boa e paciente, Avani, e eu nem ao menos mereci isso! – Falou ele, certa vez.
- Já que você me transformou numa diva, cumprirei esse papel, e a primeira virtude da divindade é a paciência – devolveu Avani séria e pensativa.
Assim o tempo foi passando.
Agora Abrasack contava com um exército bastante treinado; se bem que guarnecida de armas rudimentares, a monstruosa força dos gigantes representava um poder ameaçador.
Um incidente inesperado tirou Abrasack de seu estado relativamente tranquilo.
Um destacamento de seu exército, liderado por um dos seus amigos, foi vitima de um ataque de tropa desconhecida, cujos guerreiros se revelaram mais hábeis e mais bem armados, ainda que o inimigo perdesse em estatura para os gigantes de Abrasack, infringindo-lhes uma fragorosa derrota com grandes baixas.
Segundo as palavras do amigo, o comandante da tropa inimiga era uma pessoa alta, de tez vermelho-bronze, elmo pontiagudo e colar de pedras preciosas no pescoço; seus comandados, também de tez avermelhada, revelaram-se muito argutos.
Armados de arcos e flechas, eles combatia com competência e mobilidade incríveis.
Abrasack ficou desconcertado.
Então os magos o enganaram, ao negarem a existência, no novo planeta, de povos relativamente cultos, e soltando contra ele aquelas hordas aguerridas?
Isso teria de ser averiguado o mais rápido possível.
Porém seu espelho mágico só lhe possibilitou divisar enormes agrupamentos de homens de pele vermelha, descritos por Clodomiro; quanto à sua origem – fosse ou não aquilo um caso fortuito, ou a vontade dos magos -, ele nada pode descobrir.
Como no decorrer das semanas consecutivas os choques se repetiram, normalmente a favor dos vermelhos, sendo até tomada e queimada uma das aldeias dos gigantes na fronteira com a floresta, Abrasack alarmou-se.
Ele resolveu, então, antecipar a sua incursão sobre a cidade dos magos e, sem perder tempo, iniciou os últimos preparativos.
Todo seu exército seria enviado ao local no qual ele esperaria a chegada dos monstros, comandados pelo Abrasack.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 7:24 pm

Para defender a cidade com as suas prisioneiras, ficaria um destacamento de reserva, bem provido de munição e comandado por um dos amigos.
Finalmente, numa manhã, o espantoso exército deixou a cidade.
Abrasack e Clodomiro dirigiram-se às ilhas rochosas atrás dos monstros chifrudos, cuja tarefa era destroçar a cidade dos magos.
Enquanto se processavam os preparativos de Abrasack, Narayana também não perdia tempo.
Ele montou seu quartel-general junto aos povos civilizados por Udea, que, divididos em tribos, dedicavam-se essencialmente à pecuária e cultivo de trigo.
Com seu característico talento de organização, Narayana soube treinar rapidamente as massas, desenvolvendo-lhes o espírito guerreiro e a coragem.
Em pouco tempo ele seleccionou os mais dotados e deles fez comandantes:
justamente os que lideraram os ataques bem-sucedidos contras as hordas selvagens de Abrasack.
Seu exército estava pronto a sair em campanha contra os “macacos”, quando Narayana recebeu de repente uma ordem dos magos superiores de levar as forças armadas até os arredores da cidade divina, lá acampando.
Uma notícia súbita correu pela cidade, anunciando a iminente ameaça à paz reinante.
Ao voltarem do trabalho, de lugares afastados, os operários contaram assustados terem visto por entre os bosques exércitos de gigantes peludos, parecidos aos que haviam raptado Urjane e suas companheiras, acompanhados por monstros insólitos, de estatura imensurável, chifrudos e horripilantes.
Pelo que tudo indicava, aquelas hordas asquerosas se dirigiam à cidade divina.
Dois dias depois, foi possível ouvir claramente o retumbar surdo das massas em movimento e o vozerio longínquo e desconexo; nuvens negras como que assomavam no horizonte, espalhando-se em ondas revoltas pela planície, emoldurando o platô em que se localiza a cidade divina.
Até onde alcançava a vista, só se viam as massas inimigas emergindo.
Feito uma avalanche incontida, as hordas avançavam arrancando árvores em seu caminho; a terra tremia sob as passadas troantes, e os gritos desconexos, ao se fundirem, lembravam o urro de ondas quebrando-se aos estrondos nas margens rochosas; um cheiro nauseabundo envenenava o ar por longas distâncias.
Na frente das massas negras de gigantes simiescos, vinham os lendários seres monstruosos – criaturas rudes e asquerosas de natureza primitiva.
Os enormes colossos eram cobertos por pêlo longo; em alguns a pele desnudada era pintalgada como nos répteis; a maioria possuía chifres curvos e todos tinham rabos que se arrastavam pela terra.
Com as mãos, antes patas com unhas ou garras curvas, eles levantavam e lançavam longe, feito brinquedos, blocos enormes de pedra e troncos de árvores, arrancadas pela raiz.
Esse mar de criaturas rolava cercando aos poucos a cidade.
Em cima, montados nos dragões alados, adejavam os companheiros de Abrasack, comandando as massas, e acima de todos pairava o próprio audaz rebelde.
Vestido de branco e visível a todos, Abrasack montava o Tenebroso; bem treinado, ele obedecia a qualquer sinal das pernas.
O comandante-em-chefe empunhava uma lira de cristal a fulgir em centenas de brilhantes; de seu pescoço pendia, unido pela corrente de ouro, uma espécie de clarim mágico, cujos sons levavam a fúria o espírito guerreiro de seus combatentes.
Dakhir, que acompanhava o avanço dos atacantes, ordenou aos ajudantes abrirem uma portinhola no parapeito da plataforma da torre.
Do lado de fora balouçava um barco aéreo de tamanho mediano, dotado de aparelhos nas extremidades de onde pendiam feixes de finas varetas metálicas.
Embarcaram quatro pessoas, e a nave ganhou altura.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 7:24 pm

Dakhir e um adepto acomodaram-se junto dos aparelhos; Kalitin e um outro discípulo receberam a ordem de pilotar a embarcação de acordo com as instruções do mago.
Praticamente ao mesmo tempo, das demais torres alçaram voo outras aeronaves de construção idêntica, espalhando-se em várias direcções.
Tão logo os monstros chifrudos começaram a galgar as rochas íngremes das encostas do platô onde se localizava a cidade, acima das primeiras fileiras do inimigo surgiu à nave de Dakhir; teve início, então, um espectáculo estranho e assombroso.
As varetas metálicas cuspiram feixes de fagulhas, atingindo aos silvos insólitos as fileiras cerradas do inimigo.
Quase simultaneamente, no bojo das massas atacantes, formaram-se lacunas; os monstros pareciam ter evaporado, sem deixar nenhum vestígio.
À medida que o barco deslizava, e as armas dardejavam as fagulhas mortíferas, sumiam ou se derretiam no ar os monstros inimigos.
Por todo e qualquer lugar onde os projecteis acabavam caindo, as massas urrantes simplesmente sumiam junto com os blocos de pedras ou troncos de árvores que carregavam.
O solo, em compensação, cobria-se por uma fina camada de cinzas brancas.
O terror apossou-se dos sobreviventes.
Gritando e urrando, eles voltavam para trás, de encontro às massas dos gigantes simiescos, levando desorganização às suas fileiras.
A cena foi medonha.
As criaturas ensandecidas, na confusão geral, começaram a empurrar e pisotear uns aos outros, desaparecendo em nuvens de faíscas que jorravam.
Os amigos de Abrasack estavam perplexos e mudos de terror ao verem o aniquilamento de seu exército.
Seus cavalos alados começaram a revelar uma atitude perigosa, atirando-se em várias direcções e recusando-se a obedecer; por fim, meio acuados, eles partiram em desabalado voo em direcção às florestas.
Nesse ínterim, o exército de Narayana começou a descer das montanhas, animado por ímpeto guerreiro.
Assim que surgiram os novos combatentes, os barcos espaciais cessaram seu trabalho de devastação, aliás, já concluído.
Iniciou-se um combate sangrento.
O exército dos “macacos”, totalmente abatido, mais pensava em fugir; no entanto, o instinto de preservação fazia com que eles repelissem o ataque, e o confronto teria custado muito sangue, se uma circunstância inesperada não colocasse um termo à luta.
Nuvens escuras cobriram rapidamente o céu, e desencadeou-se uma tempestade; a escuridão era tamanha que nada se podia enxergar, e neste furacão dos elementos enfurecidos o combate cessou por si mesmo.
Finalmente os trovões e os rugidos da tempestade sossegaram; um pálido lusco-fusco alumiou o campo de batalha e os sobreviventes do exército de Abrasack, dignos de dó, debandaram, urrando de pavor, em direcção às suas florestas.
Por si só, a locomoção pela terra provocava neles um enorme desconforto e medo, e, tão logo se viram sob as copas das frondosas e gigantescas árvores seculares, treparam-nas e, pulando de galho em galho, dirigiram-se às suas aldeias.
Abrasack resistiu o quanto pode.
Ele logo atinou a terrível força posta a serviço dos magos para derrotá-lo; ouviu os outros falarem dela, mas como dominá-la? – Era um mistério.
Um louco desespero dele se apoderou.
Ele execrava a hora em que tinha tomado a substância primeva; a imortalidade pela qual ele tanto ansiava parecia-lhe agora uma maldição, ela o fazia render-se, amarrado pelos pés e mãos, à autoridade dos juízes implacáveis que zombaram de sua insurreição.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 7:24 pm

Subitamente, numa nave exterminadora, ele avistou Dakhir.
Um ódio furioso estremeceu-lhe todo o ser, e em seu cérebro excitado raiou um pensamento.
Quem sabe, já que imune à morte ordinária, aquela força desconhecida, que pulverizava até os gigantes primitivos e as rochas maciças, poderia proporcionar-lhe também a morte desejada, livrando-o da punição iminente?
Dominado por essa vontade, ele quis manobrar o Tenebroso para descer naquele turbilhão de feixes; mas, pela primeira vez, este se rebelou em acatar a sua ordem, iniciando-se então um confronto entre os dois, e o animal saiu ganhando.
Fungando e rasgando o ar com a poderosa cauda, o dragão alçou às alturas e precipitou-se em direcção às florestas, ameaçando despojar-se de seu cavaleiro.
Nem Abrasack seria capaz de explicar como chegou à cidade; sua cabeça girava, e só um instinto cego de preservação fez com que se agarrasse firmemente no animal ensandecido.
Já recuperado, viu-se deitado na terra perto da entrada do templo.
A noite já descera.
Pela cidade ouviam-se gritos e urros de dor; figuras peludas corriam saltitando e sem rumo.
Num esforço sobre-humano, Abrasack levantou-se e arrastou-se até o templo.
Sua roupa esfarrapada estava suja de barro, todo o corpo doía, a respiração era intermitente, mas ele nada parecia perceber.
Um pensamento só martelava-lhe a cabeça latejante.
“Fui derrotado, estou impotente.
Fui obrigado a continuar a viver e a submeter-me à punição diabólica planeada”.
O templo estava vazio.
No altar ardiam ervas, flores e um feixe de ramos resinosos; algumas lâmpadas fixadas ao paredão rochoso espalhavam uma fraca luz azulada.
Avani acabou de arrumar o fogo sobre o altar, fez orações e recolheu-se ao seu nicho.
Urjane, que há pouco estivera com ela, confiou-lhe que, aparentemente, Abrasack e seus companheiros tinham sofrido um revés a julgar pelo facto de que haviam retornado abestalhados, trancando-se em suas casas.
Entre os “macacos”, segundo as suas palavras, reinava um pânico desesperante; nenhum deles sabia dizer o que teria acontecido a Abrasack.
- Já sabíamos antes sobre a derrota dos infelizes.
Tinha ele que intentar uma guerra justo contra aqueles de quem conhecia o poder?
Tenho muita pena! – Concluiu Urjane.
- À semelhança de Ícaro, imaginava ela alcançar o céu nas asas de cera...
Entretanto, nela habita um espírito forte e valoroso, e seria uma pena deixar que essa força se extinga em vão – observou Avani.
- Tem razão!
Narayana não teria insistido em protegê-lo, caso não pressentisse nele um espírito eleito, eclipsado por desditosas circunstâncias.
Bem, já vou indo para casa, algo me diz que seremos logo libertadas.
Ela despediu-se meigamente da amiga e deixou a gruta.
No momento em que Avani subia ao nicho com a intenção de voltar para o quarto e rezar, no templo entrou Abrasack.
Pálido e cambaleando como ébrio, ele se aproximou do altar, mas desfaleceu no primeiro degrau.
Avani precipitou-se para baixo e, ao se convencer de que Abrasack perdera os sentidos, umedeceu no reservatório uma toalha e com ela esfregou o rosto empoeirado de Abrasack.
Depois, tirou um frasco detrás do cinto, dele verteu algumas gotas sobre as chamas que tremulavam sobre o altar, e um aroma vivifico invadiu a gruta.
Tomando uma taça, cheia de líquido vermelho pela metade, ela se voltou para Abrasack; este já de olhos abertos, soergueu-se com muito esforço.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 22, 2016 7:25 pm

- Estou com sede – balbuciou.
Avani levou-lhe aos lábios a taça, e ele avidamente bebeu.
Súbito ele agarrou a cabeça com as mãos e, sufocando-se, gritou em voz entrecortada:
- Eles venceram, não passo de um fugitivo sem meu poder.
- Faz parte de a vida humana tropeçar pelo caminho.
Seu orgulho e sentimento impuro fizeram com que usasse para o mal seus conhecimentos; arrependa-se, pois e reconheça a sua impotência, assim terá a indulgência de seus juízes.
- Indulgência? – Ele riu secamente.
Ela se expressará, sem dúvida, numa punição diabólica.
- Envergonhe-se, e não se esqueça de que os seus vencedores são seres superiores, incapazes de sentimentos mesquinhos e cruéis.
A punição aplicada servirá apenas para sua ascensão; quanto mais sincero for o seu arrependimento, mais indulgente será a sentença.
Só a revolta e a teimosia merecem castigos severo.
Sei que você teme a ira justa de Narayana, mas nenhuma vingança vil orientará um adversário tão digno como ele, e se você se mostrar sinceramente arrependido, ele perdoará, como um pai perdoa ao filho pródigo.
- Você não tem noção de como é difícil me humilhar e me reconhecer um joguete impotente, sujeito à destruição pela mão de seu dono – sussurrou sombriamente Abrasack.
Avani estremeceu e afastou-se dele.
- Então você não percebe Abrasack, que são os espíritos das trevas que o norteiam?
São eles que lhe murmuram o orgulho e a rebeldia.
Expulse os lúgubres conselheiros, gerados por paixões, instintos impuros, prepotência exacerbada e ambição pelo poder.
Afaste esses servos ignominiosos!
Que eles morram de inédia, privados do alimento da exalação de suas paixões.
Domine seu orgulho, purifique-se e reze!
Você ergueu um templo para os seres inferiores aprenderem a venerar a Divindade, mas se olvidou de si.
Ou você deixou em esquecimento a importância de orar, haurindo a luz, o calor e a força do foco do Plenipotente?
Por que não recorrer a essa graça sublime, beneficiável a toda alma?
Por que não se utilizar desse talismã concedido a todos os fracos e deserdados, mas que lhe foi arrebatado pelo orgulho e fatuidade imensuráveis?
Os próprios magos e os hierofantes superiores submetem-se silenciosos ante a Divindade, para haurirem a força e a sabedoria da fonte da luz sublime.
E quanto mais alto estiverem na escada da perfeição, tanto mais humildes eles se tornam, pois a verdadeira grandeza consiste na consciência da imensurabilidade do caminho para a perfeição.
Acredite só lhe desejo o bem; resigne-se e ore, e as forças do bem o irão proteger, inspirando-o e elevando-lhe a luz.
Abrasack continuou calado, sua terrível excitação deu lugar a um grande desânimo.
Avani se pôs de joelhos diante do altar e começou a orar ardorosamente.
Na cidade divina, os elementos desenfreados logo se acalmaram e o sol ascendente cobriu de raios o campo de batalha, onde milhares de criaturas vivas pereceram sem deixarem vestígios, tirante uma camada fina de cinzas.
Os magos reuniram-se para discutir o futuro, Narayana, que se encontrava presente, não parecia estar no melhor de seus humores.
- Tinham vocês de desencadear a tempestade e a escuridão, atrapalhando o meu exército de ter uma participação decisiva no combate?
Para que eu me esforcei no recrutamento do exército, se tudo poderia ser feito com o auxílio da força etérea?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 5 de 7 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum