Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:09 pm

Jamais alguém intuíra a amplitude daquela Sapiência e Omniconhecimento que parecem ter-se infundido nas mais ínfimas das partículas.
Até a luz de uma estrela, que percorre distâncias incalculáveis antes de atingir, milhares de séculos depois, a nossa pesada atmosfera, não é uma obra do acaso.
Mensageira arcana de um mundo talvez extinto, ela carrega consigo as substâncias cósmicas das quais aqui necessitamos...
Ebramar calou-se e seu olhar inspirado parecia fitar uma visão longínqua.
Só de imaginarem a lonjura árdua a ser trilhada e o enorme trabalho a ser feito, uma opressão tomou conta dos corações de seus ouvintes – como átomos, perdidos na imensidão das humanidades, cujo calcanhar do tempo os pisoteia feito formigas em sua caminhada; parecia até que eles ouviam o crepitar da roda da eternidade.
Lançando um olha sobre os discípulos, Ebramar entendeu-lhes o estado espiritual e disse afável:
- É claro, ficaríamos tontos só de imaginar o infinito que nos cerca, mas devemos sacudir energicamente esta fraqueza e conscientizarmo-nos de que entre as biliões de almas somos bastante bem-aventurados pelo destino.
Apreendemos muitas leis, ignoradas e inacessíveis aos profanos; já deixamos para trás as árduas transmigrações da inevitável ascensão.
Que conduz a faísca indestrutível desde o seu átomo até o radioso ponto central, onde habita o Inefável, de Cuja partícula nos compõe.
Assim, ergam a cabeça, meus amigos!
Vou deixá-los para galgar mais um degrau; prometo, entretanto, não perder tempo e preparar-me condignamente para recebê-los, meus queridos discípulos, da mesma forma, como me aguardam agora os meus leais mentores.
Sem dúvida, o meu ser será regido por condições etéreas diferentes; mas o laço que nos une jamais se romperá.
- Mestre – murmurou surdamente Narayana – tenho um pedido a fazer.
Gostaria de presenciar a sua partida, e consideraria este momento como uma das lembranças mais caras e sagradas.
Poderei ter essa graça?
Talvez eu não seja digno disso, ou não poderei suportar aquela luz extraterrestre.
- Prometo-lhe que você estará comigo nessa hora solene, e que me verá ficar livre do invólucro terreno.
Trabalhe com todo o seu empenho para unir-se a mim e aproximar o tempo, quando, meus filhos, eu os receberei em minha nova morada.
No dia seguinte os magos partiram, em companhia de Narayana para visitar o reino de Abrasack.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:10 pm

CAPÍTULO XVI

A aeronave rapidamente se aproximava dos domínios de Abrasack.
Os magos viajavam sem tê-lo avisado; tampouco seus mensageiros foram enviados pedindo aos mestres para inspeccionarem o reino.
Como nenhum dos dois monarcas recebeu convite, Udea esquivou-se de acompanhar os magos e preferiu voltar para casa com Ariana.
Narayana juntou-se ao grupo de Ebramar, reportando-se a seu direito inalienável de participar da verificação dos êxitos de seu ex-discípulo.
Da altitude de seu voo, via-se abaixo estendido um panorama maravilhoso.
Um caudaloso rio rolava em seu leito e, por ambas as margens, estiravam-se largas faixas de terras férteis e vegetação exuberante, ladeadas no horizonte por uma cordilheira dentada de montanhas nuas.
No largo estuário divisavam-se algumas ilhas; uma delas – maior e toda granítica – avançava feito sentinela.
Continuando seu voo estonteante, a nave logo começou a pousar suavemente; divisou-se, então, uma enorme cidade espalhada por duas margens do rio.
Seus prédios enormes, cercados de vastos jardins, perdiam-se ao longe.
Todos os magos estavam reunidos na ponte de comando, quando a nave diminuiu a marcha.
De súbito, Narayana, largando seu telescópio, pôs-se a rir.
- Mestres, estamos sendo esperados!
Há até ancoradouro para a nossa nave.
Há-há-há! Bravo, Abrasack!
Eis o que significa uma policia organizada!
Agora se distinguia claramente um mar de cabeças humanas a se agitarem na margem, e as comitivas perfiladas em volta do porto, onde a nave acabou por se atracar.
Uma vasta escadaria coberta por esteiras coloridas conduzia a uma elevação, onde estava Abrasack com Avani e uma família numerosa; cinco filhos e três filhas.
Todos trajavam vestes de linho ricamente bordadas; seus rostos exprimiam muita resolução e mente desenvolvida.
Todo o povo se prostrou, quando Abrasack e seus familiares saudaram respeitosamente os magos.
Em seguida, levados de liteiras até o palácio, um magnífico almoço aguardava os visitantes.
Os magos elogiaram o rei por ter-lhes adivinhado a chegada inesperada, com isso provando que ele mantinha comunicação magnética com a cidade divina.
No dia seguinte, os magos reuniram-se no salão de trabalho de Abrasack.
Sentado no centro do semicírculo formado pelos magos, o rei delineou no mapa os contornos de seu reino, antes que se iniciasse a inspecção do país e suas instituições.
O belo semblante másculo de Abrasack mudara muito nesses últimos séculos; agora ele se reflectia uma dignidade serena e aquela consciência da força o poder e o hábito de comandar proporcionam.
- Permitam-me caros mestres, relatar sucintamente o que aconteceu desde o momento em que eu desembarquei com meus companheiros nesta terra estéril e pantanosa, onde tiritava um povo numeroso, rude, selvagem e rebelde.
Estava claro que os nativos não tinham a menor noção de leis, obrigações, divindades ou qualquer outro afã sério.
Para poder modelar esse barro humano, a mim fornecido, tive de diluí-lo com uma dose de medo.
Com os poderes que eu tinha à disposição, domestiquei-os e subjuguei-os à minha vontade.
Mais tarde, instalei-os mesclados em ambas as margens.
Segundo o plano geral, a futura civilização deveria basear-se em três pilares: a religião, com seus rituais; o poder régio implacável, envolto em mistério divino e, finalmente, as leis sociais, que pudessem manter o povo dentro dos limites desejados, assegurando-lhes um caminho ao progresso por muitos séculos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:10 pm

O poder do monarca, assistido por um Conselho de Iniciados, seria o cerne de todo o sistema governamental.
Vocês, caros mestres, leitores de pensamentos alheios, para os quais uma alma tosca não representa mistérios, hão-de acreditar não terem sido nem o orgulho, tampouco a vaidade, que me moveram a elevar a virtude régia a uma altura inacessível, e cercá-la de adoração divina.
Não, sempre considerei a monarquia, pela sua simplicidade, como o sistema mais perfeito e adequado de governar os povos, ainda que o rei, naturalmente, deva corresponder a esses ideais.
Até hoje, a minha transborda do desejo exaltado de justificar a confiança em mim depositada nos meus propósitos de proporcionar a esse povo os maiores benefícios possível, fundindo-me a ele em seus interesses.
Julgarão vocês mesmos, se eu logrei o intento, porém, o meu maior medo sempre foi o de me tornar um monarca medíocre, um desses que permearam pela nossa Terra extinta, na época de sua decadência.
As minhas leis são rigorosas.
Ciente do mal que causavam as injustiças cuidei de colocar a verdade acima de tudo; perante a justiça, todos são iguais; sejam eles meus filhos, ou o último dos camponeses.
O material humano mais precioso à minha disposição, constituía-se, sem dúvida, do grupo de terráqueos revividos graças à substância primeva.
É claro, nem todos eles eram capazes de utilizar plenamente a capacidade de seu cérebro, ainda que bastante flexível; porém o corpo era desenvolvido e os órgãos bem especializados.
Subitamente, entre esses semi-imortais começaram a ocorrer casos de morte.
Segundo constataram os nossos cientistas iniciados, a imortalidade devia-se às emanações, especialmente nocivas, da terra primitiva, que absorviam e destruíam o elo criado pelo elixir da longa vida, entre o corpo físico e o astral.
Isso me deixou desolado.
Com o aumento da frequência dos casos, eu me vi fadado a ficar, no meio dos selvagens, sem meus instrutores, artistas, artífices, ou seja; despojado de uma raça superior imprescindível.
Se em nosso meio começassem a se encarnar os espíritos da espécie primária, seria impossível cuidar de sua rápida evolução, e a civilização teria se estacionado por um longo tempo.
Confesso que, na época, quase fraquejei e por pouco não lhes pedi ajuda; sabendo que eu tinha uma plena autonomia, fiquei procurando uma solução juntamente com meus iniciados e, finalmente, encontrei-a.
Era necessário atrasar, em determinados lugares, os espíritos desencarnados mais evoluídos e obrigá-los a nascerem em condições apropriadas.
Vocês sabem que a magia torna isso possível, e é de seu conhecimento, também, o número de desgraças que ocorrem em consequência de nascimentos acidentais, quando seres inferiores, de instintos baixos, se hospeda em condições sociais acima de seu nível ético e intelectual.
Não basta nascer herdeiro de trono para saber governar.
Tais intrometidos abominam tudo que lhes seja súpero, viver acercado de nulidades iguais ou de gentalha inculta e devassa, cuja omissão é a causa da ruína geral.
Dispensei uma atenção especial à educação.
Fiz que cada criança aprendesse que atrás dela havia uma divindade, que a agraciara com a grande dádiva – a vida -, e essa dádiva divina ela deveria respeitar em todos, e jamais a subtrair de outrem gratuitamente, pois restituir-lhe a vida seria impossível.
O homem deve preservar sua existência com um modo de vida correto, equilibrado e higiénico.
Toda e qualquer enfermidade em consequência de abusos, perversão e falta de asseio, gula, etc., é tida como criminosa e severamente punida com base nas leis; os pais são responsabilizados, se, por sua negligência, os filhos vierem a adoecer.
- Ah, que ideia maravilhosa!
Vou aproveitá-la no meu reino – interpôs o fogoso Narayana, arrancando risos dos magos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:10 pm

Tal interferência inesperada interrompeu a fala de Abrasack e encetou-se uma animada troca de ideias sobre o que ele acabara de contar.
O dia seguinte foi dedicado à inspecção da cidade.
Abrasack levou suas visitas para um enorme prédio, onde eram guardadas numerosas estátuas de personalidades que se distinguiram em vida por sabedoria, conhecimento e prática do bem.
Chamavam-no Templo da Glória; ali, servidores da casta sagrada revezavam-se, em plantões, no afã de relatarem ao público visitante a vida de grandes homens e seus feitos imortalizados.
A entrada era franca; no caso de castas superiores, estas eram obrigadas a frequentarem o templo junto com seus filhos, desde sua tenra idade, para que se iniciassem em fundamentos de uma vida útil e digna e se conscientizassem de que a menor injustiça, ou acto desonesto, os privaria de assegurarem um lugar entre os eleitos, venerados pelo povo.
Um interesse muito vivo despertara nos magos o método imaginado por Abrasack, de seleccionar as almas para preenchimento de fileiras de sua casta superior.
Narayana manifestou sua impaciência em ver, o quanto antes, a “necrópole viva” – o que, segundo sua opinião, seria o mais interessante no reino do seu ex-discípulo.
- Aguente um pouco!
A “necrópole viva” é a minha obra principal e a deixei para o fim.
- Como você resolveu a questão de sepultamentos? – Indagou Ebramar.
- Confesso que o problema deu muitas dores de cabeça.
Devido ao calor intenso e clima muito húmido, sabia que o simples enterro dos corpos poderia gerar miasmas perigosos; abrir sepulturas em rochas graníticas era um trabalho enorme e improducente.
Tampouco queria incinerar os cadáveres, tendo em vista as consequências danosas para o corpo astral, a destruição do corpo físico pelo fogo.
Assim, optei por outra fórmula.
Os aborígenes – que se destacam das massas gerais, suficientemente evoluídos para receberem certas iniciações e capazes de se tornarem, nas futuras existências, seres úteis, tais como:
funcionários miúdos, artistas ou mestres de ofícios – têm um enterro especial, nos moldes da raça superior.
Fazemos seus espíritos encarnarem no seio de famílias de maior desenvolvimento intelectual, miscigenadas de casamento com os representantes da raça superior.
Quanto à massa básica – ainda no limiar da evolução -, para esta eu estabeleci uma forma mais simples de enterro.
No estuário do rio, cujas águas abastecem o país, vocês devem ter observado uma série de ilhas vulcânicas.
Numa dessas ilhas, escavamos um gigantesco templo subterrâneo, com salões, jazigos e galerias, para onde são levados os defuntos da capital e dos arredores.
Templos semelhantes espalham-se por outras regiões do país.
A família do morto traz para um desses templos o corpo do falecido, deixa-o lá por setenta dias e paga uma pequena taxa pelas despesas iniciais.
Uma casta especial de sacerdotes e servidores tomam conta daqueles templos.
O corpo é levado a uma gruta circular, onde é mantido artificialmente um ambiente seco e quente; no centro do recinto há um enorme reservatório, não fundo, cheio de líquido resinoso e acre.
Impregnado um lençol com este líquido, enrola-se com ele, feito múmia, o corpo do defunto, que é depois mergulhado junto com os outros cadáveres no tanque.
Uma tabuleta, trazida no peito de cada um desses embrulhos, identifica o defunto e a data de seu falecimento.
Sobre altos braseiros, ali queimam ervas resinosas, impregnadas por essências especiais, que espalham uma fumaça de odor sufocante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:10 pm

A cada dois dias o material fumegante é substituído por novo; o tanque é completado com o líquido que fora absorvido pelos cadáveres.
Os servidores, ou melhor, os sacerdotes subalternos, incumbidos desse trabalho, usam vestes especiais e cobrem o rosto com máscaras para se protegerem dos gases nocivos do ambiente.
Ao término de setenta dias, os outrora robustos corpos se encolhem ao tamanho de uma boneca; seus rostos continuam bem reconhecíveis, os cabelos e as unhas permanecem intactos.
Os cadáveres assemelham-se a figuras flexíveis de cera.
Devo dizer que, com o passar do tempo, eles se deterioram, tornando-se pardos ou amarelados, lembrando raízes de plantas.
Mas, ao serem retirados da gruta, seu aspecto é aprazível; à família é fornecido um frasco de essência, com a qual, depois de um certo tempo, o corpo deve ser esfregado, no intuito de lhe preservar o aspecto bem-apessoado.
Os familiares vêm munidos de estojos, e, nessa espécie de ataúde menos ou mais decorado, eles podem levar os mortos para casa ou enterrá-los na ilha.
Muitas famílias abastadas constroem dentro das paredes de suas casas uma espécie de nicho com gavetas, luxuosamente guarnecido, tornado seu sepulcro familiar.
Lá se fumegam essências aromáticas e realizam-se rituais fúnebres.
Dizem que naqueles pequenos jazigos, por vezes se ouvem suspiros, gemidos e até gritos.
Ocorre também, que os familiares apavorados esvaziam aqueles jazigos e levam os mortos para as regiões de vales afastados, despenhadeiros, ou desertos palustres, e lá os semeiam como tubérculos, pois, segundo a crença popular, a terra húmida mitiga os sofrimentos dos pobres defuntos.
A magia já faz parte de nossa civilização; assim, temos feiticeiras que prestam seus serviços às famílias dos mortos.
Elas afirmam que naqueles insólitos sepulcrários viceja uma flora muito estranha:
os cadáveres enterrados na terra húmida transformam-se em verdadeiras raízes, emergindo em tufos de folhas verde-escuras; em noites de luar, sobre eles paira uma sombra azulada de cabeça humana.
As feiticeiras juram que as sombras se comunicam entre si; as raízes daquelas estranhas plantas são tidas como talismãs poderosos, associados com demónios submetidos, utilizados a serviço daqueles que deles dispõem.
Abrasack calou-se.
Um minuto depois um dos magos comentou:
- O que dizem as feiticeiras tem um fundo de verdade.
Apesar de alguns aspectos positivos, seu método é cruel, pois que permite manter parcialmente um elo com o astral.
Mais tarde, direi como evitar este perigo.
Abrasack agradeceu.
No dia seguinte, os magos iniciaram a vistoria detalhada do país e suas instituições, evitando fazer qualquer julgamento daquilo que viam, deixando isso para o final da inspecção.
Finalmente chegou o dia da visitação da necrópole dos vivos, aguardada impacientemente por Narayana.
Um grande barco pintado de preto, uma proa alta e curvada, lembrando à egípcia, aguardava pelos magos.
Doze remadores fizeram-no deslizar pelo rio com a rapidez de uma flecha.
Logo, eles se aproximaram da ilha fúnebre, cujo maciço granítico se assoma funesto por sobre as ondas espumosas, a se quebrarem com estrondo nos ressaltos escarpados, eriçados feito cerdas.
Manobrando entre os recifes, o barco adentrou um longo túnel, ora iluminado por archotes resinosos; depois de numerosas curvas, o barco deu num lago interno, cercado por rochas desnudadas e pontiagudas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:10 pm

Na margem do lago, frente a frente, localizavam-se duas entradas:
sobre seus pórticos viam-se desenhadas em hieróglifos duas inscrições idênticas:
“Morrer para Renascer”.
O barco acostou ao lado de uma das entradas; os magos galgaram uma escada até se virem dentro de um salão espaçoso e abobadado, a partir do qual algumas galerias rochosas se distribuíam em várias direcções, perdendo-se ao longe.
- Aqui os corpos são embalsamados; toda esta parte da ilha é destinada para a preparação das múmias – explicou Abrasack.
Ninguém pode passar além deste salão, excepto os parentes mais próximos que acompanham o morto, ou, quando a múmia estiver pronta, para se despedirem dele.
Se desejarem, caros mestres posso mostrar-lhe todo o processo e, talvez, vocês queiram prescrever algumas modificações.
Com a aquiescência dos magos, Abrasack levou-os até o local onde trabalhavam os sacerdotes sagrados especialmente para embalsamento dos corpos.
Visto tudo, Abrasack retornou com os visitantes para o primeiro salão e convidou-os para atravessarem até a margem oposta, onde se encontrava a “necrópole dos vivos” uma genuína cidade dos mortos.
Todos retornaram ao barco, atravessaram o lago e acostaram perto da entrada oposta; lá, nos degraus, protegia-se-lhe o acesso por esfinges de basalto negro; nos vasos pétreos, de boca larga, queimavam substâncias resinosas.
Através de um corredor largo, findado em dez degraus, descortinou-se um largo templo subterrâneo, cuja abóbada era sustentada por maciços colunares quadriédricos.
Nos fundos, sobre pesados pedestais, erguiam-se duas enormes esfinges esculpidas no rochedo, seus olhos, marchetados na rocha, fulgiam de luz fosforescente, como se perscrutando vivazes, os presentes.
Estremeando as patas do animal, símbolos cabalísticos; numa depressão aprofundada por entre as duas esfinges, à altura de alguns degraus, erigia-se uma espécie de altar pétreo, sustentando uma figura humana em pé, como que envolta numa manta longa.
Das paredes laterais, distribuíam archotes acesos para numerosas galerias.
Junto ao altar e às esfinges, perfilavam-se os sacerdotes e as sacerdotisas, portando harpas prateadas.
Todos trajavam vestes alvas, cingidas de cintos pretos e mantos.
Nas trípodes ardiam essências aromáticas.
Após um solene canto em homenagem aos visitantes ilustres, Abrasack apontou para as duas esfinges e disse:
- As múmias são levadas aos sarcófagos por aquela porta à esquerda, enquanto o corpo astral, intimado a encarnar-se, vem pela porta da direita.
Neste templo realizamos o funeral mágico, através do qual, inicialmente, o “sósia” é confinado a este lugar e, mais tarde, é levado ao novo invólucro carnal.
Com a aproximação de Abrasack, a porta da esfinge esquerda abriu-se silenciosamente, e através de uma longa galeria, levemente inclinada, eles chegaram até uma série de jazigos dispostos lateralmente, fracamente iluminados por luzes azuladas.
Nas paredes, numa sucessão de nichos, viam-se numerosas múmias em posição vertical, e, no centro, alguns outros, cheios.
Entrando num deles, o que estava lotado, Abrasack deteve-se e apontou para uma série de sarcófagos:
- Aqui repousam meus ex-companheiros – disse levemente emocionado.
Evoquei-os do espaço e dei-lhes da matéria primeva, mas, por pura ignorância e presunção, não administrei a quantidade certa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:11 pm

Ao invés de viverem tanto quanto eu vi suas vidas extinguirem-se dois séculos depois; suas almas amigas e corajosas, entretanto, hão-de retornar, um dia, para obrar em benefício do meu povo.
Através de rituais complexos, que lhes descreverei mais tarde, conseguimos evocar as forças astrais da região celeste, onde se encontra a estrela polar, as quais incorporamos nos “sósias”, temporariamente encarnados em múmias.
Os nossos jazigos são verdadeiras cidades subterrâneas povoadas de astrais vivos – forças poderosas e realmente dinâmicas -, que nos permitem o controlo sobre o pólo terrestre, necessário para solidificar o nosso país.
Para mantermos a vida nos “sósias”, utilizamos de aromas poderosíssimos; feitiços mágicos viabilizam a acção dos nutrientes e proporcionam aos entes astrais uma vida confortável, num ambiente afeito – tal qual vocês vêem aqui, nas reproduções artísticas e esculturais nas paredes dos jazigos.
Eles se comunicam entre si; aliás, eu lhes construí um local especial; uma câmara lá em cima, onde, através de aberturas, penetra o luar, e, em cujas irradiações eles se banham, refrescando o corpo astral e fortalecendo as forças espirituais.
Diariamente, à meia-noite, dispara um sinal sonoro, anunciando aos que aqui repousam a hora de acordar.
Estamos perto da hora, e vocês serão as testemunhas desse acontecimento.
Agora, vêem aquela pequena gruta lateral com dois sarcófagos de granito vermelho?
Reservei o local para mim e Avani; meus sucessores, entretanto, ocuparão as câmaras regias.
Agora vou levá-los para onde repousam os terráqueos.
Lá você, Supramati, encontrará os que me havia confiado, atingidos pela morte prematura.
Narayana olhou surpreso para Supramati, mas nada disse e seguiu os outros por uma galeria estreita à gruta indicada.
Era um subterrâneo comprido repleto de múmias, tanto nos nichos, como em longos tanques executados em madeira ou pedra.
Os magos e Abrasack pararam no centro, examinando o ambiente.
Alguns instantes depois, o ar foi recortado por um som metálico trémulo, como se por todo o lugar, nas proximidades e ao longe, repicassem centenas de sininhos de prata; num átimo, a luz azulada que iluminava o ambiente esmaeceu e sobre os nichos e tanques ignizaram-se as chamas fátuas, derramando clarões desbotados.
Nesse instante, as múmias pareciam se mover e cobrirem-se de uma névoa cinzenta, que se densificou oscilante e começou a tomar a forma humana, envolta em manto; algumas figuras eram escuras, outras, claras e fosforescentes.
Agora já se podia distinguir que eram homens e mulheres, e até crianças; seus rostos, de contornos imprecisos, eram alegres e surpresos.
Pairando sobre o solo, os seres dirigiram-se à saída.
- Eles estão indo para a câmara de luar – sussurrou Abrasack, convidando os magos para acompanhá-lo.
A câmara de luar era um recinto amplo, esculpido dentro da rocha.
Pelas aberturas na abóbada, era espargida por feixes largos do luar, a variegarem em clarões prateados nas águas de um reservatório, escavando no centro da caverna.
Em volta, via-se uma vegetação estranha, salpicada de flores de arbustos, e até algumas árvores.
Debaixo de suas sombras se escondiam bancos de musgo; toda aquela vegetação parecia sólida, imóvel – um verdadeiro jardim de sombras.
Em frente do paredão, sobre algumas mesas, viam-se vasos chatos de boca larga, cheios de líquido incolor, e um prato com um pó fino vermelho; um odor resinoso e ao mesmo tempo agradável recendia no ar, como que de essência de flores, e servia de alimento para os corpos astrais.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:11 pm

As figuras que ali se apinhavam se apressavam em banhar-se no reservatório e, em seguida, tomavam o líquido dos vasos e absorviam o pó; todas aquelas iguarias parecia não se esgotarem.
Entrementes, as sombras se densificaram, os rostos se animavam e os olhos embaçados reacendiam.
Neste instante, os magos e Abrasack se preparavam para deixar a câmara; Ebramar fez um sinal para que Supramati e Narayana o seguissem.
Eles seguiram novamente para um enorme templo subterrâneo, envolto na semi-escuridão cinzenta.
De ambos os lados da porta da esfinge direita, perfilaram-se sete sacerdotes e sacerdotisas, todos em vestes alvas e com harpas de cristal nas mãos.
Bem adiante da porta, erguia-se uma trípode alta, em torno da qual, em semicírculo, prostraram-se sete adeptos de grau elevado.
As chamas trémulas rosa tosco iluminavam, por vezes, seus semblantes severos e concentrados, e os mantos brancos, aurifúlgido em insígnias peitorais.
Quando os magos e Abrasack tomaram seus lugares para ver o que iria acontecer, um dos adeptos fez um sinal e imediatamente se ouviu um canto pausado e harmónico, sob o acompanhamento dos sons trémulos das harpas.
A melodia era estranha, ora suave e rápida, ora lenta e profunda, de notas que dilaceravam a alma e arrepiavam o cabelo.
Decorrido algum tempo, a porta entre as patas da esfinge escancarou-se silenciosa e dos fundos escuros da galeria, pairando, surgiu uma sombra nebulosa, detendo-se diante da trípode, cujas chamas imediatamente se apagaram.
Do espectro foi se desprendendo um fio nítido fosforescente, a se perder no fundo escuro da galeria.
No ar, desenharam-se os contornos ígneos dos sinais cabalísticos e a câmara mortuária imediatamente estremeceu pelo rolar de trovão.
Um raio cintilante cortou em ziguezague o ar e partiu o fio radioso, enquanto uma névoa fosfórica, reverberando todas as cores do arco-íris, matizada por clarões ígneos, foi envolvendo a sombra suspensa e tomou a forma de um míssil, que, crepitando, se projectou para as alturas, perdendo-se na sombra da abóbada.
- O espírito transferiu-se para o corpo de uma criança nasciturna; os adeptos registarão, em documentos arcanos, um novo capítulo do histórico do indivíduo novo.
Aos actos praticados, aos registo do nascimento e às mortes subsequentes, eles adicionarão uma nota da nova reencarnação, o nome da nova família e um parecer do que se pode esperar dele em termos de sua contribuição para o bem do povo, seu sucesso em artes, ciência, e assim por diante.
Enquanto Abrasack falava, algumas lâmpadas se acenderam; após uma breve conversa com os adeptos, abordando o fenómeno realizado, os magos deixaram a ilha mortuária.
No dia seguinte houve uma reunião solene no grande salão do palácio.
Os magos transmitiram a Abrasack suas considerações quanto à sua actividade iluminadora.
Após detalhada discussão sobre os aspectos do governo e da vida social, e dadas algumas advertências sobre as transformações futuras, o hierofante-mor deu a palavra a Ebramar.
- Apesar de pequenos deslizes isolados, só podemos elogiar-lhe o trabalho colossal, que, entretanto, não o impediu de ampliar os conhecimentos e de aperfeiçoar-se – declarou Ebramar.
Seu método de embalsamar, a implantação das escolas de iniciação, o progresso nas artes e ofícios são testemunhas de trabalho sério e incansável.
Suas leis são rígidas, por vezes severas, porém claras e justas; seu povo é sábio, obediente e laborioso, habituado a conceber a vida terrena como uma preparação para a existência no além, e florescerá por muito tempo; a civilização fundada será particularmente longa.
Aquilo que você atingiu, empregando na prática o empreendimento tão complexo como o da reencarnação, ou seja, subordinou à vontade e ao controle humano uma das leis mais terríficas do mundo invisível – é uma prova do mais intrépido voo de sua inteligência e vontade férrea.
Através da ciência, você desafiou as forças do destino.
Pálido de emoção, Abrasack ajoelhou-se; lágrimas de felicidade e agradecimento fulgiram em seus olhos, quando Ebramar o tocou com a espada mágica e sobre sua fronte brilharam uma larga faixa azul.
Ebramar, então, beijou-o; os magos repetiram o gesto e cumprimentaram-no; em seguida, todos se dirigiram ao grande templo, onde foi feita uma missa solene pelas graças recebidas.
No dia seguinte, os magos despediram-se, e a nave espacial levou-os de volta à cidade divina.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:11 pm

EPÍLOGO

A cidade dos magos mudou pouco no passar dos últimos séculos.
Com seus majestosos templos, palácios mágicos, jardins vastíssimos – um Oásis de plantas e flores – a cidade era um verdadeiro canto do paraíso terrestre.
Os palácios de Udea e Narayana, por longos tempos vazios, novamente acolheram seus donos.
Há algumas semanas, todos os discípulos de Ebramar reuniam-se em sua casa para passarem, junto ao grande mago, os seus últimos dias de estada naquela terra.
Jamais Ebramar prodigalizara tanta meiguice e atenção aos seus filhos espirituais.
Junto com todos, ou a sós com alguém, ele promovia longas conversas, ensinando e dando conselhos, que se tornariam muito úteis no futuro.
Todos o ouviam reconhecidos, gravando profundamente no coração as valiosíssimas instruções; seus olhos, porém, mal conseguiam conter às lagrimas, e um sentimento amargo oprimia-lhes o coração.
Mesmo Ebramar ressentia-se da separação da família espiritual, daqueles seus filhos de luz, mas o grande obreiro necessitava de repouso.
A todo ser, criado pelo Inefável, o sono é uma dádiva para poder suportar as provações carnais e juntar novas forças para enfrentar o longo caminho, e esta condição se aplica a tudo.
Após tantos milénios de existência, dedicados ao extraordinário trabalho que lhe iluminou a fronte com sete fachos de mago, Ebramar ansiava mergulhar em luz de repouso para recuperar as forças e, mais tarde, ainda prosseguir na jornada de ascensão a mais um nível, que nem sequer pode ser intuído pela razão da humanidade terrena.
Sabia a que a luz, dele imanente, chegaria àquelas regiões e àqueles que lhe eram caros, não só a estes o acalentando, ma a qualquer ser, por mísero que fosse – que diria, então, dos que lhe eram íntimos!
Certa tarde, após o almoço, todos se reuniram no terraço do palácio de Ebramar e a conversa estendeu-se além do tempo habitual.
O grande mago estava calado e pensativo, seu olhar vagava pelos presentes.
- Devo dizer-lhes meus filhos, que a reunião de hoje é a última; a hora de nossa separação já soou – balbuciou ele, em voz surda.
Ao ver que todos empalideceram, ele acrescentou:
- Percebo meus amigos, que a fraqueza humana do medo da separação ainda habita seus âmagos.
Sei que gostariam de me ver por perto, o que é certo egoísmo por parte de vocês, ainda que movido por amor.
Bem o sabem que a vida de um mago é uma tensão constante de volição?
Assim, eu estou exausto de querer e anseio pelo repouso; devo fortalecer-me para mais tarde seguir o meu rumo e continuar o trabalho; o caminho que tenho pela frente é ainda muito longo...
São tantos os mistérios que tenho a pesquisar, tantos os poderes que tenho de adquirir e tantas as forças poderosas que tenho de aprender, que preciso renovar minhas forças espirituais.
Por isso, queridos filhos, deixem-me repousar naquela morada de beleza celeste, de sono sem cansaço, banhar-me dentro da harmonia e da luz, gozar de paz absoluta e sossego, com plena consciência de que este repouso terei merecido.
Não me evoquem, tampouco perturbem a bem-aventurança de meu sono mágico, com seus pensamentos angustiosos ou lamentações.
- Mestre, ao menos poderemos saber para onde você vai? – Manifestou-se Supramati.
Poderia nos dizer, para que os nossos corações e pensamentos possam dirigir-lhe preces tranquilizantes?
- Irei para o astro que denominamos “Estrela dos Magos”; vocês a conhecem, estudiosos que são do mapa celeste.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:11 pm

Ela sempre surge no momento em que um grande missionário, filho da luz, depois de ter ali repousado e se preparado para a missão excelsa, desce a terra para envolver-se das vestes pesadas da carne e aceitar um fim sanguinário e doloroso.
Este astro abençoado me enviará um raio e eu ascenderei até lá.
Ebramar levantou-se; todos que ali estavam, um por um, dele se aproximaram, então ele abençoou todos e dirigiu a cada um alguma palavra amiga.
Quando chegou a vez de Narayana, o mago lhe pouso a mão na cabeça.
- Seja razoável e firme, meu “filho pródigo”, e jamais deixe que o orgulho ou outra fraqueza humana empanem os frutos da vitória conquistada.
Deixo-lhe Supramati, como o meu legado mais precioso, e ele lhe será um orientador confiável e afectuoso.
Por fim, dele se aproximou Nara; Ebramar fitou com olhar enigmático e pensativo aqueles olhos claros, cheios de amor.
- Agora eu posso marcar a hora da minha retirada.
Afastar-me-ei por nove dias no sacrário, para os últimos preparativos; o sumo hierofante instruirá à hora, quando vocês deverão reunir-se junto aos portões.
Somente vocês, suas consortes e aqueles que forem indicados pelos grandes hierofantes poderão participar do evento.
Assim que eu sair, agora, vocês podem se retirar.
Ele fez um gesto e tornou-se invisível.
Profundamente emocionados, os discípulos de Ebramar decidiram passar aqueles nove dias em jejum absoluto e orações contínuas.
Todos se retiraram em silêncio, a fim de se prepararem para o momento em que se reuniriam numa das grutas para uma solene vigília combinada.
Nara ficou por último, com Supramati e Narayana, e fez um sinal para que estes permanecessem.
- Gostaria de passar-lhes o desejo de Ebramar.
Ele quer que vocês enterrem tudo que dele sobrar.
No túmulo já escavado perto do santuário.
Quero também jejuar, mas sozinha, e farei isso na câmara mortuária de Ebramar; mais tarde me juntarei a vocês.
E agora, meus amigos e fiéis companheiros da vida multissecular, perdoem-me se nem sempre fui bastante humilde e paciente e...
Aconteça o que acontecer, tenham de mim boas lembranças – e ela estendeu as mãos para ambos.
- Você está pensando em nos deixar? – Inquiriu Supramati, mal contendo a perturbação, enquanto Narayana a fitava, misto de tristeza e surpresa.
- Não é uma questão de deixá-los, mas livrar-me deste corpo que há tantos séculos carrego, e voltar para o meu lar.
Além disso, ficar aqui sem o meu mestre e benfeitor seria demais difícil.
Vocês entendem, é claro.
- Naturalmente, entendemos, mas é que essa notícia de sua retirada foi tão súbita... – Murmurou Supramati.
- Ainda não estou certa de que vou, embora Ebramar tenha admitido, certa vez, a possibilidade desta libertação – não para acompanhá-lo é claro – pois não sou digna -, mas para que eu descanse no espaço.
Ele não me disse quando isso aconteceria, não custa, porém, esperar – acrescentou ela, despedindo-se.
Finalmente, chegou o dia marcado por Ebramar e, com a vinda da noite, iniciaram-se os últimos preparativos.
Os magos, as magas e todos que haviam sido convidados pelos grandes hierofantes se vestiram em alvos trajes de gala, e ficaram perfilados ao longo da galeria que ligava os portões do santuário com um promontório isolado entre as rochas graníticas, em cujas profundezas fora escavada a cidade subterrânea.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:12 pm

No centro do promontório havia um pedestal em ouro, em torno do qual tremeluziam luzes azuladas; em suas quatro laterais estavam postadas os grandes astrólogos que falavam a língua dos astros.
Perto das duas horas da madrugada, um estrondo de trovão ecoou sacudindo os paredões dos templos subterrâneos, os portões do santuário abriram-se, uma intensa luz despejou-se de dentro e surgiu Ebramar, como que envolto em esfera transparente. Sete fachos de luz formavam sobre a sua cabeça uma espécie de coroa radiosa; em seu belo semblante resplandecia uma expressão de júbilo e bem-aventurança, ao peito ele apertava a espada mágica.
Seus pés não tocavam o solo e ele parecia flutuar sobre a galeria, feito uma aparição; então, todos se puseram a acompanhá-lo.
Ao chegar até o pedestal, Ebramar deteve-se, ou melhor; ficou pairando sobre ele; os presentes entoaram então um hino imponente e majestoso.
Seguiu-se o silêncio; até a natureza parecia estar na expectativa.
No ar não se sentia menor movimento; era uma noite maravilhosa, quente e perfumada; apenas um crepitar, quase imperceptível, traía que algo de extraordinário estava acontecendo.
Os quatro astrólogos iniciaram, então, um hino maravilhoso em língua misteriosa, compreensível aos astros; subitamente, no céu azul-safira brilhou uma luz dourada que se foi aproximando e aumentando de tamanho, inundando o promontório de raios rutilantes.
No ar fervilhavam seres translúcidos e radiosos, protectores daquela nova terra – os espíritos das esferas; finalmente, os quatro grupos de espíritos elementais – servidores do poderoso iniciado – e as quatro películas ígneas, que se fundiam no peito de Ebramar ataram-se.
Erguendo a espada mágica, o grande mago partiu num golpe aqueles elos, dizendo:
- Agradeço espíritos elementais superiores, por sua lealdade, submissão e serviços prestados.
Neste instante, o olhar de Ebramar deteve-se nos que ali estavam.
- Saúdo-os, meus mestres, amigos e discípulos, e agradeço a todos.
- Vá repousar amigo e obreiro incansável, na morada do Inefável – pronunciou o hierofante-mor, erguendo a mão.
No mesmo instante, um raio cintilante pareceu atingir o peito de Ebramar e acender-lhe em labaredas os fachos da coroa.
Todos os presentes, com excepção dos astrólogos caíram de joelhos, e aos seus olhos apresentou-se um espectáculo terrível.
O corpo terreno de Ebramar consumia-se em chamas e o astral radioso liberto projectou-se para o alto pelo raio dourado.
Ao mesmo tempo, o manto de uma das magas inflamou-se, seu corpo tombou na terra, e dele se separou um espectro lustroso, parecido com uma borboleta prateada.
Era Nara que seguia o seu mestre adorado. Um minuto depois, o espectro esmaeceu; os seres luminosos diluíram-se na névoa e o raio extinguiu-se.
No pedestal de ouro só restara um punhado de cinzas fosforescentes, que os discípulos recolheram respeitosamente numa urna de cristal, encimada pro crucifixo.
O corpo de Nara não se consumira, porém ficou leve, flexível e incrivelmente transparente, conferindo-lhe espantosa semelhança com uma estátua de cera irisante.
A câmara mortuária de Ebramar, sem ser grande, alindava-se, entretanto, de esculturas admiráveis e incrustações cor de safira; uma luz, cuja origem era desconhecida e que lembrava o luar, iluminava-a suavemente.
Nos fundos, dentro de nicho fundi, sobre um bloco azul em forma de altar, repousava a urna com as cinzas de Ebramar. O corpo de Nara, tremeluzente em clarões pálidos azulados e emanando um odor perfumoso, fora sepultado para Supramati e Narayana embaixo do altar com a urna.
Apenas os iniciados superiores e os discípulos de Ebramar eram autorizados a entrarem na câmara mortuária, onde se encontrava a urna e o corpo de Nara, para a realização de ofícios religiosos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:12 pm

A porta desprovida de chave ou cadeado abria-se sozinha, somente para os dignos; um mortal comum não conseguiria atravessar-lhe o umbral.
Certa noite, uns sete dias depois de Ebramar se retirar para a Estrela dos Magos, num dos terraços do palácio de Supramati dois homens de branco estavam de pé, recostados no corrimão.
Um deles aparentemente o próprio senhor da casa, tão absorto em seus pensamentos, parecia nada notar ao seu redor.
Narayana, que estava a seu lado, aparentemente nem lhe reparava a presença.
Seu olhar sério errava meditativo ora pelo quadro maravilhoso da natureza, ora pelo firmamento azul-lazúli densamente salpicado por estrelas, e que se assemelhava a uma cortina urdida em ouro.
- Você pode me tirar uma dúvida que tanto me intriga? Sei que, por várias vezes, você acompanhou o mestre para diversos mundos; algum dia ele lhe mostrou essa Estrela dos Magos em que agora ela se encontra? Caso positivo, diga-me então, se não houver impedimento: de que forma ela é?
Supramati continuou por algum tempo calado, em seus lábios vagava um sorriso, e os olhos pareciam contemplar uma visão radiosa.
- É verdade, já vi esse lugar maravilhoso e terei prazer em compartilhar as minhas impressões.
Aquele mundo é inundado de luz, impossível de ser imaginada:
é uma região de incrível beleza e vegetação luxuriante, que não pode ser descrita ou comparada com nada que conhecemos.
Tudo por ali vibra, tudo é som harmónico, aroma suave, gama de cores inéditas, cuja combinação gera a luz misteriosa de que lhe falei.
Lá, embalados por ondas de éter, repousam em total relaxamento e bem-aventurança os espíritos dos magos.
Aquele refúgio de tranquilidade e luz, em que os espíritos mergulham em “manvantara”, gerou a noção equivocada sobre o nirvana.
Imaginaram – veja só!
Que o espírito mergulha em luz cósmica, perdendo o seu individualismo e fundindo-se com a Divindade.
O certo é que o nirvana é uma conhecidíssima forma de descanso, um estado de repouso, do qual a alma sai revigorada para obrar na região da eternidade.
A um mortal não é dada a capacidade de ver o caminho e conhecer o objectivo pelo qual almeja a alma de um grande iniciado; a região onde termina o marchar do movimento perpétuo, dirigido atrás dos muros flamejantes, governando o cosmo – isso é um mistério do Inefável.
Nós, meu amigo Narayana, que galgamos um insignificante degrau dos conhecimentos e do bem, deslumbramos aos nossos pés um formigueiro humano pululante; acompanhamos entristecidos, como a cega e ignara turba, padecendo em consequência dos instintos da carne e odiando-se mutuamente, se dilacera ou se mata, apenas para granjear alguns bens terrenos fugazes, jamais alcançados.
Os seres humanos não se dão conta de que eles vieram a terra como hospedes temporários, que a morte varre como a areia é varrida pelo vento forte; eles se esquecem do grande mandamento do Amor – o único que torna possível a paz.
“Amai-vos uns aos outros” – que preconizara o Filho de Deus.
Como somos bem-aventurados, que graça maravilhosa temos, por entender as leis divinas e podermos sacudir a pior das fraquezas e equívocos humanos – sussurrou Narayana, tomado de júbilo de louvor, e erguendo os olhos para a abóbada celeste,
Supramati apertou-lhe a mão.
- Continuemos então, em direcção à luz, mostremos o caminho aos nossos irmãos, errantes na escuridão, confinados na “terra” humana, e trabalhemos incansavelmente para nos tornarmos dignos da missão sagrada a nós confiada: a de sermos os legisladores nesta terra jovem.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:15 pm

HISTÓRIA DE JOHN KEELY

SOBRE JOHN KELLY:
...A força etérea descoberta por John Worrel Keely, de Filadélfia... não é uma alucinação...
Os fenómenos apresentados pelo inventor [no fim do século XIX]...
Têm sido surpreendentes, quase milagrosos, não no sentido de sobrenaturais, mas no de sobre-humanos.
Se a Keely fosse permitido fazê-lo, poderia ele reduzir a átomos todo um exército num espaço de alguns segundos tão facilmente como reduziu àquele estado [de átomos] o corpo de um boi morto.
Ele era o que em linguagem cabalista se chama mago de nascença... ele ignorava e continuaria ignorando todo o alcance de seus poderes... atribuía-lhes origem errónea... por isso não poderia desenvolvê-los totalmente... porque não possuía a capacidade de comunicar o que era só uma capacidade inerente à sua própria natureza especial.
E assim não poderia transferir a ninguém o segredo...

Sobre o "motor de Keely", o próprio inventor explica:
Quem examinar minha máquina, se quiser ter uma noção, mesmo aproximada, do seu modus-operandi, deverá descartar-se de toda ideia de máquinas que funcionam em virtude do princípio depressão e aspiração, pela expansão do vapor ou outro gás análogo...
Minha máquina não admite pistão nem excêntricos...
Meu sistema, em todas as suas partes e minúcias... está baseado na vibração simpática
John Ernst Worrell Keely (1827-1898), de Filadélfia, foi um pesquisador dos segredos do som.
Passou 50 anos de sua vida desenvolvendo e aperfeiçoando inventos que usavam a força simpatética vibratória ou força etérica para fazer levitar objectos.
Suas demonstrações em laboratório impressionaram cientistas e curiosos.
Keely queria produzir sua "máquina" em escala comercial, mas o projecto não vingou porque o invento de Keely somente funcionava em conjunto com as peculiares vibrações do próprio corpo do operador; ou seja, não era suficiente ter a máquina, era preciso "treinar" operadores em uma habilidade que Keely possuía mas não sabia como, porquê, de que tipo era ou como desenvolver a faculdade em outras pessoas, técnica que, ao que parece, foi bastante conhecida entre os monges tibetanos.
Mais recentemente, Edward Leedskalnin afirmava conhecer o segredo da construção das pirâmides e de outros megalitos.
Ele viveu em um palácio chamado Coral Castle, próximo a Miami, Flórida.
O castelo foi construído pelo próprio Leedskalnin com gigantescos blocos de coral pesando mais de 30 toneladas.
Em 28 anos, trabalhando sozinho, sem usar máquinas modernas de construção, ele cortou e colocou em encaixes cerca de 1.100 toneladas.
Ele realizou esta obra com extrema discrição, sempre à noite, evitando a publicidade mantendo absoluto segredo sobre suas técnicas de construção, apesar da visitas de engenheiros e agentes do governo. Entretanto, em certa ocasião alguns adolescentes que conseguiram espioná-lo afirmaram que viram-no mover os enormes blocos de coral fazendo-os "flutuar como se fossem balões de hidrogénio".
Tudo indica que Leedskalnin descobriu uma maneira de manipular a gravidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:15 pm

A Keely Engine Company
John Worrell Keely (1837-1898) da Filadélfia era um carpinteiro e mecânico que anunciou em 1872 que havia descoberto um princípio novo para produção de energia.
As vibrações de um simples diapasão tinham lhe dado a ideia e os meios para extrair energia etérica.
Keely persuadiu vários engenheiros e capitalistas a investir na ideia, formando a Keely Motor Company em Nova Iorque em 1872.
Logo ele tinha um capital de um milhão de dólares, principalmente de ricos homens de negócio de Nova Iorque e Filadélfia.
Ele usou o dinheiro para comprar materiais necessários para construir um motor baseado em suas teorias.
Logo ele tinha construído um gerador etérico, que ele demonstrou a audiências maravilhadas em 1874 na Filadélfia.
Keely soprou em um bocal por meio minuto, então verteu cinco galões de água de torneira no mesmo bocal.
Depois que alguns finos ajustes o medidor de pressão indicou pressões de 10,000 libras por polegada quadrada.
Isto, disse Keely, era evidência de que a água tinha sido desintegrada e um vapor misterioso tinha sido liberado no gerador, capaz de mover maquinaria.
Um espectador a uma demonstração de Keely descreveu o poder da máquina.
"Grandes cordas eram rompidas, barras de ferro quebradas ou dobradas, rebites lançados através de pranchas de doze polegadas, por uma força que não pôde ser determinada".
Keely predisse que sua descoberta tornaria outras formas de energia obsoletas. Um quarto de água seria bastante para enviar um trem da Filadélfia para São Francisco e de volta.
Um galão impeliria um navio a vapor ida e volta de N. Y. para Liverpool.
"Um balde de água tem bastante deste vapor para produzir uma força suficiente para deslocar o mundo de seu curso."

Keely e o grupo de directores da Keely Motor Company.
Keely viveu em alto estilo, como o chefe de qualquer grande companhia.
Para seu crédito, dedicou a maioria do dinheiro investido em equipamento de pesquisa.
Ele fez a maior parte da experimentação, construindo seu próprio aparelho.
Ele não estava disposto a confiar o segredo a aqueles que não podiam ou não iriam entender - especialmente físicos e engenheiros.
Cépticos notaram que o equipamento nunca conseguia funcionar como deveria a menos que Keely estivesse presente.
O trabalho seguiu lentamente.
Para manter os ânimos dos accionistas Keely organizou demonstrações públicas.
Estas eram obras-primas de actuação.
Ele demonstrou uma máquina maravilhosa, uma "máquina vibratória" ou Vácuo-motor pulsante hidropneumático".
Era um trabalho de arte do maquinista, feito de metal e cobre brilhantes.
A máquina era ligada a outra máquina chamada um "libertador", uma gama complicada de fios de metal, tubos e diapasões.
Keely explicou que ele estava extraindo uma "força latente" da natureza - a energia vibratória do éter.
[Nós podemos culpar por essa ideia os físicos.]
Keely frequentemente usou gaita, violino, flauta, cítara ou tubo de lance para activar as máquinas dele.
Alguns disseram que valia o preço de ser enganado para ouvir a linguagem eloquente que Keller usava para explicar sua teoria.
[Dizia-se que ele tinha talento e conhecimento musical consideráveis].
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:15 pm

John Worrell Keely fotografado em seu laboratório em 1889
The Bettmann Archive.
Motor hidro-vácuo de Keely

Uma ideia central da teoria de Keely da natureza era a noção de que tons musicais poderiam ressonar com átomos, ou com o próprio éter.
Ele até desenhou este diagrama musical para ajudar as pessoas a entender os detalhes desta teoria. [Há aqueles hoje que usam isto como indício de que Keely estava à frente de seu tempo, se antecipando à teoria da mecânica quântica.
Biógrafos descreveram Keely como um "experimentador mecânico", "inventor e impostor", "professor de perfídia", "caloteiro" e "moleque escandaloso".
A falta de educação científica formal de Keely não aborreceu seus partidários, e não intimidou o próprio Keely de proclamar grandemente suas teorias como "científicas".
Keely expôs suas ideias usando uma teoria elaborada da "força etérica", temperada com termos eloquentemente profundos como:
"equilíbrio simpático, harmónica negativa quadruplo, desintegração etérica". Seus financiadores foram impressionados propriamente.
Ele olhou com piedade condescendente para aqueles que pareciam não entender.
Alguns accionistas desiludidos retiraram seu apoio uma vez que as experiências de Keely sofreram atrasos repetidos.
Keely declarou que já tinha provado que sua teoria poderia ser implementada para propósitos úteis, e fez promessas vastas de benefícios económicos da energia etérica sobre o carvão e outras fontes de energia.
Mas ele resistiu às demandas de investidores para que produzisse algum produto comerciável.
Accionistas não estavam contentes com a insistência de Keely de que mais experimentação era necessária para "aperfeiçoar" as máquinas.
Felizmente, próxima da falência, Keely adquiriu uma financiadora rica, a Sra. Clara S. J. Bloomfield-Moore, viúva de um fabricante de papel da Filadélfia.

Frasco de vidro contendo pesos que Keely alegou, poderiam subir e descer ao tocar as cordas de cítara.
Ela lhe concedeu mais de $100,000 para despesas e lhe prometeu um salário de $2,500 por mês.
Ela se tornou activa promovendo Keely em jornais e livros e buscando cientistas que poderiam validar as reivindicações dele.
Ela sugeriu que ele compartilhasse seu segredo com Edison ou Tesla para acelerar seu desenvolvimento, mas Keely recusou.
Ele pelo menos concordou que os cientistas pudessem observar as demonstrações.
E. Alexander Scott, um engenheiro elétrico, testemunhou tal demonstração. Quando Keely mostrou para ele a força etérica fazendo um peso subir e descer em um frasco fechado de água, Scott não se impressionou. Keely usou o som de uma cítara para activar o libertador de globo que então transmitiu a força etérica por um arame ao recipiente de água.
Scott suspeitou que peso fosse oco, de forma que uma mudança mínima da pressão da água poderia fazê-lo subir ou descer, da mesma maneira que um mergulhador Cartesiano.
O arame, ele sugeriu, era um tubo oco transmitindo a pressão de ar para a câmara de água.
Para refutar a ideia, Keely cortou o arame para provar que era sólido.
Mas Moore discretamente pegou um pedaço de arame similar na oficina e depois descobriu que de facto tinha um centro oco, bem fino.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:15 pm

Teste da força simpática de discos vitalizados.
Outras demonstrações mostraram que a força etérica era grande o bastante para erguer pesos enormes.
Também poderia disparar sua "arma vapórica", demonstrada em Sandy Hook, Long Island.
A revista Scientific American acompanhou a carreira de Keely com algum fascínio e diversão.
Eles não estavam impressionados, informando que todas as demonstrações que testemunharam poderiam ter sido produzidas facilmente com fontes escondidas de ar comprimido.
Keely continuou esta pesquisa durante quatorze anos, organizando demonstrações ocasionalmente para aplacar os accionistas impacientes.
A Sra. Moore estava preocupada com o relatório negativo de Alexander Scott, e por artigos contrários indelicados em jornais e revistas.
Assim ela buscou uma segunda opinião do físico Prof. W. Lascelles-Scott, da Inglaterra.
Ele passou um mês na Filadélfia realizando sua investigação, informando finalmente ao Franklin Institute que "Keely demonstrou a mim, de um modo que é absolutamente inquestionável, a existência de uma força até então desconhecida".
Já que o físico Lascelles-Scott e o engenheiro Alexander Scott obviamente discordavam, foram reunidos para testemunhar mais demonstrações de Keely.
A Sra. Moore sugeriu que o teste definitivo seria cortar aquele arame que Scott alegou que era na verdade uma linha de ar.
Desta vez Keely recusou veementemente.
Lascelles-Scott voltou para a Inglaterra, e a Sra. Moore, com a fé abalada, reduziu o salário de Keely para $250 por mês.

Esfera de três toneladas encontrada no porão do prédio do laboratório de Keely.
Depois que Keely morreu em 18 de novembro de 1898, cépticos suspeitos e repórteres de jornal fizeram um exame cuidadoso do laboratório dele.
Alguma da maquinaria de Keely já tinha sido levada por "crentes" que esperaram que poderiam fazê-la funcionar.
Um electricista de Boston, T. Burton Kinraide, levou o motor para a casa dele em Jamaica Plains.
Parte do aparelho terminou na Inglaterra. Ninguém poderia fazê-lo funcionar como fazia no laboratório de Keely. O segredo não estava nas máquinas; o segredo estava no próprio laboratório.
O engenheiro Alexander Scott e o filho da Sra. Moore, Clarence, examinaram o edifício, acompanhados pela imprensa e fotógrafos.
Falsos tectos e chãos foram abertos revelando cintas mecânicas e ligações a um motor de água silencioso no porão (dois andares debaixo do laboratório).
Um sistema de interruptores pneumáticos debaixo das tábuas de chão poderia ser usado para ligar e desligar a maquinaria.
Uma esfera de três-toneladas foi achada no porão, aparentemente um reservatório para ar comprimido. As paredes, tectos e até mesmo vigas aparentemente sólidas revelaram ter canos escondidos.
A evidência de fraude em grande escala era óbvia e inegável.
O que é realmente notável é que a Sra. Moore tinha persuadido vários cientistas aparentemente respeitáveis a observar as demonstrações de Keely, e alguns deles afirmaram que ficaram impressionados, e até mesmo convencidos de que Keely tinha feito descobertas científicas revolucionárias.
Por que alguns foram enganados tão facilmente pelas fraudes óbvias de Keely (ainda que muito elaboradas), que foram adivinhadas correctamente por observadores mais perceptivos e cépticos?
É claro, deve ser declarado que Keely nunca permitiu que qualquer examinasse suas máquinas, que as testassem independentemente ou até mesmo olhassem dentro delas.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 24, 2016 7:16 pm

Até hoje, artistas de fraude promovendo máquinas de energia podem encontrar alguns engenheiros ou físicos formados dispostos a declarar publicamente que não encontraram nenhuma fraude ou enganação nas máquinas e estão convencidos de que princípios científicos novos estão em funcionamento.
É, são as "testemunhas qualificadas" em acção.
Keely tinha mantido sua companhia em funcionamento por 26 anos sem nunca colocar um produto no mercado, pagar um dividendo ou revelar seus segredos.
Esse é seu único feito indubitável.
Ele nunca divulgou os segredos dele a qualquer um, até onde sabemos.
Um amigo íntimo informou que tinha perguntado uma vez para a Keely:
"John, o que você quer para um epitáfio?"
A resposta dele: "Keely, o maior humbug [fraude de entretenimento] do século dezanove".
O termo "humbug" está associado com o showman americano Phineas Taylor Barnum (1810-91), que escreveu um livro "Humbugs of the World" e era renomado por enganar o público com "maravilhas" fraudulentas e exageradas. Barnum e Keely nunca se encontraram, mas poderiam ter sido almas gémeas.
O caso Keely é geralmente reconhecido como uma das fraudes científicas de maior sucesso.
Ainda hoje há pessoas que sentem que ele foi "incriminado", e que seus "segredos" ainda estão para ser descobertos.
Um site na internet, Keelynet, é dedicado a continuar e estender o trabalho dele, seguindo suas teorias ocultas da física e matéria.

§.§.§- O-canto-da-ave
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Ave sem Ninho

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