Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 15, 2016 7:51 pm

O ambiente pesado na corte, criado pela hostilidade surda de meu pai e pelo ódio disfarçado de Suami, agravavam a minha irritação.
Para ficar longe dos dissabores, dediquei-me apaixonadamente à caça e ao estudo de ciências ocultas, ministradas no nosso templo.
Só mais tarde compreendi que aquilo não passou de um reles abecedário da notável ciência; entretanto, as fracções do conhecimento obtidas fizeram despertam em mim um enorme interesse pela matéria e eu buscava avidamente alcançar os misteriosos poderes, cuja força pressentia vagamente.
Quando completei vinte anos, os conselheiros começaram a insistir junto ao rei para que eu me casasse; meu pai, a contragosto, mandou que se iniciassem os entendimentos com a casa vizinha.
Naquela ocasião, eu estava me distraindo ao caçar nas montanhas de uma de nossas longínquas províncias.
Corajoso e ágil desconhecia o medo e gostava de me aventurar em empreendimentos perigosos.
Naquele dia a sorte não me sorria.
Minha arma não atingiu mortalmente o animal caçado, este se lançou ferido em minha perseguição, mordeu-me o ombro e dilacerou com as garras o meu braço.
Perdi muito sangue e desmaiei.
Quando acordei, estava muito fraco; saí pela floresta e acabei perdendo-me ao entardecer.
Foi realmente um milagre não ter sido devorado pelos predadores; a eminência do perigo deu-me forças para prosseguir.
Já começava a clarear, quando vi uma grande casa habitada, cercada no vale pelas montanhas.
Arrastei-me até ela com as derradeiras forças.
Naquele abrigo perdido entre as montanhas, vivia uma pequena comunidade de mulheres dedicadas à veneração de uma deusa, e cujo culto lembrava o de Vesta.
Todas elas haviam feito votos de castidade, mantinham o fogo sagrado para a deusa e dedicavam o tempo restante às orações e ciências ocultas.
Numa gruta, nas vizinhanças, habitava um velho sábio responsável pelos estudos das virgens.
Fui bem recebido e tratado; ninguém sequer me perguntou quem eu era.
O velho sábio revelou-se um médico magnífico e os meus ferimentos logo sararam.
A maior parte das mulheres da comunidade era de idade avançada, salvo algumas jovens muito bonitas.
Por uma delas de nome Vaikhari, uma moça de beleza estonteante, eu me apaixonei perdidamente e, apesar de seu retraimento, resolvi desposá-la logo.
Ao retornar apressadamente para casa, anunciei ao meu pai a decisão de me casar com Vaikhari, descartando com veemência outra pretendente.
No início, ele ridicularizou-me; mas depois de ouvir uma extasiada descrição da beleza da moça, ponderou e anunciou a sua decisão de viajar comigo até a comunidade para pedir a Vaikhari que aceitou ser minha esposa.
Eu estava muito feliz, e assim partimos para lá em companhia de numeroso séquito, protegidos por um forte destacamento de exército.
Ficamos acampados nas vizinhanças da comunidade; um dos conselheiros de meu pai foi enviado com o pedido de casamento.
Mais tarde, o próprio velho médico-sacerdote veio até o rei para dizer-lhe que a jovem sacerdotisa havia feito votos de servir à divindade e deveria permanecer junto ao templo.
Entretanto, o meu pai não era homem de se submeter às decisões alheias; exigiu prontamente uma resposta pessoal de Vaikhari.
Ela veio abatida e apreensiva, implorando ao rei para que não a obrigasse a quebrar o juramento dado à deusa; mas ele retrucou que a recusa poderia significar a destruição do templo com todas as suas edificações, e também a decapitação de seus habitantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 15, 2016 7:51 pm

Vaikhari correu assustada ao templo para implorar à deusa liberá-la do juramento e salvar as irmãs.
Diziam, mais tarde, que no momento em que a sacerdotisa trazia uma oferenda no altar da deusa e afazia a defumação, elevando as preces à divindade, das labaredas surgiu uma pomba branca, que pousou no ombro da virgem e depois levantou voo; ao mesmo tempo, o anel de ferro, que era carregado no dedo como um sinal de iniciação, abriu e caiu no chão, como se em anuência da liberação da deusa.
Vaikhari seguiu-nos depois até a cidade; eu estava felicíssimo, sem desconfiar que tanto a minha morte, como os de minha mãe já estavam selados no coração desumano do meu pai, que se apaixonara loucamente por minha noiva.
Minha bondosa mãe aceitou Vaikhari como se a uma filha querida.
Os preparativos para o meu casamento iam a ritmo acelerado, quando, na véspera de cerimónia, recebi um grande golpe: minha mãe fora encontrada morta na cama.
Foi picada por uma cobra que se espreitara, segundo disseram, dentro das flores trazidas para enfeitar os seus aposentos.
Fiquei desesperado.
O casamento foi adiado, por causa do luto, ou seja, por três meses.
Tempos difíceis foram esses, mas eu me apeguei ainda mais a Vaikhari, que compartilhava da minha dor, e consolava-me e, aparentemente, começava a sentir amor por mim.
Meu pai estava sombrio, pensativo, pouco falava comigo e distraia-se caçando sozinho, por vezes me convidando para acompanhá-lo.
Suami, entretanto, não me largava, nem à minha noiva.
Eu sabia que ele nos espionava e sua insistência deixava-me furioso.
Aproximava-se o fim do luto, e eu tive de acompanhar o meu pai numa caçada; ele estava mais taciturno que de costume e optava por caminhos mais isolados, por trilhas mais íngremes e perigosas.
Eu o seguia em silêncio, quando divisei uma cabra selvagem, parado no despenhadeiro.
Apontei o animal para meu pai e fui até a beira da trilha, esticando o arco, mas no mesmo instante senti um forte golpe nas costas, cambaleei, perdi o equilíbrio e caí...
Depois não me lembro de mais nada...
Ao recuperar os sentidos, vi que estava num desfiladeiro cercado de escarpas; a terra em volta era coberta por denso musgo, o que, provavelmente, tinha amortecido a força da minha queda.
Minhas roupas estavam rasgadas pelas pedras, o corpo coberto por hematomas, as costas doíam terrivelmente.
É difícil lhes descrever o meu estado de espírito no momento em que me conscientizei de que meu próprio pai tentara me matar.
Naquele minuto, pensei que seu acto calculava garantir a sucessão de Suami e em meu coração germinou um terrível ódio em relação a ambos.
Estava vivo, no entanto, o instinto de preservação fez com que eu procurasse me salvar. Senti que o punhal ainda estava cravado em minhas costas, mas não quis tirá-lo para não exaurir as minhas forças com mais perda de sangue. Rastejando em volta de um pequeno descampado, descobri uma trilha que subia em ziguezagues.
Não tentarei descrever com que esforço e sacrifício eu subia por ela; por vezes fraquejava, mas depois tornava a subir.
Por fim, consegui atingir uma área maior e com grande alegria vislumbrei uma nascente, jorrando das rochas. Estava sofrendo de sede e assim saciei com água gelada e cristalina; entretanto as forças me abandonaram
E perdi novamente os sentidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 15, 2016 7:51 pm

Ao abrir os olhos, vi-me numa caverna fracamente iluminada por uma tocha presa à parede.
Estava deitado num leito de musgo e folhas, forrado com lenço de lã; um velho, de joelhos ao meu lado friccionava-me as têmporas com uma essência aromática vivificante.
Sentia-me relativamente bem.
O meu ferimento estava com curativo, não doía muito, mas todo o corpo ardia e parecia que a cabeça ia explodir.
Só depois é que descobri que a minha vida ficara por um fio durante algumas semanas.
Quando o perigo passou, minha fraqueza era tal e as forças estavam tão exauridas que não conseguia mover sequer um dedo.
A recuperação foi desesperadamente lenta.
O bom velhinho, de nome Pavalka, continuava a cuidar de mim como um pai dedicado.
Frequentemente, e por longo tempo, eu o observava curioso, pois apesar dos cabelos e barba grisalhos, seu rosto brônzeo, não tinha rugas e os olhos ardiam como se ele estivesse no esplendor da juventude.
Preocupava-me é claro, com minha própria sina.
Imaginava a surpresa que causaria o meu aparecimento, pois, com toda a certeza, consideravam-me morto.
Pretendia alcançar uma cidade próxima da capital, reunir os moradores e contar toda a verdade.
Contava com o atendimento do povo ao meu chamado, destronaria o meu pai e faria a justiça.
Além da sede de vingança, devorava-me a vontade de encontrar Vaikhari.
Contudo, as forças e a saúde não retornavam, eu tossia sangue e sentia ao mesmo tempo uma terrível dor aguda nas costas e no peito.
Certo dia, ao dar com o auxílio de Pavaka um pequeno passeio, retornando à caverna totalmente enfraquecido, perguntei ao meu salvador quando é que finalmente eu me recuperaria, visto não ver à hora de ir embora.
Pavaka balançou a cabeça, deu-me de beber algo bem refrescante e disse:
- Meu amigo, você é um homem e eu acredito que lhe devo dizer toda a verdade.
Você jamais se recuperará, pois seus órgãos internos ficaram afectados e, se o seu mal evoluir como está evoluindo, você não tem mais que dois ou três dias de vida.
Ao notar o choque que me causara a revelação e que me afluir sangue aos lábios, ele acrescentou, apertando-me a mão:
- Não se desespere!
Existe um meio de curá-lo, devolver-lhe a anterior saúde, proporcionando uma vida bem longa, entretanto isso só poderá ser obtido através de muitos sacrifícios.
- Que sacrifícios?
Farei tudo, desde que me cure.
- Primeiramente, você deverá renunciar a tudo nesse mundo.
- Não poderei fazê-lo, venerado Pavaka. Sou um sucessor de um grande reino e um noivo apaixonado, cuja eleita, provavelmente me chora como a um morto.
Renunciar a ela é mais difícil que a própria vida.
Pavaka fitou-me com um olhar triste e piedoso.
- Quanto a isso, meu filho, perca as suas esperanças!
Já faz algumas semanas que Vaikhari foi desposada por Pulástia e...
Não ouvi o fim da frase.
Parecia que havia sido atingi por um martelo na cabeça; simultaneamente senti como se um sabre ígneo cravasse em meu peito e me vi despencando para um precipício...
Até que perdi os sentidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 15, 2016 7:52 pm

Só passadas duas semanas, abri os olhos, fraco e alquebrado, mas totalmente consciente, recordando de tudo o que havia passado.
Um furacão tempestuava minha alma; Pavaka, entretanto, não permitiu que eu desse expansão à minha ira, ministrando-me calmantes que me fazia dormir quase ininterruptamente e, assim, as minhas forças começaram a voltar.
Certa vez, sentindo-me um pouco mais vigoroso que de costume, peguei a mão do velho e disse:
- tenho-lhe um grande pedido, Pavaka.
Você é um homem sábio; dê-me um remédio que me forneça forças só por algumas semanas.
Não é sobreviver que eu quero.
Desejo me vingar do monstro que me arruinou a vida, privou-me de tudo que me era caro; ele assassinou a minha mãe, disso estou convencido e apropriou-se de minha noiva.
Eu quis lhe contar toda a história, mas vi que Pavaka já sabia de tudo; às minhas palavras ele reagiu desfavoravelmente, balançando a cabeça.
- Concordo que seu pai é um monstro; a vingança no entanto, é uma tolice inútil, acredite!
Não tenho condições ao seu pedido; posso ou lhe devolver a saúde e dar-lhe uma vida longa, ou deixar que morra aqui.
Mas pense bem antes de optar por uma coisa!
Suponha que eu aceite os eu pedido e você consiga chegar até a capital, destronar e matar os eu pai.
O que você ganharia com isso?
Um breve reinado de alguns meses, envenenado pelos remorsos e sofrimentos da morte, sem contar com o facto da impossibilidade de possuir a mulher amada?
Se, ao contrário, você dominar espontaneamente a sua fútil cobiça, renunciar ao poder fugaz e à mulher separada de você por um abismo consolidará uma vida de centenas de anos, uma juventude e beleza imorredouras, e, além disso, diante de você se escancararão as portas do templo do conhecimento.
Vejo pela sua aura que você possui uma mente poderosa e enérgica, sinal que poderá vir a alcançar conhecimentos que o armarão de poderes praticamente ilimitados.
Qual é o sentido de governar uma turba rude e ingrata, se você poderá comandar os elementos da natureza, governar sobre os exércitos de criaturas servis, que executarão todas as suas ordens?
Pavaka retirou-se, dizendo-me que reflectisse sobre o assunto e tomasse uma decisão sozinho; mas o meu temperamento enérgico contribuiu para vencer a indecisão rapidamente.
Pela primeira vez após ficar ferido, avaliei friamente a minha situação.
O meu estado físico era prova de que o corpo terreno começava a se decompor, e a morte, devo confessar, me assustava bastante.
Entretanto, a oferta de um futuro enigmático me era atraente.
O que eu poderia lastimar no mundo, se Vaikhari estava irremediavelmente perdida?
Quando Pavaka retornou, eu lhe anunciei a minha intenção de renunciar aos bens terrenos, para me tornar um adepto e me dedicar integralmente à ciência.
Não dei muita atenção naquela hora para um sorriso enigmático quê se esboçou no semblante do velho.
Ele respondeu apenas que o meu desejo seria atendido; logo que eu fizesse o juramento, ele me daria o remédio da cura.
Depois de me ajudar a levantar-me, ele abriu no fundo da caverna uma porta que se movia em gonzos invisíveis, oculta atrás de uma rocha, e levou-me para uma fruta espaçosa de cuja existência eu não suspeitava. Uma luz tenuemente azulada iluminava o recinto; no fundo, à altura de alguns degraus esculpidos na rocha, encontrava-se uma mesa coberta por toalha, urdida com fios de ouro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 15, 2016 7:52 pm

Naquela espécie de altar, havia dois castiçais de vela de sete braços, no centro dos quais se via um cálice coroado por uma cruz de ouro e uma caixa metálica, rutilando pedras preciosas.
Nas duas trípodes laterais, defumavam-se essenciais. Junto à entrada havia um tanque, para onde desaguava uma fonte mineral.
Pavaka ordenou que eu me despisse e depois mergulhasse na água, o que fiz com muito esforço. Depois ele me esfregou no corpo uma essência aromática e vestiu-me numa túnica comprida e alva.
Senti-me extremamente revigorado, ainda que estivesse muito fraco.
Pavaka apoiou-me e levou-me até o altar; junto ao primeiro degrau, ajoelhei-me.
Em seguida, abrindo o escrínio metálico, ele tirou um frasco, um cálice de cristal parcialmente cheio, e uma colher de ouro.
Ele verteu do frasco algumas gotas no cálice; o líquido pareceu efervescer, e um vapor vermelho elevou-se mesclando raios ígneos.
Então, Pavaka ordenou que eu fizesse um juramento, e eu o fiz, repetindo com dificuldade suas palavras, pois ainda estava fraco; depois ele ordenou que tomasse do cálice.
Agitando-me em ondas de calor, perdi os sentidos, e um sonho, ou letargia, durou bastante tempo, pois, como se verificou mais tarde, durante aquele lapso de tempo eu tinha feito uma longa viagem; ao despertar, vi-me num dos longínquos palácios do Himalaia, onde os adeptos passam por sua primeira iniciação.
Pavaka disse-me a verdade.
De minha doença desenganada não sobrou um vestígio; eu estava forte e sadio como nunca e imediatamente iniciei os estudos.
Trabalhei com ímpeto incansável; os mestres surpreendiam-se com meus êxitos.
Suportei valorosamente as provas que aumentavam os meus conhecimentos, disciplinaram-me a força de vontade e fizeram-me dominar as fraquezas.
Entusiasmei-me com os mistérios alcançados e inebriei-me com os poderes adquiridos.
O tempo, entretanto, foi passando imperceptivelmente.
Após a conclusão de trabalhos difíceis no âmbito da ciência, que cumpri brilhantemente, fui agraciado com o primeiro facho da coroa de mago; mais tarde, após um pequeno descanso, meus mestres anunciaram a chegada da hora do início da provação que correspondia ao meu grau, a qual consistia na minha ida como um profeta, para um país afastado, a fim de pregar os princípios do bem e elevar a moralidade de seus habitantes, mergulhados em vícios.
O mago-mor fez-me as perguntas de praxe:
se eu me sentia suficientemente forte para suportar os sacrifícios e as humilhações, retribuindo o mal com o bem, as ofensas e ingratidões com o amor; e, eventualmente, selar com o próprio sangue a verdade da doutrina pregada, sob nenhuma hipótese revelar a minha origem e os meus poderes.
Sem titubear, respondi que aceitava a prova e que esperava cumpri-la condignamente.
Quem dera! Eu não me dava conta da minha presunção de minha resposta; era cego em relação às minhas fraquezas, imaginando-me invulnerável do alto da posição ocupada.
Udea silenciou por uns instantes e passou a mão pela testa pálida; em seus lábios congelou-se um sorriso amargo de nojo.
- Fui leviano – prosseguiu ele, empertigando.
Apesar de meus conhecimentos, eu desconhecia quão complexo e difícil era governar, utilizando a autoridade das forças do bem, diante da caterva humana, teimosa e rebelde.
Cercado pelo ambiente calmo e harmónico de estudos esqueci-me completamente das forças de resistência, ódio e vício que habitam o coração humano; esqueci-me de que era mais fácil domesticar um bando de animais selvagens do que uma multidão de bípedes degenerados, ávidos por prazeres, cruéis e vaidosos de serem “gente”, achando terem dado um grande passo que os distinguia dos animais; conquanto preservados todos os seus instintos animalescos, eles tão somente se livraram das rédeas que a natureza criou para os seres inferiores.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:09 pm

Com sua presunção, hipocrisia, ingratidão, ambição e crueldade fria, o ser humano sobrepuja-se a todos os animais.
Cego de presunção, eu não dava conta do perigo que me espreitava; devido à minha vaidade, eu me considerava capaz de domar os outros e a mim.
Os mestres pareciam estar desapontados comigo, Ebramar, entretanto, olhou-me entristecido e sussurrou:
“- Irmão peça um adiamento, fortifique-se com orações e prepare-se para sua sublime missão.
Não subestime o perigo que ronda!
A inevitabilidade do contacto de um iluminado com a turba, com a consequente absorção de suas emanações contagiosas, requer uma batalha difícil.
Dê “certo tempo antes de se relacionar com as pessoas, se não estiver certo da vitória”.
Oh! Tivesse eu seguido o sábio conselho!
Mas, não! Achando que ele fosse fruto de um zelo excessivo, eu não quis esperar mais, almejando galgar rapidamente a escada hierárquica, e parti...
Certa noite, um dos magos superiores levou-me a um país longínquo, local de meu trabalho, e instalou-me numa gruta:
“- Você vai morar aqui isolado; há algumas horas, indo a pé, encontra-se uma cidade com grande número de enfermos e obsessos.
Sua missão é tratá-los, de forma a atrair a atenção geral e aproveitar a situação para iniciar a pregação”.
Ao amanhecer eu me coloquei a caminho.
O ambiente em volta pareceu-me familiar, mas não dei atenção a isso, absorto em pensamentos, e logo alcancei o vale, onde, mergulhada em jardins, espalhava-se uma enorme cidade.
Mal andei algumas ruas, fiquei perplexo.
Diante de mim erguia-se o grande templo, que tão bem conhecia, e era o principal santuário da minha pátria.
Tantas vezes eu galgara aqueles degraus, acompanhando meu pai a alguma cerimónia religiosa.
Era ali que eu deveria ter reinado, no entanto me enviaram para dogmatizar o meu próprio povo.
Aturdido e em meio à emoção, meus olhos marejavam; tudo em mim tremia, milhares de lembranças afluíram.
Mas não tive muito tempo para entregar-me às recordações.
De uma casa por perto, saíram em desabalada carreira um homem e uma mulher, todos em farrapos, com cabelos desgrenhados, espumando pela boca, rostos desfigurados pela convulsão; eles uivavam feitos loucos e eram asquerosos de tão medonhos.
Atrás deles, corria em perseguição um grupo de pessoas, tentando agarrá-los.
Aquele visão me lembrou instantaneamente da minha missão e das instruções dos mestres.
Deixando as recordações de lado, ergui a mão e ambos os obsessos estancaram em seus lugares.
Aproximei-me deles, fiz alguns passes, pronunciei abjurações que expulsavam os demónios dos infelizes, e consegui libertá-los.
Formou-se então uma multidão em volta, e vendo que aos ex-possuídos voltou à razão, algumas pessoas se aproximaram de mim e contaram, trémulas de temor supersticiosos, que a cidade estava acometida por uma violenta demência geral.
O terrível mal a ninguém perdoava; velhos ou jovens – todos.
Qualquer um que ficasse acometido da crise de delírio tentava estrangular o primeiro que aparecesse; eles perpetuavam nas vias públicas toda a sorte de indecências e, algum tempo depois, morriam em sofrimentos terríveis.
O lado pior é que a moléstia era contagiosa e, frequentemente, os que acudiam ou agarravam os insanos, tornavam-se vítimas do mesmo mal.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:09 pm

Para diminuir a incidência daquela epidemia, o rei mandou prender todos aqueles que apresentavam os indícios daquela loucura e enviá-los a um acampamento fora da cidade, cercada de guardas.
Ordenei que me levassem até aquele local e, confesso, tive muito trabalho para expulsar os exércitos de larvas e de outros espíritos demoníacos; mas, passadas algumas horas, consegui dominar a situação.
Após aquela vitória sobre as trevas, fiz uma prelecção explicando que a causa daquele mal eram os delitos e a depravação do povo.
Por fim, anunciei que eu podia ser encontrado na gruta do vale desértico, onde havia uma nascente, e que para lá deveriam ser levados todos os enfermos.
Retornei à minha habitação com péssimo estado de espírito.
Feito uma avalanche afluíram a mim as lembranças; o passado tomou vida como se tudo tivesse acontecido na véspera, apoderando-se de mim.
Fiz de tudo para cumprir as minhas incumbências.
Curei os doentes desenganados e preguei para multidões cada vez maiores, evitando, entretanto, ir à cidade com medo da impressão que esta produzia em mim.
Assim, os dias foram passando em trabalho estafante, enquanto as noites eram um verdadeiro martírio, visto que o passado se assomava cada vez mais.
Já sabia, na época, que cerca de três séculos haviam passado desde o dia do meu desaparecimento, mas que ali governava ainda o nosso clã.
Soube também que Vaikhari havia falecido ao dar à luz uma filha, a qual mais tarde se casou com o rei vizinho; Pulástia falecera bem velho, deixando o trono para Suami.
Quanto a mim, achavam que eu tinha perecido ao cair no abismo.
O jovem rei actual chamava-se Pulástia, assim como meu pai.
Segundo diziam, eram também cruel e explosivo.
Ele se preparava para casar-se com uma princesa de beleza impressionante, uma parenta sua.
Ao tomar conhecimento da visita oficial da noiva à capital, eu quis ver os dois prometidos, que ocupavam o lugar a mim outrora pertencentes por direito.
Toda a cidade estava engalanada como se para uma festa.
A despeito da minha popularidade, naquele dia a atenção do povo estava voltada para outras coisas; assim, a única distinção que me foi conferida resumia-se na possibilidade de eu ficar na primeira fileira, bem perto do palácio real.
Logo surgiu o cortejo.
O rosto do rei pareceu-me familiar, no entanto, a visão da noiva, coberta de jóias e sentada na carruagem, produziu sobre mim um efeito devastador, tanto é que deixei escapar um grito surdo.
Ela era um retrato vivo de Vaikhari.
Meu grito foi ouvido pelo rei, que voltou surpreso a cabeça em minha direcção e fitou-me com desdém.
Os nossos olhares se cruzaram e, nesse instante, eu reconheci os seus olhos.
Para o olhar iluminado de um mago, o mistério do passado se havia descortinado:
diante de mim estava o meu antigo pai reencarnado...
Um minuto depois, o cortejo desapareceu no interior do palácio; eu me apressei em misturar-me com a multidão e voltei para a gruta.
A noite que sobreveio há esse dia foi um pesadelo.
Em algumas horas, a serena harmonia do mago ruiu; das profundezas ignotas do meu ser afluíam rajadas impetuosas das paixões que eu julgava dominadas e esquecidas.
Com rapidez assombrosa, avolumava-se em mim o antigo homem, tragando e afundando o adepto; em meu coração germinou a vontade irresistível de ocupar o trono dos antepassados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:09 pm

Governar o povo que me amava.
Da mesma forma, reacendeu-se a minha paixão a Vaikhari.
Os séculos passados não contavam; eu vivia o presente em mim ressuscitado, na alma tempestuava um verdadeiro furacão só de imaginar que aquele que matara a minha mãe, possuindo a encarnação viva de Vaikhari.
Como se eu não pudesse ser feliz!
Eu era mais belo e poderoso que o meu rival, cujas únicas vantagens se resumiam em título e riqueza.
Fui dominado pela vontade incontrolável de trocar os meus trajes rudes de couro pela indumentárias púrpuras e pelas jóias imperiais, para conquistar o coração da bela noiva.
Entorpecido por sentimentos impuros, eu não percebia ao meu redor os pululantes servidores de Sarmiel, conquanto também, não deixasse de prestar atenção às suas sugestões.
“- A consumação de sua vontade é um direito inalienável! O encontro com o assassino que olvidou seu dever paternal é uma obra da lei do karma, que fulminará o criminoso com a mão de sua própria vítima!
Quem o impedirá, mais tarde, de se tornar um monarca para prodigalizar ainda mais o bem, semear a fé na Divindade, curar e lapidar o seu povo?
Imagine a vantagem fascinante de ser um rei e não um mendigo errante entre essa ralé!”
Em minha imaginação avolumavam-se as vantagens da glória e amor.
Suando em profusão, com o coração palpitando de paixões tempestuosas, eu ainda opunha alguma resistência à tentação; não intimei os mestres e os protectores, com medo de que eles me proibissem de usar os meus poderes.
E nada interrompeu a minha loucura; eu continuava o dono completo de meus actos e poderes ocultos.
Os últimos escrúpulos se dissiparam rapidamente, e, quando os primeiros raios do sol iluminaram o céu, o meu plano já estava arquitectado.
As forças invisíveis que perpetrariam as minhas intenções já estavam accionadas.
Eu não tinha mais condições de lutar contra as emanações malévolas das paixões que desapontaram na minha alma, eu era um feiticeiro terrífico um grande sábio; faltava-me a essência espiritual de um verdadeiro profeta, que sacrifica a vida pela verdade por ele proclamada.
Ao amanhecer, Pulástia, adoeceu.
Todo o seu corpo se contorcia em dores e cobriu-se de abscessos e feridas; visto que os remédios normais não ajudavam.
Eu fui chamado, minha fama chegara até o palácio e eu era alvo da curiosidade da princesa; além disso, a sua irmã mais nova sofria de epilepsia desde criança, e também queria me ver.
Para a ida ao palácio vesti-me numa comprida túnica branca, cingida por uma simples faixa prateada, e na cabeça coloquei um turbante de musselina.
Sabia que estava bonito e, pelos olhos da princesa, senti que havia escravizado seu coração.
Tratei as moléstias da irmã da rainha e de Pulástia; adverti severamente este último por seus delitos e injustiças, do conhecimento de todos.
Anunciei que aqueles actos eram justamente as causas de sua doença e que para curar-se definitivamente, ele deveria remir a sua culpa com penitências e isolar-se por trinta dias no templo, fora da cidade.
Furioso, mas assustado, Pulástia obedeceu; enquanto eu, mal disfarçando a alegria maledicente, observei-o abandonar o palácio, para onde ele jamais retornaria.
O caminho ao trono estava livre.
Sem hesitar, pus-me a granjear a simpatia do povo, ao qual ocorri para resgatar a moralidade e convertê-lo a Deus.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:09 pm

Para tanto, perpetuei a ocorrência de uma série de catástrofes.
Iniciei com uma epidemia, logo erradicada; aplaquei um furacão, aparecendo diante da multidão apavorada envolto em chamas e relâmpagos.
Por fim, evoquei um terrível dilúvio, cujas águas inundaram a capital e sua periferia; foi quando Pulástia se afogou.
Durante este último cataclismo, apareci por cima das ondas revoltas cercado de auréola flamejante, comandando exércitos dos espíritos elementais e pronunciando fórmulas contras á águas, que logo retornaram aos seus leitos, obedecendo a minha vontade.
O povo considerava-me um deus-benfeitor e ofereceu-me a coroa, e, por esposa, a noiva do rei falecido.
Aceitei, o casamento com a coração deu-se com pomposidade inaudita.
A jovem esposa adorava-me, o povo venerava-me, e eu, inebriado com amor e poder, estava orgulhoso e feliz.
Graças aos meus conhecimentos mágicos, uma fabulosa fertilidade impulsionou o país, provocando a inveja e a hostilidade dos vizinhos.
Em vez de usar os meus conhecimentos para acalmar e beneficiar os povos vizinhos, decidi puni-los pela insolência e inveja demonstrada.
Oh, como fui longe no caminho do mal!
Iniciou-se uma guerra devastadora.
Um dos reis, que me era hostil, foi capturado e por mim sentenciado à morte; seu país foi anexado ao meu reino.
No entanto, com outro adversário tive menos sorte, e o meu exército sofreu tantas perdas que uma derrota total se tornou inevitável.
Participei pessoalmente dos combates e lutei furiosamente.
Inebriado de sangue e fúria, resolvi evocar meus poderes mágicos para me auxiliar, e comecei a reanimar os soldados, curar os feridos, e materializar os mortos com as larvas e os espíritos demoníacos.
E esses insólitos exércitos trouxeram a vitória.
Feito um furacão devastador, percorri com o meu exército todo o país conquistado, que anunciei anexado ao meu, e, junto com um enorme espólio, levei o rei aprisionado.
Após aquela vitória, conquistada graças ao auxílio do mal, tomei gosto pela magia negra; some-se ainda o temor da retaliação dos mestres pelos desvios de seus preceitos.
Sarmiel que vigiava a minha decadência soube-se aproveitar da minha insanidade, subvencionando-me no aprendizado do mal, através de seus servos.
Por fim tive um encontro com ele, sendo feito um acordo, por força do qual o príncipe das trevas se obrigasse a me assistir em todos os empreendimentos e a ceder-me os lúgubres exércitos de seus servidores; enquanto que eu, da minha parte, assumi a obrigação de não por em prática as “tolas” instruções dos magos, visando impedir o recrutamento das almas para abastecer os exércitos do mal.
Debalde minha esposa implorava para indultar o rei capturado e desistir de uma nova guerra; eu não quis ouvi-la.
Fiquei insolente devido à impunidade e estava inebriado com meu poder oculto, com as honrarias a mim dispensadas, com a consciência soberba de éter aumentado o território do meu reino e, finalmente, com a gratidão do povo, proclamando-me um génio pelos grandes feitos, praticamente sem perdas humanas.
Nasceu-me o segundo filho e decidi marcar este feliz acontecimento, e paralelamente, o término glorioso da última guerra, com uma grande festa no palácio e outras comemorações populares.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:10 pm

No dia daquelas festas, reuniram-se todas as personalidades importantes:
cortesãos, civis e militares; nas praças e pátios palacianos serviam-se comida e distribuíam-se presentes.
Durante o banquete, o céu subitamente se cobriu de nuvens negras, as trovoadas abafaram a música.
As visitas já haviam bebido muito, eu também exagerei um pouco no vinho forte.
A tempestade, que atrapalhava o nosso divertimento, deixou-me possesso; eu me levantei com a intenção de fazer uma esconjuração contra a tempestade e mostrar diante de todos o meu poder sobre os elementos.
Neste instante um raio bateu incendiando o salão.
Senti no peito uma forte dor, as chamas me envolveram, um vento agitado arrebatou-me para cima, rodopiando-me feito uma folha seca.
Por fim, senti como se um golpe de martelo me tivesse atingido a cabeça e perdi os sentidos...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:10 pm

CAPÍTULO IV

Ao recuperar os sentidos, eu me vi num local semi-escuro; de tão fraco, não conseguia nem me mover, tampouco pensar.
Aos poucos, a cabeça começou a trabalhar, os olhos acostumaram-se ao ambiente e entendi que estava deitado num leito de musgo, dentro de um pequeno subterrâneo, e coberto por uma manta de lã.
Não havia janelas nem porta, somente do tecto filtrava-se uma débil luz esverdeada.
De um lado da parede, encontrava-se um tanque de pedras, onde jorrava um fio de nascente; no outro lado, via-se um banco e uma mesa de pedra, sobre a qual jazia uma caneca de barro e uma xícara e, ao lado, um pedaço de pão.
Estava dentro de um calabouço, mas onde?
Por que razão?
Entretanto, os pensamentos desordenados não forneciam uma resposta e eu adormeci exausto.
O despertar foi horrível.
A memória voltou e, então, compreendi que os mestres deram um basta aos meus delitos e abusos, fulminando-me com raio e encerrando-me no calabouço.
Por mais patife que eu tenha sido, era um membro da irmandade e deveria ser julgado.
Um suor gelado cobriu-me a testa.
Não sei dizer quanto tempo durou aquele louco desespero, as os maléficos miasmas que emanavam da alma densificaram e encheram o recinto de cheiro fétido; meu corpo cobriu-se de úlceras e feridas.
Os sofrimentos corporais eram tão medonhos que sobrepujavam os do espírito.
Finalmente, após algum tempo rolando em terríveis dores em meu covil, chegou em meu auxílio, pela primeira vez Ebramar; e sua voz afável sussurrou no meu ouvido:
“reze. Udea.
Arrependa-se, purifique-se com humildade, acaso contrário você não poderá comparecer diante de seus juízes.
Qualquer tipo de penitência é melhor do que essa inactividade que lhe gera pensamentos desconexos e excita as paixões”.
A corrente de luz, por ele bafejada, deixou-me surpreendentemente melhor; só de saber que eu tinha ainda um amigo que não me abandonara, e cuja afeição fazia com que me procurasse na masmorra, provocou uma reviravolta em minha alma.
Com olhar afogueado e coração palpitante, contemplei uma corrente de luz que se concentrava num crucifixo radioso, consagrando o reservatório de pedra.
O símbolo sacramental da eternidade e expiação iluminou o calabouço com uma luz suavemente azulada; de seus raios emanavam aromas e calor vivificantes.
Restava-me ainda uma noção do poder invicto desse símbolo, conhecido por iluminados como o Selo do Sublime e, subitamente, despontou-me uma vontade irresistível de buscar abrigo sobre a sombra da cruz para restabelecer a minha antiga pureza; arrastei até o reservatório.
Em meio ao nervosismo febricitante.
As lágrimas, por fim, jorraram dos meus olhos; batendo com a testa no piso, murmurei uma prece.
A partir deste dia eu fazia orações ininterruptas; Todos os dias, eu me banhava no reservatório e, todas às vezes, do meu corpo desprendia uma substância grudenta e fétida.
Aos poucos as dores foram passando e o peso no corpo aliviava; era cada vez mais fácil eu me concentrar nas preces.
As investidas de arrependimento por me haver permitido entregar-me ao deslumbre pernicioso das paixões tronaram-se mais frequentes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:10 pm

Certo dia, eu prodigalizava lamentos e orações, suplicando perdão ao Criador misericordioso, ouvi o tilintar longínquo de sinos; meu coração congelou-se.
Imediatamente compreendi que era a hora de meu julgamento.
Um minuto depois, senti-me suspenso no ar, alçando suavemente em direcção a abóbadas.
Ali, onde eu havia observado uma luz esverdeada, verificou-se haver uma abertura, suficiente para que eu passasse através dela.
Vencido o percurso, vi-me num corredor comprido e abobadado; nos fundos, encontrava-se uma porta, à qual me dirigi como se puxado por uma força invisível, e a abertura se fechou.
A porta abriu-se silenciosamente e, diante de mim, divisou-se a galeria de um de nossos templos; os sinos tilintavam, monotonamente como se num funeral.
Eu estava ao lado de dois adeptos conhecidos; abatidos, com lágrimas nos olhos, eles mi tiraram as vestes esfarrapadas, vestiram-me em uma túnica negra, cingida por faixa branca, puseram-me na mão uma vela vermelha acesa e, através de um corredor comprido e escuro, conduziram-me até a porta, retirando-se em seguida.
Com o coração pesado e angústia na alma, fiquei parado no umbral.
Estava exactamente naquele salão do templo, conhecido como tribunal.
Nos fundos, em semi-círculo, presidiam os meus mestres, os mago-mores e os hierofantes.
Sendo eu um mago, condecorado com o primeiro facho, só poderia ser julgados por magos de grau superior, assim, a parte restante do templo estava vazia.
Os olhares de todos eram cheios de tristeza; acometido por um sentimento de vergonha e desespero, os meus joelhos tremeram, a vela caiu e, tapando o rosto com as mãos, comecei a chorar lágrimas amargas.
Nunca tão claramente, como naquele minuto, reconheci o meu erro e a profundidade de minha queda.
“- Levante-se, desafortunado!
Nossos corações sangram ao ver sua fronte cabisbaixa, reduzida a cinzas, já adornada com o clarão do conhecimento – disse um dos mago-mores.
Para a infelicidade de todos, Udea, não podemos deixá-lo conviver connosco.
Seus crimes, sendo você um mago, são terríveis; além disso, você detém conhecimentos por demais poderosos para poder misturar-se à multidão, e seus abusos de poder, infelizmente, provaram isso”.
- Não tenho mais conhecimentos...
Sou mais ignorante e cego do que um simples mortal – balbuciei resignado.
- Tivemos de privá-lo da capacidade de praticar o mal até que não se defina a sua sorte.
E chegou; não queremos, contudo, que o seu imenso trabalho resulte em nada.
Apesar de seus equívocos e decadência, nós o estimamos e gostaríamos de que você trilhasse o caminho do arrependimento e purificação, submetendo-se voluntariamente à nossa decisão.
Seres humanos comuns vêem na sentença dos juízes apenas uma vingança pela desobediência às leis instituídas, sendo que, em verdade, ele é uma forma de reparação.
- Eu me submeto à sentença! – asseverei.
- Então ouça o que nós decidimos.
Você irá para um mundo totalmente diferente, onde nos encontraremos depois da destruição deste planeta.
Naquela terra haverá muito trabalho e o nível da humanidade que lá habita encontra-se próxima ao do animal.
O saber, que lhe fornece os poderes, só poderá ser empregado para o bem, pois lhe será impossível seduzir uma humanidade inferior, incapaz de entendê-lo.
Seu compromisso, entretanto, será o de iluminar aquele povo; cumprindo essa missão de trabalho árduo você expiará o passado e será reabilitado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:10 pm

Não escondemos o facto de que a sua provação será muito dura e o trabalho colossal; assim, oferecemos outra opção.
Você perdeu irremediavelmente o direito e a possibilidade de ficar neste mundo, devido a sua imortalidade e à detenção de terríveis conhecimentos.
Assim, se o expurgo lhe parecer por demais severo e difícil, você poderá morrer de morte lenta e dolorosa.
Neste caso, você irá tomar uma porção que lhe decomporá o corpo, célula por célula, absorvendo lentamente a matéria primeva, deixando exposto o corpo astral.
Findo esse processo destrutivo, passará ao espaço para renascer, mas já como um mortal; depois, aos poucos, através de inúmeras reencarnações, poderá reconquistar uma parte de seus atuais conhecimentos.
Agora a escolha é sua!
Atemorizava-me a ideia de abandonar a Terra por um mundo longínquo e ignoto; além do mais, eu não entendia em toda a sua plenitude o sentido real da sentença.
Ordenando trabalhos forçados – e dos mais árduos.
A outra opção, que me ameaçava com a perda dos conhecimentos adquiridos e o banimento da irmandade, à qual eu tinha o orgulho de pertencer, parecia a mais sombria que se poderia imaginar.
Assim, aceitei, sem titubear, expiar a culpa e recuperar a confiança de todos através de trabalho árduo.
Os magos comemoraram a minha decisão e demonstraram bastante afabilidade, sugerida, talvez, por piedade a alguém que fosse condenado à morte.
Deram-me algum tempo para descansar e recuperar as forças; eu aproveitei a companhia de Ebramar, que com solidariedade e influência, revigorou-me o estado de espírito, confortou-me e animou-me.
Por fim chegou o dia da partida e fui receber a bênção solene para a minha jornada de trabalho.
Quando me ajoelhei diante do mago-mor, ele abençoou-me, ungindo minha fronte com óleo, e borrifou-me com água benta; subitamente, dos olhos do grande hierofante dardejou um raio cintilante que alvejou minha testa.
Uma sensação indescritível dominou-me então.
Meu cérebro parecia alijar-se de algo frio e pesado; compreendi, nesse momento, que estava recuperando os meus conhecimentos e estes, sabia-o, eram ainda mais claros e poderosos que antes.
Senti uma enorme felicidade e o porvir da expiação, deixou de ser angustiante.
Num arroubo de fé, jurei trabalhar incansavelmente e seu um instrumento submisso da vontade do Criador.
Despedi-me dos irmãos-magos e dos adeptos; o grande hierofante deu-me no cálice um líquido tépido e eu o tomei.
Ebramar ajudou-me a deitar no leito e adormeci, embalado por sons poderosos.
Parecia que as ondas harmónicas me ninavam no espaço; logo depois perdi os sentidos...
Acordei numa pequena gruta; uma luz pálida azulada derramava-se pelo ambiente, como vapor.
Sentia uma forte pressão na cabeça, as pernas e os braços adormeceram e eu não tinha a mínima noção de onde estava.
Soerguendo-me, examinei tudo em volta e, só depois, voltou-me a memória e o coração bateu mais forte.
Curioso e desorientado examinei melhor a minha nova morada com seus pertences ali deixados – restos miseráveis do passado brilhante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:10 pm

No fundo da gruta, divisei um altar com castiçal de sete braços, um cálice encimado por crucifixo de ouro, uma cruz mágica auri-fulgida – presente do hierofante na solenidade da iniciação – e um livro, com encadernação metálica.
Numa das paredes, em cima das prateleiras, viam-se pergaminhos, manuscritos e livros, ou seja, uma verdadeira biblioteca que tornava possível – como descobri depois – a continuação de meus estudos.
No centro, focalizei uma grande mesa de pedra e um tamborete do mesmo material; sobre a mesa havia uma lâmpada, de tipo ainda desconhecido.
Havia também duas grandes caixas com utensílios e pertences necessários para toalete, assim como miudezas supérfluas, com que Ebramar me provera bondosamente.
No baú, junto à mesa, encontrava-se tudo o que poderia ser útil para as acções mágicas, ou seja:
trípodes, instrumentos, ervas incensos e diversas poções.
A gruta contígua contava com um reservatório fundo que recebia águas cristalinas de uma mina na rocha, e, ao lado, um banco de pedra e cama de musgo, encoberta por grosso cobertor.
Dois grandes baús guardavam os trajes: de couro e lã escuros – para o trabalho; de linho – para as cerimónias religiosas.
Ali mesmo eu encontrei uma capa com capuz e sandálias de couro e palha trançada.
Sobre uma mesinha, junto da cama, estava a minha harpa de cristal e um grande pergaminho com selo do hierofante-mor.
Depois de desenrolá-lo, li uma mensagem com, aproximadamente o seguinte teor:
“Você se encontra, meu filho, num lugar selvagem e desolado, ainda que repleto de riquezas naturais, cuja exploração está ao alcance de seus poderes e conhecimentos.
Utilize-os e você gerará a fartura desejada.
Os conhecimentos o farão senhor dos elementos; na biblioteca, à sua disposição, você achará todo o necessário para lhe aumentar as forças e ampliar o saber”.
“Estude, mas não tenha pressa, pois a pressa é sinónimo da imperfeição.
Trabalhando, você não notará o tempo passar e não conhecerá o tédio:
um flagelo dos preguiçosos e raiz de todos os crimes.
Quem trabalha, devora o tempo.
Você sabe que para o pensamento não existem distâncias; assim, o seu chamado para um conselho ou apoio alcançará os nossos corações e ouvidos”.
A seguir vinham instruções quanto ao diário que eu deveria manter para registrar os meus trabalhos e os passos de desenvolvimento do planeta.
Malgrado as palavras de consolo do grande hierofante, eu me sentia desanimado e alquebrado.
De me abluir, saí para conhecer a localidade em volta.
Mal tinha dado alguns passos. Congelei horrorizado.
Meu abrigo não passava de uma gruta escavada artificialmente, ou obra da própria natureza, dentro de um enorme rochedo escuro e nu, que se assomava solitariamente no meio da planície.
Ao longe, até onde alcançava a vista, estendia-se uma região pantanosa, da qual subiam nuvens vaporosas; em alguns lugares géiseres projectavam seixos para bem alto.
O ar era pesado e denso, saturado de evaporações sulfúreas; uma Corina de neblina cinza cobria o céu, deixando passar apenas a pálida luz do dia que derramava sobre o horizonte uma névoa lilás.
Eu já tinha passado por um teste de fertilização de um local desértico e estéril, mas que, comparado àquilo que teria de fazer, tinha sido uma brincadeira de criança.
Meu coração comprimiu-se dolorosamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:11 pm

Naquele deserto pantanoso, onde não se via sequer um musgo, eu estava sozinho com a missão de enfrentar uma natureza asquerosa em meio à semi-escuridão irritante, respirando um ar que quase me fazia perder os sentidos.
Voltei à gruta correndo e deixei-me cair no chão.
A cabeça girava, o coração disparou, a respiração tornou-se ofegante.
Imaginei estar morrendo, mas lembrei da minha imortalidade e fiquei mais desolado.
A tarefa que me confiaram parecia além de minhas forças; viver ali seria pura agonia interminável, visto que morrer era impossível.
Foi difícil! Foi o pior momento de minha vida.
Subitamente, num sussurro lenitivo, ouvi a voz inefável de Ebramar:
“- Anime-se, Udea!
Reze, e encontrará forças para tudo”.
Estremeci e soerguei-me.
Então eu estava sozinho; havia um ser que se preocupava com o banido.
E o amigo fiel estava correto; antes de dar início ao gigantesco trabalho, era necessário purificar-me e me fortalecer em prece.
Sacudi o torpor, vesti o traje branco e comecei a orar e a entoar hinos mágicos sob o som da harpa de cristal.
Arrebatado pelo estase da oração, senti os sons do instrumento tornarem-se mais poderosos; o ar tremia e oscilava e minha gruta encheu-se de luz; no cálice, derramou-se do alto uma essência púrpura, emanando vapor.
Tomei da essência e o líquido misterioso espalhou-se em corrente ígnea por todo o meu ser, proporcionando-me uma força miraculosa.
Jamais me sentira tão vigoroso, jamais meu cérebro trabalhara com tanta facilidade e jamais se apresentaram tão nítidos os meus conhecimentos.
Saí novamente da gruta, mas desta vez o quadro lúgubre da natureza não me sugeria nem medo nem aversão; eu só vislumbrava um campo de trabalho.
Sem perder tempo, comecei a trabalhar.
Evoquei, primeiramente, os colossos fluídicos da natureza; as forças racionais do fogo e ar, água e terra; e esses obreiros, subjugados à minha vontade e sabedoria, uniram-se a mim, feito quatro raios límpidos, e tornaram-se meus ajudantes e servidores.
Não raro tornava a esbravejar ao derredor o caos dos elementos enfurecidos, mas, ciente do meu poderio sobre os exércitos dos trabalhadores astrais, meu medo desaparecia e a excitação chegava a tal ponto que eu não sentia um mínimo de cansaço.
No dia em que meus primeiros esforços foram coroados de êxito, quando as evaporações nocivas se dispersaram, aparecendo um cantinho de céu azulado e o astro-rei; do meu coração, então, jorrou uma ardorosa prece de agradecimento ao Ser Inefável, Criador de todas aquelas maravilhas.
É natural e compreensível a tendência dos povos primitivos para endeusar o sol; eles pressentem que é dele que emana a fonte da vida.
Foi com este poderoso colaborador que prossegui minha obra.
Sob efeito de seus raios flâmeos, a terra respirou; os pântanos desapareceram; materializaram-se céleres as marcas impressas da aura terrestre, que continham as substâncias constitutivas de formas visíveis, e o solo cobriu-se de vegetação exuberante.
Admirando a incrível paisagem, fruto do meu trabalho e conhecimento, eu transbordava de satisfação pelo dever cumprido.
Mas eu estava só, sempre só...
Por vezes, minha alma angustiada pela saudade da terra natal ansiava por ouvir vozes humanas e pelo repouso premente da minha mente estafada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:11 pm

Em tais momentos, sempre contei com a amizade de Ebramar e um esquecimento abençoado cerrava meus olhos.
Então eu avistava o meu amigo; sua mão cálida e translúcida baixava sobre a minha fronte; seus lhos fitavam-me afectuosos e eu sentia o meu ser impregnar-se de calor vivifico, diferente ao que é proporcionado pela energia da natureza.
Eu sentia a corrente de amor que espargia em meu ser.
Não é por acaso que o amor gera a felicidade, pois ele se constitui de uma peculiar substância, cuja força afecta inclusive os iluminados.
Certa vez, durante uma aparição, Ebramar me disse:
“– Ponha a capa, Udea, e pegue seu bordão e a harpa; depois siga em frente até encontrar o que você tanto quer”.
Ele sorriu, apertou-me forte a mão e...
Eu abri os olhos.
Após fazer uma oração ardorosa, peguei os objectos mencionados e saí da gruta – local de meus suplícios e muito trabalho.
O caminho parecia interminável; cruzei inicialmente as terras que eram os meus haveres espirituais, atravessei plagas desconhecidas com vegetação luxuriante e animais gigantescos e insólitos.
As feras, contudo, fugiam assustadas, ao sentirem um odor estranho, próprio aos iniciados.
Por fim alcancei um rio largo. O acesso para o outro lado passava por um declive; a margem oposta – uma ribanceira rochosa – se elevava em terraços emoldurados por floresta escura.
Os gritos dos pássaros e o bater ruidoso das asas chamaram-me a atenção.
Divisei, então, uma enorme fénix branca; na cauda comprida e nas asas, a plumagem alva mesclava-se com penas azul-turquesa; sua cabeça, denotando inteligência, era adornada pro um topete dourado.
Vibrei de alegria ao reconhecer a ave mística – o mensageiro alado dos magos.
A ave desembestou ao longo da margem; fui seguindo-a até deparar com uma árvore gigantesca atravessando deitada o rio e formando uma ponte. Que me levou para a margem oposta.
Meu guia alado aguardou-me e saiu correndo em direcção da floresta, por vezes voltando sua cabecinha, como para se certificar de que eu o seguia.
Ao adentrar a floresta, notei gratificado que estávamos trilhando um caminho transitável, que serpenteava pro entre os troncos dos gigantes seculares; seus enormes galhos entrelaçavam-se formando uma enorme copa, através da qual se conseguia filtrar uma meia-luz esverdeada.
Depois de uma hora de caminhada, saímos numa ampla clareira; de súbito, não consegui conter um grito de exclamação.
Diante de mim erigia-se uma portentosa esfinge; não fosse ela avermelhada.
Mas da brancura da neve, diria que era idêntica à da Terra.
Em cima da Klafta que lhe encobria a cabeça, rutilava uma luz esmeraldina; aos pés, em posição aberta, localizava-se um bloco chato e alto de rocha com sinais cabalísticos e incrustações.
Do interior filtrava-se uma luz brilhante.
Neste ínterim, o meu esplendoroso guia alado soltou um grito alegre, agitou as asas e desapareceu voando, enquanto fiquei parado na indecisão.
Repentinamente no umbral da entrada, surgiu um homem de estatura alta, de longo traje branco, com uma insígnia a brilhar-lhe no peito; sua cabeça também estava adornada com Klafta.
É difícil exprimir aquela sensação de felicidade de que fui tomado ao vê-lo.
Sem conseguir pronunciar sequer uma sílaba, pois um espasmo embargou-me a garganta, eu me joguei aos pés do desconhecido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:11 pm

Este se apressou em reerguer-me com o braço vigoroso, e disse-me com voz profunda e harmónica:
- Udea, meu filho, não me reconhece?
Sem parar de tremer, fitei-o e então nele reconheci um dos grandes hierofantes, Narada, por quem eu tinha um grande apreço devido à sabedoria e bondade inesgotável.
“- Mestre!” – Exclamei, beijando-lhe a mão.
Como veio para aqui?”.
“- Venha, vamos conversar!” – Disse ele, levando-me pelo corredor iluminado por esferas fosfóricas.
Entramos num pequeno quarto guarnecido com muitos objectos de conforto, que eu já não via fazia muito tempo.
Ele me fez sentar e disse:
“- Você me perguntou como eu vim parar aqui?
Esqueceu-se, por acaso, que muitos de nossos irmãos, ao alcançarem os conhecimentos superiores, têm-se retirado voluntariamente para este local, para orientar e apoiar os que vieram para cá desterrados a fim de expiarem sua culpa?
Alguns deles, por diversos motivos, tiveram de retornar à Terra; assim, eu fui um daqueles que quiseram substituí-los aqui”.
A alegria de reencontrar finalmente um ser humano e, ainda mais um mestre, com o qual eu poderia conversar, deixou-me tão emocionado que meus olhos marejaram.
Narada pôs-me a mão na cabeça e disse em tom partícipe:
“- Acalme-se meu filho!
Estou vendo que a pior parte de sua expiação terminou; agora poderá descansar e, mais tarde, eu lhe mostrarei muita coisa interessante que já embeleza o nosso novo lar.
Eu levantei a cabeça; o olhar do mago reanimou-me e acalmou-me – tal era a compreensão das fraquezas humanas manifestada naqueles olhos impenetráveis, aliada à condescendência do amor infinito.
“- Mestre, aqui há muito irmãos expurgados, tal como eu?” – Indaguei já mais calmo.
“_ Sim, cerca de uma centena.
Estão espalhados por todo o enorme continente; mais tarde eu os apresentarei a você para trabalharem em conjunto, mas antes disso você precisa descansar.
Vamos quero lhe mostrar as nossas instalações provisórias!”
Narada ocupava três cómodos.
Num deles ficava a biblioteca, o segundo tinha um laboratório bem equipado com diversos instrumentos, e o terceiro era o seu dormitório, que servia também de local de trabalho.
O quarto ao lado me era destinado, e logo eu adormecia um sono forte e sadio numa cama confortável.
Os dias que se seguiram foram indescritivelmente agradáveis; eu descansava fisicamente, enquanto os encontros com o mestre eram uma inspiração para a alma.
Abordamos, por diversas vezes em nossas conversas, o assunto sobre a Terra e o mestre proporcionou-me a grata satisfação de ver Ebramar e trocar algumas palavras com ele.
Certa vez, examinando no laboratório alguns instrumentos inéditos e perguntando sobre o seu funcionamento, lembrei-me do éter ouvido antes que os mestres se comunicavam com outros planetas; aproveitei então o momento para saber de Narada se ele tinha contacto com a nossa velha Terra.
Narada esboçou um sorriso e disse:
“– Você não consegue se acostumar a considerar este local de desterro como seu novo lar.
É um equívoco seu, pois tanto este mundo, como aquele, é uma pérola da coroa do Criador, onde Ele prodigalizou as Suas Dádivas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:11 pm

Sim, comunico-me com meus irmãos e, já que isto lhe proporciona satisfação, mostrarei o aparelho normalmente utilizado, mas, para tanto, teremos de esperar o anoitecer”.
Com a chegada da noite, Narada me levou a um dos prédios vizinhos.
Era uma torre muito alta de pedra e, por uma escada em caracol, fomos para o alto.
Lá, sobre uma espécie de base, localizava-se um instrumento em forma de telescópio – posteriormente inventado na Terra.
Na extremidade do longo tubo, havia um disco móvel, internamente coberto por uma substância gelatinosa, variegada por linhas finas e fosforescentes.
“- Com este aparelho podemos ver o que está acontecendo na nossa velha Terra.
Os notáveis iluminados, entretanto, de todos os mundos do nosso sistema, empregam aparelhagem mais sofisticada”.
- E qual dos planetas apresenta o maior interesse; qual é o mais evoluído?
O nível da Terra deixa a desejar, conquanto o mundo em que estamos já é povoado por selvagens! – Observei.
- Não afle assim!
Por que tanto desdém em relação a este pobre mundo?
Você sabe, por experiência, que lá, de onde você veio, nem tudo é só virtude e harmonia; o público que ali habita é bastante devasso.
O mais evoluído dos planetas do nosso sistema é o sol; é proibido para as raças inferiores e lá não existe a morte.
- O que eu quero dizer é que os seres que habitam o sol alcançaram tal estado de perfeição que conseguem passar aos sistemas superiores sem a morte física.
Um sol sempre se apresenta como o último nível de cada sistema e, por mais estranho que possa parecer para uma pessoa não-versada, o sol é habitado, ainda que nenhum instrumento criado pelo homem fosse capaz de mostrar o que há atrás da cortina ígnea do astro-rei.
Mas, voltemos ao nosso assunto de comunicação com Ebramar.
Sente-se na cadeira e aproxime o olho a esta abertura!
Eu me acomodei enquanto Narada apertava um botão; subitamente, o disco começou a girar com uma velocidade impressionante.
No começo não consegui distinguir nada além de riscos ígneos.
Após algum tempo, a frequência da rotação diminuiu e uma enorme massa escura parecia se aproximar.
Logo surgiram os contornos de um grande continente; os objectos tornavam-se cada vez mais nítidos e eu já conseguia distinguir, em todos os detalhes, as montanhas, os vales, etc.
A impressão vivida era a de que eu estava sentado junto da janela e por mim passavam os quadros panorâmicos locais.
De repente, meu coração palpitou intensamente, o lugar era-me familiar:
apareceu o palácio de Ebramar, cercado de jardins e, na alameda que levava ao terraço, vislumbrei o próprio mago com um pergaminho na mão.
Ele parecia também olhar para mim, saudar-me e sorrir.
Ao rever o amigo e os lugares, onde passei tantos dias felizes, fiquei tão emocionado que me tonteou a cabeça.
Eu me endireitei e as imagens do aparelho cessaram.
Narada colocou a mão sobre minha cabeça e, um minuto depois, eu já tinha me acalmado.
- Você está empregando a vibração etérea para focalizar os objectos? – Indaguei.
- Sim. Você sabe o quanto esta substância é sensível; aprendendo as leis de seu controle, é possível obter resultados surpreendentes.
O pensamento não é nada mais que uma forma mais aperfeiçoada da mesma substância miraculosa e sensível.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:11 pm

Onde fica o limite do poder do pensamento?
Qual é o lugar que ele não consegue atingir?
Que distância, que espaço ele não percorre mais rápido do que a luz, desconhecendo qualquer obstáculo?
Se ele estiver bem trabalhado, poderá deixar a marca de sua visitação.
Vamos fazer uma pequena experiência nesse sentido.
Desçamos ao laboratório!
Já dentro do laboratório, Narada pegou um disco, cuja superfície era coberta por uma camada de substância cinza e gelatinosa; na borda, a ele fixava-se uma pequena espiral, fina como o fio de cabelo, cuja ponta terminava por uma minúscula agulha, que se incandesceu até ficar branca quando o mestre tocou com a mão a parte inferior da espiral.
- Agora se concentre bem para enxergar o meu pensamento, que voará, feito um mensageiro, até Ebramar, para que ele imprima algumas palavras nesse disco.
Ele se concentrou; em sua fronte parecia forma-se uma esfera translúcida, reflectindo a imagem do próprio Narada, e da esfera fulgiu um raio ígneo que desapareceu no espaço, deixando um rastro fosfórico. Um segundo depois, apareceu um segundo foco límpidos e, diante dele, feito uma sombra, pairava da cabeça de Ebramar; um feixe de luz atingiu o disco oscilante, e a agulha desenhou em letras fosfóricas:
“A seu pedido, cordiais saudações a você e a Udea!”
Inclinando-me sobre o disco, ouvi perfeitamente a voz de Ebramar, sussurrando as mesmas palavras, e fui bafejado pelo aroma de seu perfume favorito.
Certa manhã, Narada disse-me:
- Agora que você está descansado, seu corpo e alma revigoraram-se, chegou a hora de reiniciar os trabalhos.
“Amanhã sairemos juntos: uma missão especial aguarda-o entre os seus novos irmãos”.
No dia seguinte, conforme foi planeado, os amigos reuniram-se na casa de Ebramar; Udea, então, continuou a sua narrativa, interrompida na véspera.
- Antes do amanhecer, Narada veio me buscar e disse que deveríamos, sem demora, partir numa viagem, da qual falara no dia anterior.
O local pelo qual caminhávamos tornava-se cada vez mais montanhoso; entramos numa fenda rochosa que, para minha surpresa, se alargou após algumas passadas e, no fundo daquela espécie de corredor, havia uma escada circular estreita que nos conduziu até um canal subterrâneo, iluminado por uma suave luz azul-clara.
Junto à margem encontramos um barco amarrado; embarcamos, eu assumi os remos, Narada sentou-se ao leme e partimos.
- Preciso lhe contar sobre a Colónia, para onde estamos indo – disse Narada.
Sua população não é numerosa e suficiente evoluída para receber os primeiros fundamentos da iluminação pelos mentores que serão trazidos por grandes iniciados do planeta morto.
Eu o deixarei na qualidade de chefe desses aborígenes; com eles, você deverá revelar toda a sua capacidade administrativa, provê-los de benefícios por meio de seus conhecimentos médicos e científicos, fazer-se respeitado e temido.
Posteriormente seu trabalho e os progressos alcançados serão avaliados; tenho plena certeza, entretanto, de que os seus futuros descendentes não desmerecerão o pai.
Pela evolução de seu aspecto físico e da capacidade mental, você terá a oportunidade de acompanhar os êxitos obtidos, vistos serem eles mortais, enquanto que para você o tempo não existe.
Isto significa que você não precisa se apressar.
Devo confessar que quando Narada disse aquilo, comecei a suar frio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 16, 2016 7:12 pm

Unir-me fisicamente com aqueles semibárbaros, buscando o aprimoramento da raça, pareceu-me o cúmulo de invencionice em relação à minha pessoa e, no mínimo, uma punição por demais dura.
Narada leu meus pensamentos indignados e advertiu-me, em tom desaprovador e severo:
- Tenha cuidado, Udea, com os germes do orgulho, rebeldia e egoísmo, que lhe envenenam a alma!
Coíba esses torpes despojos do passado!
Os sacrifícios dos que trabalharam aqui antes foi bem pior.
Também eram seres evoluídos, iniciados, habituados à beleza refinada, mas, a despeito de tudo, conseguiram estabelecer relacionamentos com os selvagens, buscando lançar base para o aperfeiçoamento da raça, aproximando-a do que vemos actualmente.
Os povoamentos semelhantes ao que você encontrará estão espalhados por todo o imenso continente.
Não respondi nada; usando força de vontade, sufoquei a irritação anterior; logo depois atracamos.
Por uma escada escavada na rocha cruzamos uma série de grutas, ligadas como que num só ambiente, iluminado por esferas de electricidade concentrada.
Na primeira e mais ampla das grutas, fluía de um paredão uma nascente, vertendo um filete de água num grande tanque; alguns bancos de pedra viam-se aqui e ali.
A gruta contígua servia de santuário e gabinete de trabalho; estava devidamente aparelhada de aprestos para os ofícios religiosos, estudos e acções mágicas.
A terceira gruta, finalmente, verificou ser um dormitório, provido de um conforto ao qual já me havia desacostumado fazia muito tempo.
Do lado da cama, encontrava-se uma cadeira estofada e, em cima da mesa, divisei o cálice que me pertencera na época de minha fugaz grandiosidade.
Junto à parede, estavam dois armários e alguns baús metálicos cujo conteúdo Narada pediu para eu inventariar imediatamente.
Num dos armários, achei roupas para mim, no outro, aprovisionamentos alimentares:
vinho, mel, concentrado em pó, etc.
O conteúdo dos baús intrigou-me no início.
Um deles estava literalmente entupido de adornos tão grotescos que bati com desdém a tampa; no outro, havia muitos tecidos multicolores, e, no terceiro, diversos objectos que eu não quis examinar muito.
- Todas as manhãs – disse-me Narada – na primeira gruta encontrará comida mais substanciosa.
Trate de se alimentar bem, pois o contacto com os seres inferiores irá absorver-lhe muita força astral.
Não se mate de fome; coma o quanto quiser!
Mais tarde, vou lhe enviar um ajudante e, caso precise, você poderá me contactar por meio desse aparelho, que permite comunicação com quem estiver no meu laboratório.
Agora vamos, quero mostrar-lhe os seus colonos.
Retornamos à primeira gruta, onde ele me mostrou uma abertura na rocha, que se verificou uma verdadeira janela – estreita, a bem da verdade – mas pela qual se podia enxergar uma campina, ladeada por colina arborizada e lago.
Aquele panorama se estendia literalmente a meus pés; na campina, via-se uma multidão de homens, mulheres e crianças, rodeados por um bando de animais dos mais diversos.
Sentados em pequenos grupos à sombra de árvores, todos nus, eles comiam vorazmente algo que eu não podia distinguir.
Surpreso, observei que a aparência deles não era medonha; talvez demasiadamente altos e atarracados, mas seus semblantes nada tinham de animalesco, e muitos até denotavam inteligência.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:51 pm

Pela minha expressão de surpresa, Narada explicou:
- Este é o resultado de milhões de anos de trabalho feito por inúmeros iluminadores que vieram antes de você.
O continente em que estamos é o quarto deste planeta, também é a quarta raça de humanos que aqui estamos aperfeiçoando; mas no planeta existem, é claro, as reminiscências de outras raças, fadas à extinção com o tempo.
Cada uma delas teve, alternadamente, mentores especiais, de acordo com o grau de evolução.
Desde os gigantes semi-fluídicos – como a primeira forma do cliché astral solidificado, que foram velados
E transfigurados pelos espíritos iluminadores; passando por humanidade invertebrada rastejante, que se multiplicavam como vegetais – por germinação – e, mais tarde, se tornou bissexuada, já uma raça mais aprimorada no plano físico e mental.
O género humano, como vê, andou um longo caminho.
A população actual já está preparada para receber a civilização, que lhe trará os grandes mentores, e acolher os primeiros reis da dinastia divina.
A você e a outros se antepõe a missão de preparar-lhes o caminho, lançando promotores de futuro desenvolvimento, tais quais as artes, as ciências e as leis, divinas e humanas.
Dados diversos conselhos e instruções, Narada retirou-se, prometendo mandar-me um ajudante, tão logo eu sentisse necessidade.
Novamente fiquei a sós, mas já não precisava acostumar-me à solidão; iniciei, então, antes de mais nada, o estudo do local e, mais tarde, do povo a mim confiado.
Ao analisar a primeira questão, descobri que estava prestes a acontecer uma erupção vulcânica na localidade; a população do vale corria inevitável perigo com a inundação do lago.
Uma pesquisa nas circunvizinhanças apontou que do outro lado da montanha havia vales mais altos e, consequentemente, mais seguros; estes poderiam ser alcançados por trilhas que comecei a desobstruir energicamente para que o acesso ficasse mais confortável.
Minhas observações sobre a população apontaram que os nativos viviam em condições totalmente selváticas; não se constituíam em famílias, nem sabiam conseguir o fogo, aproveitando-se da ignição produzida por eventuais raios, cujas chamas
Mantinha apesar de temê-las.
Feitos os preparativos e tendo me aconselhado com Narada, julguei chegada a hora de aparecer diante de meus pupilos, cuja língua pobre e vulgar eu já havia dominado.
Certa noite desci até o acampamento, onde dormia parte da tribo, espalhada sob céu aberto.
Buscando dar maior encantamento à minha pessoa, evoquei alguns trovões e envolvi-me em luz radiosa.
Alguns dos aborígenes, de sono mais leve, acordaram e viram estupefactos de pavor, um homem de branco circundado de clarões radiosos.
Fiz um discurso emocionante, dizendo ter sido enviado pelos deuses, pais de seus antepassados.
- Tornarei a voltar para salva-los de um perigo eminente e, mais tarde, virei para ensiná-los como abrandar a ira dos deuses.
Não ousem desobedecer-me! – Ameacei e desapareci.
No dia seguinte, os moradores só comentavam a aparição do mensageiro dos deuses, seus antepassados; um jovem discípulo de Narada veio ajudar-me na empreitada de socorrer a população.
Seria por demais extensos descrever cada etapa de acções preventivas que culminariam com o sucesso de minha iniciativa.
Os abalos subterrâneos, um dilúvio localizado e algumas intempéries terríveis logo se confirmariam.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:52 pm

Fiz-me aparecer com meu companheiro, e os que já me haviam visto reconheceram-me e submeteram-se às minhas determinações.
Mal os últimos habitantes abandonaram com o restante de animais o vale sentenciado à morte, desencadeou-se um terremoto devastador; o solo afundou, ruíram as encostas que cercavam o vale, e este se transformou num enorme lago.
A minha autoridade se solidificou, eu tinha prestígio suficiente para iniciar as acções de iluminação.
Depois de instalar os moradores nas grutas, reuni os mais velhos e expliquei que para aplacar a ira dos deuses ancestrais, que regiam as tempestades, as vidas e a saúde dos homens e animais era necessário evocá-los, orar e trabalhar muito. Os deuses, trabalhadores incansáveis, não suportavam o ócio, sobretudo de seus descendentes.
Era mister também erigir um altar em homenagem desses deuses protectores e agradecer-lhes pela salvação.
Ordenei que trouxessem blocos de pedras, que empilhadas de acordo com as minhas instruções formaram um grande altar, sobre o qual foram depositados ramos resinosos e flores.
Depois de acesos, o povo caiu genuflexo e, aos gritos desconexos e selvagens, verteu a sua gratidão à força invisível que governava os destinos de todos.
A partir daquele dia, ajudado por Nami – era assim que se chamava o meu auxiliar – começamos a ensiná-los a conseguir o fogo, ordenhar o gado, colher o mel e fazer o pão a partir de sementes trituradas entre duas pedras.
Usando grama e folhas de cana de açúcar, ensinamos as mulheres a trançar esteiras, cestos e tangas para lhes cobrirem os quadris.
Depois que a população assimilou as primeiras técnicas de trabalho, passei para a etapa seguinte.
Numa das grandes grutas, construí um pedestal, sobre o qual ergui uma estátua, explicando que esse era uma representação de deus, que de dia aparece aos mortais em forma de Sol, difundindo a vida e o calor, e, à noite, vela por aqueles que, ao morrerem descem ao reino das trevas.
Achei então que chegara à hora de instituir as cerimónias que pudessem sacudir profundamente a mente daqueles selvagens; elas se conservariam em suas almas virgens e puras, mais sensíveis para receberem qualquer impressão.
Para isto, escolhi alguns jovens, vesti-os em tangas de pano, e disse que, atendendo às ordens divinas, eles tinham sido eleitos para serviços especiais.
Usando as trombetas que lhes forneci, eles deveriam na aurora e no crepúsculo, conclamar o povo com os instrumentos e acompanhá-los em seus cânticos.
Nesses encontros, eu realizava ofícios, defumando diante da estátua ervas aromática e entoando orações, pertinentes para a ocasião.
O povo se reunia em multidões, cantava genuflexo, trazia em oferenda flores e frutos, fascinado com a estátua decorada com um colar de jóias, cuja cabeça era coberta por uma coroa metálica.
Os seis jovens que velavam aquele primeiro santuário, orgulhosos de sua função, cumpriam zelosamente as suas obrigações.
Na época, surgiu uma nova oportunidade de solidificar a minha popularidade e aumentar a fé dos meus colonos.
O dilúvio fez expulsar de covis uma quantidade enorme de animais monstruosos – sobreviventes de espécies quase extintas – que se abrigavam nas redondezas.
Eles fugiram do cataclismo e refugiaram-se em locais altos.
As feras causavam enorme devastação entre o gado; não raro devoravam seres humanos, e a população não sabia como se defender daqueles terríveis predadores.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:52 pm

Atendendo às queixas e pedidos de auxílio, ordenei, inicialmente, que todos fizessem uma oração conjunta para pedir ajuda ao Grande Deus e aos deuses-ancestrais.
Acompanhado por alguns nativos mais corajosos, fui até o vale, onde se refugiava a maior parte daquelas feras e, com auxílio da força vibratória etérea, transformei-os em cinzas.
Um pavor supersticioso tomou conta da população; o meu prestígio, na qualidade de ser superior e mensageiro dos deuses, assegurava-me de facto, uma autoridade ilimitada.
Isso foi duplamente útil, pois entre o povo – ainda que selvagem,
Mas já bastante evoluído – começaram a surgir rebeldes desgostosos com as minhas transformações e com a obrigatoriedade de trabalhar.
O medo que eu infundia, entretanto, moderava os ímpetos dos descontentes.
Depois de instituído o primeiro ofício religioso, fazia-se necessário marcar solenemente os três grandes acontecimentos da vida de um ser humano, ou seja; o nascimento, o casamento e a morte; e fazer com que seus rituais fossem sagrados e atraentes, sempre produzindo um profundo pendor.
Assim, esses eventos deveriam ser alegres e acompanhados por diversos festejos, capazes de promover, em torno do ritual religioso, uma espécie de círculo mágico.
Ainda que a fé possa fraquejar, a sumptuosidade inebriante dos rituais asseguraria a sua continuidade, muito importante e até indispensável, do ponto de vista do ocultismo, e poderosa devido à força mágica dos movimentos, datas, etc.
Era mister instituir, os mais solidamente possível, aqueles costumes e rituais, transmissíveis de geração em geração, de pai para filho; eles promoveriam a manifestação das forças misteriosas do bem, e atariam os humanos pelo menos através da expressão da forma externa, ainda que eles não conseguissem intuir o seu sentido arcano.
Antes de introduzir o ritual de casamento, foi necessário que meus “súbditos” fossem designados pelos nomes – pratica que inexistia -, depois, apurei o linguajar rudimentar e preparei-os para c constituição de famílias.
Assim, eu iniciei o projecto.
Após reunir certo dia o povo do vale, anunciei que o Grande Deus havia ordenado, por meu intermédio, que cada homem da tribo escolhesse uma esposa, à qual ficaria unido por um ritual, presenciado pela divindade, senhora da vida e da morte, da saúde de homens e animais, das tempestades e dos dilúvios.
Acrescentei ainda que somente os que se uniam daquela forma, e os seus filhos, ingressariam apos a morte na morada dos deuses, onde desfrutariam eternamente de todas as benesses, paz e alegria.
Tal anúncio causou uma enorme agitação; ninguém ousou, entretanto, fazer alguma objecção e, sob minha vigilância e a de Nami, foram iniciados os devidos preparativos para a formação de famílias.
Cada casal, por determinação divina, seria obrigado a ocupar um cómodo separado; para tanto, grutas foram adaptadas, e cabanas foram erguidas.
Eu com meu companheiro distribuímos os utensílios mais necessários: louça de barro, de madeira, tecidos, e assim pro diante.
Tais preparativos serviram de propósito para ministrar os fundamentos técnicos de ofícios, pois era da competência deles a produção de manufacturados – uma dádiva divina.
Paralelamente, a fala primitiva foi enriquecida com grande número de palavras novas.
Por fim, a partir dos adolescentes de ambos os sexos, muito novos para o casamento, formamos corais, que se apresentariam cantando e defumando com incensos, para marcar o primeiro dia do sacramento dos nubentes com a maior solenidade possível.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:52 pm

Por fim chegou o grande dia, os noivos e as noivas em suas tangas coloridas, colares e diademas na cabeça, dirigiram-se em fila dupla à gruta; todos os moradores estavam em vestes novas, adornados por badulaques rudimentares e bugigangas que nós distribuímos.
Diante da estátua, defumavam com incensos; eu mesmo celebrei a cerimónia.
Dei aos nubentes um vinho forte do cálice de ouro – jamais antes provado – e, diante de cada casal, pronunciei as esconjurações que prenunciavam a ira divina ao cônjuge que se atrevesse a ligar-se a outra pessoa que não fosse aquele que lhe era outorgada diante do semblante de Deus, o senhor celeste.
O impacto do ritual sobre os meus súbditos selvagens foi enorme, sob o efeito do sopro místico, cuja força eles intuíam, seus corpos vigorosos tremelicavam de temor supersticioso.
Mais tarde, instituí as cerimónias religiosas para marcar o nascimento e a morte.
Algum tempo depois eu e o meu assistente, abandonamos a nossa gruta interditada para todos os habitantes, e nos mudamos para o vale, onde construímos duas casinhas para morar, que, apesar da aparência pobre e rudimentar eram verdadeiros palácios para os nativos.
Elegi para esposa uma moça jovem, bastante bonita e esperta.
Ela não me inspirava amor é claro, e sua limitação intelectual impedia que fosse uma verdadeira companheira de minha vida; contudo, era humilde, temerosa e obediente e, assim, a nossa vida foi suportável.
Nami também se casou, Ambos tivemos muitos filhos, que mais tarde casaram.
O nosso clã destacava-se significativamente de outras populações pela beleza, flexibilidade de corpo e desenvolvimento intelectual.
No transcorrer de longos anos, dediquei-me ao aprimoramento espiritual e intelectual de meus colonos; ensinei-lhes a tratar a terra, a cultivar a vinha, a venerar Deus; para a realização dos ofícios junto ao templo e a manutenção do fogo eterno, formei uma comunidade de virgens, que se submetiam ao regime especial, espiritualizando o corpo.
Tanto os meus filhos, como os de Nami, mais evoluídos intelectualmente formaram-se sacerdotes e médicos; aos primeiros transmiti os ensinamentos de realização de ritos religiosos e revelei algumas fórmulas mágicas; aos segundos iniciei na arte de preparação de diversos tipos de remédios, no diagnóstico de doenças mais comuns, inclusive o tratamento da febre, tuberculose, dor de dente, úlcera, ferimentos, hemorragias, com suas fórmulas de simpatia, etc.
Todos esses “conhecimentos” deveriam permanecer ocultos, e serem revelados somente sob o juramento de silêncio aos mais dignos da geração descendente.
Por mais nobres e rudimentares que fossem aqueles conhecimentos, proporcionavam ao representante da divindade, a devida consideração.
Cuidei, também, da defesa contra os animais selvagens e os vizinhos inquietos.
Sob a minha orientação, foram fabricadas as primeiras armas, quando, então, eu treinei como manejá-las e, ao mesmo tempo, recrutei grupos de guerreiros.
Já era bisavô, quando recebi a comunicação de que os meus mestres viriam vistoriar a minha obra.
Aguardei-os sem receio algum, ciente de não ficar vexado pelo trabalho realizado.
O aspecto físico e intelectual do povo melhorou drasticamente; a ordem imperava; as actividades fervilhavam; a beleza e a graciosidade das formas daquele punhado de seres humanos eram bem próximas às da espécie que seria trazida por iniciados do planeta extinto, possibilitando a miscigenação.
Os mestres ficaram contentes e permitiram que eu abandonasse o povoamento, o que foi motivo de grande alegria, pois eu estava muito estafado.
E então, juntei o povo e anunciei que os deuses estavam me chamando de volta e que chegara a hora da minha morte, que seria incógnita para que ninguém procurasse os meus restos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:52 pm

Na qualidade de meu preposto, designei um dos meus netos – um jovem instruído, enérgico e muito inteligente.
Fiz com que o povo jurasse fidelidade ao novo senhor e que este ao morrer, escolheria um novo sucessor.
Numa cerimónia pomposa, eu lhe transferi o elmo, o escudo e a espada – símbolos que para sempre deveriam ficar com o líder do povo, obrigado a lhe submeter.
Dadas as últimas instruções ao meu sucessor e depois de me despedir do povo, amargurado com a minha retirada, pois eu era benquisto, retirei-me para a montanha e desapareci; algum tempo depois, Nami fez o mesmo.
Vocês, por certo, compartilhariam de minha emoção quando parti em direcção à esfinge, como que aliviado de um grande peso.
Muito e muito tempo se passou desde o dia em que saí de barco pelo canal subterrâneo.
E como passou rápido! Quem trabalha não sente isso!
Narada recebeu-me alegre, cumprimentou-me pela provação bem suportada e perguntou se eu não teria algum desejo com o qual ele poderia me recompensar.
Só então me apercebi do esgotamento físico e mental, causado pelo longo século de trabalho inumano.
- Bem! Não me é proporcionada a dádiva da morte – disse eu -, mas se for possível, doe-me um repouso completo, um sono sem sonhos, para que a minha alma descanse sem pensar e sem se preocupar com nada.
Anseio tanto por repouso e estou tão cansado, que um estado de pleno esquecimento seria uma imensa graça.
- Entendo meu filho, e seu desejo de repouso espiritual e carnal é legítimo.
Vá à sua cela, eu lhe levarei sua recompensa! – Ordenou Narada.
Um jovem discípulo do mago foi até o meu quarto, sugeriu-me que banhasse, vestiu-me depois numa longa túnica de linho, e levou-me a um salão, que recendia um aroma maravilhoso.
Num nicho da parede, aguardava-me um leito confortável e macio; deitei-me, e o discípulo cobriu-me com uma manta.
Nesse instante, chegou Narada, trazendo um cálice de líquido tépido; tomei-o deliciado.
Ele me colocou a mão na testa e, imediatamente, ouvi uma música maravilhosa.
A melodia calma embalava-me suavemente e parecia que eu estava flutuando no ar, balançando-me nas nuvens do espaço azul celeste, saturado de aromas estonteantes.
Finalmente, perdi os sentidos...
Não conseguiria dizer por quanto tempo fiquei dormindo, mas acho que meu sono foi longo.
Ao despertar, senti-me bem revigorado de alma e corpo.
Foi então que Narada me apresentou outros expurgados; e entre outras actividades, iniciamos a construção deste palácio.
O mais difícil ficou para trás; eu com os meus colegas já não nos sentíamos tão sozinhos e, também, o trabalho já não era tão duro.
Mas nada mais há para dizer, pois nada aconteceu de especial, finalmente, a vinda de vocês dissipou a última sombra do passado e devolveu tudo que havíamos perdido.
Udea silenciou, olhando pensativamente para longe; os outros também estavam mergulhados em seus pensamentos.
O silêncio foi quebrado por Ebramar, que se levantou, apertou a mão do amigo e disse em tom participativo:
- A sua narrativa aliviou-lhe a alma, os irmãos compartilharam mentalmente de sua obra e alegraram-se com sua vitória.
Levante a cabeça agora, Udea, esqueça o passado e olhe corajosamente para o futuro; ele lhe prepara muitas alegrias límpidas e trabalho dignificante, tão necessário em nossa vida estranha.
- Você tem razão, fiel amigo!
Seja meu orientador nesta nova fase de minha existência.
Prometo-lhe obediência e boa vontade, na medida das minhas forças – retrucou alegre Udea.
Após uma conversa animada, os amigos separaram-se.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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