Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:53 pm

CAPÌTULO V

No pináculo do alto rochedo, a assenhorear-se sobre as montanhas e os vales em torno da cidade dos magos, estava sentado um homem, contemplando sombrio e pensativo o maravilhoso e imponente panorama inundado em ouro e púrpura pelo sol nascente.
Era um homem jovem, alta estatura, magro e bem talhado; seu rosto expressivo e notadamente belo respirava inteligência e determinação. Os densos cabelos pretos tirante a azuis emolduravam com madeixas estranhas a testa larga do pensador; nos grandes olhos escuros e aveludados ardia, naquele ínterim, uma expressão que traía o tempestuar das paixões em sua alma.
Seu olhar pregou-se nos longínquos vales e florestas, e suas mãos se contraíram em ira.
Ele estava tomado por uma vontade irresistível e louca de se embrenhar naqueles ermos ignotos, seu novo mundo, repleto, sem dúvida, de mistérios envolventes e maravilhas nunca vistas; o acesso até lá, entretanto, era proibido.
O sonhador solitário suspirou pesadamente, levantou-se e passeou o olhar pela cidade dos magos, cercada por altos muros em toda sua extensão.
A vegetação viçosa abraçava os numerosos palácios, as altas torres astronómicas e as edificações colossais dos templos e escolas.
Olhar do jovem deslizou indiferente para aquele quadro mágico e deteve-se sobre a morada temporária dos magos, construída pelos expurgados.
Daquela altitude, enxergava-se bem o imenso prédio e os olhos aguçados do observador procuraram e, por fim, encontraram o palácio de Dakhir, cuja ala prateada; numa das alamedas do jardim, ele distinguiu duas minúsculas figuras femininas em branco, que se dirigiam para o prédio.
Seu rosto afogueou-se e, assim que as figuras alvas sumiram por entre a sombra das árvores, ele começou a descer a trilha estreita.
Seu semblante carregou-se, as sobrancelhas cerraram-se, seu peito respirava lento, devido, aparentemente, a uma forte emoção.
O jovem era chama por Abrasack, encontrava-se sob a protecção de Narayana, e era o seu discípulo favorito.
E agora diremos algumas palavras sobre os eu passado e o acontecimento que lhe proporcionou a amizade com aquela excêntrica, mas genial personalidade que preservou em si tanto de “humano”, apesar do peso dos séculos e das vicissitudes de sua extraordinária existência.
Aproximadamente na época, na Terra moribunda se desencadeavam as catástrofes descritas em “Ira Divina”,
Numa de suas aventuras pelo mundo, Narayana encontrava-se casualmente num dos países que passava por uma revolução.
Lá, desde os tempos remotos, havia se instalado um governo republicano, e, conforme característica da pipoca, a liberdade de costumes era total.
Não obstante, alguns anos antes, o regime de governo foi derrubado por um jovem, descendente da dinastia que governara anteriormente, e que, muito engenhosamente e usando de energia, conseguiu reunir partidários e saiu-se vitorioso contra um sistema fraco e devasso, restabelecendo a monarquia e usurpando a coroa.
Graças à inteligência perspicaz, astúcia e vontade férrea, o jovem rei conseguiu manter-se no poder por muitos anos, seus inimigos, entretanto, deram-se conta e, uma vez que eram a maioria, finalmente triunfaram.
Com todo o seu rancor apurado, tão comum às almas torpes e baixas, os vitoriosos sentenciaram o monarca destronado ao enforcamento com todas as condecorações reais.
Sob o local da execução, passava naquele momento a aeronave de Narayana; o estranho cortejo chamou-lhe a atenção, conquanto a postura soberba do sentenciado e a sua coragem inabalável ante a vexatória e pungentemente produzissem no mago um sentimento de simpatia.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:53 pm

Ao familiarizar-se rapidamente com as circunstâncias do acontecimento, ele indignou-se contra a crueldade e o escárnio da desprezível turbe.
Instantaneamente, nele amadurecera a decisão de salvar o infeliz, e, mal a procissão alcançou a grande praça, onde se elevava a forca, o plano de salvamento era posto em execução.
O tampo naquele dia estava nevoento, ameaçando chuva; mas eis que tudo escureceu por completo, relâmpagos faiscaram e precipitou-se uma chuva de granizo que lhe atingira a cabeça; o povo entrou em pânico. Aproveitando o alvoroço, Narayana meteu-se por entre a multidão e conseguiu chegar até o condenado, impassivamente postado, e apertando-lhe fortemente a mão, sussurrou no ouvido:
- Tire esses farrapos ridículos e siga-me rápido! Vou salvá-lo.
Com destemor e grande presença de espírito, o jovem rei desfez-se do manto e dos andrajos e, agilmente, feito uma serpente, partiu em desabalada carreira, esgueirando-se por entre a multidão, atrás de seu salvador, até pararem junto da aeronave.
Narayana levou o jovem monarca ao palácio do Himalaia.
A gratidão desmedida do jovem, sua obediência e aplicação dispuseram-no ainda mais ao pândego protector.
E quanto mais ele conversava com Abrasack, mais se fascinava com suas raras habilidades, sua facilidade de aprender as coisas, sua energia e força de vontade, para a qual não parecia haver qualquer obstáculo.
Assim, quando Abrasack implorou a Narayana para que este o tomasse como discípulo, o mago aquiesceu sem hesitar.
Ele estava tão fascinado com o seu discípulo, que até se irritou quando certa vez, Supramati lhe fez a seguinte observação:
- Caso você tenha estudado a personalidade de Abrasack deve ter percebido que ele não é digno de ser um adepto e receber os conhecimentos arcanos.
Ouça o meu conselho: revele-lhe os mistérios de forma parcimoniosa.
- Não entendo o porquê dessa antipatia em relação a esse jovem extraordinário!
Tanto você, como Dakhir e até Ebramar, parecem não confiar nele.
O que vocês tem a temer, sumidades do saber que são:
Que importância terá o pouco que eu lhe possa transmitir? – Retrucou Narayana, aborrecido.
Pelo seu temperamento impetuoso, mesclado de coragem, fraquezas e ímpetos grandiosos, Narayana valorizava e fascinava-se com os mesmo atributos dos outros.
- Com o que você disseminou-lhe de conhecimentos, já é suficiente que ele exorbite; chegará o dia em que você as arrependerá de seu excesso de confiança.
Bem! Faça como quiser – Concluiu Supramati com sua habitual impassividade.
Mas Narayana era turrão, e Abrasack soube granjear-lhe a confiança. O espírito vivaz do discípulo, sua vontade férrea, a rapidez com que assimilava as questões mais complexas, encantavam o mestre; e com a precipitação a ele características, Narayana sagrou-o em muitos mistérios perigosos.
Certo dia Narayana não se conteve e vangloriou-se diante de Ebramar dos existo do discípulo, de seu cabedal de conhecimentos, jamais exorbitados.
O mago lançou-lhe um olhar enigmático.
- É verdade! Sua mente eleva-se, conquanto o coração se estagne.
Ele assimila bem a mecânica da grande máquina criadora, mas não lhe intui a sabedoria divina.
Cuidado, Narayana, você esta criando um mago artificial, cheio de orgulho e cobiça.
Como Prometeu, ele é capaz de roubar o fogo sagrado e incendiar o mundo; ele não é humilde de espírito, como deveria ser um verdadeiro mago, e jamais se dirige às forças celestes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:53 pm

Ele – é verdade – a tudo se sacrifica para alcançar o seu objectivo; receio, porém, que a sua meta não é de ascender à luz.
Com a chegada da catástrofe final, Dakhir aconselhou a Narayana que deixasse Abrasack na Terra, mas o mago se indignou co tal crueza.
- Estou convicto de que um dia vocês ainda precisarão de sua cabeça; um homem sábio e activo vale mais que o bando de idiotas que vocês estão levando – assegurou-o, irado.
Mais tarde, vendo o desespero de Abrasack, quando o sol deixou de aparecer e o fim era eminente, Narayana não se conteve da tentação de ministrar-lhe o elixir da longa vida.
Abrasack ficou feliz e orgulhoso de não se mais u mortal, e de saber que até no mundo novo lhe seriam assegurados longos séculos de vida.
No início, depois de chegar ao novo planeta, diversos trabalhos de carácter científicos e afazeres de arrumação de casa ocuparam sua mente, mas, aos poucos, seu entusiasmo por ciências amainou-se, e seu espírito rebelde encheu-se de outros intentos.
Despertaram-lhe inicialmente, a presunção e a curiosidade:
a despeito de seu cabedal de conhecimentos e do poder sobre os elementos, jamais tivera uma oportunidade de testá-los.
E a cidade divina, com toda a harmonia serena e disciplina severa, tornou-se-lhe tediosa; a proibição de sair dali parecia-lhe um arbítrio insidioso, enquanto seu trabalho na cidade, sem um estímulo de perigo e um objectivo prático, era absurdo e aborrecido.
Mais uma circunstância inflamou seus pensamentos insanos.
Quando encontrou na nova terra, a filha de Dakhir – Urjane -, uma paixão impetuosa e ardente tomou conta de seu ser.
Feito uma aparição sedutora, pairava em sua imaginação, de dia e de noite, a imagem da moça, que lhe enfeitiçara o coração.
Alva e translúcida, parecia ela ser urdida de ar e luz; em seus olhos azuis reflectia-se a pureza celestial...
Na alma insubmissa de Abrasack, instalou-se um desejo louco de possuir Urjane, ainda que ele soubesse que seu amor não era retribuído.
A filha do mago de três fachos destinava-se, com toda certeza, para algum iniciado de grau superior, talvez Udea, quem sabe, ou para um dos filhos de Supramati.
A frieza de Dakhir para com ele já por si só era uma prova da inviabilidade de tal amor.
Possuir a jovem à força arrancá-la daquele meio, seria uma loucura pura.
Entretanto, Abrasack não era daqueles que se detinham diante dos obstáculos; ao contrário, estes exacerbavam ainda mais a sua teimosia.
Durante seus raros encontros, quando eles tinham a oportunidade de trocar algumas palavras, Urjane demonstrava-lhe total indiferença – mal o notava -; mas este facto apenas lhe insuflava ainda mais sua paixão obstinada.
Sua intenção de apossar-se de Urjane, a qualquer custo, foi crescendo, mas antes de perpetuar o rapto era necessário arrumar um refúgio para sua presa, e um exército para se defender.
O planeamento de todas as acções exigia sua saída da cidade dos magos; assim, ele resolveu fugir.
Enquanto o ambicioso projecto ia instigando a sua mente, observou que aos eu redor foram se juntando seres espectrais diferentes – reflexo de seus desejos desconexos que fervilhavam feito lava incandescente. Eram companheiros fiéis, sequazes perigosos, que compartiam de seus intentos ousados – suas próprias crias nos momentos de excitação extrema, quando o pensamento desenfreado gera fomentadores de rebeldia e desestruturação.
Não é por acaso que as sumidades de sabedoria, mensageiros divinos, sempre infundiam e prescreviam a disciplina e vigilância sobre os pensamentos:
cérebro – uma máquina enigmática e dinâmica – não apenas gera pensamentos torpes ou inócuos, como produz, por vezes, formas vivas, equipadas com forças perigosas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:53 pm

Seria muito estranho – e com toda razão – se os pensamentos delituosos, manifestação viva de formas astrais, pudessem passar despercebidos dos grandes magos. Sem dúvida, isso seria impossível, e os grandes iniciados estavam bem a par dos planos de Abrasack, aliás, sua pretendida fuga, com as ousadas acções, motivou uma reunião dos hierofantes, com a participação de Supramati e Dakhir.
Dakhir, o primeiro a descobrir as intenções do rebelde, e que lhe vigiava os passos, expôs os planos de Abrasack e o principal motivo que o induziu a perpetrar a aventura:
sua paixão a Urjane.
Acto contínuo inquiriu ao hierofante-mor se não seria da vontade do Conselho Superior obstar o rapto de sua filha, ou se aos acontecimentos seria dado outro rumo.
- Já discuti com os irmãos os acontecimentos futuros, e decidimos não colocar nenhum obstáculo à fuga do homem fadado a alavancar os povos para o nível mais alto da evolução.
Uma acção gera reacção, o choque que provocará esse homem é inevitável e útil para os povos, tiritando em ócio.
É uma pena, meu filho, que a suara e radiosa criança tenha gerado uma paixão tão impura nesse jovem; mas a sua concepção da vida é altaneira, e Você compreende toda a extensão da grandiosidade e a predestinação das provações de sua filha.
No que diz respeito à Narayana, que com a sua teimosia e falta de cuidado atraiu ao nosso convívio um jovem perigoso, armando-o para nos desafiar, é ele mesmo que terá de enfrentar o insurgente, e que isso lhe sirva de lição.
Cuidaremos para que ele não desconfie da ingratidão de seu favorito, até que isso nos seja conveniente.
De fato, absorto em outros pensamentos, Narayana, pouco se dedicando a Abrasack, de nada desconfiava.
Já há algum tempo, ele vinha trabalhando febrilmente sobre a decoração e mobília de seu novo palácio – uma obra artística fastuosa.
Nada lhe parecia suficientemente belo para aquela que ele gostaria que habitasse a morada; o coração inconstante de Narayana rendeu-se a um profundo e ardente amor.
Ele conhecia a jovem amada praticamente desde o dia de seu nascimento; diante de seus olhos crescia e desabrochava aquela flor encantada, chamada Urjane, e nem ele mesmo notara quando os laços de amizade deram lugar ao amor. E que amizade antiga!
Ninguém era tão capaz de divertir a menina, surpreendê-la com presentes mais inesperados, ou entretê-la com contos como o tio Narayana.
Dakhir e Edith notaram, já de algum tempo, a mudança de afeições, porém não dificultavam a aproximação.
Edith gostava de Narayana; e, desde que este recebeu seu primeiro facho de mago, no coração de Narayana processou-se uma grande mudança para o melhor.
Por certo, ele subjugara suas fraquezas terrenas e estava evoluindo, conquanto seus melhores atributos de carácter se realçassem ainda mais.
A conversa em que se abordava a união dos magos ensejou a Narayana descobrir o real sentimento para com Urjane, ainda que a ideia de desposá-la fosse motivo de uma luta interior.
Pela primeira vez na vida, ele se sentiu um velho em relação àquela criança; rememorando seu passado rebelde, ele receava que Dakhir – e não sem fundamentos – viesse a tratá-lo com desconfiança e não o quisesse por genro.
Até mesmo sob o facho de um mago espreita-se o temperamento caprichoso e intratável de um velho homem, surdos aos argumentos da razão fossem quais fossem.
Aconteceu, porém, entre ele e Urjane, uma inesperada explicação decisiva.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:54 pm

Durante um passeio pela cidade divina, quando ele lhe mostrava seu palácio, e eles palreavam animadamente no jardim, Narayana, em resposta ao comentário de Urjane sobre a beleza do palácio disse:
- Sim, não está mal por agora!
Mas o verdadeiro palácio encantado será erguido na minha futura capital.
Você sabe que um dos reinos em que governarão as primeiras dinastias divinas é destinado a mim.
Terei de construir, é claro, uma capital e chamá-la-ei de “Urjane”, como já lhe prometi antes.
O palácio que habitarei com a consorte, será uma verdadeira maravilha.
Já tenho inclusive um projecto.
Urjane subitamente corou e baixou os olhos; depois sem que ela mesma esperasse, deixou escapar:
- E quem será a rainha, tio Narayana?
Os olhos negros de Narayana brilharam, ele se abaixou e tomou a mão de Urjane.
- Você gostaria de ser a rainha na cidade de seu nome? – Inquiriu ele, meio brincando, meio sério, fitando seus olhinhos perturbados.
– Mas, nesse caso, eu não gostaria de ser chamado “tio Narayana”.
- Sim, desde que meus pais me deixem ser sua rainha.
Agora, Você tem de prometer não amar qualquer outra mulher, pois conheço sua fama de cabeça-de-vento – rebateu, em tom firme, Urjane.
Narayana desatou a rir.
- Pelo visto, madame Eva andou por aqui, pois em todos os mundos, as mulheres são iguaizinhas!
Quanto à má fama, que corre por aí, de que eu era um pândego incorrigível, é tudo balela.
É que, por ser um artista nato, eu jamais deixei de admirar a beleza feminina; ademais nunca tive a oportunidade de amar e admirar alguém como a minha pequena Urjane.
Juro solenemente que lhe serei fiel.
Amanhã cedo, irei pedir sua mão a seus pais.
No dia seguinte, de manhã, Dakhir e Edith estavam no terraço da casa.
O verde viçoso das árvores protegia-os dos raios solares; arbustos aromáticos, plantados em grandes vasos e espalhados pelo recinto, formavam cantos assombreados.
Num deles sentado à mesa, trabalhava Edith.
Na mesa havia dois grandes vasos chatos de cristal; um com ouro , outro com prata:
os metais eram maleáveis como cera.
Pegando ora um, ora outro metal, os dedos delgados de Edith modelavam um cesto de frutas – uma obra de arte fantástica.
Ela vinha trabalhando na fabricação de decorações e utensílios para o seu novo palácio na cidade divina, para onde se mudariam em breve.
Naquele dia Edith estava muito distraída e, por vezes, suas mãos repousavam ociosas sobre os joelhos, enquanto o seu olhar pensativo se detinha no quadro exuberante da natureza.
Dakhir, vestido numa túnica alva de magos, estava em pé, apoiado sobre o parapeito do terraço.
Naquele minuto, o seu belo semblante também estava nublado e o olhar pensativo perdia-se longe.
Soltando um profundo suspiro, ele passou a mão pela testa como que afugentando os pensamentos enfadonhos, e aproximou-se da mesa.
- Narayana vem pedir a nossa filha em casamento.
Você sabe:
eles tiveram ontem uma conversa decisiva – observou ele.
- Sim ela o ama, e isto é compreensível.
Ele é um homem encantador e sabe conquistar os corações femininos – disse Edith.
- É verdade!
Ele é um mestre nisso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:54 pm

Estou convencido de que, desta vez, ele nutre um amor profundo em relação à nossa Urjane, e este sentimento é o mais sólido dos que já habitaram seu coração.
Ele mudou para melhor desde a sua última iniciação – considerou Dakhir, e seu rosto franziu-se num sorriso irónico.
– Não fosse esse infausto Abrasack, trazido por ele, a felicidade de Urjane não seria tão breve; e estará a pobrezinha à altura de suportar as cruéis provações que a guardam?
- Sabe Dakhir, como são perigosos, até mesmo para uma alma pura e equilibrada, o ambiente, o convívio com os seres diabólicos, com seus instintos baixos, e a influência que exercem as paixões desenfreadas!
E ela ficará justamente nesse inferno – observou Edith, levantando os olhos marejados para o marido.
Pelo visto, Urjane já presente a tempestade – continuou Edith – pois ele vem se queixando de maus presságios e da sensação de ser invadido por fluídos negros, pesados feito chumbo.
- É verdade, uma dura batalha aguarda por Urjane!
Mas ela é filha de magos e não faltará com a sua destinação.
Que mérito existe em ser bom puro e magnânimo, onde inexiste o desafio da tentação e adversidade aos hábitos.
Onde não haja nada que excite os instintos vis que se espreitam no sorvedouro ignoto da alma humana?
Só lutando é que se conhecem as forças, enquanto os acontecimentos vindouros já estão traçados no livro do destino.
Ascetas têm abandonado o mundo, buscando nas florestas ou desertos o silêncio e o isolamento, que lhes facilitam a concentração.
Urjane deverá conservar a pureza radiosa de sua alma em meio às tempestades; estou bem convicto de que ela retornará triunfante – assegurou Dakhir, apertando forte a mão da esposa.
– Bem, lá vem Narayana!
No lago apontou um barco, impulsionado por um remador; dentro dele, em pé, estava Narayana, em traje de Cavaleiro do Graal.
Os raios do sol reverberavam no elmo metálico e túnica prateada, e seu porte alto e esbelto assomava-se altivo no fundo azulado.
- Que formosura!
Ele nasceu para destruir os corações femininos – sentenciou Edith rindo.
Narayana saltou agilmente sobre os degraus do atracadouro e caminhou rapidamente directo a eles.
Ao chegar, parou e disse, esboçando um sorriso meio forçado, meio maroto.
- Diante dos progenitores, não pertencentes ao rol de mortais comuns, eu poderia me eximir da necessidade de anunciar o meu pedido.
Seu conteúdo lhe é conhecido, e também sei que não me será negado; entretanto, gostaria de ouvir de seus próprios lábios que eu não sou um genro indesejado.
Dakhir apertou fortemente a mão estendida e saudou-o.
- Bem-vindo Narayana!
Não temos nada contra o eleito do coração de Urjane.
Temos certeza de que Você amará fielmente a nossa filha, e de que ela será feliz com Você.
- E então, o nosso velho Narayana, cabeça-de-vento, transformou-se em Narayana homem-sério? – Ajuntou Edith.
- Acertou minha querida sogra, as minhas virtudes ainda surpreenderão o mundo.
Mas onde está a escravizadora do meu coração, que me fez criar juízo?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:54 pm

- Você a encontrará perto do viveiro de pássaros; e agora, enquanto Vocês estiverem conversando, vou pôr a mesa para convidar nossos amigos a brindarem à saúde dos noivos.
Que tal a ideia Narayana? – Perguntou Edith, em tom brejeiro.
- Acho óptimo, obrigado!
Vai ser como se ainda estivéssemos na nossa desditosa Terra morta.
Oh! Tinha ele de acabar justo agora, quando estou me casando!
Que pena! Bem ou mal, ela é sempre querida – concluiu suspirando Narayana.
Bem, até mais!
Estou indo encontrar a minha beldade.
Após depositar o elmo e a espada sobre uma cadeira, ele desceu do terraço e sumiu rapidamente numa das alamedas escuras do jardim.
Saindo num relvado, em cujo centro um chafariz espargia suas águas, e ao lado do qual havia um caramanchão coberto por plantas trepadeiras, em meio de vegetação densa, ele viu Urjane, sentada no banco.
De través, repousava um cesto, e em suas mãos ela segurava um pote com sementes, que lançava aos punhados.
Em sua volta, e por cima do colo, ombros e no chão adejavam e petiscavam a comida bandos de passarinhos de plumagem multicolorida.
Ao mesmo tempo, ela afagava um lindo pássaro azul-turquesa com topete prateado, aboletado na borda do pote.
Urjane era só encanto, vestida numa larga túnica branca, cingida de cinto prateado.
Ao ver Narayana, ela enrubesceu, largou o pote e levantou-se.
- Será preciso que Você tente adivinhar o motivo da minha vinda? – Indagou Narayana, lançando-lhe um olhar enfeitiçador e um sorriso irresistível.
Urjane ergueu os límpidos olhos azuis.
- Seria eu genuína filha de Dakhir, se não lhe pudesse ouvir a voz do coração, ainda que os lábios estivessem selados?
Você bem sabe, sente e vê a minha paixão pelo “filho-pródigo” dos magos.
Amo-o, e não me envergonho em dizê-lo.
Estou pronta para compartilhar com Você de sua vida, do trabalho, do sucesso ou do infortúnio, e segui-lo em direcção à luz perfeita, quando será cumprido o plano traçado por nossos mestres – disse ela.
- Tentarei sempre corresponder a seu amor – assegurou-o, sério e emocionado com as palavras dela, e envolvendo-a nos braços.
Neste instante, ouviu-se uma vibração harmónica; eram acordes poderosos e doces, que faziam estremecer todas as fibras do corpo.
- É música das esferas, expressando a anuência dos magos superiores para a nossa união, abençoando-a – alegrou-se Narayana.
Ali está o presente de Ebramar – acrescentou ele apontando para um grande pássaro branco com topete dourado, que vinha pousando do alto, segurando no bico uma coroa de flores brancas fosforescentes, a qual, em seguida, foi depositada sobre a cabeça de Urjane.
Os noivos sabiam que aquele era um dos pássaros mágicos utilizados pelos grandes iniciados; assim, ambos acariciaram e beijaram a cabecinha sedosa do emissário alado.
Soltando um grito alegre, o pássaro bateu as asas e voou.
Enquanto o casal conversava, Edith chamou alguns jovens discípulos de Dakhir, entre os terráqueos, para ajudá-la nos preparativos do banquete e na distribuição de convites para os amigos.
Os preparativos já estavam no fim quando os convidados começaram a chegar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:54 pm

Ebramar veio por último, quando simultaneamente, pela porta oposta, entraram Narayana e Urjane.
Narayana contemplou feliz e gratificado, o círculo de amigos.
Estava ali reunida toda a sua família espiritual:
Ebramar e Nara, Supramati e Olga com as crianças, Dakhir e Edith, Udea, Nivara, entre outros.
Ebramar foi o primeiro a abraçar e abençoar os noivos.
Mas quando Narayana se aproximou de Nara e o seu olhar cruzou com o sorriso brejeiro de sua ex-consorte e lhe aplicou um beijo ruidoso na face e sussurrou ao pé do ouvido.
- Tentarei ser para ela um marido mais fiel.
- Assim esperamos!
Foi um sacrifício e tanto trabalhar para a sua perfeição, agora Você deverá justificar os nossos esforços – respondeu ela com bonomia.
Ao passarem ao salão, Ebramar observou:
- Antes de sentarmos à mesa, elevemos uma oração de agradecimento ao Ser Inefável, que nos tem proporcionado tantas dádivas.
Todos se concentraram mudos e reverentes, e logo ecoou um cântico, que, por certo, jamais tinha sido ouvido por algum ser mortal comum, tão maravilhosa era a sua interpretação, impregnada de fé, amor e agradecimento.
Finda a oração, iniciou-se o almoço, animado, com conversa alegre.
Somente Narayana estava pensativo.
Quando Nivara expressou seu encantamento quanto à diversidade e à riqueza dos produtos no planeta, e acrescentou que em meio àquela fartura poderia até se esquecer de que se estava em outro mundo, Narayana subitamente interferiu:
- Você está certo, Nivara, ao dizer que o nosso novo lar nos prodigaliza com tantas coisas boas; seria ingrato de nossa parte não amá-lo e não se sentir bem aqui.
Brindemos, entretanto, à memória da Terra morta, onde realizamos a passagem mais difícil de nossas vidas.
Nossa pobre ama-de-leite não tem culpa de que a humanidade ingrata a tenha rapinado e se aproveitado dela, destruído e sugado toda a sua seiva, permitindo que sobre ela desabassem as forças caóticas que a levaram ao fim prematuro.
Acho que no coração de todos devemos reservar um espaço para ela, pois lhe devemos, sem dúvida, todas as nossas recordações da imperfeição, dos felizes e maus momentos, das desventuras vividas, do amor e do ódio, das vitórias e fracassos, ou seja, de todos os desafios que enfrentou a nossa alma inconstante – ele pegou o cálice e levantou-se.
- Brindamos a Você Terra, nosso berço amado; elevemos amigos, uma oração, e choremos!
Seguindo seu exemplo, todos se levantaram e os olhos de muitos, fulgiram de lágrimas.
O discurso de Narayana fez afluir milhares de recordações; muitas sombras queridas se assomaram do sorvedouro do passado; e o coração daquelas pessoas arrancadas da humanidade, agitou-se.
- A gratidão é a mais nobre das virtudes e é um dever do homem.
Cantemos, pois, um réquiem pelo nosso berço querido, e que ele seja alcançado pelos sentimentos de gratidão a transbordarem de nossos corações; que eles acalentem e confortem aqueles que ali expiam, na Terra morta, a sua sublevação insana contra o Criador e suas lei inquebrantáveis – pronunciou-se Ebramar.
Desta vez o canto dos magos verteu-se numa tempestade de sons, arrebatando a alma.
De todos os seres, desprenderam-se correntes de fogo e luz radiosas, se densificando em forma de esfera incandescida, que, feito um cometa, crepitando e coruscando em feixes de faíscas, precipitou-se pelo espaço em direcção à longínqua Terra, envolta em nuvens negras e desprovida de luz e calor – o terrificante calabouço dos repudiados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:54 pm

A notícia dos esponsais de Narayana e Urjane correu rápida entre os habitantes da cidade divina e entre os terráqueos; para Abrasack, notadamente, ele foi um choque e, no início deixou-o totalmente abalado. Pelos desígnios do destino, a mulher adorada pertenceria justamente a seu salvador, benfeitor e mestre, do qual ele a raptaria.
Inicialmente, ele se envergonhou e sentiu alguns remorsos; mas o impulso louvável logo se desvaneceu feito fumaça quando ele encontrou os noivos, juntamente com os outros discípulos, na ocasião da visita de cumprimentos.
Ao ver Urjane, sua alma agitou-se em tempestade; Narayana, cego e distraído, nada percebeu.
Quanto à noiva, esta nem sequer olhou para ele, em meio à multidão de outros discípulos, e ele, mais tarde, simplesmente sumiu.
Ao retornar para casa, ele liberou todo o seu desespero e fúria; ferveram-lhe na alma todos os nefastos instintos nidificados, sufocando os remorsos, a gratidão e os escrúpulos.
Quando, algumas horas depois, ele se levantou, pálido feito cadáver, mas calmo, em seus olhos faiscando de ódio, e nas pregas implacáveis dos lábios cerrados, lia-se um determinação inabalável.
Decidido a fugir, o mais rápido possível, ele começou a se preparar febrilmente para a partida. Já na terra, ele era tido como um exímio cavaleiro e, no novo mundo, chegou a domar um dragão alado; animal magnífico, todo negro, que lhe obedecia feito um cão, entendia cada gesto ou palavra sua.
Era nele que Abrasack costumava dar seus passeios aéreos, dentro dos limites permitidos; mas isso era pouco para enfrentar os magos.
Com esse objectivo, antecipadamente e aos poucos, ele vinha surripiando de Narayana aqueles objectos mágicos que mais tarde lhe poderiam ser úteis, mas que também não ocupassem muito lugar.
Para pôr em prática a fuga, Abrasack queria aproveitar justamente o momento da animação que seria provocada pelos últimos preparativos da consagração da cidade e das solenidades do casamento.
Certa noite, ele colocou numa grande caixa alongada os seus tesouro secretamente adquiridos; nos fundos depositou o frasco com a matéria primeva do planeta extinto, uma vez que não conseguira arrumar aquela essência de origem no novo mundo.
É óbvio que aquela essência não surtia mais eficácia para a vida planetária, mas era, sem dúvida, um poderoso instrumento contra uma variedade de doenças, e assegurava uma existência bastante longa.
Depois, escondeu na caixa alguns pergaminhos com textos antigos de fórmulas mágicas, e num escrínio cinzelado, colocou uns amuletos e alguns anéis mágicos, muito poderosos que conseguira furtar da magnífica colecção de Narayana.
Dentro de esferas metálicas, do tamanho de uma noz, estavam guardadas diversas malhas, incrivelmente finas e leves, feito pluma, impregnadas por essências misteriosas, e que possuíam poderes não menos incríveis; uma delas fazia com que aquele que a trajasse se tornasse invisível aos olhos dos mortais comuns; a outra proporcionava invulnerabilidade às acções dos elementos e extinguia a gravidade da atmosfera, a terceira, por fim, emitia luz parecida com a do luar e aroma, que aniquilavam os miasmas dos mais nocivos, estivesse onde estivesse numa escuridão total ou nas profundezas da terra.
Juntamente com outros apetrechos, Abrasack escondeu uma esfera do tamanho de um ovo de pata, e que, quando aquecida, tornava-se transparente, e fazia prever o futuro.
Finalmente depositou na caixa sete flautas de diferentes dimensões e materiais.
Os sons de uma pacificavam as feras selvagens; outra acalmava as tempestades; havia uma, cujos sons podiam, numa batalha, excitar os combatentes até o êxtase total.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 17, 2016 7:55 pm

Tais instrumentos já eram conhecidos na antiguidade remota e estavam à disposição dos faraós; seu segredo de manuseio mais tarde ficou perdido.
Toda aquela parafernália, assim como outros objectos, desde que empregados com perícia, proporcionavam um grande poder, e Abrasack, com a astúcia que lhe era peculiar, soube escolher precavidamente tudo aquilo que pudesse cercá-lo de auréola de mistério e subjugar as tribos selvagens pelo terror de seu poderio, neles infundindo a convicção de que era um deus, descido dos céus.
- Com estes recursos, poderei conquistar o mundo, aplicar uma derrota aos magos, e provar-lhe, Urjane, que sou mais que Narayana! – Resmungou Abrasack, trancando a caixa.
Em seguida ele pendurou no pescoço a lira, ergueu a caixa e saiu apressado em direcção ao alto do penhasco, onde o aguardava o seu amigo alado com alguns sacos, previamente trazidos.
Amarrando firme ao lombo do animal toda a sua preciosa carga, montou-o e orientou o voo em direcção às longínquas florestas e planícies que os seduziam com seus mistérios impenetráveis, estendendo-se além dos limites impostos.
Estava indo conquistar o mundo desconhecido, sozinho, armado tão somente de seus conhecimentos mágicos, coragem sem igual e paixão descontrolada.
No topo de uma enorme torre astronómica da cidade divina, achavam-se Dakhir e Ebramar; o instrumento óptico estava orientado para a escarpa isolada, onde pousara o dragão negro de Abrasack.
- Agora ele está amarrando no lombo do dragão a caixa com os pertences de Narayana – observou em tom de desdém, Dakhir.
- Deixe que tudo corra naturalmente, de acordo com o plano traçado no cliché astral.
Chegou o momento de se desencadearem acontecimentos que promoverão paixões, nortearão cérebros e produzirão inventores.
Que o instrumento cego do destino tome o seu caminho!
Sua ambição provocadora, ao colidir com a resistência obstinada de Narayana, ensejará um confronto das forças espirituais desses dois poderosos temperamentos, causando um enorme abalo, tão necessário para o futuro progresso.
- Em todo caso, vou vigiá-lo, e armarei Urjane para a luta – disse Dakhir, retirando-se da torre com Ebramar.
A fuga de Abrasack produziu um enorme alvoroço e surpreendeu toda a colónia dos terráqueos, dando lugar a mexericos infindáveis.
Todos imaginavam que os magos iniciariam a perseguição e puniriam exemplarmente o insubmisso; mas, como nada disso aconteceu, e os adeptos trataram o ocorrido com indiferença total, os terráqueos concluíram que a punição tinha sido adiada, mas que seria bem severa; por outro lado, a agitação nos preparativos das festividades a serem realizadas fez com que os moradores se esquecessem do fugitivo, odiado por seu garbo e pouca sociabilidade.
Narayana estava muito ressentido pela ingratidão e ardileza de seu pupilo; ao se dar conta do volume de objectos mágicos que lhe tinham sido surripiados, ficou constrangido e arrependeu-se de não ter dado ouvidos aos conselhos dos amigos que o preveniram para não confiar em Abrasack.
Ele nem sequer imaginava os intentos ousados, que eram arquitectados na mente do fugitivo arguto, contra a sua felicidade.
A ira e o orgulho ferido impediram-no de tocar no assunto com Dakhir e Supramati; estes também permaneciam calados.
No entanto, ele contou a Ebramar como tinha sido despojado de seus objectos, e queixou-se da vil ingratidão do homem, de fora um benfeitor.
O grande mago ouviu-o e ponderou em tom sério:
- O que se pode fazer meu filho?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:17 pm

A negligência sempre leva a consequências dolorosas.
Logo, com grande solenidade, foi realizada a sagração da cidade, quando então os adeptos se instalaram em suas novas casas; não com menos pompa foram celebrados os casamentos.
As cerimónias dos magos eram realizadas no templo subterrâneo, enquanto que as dos adeptos de grau inferior eram realizadas no amplo templo da cidade; a isto seguiriam as legitimações dos terráqueos trazidos.
O ritual dos últimos foi ainda mais sumptuoso, para imprimir maior grandiosidade ao ato, que talvez seja o mais importante da vida de um homem, baluarte da família, célula da sociedade, a partir da qual se cultivariam os sentimentos nobres:
lealdade, paciência e tolerância mútuas, amor, auto-abnegação por filhos, fidelidade e apoio mútuos nas provações da vida.
Findas as solenidades, a vida normal retomou o seu curso, e os magos deram início a outros trabalhos em seu novo lar.
A principal diligência era a de proteger as fontes da matéria primeva.
Eram seta ao todo; entre elas, algumas ainda estavam encobertas pelas águas do oceano e dispensavam cuidados; assim, a atenção foi dirigida às que se encontravam em terra firme.
Apesar dos milhões de anos dedicados ao estudo das inúmeras propriedades da misteriosa força – a essência vital do Universo -, seus poderes surpreendentes não eram suficientemente conhecidos e, na nova terra, os hierofantes deparam-se com certas composições que diferiam das antigas.
Assim, houve a necessidade de novas pesquisas científicas, e um grande número de magos e magas, já agraciados com dois fachos de conhecimentos, prontificou-se a entregar à ciência e meditação prolongada e solitária, em cavernas subterrâneas, tão logo estas ficassem adaptadas para moradia.
Não com menos empenho foi iniciada a abertura de diferentes escolas de iniciação.
Após a devida selecção entre os terráqueos, alguns deles se verificaram aptos à iniciação superior, outros foram distribuídos em escolas de nível inferior, onde se formavam funcionários administrativos, artesãos, agricultores e artistas.
Os magos, com base em seus gostos e aptidões, foram designados para gerenciar e dar aula nesses estabelecimentos; as escolas femininas ficaram por conta das magas.
Ocupado com o difícil e complexo mister de classificar e pôr em ordem os documentos juntados pelos expurgados, Dakhir foi liberado de leccionar nas escolas; o mesmo ocorreu com Supramati, que se propôs a organizar uma biblioteca para os antiquíssimos tesouros da ciência e literatura, trazidos do planeta extinto.
Ainda que eles não dessem aula na escolas, ambos tinham, seus próprios discípulos favoritos, iniciados em ciências e aperfeiçoamento espiritual.
Kalitin tornou-se aos poucos, o aluno dileto de Dakhir, afeiçoado ao jovem cientista pela aplicação, penitencie e humildade com que este abjurou de sua “ciência” anterior, buscando o saber genuíno. Dakhir levava-o frequentemente em suas excursões e, todas as noites concedia-lhe um par de horas para conversarem - que para o discípulo eram os melhores momentos do dia.
Já na Terra, Kalitin tinha paixão por botânica, e agora ele formava o seu próprio herbário do mundo novo, classificando as plantas desconhecidas, por espécie.
Atendendo a pedido de Dakhir, Udea, que já tinha tido a oportunidade de estudar a flora do planeta, assistia Kalitin e orientava os seus trabalhos.
Certa vez ao retornar de uma excursão botânica, Kalitin passou à tardezinha, na casa de Udea, e mostrou-lhe uma planta estranhíssima que tinha achado.
Era um feixe de galhos vermelho-escuros, finos e flexíveis, com minúsculas olhas e uma enorme raiz de tonalidade mais clara, quase laranja.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:17 pm

A raiz assemelhava-se assombrosamente ao corpo humano. Os pseudo-pés e as pseudo-mãos findavam pôr uma numerosidade de longos e finos rebentos; a cabecinha, magnificamente formada, parecia ter um rosto de verdade, equipada de nariz, boca, testa e três depressões, com que três olhos, dispostos à maneira dos olhos do homem da caverna.
- Achei casualmente esta planta incomum – principiou Kalitin – no vale montanhoso que Você me indicou para fazer as pesquisas.
Crescia à sombra das pedras.
Tentei arrancá-la, já que nunca havia visto uma planta igual, mas senti imediatamente uma forte queimadura na mão e algumas pontadas, com que de descarga eléctrica.
Isso me intrigou, e decidi extraí-la a qualquer custo.
Cavei a terra em volta dela e, com muito esforço, consegui arrancar esta raiz.
Imagine só enquanto eu a arrancava da terra, ela parecia estremecer e emitia um crepitar parecido com gemido.
Ao examinar a planta, com curiosidade compreensível, lembrei-me de que na Terra havia uma planta que se assemelhava a corpo humano, ainda que sua raiz fosse bem menor.
Chamava-se Mandrágora.
No meu tempo ela já estava extinta ou, pelo menos eu nunca cheguei a encontrá-la, mas eu a vi numa ilustração.
A planta era tida como misteriosa, atribuíam-lhe extraordinárias propriedades terapêuticas e contavam muitas lendas.
- As lendas nunca são de todo absurdas e encerram invariavelmente, uma dose de verdade, conquanto o tempo e a imaginação se encarregam de adorná-las, desfigurando-as – observou Udea, sorrindo.
– Esta planta e muitas outras desta espécie são de facto envoltas em véu de mistério para alguém não iniciado; para explicar-lhe isso, devemos voltar ao passado bem remoto.
Aquilo que Você vê nesta terra, sua flora, fauna e a humanidade, tudo são frutos aperfeiçoados, por milhões de anos, de um trabalho da natureza e das inteligências que governam os elementos caóticos.
Sua vontade trouxe da aura da Terra as gigantescas e desajeitadas formas, que o calor do sol densificou e proveu de enorme força física.
Estes seres, uma encarnação das forças primitivas, ainda que sejam obreiros rudes e ignorantes, tronam-se colaboradores poderosos, se orientados por uma mente disciplinada; então, cada um, associado ao elemento do qual se originou, trabalha activamente para fundi-lo a terra e promover a devida permutação.
Por longos e longos séculos de trabalho, esses seres etéreos impregnam-se de tal forma com as correntes pesadas da crosta terrestre que não conseguem se elevar ao espaço e, pregados pela gravidade, acabam por lançar suas raízes na terra, conservando parcialmente certa semelhança com os humanos, por eles adquirindo-a.
Por algum período, esses seres anfíbios compõem uma fauna especial; sua maior parte, entretanto, fenece durante as revoluções geológicas, enquanto que outra, sob a influência do calor solar e das intempéries, muda de aspecto, tornando-se cada vez mais densa.
Alguns desses seres se afundam na terra definitivamente; outros, ao contrário, dela se separam, tornando-se rastejantes ou trepadores, ou seja, escolhem um novo caminho de ascensão.
A luz que brilha sobre a fronte dos seres etéreos, que normalmente serve de órgão de visão aos seres em estado fluídico, se densifica e assume aspecto de um, dois ou três olhos.
Seria por demais longo descrever as diferentes formas desses seres estranhos.
Você falou de Mandrágora...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:18 pm

Pois na Terra morta, havia uma planta carnívora terrível que podia devorar um homem ou um animal, desde que o alcançasse com suas garras vegetais.
- Que interessante! Que luz inesperada inunda os mistérios da criação do mundo e a evolução dos seres! – Exclamou pensativo e sério Kalitin.
- Sim, toda a natureza é um livro aberto, em cujas páginas estão escritos todos os períodos da evolução da grande máquina terrestre, juntamente com tudo que nela habita, mas é preciso ter uma chave para este abecedário. O ignorante confunde-se e se perde no rol das leis que lhe parecem por demais complexas; quando na verdade, elas são bem simples e funcionam com base num planeamento uniforme.
Por exemplo, as patas e os pés de alguns animais, ou até as suas extremidades, não se assemelham com as raízes?
Isto é um vestígio claro da evolução, mas ninguém se dá conta disso – concluiu Udea.
Tais conversas deixavam Kalitin profundamente impressionado, o que lhe suscitava o desejo de dilatar os seus horizontes e pesquisas com mais profundidade os fascinantes mistérios da criação.
Certa vez, durante uma conversa informal com Dakhir, ele manifestou a sua vontade de haurir o saber e atingir a perfeição.
O mago disse-lhe afectuosamente:
- Sua vontade, meu filho, é legítima e louvável; mas para tudo há seu tempo.
Não se esqueça de que a pressa e é inimiga da perfeição.
E continue trabalhando.
Assim que Você estiver bastante preparado, infringir-lhe-ei uma prova de isolamento, e, se Você cumpri-la devidamente, será um grande passo para frente.
- Perdoe-me mestre, mas eu não entendo o sentido do isolamento.
Sem dúvida, ele ajuda na concentração de uma prece; mas só ela será suficiente para avançar no meu aprendizado, coisa que eu poderia fazer sozinho, sem a assistência de u m mentor?
- Você está equivocado. O isolamento, por si só, é um guia sábio e poderoso.
Estando a sós, tendo por companheiros apenas os elementos da natureza, a mente passa por uma preparação surpreendente; os mentores elementais responderão às questões formuladas pelo cérebro do perscrutador.
A solidão e o silêncio potencializam as forças astrais.
A luz necessita de atmosfera para se propagar, e uma vela se apaga num ambiente muito empestado; da mesma forma a luz interna é governada pelo mesmo princípio.
Dentro das pesadas e densas emanações materiais da multidão, o pensamento torna-se também pesado, e a luz interna turva-se e até apaga; no silêncio profundo da solidão, entretanto, longe dos sopros pungentes e perturbadores, é mais fácil para o homem concentrar, numa só, a poderosa força de seus pensamentos, e orientá-los para o objectivo desejado.
Kalitin então exclamou, com os olhos brilhando:
- Você me disse que eu viveria por alguns milénios!
Por vezes, a ideia disso me apavora e tenho medo de enlouquecer; outras vezes, como agora, sinto-me incrivelmente feliz, ao saber que tenho à disposição tanto tempo para estudar os grandes e fascinantes mistérios.
Queria tanto entender essa substância enigmática, que proporciona ao frágil corpo humano essa incrível força vivifica, capaz de se opor à lei da morte praticamente até a eternidade.
Perdoe, mestre, se lhe faço perguntas impossíveis dê serem respondidas.
- Não, a sua busca da verdade é tão legítima que eu terei satisfação de lhe dar uma explicação resumida.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:18 pm

Quanto à compreensão de todas as propriedades e métodos de uso desta substância misteriosa, que preenche o Universo e se constitui de núcleo para a formação de todos os planetas, e de seiva que nutre os mundo e os seres, isso ainda ninguém alcançou.
Esta substância, chama por nós de matéria primeva, é como a respiração do próprio Ser Inescrutável, que ninguém consegue apreender.
Esta respiração que a tudo abrange – som, cor, luz, aroma – apresenta-se em forma de uma névoa, possui uma vibração assombrosa, transforma-se em fogo líquido e, depois, espalha-se em grandes gotas, que rodopiam no espaço até que nãos e acumule uma substância gelatinosa, que faz com que a incrível frequência da vibração se torne mais pesada e mais lenta.
A massa gelatinosa – digo “gelatinosa” apenas em termos de comparação, pois a tenuidade da matéria é impossível de ser descrita – entra em movimento rotacional, aos poucos se densifica e preenche a forma astral, mentalmente traçada por um dos criadores do sistema planetário.
O grande obreiro e calculador do espaço traça com sua poderosa mente as figuras geométricas das rotas, pelas quais deverão passar os grandes e os pequenos planetas do sistema em formação.
Os primeiros a se formarem e ocuparem os seus lugares são os gigantescos aglomerados que chamamos de sóis; seus raios ígneos mantém em actividade a substância primeva, e, sob o seu calor, ela se evapora e se pulveriza, impregnando e animando todos os átomos da matéria.
Lá, onde o calor solar não atinge a substância primeva, esta permanece inactiva, como, por exemplo nos enormes espaços entre as ilhas dos sistemas planetários.
O calor solar faz secar as plantas gelatinosas, que encerra em si a forma astral de tudo – rochas, plantas, animais – e estimula a actividade vital da matéria primeva.
Peguemos, por exemplo, um ovo.
A forma da ave é inserida invisivelmente já na sua própria essência.
O calor seca a clara e a forma invisível torna-se visível, o átomo da matéria primeva, ao penetrar através da chama da fertilização e activado pela acção do calor, atrai do espaço as substâncias de que necessita para a formação do corpo, cujo cliché pá está pronto, e...
A obra está completa: do ovo, que servia de uma espécie de berço, sai um ser determinado, capaz de se desenvolver e de se multiplicar.
Nos organismos comuns, a essência vital permanece numa certa proporção por um determinado tempo; decorrido esse tempo, a matéria acumulada no cliché segrega-se e vem àquilo que nós chamamos de morte.
Absorvido por algum organismo – seja vegetal, animal ou humano – numa proporção diferente, o elixir da longa vida proporciona-lhe a capacidade de renovar continuamente as células que o compõem, assegura que sejam mantidos os vigor da juventude e as forças; e, uma vez que a matéria primeva encerra todos os elementos da natureza, ela (essência primeva) torna todo aquele, que com ela é impregnado, invulnerável aos efeitos das forças elementais.
O mesmo se aplica a nós, imortais.
Jamais envelhecemos, podemos viver de vida planetária e somos bem adaptados ao trabalho mental.
Mas voltemos ao homem comum.
Ele possui assim como nós, um cérebro – uma máquina – que absorve muita força primeva espalhada por todo o organismo, sobretudo se ele se dedica intensamente ao trabalho mental. Numa pessoa limitada e preguiçosa, a matéria primeva aloja-se nos ossos e na carne, aumentando-lhe as dimensões e, frequentemente, a força física.
A propósito o homem pode atrair para si os excedentes da matéria, por ascetismo, contemplação, auto-concentração em principalmente, pela vibração da prece e êxtase.
Nestes casos, a máquina humana exerce uma atracção e absorve as intensas correntes de força benfazeja, que se vertem sobre ele como uma espécie de chuva ígnea; seu sistema nervoso estremece, por vezes ele sente tonturas, quando o seu corpo, a aura ou o cérebro absorvem as gotículas vivificas, que lhe proporcionam enorme força e o iluminam de luz astral.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:18 pm

Isso ocorre não só com os seres iniciados, mas com os mortais e com os santos, que, extasiados em prece, se impregnam desta força de facto divina, pois ela emana de Todo-Poderoso; eles se tornam capazes de realizar curas milagrosas e – renovando a essência vital – até de ressuscitar os mortos, desde que os eu astral nãos e tenha separado definitivamente do corpo.
Mas é necessário que a prece seja feita com fé e intensidade, pois só assim é que se consegue compor a química que atrai a graça balsâmica e curativa, tanto para os que oram, quanto para os beneficiários da oração.
Os iniciados também se utilizam de formulações químicas para obter os efeitos desejados.
Quanto maior for a sua cognoscibilidade, tanto maior é a amplitude e a complexidade do uso da substância primeva, e tanto maior é a luta que eles travam contra a terrível força que se opõe à matéria primeva.
Estou me referindo à força destruidora, que desagrega tudo o que a primeira toca.
Duas forças disputam entre si o Universo, tanto uma como a outra não conseguem vencer.
A matéria que une as células, animando-as e obrigando-as a interagir, ascende em espiral aurifulgente; a corrente desagregadora, em espiral descendente, umbrosa e pesada, tenta destruir a corrente vivificante.
As grandes leis que governam o Universo são claras e simples como a sabedoria divina; é a ignorância humana que tolda em escuridão o princípio de tudo.
No anteparo inabalável destas leis, apoia-se todo o sistema do Universo, e trabalham os grandes servidores do Eterno, executores de Sua vontade.
A parte simples e mais acessível destas leis é conhecida pela humanidade não iniciada; em vez de por elas se orientarem, o homem delas abusa, e este abuso gera os sofrimentos e a morte inevitáveis – concluiu Dakhir, liberando o discípulo, que se retirou perturbado com o que acabara de ouvir.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:18 pm

CAPÍTULO VI

Sem ao menos se voltar para trás, para dar uma última olhada na cidade dos magos – abrigo da paz, concórdia e ciência -, alçou-se Abrasack ao espaço.
Acima de sua cabeça, cintilava o céu estrelado; aos pés, estendiam-se as planícies e as florestas interditas.
Ali, atolados na ignorância, viviam os pobres selvagens; em suas almas ainda dormitavam as paixões que o destino lhes reservara para serem despertas.
Como um génio maléfico exterminador, ele, Abrasack, acabara com a paz das hordas pacíficas, apenas para satisfazer a sua vaidade, precipitara os confrontos sangrentos e lançara uma contra a outra, as nuvens daquelas formigas.
O dragão alado recortava rápido o espaço, e já fazia muito tempo que as fronteiras interditas tinham ficado para trás; mas Abrasack continuava o seu voo, levado pelo desejo inconsciente de ficar o mais longe possível dos magos, que ele atraiçoara.
Por fim, seu dragão começou a dar sinais de cansaço, e Abrasack decidiu descer.
O sol estava despontando e ele viu que se encontrava num vale cercado de altas montanhas florestadas.
“Tenebroso” – assim era chamado o seu dragão – pousou num pequeno relvado, coberto por mato denso.
Abrasack apeou e divisou por perto a entrada para uma caverna, atrás de plantas trepadeiras.
Adentrando, percebeu que o local era espaçoso, bastante ventilado, a terra estava atapetada de musgo denso e fofo, e da parede jorrava uma nascente, cujo filete atravessava a caverna e, através de uma fenda rochosa, caia no vale.
Não longe da entrada, cresciam árvores frutíferas; Abrasack colheu alguns frutos, achou-os excelentes de gosto, depois tirou de um pacote pão e queijo.
Ao terminar seu desjejum frugal, sentindo-me muito cansado, deitou-se sobre o musgo, colocou embaixo da cabeça uma capa e adormeceu rapidamente.
Já era bastante tarde quando acordou.
Ao se convencer de que o Tenebroso pastava tranquilamente no relvado e que o saudara alegre com o bater das asas, Abrasack retornou à caverna, deitou-se novamente e começou a reflectir.
Estava agora livre, o caminho para as aventuras e para a realização da vaidade pessoal estava desimpedido, e, até aquele momento nada indicada que os magos se tivessem lançado em seu encalço...
Mas isso poderia acontecer, e no fundo de sua alma germinou uma inquietação.
Apesar de seu cabedal de conhecimentos e da força mágica adquirida, tinha a consciência de em comparação aos grandes iniciados não passava de um pigmeu.
Os outros dispunham de poderes que poderiam fulminá-lo, estivesse ele onde estivesse; já tivera a oportunidade de ver aquelas forças em acção e ignorava como as podia governar.
Bem, que importância fazia?
Ele era um imortal!
Como o tempo passava, e nada que o ameaçasse acontecia, imaginou que, talvez, os soberbos magos simplesmente não se dignariam a perseguir, para puni-lo.
Ele sorriu maldosamente:
“Vocês pagarão caro por esta arrogância!”
Cego pela paixão insana, em sua alma nem sequer despontou um sentimento de afeição ou de gratidão para aquele que o livrara da morte, que o iluminara e o armara dos conhecimentos que ele utilizaria para prejudicá-lo; ao lembrar-se de Narayana com Urjane, o sangue afluiu-lhe à cabeça e seu rosto enrubesceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:19 pm

Com esforço da vontade, dominou o temporal interior.
Deveria agir e não sonhar, e, para alcançar rapidamente os objectivos, não podia desperdiçar o tempo precioso.
Quando o sol poente inundou de púrpura e ouro os priscos das montanhas, o seu plano já estava amadurecido, mas era preciso esperar pela noite para pô-lo em acção.
Ele estava sozinho e, para que os projectos frutificassem, ele precisava de ajudantes argutos, capazes de entender e executar suas ordens.
Mas onde consegui-los?
Entre os terráqueos trazidos, isso não era possível, e mesmos esses lhe eram inacessíveis...
Contudo, após algumas reflexões, afluiu à mente astuta e intrépida do funesto feiticeiro uma solução para o problema.
Revigorando-se com uma humilde refeição, decidiu destinar o restinho do dia minguante para examinar a localidade e, seguindo o leito do riacho, desceu ao vale, onde encontrou um grande lago, antes oculto pelos rochedos circundantes.
Perto da margem descobriu outra caverna menos espaçosa, mas que lhe pareceu mais adaptada para os planos.
Sem perda de tempo, começou a se preparar, trazendo antes os objectos de que necessitava.
Primeiramente, tirou uma toalha vermelha de mesa, com símbolos cabalísticos nela bordada, e depositou-a sobre um monte de pedras.
Em torno, dispôs três velas vermelhas, formando um triângulo; em seguida, colocou numa frigideira as ervas aromáticas e, finalmente, encheu de vinho uma taça de cristal.
Na entrada da gruta, pendurou um sino metálico, reverberando todas as cores do arco-íris, e ao badalo amarrou uma corda.
Tudo terminado, começou a esperar a hora certa, consultando um pequeno relógio que trazia dependurado numa corrente de ouro – um presente de Narayana.
Com a aproximação da meia-noite, tirou da caixinha o frasco com a substância primeva e colocou algumas gotas na taça. O vinho inflamou-se.
Ao tampar a taça, o conteúdo tomou forma de fogo líquido.
Abrasack despiu-se, pendurou no pescoço uma estrela vermelha esmaltada e um talismã em forma de insígnia de peito, e, sobre a pedra ao seu lado, pôs aberto o livro de encantamentos.
Erguendo sobre a cabeça o bastão de sete nós, começou a rodopiar até que na ponta do bastão aparecesse uma chama vermelha, com a qual acendeu as velas.
Então, Abrasack reverenciou os quatro pontos cardeais e entoou cadenciadamente um canto, badalando em intervalos certos o sino.
Logo o céu cobriu-se de nuvens escuras e desencadeou-se forte tempestade; trovões rolavam, relâmpagos cintilantes rasgavam o céu, a água no lago parecia ferver e, em suas ondas arrepiadas, quebrando-se com estrondo nos rochedos, dançavam chamas errantes.
Mas a voz estentórea de Abrasack encobria os elementos enfurecidos; ele continuou a tocar o sino, pronunciando as fórmulas, e no céu escuro desenhavam-se agora símbolos geométricos e cabalísticos.
Subitamente, surgiu uma luz esverdeada e em seu fundo delinearam-se quatro figuras estranhas.
Uma era vermelha – feito metal incandescido, com enormes asas ígneas; a segunda – cinzenta, com asas ondulantes, contornos indefinidos e com estrela azul-clara; a terceira – esverdeada, de matiz escuro, agitava-se feito mar e em sua cabeça havia uma coroa que lembrava crista de onda; por fim, a quarta – atarracada, pretejada, como que variegada de veias rubras, portava na cabeça uma faixa, incrustada de rubis, esmeraldas e ametistas e, no centro da faixa, parecia arder uma chama brilhante.
Ao chamado do poderoso feiticeiro vieram os quatro génios dos elementos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:19 pm

- O que Você quer filho da Terra?
Os terríveis encantamentos pronunciados são sinais do seu poder – pronunciou uma voz gutural, como se vinda de longe.
- Você pede que os exércitos dos espíritos elementais se juntem a Você, submetam e sirvam-lhe?
Assim o será, pois é grande o seu poder – manifestou-se outra voz, a pedido de Abrasack.
As mãos de quatro génios uniram-se às mãos de Abrasack; em seguida, surgiram multidões nevoentas de espíritos elementais, e ante o bastão mágico juraram fidelidade e obediência a seu novo senhor.
Em meio a estrondos surdos, os génios retiraram-se, e as nuvens túrbidas dos espíritos cercaram Abrasack, esperando por suas ordens.
- Retirem-se, espíritos da terra, do fogo e da água; e Vocês, espíritos do ar, ouçam as minhas ordens.
Ele leu uma lista comprida de nomes e acrescentou:
Vão e procurem os espíritos por mim nomeados e tragam-nos para cá!
Como se fossem varridos pelo vento, os espíritos do ar sumiram; Abrasack sentou-se na pedra e enxugou o suor que lhe escorria do rosto. Uma angústia indefinida comprimiu- lhe o coração.
Aqueles, que ele chamara, eram seus amigos, ajudantes e companheiros de armas e intrigas nas aventuras passadas, que lutaram pelo seu trono.
Teria tudo terminado em forca, se ele não fosse salvo por Narayana.
Eram colaboradores activos, enérgicos, astutos e corajosos; justamente os que precisava naquele momento para ajudá-lo a fundar um novo reino e, entre outras coisas, a auxiliá-lo no perigoso empreendimento.
Será que eles virão?
Com base em provas científicas, sabia que uma parte deles já estava desencarnada, porém a evocação parecia não estar dando certo, por motivo desconhecido.
Retomando as intimações, ele olhou para o lago, e, subitamente, ouviu-se um barulho indefinido, que se foi avolumando em estrondos surdos.
A água parecia bulir, e pelas ondas vinham aproximando-se, aos pulos, chamas multicolores.
Abrasack retesou-se e, estremecendo, ergueu as mãos, desenhando no ar sinais cabalísticos a incendiarem-se em flamas fosfóricas.
Adejando, já ao seu lado, as flamas ficaram toscas e tomaram aspectos humanos; olhos brilhantes pregaram-se em Abrasack.
- Meus velhos amigos e companheiros!
Convoquei-os para fazer uma proposta.
Gostariam de encarnar-se em corpos humanos sólidos e gozar dos prazeres da vida, em vez de errar pelo espaço?
Concordam, como retribuição em ajudar-me a conquistar e escravizar as hordas selvagens que povoam esta terra, e, se necessário, em lutar comigo?
- Dê-nos ávida com seus prazeres, e nós o ajudaremos a tornar-se o rei mais poderoso deste planeta – responderam avidamente as vozes em coro.
- Obrigado, amigos, assim será a vontade de Vocês!
Mas, por que não vieram todos que chamei? – Indagou rispidamente Abrasack a seus servos fantasmagóricos.
- Senhor! Alguns espíritos, que não vieram, actualmente vivem na Terra morta e lá ficaram; outros estão entre os terráqueos trazidos pelos magos, mas somos proibidos
De entrar lá – ouviam-se sons estranhos, fracos e desconexos.
Um olhar de ódio furioso escorregou pelo rosto de Abrasack, mas ele se conteve.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:19 pm

Aproximando-se de uma frigideira, ele pôs alguns pedaços de carvão que instantaneamente incandesceram-se, e jogou sobre eles o conteúdo da taça.
Imediatamente subiu uma fumaça densa vermelho-sanguínea, e um cheiro entorpecente bafejou todos.
Da mesma forma que a luz atrais os insectos, a multidão de sombras lançou-se sobre a fumaça e, por uns instantes, ficou por ela encoberta.
Quando a fumaça se dissipou, junto à trípode bruxuleante, havia cerca de vinte pessoas.
Seus corpos densos pareciam como normais vivos; eles aproximaram-se céleres de Abrasack.
- Agora, cada um, dê um gole desta taça.
A bebida divina lhes proporcionará um vigor pleno e uma existência longa.
Todos bebericaram avidamente, vindo a cair, como se de tontura.
A fraqueza, porém, foi passageira; quando todos se levantaram, eram seres humanos totalmente vivos, cheios de energia, força e coragem.
Estendendo as mãos, eles agradeceram por aquela dádiva valiosa.
Abrasack saudou-os jovialmente; um deles, inclusive, foi distinguido com um longo abraço.
- Estamos juntos de novo amigos, para trabalhar e derrotar o destino. Poderia Você prever Jan Igomer, que nós nos encontraríamos num outro mundo, depois que Você foi morto, ao meu lado, pelos rebeldes?
- Onde Você é rei e nosso irmão, tornou-se um deus que prodigaliza as vidas, e nem sequer mudou por causa disso.
Você permaneceu como era, enquanto que passei por muitas vidas, desde então – observou alegre o que ora denominado por Jan Igomer.
- Se nada mudei externamente, agora tenho outro nome.
Chamo-me Abrasack, e sou um rebelde fugitivo que escapou da cidade-prisão, povoada por um bando de tiranos.
Aliás, antes de iniciar algo, amigos do espaço, vou contar-lhes as curiosa aventuras que me trouxeram para cá.
- Agradeço a confiança, mas para culminar sua generosidade, dê-nos algo para comer.
Estou morrendo de fome e acho que meus irmãos sentem o mesmo – observou um dos seres, alto e gordo, rosto volumoso, e que, pelo visto, era dono de força hercúlea.
Uma gargalhada geral cobriu-lhe a fala.
Depois que esta amainou, Abrasack disse:
- O apetite de Randolfo continua o mesmo; por ora, só poderei oferecer um jantar frugal.
É do que disponho.
Vamos à minha casa temporária e levemos todos os objectos que estão aqui; lá em cima, encomendarei o que houver de mais substancioso.
Parando perto da entrada da caverna, Abrasack pediu que os amigos aguardassem, entrou na caverna e pronunciou os devidos encantamentos, para que os servis invisíveis trouxessem um jantar o mais nutritivo possível.
Algum tempo depois, ouviu-se um barulho semelhante ao farfalhar de folhas secas pisoteadas, no ar rodopiaram esferas ígneas e fumarentas, surgindo então uma massa cinzenta, cercada de seres enevoentos indefinidos, e tudo, subitamente, se dissipou.
Todos deslumbraram, no chão, uma espécie de toalha de mesa, urdida de folhas, e nesta repousavam cumbucas, caixas e canecas de madeira, de palha e de casca de árvores – tudo era rudimentar e de acabamento grosseiro.
Dentro dos recipientes havia diversas frutas, alguns peixes crus, mel com favas, leite, suco de frutas, levemente fermentado e, por fim, - do mais substancioso – apresentava-se uma cabra viva, fortemente amarrada para não se mexer.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:19 pm

- Prontos amigos!
Por enquanto, contentemo-nos com esta modesta refeição, pois por aqui ainda não existem restaurantes capazes de oferecer aos meus espíritos algo melhor; não podemos contar com a cidade dos tiranos, onde há mais fartura de iguarias e louças – queixou-se Abrasack, fazendo uma careta e fixando na parede uma esfera, que ele providenciara antes de sair da caverna, e que iluminou tudo com luz brilhante.
Agora já se podia divisar que os partidários de Abrasack, invocados do espaço com a força de essência primeva, eram homens belos e vigorosos, rostos inteligentes e olhar intrépido.
Abrasack havia feito uma boa escolha, e com aquela ajudante muita coisa já podia ser empreendida.
O que se chamava Randolfo examinou as provisões, achou-as aceitáveis e adiantou quem ainda que o peixe e a caba se destinassem à refeição, ele tinha nojo de comê-los crus e vivos; assim, ele se dispunha a preparar um prato raro, desde que o seu senhor providenciasse fogo.
Abrasack acendeu alguns galhos resinosos, e permitiu que o amigo ficasse à vontade para fazer o que quisesse; Randolfo e mais alguns de seus companheiros saíram da caverna.
Uma hora mais tarde, os amigos sentaram-se em torno do prato quente e fumegante, somente Abrasack e Jan declinaram do convite para jantar.
Findo o repasto, Abrasack sugeriu aos companheiros que fossem dormir, pois sem o sono – dádiva divina, da qual se privaram por muito tempo – nenhum ser humano terreno é capaz de levar uma vida normal.
A sugestão foi aceite de pronto, e logo uma roncaria geral anunciava que os adventícios do mundo astral gozavam da primeira graça de sua nova existência.
No dia seguinte diante da caverna isolada e perdida nas montanhas, uma reunião incomum estava em curso.
Cercando Abrasack, seus partidários ouviam atentamente sua exposição dos planos de guerra contra os magos e o cerco da cidade divina.
O enorme continente contava com espaço suficiente para abrigar muitas nações, mas para realizar com sucesso um empreendimento ousado de tal envergadura, seria necessário um numeroso exército armado; os povos, para tanto, deveriam ser escravizados, cidades e vilas teriam de ser formadas – e tudo exigia tempo e trabalho.
- Conhece, por aqui, alguma tribo selvagem que possamos subjugar!
Tudo parece tão desértico e inabitável!
Talvez precisem, para acompanhá-lo nas expedições de um meio de transporte como o seu Tenebroso.
Andar a pé, por estes matos virgens é impossível! – Observou um dos presentes.
- Você tem toda razão!
Espero receber no fim da tarde alguns cavalos voadores.
Ordenei ao Tenebroso que me trouxesse seus co-irmãos, e ele como vê, já foi buscá-los.
- Como é que Você consegue se comunicar com Tenebroso?
Ele é tão esperto, que consegue entender a fala humana? – Interessou-se Jan.
- Pelo contrário.
Sou eu que converso na língua dele – riu Abrasack, e ajuntou, ao perceber a surpresa dos companheiros:
- Nas ciências ocultas existe uma língua-mãe, cujo ritmo musical é adaptado à comunicação fónica de diferentes espécies de animais, desde um insecto até um animal próximo ao homem pelo seu desenvolvimento físico e mental.
Jamais um adepto alcança o grau superior da iniciação caso não venha a dominar a arte de ser compreendido por um animal; senão, como irá domá-lo, fazê-lo obedecer em de certa forma, treiná-lo?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:19 pm

Todo o segredo se baseia na ritmicidade sonora.
Algumas reminiscências dessa maravilhosa e útil ciência se preservaram na Terra defunta entre os feiticeiros das aldeias, ciganos, e assim por diante, que conseguiam se comunicar com cavalos, encantar e baldear gatos, ratos, lobos; da mesma forma, os hindus sabiam conversar com serpentes.
Vocês, decerto, já ouviram falar de coisas parecidas nos tempos de outrora; esses casos, porém, eram raros e isolados.
Estudei esta arte sistematicamente.
O bom Narayana disseminava-me exaustivamente esses conhecimentos, impressionado com meus êxitos e aplicação.
Se ele soubesse a que consequências levaria essas ilustrações, teria ficado menos impressionado – e Abrasack desfechou uma sonora gargalhada, sendo acompanhado por outras.
- Sei que por aqui existe um povo, se é que pode ser assim chamado -, muito numeroso e beirando o estado animal.
Estou pensando em utilizá-lo, não apenas como força de trabalho, mas também na qualidade de guerreiros.
- Você sabe como achá-lo, pois o continente, segundo Você diz é enorme! – Tornou a perguntar Jan.
- Sem dúvida! Tenho aqui um mapa do planeta...
Por que essa surpresa?
OU Vocês acham que os magos vieram para cá com seus pintainhos, ignorando por completo o mundo que iam encontrar?
Oh, não! Os preparativos para a transferência duraram muitos séculos.
Os enviados ao mundo novo estudaram os três reinos, para que os futuros migrantes aqui encontrassem tudo pronto.
Todos os adeptos e discípulos tinham por atribuição o preparo de mapa detalhados do continente, assim como de esboços e amostras de fauna, flora e minerais, ou seja; eles precisavam ter noção de todas as riquezas do planeta.
Na medida do possível, aproveitei a documentação existente e até consegui copiar os mapas mais importantes.
Dessa forma, tenho certos recursos, ainda que, infelizmente, nos meus conhecimentos haja lacunas, visto que alguns magos me trataram com desconfiança, criando certos obstáculos.
- Talvez eles tenham pressagiado o risco que corriam em relação à sua pessoa; não obstante, agiram impensadamente ao lhe permitirem a aquisição dessa soma de saber – considerou em tom de mofa Jam,
- Felizmente Narayana não compartilhava daquelas desconfianças, e, graças à sua negligência, consegui os objectos mágicos mais indispensáveis - concluiu no mesmo tom Abrasack.
Após discutirem os detalhes dos trabalhos a serem realizados, Abrasack levantou a taça de córtex, e pronunciou solenemente:
- Ao sucesso do nosso empreendimento!
À semelhança dos antigos conquistadores da Terra-mãe morta, vamos conquistar este mundo novo, para nele fundar grandes reinos.
Com o nosso sangue alcançaremos a vitória e o poder; e da cor do sangue será a nossa bandeira; o fogo será o rastro de nossa marcha.
- Juramos fidelidade à bandeira rubra e a Você, Abrasack, no benfeitor, líder e comandante! – Pronunciaram solenes e sérios, seus companheiros.
A partir daquele dia, iniciaram os preparativos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:20 pm

O estado-maior de Abrasack pôs-se a aprender, diligentemente a língua dos dragões alados para assegurar um controle perfeito sobre aqueles animais, cuja lembrança se preservou em lendas populares e contos de fadas, sempre contendo fundamentos verídicos.
Assim que Tenebroso providenciou uma revoada de magníficos dragões, selvagens e desconfiados, Abrasack acercou-se, impávido de um deles, distribuiu afagos, conversou com ele, e o animal acalmou-se.
Isto influenciou o resto dos dragões, e todo o bando pôs-se a pastar tranquilamente no vale.
Quando os aventureiros se adaptaram definitivamente a seus cavalos alados e os domesticaram, decidiram partir numa expedição, deixando a caverna tronada sede, onde ficou uma parte de objectos, trazidos da cidade dos magos.
Ao deixarem para traz a região montanhosa, os cavaleiros espaciais orientaram o seu voo em direcção aos vales, onde, por milhares e milhares de quilómetros, se estendiam impenetráveis florestas virgens.
Lá habitavam um povo que Abrasack planeava subjugar e ao adentrarem, os cavaleiros espaciais desmontaram.
Abrasack ordenou aos companheiros esperarem por ele, e embrenhou-se resoluto na mata secular.
Andada certa distância, ele parou numa clareira e aproximou dos lábios a pequena flauta mágica, começando a tocar.
A melodia era estranha; os sons jorravam ora sonoros, vivos e penetrantes, como se chamando, ora lentos e lamentosos, como um choro contido.
Decorrido um tempo bastante longo, a floresta pareceu reviver; ouviu-se, no início, um longínquo barulho, rapidamente se avolumando, árvores quebravam-se pisoteadas pela multidão, em meio ao estremecimento da terra e a um vozerio gutural, lembrando urros de animais.
Da mata apontaram seres repelentes e medonhos.
Eram gigantes cabeçudos e de traços animalescos; os corpos avultados cobriam-se de pelugem vermelho-parda; os braços enormes e musculosos eram equipados de garras curvilíneas.
Apoiavam-se ou carregavam nos ombros porretes nodosos e compridos.
Pararam imóveis, pregando em Abrasack seus olhos pequenos, afundados e ávidos.
Este parou de tocar, e emitiu alguns sons estranhos e desconexos, que pareciam ser compreensíveis à multidão, pois está se aconchegou, fazendo sons semelhantes, e examinando curioso o forasteiro em vestes brancas.
Aos poucos eles foram entendendo-se.
Alguns dos gigantes correram de volta para a mata; outros permaneceram ouvindo atentamente Abrasack, por vezes respondendo com seus sons guturais.
Os que haviam partido, agora retornavam, um carregava nos ombros uma criatura que lhes assemelhava, contudo, bem mais robusta, de fisionomia também medonha, ainda que aparentando mais inteligência.
Este estabeleceu uma conversa com Abrasack, e a julgar pelas reacções do aborígene, parecia que as palavras do interlocutor lhe agradavam, pois, de tempos em tempos, ele soltava uns grunhidos de satisfação, descobrindo dentes enormes e afiados, e sacudindo um porrete, que facilmente derrubaria um elefante.
Ao fim do entendimento, Abrasack tirou de um saquinho dependurado na cintura uma corrente metálica, brilhando como ouro, levando uma espécie de medalhão com pingentes, que tilintavam ao menor movimento, e ofereceu-a ao chefe da tribo, seu futuro aliado.
Transbordando de alegria, o aborígene soltou um grunhido alto, arrancou o colar que lhe enfeitava o colo, e acomodou o brinde; depois, estalando a língua, pôs-se a pular pelo relvado, sob os urros dos vassalos embasbacados de fascínio.
Quando a explosão de alegria decresceu, as conversações continuaram.
O terrífico senhor do povo dos gigantes parecia transmitir aos seus subordinados, que as recebia aos grunhidos e assobios variados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:20 pm

Ficaram todos satisfeitos, pelo visto, a julgar pelo facto de que alguns gigantes foram acompanhando o visitante, saindo da floresta; ninguém tocou nele, nem seus companheiros, que, misto de medo e nojo na alma, saudaram jovialmente os monstros gigantes, conforme as instruções de Abrasack.
Montando céleres os cavalos alados, eles alçaram voo, provocando nos selvagens um pavor supersticioso.
Ao retornar à gruta, Abrasack relatou aos outros os termos do acordo conseguido com os aborígenes, que lhes permitiria o direito de escolher uma área, dentro dos domínios dos selvagens, em troca da assistência na construção de uma cidade e moradias para os gigantes, que Abrasack chamava pejorativamente de “macacos.
No dia seguinte, Abrasack com os amigos dirigiram-se, em companhia de alguns gigantes, para a floresta; examinaram-na e escolheram o local para a futura cidade.
Uma parte de amplas terras florestais era montanhosa, e lá, num platô, Abrasack decidiu construir justamente o centro urbano.
Cumprindo as ordens do líder da tribo, os gigantes iniciaram o trabalho, arrancando com as mãos colossais as árvores seculares da floresta virgem, com raiz e tudo; e, aos poucos, a área ficou limpa, e mais tarde nivelada.
Abrasack mudou-se, então, para a floresta, junto com os companheiros, que já conseguiam explicar-se aos gigantes.
Aproveitando os troncos das árvores arrancadas, os aborígenes montaram as casas, bem rudimentares, aliás, ainda que lhes parecessem magníficas.
Em seguida, a cidade foi cercada por um muro ciclópico de enormes blocos de rocha; foram cavados poços e construídos depósitos de comida.
O entendimento com os operários era total, graças às providências de Abrasack de servi-lhes uma bebida forte, produzida a partir de frutas – abundantes na região – e que todos apreciavam.
Outras tribos, imitando habilmente os gigantes colonizados, fundaram também vilarejos em diversas partes da região.
Dessa forma, a numerosa população de “macacos” – como os chamava Abrasack – crescia a olhos vistos, potencializado com o emprego de expedientes mágicos.
Assim, por exemplo, ele surgia do nada entre os operários, expedia ordens e, da mesma forma, desaparecia de repente; às vezes, sua casa era vista em chamas inextinguíveis; no entanto, o fogo nada parecia queimar.
Paralelamente, ele curava chagas, ferimentos e diversas doenças.
Porém, o acontecimento que marcou profundamente os selvagens foi o seguinte.
Durante os trabalhos de erguimento dos muros da cidade, um dos gigantes revelou-se certa indolência e até insubordinação.
Abrasack aplicou-lhe uma severa reprimenda, ameaçando-o com o bastão empunhado; o monstro, entretanto, irritou-se, e sacudindo os punhos cerrados, fortes como bigorna, lançou-se sobre Abrasack.
Ainda que Abrasack parecesse com um bebé, comparado com o gigante selvagem, não se intimidou; cravando um olhar ígneo e firme nos olhos injectados do monstro, ele ergueu, num átimo, o bastão mágico.
Como que atingido por um raio, o selvagem petrificou-se naquela mesma pose em que intentava saltar, com as mãos levantadas, e apenas um enrugamento convulsionado em seu rosto apontava que ele ainda estava vivo e sentia a força que o pregava a terra.
Seus companheiros presentes ficaram atónitos; Abrasack despachou-os dali, deixando sozinho o infractor, impossibilitado de se locomover.
Só no dia seguinte, ele libertou o gigante, então totalmente domado; este rastejou aos pés de Abrasack, e lambeu-os.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 18, 2016 7:20 pm

O grande feiticeiro dignou-se a indultá-lo, não sem antes anunciar em tom severo, que se alguém mais ousasse, a partir daquele dia, insubordinar-se e levantar a mão contra ele ou contra qualquer um de seus amigos, seria punido da mesma forma e ficaria paralisado até morrer de fome.
O burburinho sobre o acontecimento espalhou-se por todas as tribos, provocando medo e deferência por aqueles seres insólitos que podiam dispor da vida e da morte e, se o desejassem voar e desaparecer nas alturas.
Aos pés do planalto sobre o qual se erguia a cidade, corria, em leito rochoso, um largo rio caudaloso.
Ali, de um enorme tronco de árvore, foi esculpido o primeiro barco e, dos troncos amarrados um a outro, foi montada a primeira jangada.
Seria impossível descrever a alegria dos gigantes, iniciados na utilização daquelas duas embarcações; navegando rio acima e abaixo, eles transportavam pela jangada frutas, nozes e aves, suprindo os armazéns da cidade.
Os selvagens foram habituando-se ao trabalho, e Abrasack convenceu-se de que até para os homens primitivos a necessidade de trabalhar era inata, pois os saciava e desenvolvia suas habilidades.
Sem perder de vista o seu principal objectivo, Abrasack começou a recrutar um exército para sitiar a cidade dos magos, em seus companheiros ele tinha ajudantes leais e activos.
Lento, mas ininterrupto, seguia-se o aprendizado dos selvagens no fabrico de flechas, arcos, maças, machados rudimentares de sílica, e outras armas.
Foram organizados diversos destacamentos e, ainda que o armamento e o ensino militar dos soldados-colossos não tivessem alcançado a perfeição, os espíritos estavam em alta, e os embates sanguíneos, que se promoviam com frequência, testemunhavam que o ardor combativo fora desenvolvido plenamente.
À semelhança de um seixo atirado na água, que vai propagando círculos que se distanciam do local de sua queda, assim o movimento de iluminação, promovido por Abrasack, foi envolvendo as tribos afastadas das florestas infindáveis.
Por todas as regiões, árvores desenraizavam e construíam-se casas rudimentares, com telhados chatos, tão a gosto dos aborígenes.
Tudo parecia correr bem; Abrasack, entretanto, ainda não estava satisfeito e, não raro, o seu semblante turvava-se, os punhos cerravam-se furiosamente.
Atormentava-o a lembrança de Urjane, e os ciúmes o devoravam.
A intenção de raptá-la e torná-la sua esposa permanecia inabalável, perturbando-o de dia e perseguindo-o à noite; era dominado de fúria, sua cabeça altiva pendia desolada quando ele relanceava o olhar em volta.
Onde instalaria ele a filha do mago, habituado ao luxo refinado e às obras artísticas, em todos os seus aspectos?
Nesta hora, ela estaria habitando o palácio encantando de Narayana, esculpido em forma de safira.
Lá, tudo eram arte, beleza e harmonia, desde os magníficos jardins repletos de aves raras, flores, alegria, chafarizes, até os pequenos penduricalhos que adornavam os quartos.
Com a vontade férrea inata, sacudia de sai fraqueza e o desespero momentâneos, decidindo que Urjane teria de contentar com aquilo que temporariamente podia oferecer-lhe; depois, quando a cidade dos magos fosse conquistada, ele depositaria aos pés da mulher adorada todos os seus tesouros.
Não obstante essa decisão tentava de todas as maneiras ultimar para a sua futura prisioneira uma moradia mais bonita e confortável possível.
Depois de pesquisar muito, veio a descobrir uma jazida de diversos minerais preciosos, e seus musculosos servos extraíram um volume enorme de material; mas tão logo ele concluiu o projecto do palácio e pensou em aproveitar aquele tesouro, ficou possesso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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- Às vezes acho que vou enlouquecer.
Daria tudo para partir em pedacinhos um daqueles magos malditos ou explodir essa porcaria de planeta.
Onde não se acha nada além de monstros, astral vazio e ninho de tiranos egoístas – desabafou fora de si.
- Não o entendo – surpreendeu-se Jan, atirando para longe um bocado de barro, no qual pretendia moldar um vaso.
Além de seus feiosos súbditos, temos por aqui uma bela colónia de terráqueos, sem dizer que nós mesmos, tomando as graciosas magas por Você prometidas, geraremos uma casta de guerreiros, reis e sacerdotes.
E como pode estar vazio o astral dessa terra?
Saí dele, e assevero-lhe que está povoado e integro.
- Ah! Você não entende nada! – Retrucou Abrasack aborrecido.
Digo “astral vazio”, porque nele não está impressionado nenhum cliché que eu possa utilizar, já que sei de um método mágico para evocar e densificar os clichés astrais.
Por que essa surpresa?
O que é então uma alucinação, miragem, etc.?
Isso é invocação e materialização inconsciente de um cliché astral, ainda que seja uma invocação parcial e fortuita de um ignorante; a essência do fenómeno continua igual, mesmo sendo gerado pela força mágica e consciente de um sábio.
Se nós estivéssemos na nossa velha Terra, eu poderia se optado facilmente pelo cliché astral de um palácio, mesmo o de Semíramis; poderia evocá-lo, densificar e torná-lo um prédio real, por certo tempo ou para sempre.
Assim, o prédio já estaria pronto e eu só teria de mobiliá-lo da mesma forma.
Neste mundo maldito, recém-parido, inexiste sequer uma obra arquitectónica; os clichés de choças ou de árvores ocas povoadas por “macacos” eu não quero.
Tampouco há algum tesouro escondido, que poderia ser aproveitado para a confecção de jóias.
Quanto às graciosas magas, precisamos primeiro pegá-las...
Isto será feito, prometo! _ Animou-se ele de repente, sacudindo o punho cerrado.
E como todas elas são metidas a artistas, teremos guarda-roupas e utensílios decentes.
Jan desatou a rir, prazenteiro.
- Faço votos de que esses tempos felizes logo cheguem, e o destino me reserve de esposa, uma bela loira de tez alva e olhos safira.
Este é o meu ideal de beleza feminina.
Abrasack explodiu numa sonora gargalhada de escárnio.
- Imagino só o rebuliço que se formará, quando eu as unir com os cavaleiros de seu feitio, anfíbios de dois mundos, que em nada se assemelham aos senhores adocicados da cidade divina, recheados de virtudes e ideais...
Mas tudo isso é para depois, agora precisamos continuar o trabalho para assegurar às nossas damas o devido conforto.
E, de facto, o trabalho continuou.
O palácio erguido por Abrasack, ainda que executado em pedras preciosas parecia pesado, nada gracioso, de colunas tetraédricas, telhado plano e grotesco.
As louças fabricadas de ouro e prata – utensílios de primeira necessidade – também não primavam por acabamento artístico.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 5: OS LEGISLADORES / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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