Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:13 pm

A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO
Wera Ivanovna Krijanovskaia

CONDE J. W. ROCHESTER

ÍNDICE
Introdução


1 — O Convite
2 — O Barão
3 — Valéria e a Viagem
4 — O Castelo
5 — A Compra
6 — A Descoberta
7 — A Família de Montinhoso
8 — A Volta ao Passado
9 — A Esposa
10 — A Herança
11 — O Passado vem à Tona
12 — O Manuscrito
13 — O Resgate com o Passado
14 — A Iniciação na Índia
15 — A Volta ao Lar
16 — A Reconciliação

INTRODUÇÃO

A publicação de cada livro de Rochester representa, via de regra, um sucesso editorial.
Autor eminentemente popular, este Conde John Wilmot de Rochester, é um dos poucos autores espíritas que viram seus livros difundidos pelo teatro e radiofonizados.
Lançados por editoras diversas, A vingança do judeu, A Abadia dos Beneditinos, O chanceler de ferro, O faraó Mernephtah, O sinal da vitória, são livros facilmente encontráveis nas estantes espíritas e não espíritas.
Apesar disso, desse êxito junto à massa anónima, Rochester tem sido um autor discutido e atacado.
No seu famoso Tratado de Metapsíquica, o ilustre e respeitabilíssimo Charles Richet não hesitou em tratá-lo acidamente pelo entrecho de sua novela O faraó Mernephtah.
Comentando-o recentemente, um outro crítico teve estas palavras textuais:
E o autor (Rochester) às vezes dá tiros antes da invenção da pólvora.
O facto é que tais alegações, com certeza, se levantarão agora que aparece, pela primeira vez em língua portuguesa, A Lenda do Castelo de Montinhoso.
É que, mais do que em qualquer outra obra do autor, neste livro nos surgem, meridianas, as características primordiais do escritor.
Certa crítica nunca perdoou, neste autor espírita a sua ardente imaginação.
Fertilíssimo como que dotado de asas, Rochester nunca pode respeitar os horizontes, nunca pode conter-se junto aos limites do concebível.
Aliás, a sua própria escola literária impõe a que se porte assim.
Como escritor Rochester é gritantemente gótico, um autêntico herdeiro do talento de Horácio Walpole e Mme. Anne Ward Radcliff. Justificamo-nos:
A renovação do ambiente literário nos últimos trinta anos do século XVIII, manifestou-se suficientemente clara para que se lhe dê o nome de pré-romântica.
Sua característica mais importante é o despertar da fantasia que, unida à nostalgia do passado, zona aberta às evasões do espírito inquieto, susceptível de transformar-se em mundo ideal, determina o movimento de retorno à Idade Média, novamente descoberta com uma ânsia comovedora.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Trata-se, porém, de um descobrimento preconcebido, subjectivo, para satisfazer uma necessidade sentimental, sem nenhum rigor científico.
A Idade Média que vislumbram as gentes do século XVIII é uma época privilegiada e benéfica, com o predomínio do pitoresco, do patético, de tudo quanto o racionalismo e o classicismo trataram de afugentar do espírito humano.
Até o final do século, a novela se enriquece com novas tendências.
Enquanto o escocês Henry Mackenzie (1745-1831) continuava a direcção marcada por Richardson e Sterna, o aristocrático Walpole, amigo de Mme.du Deffand, autor do volumoso epistolário que oferece o quadro mais completo da vida inglesa na metade do século XVIII, reage contra o sentimentalismo que desprezava por burguês, publicando The Castle of Otranto, uma obscura história desenrolada na Itália do século XI, durante a Idade Média feudal.
O prefácio traçou a teoria de um novo tipo narrativo a base de horrores e de mistérios, capaz de suscitar emoções à alma com a acção transposta a épocas distantes para, assim justificar o uso dos elementos sobrenaturais; tipo este ao qual o próprio Walpode denominou NOVELA GÓTICA.
O género teve grande fortuna:
cultivou-o de pronto Clara Reeve (1729-1807) ainda:
que atenuando as audácias (The old english baron).
Deu-lhe sua precisa feição literária a célebre Mrs. Anne Ward Radcliff, perseguindo fins artísticos e mostrando-se mestra no emprego do sensacional.
Poucos serão hoje os leitores de The Sicilian, The romance of the forest, The misters of Udolpho, The Italian.
Radcliff exerceu vivo influxo sobre a literatura sucessiva e suscitou émulos como Mathew Gregory Lewis com o seu Ambrosio, the Monk.
Mantendo-se viva através dos anos, a NOVELA GÓTICA veio, segundo o parecer de algumas opiniões abalizadas da crítica, inaugurar, na pena do genial escritor americano Edgard Allan Poe, a literatura policial que é, indiscutivelmente o género literário do nosso tempo.
Vê-se, pois, que criticado pelo método comparativo, à luz de um exame frio e objectivo, Rochester se justifica.
Curioso é que, na encarnação humana de John Wilmot, Rochester não deixa suspeitar jamais as suas futuras tendências.
Parece que escolhendo esse seu velho nome, o espírito se penitencia de pretéritos erros pois que este John Wilmot, Conde de Rochester, poeta inglês satírico e célebre por seu espírito e sua vida desordenada.
Nascido em Ditchley, condado de Oxford, em 1647, morreu em 1680, Depois de ter feito brilhantes estudos na Universidade de Oxford, na qual fez-se conhecido como original vate, viajou pela França e a Itália.
De volta à alegre Inglaterra, Rochester, que tinha, então, dezoito anos, foi apresentado à corte.
Belo, espiritual, ardente, dotado do supremo requinte da arte de agradar e de cativar, o jovem cavalheiro brilhou singularmente na corte de Carlos II, a mais corrompida, a mais voluptuosa das cortes da época, Seu gosto natural pelos prazeres, se desenvolveu nesse centro de plena libertinagem.
Não obstante, ao fim e certo tempo, Rochester renunciava a essa sedutora existência para embarcar na frota comandada pelo Conde de Sandwich, tomando parte em duas expedições e dando provas de rara intrepidez.
De volta a Inglaterra, retoma seus hábitos desordenados, segundo suas próprias confissões, embebedou-se todos os dias.
Nesse estado de inconsciência permanente fugiu a todas as regras de conduta, abusando de inacreditáveis liberdades de linguagem e não hesitando em crivar com suas farpas satíricas os homens do poder, os ministros do rei e o próprio Carlos II que o fez expulsar da corte.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Aos trinta anos Rochester tinha a saúde completamente comprometida.
Perdera igualmente, suas qualidades de bravura e coragem de que havia dado incontestáveis provas.
Provocado para um duelo por Lord Mulgrave, que insultara, fugiu ao encontro.
Essa conduta julgada inqualificável aos ditames de honra do tempo, acabou de arruinar sua reputação.
Algum tempo antes de morrer fez vir para junto de si o bispo de Salsbury, ao qual manifestou seu arrependimento pelos seus erros, recomendando-lhe que destruísse os seus escritos licenciosos.
As obras poéticas de Rochester tiveram inúmeras reedições (1681-1756-1821) compondo-se de sátiras, canções, peças licenciosas e de um pequeno poema intitulado NADA.
As sátiras são, porém. o que fez de melhor.
Nelas encontram-se verve, mordacidade e graça, as mais das vezes porém, expressos com um máximo de licenciosidade.
Deixou ainda encantadoras cartas que dirigiu à esposa, e onde se encontrarão, com certeza, as origens da fase romântica que iniciou depois de espírito desencarnado.
Sem dúvida, Rochester tem sido um grande recurso na divulgação do Espiritismo. Inúmeras pessoas tiveram seu primeiro contacto com a Terceira Revelação através de suas páginas atraentes e vivas.
Na técnica do suspense, que é, quanto ao estilo o lugar até de directores de cinema como Hitchcock, por exemplo, Rochester é quase um pioneiro.
No dia em que se estudarem as tendências do romance, na literatura espírita, o crítico se espantará, com certeza, com a riqueza de material que terá debaixo dos olhos:
Primorosos romances de costumes como Há dois mil anos ou Paulo e Estevão; análises psicológicas como O rosário de coral ou Do Calvário ao Infinito; pesquisas metafísicas como em O céu em nossas almas; poema em prosa em Não haja tristeza nos adeuses e Os que não são convidados, etc. etc., aparecendo A lenda do Castelo de Montinhoso como o representante do romance gótico inglês.
Curiosa e hábil é, neste livro, a maneira pela qual o autor, recuando no tempo através das reencarnações, permite que a lenda se imiscua na sua narrativa ao alcançar o obscuro e remoto passado na Índia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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1 - O CONVITE

Um escuro dia de Abril estendia-se por sobre a formosa Vila Pawlosk, nos arredores de São Petersburgo, Rússia.
Durante dois dias consecutivos tinham caído fortes aguaceiros alternados de neve. As ruas estavam quase que intransitáveis.
A bruma cinzenta tudo envolvia, e, sob o vento glacial, curvavam-se as árvores desfolhadas.
Na plataforma da pequena estação da Vila, juntavam-se pessoas tiritantes de frio, aguardando a passagem do trem de S. Petersburgo.
Quando o comboio parou, de um dos compartimentos de primeira classe desceu, elegante, homem de cerca de vinte e oito anos de idade.
Era um desses personagens cuja aparição nunca passa despercebida.
Figura alta, esbelta, rosto fino, um tanto pálido, cabelos negros como o azeviche.
Perfeito tipo de italiano.
Seus traços regulares e clássicos, tinha expressão um tanto dura e arrogante.
O olhar frio daqueles olhos profundamente negros, jamais denunciariam o que ia no seu íntimo.
Vagarosamente, ele encaminhou-se para a saída da galé.
Parecia procurar alguém.
Então destacou-se da massa de viajantes um jovem louro que, apressadamente se dirigiu a ele, estendendo a mão.
— Aqui estás, hein Pawel?
Foste muito amável em vir.
Eu estava imaginando que em virtude do mau tempo cancelasse a viagem.
— Não, não sou tão melindroso! - Respondeu o recém-chegado.
Além disso, o convite de Larissa Arkadjewna foi tão amável, que não me era possível recusar.
— Sim. Tu sabes, titia não cabe em si de contente desde que te viu na residência do general Twertinoff e soube que eras Pawel Borisowitsch, o sobrinho de sua melhor amiga de colégio, e, o herói de uma série de misteriosas aventura sobrenaturais.
— Isso é exagero!!
Nunca tive quaisquer aventuras misteriosas!
Apenas tem me sucedido certas coisas extra-normais, aliás pouco agradáveis, sobre as quais falei à sua tia.
Os dois jovens alcançaram a saída da estação.
Tomaram um lugar no carro que os aguardava.
— Espero, Jorge, que tua tia não tenha convidado muita gente - disse Paulo depois de um breve silêncio.
— Naturalmente que não.
E quem há-de vir, com este tempo?!
Quando me dirigi à estação para esperar-te havia apenas dois convidados.
Um primo de meu tio, Dionid Petrowitsh Tonilim, digo-te de passagem, um activo partidário do ocultismo, e a afilhada de minha tia, a Senhorinha Samburoff.
Como vês, os convivas são poucos.
Nesse momento, estacionaram defronte à Vila Bakulim, um imenso edifício cheio de sacadas e rodeado por um vasto jardim.
O major Bakulim fixara residência definitiva na belíssima vila, muito embora o regimento em Barskoje Selo.
Os dois jovens penetraram no limiar onde um criado despiu-lhes os abrigos para, em seguida, conduzi-los a um imenso salão, distintamente guarnecido de pesados reposteiros de veludo verde e tapetes que, com as vivas labaredas que dançavam na lareira, davam ao aposento um cunho de tranquila distinção.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Apesar do crepúsculo, não haviam ainda acendido as luzes, e tão somente o fogo vivo iluminava a pequena sociedade reunida ao redor da lareira.
Numa poltrona alta, achava-se a dona da casa, uma senhora de meia idade cujo exterior ainda apresentava os traços de antiga beleza.
Nos seus grandes olhos azuis, lia-se uma expressão de bondade, e cabelos prematuramente embranquecidos, circundavam-lhe o rosto fino e inteligente.
O Major Bakulim estava de pé, por trás da poltrona da esposa, escutando a palestra travada entre esta e seu primo.
Os dois senhores já tinham ultrapassado os quarenta anos.
Ambos possuíam semblantes jovens, eram altos e bem conformados.
Pareciam-se muito, com a única diferença que Dionid Tonilim era calvo, e não possuía a mobilidade de seu primo.
Um pouco distante, afundada numa poltrona, sem tomar parte na conversa, estava Valéria Nikolajewna Samburoff, uma formosa moça de dezoito anos de idade.
Seu rosto, bem desenhado, era coroado por abundante cabeleira louro-raio-de-sol.
Os seus grandes olhos castanho-escuros, destacavam-se, singularmente dos cabelos dourados.
Há um ano, morrera-lhe o pai, e ela trazia luto.
O vestido negro, de crepe chinês, assentava-lhe maravilhosamente sobre o corpo esbelto.
À entrada dos jovens, com a costumeira gentileza, Larissa ergueu-se para cumprimentá-los.
Apresentou Pawel ao esposo e ao primo mas quando quis apresentá-lo à afilhada, calou-se subitamente, fitando Valéria cheia de susto.
A moça ficou pálida como o linho.
Erguendo-se vagarosamente, olhava Pawel com os olhos cheios de pavor e ódio.
Ela vacilou, e teria caído se o major não a amparasse a tempo, deitando-a num divã.
— Valja querida, o que tens?
Perguntava Larissa nervosa, umedecendo a testa e as mãos da afilhada com Água de Colónia.
Jorge voltava trazendo um vidro de sal volátil.
Pawel Borisowitsch não se movera do lugar em que estava.
Fitava Valéria atentamente, tão pálido quando ela.
O que se passara com ele?
Seu coração contraíra-se e ele sentira-se atordoado. Um frio glacial percorreu-lhe o corpo.
Valéria, envergonhada, ergueu-se.
— Desculpa-me, madrinha, por te ter assustado tanto.
Não sei o que me sucedeu...
Senti tonturas de repente, e uma estranha sensação, como se uma mão gelada me agarrasse pela garganta! Parecia que ia me asfixiar...
Mas agora estou bem, outra vez.
— Tu és excessivamente nervosa, Valéria! - disse o major - toma um copo de Marsala e ficarás mais forte!
Apresentou-lhe um copo de vinho que Valéria esvaziou.
— Bem... agora podemos, finalmente, fazer a tua apresentação, Pawel Borisowitsch - disse Larissa.
Querida Valja, permita que te apresente o Barão Rothschild.
Ele é sobrinho de Helena Alexandrowna e primo de tua amiga Lolo.
Enquanto todos ocupavam-se de Valéria, também o Barão conseguira vencer a sensação de vertigem que o acometera ao defrontar a senhorita.
Ele inclinou-se diante de Valéria que agora o fitava sorridente, e lhe perguntava pela saúde de sua tia e prima.
Em breve tinham encetado uma animada palestra.
Enquanto decorreu o jantar, a conversa foi animada e descuidosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:14 pm

Depois de terem servido o café no salão, despediu-se o major que havia sido convidado por um amigo.
O pequeno grupo reuniu-se à roda de uma mesa, e a dona da casa, Larissa, falou em tom solene:
— Meus prezados amigos, estamos agora em completa liberdade.
Meu esposo, seja-lhe perdoado, infelizmente é um céptico.
Não se interessa absolutamente por aquilo em que nós, por assim dizer, observamos.
Aqui o nosso Dionid Petrowistch, porém, é um ocultista experimentado.
Ele tem sido e trabalhado muito nessa ciência misteriosa que é a chave do além, e obteve grandes resultados.
Eu também me ocupo desde há anos, com a ciência secreta, e adquiri, mesmo, uma volumosa biblioteca. Não gosto, porém, de assistir a sessões, pois é muito raro encontrar-se um bom médium. Quanto a Jorge e Valéria, ambos interessam-se também, e desejam aprender ainda alguma coisa.
— Sim, de novo observa-se em todas as rodas e sociedades um interesse positivo pelo ocultismo - disse Dionid Tonilim - muitos ainda consideram, é certo, as ciências ocultas como um brinquedo engraçado.
Outros, porém, mais sérios, penetram conscienciosamente nessa literatura, constatando que muita vez estamos cercados, realmente, de mistérios extraordinários e quase sempre perigosos quando nos surgem à vista. Somente é útil investigarmos esses mistérios até um certo limite, que nos é dado.
— Minha madrinha contou-me, Senhor Barão, que a vossa vida é, de certa maneira, um encadeamento de acontecimentos misteriosos.
Contai-nos alguma coisa a respeito, naturalmente se não for segredo! - disse Valéria, dirigindo-se ao Barão.
— Com efeito, muita coisa que não posso explicar, tão somente talvez porque eu, no que se refere ao ocultismo, seja completamente leigo, tem me acontecido.
Quem sabe se Larissa ou Dionid, que têm experiência, estejam em condições de me explicar alguma coisa?!
Mas não são em verdades aventuras, e eu temo que fiques desiludida - respondeu o Barão de Rotschild sorrindo.
— Não, Não!
Jorge contou-me que o senhor tem realmente, interessantes e às vezes até comoventes sonhos e visões 0 retrucou Valéria insistindo.
— Sim, alguma coisa é verdadeiramente fora do comum.
Como minha mãe me contava, ela, pouco antes do meu nascimento; teve sonhos singulares.
De uma feita foi maltratada por um pesadelo horrível.
Parecia-lhe que tinha um filho adulto, e que alguém tentava amputar-lhe a mão.
Quis defendê-lo, quis afastá-lo, mas não o conseguiu. Suas vestes prendiam-se a uma freira.
De repente, a mão do filho, amputada, estava presa à mão de outrem.
Minha mãe gritou tão aterrorizada, que acordou meu pai.
Só com grandes esforços conseguiu ele despertá-la do sonho.
Estava como que sob a acção de um ataque cataléptico, coberta de um suor gélido.
O médico afirmou que se tratava da impressão de algum romance exagerado que ela lera, mas a mim, mamãe confessou que jamais lera qualquer coisa que pudesse ter provocado semelhante sonho.
Esse pesadelo, que ela mais tarde narrou-me, ficou focado para sempre em minha memória e deixou-se também os seus vestígios.
Pawel arregaçou um pouco a manga do paletó e mostrou um traço que lhe circundava o pulso.
Cheios de curiosidade todos observaram atentamente extraordinário capricho da natureza.
— A aparição desta marca, - prosseguiu Rothschild, - foi simplesmente como o resultado de uma forte impressão que afecta uma mãe em gestação e muitas vezes se torna visível no corpo da gestante.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:15 pm

Talvez seja exacto, talvez não!
Singular é que eu, em determinados dias, tenho sonhos semelhantes aos de minha mãe.
Assim é que, em trajes de monge, vejo-me em lugares completamente desconhecidos.
Com um rancor horrível, caminho então, através de longos corredores e imensas salas de um castelo que nunca vi, às tontas, de um para outro lado, sem poder desviar os olhos do informe coto do meu braço, pois falta-me uma mão até a altura do traço vermelho que acabo de mostrar-vos.
Muitas vezes ouço remotos cantos religiosos e sinto dedos gelados abarcarem-me o punho.
Depois entro a caminhar de novo, sem destino, tendo a impressão de estar arrastando um pesado fardo atrás de mim.
Não vejo esse fardo mas possuo a convicção de que se trata de um cadáver.
Por muito fragmentados que sejam esses sonhos, são, contudo, tão claros, tão cheios de vida que me interrogo se não são fantasmas o que vejo.
Os médicos que consultei em segredo, garantiram sempre que isso provinha de um excessivo nervosismo.
Tive que tomar toda sorte de banhos; segui, conscienciosamente, as prescrições médicas, mas foi tudo em vão.
Portanto, conforme: todas as aparências, outra deve ser a causa dessas manifestações.
— Sim, Pawel, essa outra coisa é a força do passado que pesa sobre nós e que tantos negam! - observou Dionid Tonilim.
Pois os destinos do passado, que muitas vezes reportam a séculos remotos, desempenham, em nossa vida actual, um papel muitas vezes funesto e terrível.
Rotschild estremeceu:
— Dionid Tonilim, as tuas palavras lembram-me um encontro que tive à anos em Paris.
Achava-me numa pequena roda de partidários do espiritismo que promoviam uma sessão.
Como médium actuava uma senhorinha muito jovem, que, ao que parecia, tinha uma faculdade especial para isso.
Como ela desse resposta às perguntas de algumas pessoas, resposta essas que produziam, positivamente, fortes impressões, também eu resolvi interrogá-la sobre a causa de meus sonhos e das minhas visões.
Mas nem bem tinha deposto a minha mão na sua, fui repelido bruscamente.
Quase ininteligivelmente disse:
“O seu carma não foi ainda esgotado.
O último acto de um drama horrível não foi ainda representado.
As sombras do passado ainda se erguerão à sua frente”.
Nada mais a médium quis dizer, por mais que lhe suplicasse.
— Mas a resposta é suficientemente clara.
Pesa sobre ti um crime qualquer, praticado no passado.
Carma é, segundo a doutrina indiana, a retribuição, a recompensa por qualquer coisa má ou boa, realizada em pensamentos ou por actos.
Essa retribuição, mais cedo ou mais tarde, sempre alcança o culpado, numa de suas vidas.
Talvez persiga-o, também, uma execração de vingança.
Se esse passado fosse conhecido, poderíamos libertar-te dele, mas como não o conhecemos, apenas um conselho te posso dar:
ora por ti e pela vítima do crime.
Somente a prece poderá auxiliar-te contra uma vingança, quiçá terrível!
— Agradeço-te o conselho, Dionid.
Reconheço quão leigo eu sou nas questões de ocultismo e lamento-o profundamente.
Com muito prazer eu leria obras sobre o assunto, para instruir-me nesse sentido!
0 Disse Rothschild.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:15 pm

— Com grande prazer, Pawel, quero por à tua disposição todos os meus livros sobre essa ciência. - Disse Larissa.
Especialmente um deles quero dar-te.
Creio que há-de interessar-te extraordinariamente:
Destinos do Passado e suas influências sobre o Presente.
É um livro muito ilustrativo, e maravilhosamente escrito.
Enquanto Rothschild agradecia, Larissa observou que o rosto do Barão fizera-se extremamente pálido, e que ele fazia um supremo esforço por dominar sua emoção.
Depois mudaram o tema da conversação.
— Como estará passando Helena Alexandrowna?
— Há cerca de duas semanas recebi carta de tia Helena.
Escreveu que Mischa e Lolo estavam completamente restabelecidos, mas que os médicos aconselhavam a permanência por mais um ano, na Itália.
Tia Helena está muito satisfeita com sua estadia na península.
O clima faz muito bem a todos, e os ares são maravilhosamente puros.
Agora ela procura uma vila nas montanhas, e me convidou a ir também, gozar minha licença em sua companhia.
Aceitei, naturalmente, o convite.
Espero receber em breve o seu endereço.
Nesse momento, abriu-se a porta e um criado entregou à senhora um envelope.
Larissa leu o endereço e sorriu:
— Falou-se no diabo, apontou seu rabo!
A carta vem da Itália, e, provavelmente, estarei logo em condição de poder dizer-te, prezado Barão o desejado endereço.
Depois de ter lido as primeiras linhas, Larissa soltou uma gargalhada.
— Helena é realmente incorrigível!
Imaginai, ela descobriu agora um castelo qualquer, antiquíssimo, nos Apeninos.
Espera fixar, ali, a sua residência.
Mas, ouvi o que ela escreve a respeito:
“Sinto-me no sétimo céu, querida Larissa!
Aluguei casualmente um castelo antiquíssimo, muito bem situado.
Afigura-te um verdadeiro ninho de salteadores, com torres e torreões, com ruínas claustrais à beira de um profundo despenhadeiro, com uma belíssima vista para o vale.
O ar daqui é tão puro e claro!!!
Todo o edifício está ainda conservado, possui riquíssimos móveis, tudo ainda da Idade Média.
Montinhoso é, realmente, um castelo encantado.
Dizem que por aqui vivem espectros maus.
Isso, porém, não me impressionou, pois não acredito em semelhantes baboseiras.
O meu cepticismo é, neste sentido, incurável.
É que apenas reconheço aquilo que posso ver, apalpar e investigar. Quem sabe se os fantasmas de Montinhoso combinaram entre si roubar a minha convicção?!
Para ti, porém, minha querida Larissa, que és crente e que estás em íntima comunicação com os seres do outro mundo, está a calhar este castelo.
Por isso tomo a liberdade de, por meio desta, convidar-te a virem aqui, naturalmente em companhia de Valéria.
Lolo pede insistentemente que tragas a sua amiguinha.
Creio que as jovens raparigas não se aborrecerão, tanto mais que convidei a vir, também, o meu sobrinho Pawel Rothschild, um homem amável e delicado.
Tu gostarás dele, com toda a certeza.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:15 pm

Quase que me esquecia de escrever-te, também, que temos aqui um alcaide - perfeita corporização de um homem medieval.
Sua mulher, Savéria, sabe relatar lendas que dão para arrepiar os nossos cabelos.
Infelizmente não posso aprender perfeitamente as suas histórias, pois ela fala num dialecto itálico que me é estranho e que muito dificilmente compreendo.
O papel principal é desempenhado por uma aparição, IL SPETTRO, e que, provavelmente, significa:
um fantasma, que peregrina pelo parque asselvajado em busca de um certo Paulo, o Maledetto.
Creio que por detrás desse fantasma esconde-se alguma criada que talvez tenha brigado com o amante!
Tu acreditarás desde logo, naturalmente, que esse espírito está chamando Paulo do além-túmulo.
Se tudo isso não te animar a vir, nada mais poderei fazer nesse sentido.
Mas estou convencida de que não poderás resistir à tentação, e virás.
Helena
Larissa pôs a carta de lado.
— Helena tem razão!
Realmente esse Montinhoso me atrai sobremaneira, e eu preciso ir vê-lo, haja o que houver!
Quem sabe se conseguiremos doutrinar os espíritos que por lá erram, e até mesmo livrar o pobre Paulo?
Que dizes, Pawel?
— Espero apenas que esse fantasma não esteja a chamar por mim.
Caso contrário não iria, absolutamente, para lá! - respondeu Rothschild.
— Ah! Não!
É, provavelmente, algum nóbile italiano que chama o infeliz.
Havemos de libertá-lo.
E tu Valja, também irás connosco!
Ou tens medo?
— Sabes, madrinha, eu não temo os fantasmas!
Além disso, desde há muito alimento o desejo de conhecer a Itália.
Também já vai para dois anos que Lolo e eu não nos vemos...
— Óptimo, iremos então a Montinhoso.
Tu, Dionid Tonilim, irás nos fazer muita falta.
Teus conselhos e tuas experiências...
Só mesmo muito a contragosto podemos dispensar-te num lugar tão misterioso! - disse Larissa.
Dionid Tonilim sorriu significativamente.
— Talvez que também eu não fique muito longe de vós.
Minha cunhada e meu irmão estão, presentemente, em Florença, onde pretendo passar uma parte do verão.
Devo partir em princípios de Maio, de sorte que estaremos na Itália na mesma época.
Se for preciso, estarei ao vosso inteiro dispor, com os meus conselhos.
Além disso, sou bastante íntimo de Helena Alexandrowna, e não deixarei de fazer-lhe uma visita.
— Como tudo coincide! Então poderemos promover sessões em conjunto!
Oh! Como será interessante... - bradou Larissa satisfeita.
— Sim, muito interessante! - murmurou Dionid Tonilim.
u, naturalmente, também gosto muito de fazer investigações nesse terreno.
Mas não ignoro, e isso não deveis nunca esquecer, Larissa, que a teoria e a prática têm demonstrado quão perigosas são tais investidas para os que nelas tomam parte.
Os lugares tidos e havidos por cenários de crimes e desgraças, são quase sempre possuídos por algo de funesto e perigoso.
Os curiosos que tentam penetrar esses mistérios, assemelham-se aos descuidados que descobrem cavernas pestilentas sem saber quais os venenos que podem estar ocultos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:15 pm

Disse o Barão que, se por lá perambulavam fantasmas, esses possivelmente manifestar-se-iam agradecidos pelo interesse que se lhes dispensassem, objectivando auxiliá-los.
Depois do chá, o major regressou e com Dionid sentou-se à mesa de xadrez.
Em companhia de Jorge a anfitriã passou à biblioteca para procurar os livros prometidos ao Barão.
Valéria e Rothschild ficaram sozinhos, no salão.
A lâmpada, recoberta por um globo de cristal vermelho, iluminava levemente o ambiente.
Numa ampla poltrona, cujo espaldar ensombrava-lhe o rosto, estava Valéria.
Durante segundos, o seu olhar permaneceu fixo no rosto do Barão, que se encostara na lareira.
Um sentimento incerto, hostil, dominava-a.
Via aquele homem pela primeira vez na vida, contudo, ele não lhe parecia estranho.
Onde fora que vira esse perfil característico e esses recurvos cantos de lábios?
E mais aqueles olhos escuros, de cujas profundezas reflectia-se alguma coisa de cruel e astuciosos?
Não pôs em dúvida que aquele homem fosse capaz de toda traição para com uma mulher.
Tudo nele era repugnante, mesmo a voz que às vezes soava tão desprezível, tão desdenhosa!...
Seria casado? Essa lembrança produzia-lhe uma dor involuntária.
Um inexpugnável sentimento de ciúmes acometeu-a, ao pensar que uma mulher pudesse ter direitos sobre ele.
Seus olhos buscaram-lhe a mão.
Nenhum anel de ouro, apenas um grande solitário coruscava com todas as cores do arco-íris, no seu dedo mínimo.
Tão perdida estava Valéria nos seus pensamentos, que nem mesmo percebia que também Rothschild observava-a atentamente.
Ela era bela!
Muito mais bela do que todas as mulheres que encontrara até então...
Contudo, havia algo de desagradável no seu todo...
O fogo da lareira, que naquele momento levantava novas labaredas, iluminava o rosto de Valéria, e ele assustou-se com a expressão cruel e vingativa que subitamente alterara os graciosos traços da moça.
Um sentimento de medo e de aversão dominou-o.
Era mais uma das singularidades do seu ser.
Havia épocas em que era tomado de horror pelo sexo feminino, em que um sentimento inexplicável e de invencível repugnância o afastava de qualquer contacto com mulheres.
A semi-obscuridade da sala aumentava as sensações desagradáveis que apoderaram-se dele.
Resolutamente, comprimiu um botão existente nas proximidades, e uma luz brilhante projectou-se na sala pelo candelabro central.
Essa luz radiante trouxe o Barão de volta à realidade, e ele envergonhou-se, de repente, de sua fraqueza.
“Meus nervos parecem não estar bem em ordem!
Afigurou-se-me estar tomando parte num funeral”.
Esse pensamento veio-lhe no momento em que viu Valéria erguer-se subitamente, enrubescendo até a raiz: do cabelo.
Mas Rothschild era suficientemente mundano para adaptar-se logo à situação.
— Perdoa-me, Valéria, por te haver arrancado tão bruscamente dos teus pensamentos.
Esta obscuridade na sala, acrescida do uivar da tempestade lá fora, parecia-me adequada a nossa indisposição de ânimos, depois da conversa sobre fantasmas e espíritos.
Sorridente, ele aproximou uma cadeira à poltrona da jovem e sentou-se.
— Fizeste muito bem, acendendo a luz, Pawel!
Também eu me sentia sob a desagradável impressão dessas histórias.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:16 pm

Talvez que a obscuridade fosse a única culpada disso!
Nos tempos que correm, em que todas as pessoas são nervosas, buscava-se sempre uma explicação para esse nervosismo em coisas sobrenaturais.
— Estou, afinal, constantemente envolvido nessa atmosfera carregada de nervosismo, o que, em vista dos meus sonhos, não é, certamente estranhável.
Mas, as minhas histórias parecem ter produzido em ti, Valéria uma funesta impressão...
— Oh! não!
Eu, de certa maneira, não tenho saúde.
Titia Larissa e Dionid Tonilim são até de opinião que eu seja uma sofredora, no sentido de nossa última palestra, isto é, que esteja provavelmente sofrendo sob qualquer influência do passado.
— Uma sofredora?
Como se manifesta isso? - indagou, sorrindo Rothschild.
— Eu, Pawel, desde a infância estou sujeita a síncopes muito estranhas.
Quase já é letargia o que me afecta.
Meu pai, e especialmente minha mãe, sofrem muito com isso.
Durante horas, permaneço num estado cataléptico do qual ninguém e nada me podem despertar.
Pelo contrário, quanto maiores tentativas fazem para me despertar, tanto mais profunda se torna a letargia...
Ultimamente, procurou-se um hipnotizador, que aconselhou minha mãe a deixar-me, nessas ocasiões, entregue a mim mesma, pois que assim despertaria mais depressa.
E ele teve razão.
Só que me sinto, depois de desperta, estranhamente fatigada.
— Sofre desses ataques muito frequentemente?
— Não. Mais ou menos cinco ou seis veres por ano.
Geralmente o ataque principia de tardezinha, à noite, ou antes do nascer do sol.
Sinto-o aproximar-se.
A princípio sobrevém-me um estremecimento pelo corpo, que pouco a pouco se transforma num calafrio.
Depois sinto-me tonta e vou perdendo mansamente os sentidos.
— E depois, lembras-te do que sucedeu contigo durante o estado letárgico?
Tens sonhos? - quis saber o Barão com um interesse insinuante de agradar.
— Sim, são porém geralmente sonhos tão sem nexo, que na minha opinião não podem, absolutamente, ter relações com o espiritismo.
Vejo longos corredores, salas decoradas em estilo medieval e, às vezes, um castelo antigo.
A mim mesma, porém, tudo isso explico pelo facto de ter uma especial predilecção pelas velhas construções em ruínas, pelas antigas pinturas e pelas lendas românticas.
Por isso mesmo é que eu me alegro à ideia de poder visitar Helena Alexandrowna, ver o castelo e conhecer as suas lendas.
E se me permitissem desejaria imensamente investigar-lhe os desvãos, os porões... - disse Valéria com vivacidade.
Nisso voltaram Larissa e Jorge, com alguns livros, e interromperam a conversação.
— Os livros que te prometi estão aqui, Paulo.
São obras sérias e eu te recomendo que lhe dediques toda a tua atenção, especialmente e em primeiro lugar a esta: DESTINOS DO PASSADO.
Rothschild agradeceu a Larissa; imediatamente folheou o livro e meneou a cabeça.
— Acreditais sinceramente que nós não vivemos apenas uma vez? - perguntou.
O Que significação poderia ele ter para a nossa vida terrena, toda voltada para as coisas materiais?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:16 pm

— Tu te enganas sobremaneira, prezado Barão!
A passagem de nossa alma para um outro corpo, depois de nossa morte, serve para nosso aperfeiçoamento e para a remissão de nossos erros anteriores.
É lamentável que não entendas isso, justamente tu que não deverias ter motivos de dúvida; o passado deu-te, por intermédio do bracelete encarnado, uma prova positiva da sua força.
O Barão sorriu incrédulo.
— A ciência dá a essa bracelete uma explicação muito simples e prosaica.
Afinal não combato, também, a possibilidade de uma outra explicação para o caso, por mais inverosímil que possa parecer.
— Valéria, vieram chamar-te! - disse Jorge que pouco antes se havia retirado e então regressava.
Valéria ergueu-se e despediu-se.
— Adorável menina! - murmurou Larissa Arkadjenowna.
Amo-a de todo o coração.
É tão boa quanto bela!
Rothschild não respondeu.
Estava tão absorvido na leitura de uma página do livro, que parecia ter esquecido tudo.
A risada franca de Larissa fê-lo levantar os olhos.
— Oh! Perdoa-me!
O livro parece ser realmente interessante!
Ele ergueu-se, consultando o relógio.
— Infelizmente preciso ir agora, se não quiser perder o trem.
Inclinou-se e beijou a mão da anfitriã.
Amavelmente Larissa convidou-o a voltar para conversarem mais vezes sobre ocultismo.
Precisavam, além disso, combinar melhor a viagem à Itália, em visita a Helena Alexandrowna.
Pouco antes do Barão se despedir, o major e Dionid Tonilim tinham regressado ao salão.
Depois que o Pawel saiu, Larissa quis saber:
— Diz-me Dionid Tonilim, por que motivo observas o Barão tão estranhamente enquanto lia?
Viste nele alguma coisa de extraordinário?
Tonilim passou a mão pela testa e falou:
— Suponho que no passado do Barão deve haver alguma coisa de terrível.
Parece-me que de todos os lados, sombras o envolvem!
Como se livrará delas, é um enigma para mim e ser-lhe-á bem difícil.
É certo que ainda não vejo claramente, mas creio que a realização do carma não está muito longe.
Direi mais:
parece-me que entre o Barão e Valéria, existe uma aliança misteriosa, da qual nenhum dos dois, naturalmente, tem consciência.
A senhora Bakulim, que acreditava nas faculdades clarividentes de Tonilim, fitou-o inquieta.
O velho ocultista era realmente um excêntrico:
rico, solteiro e independente, ocupara-se, principalmente, com a Arqueologia, depois com o Ocultismo.
Estivera na Pérsia, no Egipto e na Índia, onde vivera mais de dez anos, e de onde, conforme supunha-se, trouxera a .sua faculdade de clarividência.
— Escuta, Dionid, se minha sobrinha Valéria está de algum modo sobrecarregada de qualquer passado fatal, será talvez melhor não levá-la comigo à Itália, não?
Estará em constante contacto com Rothschild, e isso poderá ser-lhe perigoso.
Tonilim sorriu enigmaticamente.
— Não te martirizes inutilmente com pensamentos negros, Larissa.
O que tem de ser, será!
Seria mais fácil remover de seu lugar a pirâmide de Quéops do que desviar a realização do carma, quando houver chegado o seu tempo.
Deixa que os acontecimentos sigam seu curso, não te coloques entre o martelo e a bigorna.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:16 pm

2 - O BARÃO

Pawel Rothschild morava na doga inglesa, em casa de seu tio, um homem velho, muito rico do qual era o único herdeiro.
O velho barão de Rothschild era um déspota declarado; solteiro, sofria de gota e não frequentava a sociedade.
Não se privava, porém, de coisa alguma.
Mantinha um secretário que se encarregava da correspondência, lia-lhe os jornais e servia de parceiro nas partidas de xadrez.
Duas vezes por semana, recebia três velhos amigos para jogo de cartas.
Eram dois generais e um senador.
Esta era a única distracção que o velho Barão a si se proporcionava.
Em fins de maio de cada ano, ele partia, com o secretário e um criado de quarto, para uma estação
de banhos no estrangeiro, de onde regressava em outubro.
Pawel, o único filho de um irmão, a ele se dedicava muito pouco.
O futuro herdeiro ocupava, na casa, cinco cómodos muito bem mobiliados, e recebia do tio, anualmente, cinco mil rublos.
O velho Barão, porém, já lhe dissera que não pagaria um real de dívidas suas.
Se as contraísse, estaria dando provas de não ser capaz de bem administrar a herança; nesse caso, preferiria legar sua fortuna a instituições pias.
Contudo, o velho Barão até então não tivera motivo para censurar o sobrinho.
Pawel ocupava, num dos ministérios, um lugar honroso e bem remunerado, levava uma vida regular, e nunca se ouvira falar nem mesmo de um laço mais estreito de amores como o têm, em sua maioria, os jovens da sociedade.
Cerca de dois anos antes do início de nossa narrativa, a vida do jovem Rothschild não estava tão bem regularizada.
Murmurava-se sobre grandes perdas que sofrera em jogos de azar.
Mas como não se encontravam provas quaisquer que corroborassem essas insinuações, em breve foram esquecidas.
Desde então, Pawel se tornara mais retraído, passava a maior parte do seu tempo de folga em casa, e o tio observou que uma ruga se formara, profundamente, na testa do sobrinho.
O velho Barão, porém, não tinha por hábito andar especulando, e como o moço pautasse regularmente a vida, sem contrair dívidas, sentia-se satisfeito.
Eram dez horas da noite quando Pawel chegou em casa, de volta de sua visita a Pawlosk.
Entregou os livros ao criado, e trocou de roupa.
— Vou ao clube.
Diga isso ao meu tio se ele perguntar por mim.
Tomou uma carruagem e fez-se conduzir a uma confeitaria elegante onde comprou uma grande caixa de confeitos e frutas cristalizadas.
Em seguida dispensou o cocheiro e chamou um auto.
O carro pôs-se em movimento em direcção da porta Marwanch.
Taciturno e pensativo, o Barão recostou-se nas almofadas.
Pensava na formosa senhorinha que há bem pouco vira na residência dos Bakulim.
Aquela cabecinha dourada, adornada por fascinantes olhos, parecia-lhe tentadora.
Nunca encontrara um ser feminino que tivesse exercido sobre sua pessoa uma impressão tão simpática.
Ela, porém, produzia-lhe ao mesmo tempo, estranhas sensações de aversão e medo.
Imerso em seus pensamentos não notava a paisagem desolada da região, que, por esse tempo, o auto alcançava:
ruas vazias e sem calçamento, casebres baixos de madeira, e, de vez em quando, uma árvore despida.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:16 pm

Nenhuma alma à vista.
Somente quando o carro estacionou diante de uma casa isolada, rodeada por uma alta sebe, ele voltou a si.
O portão estava fechado.
Rothschild ordenou ao chofer que esperasse.
Teve que puxar várias vezes por uma sineta, antes que um velho servo viesse abrir-lhe o portão.
Com passos rápidos atravessou um pátio pequeno, calçado de pedras, em direcção à casa.
Era esta de aspecto pouco convidativo.
De dois andares, mas sem os costumeiros balcões, não fazia justiça à beleza.
Todas as janelas, com excepção de uma, no segundo andar, estavam às escuras.
Uma velhota asseada veio abrir-lhe a porta e iluminar a escada que levava ao segundo pavimento.
Numa pequena antecâmara; ela parou, e Rothschild seguiu sozinho até a sala imediata.
Esta era espaçosa, clara e elegante.
Um piano, belos móveis, flores e peças contendo porcelanas finas, enchiam o aposento.
Quase que ao mesmo tempo que Rothschild por outra porta, uma senhora entrava na mesma sala.
Com uma exclamação de alegria, dirigiu-se a ele, abraçando-o.
Era jovem, esbelta, de estatura mediana. Seu rosto apresentava finos traços.
Os olhos tinham um ar oriental, e os seus cabelos negros que caíam-lhe até os quadris, faziam contraste com a palidez de suas faces.
— Até que em fim vieste, Paulo!
Durante toda uma semana estive a tua espera... - murmurou trémula.
Rothschild beijou-a levemente sobre a testa e libertou-se de seus braços.
Esse movimento, e o beijo indiferente, demonstravam que não pretendia corresponder às manifestações da senhora.
— Sabes, querida Dina, que não sou um homem livre.
Meu tio não passa muito bem de saúde e eu mesmo tenho muito que fazer.
Precisas acostumar-te com as circunstâncias.
Afinal não posso vir aqui todos os dias...
Com o tempo despertaria a atenção do povo!
Puxou uma cadeira e sentou-se.
Nisso, a porta abriu-se, e a velha que o recebera introduziu uma mesinha de chá com um pequeno samovar, vinho e pratos frios.
Involuntariamente, a jovem ergueu-se.
Lançou um olhar apaixonado ao homem que tão friamente correspondera à sua saudação, e, contendo a custo as lágrimas, foi preparar o chá.
— Como está teu pai? - perguntou Rothschild em tom indiferente e sem notar-lhe aparentemente, a excitação.
— Está doente de novo.
A gota pegou-o outra vez.
O médico deseja que vá para o Cáucaso e passe o inverno na Crimeia.
Precisa sair de qualquer modo de S. Petersburgo; não suporta o clima daqui!
Deve partir para o sul.
Quer levar-me consigo, mas eu não desejo viajar agora...
Suplicante, ela fitou o Barão.
— Diga isso a papai.
Faça-me esse favor, diga que é teu desejo que eu permaneça aqui!
Um ligeiro rubor cobriu o rosto de Rothschild.
— Por quê?
Acho muito razoável que vás com teu pai, para o sul!
O que perderias com isso?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 25, 2016 7:16 pm

— Sim, mas eu não poderia ver-te se fosse embora...
Lágrimas embargavam-lhe a voz.
— Querida Dina, de uma vez por todas proíbo-te quaisquer cenas! - disse Rothschild com impaciência.
Tu sabes perfeitamente quais foram os motivos que me levaram ao casamento contigo.
Sabes também, perfeitamente, que não te adaptas à sociedade que frequento, embora tenhas recebido uma certa ilustração... e finalmente sabes que nunca tive o menor interesse por ti!
Mas teu pai e tu mesma, aproveitastes de minha situação angustiosa.
Sabíeis que eu tinha que ocultar minhas dívidas de jogo para não perder a herança do tio.
Como um mendigo foi que me encontrei diante de vós por causa da uns miseráveis cinquenta mil rublos.
Só ao preço de um casamento contigo pude obter o dinheiro.
Mas também tu aceitaste minhas condições!
Sem piedade declaraste concordar em conservar esse casamento secreto até a morte de meu tio!
Tu mesmo te declaraste resolvida a conservar o segredo, a jamais te apresentares em parte alguma como minha esposa!
Meu tio nunca me perdoaria o casamento com a filha de um agiota.
Se toda essa história vier à luz, se eu for deserdado, farei com que uma bala me atravesse o crânio.
Compreendes-me agora?
Não é aos olhos do mundo que eu oculto o meu casamento contigo, pois não tenho que dar satisfações a quem quer que seja, sobre o meu proceder.
Apenas a minha segurança pecuniária, o meu futuro, me levam a tanto.
Por outro lado, não te entendo!
O que te falta? De que podes te queixar?
Dou-te o suficiente para que te vistas, para que vivas opulentamente, visito-te todas as vezes que posso... que queres mais?
Contenta-te em seres minha esposa, e se paciente até que publicamente possas denominar-te assim.
E agora não oponhas mais resistência ao desejo de teu pai!
Além disso — essa viagem me vem a propósito: as minhas visitas aqui podem tornar-se conhecidas. Sê prudente e deixa de soluçar!
Prometo-te até ir, no próximo inverno, ao sul, por oito ou dez dias, a visitar-te.
Realmente, Dina, não há razão alguma para irritação.
Fica antes tranquila, e sobretudo, guarda bem o nosso segredo.
Há-de chegar, finalmente, o dia em que possas chamar-te, diante de todos, a Baronesa Rothschild.
Acabrunhada, Dina ouviu o esposo.
Prostrou-se junto da cadeira dele e apoiou a cabeça cansada no espaldar.
— És sempre tão cruel e áspero comigo!
Nunca, nunca me alegras com uma palavra amável, com meiguice! - disse soluçando.
- Oh! Se eu tivesse adivinhado tudo isso antes!
Não teria cogitado em ser tua esposa!
Continuou a soluçar baixinho.
Com olhar de ódio, Rothschild fitou aquela que se ajoelhara junto dele.
Pareceu-lhe naquele momento, que ela lhe impedia o caminho que levava à outra, à loura mulher de olhos meigos e brilhantes.
Auxiliou Dina a levantar-se e acomodou-a numa cadeira.
— Arrependes-te do passo dado muito tardiamente, minha querida.
Não desejo recriminar-te por isso!
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:05 pm

Eras jovem, encontravas-te sob o jugo de uma fatal paixão por mim.
O teu sentimento de honra feminil não te disse que não nos devemos impor a uma pessoa que não nos ama.
Eu, porém, aproveitei-me da situação de então sem reflectir!
Contudo, de minha parte, desisti, desde o momento em que me prendi a ti, ou melhor, em que tive que me prender a ti, de toda a felicidade, do amor, do futuro!
Como um condenado é que suporto esse castigo.
Pode-se, é certo, obrigar uma pessoa a dar o seu nome, mas nunca o coração.
Mas, basta de cenas!
Preciso voltar para casa, e tu mesma és culpada de não termos melhor aproveitado o pequeno lapso de tempo de nossa reunião.
Por enquanto, pois, até à vista.
Na semana vindoura tornarei aqui para me informar do dia de tua partida e despedir-me de ti...
Dina levantou a cabeça e fitou o esposo.
Em sua voz manifestou-se um tom de profunda tristeza:
— Não te incomodes em vir mais uma vez aqui.
Minha partida importa-te pouco e eu não posso aceitar um sacrifício de tua parte.
Também não é preciso que continues a enviar-me dinheiro.
Meu pai me dará o que necessito.
Partirei, como desejas, em sua companhia e de nenhum modo embaraçarei a posse de tua fortuna.
Já há dois anos suporto essa situação deprimente, esta vida indigna, tuas grosserias e crueldade!
Mas de uma coisa fica certo: nunca, a menos que me mates, dar-te-ei a liberdade.
Ela ergueu-se de um salto e encostou-se à mesa.
— Sim? Realmente? 0 Retrucou o Barão.
Ele sorriu sarcasticamente mostrando os dentes alvos como pérolas:
- Não desejas, portanto, dar-me o beijo de despedida!
Porque hás-de encarar tudo isto tão tragicamente?
Fitando Dina fixamente, o desprezo saltava de seus olhos.
Aquele homem, um joguete de nervos martirizados, perseguido por sonhos e visões desagradáveis, que temia as igrejas e os quartos vazios, que fugia às mulheres e ao amor, que sabia o que a vida de si exigia, aquele homem conhecia o seu poder em face do sexo oposto, mas era mesquinho para com ele.
Desta vez, porém, iludira-se, certamente.
A mulher, ferida até o âmago, e que amava ilimitadamente o esposo, não o olhava mais.
Ela pôs as mãos à cabeça e fugiu da sala...
Rothschild permaneceu um instante no aposento, e saiu apressadamente, para a rua.
Escondida atrás de uma cortina, Dina observava o homem que deveria ser seu companheiro.
Um minuto depois, o motor entrou em movimento, anunciando a partida.
Ela caiu numa poltrona e cobriu o rosto com as mãos, dando liberdade às suas lágrimas.
Um homem velho, metido num robe de veludo negro, entrou arcando no aposento.
Seu rosto esperto e enérgico estava muito pálido.
Condoído, ficou olhando para Dina.
Pôs-lhe a mão sobre a cabeça:
— Não chores, Dina! Vês?
Eu sempre te disse que esse homem somente nos traria desventuras.
Agora nada mais podemos modificar...
Mas esperemos em Deus que tudo um dia há-de ser melhor!
E quanto às palavras sobre tua origem, há-de saber um dia que esta não é tão obscura quanto se supõe.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:05 pm

Muita coisa será, com o tempo, explicada.
Eu não me calo em atenção ao tio dele ou à herança, mas por um motivo muito diferentes, sobre o qual nem mesmo a ti posso falar por enquanto qualquer coisa.
Consola-te, minha infeliz! És ainda jovem, tens a vida toda à tua frente...
Também tu encontrarás um dia a felicidade.
Por estes dias, partiremos daqui, e uma vez distantes, numa outra região, entre pessoas estranhas, tudo será mais suportável.
Dina abraçou-se ao pai, e aos poucos tranquilizou-se.
— Eu te agradeço, querido pai, às tuas palavras!
Sim, a vida é longa e está, ainda, à minha frente...
Oh! Se ao menos eu pudesse arrancar esse amor deprimente do meu coração, pisá-lo, esmagá-lo, como eu seria feliz então!
— Querer quer dizer poder!
Não te esqueças disto. Mas agora vamos dormir.
Precisas descansar. Também para mim já é tarde...
Dina inclinou-se, impulsivamente; sobre uma cesta junto da cama, e ergueu um cachorrinho.
Abraçou-o ternamente, mimando-o com delicadeza.
— Meu Biju!
Tu me amas em recompensa pelo alimento que te dou!
Mas aquele a quem dei minha alma, despreza-me, odeia-me.
Ah! se eu pudesse aprender a odiá-lo da mesma forma que ele me odeia,
para me vingar...
X X X
Somente depois de meia noite Rothschild regressou à casa.
Vestiu um pijama e dirigiu-se à copa, onde faria a ceia.
Devorou uns pastéis com apetite, tomou um copo de Bordeaux, e comeu algumas frutas.
Dispensou o criado, e recolheu-se ao quarto.
Estendido numa chaise-longue.
Aprofundou-se na leitura dos livros que trouxera.
Havia se acalmado completamente, e fruía aquela satisfação relativa a si mesmo e ao mundo, que sempre experimentava ao encontrar-se em seus aposentos.
Estes eram guarnecidos com estilo, e faziam, realmente, muito boa impressão.
Todas as minudências eram custosas e belas.
Em primeiro lugar, Rothschild tomou o livro especialmente recomendado por Larissa: DESTINOS DO PASSADO.
Com grande interesse leu o prólogo.
“Dirijo-me ao leitor sincero, não prevenido.
Seria dever de todos pensar, com um máximo de objectividade, na sua vida e na de seus semelhantes, e, de certa maneira, esmiuçá-las. Então encontrariam sem dúvida, apoio seguro à doutrina da Peregrinação das Almas!
Sempre se encontram, na vida presente, os vestígios do passado.
A maioria dos encontros com nossos semelhantes não são meras obras do acaso...
O destino coloca-nos frente a frente àqueles que por intermédio dos quais somos submetidos a esta ou aquela provação, ou temos que purgar um erro do passado.
O corpo e os sentidos não são capazes de reconhecer o objectivo desses encontros, mas o nosso corpo astral, a nossa alma, reconhece os amigos e os inimigos antigos.
Então. estremece alguma coisa em nós, sob a influência
de uma corrente eléctrica, produzindo boas ou más impressões.
Uma pessoa nos atrai involuntariamente, nos é simpática, outra, pelo contrário, repelimos.
Muitas vezes não sabemos como nos portar diante desses sentimentos, o que devemos fazer para escapar de um perigo que, muito possivelmente, nos ameaça.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:05 pm

Só uma possibilidade temos, e nela sempre encontraremos refúgio: a Prece!
A prece é uma fonte cristalina que nos fornece forças e na qual devemos beber para iluminar o nosso caminho vital!
Em primeiro lugar devemos procurar determinar qual é a paixão ou as paixões que nos dominam, pois estas são sempre heranças do passado.
Pelas nossas paixões não somente estragamos muitas vezes a nossa vida, como sacrificamos a nossa honra, a consciência e a oportunidade de conhecermos a felicidade.
As nossas paixões nos absorvem, por assim dizer, totalmente, e nos fecham o caminho do futuro luminoso!
Cada um de nós conhece os seus denominados pontos fracos.
Uma voz interior constantemente nos segreda: isto é um calcanhar de Aquiles, este é o teu ponto vulnerável, este é o limiar sobre o qual tropeças e por causa dele deixaste de vencer a prova a que foste submetido!
Mas quando conhecemos o nosso inimigo interior, não será nosso dever subjugá-lo para de novo não cairmos sob seu domínio e de novo não cometermos faltas?
O homem é fraco, e muito estreita é a senda sobre a qual, envolto em sombras, caminha.
Por isso não deverá nunca deixar de reparar seus erros; e não acumular dívidas que tornariam o seu destino, caminho do irrevogável carma, ainda mais espinhoso”.
O livro caiu da mão de Rothschild e ele mergulhou num profundo silêncio.
O que acabara de ler confirmava o que havia de anormal em sua vida.
Sempre de novo os mesmos sonhos, as mesmas aparições, quase sempre, numa mesma época do ano, à mesma hora da noite...
Aquele medo horrível de defrontar cadáveres, aquela aversão por cânticos eclesiásticos ou dobres de sinos!!!
E depois o inexplicável: se já vivera realmente, onde e quando?
Estaria Valéria Nikolajewna que tão extraordinária e profunda impressão exercera sobre seu espírito, também relacionada à sua vida de antanho, à vida vivida talvez há séculos e séculos?
A primeira vista ela não lhe parecera estranha!
À sua presença, sentira-se acometido de uma singular sensação.
E porque haveria Valéria de ter sentido coisa semelhante?
Porque o seu repentino desmaio quando ele se apresentara à sua frente?
Possivelmente, o subconsciente da moça também o reconhecera!
Nele despertou, então, um indomável desejo de encontrar a chave do passado perdido, de iluminar o pretérito misterioso.
— Não! Livros semelhantes a este devem ser lidos à luz do dia! - pensou.
Deitou-se, e dormiu profundamente, sem sonhar.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:06 pm

3 - VALÉRIA E A VIAGEM

Valéria passara uma noite inquieta.
Da casa dos Bakulim, ela regressara, excitada, para o seu lar, mas ocultara essa excitação perante os seus.
Pretextando sobre dores de cabeça, recolhera-se imediatamente a seu quarto.
Valéria tinha um irmão, que era oficial, e uma irmã de catorze anos.
Indubitavelmente, porém, era ela a favorita da família.
Todos a amavam ternamente, satisfaziam os seus desejos e se orgulhavam de sua beleza.
Apesar de sua pouca idade, vários pedidos de casamentos já lhe tinham sido dirigidos, pedidos que ela, desprezando as admoestações de sua mãe, recusara.
Nenhum dos pretendentes correspondia ao ideal com que sonhava, ao homem que deveria ser o seu esposo.
Estava convencida que um dia, sem dúvida, encontraria esse ideal.
Entretanto, sentia uma extraordinária sensação de pavor à lembrança de encontrar-se com o herói de seus sonhos.
Bastava ver um homem de rosto pálido, cabelos e olhos escuros, para sentir, desde logo, uma inquietação martirizante, que somente de pouco a pouco abandonava-a.
Os ataques singulares que sofria, também desempenhavam importante papel em sua vida.
A recordação desses sonhos, somente lhe surgiam na mente algumas particularidades que sempre se repetiam; todos os demais sucessos envolviam-se em trevas.
Especialmente clara se havia impresso em sua mente a lembrança de um aposento em estilo gótico, e nele, sobre um estrado, um leito amplo.
Era coberto por um dossel azul, apoiado por colunas torneadas.
Recordava-se também de um banco de pedra de onde podia ver um profundo vale e um lago.
Sobre esse banco, muitas vezes assentava-se, ao seu lado, um belo mancebo de traços italianos.
Seu rosto era pálido, tinha os cabelos negríssimos, ondulados, dos quais uma mecha teimosa sempre dançava sobre a testa, olhos negros, de expressão apaixonada.
Parecia-lhe sentir beijos incendiados, ouvir uma cativante voz, e então tudo desaparecia de repente...
O jovem falava como lhe parecia, em italiano, e esse facto despertava nela uma saudade doentia por aquele país, que ainda não conhecia.
Estudara o italiano e dominava correctamente a língua.
Lia, de preferência, autores peninsulares, e estudara a história daquele país.
Os Samburoff eram ricos, e podiam dar à filha uma educação múltipla e aristocrática.
O talento pictural de Valéria fora descoberto e adestrado, e ela em breve alcançara o grau de certa aptidão prematura, a fama de incomum pintora de retratos.
Foi assim que conseguiu também, depois de um dos seus ataques, pintar o retrato do herói dos seus sonhos que, medrosa escondera aos olhares de sua mãe e dos irmãos.
Quando Rothschild entrara, na noite anterior, em casa dos Bakulim ela julgara estar encontrando o original de sua pintura em carne e osso.
Fitava fixamente o Barão, sem poder acreditar em seus olhos, quando lhe fugiram os sentidos.
Assim que chegara a casa, fora buscar o retrato e pusera-se a estudá-lo em todos os seus traços.
Sem dúvida, aquele rosto, que pintara pela recordação das manifestações dos seus sonhos, era o rosto do Barão de Rothschild.
Cada traço a posição dos olhos, a expressão dura dos cantos da boca, tudo coincidia!
E quanto mais se aprofundara na contemplação do retrato, tanto mais sentira crescer a paixão mesclada de ódio selvagem, que há tanto invadira-a.
Contudo, parecia-lhe ter um direito especial sobre aquele homem.
— Estou perdendo a razão! Ou... encontrei o meu destino, um destino horrível demais! - Murmurou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:06 pm

O seu coração contraíra-se receoso.
Respirando com dificuldade, escondera o retrato misterioso, e martirizada por desencontrados pensamentos, deitara-se, mas para não encontrar repouso.
Por muito tempo não fora capaz de conciliar o sono.
No dia seguinte, ao almoço, a governanta notou que Valéria parecia doente.
A senhora Samburoff interrogou-a cheia de cuidados:
tivera outra vez o costumeiro ataque?
— Geralmente ficas nervosa depois deles! - Acrescentara.
— Não, mamãe! Tive enxaqueca e dormi mal, nada mais! - Valéria respondera.
Estava convencida de que ninguém compreendia a sua enfermidade e aborrecia-se sempre, com as prescrições médicas.
Era maltratada, ora com banhos frios ora com banhos demasiado quentes, proibiram-lhe toda e qualquer leitura, e até ao teatro não podia mais ir, depois que tivera um ataque durante uma representação.
Por todos os motivos Valéria ocultara tanto quanto era possível, os seus ataques, e não gostava que falassem deles.
O irmão de Valéria, Anatólio, contava vinte e dois anos.
Servia no corpo dos atiradores da guarda.
Externamente, parecia-se sobre-maneira com a irmã.
Os dois irmãos estimavam-se muito, eram os melhores amigos.
Quando Anatólio perguntou a Valéria como decorrera a noite em casa da tia, ela falou-lhe de seu encontro com o Barão de Rothschild.
— Uma personalidade que me é muito antipática, esse Pawel!
Todas as nossas damas estão enfeitiçadas por ele, mas eu não posso suportá-lo! - Confessou Anatólio.
— Oh! Ele dá-me a impressão de ser um perfeito cavalheiro.
É sobrinho de Helena Alexandrowna. - Retrucou Valéria.
— Não, Valéria, não foi isso que eu quis dizer.
Seu tio é um milionário, e não negligenciou ministrar-lhe uma educação requintada.
Ele cursou o Liceu de oficiais, de onde conhece também o meu amigo Gregório de Walke.
Este contou-me um dia que Rothschild recebeu, na escola, a alcunha de BÓRGIA, o ESPECTRO, porque é sonâmbulo.
Dizem que muitas vezes, durante a noite, subia à estufa, ou até ao telhado, de onde, com muita dificuldade, e com perigo de vida, tiravam-no.
Durante essas peregrinações nocturnas dizia coisas confusas, e chegavam a afirmar que falava em italiano.
Outras vezes, gritava por uma tal de Giovana, ou cantava salmos latinos.
Os colegas temiam-no, mas tudo isso não pode passar de tontices.
Ele é, sem dúvida, um homem direito e um bom partido como único herdeiro de seu riquíssimo tio.
Mas é-me antipático!
Espero, Valja, que não te enamores dele...
desse Borga.
No entretanto, dizem que é um inimigo declarado das mulheres, um amigo da solidão! - Concluiu Anatólio sorrindo.
Ao ouvir pronunciar o nome Giovana, Valéria, estremecera.
Em seus sonhos, muitas vezes julgara ter ouvido esse nome, ainda que não soubesse a quem era dirigido aquele apelativo.
— Podes estar tranquilo, Anatólio, que não tenho, em verdade, a menor intenção de namorar Rothschild.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:06 pm

Ademais, tens razão, ele traz em si qualquer coisa que repele.
Com isso deram por terminado o assunto, e a conversa girou em torno da próxima viagem à Itália.
Como a Senhora Samburoff conhecesse o ardente desejo da filha e tendo em vista a opinião do médico, não fez oposição à viagem.
Os facultativos tinham-se declarado francamente de acordo com a mudança de ares.
Esperavam disso os maiores benefícios para Valéria.
Negócios urgentes porém, chamavam à Senhora Samburoff à sua propriedade nas proximidades de Moscou, e assim ficara resolvido que partiria na companhia de sua filha menor, imediatamente.
Quanto a Valéria, esta permaneceria, até a data de sua partida para a Itália, na residência de sua tia e madrinha.
Cerca de duas semanas depois, pôde Larissa hospedar a sua favorita Valéria.
Dois quartos bem instalados numa torre da Vila, foram postos à disposição da hóspede.
Daí, tinha a moça um belíssimo panorama sobre o parque e o lago.
O tempo, como costuma ser em S. Petersburgo, havia mudado repentinamente.
O sol brilhava morno, e uma aragem cariciosa, perfumada, tornava agradável a permanência no parque e nos terraços.
Alguns dias depois de sua chegada à casa dos Bakulim, achava-se Valéria sentada no terraço, diante do cavalete que sustentava o retrato de seu irmão Anatólio, que pretendia oferecer de presente à genitora.
Larissa partira para a cidade, a fim de fazer compras, e estava sendo esperada a todo o momento.
Foi aí que anunciaram a Valéria, o Barão de Rothschild!
A moça não o tornara a ver, depois do primeiro encontro - e de novo sentiu-se tomada da mesma sensação de desconforto e aversão à entrada da visita.
Dominando-se a custo, recebeu-o com algumas palavras amáveis.
Rothschild desculpou-se por coincidir a sua visita com a ausência da Sra. Bakulim e acrescentou que recebera de sua tia uma carta em que tratava da viagem à Itália, e cujo conteúdo desejava comunicar a Larissa.
— Creio, Pawel, que minha tia regressará a qualquer instante.
Diz-me: escreve Helena outra vez sobre o castelo encantado?
Quis saber Valéria.
- Esse castelo interessa-me extraordinariamente.
Ela observava Rothschild com atenção e notou que seu rosto, à luz do dia, parecia quase de cera transparente.
“Como ele parece doente! - Pensou ela.
Talvez tenha após si, e outra vez, uma peregrinação nocturna”...
O olhar de Rothschild buscava-a.
— Tia Helena, certamente escreve sobre Montinhoso.
Ela está quase que fanática por esse castelo.
Afirma ter já visto algo, como que um fogo-fátuo, que adejava sobre uma ponte.
E as pessoas do lugar logo lhe narraram uma lenda que fala sobre a chama errante.
Contam existir por ali, alhures, uma capela mortuária, de cujo altar a heroína da lenda derrubou a imagem da Virgem Santa.
Enquanto essa imagem não for recolocada no seu lugar, a alma da pecadora seguirá perseguida pela desgraça e peregrinará sem descanso.
— Céus, como tudo isto é interessante! - exclamou Valéria deslumbrada.
0 Com que imenso prazer eu não iria descobrir essa capela para recolocar a Virgem no seu altar, e, com o auxílio de Tonilim, restituir à inquieta pecadora a sua paz.
O Barão sorriu imperceptivelmente.
— Sim, tudo isto é, realmente, muito interessante.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:06 pm

Sinto-me, também, atraído para lá, desejoso de descobrir esses segredos.
Todavia...
digo a mim mesmo se não seria mais certo, e melhor, deixar que os mortos repousem em suas tumbas, não revolver o passado, em suma.
A chegada de Larissa interrompeu a conversa sobre fantasmas.
A palestra generalizou-se, e o assunto não pode deixar de ser a viagem.
Na presença de todos, Larissa comunicou que seu esposo, ao contrário do que prometera, não poderia acompanhá-los até Milão.
Assuntos inesperados e inadiáveis, exigiam a sua presença na Crimeia.
Jorge tão-pouco perderia ir. Tudo isso era extremamente desagradável às duas senhoras, pois viam-se sem companheiro para a viagem.
Naturalmente, desde logo, Rothschild prontificou-se à acompanhá-las.
Tanto mais que pretendia aceitar o convite da tia, Larissa aceitou, agradecida, o oferecimento.
E passaram-se os dias.
Rothschild tornou-se um hóspede constante dos Pawlosk.
Ele não pode evitar que os fios misteriosos que o levavam para Valéria, se tornassem cada dia mais fortes.
Mas os sentidos que o aproximavam, imperceptivelmente, eram enigmáticos e difíceis de analisar.
Os olhos negros do Barão tinham aprisionado Valéria completamente contra a sua vontade, e nenhum outro homem mais entrava em suas cogitações.
Mas quando Rothschild chegava, só a sua presença ou um contacto casual com ele, eram suficientes para que se enchesse de susto.
Nessas ocasiões, se seguisse os impulsos instintivos, sairia correndo para longe.
Os sentimentos de Rothschild não eram menos extraordinários:
oscilavam entre a paixão, a aversão e um movimento de fuga apavorada.
Nenhum dos dois podia compreender a dimensão de seus sentimentos, e tudo atribuíam exclusivamente à superexcitação de nervos.
Uma semana antes da partida para a Itália, Valéria foi a S. Petersburgo.
Sua mãe havia regressado por alguns dias de sua propriedade, a fim de fazer as últimas compras, os preparativos de viagem e despedir-se da filha.
Apesar de satisfeita, à perspectiva das muitas visitas de despedida, das compras e da arrumação de malas, não pode Valéria fugir a um nervosismo febril e doentio.
Tinha um pressentimento seguro de que aquela viagem se faria sob o influxo de uma má estrela, que nunca mais voltaria para casa e nem tornaria a ver os seus.
Na última noite que passou em S. Petersburgo, não conseguiu pregar os olhos, Como que vindos de muito longe, ouvia os sons de cantos fúnebres e sentia o rosto bafejado por uma aragem glacial.
Seus nervos não encontravam repouso.
Durante toda a manhã seguinte, chorou ininterruptamente, abraçando e beijando a mãe e o irmão.
A senhora inquieta, propôs-lhe partisse junto com a progenitora à propriedade ancestral, a fim de refazer-se, esquecendo a viagem à península.
Valéria, porém, não aceitou o alvitre.
Receava magoar Larissa.
Finalmente, Anatólio conseguiu tranquilizá-la.
Prometeu ir pessoalmente buscá-las, findos dois meses em Montinhoso.
Já dentro do comboio, a sensação de terror afectou-a mais uma vez.
Não pode conter as lágrimas, e só a custo conseguiu a progenitora acalmá-la um pouco.
Rothschild reservara lugar no mesmo vagão.
Foi convidado por Larissa a passar para o compartimento reservado por ela.
Gostosamente aceitou o convite.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:07 pm

Num momento, pensativo, observou Valéria, e involuntariamente pensou numa passagem de Destinos do Passado, que firmara-se em sua memória:
A maioria dos encontros com nossos semelhantes não é mera obra do acaso.
O destino coloca-nos frente a frente aqueles por intermédio dos quais somos submetidos a esta ou aquela provação, ou temos que purgar um erro do passado.
Estas palavras convenciam-no, cada vez mais, de que a Providência levava-o ao lugar em que qualquer coisa de terrível, qualquer coisa de funesto, esperava-o.
Com grande força de vontade, conseguiu, afinal, liberta-se de tais pensamentos.
“Esta menina é excessivamente nervosa, e com suas lágrimas está também atacando os meus nervos!”
0 Pensou ele e esforçou-se, zangado com sua própria excitabilidade, por exibir uma aparência mais jovial.
Para distrair as senhoras, ofereceu-lhes confeitos, e iniciou uma conversa mais pueril.
A viagem arrebatou os dois jovens de seus tétricos pensamentos.
Em Milão, Valéria já se encontrava outra vez alegre, e gozou o panorama da bela cidade.
Rothschild era um guia amável e jeitoso, que dispunha também da necessária dose de humor e vivacidade para tornar interessante e divertida a visita aos monumentos dignos de serem vistos.
A viagem, os passeios, as empresas em comum, levaram os três a uma relativa camaradagem.
Concordaram em visitar Florença somente no regresso, e seguiram directamente para Montinhoso, a residência de Helena.
Numa pequena estação entre Florença e Modena, deixaram o trem, e foram prazerosamente recebidos por Miguel Muranoff, filho de Helena.
— Uma carruagem está a vossa disposição, mas o último trajecto para Montinhoso terá de ser feito a cavalo.
A estrada é íngreme demais...
Quando deixarmos a estrada, enveredaremos por um atalho.
Encontrareis uma região fabulosamente medieval! - Dizia Mischa, alegremente.
A viagem foi morosa.
O caminho tornava-se cada vez mais íngreme.
Afora isso, encontrava-se em péssimo estado de conservação.
Mas os viajantes nem percebiam os solavancos do carro tão embebidos iam nas belezas naturais.
Quanto mais avançavam, mais selvagem e romântica tornava-se a região.
A mata fechada, cobria montes e vales e, ora à direita, ora à esquerda, profundos desfiladeiros bordejavam o caminho.
Larissa estava encantada.
— Como foi possível a Helena encontrar este ninho de coruja?
Já estamos agora a bem três horas de caminho e ainda não topamos viva alma.
— Isto tudo é, realmente; maravilhoso! - Disse Mischa.
Logo chegaremos a uma pequena vila de cerca de dois mil habitantes.
De lá, então, não estaremos distantes de Montinhoso.
No máximo ainda uma hora de viagem.
Mamãe leu num jornal florentino um anúncio em que pintavam este castelo de um modo singularmente belo.
Pusemo-nos a caminho e ela, desde o primeiro momento, esteve tão entusiasmada com esta bela região, com o velho castelo e a sua quase patriarcal criadagem, que o alugou imediatamente.
E como dizem estar agora à venda, quase temo que finalmente o compre.
Logo estaremos na cidadezinha, que, em suma, não difere de outras centenas de pequenas cidades italianas:
ruas estreitas e tortuosas, crianças sujas que brincam e esmolam de permeio a alguns monges, mulheres e vilões curiosos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:07 pm

4 - O CASTELO

Num velho albergue, os viajantes tomaram uma ligeira refeição, repousaram por algum tempo, e depois prosseguiram o caminho a cavalo.
A estrada tornara-se quase a pique, desenhando intermináveis curvaturas, apresentando sempre belos e novos panoramas. Quanto mais se aproximavam do castelo, tanto mais inquieto tornava-se Rothschild.
Seu coração pulsava irregularmente, a garganta apertava-lhe como que estrangulada, e nas fontes sentia a mais dolorosa das pressões.
A própria Valéria sentia um indefinível peso ao longo dos membros, um torpor, um estremecimento em todo o corpo. Por esse tempo, a pequena caravana alcançava um desfiladeiro.
No seu ponto mais estreito viam-se ainda restos de antigas construções, que, provavelmente, em tempos idos, vedavam o acesso ao castelo.
Depois veio uma curva forte pela direita e um panorama cativante se apresentou.
Os cavaleiros achavam-se sobre um grande pátio.
À direita, erguiam-se montanhas íngremes recobertas de matas, e à esquerda estendia-se um profundo vale, em cujo centro abria-se um lago liso como um espelho.
No ponto sobranceiro desse pátio, erguia-se o antiquíssimo castelo de salteadores, com seus muros maciços e suas torres quadradas:
uma fortaleza protegendo dos inimigos os seus habitantes.
— Como é maravilhoso isto! - Gritou Larissa!
Mas interrompeu-se imediatamente, assustada.
- Pelo amor de Deus, Valja, o que é que tens?
Valéria erguera-se erecta da sela e, com os olhos muito abertos, transbordantes de um horror incomensurável, fitava o castelo.
Com os lábios trémulos somente pode balbuciar ainda:
— Foi aqui!
Eu reconheço tudo outra vez... - E sem sentidos escorregou da sela para trás.
Teria caído da montaria se Miguel não a tivesse socorrido.
Também Rothschild aproximou-se rapidamente, auxiliando a tirarem-na da sela e deitando-a sobre a relva.
— Certamente foi o calor que exerceu o seu efeito sobre os nervos fracos da pobre menina!
Como a levaremos ao castelo se não despertar do ataque? - Perguntou ansiosa Larissa.
— Não se inquiete, senhora!
Já fomos vistos de lá.
Mamãe e Lolo, e mais algumas pessoas já vêm ao nosso encontro, e nos ajudarão.
Foi nesse momento que se acercaram Helena Muranoff com sua filha, o velho castelão, sua mulher e um criado.
A satisfação do encontro, foi turbada pelo sucedido a Valéria.
Lolo especialmente inquietou-se bastante, e somente se deu por satisfeito quando lhe explicaram que o mal da amiga fora provocado pelo calor e a fadiga.
Com o auxílio do castelão, os dois senhores conduziram a moça desfalecida ao castelo, onde logo conduziram-na aos aposentos que lhe tinham sido reservados.
Já despida por Larissa, e deitada, ela despertou, e abriu interrogadora os olhos.
Helena trouxe-lhe um refresco, e em breve a donzela readormecia profundamente.
As senhoras acalmaram-se e dirigiram-se ao salão, onde os cavalheiros já as aguardavam. Tomaram então uma refeição farta, finda a qual Helena conduziu-os ao terraço.
Desse local tinha-se uma vista esplêndida do vale e o lago e algumas ruínas circundadas de árvores seculares.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:07 pm

— Estas ruínas são de um antigo convento que há muitos anos foi destruído pelo fogo e não reconstruído - explicou Helena sorrindo maliciosamente.
- Creio que o verdadeiro motivo que obstou a reconstrução foi o medo supersticioso aos fantasmas.
Pois que, tanto quanto se pode averiguar, as paredes exteriores continuam ainda muito sólidas, e os interiores não seria difícil reconstruir-se.
Mas esta região não tem boa fama.
Dizem que traz infortúnios aos que a habitam.
E quando, um dia, um raio caiu sobre o convento, os supersticiosos monges aproveitaram-se dessa manifestação da força do céu como pretexto para fuga e deixaram o edifício entregue às chamas.
Mais tarde se estabeleceram nas proximidades da pequenina cidade.
— Só o convento ou também o castelo tem fama de assombrado? - perguntou Rothschild que se acalmara da inicial perturbação.
- Também o castelo, naturalmente! - Apressou-se Helena em responder.
E este até mais de que o convento.
A aparição dos espectros começou já há muitos anos, depois que se deu aqui qualquer facto horripilante, cujas minúcias ninguém deseja saber exactamente mas que, em geral, admite-se ter sido extraordinariamente horripilante...
— Faz-me um favor, titia. Se conheces qualquer coisa que seja, dessa história, conta-ma. - Pediu Pawel.
Já as tuas cartas despertaram em mim um vivo interesse por este castelo Undolfo e seus mistérios.
— O que ouvi do castelão e sua mulher contarei com muito prazer.
O velho Bernardino sabe quase tudo no terreno da lenda sobre este castelo.
Há mais de três séculos o cargo de alcaide vem pertencendo à sua família, passando de pai a filho.
Cada um conta ao outro, certamente, o que sabe.
Fundadora e proprietária deste castelo de salteadores, é a estirpe dos Condes de Montinhoso.
Oriundos de Modena, foram outrora riquíssimos e considerados.
A parte mais antiga do castelo foi construída, mais ou menos por volta do século XIV.
Pouco a pouco, foi se construindo esta e aquela parte, até que em fins do século XIV, deu-se o acontecimento há pouco referido, que soterrou a fama e a consideração do castelo e de seus proprietários.
A partir de então, os Montinhoso foram perseguidos pelo infortúnio.
A maioria deles faleceu na primeira juventude ou sucumbiu em desastres.
A fortuna do clã desapareceu, e os portadores do nome Montinhoso tornaram-se, de geração em geração, sempre excêntricos.
Uma androfobia quase inacreditável afastava-os de quaisquer relações com outras pessoas de suas condições.
O último Montinhoso faleceu há cerca de sete anos passados, com a idade de 95 anos.
A maior parte de sua vida, cerca de 50 anos, passou-a neste castelo em completa solidão e afastamento.
Ele lia e estudava a história da família, coleccionando todas as lendas e histórias que se teceram em torno do castelo e seus habitantes.
Por sua morte, o castelo passou às mãos de seu primo, o Marquês Bianco.
Este, até agora, não pôs o pé aqui; não quer saber deste terrível ninho e procura vendê-lo.
Essa venda, por sinal, está anunciada há sete anos.
Até o momento, porém não se apresentou candidato à compra.
Sem considerar que esta propriedade não produz renda nenhuma, pois que seus melhores terrenos já foram de há muito vendidos, os prováveis compradores são afastados pela má fama que pesa sobre o castelo em virtude dos supostos fantasmas.
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