Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:16 pm

Não me obrigues a dar um rápido fim a ti, a outra e a mim mesmo, com um revólver!
Um grito abafado partiu dos lábios de Dina:
— Pawel, o que fizeste!!!
Quem é essa mulher?
Será Valéria?
— Deixa-te de imaginações.
Crês que eu te diria?
Ela está longe daqui!
Disse-te toda a verdade tão somente para que possas ponderar tudo e chegar a uma resolução.
Examina-te! Vê se me amas realmente tanto que não te possas separar de mim!
Eu te supliquei que me libertasses:
o teu não definitivo será a minha sentença de morte!
Dina entendeu que aquelas não eram palavras vãs, que ele falava seriamente.
Seguiu-se um silêncio de minutos.
Os dois esposos olhavam-se pálidos e abatidos.
— Não desejo a tua morte, Pawel!
E como na tua vida sou apenas um zero, um desagradável empecilho, submeto-me.
Separar-me-ei de ti, nunca mais hei-de procurar-te, nunca mais pedirei a tua protecção.
Sou rica! O ouro pode ser, às vezes, o melhor protector.
Mas uma coisa te peço e espero de ti, não me negues:
não permitas por enquanto, que as pessoas que estão interessadas nisto, saibam de minha resolução.
Ao jantar direi que, em virtude de um assunto que se prende à herança, partirei dentro de dois ou três dias para S. Petersburgo, e que lá te esperarei.
Peço-te por isso que procedas, nestes dois dias, como se estivéssemos na melhor harmonia, que não me trates tão fria e desprezivelmente.
Afinal não importa a ninguém se nos divorciamos ou não!
Espero que tomarás em consideração o meu pedido.
Assim que eu me tiver afastado, poderás dar os devidos passos para o divórcio...
Rothschild respirou aliviado, tomou a mão de Dina e beijou-a.
Em seu coração lutavam vergonha e remorso contra a louca alegria, a satisfação de readquirir a sonhada liberdade.
— Agirei de acordo com os teus desejos.
Ninguém saberá o verdadeiro motivo da nossa separação.
Agradeço-te a generosidade, que saberei, acredite, prezar!
Mas devo partir agora.
Nossa conversa perturbou-nos a ambos, necessitamos de sossego.
À tardinha voltarei e, então, peço-te, me falarás da morte de teu pai adoptivo.
Para evitar um falatório inútil entre a criadagem, talvez seja conveniente que eu passe a noite no teu quarto... - Acrescentou titubeante, sem fitar a moça.
Apertou-lhe a mão e apressou-se em sair do quarto.
E não viu o olhar enigmático que Dina lhe enviou.
Só, ela caiu sobre uma poltrona e apertou a mão contra o coração que saltava doidamente.
— Desfazer-me dele, agora que descobri o Elixir do Amor!!! Não!
Nunca! Agora não!
Eu te amo, Pawel, e permanecerás meu.
E dou graças a Deus que deu a ideia de vires cá, esta noite.
Amanhã, por ti mesmo, já não quererás te afastar de mim.
Esta noite, todas essas ideias horríveis que pulsam no teu cérebro estarão expulsas... - Dina monologava.
Mas... e a mulher que ele desonrou!
Ora, que me importa ela!!!
Será despedida com uma boa soma em dinheiro.
Se lhe faltou dignidade, apenas receberá o castigo que merece...
Eu é que não me furtarei à felicidade, por sua causa!
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:16 pm

11 - O PASSADO VEM À TONA

Reuniram-se para o jantar.
Pouco tempo antes, Rothschild fizera à tia a narrativa, por sinal bem pouco clara, do seu casamento, e acrescentara que sua esposa seguiria nos próximos dias para S. Petersburgo, onde se encontrariam depois.
Ao jantar, Dina confirmou essa comunicação.
Disse que, se Rothschild tinha interesse em estar presente por ocasião da abertura dos aposentos murados, ela não se importava absolutamente com aquilo.
O castelo apenas infundia-lhe horror.
Rothschild demonstrou estar bastante amável.
Davam ambos quase a impressão de dois jovens cônjuges que se sentem reciprocamente felizes.
Intimamente, porém, o Barão não se sentia bem.
Evitava o olhar perscruciante de Valéria e guardava, impacientemente, a noite para explicar-lhe tudo e tranquilizá-la.
O estado dela preocupava-o sempre mais, principalmente porque vislumbrava nos seus olhos a misteriosa expressão que animava Giovana.
A palestra geral girava outra vez, e naturalmente, sobre os quartos fechados.
A este respeito, lembrou-se de Tonilim.
Larissa havia recebido carta dele, pela qual fazia-se esperado nos próximos dias.
Em vista disso, Rothschild decidiu iniciar imediatamente a derrocada das paredes para abreviar o tempo desse trabalho.
Depois do jantar, fizeram um passeio em comum, que, entretanto, interromperam logo em virtude de uma tempestade que se anunciava.
Ao crepúsculo, o céu fizera-se quase todo negro.
A espaços, ziguezagueantes relâmpagos iluminavam o castelo com a sua lúgubre claridade.
Por sobre as montanhas ecoavam, ensurdecidos, os estrondos do trovão, e um vendaval violento sacudiu com fúria a copa do arvoredo.
— Não podemos mais ficar no terraço! O tempo vai ficar horrível...
0 Observou Helena dirigindo-se aos outros.
— Creio que não, titia!
A tempestade está longe, e, provavelmente, passará por acolá sem alcançar-nos! - Disse Rothschild sorrindo.
Com apetite, comeu ele um dos pêssegos que Valéria serviu numa bandeja.
Nesse instante, ouviram todos, distintamente, vindo de qualquer parte, o som fatal dos sinos dobrando e o cântico fúnebre em coro.
Lolo ergueu-se assustada e olhou para a janela.
— Meus Deus!
Vede o que se passa nas ruínas do monastério... — gritou aterrorizada.
Ergueram-se todos.
E viram, saindo das ruínas, lenta, uma longa fila de luzes azuladas que, como numa procissão, dirigia-se para as catacumbas.
O cântico tornava-se de minuto em minuto, mais alto, e parecia aproximar-se do castelo.
Um ruído forte arrancou um estremecimento de pânico ao grupo reunido junto da janela.
Savéria tinha deixado cair de susto, o vaso de cristal que continha os pêssegos.
Segundos depois perdeu-se no ar o cantochão, e silenciaram os sinos.
— Quereis saber de uma coisa? - Fez Helena zangada.
Estas histórias já estão me afectando o sistema nervoso.
Parece, realmente, que há aqui qualquer coisa de anormal!
Singulares pensamentos ocorrem-me ultimamente...
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:17 pm

— Mas o que é isso mamãe?!
O que dizes? - Retrucou Loló que desde o contrato de casamento se tornara livre pensadora.
Deixa aos monges o prazer das suas serenatas ao Maledetto.
Isto, afinal, é lá com eles!
Ouvimos o De Profundis três vezes e, diz-me, lá, o que de mal nos sucedeu?
— Tens razão, Lolo!
Seria tolo nos entregarmos a esses negros pensamentos, deixarmo-nos influenciar tanto pela velha namorada de lendas, e acreditarmos nestas últimas!!!
Tomemos por exemplo a baronesa, que recebe essas tolices com um sorriso...
Uma forte saraivada de vento varreu o terraço e obrigou-os a se retirarem.
A tempestade baixava, varrendo os ares.
Fecharam-se portas e janelas, e bem cedo buscaram todos os seus aposentos.
Dina estava de mau humor.
Ela ordenou à camareira que trouxesse doces e frutas, e, em seguida, dispensou-a.
Nem bem Marieta abandonou o aposento, iniciou os seus preparativos.
Em primeiro lugar abriu a porta do armário secreto e retirou dele, cuidadosamente, o vaso e a taça.
Lavou-os e poliu-os.
Ficou satisfeita quando viu o cristal e o ouro cintilantes.
Depois agitou o vaso, a fim de verificar se não se secara o conteúdo.
O líquido cor de âmbar parecia ainda fresco, porém grosso como um mel.
Deixou tudo sobre a mesa e iniciou a sua toalete.
Dina queria apresentar-se mais bela do que nunca.
Um toucador de seda branco, debruado de rendas, envolveu o seu corpo esbelto, sobre cujo dorso despencavam cascateando em ondas negras, os seus cabelos soltos.
Contendo a cabeleira, atou-a com uma fita guarnecida de pedras preciosas, presente de seu pai adoptivo.
O relógio batia onze horas:
Dina já estava pronta!
Ela aproximou-se da mesa e abriu a ânfora de cristal.
Um aroma embriagante veio ao seu encontro e encheu o quarto todo.
Embora activo, era um perfume agradabilíssimo.
— O mal aqui, é que não sei qual a porção que se deve tomar! - Murmurou.
Ajuntarei um pouco de vinho, para que Pawel não desconfie.
E preparou para o esposo uma taça.
Quando o relógio bateu onze e meia, Dina resolveu esvaziar a sua porção.
Precisava dar tempo ao elixir de fazer, convenientemente, o seu efeito.
Ao jantar, Pawel dissera-lhe que viria à meia-noite.
Dispunha, pois, do tempo exacto.
Ocupada com os seus preparativos, Dina não notava a fúria da tempestade que se aproximava mais e mais.
Acercara-se da mesa e experimentava a bebida, que lhe pareceu muito doce.
Esvaziou então, de uma vez, o conteúdo da taça, sem ao menos considerar o risco que corria, ingerindo o líquido desconhecido e centenário.
Um trovão formidável fez estremecer o castelo até os seus alicerces, e um relâmpago ofuscante iluminou o aposento com sua luz azulada.
Dina estremeceu.
Sentiu que um entorpecimento atacava-a.
Um segundo trovão, que fez retinirem as vidraças nos seus caixilhos, levou-a a cair, assustada, numa poltrona.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:17 pm

Quis então erguer-se e não pode.
Os seus membros tinham-se paralisado.
Um pavor terrível acometeu-a e lhe comprimiu a garganta.
Não conseguiu gritar.
Diante de seus olhos tudo se obscurecia, e uma densa névoa pareceu envolvê-la.
Sentiu uma dor atroz correndo-lhe o corpo que parecia devorado pelas chamas eternas.
Gritos horríveis chegavam aos seus ouvidos, - soluços, gemidos, interrompido por sonoras gargalhadas.
Então pareceu-lhe estar numa fechada mata, descalça, de saiote curto, correndo por um trilho em direcção à clareira.
Nesta via, deitados e de pé, ao redor de uma fogueira, homens de negras cabeleiras, em trajes coloridos.
Um pouco à distância, sobre um cepo, um idoso senhor, em ricas vestimentas.
Seus olhos não denunciavam a idade que seus cabelos brancos provavam.
Brilhavam e ardiam como labaredas.
E diante desse belo signore Dina dançava oferecendo-lhe o copo de vinho ao qual juntara, um pouco antes e às pressas, algumas gotas de um líquido vermelho.
O homem sorveu o vinho, ergueu-se e atirou aos homens, junto da fogueira, uma bolsa de ouro.
Depois assentou-se à frente da sua montaria e galopou com ela através das florestas, em direcção ao castelo.
Então achou-se outra vez no seu quarto.
Tinha na mão a taça cheia do elixir.
Abrindo-se, o nicho da parede, deu passagem ao vulto de um homem.
Viu-lhe o rosto ameaçador, quando aproximou-se.
Ela quis desviar-se, quis fugir, mas não conseguiu mover-se.
O homem parou diante dela.
Com um sorriso demoníaco, que contraía todo o seu rosto, falou numa voz rouca:
— Até que enfim a justiça te alcança, criatura miserável!
Tu és a maldição que pesa sobre Montinhoso.
Morres agora, também tu, por meio do elixir que tu mesma preparaste.
Maldita sejas!
O braço do homem desceu violentamente sobre a cabeça de Dina.
Ela sentiu que sua fronte bipartia-se.
Depois perdeu a consciência...
A tempestade bramia com violência que parecia sem fim.
Os trovões, que nos recôncavos das montanhas encontravam eco, fundiam-se num único bramido que rolava ameaçando abalar o castelo nos seus mais profundos fundamentos.
Ininterruptamente, raios amarelos de enxofre, de ofuscante claridade, cortavam o firmamento e banhavam montes, matas, edifícios, numa luz fantasmagórica.
As árvores seculares, arcavam sob o peso das saraivadas do vento, a galharia rugia como um mar encapelado.
Ninguém no castelo conseguiu dormir.
Lolo e Miguel ergueram-se e buscaram a proximidade da genitora, em cujo quarto assentaram-se conversando baixinho.
Larissa saltou da cama para ir ver Valéria.
A porta do quarto da moça estava fechada.
Atendendo ao apelo da madrinha, ela respondeu que já se achava deitada e que não tinha medo.
Larissa regressou aborrecida ao seu quarto.
Aquela transformação que vinha notando em Valéria, não lhe indicava boa coisa.
Decidiu orar, pedindo a Deus que a noite transcorresse sem desastres no castelo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:17 pm

No seu aposento, Rothschild andava inquieto de um lado para o outro.
Não sabia o que fazer.
Queria e precisava falar com Valéria. explicar-lhe tudo, mas com o mau tempo, não se atrevia a tomar nenhuma providência, não se atrevia a dar um passo sequer, nos aposentos abandonados e misteriosos.
O barulho produzido pelos trovões, o ulular do furacão, interrompido e acompanhado pelas ofuscantes descargas eléctricas, parecia um caos de vozes gigantescas e sobrenaturais.
E de permeio a tudo isso, ouviu, de repente, o som longínquo de um sino que se pôs a badalar enlouquecido.
Rothschild supôs que o vento tivesse arrebentado o velho sino da torre.
Uma sensação dolorosa possuiu-lhe o espírito e obrigou-o a buscar assento.
Mas um grito desesperado fê-lo erguer-se rápido:
— Paulo!... Paulo!... - ouviu gritarem.
— Deus do céu, isto não terá mais fim?
Por toda a parte persegue-me esse apelo terrível!
Preciso ver Dina...
Nisto bateram à porta secreta.
Seria Valéria?
Teria ela vindo, apesar do mau tempo?
Rapidamente abriu.
Uma luz líquida ofuscou-o.
Do outro lado, todas as velas estavam acesas.
Ao centro do aposento, viu Giovana num vestido branco, bordado a prata.
O toucador branco, nupcial, prendia-lhe tufos de véus ténues sobre a fronte.
Apesar do seu olhar, por vezes frouxamente adormecido, próprio do seu estado sonambúlico, ela parecia divinamente bela.
— Tu vens por fim, Paulo!
Oh! Esse tempo horrível na noite das nossas núpcias...
Mas tu estás outra vez com esses feios trajes! Tira-os!
São como um muro que nos separa...
Assim não quero ver-te!
Troca já esses fatos.
Tens ali as tuas vestes de festa, que eu mesma trouxe.
Apressa-te!
Não ouves por acaso os sinos que tangem para as nossas bodas?
Depressa! Eu te espero.
Rothschild não pode responder.
Como se sob o influxo de um encantamento, dirigiu-se ao seu quarto e envergou os trajes medievais.
Com cada peça que vestia, parecia que o seu ânimo se modificava.
Estava, aos poucos, se distanciando do presente.
Com prazer, viu no espelho que já não era Pawel Rothschild, mas Paulo de Montinhoso.
Giovana tinha razão ao querer apenas amar a Paulo.
Pawel não podia comparar-se-lhe em beleza e brilho! - passou-lhe pela mente.
E um sorriso voluptuoso entreabria-lhe os lábios, enquanto fechava o cinto de ouro.
Olhou-se outra vez ao espelho e passou, então, contente consigo mesmo, ao quarto de Giovana.
Já se esquecera completamente de Valéria.
O presente substituíra-se pelo passado.
Quando Giovana viu-o, ergueu-se de um salto, estendendo-lhe os braços.
— Como és belo, Paulo!
Eu te amo assim.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:30 pm

Arrebatadamente ele tomou-a nos braços, beijando-a, e lhe jurou o seu amor.
— Falamos agora pela última vez do nosso amor, Paulo.
O sino não tange para festejar a nossa boda, mas para chorar a nossa morte.
Ouves como a tempestade ruge e o trovão ribomba?
Os espíritos erguem-se do passado para a terrível vingança...
— Mas não fales de morte, Giovana!
A nossa frente está o amor e a felicidade, e infindáveis hão-de ser para nós, e fantasticamente belas, as horas do futuro.
Um trovão fez estremecerem as paredes.
Um raio parecia ter atingido a torre do castelo, tão forte fora o abalo.
— Deixa-me!... Soou a hora!...
Quem quer que sejas, Paulo de Montinhoso, ou Pawel Borisowitch, és um traidor!
Aqui entre estas paredes, tu, um homem casado, como fizeste outrora, há séculos passados, quebraste o teu juramento e me desonraste, entregando-me à vergonha e à morte!
— Giovana, estás fantasiando! - Gritou Rothschild, tentando de novo abraçar a moça.
Valéria repeliu-o de novo, correu para o leito e caiu sobre ele.
Mas ergueu-se no mesmo instante, rápida, tomou uma taça que estava sobre a mesma e esvaziou-a de um trago.
— Eu morro, - disse ela roucamente - mas tu não me escaparás, Paulo!
Rothschild quis arrebatar-lhe o veneno, mas quando chegou aos degraus do estrado, junto ao leito, Valéria arremessou de si a taça vazia e, agarrando-o pelo braço, obrigou-o a ajoelhar-se.
Um calafrio glacial percorria-lhe o corpo.
Com os olhos muito abertos fitava ela, aquele que subjugara.
E gritou então desesperada:
— Miserável!
Uma vez mais me atraíste para cá, e me desonraste!
Com estas palavras, sacudia-lhe o braço, sem largá-lo.
Exânime, caiu então, sobre as almofadas e ficou ali, fria e enrijecida.
Rothschild procurou libertar sua mão, mas inutilmente.
Como um bracelete de aço, aqueles dedos poderosos abarcavam o seu punho recordando-lhe o destino de Paulo de Montinhoso.
Um terror pânico sacudiu-o.
Pareceu-lhe já estar sentindo o bisturi médico em seu braço, o corte que o livraria daquela garra fatídica.
De seu peito desprendeu-se um grito angustioso, desesperado, que ecoou através de todo o castelo.
Seus olhos fecharam-se, e, como que moribundo, ele inclinou-se para o solo, caindo aos pés da cama...
X X X
Pálida e nervosa, Helena olhava os filhos, sobre o divã.
Com o som pujante do último trovão, todos os três se tinham assustado tanto que se aconchegaram juntinhos.
Houve depois um grande silêncio...
A tempestade amainava.
E nesse silêncio foi que ecoou então aquele grito estrídulo e horrorizado como o grito de angústia de um animal sacrificado.
— Deus omnipotente!
O que foi isto?
Miguel ergueu-se de um salto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:30 pm

— Ouviste o grito, mamãe?
Veio da direcção do quarto de Pawel.
- Sim, Miguel... Foi isso mesmo...
— Irei ver o que se passa com ele, e se estiver dormindo, eu o despertarei.
Há-de estar acordado, certamente... - Disse Miguel resoluto.
— Quem poderia dormir com esta tempestade?
Mas... tu vais sozinho?
Não tens medo?
— Que juízo fazes de mim, mamãe?
Eu não vim para cá porque tivesse medo, mas para encorajar-te e à Lolo.
Mas agora irei...
A tempestade está amainando...
Enquanto Miguel acendia uma vela, bateram na porta.
Era Larissa, que, do lado de fora, perguntava se tinham ouvido o grito.
— Eu temia que tivesse acontecido qualquer coisa a Valéria.
Bati na porta do quarto dela e não me respondeu.
Oh! Meu Deus, que ela não tenha tido outra vez um daqueles ataques!
Ao menos se eu pudesse entrar lá! - Larissa lamentava chorando.
— O grito veio, não tenho dúvidas, da direcção do quarto de Pawel.
Irei lá imediatamente, verificar o que há.
Nervosas as damas juntaram-se conversando aos cochichos.
Algum tempo depois, desiludido, Miguel regressava.
— Não compreendo o que se está passando.
O quarto de Pawel está fechado.
Ele não atendeu ao meu chamado, nem com os golpes que desfechei na porta, e que teriam acordado um morto.
— Mas eu pensei nisso, também, e fui ao quarto de Dina.
Pela fresta da porta, vi um raio de luz e supus que Pawel estivesse com ela.
Como não ouvisse vozes, abaixei-me e espiei pelo buraco da fechadura.
Dina estava no penteador sozinha, assentada à mesa, com uma taça nas mãos.
Sem se mover olhava fixamente para a porta.
Chamei por ela, mas não obtive resposta!
Que ideia original esta!
Iluminar profundamente o quarto e, com uma taça nas mãos, sentar-se absorta à mesa... - Concluiu Miguel.
— Possivelmente espera Pawel, tão mergulhada em pensamentos, que nem ouve ou vê coisa nenhuma... - Disse Helena.
— Mas neste caso, onde está Pawel?
Quem sabe se adoeceu? - Exclamou Lolo.
Ah! Miguel, eu sei agora como poderemos entrar no quarto dele!
Sabes, naquele corredor que passa junto ao quarto existe um pequeno nicho, aquele em que guardamos nossas capas e galochas.
Quando, há dias, eu procurava ali um livro que vi sobre uma prateleira, não pude alcançá-lo e segurei-me para não perder o equilíbrio, a um prego que estava fincado na parede.
Nem bem tinha tocado nesse prego, a parede moveu-se, dando passagem para o quarto de vestir de Pawel.
Pretendia contar-te isto, mas esqueci-me.
Este castelo tem, com certeza, ainda outras muitas passagens e portas secretas.
Agora poderemos nos utilizar desta que descobri e penetrar no quarto.
Vai, abre a porta, assim como eu abri-a involuntariamente, e ficarás sabendo se Pawel está doente, ou se aconteceu qualquer coisa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:31 pm

Miguel saiu imediatamente do quarto, deixando as senhoras ocupadas em comentar os sucessos da noite.
Sem dificuldade encontrou a passagem e penetrou no vestiário de Pawel.
O escritório, à esquerda, estava às escuras, mas no dormitório viu luzes.
Cauteloso aproximou-se, mas transpôs o limiar estupefacto.
O quarto estava vazio, a cama ainda não usada!
Diante do espelho grande, as roupas de Pawel, em desordem, espalhadas pelo chão.
Admirado Miguel olhou à sua volta e viu que a mesa e estante estavam afastadas da parede.
A porta secreta, que até então ignorava, achava-se aberta.
— Oh! O malandro.
Enquanto faz-nos esperar por Dionid Tonilim, penetra nos aposentos murados!
Já descobriu a passagem e diverte-se nos velhos compartimentos, e por sinal que iluminando-os feericamente.
Espera lá um pouco amiguinho!
Eu te descobri... - murmurou Miguel!
Aproximou-se cautelosamente da porta pela qual vinha, em borbotões, a luz da outra sala.
Um ar pesado, impregnado de um esquisito odor, veio ao seu encontro.
Curioso, contemplou o aposento com as suas inúmeras velas e candelabros.
Seu olhar percorreu o quarto e se deteve no leito.
Emudecido de espanto e temor, concentrou-se ali.
Num vestido branco, maravilhoso, Valéria estava deitada sobre a colcha, imóvel como uma morta, e de olhos cerrados.
Aos seus pés ajoelhava-se o terrível Paulo de Montinhoso, em seus belos e ricos trajes medievais.
Valéria prendia, pelo punho, o Maledetto.
Miguel sentiu-se estarrecer com aquela visão.
A garganta se lhe comprimiu, o seu coração pareceu parar.
Com todas as forças lutou contra aquela fraqueza, virou nos calcanhares e correu, como que perseguido, através do quarto de Rothschild, forçou violentamente a porta e correu pelo corredor afora até o quarto de sua mãe onde, exausto, caiu ao solo.
— Valéria... Montinhoso...
Maledetto... estão mortos sobre a cama antiga!
Ela segurou o fantasma pelo pulso... - murmurou a custo, e perdeu os sentidos.
Helena julgou que o moço tivesse perdido a razão, deu um grito e caiu ajoelhada ao seu lado.
Larissa, como morta, persistia assentada, sem poder dizer palavra.
Só Lolo conservou a presença de espírito.
Com as pernas trémulas, foi buscar um vidro de sais voláteis que entregou à mãe para fazer Miguel tornar a si.
Ela própria foi cuidar de Larissa, que, em breve, recompunha-se.
Larissa queria que Lolo a conduzisse imediatamente ao quarto de Rothschild, para que pudesse constatar, com os seus próprios olhos, o que sucedera.
Devagar, foi se movendo, vencendo a iminência da síncope.
Lolo resolveu chamar Savéria, antes de irem ver o que acontecera a Valéria e Rothschild.
A velha estava tresnoitada e abatida.
Também não tinha conseguido conciliar o sono, com a tempestade.
Lolo referiu-lhe, em poucas palavras, o que se passava.
— Vem comigo, Savéria!
É preciso despertar a senhora Baronesa e levá-la também.
Ela poderá nos auxiliar, em caso de necessidade.
Não quero que a criadagem saiba do que se passa aqui, e por isso te peço que conserves tudo em segredo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:31 pm

— Ah! Signora, podeis estar tranquila!
A velha Savéria saberá merecer, e não malbaratar, a vossa confiança.
O coração diz-me, que com o signor Barão deve se ter dado qualquer coisa de grave.
Embalde não foi, por certo, que os monges entoaram o De Profundis tantas vezes, e que a signora Yolanda apareceu.
A necessidade gera heróis, e Lolo pode demonstrar isso nesse caso.
Depois de certificar-se mais uma vez de que nem a mãe nem Larissa eram capazes de auxiliá-las, e de que Miguel continuava sem sentidos, a moça acendeu uma vela e procurou, na companhia da Savéria, o quarto de Dina.
— Vede, signorina, ainda há luz no quarto da Baronesa, e ela, provavelmente, não dormiu ainda!
— Tanto melhor.
Não perderemos tempo nesse caso, esperando que ela se vista. - Respondeu Lolo.
E bateu na porta.
Não obtendo resposta, Lolo bateu outra vez, com mais força.
Ainda nada!
Entraram então as duas, mas pararam irresolutas, entrefitando-se perplexas.
Diante delas, assentada junto a mesa, estava Dina, com a taça entre os dedos, fitando-as singularmente, com uma expressão quase de medo.
Seus lábios estavam entreabertos.
— Se estás acordada, Dina, por que não nos respondeste? - Perguntou Lolo, um tanto hesitante.
— O que aconteceu à signora?
Savéria aproximou-se de Dina e tomou-lhe a mão.
— Santa Maria!
Ela está morta e transformada em estátua!...
Apesar de terrivelmente assustada, Lolo se aproximou.
Era impossível que Dina estivesse morta e petrificada daquela maneira.
Tocou-a no rosto e no pescoço.
A sua pele estava fria e rígida.
Lolo não pode acreditar que uma pessoa que estava assentada como viva, pudesse ser defunta.
O que significava aquilo tudo, Santo Deus?
Savéria apontou o vaso de cristal e a taça que Dina tinha na mão.
- Ela encontrou e bebeu o veneno dos Montinhoso, o filtro que transforma uma pessoa numa estátua... - Balbuciou trémula.
— Savéria, precisamos chamar um médico!
Talvez ela não esteja morta, mas num estado de catalepsia.
Pode ser salva com um antídoto! - Disse Lolo.
Enxugando o suor do rosto, acrescentou:
— Precisamos mandar um portador imediatamente, à vila.
— Eu irei, signorina, bem depressa à casa do Dr. Pasqualle.
Não mora longe daqui, e foi um bom amigo do velho Conde Tadeu.
Ele conhecia os segredos dos Montinhoso, e. embora já de há muito não clinique, virá imediatamente, neste caso excepcional.
— Não, Savéria!
Não permitirei que saias do meu lado!
Precisamos ir ainda ao quarto do Barão, e tenho horror só de pensar em ir só!
— Então mandarei Riccioto ao médico.
Vinde, signorina.
Fecharam cuidadosamente a porta e viram, ao se voltarem, o velho Bernardino que lhes vinha ao encontro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:31 pm

Com algumas palavras, Savéria explicou o que se passava e ordenou-lhe fosse chamar o médico, o que Bernardino prometeu fazer imediatamente.
A porta do quarto de Rothschild estava aberta de par em par, como Miguel a deixara.
Como o lampião aceso ainda continuasse sobre a mesa, a passagem para os aposentos secretos foi logo vista.
— Deus omnipotente!
Eis aqui a porta!
— Jesus Maria! O que vemos lá!
Sem dar atenção à velha, Lolo entrara no quarto de Giovana.
Movida pela curiosidade, Savéria seguira-a, mas quando viram o grupo singular, nos velhos trajes medievais, estacaram.
— Estes são... Pawel e Valéria!
E estão mortos ambos...
Mas por que vestiram estas roupas? - Murmurou Lolo consigo mesma, sem afastar o olhar da cena.
— Os maus espíritos se apossaram deles e os assassinaram, Jesus Maria!
Vede como ela o segura pelo pulso! - Murmurava Savéria com os olhos rasos d'água.
— Voltemos ao quarto de minha mãe, Savéria.
Antes da chegada do médico, nada poderemos fazer.
As pernas de Lolo negaram-se a prosseguir, quando ela se encontrou no quarto de Rothschild.
Teve que assentar-se para readquirir novas forças.
Depois fecharam cuidadosamente a porta secreta, a fim de que nenhum curioso viesse a ver aquele quadro terrível, e voltaram ao quarto de Helena.
Miguel abria os olhos naquele instante, e demonstrava um tal estado de nervosismo, que sua mãe quis acomodá-lo no leito.
Larissa ainda se encontrava abobalhada no divã.
E quando ouviu falar da morte de Valéria, perdeu os sentidos.
Acomodando Miguel no leito, Savéria, Helena e Lolo foram cuidar da desfalecida.
Entrementes contaram a horrível morte de Dina.
Tal notícia produziu em Helena uma emoção aniquiladora, que obrigou-a igualmente, a procurar o leito.
Todos padeciam, como que na atmosfera tenebrosa de um pesadelo.
Com impaciência, aguardavam a chegada do Dr. Pasqualle.
Finalmente, cerca de três horas depois, chegaram Bernardino e o médico.
O Dr. Pasqualle era um homem idoso, de barbas brancas.
O seu rosto tranquilo e belo, denotava bondade e perspicácia.
Em primeiro lugar, e enquanto ouvia a narrativa de Lolo, cuidou de Miguel.
Depois pediu que o conduzissem a Dina.
Enquanto o médico examinava atentamente a morta, desviando sua atenção, de quando em quando para a ânfora de cristal e a taça, Lolo submetia o quarto a uma rigorosa inspecção.
Queria saber de onde Dina retirara as peças que incontestavelmente continham o veneno.
Assim, chegou ao gobelim, que continha a capelinha como enfeite.
A porta da capela estava apenas encostada, pois, que, ao abri-la, Dina pensava em recolocar ali os seus pertences.
Lolo aproximou a vela dos entalhes e chamou o médico.
— Vede, doutor!
Aqui esteve, sem dúvida, oculto o veneno...
Dina encontrou o elixir de Yolanda e bebeu-o...
— Mas não foi o elixir do amor que a infeliz ingeriu, e sim o veneno terrível que desconhecemos ainda e que produziu a sua morte imediata! - disse o Dr. Pasqualle.
Meu amigo, o falecido Conde de Montinhoso, falou-me desse veneno.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:31 pm

As antigas crónicas fazem referências a respeito.
O Conde Tadeu, porém, procurou-o inutilmente.
Nesse tempo, eu não acreditava na existência de uma droga capaz de provocar tais efeitos, mas agora vejo que elaborava em erro!
Quereis, entretanto, conduzir-me às outras vítimas desta noite terrível?
Inteiramente confusa com tudo aquilo quanto ouvira e vira, Lolo conduziu o médico ao quarto onde se encontravam Valéria e Rothschild.
Permaneciam ambos na mesma posição.
Quando o médico defrontou o grupo macabro, estremeceu e persignou-se.
— Deus bondoso!
Os mortos se levantam... - Disse baixinho.
Curvou-se sobre Rothschild e tomou-lhe a mão que, como a de Valéria, estava fria como o mármore.
— Um segredo tenebroso parece pairar sobre esta repetição inexplicável de sucessos de tempos idos!
Vosso primo assemelha-se assombrosamente ao infeliz Paulo de Montinhoso, ao Maledetto da lenda.
Seu retrato foi-me mostrado muitas vezes pelo meu amigo.
Por que motivo esta jovem prende-lhe a mão, do mesmo modo como outrora uma mulher prendeu a mão de Paulo de Montinhoso?
É incompreensível!
Nisto o médico viu a taça que Valéria arremessara de si.
— Havia morfina nesta taça... - Disse depois de examinar o recipiente.
Tentou então soltar os dedos de Valéria da mão de Rothschild, mas não o conseguiu.
— Ele vive, mas está num estado especial de letargia.
A donzela, porém, tanto quanto posso constatar, não despertará infelizmente mais.
O terrível, porém, é que a mão dele não pode ser libertada dos dedos dela.
Talvez que, para isso, para libertar o vivo da morta, seja preciso amputar-lhe a mão.
Não julgo conveniente despertá-lo agora.
Vendo-se prisioneiro de um cadáver, poderá sofrer um colapso cardíaco, ou perder a razão!
Ouvindo aquelas palavras, segundo as quais talvez Rothschild precisasse sofrer amputação de uma mão, Lolo cobriu o rosto com as mãos, sentindo uma profunda dor no íntimo.
Tudo nela opôs-se a que aquilo se desse.
E naquele momento nem compreendera sequer qual mão pretendia o médico amputar.
Pôs-se a chorar baixinho.
— Aleijar o pobre Pawel!
Ah! Compreendo agora o significado do sinal encarnado! - Soluçou desesperada!
O médico não a compreendia bem, tomou-lhe a mão apertando-a delicadamente.
— Sê forte, prezada senhorinha!
Não farei a operação já, pois não possuo aqui, os instrumentos cirúrgicos necessários!
Mas sobretudo não o faço por não me sentir devidamente instruído, em face deste caso excepcional.
Já vi muita coisa, e muito me ensinou o meu amigo, o Conde Tadeu, e creio poder dizer, com segurança, que aqui necessitamos mais de um médium de boas faculdades do que de um médico.
À palavra médium, Lolo ergueu os olhos, nos quais brilhou um raio de esperança.
— Temos um velho amigo que é ocultista, e cuja presença aqui esperamos a todo momento... - disse.
— Telegrafai-lhe então para que se apresse.
De minha parte estarei sempre ao vosso dispor.
Por vossa mãe, a outra senhora e pelo vosso irmão, nada tendes a temer.
Precisam apenas de repouso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:31 pm

Dei-lhes um narcótico para que durmam a noite toda.
Amanhã se levantarão restabelecidos.
Lolo agradeceu ao médico e acompanhou-o até a arcada da porta.
Quando regressou, cuidou de fechar o quarto de Dina e de Rothschild.
Eram cinco horas da manhã quando pode descansar um pouco.
Desceu ao quintal para se refrescar na brisa da madrugada.
Sentia-se nervosa demais para dormir, e preferiu, por isso, dar um passeio.
Trocou algumas palavras com Savéria e resolveu mandar Riccioto à vila, a fim de passar um telegrama a Dionid Tonilim.
Quando ia se dirigir ao quarto para redigir o telegrama, ouviu barulho no portão e viu três homens que se acercaram.
Com indizível satisfação, reconheceu num deles o amigo Dionid Tonilim, em cuja companhia vinha um cavalheiro alto, de tez bronzeada e severa expressão fisionómica.
O terceiro personagem era um aldeão que guiava um jumento carregado com as bagagens dos viajantes.
Pessoalmente, Tonilim portava uma maleta alongada, de couro amarelo e biqueiras de bronze.
O desconhecido trazia uma volumosa caixa embrulhada.
Com os olhos marejados de lágrimas, Lolo correu ao encontro de Tonilim.
— Deus seja louvado, Dionid, por teres chegado!
O bom Deus e a Virgem Maria atenderam às minhas súplicas e te conduziram para cá.
O aspecto da jovem denunciava aos dois homens que qualquer coisa de grave acontecera.
— Tranquiliza-te, querida menina! - Disse Tonilim dirigindo-se a Loló.
Permita-me que te apresente o meu ilustre amigo, Sir Gerald Grey.
Se alguém no mundo pode ajudar-te, é ele, sem dúvida.
Conduza-nos, antes, à tua mãe, e manda que nos preparem quartos onde possamos guardar esta preciosa bagagem.
— Mamãe, Miguel e Larissa dormem...
O médico, que acaba de sair daqui, deu-lhes um narcótico.
Conduzir-vos-ei directamente aos vossos aposentos, a fim de que possais estar à vontade.
Savéria vos trará a primeira refeição e enquanto vos alimentardes, relatarei tudo quanto aconteceu! - Respondeu Lolo que desde a chegada de Tonilim se reanimara.
Ao penetrarem no castelo, um pé de vento inesperado alcançou-os, fortíssimo, dobrando as árvores e levantando as folhas mortas.
Erguendo a cabeça, Sir Gerald sorriu.
Um quarto de hora mais tarde, os recém-chegados se apresentaram no refeitório, onde lhes foi servido leite, ovos e queijo.
Numa pequena chaleira fervia a água para o chá e o café.
Lolo servia os hóspedes e observava Sir Gerald que parecia absorvido na refeição, mas que, contudo, ouvia atentamente a sua exposição.
Era um homem ainda jovem, de aspecto simpático e tranquilo.
Seu rosto lembrava antes o tipo indiano que o inglês.
Seus olhos negros eram de severa expressão e reflectiam desusada energia e firmeza.
Quando Lolo terminou sua narrativa, Sir Gerald ergueu-se imediatamente.
— Por obséquio, dá-nos as chaves dos respectivos aposentos, e recolhe-te para o repouso de que tanto necessitas, depois desta noite de vigília! - Falou dirigindo-se a Lolo.
Nós iremos sozinhos examinar tudo, para poupar-te novas excitações.
Tem a bondade, Dionid, traz-me a tua caixa.
Dionid atendeu imediatamente, enquanto Lolo recolhia-se ao quarto da progenitora.
Dirigindo-se aos aposentos de Dina, Sir Gerald fez uma observação:
— Eis uma menina amável e corajosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:32 pm

Foi providencial a ideia do doutor, ministrando os soporíferos às damas.
Poderemos agir desembaraçadamente, sem sermos importunados por perguntas inúteis.
No quarto de Dina, tudo continuava como dantes.
Enquanto Tonilim contemplava cheio de admiração, a invulgar estátua, Sir Gerald examinava o vaso de cristal.
— Conheço este veneno.
Admira-me que uma cigana vulgar tenha podido prepará-lo.
Precisamos lacrar esta ânfora.
Tocou o rosto de Dina.
- Não há mais salvação para esta infeliz. Está morta.
O que nos resta a fazer é desenrijecer-lhe o corpo, para que possa caber num esquife.
Que dizes, Dionid? Poderíamos obter aqui uma banheira e alguns baldes de água quente?
— Informar-me-ei imediatamente.
Alguns minutos depois, Bernardino e Savéria, os únicos admitidos a auxiliá-los, traziam uma grande banheira que, acto contínuo, encheram de água.
Em seguida Sir Gerald deitou na tépida água, a metade do líquido que continha um vidro azul.
A água, espumando, tingiu-se de uma coloração azul-safira.
Abriram então o roupão de Dina com uma tesoura e depuseram o seu corpo na banheira que, logo em seguida, recobriram com um grande lençol.
— Ficará assim, por enquanto.
Vejamos os outros dois.
No momento, não nos resta mais a fazer aqui!
Quando penetraram na velha alcova, ouviram um estridente assovio, partindo da chaminé da lareira.
Seguiu-se um forte rumor, como se pedregulhos e areia estivessem sendo arremessados contra as vidraças.
— Temos muito trabalho a realizar aqui, Dionid! - Disse Sir Gerald.
Aproximou-se da cama e pôs-se a examinar Valéria e Rothschild com extrema atenção.
— Os sortilégios do passado os agrilhoam...
Mas como nesta vida não cometeram nenhum delito, e estão, apenas isto, subjugados por influências estranhas, espero poder libertá-los e salvá-los, a ambos.
A jovem se envenenou; felizmente, porém, a dose foi insuficiente para produzir a morte!
Caiu num sono letárgico que, por sinal, já enfraqueceu bastante o seu organismo.
Chegamos bem a tempo!!!
Tirou de uma caixa um cálice de prata, encheu-o até o meio com um líquido vermelho e juntou-lhe algumas gotas de uma essência incolor.
Com o auxílio de Tonilim, conseguiu descerrar os lábios de Valéria e fazê-la ingerir a bebida.
O corpo de Rothschild embaraçava, naturalmente, muito esse trabalho.
Contudo puderam levá-lo a cabo, para satisfação de Sir Gerald.
Instantes depois, o corpo de Valéria era sacudido por um estremecimento e moveu-se, contorcendo-se em dores.
Depois tornou a cair, prostrado.
Apesar de todos esses movimentos violentos, os seus dedos não largaram o punho de Rothschild.
— O antídoto já fez o seu efeito.
Agora, pelo menos, já não há o perigo do sono letárgico passar à morte.
Não posso dizer, com certeza, por quanto tempo durará este sono cataléptico.
Em todo o caso, precisamos, antes que desperte a jovem, libertar o Barão das suas garras, para que se lhe conserve a mão!
Entretanto, isto só mais tarde poderemos fazer.
Por enquanto melhoremos, tanto quanto possível, a sua posição.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:32 pm

A atmosfera aqui é sobremaneira pesada.
Se me trouxeres a maleta, meu amigo, poderemos queimar aqui algumas ervas.
Enquanto Dionid ausentava-se, atendendo ao pedido do amigo, Sir Gerald umedecia os lábios e a fronte de Rothschild com uma droga encarnada, que, igualmente, aspergiu num lenço que colocou sobre o rosto do moço. Em seguida lançando mão do banquinho, ergueu-lhe o corpo dos degraus do leito, recostou-o e ajeitou-lhe a cabeça entre almofadas.
Depois de tê-lo deixado assim, em posição mais cómoda, tirou do colo, onde ocultava uma varinha mágica(*).
Traçou com ela alguns círculos no ar, recitando fórmulas.
Alguma coisa que se assemelhava a uma serpente de fogo, circundou, nesse momento, os dois seres inanimados.
Um grito estridente soou no ar.
Das dobras das cobertas dos leitos, surgiram três pequeninas chamas verdes que foram desaparecer junto à chaminé da lareira.
Por esse tempo, Tonilim voltava com a mala que ambos puseram-se a esvaziar.
Do seu interior retiraram um grande pano carmesim, bordado com sinais cabalísticos, que estenderam sobre a mesa, sobre a qual colocaram ainda um crucifixo de sândalo e quatro pequenos tripés, que, incontinente, encheram de toda a sorte de ervas, as quais cobriram com pós coloridos, umedecidos com essências desconhecidas.
Depois, Sir Gerald colocou sobre o crucifixo um candelabro de sete braços, contendo velas vermelhas, colocou-se diante da mesa, tomou de sua vara mágica e inclinou-se para o Norte, o Sul, o Leste e o Oeste, evocando o espírito dos elementos.
Em seguida, murmurando fórmulas incompreensíveis, descreveu novos círculos no ar.
Logo se manifestou, na ponta da vara, uma chama que, se desprendendo, foi acender o candelabro de sete braços e os tripés.
Com um pequeno estalido, as ervas se incendiaram e começaram a se consumir, ardendo nas mais variadas cores.
Então, o quarto foi se impregnando de forte e vivificante aroma...
— Até a meia-noite, não faremos mais nada! - Disse Sir Gerald algum tempo depois.
Por isso proponho-te, meu amigo, que realizemos uma investigação nos compartimentos secretos.
Mais tarde teremos que submetê-los a uma rigorosa limpeza.
Avançando na inspecção dos compartimentos, com grande admiração Tonilim apercebeu-se da flagrante semelhança existente entre Rothschild e Paulo de Montinhoso, Valéria e Giovana.
O retrato grande, que reproduzia o esquife de Giovana na capela, produziu em Tonilim uma profunda impressão.
Sir Gerald, entretanto, não perdera a sua tranquilidade, parecendo partilhar, infimamente de todos aqueles factos assombrosos.
Ele notou o nervosismo que se apoderara de Tonilim.
— São realmente, muito raras as oportunidades que se tem de constatar, tão positivamente, os efeitos do passado irrompendo assim no presente! - Disse sorrindo.
Este velho castelo e os infelizes que participaram do seu passado tenebroso, são o atestado fiel de todas estas verdades.
Desenrola-se agora, aqui, a parte final de um carma iniciado há séculos.
Ainda que nem sempre passível de uma observação objectiva, o carma sempre encontra o culpado, castigando-o, severa e inexoravelmente, pelos delitos de outrora.
Ninguém foge a esta lei.
Toda a infracção, todo o pecado, contém em si mesmo, o castigo que não perdoa, a expiação inevitável que, se não alcança o culpado na mesma existência, vai alcançá-lo nas reencarnações futuras.
Entre os retratos, encontraram um que representava dama de singular beleza.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:32 pm

Na mão segurava ela a mesma ânfora, a mesma taça, que encontraram com Dina.
— Esta é, sem dúvida, a legendária Yolanda, a cigana.
Que disparate fazer-se pintar assim, com esse terrível veneno nas mãos! - Comentou Tonilim.
Sir Gerald meneava a cabeça diante do retrato:
— Esta mulher tinha conhecimentos que me deixam perplexo.
Esse veneno, em combinação com outros ingredientes, pode exercer uma benéfica influência sobre o organismo humano.
Mas é, indubitavelmente, uma provocação, fazer-se pintar assim, com o frasco na mão.
Quando terminaram o giro de inspecção, fecharam o quarto de Rothschild e se dirigiram ao salão.
X X X
Lolo, que já descansara um pouco esperava ansiosamente os dois senhores.
Quando afinal, entraram, referiram-lhe o que julgaram conveniente, dando-lhe ligeiro relato dos resultados obtidos.
A notícia do falecimento de Dina produziu na moça um profundo pesar.
Ao mesmo tempo, entretanto, alegrou-se com a notícia de que Valéria e Rotschild não estavam mortos, mas em estado de profunda catalepsia.
Confabularam então quanto à causa mortis que deveria ser atribuída a Dina, publicamente.
Tratava-se de evitar toda e qualquer murmuração inútil.
Decidiu-se então, pedir ao Dr. Pasqualle que voltasse ao castelo, sendo que, por essa ocasião lhe seria solicitado um atestado de óbito por colapso cardíaco.
Por outro lado, resolveu-se que Bernardino fosse nesse mesmo dia à cidade, em busca de um esquife.
Sir Gerald insistia no sentido de a morta ser removida o quanto antes do castelo.
Lolo prontificou-se a dar as ordens necessárias.
Fez, então, servir um almoço farto, ao qual se entregaram todos, cheios de apetite.
Os dois homens abstiveram-se de tocar os pratos de carnes.
Finda a refeição, Sir Gerald entregou a Loló um pequeno vidro, com cujo conteúdo deveria friccionar a fronte do irmão e das duas senhoras.
O que sobrasse, deveria ser, num máximo de dez gotas, vertido num copo de vinho.
O medicamento os restabeleceria.
Depois disso voltaram ao quarto de Dina.
Quando retiraram o lençol que recobria a banheira, viram que a água, que se tingira de vermelho, produzira abundante espuma.
O corpo de Dina perdera a primitiva rigidez, e não fosse a profunda palidez da epiderme, poderia ser tomada por uma formosa mulher adormecida.
— Pobre alma! - Murmurou Tonilim.
Tão jovem e bela, e vitimada por tão horrível morte.
Soubesse essa inescrupulosa fabricadora de venenos o mal que faria...
Um sorriso passou pela fisionomia de Sir Gerald:
— Esta jovem senhora não é uma vítima inocente!.
Morreu pelo mesmo veneno que, outrora, ministrava aos outros.
Esta noite, a lei do Carma atingiu a antiga cigana...
Suspirando penalizado, Tonilim auxiliou Savéria a depositar o cadáver sobre o leito, onde a velha vestiu-o.
Algumas horas depois, era colocado no caixão, e transportado para outra sala do castelo, distante dos aposentos fatídicos, de onde no dia seguinte, seria levado a ser sepultado no cemitério da vila.
Depois de ter examinado, cuidadosamente, a morta, o Dr. Pasqualle confabulou com Tonilim.
Finalmente passou o atestado de óbito, como fora desejado.
Pela tarde, despertaram os três enfermos que, conforme predição de Sir Gerald, acharam-se inteiramente restabelecidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:32 pm

Apenas Miguel sentia-se ainda um tanto enfraquecido.
A sua sensitiva e jovem natureza, teve que vencer uma impressão forte demais!
A comunicação de que Rothschild e Valéria encontravam-se vivos, salvos que tinham sido da morte por Sir Gerald, provocou uma viva alegria em todos.
Helena, entretanto, chocada com a morte de Dina, não conseguia conter as lágrimas.
Desejava partir imediatamente do castelo, e só a custo Lolo e Larissa demoveram-na disso.
Pediram-lhe que não tomasse nenhum deliberação sem antes consultar a Dionid Tonilim, tanto mais que o destino de Rotschild e Valéria não estava ainda decidido.
A ceia, que nesse dia foi tomada mais tarde que de costume, reuniu a todos.
As senhoras e Miguel, furtivamente, observavam o misterioso amigo de Tonilim.
A tranquila nobreza que se manifestava em todo o seu ser, fazia-lhes uma agradável impressão.
Todavia, evitaram encontrar aquele olhar enigmático que parecia cintilar nos seus olhos negros.
Sir Gerald, porém, não parecia notar a curiosidade que despertava.
Tranquilamente, palestrava sobre os sucessos terríveis da noite anterior.
Depois da ceia dirigiu um pedido aos presentes:
— Desejo recolher-me ao quarto para repousar um pouco.
Aconselho-vos a fazer o mesmo.
Às onze horas, entretanto, preciso se torna que nos reunamos, a todos, na saleta contígua ao terraço - retirou das vestes um saquitel.
0 Devereis usar este pó na defumação da sala, acendereis as velas consagradas, que Dionid Tonilim vos entregará, e orareis.
Não vos assusteis se ouvirdes fortes ruídos.
Nada vos acontecerá se seguirdes os meus conselhos.
Não saireis da sala enquanto não fordes chamados, e, atendei nisto: orai!
Ordenai aos criados que também se reúnam aqui para a oração e que não abandonem a sala enquanto não receberem ordens neste sentido.
Quando, meia hora transcorrida, Tonilim regressou com as velas, cercaram-no com mil perguntas sobre o amigo.
Queriam todos saber quem era, e de onde viera.
— Com toda a boa vontade, não vos posso dizer nada!
Contentai-vos por enquanto em saber que tendes ao vosso lado um homem extraordinário, que domina os elementos e a quem se submetem as forças naturais.
Em uma palavra, é um iniciado nos mais profundos segredos.
Entretanto, peço-vos um obséquio agora:
Fornecei-me alguns objectos dos quais necessito...
Tonilim pediu seis lençóis, algumas esponjas, um fogareiro de petróleo, uma garrafa de vinho velho, ovos e caldo de carne.
A Larissa pediu alguma roupa branca para Valéria, e o seu mais belo Robe-dechambre.
Com esses objectos todos, Tonilim voltou ao quarto de Sir Gerald.
X X X
Às onze horas da noite, começaram, Sir Gerald e Tonilim, os seus preparativos.
Despindo-se, Sir Gerald untou-se com uma pomada azul claro, fosforescente, que se assemelhava ao álcool em combustão.
Então calçou sandálias e envolveu-se numa longa túnica branca, que um cinto de ouro mantinha fechada.
Essa túnica e o cinto, eram, sem dúvida, peças finas e antigas.
Em seus bordados, intercalavam-se pedras preciosas de maravilhoso brilho.
A fivela, constituída de dois triângulos entrelaçados, continha uma espada de punho de ouro e larga lâmina guarnecida de sinais cabalísticos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:32 pm

Sobre a cabeça, Sir Gerald colocou um turbante egípcio, antiquíssimo, guarnecido por uma estrela de ouro.
Quando estava pronto, dirigiu-se a Tonilim:
— Estou pronto.
Tu, meu amigo, toma ainda um pouco deste líquido reconfortante.
Poderá dar-se que os teus nervos não suportem o embate que nos espera.
E num cálice deu a Tonilim algumas gotas de uma essência vermelha como sangue, que ele bebeu.
Depois retirou de uma das malas um disco de metal.
Tonilim soergueu uma caixa grande e pesada.
Entraram, então, no quarto de Giovana.
Sir Gerald, conduzindo o discípulo e amigo a um canto do quarto, fechou-se num círculo mágico.
E indo colocar-se sobre o disco de metal, no meio do aposento, curvou-se outra vez para os quatro pontos cardeais.
Em seguida alçou a sua vara mágica, fê-la girar sobre sua cabeça e, num monótono tom de voz, pronunciou palavras de um idioma desconhecido.
Uma luz verde fosca foi iluminando o aposento, paulatinamente, e apagou as chamas das velas acesas.
De súbito, de todos os cantos, surgiram chamas coloridas, azuis, verdes, amarelas e violetas.
Ao mesmo tempo, ouviu-se um rugir abafado, um trovejar que, de segundo em segundo, crescia em fragor.
Os assoalhos pareceram estremecer e oscilar, em virtude de subterrâneos movimentos.
O velho castelo estremecia, ameaçando ruir aos golpes de geladas ventanias.
Nesse caos ensurdecedor, uivos de animais selvagens e gritos humanos, misturavam-se a angustiosos apelos e horripilantes gargalhadas.
De repente tudo cessou.
Um silêncio sepulcral pareceu envolver a terra, até que novos ruídos foram se fazendo audíveis; as passadas de um magote de pessoas que se aproximavam, tinir de armas, tropel de animais, vozes de mando, brados desordenados.
As portas pareciam ceder aos embates de uma horda de soldados desejosos de tomar o castelo de assalto.
Sir Gerald puxou da cinta uma corrente e fez soar um sinal de caçada.
Depois prosseguiu na sua ladainha monótona e soturna.
Em breve se renovaram os gritos e gemidos, as chamazinhas separavam-se, dando lugar a uma multidão de criaturas desvairadas que desfilavam pelo quarto, fazendo o assoalho estremecer sob os pés calçados de pesadas botas guarnecidas de esporas.
Um frio suor perlou a fronte de Tonilim, ao assistir a esse espectáculo.
Era, porém, discípulo de conhecimentos suficientes a saber que misteriosas forças limpavam, naquele momento, o castelo de todos os seus espíritos, seculares prisioneiros da matéria.
Outra vez um pesado silêncio envolveu-os.
Aos poucos, a estranha luz esverdeada extinguiu-se, e as velas tornaram a arder.
Deixando cair a vara mágica, Sir Gerald fez sinal a Tonilim para que se aproximasse.
Sem abandonar a caixa que trouxera, Dionid seguiu o amigo até ao leito.
Sir Gerald pediu-lhe que retirasse da caixa uma bandeja e certo pó branco, que foi espalhado sobre a mesma.
Em seguida atearam fogo às ervas.
Uma densa nuvem de fumo ergueu-se e encheu o quarto com o seu agradável perfume.
Sir Gerald empunhou então a sua espada e, com voz firme e imperativa, pronunciou algumas fórmulas, nas quais Tonilim pode distinguir o nome de Paulo e Giovana.
Deixou então a espada descer como um relâmpago sobre as mãos de ambos.
Uma fumaça impenetrável envolveu-os.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:33 pm

Ao ver o gume descer naquele ímpeto, Dionid estremecera violentamente.
Pareceu-lhe que, indubitavelmente, as mãos dos infelizes estariam decepadas.
Sir Gerald, não obstante, embainhou a espada tranquilamente, ergueu a sua mão direita e fez aparecer sobre a cama, durante um segundo, uma cruz flamejante.
Então Tonilim viu que as mãos, apesar de continuarem unidas, persistiam intactas.
— Giovana, eu te ordeno:
larga a mão de Paulo! - Disse Sir Gerald alta e claramente.
No mesmo instante os dedos se largaram e as mãos se libertaram.
Uma espécie de calafrio percorreu o corpo, de Rothschild e ele respirou profundamente.
Acto contínuo, Sir Gerald e Tonilim, tomando nos braços o corpo do Barão, transportaram-no ao seu quarto, onde o deitaram sobre o leito.
— Dispomos ainda de três horas para o quanto resta fazer!
Observou Sir Gerald olhando o relógio que nesse momento marcava meia-noite.
— E há muito por fazer! Apressemo-nos.
Pôs-se, imediatamente, a retirar do corpo de Rothschild os trajes medievais.
Despido o Barão, friccionaram-no todo com a pomada azul, e deitaram-lhe à boca algumas gotas do liquido púrpuro.
Um novo estremecimento percorreu Rothschild, que abriu os olhos.
Seu olhar era, porém, frouxo e inconsciente.
Deram-lhe a beber um copo de vinho.
Depois disso, cerrou os olhos e adormeceu profundamente.
— Que durma mais uma hora...
Está muito abatido!
Ocupemo-nos agora da menina.
E a Valéria, igualmente, despiram o alvo vestido, friccionando-lhe o corpo com a mesma pomada.
Em seguida, embrulhado juntos ambos os trajes, Sir Gerald foi atirá-los na lareira, orvalhou-os com um liquido prateado e ateou-lhes fogo.
Dez minutos depois, apenas um punhado de cinzas restava.
Vestiram em Valéria a roupa branca e o robe que Larissa conseguira.
Pela sua respiração normal, podia-se conhecer que vivia.
Tirando da caixa uma taça de prata, Sir Gerald encheu-a de ervas e essências.
Colocou a taça sobre o peito da moça e deitou fogo às ervas.
Enquanto queimavam, emitindo estalidos, o amigo de Dionid colocou uma mesa ao centro do quarto, cobriu-a com um pano branco e depositou sobre a mesma um candelabro de sete braços e que, agora, trazia velas brancas.
De um compartimento especial da caixa, tirou um cálice de ouro, encheu-o de uma essência purpurina e foi colocá-lo, igualmente, sobre a mesa, ao lado de uma concha de prata, sobre a qual encontravam-se duas alianças de ouro.
A face interna dessas alianças, cobriam-se de incompreensíveis sinais.
Depois de ter colocado duas almofadas de veludo vermelho ao solo, defronte à mesa, cobriu-as com um tecido também vermelho, bordado de ouro.
Tonilim, admirado, seguia esses preparativos.
— Por que me olhas tão surpreendido?
Como servo da Divindade, no mais verdadeiro sentido da palavra, tenciono unir estes dois que há séculos se pertencem, porém, unidos apenas pelo pecado do amor.
A força da bondade os unirá agora.
Serão libertados dos obsessores espíritos do passado e a sua paz interior lhes será restituída.
O castigo chegou ao fim.
Mais tarde, naturalmente, farão legal esta união, e, se quiseram, a abençoarão pelo credo a que pertencerem.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:33 pm

A primeira bênção, porém, pelas forças do Perdão e da Bondade, receberão aqui.
Mas, precisamos, agora, acordar o jovem!
Pálido e abatido, Rothschild dormia profundamente.
Sir Gerald destampou um pequeno frasco de cristal, que lhe chegou às narinas.
Imediatamente o Barão abriu os olhos.
Tonilim ofereceu-lhe um copo de vinho, no qual havia deitado algumas gotas de uma essência reanimadora.
Cada gole bebido trazia ao corpo de Rothschild uma energia nova, um despertar para uma outra vida.
Espreguiçou-se e olhou admirado em seu derredor.
Reconheceu logo Tonilim e sorriu-lhe.
Mas quando os seus olhos encontraram a figura de Sir Gerald, envergando tão estranhos trajes, fez-se desconfiado.
— O que aconteceu, Dionid, e quem é este senhor?
— É Sir Gerald Grey, nosso benfeitor que, neste momento, acaba de salvar-te da morte e de libertar-te dos espíritos teus inimigos, que te aborreciam a vida! - Disse Dionid.
Sir Gerald, lendo a descrença e a desconfiança que se estampavam no rosto do Barão, pôs-lhe a mão sobre os ombros.
— Deixa disso, Dionid!
O Barão, depois que tudo estiver terminado, terá oportunidade de conversar comigo a este respeito.
Não percamos tempo, por agora!
Levantai-vos Barão, e vesti-vos como para uma festa.
Tendes aqui, à mão, um belo traje que possais usar?
— Tenho o meu frack... - Disse Rothschild embaraçado.
— Bem, vesti então o frack e, quando estiverdes pronto, vinde ao quarto vizinho, onde nos encontrareis.
Um quarto de hora mais tarde, Rothschild surgia no limiar do quarto fatídico.
— Estou às vossas ordens! - Disse.
Mas estacou surpreendido quando viu aquela espécie de altar com as duas almofadas sobre o solo.
— Meu amigo, sereis agora unidos pelo matrimónio com a jovem que, no passado, sob o influxo de malignas forças, desviastes! - Disse Sir Gerald solenemente.
Rothschild tornou-se pálido e retrocedeu um passo.
— O que de mim exigis, é impossível.
Deus é meu testemunho de que, de bom grado, repararia o erro cometido.
Mas sou casado e minha legítima esposa encontra-se aqui, entre as paredes deste castelo.
Ela prometeu-me divórcio, mas somente depois de julgado por sentença poderei desposar Valéria.
Um procedimento como este, que exigis de mim, não seria uma expiação do meu passado, mas a realização de um delito maior, em relação a esta menina já tão martirizada.
Tremendo, nervoso, ele abateu-se.
— Sentai-vos e acalmai-vos, Barão!
Convencei-vos de que não exijo de vós nada susceptível de castigo! - Falou Sir Gerald tranquilizadoramente.
Sois agora livre!
Vossa esposa faleceu a noite passada.
Um gemido abafado desprendeu-se da boca de Rothschild.
— Dina está morta?
Mas não é possível!
O que aconteceu?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 01, 2016 7:33 pm

Assentando ao lado de Rothschild, Sir Gerald relatou-lhe, em breves palavras, a história do
Elixir do Amor que a Baronesa achara e bebera, provavelmente com o fito de alcançar o amor do esposo.
Rothschild ouvia com lágrimas nos olhos.
E disse baixinho:
— Pobre Dina!
Chegou a esse extremo para conseguir o meu coração ingrato!
A sua vida pesa sobre a minha consciência. Deus meu!
Que maldição terrível será esta que pesa sobre mim?
— Esclareço-vos de que não tendes responsabilidade na morte de vossa esposa. - Disse Sir Gerald compenetrado.
Vossa esposa foi atingida pela inevitável lei do Carma, que veio trazê-la ao lugar em que muitas de suas vítimas encontraram a morte.
Na imagem de vossa esposa, a cigana Yolanda veio pagar os seus pecados, morrendo pelo mesmo veneno que preparara e ministrara aos outros.
Mais tarde, em seu devido tempo, efectivareis a vossa união com Valéria, perante as leis de vosso país.
Agora, porém, desejo unir-vos pela força do perdão e da bondade, libertando-vos das sombras dos antigos delitos, há séculos cometidos, e que pesam sobre vós.
Assim, podereis ingressar no caminho para a luz...
Rothschild agradeceu.
— Ponho-me às vossas ordens, e seguirei as vossas instruções.
— Aceito a vossa promessa!
Regressai agora com Dionid ao vosso quarto.
Preciso despertar Valéria, e depois vos chamarei...
Achando-se a sós, Rothschild pediu a Tonilim que lhe falasse a respeito da misteriosa personalidade que podia salvá-lo das garras do passado.
— Teu benfeitor, Pawel, é membro de uma Fraternidade do Himalaia, iniciado no poder dos elementos, e ao qual estão submissas as forças invisíveis.
A vida de Sir Gerald consiste em aproveitar todas as oportunidades que lhe surgem para prestar benefícios aos seus semelhantes e auxiliá-los.
Enquanto isso se passava, Sir Gerald se aproximara da cama de Valéria, umedecera suas mãos e sua fronte e tomara-lhe as mãos.
— Despertai!
Eu vos ordeno, despertai!
A moça estremeceu e abriu os olhos.
Obediente, Valéria, em seguida, tomou um copo de vinho, e voltou inteiramente a si.
Com os olhos muito abertos, olhou para Sir Gerald.
— Não vos inquieteis!
Sou vosso amigo e vos direi tudo quanto sucedeu.
Aproximou o banquinho, sobre o qual o Barão estivera apoiado, e disse a Valéria o que se passara.
Narrou-lhe a morte de Dina e fez-lhe sentir que Rothschild estava agora livre e disposto a desposá-la.
Por delicadeza absteve-se de narrar o que se passara entre os dois, acrescentando apenas que desejava libertar a ambos das más influências às quais estavam sujeitos.
Valéria ouviu confundida, chorando às palavras de Sir Gerald:
— Sede tranquila agora, minha filha.
Sois uma vítima do passado que inevitavelmente se lança sobre aqueles que infringem as Leis Soberanas.
Vossa vida não está manchada por nenhuma nódoa, e o futuro vos promete felicidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:36 pm

— Como poderei pagar-vos por tudo quanto fizestes e estais fazendo por mim?
Submeto-me à vossa vontade...
— Auxiliando àqueles que necessitam de mim, mais não faço que cumprir com um dever, e maior recompensa não poderei desejar do que esta:
que vós ambos vos conduzais pela vida piedosa e exemplar.
Em seguida ergueu-se, chamou Dionid e Rothschild e auxiliou Valéria a levantar-se.
Depois tomou a mão direita dos dois jovens, entrelaçou-as e fez com que ambos se ajoelhassem diante do altar improvisado.
Cobriu-lhe as cabeças com o pano vermelho e elevou as mãos, pronunciando palavras incompreensíveis.
Sobre o casal brilhou uma cruz de fogo que logo depois se desfez.
Então Sir Gerald retirou o pano e colocou-lhes nos dedos as alianças, dizendo:
— Vós vos pertencestes reciprocamente, impura e ilicitamente!
De agora em diante, a virtude e a fé vos unirá para que sintais o amor divino.
Eu vos uno pelos laços puros e sagrados!
Não mais pesa sobre vós a perseguição dos espíritos impuros!
Que o pai Celestial vos conduza e vos dê a sua bênção!
Tomou do cálice de ouro e deu a cada um de beber um gole do seu conteúdo.
Quando se ergueram, Rothschild levou as mãos de Valéria aos lábios, dizendo-lhe comovido:
— Perdoa-me, Valéria, por te haver feito tanto mal, e crê que farei tudo quanto esteja em minhas forças, pela tua felicidade!
— Eu creio, e nada mais temo agora!
Alegre e confiante é que vejo o futuro! - Disse Valéria.
Mas então, empalidecendo e vacilando de súbito cerrou os olhos.
Não a amparasse Rothschild, teria caído ao solo.
Sir Gerald observou que uma expressão de terror estampou-se no rosto do Barão.
Tranquilizou-o:
— Nada mais temais, Barão!
Ela caiu em profundo sono, do qual o seu corpo necessita, inadiavelmente, para que readquira forças.
E neste estado permanecerá por três semanas, despertando uma ou outra vez, a fim de tomar alimento.
Assim que estiver inteiramente desperta, estará livre dos ataques catalépticos que até agora sofreu e que não mais voltarão.
Precisamos transportá-la ao seu quarto.
Vós precisais também de repouso.
Amanhã trataremos do que resta a fazer.
— Como julgardes melhor! - Disse Rothschild.
Ergueu Valéria em seus braços e levou-a.
Sentia-se forte e tranquilo como nunca.
Era um estado que substituía todas as excitações e incertezas da véspera...
Helena, Larissa e seus filhos, haviam passado a noite orando, como o desejara Sir Gerald.
Os longínquos trovões, os bramidos estranhos, as comoções subterrâneas, o toque da tromba, fizeram-nos trémulas e assustados.
Em seguida aprofundaram-se mais nas preces.
Finalmente surgira Tonilim que lhes comunicara que tudo fora levado a efeito satisfatoriamente.
Rothschild e Valéria estavam salvos.
As minudências conheceriam no dia seguinte.
— Todos nós, e eu próprio, estamos extremamente fatigados e abatidos.
Por isto vos recomendo, em nome de Sir Gerald, que vos entregueis ao repouso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:36 pm

Sir Gerald garante que dormireis, todos, muito bem!
Acrescentou sorridente.
Rothschild recolhera-se ao seu quarto e deitara-se.
Profundamente emocionado, pensava nos sucessos de que compartilhara havia pouco, e cujo pivot fora ele mesmo e Valéria.
A lembrança de Dina não o deixava, e as várias cenas de sua tão curta vida conjugal passavam caleidoscopicamente diante da sua retina espiritual.
Pela primeira vez condenava-se pela sua aspereza para com ela, que tudo suportara, sem que decrescesse o amor que lhe devotava.
O facto de ter sido ela uma cigana satânica que caíra vítima do seu próprio Carma, não diminuía a sua culpa.
O amor de Dina fora a arma com a qual ela mesma se matara, inconscientemente.
O desejo de ir vê-la, e de orar junto ao seu esquife, despertou nele.
Sua vida e o seu futuro pertenciam, agora, a Valéria, mas a recordação de Dina, a prece que faria junto ao seu caixão, era um dever que precisava cumprir.
Assim não conciliou o sono até pela manhã.
Levantou-se cedo e foi procurar Savéria.
Ela estava no terraço e punha a mesa para o café.
Quando viu Rothschild, a quem, até há pouco, julgava morto, alegrou-se, e perguntou-lhe pela sua saúde.
— Como pareceis pálido e cansado, signore Barão.
Rothschild garantiu-lhe que se sentia bem disposto e pediu-lhe que o conduzisse ao quarto da morta.
Bernardino foi acompanhá-lo ao quarto distante onde tinha sido posto o esquife e afastou-se.
Com profunda dor e o coração oprimido, Rothschild contemplou o rosto da finada que tomara uma coloração ligeiramente azulada e parecia de porcelana.
Lançou-se de joelhos e orou longa e ardentemente.
Quando regressou ao terraço, encontrou aí a tia e Larissa.
Ao vê-lo, Helena correu ao seu encontro e beijou-o, abraçando-o.
— Meu pobre Pawel!
Graças a Deus estás outra vez connosco!
Ontem eu temia não ver-te nunca mais.
Ah! Se tu soubesses como me recrimino por haver descoberto e alugado este infeliz Montinhoso!...
— Pois não te recrimines, titia.
Foste, neste caso, simples instrumento do destino, que precisava reunir aqui o Maledetto e suas vítimas.
Além disso, o mal se transforma agora em bem.
Sir Gerald, que Deus nos enviou à última hora, prometeu-me libertar o castelo dos seus habitantes invisíveis, dos espíritos que aqui estacionaram.
— Que Deus o ajude, por mais céptica que eu tenha sido até hoje!
Tudo o que vi aqui, abalou-me profundamente.
Já não sei mais o que devo acreditar... - queixou-se Helena.
Enquanto Rothschild se inclinava sobre a mão de Larissa, esta lhe disse baixinho:
— Vi Valéria! Ela dorme.
Dionid me descreveu o seu estado.
Deveis confessar, Barão, entre vós se realizou algum drama terrível!
— Sim Larissa, não o nego!
Foi uma terrível encenação de sucessos há muitos anos transcorridos... - ele corou profundamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:36 pm

Ergo louvores aos céus por esse drama ter chegado ao fim.
Valéria viverá e se tornará minha esposa.
Espero que a sua família não faça objecção.
Sou rico, independente, e posso oferecer-lhe um futuro seguro.
Além disso, seu irmão desposa minha prima, e assim entra, também, em parentesco comigo.
— A mãe de Valéria nada terá a opor, certamente.
E eu estou plenamente convencida de que sereis ambos muito felizes. - Disse Larissa.
A palestra foi interrompida pela entrada de Miguel que fitou o primo como que petrificado de espanto, e não quis acreditar que Pawel estivesse vivo.
— Sabes Pawel, quase me tiravas a razão!
Acreditei, de princípio, estar defrontando o fantasma do Maledetto, mas depois reconheci-te e julguei-te morto.
— Eu estaria morto de facto, se a Misericórdia Divina não me salvasse.
Mas, diz-me porque me julgaste primeiramente um fantasma, e depois me supuseste morto? - Perguntou Rothschild gracejando.
— É melhor não me perguntares nada.
Minha cabeça não estava, ontem, no devido lugar.
Além disso, não compreendo nada desta incrível história! - Retrucou o jovem.
Conferenciaram então sobre o sepultamento de Dina.
O cadáver deveria ser conduzido nesse mesmo dia à cidade, para aí baixar à tumba.
Um velho sacerdote, amigo do Dr. Pasqualle, permitiu que Dina tivesse, por derradeiro repouso, um canto do cemitério, onde já se achavam outros estrangeiros.
Depois de resolvido o assunto, Sir Gerald comunicou que poderiam iniciar, no dia seguinte, a inspecção aos compartimentos murados.
— Permitir-me-eis também acompanhar-vos? - Perguntou Lolo com o olhar suplicante.
Sir Gerald não pôde conter um sorriso.
— Certamente!
Todas as senhoras participarão.
Apenas peço, com insistência, não toqueis em nenhum objecto sem permissão minha.
E no dia seguinte, logo depois do almoço, iniciaram a pesquisa.
Os homens se preveniram todos de fortes lanternas eléctricas e conduziram as senhoras, trémulas de emoção e receio.
Sir Gerald conservava a sua calma costumeira, que contagiara também Rothschild.
O Barão sentia-se singularmente triste, passando por aqueles aposentos, em muitos dos quais havia experimentado tão duras provas.
Os retratos de Paulo e Giovana impressionaram profundamente as senhoras.
Tal semelhança entre viventes e criaturas há três séculos falecidas, heróis do drama que ali se desenrolara, excedia ultrapassando, tudo quanto se podia imaginar.
O quadro grande, do salão, encheu o grupo de repugnância.
Na capela, onde se encontrava o cadáver insepulto de Giovana, Helena quase chegou ao desmaio, e só a custo pode ser conduzida para fora, pelo braço do filho.
Todos sentiram-se, ademais, desagradavelmente impressionados.
Lolo entretanto, mais uma vez soube demonstrar que podia ser calma e corajosa.
Apertando a mão do primo, pediu-lhe que iluminasse o cadáver com a lâmpada.
Aproximou-se do esquife e constatou então que o corpo da morta não estava, absolutamente, decomposto, antes conservara as suas cores naturais através dos anos e anos.
A semelhança com Valéria era inegável, com a pequena diferença de ter a morta os traços mais duros e cruéis, os cantos da boca, principalmente.
Mas o coração de Lolo começou a pulsar mais forte quando vislumbrou entre os dedos da morta a mão amputada de Paulo.
Provavelmente também aquela mão fora preservada da decomposição pelos mesmos processos que tinham sido empregados na morta.
Apenas as unhas mostravam-se quase inteiramente azuladas.
Erguendo o olhar para Rothschild, Lolo viu que ele, imerso em pensamentos, também fitava aquela mão.
— Bem Pawel, vamos embora!
O passado já não pesa sobre ti...

(*) Estas práticas nada têm a ver com o Espiritismo.
O leitor interessado poderá consultar a este respeito o Capitulo IX de
O LIVRO DOS ESPÍRITOS, de Kardec, que trata de Intervenção dos Espíritos no Mundo Corporal.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:37 pm

12 - O MANUSCRITO

Rothschild estremeceu e meneou a cabeça.
Por último, o grupo se deteve no antigo escritório do Conde Rindolfo de Montinhoso.
Enquanto uma parte ocupou-se na contemplação da maravilhosa mobília, e dos painéis a óleo, Sir Gerald aproximou-se da mesa, e entre muitos papéis aí esparsos, encontrou o rolo que Valéria, um dia, afastara da mesa:
Crónica dos crimes e desgraças da Família Montinhoso.
— Precisais ler isto, Barão.
— Não sei como não o notei antes.
Esta crónica contém, sem dúvida, a explicação de muitos segredos do passado! - Observou Rothschild admirado, aproximando-se rápido da mesa.
Com grande interesse contemplou o velho manuscrito.
— Tu lerás a crónica em voz alta, não é mesmo? - Implorou Loló que se aproximara.
Provavelmente estarão aí narrados, minuciosamente, os destinos de Yolanda, de Giovana e de Paulo, e também estará dito porque esta crónica ficou guardada aqui, na ala murada, e não no arquivo da família.
— No que diz respeito a este manuscrito, como no que se refere a tudo o mais deste castelo, querida Lolo, seguirei exclusivamente as prescrições de Sir Gerald.
Que ele determine quando onde e por quem deve ser lida a crónica.
Se ele nada tiver a opor que a ouças, então eu também não me oporei. - Respondeu Rothschild.
— Eu próprio a lerei em voz alta. - Disse Sir Gerald.
Precisamos conhecer o seu conteúdo antes que façamos o restante; para libertarmos aos sucessores dos Montinhoso - a vós, Barão, embora vossa aparência não seja igual e o vosso diferente nome! - da maldição que pesa sobre suas cabeças.
Nada tenho a opor que as senhoras e o senhor Muranoff estejam presentes e tudo ouçam.
Mas dizei-me vós, Barão, onde desejas ouvir a exposição daquele que outrora foi vosso pai!
Acabo de ver, neste momento, que foi ele o autor desta peça.
— Aqui Sir Gerald, nesta sala onde viveu e trabalhou, e o seu retrato olha para mim... se achardes conveniente.
— Eu vos compreendo, Barão, e julgo o vosso desejo muito natural - Disse Sir Gerald.
Se não estais cansados, poderemos principiar já, pois que seria talvez difícil ler a informação toda de uma só vez, do princípio ao fim.
É bastante longa.
Todos mostraram-se de acordo com Sir Gerald.
Ninguém parecia cansado.
— Assim, pois, Paulo de Montinhoso, quebrai o selo que há três séculos foi comprimido por vosso pai, sobre este documento.
A mão de Rothschild tremia imperceptivelmente quando ele cortou o fio de seda, desenrolou o manuscrito e o entregou de volta a Sir Gerald.
Puxou logo em seguida uma cadeira de encosto alto, entalhado com o escudo de Montinhoso e sentou-se.
Sentia um peso estranho no coração.
Seus olhos buscavam sempre o retrato do Conde Rindolfo, iluminado agora pela luz de um lampião.
Quase não podia acreditar que fosse ouvir a história de sua anterior existência, escrita pela mão de um homem morto já há alguns séculos.
As últimas semanas lhe haviam provado, veementemente, que apenas o invólucro material perece, e que o espírito pode voltar a viver num outro corpo.
Tal peregrinação, porém, parecia não dissolver os laços invisíveis, que prendem o ser aos erros dos séculos anteriores.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:37 pm

Se a lembrança se perdia, a remissão deles vinha, inapelavelmente, mais cedo ou mais tarde.
Sir Gerald, que folheara distraído as primeiras folhas do manuscrito, começou a ler em voz profunda e calma:
— Quem quer que sejas, forasteiro, a quem o destino reservou esta crónica, sabes que eu, Rindolfo António Orso de Bianco, Conde de Montinhoso, sou o seu autor, e que a iniciei num dia três vezes infeliz.
Hoje entreguei o meu único filho, Paulo, a alegria da minha vida e a esperança da minha velhice, à terra.
Um horrível destino o atirou num abismo, a esse jovem cheio de força e de vida, o mais nobre de todos os cavalheiros, e o mais belo de todos os nobres.
Hoje a sepultura o tragou. Minha vida ficou vazia.
Não teria jamais pensado em escrever esta crónica, mas um homem, que me é íntimo e me amparou no meu sofrimento e me assistiu, disse hoje estas palavras enigmáticas:
Há uma lei que fará o espírito pecador de teu filho voltar ao local de seus crimes; seus inimigos, cheios de ódio e sedentos de vingança, o atrairão para cá, mas ele terá esquecido o passado.
Para dizer-lhe que a sua permanência aqui é uma empresa perigosa, e que deve fugir, ou pedir perdão aos inimigos, para que o não aniquilem, deves tu, Conde, anotar os acontecimentos do presente e do passado, que redundaram no infortúnio da tua geração, tanto quanto te recordares deles.
Por mais obscuras e incompreensíveis que me tenham soado estas palavras, creio, contudo, na sua realização; pois sei que esse homem, que as pronunciou, é um vidente poderoso e uma grande inteligência.
A minha objecção de que um estranho venha a penetrar nesta ala murada e encontrar este manuscrito antes do tempo aprazado, antes que o espírito de meu filho tenha retornado, respondeu-me ele:
Eu te asseguro que nenhum outro senão o teu filho entrará aqui e lerá a tua crónica!
Como e quando as palavras desse homem se tornarão realidade, não sei, e nem posso saber!
Mas não importa!
Creio em suas palavras, e quando tu, meu filho, estiveres lendo estas linhas, saiba que teu pai ora dia e noite por ti, implorando o perdão de teus erros.
- Signore Felício me disse que tu esquecerias o passado:
farei então a minha narrativa como se fosses um estranho.
Principiarei com a história de um dos meus antepassados, do cavalheiro Marcus, para que conheças o terrível sortilégio que paira sobre nosso clã, em todas as suas minudências.
Até ao tempo do cavalheiro Marcus, a nossa família, embora de antiga nobreza e imensamente respeitada, não era rica.
Nosso castelo era apenas um pequeno burgo perdido entre as montanhas.
Marcus, que era valente e belo, pertencia ao exército florentino.
Inúmeras vezes se distinguiu na guerra e nos torneios, e soube conquistar o coração de Júlia Barroneo, a filha única de um rico nóbile de Florença.
Depois que a desposou, aumentou o burgo de Montinhoso, e viveu então aqui com a nobre Júlia, em feliz união.
Júlia possuía um coração bondoso e dócil, e amava sinceramente ao esposo, no qual confiava ilimitadamente.
Seu único filho, Cossimo, contava doze anos quando ela faleceu.
Ele se parecia com a mãe e com ela gostava de ficar no castelo.
Marcus continuava a sua vida belicosa e aventureira.
Cossimo cresceu e fez-se um belo rapaz.
Foi então que se deu o facto que redundou no fracasso da nossa família.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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