Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:37 pm

Marcos regressava de uma campanha e pretendia passar alguns meses no castelo.
Durante uma caçada, perdeu-se na mata e foi parar num acampamento de ciganos.
Como a noite já se erguia e o seu cavalo estivesse muito cansado, ficou com o bando que o alimentou e alojou.
Uma cigana deu-lhe vinho a beber.
Talvez a esse vinho tivesse adicionado um elixir qualquer, pois Marcus apaixonou-se por ela, levou-a consigo para o castelo, fê-la baptizar e desposou-a.
Os registos do capelão que então vivia no castelo e a lenda, informam que essa mulher era de extraordinária beleza.
A cigana Topsy, depois de transformada na signora Yolanda, sabia mover-se como uma dama nobre e comportava-se como se tivesse nascido num castelo, ao invés de num acampamento de ciganos.
Era bela, porém moralmente corrompida e cruel.
Marcus não via e não observava que essa mulher o enganava e traía.
Era público que lidava com licores misteriosos, com os quais escravizava os homens que lhe agradassem.
Fazia-se presentear por eles, pois amava as jóias e as pedras preciosas mais que tudo no mundo.
Depois não hesitava em assassinar os amantes ou manobrava para que entrassem em duelo, no decorrer do qual eram eliminados.
Mas Yolanda também sabia curar os enfermos e fortalecer os fracos, com as suas beberagens.
Cossimo odiava aquela mulher que substituíra sua mãe.
Disputavam constantemente.
Um dia encontraram Cossimo morto no seu leito.
Poucas semanas depois Marcus desaparecia.
O seu barrete foi encontrado junto de um atoleiro e julgou-se por isso que aí tivesse encontrado a morte.
Todas estas notícias e sucessos conspurcaram o nome de Yolanda que passou a ser considerada uma bruxa.
A boca pequena, dizia-se que tinha o demónio por comparsa.
Julgava-se que o menino António, que nascera no seu matrimónio com Marcus, tinha por pai, não Marcus, mas o próprio Demo.
Espero que isto não seja verdade, e Deus nos preserve de um tal parentesco.
Contudo parece que nossa família caiu, então, nas garras de malignas forças:
quantos de nós morreram violentamente, quantos crimes e maldições pesam sobre nossos ombros!...
O que informo sobre Yolanda, extraí de um manuscrito de respeitável monge, o capelão do castelo.
Esse manuscrito encontra-se no arquivo da família.
Provavelmente, fazia ele de Yolanda, igual juízo que os demais, pois fala com brevidade, visivelmente a contra gosto, sobre tais acontecimentos.
Informa o seguinte:
Por muito que essa mulher fosse odiada por todos, uma vez que as mais nobres famílias perdiam os seus filhos, pelas suas maquinações, era ela também temida.
Ninguém, porém, ousava demonstrar esse ódio e esse desprezo publicamente, para evitar novas desgraças.
Yolanda, entretanto, apresentava-se em toda a parte.
Assim, num torneio viu um certo jovem cavalheiro que lhe agradou.
Estava comprometido e devia casar-se em breve, quando Yolanda convidou-o a visitá-la.
Aproveitava-se de todas as oportunidades para vê-lo e falar-lhe.
Mas o cavalheiro temia-a, evitava-a e apenas comia os alimentos que sabia não terem sido tocados por Yolanda. Yolanda exasperou-se com a resistência do cavalheiro.
Dois dias antes do casamento, repentinamente, a noiva do cavalheiro morria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:37 pm

Por mais incrível que possa parecer, o seu corpo transformou-se numa estátua.
Esse acontecimento excitou a população toda.
E todos viram nele uma maquinação de Yolanda.
O pai, o irmão e o infeliz noivo da falecida, decidiram assassinar a bruxa.
Com outros cavalheiros, atacaram o castelo em que Yolanda se ocultava.
Nenhum dos defensores do castelo quis bater-se pela senhora, e o castelo caiu sem luta nas mãos dos assaltantes.
Quando os cavalheiros prenderam Yolanda, ela defendeu-se como uma doida e matou, na luta, Ubaldo Caglieri, irmão da donzela morta.
Nada mais informa o capelão sobre o destino de Yolanda.
Segundo a lenda, foi enclausurada viva num ponto qualquer do castelo.
O Elixir do amor e o veneno que usava, porém, não foram encontrados, ninguém sabe o que foi feito deles!
António, denominado o Diabólico, filho de Marcus e Yolanda, cresceu como excêntrico, transformou-se num traidor, num andrófobo.
Casou-se tarde e teve dois filhos gémeos.
Quando um deles se casou, o outro enamorou-se da cunhada e quis desonrá-la.
O esposo regressava nesse momento, percebeu o que o irmão intentava e o matou num acesso de fúria.
Júlio, o filho do fratricida, foi martirizado durante toda a sua vida por terríveis sonhos e fantasmagóricas aparições.
Finalmente perdeu a razão.
Numa das crises que sofria, estrangulou sua jovem esposa algumas horas depois do nascimento de uma filha, seu segundo rebento.
Já então se dizia que Yolanda aparecia ao infeliz Júlio e que se apresentava sempre no castelo, antes de qualquer desastre.
Num momento de lucidez, vendo e compreendendo o que fizera, Júlio enforcou-se.
Sua filha, Angelina, era de peregrina beleza, mas trouxe infortúnio a todos os que a amaram.
Muitos cavalheiros, das mais respeitáveis famílias, suicidaram-se por sua causa.
Angelina era insensível e fria como um bloco de gelo.
O único prazer que a movia, era o martírio de suas vítimas.
Finalmente enamorou-se dela o seu próprio irmão, Pietro, que por ela quis abandonar esposa e filhos.
Então Angelina resolveu casar-se, mas no dia do seu casamento, com um nóbile de Ferrara, foi em sua alcova de noiva apunhalada por seu irmão.
Pietro quis matar-se também, mas foi impedido de fazê-lo.
Segundo a lei, deveria ser decapitado pelo seu delito.
Como a Condessa sua esposa, fosse, porém, uma parenta do Duque, e Pietro houvesse salvo um dia a vida deste, também o Duque lhe concedeu a vida, mas ordenou ao carrasco que lhe decepasse a mão.
Depois disso Pietro se recolheu de uma vez por todas a Montinhoso e aqui viveu vários anos no mais completo isolamento, como seu pai, perseguido em sonhos.
Sua existência foi encerrada pelo suicídio.
O destino do filho de Pietro, Girolamo de Montinhoso, foi igualmente tão terrível quanto o do meu filho Paulo.
Esta história conheço a mais de perto, pois Girolamo foi meu bisavô.
Muito jovem ainda, ele desposou uma órfã, filha de um cavalheiro pobre, das vizinhanças do castelo de Montinhoso.
Nada levou ela para o seu consórcio, senão a sua encantadora beleza.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:37 pm

Paríssima tinha uma tez alabastrina, sob a qual se podiam ver as suas veias finas, basta cabeleira loira que a envolvia como um xale.
Os seus negros olhos eram profundos como abismos.
Sob este aspecto de madona, dormia um carácter fogoso, imperioso, apaixonado e vingativo.
Apesar disto, os esposos viveram felizes até que a desgraça, na forma de um jovem de nome Galeazzo lhes entrou pela porta.
Este Galeazzo fora recolhido por Girolamo ao castelo por motivos cuja descrição me levaria muito longe.
Paríssima era uma mulher singular:
tinha sonhos proféticos, nos quais lhe apareceriam os espíritos dos mortos.
Um capelão conta que, no decorrer dos sepultamentos, muitas vezes teve ela vidências.
Via o morto caminhando, e levando pela mão aquele que estava destinado a partir em primeiro lugar.
Tais visões a Condessa lhe contara em confessionário.
Para sua infelicidade, Galeazzo enamorou-se de Paríssima, e também ela ardeu em paixão pelo belo jovem.
Ela concebeu então o plano de liberta-se de Girolamo.
Não se sabe como, Paríssima encontrou o veneno de Yolanda, mas admire-se que a bruxa tenha aparecido à Condessa e que lhe tenha indicado o lugar em que o veneno se encontrava.
De posse da terrível poção, os amantes aguardavam uma oportunidade para matarem o desprevenido e desgraçado Girolamo.
Sobre o desfecho, só se conhece o que Galeazzo confessou na hora de sua morte.
Estavam os três a palestrar.
Na taça do Conde, Paríssima deitava o terrível veneno.
Girolamo bebeu-o e, sentindo de súbito os seus efeitos, ergueu-se de um salto.
E erguendo a mão bradou:
“Vós me envenenastes!
Sede malditos! Sede!
O vosso crime estará sempre convosco...”
Sua voz perdeu-se, e alguns minutos depois Girolamo se transformava em estátua.
Galeazzo e Paríssima, dizem, fizeram fechar o quarto, murando-o, e apagaram os vestígios do crime.
Esse aposento nunca mais foi localizado.
Depois, servos dedicados foram encarregados de espalhar a notícia de que o Conde fora visto, à noite, invadindo um jardim, e que perdera a vida, provavelmente, numa aventura.
Alguns dias depois encontrou-se, nas proximidades da vila, a sua capa ensanguentada.
Um crime, porém, ao que parece, traz consigo um segundo e muitos outros.
Uma onda de desconfiança passou a pairar no ar que respiravam.
Para que o terrível segredo fosse conservado, muitas outras criaturas tiveram que morrer.
Entre a criadagem do castelo irrompeu uma epidemia que vitimou quase todos os servos, que levaram consigo para a tumba, o que sabiam.
Galeazzo e Paríssima casaram-se, mas a união foi infeliz.
Entre eles pairava a sombra do assassinado Girolamo, e o castigo celeste perseguia os culpados.
Como parente mais próximo do finado Girolamo, que não deixara descendência, Galeazzo herdou a propriedade e o título de Conde Montinhoso.
Ao leviano e voluptuoso favorito das mulheres, que eram aprisionadas pela sua rara beleza, a vida com a jovem esposa bem cedo se tornou monótona.
Paríssima tinha justificados ciúmes, encolerizando o marido.
Galeazzo, em seguida apaixona-se pela bela filha de um respeitável cortesão de Modena.
Mas a moça era religiosa e não se deixou levar pela corte apaixonada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:38 pm

Então Galeazzo, exaltado pela desacostumada resistência, resolveu libertar-se da esposa.
Algumas palavras de sua confissão indicam que ele sabia onde Paríssima escondera o veneno que matara Girolamo.
Esse lugar secreto, porém, nunca foi descoberto.
O infeliz decidiu aproveitar-se do mesmo veneno, que lhe tinha prestado tão bons serviçal.
Paríssima, que com a infelicidade conjugal se tornara mais violenta, não era estimada no castelo.
Com isto contava Galeazzo.
Ele supunha que, se mais tarde encontrassem Paríssima morta, transformada em estátua no seu leito, facilmente acreditariam na hipótese do homicídio e não suspeitariam dele.
Um dia foi a criadagem despertada por gritos e ruídos que partiam dos quartos dos patrões.
Alguns mais ousados, penetraram no dormitório, e viram Galeazzo desmaiado diante da cama da Condessa que lhe prendia fortemente a mão.
Quando os criados ergueram o Conde e quiseram libertar sua mão, verificaram que a Condessa estava morta e se transformara numa estátua.
Paríssima parecia viva.
Os seus olhos, desmesuradamente abertos, e dirigidos para Galeazzo, tinham uma expressão de horror e ódio.
Imediatamente o quarto encheu-se de servos.
Tentou-se inutilmente libertar a mão do Conde dos dedos da morta.
Galeazzo despertou do seu desmaio e lutou como um louco.
Com gritos desesperados e selvagens, tentava, inutilmente, libertar-se.
Nada conseguindo, caiu outra vez desmaiado.
Os criados não sabiam o que fazer.
Um dos escudeiros do Conde tentou, com um golpe de machado, separar a mão da morta.
O golpe porém, ricocheteou no pulso petrificado.
Por fim uma aia lembrou-se de que o bispo estava nessa ocasião na abadia próxima.
Era ele aparentado com o Conde.
Atendendo imediatamente ao apelo de um dos escudeiros, o bispo veio ao castelo, e, como os outros, encheu-se de espanto com o que via.
Começou a orar e esparziu água benta sobre o Conde, mas nada conseguiu.
Mandaram então chamar o médico da vila.
Até à sua chegada, o bispo orava ininterruptamente.
As horas se passavam lentas.
De um formoso jovem Galeazzo se transformara num ancião.
Seu rosto contraíra-se de rugas, seus cabelos quase que embranqueceram de todo, e os seus olhos se turvaram, perdendo o brilho antigo.
Já não tentava mais libertar-se.
Apático, deitara-se nos degraus do leito.
Então confessou-se ao bispo.
Contou como desejara libertar-se da esposa por meio do assassinato, bem como a maneira pela qual Yolanda em pessoa aparecera a Paríssima e lhe indicara o esconderijo do veneno.
Nesse lapso de tempo, chegara o médico que constatou o progressivo envenenamento do sangue, que ameaçava a vida de Galeazzo, cuja mão se enegrecera quase que por completo.
Tentou também abrir os dedos da morta, sem resultado.
Assim, resolveu que, para salvar a vida do Conde, amputaria a sua mão pela junta.
Todavia o Conde não pode ser salvo.
O veneno passara-lhe ao corpo, e ele morreu na manhã seguinte.
Como se confessara antes com o Bispo, foi permitido que recebesse sepultura no castelo, no jazigo dos Condes de Montinhoso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:38 pm

Entretanto o bispo negou-se a conceder sepultura cristã à Condessa, considerando-a feiticeira e rebelde.
Além disso, ela se enrijecera de tal forma, em posição sentada, que não pode ser posta num esquife.
Colocaram-na num grande caixão, feito de propósito, e a sepultaram fora dos muros do cemitério, ninguém sabe onde, pois nenhuma cruz ou lápide marcou a sua tumba.
Galeazzo e Paríssima deixaram um filhinho.
Foi o meu avô.
Lembro-me muito bem dele, pois o vi muitas vezes, quando era criança.
Era rude, dado à solidão, mas religioso.
Certa vez contou-me os factos que cercaram a morte de seus pais.
Pouco antes de morrer, sua mulher, minha avó, teve uma visão.
Julgou ver Paríssima que lhe ordenava procurasse o corpo de Girolamo e fizesse baixar a sua mão que, ao esboçar o gesto da maldição, se enrijecera.
Pois enquanto essa mão estivesse distendida, a sua maldição se manteria.
Pedia também que lhe dessem uma sepultura cristã.
Moribunda, minha avó narrou a sua visão, mas não lhe foi possível informar em que lugar Girolamo estaria.
Morreu poucos minutos depois, levando para a sepultura esse segredo.
Meu avô, meu pai, eu próprio, procuramos inutilmente o cadáver de Girolamo.
Em vão fizemos dizer missas em sua intenção, em vão assistimos a todas essas missas, orando fervorosamente pelo infeliz.
Na realidade, nada nos podia livrar de um horrível destino!
Foi sobre o meu filho Paulo, porém, que desencadeou-se, com todas as suas forças, a diabólica maldição, que o aniquilou.
Se eu, Rindolfo de Montinhoso, escapei ao infortúnio, meu filho sofreu por nós ambos.
O nascimento de Paulo custou a vida de sua mãe.
Poucas horas depois de haver dado a luz à criança, minha pobre Fúlvia adormeceu e sonhou.
E o seu sonho inteiro dizia respeito ao futuro de nosso filhinho e a sorte da família.
Pálida como uma morta, foi que se ergueu das almofadas, repentinamente, gritando palavras incompreensíveis.
Somente ouvi as palavras:
“Salvem a criança”!
Depois recaiu sobre as almofadas e morreu.
Eu amava Fúlvia profundamente, e resolvi não contrair nova aliança, antes dedicar-me inteiramente à educação de nosso filho.
Para minha alegria, Paulo cresceu forte como um carvalho, belo como Apolo e se fez senhor do requinte e da arte de um cavalheiro.
Entretanto, por vezes, talvez fosse por demais ousado e intimorato diante do perigo.
Contava ele mais ou menos dez anos quando fiz uma descoberta que fez o meu coração de pai estremecer.
Paulo era o retrato vivo do meu antepassado, de Galeazzo, que existia na galeria do castelo.
Quando o retrato de Paríssima, tida por feiticeira, foi destruído, o retrato de Galeazzo foi poupado.
Comecei a sofrer sob o peso de terríveis pressentimentos.
Realizar-se-ia em meu filho a horrorosa sina que pesava sobre todos nós?
Doei à igreja ricos presentes e passei a orar fervorosamente pela paz do meu querido rebento.
Quando Paulo atingiu os quinze anos, coloquei-o como pajem no paço do Duque de Ferrara.
Aí se tornou o favorito inconteste não só da família ducal, mas de toda a corte.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:38 pm

Sua inteligência, sua destreza nos jogos e exercícios de equitação, lhe asseguravam a preferência de todos.
O Duque tinha sido educado na corte da França, e gostava de promover festas e torneios.
Ficava radiante quando Paulo não encontrava rival na dança e no jogo da lança.
Por ocasião do vigésimo natalício de meu filho, fui à corte de Ferrara, e confesso que os seus triunfos, ai festejados, me deixaram lisonjeado e feliz.
Maior, porém, foi a minha satisfação quando o Duque deu-me a perceber o seu carinho por Paulo.
Consentiria, em três anos, quando sua filha Bianca atingisse a idade de dezasseis anos, no casamento dos dois jovens, se se sentissem mutuamente atraídos.
Tal expectativa para meu filho, encantou-me, e foi muito feliz que parti de Ferrara na companhia de Paulo.
Tínhamos muito por fazer em Montinhoso e Modena.
E sete ou oito meses vivemos entre este e aquela, até que um dia recebemos uma carta da mãe de minha falecida esposa, cuja lembrança me era e será sagrada.
A velha Condessa de Castelmonte, que vivia em Veneza na companhia de uma filha casada, pedia-me que mandasse Paulo a visitá-la pois há dois anos não o via.
Dizia-se saudosa do único neto, e desejosa de tê-lo por uns dias ao seu lado.
Satisfiz o seu desejo com o maior prazer.
Paulo que amava e venerava sua avó, também desejava vê-la.
Algumas semanas depois de sua partida recebi certa carta, de um parente distante, Cezar Salviati.
Comunicava-me que estava gravemente enfermo e implorava a minha presença.
Queria me fazer, de viva voz, certo pedido cujo assentimento, de minha parte, lhe daria a tranquilidade necessária a morrer.
Pouco conhecia a seu respeito.
Quando éramos ainda jovens, mudara-se ele para Roma, entrando para o serviço do Santo Padre.
Sabia também que se casara.
Depois perdera-o de vista.
Estava vivendo num pequeno castelo nos arredores de Perusa, resto de sua antiga fortuna.
Minha chegada alegrou-o muito.
Contou-me, na parte que eu desconhecia, a história de sua vida.
E com os olhos rasos de lágrimas, pediu-me que me encarregasse de sua única filha, Giovana, depois de sua morte.
Prometi-lhe que permaneceria no castelo até quando ele desejasse, e que depois partiria levando Giovana, que eu trataria como milha filha, para Montinhoso.
Vendo Giovana pela primeira vez, surpreendi-me com a sua beleza.
Julguei nunca ter visto adolescente mais bela.
Seus olhos eram profundamente escuros e olhavam sempre com qualquer coisa de surpreso e interrogativo, do seu rostinho alvo e perfeito.
Duas longas tranças loiras caiam-lhe pelas costas, sendo mais em realce o encanto dos seus olhos escuros.
A minha promessa alegrou a Cezar, e, quando alguns dias depois ele morria, abençoou-me antes de cerrar os olhos.
Levei Giovana comigo, sem adivinhar que, com ela, estava levando a desgraça de Paulo para a minha casa.
Em Modena compramos tudo quanto à rapariga faltava, e fomos nos acomodar em Montinhoso.
Num ambiente de riqueza e brilho, Giovana desabrochou como uma flor, vencendo a dor motivada pela perda do progenitor bem mais depressa do que eu esperava.
Chamava-me de tio Rindolfo e amava-me como a um pai.
Também eu lhe era dedicado como a uma filha.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:38 pm

Satisfazia-me a sua alegria infantil, que qualquer pequenino presente despertava.
Como um agradecimento que me dirigia, cantava-me com argentina voz, canções que ela mesma acompanhava dedilhando o alaúde.
Por esse tempo, surgiu-nos aqui um jovem artista de nome Enzio Castelli, filho de um amigo meu.
A família Castelli era nobre e rica.
Enzio, que possui a grande talento pictural, dedicava-se inteiramente à arte.
Tinha feito nome, e recebia inúmeras encomendas de burgueses ricos e sacerdotes.
O prior de nosso convento, encomendara-lhe um quadro sacro.
Convidei Enzio a vir morar connosco enquanto executasse o quadro.
Simultaneamente pintaria, se consentisse, o retrato de Giovana e o meu.
Enzio aceitou satisfeito o convite e logo iniciou o trabalho.
O meu retrato que se encontra nesta sala, foi pintado por ele e executado com a mesma perfeição com que executou o de Giovana.
Em breve, observei que Enzio enamorava-se de Giovana, o que, aliás, não era de admirar.
Se Giovana tivesse correspondido ao seu amor, eu teria consentido no casamento.
Enzio era de boa família, de reputação limpa, e, além .disso, o dote que eu havia destinado a Giovana, não deixaria os dois dependentes do seu trabalho.
Mas Giovana era indiferente a Enzio, e quando o moço confessou-lhe os seu amor e pediu-a em casamento, recusou incontinente.
Enzio retirou-se do castelo no mesmo dia, regressando a Modena.
Mas a infeliz paixão reconduziu-o de novo a Montinhoso e só muitos anos depois vim a saber que se tornara monge e ingressara no nosso convento.
Paulo estava ainda em Veneza.
Quando escrevia, mostrava-se encantado com a cidade.
Era belo e disputado pelas mulheres:
entre as beldades, não tinha mais a fazer do que escolher.
Enviou-me o seu retrato em miniatura, num maravilhoso medalhão, realizado por conhecido artista.
Esse retratinho, entretanto, desapareceu, e nunca mais pude encontrá-lo, o que até hoje sinto, pois era muito fiel e perfeito.
Paulo deixara-se retratar vestido de branco, com um barrete de plumas sobre a cabeça, tal como eu havia visto em Ferrara...
— Deus meu, esse retrato eu o vi nas mãos de Valéria, quando encontrei aberta a porta que dá para os cómodos murados! - Disse Larissa interrompendo a leitura.
E corou envergonhada, pois até então não dissera nada a ninguém, acerca dessa descoberta.
— Tranquilizai-vos!
O espírito de Giovana mora no corpo de Valéria, não é mais segredo! - Disse Sir Gerald.
Falai calmamente!
Então Larissa relatou como vira o retratinho descrito nas mãos de Valéria.
— Fica esclarecido agora que Giovana subtraiu o retrato e o escondeu.
Em estado sonambúlico Valéria o encontrou... - Explicou Sir Gerald.
Mas, prossigamos com a leitura.
E continuou:
— Paulo escreveu-me que uma grave moléstia punha em perigo a vida da Condessa.
Temia a sua morte.
Resolvi seguir imediatamente para Veneza, a fim de uma vez mais ver a moribunda.
Todavia o destino decidiu transformar os meus planos.
No caminho encontrei Paulo que já estava de regresso.
A velha Condessa morrera dois dias depois que despachara a carta.
Paulo não quis continuar em Veneza.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:38 pm

Notei qualquer coisa de diferente em meu filho:
ele trazia uma expressão de abatimento, parecia triste e preocupado.
Atribui tudo ao golpe por que passara e procurei distraí-lo.
Falei-lhe das intenções da Duquesa, desejosa de casá-lo com sua filha Bianca.
Paulo estremeceu assustado.
Daí por diante, ora empalidecia, ora corava.
Disse de súbito, cortando o assunto:
— Um belo plano, papai!
Esperemos que se realize.
Oxalá eu agrade a Bianca e ela queira se tomar minha esposa!
Passei a remoer a ideia de que Paulo me ocultava qualquer coisa.
Como, porém, ele não me parecesse disposto a dizer nada, procurei Seno, o seu irmão de leite, que lhe servia de escudeiro, e lhe era dedicado e confidente.
Seno contou-me que o jovem Conde conquistara o coração de muitas damas, e que duas delas se tinham suicidado por sua causa, uma vez que Paulo não as quisera.
Assim, chegamos de volta a Montinhoso, onde Giovana me recebeu festivamente.
Paulo, entretanto, cumprimentou-a friamente.
Em pouco tempo, porém, se tornaram óptimos amigos.
Iam juntos à caça do falcão, passeavam livres pelo parque, e cantavam duetos.
Eu julgava tudo muito natural, e estava satisfeito por ver que Paulo se punha outra vez alegre e despreocupado.
Nem por um instante imaginei que ambos se prendessem cada dia mais, pelos laços do amor.
Ocupado em por ordem nos negócios da Condessa Castelmonte, não achei tempo para observar mais acuradamente ao meu filho.
Oh! Por que não confiaram em mim, por que não me confiaram o amor que alimentavam?
Com as minhas muitas relações, poderia ter impedido o casamento projectado entre Paulo e Bianca, somente por fazer a felicidade dos dois.
Eles, entretanto, se calaram, e eu fui cego.
Estava ainda ocupado com a herança que a velha Condessa deixara a Paulo, quando faleceu meu primo, que me legava todas as suas ricas propriedades no Sul da Itália, as quais, estando eu em Montinhoso, dificilmente poderia administrar.
Resolvi por isso vendê-las.
Quis ir à Sicília, mas antes disso, passar por Ferrara a fim de me informar se o projecto do casamento continuava de pé.
Regressando intentava levar Paulo ao Duque, para que o noivado fosse festejado.
Quando parti Paulo ficou em Montinhoso.
Nem ele e nem Giovana pareceram preocupados quando falei no casamento com Bianca.
Eu esquecera a maldição que pesava sobre nós.
Supunha que os ricos presentes oferecidos à igreja e as preces que fizera tivessem desfeito a nuvem negra.
Assim, parti para Ferrara.
No caminho pernoitei numa grande estalagem cujo proprietário, Anselmo, eu conhecia e respeitava como um homem honrado e correto.
Tinha ele uma única filha, Marieta, que contava dezoito anos.
Há muito tempo não me detinha na estalagem pois, habitualmente, fazia outro trajecto.
Por aquela vez entretanto, resolvi, a caminho para Ferrara, pernoitar outra vez na casa de Anselmo.
Quando o estalajadeiro veio ao meu encontro, fiquei admirado com o seu desolado aspecto.
Seus cabelos tinham embranquecido inteiramente, e o seu amável sorriso de sempre, se transformara numa expressão de absoluto desgosto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:39 pm

Subi ao quarto, e quando Anselmo veio trazer-me pão e vinho, perguntei-lhe por Marieta.
O velho pôs-se a chorar amargamente, cobrindo o rosto com as mãos.
— Oh! Signore Conde, a desgraça nos entrou em casa pior que enfermidade.
Marieta desapareceu!
Admirei-me e pedi-lhe que me contasse o que sucedera.
— Tudo nos parece um enigma!
Bem pouco sei para vos contar!
Marieta tinha uma amiga que vivia do outro lado dos montes, próximo da vila.
Essa donzela devia casar-se, e pediu-nos que lhe mandasse Marieta para auxiliá-la na confecção do enxoval.
Consentimos nisso, e Marieta partiu.
Seu afastamento foi longo porque Panowia, sua amiga, adoecera.
Foi preciso adiar o casamento.
Afinal casou-se o jovem par, que seguiu para Piza, para a casa dos sogros.
Marieta voltou para casa, mas estava outra:
tornara-se pálida e calada, evitava o convívio connosco e parecia satisfeita apenas quando se sentia a sós.
Às nossas reiteradas perguntas, respondia apenas que nada se dera de extraordinário.
Não se sentia bem em virtude de um resfriado.
Temíamos, porém, um outro motivo.
Não muito longe daqui, vive um armeiro que fazia a corte de Marieta e que nós teríamos, gostosamente, recebido como nosso genro.
Mas, durante a ausência de Marieta ele desposou outra.
Como ele fosse jovem e belo, julgávamos que Marieta o amasse.
Certa manhã me disse minha mulher, muito aflita, que Marieta havia desaparecido.
Toda a busca foi infrutífera, e até o dia de hoje, não sabemos explicar o que foi que a expulsou do lar paterno.
Ela foi o nosso sol, nós lhe satisfazíamos todos os desejos e ela tinha tudo quanto desejava.
O que sucedeu com ela não sabemos.
Só Deus sabe onde ela está!...
Não nos podemos libertar da desconfiança de que há, aí, algum homem em jogo.
Desde então, choramos diariamente, e lamentamos a nossa vida, que já agora não tem mais sentido!
Profundamente abalado com a desgraça daquela gente, procurei embalde consolá-los.
No dia seguinte prossegui viagem.
Em Ferrara verifiquei que o plano do casamento permanecia firme.
A Duquesa apresentou-me à jovem Bianca, que era bela e graciosa.
Eu lhe mostrei o retrato de Paulo e, corando, confessou que o desposaria de bom grado.
Como Bianca somente daí a alguns meses completaria dezasseis anos, resolvemos que o contrato de casamento seria festejado depois do meu regresso da Sicília.
Estive ausente por mais de quatro meses e, no meu regresso, hospedei-me outra vez com Anselmo.
Eu queria saber se haviam encontrado Marieta.
Como fosse um criado, e não o próprio Anselmo que me ajudasse a descer da cavalgadura, previ coisas desagradáveis.
Quando vi o estalajadeiro na sala, assustei-me:
nesses poucos meses ele se transformara em encanecido e encurvado ancião.
Mas o que ele me comunicou sobre o desaparecimento de Marieta, me abalou como um trovão e foi o princípio daquilo que me deveria completar sobre a minha cabeça.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 7:39 pm

Anselmo me informou o seguinte:
- Alguns dias depois da vossa partida, senhor Conde, apareceu aqui um velho monge e nos comunicou que Marieta se encontrava num convento próximo a Modena, que já se confessara e que pedia o nosso perdão pelo mal que nos fizera, mas que não pudera proceder de outro modo.
O monge nos entregou a chave da sua mala de roupas.
Até a mala.
Um cheiro forte veio ao nosso encontro.
Um cheiro de essências e de cadáver.
Encontramos vários objectos que nós nunca havíamos visto, um xale de seda, bordados, panos de cabeça, igualmente de seda, um belo cinto, uma caixinha de jóias.
Nosso desassossego cresceu quando minha mulher encontrou de repente uma trouxa de roupa, desembrulhou-a e vimos nela o corpo completamente ressequido de um recém-nascido, aparentemente estrangulado.
Minha mulher Rita caiu desmaiada.
Para nossa felicidade era noite, e pudemos aproveitar a escuridão para sepultar a infeliz criança, encobrindo a vergonha de nossa filha.
O nome daquele a quem Marieta sacrificou o seu coração e a sua honra, nos é, até hoje, um segredo.
A avaliar pelos presentes, deve ser um homem rico.
Quero mostrar-vos, senhor, a caixa, porque podeis, melhor do que nós, determinar o seu valor.
Anselmo retirou-se e voltou com uma caixinha entalhada, da qual retirou diversas jóias.
Finalmente mostrou-me um objecto a cuja vista tive uma enorme surpresa.
Era um colar com duas séries de pérolas e rubis cor de sangue, do qual pendia um medalhão com antiga gravação, que representava a mulher de Tibério Júlia.
Esse objecto, de grande valor, eu o conhecia muito bem, pois pertencera a minha falecida esposa.
Somente a custo pude conter a minha excitação e ocultá-la a Anselmo.
— Quero contar-vos o final, Signore Conde, enquanto observais as jóias.
Quando nos havíamos acalmado um pouco, pusemo-nos a caminho para visitar Marieta, para levar-lhe o nossa perdão e consolá-la.
Perguntamos por irmã Rosália.
Levaram-nos à presença da abadessa que nos recebeu amavelmente, recomendando-nos que respeitássemos como sagrada, a vontade de Deus.
Disse-nos que o Senhor chamara a nossa filha a Si.
Fora encontrada morta, certa manhã, aos pés da imagem da Virgem Santa.
Contou-nos como Marieta orava incessantemente, mas não sabia qual o pecado que pesava sobre ela...
Só o padre Bonifácio, que a confessara a conhecia.
Fora sepultada uma semana antes.
A abadessa conduziu-nos ao rectângulo de terra revolvida de novo, sob a qual estava aquela que fora a nossa maior preciosidade na terra.
Ali passamos as mais amargas horas da nossa vida”.
Anselmo ergueu-se e levantou os braços:
“Ainda que os homens não te conheçam o nome, tu, assassino que a mataste, não escaparás do castigo de Deus!
A Deus eu chamo por juiz e vingador!
Sua mão vingadora te alcançará...”
Uma ,horrível maldição escapou dos lábios de Anselmo, enquanto um gélido suor perlava a minha fronte.
Eu conhecia o criminoso!
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:01 pm

Quis obter o colar misterioso, para poder lançar à face de Paulo o seu crime.
Quando vi Anselmo mais calmo, pedi-lhe que me vendesse a jóia, que me interessava, e para ele não tinha valor.
Concordou.
O procedimento de Paulo me abalava profundamente.
Não pude conciliar o sono a noite toda.
Eu temia ser, aquela falta, o signo da maldição que pesava sobre nós.
Meu coração se contraiu de ódio e de dor, e resolvi realizar os esponsais de Paulo o quanta antes fosse possível.
Já era bem tempo de compreender os ditames de honra de um cavalheiro.
Até esse dia, eu acompanhara descuidadamente, esquecido de tudo, o crescimento de meu filho.
Então lembrei-me do passado, e comecei a temer o peso da maldição.
Enquanto o homem se acha no viço da idade, cercado de riquezas e de amigos, é cego, e se supõe acima de tudo.
Ora a Deus quando se lembra.
Quando a primeira admoestação do destino lhe bate à porta, entretanto, primeiro busca o auxílio dos homens, e só depois se dirige a Deus, ao Omnipotente de onde parte e vem o auxílio buscado.
O que se deveria fazer, de que maneira dirigiria minhas preces ao Alto, a fim de desviar o infortúnio da cabeça de meu filho?
Um velho imigrante de um convento, o signore Felício, auxiliou-me por esse tempo com seus conselhos, e explicou-me o valor e o sentido da prece.
Fui aprendendo aos poucos que, nós humanas, com o mal que fazemos, nos envolvemos numa esfera densa que, como um muro, nos separa de Deus, e nos rouba a luz e o amor que Ele irradia.
E, como se nos achássemos num denso bosque, através do qual a nossa frágil prece não consegue passar.
Não é possível afastar a fatalidade que pesa sobre nós.
Diante do destino, somos um nada.
Somas cegos e não vemos o abismo aos nossos pés, somos surdos e não ouvimos o gargalhar dos demónios que nos convidam à perdição!
Muito tarde compreendi que quem não sabe orar, nada mais é que um aleijado, surdo, mudo, cujo gemido desarticulado não pode alcançar as altas regiões.
A prece é, para a nossa alma, um impulso ascensional quando, como uma espada flamígera, penetra na escuridão e se eleva rápida nos céus.
Mas então, quando eu precisava orar pela salvação do meu filho, eu nada sabia disso.
Julguei que bastasse pô-lo a salvo através de um bom casamento.
Ignorava tudo quanto se passara em Montinhoso naqueles dias, e somente mais tarde, numa hora terrível e angustiosa, os sucessos da minha ausência.
Na manhã seguinte, eu estava em Ferrara, e mandei, imediatamente, um portador a Montinhoso, com ordens para que Paulo partisse sem nenhuma tardança, ao meu encontro.
Alguns dias depois ele chegava.
Estava magro, pálido e inquieto.
No dia seguinte se realizou um baile no paço do Duque, e a Duquesa apresentou Paulo a sua filha Bianca.
Meu filho mostrou-se amável e atraente como raras vezes; contudo, tive o pressentimento de que o seu sorriso e a sua alegria eram fingidos.
Seu olhar era, às vezes duro e cruel.
A corte, naturalmente, nada disso observou.
Bianca parecia enlevada e enamorada.
Depois do banquete, a Duquesa me disse sorridente que o meu filho havia cativado completamente o coração de sua filha, e que podia ser celebrado o contrato de casamento.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:01 pm

Eu deveria fazer ao Duque o meu pedido formal.
Na manhã seguinte chamei Paulo e lhe disse que o seu noivado com a princesa Bianca deveria ser anunciado publicamente dentro de alguns dias, e que ele com permissão do Duque poderia, nesse dia, pedir a sua mão.
Paulo empalideceu, enrubesceu e me disse que não desejava fazer isso.
Perguntei-lhe com severidade o que tinha a objectar a um tão brilhante casamento, com o qual deveria ufanar-se, tanto mais que Bianca era bela e o amava.
Deixou pender a cabeça e meneou mais uma vez, negativamente.
Isso me levou a tal excitação, que perguntei-lhe brusco:
— Quais os motivos que podes alegar?
Contraíste, porventura uma outra aliança que te prende?
Reconheces isto?
E com estas palavras atirei o colar sobre a mesa.
Ele levou as mãos à cabeça, e recuou espavorido.
— Conheces o destino de Marieta, a filha de Anselmo?
— Recolheu-se a um convento! - disse-me baixinho.
— Sim, mas depois de ter estrangulado o teu filho.
Tu a abandonaste.
Como um ladrão a roubaste aos seus honrados pais, a lançaste no lodo, e como uma luva velha, a atiraste para longe de ti.
Não procedeste como um homem de bem, mas como um canalha.
A tua vítima morreu, mas sem denunciar o teu nome.
Sobre a sua sepultura, porém, o seu pai amaldiçoou o autor da desgraça.
Já não bastam as maldições que pesam sobre a nossa família?
Já te esqueceste, por ventura, do destino trágico que afastou tantos dos nossos?
Fica sabendo agora que não reconhecerei a tua escusa em desposar Bianca.
Seria um imerecido ultraje à família ducal e à tua noiva.
Paulo caiu numa cadeira e cobriu o rosto com as mãos.
Julguei então que ele sentia remorsos pela morte de Marieta.
Só mais tarde vim a conhecer a verdadeira causa do seu abatimento.
A minha suposição de então, parecia confirmar-se pelo facto de não opor Paulo mais nenhuma resistência, de modo que o contrato de casamento foi anunciado poucos dias depois.
Realizou-se uma grande festa no paço do Duque.
Bianca estava contentíssima, e o próprio Paulo mostrava-se alegre, porém, pálido e algo distante.
Todos admiravam a sua beleza, e apenas eu julguei ter encontrado em sua expressão fisionómica alguma coisa de demoníaco.
Mas a festa decorreu bem.
O casamento deveria realizar-se daí a dois meses.
Paulo acarinhava e presenteava a noiva, e ambos se preocupavam em embelezar o novo castelo que o Duque lhes dera, e no qual iriam morar.
Como estes preparativos exigissem grandes gastos, fui a Veneza para sacar ali o dinheiro que pela finada Condessa de Castelmonte fora deixado a Paulo e a mim.
Para essa transacção foi preciso pôr-me em contacto com o advogado da finada, e conheci a Baptista Bertolini, o mais rico negociante de Veneza.
Quando cheguei a sua casa, fui recebido por seu filho que me comunicou que Baptista estava enfermo, e que ainda não pudera se restabelecer do choque que sofrera com o desaparecimento de sua filha.
Eu já havia visto, tempos atrás, Lucrécia Bertolini, uma rapariga bela, de olhos escuros.
Eu sabia que ela tinha muitos requestadores, entre os quais se contavam nobres.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:01 pm

Como pudera menina tão severamente vigiada por seu pai desaparecer?
A meu pedido, Renso Bertolini me contou o seguinte:
— Meu pai e eu não estávamos em casa quando se deu o desastre.
Uma noite, desaparecia Lucrécia, e com ela um menino, filho de sua ama, que lhe servia de pajem.
Uma parente nossa, que dormia no quarto contíguo, acordou de noite com um forte cheio de narcótico.
Supôs-se que algum de seus cortejadores estivesse em relação com esse desaparecimento.
Mas quem?
Lucrécia não dera preferência nem distinguira especialmente a ninguém.
Assim não sabemos até hoje o que sucedeu.
Um acontecimento singular nos fez supor que Lucrécia foi assassinada.
Uma noite, a nossa parenta despertou a casa toda com seus gritos desesperados.
Quando entramos em seu quarto, vimo-la acocorada, tremendo num canto da cama.
Contou que fora despertada pelo contacto de uma mão fria e que vira Lucrécia vestida apenas com uma camisa, de pé, à sua frente.
No peito da desaparecida, estava fincado um punhal, de brilhante punho.
Erguera a mão.
Pedira que orassem por ela e lhe dessem sepultura.
Desapareceu depois.
Extraordinário, porém, foi que vimos no ombro da nossa parenta, uma impressão digital muito distinta.
Condoí-me sinceramente dessa infeliz família, e quando eu estava de volta a Ferrara, relatei esse facto a Paulo.
Parece-me, entretanto, que não produziu nenhuma impressão sobre ele, que apenas disse ter pena da bela rapariga.
Logo depois do meu regresso, Paulo me comunicou que desejava ir, por alguns dias, a Montinhoso, a fim de trazer jóias e pratarias, e ao mesmo tempo porque tinha em mente ir ao casamento de um amigo em Modena.
Concordei com essa viagem, e encarreguei-me ainda de outras tantas coisas.
Pensei até que pudesse trazer Giovana consigo, para assistir ao casamento.
Pareceu-me melhor, pensando no assunto, que eu mesmo a trouxesse.
Eu queria introduzi-la na corte, onde poderia encontrar um bom partido.
Paulo regressou, mas estava outra vez taciturno e pensativo, e nem mesmo o sorriso da noiva conseguiu alegrá-lo.
Uma semana depois do seu regresso, efectuou-se o casamento com um brilhantismo real.
Na noite do casamento, deu-se um facto singular.
Quando o par entrou na alcova nupcial, Paulo deu um grito e perdeu os sentidos.
Assustamo-nos todos, e supusemos que ele tivesse adoecido.
Logo despertou, entretanto, e disse que apenas tivera uma forte tontura e sentira muita dor no coração, que atribuiu ao nervosismo do dia.
Como não se manifestassem outros sinais de enfermidade, tranquilizei-me e regressei a Montinhoso.
De volta ao castelo, admirou-me o facto de Giovana não ter vindo me receber, como o fazia de costume.
Soube, porém, que, na mesma noite da partida de Paulo, Giovana fora assaltada por um estranho que quase a estrangulara, e em seguida a atirara ao valado junto da gruta.
Apoderou-se de mim um horrível pavor do futuro.
Felizmente ficara presa nos arbustos, ao rolar para o vale, e no dia seguinte pode ser salva.
Estava sem sentidos, e despertou somente algumas horas depois.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:01 pm

Em seu pescoço estavam ainda as impressões dos dedos do criminoso.
Meu administrador quis mandar um portador a Ferrara, mas Giovana proibiu-lhe terminantemente que fizesse isso.
Sem o seu consentimento, mandou chamar o médico.
E encontrava-se convalescente, mas em singular estado de ânimo.
Permanecia quase sempre deitada, não comia nem falava.
Infelizmente não puderam os meus servos prender o criminoso, que ousara aproximar-se tanto do meu castelo.
Dizia-se apenas que havia sido visto um mendigo que perambulava pelos arredores.
Este também desaparecera.
Profundamente comovido com o que acabara de ouvir, fui imediatamente ao encontro de Giovana.
Estava deitada sobre uma cama de campanha, e tinha as feições completamente mudadas.
Magro e pálido estava o seu rosto.
Seus grandes olhos sem brilho olhavam ao redor, e seus lábios contraíam-se transidos de dor.
Quando me inclinei sobre ela, abraçou-me e me segredou com voz abafada pelas lágrimas:
— Querido trio Rindolfo, eu te quero tanto!
Foste para mim sempre um pai...
Tu nem sabes como eu te amo e te respeito!
— Minha querida filha, eu nunca duvidei do teu amor filial. Tranquiliza-te.
Não nos separaremos nunca mais.
Eu te protegerei, para que não suceda um novo mal! - Disse-lhe eu.
Ela procurou sorrir e disse que já não temia nada.
Faria o possível por se levantar para o jantar.
Às minhas perguntas sobre o assalto, contou-me a contragosto:
— Não me martirizes, tio Rindolfo.
Não conheço o malfeitor, e nem o pude ver ou reconhecer, pois já era noite.
Eu tinha ido sozinha à gruta, sem pressentir qualquer coisa de mal.
Giovana foi ganhando vivacidade, mas o seu rosto parecia cada dia mais pálido e mais fino, de modo que decidi ir com ela a Ferrara, para distraí-la um pouco.
Ela porém, não aceitou a ideia, e me pediu que a deixasse em Montinhoso, pois era ali que se sentia bem.
Todo o meu esforço em convencê-la, foi inútil.
Nesse tempo me veio pela primeira vez a desconfiança de que ela talvez amasse a Paulo, pois quando um dia lhe fiz a descrição, para distraí-la, do casamento em Ferrara, ela empalideceu e fechou os olhos.
Em seu semblante se desenhou uma expressão de ódio, amargura, e desespero, como se uma lúgubre resolução se armasse em seu espírito.
Desde esse dia, notei que qualquer referência a Paulo a deixava nervosa, e essa descoberta inquietou-me...
Se também Paulo a amasse, eu de bom grado teria estado disposto a desistir do casamento com Bianca, apenas para não prejudicar a felicidade de Giovana.
Como o homem, porém, sempre espera aquilo que deseja, eu também esperei que ela esquecesse Paulo, com o passar dos dias.
Um dia Giovana estava tão enfraquecida, que não pode erguer-se.
Eu queria mandar chamar um médico afamado de Florença quando soube, pelo capelão, que nas proximidades do castelo vivia um médico que já fizera várias curas mui singulares.
Chamava-se ele Felício Luciano, e vivia com um menino que o servia, num casebre próximo a Montinhoso.
O senhor Felício veio examinar Giovana e me disse:
— Chamaste-me tarde demais.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:01 pm

A alma já entregou o corpo à destruição, e ela não viverá mais do que duas ou três semanas.
Estas palavras me surpreenderam.
Não podia acreditar num fim assim tão rápido.
Nem sei descrever quão infeliz eu me sentia quando fui ver Giovana.
Estava deitada em seu lugar predilecto, junto da janela aberta.
O sol poente iluminava o seu rosto de cera, e os seus raios a envolviam como uma áurea divina.
Dormia e não ouviu a minha entrada.
Quando me aproximei mais, estremeceu dormindo e balbuciou:
“Paulo?!”
Com os próprios lábios confirmava ela a verdade.
O amor sem esperança, martirizava-a mortalmente.
Quando abriu os olhos, assentei-me ao seu lado e lhe disse, como uma leve admoestação:
— Giovana... Porque não depositaste confiança em mim, abrindo-me o teu coração?
Acreditaste realmente que eu sacrificaria a tua vida e a tua felicidade ao meu amor próprio?
Giovana pôs-se a chorar baixinho.
— Queres vê-lo? Mandarei chamá-lo.
Ela apenas meneou a cabeça.
— Eu desejaria vê-lo... pela última vez.
Ele, porém não virá...
— Ele virá Giovana!
Mandarei imediatamente um portador.
— Permita-me, titio, que lhe escreva algumas palavras!
— Escreve minha filha, enquanto instruo o mensageiro.
Giovana entregou-me uma carta lacrada, e o mensageiro partiu ainda nessa mesma noite.
Levava ordens de viajar tão depressa quanto possível.
Desde esse dia, Giovana foi presa de impaciência e desassossego febris.
Pedia que a levassem de manhã à torre do castelo, para que pudesse descortinar a linha distante do horizonte e esperar Paulo.
Somente à tardinha, quando escurecia, é que permitia que a reconduzissem ao seu quarto.
Às vezes pedia o seu alaúde e cantava, então, em voz fraca, algumas canções e baladas, ou mergulhava em profundas meditações.
E Paulo não vinha.
Mandei um segundo mensageiro, escrevi que não encontraria Giovana com vida se não se apressasse.
Não compreendia a contemporização.
Eu sentia um grande desassossego.
A excitação de Giovana, porém, tinha chegado ao auge, e eu temia, cada dia, que ela não sobrevivesse à manhã seguinte.
Quando cautelosamente lhe fiz a proposta de se confessar e comungar, ela recusou energicamente:
— Não! Deus é inclemente.
Recebem uns tudo, às mãos cheias, com abundância.
Outros têm as mãos vazias, e ainda sacrificam o pouco que tem.
Não quero orar.
E uma manhã Giovana não desejou mais ir à torre.
Com o olhar taciturno recusou o alimento.
Mandei chamar o signore Felício, e fiquei pessoalmente ao seu lado.
À tardinha ela tornou-se outra vez mais animada.
Ergueu-se na cama, e com os olhos muito abertos olhou ao derredor.
— Tu és desalmado, negas a uma infeliz a sua última súplica.
Livra-te, também eu serei inclemente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:02 pm

Se eu te segurar, não te largarei mais.
Ela riu-se fantasticamente, e caiu outra vez sobre as almofadas.
Depois adormeceu.
Fui ao meu quarto para repousar um pouco e escrever uma carta urgente.
Pela meia-noite terminava eu a carta.
Senti de repente um vento glacial que passava pelo aposento.
Voltei-me, e julguei que a janela não estivesse fechada.
Mas fiquei estarrecido de susto quando a dois passos de mim vi uma densa nuvem de fumo negro que parecia iluminada por um fogo esverdeado.
A fumaça abriu-se e a imagem alva de um homem, em trajes antigos, se apresentou.
Seu braço estava suspenso e na mão sustinha um objecto ensanguentado que eu não pude reconhecer.
Toda a sua imagem fazia-me a impressão de uma estátua.
Julguei reconhecer nele o nosso antepassado Girolamo, pois havia visto o seu retrato na galeria.
E então ele me disse:
— Ai de ti, pobre pai!
A némesis se aproxima.
O coração do traidor não escapará ao seu destino.
A imagem foi se esbatendo e desapareceu.
Tive um desmaio.
Mais tarde eu não sabia realmente se havia visto um espírito ou se o meu estado nervoso é que me levara a imaginá-lo.
Trémulo deitei-me, mas não pude conciliar o sono.
Uma hora depois a nossa velha ama mandava um criado para dizer-me que Giovana havia morrido.
Vesti-me às pressas e fui ao quarto da morta.
Cheio de aflição e compaixão, fitei aquele rosto belo, que ostentava uma expressão hostil, ainda depois de morto.
Coloquei um crucifixo sobre o peito de Giovana e orei pelo descanso de sua alma que tão cedo tivera que partir.
O signore Felício havia chegado. Fi-lo entrar, na esperança de que Giovana estivesse apenas profundamente adormecida, e ainda pudesse ser salva.
O signore Felício inclinou-se sobre ela, examinou-a e constatou que qualquer auxílio era tardio.
— Pretendeis, senhor Conde, entregar esta bela morta à decomposição?
Perguntou ele.
- Conheço um processo pelo qual se pode preservar um cadáver eternamente e conservar-lhe a sua expressão natural.
Pedi ao signore Felício, pois, que preservasse o corpo de Giovana da decomposição e empregasse o seu processo.
Eu não teria suportado nunca deixar o ser que eu amara como filha desfazer-se em pó.
Ele me prometeu que o corpo de Giovana estaria pronto no dia seguinte para ser levado à catacumba dos Montinhoso.
Quando vi a morta no dia seguinte, fiquei admirado da sua aparência de vida.
Parecia que apenas dormia.
O signore Felício me disse, entretanto:
— Signore Conde, não demoreis com o sepultamento.
Os espíritos maus a rodeiam, e se não a fizerdes sepultar logo, pode dar-se uma grande desgraça.
Para a minha infelicidade, não compreendi estas palavras de signore Felício.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:02 pm

E eu respondi que não podia sepultar Giovana às pressas, como uma criminosa.
Eu lhe queria prestar todas as honras.
Felício apenas meneou a cabeça.
— Arrepender-vos-eis de menosprezar as minhas palavras.
Contudo voltarei amanhã a noite ao castelo.
Talvez necessiteis dos meus serviços.
Agradeci-lhe mas não dei crédito a tais palavras, pois só pensava no enterro da minha amada Giovana.
Os sacerdotes me opuseram dificuldades, porque Giovana não recebera os socorros eclesiásticos antes de morrer.
Contudo consegui convencer o prior do convento por meio de um grande presente que fiz à igreja.
As missas em intenção da alma de Giovana foram ditas.
Nessa ocasião vi, inesperadamente, Enzio Castel, entre os monges.
Olhava-me carrancudo.
Orou a noite toda junto ao esquife da morta que havia sido removido para a capela do castelo, de onde devia sair no dia seguinte, para ser sepultado no jazigo da família.
Quando na manhã seguinte se dizia a missa fúnebre, todos os moradores do castelo se reuniram, com o resto do povo, na capela.
De repente, me pareceu ouvir tropel de animais no pátio do castelo.
Um escudeiro apareceu e anunciou a chegada do meu filho Paulo.
Quando, um momento depois, Paulo entrou, estranhei a sua excessiva palidez, que pelo traje negro que ele vestira logo depois de sua chegada, era ainda mais realçada.
Quando se aproximou de mim, critiquei-o pela sua demora.
Disse-me, porém, que Bianca em breve se tornaria mãe, e não o deixava sair.
Essa novidade me alegrou, e achei natural que ela não quisesse separar-se de seu esposo.
Paulo aproximou-se do esquife, ajoelhou-se e absorveu-se numa prece.
Parecia de sobremaneira emocionado.
Finalmente ergueu-se, tomou das mãos de pajem um ramalhete de flores, fitou Giovana por muito tempo e depôs, então, as flores sobre o seu peito.
Neste momento deu-se o facto horrível, que atordoou todos os presentes, e fê-lo estremecer.
A mão petrificada da morta ergueu-se e agarrou Paulo pelo pulso.
Meu filho emitiu um grito de angústia e caiu de joelhos junto do esquife.
Pensei ter estarrecido de susto, mas o grito do infeliz me chamou à razão.
Todos os presentes pareciam próximos da loucura e muitos caíram em súbitas síncopes.
A maioria procurou fugir.
Gritavam e esmurravam-se.
Em breve a capela estava vazia.
Apenas o sacerdote, no altar, Enzio Castel, Seno, seu irmão de leite, o meu escudeiro Martim e eu ficamos aí.
Com a cabeça pendida, Paulo jazia desfalecido junto do esquife.
Passando o primeiro susto, tentamos soltar os dedos da morta do punho de Paulo, mas embalde.
Quais garras férreas desfiguravam o infeliz e pareciam não querer largá-lo nunca.
Enzio Castel estava do outro lado do esquife e observava os nossos esforços inúteis.
Finalmente disse:
— Deixai disso, senhor Conde!
Vosso esforço é vão.
Aqui Deus omnipotente fez baixar sua sentença.
E se Deus fez a mão da morta erguer-se na presença de todos, é por que grande é o crime cometido contra a finada.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:02 pm

Ele lançou um olhar de desespero, cheio de ódio, sobre Paulo, e a passos vagarosos saiu da capela.
Eu seria incapaz de escrever o que sofri e experimentei.
Não pude banir de mim a desconfiança de que Paulo tivesse enganado Giovana.
Esse seria um procedimento baixo e indigno dele.
Mas não devia eu, à vista do terrível castigo que acabara de sofrer, perdoar-lhe tudo?
Sim, eu podia fazer isso.
Perdoei-lhe tudo, e o meu ódio desesperado voltou-se contra Giovana.
Foi essa então a sua gratidão pelo que fiz a ela e a seu pai, recolhendo-a em minha casa?
Se eu a tivesse deixado entregue ao destino, a minha casa teria ficado livre desse infortúnio e vergonha.
Mesmo que Paulo a tivesse enganado, ela se teria entregado a ele espontaneamente.
E se o amasse realmente, não teria se vingado com tanta crueldade, pois que o amor verdadeiro tolera e perdoa tudo.
Marieta, a filha do simples Anselmo provara isso.
Morrera sem denunciar o seu algoz, para não o entregar à vingança dos seus.
Meu coração estava saturado de dor e desespero; em minha raiva pronunciei em voz alta uma imprecação, e não lembrei que sobre nós pesava também a maldição de Girolamo.
Todo o pensar e meditar de nada adiantava, eu precisava agir.
Mas, o que devia fazer?
Resolvi então cortar a mão da morta e soltar um dedo após outro, do punho de Paulo.
Trouxeram-me o meu mais afiado punhal e eu ia dar começo à operação quando entrou o signore Felício.
Lembrei-me de suas palavras e de seus conselhos e arrependi-me sinceramente de não os ter seguido.
— Salva o meu filho, salva-o!
Eu te farei o homem mais rico!
— O vosso ouro, Conde, não me tenta!... - Respondeu ele tristemente.
Mas a desgraça que vos atinge, me abate profundamente.
Eu farei tudo quanto esteja em minhas forças para o ajudar.
A desgraça está feita!
Vede a expressão fisionómica cruel, triunfante, que tem a morta agora.
Crede que precisamos cortar a mão da morta mas não quero começar nada sem antes ter consultado as forças invisíveis.
Em primeiro lugar vou buscar um remédio para fazer o jovem voltar a si.
Antes disso, porém, teremos que tirar o esquife do catafalco e colocá-lo ao lado para podermos assentar o jovem Conde naquele banquinho.
Executamos as determinações do signore Felício, mas foi difícil chamar a criadagem que se recolhera ao lado oposto do castelo.
Ninguém veio.
De modo que finalmente, o velho sacerdote, a quem supliquei que ficasse, e dois dos meus cegamente submissos escudeiros alçaram o esquife e o desceram ao lado.
Fizeram Paulo assentar-se.
Terminávamos justamente a nossa pesada tarefa quando o signore Felício regressava.
Trazia um líquido num vaso fervente e uma bacia de prata com água.
Com a água Felício molhou o rosto de Paulo, que logo abriu os olhos.
Seu olhar era interrogador e pleno de horror.
Voltou-se para nós.
Então teve que beber o líquido do vaso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:02 pm

— Coragem, senhor Conde.
Quero salvar-vos a vida, se fordes calmo e suportardes tudo até o raiar do dia.
Depois o senhor Felício voltou-se para mim.
— Ele deve acalmar-se, mas vós deveis orar a Deus e pedir auxílio e perdão pelos vossos pecados.
Tomarei agora as necessárias providências e farei os preparativos.
Nós todos nos postamos de joelhos e oramos fervorosamente.
Eu perdoei ao meu filho todos os seus crimes, quaisquer que pudesse ter cometido, pois sua desgraça me atingiu profundamente.
— Como te sentes, meu filho? - Perguntei-lhe baixinho.
— Perdoa-me, papai!
Receio enlouquecer.
Em meu braço, até o ombro, sinto um ardor semelhante ao de brasas, mas nas veias, por todo o corpo, sinto um frio glacial.
Não consegui responder-lhe.
Minha garganta estava como que estrangulada.
Calado beijei-o sobre a testa.
Ele compreendeu que eu o havia perdoado.
Os seus olhos brilharam.
Assim se passou talvez uma hora, até quando o sacerdote se ergueu e, aproximando-se de Paulo, lhe perguntou se queria aliviar o coração e a consciência, por meio de uma confissão.
Talvez que assim se reconciliasse com a sua vítima.
Paulo ergueu-se e estava disposto a isso.
Pediu um copo de vinho morno.
Depois de ter bebido, solicitou ao sacerdote que permitisse a seu pai ouvir a confissão.
Aquele homem honrado compreendeu Paulo e deu o seu consentimento.
Martim me trouxe um banco e todos os outros se retiraram da capela.
Paulo, com muito custo, ajoelhou-se diante do padre Francisco.
Este já estava há alguns anos no castelo, havia baptizado Paulo e lhe ministrara a sua primeira comunhão.
Ele o amava.
Pôs um círio aceso na mão de Paulo e disse:
— Perante Deus e seu misericordiosíssimo Filho, deverás confessar os teus pecados, meu filho.
Não ocultes nada e fala sem ocultar nenhuma coisa.
Deus é misericordioso e perdoa aqueles que sinceramente se arrependem.
Cristo disse: - “Quem estiver livre de pecado atire a primeira pedra”.
O pecado é próprio do homem.
Quem te escuta, são teus pais;
teu pai carnal e eu, pai espiritual.
Paulo beijou o crucifixo e começou a falar baixinho, porém claramente.
Cada palavra dessa confissão me dava uma punhalada no coração.
Signore Felício aconselhou-me escrevesse também essa confissão.
E tanto quanto ainda me recordo das palavras de Paulo, quero seguir esse conselho.
Em primeiro lugar falou ele de Marieta.
Como, entretanto, eu já contei a sua triste história, desejo tão somente acrescentar que Paulo encantou-se com a sua beleza.
Quando a viu em casa da amiga, conseguiu ele alcançar o seu amor e desencaminhá-la.
Mas em breve se aborreceu dela, tanto mais que ela lhe dissera que ia ser, dentro em pouco, mãe de seu filho.
Ele resolveu casá-la.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:03 pm

Em Seno encontrou um noivo que a teria desposado, pois que ela lhe agradava também, mas a rapariga se negou a contrair núpcias.
Paulo seguiu para Veneza e esqueceu-a!
Nem lhe passou pela mente que esse amor efémero, pudesse ter quaisquer más consequências.
Pois que ele, como tantos outros, apenas enganara uma rapariga do povo.
Paulo conhecia outras jovens como aquela.
Todas contavam como uma honra, o haver despertado o agrado de um nóbile.
Em Veneza, por ocasião de uma festa no Canal Grande, Paulo viu, pela primeira vez, Lucrécia Bertolini, cuja beleza surpreendeu-o e fascinou-o.
Quando Paulo referiu ao seu nome, estremeci.
“Deus misericordioso, estaria Paulo também envolvido na história obscura do seu desaparecimento”?
— Enamorei-me de Lucrécia, - contou Paulo em sua confissão, - e em breve soube que era filha de um rico senhor.
Mas como não frequentasse a nossa sociedade, era-me difícil vê-la.
Subornei então a sua velha ama, e soube que o pai de Lucrécia queria casá-la, em breve, com um primo, de quem já era noiva.
Essa notícia aguçou ainda mais a minha paixão.
Graças à ausência do pai e do irmão, que estavam de viagem, pude, desembaraçadamente, cantar serenatas debaixo da sua janela, enviar-lhe por intermédio da ama cartinhas e flores, e encontrá-la na igreja.
A velha Laura nos auxiliava também nos nossos passeios de gôndola.
Disfarçado e com uma máscara sobre a face, ia eu numa gôndola, pelo meu fiel Seno dirigida, até junto à casa de Lucrécia.
Passando-a, que também estava mascarada, para a minha gôndola, passeávamos por muito tempo, falando de amor.
A sua paixão era tão grande quanto a minha.
Teria, porém, maior duração?
Por muito que ela estivesse enamorada de mim, não a pude vencer.
E este facto aumentou ainda mais a minha paixão.
É verdade que ela se sentia orgulhosa de ver um dos mais belos cavalheiros de Veneza aos seus pés, mas temia o rancor de seu pai e pediu-me conservasse a nossa ligação em segredo.
Um dia me confessou que, como minha esposa legal, ela se atreveria a apresentar-se ao pai e dizer-lhe que decidira mudar os seus planos de casamento.
Essa revelação tirou-me a paz.
De um lado eu estava firmemente convencido de que tu, papai, nunca te manifestarias de acordo com semelhante casamento.
De outro lado, Seno tentou, por todos meios e modos dissuadir-me.
Mas Lucrécia me dominara de tal modo, que julguei não mais poder viver sem ela, e assim, resolvemos nos casar secretamente.
Julgávamos que, colocando nossos pais diante do facto consumado, estes se conformariam, e nos dariam, ainda que posteriormente, o seu consentimento.
O pai de Lucrécia, porém, segundo a minha opinião, somente poderia agradecer a Deus, por ter um Conde Montinhoso por genro.
Com o ouro demovi um sacerdote de uma pequena igreja nas proximidades de Veneza, que nos recebeu em matrimónio, de noite.
Ninguém, além das duas testemunhas, Seno e a ama, ficaram sabendo do facto.
Durante os primeiros tempos, regalamos a alma com a nossa felicidade.
Lucrécia estava contentíssima por pertencer-me e eu também, julgava-me indizivelmente feliz.
Aos poucos porém, tornei-me mais sério.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:03 pm

O meu amor por Lucrécia arrefeceu.
Sempre pensei, papai, em dizer-te a verdade.
Quando vovó morreu e eu vim ao teu encontro, ordenei a Lucrécia que se calasse e não me seguisse antes de receber instruções minhas.
Pretendia primeiramente combinar tudo contigo; então eu iria buscá-la.
Lucrécia concordou.
Quando ouvi de ti o plano de casamento com Bianca, não sabia o que devia fazer.
Eu te teria dado razão se tivesses desaprovado o meu casamento com a filha de um simples negociante.
Vim para aqui e encontrei Giovana.
Beleza semelhante não havia visto antes.
Já alguns dias depois, eu era um seu escravo, e me recriminava pelo meu apressado casamento com Lucrécia.
Notei o amor que tu dedicavas a Giovana e compreendi que nada terias a opor a um casamento com ela.
Contudo, eu mesmo tranquei, como um tolo, as portas para a minha felicidade.
Com a convivência íntima, com os passeios que fazíamos, com os duetos que cantávamos, os nossos corações se encontraram.
Por Lucrécia, então, passei a nutrir ódio e aversão.
A minha paixão por Giovana chegou ao auge, quando vi o quanto era cortejada por Manfredo Toreani.
Manfredo era rico e belo, e pertencia a uma das mais distintas famílias de Modena.
Fiquei preso de ciúmes ao lembrar-me que Giovana pudesse um dia pertencer-lhe.
Ela, porém, ocultava os seus sentimentos.
De modo que eu não sabia se ela o amava, ou se amava a mim.
Mas eu confiava no facto de que, até então, nenhuma senhora ou senhorita que me agradara tivesse podido resistir-me.
Na tarde do dia anterior àquele em que me falaste sobre o pretendido consórcio com Bianca, eu e Giovana nos havíamos desentendido.
Durante o festejo do meu aniversário, Giovana dera visíveis preferências a Manfredo.
Eu estava sendo devorado por um louco ciúme.
Sabia, aliás, que não podia desposar Giovana, mas queria possuí-la a todo o preço.
Preferia assassiná-la, a deixá-la a Toreani.
Achei um pretexto para atraí-la à gruta e confessar-lhe, aí, o meu amor e os meus ciúmes por Manfredo.
Giovana respondeu à altura.
De bom grado se tomaria minha esposa, mas nunca minha amante.
Para possuí-la teria de passar pela porta da igreja.
Mas se eu desposasse Bianca, ou ela se tomaria esposa de Manfredo ou se recolheria a um convento.
Cego pelo amor, jurei que somente ela, e nenhuma outra, seria minha esposa.
Eu tinha em vista apenas afastar as suas desconfianças.
O acaso me foi favorável.
Tu viajavas para a Sicília e eu ficara só em Montinhoso.
Imediatamente ordenei a Seno que preparasse tudo para um casamento secreto, e nem pensei no crime que cometia, contraindo essas segundas núpcias.
Seno ficou estupefacto, mas não ousou contrariar-me.
Na pequena capela de Santa Rosália, próxima do convento, um sacerdote mau e ganancioso chamado Ambrósio, prontificou-se a fazer o nosso casamento, em segredo, por uma boa soma de dinheiro.
Eu, naturalmente, não lhe disse palavra sobre o meu primeiro matrimónio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:03 pm

A Giovana eu disse que o nosso casamento não podia realizar-se na abadia, pois, então, tu virias a saber a tudo, antes do tempo.
A cerimónia realizou-se apenas com a presença de Seno, Lorenzo, que também me era dedicado, e Giuseppe, um velho soldado.
Além disso, Giuseppe era cego, e quase surdo.
Dessas testemunhas é que eu precisava.
Começou, então, para nós, um período de amor apaixonado.
E Giovana foi a primeira mulher que, graças a seus encantos, me escravizou.
Muitas vezes tive medo do futuro, onde, talvez, fosse tudo descoberto.
Mas também aqui o acaso me favoreceu.
O padre Anselmo morreu e poucas semanas depois morria Giuseppe e Lorenzo.
Tranquilizei-me outra vez e entreguei-me à minha ventura e ao meu amor.
Nesse tempo recebi diversas cartas de Lucrécia que me suplicava desse fim à sua situação angustiosa, porquanto seu pai e seu irmão em breve regressariam, e trariam consigo o seu noivo.
Respondi-lhe que precisava aguardar o teu regresso da Sicília.
Admiti, não sem motivo, que Lucrécia estaria sendo devorada pelos ciúmes, pois que o rapaz que ela mandou com a primeira carta viu quando eu saia a cavalo na companhia de Giovana, e provavelmente lhe contou quão bela mulher habitava o castelo.
Uma tarde vi de repente Seno pálido e confuso vir a mim, para dizer-me que Lucrécia acaba de chegar, com o filho da ama.
Fiquei como que atingido por um raio.
Era o que faltava!
Uma mulher pela qual apenas alimentava desprezo, chegava aqui para desmascarar-me.
Um pensamento diabólico passou pela minha mente.
Ordenei a Seno que a conduzisse, através do subterrâneo, ao quarto vermelho, e o pequeno Carlos ao meu quarto.
Ninguém deveria vê-la.
Nosso reencontro nessa noite não foi alegre.
Lucrécia me cobriu de injúrias por havê-la abandonado, a ela minha esposa perante Deus, para amasiar-me com outra rapariga.
Ameaçou contar tudo a Giovana, assim como a seu pai.
Falou ela durante todo o tempo, e o meu ódio foi crescendo de minuto a minuto, mas dissimulei meus sentimentos e tranquilizei-a com palavras amorosas.
Aos poucos ela acalmou-se, deitou e adormeceu em breve.
Então aproximei-me sorrateiramente e matei-a com uma punhalada.
Contudo ela teve forças para abrir os olhos, reconhecer-me e gritar com voz rouca:
— Paulo?! Assassino... traidor... maldito...
Depois morreu.
Paulo calou-se e fechou os olhos.
A recordação de seus crimes acabrunhava-o profundamente.
O padre Francesco e eu ficamos perplexos.
Eu nunca teria julgado que meu filho seria capaz de um assassínio.
Algum tempo depois Paulo prosseguia na sua confissão.
— Quando Lucrécia estava morta, chamei Seno, e com o seu auxílio, conduzi o cadáver para o quarto secreto, onde o atiramos e deixamos.
Na mesma noite, mais uma vítima seguia Lucrécia.
O meu muito dedicado Seno resolveu assassinar, por minha causa, o infeliz Carlos.
Tudo ficou em segredo.
Agora principiarei a confessar o último período que provocou a vingança da morta.
A morte de Lucrécia restituiu-me a liberdade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:03 pm

O meu crime estava e ficaria oculto.
Contudo, desde esse dia não tive mais sossego, e o meu amor por Giovana arrefeceu.
Não compreendi como isso podia acontecer.
Os olhos negros de Giovana me infiltravam pavor.
Parecia que ela não mais confiava em mim, duvidava do meu amor e me ameaçava, dizendo que agira com consciência e que se eu tentasse fugir-lhe, me seguraria e nunca mais me largaria.
Em breve não pude mais tolerar a vida em Montinhoso.
Durante a noite parecia-me ouvir a voz de Lucrécia que me chamava de assassino e maldito.
Outras vezes me parecia que, por meu quarto, perambulavam espectros ensanguentados.
Foi para mim um alívio chamares-me a Ferrara.
Mas a notícia sobre a realização do casamento com a princesa Bianca, me assustou.
Quando quis manifestar a minha aversão, me falaste de Marieta e conseguiste fazer-me calar.
Fui por demais covarde, para te confessar um novo delito, embora não mais amasse a Giovana.
Reflecti rapidamente.
Ela não possuía nenhuma prova para demonstrar o nosso casamento e acusar-me.
Finalmente pensei também num caso extremo.
Eliminá-la-ia então.
Tranquilizei-me e contratei casamento com Bianca.
Contudo julguei conveniente falar com Giovana ainda antes do casamento e romper de uma vez.
Achei um pretexto para viajar até Montinhoso.
Fiquei fora dois dias para assistir ao casamento de meu amigo Ricardo, e depois fui ao castelo.
Giovana recebeu-me com alegria.
Mas quando notou a minha indiferença, tornou-se melindrada e retraída.
Resolvi falar-lhe na noite anterior ao meu regresso para Ferrara e partir em seguida.
A criadagem, mais a bagagem, eu já fizera partir pela manhã.
Mas eu e Seno pretendíamos partir durante a noite.
Giovana não compareceu à ceia, e eu fui para o meu quarto.
Pretendia procurá-la mais tarde, em seu dormitório.
Com espanto para mim, entregou-me Seno um bilhete que Giovana lhe dera.
Nele estavam apenas algumas palavras.
“Venha ao terraço do jardim.
Preciso falar-te a sós. E já”.
Pelas onze horas da noite, fui ao jardim.
Perto da fonte estava Giovana sentada sobre um banco.
Parecia desesperada.
Quando me aproximei ergueu-se e vi que os seus olhos estavam cheios de ódio e de rancor.
Sem deixar-me dizer palavra, perguntou-me se eu desposaria a princesa Bianca, e se já era seu noivo há algumas semanas.
— Sim, é verdade.
Mas, de quem soube isso?
— O irmão de minha ama regressou ontem de Ferrara, onde todos falam do teu noivado.
E te atreves ainda confessar-me?
Queres contrair dois matrimónios simultâneos, ou ficaste louco?
Talvez tenhas esquecido' de que te casaste comigo.
Responde-me, vamos?
— Nenhuma nem outra coisa.
Não te amo mais, porém, eu quero ser livre.
Se não me tivesses chamado, eu mesmo teria ido a ti, para expor tudo.
Sê prudente Giovana, não relates nada a ninguém.
Não tens prova nenhuma de que somos casados.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:03 pm

O nosso casamento não foi registado em nenhum livro da igreja.
As testemunhas já morreram, eu posso negar o meu matrimónio contigo.
De que te poderás valer um homem que não te ama, e ao qual não serás mais do que um fardo?
És tão bela que não te será difícil encontrar um homem que perdoe a tua fraqueza de jovem...
Giovana, a princípio, ouvia-me, mas depois levou a mão ao coração, gritando descontrolada:
— A mim ousas dizer isso?
Ainda que não tenhas medo de quebrar um juramento que prestaste diante do altar, eu te lembrarei que ainda vivem duas testemunhas do nosso casamento.
Diante de Deus e da tua honra de nobre - se é que ainda a possuis - sou tua esposa legal e ninguém poderá usurpar-me este direito.
Essa resistência de Giovana começou a irritar-me.
— És uma mulher a quem não amo, e que, desavergonhadamente quer se impor.
Não poderás provar senão que foste minha amante, minha esposa, nunca!
Direi isto a todos, se quiseres, e todos acreditarão que, por este meio, pretendes tornar-te Condessa de Montinhoso.
Eu estava de tal forma irritado que a queria ofender, propositalmente.
Então voltei-me rápido e fugi para o castelo, mas como uma flecha Giovana seguiu-me e prendeu-me, dizendo:
— Paulo, não suponhas que possas te livrar de mim, como arrojas uma luva imprestável.
Não ouses desposar uma outra, ainda que seja uma rainha.
Eu saberei impedir este crime.
Direi tudo ao tio Rindolfo, ao teu pai, e ele me acreditará.
Se for preciso me arrojarei aos pés do Duque e o porei a corrente de tudo quanto se refere a ti, malfeitor... perjuro!
Cobrirei o teu nome orgulhoso de opróbrio e lama!
Com estas ameaças, o sangue subiu-me às faces e eu a empurrei de mim.
De novo me cobriu de insultos e ofensas.
Esqueci-me de mim mesmo.
Atirei-a ao chão e comprimi-lhe a garganta, para que cessasse de falar.
— Maledetto... maledetto! - Gritou ela sufocada.
Depois ficou desacordada sobre o meu braço.
Julguei tê-la estrangulado.
Aos poucos fui me recompondo. Que fazer?
Sem meditar muito tempo, tomei aquela que julgava morta dos meus braços e corri célere ao alto da gruta.
Atirei-a de lá ao despenhadeiro.
Antes disso tirei-lhe o colar e espalhei as pérolas ao derredor, a fim de simular um assalto.
Rápido, como uma sombra, voltei ao castelo e alcancei o meu quarto, sem que ninguém me visse.
O solo ardia-me sob os pés.
Chamei Seno e o administrador.
Disse-lhes que queria aproveitar a bela noite para viajar e ordenei que arreiassem os animais.
Disse ao administrador que transmitisse à senhorinha as minhas saudações e os meus sentimentos por não a ter visto no decorrer da ceia.
Apesar da liberdade que julgava ter adquirido, sentia-me infeliz.
Maltratava-me o pressentimento de uma horrível desgraça.
Eu não adivinhava que as sombras vingativas do ódio já se haviam prendido, de uma vez por todas a mim.
Quando, na noite do casamento, entrei com Bianca na alcova nupcial, mal iluminada, julguei ver de repente, duas sombras sobre o estrado da cama.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 8:04 pm

Em uma me pareceu reconhecer Marieta com as crianças nos braços, na outra Lucrécia, com o punhal cravado no peito, coberta de sangue.
Seus lábios estavam contraídos num sorriso frio, pondo a descoberto os alvos dentes.
Foi horrível! Escureceu-me a vista e caí sem sentidos.
Como estas aparições não retornassem, pude, entretanto, dedicar-me inteiramente ao amor de Bianca.
Todavia, bem cedo um rude golpe atingiu-me.
Soube que Giovana escapara com vida, mas que agonizava lentamente.
Ela nada dissera a ti, papai, contudo era um constante perigo para a minha segurança.
Quando recebi a carta dela e a tua, chamando-me ao seu leito de moribunda, não pude resolver-me a voltar.
Fiquei satisfeito por Bianca não me permitir partir logo.
Eu só desejava ver Giovana morta!
Nunca pude supor que mesmo morta ela fosse capaz de vingar-se de mim...
Paulo calou-se. Padre Francesco e eu próprio não podíamos articular uma palavra.
Finalmente ergueu-se o ancião, benzendo-se, e alçou o crucifixo sobre a cabeça de Paulo.
Disse com voz trémula:
— Deus de misericórdia, tende piedade deste pecador.
A vossa justiça o castigou por intermédio do braço da sua vítima.
Mas a nós humanos, nos disse o Vosso divino Filho:
“Deverás perdoar setenta vezes sete vezes!”
Permiti, Pai Celeste, que eu evoque a Vossa misericórdia para esse pecador, que arrependido dos seus pecados, e em virtude do cargo que vós me confiastes, lhe perdoeis o pecado para esta e para aquela vida, a fim de que, nela, em orações e arrependimentos, Vos suplique à salvação de sua alma.
Lágrimas me ameaçavam sufocar.
Paulo havia de novo perdido os sentidos.
O velho sacerdote espargira água benta sobre o esquife e suplicava que a morta soltasse a sua vítima e entregasse a vingança às mãos de Deus.
Mas a fisionomia de Giovana se conservou inalterada.
E eu me convenci de que as suas unhas tinham penetrado tanto na carne de Paulo, que a sua mão já pretejava.
Como hei-de descrever as horas terríveis daquela noite sombria!
Com os primeiros raios solares veio também o senhor Felício que contemplou tristemente a Paulo.
Então, se dirigiu a mim:
— Signore Conde, espero salvar a vida do vosso filho.
Não posso, entretanto, lhe conservar a mão como esperava.
O exame do doente, assim como as respostas às perguntas que fiz às forças invisíveis, me fazem saber que somente a amputação da mão o pode salvar.
A decomposição já atingiu a sua mão.
E depois de algumas horas, será impossível salvá-lo.
Decidi! Deve o vosso filho viver, ainda que com um aleijão, eu deve morrer?
Eu vos aconselho a resolverdes logo.
Pouco tempo temos a perder.
Necessitei apenas de um minuto para resolver.
Paulo era um terrível malfeitor, atingido pela vingança celeste, ao invés de sê-la pela humana:
— O vingador invisível exigiu a mão de sua vítima!
Senhor Felício, como pai, vos autorizo a amputar a mão de meu filho.
Que ela fique para a odiosa e vingativa morta, como um penhor, em recompensa pela tragédia que viveu:
O castigo é terrível, mas justo.
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