Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:29 pm

— Então precisamos agir já.
Preparei tudo quanto é necessário.
Ao quarto de banho.
Para lá devemos transportar o jovem Conde.
Para a operação nos aproveitaremos da sua síncope que ainda aumentarei por meio de um narcótico.
Não foi fácil transportar as duas figuras inanimadas e conjugadas, além do caixão de carvalho.
O senhor Felício propôs tirar Giovana do esquife ao que Seno e Martim se opuseram, pois não queriam, absolutamente, tocar o corpo da terrível morta.
Assim, o padre Francesco e eu pegamos o cadáver pelos pés, os outros a Paulo e levamos ambos ao quarto de banho.
Aí os depusemos sobre uma mesa larga, e o rosto de Paulo foi recoberto por um pano embebido em um líquido aromático.
O senhor Felício acendeu ervas aromáticas em alguns tripés, depois tirou de um estojo uma faca brilhante e, cortando a manga do paletó de Paulo, acima do cotovelo, disse-me:
— Vede, Signore Conde, a mão teria secado.
Ela já está sem vida.
Não pude responder.
Fui atacado por fortes tonturas e perdi os sentidos.
Quando despertei o meu olhar caiu sobre o horrível grupo disposto sobre a mesa.
Paulo estava branco como um pano de linho, enquanto Felício envolvia o seu braço.
Os dedos de Giovana, porém, agarravam-se à mão morta de meu filho.
Sobre o assoalho, estavam duas enormes manchas de sangue.
Apesar da minha grande dor, respirei aliviado, involuntariamente, quando vi tudo isto.
Paulo ao menos estava separado daquele cadáver terrível.
Nos traços fisionómicos de Giovana. julguei ver um sorriso triunfante.
— Agora, Conde, precisamos levar o vosso filho ao seu quarto e deitá-lo.
Aconselhou o senhor Felício.
- Durante algum tempo deverá evitar, o quanto possível, os compartimentos que até agora habitou.
Depois de termos acamado Paulo, reconduzimos o cadáver de Giovana para a capela e fechamo-la provisoriamente.
No decorrer do dia, Paulo voltou a si.
Não reconheceu a ninguém, entretanto, e nem parecia recordar-se do sucedido.
O senhor Felício lhe deu um narcótico e lhe fechou os olhos.
Deveria dormir profundamente durante alguns dias.
Sem se recordar daquilo que sucedera, para sua tranquilidade e restabelecimento.
Assim, eu estava um tanto tranquilizado quanto ao destino de Paulo, mas tive um grande desgosto.
Nem os monges do nosso convento, nem seus fâmulos queriam tocar no esquife de Giovana, para transportá-lo ao jazigo da família, no cemitério, pois que consideravam a morta uma proscrita.
E parecia realmente que um demónio se apoderara de sua alma, para tocá-la incessantemente, de um lado para o outro.
Ela pôs-se a circular pelas salas do castelo, agora muradas.
O primeiro a vê-la, foi um estribeiro que se ocupava em por em ordem o quarto de Paulo.
Como um louco saiu ele correndo do quarto e informou-me trémulo e horrorizado que vira a senhorita Giovana sentada à beira da cama, brincando com a mão amputada de Paulo.
De outra vez, julgou uma criada tê-la visto em seu quarto, revirando uma canastra, ainda com a mão do infeliz entre os dedos.
Essas aparições foram se tomando mais frequentes e a criadagem começou a deixar-me.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:29 pm

Eu não sabia o que fazer.
Pedi ao senhor Felício o seu valioso conselho.
E esse, que não me abandonou no meu infortúnio, me disse o seguinte:
— Eu previ o vosso pedido, signore Conde e creio dever aconselhar-vos desistir, sobretudo do sepultamento da senhorita Salviatti.
Esta defunta produz em todos um tão grande susto e tamanho horror que será difícil encontrar quem queira tocar no esquife.
Nós dois apenas não teremos forças suficientes para transportar o esquife até o jazigo, sem ter em conta que a nossa posição social nos proíbe.
Deixai-a na capela, tanto mais que ela foi tão cruel para com o homem a quem amou.
Ordenei que tragam uma tampa de vidro para o esquife.
Depois disso, selaremos a capela.
Então ordenareis que muradas sejam todas as passagens e janelas, aquelas em que se desenrolou este drama macabro, para que nenhum ser humano penetre nestes compartimentos.
Eu mesmo auxiliar-vos-ei porque não temo estes espectros.
Antes disso, porém, retiraremos de lá todos os objectos que desejardes ocupar ainda!
— Nada mais quero ter daqueles quartos.
Que tudo fique lá, como está!
Foi a minha resposta.
Agimos então conforme o conselho do senhor Felício.
O esquife foi fechado com uma tampa de vidro, todas as portas e janelas foram muradas.
Somente uma saída desses aposentos deixei aberta, a conselho do senhor Felício.
E pareceu, então, que realmente entrou a paz e a tranquilidade no castelo.
Paulo achava-se ainda num estado apático, cansado, não falava e, calado, tomava o alimento que lhe era servido.
A febre desaparecera e o seu corpo readquiriu forças.
A ferida no braço também cicatrizou, para satisfação do senhor Felício.
Comecei a pensar no futuro de Paulo e tive muita pena de sua mulher.
Por felicidade, ninguém conhecia a verdadeira causa da sua desgraça.
Julgava-se que Giovana estivesse apaixonada por ele e que quisera vingar, por aquele modo, o seu amor desprezado.
Um senhor venerável das vizinhanças, visitou-me e contou-me que o desastre de Paulo era, geralmente, considerado como uma vingança da desdenhada, o que lhe confirmei.
Fiquei muito satisfeito com o rumo que deram ao facto.
E escrevi a Bianca que Paulo, por um infeliz acaso, machucara a mão e estava agora doente, sem, contudo, estar em perigo de vida; que ele voltaria a ela assim que a sua ferida lhe permitisse viagem.
O meu dedicado Martim, que sabia silenciar como uma sepultura, foi o portador da carta para Ferrara.
Nesse meio tempo o senhor Felício se entregava a um trabalho que eu não pude compreender.
Ele mandara vir uma caixa com diversos objectos, dentre os quais se encontrava também uma massa rosada, singular que ele trabalhava como se fosse cera.
À minha pergunta, me disse que preparava uma surpresa para mim e Paulo.
No décimo segundo dia depois da operação dele o senhor Felício me chamou para junto da cama de Paulo que ainda dormia profundamente.
Seno, com a fisionomia alegre, ergueu cautelosamente a coberta e vi, admirado, que a mão enferma já estava sem a bandagem e em seu lugar, por meio de um bracelete de ouro se achava uma mão artificial que era uma perfeita reprodução da sadia.
Apenas na coloração parecia ela mais delicada do que a mão viva.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:30 pm

— Esta mão artificial, - explicou-me o senhor Felício - permite até alguns movimentos materiais.
O Conde usará uma luva e um leigo não descobrirá, por melhor boa vontade que tenha, a diferença entre as duas mãos.
Expliquei a Seno como esta mão pode ser afastada e recolocada e lhe dei também uma pomada que deverá passar pela manhã e à noite, a fim de que cicatrize completamente.
Com lágrimas de emoção agradeci ao senhor Felício o grande concurso que me prestara durante aqueles dias graves.
Ele, entretanto, me disse que apenas cumpria com o seu dever e recomendou.me que quando Paulo despertasse, o fizesse meditar e orar longamente.
Isso o fortaleceria.
Quando Paulo despertou do seu longo e profundo sono, estava triste e taciturno.
Olhou para a mão artificial e me disse repreensivamente:
— Por que não me deixaste morrer?
No decorrer dos dias seguintes, mostrou-se calmo e calado.
Seguiu o nosso conselho e orou longamente, depois do que, pareceu ainda calmo e consolado com a sua sorte.
Cautelosamente lhe referi tudo quanto tinha feito durante todo aquele tempo e lhe disse também que depois de três semanas, poderia regressar a Ferrara.
Ele, entretanto, não demonstrava querer saber disso.
Duvidava que Bianca o quisesse ver ainda.
Como um aleijão, ele julgava não poder mais ser feliz.
Eu lhe disse que, com o tempo, esqueceria tudo, se tornaria um pai feliz, e que não lhe assistia o direito de repudiar aquela jovem criatura que se lhe entregara por toda a sua vida.
— Julgas, papai que o meu filho não esteja também atingido pela maldição da nossa família?
Talvez fosse melhor matá-lo ao nascer, do que entregá-lo a este tenebroso destino.
Parece que Girolamo ainda não satisfez a sua sede de vingança, com todo este sangue.
Procurei consolá-lo.
Ele, porém, se conservou calado e retraído.
Martim regressou de Ferrara com uma carta de Bianca para ele.
Ela lhe pedia que voltasse assim que o seu estado permitisse, pois que se sentia extremamente saudosa.
Resolvi ir pessoalmente levar Paulo a Ferrara e ele não se opôs quando eu determinei o dia da partida.
Calado e introvertido cavalgava ao meu lado, quando saímos de Montinhoso.
Com o coração sangrando foi que observei, então, a transformação que se operara nele.
Emagrecera e parecia mais alto.
Seu rosto estava pálido e seus olhos brilhavam febrilmente.
Distingui na massa dos seus cabelos, os primeiros fios brancos.
Mais contristador era, entretanto, o sulco de sofrimento que se apresentava na sua fisionomia e que não se apagaria nunca mais.
Bianca o recebeu com alegria e meiguice, mas só a custo pode encobrir a desagradável impressão que lhe causara a sua aparência.
Tudo voltou à rota antiga, e eu já me preparava para voltar quando Bianca me pediu que ficasse em Ferrara, pelo menos até o nascimento da criança.
Atendi ao seu desejo.
Uma manhã, três dias talvez após à nossa chegada, veio a mim e me perguntou se eu conhecia o motivo daquela modificação que se impusera em Paulo.
Às vezes ele permanecia silencioso e calmo no decorrer do dia, para depois inflamar-se numa apaixonada ternura.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:30 pm

Estava agora calado e arredio. Evitava-a!
Tranquilizei-a tanto quanto pude, e lhe disse que, para ele, um belo cavalheiro, lhe era difícil esquecer que era um aleijado.
Necessitaria de muito tempo para se conformar.
Bianca me deu razão e me comunicou ainda que Paulo despertava muitas vezes a noite com um grito e que, então, coberto de suor, olhava ao seu redor como um louco; que, naquela manhã, ele lhe dissera que, de agora em diante, queria dormir só, para não assustá-la mais.
Ela pôs-se a chorar porque eu a convenci que o desejo de Paulo era justo.
O seu estado requeria repouso.
Quando ele fosse pai, assim eu o esperava, tudo voltaria a seus eixos.
A vista disso, eu quis partir para Montinhoso e consultar o senhor Felício.
O estado de Paulo me inquietava.
Quando Paulo soube da minha partida, disse-me:
— Vais viajar, papai? É inútil!
Para mim já não há remédio.
As almas dos mortos já não me dão sossego, perseguem-me de dia e de noite!
Parti apesar disso, prometendo estar de volta o mais breve possível, e assim que tivesse referido tudo ao senhor Felício.
O senhor Felício me disse:
— Vede, senhor Conde!
O corpo do jovem Conde pudemos curar, mas a alma não!
— Como haveremos de expulsar as almas dos finados que o atormentam?
Pelo amor e o crime ele as prendeu tanto, que só mui dificilmente serão separadas.
Eu ponho a minha pessoa e o meu saber ao vosso dispor!
Isto, porém, é uma insignificância em face das poderosas leis que nos regem.
Dessa conversa entretanto, julguei ouvir mais do que o senhor Felício quisesse ou pudesse dizer.
Prometeu-me consultar as forças invisíveis e dar-me, daí há alguns dias, informações sobre se poderia ou não ajudar-me.
Uma tarde veio o meu fiel Martim, a mim, e banhado de lágrimas me disse:
— Oh! Signore Conde, as vítimas não querem sossegar!
A signorina Giovana apareceu a todos os do castelo.
O administrador viu uma mulher com um punhal cravado no peito e que passeava pelos corredores e salas.
António, o cozinheiro viu uma monja.
O sino da torre tange sem que ninguém o tenha tocado.
Tranquilizei Martim e referi-lhe o auxílio que o senhor Felício me prometera.
Este veio no dia seguinte, mas já por sua fisionomia pude ver que não tinha boas notícias a dar-me.
Declarou-me que não dispunha de forças para afastar os espíritos dos mortos.
Aconselhava-me a voltar o quanto antes possível a Ferrara, pois necessitavam ali da minha presença.
Alguns dias depois da minha chegada Bianca dava à luz um filho.
Na mesma noite Ferrara foi atingida por um furacão que trouxe a Bianca um grande terror.
Seja por este motivo ou por outro qualquer, o facto é que Bianca foi atacada por fortíssima febre e lutou durante dois dias com a morte, Paulo, pálido como um mármore, não se afastou do seu lado e fitava fixamente a jovem esposa que violento acesso atirava de um lado para o outro.
Muitas vezes pronunciou o nome de Giovana.
As outras pessoas julgaram que ela estivesse dizendo o nome de uma sua amiga, mas Paulo e eu sabíamos a quem ela se referia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:30 pm

Na manhã seguinte do terceiro dia, Bianca falecia.
Como uma flor quebrada da sua haste, ela repousava nas suas almofadas com uma expressão de dor nos seus pálidos traços.
Quando seu peito se ergueu para o último suspiro, Paulo caiu como morto aos pés da cama em profundo sono letárgico.
Poder-se-ia considerá-lo morto se não estivesse respirando fracamente.
Apenas uma semana depois da morte de Bianca ele despertou.
Estava porém, mais silencioso e apático do que antes.
Quando regressou do cemitério onde fora orar fervorosamente, junto ao sepulcro de Bianca, comunicou-me que desejava voltar a Montinhoso.
Inutilmente quis demovê-lo a voltar a este lugar infeliz.
Mas Paulo se manteve inflexível.
— Julgas então, papai, que volto espontaneamente? Não!
As minhas vítimas que atraem com uma força irresistível.
Essa força é, mesmo, inacreditável!
Se soubesses os martírios infernais que sofro, quando essas sombras se aproximam de mim...
Recorda-me de tudo quanto sucedeu!
Não tenho mais forças para lutar contra elas!
Quero recolher-me ao convento e tentar resgatar as minhas culpas.
Preciso orar e jejuar.
Não tenho dúvidas disto:
preciso voltar ao local dos meus crimes e ficar ai.
Não ousei contradizê-lo embora o meu coração pressentisse que ele estava perdido.
Assim voltamos a Montinhoso.
Paulo não quis ir ao castelo, antes dirigiu-se directamente ao convento.
O fiel Seno queria ficar ao seu lado como irmão conventual.
O prior, meu velho amigo, tomou parte activa na sorte de meu filho.
E abreviou tanto quanto lhe era permitido o noviciado.
Um rico presente que fiz ao convento, colocou os monges a favor de Paulo, apenas Enzio Castel parecia odiá-lo.
Durante os primeiros tempos Paulo pareceu-me tranquilo.
Nunca falava no passado.
De modo que eu não sabia se os espíritos ainda o perseguiam.
Seno é que me contou que muitas vezes o via sentado até a madrugada, pálido de morte.
Logo depois de sua consagração como monge, pareceu-me que as coisas pioraram para Paulo.
Às vezes sofria ele de completo esgotamento e permanecia muitos dias desmaiado sobre o leito.
Outras vezes essa apatia era substituída por acessos de loucura durante os quais blasfemava contra Deus.
Andava pelos corredores do mosteiro, com o braço aleijado erguido.
Desfizera-se da mão artificial.
Tudo isso agravou o estado da sua saúde.
Ele empalidecia cada vez mais.
Enfraquecia-se e perdia a coragem.
Durante todo esse tempo, o senhor Felício foi para mim, um companheiro insubstituível.
A meu pedido passara a viver no castelo e me amparava em todos os sentidos.
Ele também visitava Paulo às vezes.
Depois de uma dessas visitas, me comunicou que Paulo não viveria muito tempo.
Passou-se talvez um mês.
Então Seno me surgiu certo dia, contando que Paulo naquela última noite, tivera um terrível ataque de loucura.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:30 pm

Fugira do convento e fora ter à misteriosa gruta onde Seno e um outro monge o encontraram.
Ele porém, fugira para o extremo do lago, às margens do qual pôs-se a correr como um demente.
Depois atirou-se às águas.
Os dois gritaram e saíram a procura de socorro.
Quando os monges tiraram Paulo da água, ele estava morto.
Não quero dizer mais nada sobre o meu sofrimento.
É muito duro perder-se aquilo que nos é caro no mundo, porém, mais duro ainda foi a separação daquela maneira.
A minha esperança de que a sua pobre alma pudesse alcançar tranquilidade, foi a minha ilusão daquelas horas.
Quando o cadáver de Paulo estava exposto sobre o catafalco da igreja, afirmaram os monges ver sombras estranhas, que rodeavam o seu esquife.
Um dos seus vizinhos mandara construir no cemitério do convento uma capela jazigo que, aos meus rogos, me vendeu.
Mandei construir um altar para, sobre ele, colocar uma imagem da Madona e um crucifixo, a fim de que se pudesse dizer missas ali.
Encomendei também o sarcófago, em cuja tampa, nos seus trajes de monge, mandei esculpir a estátua de Paulo.
Na noite que se seguiu à inauguração da capela, deu-se um facto singular.
Um dos monges, que tinha de fazer a ronda nocturna, afirmava ter visto várias mulheres na capela, fazendo aí uma barulhada infernal.
Entre tais mulheres encontrava-se, dizia, uma monja.
Frater Humberto, que afirmava ter visto isso, não era um poltrão.
Ele se aproximou da capela e ouviu, distintamente, gritos gemidos e soluços, interrompidos por frenéticas gargalhadas.
Depois ouviu um baque surdo, como se o sarcófago tivesse sido lançado por terra.
Quando abri a capela, verifiquei que a estátua da Madona estava partida sobre o solo.
Tive um susto indizível.
Lacrei a porta apavorado e voltei correndo ao castelo.
O pobre Seno começou, igualmente a sofrer inexplicáveis influências.
Seu raciocínio parecia obscurecer.
Ele relatava aos outros monges estranhas narrativas acerca de Paulo, não ocultando também a história de Giovana que Paulo, confiando talvez na sua discrição e fidelidade, lhe teria contado.
A minha luta com os monges, que depois do que viram não queriam mais reter nem ao menos o cadáver de meu filho no cemitério, deixo de narrar.
De tal infâmia só nos livramos oferecendo, outra vez, um régio presente ao convento, bem como graças a minha posição elevada.
Mas a vida em Montinhoso tornava-se insuportável.
Decidi mudar-me, com meu netinho Afonso para uma outra propriedade minha.
Em toda a circunvizinhança de Montinhoso não chamavam Paulo senão por Maledetto.
Ouvir isto, pessoalmente, ou permitir que o inocente o ouvisse, não era possível!
Alguns dias antes da minha partida, Enzio Castel trouxe ao castelo um grande quadro pintado por ele.
Esse quadro representava a cena terrível da capela, junto ao esquife de Giovana.
— Guardai este quadro, Conde, para que os vossos descendentes saibam que nem o distinto nóbile pode desprezar e calcar os pés às leis de Deus e dos homens! - Disse ele.
Eu quis destruir esse quadro, porém o senhor Felício me aconselhou a deixá-lo na sala grande da ala murada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:30 pm

Nessa ala será também depositada esta crónica, e aquele dos meus sucessores que a encontrar, que dê a conhecer aos seus filhos, a terrível história dos seus antepassados, e, dela, possa verificar que, somente uma vida honrada e piedosa, de acordo com a vontade divina, dá a paz neste e no outro mundo.
Abandonarei Montinhoso.
Só voltarei morto, a fim de que seja sepultado no jazigo de meus pais, não muito distante de meu filho.
Aí espero dormir o sono eterno.
Nesta noite, meu amigo Felício visitará os quartos fechados, que mandei murar.
Pronunciará orações em todas as saídas.
Espera assim afastar a entrada de qualquer indesejável.
Somente Paulo poderá ingressar nesses cómodos.
E mais uma vez Felício me convenceu de que, mais cedo ou mais tarde, Paulo voltará aqui.
Então se desenrolará o último acto deste drama terrível.
Como e quando tudo isto se dará não sei!
Só Deus poderá dizê-lo.
E para aqueles que lerem estas minhas palavras, não me considerem a mim, Rindolfo de Montinhoso, um louco, cuja razão se apagou com a morte do filho, este escrito vai também assinado pelo padre Francisco, com quem Paulo se confessou, pelo senhor Felício, e pelo meu fiel escudeiro Martim.
O infeliz Seno não o pode fazer, pois que, também ele, se afogou no lago, onde também expirara o seu irmão de leite”.
Seguem-se as assinaturas e o ano: 1758!
Completou Sir Gerald, depondo o rolo sobre a mesa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:30 pm

13 - O RESGATE COM O PASSADO

Todos se calaram.
Cada um ocupava-se com os seus pensamentos.
As senhoras choravam.
Rotschild suspirou profundamente.
Sua fisionomia denunciava um profundo abalo.
Em pensamento revivia, mais uma vez, tudo quanto ouvira.
Ele e Valéria, pois, tinham voltado àquele lodo insidioso, no qual, por pouco, não morreram!
Sir Gerald propôs saíssem daquela sala, retornando ao terraço.
Todos concordaram.
— A atmosfera daqui não nos é muito propícia!
Acrescentou ele, saindo em último lugar da sala de trabalho do Conde Rindolfo.
Ao ar livre, todos se tornaram mais alegres e dispostos.
O jantar um pouco retardado, foi recebido com apetite.
Apenas Rothschild não se mostrava muito disposto e teve que ouvir primeiro uma admoestação de sua tia, para depois pôr-se mais à vontade.
Depois do jantar Sir Gerald se recolheu, e aconselhou a todos que repousassem um pouco.
Rothschild ficou só no terraço.
Sentou-se na balaustrada, olhando com os olhos muito abertos as ruínas do convento e as águas do lago, que, então, iam aos poucos sendo envolvidas pelas trevas nocturnas.
Ele não notou que Lolo se aproximava dele, sorrateiramente, buscando retirar o seu xale do lugar em que ele estava assentado.
Quando viu o primo submerso em tão profundos pensamentos, não pode deixar de, aproximando-se vagarosamente pelas suas costas e tapar-lhe os olhos com as mãos.
Rothschild estremeceu:
— Pawel. Não fiques assim a olhar para essas lúgubres ruínas e para o lago!
O lago talvez te atraia ainda, e te afogarás pela segunda vez. - Disse ela tristemente.
Rothschild meneou lentamente a cabeça:
— Não temas, Lolo!
Não me passa absolutamente nada pela cabeça, pelo menos no que diz respeito ao suicídio!
— Isso seria, aliás, uma tolice, Pawel.
Porque, por muito horrível que o passado possa ter sido, já passou definitivamente.
Só a lembrança ficou.
Considerando-se bem, é até interessante que tenhais sido, Valéria e tu, os heróis de um romance tão cheio de aventuras! - Disse a moça com meiguice.
— Obrigado, querida Lolo!
O interessante deste romance eu teria, de bom grado, cedido a outrem, pela minha paz, e, te garanto, não teria invejado aquele que o tivesse vivido.
— Tu te exprimes assim porque não podes compreender, que, mesmo Conde de Montinhoso, te distingues vantajosamente.
Se eu não amasse Anatólio, me teria enamorado de ti, inevitavelmente!
Em teu lugar eu usaria estes nossos trajes modernos apenas para sair à rua, mas em casa, eu envergaria, tão somente, os trajes medievais, dos quais tens armários cheios! - Disse Lolo sorrindo.
— Seria, realmente, muito poético!
Mas levaria, provavelmente, a desconfiarem de minha sanidade mental!
Quem sabe, porém, se desejarás me dar o exemplo, apresentando-te num costume do século XVI?
— Sabe Deus, se eu já existia!
— Sim, certamente, mas numa outra imagem!
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:31 pm

— Numa festa de fantasia apresentar-me-ei, gostosamente, num desses trajes.
— Eis aí o busílis, como se costuma dizer! - Observou Rothschild rindo.
Mas o teu desejo é tão modesto que, com muito prazer, quero satisfazê-lo.
Escolhe e tira dessas roupas antediluvianas aquilo que quiseres.
— Oh! Muito obrigada. És um anjo, Paulo!
Prefiro, porém, esperar que Valéria esteja restabelecida para, então, na companhia dela, remexer os armários, pois esses objectos pertencem por direito, a ela.
Ela também, sei, me dará, de bom grado, o que me agradar.
— Pois fazei o que quiserdes.
De minha parte renuncio, desisto de todos os meus direitos, com referência aos trajes femininos.
Esta palestra com Lolo, desviou os pensamentos de Rothschild, trazendo-lhe um pouco de animação.
Depois da ceia, Sir Gerald dera a todos um leve narcótico, com o auxílio do qual, todos dormiram bem até bem tarde do dia seguinte.
Rothschild levantou-se animado, e completamente tranquilo.
A depressão psíquica que, ainda na véspera, pesava sobre ele, desaparecera por completo.
Depois do almoço, Sir Gerald convidou-o a vir ao seu aposento para uma ligeira conferência.
Quando estavam a sós, abordou ele, imediatamente o assunto.
— O mais difícil está feito, meu amigo!
Mas há ainda muita coisa a ser feita, para libertar-vos inteiramente das garras do passado, e limpar de todo o castelo.
Não vos quero ocultar que ainda tereis de passar por alguns sobressaltos.
Em compensação estareis livres inteiramente, depois disso.
Rothschild empalideceu ligeiramente, mas dominou-se rápido.
— Compreendo que eu tenha que esgotar o castigo do Carma até o fim.
Irei corajoso, directamente ao encontro das últimas provações.
Mas quero pedir-vos que me ampareis e me auxilieis.
— Da vossa resposta verifico que fizestes progresso e que as lições do passado não foram inúteis.
Auxiliar-vos-ei sempre, e nunca devereis duvidar disto.
Agora, porém, pretendo fazer o seguinte:
Tenho em vista tudo quanto ainda vos espera.
A presença das senhoras e da enferma, aqui não é aconselhável, e até embaraçosa.
Por isso vos peço, se é possível, obter nas vizinhanças, um lugar qualquer em que se possam alojar as senhoras durante o tempo de que precisamos, para a limpeza psíquica do castelo.
— Ainda hoje tratarei deste assunto. - Respondeu Rothschild.
Depois de tratados ainda alguns assuntos, Rothschild mandou encilhar o cavalo e, na companhia do administrador que conhecia palmo a palmo o terreno, num círculo de vinte quilómetros, partiu.
Já algumas horas depois, regressava ele satisfeito.
A uma distância de menos de dois quilómetros de Montinhoso, havia descoberto uma pequena vila desocupada.
Rothschild se dirigira logo ao seu proprietário e alugara-a até o fim do verão.
Alegre e satisfeito contou ele a Sir Gerald o resultado da sua viagem.
— Depois de três dias, poderão as senhoras transferir-se para lá, pois é preciso ainda fazer uma limpeza na casa. - Informou ele.
Quando as senhoras ouviram falar na projectada mudança, mostraram-se a princípio, magoadas.
Não queriam saber disso.
Depois que Sir Gerald explicou-se, porém, deram-se por satisfeitas e concordaram.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:31 pm

Sir Gerald esperava acontecimentos que os nervos das senhoras não suportariam.
Apenas Lolo se conservou zangada.
Dizia não temer coisa nenhuma!
— Pior do que foi a noite da vossa chegada, não pode ser.
Mas afinal Lolo não tinha voz activa.
Um sorriso de Sir Gerald pô-la em tal confusão que não disse mais nada.
Três dias depois, as senhoras mudaram-se com Miguel para a pequena vila, que ficava meia hora do caminho de Montinhoso.
Valéria foi despertada por Sir Gerald, a fim de que fosse facilitada a sua ida.
Adormeceu logo, porém, depois de ter sido despida e acomodada sobre o leito, sem perguntar sobre o motivo da viagem.
Ricciotto e a criadagem mudaram-se, mas o administrador e sua mulher ficaram, para ajudar a Sir Gerald.
Assim sendo, só ficaram no castelo Sir Gerald, Tonilim e Rothschild, o administrador, sua mulher e o velho Bernardino, que não quisera ir.
Bernardino revelou-se um óptimo auxiliar, que sem muitas perguntas, executava as ordens de Sir Gerald.
— Devemos ir, em primeiro lugar, à capela do castelo, retirar o cadáver de Giovana e por tudo em ordem. - Disse Sir Gerald depois da refeição.
Tonilim carregou a caixa do amigo, Bernardino um pacote.
Sir Gerald colocou o candelabro de sete braços sobre o catafalco, ergueu a tampa de vidro do esquife e despejou uma essência incolor de cheiro forte.
Depois tirou, sem grande esforço, a mão do infeliz Paulo de Montinhoso dos dedos do cadáver, envolveu-a num pano e fechou-a numa caixa.
Em seguida cobriu Giovana com um lençol e ordenou fossem buscar a tampa do esquife, que fora deixada na sacristia.
Bernardino e Rothschild a encontraram encostada a uma parede.
A tampa foi presa, por meio de parafusos, ao esquife.
Sir Gerald espargiu água sobre o esquife, pronunciando algumas fórmulas mágicas.
Foi à sacristia, indicando aí uma porta fechada na parede oposta.
De uma estante que se achava ao lado, tomou ele uma chave, abriu a porta e chamou Rothschild.
Desceu com ele uma escadaria íngreme que conduzia até o jazigo que existia em baixo da capela.
Na parede, encontravam-se alguns esquifes de crianças já quase desfeitos.
— Para aqui traremos o esquife de Giovana, bem como o cadáver de Girolamo e das outras vítimas, até o sepultamento final.
— Sabeis então se existe, e onde se encontra o cadáver de Girolamo?
— Sim! Valéria, em estado sonambúlico, deu-me indicações importantes sobre a divisão do castelo e de seus cómodos.
Havemos de encontrar tudo quanto procuramos. - Respondeu Sir Gerald sorrindo.
Não sem trabalho foi o esquife de Giovana transportado, e a capela posta em ordem.
Depois de tudo estar limpo e varrido, Sir Gerald espargiu água sobre o assoalho e sobre as paredes, acendeu ervas defumadoras e colocou um ramalhete de flores frescas sobre o altar.
Os quatro retiraram-se em seguida da capela, indo repousar.
Sir Gerald entregou a Rothschild dois vidrinhos, de dois tamanhos, e ordenou-lhe que friccionasse o corpo todo com o conteúdo do vidro, e que, do líquido do menor, tomasse de manhã e à noite, algumas gotas.
No dia seguinte Rothschild foi à vila para visitar os parentes.
Por ele, Sir Gerald mandava um certo medicamento, com um pedido a Larissa para que dele desse a Valéria, e que a vigiasse, principalmente a noite, porquanto provavelmente procuraria fugir da vila e voltar ao castelo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:31 pm

Rothschild ficou um tanto admirado com estas palavras de Sir Gerald, mas este lhe explicou:
— O que durante a noite vai se dar aqui, irá predispor Valéria a voltar.
Para vós, porém, Barão, esta noite será horrível, e exigirá todas as vossas forças.
Apesar do vosso corpo físico actual, desenrolar-se-á perante vós, Paulo de Montinhoso, o último acto deste drama terrível que há três séculos teve início.
Pouco importa que tenhais agora outra aparência.
Os vossos crimes não foram cometidos pelo vosso corpo, mas pelo vosso espírito.
Hoje, entretanto, terminará a maldição que paira sobre vós e este castelo.
Com o cair da tarde, a coragem de Rothschild começou a declinar.
Entretanto, lutou valentemente contra a sua fraqueza.
Quando pelas onze horas, Tonilim o procurou, encontrou-o perfeitamente calmo e senhor de si.
Com o seu auxílio, friccionou todo o corpo com o líquido fosforescente, vestiu uma longa túnica de linho e calçou sandálias.
— Pareço-me agora com um penitente da Idade Média! - Gracejou Rothschild.
— E considerando bem, o sois, pois ireis à frente de vossas vítimas e lhes suplicareis perdão pela misericórdia divina.
Murmurou Tonilim, pedindo-lhe que o acompanhasse.
Quando penetraram na capela, esta já estava iluminada pelo candelabro de sete braços.
Sobre o altar forrado de novo, encontrava-se um crucifixo.
Nos dois lados dos degraus do altar, estavam tripés com ervas defumadoras.
E ao lado de um deles, estava Sir Gerald, vestido com túnica branca, tendo à cabeça um turbante egípcio antigo, e com a vara mágica na mão.
Ao pescoço tinha uma cadeia de ouro e uma estrela que brilhava com todas as cores do arco-íris.
Sir Gerald fez Rothschild ajoelhar-se diante do altar, pôs-lhe na mão um grande círio aceso e ordenou-lhe que orasse.
Também Tonilim orava, quando, no relógio da velha torre, soou a meia-noite.
Sir Gerald alçou a sua vara mágica, em cuja extremidade apareceu outra vez a chamazinha.
Ele inclinou-se para os quatro pontos cardeais e começou a recitar diversas fórmulas.
Depois disse em voz alta:
— Vós, espíritos amigos e inimigos, bons e maus, eu vos chamo a todos para este lugar sagrado, para romper o encanto misterioso do passado.
Como resposta, ouviu gemidos e gritos, intercalados de soluços.
Ventos álgidos perpassavam pela capela e faziam estremecer as paredes, sob um abafado bramido.
Sir Gerald que parecia não observar estas coisas, sacou do cinto um vidrinho e deitou o conteúdo numa tripeça.
Um formidável trovão ecoou.
Uma coluna de fogo ergueu-se, desprendendo uma fumaça avermelhada.
Nessa fumaça, moviam-se inúmeras sombras, que, segundo a segundo, pareciam mais distintas e por sua vez, absorviam o vapor.
Todas essas sombras pareciam vivas, e seus olhos faiscantes estavam cheios de ódio, voltados para Rothschild.
À frente de todos apareceu um cavalheiro de grande estatura, com o braço erguido ameaçadoramente.
Atrás dele estavam várias mulheres, uma monja, outra que tinha um punhal fincado no peito e muitas outras.
Atrás destas, via-se um cavalheiro de couraça e diversos homens em trajes de Idade Média, e entre eles um menino que, coberto de sangue, mal se podia conter em pé.
Bem próximo de Rothschild, estava o Conde Rindolfo de Montinhoso, envolto numa luz azulada.
O amor paternal não estava destruído, e unia a alma do pai à do filho, para protegê-lo naquele momento terrível.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:31 pm

Os olhares de Rothschild encontraram os do Conde Rindolfo, e diante desse olhar, os séculos se separaram e o passado surgiu à tona.
Nisto soou a voz de Sir Gerald.
— Vós, espíritos, que estais aqui reunidos, readquiristes, por meu intermédio e por pouco tempo, a vossa vida, e estais agora diante do homem a quem perseguis e odiais acima de tudo.
Quero recordar-vos uma verdade que esquecestes:
O perdão conduz à paz.
O ódio, porém, atinge menos a vítima que o próprio vingador.
Tu, espírito de Girolamo, o mais sedento de vingança, não estás satisfeito com tanto sangue?
Então não se abaterá nunca essa mão erguida para amaldiçoar, concede o perdão?
Olha para esta imagem do Cristo de Deus que morreu orando pelos seus algozes.
Ele somente sabia amar e perdoar.
Tu, entretanto, sê o primeiro a te purificares.
Serve de exemplo aos outros!
Arrefece o teu ódio para conheceres o fruto do perdão...
Sir Gerald ajoelhou-se e orou.
Uma luz viva envolveu de repente o altar e o crucifixo.
Um raio brilhante e dourado partiu do altar e penetrou no coração de Girolamo, estendendo-se sobre os outros espíritos.
Todos caíram de joelhos, e Girolamo deixou cair a sua mão.
No silêncio que se seguiu, ouvia-se a voz de Sir Gerald orando:
— Pai nosso que estais nos Céus, perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores...
As almas cheias de ódio e desejo de vingança, ali reunidas, se haviam curvado sob o poder da prece, e pela sua força se transfiguraram.
Um brilho azulado começou a rodear as suas cabeças; traços fisionómicos tornaram-se mais meigos e lisos e os seus olhos brilhantes transmutaram-se nas expressões do amor e do perdão.
Um momento depois Girolamo ergueu-se, e, com passos firmes, dirigiu-se a Rothschild.
— Sê livre e feliz, Galeazzo, retiro de ti o peso da minha maldição e te abençoo.
Perdoa-me tu o mal que te fiz, assim como eu te perdoo de todo o coração.
Voltando-se então para Sir Gerald, disse:
— Que a misericórdia divina baixe sobre ti, poderoso irmão que nos libertaste a todos nós do terrível encanto do passado.
Sinto-me como se nascessem asas. Liberto-me!
Mas vós, irmãos do meu ódio e sofrimento, podereis também perdoar, como eu o fiz?
— Também nós perdoamos! - Ressoou o murmúrio de muitas vozes.
Sir Gerald ergueu a mão.
— Hoje destes o primeiro passo para a vossa libertação, pois cada ser traz, consigo mesmo, a sua salvação.
Procurai, pois, distender as vossas asas e voar ao encontro da luz.
A reunião transcendental começou a dissolver-se em ténues névoas e desapareceu...
Apenas Rindolfo permanecia ainda, de pé, como um ser de carne e osso.
Aproximou-se de Rothschild, fê-lo erguer-se e o abraçou.
Um sentimento indescritível apoderou-se do Barão e levou-lhe lágrimas aos olhos.
Ele sentiu um beijo sobre a testa e ouviu as seguintes palavras:
— Querido Paulo, por fim estás livre da terrível maldição.
Esforça-te sempre pela luz e evita as trevas, para que mais tarde, nos reencontremos no espaço.
Nada mais Rothschild ouviu.
Nos seus ouvidos ressoou, como que um bramido marinho, o solo fugiu-lhe de sob os pés, e as trevas o envolveram.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:32 pm

Quando voltou a si, sentiu-se deitado em seu leito.
Tonilim estava assentado ao seu lado.
Interrogativamente olhou ele a seu redor, Tonilim deu-lhe um pouco de vinho a beber, e Rothschild sentiu um calor de vida, revigorante, perpassar-lhe o corpo.
— Sonhei ou foi realidade que vi reunidas todas as vítimas de Paulo de Montinhoso?
— Não meu amigo, não sonhaste.
O que viste foi realidade.
De todo o coração me congratulo contigo pela liberdade que o teu espírito readquiriu.
Tua tia e prima já estiveram aqui, para visitar-te.
Mas dormias ainda; e Sir Gerald havia proibido que te despertassem.
As senhoras contaram-me que Valéria passou uma noite muito agitada.
Chorava e queria, por força, voltar ao castelo.
Adivinhava que não se encontrava aqui.
Só pela madrugada conciliou o sono.
— Pobre alma! - Disse Rothschild suspirando.
Poderei levantar-me Dionid?
Sinto-me outra vez perfeitamente bom.
E sobretudo desejo agradecer a Sir Gerald se ele ainda estiver aqui.
— Ele está no terraço. Tu o encontrarás ali.
Até logo, então...
Rothschild levantou-se e vestiu-se.
Sentia-se muito bem disposto.
A recordação da cena nocturna não o abandonava, e o desejo de penetrar os segredos do Além, principiou a nascer nele.
Queria conhecer as leis do Carma, aquelas leis que tanto o fizeram sofrer.
Não podia permanecer por mais tempo, cego e surdo, diante da inexorabilidade dessa lei.
Quando chegou ao terraço, Sir Gerald estava assentado junto à balaustrada, e parecia imerso em profunda meditação.
Durante um segundo Rothschild observou o rosto calmo, regular e atraente do sábio.
Um sentimento de profundo respeito, aliado à admiração, lhe ordenava se prostrasse de joelhos diante do homem ao qual devia a vida.
Sir Gerald, porém, ergueu-se rápido e fez Rothschild levantar-se.
— Que fazeis, meu prezado amigo?
Realizai um gesto do qual nenhum homem é digno.
— Pelo contrário, nunca vos poderei agradecer o muito que por mim tendes feito.
Acima de tudo, entretanto, venho aqui para fazer um pedido.
Não me deixeis, por mais tempo, seguir na obscuridade, em que, até agora, tenho estado.
Tomai-me por algum tempo por vosso discípulo!
Não posso mais continuar a viver assim!
Passei agora, por tanta coisa incompreensível!
Quero tentar resolver estes problemas, se puderdes estender a vossa bondade, por mais algum tempo, sobre este homem que vos é quase um estranho.
Abri-me os olhos e deixa-me aprender o significado da alma, interpretar as leis que, invisivelmente, nos governam e determinam o nosso destino...
Sir Gerald olhou Rothschild com satisfação e apertou-lhe, fraternalmente, as mãos.
— Eu esperava este pedido.
O vosso desejo nos faz honra, e é justo!
Há-de ser um agradável dever instruir-vos em tudo.
Tenciono ficar algum tempo na Europa.
Temos, pois, tempo ainda.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:32 pm

Pondo em ordem todos os vossos negócios, segui para a vossa pátria.
E quando eu me puser a caminho para a Índia, vos levarei comigo.
Na tranquilidade e no silêncio dali, vos iniciarei em tudo quanto precisais saber.
Quando, então, regressardes da Índia, ocupar-vos-ei de vossos deveres de esposo e pai.
Deverá ser vossa principal e santa proposição, auxiliar àqueles que se dirigirem a vós, em busca de socorro.
A minha resposta vós há de ter demonstrado que desejo-me dedicar a vós com toda a satisfação pois compreendo perfeitamente um homem, depois que passou pelo que vós passastes, não pode mais descansar ou repousar antes que possa explicar a si mesmo ao menos alguma coisa daquilo que com ele se deu.
Contudo, julgo necessário fazer-vos algumas observações que é:
não julgueis que a proposição que pretendeis tomar seja fácil.
Jesus, o Cristo, disse:
“Bem aventurados os pobres de espírito, pois deles é o reino dos Céus”.
Quem com fé e religiosidade levanta o véu de Isis, queimará, após si, todo o passado e se afastará de uma vez por todos do caminho comum de todos os mortais.
O homem vulgar, que apenas vive para si, afasta a iniciação e não a pode compreender.
Então ele se sente só e abandonado.
Muitas vezes, mesmo no círculo de sua família.
Considerai tudo cuidadosamente, para que mais tarde não tenhais do que vos arrepender.
Verificai se o saber que desejas alcançar vos poderá dar a felicidade pela qual ansiais.
Rothschild ergueu a cabeça e fitou Sir Gerald, francamente, nos olhos.
— Nada mais tenho a considerar!
Minhas resoluções estão tomadas.
Por muito pesadas que sejam as condições, estou disposto a aceitá-las, sábia e conscientemente, e assumir a responsabilidade dela.
Por tudo, porém, serei recompensado pelo fato de poder dizer-me vosso discípulo.
— A vossa resolução firme me é uma garantia, Barão, de que o nosso trabalho em comum produzirá frutos, e direi mais uma vez, com todo o prazer:
Quero instruir-vos.
Tonilim também irá connosco.
Agora, entretanto, basta de futuro.
Precisamos nos reconduzir outra vez ao presente, destruindo os últimos resíduos do vosso passado.
Entre tantas coisas, há ainda os cadáveres ainda insepultos, urge dar-lhes uma sepultura cristã! - Disse Sir Gerald.
— Senhor, desejo fazer deste castelo um recolhimento para inválidos e pobres.
A maior parte da construção continua em bom estado.
A parte arruinada pode ser reparada, e se prestará ao fim que tenho em vista.
Espero que aprovareis o meu plano, ou julgais melhor deixar este lugar de infortúnios entregue à destruição? - Perguntou Rothschild.
— Pelo contrário!
O castelo não está mais povoado pelos espíritos e somente posso louvar a vossa ideia.
O muro em derredor da ala fechada precisa ser demolido.
As portas e janelas também precisam ser abertas para que aí, igualmente, seja tudo posto em ordem.
E quando o ar fresco houver perpassado todos os compartimentos, quando o sol penetrar, aquecendo, e houver feito a última limpeza, Montinhoso será outra vez digno de agasalhar os seus proprietários. - Concluiu Sir Gerald.
— Começaremos hoje a transportar os mortos? - Inquiriu Rothschild.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 7:32 pm

— Por enquanto não!
Temos alguns dias para fazer isso.
Vossa noiva dormirá ainda por alguns dias e estes bastarão, perfeitamente, para fazermos a limpeza principal.
— É que eu desejaria ir amanhã cedo à vila para verificar se já colocaram sobre o túmulo de minha esposa a lápide que encomendei.
— Pois fazei isto, meu amigo!
Depois de amanhã, pela manhã, porém, teremos muito serviço... - Proferiu Gerald estendendo a mão a Rothschild.
No dia seguinte pela manhã, Anatólio chegava a Montinhoso.
Para fazer uma surpresa à noiva, não mandara dizer nada a ninguém.
Quando ouviu falar do estado de Valéria, fez-se triste e pediu a Larissa lhe dissesse porque ficara tão doente.
A explicação lhe foi feita estando a sós.
Embora Larissa tendo em vista o seu cepticismo em face do Espiritismo lhe tivesse contado a história com alguma reserva, ainda que tão claramente quanto possível, ele, contudo ficou furioso.
— Com todo o respeito, Larissa, que eu tenha para com as vossas convicções, não posso admitir de forma alguma que o Barão de Rothschild tenha o espírito de um homem falecido há quase três séculos e cujo corpo há muito se decompôs.
Ele é um canalha, e terá que responsabilizar-se perante mim, pela afronta feita à pessoa de minha irmã.
Apesar do vosso silêncio compreendi muito bem que com fantasmagorias ele procurava encobrir a grosseira sedução a Valéria, imaginando assim poder fugir ao castigo.
Mas está muito enganado! - Bradou Anatólio exaltado.
— Pelo amor de Deus, Anatólio, não faças uma loucura!
Somente lograrias tua irmã a uma desgraça maior do que esta em que se achou...
Enunciou Larissa ao jovem oficial.
- Quer seja culpado ou não, Rothschild reparará o seu erro, casando-se com Valéria.
E se o colocares diante do revolver, farás à tua irmã um muito mau serviço.
Mas, se insistes, vem antes comigo, falar com Loló.
Rothschild encontra-se esta noite na cidade.
Tu poderás verificar que, de facto, esta noite, desenrolou-se o final de um drama terrível.
Anatólio verificou que um escândalo público mais prejudicaria do que beneficiaria a sua irmã, e resolveu, por enquanto, não tomar nenhuma atitude.
Julgava ter essa oportunidade mais tarde.
Quando passavam de uma sala para outra, Larissa explicava-lhe um ou outro detalhe.
O moço começou por parar junto de determinados objectos, que examinava de perto.
Um sentimento singular o havia afectado e lhe fez duvidar de que teria procedido bem se tivesse conservado suas acusações, tão depressa formuladas contra Rothschild.
Parecia que, realmente, se passara ali qualquer coisa de extraordinário, que ele, aliás, não sabia interpretar com o seu raciocínio.
Por muito tempo esteve parado diante do quadro grande do salão, ante o retrato de Paulo e Giovana.
Lolo lhe mostrou a crónica escrita pelo Conde Rindolfo, lhe fez uma breve exposição e ele constatou assim os sucessos da noite anterior à chegada de Sir Gerald.
Ao almoço, no terraço, Loló apresentou Anatólio a Sir Gerald, cuja personalidade fez profunda impressão sobre ele.
A princípio considerou o mago um simples embusteiro que, a troco de dinheiro e de boas palavras, estava pronto para qualquer trapaceirice.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:02 pm

Quando, porém, encontrou o seu olhar escaldante, que parecia penetrar até ao fundo da alma, envergonhou-se da sua desconfiança.
Não tinha ainda uma noção bem clara sobre a personalidade de Sir Gerald, é verdade, mas de súbito não o considerava mais um embusteiro.
Depois da refeição, Sir Gerald explicou com um sorriso amável a Anatólio:
— Não sou realmente um trapaceiro, meu senhor!
E o Barão de Rothschild não me deu um real sequer.
Com estas palavras reproduziu tão fielmente os pensamentos de Anatólio, que este se envergonhou fitando admirado a Sir Gerald.
Quando achou-se a sós com Tonilim, entreteve por muito tempo a palestra sobre este e aquele assunto, e sentiu que o cepticismo lhe fugia.
Chegou à convicção de que no momento pelo menos, era muito melhor não manifestar hostilidade para com Rothschild, pois o julgava, agora, uma vítima da inexplicável providência.
Para convencer-se definitivamente, Anatólio explicou a Tonilim:
— Vou pedir a Sir Gerald que me permita participar das pesquisas.
— Tencionamos, amanhã, sair em busca dos cadáveres das vítimas de Paulo, a fim de sepultá-los.
Se te agradar ajudar-nos um pouco, poderás melhor te convencer da falta de base das tuas desconfianças.
— Muito obrigado; Dionid Tonilim!
Não deveis supor, todavia, que eu tenha medo ou horror dos cadáveres.
E a Sir Gerald eu ficaria sem dúvida muito grato, se me desse o seu consentimento.
E se encontrarmos, de facto, a estátua de Girolamo, o que, por enquanto, ainda duvido, me declararei vencido.
Ainda à tardinha desse dia, Rothschild regressou da vila.
A saudação entre ele e Anatólio não foi muito cordial, razão porque também Rothschild transmitiu o convite de Sir Gerald a Anatólio, para tomar parte nas pesquisas da manhã.
Já bem cedo, pela manhã, deram inicio ao trabalho que Sir Gerald dirigia com conhecimento.
Ele conduziu os companheiros pelo caminho já descrito, que levava ao quarto onde se encontrava o cadáver de Girolamo.
Quando Anatólio viu a trágica estátua, não pode evitar um ligeiro arrepio.
Ele contemplava e apalpava o corpo não sem ocultar o seu terror.
— À luz do dia podereis melhor contemplar esta estátua! - Proferiu Sir Gerald levando-os até uma parede na qual indicou-lhes um ponto.
Aqui há uma porta murada que dá ingresso ao aposento onde morreu Lucrécia.
Do lado de dentro se acha um nicho com uma imagem de anjo, encoberto por uma grade.
Precisamos abrir essa porta e remover a imagem.
Todas as portas e janelas muradas precisam ser abertas!
Depois de um trabalho de duas horas, conseguiram arrombar a porta e remover a estátua de Girolamo para o quarto onde morrera Dina.
— Pelo mesmo caminho pelo qual saiu, voltou ele ao quarto! - observou Sir Gerald.
Só então puderam verificar quão belo rapaz fora Girolamo, embora o pó e as teias de aranha que lhe recobriam o rosto e as vestes.
Os olhos eram profundamente grandes e negros, e estavam muito abertos.
As vestes estavam em farrapos sobre o seu corpo, o qual era duro e compacto como o granito.
— Mas isto é uma verdadeira obra de arte, e é uma pena sepultá-la!
Deveríamos levar esta estátua a um museu! - Disse Anatólio comovido.
— Este é o corpo de um homem que foi assassinado!
O seu lugar é na sepultura.
Falta de caridade seria expô-lo à curiosidade pública! - Replicou Sir Gerald tranquilamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:02 pm

— Sepultareis este corpo assim como está, ou o amolecereis com alguma essência? - Perguntou Rothschild.
— O veneno precisa ser removido, ao menos em parte, do seu corpo, pois senão esta rigidez, esta petrificação agirá, embaraçadamente, sobre os fios astrais de sua alma. - Explicou Sir Gerald.
De novo, como outra vez, trouxeram uma banheira na qual mergulharam o corpo petrificado de Girolamo que cobriram com um lençol.
Então seguiram todos ao subterrâneo.
Ali reuniram os restos mortais de Lucrécia e todos os ossos esparsos que depositaram em panos previamente arranjados, e conduziram para o jazigo sob a capela, onde estava o esquife de Giovana.
No dia seguinte, enquanto Bernardino fora à cidade para arranjar os esquifes, foram visitar as antigas prisões que também continham inúmeros esqueletos.
Por diversas fracturas nos ossos, pôde-se constatar que os antigos possuidores daqueles esqueletos tinham sido torturados.
Quando Bernardino chegou com os esquifes, tiraram o cadáver de Girolamo da banheira, amolecido da mesma forma que a infeliz Dina, mas conservando ainda o mesmo aspecto de porcelana.
Anatólio não pode, pois, continuar duvidando de que Girolamo tivesse sido de facto outrora um homem vivente, e que não era, como surpresa, uma obra de arte, feita de pedra.
Ele lançou um olhar ao seu primo Rothschild e sentiu-se um tanto trémulo ao constatar o aspecto transformado e emocionado deste.
— Teremos ainda que procurar os restos da cigana e de Paríssima? - Quis saber Rothschild.
— Não meu amigo, não é preciso!
O que tínhamos a fazer já está feito.
Paríssima deixaremos descansar onde está.
Se algum dia for encontrada, será um problema divertido para os seus descobridores que desejarão saber de que matéria teria sido feito a sua figura humana.
Quanto a Yolanda, é de presumir-se que já se tenha tornado pó.
Além disso não é sem perigo penetrar nos mais profundos calabouços do castelo.
Se rompermos aí um pedaço de parede, poderemos estar certos de que a cobertura cairá sobre as nossas cabeças.
O cura da aldeia se prontificou a conceder sepultura aos esquifes.
O caixão de Girolamo, a pedido de Rothschild, foi depositado no jazigo da família Montinhoso, que foi também aberto.
Rothschild leu atenciosamente todas as antigas inscrições sobre as sepulturas.
Encontrou o nome do Conde Rindolfo entalhado em mármore negro.
Junto dele estava a sepultura do filho de Paulo.
No dia do enterramento dos invólucros mortais, só agora descobertos, membros da família reuniram-se para preces.
Valéria despertou do sono com plena consciência, e pôde agora recordar-se de todas as minudências do passado, bem como de tudo quanto sucedera em seu estado sonambúlico.
Uma vergonha, um desespero ilimitado se apoderou dela ao recordar-se do que lhe sucedera.
Larissa não sabia o que fazer para acalmar a jovem.
Valéria recusava-se a ver Lolo e Anatólio, e apenas tolerava a presença da tia e madrinha.
Somente depois de ter chorado longamente, o que aliviou-a um tanto, pôde ouvir Larissa que lhe contou a morte de Dina e os demais acontecimentos que se deram no castelo.
— Volta finalmente à razão, Valéria!
Ninguém, dos que conhecem as particularidades desse drama do passado, te recriminará e condenará.
Tu, como Pawel, foste vítima do passado.
Não estarias agora entre os vivos se não fosse a bondade de Sir Gerald.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:02 pm

O Barão te ama e te considera como sua noiva.
Deseja desposar-te em breve e eu estou certa de que serás feliz com ele.
Tu o amas também, não?
Tranquiliza-te pois, e pensa no belo futuro que te espera! - Concluiu Larissa.
Só à tardinha Valéria manifestou-se disposta a saudar os parentes.
E conto ninguém fizesse referência nem de leve, aos dias misteriosos, mas ficassem antes jubilosos pelo seu restabelecimento, ela se tornou mais tranquila e, no dia seguinte, quis também ver ao Barão.
Levemente emocionada fez a sua entrada.
Quando a alta figura se apresentou entre os portais, não pôde ela ocultar o pejo e cobrir o rosto com as mãos.
Rothschild contemplou-a com profundo sentimento, misto de amor e compaixão.
Aproximou-se dela vagarosamente e envolveu-a nos seus braços.
— Giovana, perdoa-me!
Eu te amo e quero dedicar toda a minha vida à tua felicidade.
Não chores agora, as tuas lágrimas me maltratam.
0 Balbuciou ele, e procurou retirar-lhe as mãos do rosto.
Valéria aconchegou-se e perguntou-lhe estremecendo:
- Não me desprezarás, Paulo?
— Não, Giovana!
Somente poderei desprezar-me a mim mesmo.
A única desculpa que tenho é que me achava sob o poder das forças sobrenaturais, que me fizeram cego e surdo.
Mas todo o mal está desfeito.
As cadeias férreas que nos mantinham prisioneiros, estão quebradas, e a maldição, que pesava sobre nós, desfeita.
Agora não sou mais o Maledetto, mas um homem livre que vem te oferecer o seu amor.
Alcançamos a nossa felicidade a preço de terríveis sacrifícios, e vamos gozá-la agora a plenos pulmões, não é mesmo, Valéria?
Ergue a tua cabecinha e dá-me um beijo, em sinal de que, em mim, não amaste somente a Paulo de Montinhoso, mas também a Pawel Borisowitsch!
Valéria sorriu e deixou-se beijar pelo seu noivo.
— Sim, Pawel, eu também te amo!
Mas não amas tu, apenas a Giovana, em mim? - Perguntou baixinho, sorrindo.
— Amo a ti e a Giovana em ti!
Mas falemos agora do nosso futuro...
Respondeu Rothschild assentando-se ao lado dela.
A animada palestra restituíra Valéria ao presente, fazendo-a esquecer o brumoso passado.
Meia hora depois os dois noivos foram reunir-se aos demais hospedes da vila.
Iniciaram, desde então, uma vida alegre e descuidada.
Anatólio perdera a expressão fechada que ostentara até então.
Intimamente, fizera as pazes com Rothschild.
Pelos telegramas que fizera expedir, a progenitora de Valéria fazia saber a sua grande satisfação pela brilhante união que estava reservada à filha.
Lolo e Valéria sentiam-se felizes.
Passavam a maior parte do dia no castelo, em febril actividade.
Sob a direcção do Barão e Anatólio, fora demolido o alto muro que circundava a ala misteriosa.
Portas e janelas foram abertas a fim de dar entrada ao ar e à luz, que, agora, depois de três séculos, penetravam de novo nos compartimentos.
A conselho de Sir Gerald, o horrível quadro a óleo do salão foi destruído.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:02 pm

As senhorinhas remexeram velhas caixas e canastras, e por entre as vestimentas dos antigos senhores do castelo, encontraram tanta peça valiosa, que, numa festa à fantasia, teriam feito furor.
Duas semanas depois, já quase não se conhecia o castelo.
O grande e velho portão estava aberto de par em par, o quintal estava limpo da grama e dos arbustos, no jardim as flores desprendiam o seu perfume, e o maravilhoso repuxo lançava o seu jacto brilhante para o alto.
Numa das noites seguintes, Sir Gerald deu um longo passeio através do castelo.
Poucos dias depois, na companhia de Tonilim, partiu de Montinhoso.
Permitira que Rothschild lhe escrevesse, e prometera avisá-lo sobre a data da sua partida para a Índia.
Aos poucos os habitantes do castelo preparavam-se para retornar à pátria.
A viagem de regresso seria feita através de Paris, a fim de que Valéria pudesse adquirir o seu enxoval.
Os últimos dias passados no castelo foram de alegria e festas.
Num pequenino armário, no quarto de Giovana, Valéria e Lolo haviam descoberto dois pequenos estojos.
Um deles continha jóias e ricas pedras preciosas, o outro continha cartas de amor dirigidas a Paulo de Montinhoso e um pequeno número de miniaturas, em vários tamanhos, de formosas mulheres.
Com este tesouro, correram ao terraço, indagando de Rothschild quem era esta ou aquela personagem, de qual era este bracelete ou aquele grampo de cabelo.
O Barão achou graça na brincadeira, mas insistiu em queimar aquelas lembranças.
Valéria opôs-se e, rápida, fugiu com as caixinhas para o seu quarto.
Um dia, afinal, deixaram o castelo.
As senhoras, na companhia de Anatólio, seguiram para Paris.
Rothschild, entretanto, regressava directamente a S. Petersburgo, na Rússia, onde teria de ultimar os negócios de herança e fazer os preparativos para o casamento.
Já no seu destino, o jovem milionário mandou preparar os aposentos para a futura esposa.
Para tal motivo, solicitou de seus superiores hierárquicos uma licença prolongada que lhe foi concedida, pois que não era de admirar que agora, como homem rico, tivesse muitos negócios a resolver.
Ninguém suspeitava, entretanto, que se preparava para uma viagem à Índia.
Visitou todas as propriedades que herdara e tomou suas providências de tal modo que, por alguns anos de ausência, a administração não entraria em dificuldades.
Cerca de duas semanas depois do regresso das Muranoff e de Larissa, que trazia Valéria de Paris, realizavam-se dois matrimónios simultaneamente, ambos na intimidade, uma vez que Rothschild ainda se encontrava de luto.
Os primeiros tempos do matrimónio, os jovens casais desfrutaram-nos na tranquilidade de seus lares.
Lolo vivia em Sarkoje Selo, onde seu marido servia.
Em breve, as aves de arribação da capital, regressando do exterior e do sul do país, davam começo à vida social de S. Petersburgo.
Leves nuvens se ergueram no firmamento da felicidade conjugal do Barão e sua esposa.
A jovem senhora, orgulhosa de seu esposo, queria apresentar-se na sociedade e nos teatros.
Rothschild entretanto, nunca amara estas coisas.
Tinha-as a conta de exibições.
Os misteriosos e enigmáticos sucessos de que fora protagonista, o haviam afectado, e lhe abriram os olhos para as luzes do mundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:02 pm

As palavras ocas, os interesses vis, as intrigas mesquinhas com que a sociedade se ocupa, enojavam-no e eram-lhe desagradáveis, não podiam mais atraí-lo.
Todo o seu interesse voltava-se agora para as leis ocultas que regem os destinos humanos.
Desejava penetrar, o quanto lhe fosse possível, no conhecimento delas.
Todos os livros banais e fúteis da sua biblioteca, foram retirados dos armários.
Em lugar deles, viam-se livros sobre a história das religiões, os mistérios da Índia, o Ocultismo e o Espiritismo.
As estampas duvidosas desapareceram de suas paredes, dando lugar a quadros mais sérios, correspondendo ao seu gosto actual.
Mantinha assídua correspondência com Sir Gerald e Tonilim.
Ficara sabendo assim, que os dois amigos pretendiam pôr-se a caminho em fins de fevereiro.
Assim, começou ele também a preparar-se para a viagem.
Não raro, estando Valéria na companhia de amigas, em animada palestra sobre questões do último lançamento da moda, procurava envolver o esposo na conversa.
Rothschild, porém, encontrava sempre um pretexto para afastar-se logo, e mergulhar na leitura dos seus livros.
Muitas vezes assentava-se diante do retrato do Conde Rindolfo, que trouxera de Montinhoso e pensava no passado.
E uma vez mais lia a velha crónica que quase já sabia de cor.
O Barão perdera pai e mãe muito cedo.
Crescera numa atmosfera fria que era o ambiente do falecido tio.
Nunca lhe faltava nada, era verdade, a não ser meiguice e amor.
Assim, o retrato do Conde Rindolfo era-lhe mais caro do que a lembrança do tio.
Podia ficar assim, horas a fio, diante do retrato, a contemplá-lo com amor.
Quase sempre preferia ficar ali, a sós consigo mesmo, do que na companhia dos amigos e parentes, que nada tinham a dizer-lhe e que o fitavam como uma espécie de animal raro, pois, os sucessos de Montinhoso correram, naturalmente, céleres pelos salões de S. Petersburgo.
Por sua vez e de certa forma, Valéria também se sentia desiludida; o amor e a meiguice de seu esposo nada tinham em comum com a paixão arrebatadora de Paulo.
Recordava-se muitas vezes das quais se sentira tão plenamente feliz.
Não podia compreender a mudança que se operara em Rothschild.
Amava-o apaixonadamente, mas via-se levada a ocultar os seus sentimentos, julgando-se ofendida.
E por vezes vinham-lhe também negros pensamentos, a despertar-lhe os ciúmes.
O Barão notava e também compreendia essa mudança em sua esposa.
Mas nada podia fazer para, de qualquer modo, amenizá-la.
Amava também, sinceramente, a Valéria.
A beleza da moça era, para ele, um eterno motivo de admiração.
Não sentia mais, todavia, ao fitá-la, e conforme confessava a si mesmo aquela atracção abrasadora que o arrebatara em Montinhoso.
Buscava nela, agora, antes a companhia querida com a qual pudesse palestrar sobre os problemas do espírito que o preocupavam.
Valéria, entretanto, era muito jovem para renunciar à vida e aprofundar-se nas ciências pelas quais não apenas sentia-se desinteressada mas que lhe causavam quase aborrecimento.
Uma tarde estava Rothschild imerso nas suas leituras quando Valéria veio ter com ele.
Sentou-se no braço da poltrona e fechou o livro que ele lia.
— Ora, Pawel, deixa de lado estes livros cacetes.
Vem comigo a distrair-te um pouco.
Lolo foi-se embora e eu me aborreço só.
Sabes que tens modificado muito?
Não gostas de sair comigo, estás, sempre tão sério, e quase já não sorris.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:03 pm

É certo que não compreendo o sentido de todos estes estudos que fazes, mas desejo saber afinal, a causa dessa mudança que se opera em ti.
Tu sabes que eu te amo muito.
Principio a ter negros pensamentos! - Concluiu ela tristemente.
Rothschild suspirou profundamente.
Uma desagradável sensação dominou-o.
O que iria suceder quando falasse da viagem projectada e que iria durar alguns anos?
Como receberia Valéria a notícia?
Resistiria à separação?
Compreendia muito bem que, abandonando a jovem esposa tão poucos meses após ao casamento, estava procedendo cruelmente para com ela.
Contudo não queria desistir do plano concebido.
Ela teria de conformar-se, se o amava.
De repente veio-lhe a lembrança de que talvez fosse aquele o melhor momento para preveni-la sobre a partida.
Para resolver esse problema, rapidamente empurrou os livros para um lado, beijou Valéria e ergueu-se.
— Vem, senta-te junto de mim aqui.
Vamo-nos explicar. - Disse amavelmente.
Vê, eu sinto que tu condenes os meus estudos e me acuses de ser calado e retraído.
Mas tens razão.
Todavia esta vida social, entretanto, aborrece-me, é-me exclusivamente destituída de interesse.
Não ando quieto como supões.
Concentro-me. Condenas isto?
Já não posso ser outro.
Tudo o que vivemos em Montinhoso, não pode ser riscado com traço de pena.
Afinal, é muito natural que procure investigar as causas que provocaram aqueles sucessos.
E para garantir a ti, e a mim mesmo, um futuro tranquilo, urge que eu aprenda a dominar o meu Eu, a dirigi-lo, para não voltar a incidir nos erros do passado.
Podes confiar em mim.
Preciso fortalecer as minhas bases morais, por meio destes estudos.
Como saber se não me tornarei de novo o apaixonado e delinquente Paulo de Montinhoso, que fui outrora?...
— Como podes pensar nisto, como outrora, em outras mulheres?
— Não, Valéria! Mas quem pode saber do futuro?
Tanto mais que tudo isto já está no meu sangue.
Não deves esquecer de que estou, por todos os lados, cercado de perigos.
Dizem que sou interessante, que agrado a todas as mulheres.
Sou jovem, sou rico.
A morte de Dina pesa-me, sobremaneira, na alma.
Fui duro e cruel para com ela e certo que não a amei, mas a desposei quase livremente.
Quando lhe pedi que me concedesse o divórcio - para que eu pudesse cumprir com os deveres de honra em relação a ti.
Dina tornou-se uma órfã absolutamente só no mundo, sem ninguém para a proteger.
Ela me amava como tu, Valéria, e firmou a sua última esperança no Elixir do Amor, que se tornou a sua desgraça.
Eu a atirei à morte, e é uma grande carga que pesa, agora, sobre meus ombros.
Rothschild suspirou profundamente.
— E julgas que os estudos destes livros bastem para encontrares o equilíbrio psíquico, a paz interior que buscas e te protegerá de todos os perigos que te envolvem? - Perguntou Valéria duvidosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:03 pm

— Não bastam, certamente.
Mas eu desejo, sobretudo, matar o animal que reside em mim, e não andar mais como um cego.
Quem vê distintamente, os perigos da vida à sua frente, poderá, naturalmente, desviar-se deles mais facilmente do que aqueles que nada vêem e nada querem ver.
É muito possível que, para alcançar o alvo que tenho em mira, ainda necessite de uma grande prova do teu amor para comigo, Valéria...
— Pawel, nenhum sacrifício me parecerá demasiado, para eu te oferecer em sinal do meu amor!
Principalmente em se tratando de tua paz interior.
Volta agora aos teus livros.
Pôr-me-ei á vontade e terminarei aquela aquarela que representa o nosso querido Montinhoso.
Ficarei quietinha para não te incomodar, e daqui contemplarei o teu rosto que me é tão amado.
E em pensamentos acariciarei os teus cabelos negros que ainda não contêm nenhum fio de prata, apesar... dos remorsos! - Disse ela maliciosamente.
E graciosa, correu a buscar os seus apetrechos de pintura.
Rothschild passeava na sala de um lado para o outro.
Pensava nas cenas que o aguardavam.
Mas estava firmemente disposto a vencer tudo, para atingir o seu fim.
A Índia o atraía como um imã, não dava tréguas aos seus pensamentos.
Naquele país maravilhoso deveria, sob a orientação de um homem tão inteligente e ilustrado como Sir Gerald, conhecer por fim a sua condição de homem.
Era uma felicidade que só bem raramente o indivíduo alcança.
Nem um passo poderia arredar do seu propósito.
Com cada dia que diminuía o tempo da partida, o Barão se tornava mais inquieto.
Meditava e procurava encontrar um meio para convencer Valéria, sem alcançar solução, entretanto.
A esposa não sabia de nada a respeito.
Continuava, como antes, a fazer e receber visitas.
Saía a passeio e se mostrava alegre e satisfeita.
E Rothschild ultimava os preparativos para a sua viagem.
Estudara e delineara um plano perfeito de administração das suas propriedades e fizera também o seu testemunho, que deixou entregue ao seu advogado.
Cinco anos, eis o tempo que duraria a sua ausência.
Era, afinal, um lapso de tempo considerável, e não se podia prever o que poderia acontecer.
Como tudo seria fácil, se ele fosse livre!
Arrependia-se amargamente da sua leviandade, que o obrigara ao matrimónio.
Quando, uma tarde, Larissa visitava a casa de Valéria e encontrou-se a sós com Rothschild no salão, enquanto que a dona da casa vestia-se para ir a um baile, disse ele sem ocultar o seu mau humor:
— Não posso compreender o prazer que Valéria pode encontrar, indo diariamente, a bailes, para ouvir a conversa toda vazia dessa gente!
Nunca esperei, é certo, que ela tivesse tão pouco interesse pela palestra e a leitura sérias.
Ambos vencemos tanta coisa dura, juntos, estivemos à borda da sepultura, e ela não sente o menor interesse pelos problemas e segredos de que quase fomos vítimas.
Não posso compreender isto!
Larissa procurou defender a afilhada e desculpar Valéria, lembrando a sua juventude e jovialidade.
— Paciência, Pawel!
Com o tempo ela também terá interesse em relação aos teus pensamentos.
É uma menina boa e inteligente.
O Barão encolheu os ombros e não disse nada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:03 pm

Valéria voltava nesse momento, num atraente vestido de baile, corporificação veemente da descuidada juventude.
Larissa, porém, ficara inquieta com a observação de Rothschild e resolveu dar a Valéria alguns conselhos úteis, quando, alguns dias depois, voltava à casa do casal.
Valéria estava experimentando vestidos com a costureira...
— Onde está Pawel?
Ainda não o vi!
— Deve estar, seguramente, no seu gabinete de leituras, trabalhando, como sempre!
Está, talvez, ocupado em investigar o seu corpo astral, ou meditando nos seus antigos pecados, que confronta com as virtudes que adquiriu, para verificar o que resta! - Disse a moça ironicamente.
— Fazes mal, minha filha, em te manteres tão hostil aos trabalhos de teu esposo!
Deverias, antes, tentar penetrar o círculo das suas cogitações, participar do seu trabalho.
É perfeitamente compreensível, depois de tudo o quanto aconteceu, que ele tenha penetrado nesse campo de pensamento.
E deverias também, não procurar arrastá-lo de uma para outra diversão.
Ele não gosta disso! - Fez Larissa recriminando.
A cólera de Valéria, até então refreada, manifestou-se.
— Não compreendes por ventura, que ando saturada desses escudos idiotas?
Não o embaraço, é facto, nas suas investigações, mas ele também não pode exigir de mim que me sepulte em seu quarto, sob tais livros.
Sir Gerald nos disse que já nos libertamos das garras do passado.
Não posso pois, compreender porque nós, sendo jovens, ricos e sadios, não devamos gozar a nossa vida.
Por que levar uma vida de claustro e, como crianças de escola, estarmos sempre de livros na mão, saturando-nos com essa ciência enfadonha e sobretudo incompreensível?!
Valéria erguera-se e andava inquieta de um lado para o outro, da sala.
Larissa observava-a cheia de cuidados.
— Valéria! Valéria!
Não te fica bem falar assim.
Não temes, então, levantar entre ti e teu esposo uma parede divisória?
Mais tarde poderás te arrepender amargamente por essa recusa cega em concordar com ele.
E não compreendo como podemos repudiar essa ciência como enfadonha e desinteressante.
Ela nos fornece tanta coisa de novo e digno de se conhecer, que, absolutamente, não pode ser taxada de enfadonha.
Antes - lembras-te? - te ocupaste com ela!
— E ainda hoje me interesso.
Leio com prazer qualquer livro a respeito e assisto às vezes a algumas sessões.
Mas tudo com moderação, com medida!
Não me passou pela ideia enterrar-me, com meu esposo, nesse assunto, e nele esquecer o mundo que me cerca.
Ele, porém, fica sempre zangado quando tem que ir comigo a qualquer parte, quando o afasto assim, do contacto com os seus livros.
Especialmente nestas últimas semanas anda insuportável.
Nervoso e inquieto, tem qualquer ocupação sobre a qual não me diz nada.
Não compreendo o que se passa, enfim!
Cheguei a desconfiar de que, talvez, tenha se arrependido de ter se casado comigo... - Disse com lágrimas nos olhos.
Larissa tranquilizou-a tanto quanto pôde, e prometeu falar a respeito com Pawel.
Um belo dia Tonilim surgiu a visitá-los.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:03 pm

O solteirão pretendia passar muitos anos na Índia, e ia liquidar, por esse motivo, com a sua casa.
Pediu a Rothschild que guardasse algumas raridades, bem como algumas de suas colecções, no que o Barão acedeu.
Restava apenas uma semana para partirem rumo a Londres, onde Sir Gerald os aguardava.
Rothschild não podia protelar por mais tempo o seu entendimento com a esposa.
Decidiu comunicar antes o seu plano a Larissa e obter, por parte dela, algum apoio.
Certa manhã, quando Valéria ausentou-se, indo, na companhia de uma amiga visitar certa exposição, o Barão se dirigiu inopinadamente para Pawlosk.
Larissa mostrou-se um tanto quanto admirada com a visita e notou a falta de Valéria.
— Valéria foi visitar uma exposição qualquer, de cães, ou macacos...
Ela está bem, goza de boa saúde.
Vim aqui por causa dela, Larissa.
Preciso pedir-te um grande favor.
Venho rogar-te amparo para Valéria, durante a provação que sou forçado a impor-lhe, e que não lhe será fácil vencer!
— Pelo amor de Deus, Pawel!
Do que é que se trata, o que pretendes fazer? - Disse Larissa nervosa.
— Eu próprio sofro bastante, mas Deus é testemunha de que não posso agir de outra forma.
Não me condenarás, se tomares em consideração, que os sucessos de Montinhoso fizeram de mim outro homem.
Preciso aprender, Larissa, preciso penetrar as leis do mundo invisível que nos cerca, e agora se me oferece uma oportunidade.
Se a perder, nunca mais poderei satisfazer os meus desejos.
Sir Gerald, atendendo a meus rogos, declarou-se disposto a instruir-me e auxiliar-me, pelo menos em parte, no conhecimento das misteriosas forças que nos governam.
Possuo a força de vontade necessária ao empreendimento.
Poderia acaso perder esta oportunidade?
Por esse motivo me ausentarei, viajarei para o estrangeiro.
Ficarei cerca de cinco anos na Índia.
Por isso é que venho rogar-te que expliques a Valéria que não é por falta de amor que assim faço, mas exclusivamente pelo íntimo desejo, pela necessidade que sinto de compreender os problemas que a envolveram, e a mim também, e que ainda nos abrangem a todos.
— Desejas ausentardes daqui pelo espaço de cinco anos?
Mas agora, que estás casado há cinco meses apenas?
Francamente, devo dizer-te que o que desejas equivale quase a um divórcio, e será um golpe brutal para Valéria...
Rothschild corou, e um amargo sorriso aflorou-lhe aos lábios.
— Ainda que não seja um divórcio, é ainda, uma separação longa!
— Não nego isso, Larissa!
Mas essa separação é inevitável.
Se Valéria me ama realmente, se ela me ama em espírito, em suma, o que não tenho em dúvida, compreenderá o meu passo, perdoar-me-á e aguardará, tranquilamente, o meu regresso.
Se fôssemos ambos livres, tudo seria, certamente, mais fácil.
Mas acontecimentos fatais nos levaram ao matrimónio, e agora ambos devemos procurar ir ao encontro um do outro, e nos conformarmos com o que de nós exigem as supremas realizações da vida.
— Tu tens razão.
Entretanto, não só a culpa de Valéria deve ser levado este matrimónio...
— Nem se fala disso, Larissa!
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:03 pm

Sei, e não nego, que sou, sem dúvida nenhuma, o maior culpado.
É fora de dúvida, porém, que fiz tudo para reparar a minha falta.
Mas, eu não buscava tão somente a satisfação das minhas paixões, eu quis encontrar também o amor psíquico.
Se Valéria vê em mim apenas o homem, que lhe precisa dedicar o amor material, então, a separação de cinco anos lhe será, realmente, difícil.
Nesse caso, todavia, eu estaria, é natural, pronto a restituir-lhe a liberdade.
Ela tem, afinal, muitos admiradores, entre os quais poderá escolher um.
Em S. Petersburgo existem muitos rapazes bonitos que estão dispostos a corresponder as exigências de uma senhora jovem e fogosa.
Alguma coisa de duro e irreconciliável soava na voz de Rothschild, ao dizer estas últimas palavras.
— Dizes, portanto, que há em S. Petersburgo muitos rapazes belos, como tu mesmo exprimiste, que poderiam servir a Valéria?
Sinto dizer-te que o que disseste agora, em relação a Valéria, não te honra absolutamente, e é uma injustiça tua! - Retrucou Larissa friamente.
Mas no que se refere ao teu pedido, em ser eu um amparo para Valéria, podes ficar tranquilo.
Farei tudo quanto esteja ao meu alcance para consolar essa infeliz e desolada criatura!
Larissa ergueu-se.
Depois de uma formal despedida, Pawel saiu, meio de descontentamento, de Pawlosk.
Se Larissa o despachava de tão inclemente maneira, o que não diriam os outros parentes?
Como haveria de explicar-se com Valéria e sua sogra?
Era desesperadora a sua situação.
Os crimes do Maledetto tinham-nos envolvido num círculo de senhoras jovens e idosas, de cujos dedos tinha que se libertar.
Enquanto o auto conduzia-o de volta a S. Petersburgo, sentiu erguer em si a inquebrantável vontade de Paulo de Montinhoso.
Resolvia-se a não ceder um passo.
Em casa, encontrou Tonilim, que lhe trazia uma carta de Sir Gerald.
Escrevia-lhe que no caso de uma mudança de opinião, por parte do Barão, esperava um informe telegráfico, a fim de que pudesse reservar o número exacto de acomodações a bordo.
— Absolutamente não me passa pela cabeça alterar os meus planos.
O que não diria de mim então, Sir Gerald!
Mais do que nunca desejo o isolamento e o trabalho! - Disse Rotschild.
— Mas, o que dirá a isso tua esposa? - Perguntou Tonilim.
— Ela terá que se conformar com a minha vontade!
E se não quiser esperar a minha volta, que mova uma acção de divórcio e se case com outro.
Porei à sua disposição os meios necessários para que possa escolher um homem ao seu gosto.
Afinal, compreendo que uma separação tão longa não se pode recompensar com o preço de uma felicidade inquebrantável!
X X X
— Valéria ainda ignorava tudo o quanto estava para acontecer.
O Barão dedicava-se a ela mais do que anteriormente, ia aos teatros e acompanhava-a às visitas.
Encheu-a de presentes.
Entre outras coisas, deu-lhe um seu retrato a óleo.
Entrementes, encontrara uma comparsa em Loló.
A jovem senhora já adivinhava qualquer coisa e não se admirou quando Rothschild, confiando no seu auxílio, lhe comunicou o seu plano.
— Cinco anos são, em verdade, um longo lapso de tempo, e uma separação tão prolongada, não é fácil!
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