Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:04 pm

Mas, afinal, a vida é longa, tereis ainda tempo de vos fazerdes, reciprocamente, felizes, quando voltares! - Disse ela.
— És, realmente, adorável, Lolo!
Consola Valéria e procura afastá-la dessa vida multicor em que presentemente vive.
Desejo fundar um asilo para crianças abandonadas.
Deixarei os necessários meios em tuas mãos, Loló.
Tu procurarás passá-los a Valéria.
Eu gostaria disso!
Entre todas essas outras coisas, ela teria, assim, uma ocupação séria.
A fundação e a organização da casa a absorverão, não achas?
Uma noite, cerca de cinco dias antes da partida de Rotschild, voltava o jovem par do teatro.
No decorrer da tarde desse dia, Pawel decidira-se por mais que lhe custasse, comunicar tudo à esposa.
Sem trocar de roupa, sentou-se num banco junto à lareira e mergulhou em pensamentos.
Não notou quando Valéria veio chamá-lo para a ceia e aproximou-se, mansamente.
Havia trocado o seu vestido de noite por um leve penteador azul claro, e soltara os seus longos cabelos loiros.
Sabia que o esposo gostava de vê-la assim.
Arrumara-se especialmente para lhe ser agradável.
Notava o abatimento dele, e nutria o melhor propósito de o consolar.
Correndo acercou-se dele e abraçou-o pelo pescoço, beijando-o.
— Paulo! - Disse baixinho.
Assim o chamavam sempre que desejava ser amável.
— Diz-me, Paulo, o que se passa, contigo?
Não me amas mais?
Por que andas assim, tão esquisito?
Rothschild estremeceu, e não pôde esconder o seu martirizante, ao vivo olhar dela.
— Giovana, amas-me realmente?
— Mais do que a minha vida, Paulo!
Agora que nada nos pode separar, que nos pertencemos diante de Deus e os homens, eu te amo mais do que a tudo no mundo.
Carinhosamente aconchegou-se a ele.
— Se me amas, assim, deverás então entender-me e perdoar-me, se eu te suplicar um grande sacrifício!
Se me amas serás generosa, complacente e paciente para comigo, e suportarás a privação que sou obrigado a impor-te.
Será a última provação do nosso amor.
Valéria empalideceu e fez-se inquieta:
— O que queres dizer com isto?
As tuas palavras, que significam?...
— Compreenderás em breve.
E Rothschild expôs-lhe o seu estado psíquico, todas as dúvidas com as quais lutava, e a sua resolução de ir para a Índia.
— Contas dezoito anos, terás apenas vinte e três quando eu voltar, Valéria.
Então, dedicarei toda a minha vida a ti, tão somente a ti!
Teremos um longo tempo para a nossa felicidade.
Sê prudente, Valéria, sê bondosa e não me condenes.
Escrever-te-ei, saberás tudo quanto se relacionar à minha vida lá.
Valéria recuara e permanecia trémula diante do marido:
— Desejas abandonar-me?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:04 pm

Afastares-te de mim por cinco anos?
E para perseguir fantasmas na companhia desse semi-louco, Tonilim, com esse Gerald charlatão?
Mas, diz-me, estás no teu juízo?
O Barão erguera-se e prendera com energia a mulher pelo pulso.
— Valéria, que eu nunca mais ouça uma palavra injuriosa sobre Dionid e Sir Gerald.
Perdoo-te as palavras irreflectidas, levando em conta a tua excitação.
E espero, ainda, que, por amor, me perdoarás, e suportarás, pacientemente, a separação.
— Nunca! Nunca darei o meu consentimento para que te ausentes por tanto tempo!
Não quero! E não tens o direito de fazer de mim o escárnio da sociedade, abandonando-me depois de apenas seis meses de casados...
O que te fiz para que te vás e destruas a minha vida?
— Eu não te abandono!
Voltarei e hei-de amar-te sempre, como te amei até hoje.
No que se refere à opinião da sociedade, que eu tanto desprezo, bem pouco me importa.
Estamos muito acima dessa gente falsa, à qual o falatório e as hipocrisias são o objectivo da vida.
Eu nutria esperanças de que me compreendesses.
Esperava que, na minha ausência, também lerias e estudarias, como o fiz durante todo este tempo.
Ao regressar, colheríamos, como bons camaradas, os frutos do nosso saber.
A tua resistência, porém, pesa para nós dois, e é inútil, pois que a minha resolução está inabalavelmente tomada! - Completou Rothschild tranquilamente.
Valéria ria-se abertamente:
— Não ponho em dúvida a firmeza da tua resolução, Paulo de Montinhoso!
A tua obstinação já sacrificaste mais de uma vítima.
Foste o algoz de toda criatura que te amou.
Não é de estranhar, pois, que ajuntastes, ao teu rol, outra mais.
Que te importa o que será de mim no decorrer desses cinco anos!
Queres talvez que eu, para te facilitar os estudos das tuas fantasias, vá de trouxa às costas de convento em convento, vivendo de esmolas, orando por ti?
Talvez - porque não! - que o mestre Gerald se lembre, para abreviar o tempo da tua aprendizagem, de casar-te com uma bailarina do templo!
Podereis então rir e vos divertirdes melhor à custa da tola que ficou aqui á espera.
Rothschild empalidecera e se aproximou de Valéria.
— Disseste a verdade, Valéria!
Outrora eu passava sobre cadáveres para satisfazer meus caprichos.
Mas agora quero libertar o meu espírito, e nada no mundo me demoverá.
Afora isso, convenço-me de que, o que denominas o teu grande amor, nada mais é que um capricho.
Tranquiliza-te, porém:
depois de trezentos anos, o algoz já está mais civilizado e não imporá a sua vítima nenhuma violência.
Assim, se o desejas, serás livre!
Encontrarás muitos homens que se julgarão felizes, em tirarem de ti a aparência de mulher martirizada e abandonada.
Não queres mesmo por bem te separares de mim?
Mas agora a minha última palavra.
Quer queiras ou não, dentro de cinco dias partirei.
Valéria desesperou-se.
— Homem sem honra!
Ainda ousas ofender-me?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:04 pm

Abusaste de mim, me atiraste, como uma esmola, o teu nome e me indicas agora a porta; como se eu fosse demais!
Oh! Maledetto.
Felizmente não se pode, hoje, sem mais nem menos apunhalar a esposa ou envenená-la!
Incitas-me por isso ao suicídio?
Sem esperar uma resposta, Valéria fugiu.
Aturdida entrou, soluçando, no seu quarto, e fechou a porta.
Sua cabeça ardia.
Se Rothschild pensava ter vencido, enganava-se.
Ainda o esperava coisa pior.
No dia seguinte a parentela de Valéria pôs-se em polvorosa.
A primeira a chegar foi a mãe, que falou ao Barão sobre a vida desfeita de sua filha.
Depois veio Anatólio que, por bem, procurou influir no ânimo de Rothschild, e que se afastou sem conseguir coisa alguma.
Grande parte do geral descontentamento da família se despejou sobre Tonilim.
Não fosse ele hóspede do Barão, as senhoras o teriam expulsado da casa:
Como e por intermédio de quem o drama familiar se fez público, ninguém podia explicar!
Mas de uma hora para outra, em todos os salões, não se falava sobre outra coisa que não fosse a viagem de Rothschild e o drama de sua infeliz esposa.
As mais variadas versões entraram em motivos sensacionais.
Afirmavam que Pawel perdera a razão, e devia ser internado num manicómio; que um sintoma evidente disso era a sua grosseria no convívio com as senhoras.
Outros afirmavam que a viagem tinha ligações com a compra do castelo italiano, que estava cheio de cadáveres e esqueletos; que um faquir indiano, em viagem, se aproveitara disso e incutira no Barão a ideia da existência de um cadáver ambulante que expulsou com a necessária arte de berliques e berloques, e que por esse serviço recebera uma boa soma em dinheiro, mais o compromisso, por parte de Rothschild, de passar cinco anos purgando diante de um pagode.
Daí a sua viagem à Índia.
A maioria, porém, sustentava que alguns trapaceiros do Oriente souberam influir sobre o Barão e Dionid Tonilim, cujas fortunas o tentavam, no sentido de deixarem o lar e seus haveres e o seguirem à Índia ou a outro lugar qualquer e, o que era o principal, darem-lhe o seu dinheiro em recompensa pelo serviço que os libertaria das forças invisíveis, dos espíritos que deles se haviam apoderado.
À família do Barão deram, com toda a seriedade, o conselho de o colocarem sobre imediata curadoria, ou o fazerem divorciar-se de Valéria, uma vez que a loucura poderia levá-lo a assassiná-la.
Por toda a parte a agitação era grande.
Nesse meio tempo, porém, Rothschild mandara entregar aos conhecidos, sucintamente, o seu cartão de visitas, e terminara os seus preparativos.
Em seu lar pairava uma tempestade.
Larissa, que viera de Pawlosk, não se afastava de Valéria, que se encontrava num estado quase indescritível de agitação.
Não via mais o esposo.
Lolo a auxiliava numa ou noutra coisa, pois que a mãe de Valéria estava quase sempre de cama, com enxaqueca; não se mostrando capacitada para nada.
Quando, descuidadamente faziam-na lembrar-se do genro, tornava-se furiosa, responsabilizando-o pela desgraça de sua filha.
Apenas Lolo pusera-se do lado do Barão.
Independente, ela lhe contava tudo quanto às suas costas se passava e se dizia, a respeito, entre as senhoras.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:04 pm

Todas essas inconveniências actuavam, naturalmente, sobre Rotschild.
Apresentava ele uma má aparência, quase não comia e dormia mal, de modo que Tonilim se viu na contingência de, por vezes, ministrar-lhe algumas gotas de um remédio de Sir Gerald, fornecido para casos de necessidade.
Os dois proscritos contavam as horas da partida, pois que, além de Pawel, também Tonilim quase não se podia mais defender dos ataques.
Tonilim foi abertamente acusado de cumplicidade na inexplicável historia.
Diziam, ainda, que ele e o indiano haviam hipnotizado o Barão.
Finalmente chegou o dia da partida.
O trem saia à noite.
Arrumaram as últimas instruções.
O velho Sawely chorava como uma criança enquanto apertava as correias das malas e as conduzia a estação.
No quarto, o Barão passeava, extremamente agitado, de um lado para o outro.
Notara que ninguém pretendia acompanhá-lo até a estação.
Desejaria sair silenciosamente, sem ser visto.
À tardinha, Tonilim foi ao salão despedir-se das senhoras.
Larissa e Helena, embora agitadas, foram ainda corteses, se bem que frias, ao passo que a mãe de Valéria não se pode conter e avançou para Tonilim:
— Ladrão! Embusteiro!
Não vos contentais, em terdes sido, pessoalmente, vitimado pelas vossas ideias loucas, não?
Quereis atrair outros à desgraça... - Gritou irritada.
E desejou que, sobre ele e o Barão, descesse a vingança de todos os espíritos maus da provisão que possuía o trapaceiro indiano.
— Deus é minha testemunha de que não influí de forma alguma na resolução de Pawel! - Defendeu-se ele.
— Não tendes culpa?
Ainda ousais afirmar isso?
Quem foi, então, que levou esse trapaceiro indiano para Montinhoso?
Se minha filha terminar suicidando-se, ou se perder a razão, somente vós e vosso amigo sois responsáveis!
Por que havia, minha filha, de desposar este patife?
Calou-se exausta.
Mas a tranquilidade estóica de Tonilim também se esgotara.
Fora de si pelas injúrias, não pode conter-se, sem dar uma resposta dura.
— Perguntai a vossa filha, Senhora, porque é que ela se casou com o Barão!
Ela mesma vos poderá dizer melhor, já que não podeis adivinhar o motivo.
Ele inclinou-se ligeiramente e saiu.
A senhora Samburoff fitou confusa.
Larissa e Helena Alexandrowna se olhavam significativamente.
— O que disse ele?
Creio que ele ousou - que Deus lhe perdoe! - injuriar a inocência de minha filha.
Será possível?
Não, não pode ser possível!
Um choro convulso embargou-lhe a voz.
As senhoras, auxiliadas por alguns criados, a levaram para um dos quartos mais afastados, a fim de que seus gritos não assustassem Valéria.
Tonilim voltava ao quarto de Rothschild, que se vestia.
— Vem, vem depressa!
É melhor esperarmos algum tempo na estação do que permanecer por mais um minuto aqui.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 8:05 pm

Em breve nos apedrejarão.
Livra-te tu, Barão, de te aproximar de tua sogra.
A velha senhora atirou-se sobre mim como um tigre, e provocou uma resposta que agora lamento.
Exausto ele caiu sobre uma cadeira, enxugando o suor do rosto.
— Preciso me despedir de minha mulher.
Não poderei viajar se não fizer isso.
Já há cinco dias que não a vejo! - Disse Rothschild.
Com o coração oprimido, saiu à procura de Valéria.
Num pequeno saguão encontrou-se com Lolo e lhe contou o seu propósito.
— Vá, Pawel!
Decerto que ela não te quer ver.
Mas está, agora, a sós, enquanto os outros cuidam da senhora Samburoff, que teve um ataque de nervos.
Ah! Pawel, nunca esperei que as coisas ficassem assim tão horríveis! - acrescentou a moça suspirando.
Rothschild penetrou no aposento de sua esposa, onde a encontrou deitada numa chaise-longue.
Um quebra luz azul, deixava-a ainda mais pálida do que era.
Transformara-se naqueles cinco dias.
Seu rosto estava desfeito e abatido, mostrava círculos roxos ao redor dos olhos.
Tinha os cílios descidos, e o Barão não pôde saber se dormia ou se estava imersa em profundos pensamentos.
Martirizado por dúvidas e remorsos, aproximou-se, ajoelhou-se e acariciou-lhe os cabelos com as mãos.
Valéria estremeceu e abriu os olhos.
Reconhecendo, porém, o esposo, permaneceu deitada, como que estarrecida e, não parecia perceber os seus agrados.
Em seguida principiou a chorar e a tremer convulsamente.
Lançou os seus braços ao redor do pescoço dele, sem poder conter as lágrimas.
— Mata-me antes de partires!
Quero antes morrer, a ficar sozinha aqui.
— Valéria, sê ajuizada!
Tem pena de mim!
Não compreendes o quanto é duro para mim este instante?
Não duvides de mim e não me esqueças.
Eu não posso retroceder.
E eu te juro que te amo acima de tudo, neste mundo!
O tempo de nossa separação, eu o abreviarei tanto quanto me seja possível.
Pela última vez beijou as mãos geladas da moça.
Entretanto, um desesperado apelo de Valéria o reteve.
Ela se erguera, se prostrara à sua frente, e lhe abraçara as pernas.
— Paulo, fica! Não te vás embora!
De joelhos te suplico...
Só a custo, mantinha-se Rothschild de pé.
Auxiliou Valéria a erguer-se e por um longo instante permaneceu indeciso.
Então, também ele deu vazão às lágrimas que lhe subiam do peito.
Acerba luta manteve a consciência com o egoísmo, e este venceu.
Cuidadosamente deitou Valéria sobre a cadeira, beijou-a sobre os lábios e a fronte, e, apressado, saiu.
Lolo veio ao seu encontro, pálida, com os olhos rasos de lágrimas, ela o abraçou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:39 pm

— Pawel, também tu choraste?
Tu sofres também, neste momento amargo...
— Sim, Lolo. Se soubesses tu o quanto sofro...
Se eu pudesse voltar atrás, com que prazer o faria!
Mas não posso!
Sê uma irmã e uma amiga para Valéria, auxilia-a nos momentos de aflição, e escreve-me sempre sobre tudo quanto aqui se der.
Também eu escrevi, a si e a Valéria.
Mas agora, adeus...
Ele abraçou a prima e, apressado desapareceu no saguão.
Aí o esperavam Tonilim e o velho Sawely.
Sob uma torrente de lágrimas, o velho o ajudou a vestir o casaco, abraçando-o muitas vezes.
Rothschild também abraçou o velho servo e beijou-o sobre as duas faces.
Pediu-lhe que servisse à jovem senhora conscienciosa e fielmente, e recomendou-se a todos.
Depois desceu às pressas os degraus e entrou no carro, seguido de Tonilim.
Partiram. Dionid olhou-o cheio de preocupação.
— Pawel, tranquiliza-te. O pior já passou.
E, se Deus quiser, voltarás com saúde e satisfeito.
O Barão não podia responder.
Calados, chegaram e entraram no vagão.
Somente quando, estalando e gemendo, o trem se pôs em movimento, Tonilim suspirou aliviado.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:39 pm

14 - A INICIAÇÃO NA ÍNDIA

Quando Valéria voltou a si, o trem que levava o seu esposo, já ia bem longe da capital.
Cansada e confusa, olhou ao derredor.
No mesmo instante, aproximou-se de Larissa.
— Ele partiu? - perguntou Valéria duvidando, e fechando de novo os olhos, quando Larissa meneou afirmativamente a cabeça.
Depois de longo silêncio, Valéria perguntou pelo estado de sua mãe.
— Deita-te também tu, titia.
Eu me sinto bem agora, e, em proporção aos sucessos. Tentarei dormir!
Para não se contradizer, Valéria deitou-se sobre o divã e tentou dormir.
A sua tranquilidade, porém, pareceu suspeita a Larissa.
Ela temia qualquer tolice por parte da moça.
Mas nada sucedeu, e ela não teve certeza se a afilhada dormia ou não.
Os dias seguintes correram calmos, como se nada tivesse acontecido.
Valéria não saía a passeio, e nem recebia visitas.
Parecia tranquila e não chorava.
Se não estivesse tão pálida, e não tivesse um olhar tão lúgubre, ninguém teria observado nada.
Quando percebeu que sua mãe e Larissa a fitavam com tristeza, tranquilizou-as.
— Nada temais, não tenho intenção de atentar contra a minha vida.
Pawel não merece isso.
Dai-me tempo de voltar a mim mesma, para depois tomar uma deliberação.
Larissa voltou para Pawlosk.
Lolo ao seu lar, e a mãe de Valéria entregou-se a tratamento de saúde, tão abalada estava com os sucessos dos últimos dias, Valéria bendisse o silêncio que a envolvia agora.
Quando Lolo, dai a dias veio visitá-la, encontrou-a ocupada na arrumação de suas coisas.
— O que significa isto?
O que estás arrumando?
— Estou escolhendo tudo quanto pretendo levar.
— Para onde queres ir?
Por que queres sair de Petersburgo?
Tens às vezes cada ideia!...
— Por quê?
Acreditaste realmente que eu ficaria aqui, onde o povo me aponta o dedo, onde fitam-me com compaixão e me recebem com um gelado desdém?
Devo agradecer, por acaso?
Por enquanto vou para Moscou, para a quinta da mamãe.
O que será de mim mais tarde, o futuro nos dirá.
— Mas Valéria não faças isto!
Fica em tua bela residência e despreza as intrigas e as mesquinharias dos invejosos.
Teu esposo voltará e viverão juntos muito felizes.
Vem, antes e por algum tempo, comigo a Zarkoje Selo.
Lolo referiu a Valéria o desejo de Rothschild quanto à fundação da casa para os pequeninos abandonados, e da sua esperança de que ela, Valéria, se encarregasse da sua fundação.
— Muito obrigada, Lolo!
Mas não tenho vontade de participar das fundações beneficentes do meu esposo.
Para essa actividade honrosa, encontrar-se-ia alguém a quem se pagaria.
— Por que te recusas, Valéria?
É uma bela lembrança de Pawel, em cuja execução também te distrairias um pouco.
Repeles assim as belas intenções de teu esposo, que, contudo, te ama.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:39 pm

Ele estava tão triste ao partir!
Até chorava... - Disse Lolo.
— Ele chorou?
Vê como é tocante! - Retrucou Valéria ironicamente.
Essas lágrimas estão enxutas, ele se tranquilizará...
— Como és má, Valéria!
Pawel empregou todos os seus esforços para amenizar a separação, e espera que, aos poucos, venha a compreender o teu anseio pelo saber superior!
E tu recusas tudo com ironia.
Cinco anos não são, afinal, uma eternidade.
Ele te deixou os meios suficientes para uma vida tranquila, e não precisas te privar de nada.
Eu sei que ele pôs à tua disposição, cinquenta mil rublos por ano.
Podes, pois continuar a tua vida anterior, sem precisar fazer quaisquer limitações.
Será pouco isto?
Sê razoável, Valéria!
Contempla todo este assunto objectivamente, e não como o teu rancor ordena.
— Deus do Céu, o meu esposo, com estas demonstrações de amor, o que deseja é aniquilar-me.
Seu amor, sua magnanimidade... e sua consideração, são realmente grandiosos! - Disse Valéria com uma risada irónica.
— Sua consideração...
Duvidas porventura de que ele te considere?
— Sim, querida Lolo.
Quando eu falava com ele acerca da sua partida, isto é, quando ele falava a este respeito e eu me calava, lançou-me em rosto uma ofensa inqualificável...
Disse ele que eu amava nele somente o homem, e acrescentou que me daria inteira liberdade, assim que eu o desejasse e assim que, como ele se expressou, tivesse escolhido um belo mancebo, com o qual eu pretendesse consolar-me da separação.
Provavelmente deixou, realmente, dinheiro à minha disposição para que eu pudesse escolher o meu futuro ao meu gosto e independente das condições deste.
Espera ele assim ter em mãos, quando do seu regresso, pelo menos indubitável prova da minha infidelidade, para poder divorciar-se de mim.
Diz-me sinceramente Lolo, poderei depois de tudo isto por em dúvida que ele me menospreza?
Mas, não falemos mais nisto!
Se te aprazo Lolo, demonstrar-me a tua amizade, e se quiseres conservar também a minha, não pronuncies na minha presença, nunca mais, o nome de Pawel.
Este assunto está, para mim, encerrado. - Terminou com um suspiro.
Lolo estava perplexa.
— Vejo que ainda não estás em estado de poder conversar contigo seriamente, e que tu não queres te deixar convencer.
Pawel foi de facto, injusto, quando assim te ofendeu, mas na excitação se diz muita coisa que mais tarde lamenta-se.
Se queres, porém, o seu nome não mais será pronunciado entre nós.
As duas amigas se separaram friamente.
Lolo, todavia, conservava, como até então, a sua simpatia para com o primo.
Na mesma tarde, Valéria recebeu uma carta do advogado de seu esposo que lhe pedia o obséquio de recebê-lo no dia seguinte, pois que pretendia entregar-lhe a primeira terça parte da quantia que lhe fora destinada, e, ao mesmo tempo, conferenciar com ela sobre a administração da casa.
Valéria respondeu imediata e peremptoriamente, que não pretendia receber nenhum dinheiro, e que, para os outros assuntos, não dispunha de tempo.
De sorte que ele deveria dirigir-se directamente ao Barão.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:39 pm

Depois que Valéria se libertou, assim, de todos os benefícios, como ela os denominava, que por ordem de Rothschild, deveriam cair sobre si, sentiu-se aliviada.
Mas o seu sossego foi apenas externo.
Em seu interior lavrava uma tormenta que somente com grande custo dominava.
Só à noite, no silêncio da casa, dava ela livre curso ao seu desespero e às suas lágrimas.
A casa, em que cada objecto lhe recordava o esposo, tornou-se insuportável.
E impaciente aguardava o dia em que lhe fosse proporcionado abandonar aquelas salas.
Quando, entretanto, pensava no futuro sem um objectivo, interrogava a si mesma se uma dose de morfina não seria uma melhor perspectiva.
E apenas a lembrança de que, com esse passo ela somente faria um favor a Rothschild, detinha-a. Que ele nunca tivesse a ideia de que não poderia viver sem ele!
Todos os parentes condenaram a sua ideia de ir morar, definitivamente, na quinta longínqua, mas a sua recusa em receber o dinheiro, posto à sua disposição, revoltou sua mãe contra ela.
— A menos foi bom que ele deixasse dinheiro!
Esses poucos mil rublos não o arruinarão, a ele que tem um milhão de rendas! Mas, agora que recusaste a sua oferta, não sei, realmente, do que viverás. - Murmurou enraivecida.
Ela gastava, anualmente, vinte e cinco mil rublos, e estava sempre sem dinheiro.
— Tenho cinco mil rublos do meu dote, e estes devem chegar.
Prefiro morrer de fome, antes que aceitar dele um real que seja.
Bem considerado, já estamos separados para sempre!
Pensaste, realmente, que eu ainda aceitaria dele uma esmola?
A arte persuasiva de sua mãe e dos parentes, foi baldada.
E duas semanas depois da partida de Rothschild, também Valéria saía de S. Petersburgo.
No dia anterior ao de sua partida, ela mandara depositar a prataria familiar e as suas jóias, por intermédio do velho Sawely, na caixa forte do seu banco, lhe entregara a chave da casa e lhe dissera que quando precisasse de alguma coisa, se dirigisse ao advogado de seu esposo.
À noite foi à biblioteca do Barão e tomou uma nota extra de todos os livros que ele, nos últimos tempos, lera com tanto gosto, e dos quais haurirá os princípios do seu saber.
Sua mãe e Larissa, quiseram acompanhá-la até à quinta, mas ela agradeceu-lhe e pediu que não se incomodassem inutilmente.
— Deixai-me agir por mim mesma, como eu julgar acertado!
Apenas necessito agora de sossego e isolamento.
E quando eu estiver mais ou menos tranquilizada, não duvidarei que, em vós, terei um amparo e um refúgio...
X X X
Durante a viagem de S. Petersburgo a Londres, Rothschild esteve taciturno e inacessível.
As agitações daqueles últimos dias o tinham afectado muito mais do que julgara.
Todos os seus pensamentos incidiam sobre Valéria.
— Desejaria saber o que faz Valéria a estas horas!... - Disse a Tonilim.
Queira Deus não tenha ficado doente ou feito alguma tolice!
É tão sensível...
Falando com sinceridade, nunca pensei que as coisas tomassem um rumo tão trágico!
Tonilim alisou a barba meditativo.
— Não creio que ela atente contra a vida.
Julgo-a por demais vaidosa para fazer isto, dando-te assim, até certo modo, uma satisfação.
— Satisfação?
Mas acredita ela de facto que eu deseje a sua morte?
— Não tanto assim!
Falo de uma satisfação egoística.
Creio, entretanto, que ao regressares, ela te dará muita noz a quebrar.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:40 pm

Rothschild não retrucou, e não voltaram a falar do assunto.
O reencontro com Sir Gerald animava de tal modo o Barão que não lhe sobrara tempo para conjecturas.
Dois dias depois, os viajantes tomavam posse de seus camarotes a bordo do vapor que devia conduzi-los à Índia.
A viagem, favorecida pelo tempo excelente, ofereceu uma agradável mutação.
Como o vapor se detivesse por muitas horas em vários portos importantes, puderam os viajantes visitar as obras de arte e os lugares pitorescos de Alexandria, Cairo e Colombo.
Na Índia, Sir Gerald mostrou, em primeiro lugar, ao amigo, o templo de Elefanta e outros monumentos antigos.
Tais visitas soube ele tornar de tal maneira interessantes, a custa das descrições que fazia, que os discípulos esqueciam de tudo quanto os cercava, para tão somente ouvirem as suas palavras.
Um dia, finalmente, chegaram à morada de Sir Gerald.
A residência, construída em sumptuoso estilo, cheia de nobreza, estava construída entre elevadas montanhas, num pequeno vale, e dava quase a impressão de um castelo.
Dos três terraços que circundavam a casa, repetia-se sempre a perspectiva de montes e vales; por todos os lados os olhos encontravam, para sua delícia, uma rica flora.
Entre duas rochas, fluía a água cristalina de um regato, e belíssimas flores, no jardim, espalhavam no ar singular e activo aroma.
Em toda a vizinhança, não se via outra moradia.
Estava enfim o homem a sós com a natureza.
Devia ali, sem dúvida, dar o trabalho todo o seu maior rendimento.
No dia seguinte ao de sua chegada, Sir Gerald apresentou-se em trajes orientais, recomendando aos seus discípulos se trajassem de igual maneira.
Para o almoço, já ambos tinham envergado as coloridas roupagens que vieram a encher o mestre de satisfação.
Rothschild especialmente, ficou muito bem nas vestes brilhantes, com o alvo turbante sobre a cabeça.
— Podes dar graças a Deus, Barão, que as senhoras de S. Petersburgo não te vejam nestes trajes.
Tu serias posto em tiras.
Entretanto, sinceramente, eu te recomendo estas vestes!
Mas para o primeiro baile à fantasia, depois do teu regresso.
Ficam-te muito bem! - Comentou Sir Gerald sorrindo.
Alguns meses se passaram.
Rothschild, apesar de inteiramente restabelecido, não iniciara ainda nenhum trabalho.
Uma manhã, ousou dirigir-se, por isso, ao quarto de Sir Gerald.
— Não podes dar-me qualquer trabalho?
Tenho levado uma vida de zangão:
como, bebo e durmo.
Não faço mais nada!
Um leve sorriso brincou nos lábios de Sir Gerald.
— Sê paciente, meu filho!
É preciso que as ondas se aplaquem, antes que o barco possa navegar.
O mundo do qual vieste, é como um mar apelado.
O que foram os tempos que antecederam à tua partida, senão uma tempestade?
Não te irrites inutilmente.
E sabes que a opinião das senhoras a meu respeito, não me interessam.
As naturezas femininas são, em geral, mais sensíveis que as masculinas.
Vós, porém, meus discípulos, podeis ter sido mais calmos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:40 pm

Preferível seria que não levásseis tudo tão a sério.
Receberíeis na mesma moeda.
Rothschild e Tonilim entreolharam-se interrogadores.
— Mas sabes disso?
— Eu seria, realmente, um mau adepto, se não aprendesse estas pequeninas coisas.
Mas, já que tocamos no assunto, permite-me amigo Pawel dizer-te que, com referência a tua esposa, estás sem razão.
Por muito que o teu desejo de aprender te seja honroso, a tua ausência é, contudo, para tua mulher, uma provação pesada, e não devias ter-lhe azedado mais a separação, com as tuas injúrias.
— Ela, porém, injuriou-me em primeiro lugar, pôs o meu sangue a ferver! - Disse o Barão, buscando desculpar-se.
— Sim, e então permitiste que o animal despertasse em ti.
Enfim, não tens, realmente, muita culpa:
assim é o mundo do qual vens.
O animal no homem, sempre foi pior do que o tigre ou a serpente.
Etiqueta, educação e astúcia, mantêm preso o instinto e ocultam a verdadeira formação do homem.
Mas, experimente-se um dia provocar um homem ou despertar nele a desconfiança de que se quer roubar o pedaço de pão que vai levando à boca, e ver-se-á logo virem à tona todos os seus maus instintos.
Ele te perseguirá cheio de ódio, pois nada neste mundo odeia tanto como o animal do rebanho humano!
Por esse motivo deve aquele que deseja purificar-se, evitar o mundo e, na solidão e no silêncio da natureza, procurar reencontrar o seu equilíbrio psíquico.
Tu meu filho, estás aqui para amansar o animal que existe em teu seio, para tornar a tua vontade, e isto deverás fazer cuidadosamente, para que não desperte em ti, o animal adormecido.
A tua primeira e pior proposição serás libertares-te desse inimigo e iluminar o teu corpo com a tua luz interior.
Deverás, antes de mais nada, te tornares senhor da tua vontade.
Atenta bem!
Desde essa dia, começou Rothschild a dominar a sua impaciência e a dedicar-se, para matar o tempo, à contemplação das belezas naturais que o cercavam.
Quando se punha à margem do regato murmurante, a recordar-se do passado, vinha-lhe, muitas vezes, à mente, o pouco sentido e valor restritos dos estudos que até então fizera.
Estudos, por sinal que constantemente interrompidos, para receber e pagar visitas, comparecer ao teatro ou aos bailes da sociedade, ou para as longas confabulações com os advogados sobre questões de herança.
O quanto não desejara possuir a fortuna que agora lhe pertencia e que lhe parecia um fardo quase custoso para suportar.
As mais das vezes, entretanto, o seu pensamento fugia para Valéria. O que estaria ela fazendo?
Estaria doente?
Ele se exprobrava acremente pelo comportamento que tivera em relação à moça, antes da partida.
Não, não desejava divorciar-se dela, antes desejava envolvê-la por ocasião da volta, com todo o amor e ternura que pudesse manifestar, para que se esquecesse de suas lágrimas e de seu sacrifício.
Deixara com Lolo o endereço da casa bancária inglesa que se encarregaria de fazer chegar ao seu destino, a correspondência.
Mas até aquele dia, não havia recebido nenhuma notícia de casa.
X X X
Um dia Sir Gerald entregou-lhe um manuscrito contendo orações e cânticos que ele deveria decorar, tão bem, que os pudesse dizer sem gaguejar, na ordem.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:40 pm

Rothschild entregou-se com afinco a esse trabalho, e depois de duas semanas sabia repetir o conteúdo do manuscrito em qualquer ordem.
Sir Gerald louvou a sua aplicação e participou-lhe que, em recompensa, o submeteria, no dia seguinte, à primeira prova.
E pela manhã, bem cedo, conduziu-o a um quarto completamente escuro, onde acendeu um pequeno lampião.
Pawel notou, num nicho escuro, um espelho grande e redondo, cuja superfície tremia, uniformemente, movia-se e brilhava com todas as cores do arco-íris.
Diante dele, uma espécie de mesa de aço, coberta com uma escova de fios de arame muito delgados e curtos, curvados em forma de espiral.
Diante do espelho havia uma cadeira.
Ao lado do aposento em que se encontrava, constatou a existência de um outro menor, mobiliado com uma cama simples.
A um dos cantos, uma pia com água corrente.
— Aqui, meu filho, deverás passar sete dias e sete noites em oração e devoção.
Indicar-te-ei a sequência das orações e cânticos.
No oitavo dia voltarás para junto de nós e descansarás.
Depois começarás de novo, e continuarás com os teus exercícios até que o desejado resultado se apresente.
O alvo, pelo qual deverás te esforçar, é o seguinte:
Assenta-te nesta cadeira e observa o espelho, cuja superfície, apesar da escuridão, apresentará visíveis mutações.
De pouco em pouco, haverás de notar que de teu corpo partem irradiações, que, se fortificando, farão surgir, no vidro do espelho, o teu perispírito.
Então conhecerás um dos elementos psíquicos de que se compõe o teu espírito.
Mas não julgues que será fácil chegar a esta observação.
Esta prova encerra, em si, o primeiro exercício para a tua paciência e obstinação.
Não temas que maus espíritos te visitem.
Trabalha com tranquilidade e segurança.
Mas não te apliques em demasia!
Quando sentires fadiga e o teu corpo, aos poucos, se cobrir de suor, toma um banho e veste roupas limpas.
Sobre a mesa do canto, encontrarás pão, ovos e leite.
Alimenta-te como te apetecer.
Necessitarás, sem dúvida, das tuas forças.
A provisão de alimentos, será renovada cada manhã.
E agora, sê feliz!
Voltarei aqui uma vez ou outra, nos primeiros dias, para ver como passas, instruir-te e auxiliar-te, mas depois terás de trabalhar sozinho.
Com estas palavras, Sir Gerald se afastou.
Rothschild concentrando-se, pôs-se então a orar, fervorosamente, repetindo as palavras que decorara.
Quando a semana já ia chegando ao fim, descobriu ele, com grande satisfação que o espelho tomava uma coloração ligeiramente azulada.
Ao mesmo tempo, teve singular sensação, como se de seu corpo alguma coisa fluísse.
Imperceptivelmente começaram a estampar-se no espelho os contornos de uma cabeça e ombros, e desses contornos saíam fracos raios incolores.
Sir Gerald, visitando Pawel uma ou outra vez, aconselhava-o, e impunha-lhe as mãos sobre a cabeça, como que dando-lhe passes depois do que o discípulo sentia-se reconfortado.
Algumas semanas transcorridas, parece que o desejado resultado se manifestava.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:40 pm

A superfície do espelho, branca luz cintilava, frouxa ainda, mas desenhando a imagem singular.
Dentro de um oval surgiu, por fim, levemente coberta por nuvens de variadas cores, a figura de Rothschild.
Admirado, fitou o Barão essa imagem, admirando-se da riqueza de cores que se faziam visíveis.
Teve ímpetos de sair correndo à procura de Sir Gerald, e pedir-lhe explicações, mas já se sentia suficientemente disciplinado para dominar-se e poder esperar, pacientemente, a explicação.
Quando no oitavo dia, ao almoço, descreveu a Sir Gerald o que se passara, este sorriu, fitando o Barão com seus olhos faiscantes.
— Eu te felicito, meu filho, pelo resultado do teu trabalho obstinado e incansável.
Amanhã irei até lá, e tu farás aparecer a mesma imagem.
Dar-te-ei então as explicações que desejas.
Quando, no dia seguinte, Rothschild reproduziu a imagem, graças às suas concentradas preces, Sir Gerald estendeu a mão em direcção ao espelho, emitindo, pelos dedos novos raios luminosos que pareceram penetrar a imagem e reproduziram outras cores.
— Vim em auxílio da tua vontade ainda fraca, e com a minha vontade mais forte, dou vida à imagem reflectida.
Podes agora observar bem o teu eu.
O que vês agora, é o arquivo do teu desenvolvimento espiritual do passado ao presente, e que fornece também, indícios do que será o teu futuro.
As cores que te envolvem, são o fruto de centenares de esforços e aperfeiçoamento.
Mas antes que te explique o que significam tais cores preciso se faz que eu te explique a significação das cores vulgares.
Existem milhares de combinações diferentes, correspondentes à diversidade dos espíritos.
As cores negras do corpo perispiritual, indicam animosidade e ódio; as vermelhas-sanguíneas, conforme o seu tom, indicam ódio, amor e paixão; as pardas, significam avareza, egoísmo, ciúmes; as cinzentas, desânimo da vida.
Este último tom, o cinza, assim como o pardo, têm a propriedade de envolverem muitas vezes o corpo perispiritual como que em círculos e provocam a impressão de grades.
A cor amarela indica orgulho e jactância; amarelo-ouro, religiosidade; verde escuro e pardo, traição e hipocrisia; azul, misticismo, mas, em medida crescente, fanatismo de um lado, santidade de outro.
Com o auxílio destes informes, poderemos agora analisar tua alma.
Observa, sobretudo, o ponto vermelho sanguíneo em que, mais ou menos intensamente, se apresentam alguns pontos da imagem; vejo por ali, que és facilmente excitável e também colérico.
A parte inferior da imagem está coberta de pardas cores e verde cinzento o que faz supor uma considerável dose de egoísmo e um temperamento ciumento.
O pardo passa mais acima, ao rosa e carmesim e significa que ainda ocultas em ti uma grande parcela de ódio e paixão, mas que esta paixão começa a ceder lugar a um amor mais tranquilo.
Para a tua felicidade, a parte superior da imagem forma, em contraste com a inferior, um contrapeso aliás bastante propício.
Tua cabeça se acha circundada por uma coroa de raios largos, que indicam uma directriz religiosa e esforço por saber.
Os raios dourados indicam que desejas aprender e que te esforças por te purificares.
E que és religioso indica este raio azul.
Mas esta faixa amarelo dourada, com manchas vermelhas e rosadas, estraga toda a imagem.
És orgulhoso, caprichoso e guardas em ti um amor que apenas pergunta por si mesmo, que quer obrigar os que te cercam a se esquecerem de que têm também, uma vida que lhes pertence.
Isto é o que o teu perispírito conta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:41 pm

Sobre minudências todas especiais, falaremos mais tarde.
Voltemos agora ao ar puro e nos retemperemos...
Rothschild submeteu-se calado.
Ao se acharem no terraço, apresentava um ar tão envergonhado, que Sir Gerald pôs-se a rir.
— Volta a ser alegre, meu caro, e confessa o que te acabrunha!
— Nunca pensei que fosse tão mau! - Disse o Barão aborrecido.
— Isso não me admira nada!
Poderíamos notar a mais, uma grande dose de presunção.
Mas não precisas zangar!
O perigo é sempre muito menor quando se sabe onde está.
Agora, que sabes, falta-te apenas tempo para iniciar a tua auto-educação.
Os nossos pensamentos representam na nossa vida um importantíssimo papel.
Eles são os precursores do estado psíquico do homem.
Já sabes agora que toda emoção de tua alma tem uma forma determinada.
Essas forças, porém, que são plasmadas pelos nossos pensamentos, oferecem interessantes efeitos gerais.
Explicar-te-ei isso melhor no correr destes dias.
Rothschild agradeceu comovido e perguntou se devia continuar executando a mesma tarefa, ou se lhe seria dada outra.
— Começaremos uma outra série de exercícios. - Disse Sir Gerald.
Já estás habituado a ver o teu corpo astral.
Precisas aprender a dominá-lo.
Os fluídos que de ti partem, são todos submissos ao seu proprietário.
Pawel teve que aperfeiçoar o seu olfacto para absorver fragrâncias que, em geral, não são apercebidas e distinguíveis.
Esse trabalho foi, todavia, interrompido por alguns dias.
Rothschild recebera da pátria várias notícias que lhe perturbaram a tranquilidade.
Três cartas tinham chegado simultaneamente.
De Lolo, de seu advogado e do velho Sawely.
Soube assim que Valéria abandonara sua casa, desistira do dinheiro posto à sua disposição e passara a residir na quinta de propriedade de sua mãe; Lolo informava-o da singular mudança que se operava em Valéria, da sua tranquilidade aparente e da animosidade que parecia guardar adormecida em todo o seu ser.
Apenas não lhe dissera que, entre ela e Valéria, não podia mais ser pronunciado o nome de Rothschild.
Mas não lhe fazia exprobrações pelo facto de ter ofendido a esposa antes da partida, com palavras tão duras.
Valéria porém, não tinha o direito de exigir que se separassem assim, sem mais nem menos.
A natureza facilmente excitável e prepotente do Barão, encolerizou-se pelo facto de Valéria haver recusado os meios que lhe deixara e ter abandonado a sua casa.
Teve a impressão de que ela desejava o divórcio, e isso excitou-o mais.
Embora ele mesmo tivesse feito tal proposta - julgando de seu dever dar-lhe absoluta liberdade de acção - no íntimo não desejava, contudo, separar-se dela.
Ofendido em seu orgulho, enquanto lia essas cartas, cujo conteúdo espalhava-se em seu semblante, era, secretamente, observado por Sir Gerald, que simulou não ter percebido a agitação de Rothschild e propôs-lhe um novo trabalho.
O Barão prontificou-se desde logo, e esqueceu a sua raiva, enquanto se puseram a caminho do quarto do espelho.
Aí deveria fazer surgir a sua imagem perispiritual no espelho, o que somente conseguiu depois de um grande esforço.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:41 pm

É que naqueles momentos, se recordava, involuntariamente, das cartas há pouco recebidas.
O insucesso irritou-o ainda mais, e foi-lhe tão difícil concentrar o pensamento que, só depois de algumas horas conseguiu ver reflectir a imagem desejada.
Nuvens negras e esverdeadas pareciam envolver o seu corpo, raios relampejantes corriam sobre a sua imagem; as irradiações habitualmente percebidas, estavam encobertas por um negro nevoeiro.
Assustado foi que Rothschild fitou a transtornada imagem.
— O que significará isto, senhor? - Perguntou aflito.
— Aí, meu querido filho, vês agora, bem distintamente, a raiva que se elabora em ti.
Esses relâmpagos vivos, são os pensamentos que diriges a tua esposa.
Se pudéssemos fazer surgir aqui também a imagem dela, provavelmente não pareceria diferente...
Para Pawel foi extremamente desagradável contestar daquela maneira o esquecimento a que se havia relegado, e principalmente em virtude de causa que, já por aquele momento, considerava tão tola.
Deu a seus pensamentos uma violenta mudança, e ficou de olhos presos, obstinadamente, na figura reflectida.
— Os raios desapareceram, graças a Deus!
As cores escuras estão sendo devoradas pelas cores da vergonha e do arrependimento.
Ele alçou a mão e a imagem astral dissolveu-se imediatamente em névoa.
— Agora quero mostrar-te os meus pensamentos ordenados.
Poderás vê-los porque as tuas faculdades de vista, já alcançaram um outro desenvolvimento.
Quero tentar tranquilizar-te o necessário para que esta faculdade não desapareça.
Com estas palavras, Sir Gerald pousou a mão sobre a cabeça de Rothschild.
Imediatamente um calor agradável perpassou pelo corpo do Barão, que se sentiu calmo e tranquilo como por mágica.
Em seguida, Sir Gerald pôs-se a rezar.
Alguns minutos depois partia de sua testa um raio luminoso a princípio dourado e depois azulado, que parecia transformar-se numa flor.
De pouco a pouco a cor azul passou a um brilhante rosa.
Tornou-se mais pálida e finalmente desapareceu por completo.
Calado e cheio de admiração, Rothschild observara o facto.
— Como se conseguirá elevar o nosso pensamento a tal beleza e a tal harmonia? - disse ele encantado, enquanto Sir Gerald avançava na sua direcção.
— Orei por ti e o meu pensamento apareceu como o raio dourado, que significa purificação por meio do trabalho espiritual.
O raio azul denuncia que eu em minha prece somente me lembrei de ti, o cor de rosa mostrou o meu amor para contigo, aliado ao desejo de conduzir-te para o alto, pela escada do aperfeiçoamento.
Pawel prometeu controlar, cuidadosamente as suas agitações psíquicas e mostrar-se digno dos benefícios recebidos.
Começou desde então a observar as propriedades do seu carácter e a dominar a sua fácil irritabilidade.
Ao mesmo tempo prosseguia nos seus estudos no domínio do olfacto.
Sir Gerald deu-lhe diversos problemas a resolver.
Ele teve que adestrar as forças nele latentes primeiramente em flores murchas, depois em animais e finalmente em hindus pobres.
Rothschild estava encantado com os resultados do seu trabalho.
O seu tacto e olfacto já tinham alcançado um grande aperfeiçoamento.
Ele sabia distinguir as ervas medicinais das venenosas pelo simples perfume.
Mas teve que aprender a distinguir as diferentes exsudações do corpo humano, indicadoras do bem e do mal.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:41 pm

Para esse fim foi com Sir Gerald às aldeias próximas, visitar os seus habitantes.
Ligavam-se então a uma das muitas procissões que demandavam aos pagodes.
Rothschild perguntou ao seu mestre porque devia seguir esta ciência mui especialmente.
E este explicou:
— Porque não podes ser um adepto, um perpétuo servo da ciência, pois que tens de voltar para o mundo para aí viveres e conviveres com os teus semelhantes, levianos e pecadores.
E como somente podes ficar aqui e aprender por tempo relativamente curto, quero prover-te dos conhecimentos mais necessários e imprescindíveis.
Sobretudo deverão os teus olhos se abrir perante ti mesmo e os teus semelhantes.
Tua vontade deve fortalecer-se, e deverás aprender a dominá-la, para não cometeres falta grave.
Além disso deverás aprender a distinguir as boas das más qualidades dos homens, conhecer as suas paixões e, nos casos de necessidade, ir de encontro às suas más intenções, para te protegeres a ti e aos outros.
Finalmente, estou adestrando as tuas forças curadoras, para que seja mais fácil fazer o bem, não somente por intermédio do dinheiro, que dispões bastante, mas também por meio das forças que em ti habitam.
Neste ambiente de tranquilidade, de paz e de trabalho espiritual, o tempo corria veloz.
As semanas se tornavam meses, os meses anos.
As ocupações aumentavam de dia para dia, em interesse e variedade.
O Barão apenas encontrava Tonilim às refeições, por que as ocupações deste eram de outra espécie, e por que também ele ocupava uma outra parte do edifício.
Rothschild passou então por um ligeiro curso de magia prática, e ficou conhecendo a lei do invisível.
Graças às fórmulas dos exercícios da vontade, podia ele agora invocar os seres supraterrestres, ou expulsar os maus espíritos, que, nas sessões inconsideradas de pessoas ignorantes, são atraídos em grande número, sem que estas pessoas saibam o perigo que estão correndo.
A essa parte da ciência, se entregou Pawel com entusiasmo, tanto mais que podia invocar a quem quisesse.
Assim tentou ele atrair o espírito do Conde Rindolfo de Montinhoso, e ficou satisfeito quando, graças à sua vontade e ao seu saber, se apresentou à sua vista a imagem do seu antigo pai e que agradeceu ao filho o havê-lo chamado.
Cheio de dor lembrou-se Rothschild de que o tempo de sua permanência na Índia, se aproximava do seu termo e que ele teria que trocar o trabalho que tanto apreciava, pela vida mundana.
Da Europa, mui raramente recebia notícias.
Lolo lhe havia comunicado o nascimento de seu filhinho.
Sobre Valéria, ela escrevia apenas que continuava vivendo isolada e retraída.
Dela mesma, o Barão não havia recebido nenhuma carta.
Nunca lhe respondera as suas minuciosas cartas e nem lhe agradecia os presentes que ele lhe mandava pelos seus aniversários e onomásticos.
Esses presentes eram geralmente custosos trabalhos manuais indianos, jóias ou tecidos.
O contínuo silêncio indicava que a sua animosidade não cedera, pelo que Rothschild sofria e somente a contragosto pensava no seu regresso.
Valéria não requerera o divórcio.
Portanto, era inevitável uma explicação detalhada, cujo final ninguém podia prever.
Sir Gerald se entretinha muitas vezes a palestrar com seus discípulos sobre a Índia, a cultura antiga indiana e actual e sobretudo a origem dos pagodes.
O interesse principal de Pawel e Tonilim, porém, voltava-se para os templos antigos, encravados nas montanhas.
— Quem poderá saber quantos segredos encerra em si, esse antiquíssimo mundo de templos! - Observou Rothschild.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:41 pm

Que tesouros de antiguidades não estarão por aí, ainda sem serem descobertos, e até agora desconhecidos por todos, com excepção, talvez de alguns privilegiados, que a respeito, guardam segredo!
Como eu invejo esses poucos felizes, predestinados, a verem tais coisas!
— Quem sabe não pertences também tu a este pequeno número de escolhidos, meu filho! - Respondeu Sir Gerald.
Antes que o discípulo, que estimo muito, se despeça de mim, lhe permitirei talvez, ver um cantinho desse mundo misterioso, que ele tão ardentemente deseja conhecer.
Estas palavras do mestre despertaram nos corações dos discípulos uma alegria sem par.
De modo que Sir Gerald se viu obrigado a acrescentar que ele, em tal viagem, se é que a faria, levaria também Tonilim.
Algumas semanas depois dessa palestra, Sir Gerald anunciou a sua realização.
Os preparativos para a viagem, foram em breve ultimados, e já pela madrugada do dia seguinte, subiam eles nas suas montarias.
A pequena caravana, acompanhada de cargueiros e tropeiros, se pôs a caminho.
Viajavam sem maior pressa.
Pararam alguns dias em Benares e depois se dirigiram às montanhas.
Aí o caminho se tornava mais penoso.
Trilhas estreitas passavam junto aos despenhadeiros íngremes, em cujas profundidades, corriam pequenas correntezas.
As belezas naturais que eles puderam apreciar, eram de um encanto singular, e faziam os dois novatos, na viagem, esquecerem todos os perigos.
Mas Sir Gerald e a criadagem cavalgavam tão tranquilamente, como se o caminho seguisse por uma plana avenida.
A região tornava-se agora mais lisa, mas quase que a cada passo, mais os trilhos estreitavam-se e em breve pareciam desaparecer de todo.
Apenas os naturais do lugar eram capazes de segui-las.
Os viajantes chegaram aos poucos a uma densa mata virgem habitada por serpentes.
Às vezes viam-se os olhos fascinantes de um desses répteis brilhar na obscuridade verdolenga.
Sir Gerald repetia a miúdo:
— Guarda a tua arma, meu filho.
Nem este nem outro qualquer animal nos fará mal.
Vê, a serpente já desapareceu no mato!
Depois de terem viajado dois dias através da floresta, chegaram às ruínas de um antigo templo, que quase não eram reconhecíveis, sob as árvores e arbustos.
As gigantescas raízes haviam erguido muros inteiros, derrubando-os e afastando grandes blocos de pedra.
As figuras das divindades, estavam quase cobertas pela folhagem, e somente a parte posterior do templo, que continha as suas grandes salas e um pátio central, não estava tão arruinada.
Num canto da primeira sala, foram distendidos tapetes e almofadas, e acendidos alguns archotes.
Ali descansaram. Morcegos esvoaçavam espantados e aves nocturnas fugiam aos gritos agudos, para a mataria.
— É longa ainda a nossa jornada? - Perguntou Rothschild.
— Já estamos no fim!
Supões acaso que para ver estas ruínas a longa viagem tenha sido inútil? Não!
Debaixo destas ruínas se oculta uma pequena parte do mundo que tanto desejas ver.
Achamo-nos aqui sobre uma cidade que há quinze ou mais milénios desapareceu da superfície da terra, em virtude de um interessante sucesso geológico.
É que a superfície da terra afundou-se no lugar em que a cidade estava outrora, e isto tão rapidamente, que quase não se notava nenhum abalo subterrâneo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:41 pm

Grande parte da cidade ficou conservada.
Os montes e rochas vizinhos ruíram, mas caíram singularmente por cima e ao lado um do outro, de modo a formar uma espécie de abóbada sobre a cidade.
Com o decorrer do tempo, esta foi sendo coberta, em virtude das influências geológicas, por uma grossa camada de terra, que permitiu o crescimento da floresta pela qual passamos.
Os naturais do país construíram aqui neste lugar um templo, que é dedicado à memória das pessoas até então sacrificadas.
— Podeis então mostrar-nos as ruínas dessa antiga cidade, mestre?
Mas pode-se penetrar lá? - Perguntou Rothschild.
— Isto seria altamente interessante! - Acrescentou Tonilim.
Avalio o entusiasmo dos nossos arqueólogos, se tivessem um pressentimento da existência desta cidade subterrânea!
A história da Índia desconhece este sucesso, não conhece nem mesmo o nome, ou o lugar desta cidade soterrada.
— Apenas em nossos arquivos secretos estão conservadas as informações que falam desses sucessos.
Mas nunca os olhares de um profano caíram sobre algum desses antigos escritos! - Explicou Sir Gerald.
Pawel e Tonilim só a custo puderam ocultar a impaciência que os mordia de verem o que lhes fora descrito.
Depois da refeição, Sir Gerald ergueu-se, deu algumas instruções aos criados.
Fez sinal aos seus discípulos para que o acompanhassem.
Todos ligaram as suas lâmpadas eléctricas e entraram na sala maior do templo.
Sir Gerald circundou a estátua de granito da divindade, e comprimiu um botão na parede posterior.
Silenciosamente girou a enorme figura de pedra, pondo a descoberto uma estreita passagem.
Entraram e fechou de novo a pedra.
Desceram uma escadaria estreita, íngreme, e penetraram numa cúpula baixa, em cujas paredes se achavam colunas negras com inscrições enigmáticas em vermelho.
Numa dessas colunas, Sir Gerald tocou diversas das inscrições e uma segunda porta apresentou-se, dando acesso a um estreito corredor iluminado por antiga lanterna.
A parede deste corredor encostava-se uma figura humana.
Antes parecia um esqueleto, do que um ser vivo.
Ao redor dos quadris trazia apenas uma tanga de linho, que punha o resto do corpo a descoberto.
— Mas nesta tumba existem criaturas viventes? - Cochichou Rothschild.
— Sim, sim...
Alguns eremitas que, no isolamento, continuam seus estudos.
Têm uma religião toda especial... - Explicou Sir Gerald.
Depois dirigiu algumas palavras em estranho idioma ao desconhecido que lhe respondeu com uma profunda inclinação.
No extremo do corredor, achava-se uma outra escadaria, porém, mais larga que a primeira, e que conduzia a uma profundidade aparentemente sem fim.
Longos corredores interrompiam essa descida, entrecortados de quando em quando, de bifurcações, frouxamente iluminados.
Nesses cruzamentos encontravam tripeças, nas quais ardia certa massa verde, resinosa, que difundia um agradável aroma.
Todavia, cada vez mais, o ar fazia-se pesado e irrespirável.
De súbito, o caminho voltou-se fortemente para a esquerda, indo terminar diante de um elevado normal, onde estacaram os três.
Um panorama inesperado apresentou-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:42 pm

À frente, havia uma grande praça livre cercada de uns poucos edifícios levantados num curioso estilo.
Sobre a praça, erguia-se uma cúpula de grande altitude.
Uma misteriosa luz verde, que não podiam dizer de onde partia, iluminava o cenário.
Só muito mais tarde vieram a notar as aberturas que mãos humanas haviam escavado no alto da cúpula, e por onde se escoava a claridade.
— Avançai, amigos! - Disse Sir Gerald despertando os dois curiosos e estupefactos ocidentais.
Notai este edifício ainda mais interessante, e ao qual iremos agora.
É mister que os apresente, todavia ao meu amigo que, na companhia de dois discípulos habita este palácio em ruínas.
Balarama é um evoluído asceta.
A sua idade, dizem, é inacreditável.
Como, porém, Balarama nunca fala de si, nada posso dizer-vos ao certo.
Imaginai-a, vendo-o.
Descansaremos em sua casa, uma vez que temos uma longa viagem pelas costas.
Esquecidos de todo cansaço, Rothschild e Tonilim observavam, cheios de veneração a antiga cidade.
Avançando mais e mais, entretanto, Pawel fazia-se inquieto.
Os singulares edifícios pareciam-lhe estranhamente conhecidos.
Em seu cérebro desfilava um cortejo de pessoas que supunha não conhecer e que, contudo, lhe pareciam familiares.
Sentia-se opresso quando a voz de Sir Gerald veio arrancá-lo daquele desassossego.
— Tem cuidado!
Por um triz não caís no tanque!
Rothschild estremeceu, percebendo, com susto, que estava à beira de um barranco íngreme, junto ao leito de um rio quase seco.
Lá em baixo, por um instante, agitou-se a superfície da água escura e estagnada.
Num marco de pedra, viu amarrado um antiquíssimo bote, no qual embarcaram a fim de passarem à outra margem.
Penetraram então por uma longa rua, em cuja extremidade erguia-se um edifício de regulares proporções.
Parecia feito de vidro vermelho e destacava-se do fundo escuro como um brilhante rubi.
O frontispício era ornado de elevadas colunas representando enormes cobras, erectas sobre a cauda.
À entrada se achavam algumas tripeças, nas quais ardia a mesma massa verde, resinosa, como nos cruzamentos dos caminhos.
Espalhavam o mesmo aroma agradável.
O coração de Pawel começou a pulsar fortemente, enquanto subiam a escadaria.
Muitas coisas lhe pareciam conhecidas.
Contudo não podia, de maneira alguma, já ter visto o edifício.
Os três visitantes transpuseram alguns quartos quase às escuras e chegaram a uma sala redonda, singularmente guarnecida.
A cobertura era suportada por quatro colunas maciças, cor de safira.
Ao centro da sala encontrava-se uma grande piscina, na qual boiavam plantas aquáticas com flores semelhantes à rosa marinha.
No lado oposto à entrada, via-se um reposteiro de fios metálicos.
Algumas cadeiras e mesas do mesmo metal, estavam esparsas pela sala.
Todo o aposento banhava-se numa azulada claridade.
Quando, de súbito, o reposteiro correu para um lado, dois homens apareceram, curvando-se profundamente diante de Sir Gerald.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 7:42 pm

Trocaram algumas palavras numa língua estranha, que anteriormente, Tonilim e Rothschild já haviam ouvido.
Os dois homens eram ainda jovens, porém exibiam uma macilenta aparência.
Turbantes azuis cobriam-lhes as cabeças.
Afora este ornato, não exibiam nenhuma outra veste sobre o corpo.
Alçando a mão, Sir Gerald respondeu-lhes aos cumprimentos.
Os desconhecidos tornaram a erguer o reposteiro e Sir Gerald acompanhado pelos dois discípulos, passaram ao outro cómodo.
Este compartimento ainda era mais amplo que o anterior; dava a impressão de ser o laboratório e a sala de estudos de um sábio.
Sobre estantes encostadas às paredes, composta de rolos de papiros, alinhava-se toda uma biblioteca.
Mais além, placas de terracota, cascas de madeiras, chapas de metal, velhas folhas de pergaminho empoeiradas.
Algumas antigas encadernações também encontravam-se ali.
Sobre mesas de pedra, viram os recém-chegados antiquíssimos e singulares instrumentos.
Nos armários viam-se guardados, vasos de vidro de variadíssimos aspectos, pequenas caixas e sacos.
De uma parede pendia um escudo metálico, redondo, coberto de toda a sorte de signos cabalísticos em esmalte negro e vermelho.
Ao centro do compartimento, junto a uma mesa, iluminado por uma esfera da qual dimanava brilhante claridade azul-claro, vestido de branco, estava assentado um homem.
A julgar-se pela longa barba branca e pela cabeça calva, era de adiantada idade.
O seu rosto, porém não exibia uma ruga sequer.
Seus traços, uniformes e firmes, denunciavam tranquilidade e segurança.
Seus olhos de cor indeterminável, brilhavam com uma juvenil labareda, e denotavam energia e uma vontade poderosa, que dominava tudo e não admitia réplica.
O olhar do velho era difícil de suportar.
Ao se introduzirem os três, estendeu a mão que Sir Gerald apertou, saudando-o em inglês corrente.
Quando se voltou para os companheiros de Sir Gerald, estes se curvaram profundamente.
— Trouxe comigo dois discípulos meus, Balarama, e peço-te os recebas benignamente.
São diligentes e modestos! - Disse Sir Gerald.
— Serão meus hóspedes pelo tempo que desejares! - Respondeu Balarama dirigindo-lhes um rápido olhar.
Encontrando Rothschild, porém, os seus olhos dilataram-se subitamente.
E avançando na direcção do jovem russo, bradou comovido:
— Adschimitra! Adschimitra! - E inclinou-se profundamente diante do Barão.
Pálido e acanhado, este o fitou, sem compreender.
Não conhecia o nome pelo qual o chamava e não entendia o seu repentino proceder.
— Tu o reconheces, Balarama?
Eu não ousaria nunca trazê-lo aqui, se ele já de muito não tivesse sido submetido a duras provações!
Balarama sorriu, estudando com meticuloso cuidado os traços de Pawel.
— Sim, reconheci-o!
E vejo que fez grandes progressos.
Todavia, falaremos mais tarde a esse respeito.
Agora, meus amigos, deveis descansar da longa viagem e fortalecer-vos.
Farei com que indiquem vossos quartos.
Jantaremos logo em seguida.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:14 pm

Imediatamente, acercando-se, de um dos discípulos conduziu os hóspedes a um compartimento onde, em três nichos, encontraram confortáveis leitos.
Ao fundo da sala, havia um grande tanque com água corrente.
— É uma fonte quente, que vos fortalecerá o organismo. - Explicou Sir Gerald.
Tomemos primeiramente um banho e repousemos um pouco.
Depois voltaremos para junto de Balarama, conforme seu desejo.
Ouvindo apenas, Rothschild não despregava os lábios.
Seus pensamentos absorviam-se imediatamente no enigmático episódio de que, minutos antes, fora protagonista.
Balarama o denominara Adschimitra, e declarara conhecê-lo.
Portanto, na figura do citado Adschimitra, vivera ele antes.
Por isso lhe pareceram, certos detalhes tão familiares na velha cidade.
— Senhor, quem fui eu outrora, afinal?
Como pode o sábio reconhecer-me? - Indagou aflito, tomando a mão de Sir Gerald.
— Sê paciente, meu filho.
A curiosidade é indício de imperfeição.
Preciso vestir-me agora.
Enquanto isso, tomarás um banho.
Tranquiliza-te!
Eu te trouxe até aqui apenas para que se descubra, à tua vista, esse longínquo passado.
Mas essa revelação, cabe a Balarama fazê-la.
Só ele tem esse direito.
O Barão calou-se.
Ele já conhecia o valor da paciência e da obediência.
O seu cérebro, porém, trabalhava incessantemente.
Procurava, no caos dos seus pensamentos, estabelecer uma ordem.
O jantar foi servido na sala de trabalho de Balarama.
Rothschild assentava-se ao lado do sábio, que não cessava de contemplar o hóspede.
Por isso, entretanto, este sentia-se inseguro e aflito, e permanecia calado.
Preocupava-o apenas a ideia do que iria ouvir a seu respeito.
Como tudo ali, a louça de que se serviam, era de um estranho metal.
Os copos, para o vinho, tinham sido esculpidos em ouro maciço e eram adornados com custosas pedras preciosas, constituindo valiosas peças de arte.
Os próprio alimentos eram assaz diferentes dos que, até então, o Barão se servira.
Em pequenos vasos de prata, foi servido um líquido escuro, que se assemelhava a um caldo de carne.
Sir Gerald, entretanto, que parecia adivinhar-lhe os pensamentos, explicou-lhe que se tratava do cozimento de certo vegetal de grossas folhas.
Frutas frescas e um pão escuro constituíram o mais da refeição.
Aos pés da mesa, entre o anfitrião e Rothschild, estendia-se um gigantesco tigre que recebia das mãos de seu senhor, pequenos pedaços de pão.
Pawel vira o animal antes, junto à mesa de Balarama, e agora estranhava que não desse nenhuma atenção aos recém-chegados.
A proximidade do animal selvagem, não actuava favoravelmente sobre Rothschild que sentia um gélido arrepio perpassar-lhe a espinha, cada vez que os esverdeados olhos da fera detinham-se sobre ele.
Entretanto, como permanecesse tranquila, o Barão foi se acostumando à sua vizinhança.
Ao fim da refeição, solicitou permissão para acariciar-lhe a cabeça, no que Balarama, sorridente consentiu.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:14 pm

Com as carícias, o tigre aconchegou-se às pernas de Pawel, lambeu-lhe as mãos e emitiu um urro de satisfação que ecoou como um trovão, entre as paredes de pedra.
Terminado o repasto, os dois indianos, discípulos de Balarama, tiraram a mesa.
O velho tinha mergulhado num prolongado silêncio.
Ergueu-se finalmente, e dirigiu um olhar a Rothschild.
— Quão maravilhosa é a omnipotência do Eminente Criador dos Mundos!
E quem não poderia diante da sua sabedoria, prosternar-se no pó - começou Balarama a falar, cheio de dignidade.
As almas que criou, Ele as provê de vida eterna.
Ninguém, nada perece, tudo anseia por Ele.
Em novo invólucro a tua alma, oh!
Adschimitra, voltou a esta cidade tão duramente castigada.
Dezoito mil anos faz que esta infeliz cidade encontrou, no seio da terra, a sua sepultura.
Foi rica, povoada, deu guarida a poderosos senhores.
Nela se guerreavam castas orgulhosas pelo poder do mando.
Todos os sentimentos humanos, os mais elevados e os mais miseráveis, palpitaram entre seus muros...
E de toda a opulência, de toda a riqueza, apenas restam estas casas vazias!
Para esta sepultura, te conduziu a vontade do Omnipotente, Adschimitra, para que aqui conheças a raiz e a origem do teu terrível Carma, cujos tentáculos prendem até hoje o teu destino...
Balarama calou-se de novo, e mergulhou em pensamentos.
Nenhum dos presentes ousou quebrar o seu silêncio.
— Preciso meditar muito, reunir as minhas lembranças.
Amanhã, depois de estares bem descansado, contar-te-ei a história da cidade morta e de seu dominador Adschimitra. - Disse o velho.
Ergueu-se e despediu-se dos hóspedes.
Inclinando-se mais uma vez diante de Rothschild, retirou-se da sala.
Sir Gerald recolheu-se com os discípulos para o quarto onde as camas os esperavam.
— Conheces a história do meu passado? - Perguntou o Barão a Sir Gerald.
É, afinal, possível que eu tenha vivido numa época tão remota que fico tonto só de calcular?
— Sim! Entretanto, para a alma, esses muitos milénios não imputam.
Somos espíritos velhos, Adschimitra, e o caminho que temos para frente não é menor do que o que já vencemos!...
Rothschild não conseguiu, por muito tempo, conciliar o sono.
Seus nervos quase não resistiam ao vórtice de lembranças e imagens que se lhe apresentavam à mente.
Quando, afinal, o cansaço lhe fechou as pálpebras, foi maltratado por pesados sonhos.
Despertou já tarde, e viu que Sir Gerald e Tonilim vestiam-se, palestrando à viva voz.
— Apressa-te, signore Paulo!
Toma o teu banho, pois pareces mais fatigado do que quando te deitaste.
Tens mau aspecto! - Disse Sir Gerald amigavelmente.
— Dormi mal, tive sonhos feios!
Fui perseguido por mulheres e serpentes.
Sonhei ainda com uma porção de coisas confusas e absolutamente inverosímeis! - Retrucou Rothschild.
— Posso dar-te a explicação dos teus sonhos.
Todo ser, assim como todas as coisas do mundo, têm a sua história, o seu cliché perispiritual, uma faixa que atravessa o ser vivente e na qual fica impressa a sua experiência, a história da sua existência.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:14 pm

Quando, pois, entramos em contacto com a onda que está em relação com os acontecimentos do passado, a parte correspondente do nosso cliché reage mais ou menos como um disco de gramofone põe em vibração a membrana do fone, produzindo os sons de uma voz.
Despertam-se assim as recordações que se gravam na nossa fita perispiritual.
Devo acrescentar ainda que esse cliché possui reacções tão subtis e está tão intimamente ligado ao Eu físico, que o contacto entre a correspondente onda vibratória e a fita impressionada, trabalha como uma bateria eléctrica, recebendo em si, vida, cor e cheiro.
A impressão poderosa do cérebro espiritual, no cérebro físico deixa as suas impressões sem que, note bem, o indivíduo tenha recebido em si, conscientemente, essas impressões.
É o que produz os dolorosos sentimentos, sobre os quais sofres agora:
Encontras-te aqui, no local em que se desenrolaram trágicos acontecimentos, onde tudo ainda está impregnado do aroma do passado.
É natural, pois, que os teus clichés perispirituais se despertem em ti com força especial.
Foram encontrar Balarama numa pequena sala que não haviam visto ainda e que era menor do que o gabinete de trabalho do sábio.
O ar saturava-se de agradável perfume.
A mesma luz esverdeada iluminava a sala.
Numa das paredes, apareciam nuvens grossas e pardas, iluminadas por faíscas.
Assemelhava-se a um grande pano de linho agitado pelo vento.
Diante desse estranho painel, alinhavam-se cadeiras de fibras, que Balarama ofereceu aos visitantes.
Ele próprio assentou-se entre Sir Gerald e Rothschild.
— Quero oferecer aos teus olhos, Rei Adschimitra, a história da tua vida num longínquo passado, hoje apagado da tua nova reencarnação.
Como é mais interessante ver o transcurso da história, ao invés de ouvir-lhe a narrativa, e para, também, honrar o espírito do governador desta cidade morta, à qual deu ele fama e riqueza, invocarei as imagens do passado e elas hão de, oh! rei, surgirem vivas à tua frente.
Muitos séculos antes do tempo em que os pais de Adschimitra se tornaram governadores desta cidade, florescente e rica, caiu ela sob o poder de um poderoso médium, o feiticeiro Kalija, que dispunha de incalculáveis faculdades.
Fora rei no país limítrofe e conquistara esta cidade em guerra com o seu rei.
Kalija amava a irmã do rei vencido.
Ao entrar no palácio, expulsou a corte e seu chefe.
E passou então a governar sob um regime de terrível crueldade.
Ninguém estava seguro de sua vida.
Infeliz daquele que caísse no seu desagrado ou que lhe parecesse hostil.
Especialmente, porém, sofriam as jovens mulheres que lhe passavam sob os olhos.
Tomavam-se vítimas da sua crueldade.
Ninguém ousava contrariar Kalija.
Era o senhor dos elementos, que destruía tudo quanto quisesse.
Quando o seu ódio se voltava para a residência de um nobre, contra um templo ou rebanho, contra uma colheita ou contra um homem, remetia a sua falange de espíritos demoníacos, e os elementos destruíam o palácio e o templo, o granizo a colheita, a peste surpreendia o rebanho, a pessoa morria de horríveis moléstias.
Os habitantes da cidade oravam e choravam, suplicando aos deuses que os libertassem.
Mas nem as orações nem os sacrifícios valeram.
Kalija escarnecia de todos e redobrava a sua crueldade.
Finalmente, também a paciência dos deuses se esgotou.
E um dia, do alto da montanha, desceu um eremita.
Era um ancião de cabelos e barbas prateados pelo tempo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:14 pm

Suas vestes eram brancas como a neve, e os seus pés pareciam mover-se sobre a terra quase sem tocá-la.
De todo o seu ser parecia irradiar luminosidade e paz.
Enquanto Balarama falava, com sua melodiosa voz, o Barão e Tonilim tinham caído em singular estado.
Braços e pernas pesavam-lhes como chumbo e eles não conseguiam movê-los.
Em compensação as suas faculdades auditiva e visual, haviam alcançado uma força inesperada.
Como que encantados, olhavam para a parede nublada, cujas cores negras haviam-se substituído por claras tonalidades de azul.
Sobre esse fundo, viam eles se desenrolando as cenas descritas por Balarama.
— Assim que esse ermitão chegou ao vale, - continuou Balarama - dirigiu-se a um templo escavado na rocha, nas imediações da cidade.
Aí ordenou ele aos sacerdotes acendessem muitas fogueiras e orassem, ininterruptamente, por três dias.
Depois entrou na cidade, reuniu o povo e ordenou que fizessem fogo em todos os templos e orassem.
Então dirigiu-se ao palácio de Kalija, que pressentiu a sua aproximação e se preparou para a defesa.
Centenas de demónios que lhe eram dedicados, reuniram-se-lhe ao redor, e o seu palácio assemelhou-se a uma fogueira acesa, enorme, da qual partiam raios e repôs a primeira faixa flamígera, afastando os demónios de si.
Embalde procuraram estes e Kalija aniquilar o santo.
Ele era invulnerável enquanto que Kalija perdia, perceptivelmente, as suas forças.
Finalmente caiu de joelhos à sua frente.
Então o santo perfurou-o com sua espada em chamas e uma torrente de sangue negro, mal cheiroso, correu do peito do monstro.
Os demónios se transformaram de repente em serpentes e fugiram em todas as direcções.
Kalija, porém, tomou a forma de um terrível dragão.
Sua pele era amarelo-esverdeada, com manchas negras.
De suas faces corria uma espuma sanguinolenta, e seus olhos faiscavam com um ódio infernal.
O dragão ergueu-se sobre a sua cauda, mas o ermitão o agarrou pelo pescoço e o arrastou corajosamente pelo meio do povo, para o templo.
Esse templo possuía, sobre os degraus superiores, entre as colunas, um nicho profundo e amplo que estava destinado a uma estátua.
Nesse nicho o santo lançou o dragão, e ordenou que fechassem a abertura com grades de ferro e o alimentassem com assassinos e criminosos que deveriam ser sacrificados pelo carrasco.
— Que o monstro permaneça aqui.
Enquanto for alimentado com criminosos, lhe estará cassada a possibilidade de fazer qualquer mal! - Proferiu o ermitão.
Ergueu-se no ar e desapareceu.
Desde esse dia a prisão do dragão era evitada por todos.
Durante a noite, se reuniam aí centenas de cobras que se erguiam sobre as caudas, silvavam e sibilavam para o seu senhor.
Este se voltava para fora e soltava urros incríveis, como se estivesse morrendo...
Pálido e com os olhos muito abertos, Rothschild observava as figuras que a narrativa de Balarama provocara.
Quando, porém, a poucos passos de si se ergueu o terrível dragão, perpassou-lhe um tremor fortíssimo.
— Durante muitos anos, o dragão desempenhou o papel de carrasco na cidade.
Esta, todavia, florescia e crescia, como sob o governo de seu rei anterior.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:14 pm

De novo, porém, veio uma época em que a cidade foi assaltada por infortúnios e enfermidades.
Alguns sacerdotes gananciosos espalharam a notícia de que adorando o dragão, se livrariam de enfermidades e infortúnios.
Esses sacerdotes encontraram logo seguidores, e como a seca havia apertado e fora substituída por uma chuva prolongada, começaram os habitantes a ver no dragão uma divindade.
Adoraram-no e ofereceram-lhe holocaustos.
O nicho em que ele se achava, foi ampliado e enfeitado.
Sacerdotes e sacerdotisas especiais foram postos ao seu serviço.
Dançarinas e tocadores de harpas tinham que distraí-lo.
Com o tempo o dragão se tomou a divindade do país.
O povo, porém, tolo, tremia diante de seu ódio; e por causa dele se esqueceram das outras divindades verdadeiras.
Ao tempo do rei Kaschparatra, que foi um homem bom, mas fraco, esse culto do dragão chegou ao auge.
O irmão mais jovem do rei, Adschimitra, era justamente o oposto de seu irmão.
De beleza extraordinária, enérgico, valente, conhecedor de todas as artes da guerra, não havia nenhum entre os jovens igual a ele.
Os corações das mulheres atiravam-se-lhe, mas ele apenas brincava com elas, e cruelmente as repudiava, quando se sentia farto.
Adschimitra era cruel, vingativo e prepotente.
Contudo o povo o amava e venerava.
Nesse momento, podia-se ver, sobre a parede nublada, uma rua cheia de gente.
De uma rua transversal, entrava para essa rua um cavaleiro.
Estava vestido de uma túnica purpurina, bordada a ouro e guarnecida de pedras preciosas.
Trazia um diadema de brilhante ao redor da testa, segurando-lhe os cabelos negros.
Seu ginete, que montava sem sela, era fogoso e somente com esforço se deixava guiar pelo seu pulso de ferro.
O povo o festejou e ele correspondia aos gritos de alegria com um sorriso amável e acenava com a mão.
Rothschild quase gritou quando viu a si mesmo naquele cavaleiro.
Ainda que a cor da tez fosse mais escura e um ou outro traço fisionómico fosse um pouco diferente, não pôde, contudo, duvidar que era ele o cavaleiro.
Os grandes olhos negros brilhavam com orgulho e coragem, mas igualmente com crueldade.
Sobre seus lábios pairava um sorriso ligeiro e desdenhoso.
— A esse tempo - continuou Balarama - começou uma guerra com um país vizinho.
Como, entretanto, Kaschparatra fosse um mau guerreiro, ordenou ao seu irmão marchasse contra os inimigos.
Depois que Adschimitra, no comando dos guerreiros, partira, resolveu o rei consultar um adivinho que morava nas montanhas, sobre o resultado dessa questão e solicitar-lhe a vitória de suas armas.
Em casa desse feiticeiro viu o rei, para sua desgraça, a filha única desse feiticeiro, Dewaki, que era bela como uma pintura, mas falsa como seu pai.
O rei enamorou-se de Dewaki que, como não era de admirar-se, parecia-lhe diferente das outras mulheres do país.
Seu cabelo parecia-se ao ouro fundido, e, seus olhos, azuis como safiras.
Sua tez, alva e brilhante como a madrepérola.
Dewaki estava prometida a um parente e discípulo de seu pai, o jovem Majawarna que era também um perigoso feiticeiro.
Dewaki não o amava, e agora só tinha em vista o trono real.
Resoluta aproximou-se de seu pai e convenceu-o a dá-la por esposa ao rei Kashparatra.
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