Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:15 pm

Majawarna calou-se e ocultou o seu ódio, que se erguera contra Dewaki.
Ele, que não estava ainda suficientemente forte para combater seu mestre, jurou vingar-se contra Dewaki.
Também o rei não seria esquecido na sua vingança.
Entrementes este elevara Dewaki a rainha e a conduzira ao seu palácio.
Kaschparatra tornou-se um elemento dócil nas mãos da esperta Dewaki.
Ele a amava e a deixava fazer o que quisesse.
Enquanto isso se passava na capital, Adschimitra havia vencido o inimigo, conquistara o país, e matara o rei estranho diante dos muros do seu palácio.
A residência do rei vencido e morto, foi também conquistada, e Adschimitra entrou como vencedor na cidade alheia.
Para restabelecer a ordem no país conquistado, Adschimitra se conservou afastado de sua pátria cerca de um ano.
E, naquele país tinha os poderes de um rei.
No palácio do rei encontrou a filha deste, Rochini, ainda quase uma criança.
Desde o primeiro momento ela agradou a Adschimitra e ele a fez, embora também de sangue real, sua amante.
Apesar desse ultraje, a infeliz Rochini se enamorara tão profundamente de Adschimitra que se submetia calada a todos os seus caprichos e suportava tranquilamente as humilhações que ele a fazia sofrer. Finalmente resolveu Adschimitra regressar a sua pátria e entregar ao rei seu irmão a presa da guerra.
Para prestar homenagem ao vencedor que aumentara os territórios e agora voltava vitorioso, foram ao seu encontro os representantes do povo, da nobreza e os sacerdotes e sacerdotisas.
À frente dos sacerdotes do templo do dragão, ia a mais bela dançarina, Bawani.
Esta, ao lado de Dewaki, era, indubitavelmente a mais bela do país.
Como a rainha, também ela tinha os olhos azuis de safira, porém cabelos negros que caíam até o solo.
Quando Bawani se prostrou de joelhos, para entregar a Adschimitra os presentes de sua cidade natal, este ficou ofuscado pela sua beleza e inflamou-se de paixão pela dançarina.
Quando o vencedor penetrou na cidade, foi recebido pelo rei, e os dois se encaminharam para o templo do dragão, para oferecer-lhe seus holocaustos.
Bawani cantou e dançou durante a cerimónia, e assim conquistou a admiração de Adschimitra.
Terminada a cerimónia, Adschimitra pediu licença ao seu irmão para dirigir-se ao pontífice, pois tinha a fazer-lhe importante revelação.
A este ele disse que amava Bawani e que, como única recompensa pela vitória a1cançada, solicitava lhe dessem a dançarina por esposa.
O pontífice reuniu todos os outros sacerdotes do templo do dragão, pois que não se julgava no direito de resolver a respeito, tanto mais que o dragão parecia dar preferência às danças e cantos de Bawani, a todas.
A princípio os sacerdotes não quiseram concordar, mas quando viram o rosto zangado de Adschimitra, e o rei descontente com as suas resoluções, consentiram.
O rei os presenteou nababescamente e ordenou que o casamento se realizasse dentro de uma semana.
No palácio real, Dewaki recebeu a Adschimitra, a quem ainda não conhecia.
Pela primeira vez durante todo o dia, ela não arredou o seu olhar dele, pois jamais vira, em toda a sua vida, um homem tão belo.
Uma louca paixão por Adschimitra, nascido à primeira vista, empolgou-a.
Quando Adschimitra voltou ao palácio, encontrou Rochini que trouxera sua filhinha de dois meses consigo.
O encontro foi-lhe desagradável, tanto mais que já não amava Rochini.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:15 pm

Ele já previa que entre sua futura esposa que era uma simples dançarina do templo e esta sua amante, de sangue real, nasceria ódio e discórdia.
Rapidamente resolveu-se.
Comunicou a Rochini que dentro de uma semana se casaria, pois já não a amava mais e que, para evitar coisas desagradáveis, mandá-la-ia no dia seguinte para a sua cidade natal.
Acrescentou ainda que ele cuidaria de sua filhinha.
Como que atingida por um raio, recebeu Rochini estas notícias, e tentou opor-se, mas Adschimitra ordenou a um servo dedicado levasse Rochini para fora e cuidasse para que, no dia seguinte, ela deixasse a cidade.
Quando, pela manhã seguinte entraram no seu quarto, encontraram-na, e à filhinha, mortas a punhal, sobre o solo.
Ela mesma suicidara-se.
Na parede havia escrito com seu próprio sangue:
Adschimitra, sê maldito!
Rothschild estremeceu involuntariamente ao ouvir estas palavras de Balarama, e olhou fixamente a imagem que tinha à frente dos olhos.
No quarto jaziam os dois cadáveres, em meio a um rio de sangue.
Na parede, a inscrição que não podia ler, mas cujo sentido compreendia.
Quando Adschimitra soube da morte de sua filhinha, ficou zangado por ver desobedecidas as suas ordens.
Não se preocupou, entretanto, com o facto.
Mandou remover os cadáveres e em breve tinha-se esquecido de tudo.
O seu casamento com Bawani foi festejado com grande pompa e magnificência.
E algumas semanas decorreram tranquilas e sem novidades.
Com o tempo, porém, as manobras de Dewaki atiçadas ainda pelos ciúmes, alcançaram o seu apogeu.
Eu iria longe demais se quisesse descrever por que meios Dewaki tentou chamar a atenção de Adschimitra sobre ela.
Isso em geral não era difícil, porque a felicidade conjugal não fazia parte das preferências do príncipe, e ele facilmente se inflamava por uma mulher bonita.
Quando Dewaki percebeu que Adschimitra apreciava o seu cabelo dourado, começou a fazer um plano para se libertar do marido, bem como da esposa de Adschimitra.
Subiu às montanhas e foi pedir um conselho a seu pai.
Também Majawarna, que ela julgava reconciliado, auxiliou-a.
Em breve regressava com tudo que precisava para o palácio.
Majawarna lhe dera diversos conselhos e dissera que ele, se fosse preciso, iria pessoalmente auxiliá-la.
Dewaki confiava nele.
Mas, Bawani não era cega.
Ela tinha observado que a rainha se agradara de seu esposo, e que também este não lhe parecia indiferente.
Ele já alguns meses depois do casamento se tomara frio e descortês para com a esposa.
Como Bawani, que o amava sobretudo fosse ciumenta e vingativa, forjou igualmente um plano para recuperar o esposo.
Mas não sabia que Adschimitra já confessara o seu amor a Dewaki e que fora bem recebido pela mulher dos cabelos dourados.
O aniversário do rei fora celebrado com a presença dos nobres dignatários.
Ninguém havia percebido que a rainha deitara nas tripeças, que estavam cheias de ervas aromáticas a serem queimadas, um pó esverdeado.
Quando deitaram fogo às ervas, espalhou-se um perfume agradável, porém forte, que se estendeu até os jardins do palácio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:15 pm

As festividades já iam bem adiantadas quando o rei pediu a Bawani que dançasse.
Já de há muito não podia admirar a sua maravilhosa arte.
A esta ordem do rei, Bawani se ergueu e pediu uma harpa.
Já notara que durante todo esse tempo, Adschimitra e Dewaki haviam trocado olhares chamejantes.
Alegrava-a a ideia de poder se apresentar em toda a sua beleza ao seu esposo, o perjuro.
Tirou o diadema da testa e deixou cair o compacto cabelo negro.
Com a harpa na mão, pôs-se em movimento de dança.
Todos a contemplavam como que encantados.
Mas um acontecimento horrível veio surpreender o rei e seus convivas.
De repente surgira na porta da entrada do salão, o terrível dragão que lentamente foi se aproximando.
Atrás dele vinham ainda centenas de outros dragões que encheram o salão com seu cheiro desagradável.
Dois passos além Bawani parou o monstro.
Ergueu-se e fitou a dançarina com seus olhos terríveis, enquanto lhe escorria uma baba asquerosa pela boca.
Bawani se tornara pálida de morte, mas em breve assenhorava-se de si mesma, e continuou a dançar, procurando aproximar-se aos poucos da outra saída da sala e assim atrair o dragão que parecia preso a ela.
Assim o conduziu dançando sempre até o templo e ao nicho do qual em breve fechava outra vez a grade.
Os outros dragões desapareceram nas montanhas.
No templo reinava uma agitação terrível.
Nem os sacerdotes, nem ninguém podiam compreender como o dragão havia fugido, e ninguém poderia dizer quem abrira a grade.
Bawani não pode resistir a essa emoção e caiu sem sentidos sobre os degraus do templo.
Levantaram-na e fizeram-na voltar a si.
O palácio real fora teatro de cenas terríveis.
Passado o susto produzido pelo aparecimento do dragão, notaram os presentes que o rei Kachparatra e o sacerdote pontífice do templo do dragão, Abbo Lissa, estavam transformados em estátuas de pedra.
Quando esta notícia chegou ao povo, toda a cidade se agitou.
Semelhante desgraça jamais se dera, e ninguém sabia como aquelas estátuas deveriam ser sepultadas.
Adschimitra foi proclamado rei.
Mandou vir imediatamente magos, adivinhos e sábios para que lhe explicassem o que poderia dar-se, e o que viria ainda a suceder.
Depois de muita conferência, disseram ao rei que a Divindade lhes informara que o rei Kachparatra e o pontífice do templo do dragão Abbo Lissa, haviam sidos castigados porque tiraram a sua melhor dançarina.
Que, se o perdão da divindade não pudesse ser suplicado, todo o país seria perseguido pelas desgraças e que os cadáveres deveriam ser sepultados fora da cidade, numa caverna, de modo que ninguém pudesse encontrar a entrada.
Isso se fez logo.
Mas, como obter o perdão do dragão?
E quais os holocaustos que lhe deveriam ser oferecidos?
Ninguém o sabia.
Bawani adoeceu em virtude da emoção.
Sua rival, Dewaki, quis aproveitar-se da enfermidade para arruiná-la de vez.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:15 pm

Ela comunicou a Adschimitra que pretendia voltar à casa paterna porque não estava disposta a ocupar um lugar secundário onde até agora tivera o principal.
O jovem rei lhe pediu e suplicou que ficasse, mas Dewaki não se deixou convencer e finalmente disse agastada:
— A fonte de todo o mal és tu somente!
Se não tivesses tomado ao dragão a sua melhor dançarina, ele não se teria irritado.
E como havemos de contemporizar só os deuses sabem!
Talvez ele exija que a traidora lhe seja oferecida em holocausto.
Mas também, como tu não podes, provavelmente, resolver isto, eu prefiro fugir aos perigos que aqui ainda nos ameaçarão.
Estas palavras ardilosas não negaram seu efeito sobre Adschimitra.
Ele meditou longo tempo e tomou então uma resolução.
A sua crueldade era igual à sua superstição e egoísmo.
E ele pensou que talvez Dewaki tivesse razão.
Semelhante holocausto reconciliava o dragão e punha fim ao seu ódio.
Além disso era Dewaki a filha de um poderoso feiticeiro, que poderia vingar-se terrivelmente.
Se ele desposasse Dewaki, por um lado, entraria na posse da mulher amada, por outro adquiria a amizade de seu pai, o feiticeiro, pois daria à sua filha, outra vez a posição elevada que ela como rainha havia tido até então.
O resultado dessa reflexão foi que ele teve de sacrificar Bawani no sentido verdadeiro do termo.
Adschimitra mandou vir a si o pontífice e lhe disse que sonhara que seu pai lhe aparecera e lhe ordenara, para evitar maiores desgraças, sacrificasse sua mulher ao dragão.
Para saber, porém, se esse sonho deveria ser executado, pedia aos sacerdotes interrogassem as divindades.
O sonho foi tido por real e certo, e Bawani foi condenada à morte, em holocausto.
Já no dia seguinte deveria executar-se a sentença.
E Adschimitra olhava tranquilamente o terraço inferior, quando conduziram Bawani.
No coração do jovem, belo e poderoso, não havia lugar para compaixão.
Apenas vaidade, orgulho e egoísmo viviam nele.
Não se pode exprimir por palavras o que Bawani sofreu quando a levaram ao templo.
Cortaram-lhe os longos cabelos a cutelo e jogaram-na atrás da grade onde vivia o dragão.
Geralmente os criminosos que eram atirados ao dragão, depois que este os matava com o seu corpo e lhes partia os ossos, eram cortados em pedaços pelos sacerdotes, e esses pedaços atirado à boca do monstro.
Quando Bawani caiu sobre os degraus do nicho, soltou um grito agudo e lançou uma terrível imprecação sobre a cabeça do rei e de Dewaki.
Jurou vingar-se deles, senão nesta vida, na vida do além.
Para espanto dos sacerdotes, o dragão nem se moveu do seu lugar.
Permaneceu tranquilamente deitado e fitou a sua vítima.
Bawani perdera os sentidos e ficara deitada sobre os degraus.
Ao cair da noite, apoderou-se dos sacerdotes e das sacerdotisas que estavam diante da grade, um afrouxamento singular, e, um após outros, caíram adormecidos.
Então saiu da sombra das colunas uma imagem.
Arrastou-se até à grade que abriu, por meio de invocações, com fórmulas mágicas.
Quando o dragão viu a imagem, ergueu-se em toda a sua grandeza e soltou um leve assobio e entre ele e o homem estabeleceu-se uma conversa vivaz.
O dragão compreendia, e falava também a linguagem do homem.
O misterioso visitante executou então diversos movimentos, puxando da cinta uma longa faca cuja lâmina estava cheia de sinais enigmáticos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:15 pm

Cortou com ela a pele do dragão, do pescoço até ao meio do corpo, e desse corte saiu o feiticeiro Kalija, que pelo ermitão fora transformado em dragão.
Seu corpo estava coberto de uma camada de sangue e sobre a cabeça ele, em vez de cabelos, tinha milhares de pequenas serpentes que se contorciam espasmodicamente.
— Eu te agradeço, Majawarna!
Agora, ajuda-me depressa! - Disse Kalija, e curvou-se sobre Bawani.
Rapidamente, ergueram-na desacordada e a deitaram junto do corte do dragão.
Depois pronunciaram algumas fórmulas mágicas e o corpo de Bawani começou a encolher-se, tornou-se menor e desapareceu, de repente no corpo do dragão, cuja ferida se fechou imediatamente e cicatrizou.
Durante um momento parecia que a cabeça do dragão se transformava na cabeça de Bawani, mas essas semelhanças desapareceram logo outra vez, e o monstro recolheu-se sibilante ao canto superior do nicho.
Os feiticeiros fecharam a grade e desapareceram na escuridão da noite.
Quando os sacerdotes, no dia seguinte, não encontraram vestígios de Bawani, anunciaram que a divindade dragoniana havia aceito o holocausto, e assim estava reconciliada.
O casamento de Adschimitra com Dewaki foi celebrado festivamente.
Mas o país foi, desde esse dia, vitimado, mais que anteriormente pelas secas, doenças e desastres.
A colheita foi estragada pelo granizo, as casas foram derrubadas por um formidável tufão, e uma horrível epidemia ceifou em poucas horas as vidas de centenas de pessoas.
A tudo isso reunia-se a predição de alguns feiticeiros que profetizavam ao país ainda horríveis coisas.
No dia da festa da divindade dragoniana, o rei, a rainha e os altos dignatários e uma incalculável quantidade de povo, dirigiu-se ao templo para orar e oferecer sacrifícios e suplicar à divindade misericórdia pela extinção da seca e da epidemia.
Os degraus que conduziam ao nicho, este mesmo, estavam juncados de flores e enfeitados de heras.
A grade estava aberta porque o monstro se mostrava tranquilo e parecia dormir.
Findas as orações e danças prescritas, o rei aproximou-se como o primeiro, da entrada do nicho, para levar as suas oferendas.
Durante essas cerimónias o céu cobrira de nuvens negras, e uma tempestade se desencadeou.
Raios iluminavam a escuridão do templo.
No momento, porém, em que o rei ia despejar leite e mel como oferenda, diante do dragão, um fortíssimo trovão sacudiu o templo e fez estremecer as paredes.
A terra parecia querer elevar-se, e uma completa escuridão envolveu tudo.
O povo perturbado, imobilizava-se sem fala, quando um terrível grito, partido de boca humana ecoou no templo.
Clareando outra vez, então, todos viram que o rei estava sob o domínio do dragão.
Prendia Adschimitra, que, com todas as suas forças, lutava contra as enroscaduras do corpo do monstro.
Ao ver isso, Dewaki caiu sem sentidos.
Os sacerdotes e o povo não sabiam o que fazer.
Ao dragão não podiam matar, pois era uma divindade.
Arrancar-lhe a sua presa, ninguém podia, pois o monstro cuspia, e a sua baba venenosa caindo em derredor, não deixava ninguém se aproximar.
Extraordinário era que o dragão não comprimia o rei e nem lhe quebrava os ossos, como sempre fazia às suas vítimas, mas apenas segurava-o e parecia gozar com os tormentos do infeliz.
Prometeram fabulosas recompensas pela libertação do rei das garras de dragão.
Mas ninguém ousou esse acto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:16 pm

O monstro não atendeu às orações e danças e nem tocou nos alimentos que lhe deram.
Parecia que apenas triunfava diante de sua presa.
Pálido de morte, com o olhar de louco, Adschimitra fitava o seu algoz.
A força da sua resistência parecia quebrada.
Com suas forças hercúleas poderia Adschimitra ter estrangulado o réptil, mas os seus braços estavam tão fortemente comprimidos, que ele não pode libertar-se desse enlaçamento.
Apesar da horrível situação em que o rei se achava, ele ainda vivia.
Os sacerdotes tentaram aproximar-se dele para o confortarem com um pouco de leite.
O dragão não se opôs.
Eu já disse que o povo amava e adorava Adschimitra, apesar dos seus defeitos.
Por toda a cidade e em todos os templos fizeram-se sacrifícios para libertar o infeliz rei.
Mas tudo foi inútil.
A superstição do povo encontrou novo alimento na exposição de um jovem sacerdote, que afirmava ter visto como a cabeça do dragão se transformara, durante a noite, na de Bawani, e que esta fitava sorrindo sarcasticamente o desacordado rei.
Esse sacerdote perdera os sentidos com a forte impressão que tivera.
Dewaki ficara doente e se fechara nos seus aposentos.
Na tarde do segundo dia, apresentou-se ao pontífice uma mulher velada que declarou poder libertar o rei, mas que seria preciso estar só.
Os sacerdotes e o povo deveriam afastar-se.
Se essas condições fossem aceites, ela voltaria à meia-noite.
Imediatamente deram à mulher o consentimento.
Próximo da meia-noite, todos se afastaram do templo.
Desejavam salvar o rei.
Logo depois surgiram duas figuras embuçadas:
um homem e uma mulher.
Quando haviam afastado as capas, podiam-se reconhecer Majawarna e Dewaki.
Majawarna havia se revestido dos sinais de um grande mago.
A rainha colocou sobre a mesa de sacrifícios uma caixa contendo um vaso de cristal fechado, com tampa de ouro, assim como uma agulha de vidro, oca, que estava cheia de um liquido grosso como o mel.
Majawarna sacara entrementes uma flauta de bambu da cinta e pôs-se a tocar.
O dragão ergueu-se, sem contudo, soltar a presa.
Parecia que o toque da flauta o atraía.
Dewaki aproveitou-se desse momento para se aproximar sorrateiramente do monstro e enfiar-lhe essa agulha de vidro, profundamente, na epiderme, a ponto de desaparecer completamente.
Majawarna aproximou-se rapidamente do rei e lhe deitou nos lábios o líquido de um vidro que trazia na mão.
Um tremor percorreu o corpo do dragão e da boca do rei partiu um gemido doloroso.
Poucos minutos depois o dragão e sua vítima eram figuras pétreas.
— Perjuro! O que fizeste? - Gritou Dewaki quando viu o horrível quadro.
Com a espada armada, avançou ela para Majawarna.
Este apenas torceu a sua mão para um lado e pôs-se a rir.
— Pensaste realmente que eu ia salvar o meu rival?
Para quê?
Para que voltasses a ser rainha e a viver ao seu lado?
Eu vinguei Bawani e a mim mesmo!
Mas precisamos fugir, para que o povo não nos mate...
Três dias depois a cidade afundava-se em virtude de um abalo sísmico.
Milhares de seus habitantes foram sepultados sob as rochas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:16 pm

Outros milhares morreram de fome, impossibilitados de fugir.
Balarama calou-se.
A parede nublada entrou em agitação, empalideceu e desapareceu.
Durante minutos permaneceu Rothschild imóvel em sua cadeira, entregue aos seus pensamentos.
De repente ergueu-se e agradeceu cordialmente ao sábio o haver-lhe, não apenas relatado, mas também mostrado a sua história.
Balarama apertou-lhe a mão e conduziu-o ao laboratório.
Aí deu ao Barão uma bebida reconfortante.
— Beba Adschimitra, meu antigo rei!
Rothschild esvaziou a taça e sentiu-se melhor.
— Denominaste-me vosso antigo rei!
Vivestes, também vós, nesse tempo, venerável Balarama?
— Sim, mas isso não é facto de importância.
Diz-me, não queres ver o local em que Adschimitra caiu presa do dragão?
A sua figura pétrea se conserva até hoje.
— Se eu quero?
Seria uma imerecida graça permitir-me ver essa figura. - Redarguiu o Barão com impaciência, diante do que Sir Gerald e Balarama riram, trocando um olhar.
O sábio conduziu os três através das ruas da cidade morta ao templo, que se encontrava próximo dos muros do contorno.
Aí acenderam archotes.
Os três homens se aproximaram do nicho onde, em outros tempos, forte grade de ferro recurvada corria.
Singular grupo ocupava o espaço compreendido ali.
Completamente erecto, estava o dragão, em grandeza realmente antediluviana.
Com a cauda, prendia um homem esbelto, cuja cabeça caía para trás.
Nos seus traços fisionómicos desenhava-se um horrível pavor.
Comovido, Rothschild contemplou esse momento do seu pecaminoso passado.
O rei indiano tinha a mesma semelhança que Paulo de Montinhoso retratava em Pawel Borisowitch.
Rothschild exprimiu o seu pesar por não poder fotografar ou desenhar o grupo de pedra.
Balarama disse-lhe então que Sir Gerald, em uma anterior visita, trouxera consigo uma máquina fotográfica e que lhe permitiria utilizar-se do aparelho para bater uma chapa.
Satisfeito o Barão agradeceu-lhe e, na companhia de Tonilim, pôs-se a trabalhar.
Alguns trechos das ruas da cidade morta, bem como o palácio e o templo, ficaram gravados nas chapas fotográficas.
Num dos dias seguintes, à refeição, Rothschild referiu-se a um dos acontecimentos de Montinhoso, e falou do terrível veneno pelo qual Dina encontrara a morte.
Acentuou a semelhança notada entre os efeitos desse veneno com o empregado pelo feiticeiro Majawarna e perguntou como um segredo como aquele se mantivera através dos milénios.
— Os filhos de Majawarna e de Dewaki conheciam a composição desse veneno, que, aliás, não é desconhecido dos iniciados! - Explicou Balarama.
Mais tarde, os sucessores desse feiticeiro, foram obrigados, por circunstâncias várias, a se transferirem para a Europa, onde caíram numa ramificação de ciganos.
Conforme reza a tradição, o chefe da família era obrigado a transmitir o segredo da poção à mulher mais inteligente da família.
Desta forma, finalmente, Yolanda chegou ao conhecimento do segredo.
Era, entretanto, a própria Dewaki que, em virtude da lei da peregrinação das almas, devia encontrar a Adschimitra em seu caminho.
Dois dias depois, Sir Gerald comunicava a seus discípulos que era tempo de regressarem à casa.
Ambos não se mostraram satisfeitos com a notícia, uma vez que se tinham aprofundado em vários trabalhos interessantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:16 pm

Exprimiram ao venerável Balarama os seus mais veementes agradecimentos pela amável colhida e pelas lições que lhes dera.
Ao lado de Balarama, havia uma caixa de sândalo polido, artisticamente entalhada.
O ancião abraçou Pawel, abençoou-o e disse-lhe, apontando para a caixa:
— Leva esta lembrança da cidade morta, tua antiga residência, ó Rei!
Encontrarás nela alguns objectos que te pertenceram, assim como as jóias que deste a Bawani no dia do casamento.
Entrega-lhe essas jóias em nome do velho Balarama.
— Mas, onde encontrar Bawani? - Perguntou Rothschild duvidando.
— Encontrá-la-ás em tua casa.
Não a reconhecestes?
— Deus meu, Valéria?!
Parece-me, realmente, que tenha semelhança com Bawani...
Fico meio tonto diante disso tudo, venerável Balarama!
Pawel levou a mão à testa e seguiu o ancião.
Algumas horas mais tarde saíram por detrás da estátua do pagode, do templo antigo, para o ar livre.
Em seguida atravessaram o salão por sobre as suas almofadas e tapeçarias.
Algum tempo depois encontravam-se na residência de Sir Gerald.
O Barão ardia de impaciência por abrir a caixa.
Findo o jantar, não se conteve.
Alçando a tampa da caixa, contemplou ofuscado o seu conteúdo.
Ali dormia a maravilhosa taça de ouro, na qual bebera vinho na casa de Balarama, um anel de rubi com inscrições enigmáticas, talvez o escudo de Adschimitra, um diadema em ouro guarnecido de pedras preciosas, e que vira sobre a cabeça de Adschimitra, e, finalmente, um punhal com cabo de ouro, a lâmina recoberta de sinais cabalísticos.
— Esse punhal é o mais valioso dos presentes! - Disse Sir Gerald contemplando os sinais.
Não é apenas um objecto custoso, mas igualmente uma arma mágica e poderosa.
Explicar-te-ei mais tarde, como deverás utilizá-la.
As jóias para a transformada Bawani, hoje Valéria, eram obras primas de ourivesaria.
Um diadema largo, colares, quatro braceletes e um cinto.
Tudo isso guarnecido de safiras, esmeraldas e brilhantes de incalculável valor.
Rothschild já de há muito não se sentia tão satisfeito.
Com uma diligência inflamada, pôs-se a comparar os sucessos do longínquo passado com os de posteriores séculos, traçando paralelos.
Essa ocupação absorveu-o totalmente, e fê-lo esquecer quase que completamente as cartas que recebera da Europa e que não lera ainda.
Uma carta volumosa, de Lolo, foi afastada para um lado, afim de ser apreciada após a sobremesa.
Em primeiro lugar leu as cartas que tratavam de assuntos financeiros.
Seu advogado escrevia-lhe que, numa viagem de inspecção pelas suas propriedades, encontrara grandes desordens, necessitando a presença imediata do proprietário.
Zangado pegou o Barão a carta de Lolo, e rompeu nervosamente o envelope.
Uma maravilhosa aquarela lhe caiu ao colo.
Representava um menino de cerca de quatro anos.
Perplexo fitou Rothschild essa pintura e embebeu-se na contemplação do menino trajado de veludo com gola de renda.
Mas quando, inesperadamente leu este nome:
Boris Borisowitsch, uma onda de sangue quente subiu-lhe ao rosto.
Tinha, pois, um filho, e Valéria nunca escrevera a respeito!
Ousara, então, ocultar-lhe a existência da criança?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:16 pm

Uma ira indivisível apoderou-se dele.
Ergueu-se de um salto e pôs-se a andar inquieto de um lado para outro.
— Tranquiliza-te, amigo!
Há-de, então, toda e qualquer notícia inesperada levar-te a essa agitação? - Observou Sir Gerald sorridente.
Pawel parou de repente, como que banhado de água fria, e um rubor de vergonha lhe veio ao rosto.
— Tendes razão, mestre.
Continuo ainda facilmente irascível!
Mas, afigurai-vos.
Eu tenho um filho e Valéria nem sequer julga necessário dar-me conhecimento disso!
— Parece-me um motivo forte, concordo!
Não foi bonito da parte dela.
Mas como tu mesmo não pudeste chegar à lembrança de que esse sucesso, afinal tão natural, podia-se dar!
Se tivesses perguntado, terias também recebido resposta.
Já de há muito o sabia, mas não quis envolver-me em assuntos de família. - Disse Sir Gerald.
Com algum esforço acalmou-se Rothschild.
Sir Gerald tinha, afinal, razão.
Porque ele mesmo não tivera essa lembrança?
Tornou da carta de Lolo, que era, afinal, a sua única amiga na Europa, e pôs-se a lê-la.
‘Querido Pawel, - escrevia - se te envio hoje o retrato de Boris, o faço quebrando um juramento que Valéria me impôs.
Mas não podia calar-me por mais tempo, e deixar-te na ignorância de um acontecimento importante.
Espero e confio que não me trairás.
Sete meses e meio depois da tua partida, nascia o menino.
A vida de Valéria estava presa por um fio.
As suas inesgotáveis lágrimas eram-lhe perigosas.
Finalmente Deus se apiedou dela e se restabeleceu.
Nunca vi, confesso-o francamente, uma criança mais linda que o teu filhinho.
É até mais bonito que o meu Kolja.
Boris se parece inacreditavelmente contigo e se tornará mais tarde, provavelmente, um ídolo das mulheres, como foi seu pai.
Às vezes me interrogo:
A quem é que Valeria ama, nele?
Boris ou Pawel?
Mas não posso saber.
Quanto a isso, ela é e será sempre uma esfinge!’
No final da carta, Lolo exprimiu a esperança de que ele voltasse para casa em breve, pois que os cinco anos já estavam a findar.
Como post-scriptum, acrescentava que a aquarela era obra de Valéria.
Comovido, Rothschild contemplou o retrato do filho.
A semelhança entre ambos era inegável.
Os mesmos olhos grandes, escuros, a boca rosada que já parecia algo orgulhosa, o mesmo cabelo negro.
Agora compreendia o motivo por que Valéria não quisera divorciar-se.
A criança representava uma aliança entre eles, que não ousava quebrar.
Nessa noite, o Barão não conseguiu dormir.
Sempre e sempre surgia-lhe a imagem da esposa à vista.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 7:16 pm

A criança, à qual ela dera vida, atraía-o como um imã.
Apesar disso, prosseguiu com os trabalhos costumeiros.
Experimentava-se então no domínio dos elementos, e aprendia a dirigi-las.
Trabalhava igualmente na transmissão do pensamento à distância, e aperfeiçoava-se no conhecimento do mundo astral.
Trabalhava corajosamente, e apenas nas horas vagas lembrava-se da pátria distante.
Alguns meses depois, estavam Sir Gerald e seus discípulos, como de costume, à noite, no terraço, quando se voltou para Rothschild:
— Amigo Paulo, penso que podes, aos poucos, lembrares da tua viagem de regresso.
Trabalhaste com tanta obstinação, que não importa ficares aqui mais três ou quatro meses.
Recomendo-te que te vás preparando para essa longa viagem.
Rothschild empalideceu.
A comunicação de Sir Gerald vinha-lhe inesperadamente, e a sensação de um profundo desgosto o acometeu quando se lembrou de que teria de abandonar a tranquilidade e a paz daqueles lugares.
— Se me expulsais, ordenai quando devo embarcar!
— Eu não te expulso, meu querido e bom amigo!
Se possível fosse, eu te conservaria aqui para sempre.
Todo ser tem, porém, o seu destino e a sua designação que, grande ou pequena, têm que cumprir.
Teu dever e tua missão, é ser esposo de tua esposa, pai de teu filho, administrador inteligente da fortuna que te foi confiada.
A ti está reservado experimentar lá fora, no mundo para o qual vais voltar, as tuas forças, a fim de que venças, se fores capaz, as tuas fraquezas, o egoísmo, a prepotência, a cólera, a paixão desordenada.
Do contrário, serás de novo dominado e vitimado por elas.
Abre-se diante de ti um campo vastíssimo, em todos os sentidos, para as tuas actividades.
Faço menção, para exemplificar, a aplicação de tuas rendas.
É triste mas é verdade, que justamente os ricos fazem menos pelos que necessitam do que aqueles que pequenos haveres dispõem.
Tu és rico, e teu dever é auxiliar aqueles que necessitarem de auxílio.
Não julgues mesquinhamente em relação à pobreza.
Pois que há um juízo que muito acima de tua opinião e que julgará severamente os procedimentos de cada um.
Se um infeliz, em necessidade, ergue as mãos a Deus, suplicando auxilio, tem direito a isso.
Um cenário talvez muito maior para o trabalho santificante, oferece-te a sociedade em que viverás.
O mundo se esboroa, física e moralmente.
Onde desaparece a crença, ganha força e estende-se o desenfreamento dos costumes.
Os homens se envergonham de serem bons.
Uma literatura despudorada glorifica o pecado e o crime, incita os instintos animalescos e produz um surto epidémico, que estimula o suicídio, o assassinato, a loucura e outros males.
E nessa massa cega e grosseira, irreflectida e corrompida, o conhecimento que aqui adquiriste atrairá como uma luz todas aquelas pessoas que não se puderam entender com o mal, e tu lhes aparecerás, como o apoio da tranquilidade, da paz e da renovação.
Sê paciente e indulgente.
Refreia a tua ira, não te excites, e sobretudo não olhes com desprezo aqueles que te não compreendem.
Não quero negar que a luta com um homem tolo é muito mais difícil do que com um inteligente.
Mas, em compensação, o primeiro trabalho é muito mais honroso para um ser superior.
Incansavelmente deverás descobrir a sede da ira e semear o bem, sem atender à maledicência ou à reprovação.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:48 pm

As enfermidades da alma são muito mais difíceis de curar do que as do corpo, mas tanto maior é o merecimento se alcançar sucesso.
Quando alguém se sente realmente puro, não tem que temer contágios, e pode adentrar no meio dos indivíduos mais corrompidos, material e moralmente.
Creio ter-te explicado claramente como enfrentar a luta com o mal.
E espero ver, no futuro, somente vitórias tuas.
— Meu Mestre, se pudesses me amparar com os teus conselhos...
Mas estarás longe de mim e eu estarei tão somente entregue a mim mesmo! - Disse Rothschild tristemente.
— A distância é uma noção limitada, meu filho!
Prometo-te não perder o contacto contigo, para que sempre possas te dirigir a mim.
Esta conversação fizera uma grande impressão em Rothschild e começou desde logo os preparativos da viagem, embora muito a contragosto se retirasse dali.
Temia o mundo e tudo quanto aí poderia encontrar, e também não tinha nenhum interesse pelos sucessos que se davam fora de sua actual paragem.
Os jornais, ele apenas os lia às vezes, e em grandes intervalos.
Também a lembrança de como o receberia Valéria, o intranquilizava.
Estava convencido de que dependeria talvez de uma grande paciência, indulgência e amor, para reconciliar-se com ela.
Tinha, ao menos, um aliado em seu filhinho, para quem se sentia atraído, embora previsse que o aguardavam coisas graves.
Depois de ter fixado definitivamente o tempo de seu regresso à Europa, escreveu uma carta a Loló, a Valéria e ao advogado, pondo todos ao corrente da sua próxima chegada.
O mais difícil lhe fora a carta de Valéria, que somente escrevera depois de longa e madura cogitação.
Dois dias antes da partida, Sir Gerald o convidou a ir ao seu laboratório.
— Quero dar-te as últimas instruções, meu filho, e ao mesmo tempo entregar-te alguns objectos que serão úteis.
Isto, como vês, é um livro.
As folhas deste livro são feitas de finíssimas placas de ouro e prata e cobre, ornadas de madrepérolas escuras e claras.
Os sinais sobre estas folhas são fórmulas mágicas, com o auxílio das quais podes governar a força dos elementos.
Antes de lançares mão deles, lê as páginas correspondentes e certifica-te de que nada esqueces.
Provavelmente, logo estarás em condições de precisar manter uma luta com os elementos, pois eles geralmente se lançam sobre aqueles que podem dominá-los.
Mas uma vez rechaçados, fogem do iniciado.
Neste caderno escrevi tudo quanto aqui aprendeste para que os factos não fujam à tua memória, bem como as regras pelas quais deverás viver.
Nesta caixa negra, encontrarás um arsenal completo de objectos mágicos, que te bastarão para um longo tempo.
Além de ti, ninguém mais deverá entrar em contacto com esta caixa.
Neste recipiente menor, finalmente, encontrarás ervas medicinais, bálsamos, pomadas, etc.
Já te expliquei o seu emprego e tudo isto é o meu presente de despedida para ti, meu querido discípulo e amigo.
O Barão mostrava-se comovido.
Agradeceu a Sir Gerald com palavras tocantes.
Então tomou da caixa e quis retirar-se, mas foi contido pelo mago que lhe entregou ainda um estojo de couro.
— É uma surpresa para ti!
Quando tiveres chegado a tua casa, põe este estojo de couro num lugar escuro e bem oculto, de sorte que ninguém o veja.
E quando tiveres, algum dia, necessidade premente de nos ver aqui, abre a tampa, lê as instruções e procede de acordo.
— E eu estarei em condições de palestrar contigo, meu mestre? - Perguntou Rothschild admirado.
— Sim, mas não abras o estojo antes de tê-lo colocado em seu lugar permanente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:48 pm

15 - A VOLTA AO LAR

Chegara o dia da partida de Pawel da Índia.
Tonilim, que ainda pretendia ficar ali por algum tempo, quis acompanhar o amigo até o ponto de embarque.
Tinham resolvido, para abreviar a viagem, se utilizar da estrada de ferro até o porto marítimo.
Com os olhos rasos de lágrimas, diante de Sir Gerald, Rothschild agradeceu a bondade e o amor de que se tinha feito objecto, rogando-lhe que não o esquecesse.
Profundamente tocado, Sir Gerald abraçou o discípulo, abençoando-o.
— Alcançaste o amor e a minha protecção para sempre.
Eles te acompanharão por toda parte, e os laços que se estabeleceram entre nós não se romperão, nunca mais.
Regressa com alegria e mostra-te digno do teu saber.
Todo ser salvo, física ou moralmente por ti, ser-me-á um presente valioso e a melhor recompensa recolhida pelo meu trabalho.
A bordo, o Barão recolheu-se ao canto mais escuro do tombadilho e meditou sobre a sua vida.
Podia permanecer assim por horas, a olhar para o céu ou para as ondas, esquecido de tudo quanto o rodeava.
Muitas vezes, porém, descia à cabina, tomava o livro de folhas metálicas e procurava nele os capítulos que versavam sobre os elementos.
Absorvia-se em si mesmo, que não notava o interesse com que o olhavam os outros passageiros.
Especialmente as senhoras pareciam não perdoar o seu modo distante e arredio.
Muitas desejavam ardentemente iniciar relações de cortesia com aquele homem interessante, porém, silencioso e indiferente de tudo, que sempre as afastava do seu caminho.
Os primeiros dias da viagem marítima decorreram calmos e sem mau tempo.
Certa manhã, entretanto, Rothschild notou que o comandante estudava, cheio de cuidados, o céu.
Voltando-se para um senhor idoso, que o acompanhava, murmurou:
— Temo que, durante a noite, venhamos a enfrentar tempestades.
É preciso estar alerta.
Pawel guardou essas palavras e desceu imediatamente ao seu camarote, onde leu as fórmulas relacionadas à questão.
Tomou um gole de uma essência fortalecedora e friccionou o corpo com uma pomada.
Deitou-se então para dormir, desejoso de estar bem disposto no momento necessário.
E em sonhos julgou ouvir a voz de Sir Gerald que se curvava sobre ele.
— Levanta-te e sê corajoso!
O teu barco corre grande perigo, que deverás afastar, para salvar muitas vidas.
Não te esqueças das minhas instruções, pois esta é a tua primeira acção independente. Coragem!
Rothschild despertou supondo ter ouvido, de facto, a voz de seu mestre, mas teve de convencer-se que sonhara.
O mar agitado, porém, que jogava o barco de um lado para o outro, fê-lo erguer-se logo.
Não sentia o menor receio, ao contrário, sentia-se calmo e feliz.
Ia por o seu saber a serviço dos seus semelhantes.
Julgou sentir a mão firme e quente de Sir Gerald na sua e parecia que seu mestre estava consigo.
Saiu da cabina para verificar o que se passava.
Quase todas as portas estavam abertas e dos camarotes partiam gritos de mulheres aflitas, choro de crianças e gemidos.
Os homens tinham-se reunido no refeitório e confabulavam sobre as medidas a serem tomadas.
A agitação do mar aumentava de tal maneira, que precisava segurar-se com as duas mãos, para não cair.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:48 pm

Caía uma terrível tempestade cortada de ininterruptos raios.
O céu negro como azeviche, só os coriscos manchavam, iluminando as altas montanhas de ondas que lavavam o tombadilho.
Mais uma vez Pawel julgou sentir a mão de Sir Gerald, e não quis perder mais tempo.
No camarote, tirou da caixa uma corrente negra com uma estrela metálica, em cujo centro havia um mecanismo.
As rodinhas moviam-se com velocidade quase que imperceptível e difundiam um aroma embriagante.
Essa corrente ele a pôs no pescoço, colocando a estrela sobre o peito nu.
Juntando vários pós ao óleo, formou quatro bolinhas que dispôs sobre um prato de ouro.
Em cada uma das bolinhas, fez uma cava, que preencheu com um pedaço de cânfora e aquela massa verde, resinosa, que vira nas tripeças da cidade morta.
Acendeu a mistura e ainda retirou da caixa um pequeno arco e quatro flechas apropriadas e colocou no dedo um anel que prendia pedra lilás e brilhante.
Prosternou-se em seguida, orou e voltou ao convés.
O fluido que lhe parecia ser a mão de Sir Gerald, conduzia-o com presteza.
O navio estava sendo erguido com violência crescente, arrojado entre os abismos das ondas.
As paredes de bordo, rangiam ao embate da massa aquática, em todas as suas juntas, e pareciam não poder resistir por mais tempo ao ímpeto desses golpes.
Iam ceder a qualquer momento.
O tombadilho era lavado, constantemente pelas ondas que envolviam o barco.
Tudo quanto não estava pregado ou bem amarrado já tinha sido levado pelas águas.
Com grande esforço, Rothschild alcançou a proa do navio.
Ninguém o havia notado e ele julgava estar completamente a sós sobre o tombadilho quando se inclinou para os quatro pontos cardeais e, atirando de cada vez uma das bolas inflamadas ao mar, recitava fórmulas mágicas.
Em seguida invocou o nome dos espíritos aos quais os elementos eram submissos e suplicou-lhes que aplacassem a tempestade e salvassem o barco da submersão.
Lançou as quatro flechas e guardou o prato.
As bolinhas inflamadas dançavam sobre as ondas e, ao lançamento de cada uma das flechas, um forte trovão retumbava sobre uma onda enorme, erguida como que por uma explosão submarina, fazendo surgir uma viva labareda.
À sua luz, o Barão pode ver as nuvens pardas que envolviam o barco e dentre as quais podia distinguir esmaecidas fisionomias humanas.
Essas forças misteriosas pareciam impelir o barco para a frente com assustadora velocidade.
Como que em voo o barco rompia agora através das ondas, fugindo à tempestade.
Os trovões enfraqueciam e as ondas começavam a se acalmar.
Em breve o céu ganhava doces claridades de azul, e à distância, surgia a luz de um holofote.
Rothschild sentia-se exausto.
Já não notava mais a pressão das mãos do mestre, e considerava terminado o seu trabalho.
Todo o seu corpo banhava-se de transpiração, apesar da roupa molhada.
Não sabia que tinha sido visto, durante o seu trabalho.
Por acaso, um jovem marinheiro russo testemunhara o seu trabalho.
Não pudera compreender as palavras do Barão e não percebera as chamas sobre as ondas.
Mas vira quando o jovem mago se inclinara para os quatro pontos, jogara as bolinhas e lançara as quatro flechas.
Esse jovem marinheiro conhecia algumas das regras fundamentais do ocultismo e compreendera que um iniciado salvara o barco da submersão.
Vaidoso e satisfeito, voltou o Barão ao seu camarote.
Pela primeira vez lançava mão do que aprendera com Sir Gerald.
Orou ardentemente, agradecendo a Deus pelo auxílio alcançado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:48 pm

Depois, exausto, deitou-se.
Na manhã seguinte notou entre os passageiros, alguma agitação.
Todos falavam da terrível tempestade e do perigo que ameaçara o barco que, só por um milagre escapara ao naufrágio.
— Dentro de uma hora estaremos no Ceilão! - Dizia uma inglesa.
- O capitão não sabe dizer como foi isso possível.
Se o barco tivesse navegado sem incidentes, alcançaríamos este porto hoje a noite ou amanhã de manhã.
E isso na melhor das hipóteses.
Nunca, durante toda a sua vida, lhe aconteceu tal coisa...
Pawel ouvia essas conversas com indiferença.
Apenas o jovem marujo não participava dos comentários gerais, mas contemplava com interesse e respeito o rosto do jovem mago.
Copiara no seu caderno, da lista de bordo, o nome de Rothschild...
X X X
Num belo e quente dia de agosto, a família Samburoff inteira reuniu-se no terraço.
A propriedade que possuíam, era bela e bem situada.
A casa antiga era ainda dos tempos de Catarina, a Grande, e se encontrava maravilhosamente conservada.
A senhora Samburoff apreciava passar ali, na companhia dos filhos, todo o verão e o outono.
Além dela encontravam-se naquele momento, Anatólio, sua mulher e duas crianças, Valéria e seu filhinho.
Depois do almoço, a senhora Samburoff recolheu-se para descansar um pouco, e as jovens senhoras ficaram a sós no terraço.
Palestravam em baixa voz, enquanto as crianças corriam sobre a areia.
Lolo se modificara pouco.
Rosada e vivaz como outrora, dava a impressão de uma pessoa feliz e satisfeita.
Valéria, mais bela do que nunca, parecia ter-se modificado sobremaneira, quanto ao seu comportamento.
Com seu porte esbelto e airoso, parecia antes uma donzela do que urna senhora e mãe.
Seu rosto, porém, perdera alguma coisa de sua vivacidade ao redor de seus lábios podiam-se ver, agora, pequeninos sulcos. Os seus grandes olhos escuros olhavam com singular compenetração e apenas cintilavam ao se fixarem sobre o pequenino Boris.
Sofrera duramente o seu nascimento, e somente aos poucos pudera se acostumar a olhar para a criança com amizade.
De princípio o pequenino ser não lhe parecia mais do que um órfão, e isso até que Lolo e sua mãe a livraram do tolo pensamento.
Assim, começou aos poucos a ver no filho uma espécie de âncora de salvação.
E depois o amara quase com aflição.
A cada ano de crescimento, se acentuava mais a semelhança entre pai e filho.
O menino, de cabelos negros, encaracolados, sentia bem que a mãe o animava, e soube aproveitar-se dessa sua fraqueza em seu benefício.
Só o amor ao filho desistira Valéria da acção de divórcio, deixando o assunto para ser resolvido depois do regresso do esposo.
O tempo, esse melhor dos médicos, fizera com que ela encontrasse, por fim a sua tranquilidade.
Além disso, sentira despertar em si um vivo interesse pelo Espiritismo, e principiara a estudar séria e diligentemente o assunto.
Com o passar dos anos, passara sobre obras de hermetismo e ocultismo, enfronhando-se profundamente em todas essas teorias.
Faltava-lhe, a este respeito, a prática tão somente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:49 pm

Geralmente Valéria levava uma vida tranquila e retraída.
Não fazia visitas a não ser aos familiares e amigos mais íntimos.
E não voltava nunca mais à casa do esposo.
Alugara, próximo à residência do irmão, em Zarkoje Selo, uma linda vivenda.
Os verões, todavia, ia passá-los na companhia da progenitora.
No decorrer de certo verão, tivera que ir à Oblazia, em virtude do seu estado de saúde, e aproveitara a oportunidade para chegar a Montinhoso, onde permaneceu por algumas semanas.
Ali passou a maior parte do tempo no jardim das rosas, outrora murado, onde deixara Boris brincar e reinar à vontade.
Muitas vezes surpreendia-se pensando no pequenino Paulo de Montinhoso, que, provavelmente, também brincara naquele jardim.
À noite, quando a criança dormia, sentava-se na gruta e pensava no passado.
Desagradáveis lhe eram os dias quando, da parte do esposo, chegavam cartas e pacotes da Índia.
Ao invés de alegria, pela lembrança, experimentava cruel aborrecimento.
Nunca lera as cartas e nem abrira os pacotes, que endereçava à sua antiga residência em S. Petersburgo.
Sua mãe observava que, nos dias em que recebia cartas e pacotes da Índia, ela se fazia sempre mais irritável, tornando-se, por muitos dias taciturna e inacessível.
A sogra não se lembrava com muita amizade do genro distante.
Ainda que Valéria nunca defendesse o esposo, diante da mãe, Lolo pôde notar que aquelas injúrias soavam-lhe desagradavelmente aos ouvidos.
Lolo se fizera, para Valéria, uma amiga e conselheira em todas as questões que se apresentassem.
Certo dia em que Sara Samburoff pôs-se de novo a injuriar Rothschild, Lolo aproximou-se e abraçou-a carinhosamente, tentando acalmá-la:
— Querida mãe, não ofendas a Pawel!
Não notas que Valéria sofre, quando falas assim?
Não conheces por acaso o rifão que nos aconselha a não nos imiscuirmos nos negócios alheios, ainda que sejam os de nossos filhos?
Valéria tem afinal um filho, e por amor dele não quer aumentar ainda mais a distância que a separa do esposo.
Imagina se, em caso de divórcio - do qual Deus nos livre! - Rothschild entendesse de querer a criança?
Boris, ademais, já começa a ter entendimento.
Não é justo injuriar-lhe o pai em sua presença!
Acredita-me, mãe, eu tenho razão!
Confia em Deus...
Ele levará tudo a bom termo.
Com lágrimas nos olhos, a Sra. Samburoff beijou a nora:
— Tens razão, minha boa Lolo.
Mas também tens que concordar que o procedimento do Barão, para com Valéria, foi de arrepiar os cabelos!
— Sim, concordo!
Mas, o que havemos de fazer?
Não podemos remediar, mas antes piorar a situação de Valéria.
E seria uma crueldade, pois não?
— Ah! Se ela quisesse ajudar a si mesma!
Seria feliz...
Esta alusão da Sra. Samburoff se referia a uma questão que produziu grande desgosto a toda a família.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:49 pm

Valéria era formosa demais para, apesar do seu retraimento, não ter admiradores.
Mais de uma vez teve que recusar propostas, ainda que rogadas quase de joelhos, para que rompesse o matrimónio com o Barão.
Um dos seus mais inflamados adoradores era o Conde Promim, um jovem cavalheiro belo e rico.
Soubera cativar a simpatia de Anatólio e da Sra. Samburoff que, então, passara a amparar a proposta e a desejar mais que nunca, ver Valéria separada do Barão de Rothschild.
Só Lolo permanecia firme do seu lado.
— Não contraias segundas núpcias, Valéria.
Como poderias saber se Promim é melhor do que Pawel?
Sobretudo, porém, aguarda o regresso de Pawel.
Assim, o assunto ficava sem resolução e Anatólio, de sua parte, também aconselhou o Conde a aguardar o regresso do Barão.
Mais tarde então, depois do divórcio, do qual não duvidava, falaria com Valéria.
Um criado entrou no terraço e se aproximou das jovens senhoras entregando-lhes um maço de jornais e cartas.
Enquanto Valéria lia uma longa missiva de sua tia e madrinha, Lolo abrira um pacote volumoso da Índia, e uma carta que viera junto, acompanhada de uma outra que se destinava a Valéria.
Lolo escondeu as cartas em sua bolsa e convidou Valéria a segui-la até o quarto, pretextando ter assunto sério a tratar com ela.
Quando Valéria viu o envelope, com aquela letra tão sua conhecida, fez-se pálida, porém seguiu a amiga sem dizer palavra.
— O que tens de tão importante a dizer-me?
Recebeste carta dele!
Provavelmente comunica-nos que pretende demorar-se por mais cinco anos na terra das belas dançarinas do templo! - Disse Valéria chegando à alcova.
— Muito pelo contrário!
Pawel comunica que espera estar em nos primeiros dias de outubro.
Esta carta destina-se a ti.
Valéria enrubesceu, porém fez-se pálida outra vez.
E impetuosa repeliu a carta que Lolo lhe estendia.
— Não, Valéria!
Precisas ler esta carta, o teu dever te impõe! - Disse Lolo severamente.
Ele regressa agora, e basta de conflitos, que já agravaram tanto as vossas relações mútuas.
O tom de Lolo deu resultados.
Valéria deixou-se cair numa poltrona e fechou os olhos.
A luta em que se debatia o seu íntimo, manifestava-se claramente no seu semblante.
— Que quer ele de mim?
Nós nos tornamos, tão estranhos...
Lolo se julgas necessário, lê-me por favor a carta, baixinho... - Disse ela. - não existem segredos entre nós!
Tu és uma irmã querida, Lolo!
Lê para mim, faz-me este favor... - E cobriu o rosto com as mãos.
Lolo abriu a carta e leu:
— Querida Valéria.
No decorrer destes anos, nunca me escreveste, não deste resposta a nenhuma das minhas cartas.
Isso me demonstra que o teu coração ainda se encontra irado.
E a me lançares à face essa ira, preferiste calar.
Compreendo que estejas zangada comigo e te perdoo, por isso, o teu silêncio de todo esse tempo.
Entretanto, não fizeste uso da licença que, com o coração opresso, te dei.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Não escolheste outro esposo que fosse mais digno de ti, não rompeste a aliança contraída comigo, o proscrito que abandonou a esposa.
E esta circunstância justamente dá-me a esperança de que sob as cinzas, em teu coração, ainda viva uma chispazinha do amor que, durante os séculos, nos ligou.
Triste e magoado li a notícia de que havias abandonado a nossa casa e renunciado aos meios que deixei à tua disposição.
Talvez isto signifique que julgaste a minha partida como ditada pela má vontade, e tenhas o sentimento de que pretendia deixar-te para sempre.
Deus é testemunha de que nunca nutri essa ideia, e de que, mesmo em pensamentos, sempre te fui fiel.
Durante todos estes anos de labor espiritual intenso, levei a vida de um ermitão, de um asceta.
Mas, considerando que, aos olhos do mundo és minha esposa, desejo (a palavra está grifada, observou Lolo) encontrar minha esposa em minha casa, quando voltar.
Não desejo dar à sociedade novo material para falatórios, expondo-nos outra vez ao alvo das maledicências.
O nosso, somente a nós compete discutir, mesmo aquilo que se relaciona ao nosso futuro, tanto mais que mesmo tua mãe se exprimiu sobre Dionid em termos tão feios.
Por amor de ti, estou disposto a esquecer tudo, e sou o primeiro a estender-te a mão para a paz.
Mas, se eu não te encontrar, ao voltar, no lugar em que te deixei, considerarei a tua atitude como um rompimento definitivo entre nós.
Valéria, consulta teu coração, se desejares romper os laços que nos mantêm unidos, definitivamente e para sempre.
Tenho a maior das vontades de reconquistar o teu amor e o teu coração.
Temos ainda a vida inteira à nossa frente e que pode ser feliz e bela.
Não te coloques sob a influência daqueles que desejam nos separar.
Consulta Lolo.
Ela é sincera, boa e justa, é tua amiga, esposa de teu irmão.
O conselho que te der, virá do coração.
Não te esqueças também de que a ligação entre nós, está agora purificada pelo fogo da eternidade.
Sou o dedicado e profundamente teu, Pawel.
Enquanto Lolo lia, Valéria chorava.
Então ergueu-se de súbito para dizer, irada e ironicamente.
— É realmente engraçado esse déspota egoísta!
Comporta-se como se fosse eu a culpada de tudo.
Só queria saber de que ele vai me perdoar!
Tão magnânimo!
E esse ultimato é realmente divertido!
Devo voltar à sua casa e aguardá-lo resignadamente, exactamente onde, há cinco anos, me abandonou.
É incrível!
Quando o sultão regressa, devem todos os escravos estar prontos a recebê-lo.
Excede, na verdade, a todos os limites da razão.
Agitada, Valéria caminhava de um lado para o outro.
— Se eu pudesse me libertar dele!
Mas estou presa!
Não apenas pela criança...
Esse Gerald nos uniu por meio de qualquer feitiçaria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:49 pm

Basta que me lembre da palavra divórcio e me assalta um horror, fere-me uma dor tão grande, que me deixa imprestável para tudo.
Abandono então esses pensamentos.
Sinto que não posso me separar dele.
Se satisfaço as suas exigências, no entretanto, me rebaixo.
Lolo fez a cunhada assentar-se ao seu lado, no divã, e procurou acalmar os seus ânimos exaltados.
— Acalma-te, Valéria!
Não exageres, olha os factos sem ideias preconcebidas, e não te parecerás trágicos como os julgas de momento.
Estamos num momento decisivo, o destino de teu filho está em jogo, o teu próprio, mesmo.
E como Boris não é só teu filho, mas também de Pawel, o pai tem o direito de exigi-lo para si.
Tu podes dizer, com certeza, quão triste é a vida de uma criança, quando os pais vivem separados.
Valerá a pena, por uma pequena questão do teu amor próprio - que bem considerada é insignificante - por em jogo a felicidade de teu filho e a tua própria felicidade?
Não te esqueças de que contas apenas vinte e três anos.
Quantas moças não se casam nesta idade?
A prima Nadja foi noiva durante cinco anos, teve que esperar que Leónidas concluísse os estudos universitários e conseguisse emprego depois.
Quando se casaram, Nadja contava vinte e cinco anos.
Depois disso, seu marido esteve por dois anos fora, em serviço, e eles são, apesar disso muito felizes.
E finalmente, Valéria, não deves esquecer que, quando te dou um conselho, é que meditei prévia e maduramente sobre tudo.
Esse conselho vem do fundo do coração, sabes disso.
Afirmo-te, pelo amor que consagro a Anatólio e às crianças, que o desejo de Pawel me parece justo.
Se fores ao encontro de teu marido como se nada houvesse acontecido, fecharás a todos os curiosos a boca.
Por outro lado, ninguém te impedirá de te explicares com ele, a sós.
Estou de todo convencida de que Pawel te ama e de que amará sinceramente a criança.
Pode ser que, em princípio, ainda exista alguma frieza entre ambos, mas a paz virá depois.
Valéria deixou pender a cabeça:
— E que dirá mamãe?
Ela o odeia.
E Anatólio? - Lolo meneou os ombros.
— Por Anatólio não te preocupes. Deixa-o comigo.
Asseguro-te de que ele será prudente.
Quanto a tua mãe... ela não tem o direito de proibir-te que te reconcilies com teu marido, não achas?
Ela não é má por natureza, mas apenas facilmente irritável.
E se acalmará por fim, quando te ver feliz com Rothschild, pois serás feliz com certeza, confia nisto!
Pawel não é um homem como os outros!
— Sabes, Lolo, receio que ele, na Índia, tenha se tornado um feiticeiro.
Não queria dizer-te isso, e nem nada disse a ninguém!
Ele... me apareceu... várias vezes...
— O que?! Ele te apareceu?
E somente agora me dizes isso? - Exclamou Lolo, surpresa e curiosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:50 pm

— Há quatro ou cinco meses, minha ama celebrava o seu onomástico e eu lhe permiti recebesse suas visitas e congratulações.
Boris já dormia.
Sentei-me junto de sua caminha, mergulhada em pensamentos.
E enquanto contemplava as suas feições de criança, notava a grande semelhança que existe entre o seu rostinho e o rosto de seu pai.
Involuntariamente as lágrimas vieram-me aos olhos.
É que me sentia só e abandonada.
O meu coração oprimia-se na solidão.
O menino me era tudo!
De repente, uma fria aragem assoprou sobre meu rosto.
Levantei-me e olhei ao redor, e imagina o meu susto quanto à minha frente, poucos passos além, vi, pairando no ar, uma bola de fogo que, aparentemente, pendia de um fio incendiado.
Não pude mover-me do lugar.
A bola de fogo cresceu, perdeu intensidade e se transformou num ténue nevoeiro que desenhou as formas de um homem.
Pawel estava à minha frente, envolto numa longa túnica branca.
Fitou-me longamente, triste, porém, ternamente.
Pareceu-me ouvi-lo balbuciar:
“Paciência!”
Depois inclinou-se sobre Boris e beijou-o na fronte.
Então levou a minha mão aos seus lábios e despejou sobre a minha cabeça uma mansa claridade de neve.
Desapareceu em seguida.
Eu senti, realmente o seu beijo sobre a minha mão, Lolo.
Quase que em seguida perdi a consciência, mas voltei a mim em breve.
E vi sobre a coberta de Boris, um ramalhete de flores brancas, maravilhosas, de indescritível perfume.
Não foi um sonho, pois ele esteve aqui!
Guardei essas flores e as sequei mais tarde.
Trago-as sempre comigo e vou mostrá-las a ti.
Depois desse dia, não fui mais a mesma...
Quando me sinto triste e abatida, julgo perceber o perfume daquelas flores e sinto, então, que ele está ao meu lado.
Quando de uma feita, censurava-o em pensamentos, senti a pressão de sua mão na minha.
Tenho certeza... senti os seus dedos delgados e o anel que ele usa no dedo mínimo.
— São factos estranhos, Valéria.
Seria loucura tua te indispores com um homem como este que tens.
Ouve, Valéria!
Na próxima semana finda a licença de Anatólio, e nós partiremos daqui. Vem connosco!
Terás o tempo suficiente para, até a chegada de Pawel, pores em ordem a residência de S. Petersburgo.
Poderás preparar tudo com calma e, apenas dois dias antes de tua partida, comunicar teus projectos aos outros parentes.
— Esqueci-me de contar-te ainda outra coisa.
No dia do meu aniversário, a cinco de agosto, vi, sobre a minha escrivaninha, uma grande folha de papel e um estojo de couro, que eu não conhecia.
Observei melhor esses objectos e, imagina, sobre o papel, vi o desenho de um palácio indiano, a lápis.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:50 pm

Ao pé da folha, com a letra de Pawel, estava escrito:
“Querida Valja.
Estás zangada e não gostas das minhas cartas.
Esta missiva, porém, terás que ler, e aceitar os meus votos pelo teu aniversário.
Beija-te ternamente o teu Pawel”.
No estojo estava um broche com um solitário provavelmente uma jóia de alto preço.
Valéria dirigiu-se a sua escrivaninha, de onde retirou o estojo de couro de uma das gavetas.
Entregou-o aberto a Lolo.
Sobre o alvo cetim, estava um medalhão com uma cadeia de ouro, todo guarnecido de brilhantes.
No medalhão via-se, sobre um fundo azul, o retrato em miniatura de um indiano de maravilhosa beleza.
O turbante branco de neve, com um penacho de pedras preciosas, e os dois brilhantes negros postos sobre as pupilas dos olhos, davam ao rosto uma mobilidade toda especial.
— Isto deve ser o retrato de algum príncipe indiano, e deve ser de um grande valor.
Parece ser uma verdadeira obra prima de arte! - Disse Lolo encantada.
Vês ingrata, como ele se lembra de ti?
Precisas reconciliar-te com ele, tão breve quanto possível!
Valéria não respondeu, mas aproximou-se da carta de seu esposo que leu mais uma vez.
Isto lhe custou novas lágrimas que não foram, todavia, tão amargas quanto as primeiras.
Em seu coração começou a elevar-se uma nova madrugada, e a vida já não lhe parecia tão desconsoladora como até então.
O passado avivou-se de novo no seu íntimo.
O velho castelo com seus fantasmas, o seu amor desvairado por Paulo, do qual não podia mais libertar-se, tudo lhe vinha de novo ao espírito.
Rothschild não a amava como Paulo, mas, contudo, ela sentia bem que a influência do primeiro sobre o seu espírito, era muito mais forte.
Como Lolo propusera, só falou do seu regresso dois dias, antes da partida na companhia do irmão, e de sua família, para Zarkoje Selo.
Quando, à noite, a família reuniu-se para o chá, e Anatólio falava à mulher sobre diversos assuntos domésticos, corando ligeiramente Valéria comunicou-lhes que também ela pretendia viajar, levando Boris consigo.
Anatólio olhou-a admirado, sem dizer palavra, porém sua mãe observou irritada:
— Que ideia tola!
Em S. Petersburgo o que irias fazer?
E, ademais, seria injusto roubar ao teu filhinho os ares do campo.
Ficarás aqui e basta!
— Eu não posso ficar!
Pawel regressa em princípios de outubro e deseja encontrar-me com Boris em sua casa, o que é muito natural!
Para por tudo em ordem necessito, naturalmente de algumas semanas.
Resolvi seguir com Lolo e Anatólio!
O olhar de Valéria tinha um tanto de acanhamento, mas a sua voz era firme e obstinada.
— Com os diabos!
Mais uma vez o senhor Barão deseja, e as suas ordens precisam ser acatadas! - Disse Anatólio indignado.
A senhora Samburoff estava vermelha de raiva:
— O que dizes?!
Esse atrevido deseja ver-te em sua casa?
É realmente demais!
Era preciso que tivesses perdido o juízo para ires morar com ele!
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:50 pm

Ele trará consigo provavelmente, os dois ladrões que não desejam senão o seu dinheiro.
Não vês? Onde ficou afinal o teu amor próprio?
Não podes reconhecer, então, que ele precisa vir a ti de joelhos, pedir o teu perdão, que tu, porém, negarás?
E queres te curvar como uma escrava diante do seu senhor...
Nesse caso posso apenas recomendar-te o seguinte, querida Valéria:
Que te ponhas com uma bacia de água à porta da sua casa, lave-lhe os pés e os enxugues com os teus cabelos.
Sê como a odalisca para a qual o senhor inclinou-se outra vez.
Todavia toma nota do seguinte:
Se de facto pretendes fazer o que imaginas, eu não te conhecerei mais.
Não serás mais minha filha!
Eu não desejo mais ver esse indivíduo depois da atitude que assumiu para contigo... - Terminou a senhora suspirando.
Anatólio quis dizer qualquer coisa, mas recebeu de sua mulher, por debaixo da mesa, uma leve cotovelada que o fez calar-se.
Loló procurou tranquilizar a sogra:
— Querida mãe, tu és suspeita!
Larissa, por exemplo, aprova incondicionalmente o Barão e aplaude o projecto de Valéria.
— Não me fales de Larissa, por favor!
É a única culpada de tudo, da entrada de Valéria nesse infortúnio.
Sob protecção dela começou esse namoro naquele infeliz e horrível ninho de corujas.
Lá em baixo, na Itália, ela favoreceu o casamento.
E agora minha filha tem que levar sua existência ao lado desse endemoniado.
Depois de não a desejar ver durante cinco anos, e, durante esse espaço de tempo lhe ter sido talvez cinquenta dúzias de vezes infiel, ele regressa!
Não acham simplesmente tocante que esse homem ainda se lembre de que tem aqui uma esposa?
A Senhora Samburoff queria ainda, evidentemente, dizer alguma coisa, mas foi interrompida por um incidente desagradável.
Sobre sua cabeça, vindo de fora, voejava alguma coisa que se prendeu nos seus cabelos.
Ao grito nervoso da velha dama, todos se precipitaram para ela, e viram um morcego que se esforçava por libertar-se, tímido, e batia as asas.
Rapidamente resolvida, Lolo tomou de um guardanapo e cobriu o animalzinho com ele.
Pedindo a Anatólio que lhe passasse uma tesoura, livrou a sogra do morcego e de um bom punhado de cabelos.
— Matem esse animal nojento! - Gritou a senhora fora de si.
— Por quê? O pobre animal não é culpado! - Disse Lolo desdobrando o guardanapo e dando liberdade ao morcego.
Lolo sabia que esses animais se aninham nas velhas árvores, mas até então nunca haviam invadido a casa.
— Não será isso um castigo que Pawel e Sir Gerald mandaram pelas injúrias?!
E a essa lembrança só a custo pôde conter uma risada.
X X X
Comovida, Valéria cruzou os portais da casa que há cinco anos abandonara tão impetuosamente.
Os cinco anos de provação e sofrimento tinham passado, e o seu amor nunca tinha se apagado de todo, renascia.
Ao pensamento de que veria outra vez o esposo e de que agora o teria ao seu lado para sempre, o seu coração pôs-se a pulsar violentamente.
Com uma fogosa diligência, entregou-se ela à limpeza da casa, o que deveria demonstrar-lhe que não era apenas ao homem que ela amava.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:50 pm

Precisava dar-lhe a compreender que ele precisava, primeiramente, conquistar o direito de amá-la.
Queria mesmo ser, de futuro, diferente para com ele.
Amável e agradável, porém, retraída, queria ela ser, para que ele não pudesse dizer que o perturbava em seus trabalhos.
Baseando-se nisso, preparou-lhe o quarto de dormir ao lado do escritório.
Boris, entretanto, conservou consigo.
Lolo sorriu quando viu isto, mas não disse nada, e, diligentemente, pôs-se a auxiliar a cunhada.
E o tempo correu veloz.
Certa manhã, Valéria recebeu do esposo, um telegrama de Berlim, no qual lhe comunicava que, dentro de dois dias, a primeiro de outubro, pois, às seis horas, pretendia estar em S. Petersburgo.
Valéria empalideceu quando se viu tão próximo do encontro.
Parecia-lhe agora, que o homem que vinha ao seu encontro, era um outro, diferente daquele que conhecia, e que lhe seria impossível, ou ao menos difícil adaptar-se a esse novo homem.
O seu coração, todavia, rejubilava e ficaria, agora, com ela.
Toda a casa agitou-se.
Enfeitaram-se as portas com festões de plantas.
Valéria deu os últimos retoques nos apartamentos do esposo e combinou com o cozinheiro o seu cardápio, que deveria ser puramente vegetariano.
Admitia, e com razão que Rothschild, durante os seus estudos na Índia não se alimentara de carnes.
Especialmente satisfeitos mostravam-se o velho Sawely e Boris.
O menino e o ancião tinham-se tornado óptimos camaradas.
Sawely contava-lhe intermináveis aventuras da juventude do Barão, e fazia o coração da criança pulsar mais fortemente.
Lolo quis ir à estação para cumprimentar o primo, e Larissa deliberou acompanhá-la.
Anatólio, porém, só aderiu ao grupo depois de intermináveis rogos.
Dispôs-se então a levar consigo o pequenino Boris.
O primeiro de outubro tinha chegado!
Valéria ocupava-se ainda com sua toalete quando Lolo e Anatólio chegaram para levar Boris.
Pensativa e nervosa, Valéria vestia-se.
Dispensando a criada, dirigiu-se ao espelho.
Contemplou-se inspeccionando-se detidamente.
Queria saber se ainda era bela, suficientemente bela para ser amada.
A imagem que do espelho a fitava, tranquilizou-a.
O rosto claro, onde nadavam os escuros olhos, eram ainda um feliz contraste com os cabelos dourados.
De uma esbelta estatura, parecia ainda de uma jovem rapariga.
Vestia um leve vestido singelamente elegante, que não lhe permitia levar ao pescoço mais do que um pequeno colar de pérolas miúdas.
Ao cinto prendeu, entretanto, um ramalhete de hortênsias azuis.
Tudo assentou-lhe esplendidamente bem.
E suspirando profundamente, Valéria assentou-se no divã.
— Por que estou tão nervosa?
Não me rebaixou e não me humilhou esse homem?
Contudo tremo ao lembrar-me de que irei vê-lo de novo e sofro, por não poder demonstrar-lhe que já de há muito lhe perdoei tudo, e que apenas o meu orgulho me faz silenciar...
O pequeno relógio sobre a lareira bateu seis horas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:50 pm

Ele chegava agora.
Ergueu-se rápida e desceu ao salão de onde, através da janela da esquina, podia ver um grande pedaço da rua.
Os postes estavam acesos, e uma fina chuva caia.
Era o legítimo e verdadeiro tempo outonal em S. Petersburgo.
Junto ao portão da casa, estavam Sawely e o velho porteiro, prontos para saudarem o senhor.
Agora via ela dois autos que, rápidos, se aproximavam, e pararam junto ao portão.
Valéria viu apenas quando Sawely avançou para o primeiro auto e abriu sua porta para dele sair a figura elegante, tão sua conhecida, que cumprimentou amavelmente os dois servos e enveredou célere pela entrada.
Ela se afastou da janela e quis ir ao encontro do esposo, do qual já ouvira a voz.
Deu alguns passos, entretanto, e parou...
Não viu, pois, quando Anatólio, com Boris, Lolo e Larissa, desceram do carro, nem quando, do segundo, desceu o secretário do Barão, seguido do seu advogado.
Quando Rothschild desceu do vagão, emocionou-se por ser saudado, ali mesmo na gare, pelos seus parentes.
O seu olhar caiu imediatamente sobre o pequenino Boris a quem ergueu impetuosamente e apertou com força nos braços.
Só depois cumprimentou Larissa e Lolo, e abraçou Anatólio.
Quando este sentiu o forte aperto de mão de Rothschild, ouviu a voz do Barão, que se lhe dirigia:
— Agradeço-te por teres vindo!
Subitamente o moço sentiu-se reconciliado, fez-se alegre e prazenteiro.
Felizes tomaram os carros para se dirigirem à casa.
Entrando, Rothschild despojava-se rápido do capote, ansioso por atravessar o salão e encontrar a jovem esposa.
Então teve-a à frente dos olhos, pálida, com os olhos semi-cerrados, escorando-se à porta.
No momento seguinte, tomava-a nos braços e cobria-a de beijos.
— Muito obrigado, Valéria!
Mil vezes obrigado por Boris.
Que presente real me ofereces para recepção...
Valéria consentiu sem resistência aos seus carinhos, mas não os retribuiu.
Os outros membros da família entravam naquele momento no salão e Valéria esforçou-se por ocultar a sua emoção.
O jantar ia ser servido.
Rothschild conduziu a esposa à mesa.
Lolo sentia-se no sétimo céu.
Anatólio e Larissa, igualmente, não continham o seu bom humor.
Apenas Valéria calava-se e, de quando em quando, lançava um furtivo olhar ao esposo.
Notava-o modificado, um pouco mais sério do que dantes.
Era pálido, noutros tempos, agora estava mais magro e com a tez quase bronzeada.
Nos seus olhos brilhava uma nova expressão de energia e de força de vontade.
No dedo mínimo brilhava um anel de rubi entalhado, o anel com que fora selada a misteriosa carta que encontrara sobre sua escrivaninha.
Quando serviram o champagne, ergueu Rothschild a sua taça e bebeu à saúde da esposa e dos seus convivas.
Agradeceu também a Valéria o cuidado que pusera no seleccionamento dos pratos vegetarianos.
— Com o calor que faz na Índia é difícil, e até perigoso, empregar-se a carne!
Absorve-se geralmente alimentos mais leves e em menor porção. - Explicou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:51 pm

Depois do café os convivas se despediram e Rothschild subiu com Valéria e Boris aos apartamentos da esposa.
O menino subiu-lhe ao colo e abraçou-o tão desembaraçadamente como se de há muito se conhecessem.
O velho Sawely anunciou a chegada da bagagem.
Rothschild ordenou-lhe abrisse as malas.
Esta interrupção sustou a conversa entre os cônjuges, e Rothschild ergueu-se.
— Desculpa-me, Valéria, se me retiro por alguns minutos.
Preciso separar das malas alguns objectos, nos quais os criados não podem tocar.
— Cearás comigo ou desejas que eu mande alguma coisa ao teu quarto?
— Obrigado. Eu agora não ceio mais.
Talvez tome dois ovos quentes e uma xícara de chá.
Assim que tiver guardado o mais importante
virei, se me permitires, tomar o chá aqui.
— Pois não! - Disse Valéria enrubescendo sem o olhar.
Quando Rothschild entrou no novo dormitório, que lhe fora arranjado, soltou uma gostosa gargalhada.
— Ah! O meu novo dormitório!
Ter-lhe-ia sido fácil arrumá-lo?...
Quer me demonstrar, certamente, que não tem necessidade do marido, e que não me perdoou as palavras de outrora.
Discretamente dá-me a entender que preciso tornar-me primeiramente noivo, antes que possa ser esposo.
Ela tem razão!
Depois de fazer uma vida de ermitão por cinco anos, preciso, realmente, aprender a ser namorado, embora a ache tão bela quanto anteriormente, e a ame ainda do mesmo modo.
Ordenou levassem os caixotes com os objectos mágicos ao seu dormitório e procurou as chaves.
Nisto, levanta-se o reposteiro e o pequeno Boris, de camisola e sapatinhos vermelhos, aparece no limiar.
— Mamãe mandou vir aqui para te dar boa-noite. - Disse ele correndo ao encontro do pai.
Rothschild, que se voltara rápido, ergueu o menino nos braços e foi sentar-se com ele junto da lareira.
E enquanto a criança tagarelava, o pai contemplava atentamente.
Satisfeito via o quanto eram belas as suas feições.
E passando amavelmente as mãos pelos seus cabelos crespos e negros, fitava-lhe os grandes olhos.
Beijou-o então.
E no seu íntimo sentiu-se erguer-se um quente sentimento, inteiramente novo para ele e que julgou ser o amor paternal, o amor que durante tantos séculos vivera no coração do Conde Rindolfo e que só agora nascia no seu.
Involuntariamente ergueu Rothschild os olhos para o retrato do velho Conde, chamando para ele, a atenção do menino.
— Quem é o velho senhor? - Perguntou Boris.
Agrada-me muito.
— É o teu vovozinho.
Queres dar-lhe um beijo? - Disse Rothschild sorrindo e erguendo o menino.
Este riu-se também e osculou a mão do Conde Rindolfo.
Envolvendo Boris em sua capa de viagem, Rothschild ainda deixou que ele palreasse por alguns instantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 7:51 pm

E quando as pálpebras da criança começaram a pesar, levou-o para seu quarto, junto à alcova de Valéria.
Já deitado, Boris perguntou de repente:
— Devo orar por ti, papai?
Mesmo depois que regressaste?
— Sim, filhinho.
Deverás orar, agora e sempre, por mim! - Retrucou Rothschild comovido, abençoando-o.
Pensativo e cuidadoso regressou ao seu quarto, indo sentar-se junto da lareira.
Até esse dia, o seu filho não lhe surgira ao espírito de nenhum modo especial.
Agora, em poucas horas, Boris o cativara totalmente e um forte laço lançara em torno do seu coração.
Na escola de Sir Gerald, aprendera a levar a sério seus deveres.
Essa criança, que lhe fora dada por Deus, não era apenas uma alegria para os pais, mas uma grande responsabilidade para eles.
Não bastava amar a Boris.
Era preciso fazer dele um homem de verdade.
Não era tarefa fácil essa de formar um coração tomado assim de pequenino e resolver os problemas dos quais chegava, sem dúvida, saturado, à actual existência.
Estaria ele à altura dessa tarefa?
De nada valia dar a vida um ser, para depois abandoná-lo aos seus próprios instintos.
Ele jurou a si mesmo lembrar-se sempre dos seus deveres, pondo o seu saber e a força, inteiramente, à serviço dos seus propósitos.
Se, por ventura, alguma vez não soubesse resolver por si mesmo, consultaria o seu mestre.
Lembrou-se então do presente de Sir Gerald.
Erguendo-se rápido, abriu sua mala e retirou dela o estojo de couro, que tinha a forma quadrangular.
Com uma pequenina chave de ouro, abriu o estojo e encontrou logo em cima uma folha de papel, sobre a qual pode reconhecer a letra tão conhecida de Sir Gerald.
Seguindo as instruções, deveria guardar o estojo num armário da parede.
Sir Gerald recordava-lhe que justamente naquela sala havia um nicho nas condições exigidas.
Ele encontrou a chave ainda metida na fechadura, como a deixara.
Desocupou o armário e colocou nele o estojo, que ali ficava muito bem.
Acabava justamente de fazer esse serviço e prestava-se a desencaixotar alguns objectos quando Sawely apareceu para comunicar-lhe que já eram dez horas.
O chá estava pronto e a senhora esperava-o no salão.
Rothschild quase deu uma risada.
Imerso no seu trabalho esquecera a esposa no primeiro dia do seu regresso.
Às pressas lavou as mãos e saiu do quarto.
Como há cinco anos, quando o casal tomava o seu chá, também hoje a mesinha com o brilhante samovar estava junto do divã.
Sobre uma bandeja, viu duas chávenas, ovos quentes e torradas.
Valéria, que substituíra o seu vestido por um formoso negligê, parecia triste e acanhada.
Rothschild compreendeu que ela, nesse primeiro encontro sob quatro olhos apenas, devia sentir-se um tanto oprimida.
A separação, durante aqueles anos, os alheara reciprocamente, e ela não sabia que atitude tomar à frente dele.
Do outro lado da mesinha havia uma cadeira destinada, evidentemente, a Rothschild.
Ele, entretanto, parecera não notá-la, e fora assentar-se no divã, ao lado de Valéria.
— Perdoa-me por ter-te feito esperar! - Principiou ele.
Mas eu estava ocupado com a arrumação da minha bagagem.
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