Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:31 pm

Desejo, mais tarde, organizar, na biblioteca, um pequeno laboratório, e mostrar-te muita coisa interessante.
Com a mão ligeiramente trémula, pegou ele a chávena, e então fitou Valéria com aquele olhar que, através dos séculos, tinha feito tremer os corações femininos.
- Quero iniciar-te nos meus trabalhos, insuflar-te interesse e amor pelo mundo de além, que nós costumamos ver de tão diferente maneira.
— Enganas-te se pensas que eu seja, ainda hoje, a mesma de há cinco anos.
Sei agora muita coisa nesse domínio.
Aprendi a compreender o ilimitado mundo invisível.
Se tens o desejo de instruir-me, encontrarás em mim uma discípula aplicada.
— Agradeço-te pela resposta.
Ser-me-á um prazer instruir-te.
A palestra pareceu morrer aqui.
Valéria falara com brandura, sem denunciar hostilidade ou frieza.
Contudo parecia existir um intransponível muro invisível entre ambos.
Especialmente Valéria se sentia sem segurança.
Não somente o sentimento de que ele a amava menos do que ela a ele, a maltratava, como também temia, demonstrando-lhe o seu amor, ultrapassar os limites que ele talvez tivesse traçado.
O seu coração contraiu-se magoado.
Ele já não era Paulo, o herói dos quartos misteriosos de Montinhoso: era correto e tranquilo.
Pensou então que, naquele tempo, muito embora ele a lançasse na miséria, ela vivera horas mais felizes do que jamais aqui.
Naqueles tempos eles se pertenciam de corpo e alma.
Agora ela apenas tinha a sensação martirizante de tê-lo perdido.
O corpo era o mesmo, mas a alma era outra.
Enquanto Rothschild, silenciosamente, tomava o seu chá, Valéria pensava em Montinhoso, em Paulo, nos seus trajes maravilhosos, no fogo dos seus olhos e nos seus beijos ardentes que ela julgava sentir ainda. Involuntariamente estremeceu e ergueu-se.
Uma mão fria e forte, porém, agarrou-a e o seu olhar admirado encontrou-se com o do esposo.
Com o rosto pálido, ele se curvava para ela.
— Expulsa de ti esse passado infeliz, que ainda te prende.
Não invoques os dias traidores que nos ameaçam devorar.
Não te manches com essas tétricas recordações.
Paulo de Montinhoso foi um criminoso sem escrúpulos.
Não deves mais pensar nele. Eu te proíbo.
Expulsa essas lembrança de tua mente, Valéria.
Ele erguera-se e o seu olhar parecia cair como um raio luminoso sobre Valéria, interpenetrando-a.
— Quem és tu que podes ler os meus pensamentos e conhecer as agitações de minha alma? - Disse ela perturbada, levando a mão ao coração.
— Consegui certo grau de clarividência.
E as cadeias invisíveis que, através dos séculos vêm nos unindo, facilitam-me o acesso a tua alma.
Sê tranquila e nada temas, porém! - Disse ele mansamente, correndo as mãos de leve sobre os cabelos dela.
Com esse contacto, Valéria sentiu um agradável calor perpassando-lhe o corpo.
Rothschild sentou-se de novo.
— Desejaria dizer-te ainda alguma coisa sobre as nossas relações recíprocas.
Ainda guardas, em teu coração, um sentimento de ojeriza para comigo.
Eu o compreendo e perdoo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:31 pm

Do teu ponto de vista, tens toda a razão, quando supões que eu já não te ame mais.
Contudo, eu te amo ainda, com toda a minha alma, mas de uma maneira diferente da anterior.
Interpretas esse amor como um sentimento de indiferença para contigo.
Entre nós, entretanto, ainda existe uma coisa:
o ininterrupto fluido de nessas almas.
Anos de separação nos alhearam mutuamente, e será preciso algum tempo para que se restabeleçam as antigas relações entre nós.
Permita-me também que te peça perdão pelas duras palavras com que te ofendi.
A ira é má conselheira.
Sinto que amas o outro, Paulo e não queres saber de Pawel Rothschild, que baniste do teu coração.
Espero porém, que esse banimento não seja duradouro.
Farei tudo para reconquistar-te e fazer-te feliz ao meu lado.
Por isso suplico-te, Valéria:
quando já não sentires esse vazio entre nós, comunica-me.
Aguardarei impaciente esse dia.
E quando Rothschild viu lágrimas nos olhos da esposa, atraiu-a para si e disse-lhe baixinho:
— Se alguma vez tiveres necessidade de aliviar o teu coração, por meio de uma explicação, vem a mim.
Quanto mais depressa encontrarmos o caminho que nos conduz ao encontro um do outro, tanto melhor.
Mas agora sobe a repousar.
Nós ambos necessitamos de descanso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:32 pm

16 - A RECONCILIAÇÃO

Em seus aposentos, Rothschild assentou-se, exausto, numa cadeira.
Dominara até então a sua emoção.
Quando, porém, Valéria despertara nele as recordações de Montinhoso, fora como cair num vórtice.
Como uma morna correnteza vieram as lembranças do passado, que ele julgara dominadas, e que lhe pareceram outra vez tentadoras.
Um ilimitado desamparo se apoderou dele.
Ergueu-se depressa, lavou-se com uma essência reconfortante, tirou uma cruz de ouro da mala e orou.
Somente quando se sentiu inteiramente reconfortado abandonou a postura genuflexa.
Parecia-lhe que uma quente mão pousava-lhe sobre a cabeça e ouviu estas palavras murmuradas junto ao seu ouvido:
— Estou satisfeito contigo, meu filho!
Rothschild estremeceu.
Seu mestre velava sobre ele, e assistira-o naquele momento difícil.
E tal acontecimento lhe trouxe tão veemente a lembrança de Sir Gerald, que resolveu-se a examinar melhor os presentes dele.
Fechou todas as portas, abriu o nicho da parede e aprofundou-se na contemplação do aparelho.
Este se compunha de um disco negro de metal, com um funil redondo ao centro, que parecia muito mais profundo do que a grossura da moldura e brilhava com todas as cores.
Sobre esse funil encontrava-se um mecanismo semelhante ao de um relógio e que tinha letras móveis.
Ao lado, viu uma pequena manivela.
Abaixo do funil havia uma pequena bola verde.
A indicação, escrita por Sir Gerald, era nos seguintes termos:
“Apaga todas as luzes, distribui as letras de tal modo que elas formem as palavras infra indicadas, bem como as fórmulas que deves pronunciar antes de acender a bolinha verde.
Então vira a bolinha sete vezes”.
Rothschild precedeu conforme a prescrição e, com espantosa velocidade, o aparelho começou a girar.
O funil fazia-se cada vez mais profundo e enchia-se de imagens escuras, dilacerados por raios.
Um golpe frio de vento bateu no rosto de Rothschild, trazendo-lhe aos ouvidos um rumor semelhante ao das frondes batidas pelos ventos.
E aquele ar foi aos poucos se aquecendo e difundindo um agradável perfume.
Admirado observava o Barão estes sucessos.
O funil parecia agora de infinita profundidade.
Súbito, as escuras nuvens foram sendo, aos poucos, substituídas por outras de mansa claridade e que alumiaram o quarto com singular luminosidade.
Aos poucos desaparecia o aparelho todo, a parede, e tudo ao seu derredor, para dar lugar a uma imagem maravilhosa.
Rothschild via o terraço da muito conhecida casa de Sir Gerald à sua frente.
À mesa estavam sentados Sir Gerald e Tonilim, que lia um livro.
— Prezado mestre! - Escapou dos lábios de Rothschild, involuntariamente.
— Boa noite, meu filho! - Disse Sir Gerald chamando a atenção de Tonilim com um gesto de mão.
Evidentemente, também este reconhecia Rothschild, como ele o reconhecera.
— Vê quão próximos estamos um do outro, embora o Oceano nos separe! - Disse Sir Gerald.
Quando eu quiser falar contigo, ouvirás um acorde melodioso soar no aparelho.
Então aproxima-te, e poderemos conversar!
— É tudo isto realidade, ou estarei sonhando?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:32 pm

— Tudo é realidade.
Não posso, por ora, iniciar-te nos segredos desse aparelho, mas não está longe o dia em que um sábio o invente.
Seus princípios são, aliás, semelhantes aos da radiotelegrafia, ou radiofotografia.
— Como poderei vos agradecer por tudo isto e por me haverdes proporcionado os meios de chamar-vos quando tiver necessidade?
Ainda há pouco pudestes verificar quão fraco ainda sou...
— Tudo isto é muito natural, e não deves te desencorajar.
Precisas aprender a entrar em contacto com o homem sem te submeteres às suas influências.
Por isso insisti para que voltasses ao mundo e não te entregasses à vida de ermitão.
Deverás ser indulgente para com as fraquezas dos homens e estar sempre pronto a auxiliá-los e ampará-los.
Somente quando as ondas de todas as paixões passarem por ti e não as temeres mais, poderás dizer:
Venci o animal do homem!
Acenou-lhe uma despedida e sorriu.
A imagem empalideceu, toldou-se em fumo e névoa e desapareceu. - aparelho estava parado.
Comovido, porém feliz e satisfeito, Rothschild deitou-se.
No dia seguinte começou a ocupar-se com seus negócios.
Com o auxílio de seu velho e experiente advogado, conseguiu descobrir as falhas existentes na organização de suas propriedades.
Dispensou os culpados e restabeleceu a ordem.
Não esqueceu, igualmente, de atender aos deveres de cortesia.
Foi, na companhia de Valéria, a Pawlosk, em visita aos Bakulim, visitou Anatólio e sua família, e ainda alguns parentes e conhecidos íntimos.
Como o mundo aos milionários muita coisa perdoa, essas boas pessoas pareceram haver esquecido tudo quanto, há cinco anos, tinham dito do Barão, antes da sua partida.
Os maiores gritadores estavam quietos, e se sentiram no sétimo céu quando viram a Rothschild, e o visitaram com prazer, a miúdo.
Embora Rothschild estivesse intimamente revoltado com a falta de carácter dos homens, recebia-os cordialmente.
De sua parte, Valéria, pelo contrário, recebia-os obrigatoriamente.
Rothschild organizara, na biblioteca, um pequeno laboratório, onde guardava os presentes de Sir Gerald.
Aparentemente parecia que tudo tomara sua feição antiga.
As visitas sucessivas, porém, sofreram um arrefecimento, quando evidenciou-se que o casal não se mostrava disposto a oferecer recepções e, afora isso, comparecia tão poucas vezes ao teatro.
Apenas às horas determinadas para as visitas, apresentavam-se uns poucos, às vezes pessoas que Rothschild nunca havia visto e que agora afirmavam tê-la visto aqui ou ali, e o estimavam.
Esses visitantes eram-lhes desagradáveis, contudo ofereciam-lhe o ensejo de realizar as proposições que Sir Gerald lhe dera.
Muitos os procuravam para satisfazer a curiosidade.
Sobre a viagem e a personalidade do Barão, corriam as mais extravagantes versões.
A fonte de uma delas, era o jovem marujo que observara-o a bordo, quando conjurava a tempestade no Oceano Índico.
Essa narrativa não falhava, naturalmente, em seu efeito, tanto mais que, por esse tempo, Rothschild já tinha salvo da morte algumas pessoas de suas relações e que a ciência médica desenganara e era tido como um feiticeiro.
Salvara da morte o filho de seu porteiro, que fora mordido por um cão hidrófobo, e curara a um paralítico.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:32 pm

De que modo essas notícias tinham ganho publicidade, ninguém podia dizer.
Mas envolviam Rothschild numa atmosfera de lendas inverosímeis.
O Barão, entretanto, parecia não dar tento aos boatos.
A sua própria vida lhe proporcionava o suficiente conteúdo a não participar das conversas dos outros.
Cativara completamente o coração de seu filho.
Contava-lhe lendas formosas e tomava parte nas suas brincadeiras.
Entretanto, soubera, igualmente, acostumar a criança a uma cega obediência.
Ainda não se explicara com Valéria.
Persistiam, entre eles, as mesmas tensas relações.
Até certo ponto, Valéria o temia.
Sabia que ele podia ler o seu pensamento, e então fugia-lhe sempre que possível.
Na sua presença, pois, esforçava-se por pensar em coisas triviais e às vezes ele se revoltava com o fingimento da esposa.
Com prazer teria lhe ensinado alguma coisa do seu saber.
Mas não o podia fazer.
Somente agora podia dar valor ao trabalho dos missionários, que renunciavam à ascensão aos mundos melhores e que, sem recursos e apesar de tudo, põem a sua vida à disposição do esclarecimento das massas, pelo que nunca recolheram mais que ingratidão, escárnio e desprezo.
Valéria, por seu lado, esperava uma manifestação amorosa de seu esposo, e não reconhecia a paciência que ele lhe dispensava.
Não podia saber quão pesado se tornava para Rothschild essa paciência.
E para este, o seu treino no campo da paciência, fazia-se e lhe fora imposta justamente através da esposa.
E assim corriam os dias.
Valéria recebera um convite dos Bakulim para ir a Pawlosk.
Larissa, que tinha deslocado um pé, desejava ver a afilhada.
Com a carta na mão, entrou no laboratório de Rothschild indagando se poderia, por dois ou três dias, ausentar-se do lar.
— Não levarei Boris comigo, pois se encontra um pouco resfriado.
Tu cuidarás dele, pois não?
Rothschild concordou, prometendo ir buscá-la e aproveitar o ensejo para fazer uma visita à enferma.
Valéria deveria telefonar-lhe quando desejasse regressar.
Na noite seguinte, estava Rothschild no seu gabinete de trabalho a ordenar as folhas de um manuscrito quando, de repente, ouviu um leve badalar de sino, partindo do nicho da parede.
Admirado aproximou-se do local, abriu o armariozinho e pôs o aparelho em movimento.
Um susto tremendo teve quando, em lugar do castelo indiano viu, em chamas, a vila do major Bakulim, em Pawlosk.
Grossas nuvens de fumo e enormes labaredas envolviam a casa toda, e penetravam já no quarto da torre, que Valéria costumava habitar quando visitava os Bakulim!
O barulho feito pelos moradores despertara Valéria.
Levemente vestida, correra ela a janela, a obter ar, pois o quarto enchia-se de fumo.
Meio desfalecida de susto, quebrou ela, com o castiçal, as vidraças, sem saber que assim mais alimentava as chamas.
Então, de fora, o vento, fortíssimo, levou-lhe as labaredas quase que ao rosto.
Rothschild emitiu um grito abafado, quando viu a esposa em risco de vida.
O que deveria fazer?
Ficar aqui ou correr para lá?
Um brado angustiado de socorro, partiu então de seus lábios.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:32 pm

— Corre lá, salva tua esposa e volta imediatamente, mas cala-te!
0 ouviu uma voz à distância, voz conhecida a ordenar-lhe.
A visão desfez-se no aparelho.
Tão depressa quanto possível, desceu as escadas, sem que encontrasse nenhum dos criados, e tomou o primeiro auto que passava atirando-se exausto sobre as almofadas.
— Para Pawlosk, rápido, rápido!
Tão depressa quanto puderes e não terás nada a perder... - Disse ao chauffeur dando-lhe o endereço.
Como o vento, o auto corria pelas ruas da cidade alcançando, em breve, as estradas. Para Rothschild, os minutos pareciam horas.
— Mais depressa, mais depressa! - replicava o Barão.
Em louca disparada, corria o auto na escuridão da noite.
Já se via Pawlosk, a rua principal, aqui... a travessa, mais uma curva forte, e o carro parava brecado por segura mão, junto à compacta multidão que olhava horrorizada a vila em chamas.
Rothschild saltou para fora, rompeu, sem consideração nenhuma, a multidão, e chegou à casa sinistrada.
Sem reflectir um segundo, penetrou por meio das chamas e do fumo em direcção à escada, que conduzia à torre.
Os habitantes da vila haviam se acomodado mais cedo do que de costume, pois que Larissa necessitava de descanso.
O fogo irrompera na cozinha, que ficava numa das dependências da vila.
Uma das criadas havia tirado a cinza do fogão sem dar atenção às brasas que ainda restavam.
Estas atearam fogo à cesta de cinzas, que era de um tecido muito apertado e encontrava-se muito seca.
Na cozinha as labaredas achavam farto alimento.
Pelo fumo e pelo estalar do fogo, despertaram, primeiramente os criados, que deram o alarme.
Felizmente o telefone não fora alcançado e o major Bakulim pudera pôr-se em contacto com os bombeiros que, em poucos minutos, encontravam-se no local do sinistro.
A cozinha estava tomada pelo fogo, que começava a atingir a torre e o telhado do edifício.
Depois de retirar sua esposa da casa, mandou o major uma das criadas ir ter ao quarto de Valéria, a fim de despertá-la e auxiliá-la.
Mas a escada já estava cheia de fumaça, de sorte que a criada não ousou transpô-la e cuidou de salvar, antes, os seus próprios haveres.
Só os gritos dos bombeiros despertaram Valéria.
Rápida vestiu-se e dirigiu-se à porta.
Mas nem bem abriu-a, uma nuvem de fumaça veio-lhe ao rosto, obrigando-a a fechar a porta de novo.
Na tentativa de encontrar socorro por outro lado, arrebentou as janelas.
O major, que recolhera à esposa à casa de um vizinho, voltara em busca de Valéria.
O tinir das vidraças partidas, levou-o a olhar para o alto, onde viu, nas janelas da torre, o rosto aflito de Valéria.
Tomou então as providências para a salvação da infeliz.
A escada não ardia ainda; mas estava invadida pela fumaça.
Tocadas pelo vento, as chamas já tomavam uma parte do corredor.
A fumaça, compacta e asfixiante, não deixava os bombeiros passarem.
Pela parte exterior, não foi possível alçar uma escada:
as labaredas envolviam, por todos os lados, a torre.
O major estava quase desanimado.
Ele próprio tentou passar através da escada, para o telhado.
À janela, porém, já não via Valéria.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:33 pm

Acenavam-lhe e gritavam:
ela deveria saltar para ser colhida por uma rede que, em baixo, haviam esticado.
Mas embalde... Valéria não respondia.
Quase que sem sentidos, ela caíra junto da janela e orava.
Os brados que subiam de fora, ela quase já não os ouvia mais.
Em seus sentidos, apenas a lembrança do esposo e do filho demoravam.
De repente, estremeceu.
Um violento golpe de ar frio alcançou-a.
Ganhando alento, ergueu a cabeça e não quis acreditar em sua vista, quando viu Rothschild muito pálido, na porta.
Não teve tempo para reflectir.
Rapidamente ele se aproximou, ergueu-a, e, nos braços firmes, arrebatou-a pelo corredor, descendo através do fogo e do fumo, sobre os degraus oscilantes e abrasados da escada.
Ninguém observara a entrada de Rothschild na casa.
A confusão aumentara.
Finalmente, um bombeiro decidira-se, mais uma vez, tentar salvar a moça.
Chegara somente ao pé da escada, porém, quando viu, através da fumaça e das chamas, um homem que, correndo, descia as escadas, trazendo nos braços a senhora da torre.
Como um tufão, passou por ele e, na rua, foi entregá-la, salva, a um outro bombeiro.
— Pawel! Graças a Deus...
Tu salvaste Valéria...
O Major Bakulim vira Rothschild e correra para ele.
Nesse momento, porém, ruía uma ala lateral, e a atenção do Major desviou-se do Barão.
Rothschild aproveitou-se desse momento para, conforme indicação de Sir Gerald, desaparecer no meio do povo.
Tomou seu auto e, às pressas, regressou a S. Petersburgo.
Quando o Major procurou o Barão, este tinha desaparecido.
Debalde procuraram-no, e finalmente espalhou-se o boato de que ele se aproximara demais do prédio em chamas e fora atingido pelas vigas que caíam, ficando sob os escombros.
A massa popular e os bombeiros não o conheciam, mas o Major e a criadagem afirmavam tê-lo visto distintamente.
Transportaram Valéria para o local em que se encontrava Larissa, e onde a moça retomou a si.
Entrementes os bombeiros tentavam dominar o fogo.
Depois de meia hora, tinham conseguido extinguir parcialmente o incêndio, e puderam iniciar as buscas de Rothschild que, ao se supunha, perecera sob os escombros.
O major lamentava profundamente a morte desse homem que tanto prezava, que não foi encontrado.
Enquanto em Pawlosk procurava-se, inutilmente o seu cadáver, depois de uma louca corrida, quase que totalmente exaurido, Rothschild chegava a sua casa.
A criadagem dormia, e ele pôde chegar aos seus aposentos sem ser visto.
Como um embriagado, avançou até a poltrona, onde se assentou.
Sentia-se muito fraco, e com as mãos em fogo.
Só então notou que tinha as mães inteiramente recobertas de bolhas de queimaduras, e que o próprio cabelo trazia chamuscado, a roupa suja e em parte destruída pelas chamas.
Depois de descansar um pouco, retirou de sua mala algumas pomadas e essências, com as quais friccionou as mãos e o rosto.
Depois tomou um copo de vinho e tocou a campainha, chamando Sawely.
Alguns minutos se passaram antes que o velho viesse.
— Sim, meu velho, estou em óptimas condições, pois não?
Quis experimentar uma nova mistura química no laboratório e queimei um pouco as mãos... - Explicou sorrindo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:33 pm

— Mas senhor, com essas vossas experiências, podereis sofrer ainda um grave acidente!
E o vosso robe de chambre novo, vede como está!
Meu Deus! Meu Deus!
Como se tivesse limpado, com ele, a chaminé...
0 Respondeu Sawely com ligeira admoestação, porém respeitosamente.
Quando encontrou o banho posto, Rothschild deitou na água algumas gotas de uma essência que a deixaram com uma leitosa cor.
Depois do banho, sentiu-se reconfortado e voltou satisfeito ao seu quarto.
Sawely deveria trazer-lhe qualquer coisa para comer.
Sawely, porém, demorou-se muito, de modo que Rothschild teve que premer de novo a campainha.
Então, um tanto embaraçado regressou o criado.
— Acabam de telefonar de Pawlosk, porém não pude entender nada.
Parece que, em virtude de um incêndio, todos perderam o juízo...
Rothschild lembrou-se de Sir Gerald:
— O que houve?
Diz-me, o que te disseram pelo telefone?
— A vila do major Bakulim foi devorada pelo fogo.
Dizem que não morreu ninguém e que apenas as roupas da patroa ficaram perdidas.
Pedem que lhes mandemos outras.
Mas vós, senhor, ao que dizem, morrestes no desastre.
Os bombeiros não puderam encontrar, até agora, o vosso cadáver.
Provavelmente enlouqueceram...
— Diz-lhes que estou com vida e com saúde, e que podes provar que não me afastei de casa.
— Foi o próprio senhor major quem telefonou, e quando eu disse que viria dar-vos a informação a respeito e dizer-vos que a senhora baronesa estava salva, e que não era preciso procurar-vos lá, pois que estáveis aqui, e acabáveis de sair do banho, o senhor major se exaltou comigo, disse-me que me retirasse do aparelho e chamasse outro criado que não estivesse embriagado.
Eu que nunca, em toda a minha vida tomei um trago de vodka, hei-de estar embriagado?
Não, senhor!
Fazei-me um favor:
ide vós mesmo ao telefone - Disse o velho Sawely profundamente magoado com a observação do major.
Rothschild riu-se francamente:
— Tranquiliza-te meu velho!
Irei eu mesmo falar ao major.
Sorridente aproximou-se do aparelho e colocou o fone ao ouvido.
- Boa noite, Piotr Petrowistch! - Disse amavelmente.
O meu velho Sawely acaba de dizer-me, muito emocionado, que procuras o meu cadáver entre os escombros da tua vila.
Como foi que tiveste essa ideia genial?
Não tinha me lembrado ainda de morrer, e, pelo contrário, tenciono ainda viver muitos anos, para alegria minha e de meus amigos!
Diz-me, agora, como estão Larissa e Valéria, e como se originou o sinistro?
— Mas, com todos os demónios!!!
Tu és então um diabo ou podes te dividir em dois?
Eu e minha criadagem temos certeza de termos visto a ti aqui...
E, graças a Deus não estamos embriagados! - Disse Bakulim irritado!
— Desculpa-me, caro Piotr mas não posso, sinceramente, dizer-te a quem viste.
Apenas posso afirmar-te que não arredei o pé de casa.
Fazia, justamente, no meu laboratório, uma experiência que falhou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:33 pm

Queimei-me com isso, ligeiramente, e sujei-me bastante.
Por isso tomei um banho.
Mas, diz-me agora, pelo amor de Deus qual é o estado de tua esposa e de Valéria?
— Minha mulher escapou com um grande susto apenas, e Valéria sofreu um profundo desmaio, do qual, entretanto, voltou logo, ela sofre fortes dores de cabeça motivadas pela fumaça que quase a asfixiou.
Mas não há perigo nenhum, dizem os médicos.
Necessita tão somente de repouso.
Manda alguns vestidos para tua esposa, pois os que trouxe se queimaram.
— Eu próprio irei, amanhã cedo, e levarei tudo.
— Então até amanhã.
Contudo eu te vi aqui, senhor feiticeiro...
Murmurou Bakulim depondo o fone, porém esquecido de que Rothschild podia ainda ouvir.
Rindo, Rothschild voltou ao seu quarto.
Pedindo que o acordassem às nove, deitou-se.
Sentia-se inteiramente feliz.
O que, naquele dia pudera realizar, pagava com farta recompensa os seus cinco anos de trabalhos esforçados.
X X X
Depois de sua conversa com Rothschild, o major mandou suspender a procura do suposto morro e tentou salvar o que podia ser salvo.
O estrago, felizmente, não era tão grande quanto de princípio parecia.
Como o corpo principal da casa fosse de tijolos, foi possível preservá-lo de fogo.
Da cozinha e da torre, porém, só restavam as vigas carbonizadas.
A vila para o qual a família transladou-se, pertencia igualmente ao major Bakulim, que a alugava durante o verão.
Estava então desocupada, e o major pode instalar-se ali.
A emoção sofrida, não deixara Larissa dormir.
Logo de manhã, bem cedo, fez-se ela transportar à sala de visitas, onde esperou o marido.
Um pouco fatigado chegou, momentos depois, o major, satisfeito por ter podido salvar quase tudo.
— Pelo amor de Deus, Pedro, diz-me, o que falavas lá em baixo?
Que história é essa com o Barão?
Não compreendi nada do que falavas com Mascha.
Ele esteve presente e pereceu no incêndio?
Seria horrível demais...
Que golpe para a pobre Valéria!
Depois disso tudo, sinto-me como uma pilha eléctrica...
— Sê tranquila!
O mestre feiticeiro vive, e até falei com ele pelo telefone.
Entretanto eu mesmo o vi, quando saiu da torre, trazendo Valéria nos braços.
Um minuto depois ruía a escada e me é absolutamente inexplicável que ela ainda tenha suportado o peso de duas pessoas!
Enquanto eu, um bombeiro, e diversos dos criados o vimos aqui, distintamente, o feiticeiro tomava um banho em sua casa, o que Sawely pode testemunhar.
Dou a minha cabeça a cortar, se o demo não esteve metido neste negócio... - Terminou Bakulim exaltado.
Valéria ao retornar a si também não pudera conciliar o sono.
Recordava-se perfeitamente bem de que o esposo surgira na porta do quarto, a erguera e transportara através do fogo e do fumo, para fora.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:33 pm

Não podia, porém compreender como ele pudera chegar de noite e tão depressa de S. Petersburgo.
O seu aparecimento, também, fora tão singular!
Todos esses pensamentos produziam-lhe fortes dores de cabeça e apenas de madrugada conseguiu conciliar o sono.
E acordou tarde.
Vestindo um roupão de sua tia, saiu a ver o que sucedera.
O major voltara ao local do sinistro e Larissa estava a sós na sala.
Larissa temia que o boato da morte de Rothschild, tivesse igualmente, chegado aos ouvidos de Valéria.
Por isso apressou-se em tranquilizá-la, narrando-lhe os sucessos extraordinários.
Valéria empalideceu e calou-se pensativa.
De súbito, porém, atirou-se de joelhos aos pés de Larissa, soluçando.
— É verdade, sim...
Ele me salvou, eu própria o vi e o reconheci.
-Não sei como pôde fazer isso... com toda a certeza com o que aprendeu.
— Ele aprendeu a dominar forças que desconhecemos, e assim te salvou.
Afinal, não foi em vão que ele passou cinco anos como discípulo de Sir Gerald.
Pressentiu o perigo que te ameaçava, e, por aí, podes verificar o quanto te ama.
Tu, porém, não és boa para ele!
— Tens razão, titia...
Sou injusta e ingrata, e ele ê tão bom, paciente e condescendente para comigo!
Mas eu temo o seu saber!
Ele sabe ler os meus pensamentos e, como vimos agora, pressentir e prever as coisas.
Agora compreendo que ele não pode mais ser como outrora.
Sou culpada, e desejaria concertar tudo.
Mas não sei como fazer...
Ajuda-me titia...
Larissa atraiu-a a si e beijou-a:
— Tudo quanto me disseste, poderás consertar, querida filha.
Não sejas mais caprichosa e injusta, mas franca e positiva como o és por natureza.
Deixa-o ler os teus pensamentos.
Nada tens a ocultar, enfim!
Procura compreendê-lo, ser-lhe amiga e companheira.
Crê-me, uma explicação franca é muito melhor do que um falso orgulho, que não pode existir entre esposos.
Valéria ergueu-se resolvida:
— Tens razão, titia.
Quero amá-lo como ele o merece, sincera e dedicadamente.
Não desejo perturbá-lo em seus trabalhos, posso pedir-lhe todavia, que faça de mim uma sua discípula.
Um criado anunciava a chegada de Rothschild que, acompanhado do major Bakulim, entrava logo em seguida.
Mostravam-se ambos alegres.
— Valéria, trago-te o teu feiticeiro-mor.
Ainda agora ele nega que tenha estado aqui.
Tu, porém, deverás saber quem te salvou.
— Eu estava desmaiada e nada vi... - Redarguiu Valéria acanhada.
E, naquele momento, pela primeira vez, ela retribuiu o beijo que, cumprimentando-a, o Barão depositou-lhe na face.
Rothschild trouxera consigo a criada de quarto da esposa, com a necessária roupa, e a moça correu ao quarto para se vestir.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:33 pm

Logo depois de refeição, o casal Rothschild regressou a S. Petersburgo.
Durante o percurso, não falaram de outra coisa que não fosse o incêndio, e, ao chegarem à residência,
Rothschild recolheu-se logo aos seus aposentos.
Com uma pontinha de vergonha e levemente agastada, Valéria, igualmente, subiu para seu quarto.
Mas, daquela vez, vencendo os seus sentimentos de cabeça erguida, procurou os apartamentos do esposo.
Sem fazer ruído, levantou os reposteiros e entrou.
Diante da lareira, sentado na sua poltrona favorita, Rothschild alheara-se em profundos pensamentos.
Ele não ouvira o frufru do vestido de Valéria.
Seu perfil altivo, recortava-se diante do clarão vermelho do braseiro.
Suas sobrancelhas cerravam-se impenetravelmente e o seu olhar perdia-se nos retratos do Conde Rindolfo e de Sir Gerald, que tinha pela frente.
Este último envolvia-se nos seus trajes indianos.
O seu olhar indevassável olhava a seu contemplador e tinha a expressão enigmática que somente as criaturas que pairam entre o mundo material e o mundo espiritual podem observar.
Com o coração palpitante, Valéria contemplava o esposo.
Em que pensaria ele?
Com certeza em alguma coisa distante, e que não estava entre as paredes da casa.
Ele dissera um dia:
— A alma pode voar pelo espaço infinito quanto sabe desprender-se da prisão do corpo.
Durante um momento, Valéria hesitou ainda, mas, então, com passos firmes, avançou para o esposo e ajoelhou-se diante da poltrona dele, descansando a cabeça sobre a sua mão.
— Perdoa-me, Pawel, o ter sido tola e má para contigo!
Só ontem, durante as horas da noite, compreendi o que te tornaste com os teus trabalhos...
As lágrimas embargavam-lhe a voz.
Rothschild estremecera, e nos seus olhos nadou um brilho chamejante.
Atraiu Valéria para si e beijou-a na boca, ardentemente.
— Meu amor, nada tenho a perdoar-te, pois a provação que tiveste que suportar foi pesada, e o teu rancor para comigo justificável...
Agora me dás de novo o teu coração e eu espero, cheio de fé, que queiras participar da minha missão e da minha vida!
Assim, me restituis toda a minha felicidade...
— Sim, Pawel, desejo merecer-te!
Desejo dizer-me tua esposa e amar-te não somente como meu esposo, mas também como meu amigo e mestre.
Toma-me por tua discípula e eu farei tudo por compreender-te.
Sinto-me bem aqui, em teu gabinete de trabalhos.
Parece-me sentir entre estas paredes, uma atmosfera saturada de harmonia, e, apesar dos meus parcos conhecimentos, compreendo que somente a paz e o silêncio permitem-nos aprofundarmos no infinito mundo espiritual.
Durante os anos da nossa separação, aprendi que o bulhento mundo lá de fora, é perfeitamente dispensável à nossa felicidade!
Não me será difícil libertar-me totalmente dele para viver tão somente para ti e para o trabalho que iremos desenvolver e através do qual iremos conhecer a omnipotência de Deus.
A noite passada, me demonstrastes a força benéfica do teu saber, ao qual devo a minha vida.
Se quiseres, nos mudaremos para qualquer uma de tuas propriedades para, longe de tudo, vivermos tão somente para a conquista da sabedoria e para o nosso querido Boris.
Profundamente emocionado, Rothschild ouvia-a olhando para o seu rosto emocionado, onde os olhos da moça brilhavam intensamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:34 pm

— Giovana, vencemos, neste momento, o passado, o nosso passado que é muito mais remoto e fabuloso do que tu pensas:
Vejo que Deus perdoou minhas faltas pois, que, no limiar de minha nova vida, liberto do carma vingador, dá-me Ele a esposa com a qual até então eu apenas sonhara, a esposa que me pertence, não apenas materialmente, mas que também espiritualmente participa da minha vida.
Agradeço-te o propósito de viver comigo em qualquer uma das minhas propriedades, mas, em virtude da vontade do meu mestre, não devo ser ermitão, mas viver dentro do mundo.
E Rothschild repetiu a Valéria, tudo quanto, neste sentido, lhe dissera Sir Gerald.
— Por isso tudo devo continuar aqui, tendo maiores oportunidades e possibilidades de entrar em contacto com os erros dos homens e de tentar curá-los.
Eu mesmo, devo, sempre e sempre, submeter-me à prova, para ver se sou capaz de resistir firmemente às tentações que se aproximam.
Tu me ajudarás nisso, e repartiremos a nossa vida.
Uma parte do nosso tempo dedicaremos à sociedade e às exigências que ela nos impõe.
A outra parte, que é a mais bela, dedicaremos aos nossos estudos e ao nosso aperfeiçoamento, bem como à educação de nosso filho, tal como Deus o ordena ao homem.
Depois desta longa explicação, Valéria e Rothschild se sentiram mais próximos do que nunca.
Sabiam, agora, que já não existiam sombras entre eles.
Na noite deste dia, Rothschild descreveu à esposa a sua viagem à cidade morta e a história do príncipe Adschimitra.
Enquanto Valéria, cheia de interesse contemplava as fotografias da urbe e do grupo do dragão, Rothschild entregou-lhe os presentes de Balarama:
as jóias de Bawani.
Com grande surpresa Valéria admirou as preciosidades, não se cansando de fitá-las.
— Deverias mostrar esses objectos maravilhosos a algum arqueólogo.
Creio que nenhum mortal contemplou, jamais, coisas tão belas! — Disse ela.
Alegre, Rothschild tomou o diadema e colocou-o sobre os doirados cabelos, pondo-lhe sobre o colo, o maravilhoso colar.
— Desejaria ver-te com estas jóias quando retornar a bela estação...
E por falar em estação, este inverno ainda nos manteremos aqui.
Entretanto, quando chegar o verão, partiremos para o nosso velho e querido Montinhoso.
— Queres mesmo ir a Montinhoso?
Sempre pensei que esse lugar te fosse desagradável.
Gosto, porém, imensamente de Montinhoso, e alegro-me como uma criança, à simples ideia de tornar até lá.
— E porque Montinhoso haveria de ser-me desagradável?
O velho castelo, bem como os seus proprietários, libertaram-se.
Fundaremos ali, um asilo para a velhice desamparada, como há muito imaginei.
Entre os muros em que o criminoso Paulo foi alcançado pela Némesis vingativa, de agora em diante irão encontrar agasalho os velhinhos desprotegidos e aleijados.
— Como há-de estar contente o espírito do velho Conde Rindolfo, vendo-nos agora, a caminho do aperfeiçoamento.
Eu desejaria, imensamente, saber se ele me perdoou de todo, se retirou de sobre minha cabeça a terrível maldição que me lançou... - Disse Valéria.
— Em amargo momento ele te maldisse, mas, com certeza, já de há muito te perdoou.
Queres vê-lo e ouvir de sua própria boca o seu perdão?
— Mas seria possível?
Como o chamarias?
E não seria impressionante, agora, com as trevas da noite? - Perguntou Valéria medrosa.
— Não, Valéria!
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 9:34 pm

Ele virá à plena claridade, e te surgirá como qualquer vivente.
De sua caixa Rothschild retirou uma vara com sete pontas, colocou-se diante do retrato do Conde Rindolfo e traçou um círculo que, imediatamente, fosforescendo, ficou brilhando no ar.
Em voz alta pronunciou algumas fórmulas.
O retrato foi envolvido por uma nuvem, no qual começou a girar uma bola luminosa.
A nuvem tomou então uma forma humana, ganhou contornos e diante de ambos surgiu a figura do Conde Rindolfo.
Como no retrato, vestia o paletó preto e conservava o mesmo rosto sereno e sorridente.
A aparição aproximou-se mais e estendeu a mão a Valéria.
Por um momento ela hesitou, mas, em seguida prostrou-se de joelhos e pousou os lábios sobre a mão quente e viva.
— Eu te agradeço, tio Rindolfo, e nunca hei de me esquecer de ti... — Disse Valéria chorando baixinho.
A aparição estendeu as mãos abençoantes sobre a cabeça de Valéria, abraçou a Paulo e beijou-o na testa.
Alguns segundos depois tudo desaparecera...
— Oh! Quanto sou feliz!
Ele me perdoou e abençoou!
Que belo dia, Pawel! - Disse Valéria satisfeita.
Só falta uma coisa...
— Ainda não agradecemos a Sir Gerald, o nosso benfeitor!
— Sim! Escrever-lhe-emos imediatamente para lhe agradecermos todo o benefício que nos fez.
— Escrever-lhe? Não!
Nós lhe explicaremos verbalmente o nosso agradecimento.
Para casos de urgência, confiou-me ele um segredo mediante o qual posso encontrá-lo e vê-lo a qualquer hora.
Mas deves jurar-me que ninguém, jamais, saberá qualquer coisa a respeito.
Valéria prestou-lhe um severo juramento.
Então, Rothschild abriu o escrínio da parede, e pôs o aparelho em movimento.
As ondas atmosféricas se espalharam e, em breve, viam eles o quarto de Sir Gerald, no castelo indiano.
Ele estava à janela, e parecia emitir uma suave luz azulada.
Imediatamente volveu a cabeça e cumprimentou o par com um sorriso e um aceno de mão.
Rothschild atraiu Valéria a si e ambos fitaram o mago.
— Meu caro mestre e benfeitor:
vide a nossa união, que a si devemos.
Abençoai-nos e guiai os nossos passos na senda do aperfeiçoamento do nosso espírito.
Sir Gerald ergueu a mão e uma viva luz partiu dela, envolvendo o casal.
— Congratulo-me convosco e vos abençoo, queridos filhos.
O passado foi riscado da vossa vida, e vos encontrais no limiar de um risonho futuro.
O vosso amor vos protegerá de todos os perigos nesta senda de purificação.
Nunca esqueçais, porém, de que, para aqueles que conseguem levantar o véu de Ísis, não existe retorno.
A ascensão é árdua, e somente a força da bondade poderá valer-vos, amparar-vos, orientar-vos para a frente.
Assim, pois, segui subindo, ao encontro da luz.
Lá vos aguardará a recompensa que receberão todos aqueles que venceram sobre os pecados de sua carne...
Abençoando, o mago estendeu os braços e a sua imagem esvaneceu-se no aparelho, que se imobilizou.
Durante alguns minutos, Valéria e Rothschild estiveram em silêncio.
Rothschild respirou profundamente.
— Sim... para nós que já vimos e conhecemos tanto, não é possível voltar atrás.
Olhemos, pois, corajosamente para a frente e esforcemo-nos pela luz, que este é o desejo de Deus, o Pai Omnipotente!

§.§.§- O-canto-da-ave
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