Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:07 pm

O italiano, como é sabido, é por demais supersticioso.
Assim, o Marquês espera um estrangeiro milionário, a quem a posição romanesca do castelo apaixone sem cogitações de valor e rendas.
Rothschild escutava atentamente e interrompeu:
— Mas quem é o herói ou a heroína do drama desenrolado aqui!
Não será isso conhecido?
E que pecado terá sido o dele?
— Bernardino evita o quanto possível, falar disso.
Se tem medo, ou vergonha, não sei.
De Savéria, sua mulher, porém, ouvi que o personagem dessas lendas é um certo conde, Paulo de Montinhoso, que reunia e representava um tipo de Dom Juan e César Borga.
Algumas mulheres, como é de supor-se, estão também envolvidas nas legendas, e uma delas chamava-se Giovana.
De todas, uma foi morta por Paulo a pancadas, outra, dizem, estrangulada, e uma terceira ludibriada.
Então, as almas dessas vítimas, e ainda outras, passaram a persegui-lo neste castelo.
Mais tarde internou-se ele num convento mas também aí não encontrou, certamente, a tranquilidade pois seu espírito ainda peregrina por aí, incessantemente, e só será liberto quando todas as suas vítimas, ou melhor, quando todos os espíritos dessas vítimas se tenham aqui reunido e reconciliado.
Helena terminou a exposição.
Nessas histórias haverá, com certeza, um fundo de verdade! - Disse Lolo.
Quando estávamos aqui há alguns dias, deu-se um facto singular.
O dia tinha sido muito quente e por isso gozávamos a frescura da noite, depois do jantar, aqui no terraço.
Savéria nos relatava justamente essa história quando ouvimos de repente, dentre as árvores, um murmúrio e depois uma voz feminina, estrangulada na garganta, que gritava:
Paulo, Paulo, Maledetto!
Depois veio o ruído como que do baque de um corpo humano sobre o solo.
Savéria tremia como se tivesse febre e repetia incessantemente:
“Il spétro, il spétro”.
Mischa correu ao jardim e esquadrinhou os recantos todos, sem encontrar qualquer coisa.
De minha parte vivo suplicando a Deus que todos esses espíritos inquietos se reencontrem finalmente, e perdoem-se, para que também nós possamos ter paz.
Lolo sacudiu-se toda, involuntariamente, movida de horror.
— Eu te digo, Pawel, inda agora perpassa-me um calafrio pela espinha quando me lembro disso!
E não rias como mamãe, que não acredita em nada! - Acrescentou meio zangada.
Quando um ser invisível grita como se tivesse sendo estrangulado por outro, podem os nossos cabelos de facto eriçarem-se!
Rothschild sorriu sutilmente.
— De facto, Lolo!
Se são espíritos ou fantasmas, podem mesmo arrepiar a gente!
Prometo-te ocupar-me cuidadosamente desse assunto.
Pediremos a Dionid Tonilim o seu concurso.
Larissa também estará, certamente, do nosso lado.
Com nossas forças reunidas, haveremos de levar tranquilidade a esses lúgubres malfeitores.
Assim o espero, ao menos.
Arrepender-se-ão de suas acções e subirão, finalmente, ao paraíso.
E poderemos gozar a nossa permanência em Montinhoso com paz e segurança.
Todos riram aliviados, depois dessas palavras do Barão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:08 pm

— Também não somos todos como Lolo, que tem medo de fantasmas! - Disse Helena.
A mim, por exemplo, eles não incomodam.
Investigar todos os mistérios daqui não será muito fácil, porque foram tomadas grandes precauções no sentido de afastar os curiosos indesejáveis.
Assim é que um sucessor de Paulo mandou fechar a entrada da grande sala de recepções e de alguns outros aposentes.
Quantas são as salas fechadas não se sabe, mas a avaliar-se pelo comprimento do muro, que se estende ao longo do jardim, deve ser um bom número.
Também as janelas estão em parte muradas, e em parte guarnecidas de grades intransponíveis.
A parte inferior do muro é de tijolos, e atrás desses tijolos estão, sem dúvida, as entradas.
Mas árvores e arbustos envolveram de tal maneira, tão densamente, esse muro, que parece quase impossível a passagem.
Mischa subiu algumas vezes às árvores, para ao menos tentar ver através das janelas.
Mas não pôde ver nada.
Possivelmente estarão fechadas pela parte de dentro.
Em todo o caso seria preciso adquirir-se Montinhoso para então romper, sem empecilhos, todas as portas e janelas, invadindo-se assim o castelo encantado!
0 Concluiu Helena fitando rapidamente o sobrinho.
Rothschild silenciara, e parecia abstraído por seus pensamentos.
Distraidamente respondeu apenas às perguntas de Lolo e Miguel.
Com prazer aceitou o convite para ir ao pequeno terraço, do qual se ouviram os gritos fantasmagóricos.
Fez ainda passeio ao reder das muralhas, e somente pouco antes da ceia, regressou à companhia dos outros.
Finda a refeição, desculpou-se, e, acompanhado de Miguel, procurou o seu quarto.
Depois de dispensar o companheiro, inspeccionou a nova habitação.
O quarto era grande, e recebia a luz por uma alta janela gótica.
Além da cama e do lavatório, todos os demais móveis eram antiquíssimos.
As cadeiras, de encosto em estilo renascença, eram cobertas por um brocado antigo, entremeado de ouro.
Sobre a lareira, sobre as portas do armário, sobre os encostos das cadeiras, ainda se conservavam as armas dos Montinhoso.
As paredes, revestidas de tapeçarias, estavam ornadas de custosos gobelins.
Diante de um desses trabalhos, encostava-se uma console com figuras de porcelana e vasos.
Rothschild aproximou-se da janela e acomodou-se numa cadeira de espaldar alto e entalhado.
O panorama era o mesmo que vira do terraço. Outra vez teve à sua frente o profundo e formoso vale com o seu lago, as encostas recobertas de matas e as ruínas do convento.
Apoiou-se sobre o peitoril da janela e gozou da belíssima paisagem.
Durante esse tempo, trabalhava o seu cérebro em algo a cujo respeito ele próprio não estava ainda bem lúcido.
Uma disposição nostálgica acometeu-o, e ele, de preferência, teria chorado.
Tudo quanto via ali, parecia-lhe tão conhecido, sobretudo o quarto e a paisagem que tinha diante dos olhos!
No local em que o castelo avançava até bem próximo da montanha, deveria existir, ao que imaginava, um pequeno caminho conduzindo ao alto.
A sua fantasia situou aí um banco de pedra, e próximo dele, uma gruta que o homem ou a própria natureza escavara na rocha.
Dessa gruta deveria partir um caminho empedrado em direcção ao convento.
Respirando com dificuldade, Rothschild ergue-se.
A atmosfera do quarto oprimia-o, cortava-lhe a respiração.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:08 pm

Tinha desejos de certificar-se se os seus sentidos o traíam, se aquele banco e aquela gruta existiam apenas em uma fantasia ou materialmente.
Saiu vagarosamente do aposento.
Com uma segurança espantosa, percorreu toda a ala em completa escuridão.
Caminhando ao longo da parede que circundava o castelo, alcançou o caminho e após, ascendendo, ao tope onde, duvidando de seus olhos encontrou o banco de pedra.
Com as sobrancelhas contraídas correu os olhos ao seu redor.
— Falta ainda que eu encontre a gruta! - Murmurou.
Quis erguer-se, mas as pernas negaram-se.
Uma sensação de tonturas acometeu-o, despertando nele a sensação da queda num abismo.
Pouco a pouco a incerteza foi deixando-o, e em breve sentiu-se restabelecido.
Apenas um ligeiro desassossego permaneceu consigo.
Subitamente, julgou ouvir passos leves e apressados.
Um ruído de seda farfalhando, obrigou-o a elevar os olhos.
Um frio glacial perpassou-o quando distinguiu uma figura feminina envolta em sombrias cores.
Mas sob o capuz das vestes singulares, ele reconheceu o amável semblante de Valéria.
Cheia de um amor jubiloso, ela fitou-o, não oferecendo resistência quando atraiu-a a si, enchendo a sua boca de beijos escaldantes.
— Até que enfim, tu também estás aqui, Giovana!
Eu temia a tua ausência! - Balbuciou ele.
Não sabia ao menos porque chamava-se assim, Giovana, e não Valéria, e também não cogitava em se tinha o direito de estreitá-la nos seus braços.
— Eu te havia prometido que viria... Paulo!
Oh! Sei agora que seremos felizes... - Disse Valéria mansamente.
— Sim, Giovana, tu tens razão!
A felicidade está mais próxima de nós, agora, que antes...
Vem, pai Anselmo já espera por nós.
É preciso que estejamos de volta à casa, antes que o galo cante!...
Enlaçou-a e, apressadamente, seguiram o caminho empedrado que conduzia ao convento.
Através de uma obscura passagem de heras, chegaram a uma porta que, por si só, abriu-se diante deles.
Passaram por ela e encontraram-se numa capela.
Uma frouxa claridade iluminava o altar.
À frente deles, postavam-se vários vultos embuçados.
Sobre os degraus do altar, encontrava-se um sacerdote, cujo rosto era encoberto pelo capuz abaixado, do seu hábito de monge.
Quando Rothschild e sua companheira curvaram-se à sua frente, iniciou-se o ofício divino.
Um dos vultos encapuzados adiantou-se e afastou a capa de sobre os ombros de Valéria.
Rothschild viu-a num vestido branco, num vestido de noiva de véu entremeado de prata, com um toucado de pérolas entrelaçando-lhe os cabelos.
Quando o sacerdote colocou os anéis nupciais guarnecidos de rubis e ouro, nos dedos dos nubentes, um calafrio gelado percorreu o corpo do Barão, e, como que despertando de um sonho, reconheceu a singular dualidade de seu ser.
O que lhe sucedera?
Estava embriagado ou estava louco?
O que significa aquela encenação misteriosa, e o que desejavam os vultos embuçados metidos em seculares hábitos?
A cerimónia terminou finalmente.
Os recém-casados de tão extraordinária maneira, ergueram-se da posição genuflexa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:08 pm

Esquecido de tudo quanto o cercava, Rothschild tomou Valéria nos seus braços.
Nesse mesmo instante todavia, a donzela desfez-se no ar e desapareceu.
No extremo da capela, porém, abriu-se uma porta, e dessa aproximaram-se muitos monges, todos com círios acesos a destra.
Caminhavam aos pares, e entoavam cantochões monótonos.
Seguia-os, conduzido por homens vestidos de negro, um caixão mortuário aberto, no qual, semelhante a uma estátua de alabastro, jazia um corpo de mulher.
Era Valéria ou... Giovana!
Perplexo, Rothschild olhava a procissão.
Como que atraído por um secreto poder, aproximou-se do esquife e debruçou-se sobre a morta.
Ouviu então o ressoar de um grito horripilante:
— Perjuro! Assassino!
E a mão fria da morta segurou-o pelo pulso.
Meio alucinado de horror, ele caiu de joelhos, e apenas sentiu um vento gelado e depois, o nada...
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 26, 2016 7:08 pm

5 - A COMPRA

Aos primeiros raios de Sol nascente, Rothschild abriu os olhos e admirado, olhou ao seu redor.
Estava deitado sobre o solo, junto ao banco.
Um peso incrível, sobre os membros abatia-o.
Lançando mão de um supremo esforço ergueu-se, pondo-se logo em movimento.
— Assim terminarei por contrair qualquer moléstia ou inutilizar para sempre os meus nervos, aliás já bem atacados.
Murmurou de si para consigo.
Correndo como em fuga, regressou ao castelo.
Em seu quarto engoliu às pressas um copo de vinho, deitou-se e adormeceu logo.
Ao meio dia despertou desse sono.
— Deus do Céu com certeza todos já terão almoçado.
O que dirá tia Helena?
Vestiu-se às pressas.
No refeitório encontrou a dona da casa e Larissa.
— Muito bom dia, Pawel.
Isto é que se chama dormir, hein?
Parece que os fantasmas de Montinhoso não te aborreceram! - Disse Helena, cumprimentando-o.
— A senhora me desculpe, prezada tia, por aparecer tão tarde.
Mas eu só pude dormir com muita dificuldade, e por isso recuperei o sono pela manhã...
Explicou Rothschild beijando, respeitosamente, as mãos das senhoras.
— Bem, aqui tens o café.
Assenta-te e toma-o.
Quando vierem as nossas jovens damas, teremos a refeição completa. - Disse Helena, passando o café ao sobrinho.
— Permiti-me que pergunte como passa Valéria.
Restabeleceu-se ela da vertigem de ontem? - Perguntou Rotschild.
— Obrigada, - Respondeu Larissa.
Graças a Deus dormiu bem e foi agora dar um passeio na companhia de Loló.
Alguns minutos depois regressavam as jovens senhoritas, Loló corada, alegre e sorridente, Valéria provocante num vestido branco com um ramo colorido de flores à cintura, mas um tanto pálida e de aspecto abatido.
Quando encontrou Rothschild corou ligeiramente e evitou fitá-lo.
— O seu aspecto não será o de quem também participou comigo o sonho do casamento? - Pensou o Barão.
Por Deus, interessantes atrapalhações preparam-se se isso continuar assim.
Mas de sua parte decidiu que não levaria esses pensamentos levianos a sério.
Furtivamente pôs-se a observar Valéria, e notou que cada vez que seus olhares tocavam-se, a moça vexava-se, e enrubescia.
Involuntariamente, vieram-lhe à lembrança as palavras ouvidas no decorrer da noite:
“Perjuro! Embusteiro! Assassino!” Estremeceu.
Não seria de facto um bígamo e um perjuro, se os sucessos nocturnos não fossem apenas um sonho?!
Extraordinário seria, realmente, se Valéria tivesse tido o mesmo sonho.
Se os espíritas têm razão e nós não vivemos apenas uma vez, então qualquer sucesso misterioso o prendia sem dúvida, àquela senhorinha, que em seu sonho chamara Giovana...
Depois do almoço fizeram um passeio em comum.
Riccioto, o filho do alcaide, acompanhou-os.
Uma grande parte do castelo já estava bastante arruinada e inabitável.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:55 pm

Num flanco mais ou menos conservado, via-se um longo corredor, do qual, um dos lados, era ocupado por uma sequência de celas, enquanto que o outro voltava-se para o jardim, abrindo-se em arcos góticos.
Durante a visita às ruínas, Rothschild sentiu-se de novo invadido pela desagradável sensação.
Outra vez tudo aquilo que estava vendo pela primeira vez, parecia-lhe conhecido e familiar.
O longo corredor, com a arcada gótica, parecia-lhe ser o mesmo vislumbrado através de seus sonhos.
Quando penetraram no velho cemitério, que se estendia ao longo dos muros do antigo convento, o Barão observou um pequeno cômoro que sobressaía da vegetação.
Afastou os galhos e encontrou uma abertura, que, outrora, certamente prendera uma porta.
Os degraus de pedra, ainda bem conservados, conduziam, sem dúvida, a qualquer calabouço ou quiçá a uma catacumba.
No percurso da escadaria, foi barrado por uma porta de ferro que procurou, ainda que não visse nela quaisquer fechaduras, forçar, sem resultado.
— Este é o jazigo da família dos Condes de Montinhoso. - Explicou Riccioto.
A porta está fechada.
— Admira-me que, pertencendo a uma estirpe desde há muito extinta, este jazigo não tenha ainda sido violado pelos ladrões! - Observou Rothschild.
— Não, senhor!
De todos os moradores das cercanias, nenhum terá, por certo, o menor desejo de entregar sua alma ao diabo o que se daria, inevitavelmente se ouvisse tocar em qualquer coisa deste lugar habitado por maus espíritos! - Retrucou o jovem guia.
— Mas então sobre todos os Condes de Montinhoso pesa a excomunhão? - Perguntou Larissa.
— Chi Io sa? Todos foram homens rudes e maus.
O último, é verdade, foi um homem bom, mas excêntrico.
Como seu pai, também ele não quis ser sepultado neste jazigo.
As sepulturas de ambos encontram-se no cemitério público.
Mas todos os outros condes, à excepção do Conde Paulo, o Maledetto, repousam aqui. Paulo tem um jazigo separado! - Disse Ricciotto.
Em caminho de regresso, Larissa estendeu aos demais a sua admiração quanto à extraordinária firmeza com que a recordação deste ou daquele episódio transcorrido há séculos, ficara gravado na memória do povo.
— Mesmo os nomes dos heróis legendários são transmitidos de geração em geração!
Quanto a Rothschild, estava de tal maneira sob a influência, que não tinha senão um único desejo:
saber o que continha a parte murada do castelo, o que havia naquelas lendas de realidade e de invencionice, o que se passara aí, em verdade, e que parecia tão intimamente ligado ao curso do seu destino.
Bem cedo amadureceu-lhe no espírito o plano de adquirir o castelo Montinhoso se o preço não fosse muito elevado.
Ainda que não pudesse, desde logo, dispor da necessária importância, muito embora herdeiro de milhões e milhões - não lhe parecia difícil entusiasmar o tio.
Resolveu, então, escrever no dia seguinte, abordando o assunto.
Depois do almoço, fez encilhar o cavalo, e, sob pretexto de desejar visitar a igrejinha da vila, bem como efectuar pequenas compras, partiu.
Era um princípio fundamental em Helena, conceder aos seus hóspedes a mais ampla liberdade de acção.
Chegando à cidadezinha, Rothschild dirigiu-se em primeiro lugar ao notário, do qual soube que o castelo, com tudo quanto lhe pertencia, estava à venda pela insignificância de 50 mil liras.
— O marquês de Bianco, um homem rico, aliás, quer se ver livre dessa propriedade, que herdou - e ficaria, naturalmente, muito satisfeito que se encontrasse um comprador - Disse o notário.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:55 pm

Rothschild comunicou-lhe a sua inteira intenção de adquiri-lo; mas precisava, antes, obter o dinheiro necessário.
Pediu ao notário que não vendesse o castelo por enquanto, pois aguardava notícias da Rússia.
Quando já tinha no bolso uma declaração nesse sentido, dirigiu-se ao hotel, escrevendo daí uma carta detalhada ao tio.
Pedia-lhe insistentemente, lhe concedesse a importância necessária à essa compra.
“Com toda a franqueza, prezado tio, essa compra é altamente interessante, pois o castelo, tanto quanto se pode ver, está literalmente abarrotado de maravilhosos móveis da Renascença, de pinturas e tecidos de brocados.
E como até agora não te dei motivo para estares descontente comigo, espero, com toda certeza, que não me negarás este obséquio.” - Concluiu ele.
Desde esse dia, manifestou-se um grande nervosismo em Rothschild.
Febrilmente ele aguardava a resposta do tio, e de dia a dia mais desejava ter Montinhoso por sua propriedade.
Também os seus singulares estágios de sonhos se manifestavam mais fortes.
Estava convencido da dualidade do seu eu.
Esse segundo eu, que lhe surgira do passado, tornava-o escravo de uma outra.
A sua vida normal, a sua existência momentânea, parecia-lhe sem consolo e vazia: enojava-o.
A mesma dissensão manifestou-se também no seu convívio com Valéria.
Se a encontrava durante o dia, às refeições ou no decorrer dos passeios, ela infiltrava-lhe aversão e pensamentos hostis; tornava-se então breve e comedido.
Mas quando à noite encontrava-se a sós, no silêncio do seu quarto, das profundezas de sua alma erguia-se uma paixão escaldante para com a jovem, e vinha-lhe o desejo de revelar-lhe esse sentimento.
Também Valéria sentia-se sob o domínio do mesmo estado emocional.
Durante o dia permanecia calma, palestrando admiravelmente com Lolo e Miguel.
À noite, porém, não encontrava sossego ante as perseguidoras imagens dos sonhos.
Via sempre, à sua frente, o semblante do Barão, cujo olhar apaixonado parecia querer penetrá-la.
Muitas vezes supunha até mesmo sentir-lhe o hálito quente junto à face.
Então assenhorava-se dela o sentimento de uma profunda inclinação para com Rothschild, e não via barreiras à sua frente que pudessem servir de obstáculos à sua fuga na direcção dele.
E isso até que de novo se apoderava dela uma forte aversão para com o homem, sobre cuja origem e carácter tão poucos esclarecimentos pudera obter.
Cerca de três semanas haviam passado; Rothschild, sem intenção especial, nada revelara acerca de sua visita ao notário.
Quando, pois, chegou uma carta de seu tio capeando um cheque sobre o Banco de Florença, também a esse respeito nada disse a ninguém.
As conferências com o notário, ele conservou-as em segredo.
A compra da propriedade foi levada a termo e faltavam apenas algumas formalidades para torná-la efectiva.
Somente depois de completamente liquidado, estando ele na posse completa do castelo, Rothschild pretendia falar sobre o negócio.
Queria surpreender a tia, que, então se tornaria sua hóspede!
Uma noite em que todos se achavam no terraço chamaram a velha Savéria e lhe pediram que relatasse as lendas que conhecia sobre Montinhoso.
Não deveria, contudo, silenciar sobre as tradições que se referiam à parte murada do castelo.
Mas não foi possível arrancar muita coisa à velha.
A presença de Rothschild parecia inquietá-la; de quando em vez lançava olhares tímidos sobre o rosto pálido do Barão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:56 pm

— Sim, se eu dispusesse de capitais um pouquinho maiores, compraria logo Montinhoso! - Disse ele caçoando.
- Então iríamos penetrar livremente nos aposentos misteriosos, levantar o véu do mistério que envolve este castelo.
Estas salas são tão velhas e mofadas, que um pouco de ar e luz não lhes poderiam fazer mal.
— Escreve ao tio, Pawel. - Disse Larissa.
Estou plenamente convencida de que ele não te negará esse pequenino favor.
— Se eu tivesse dinheiro disponível, Montinhoso seria minha propriedade. - Disse Helena.
Mas espero, que, se Pawel tornar-se realmente o proprietário deste castelo encantado, não nos negará hospitalidade!
Estou ansiosa por penetrar no paraíso maldito, para além das portas e janelas muradas.
Os fantasmas absolutamente não me amedrontam.
— Olha, Pawel, - disse Lolo - eu só posso dar este conselho:
se adquirires Montinhoso não franqueies as portas fechadas.
Só Deus sabe quais os crimes aí cometidos!
Eu não viveria aqui por dinheiro nenhum, depois de abertas essas portas e janelas muradas.
— Tranquiliza-te pequena Lolo!
E carinhosamente Rothschild acariciou a prima.
- Se eu fosse proprietário deste castelo, certamente escolheria um outro caminho para chegar à ala misteriosa.
Já me tenho orientado minuciosamente.
Por aí deve existir uma capela.
Uma das paredes laterais dessa capela, que é ligada à parede do castelo, oculta, positivamente, uma passagem secreta para a respectiva ala.
Afastando os galhos e os arbustos que são muito densos nesse lugar, e rompendo um pouco o muro, haveremos de por força, encontrar a porta.
Nem bem pronunciara essas palavras, e ouviram distintamente, um tanger de sinos, ao qual seguiu-se, em breve, lamentoso coro fúnebre.
Todos ergueram-se excitados.
Mas, na escuridão não se podia ver nada.
Através do silêncio que se estabeleceu somente ouvia-se, mais distintamente agora, o dobre angustiado e os cânticos soturnos...
De repente, cessou tudo.
— De onde virá isto? - Perguntou Miguel, admirado.
Sabes alguma coisa a respeito, Savéria?
Há talvez alguma igreja pelas vizinhanças...
Mas Savéria estava incapaz de responder.
Fantasticamente pálida, encostou-se à parede.
Seus dentes entrechocavam-se como se estivesse com febre alta.
— Mas, Savéria, como podes ser supersticiosa assim, a ponto de o mais leve ruído produzir-te semelhante excitação? - Disse Helena.
— Não, signora, não é um ruído inocente.
Estes sinos não indicam boa coisa... - Respondeu Savéria.
— Qual, tolices!
Em qualquer igreja próxima repicam sinos.
E isto já há de ter uma má significação?
Tenha vergonha, Savéria!
— Signora, em muitas milhas em redor não existe nenhuma igreja.
O meu bondoso e velho Signore, me disse muitas vezes:
“Savéria, quando nas ruínas do castelo ouvires os monges cantando o DE PROFUNDIS, e os sinos dobrarem, acautela-te.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:56 pm

Isto quer dizer que todos aqueles que outrora aqui viveram, estão de volta!
Novas lutas, paixões e blasfémias se erguerão deles.
Mas ninguém será capaz de desvendar os segredos do passado”.
— Mas Savéria, como podem as criaturas mortas e sepultadas há séculos, voltar de novo?
Será possível que o teu falecido senhor tenha te levado a crer nessas tolices?
Ou sofria ele de alguma mania? - Perguntou a incrédula Helena.
— Oh! Não Signora, o Conde Taddeu não era louco, e sabia mais do que muita gente!
Durante a sua vida, estudou os artigos das crónicas da família.
Era religioso, e Deus o fez, em compensação, clarividente!
Ele me disse muitas vezes:
“Eu vi e sei muitas coisas!
Eu te digo:
quando eles voltarem, os que aqui viveram e pecaram outrora, quando se tornarem outra vez senhores deste infeliz castelo, sob o qual pesa a grande maldição, tudo quanto dantes se deu, se repetirá.
Estão marcados pela justiça, ainda não se arrependeram e não purgaram as suas faltas.
Como isto se dará, não sei Signora.
Mas o meu Signore o sabia; e uma prova disto é o DE PROFUNDIS, o dobre dos sinos que há pouco ouvimos.
Savéria inclinou-se perante os presentes e afastou-se depressa.
Seguiu-se um breve silêncio.
Todos se encontravam sob a impressão dos estranhos sucessos, mesmo a céptica Helena, embora não o quisesse confessar nem a si mesmo.
Paulatinamente, a palestra em comum foi-se tornando tão viva como anteriormente.
Depois, retiraram-se uns após outros.
Em seu quarto, Valéria substituiu o vestido por um elegante roupão, e soltou os cabelos.
Como ainda não tivesse disposição para dormir, escreveu uma longa carta à mãe.
Terminando. sentiu-se ainda bastante disposta para ler um pouco.
Alguns romances modernos que estavam sobre a mesa, não a atraíram, e ela dirigiu-se a uma estante colocada dentro de um nicho.
Sobre esta, achava-se uma série de livros antigos que despertaram o interesse da moça.
Savéria lhe havia dito certa vez, que o quarto ocupado por ela fora o aposento predilecto do Conde Tadeu.
Ali trabalhava e lia.
Entre os antigos livros, existiam alguns que ele mandara imprimir, versando acerca das antigas crónicas.
A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO, leu Valéria na lombada de um desses livros, encadernados de preto.
A estante, colocada na parede, ao fundo do quarto, era construída de ébano e guarnecida de custosos entalhes.
Ela esvaziou-a completamente, e pareceu-lhe que estivesse encravada na parede.
As paredes do nicho compunham-se de almofadas de ébano igualmente entalhadas, que ao derredor das prateleiras, constituíam-se numa espécie de arco de porta com motivos singulares.
Entre folhas de videira, estilizadas, mostravam-se maravilhosas figuras de gnomos, e logo acima do nicho, servindo-lhe de cobertura, achava-se uma cavidade na qual assentava-se um gnomo com um livro sobre os joelhos e uma tocha na mão.
O livro que Valéria queria ler achava-se na prateleira superior.
Como esta fosse muito alta aproximou uma cadeira, na qual subiu.
O livro era volumoso e de peso regular de modo que ela, para não perder o equilíbrio, sem querer, segurou-se à tocha que o gnomo sustinha.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:56 pm

Nem bem tocara-a, esta girou para um lado, ouviu-se um estalido e a estante moveu-se sobre gonzos invisíveis.
Uma abertura negra teve Valéria à sua frente.
Com o correr da estante, porém, ela perdeu o apoio e caiu.
Mas ergueu-se rapidamente, e, admirada, com o coração pulsando fortemente, observou a misteriosa abertura no nicho.
— Somente o céu pode saber se esta porta não conduz à ala fechada do castelo!
Talvez me seja dado desvendar os segredos antes que o Barão de Rothschild, ou antes que um outro qualquer, consiga adquirir este castelo! 0 Murmurou consigo mesma.
Depois acendeu uma vela e preparou-se para examinar a obscuridade reinante além da porta.
Valéria transpôs os escuros umbrais e viu-se num corredor tenebroso que parecia sem fim; todavia poucos passos depois, bifurcava-se, e, à direita, apresentaram-se-lhe degraus que conduziam para cima.
Os assoalhos e degraus da escada estavam cobertos por espessa camada de pó.
Junto da escada, Valéria viu, deitada, uma velha lanterna esculpida.
Ergueu-a e levou-a ao seu quarto, e somente então percebeu que, nela, ainda se encontrava uma grossa vela de cera vermelha.
Tirou-a, limpou a lanterna cuidadosamente, e, em seguida, acendeu a vela.
— Esta lanterna vai, por certo, prestar-me bons serviços.
É realmente singular que numa vela talvez multi-secular me deva alumiar nesta viagem de exploração. - pensou.
Corajosa, voltou de novo ao nicho.
Então pode certificar-se de que o corredor fora, outrora, iluminado por candelabros pendentes do tecto.
Tanto quanto se podia ver, as paredes estavam cobertas de afrescos, representando cenas de caçadas.
Pouco depois, terminava num saguão rectangular.
à esquerda deste, havia uma escada descendente, e fronteira a esta, uma porta revestida de um reposteiro.
Diante dessa porta Valéria parou um momento.
Uma curiosa hesitação apoderou-se dela.
Nada encontrara de infundir pavor, e contudo não podia libertar-se de uma certa inquietação.
Resolvida, rapidamente afastou o reposteiro e penetrou no espaço escuro.
Alçou a lanterna e viu-se num grande salão, cujas janelas estavam fechadas por negras portadas.
Das paredes, pendiam alguns quadros; os móveis, dourados, estavam cobertos por grossas camadas de pó.
De repente, Valéria notou numa das paredes, um quadro excepcionalmente grande.
Curiosa, aproximou a lanterna erguida.
Um calafrio entorpecedor perpassou-a.
A grande tela representava uma capela em cujo centro, sobre um catafalco, achava-se um esquife.
No esquife, dormia uma figura feminina, cujo semblante, tanto quanto Valéria pode observar, à frouxa iluminação, tinha inegavelmente traços de grande semelhança com os seus próprios.
Sobre os degraus diante do esquife, estava um homem de joelhos; seu rosto transfigurado pelo medo, assemelhava-se também imensamente, ao do Barão de Rothschild.
Os dedos da defunta abarcavam o seu punho.
A luz bruxuleante da lanterna, o rosto do homem parecia singularmente vivo.
Em sua excitação, Valéria julgou ouvir, distintamente, um gemido e um riso doloroso.
Um frígido golpe de vento soprou-lhe as faces.
Ainda por um momento permaneceu imóvel; depois correu...
Como que tocada por fúrias, desceu as escadas e de novo viu-se no corredor.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:56 pm

Como caça perseguida, continuou a correr, alcançou por fim um grande aposento onde, sob um dossel, encontrava-se um rico leito.
Como um relâmpago, alcançou-lhe a memória a consciência do engano de rumo.
Viu uma porta.
Em sua fechadura, a chave!
Virou-a diversas vezes e tentou forçá-la por fim.
No mesmo instante, ouviu um barulho retinente de vidros e porcelanas em queda e em seguida a muito conhecida voz do Barão de Rothschild:
— Com os diabos!
O que será isto?
Valéria gritou alto.
A lanterna caiu-lhe das mãos, e, sem sentidos rolou ao solo...
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:56 pm

6 - A DESCOBERTA

Quando Rothschild chegou ao seu quarto, sentou-se, como gostava de fazê-lo, à janela, e caiu em profundo cismar.
O que acabara de ouvir, o cântico fúnebre e o dobre dos sinos, havia deixado em seu espírito uma profunda impressão.
Embalde procurou uma explicação natural para esses sucessos.
Seria, realmente, possível, que o além pudesse tornar-se perceptível deste modo, e ser registado pelos cinco sentidos de um mortal?
Rothschild não sabia quanto tempo estivera assim, imerso em conjecturas, quando um surdo rumor e pancadas na parede o despertaram.
Admirado, ergueu-se, certificando-se de que os sons abafados vinham dum nicho da parede.
Viu uma porta aberta e ouviu um grito.
Depressa removeu os cacos de vidro e louça com os pés e afastou, tanto quanto pode os escolhos.
Depois tomou de um lampião e forçou a passagem.
Junto à porta, viu o corpo inanimado de Valéria, estendido sobre o solo.
Vestida com um roupão branco, de mangas largas, parecia bela como uma pintura.
Seus cabelos dourados soltavam-se envolvendo-lhe a cabeça como uma aura.
Dois passos além, estava a lanterna com o vidro partido.
Rothschild colocou o lampião sobre uma mesa que se achava próxima, ergueu Valéria e levou-a para o seu quarto.
Deitando-a numa ampla poltrona, humedeceu-lhe a fronte com água de colónia.
Alguns minutos depois, Valéria voltava a si e abria vagarosamente os olhos.
O Barão envolveu-a num cobertor e deu-lhe a beber um copo de vinho.
Viu Valéria as suas forças voltarem aos poucos.
Rothschild aproximou um banquinho, sentou-se junto dela e perguntou porque caminho havia conseguido penetrar nas dependências fechadas.
— Descobri a entrada por acaso.
A curiosidade levou-me a acender a lanterna e inspeccionar as dependências misteriosas.
Não tive medo até o momento em que eu vi aquele quadro horrível, em que a morta segura o companheiro pelo punho.
Supus ouvir um horrível gemido e um mais horripilante riso.
Então não resisti e fugi.
Valéria não disse nada quanto a grande semelhança notada entre a morta o homem ajoelhado à sua frente e eles dois. Ambos se calaram.
Rothschild empalideceu e recordou-se da primeira noite passada no castelo, quando tivera um sonho igual, ou quiçá uma visão da mesma espécie.
Valéria tocou-lhe a mão, e um suspiro desprendeu-se de seus lábios.
— Deixemos em paz o passado e não revolvamos o pó; não tentemos o misterioso invisível.
O Barão ergueu o rosto, e, com sincera admiração, contemplou-a.
Esse olhar reconduziu Valéria ao presente; um intenso rubor cobriu seu semblante.
— Preciso voltar ao meu quarto...
Mas... Como hei-de fazê-lo sem passar pelos escuros compartimentos?
— Nada temas, Valéria.
Conduzir-te-ei através do jardim e do pequeno terraço; possuo uma chave do portão.
Antes disso, porém, te proporia vires comigo inspeccionar o quarto vizinho.
Não desprezemos esse acaso que nos abriu os compartimentos misteriosos, sem aproveitá-lo.
Depois de breve relutância, Valéria se declarou disposta; a curiosidade vencera nela todos os outros sentimentos.
Ao lado de Rothschild, já não temia nada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:57 pm

— Espera um momento!
Quero somente retirar o escolho do caminho e entrar sozinho primeiro! - disse o Barão.
Alguns minutos depois ele regressou.
— Seguem-se agora, Valéria.
Os quartos são realmente bonitos.
Provavelmente habitou-os, outrora, uma linda dona. Encontrei dois candelabros de prata com velas, que acendi.
Temos luz suficiente agora.
Valéria esqueceu o medo e a situação um tanto singular em que se achava, e seguiu Rothschild ao quarto misterioso.
Sobre um estrado, achava-se um leito grande, onde se estendia um elevado dossel.
Também aí os entalhos da cama e o brocado das cobertas, estavam cobertos de densa camada de pó.
Rothschild se munira de duas toalhas de rosto e limpava os entalhos.
A cabeceira da cama encontraram uma pequena mesa de mosaico com. algumas caixinhas.
Um espelho veneziano, em moldura larga, fora embutido na parede.
Acima dele, dois anjos pequenos seguravam candelabros de três braços, contendo velas cor-de-rosa.
Rothschild acendeu também estas, e o quarto todo brilhou com vívidas luzes.
Valéria parecia pálida e nervosa, em meio do quarto, e se aprofundara na contemplação do mesmo quadro que, de repente, pareceu-lhe extraordinariamente familiar.
Todos aqueles objectos, ela julgava já os conhecer, e até as pequeninas coisas não lhe eram estranhas.
Na parede, entre a cama e a janela, deveria existir, assim lhe pareceu de súbito, um medalhão.
— Na caixinha sobre a mesa de mosaico - balbuciou ela para si mesma - acha-se, à esquerda, dentro de um estojo de madrepérola, um retrato em miniatura.
— Provavelmente habitou este quarto uma formosa castelã, talvez, até, quem sabe a de que fala a lenda! - Disse Rotschild, removendo o pó.
Observa este pequeno sapato; aqui estão também, um leque e um xaile bordado.
Positivamente gostava ela de enfeitar-se.
Valéria não respondia.
Automaticamente aproximara-se da mesinha, e tomara entre as mãos o estojo de madrepérola.
Abriu-o e viu, sobre o estofo de cetim branco, um retrato redondo em miniatura, ornado de rubis e emoldurado de ouro.
Representava um jovem em trajes italianos antigos, com um barrete guarnecido de plumas sobre a cabeça.
Esse rosto, porém, não era outro senão o do Barão; os traços orgulhosos, e os olhos escuros, a mesma boca ironicamente sorridente.
Quando Rothschild observou a perplexidade de Valéria e a sua profunda emoção, aproximou-se e olhou por sobre os ombros dela.
E quando, tão inesperadamente viu o seu retrato em trajes de cerca de três séculos transcorridos, apoderou-se dele um mudo espanto, e um frio suor perlou-lhe a fronte.
Parecia-lhe que um horripilante poder surgia do passado e tentava atraí-lo com Valéria a tenebrosas profundezas.
— Paulo! - Balbuciou Valéria nesse momento, como que alienada.
Este brado perpassou o Barão como uma corrente eléctrica.
— Saiamos daqui.
O ar é por demais pesado e impuro.
E estamos também muito emocionados.
Amanhã combinaremos tudo com sossego...
Ele conduziu Valéria para fora, apagou as velas e fechou a porta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:57 pm

— Agora quero dar-te algumas gotas para os teus nervos excitados.
Depois acompanhar-te-ei até o quarto.
Valéria sorveu silenciosamente as gotas; não disse mais nenhuma palavra.
Calados chegaram ao outro aposento.
Ela estava calma em sonho.
Convulsivamente, segurava o medalhão de que, inconscientemente, se apropriara.
Rothschild fechou a porta.
Quis ainda dizer:
— Durma bem, Giovana!
Mas as palavras ficaram presas em sua garganta.
Valéria caiu numa poltrona; seus olhos estavam muito abertos, e ela sentiu-se próxima de um desmaio.
— Paulo! Paulo!
Fica comigo, não me abandones no meu infortúnio.
Oh! meu Deus!
Caímos nas garras do passado! - Gritou ela com força.
Rothschild que ainda estava à porta, ouviu as palavras angustiosas e teve a horrível sensação de que mãos cadavéricas abarcavam o seu punho.
Voltou-se e correu tanto quanto os seus pés se podiam mover, para o seu quarto, onde coberto de suor, caiu sobre a cama.
— Nas garras do passado! Isto mesmo!
Senti agora mesmo que se pode estar alucinado sem se ter perdido o juízo!...
Levou as mãos trémulas à cabeça...
Somente aos poucos tranquilizou-se.
Tomou um copo de vinho e em breve adormeceu.
Quando Rothschild despertou, já os raios solares caíam em seu quarto, e ele respirou com prazer o ar montanhês fresco e puro.
A luz clara do dia, as sombras dos acontecimentos nocturnos perdiam os seus pavores, mas em compensação, o desejo de conhecer todos os segredos do velho castelo era então maior do que dantes.
Agora conhecia a entrada para os quartos murados.
Pretendia, com Valéria, conservá-lo em segredo perante todos, para que ninguém, além deles, penetrasse nos aposentos.
Justamente naquele dia, precisava ir à vila para combinar as últimas formalidades da compra.
E se Valéria tivesse revelado a Lolo e a tia os sucessos nocturnos?
Seria, então, possível conservar o segredo?
Resolveu por isso falar com a moça imediatamente a respeito.
Ainda era cedo.
Pelo criado, soube que Miguel tinha ido à caça dos pombos e que as senhoras, com excepção de Valéria, ainda não haviam aparecido.
Muito satisfeito com essa informação, dirigiu-se Rothschild ao terraço onde encontrou a moça tomando a sua refeição matutina.
Savéria servia-a, e ao ver o Barão, apressou-se em preparar também a sua refeição.
Quando viu Rothschild, Valéria corou ligeiramente.
Este pediu licença para sentar-se junto dela.
— Tenho um pedido a fazer-te, Valéria - principiou ele.
Se até agora não falaste a ninguém sobre a nossa descoberta, não o faças, eu te peço.
Assinarei hoje, perante o notário da vila, a escritura definitiva de compra deste castelo, e quero que também, a este respeito, ninguém venha a saber qualquer coisa.
É que desejo mais tarde, com todo sossego, inspeccionar e examinar cómodo por cómodo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:57 pm

Quem sabe que segredos dormem em cada um deles!
Miguel e Lolo, porém, são impacientes e curiosos, e levar-me-iam a um apressamento prejudicial.
— Compreendo perfeitamente, Pawel, - respondeu Valéria - e saberei prezar o seu pedido.
Ainda não falei a ninguém sobre as nossas aventuras.
Mas desejo impor uma condição: deixa-me partilhar dessa inspecção!
Prometo não tocar em coisa alguma e não importuná-lo com perguntas inúteis! - Acrescentou sorrindo.
Rothschild não pode deixar de reprimir um sorriso.
— Está combinado: inspeccionaremos juntos.
Em minha companhia, nada terás a temer, e eu te permitirei tocar em tudo quanto te interessar.
Poderás perguntar-me o que te aprouver!
Às pressas tomou a sua refeição para, sem demora, ir à vila.
X X X
Valéria voltou ao quarto.
Era-lhe sumamente grato saber que ninguém, além dela participaria da descoberta do segredo.
Fechou a porta e retirou da valise o estojo de madrepérola.
Era, sem dúvida, um objecto de valor magnífico e finíssimo.
Uma grande ametista ornava a sua tampa.
O seu interesse principal, porém, localizava-se, naturalmente, no medalhão com o retrato.
Mergulhou-se na contemplação daquele semblante belo e pálido, ao qual ia tão bem o barrete.
Os grandes olhos negros pareciam perfurá-la, e fizeram com que seu coração batesse mais fortemente.
Quanto mais fitava o retrato tanto mais sentia apertar-lhe o desejo de penetrar outra vez naquele quarto misterioso.
Ela não pode resistir à curiosidade, e resolveu que, à tarde, quando as senhoras costumavam repousar, visitaria o castelo.
Sabia que Lolo e Miguel pretendiam dar um passeio a cavalo, mas poderia pretextar enxaqueca para não participar dele.
O Barão não regressaria antes da noite, e, assim, teria algumas horas livres para a sua investigação.
O acaso foi-lhe favorável. Loló e Miguel resolveram sair de casa.
Também o castelão e sua mulher ausentaram-se, dirigindo-se a cidade para realizar compras.
Nem bem os jovens se haviam afastado, as senhoras se recolheram aos seus aposentos.
Valéria, sem ser observada, penetrou no quarto de Rothschild; seu coração batia com tal violência, que no caminho, teve que parar muitas vezes, para respirar.
Podia contar com duas horas de completa tranquilidade, e essas bastavam para contentar sua curiosidade.
Rothschild havia removido o pesado etager para a parede fronteira, e, no nicho, colocara uma pequena mesa.
Valéria afastou a mesa, abriu a porta e penetrou no espaço escuro.
Levava uma lâmpada eléctrica de bolso, uma vela e um pano de pó.
Com as mãos trémulas, acendeu os dois candelabros e principiou a examinar tudo minuciosamente.
Por fim subiu os dois degraus que levavam ao leito e retirou deste uma pesada coberta de brocado.
Debaixo desta, estavam em desordem algumas almofadas e uma colcha azul claro com rosas bordadas.
Tudo amarelecido e descorado.
Depois Valéria notou, com o coração palpitante, entre a cama e a janela, o crucifixo de ébano com a imagem do Cristo em prata, e o medalhão que pendia dele.
Assim, pois, se confirmava a sua visão do dia anterior.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:57 pm

Como chegara a ter essas lembranças?
Tratar-se-ia ainda de um acaso?
Não! Esse conhecimento que tinha das coisas antes que as visse, não significaria que conhecia tudo aquilo de uma estadia anterior naqueles compartimentos?
Mas quando vivera naquela casa!
Seria o terrível acontecimento, de que falava a lenda, o seu próprio passado?
Valéria ergueu a tampa de uma mala e encontrou nela maravilhosas rendas, tecidos e muitos pacotes de cartas amarelecidas.
Sobre uma cadeira, estava um bandolim.
Frente à cama, observou ela uma estreita porta, meio encoberta por um pesado reposteiro.
Abriu-a e, à luz da vela, viu, pelas paredes, uma quantidade de armários e estantes.
Provavelmente achava-se ali o vestuário. Na parede lateral desse quarto, existia outra porta em forma de arco.
Também essa porta Valéria transpôs.
E viu-se, então, num cómodo redondo, cujas janelas estavam recobertas por espessas cortinas.
Dava impressão de um quarto de banho.
As paredes eram ornadas de várias pinturas; ao lado, encontrava-se uma banheira de mármore.
À sua frente, havia um banco coberto de veludo, e diante da janela, uma penteadeira com espelho e moldura de prata, mais um sem-número de frasquinhos e vasos, pentes e escovas.
Grande desordem reinava nesse quarto que, provavelmente, fora abandonado inesperadamente.
Toalhas de banho bordadas espalhavam-se ao léu.
Na banheira viu esponjas ressequidas, enegrecidas pelo pó e pela idade.
Foi sobre o solo, porém, que Valéria notou aquelas grandes manchas negras, que se assemelhavam a grandes poças de sangue ressequido.
Ao centro do quarto, existia uma mesa alongada coberta por um pano.
Sob o pano, aparecia uma almofada com uma depressão ao centro, como que produzida por uma cabeça.
Ao lado da mesa havia um mocho e sobre este uma caixa contendo ferramentas cirúrgicas e bandagens.
Todo o ambiente parecia impregnado de forte odor.
Oprimida, Valéria examinava aquele aposento que lhe parecia mais horripilante ainda que todos os outros vistos anteriormente.
Depois voltou ao vestuário e se pôs a examinar os armários.
As chaves estavam ainda metidas nas fechaduras e foi muito fácil abri-las.
De um dos armários, veio ao encontro de Valéria uma nuvem de perfume e poeira.
Estava guardada ali uma considerável colecção de vestidos de todas as cores.
Em um outro armário encontrou roupa branca; e numa canastra escura, sob uma tampa de vidro, um vestido branco de seda, com bordados em prata e um véu enfeitado de pérolas.
O exame de todos esses objectos tomou muito tempo e acalmou também os nervos de Valéria.
Ela resolveu assim abrir mais uma porta:
a que havia atrás da banheira.
Por essa porta chegou a um outro corredor, estreito, que conduzia a uma grande sala.
Parecia ser um gabinete de trabalhos.
Sobre a mesa, coberta por um pano de Veludo, achava-se um tinteiro de prata e dois altos castiçais; folhas de pergaminho e penas de ganso espalhavam-se diante do tinteiro.
Sobre os pergaminhos, fora esquecido um rolo grosso, amarrado, de uma de cujas extremidades emergia um grande selo.
Esse rolo trazia um endereço cujas letras, mal traçadas Valéria não pode compreender.
A sua atenção voltou-se para dois grandes quadros a ó1eo, suspensos, um ao lado do outro, na parede.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:57 pm

Ela aproximou uma cadeira e tentou daí, tanto quanto possível, remover o pó que os empanava; depois iluminou um deles com a lanterna eléctrica, mas com um grito rouco retrocedeu.
A pintura representava um balcão, do qual descortinava-se uma paisagem montanhesa.
Junto à balaustrada de mármore, postava-se uma figura feminina com um bandolim nos braços.
O semblante dessa mulher tinha, inegavelmente os seus próprios traços.
O mesmo cabelo loiro dourado, o porte altivo e esbelto, mãos idênticas; somente os olhos pareciam diferentes, negros, que se revelavam de apaixonada expressão, mais realçada ainda pelo traçado da boca rosada, onde um sorriso brincava sonhadoramente.
A diferença da cor dos olhos, não lhe pareceu, porém, essencial; nem observou-a fitando fixamente a extraordinária semelhança.
— Grande Deus!
O que significará tudo isso!
Eu e ele - nós ambos, parece, estamos presentes aqui por toda parte - murmurou com os lábios descorados.
Receosa, foi examinar o outro quadro, esperando ver Rothschild nele.
Mas não! O homem que ali estava retratado, tinha uma fisionomia franca, inteligente e parecia contar cerca de cinquenta anos de idade.
Trajado de veludo negro, estava apoiado numa mesa coberta de livros e manuscritos.
Na mão segurava um rolo de pergaminho semi-aberto, em cujo verso via-se uma inscrição encarnada.
Valéria estremeceu de terror e desviou os seus olhares dos olhos daquele homem.
Sentiu-se enfraquecida naquele ambiente.
O olhar, fixamente voltado para ela, causava-lhe arrepios de febre.
Como que fugindo, voltou ao quarto de Rothschild, apagou às pressas as velas e recolocou a mesinha em seu lugar no nicho.
Somente quando chegou no seu quarto, foi-se retemperando.
O sol, a luz e o ar fizeram o restante para a tranquilizar completamente.
Tomou algumas gotas reconfortantes, lavou-se, e trocou de roupa.
— Fiquei realmente nauseada.
Confiei demasiado em meus nervos!
Aquela mescla de perfume, pó e flores secas impregnou-me até em minhas roupas!
Mas que aborrecimento 0 murmurou ela.
E orvalhou bem as roupas com Água de Colónia.
Nessa tarde, jantaram mais tarde que de costume.
Rothschild demorava-se na cidade; Miguel e Lolo, também haviam regressado tarde do passeio.
Depois do jantar, foram todos para o terraço.
As duas senhoras mais idosas, entretiveram-se com as compras feitas por Rothschild, enquanto Miguel e Loló entraram numa ligeira disputa.
Valéria isolara-se a um lado, recostada à balaustrada, contemplando o vale.
Rothschild aproximou-se dela.
— Valéria, o castelo é nosso, com todos os seus segredes, que já principiamos a desvendar esporadicamente.
Enquanto dizia isso, Rothschild pôs a mão sobre um dos bolsos do peito, que continha a escritura de compra.
Curvou-se e fitou-a com um olhar profundo e enigmático.
Valéria corou e quis responder qualquer coisa, mas foi interrompida por Lolo e Miguel que lhe pediram serviço de juiz em suas contendas.
Nesse momento, Riccioto, o filho do castelão, apareceu na porta e, aparentemente nervoso, dirigiu-se a Rothschild.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:58 pm

— Signore Barão, entregaram-me agora um pacote que vos é dirigido.
Aqui está.
Com estas palavras entregou ao Barão um pacotezinho.
— Para mim?
Pawel desdobrou um pano escuro, que continha uma chave velha, enferrujada, na qual prendia-se uma chapa de metal presa por uma corrente.
O Barão aproximou-se da luz e, à meia-voz, leu as letras góticas gravadas na chapa:
“Chave do jazigo do Conde de Montinhoso”.
Rothschild empalideceu:
— Quem trouxe esta chave?
— Um homem alto, em trajes de monge, - respondeu Riccioto.
Eu estava sentado junto ao portão, e na escuridão aí reinante, não pude reconhecer a fisionomia do portador, tanto mais que um capuz envolvia a sua cabeça.
Neste momento, outra vez, ressoaram no ar os dobres dos sinos, e o inconsolável cantochão fúnebre encheu a treva nocturna.
— Esses maus gracejos estão, realmente, passando dos limites! - Observou Helena zangada.
Tudo isto não passa de uma mistificação grosseira.
Talvez nem exista a catacumba desse conde lendário.
— Sim, signora, esta capela existe aqui!
Mas não sei com certeza onde está situada. - Disse Riccioto, medroso.
Sem dizer palavra, Rothschild atirou a chave sobre a mesa e quis retirar-se do terraço.
Helena porém foi ao seu encontro.
— Pelo amor de Deus, Pawel não sejas tão supersticioso!
Amanhã examinaremos melhor o assunto! Faze cara alegre, por enquanto...
— Eu não sou em verdade supersticioso, tia Helena.
Sucede que me sinto bastante cansado, e os meus nervos ainda não estão em ordem.
Mas, finalmente, também para mim todas essas estórias misteriosas estão se tornando caceteantes!
Quero agora dormir bastante, e espero estar outra vez restabelecido amanhã! Retrucou brincando.
A voz rude, porém, e o olhar severo, deixavam perceber que não se divertia.
Em seu quarto, Rothschild tomou uma boa dose de narcótico e deitou-se.
Não queria pensar em nada, desejava dormir apenas.
X X X
Na manhã seguinte, a palestra girou inteiramente em torno da chave misteriosa.
Depois que Rothschild tomara o seu café, Lolo atraiu-o ao terraço para um exame do estranho presente.
— Poderíeis ter feito isso sem a minha presença! - Comentou o Barão.
- Creio que não.
A chave pertence-te afinal, e nós precisávamos da licença para isso.
Temos também uma outra coisa em vista, para o qual necessitamos do teu assentimento. 0 disse Lolo.
O exame da chave nada revelava.
O tecido em que estava envolvida era, sem dúvida, o fragmento de um velho capuz de monge, cuja cor não se podia mais determinar.
— Céus, como tudo isto é interessante e misterioso! - Exclamou Loló encantada.
Ainda hoje haveremos de procurar o jazigo do Conde de Montinhoso, e, com a tua permissão, prezado Pawel, abri-lo com esta chave.
Este Paulo, perseguido e invocado por tantos fantasmas, deve ter sido um refinadíssimo delinquente.
Nosso passeio será, por certo, interessantíssimo, e se levarmos uma boa provisão de comestíveis, poderemos fazer a nossa refeição entre as ruínas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:58 pm

À luz clara do dia, creio que os espectros dos monges não se atreverão a promover passeios e cantorias.
— Muito bem!
Se todos estão de acordo, partamos em busca da capela funerária! - Disse Rothschild.
Mas, onde a encontrarmos?
Riccioto não sabe onde fica, nem eu, embora possua a sua chave.
— Já colhemos as informações necessárias. - Anunciou Miguel.
0 Bernardino contou-me que o pastor Giacomo conhece todas as árvores, todos os arbustos, entre as ruínas. e que também sabe onde se encontra o jazigo do Maledetto.
É que seu pai foi, aí, surpreendido por um horrível fantasma.
Já mandei chamar o Giacomo.
Valéria permaneceu calada durante esse tempo.
Estava tristonha e quase não olhava para Rothschild.
— Sabes, Valja, teu aspecto não me agrada nada.
Estás pálida como um pano de linho, pareces cansada!
Que providências tens tomado para o teu restabelecimento?
Sempre tive esperanças que neste belíssimo clima viesses a te desenvolver como uma flor. - interrompeu Larissa.
— Mas isto virá com o tempo e a permanência aqui! - aparteou Helena.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 27, 2016 7:58 pm

7 - A FAMÍLIA DE MONTINHOSO

Meia hora depois, a pequena caravana punha-se a caminho.
Miguel e Loló, carregavam cestas com o almoço.
Giacomo, o velho pastor de barbas brancas, guiava-os.
— Sei muito bem onde se acha o jazigo do Conde Paulo de Montinhoso.
O Maledetto está separado dos outros Condes.
O caminho para lá é difícil.
Meu velho tio Salvatore, que antes de mim foi pastor aqui, ouvia o morto gemer em sua sepultura.
Eu mesmo também ouvi, numa certa noite, gritos e lamentos que pareciam vir da capela! - Informava Giacomo.
- Provavelmente terias adormecido - disse Helena ironicamente.
Teu tio talvez tenha, igualmente, tomado um gole a mais.
O ancião fitou-a com ar altivo.
— A senhora é talvez uma dessas pessoas que não acreditam em nada.
Quanto ao meu tio Salvatore, conta ele, presentemente, noventa anos de idade, e nunca em toda a sua vida esteve embriagado.
É um bom religioso, justo e respeitado por todos os que o conhecem.
Ele viu com os seus próprios olhos, quando eles desceram o jazigo, e ouviu, logo depois, gritos, choro e gemidos lá dentro.
De minha parte, não consegui dormir, por muito tempo, depois que ouvi a mesma coisa.
E isso embora nada tivesse visto...
— Disseste eles, Giacomo.
Eram por acaso mulheres que visitavam o Maledetto?
Há de ter sido um belo mancebo para que o procurem assim, até na última moradia! - brincou a incorrigível Helena.
Giacomo meneou a cabeça.
— Segundo a lenda, o Conde Paulo deve ter sido, em verdade, excepcionalmente belo.
Mas a sua beleza foi fatal, pois por amor dele muitas mulheres morreram assassinadas por filtros envenenados.
Na sepultura, procuram-no as almas daquelas que ele transviou e assassinou.
Contam que foi um criminoso desentranhado...
No decorrer dessa conversação, tinham alcançado as ruínas do convento.
Giacomo que ia à frente, conduziu-os a um emaranhado de árvores e arbustos entrelaçados.
Em meio ao matagal, erguiam-se lousas e cruzes sepulcrais.
Encontravam-se num antiquíssimo cemitério.
Próximo de um velho e arruinado muro, erguia-se uma espécie de capela, cuja entrada estava barrada por uma pesada porta guarnecida de ferro.
Uma grade de ferro fundido circundava-a.
Da porta, pendia um grande cadeado, que uma pancada, vibrada com uma pedra, fez cair por terra.
Mas restava ainda uma corrente grossa e enferrujada, a vedar a passagem, e que, sem muita dificuldade, foi removida.
— Vê-se que há muitos anos... talvez séculos... ninguém abriu esta porta! - Observou o velho.
Aqui ainda existem vestígios positivos dos antigos selos.
Ele introduziu a chave, que untara abundantemente com azeite, na fechadura.
Depois de alguns esforços, o mecanismo cedeu rangendo, e, guinchando nos gonzos, abriu-se a porta.
Uma passagem estreita, que conduzia para o fundo, ficou à vista.
Na outra extremidade, uma segunda porta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:06 pm

Esta não se encontrava trancada, e cedeu a uma ligeira pressão de dedos.
Rothschild sentia-se mal.
Apesar do calor perpassavam-no glaciais arrepios.
A atmosfera saturada em que se movia, causava-lhe repugnância.
Todavia a curiosidade venceu-o, e em breve, voltava a assenhorear-se de seus nervos.
— Tenho uma lâmpada de bolso. - Disse.
Avante, pois, minhas senhoras!
— Não creio que o jazigo seja escuro! - Esclareceu Giacomo.
Possui uma janela com grades.
Os vidros já estão quebrados, mas os muros têm a espessura de cinquenta centímetros.
Contudo, acredito que a luz, talvez um raio de sol, possa penetrar na arcada.
— O corredor deve ser escuro, e os degraus da escada não estarão, provavelmente, muito perfeitos! - Disse Rothschild.
Ele acendeu a lâmpada de bolso e seguiu na frente.
Haviam descido dez degraus talvez, quando entraram numa arcada sepulcral que servia, ao mesmo tempo, de capela.
Na parede fronteiriça, montado sobre degraus, um altar, e, acima dele, um nicho vazio na parede.
Aos pés do altar, partida, havia uma estátua da Madona que outrora tivera, provavelmente, o seu lugar no nicho.
Sobre o altar, viam-se dois velhos castiçais de bronze, e ao centro da capela mortuária, um grande sarcófago negro, sobre cuja tampa deitava-se a imagem de um monge artisticamente esculpida em mármore.
Os traços faciais da estátua eram de incomparável beleza.
Sua expressão revelava sofrimento e desespero.
A frouxa luz diurna, todos aqueles detalhes ganhavam um misterioso encanto.
Miguel e Lolo foram os primeiros que, movidos pela curiosidade, se aproximaram do sarcófago.
Quando, porém, o facho luminoso focalizou o mesmo, Lolo deixou escapar um grito agudo, e retrocedeu horrorizada.
— Pelo amor de Deus, Pawel!
Vê que coisa horrível!
Esse Paulo Maledetto és tu mesmo!
Com as sobrancelhas contraídas, aproximando-se, Rothschild curvou-se sobre a estátua de mármore.
A fisionomia parecia-se, efectivamente, com a sua, em todos os traços.
Durante alguns instantes o Barão quedou ali, imóvel, quase sem respirar.
Sentia um peso invisível baixar sobre sua cabeça, ameaçando esmagá-lo.
Nem notava o silêncio, cheio de perplexidade, em que Larissa e Helena tinham mergulhado, aniquiladas pela fantástica semelhança entre as duas figuras.
Subitamente, um gemido de Giacomo quebrou o silêncio.
Ele aproximara-se de Rothschild, e observava agora a flagrante semelhança existente entre o Barão e a estátua.
Posto em pânico pelo susto, correu para a saída da capela.
— Misericórdia! Os mortos se ergueram.
O signore Barão é o retrato vivo do Maledetto! - Murmurava consigo mesmo, persignando-se e fitando incrédulo Rothschild.
Um golpe de vento ergueu uma sarabanda de poeira no jazigo e despertou os presentes.
Valéria foi a primeira a correr para fora.
Os outros seguiram-na vagarosamente.
A porta foi fechada de novo, e os visitantes se retiraram do cemitério.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:06 pm

Silenciaram. Quando passavam
pelas ruínas do mosteiro, Helena viu alguns bancos de pedra ainda conservados e propôs que almoçassem ali.
Como tacitamente desejavam todos refazer-se do susto, aceitaram de bom grado a proposta.
Miguel e Lolo abriram as cestas, da qual tiraram uma toalha de mesa, e dividiram a merenda.
Rothschild deu ao velho Giacomo uma moeda de ouro e um copo de vinho.
A dupla oferta deixou o velho outra vez reconfortado.
E como se recompusesse do susto, pediu-lhe Larissa que narrasse o que tinha visto ali anteriormente.
— Com muito prazer, Signora, se vos interessa, contarei o facto.
Como disse antes, eu mesmo nada vi; apenas ouvi os gritos e queixumes que partiam da catacumba.
Mas meu rio viu, com seus próprios olhos, os fantasmas reunidos.
Tudo isto, porém, é nada em comparação à experiência que meus avós tiveram:
foram acontecimentos terríveis e que confirmam a lenda do Conde Paulo.
— Conta, pois o que teus avós te contaram.
Mas não te esqueças, por isso, de comer! - Disse Helena entusiasmando-o.
Rodearam todos o pastor.
Olhando sorridente para Giacomo, Rothschild encheu-lhe pela segunda vez o copo, com o vinho Madeira.
— Antes, porém, do caso dos avós, conta-nos a estória do Conde Paulo.
Quem sabe Savéria não se terá esquecido, ao narrá-la, de algum importante detalhe.
— Sim, signore Barão. De facto Savéria não aprecia muito falar a este respeito.
Não fazia isto tão pouco com o último signore, o último Conde de Montinhoso.
Este foi um homem extraordinário!
Evitava o convívio com as outras criaturas, e durante metade da sua vida coleccionou e estudou os velhos rolos de pergaminho.
Mas passemos à estória...
E Giacomo começou:
— Os acontecimentos de que fala a tradição deram-se há muito tempo...
Suponho que tenha sido um assunto largamente comentado, profundamente debatido.
Basta considerar-se que ainda hoje vive nos lábios do povo:
as lembranças que se guardaram, vão sendo transmitidas de pai a filho.
Só assim conhece-se hoje a maneira pela qual a Justiça Divina atingiu o orgulhoso Conde de Montinhoso.
Naquele tempo, da família de Montinhoso eram os senhores mais ricos do país.
O Conde Paulo foi um homem soberbo e cruel.
Seduziu muitas mulheres, que se rendiam à sua atracção, destruindo assim, a tranquilidade de muitos lares felizes.
Os detalhes menores desses fatos conservaram-se desconhecidos; sabe-se apenas que o castigo que sofreu a perpetração de todos esses crimes, consistiu na amputação da mão criminosa.
Era a pena geralmente imposta.
Os ricos nobiles de então, todavia, conseguiam sempre fugir à condenação, e bem raramente, em verdade, espiaram suas culpas.
Mas, se escapavam aos castigos humanos, não conseguiam escapar ao castigo divino.
Foi o que sucedeu ao Conde Paulo.
Uma das mulheres por ele ludibriada morrera, mas ainda morta agarrou-o pelo punho, não o largando mais.
Todas as preces, todo o incenso e água-benta, não valeram de nada.
A mão morta não soltou a presa.
E o punho do homem tingia-se, mais e mais escurecia, até que ficou completamente negro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:06 pm

Então, foi preciso amputá-lo, deixando-o nos dedos da mulher morta.
Antes disso, o Conde confessara-se a um monge.
Julgou-se então que o hábito religioso fosse capaz de acobertar os erros cometidos.
O nobre fez-se monge. O recurso falhou.
A maldição atingira-o implacavelmente.
As almas das vítimas, perseguem até hoje o algoz.
Buscam-no sem descanso nestas ruínas.
Vou contar o que meu avô viu e contou-me, quando eu era ainda muito jovem...
Afirmo-vos de novo: meu avô foi um homem severo, reservado e religioso.
Morreu com quase cem anos, sempre amado e respeitado por todos.
Quando deu-se o facto, que exerceu uma profunda influência no resto de sua vida, contava ele vinte e cinco anos.
Encontrava-se por essa época, profundamente apaixonado por aquela que se tornaria mais tarde a senhora minha avó.
O pai do moço não aprovava aquele casamento, pois que Panowia, a minha avó, embora bonita, era uma pobre órfã que trabalhava num estábulo das vizinhanças.
Ambos sentiram-se muito infelizes com a desarrazoada decisão do velho.
Força é contar, entretanto, que nunca ocorreu-lhes agirem contra a sua vontade.
Panowia quis retirar-se da região e ir viver na companhia de um parente de sua mãe que vivia em Modena.
O último encontro, em que deveriam despedir-se, eles o combinaram fosse realizado junto às ruínas do convento.
Estavam convencidos de que ali ninguém os incomodaria.
Foi numa noite clara de lua.
Já era bem tarde quando se encontraram e buscaram assento sobre um banco, debaixo das grandes árvores.
Esse banco ainda existe: dele pode-se avistar a capela mortuária do Conde Paulo.
Durante quanto tempo os dois teriam estado ali a palestrar e a chorar, não se pode dizer.
Seria, porém, mais ou menos meia-noite quando foram, de repente, alertados por um abafado toque de sinos e o som de cantos corais que entoavam o De Profundis.
Os dois amantes estremeceram, mas o terror foi maior quando viram sair das ruínas da igreja do monastério, uma procissão de monges que, aos pares, com os capuzes crescidos e grandes círios acesos nas mãos avançavam na escuridão da noite.
A procissão seguiu na direcção da capela mortuária do Conde Paulo, cuja porta se escancarou de par a par.
Depois que todos os monges desapareceram no rectângulo vazio, cessou o canto, e a pesada porta cerrou-se sem ruído.
Meu avô, que conhecia a lenda, não acreditava na veracidade, das aparições.
Testemunhara ali uma outra qualquer coisa, como supunha, de sobrenatural.
Como que tremendo de febre, passou o braço sobre os ombros de Panowia e os dois, bem juntinhos, continuaram no mesmo lugar, sem nem ao menos moverem-se.
Tinham ouvido dizer que não se deve cruzar o caminho dos fantasmas antes do galo cantar pela primeira vez.
Tinham já assistido a um desfile de espíritos, mas a fantasmagoria não ficou naquilo.
Subitamente notaram, num caminho lateral, uma viva luz que circundava a cabeça de uma mulher em trajes de monja.
O vento agitava um longo véu branco que lhe descia sobre os cabelos.
Quando passou-lhes pela frente, os amantes aterrorizados viram-lhe o rosto, jovem e belo, mas que parecia desfigurado pelo desespero.
Trazia nos braços uma criancinha morta, cuja pequenina cabeça pendia sem apoio.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:06 pm

Também sobre essa monja, fechou-se a porta da catacumba.
Nem bem as duas involuntárias testemunhas dos estranhos sucessos haviam se refeito do susto, e uma segunda luz, rubra como sangue, surgiu-lhes pela frente.
Era uma outra mulher que também se dirigia à sepultura.
Igualmente bela, movia-se ricamente vestida.
Uma cabeleira farta e longa, envolvia-a como um manto.
Um longo estilete atravessava-lhe o peito, e um rastro de sangue tingia-lhe o caminho.
Com os punhos cerrados e os olhos fixos num ponto, deteve-se um instante, esvoaçando sobre o solo, e desapareceu pela porta da capela.
Surgiu então a dama da luz verde.
Possuía um rosto de extraordinária beleza, mas os traços retorciam-se num ritus tão odioso, que meu avô e Panowia enregelaram-se de horror.
A estranha mulher trazia um longo vestido branco, sobre o qual escorria a cabeleira longa e loira.
Preso por uma fita azul, pendia-lhe do ombro um bandolim.
Não penetrou na capela mortuária, mas deteve-se à porta e principiou a cantar. O que cantou, meu avô e Panowia não conseguiram reter; todas aquelas visões inesperadas, os tinham excitado em demasia.
Ergueu-se então, das profundezas subterrâneas, um surdo rumor, e para o limiar emergiu a figura do monge sepultado.
Seu capuz fora atirado para trás, deixando ver a cabeleira em desalinho e um rosto pálido contraído pelo medo e o desespero.
Às suas costas, dezenas de mãos procuravam detê-lo pelo hábito.
O monge estendeu os braços para a frente e lançou um apelo numa voz rouca:
— Giovana! Perdoa-me!
A imagem branca pôs-se a rir, feia e desdenhosamente, ergueu também os braços e mostrou uma mão amputada, que segurava entre os dedos.
Meu avô julgou enlouquecer.
Viu então Panowia estendida sem sentidos, à sua frente, e desesperado pôs-se a gritar:
— Jesus! Maria!...
Auxiliai-nos!
Não soube de mais nada.
O terror fê-lo perder os sentidos.
Sua última impressão foi a de um terrível rumor, como se os muros das ruínas estivessem vindo ao chão.
Só no dia seguinte, depois de obstinadas buscas foram encontrados.
A custo conseguiram fazê-los tornar a si.
Meu bisavô abatera-se profundamente e supôs que os amantes tivessem buscado por termo à existência, desesperados pela separação.
No mesmo dia, deu o consentimento para as bodas.
Quanto aos meus avós, nunca mais puderam esquecer as visões terríficas, e nem voltaram outra vez, às ruínas malditas.
Esquecia-me, porém, de acrescentar um detalhe: sobre o caminho seguido pela mulher que sangrava no peito, foi encontrada uma faixa escura, como se houvessem marcado a trilha com um rastro de cinzas.
Esta, Signora, é a história do Maledetto, conforme a lenda, que é confirmada por acontecimentos verdadeiros.
Os espíritos inquietos, ainda rondam por aqui, e continuarão, provavelmente, a fazê-lo até que o Conde Paulo tenha purgado seus erros.
Giacomo terminara sua narrativa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:07 pm

Seus ouvintes calaram-se.
Sobre todos, pesava a impressão profunda marcada pela visita à catacumba, e que a narrativa do homem viera acentuar.
Valéria e Rothschild notadamente sofriam.
Seus olhares, obcecados, fixavam o caminho que conduzia à capela, como esperando ver o monge e as damas fantasmas saírem das sombras das árvores seculares.
Helena foi a primeira a tornar a si.
Com uma risada franca e jovial, ela se dirigiu aos companheiros:
— Despertai! Acordai...
Não vos petrifiqueis de medo...
Temos de voltar para casa.
Tenho a firme convicção de que o célebre Paulo, e suas companheiras, serão bastante corteses para nos deixarem regressar agora, livremente.
E sobretudo de que não cogitarão em maltratar mais o meu querido sobrinho, que não tem culpa afinal de sua grande e fatal semelhança com esse Don Juan italiano!
Riram todos da chalaça.
Giacomo foi ainda presenteado com uma moeda de ouro, uma garrafa de vinho e toda a sobra do almoço.
Depois disso, puseram-se todos a caminho, regressando, Loló e Miguel não acharam mais o que fazer, o resto do dia, senão intitularem o primo de Conde de Montinhoso.
A moça chegou a pedir-lhe que não procedesse com as senhoras que porventura se enamorassem dos seus encantos, como o fizera seu antecessor.
Rothschild aceitava esses brinquedos com bom humor e defendia-se sorrindo.
Aconselhou os primos a não o provocarem tanto, ou os trancaria, a ambos, na capela mortuária.
Ali poderiam, se quisessem, estudar tranquilamente, os traços fisionómicos do monge marmóreo.
Um observador subtil, todavia, poderia ter verificado que toda a jovialidade do Barão era forçada.
Valéria também mostrava-se tristonha e cansada.
Voltando, recolheu-se logo aos seus aposentos.
Larissa que a observara, inquietou-se cheia de cuidados, com um pressentimento no espírito.
Recolheu-se ao quarto, desejosa de recolhimento e solidão.
Pensamentos negros e pesados passavam-lhe pelo cérebro.
Lera muito e pelas observações ouvidas de Dionid Tonilim, sabia muito bem que tais estórias, aparentemente misteriosas, poderiam suceder.
Cada dia certificava-se mais de que enfrentavam ali, no penumbroso castelo italiano, um daqueles problemas desconhecidos que muitas vezes desenrolam-se à vista de cépticas testemunhas e são observados por esta.
Por outro lado, os gracejos e a incredulidade de Helena, aos poucos iam-lhe mordendo os nervos.
Mas inquietou-a, sobretudo, a fabulosa semelhança observada entre a estátua do monge e o Barão, que não seria fruto do acaso.
Recordou-se do horrível sonho da velha Baronesa antes do nascimento do filho e da faixa encarnada ao redor do punho deste.
Todas estas aparentes casualidades, indicavam, sem dúvida, uma relação que parecia evidente, entre o rapaz e os personagens da lenda.
Também não se sentia satisfeita com sua sobrinha e afilhada.
Além de não se restabelecer e fortificar-se como esperava, Valéria tornava-se cada vez mais pálida, inquieta e nervosa.
— Não tenha também ela sido no passado uma das pessoas que participaram do drama horrível, e esteja, agora, sofrendo inconscientemente sob o domínio dessas recordações!...
Começava a sentir, na atmosfera do castelo, alguma coisa de misterioso e fatal.
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