Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:07 pm

— Como todos somos cegos e ignorantes em face das terríveis leis que regem nossas vidas! - Murmurou involuntariamente.
E o resultado final de todos esses pensamentos foi o desejo de mandar buscar Dionid Tonilim.
Encontrava-se ele então em Florença e, como prometera, viria com todo o prazer.
Ela escreveu-lhe, contando-lhe em detalhes, exactamente, os acontecimentos que, à sua vista, desenrolavam-se em Montinho, e pediu-lhe que viessem assim que fosse possível.
Dionid encontraria ali, por certo, um campo propício às suas actividades de socorro, bem como aos seus estudos no domínio do ocultismo.
X X X
No seu quarto, Rothschild sentou-se no lugar preferido, junto da janela.
O intelecto traia-o em face dos factos que vira e dos quais Giacomo tecera aqueles comentários.
Que relações existiriam entre ele, um russo nato, e o italiano que morrera havia mais de três séculos?
Por quê motivo o seu semblante estampava os mesmos traços do Conde Paulo?
— Estamos nas garras do passado! - Valéria dissera.
E agora ele sentia a veracidade daquelas palavras.
A influência que o ambiente exercia sobre o seu estado psíquico, era poderosa!
Tudo lhe parecia conhecido e familiar no castelo, e mais uma vez sentira uma estranha dualidade no seu ser interior.
Tudo leva a crer - admitia 0 que os espíritas têm razão.
Teria, então, em anterior existência, vivido ali, na figura do Conde de Montinhoso?
Ludibriara mulheres e experimentara a terrível vingança de uma delas? Excitado, ergueu-se e enxugou o suor do rosto.
O desejo de Visitar os compartimentos abandonados, buscando novas descobertas, voltou-se, invencivelmente.
Fechou sua porta, tirou do armário uma grande lâmpada de acetileno que comprara na cidade vizinha quando saíra pela última vez, e abriu a porta secreta, sob o nicho.
X X X
Como Rothschild, Valéria também sentiu desejo de voltar aos compartimentos que já conhecia.
As misteriosas relíquias dos séculos perdidos, atraiam-na fortemente.
Depois que a aia executou a tarefa de trançar-lhe o cabelo, Valéria dispensou-a, e vestindo um amplo agasalho azul, fechou o apartamento.
Em seguida, subindo a um mocho, pôs em movimento o mecanismo da porta secreta.
E ouviu em seguida fortes pancadas na parede.
Rapidamente puxou a tocha que o gnomo sustinha.
A porta abriu-se.
Teve então, à sua frente, a figura do Barão que riu e fez-lhe um sinal mostrando a lanterna que empunhava.
— Vês, Valéria?
Estou bem munido para a observação, desta vez!
Queres vir comigo?
Juntos a aventura nos parecerá menos tétrica!
Mas... agasalha-te melhor...
Pega um xale ao menos; o ar aqui está terrivelmente frio e húmido!
Valéria seguiu o conselho.
Um minuto depois, acompanhava o Barão através da passagem.
— Permite que te ofereça o braço!
Muito bem. Temos agora o direito de fazer as inspecções que bem desejarmos!
Aliás, devo mesmo visitar minha nova propriedade...
Rapidamente transpuseram o corredor e pararam, então, no saguão, junto às escadarias.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:07 pm

— Onde fica mesmo o salão com o quadro grande? - Perguntou Rothschild.
Valéria indicou-lhe a porta.
No momento seguinte, paravam ante a tela macabra.
E nem bem Rothschild fizera a luz da lanterna incidir sobre a tela, retrocedeu com um grito abafado.
— Outra vez a terrível história da mão decepada...
Não terminara a frase ainda quando sentiu Valéria abater-se ao solo, derrubada por súbita fraqueza.
Rothschild amparou-a e permaneceram ambos silenciosos e inertes ante a magistral pintura que tão bem lhes reproduzia os traços fisionómicos.
— Nós... sempre nós...
Por quê? - Balbuciou a moça estremecendo.
Se tudo isto é apenas uma coincidência extraordinária, porque motivo sinto o ambiente abatendo-se tão pesadamente sobre o meu espírito? por quê?...
— Precisamos examinar detalhadamente esta ala enfeitiçada! - Observou Rothschild com a voz rouca, procurando afastar a atenção de Valéria da velha pintura.
Transpondo vários compartimentos, chegaram, então, à escadaria, que desceram até uma porta alta e entalhada, encimada por um crucifixo.
— Deve ser uma capela. Vejamo-la.
É preciso que nos certifiquemos se, como os outros aposentes, foi também abandonada em fuga apressada.
Só com um grande esforço, o Barão logrou virar a chave na fechadura e abrir a porta.
Ergueu a lanterna e iluminou o interior do aposento.
Mas Valéria emitiu um rouco gemido, vacilou sobre os pés, e apoiou-se pesadamente contra os batentes da porta.
Depois curvou-se e estendeu-se desfalecida sobre o solo.
Rothschild, todavia, nem se apercebeu disso.
O quadro que se lhe oferecia ao olhar, prendia-o, abstraindo-o do mundo que o cercava.
Sobre uma elevação de dois degraus, via um catafalco, e sobre este um antigo caixão funerário guarnecido de prata.
Tudo exactamente como Rothschild vira nas vertigens de sua primeira noite no castelo e como representava o grande quadro da sala.
Uma tampa de vidro lacrava o esquife.
Aos cantos do catafalco, elevavam-se castiçais contendo tocos envolvidos em preto, sustidos, cada qual, por pesados castiçais.
Lentamente o Barão foi se aproximando do esquife.
Nele jazia, entre véus trabalhados em prata, uma figura feminina vestida de branco.
A morta parecia ainda viva, tão fresca era a cor de suas faces, tão mimosa a sua cútis.
Era, toda, inegavelmente, o retrato de Valéria.
A única diferença a observar vinha dos traços, que na defunta, deformavam-se num ritus quase tétrico de hostilidade.
De repente, Rothschild estremeceu.
O seu olhar caia sobre qualquer coisa de horrível:
os dedos alvos da morta seguravam, convulsivamente, uma mão, amputada do braço pela junta.
Era uma mão de beleza incomparável, clássica, que tingia-se quase de negro.
Trazia no dedo mínimo fulgurante rubi que cintilava como uma gota de sangue fresco.
Parecia que, numa obstinação terrível, a morta decidira levar consigo, inseparavelmente, aquela garra, até a eternidade.
— Paulo?! - Chamou uma voz.
A Rothschild pareceu, nesse instante, que o rosto da morta se contraía numa careta de sarcasmo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:07 pm

Arrepiando-se de terror, virou-se, e encontrou Valéria que se erguera e vinha na sua direcção como uma sonâmbula.
Seus olhos abriam-se estranhamente, num olhar fixo.
Valéria movia-se num ataque cataléptico.
— Paulo?! - Ela repetiu; e tomando de sua mão apertou-a contra o seio.
Não te esqueças de que me pertences e que, por força de um juramento de fidelidade, estás preso a mim.
Ainda conservo em minha mão o teu anel esponsalício, e... nesta outra mão a tua... mão!
Livra-te de me enganares outra vez...
E isto dizendo, Valéria largou bruscamente a mão de Rothschild.
Trémula, retrocedeu um passo.
— Madona Lucrécia, o que quereis aqui?
Esta capela pertence-me, afastai-vos daqui.
Odeio-vos!
Roubastes-me toda a minha felicidade, tornando-vos a esposa dele...
Valéria soluçava dizendo tais palavras, e prosseguia:
— Ah! Quereis talvez sepultura em solo sagrado...
Eu também o desejo!
Pois muito bem, anuirei a este pedido...
Um pavor desconhecido apoderava-se de Rothschild no decorrer do diálogo que Valéria travava com o ser invisível.
Mas, de súbito, ela voltou-se para ele mesmo, Rothschild:
— Segue-me, Paulo!
Quero levar-te ao local onde estão os restos mortais de Lucrécia.
Tu és aqui o senhor:
ordena, pois, que sejam todos os outros sepultados.
A vontade de Rothschild aquebrantara-se.
Ele não ofereceu qualquer resistência quando a jovem, com espantosa segurança, e sem desviar-se um milímetro sequer, conduziu-o, da capela, a longínquo aposento que ele não vira ainda.
Era um dormitório pomposamente guarnecido, onde, sob um alto dossel, estendia-se largo leito.
— Permita-me que penetre nos teus aposentos.
Tu sabes?
Conheço também a pequenina porta junto ao teu leito, e que conduz ao jardim, pela saída do teu vestiário, - disse Valéria conduzindo Rothschild a uma grande sala revestida de couro escuro e tachas douradas.
Conversemos no teu gabinete de trabalho.
Numa das paredes, achava-se uma grande lareira de mármore preto, com o escudo dos Condes de Montinhoso.
Valéria se aproximou.
— Suspende a lâmpada, e não te afastes de mim por enquanto! - ordenou ao Barão.
Depois procurou, entre os ornamentos, uma mola oculta.
Descobrindo-a, moveu-a.
O assoalho abriu-se ao meio da sala, e uma abertura negra surgiu-lhes ante os olhos.
Um instante depois, a abertura fechava-se de novo.
— Deves saber que para esta lúgubre caverna existe uma escada.
Antigamente aqui se conservavam, por segurança, os prisioneiros, não é mesmo?
Valéria falava tranquila e indiferentemente, como que o mais vulgar dos assuntos.
Depois comprimiu um capacete, sob o escudo, no brasão da lareira, e Rothschild viu, admirado, a pesada estufa girar-se para um lado, sob invisíveis gonzos, deixando a descoberto uma estreita passagem, com degraus escavados na parede.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:07 pm

Uma ordem soou nos lábios de Valéria:
— Dá-me a lanterna e segue-me!
Sem nenhum receio, ela enveredou pelas sombras.
Rothschild seguia-a mecanicamente.
A descida parecia-lhe interminável.
Finalmente, estacaram diante de uma porta de ferro, que Valéria abriu.
Então entraram numa arcada que devia ter sido escavada na rocha viva.
Junto de uma parede, havia dois bancos de pedra.
Pesadas correntes desciam das paredes.
Aqui e ali, espalhavam-se brancas ossadas humanas.
Ao centro da arcada, sobre o solo, jazia um esqueleto completo, ainda metido numa armadura de cavaleiro.
O capacete rolara a alguns palmos de distância, e o crânio, assim descoberto, exibia uma longa fractura.
Junto ao esqueleto, dormia uma outra massa informe, semi-mumificada, envolta em farrapos.
Duas longas e grossas tranças, demonstravam que fora em vida, um corpo de mulher.
Entre as costelas expostas, um punhal de cabo ornamentado...
— Isto foi Lucrécia um dia!
Deves providenciar para que estes restos sejam inumados! - Observou Valéria.
Logo em seguida abandonaram a abóbada.
Estranha apatia apossara-se de Rothschild.
Sem asco, indiferentemente, ele examinava aquele horrível ambiente.
O ar pesado da adega, era-lhe como um peso sobre a cabeça.
Obedientemente seguia a sonâmbula que, rápida, caminhava à sua frente.
Depois que a estufa retornara a sua antiga posição, secamente, Valéria tornou a falar-lhe:
— Iremos agora ao tio Rindolfo.
No dormitório, ela parou um instante, e indicou um amontoado de roupas:
— São as tuas roupas de viagem?
Sim, são! Tu as despistes antes de ires à capela.
E com a mesma indiferença manifestada até então, enveredou outra vez pelo corredor, desceu novos degraus e penetrou na sala onde estavam dependurados os quadros do velho cavalheiro e a dama com o bandolim.
Sem hesitar um instante sequer, ela acendeu as velas de dois candelabros, sobre a escrivaninha, e empurrou para o lado um rolo de pergaminho.
Rothschild, que a seguira passivamente, colocou a sua lâmpada sobre a mesa.
Um singular estado de imobilidade dominava-o.
Todo o seu corpo parecia de chumbo, e quase não se podia mover.
Aos poucos, porém, essa apatia foi dominada, e uma viva actividade cerebral substituiu-a.
Pareceu-lhe que um fluido estranho o invadia, propiciando ao organismo novas condições de receptibilidade.
Principiou por sentir que o lugar onde se achava não lhe era estranho, e que conhecia todas aquelas coisas.
O seu cérebro começava a elaborar imagens absolutamente distantes de sua vida real, e que, como de outras vezes, patenteavam em sua personalidade a sujeição a um dualismo funesto.
— Seguramente estou perdendo o juízo! - Pensou.
E com um olhar melancólico, fitou Valéria.
De mãos erguidas, febrilmente excitada, ela repetia desesperadamente esta frase:
— Tio Rindolfo, perdoa-me!
Tio Rindolfo, perdoa-me!
Neste momento, perceberam pesados passos que se aproximavam.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:08 pm

Um reposteiro abriu-se, e a alta figura de um homem em trajes de veludo negro, entrou na sala.
Era o retratado na tela suspensa à parede.
Valéria caiu de joelhos, ergueu de novo as mãos e com a voz embargada pelas lágrimas gritou:
— Perdoa-me, tio Rindolfo, perdoa-me!
Tira de mim a maldição terrível, perdoa...
Perdoa... Restitui-nos a nossa paz!
Tremendo com todas as fibras de seu corpo, Rothschild acompanhava o desenrolar da cena.
Parecia-lhe reconhecer as feições, altivas e severas, do recém-vindo.
Já vira, sem dúvida, aqueles olhos sombrios, escaldantes, que ora se dirigiam para ele, ora se dirigiam para Valéria.
Mas onde?
Onde vira aquele rosto?
Sem dar atenção a Valéria, quase sem ouvir as suas palavras, perdia-se olhando fixamente aquele vulto.
E contudo não conseguia lembrar-se.
O cavalheiro era estranho e conhecido, a um só tempo.
De súbito ele disse:
— Eu de há muito vos perdoei...
Não vos perdoaram ainda os pecados, as vossas vítimas...
As vossas faltas não foram resgatadas.
Fugi para bem longe...
Os encantos do passado vos envolvem!
Respirais aqui a poeira dos séculos passados, e com ela todos os erros e paixões que vos levaram à ruína.
Essas paixões já vos afectaram.
Não vos esqueçais de que, nestes aposentos, ainda erram os espíritos dos seres que, antes de vós, aqui viveram.
Eles vos envolvem, prendem-se a vós, e vós lhes dareis as formas da vida.
Essas sombras do passado reúnem-se contra vós.
Somente a fé e a prece poderão vos salvar, libertando-vos.
Sede fortes, filhos...
Ainda choro por vós, e as minhas lágrimas não se estancam.
E tu, alma apaixonada e vingativa - terminou, dirigindo-se a Valéria - arranca do teu coração esse amor, pelo qual foste amaldiçoada!...
Depois destas palavras, a imagem do cavalheiro desfez-se no ar, desaparecendo.
Valéria ergueu-se, e permaneceu por um instante imóvel.
Rothschild também se erguera do banquinho em que se assentara.
Fez um movimento para alcançar a saída da sala, mas foi possuído por um súbito estremecimento.
Todo o aposento pareceu-lhe povoado por entidades invisíveis, que o tocavam e cujas vozes parecia ouvir.
Valéria, entretanto, via-as distintamente.
A moça acenou-lhe rápida:
— Vem! Logo cantará o galo!
E tomando o Barão pelos dedos, conduziu-o ao quarto anexo.
Rothschild pensou:
— Este quarto pertenceu, outrora, a Giovana!
Valéria estacou no pórtico, e seu rosto transfigurou-se de satisfação.
- Paulo, tu te lembras?...
Como fomos felizes aqui!
Recordas-te daquelas horas?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:08 pm

Sentes ainda o hálito do nosso amor?
Tudo ainda vive aqui, ao nosso redor... tudo respira...
Se nosso corpo está morto, a nossa alma vive.
Iniciemos de novo a vida embriagante!
Ela calou-se um instante, concentrando-se, e voltou-se severa:
— Não! É melhor que partas...
Precisas voltar a casa...
— E tu? Não receias voltar sozinha ao teu quarto?
— Não! A vida lá de fora é que amedronta...
Aqui o meu passado está todo vivo!
Oh! Se eu pudesse experimentar outra vez a felicidade de ouvir a tua confissão de amor!
Mas... quem poderá obstar isso?
Os nossos trajes festivos ainda estão aqui, visitas e criados ainda há pouco nos saudavam festivamente...
E sabes, Paulo?
Apesar das palavras de tio Rindolfo, eu não desejo arrancar o teu amor do meu coração...
Todavia, vai embora... Agora!
Ela voltou-se, saudando-o com a cabeça e desapareceu.
Com os passos vacilantes de um bêbado, Rothschild dirigiu-se ao dormitório onde, completamente esgotado, caiu numa poltrona.
A aragem fresca que entrava pela janela aberta, foi aos poucos despertando-o.
Acalmou-se, e pode recordar distintamente da sua peregrinação através dos compartimentos murados.
Ao lembrar-se da defunta, na capela, um estremecimento perpassou-o.
O cadáver fora, provavelmente embalsamado em tempos idos, com o fim de ser conservado.
Na mão segurava a prova irrefutável do quanto de verdade havia nos sucessos aos quais fazia referência a lenda, a mão amputada do Conde Paulo de Montinhoso.
Todavia, por quê motivo não fora sepultado o cadáver?
Este era um enigma para o qual não se encontrava solução.
Em seu íntimo, cada vez mais, se avultava a convicção de que em seu corpo estava, em verdade, encarnada a alma do criminoso Paulo.
Noutros termos, ele, Pawel, era Paulo de Montinhoso.
E, portanto, Valéria era Giovana, o que, aliás. ela mesma confirmara no seu acesso sonambúlico.
Entretanto, apesar de todas essas provas palpáveis, Pawel relutava em admitir isso.
Procurava ainda crer que fosse apenas o ambiente local, as lendas horríveis, os compartimentos secretos, que actuassem sobre os seus e os nervos excitados de Valéria.
E Rothschild tomou, como o já fizera tantas vezes, nos momentos de insónia, uma dose de narcótico.
X X X
O dia seguinte decorreu sem novidades.
Valéria levantou-se tarde, cansada e nervosa.
A recordação que guardava dos acontecimentos da noite, não iam além do momento em que estancara na porta da capela, onde vira o esquife com o cadáver da mulher.
Supunha que tivesse caído sem sentidos, e Rothschild reconduzira-a ao quarto.
No correr das horas, os habitantes do castelo mal se viram.
Rothschild saíra na companhia de Miguel; Helena, que torcera um pé durante um passeio, descansava deitada numa poltrona de varanda.
As outras senhoras, sentaram-se junto dela o que também fizeram os jovens ao regressar.
A ceia foi servida mais cedo que de costume, e logo em seguida cada um se recolheu aos seus aposentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:08 pm

Rothschild não sentia sono.
Sentara-se junto da janela, como se acostumara a fazer, e meditava.
Sua vida parecia-lhe vazia e inútil.
Todos os seus pensamentos confluenciavam para o passado.
Poderia esconjurar aquela fatalidade que o ameaçava?
Não sabia...
Por enquanto, porém, uma coisa desejava ardentemente fazer:
entregar caridosamente à terra os restos ainda insepultados das vítimas do cruel Paulo.
Todavia, como haveria de fazer isto, sem se denunciar e sem denunciar seus crimes?
Mas, sem dúvida, sozinho é que não conseguiria fazer nada.
E a simples ideia de tornar a ver os horríveis vestígios dos crimes cometidos, assustava-o.
Tais pensamentos afastaram por completo o seu sono.
Resolveu dar um passeio, para refrescar a mente.
A noite estava belíssima, maravilhosamente silenciosa.
Rothschild dirigiu-se ao antigo banco de pedra, sentando-se aí.
Uma grande árvore estendia os seus ramos sobre o banco, e a lua prateava docemente o castelo escorado sobre o rochedo e o tranquilo lago do vale.
Imerso em pensamentos, Rothschild não ouviu, a princípio, um abafado soluçar que parecia partir da gruta próxima.
Quando chegou a ouvi-lo distintamente, ergueu-se cautelosamente, encaminhando-se para a entrada da gruta.
Viu Valéria assentada sobre o banco, a cabeça apoiada na mesa, soluçando dolorosamente.
E, naquele momento, a moça parecia-lhe mais formosa do que nunca.
Sentiu-se poderosamente atraído para a dolorosa figura e, de súbito, sentiu que a amava com toda a sua alma e juventude.
Uma sombra irónica e amarga toldou-lhe, porem, o deslumbramento:
lembrava-se daquela outra mulher que cruzara o seu caminho, emudecendo os seus lábios que desejavam dizer:
“Sê minha, eu te amo”.
— Valéria? - Chamou baixinho.
A moça assustada, ergueu-se lesta.
Um profundo rubor cobriu o seu amável semblante, e Rothschild supôs que ela talvez cogitasse também a seu respeito quando, involuntariamente, arrancara-a do seu cismar.
Sentando-se ao seu lado, tomou-lhe a mão, levando-a aos lábios.
— Porque choras, Giovana?
— Nunca me chames assim, Pawel. - Disse ela estremecendo e retirando sua mão.
Muitas vezes parece-me que realmente ficarei louca.
As paredes murmuram-me factos horripilantes, aos quais assistiram.
E, quem somos nós, afinal?
O destino deu-nos traços fisionómicos idênticos aos traços de seres que antes de nós viveram sob estes tectos.
Tu és o retrato vivo de Paulo de Montinhoso.
Giovana repete-se em mim.
Que funesta deliberação reuniu-nos aqui, Pawel?
Se ao menos soubéssemos como e com que afastarmos esses fantasmas horríveis...
Involuntariamente agarrara a mão de Rothschild e apertava-a.
— Eu quisera abandonar este castelo, fugir daqui... desta maldição...
Sinto que seres invisíveis e hediondos nos cercam, vigiando-nos, desejosos de nos agarrar, de nos aniquilar...
Nem bem suponho ter fugido do círculo mágico, e eles me atraem de novo a si.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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E quem há de nos salvar, de nos libertar, se nós mesmos não fizermos isso?
Oh! Pawel, vem comigo... fujamos...
O que Valéria dizia, Rothschild sentira no decorrer de todos aqueles dias.
Todavia, a ideia de abandonar o castelo era-lhe insuportável.
— Foge tu, se podes...
Eu não... Gritou. - Eu não posso.
Valéria, aqueles que crêem no Espiritismo dizem que não se vive uma só vez.
Portanto, também nós já vivemos, e, como todas as aparências fazem supor, aqui mesmo desenrolou-se o drama do nosso passado.
Como o alcoólatra é atraído pelo álcool, o morfinómano é sempre levado à droga, também eu me sinto prisioneiro de um insaciável desejo de saber mais, que me obriga a desvendar o que fui, o que fiz, pensei, o que senti.
Quero agora que o destino, o meu carma, me arraste ao alvo desconhecido...
Tu não desejas saber, por exemplo, como se amava nos séculos passados?
Actualmente, em que tantas vezes um raciocínio sombrio oprime uma paixão, em que os heróis dos tempos de outrora surgem mais com aparências de fantasmas do que de homens de carne, ossos e sangue, hoje em dia, todos os sentimentos são tão frios e calculados quanto os próprios homens o são!
Já não sabemos amar até o esquecimento de nós mesmos.
Não somos capazes disso...
Entretanto, julgo aprender, de uns dias a esta parte, este perigoso sentimento, embriagante, que inflama o espírito, o amor que queima e destrói um homem e que, não obstante, proporciona-lhe a felicidade maior, a máxima bem-aventurança terrestre!
Sua voz foi morrendo até um balbucio indistinto, e seus olhos, de expressão habitualmente severa, abriram-se radiantes, profundamente apaixonados.
Ele julgou ler no olhar de Valéria a reciprocidade de seus sentimentos.
Mas na alma daquela moça, aparentemente tão fria, poderia também arder uma paixão igual à sua?
Seria a verdadeira Valéria que se revelava naquele olhar?
Tremendo de emoção, puxou a assustada moça para si e beijou-a na boca.
— Foge daqui, se puderes! - Exclamou radiante de amor.
E de súbito libertou a jovem de seus braços, ergueu-se de um salto e correu pelo estreito caminho, desaparecendo por trás das árvores.
Valéria ficou como que estarrecida.
Em seu coração, em sua face o sangue chegava em intempestivas correntes.
Aturdida, encostou a cabeça à parede de rocha.
Vira como aquele homem tranquilo e comedido se transformara num ser arrebatado, naquela criatura cujo retrato sempre trouxera estereotipado no seu íntimo.
Julgava sentir ainda o calor dos seus lábios e certificou-se de que o amava, não a Pawel, mas ao outro com o qual se parecia!
Tinha a sensação maluca de que aquele a quem amava tivesse se erguido naquele instante da sepultura, para de novo estreitá-la nos braços.
Não, também ela não podia fugir!
Não podia abandonar o castelo, aquele lugar estranho em que o presente morria e revivia o passado.
Estava irremediavelmente presa a Montinhoso, ainda que Montinhoso não fosse outra coisa que um abismo, uma cratera que ameaçava devorá-la.
Cambaleante, voltou ao seu dormitório.
Deitou-se vestida sobre a cama, e só pela madrugada conseguiu conciliar o sono.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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8 - A VOLTA AO PASSADO

No dia seguinte, receberam uma carta de Dionid Tonilim, na qual anunciava a sua chegada a Montinhoso dentro de duas semanas.
Todos se alegraram com a notícia, menos Rothschild e Valéria.
Evitavam fitar-se, mas tinham em comum um instintivo desgosto com a chegada do ocultista.
— Diz-me, Pawel:
quando resolverás finalmente a adquirir este castelo? - Perguntou Helena.
Se ficarem titubeando tanto tempo, um outro pretendente tomará a dianteira.
Confesso que desejaria, com a chegada de Dionid, poder devassar a ala murada.
Teu tio não respondeu ainda?
— Já respondeu, sim...
Deu-me permissão para a compra e enviou-me a importância desejada.
Já paguei ao notário vinte e cinco mil francos, mas tenho que esperar o regresso do proprietário actual para ultimar o negócio.
O notário me afirmou que o Marquês de Bianco nunca veio ver o castelo, que considera maléfico, e que se sentirá feliz em poder vendê-lo.
Mas é preciso convir em que, antes da compra definitivamente realizada, não temos direito de nos considerarmos senhores, imiscuindo-nos nos segredos da família.
— Imagina, Pawel!
E se encontrarmos aqui uma fortuna em ouro, jóias e outras preciosidades? - Exclamou Lolo entusiasmada.
— Naturalmente querida Lolo!
Encontrarei aqui todos os tesouros do decantado Ali-Babá, que os Condes Montinhoso, adivinhando a minha presente semelhança com a clã, destinaram-me! - Brincou Rothschild.
— Em todo caso - comentou Miguel sorrindo - foste predestinado a ser herdeiro deles!
Mas agora deixa-me contar-te o passeio que dei hoje pela manhã.
Encontrei o paraíso perdido...
— Oh! Miguel, querido! - Suplicou Lolo.
Ensina-nos o caminho para lá!
— Não sei! Por uma segunda vez não trilharei aquele caminho a sós.
Em companhia de muitas pessoas... quem sabe...
— Afinal, onde estiveste, e o que viste? - Quis saber, desconfiado, Rothschild.
— Infelizmente não foi muita coisa... - Respondeu Miguel.
Ouvi, pois!
Hoje levantei-me muito cedo, levei comigo uma escada de cordas, adquirida especialmente para isso, e subi a uma grande árvore, em frente ao muro, onde também se vêm cúpulas de árvores do lado oposto.
Não era fácil o reconhecimento, mas consegui certificar-me de que, desse lado, existia uma entrada para a ala murada do castelo.
É que, do muro, eu olhava para o parque, em cujo lado existe uma porta, actualmente fechada.
Prendendo minha escada ao muro, desci para o outro lado.
A grama e os arbustos espinhosos me dilaceraram a roupa.
Isso, porém, não me importava.
Convenci-me de que a parede da capela interior, avança até o quintal pois, uma porta, infelizmente fechada com barras de ferro comunica o pátio ao interior da capela.
Depois, transpus um portão e penetrei num belíssimo jardim de rosas.
Existe ali um grande terraço com elevada balaustrada e bancos de mármore correndo a um lado.
Uma porta que estava trancada impossibilitou-me continuar a jornada.
Realmente, se eu não tinha nenhuma possibilidade de lançar um olhar sequer ao interior do castelo, agora, confesso-o francamente, perdi por completo a vontade de fazê-lo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 28, 2016 7:09 pm

É que sucedeu uma coisa estranha...
Graças a Deus, não sou supersticioso nem medroso, além disso era dia claro, o sol brilhava e eu nem ao menos me encontrava num cómodo fechado.
Rireis com certeza quando eu vos disser que tive a sensação positiva de que não me encontrava a sós, de que, ao meu lado, e ao meu redor havia e moviam-se seres invisíveis que me tocavam...
Nunca dantes sentira coisa semelhante!
Procurei, a princípio, reagir, belisquei-me, observei e apalpei uma estátua já enegrecida pelo tempo que ali se achava, mas nada valeu!
Apoderou-se de mim um medo tão grande, um tal horror, que subi correndo a escada de corda.
E em baixo ladrava e uivava um cão que eu não podia ver...
Brrrrr! Uma vez e nunca mais.
— Mas, francamente, Miguel - ralhou Helena.
Nunca supus que meu filho fosse tão supersticioso.
Não te passou pela mente que foi Moro, o velho cão do castelo que ladrava?
É cão de guarda, e, sem dúvida, julgou-te um ladrão, um arrombador!
— Não, mamãe! Tu te enganas!
Era o fantasma do cão que pertenceu ao Conde de Montinhoso.
Esse fantasma percorre sem cessar os parques murados do castelo, em busca do seu senhor! - Observou Lolo excitada.
Eu sei. Savéria me disse!
Ela ouve o cão ladrar e uivar.
Savéria contou-me também que ninguém conseguirá entrar nesta parte do castelo. Só em época determinada e futura será permitido o ingresso.
A exposição de Lolo, porém, foi interrompida pela hilaridade geral.
Ficou deliberado que, assim que Montinhoso passasse a ser definitiva propriedade do Barão, desvendariam os seus segredos.
Rothschild parecia também de acordo com esse plano, mas intimamente lhe era contrário.
Experimentava um secreto rancor imaginando que pessoas estranhas desvendariam os seus mistérios íntimos.
Sentia que, naqueles compartimentos seculares, Valéria e ele se pertenciam, que entre ambos firmavam-se laços que não se atreveriam romper com toda a intensidade da alma...
X X X
Duas semanas transcorreram sem que qualquer coisa de notável sucedesse.
Valéria e Rothschild, excessivamente retraídos, reciprocamente evitam-se, e durante o dia quase não se viam.
Mas quando a noite chegava, como que seguindo uma combinação prévia, prosseguiam na exploração da ala fechada.
Levados por esse misterioso pacto, encontravam-se nos aposentos abandonados.
Evitando apenas a sala grande, onde existia o fúnebre quadro, a capela e a alcova de Giovana, juntos examinaram os guarda-roupas, revolveram malas e canastras, rindo e fazendo caçoadas sobre os seus achados.
E tais aventuras nocturnas os aproximavam cada vez mais, fazendo-os esquecer o presente pela idade medieval.
Tornaram-se apenas Paulo e Giovana.
Extraordinário era que, durante o dia, quando o encanto nocturno acabava, encontravam-se com desconfiança, quase que com hostilidade.
Mas assim que a noite descia sobre o castelo e seus habitantes, ou quando no decorrer de algumas noites seguidas, não tinham estado nos quartos antigos, voltava a despertar neles, de novo, o desejo de se encontrarem como Paulo e Giovana, e de resolverem os problemas do passado.
E até que um dia ocorreu a data marcada para a chegada de Dionid Tonilim.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:53 pm

Os jovens tinham ido à cidade, ao seu encontro, e o conduziram ao castelo onde as damas o receberam cordialmente.
Durante a noite toda, não se falou de outra coisa que não fossem as lendas do castelo de Montinhoso, a visita à catacumba e as estórias narradas pelo velho Giacomo.
Dionid ouvia esses relatos com vivo interesse, e frequentemente fitava, ora o semblante de Rothschild ora o de Valéria, tanto mais que esses dois, conforme observou, quase não tomavam parte na palestra.
Rothschild recolheu-se aborrecido ao quarto.
A palestra, como de outras vezes, afectara o seu estado nervoso, levando-a identificar-se com o Conde de Montinhoso.
As reiteradas referências à sua semelhança com ele, fizeram o resto.
Perdeu por completo o equilíbrio.
O que mais o molestava, porém, era o facto de todo o grupo de pessoas presentes tomar parte nas investigações, denotando um saliente interesse pelo segredo do castelo.
Zangado, atirou-se sobre uma cadeira, dando largas aos seus pensamentos confusos.
Em espírito, viu Giovana diante de si, e experimentou o ardente desejo de viver, ao menos uma vez, o que se passara outrora, as emoções das quais até então, apenas conhecera pequenas fracções.
Se pudesse ver o castelo como o fora nos velhos dias, em sua anterior opulência e magnificência, trocar o presente sem importância pelo passado colorido e cheio de aventuras!...
Se lhe fosse possível, ao menos por uma hora, ser um daqueles vaidosos cavalheiros, cujos desejos se assemelhavam a decretos!...
Batendo meia-noite na torre, o velho relógio interrompeu o curso de suas ideias.
Suspirando, ergueu-se para se acomodar no leito, mas de repente, estremeceu, estacando.
Ouvia um canto longínquo, que se fazia mais e mais distinto.
Uma voz feminina cantava uma ária italiana que ele desconhecia.
O canto vinha indubitavelmente dos aposentos abandonados.
Sem conseguir diminuir sua curiosidade, aproximou-se da passagem secreta.
Cuidadoso, removeu a mesinha, abriu a porta e estacou no limiar.
Todo o quarto encontrava-se feericamente iluminado por dezenas de velas cor-de-rosa.
Ao centro, se encontrava Valéria, e, todavia, parecia ser Giovana que cantava.
Trajava um vestido de brocado azul claro, cujo decote punha-lhe à mostra o belo pescoço clássico.
Um cinto largo, cujas pontas caíam soltas, envolvia-lhe a cintura, e um pequeno solidéu azul claro, ornamentado de pérolas, cobria-lhe a cabeça.
Valéria prosseguiu no seu canto, fazendo-se acompanhar do alaúde.
Rothschild continuava parado, cheio de admiração.
Não apenas o vestido dava à moça uma aparência diferente, mas também o seu rosto parecia transformado.
Um sorriso voluptuoso descerrava os seus lábios, e uma malícia desnorteante manifestava-se pelas suas atitudes e gestos.
Provavelmente estava outra vez em estado sonambúlico.
Seu olhar era, por vezes, quase fixo e vítreo, por vezes transmutado por uma apaixonada labareda.
Rothschild passou a mão pelos olhos.
Estava inteiramente consciente, e via que aquela que se encontrava à sua frente, era Valéria Samburoff.
Todavia, também via naquela figura um outro ser, perigoso e atraentemente belo, que nada tinha em comum com a jovem modesta e retraída.
— Giovana!
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:53 pm

— Ah! Me reconheceste!?
— Mas eu não te reconheço nesses trajes asquerosos.
Anda, veste-te, depressa, festivamente, e eu te recompensarei com a minha graça...
Rothschild não se movera do lugar em que se encontrava, e ouvia aquele canto que, então, se fazia mais profundo e metálico.
Giovana aproximou-se de uma mesa onde havia uma bandeja de ouro com garrafas e copos.
Ela encheu um copo com vinho, que corria grosso como um mel, tomou um gole, e, em seguida, ofereceu-o a Rothschild, que envolveu num olhar cheio de fogo.
— Ao passado, Conde de Montinhoso!
Mecanicamente, o Barão tomou o copo e esvaziou-o.
Sentiu, no mesmo instante, a sensação de ter levado um golpe na cabeça.
Ao seu redor, as paredes estremeceram como ao fragor de um trovão.
Em seguida experimentou a sensação de estar mergulhando em tenebrosa caverna...
Todas as suas emoções, entretanto, acalmaram-se no momento seguinte:
achou-se no mesmo quarto que dantes, mas Giovana tinha desaparecido.
Exausto, recostou-se à parede, tentando reflectir a respeito do que se passara. Outra vez, a terrível dualidade manifestava-se-lhe, com a diferença que, a sua imagem como Barão de Rothschild, parecia mais e mais submergir-se, enquanto que o outro eu, o de Paulo de Montinhoso, com seus pensamentos e desejos, o dominava.
E pela primeira vez sentiu-se, realmente, como Paulo de Montinhoso.
Sentia o sangue correndo em suas veias como labaredas de fogo, e o seu corpo saturado de uma força, de um vigor que nunca sentira antes.
Como um autómato, dirigiu-se ao antigo quarto do Conde Paulo, e não se admirou, absolutamente, quando um grande galgo veio saltando ao seu encontro.
— Negus! Meu fiel e velho amigo!
No quarto, tudo agora alinhava-se numa ordem deslumbrante.
Cuidadosa mão passara por ali.
Na sala contígua, havia flores e candelabros acesos, com velas cor-de-rosa sobre a mesa.
Quando entrou, veio ao seu encontro, surgindo de um canto, um velho servidor.
Calado, lhe tirou a roupa, e auxiliou-o a envergar um traje de brocado de prata e cetim cor de cereja.
Em seguida, colocou-lhe ao pescoço uma corrente de ouro, da qual pendia um medalhão, e entregou-lhe um barrete de veludo, sobre o qual, mantidas por estiletes e rubis, prendia-se uma grande pluma branca.
E o espelho reflectiu a imagem de um novo homem.
Já não era mais o pálido e exausto Barão de Rothschild, mas o orgulhoso e autoritário Conde de Montinhoso.
Em cada nervo, denotava energia e paixão.
O rico vestuário do século XVI, ainda realçava mais a sua formosura viril.
Os calções apertados, envolviam como luvas os seus membros esbeltos e flexíveis e a branca gola, mais os negros cabelos crespos, eram uma digna moldura àquele rosto enérgico e belo.
Com a curiosidade de um desinteressado, o Barão movimentava-se diante do espelho.
Nos seus olhos, lia a expressão audaz, o fogo e a convicção do seu poder.
Até então, não sabia que a sua boca fosse capaz
de um sorriso tão orgulhoso e irónico.
Sim, era belo, e conquistaria, facilmente, os corações femininos.
A sua personalidade inteira exprimia a tranquila certeza do vencedor, e dava-lhe doce e serena aparência, mas selvageria e crueldade também.
Ele poderia ser como uma fera que negaceava sua vítima, traiçoeiramente, para atraí-la a si, estraçalhá-la e arremessá-la outra vez à distância.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:53 pm

Quanto mais Rothschild contemplava o seu exterior, tanto mais lhe agradava o disfarce.
Sentia-se vencido pelos seus próprios encantos.
Orgulhosamente erecto, abandonou o quarto.
O seu desejo realizava-se.
Os velhos compartimentos enchiam-se de vida!
Servos vestidos nas cores de Montinhoso, corriam ocupados de um lado para o outro, e se inclinavam profundamente, perante o jovem Conde.
Do pátio, vinha o rumor do tropel de cavalos e retinir de armas.
Tudo festivamente iluminado.
Música e cantos.
Rothschild entrou no grande salão que guardava o quadro lúgubre.
Todavia este desaparecera da parede.
A sala enchia-se de convivas, damas e cavalheiros que eram amavelmente recebidos por velho anfitrião.
E este ancião chamava o filho.
E esquecendo-se do presente, de si mesmo, pode o jovem Conde entreter-se em animados colóquios sobre questões políticas que já de há muito pertenciam à história.
Sem surpresa, acendia quando o chamavam Conde Paulo, e gracejava com as damas que o envolviam em provocantes olhares.
Apenas de longe em longe passava-lhe, como um relâmpago pela mente, que não se chamava Montinhoso, afinal, mas Rothschild.
Tais pensamentos, porém, céleres fugiam, e como que uma nebulosa arrebatava-o.
Procurou Giovana e logo a encontrou, pelo braço de um belo mancebo em trajes verdes. Palestravam animadamente.
A poucos passos de distância, o par passou-lhe, e o moço cumprimentou-o atenciosamente.
Mas Giovana não parecia observá-lo.
Enciumado, Paulo levou a mão ao estilete que trazia à cintura.
Foi um movimento involuntário.
Sabia que Manfredo Toreani, um rico nóbile, de Modena, fazia ardente corte a Giovana.
Também ele cortejava-a.
Giovana, até então, recebera friamente as atenções do nóbile.
Naquele dia, entretanto, teria mudado de táctica, e, a todos os demais requestadores, dava preferência a Toreani.
Paulo sentia-se doido de raiva e ciúme.
Uma voz interior prevenia-o de que não podia desposar Giovana:
era casado sem o conhecimento do pai.
Mas a entregá-la ao seu pretendente, preferia matá-los a ambos.
Já o festim perdera, para ele, todo o encanto.
Não pensava noutra coisa que não fosse Giovana, e procurou-a, e ao seu cortejador, por toda a sala.
Mas inutilmente.
Transpôs várias salas e o refeitório, onde os criados ocupavam-se com o banquete.
Foi ao andar superior e saiu ao terraço.
Ai encontrou-a, recostada à balaustrada.
Olhava o jardim, abanando-se com o leque.
Ele aproximou-se lesto e prendeu-a pelo punho.
— Onde está Toreani?
— Teu pai o chamou, mas voltará logo.
— Giovana, se não deixares este teu capricho com Manfredo, não me responsabilizarei pelo que vier...
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:54 pm

— Sim? E com que direito, Conde Paulo, me impões alternativas?
— Com o direito do amor.
Pois eu te amo, Giovana, e trucidarei quem quer que ouse aproximar-se de ti!
— Tu me amas, Paulo?
Mas corre por aí a notícia de que tio Rindolfo tem em vista um óptimo partido para ti!
Queres, certamente, fazer de mim um joguete!
Enganas-te muito!
Para me possuir, é preciso seguir o caminho que passa pela igreja! - Retrucou Giovana.
O olhar da moça ardia como fogo.
— Para possuir-te transporei céus e infernos!
Contra os planos de meu pai não posso fazer nada.
Realidade, porém, só se tornará o que eu quiser.
Eu te juro: tu serás minha!
Mas não desejo iniciar uma luta aberta e que será infrutífera, contra meu pai.
Quando, entretanto, eu o tiver colocado ante os factos consumados, ele terá, finalmente, que conformar-se!
E como ele te ama, nos perdoará...
Tu sabes que o meu primo Cesar, que recentemente faleceu, nos deixou grandes propriedades na Sicília, próximo a Siracusa.
Meu pai julga que estão muito distantes, e deseja vendê-las.
Seguirá em breve para lá, e ficará ausente alguns meses.
Aproveitaremos esse tempo para nos casarmos.
Agora que conheces os meus planos, e tens a minha palavra, beijo-te como minha noiva.
Abraçou-a, beijando-a na boca.
lncendiada de amor, Giovana retribuiu-lhe as carícias.
— Vem! Subamos até a gruta.
A noite é bela, os nossos hóspedes passeiam no jardim.
Quem saberá onde estamos?! - Disse ele despreocupado, sorrindo.
E arrastou-a consigo.
Caminharam à sombra das árvores, mas não chegaram à gruta.
Irrompendo, um toque de buzina anunciava o banquete.
X X X
Grande alegria reinava no salão.
No decorrer do banquete Rothschild sentiu ressurgir a consciência de sua dualidade, e um indescritível desassossego empanou-lhe o espírito, enquanto sua boca, mecanicamente, discorria acerca dos acontecimentos e pessoas que lhe eram desconhecidos.
Seu olhar não se desprendia de Giovana e Manfredo Toreani, que se assentara ao lado dela.
Depois disso, uma chuva de violetas pareceu descer sobre o salão, e os convivas, empalidecendo mais e mais, desfizeram-se em nada.
Um trovão terrível pareceu abalar as paredes.
A terra tremeu e oscilou sob seus pés.
Paulo sentiu uma pancada em sua fronte e perdeu a consciência...
Quando Rothschild despertou, já era dia claro.
Achou-se sobre uma cama, e nada além de sua memória, denunciava que tivesse tomado parte no festim fantástico.
A roupa de brocado desaparecera, a porta secreta estava fechada.
Sobre a mesa da cabeceira, entretanto, uma Tosa branca dava concludentes provas dos acontecimentos nocturnos.
Podia recordar-se perfeitamente de haver visto aquela rosa na cintura de Giovana, e de se ter apoderado dela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:54 pm

Todavia, na mesinha junto da janela, também havia rosas.
Esta poderia ter sido retirada dali.
— Que sonho tão vivo!... - Pensou.
Apresentou-me as figuras que desejo tão ardentemente ver, em realidade.
Sim, um sonho...
Não poderei explicar o facto de outra maneira.
Contudo, não é difícil perder-se o juízo como uma sucessão de acontecimentos desagradáveis como esses.
Vestiu-se apressadamente.
O relógio da torre anunciava meio-dia.
Os hóspedes demoravam-se ainda no primeiro almoço.
Certamente não se tinham também levantado muito cedo.
Em suas fisionomias, lia-se ainda fadiga e sono.
A palestra estava animada, seguida de movimentos calorosos e altas exclamações.
Apenas Tonilim calava-se.
Quando Rothschild surgiu no terraço, lançou sobre o moço um olhar cheio de estranheza.
— Até que enfim chegas, Pawel.
Com certeza também não pregaste o olho, heim?
Diz-me, tens alguma explicação para esse horrível barulho nocturno? - Perguntou Helena excitada.
— Mas, querida tia, nem sei ao menos de que falais!
Não ouvi absolutamente nada.
Por Deus, dizei-me o que sucedeu? - Exclamou confuso Rothschild.
— Mas será possível?
Todos nós ouvimos a mesma coisa!
Dionid, os criados...
Logo depois de meia-noite, ao que parece, o castelo encheu-se de gente.
Cavalos rinchavam, escoiceando as pedras, ouviram-se vozes, na ala murada ressoaram músicas e cantos.
Foi, positivamente, uma zoeira infernal!
— Sim, realmente, infernal!
Provavelmente, todos os condes e condessas de Montinhoso, parentelas e amigos da corja, ergueram-se da tumba e promoveram um baile!
— Não consegui dormir a noite toda, - confessou Loló muito nervosa - e passei para o quarto de mamãe.
— É singular que eu não tenha ouvido nada! - Disse Rothschild, enquanto se servia de café, e, manhosamente, fugia aos olhares investigadores de Dionid Tonilim.
— Talvez tenhas também participado do banquete, e por isso não te apercebeste do barulho tanto quanto nós! - Disse Dionid sorrindo enigmaticamente.
— Esta é sem dúvida, uma suposição muito curiosa! - Retrucou o Barão friamente.
— E que contudo baseia-se num acontecimento não menos curioso.
É que quando ouvi o barulho, levantei-me para verificar as causas.
Vi, então, um homem num rico traje do século XVI subir as escadas para o terraço.
Assemelhava-se tanto contigo, que poderia até ocasionar confusões.
Conduzia pelo braço uma jovem também festivamente engalanada, cujo rosto não pude ver bem.
Diz-me, Pawel, não é verdadeiramente estranho que esta aparição tenha tido uma tão viva semelhança contigo?
— Prezado Dionid Tonilim, não posso em verdade, responder à tua pergunta, pois nada vi, nada ouvi.
Ademais, não me admiro com o facto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:54 pm

Aparentemente, todos os espíritos e espectros que aparecem por aqui parecem-se comigo! - disse Rothschild num tom quase hostil.
Apressou-se em tomar o seu café e, sob pretexto de precisar escrever algumas cartas, retirou-se.
— Porque fazes tais gracejos, Dionid?
Ele não gosta disso!
E eu compreendo muito bem que lhe deve ser incómodo e desagradável o haver recebido do destino o mesmo exterior que esse D. Juan, ou Borga, e que, segundo a lenda, um tão triste papel desempenhou.
A estas palavras de Helena, Tonilim só teve um dar de ombros:
— Mas este é um caso altamente interessante!
Eu vos peço por isso, meus amigos, que resgateis a promessa feita, e me seja mostrado tudo quanto pode ser visto, dentro e fora dos muros do castelo, até onde pudermos ir.
Espero que o Barão não se oponha a uma inspecção à ala fechada!
Miguel ofereceu-se para acompanhar Tonilim, mostrando-lhe as ruínas do convento e a capela mortuária do Conde Paulo.
As damas, porém, recusaram-se, peremptoriamente, a fazer uma segunda visita àquelas misteriosas regiões.
Antes de saírem, inspeccionaram tudo quanto julgaram digno de exame.
Depois as ruínas e a sepultura.
Com o auxílio de uma escada de cordas, Dionid subiu ao muro, no mesmo local, em que dias antes estivera Miguel, desceu ao quintal e estudou, minuciosamente, o jardim das rosas.
Descobriu uma espécie de abrigo, que Miguel notara, e abriu sua porta, que não fora selada, retirando dele um esquife entalhado, e um selim de mulher.
Todas as outras portas estavam lacradas, e não poderiam ser abertas sem o auxílio de ferramentas.
Desse passeio, regressou Dionid taciturno e preocupado.
Não disse, entretanto, uma palavra sobre a sua descoberta.
Larissa, que o observava, lhe teria falado com grande prazer a sós, mas não encontrou oportunidade para isso.
Somente no dia seguinte à tardinha, encontrou-se com ele a sós, por acaso, e pediu-lhe que dissesse alguma coisa sobre as suas descobertas e os resultados da investigação que levava a efeito.
Queria conhecer a sua opinião sobre os misteriosos acontecimentos.
— Por enquanto, é bem pouco o que sei, para poder formar um juízo claro.
Uma coisa, porém, posso adiantar:
a atmosfera toda, aqui, está impregnada de fluidos hostis.
O passado despertou, realmente, nas nossas vidas.
Qualquer coisa de funesto oculta-se entre estas paredes, e ai daqueles que outrora participaram dos dramas que se desenrolaram neste cenário, quando caírem nas mãos de suas vítimas.
Funestos e inesperados acontecimentos iremos assistir.
Não me sinto suficientemente forte para, sozinho, ir ao encontro desses mistérios ocultos.
Por esse motivo, escrevi a um amigo, e pedi-lhe que viesse cá.
É quase um sábio e um profundo conhecedor dos fenómenos desse domínio.
Com os seus conselhos e sua prática, nos auxiliará de sobremaneira.
— Mas pelo amor de Deus, Dionid, o que pode nos acontecer?
Que Deus nos defenda dos perigos!...
— Eu seria feliz, Larissa, se pudesse localizar o perigo que possivelmente, nos ameaça, pois, assim, teria apenas a metade da sua força.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:54 pm

Estou, porém, firmemente convencido de que Rothschild está em íntima relação com as tragédias deste castelo, e sabe mais do que alega saber.
Temo que a pobre Valéria tenha também um papel no drama, e seja arrastada para o infortúnio.
Está fraca e nervosa!
Observa essa menina, Larissa, mas sem te denunciares.
Seria inútil deixá-la desconfiar antes do tempo.
Mas, no momento em que eu te aconselhar, foge com ela daqui, imediatamente.
X X X
Nos dias que se seguiram, fizeram excursões pelas vizinhanças do castelo, das quais todos participaram.
Os ânimos tinham se acalmado, pois os ruídos nocturnos não se repetiram, e o sossego dos hóspedes do castelo não foi quebrado.
Apenas o Barão acabrunhava-se, tomado por estranho nervosismo.
Notara que, secretamente, Tonilim o mantinha sob vigilância.
Também Valéria não pode furtar-se a uma impressão semelhante.
Durante o dia, encontravam-se como sempre fria e tranquilamente.
Mas depois que a noite caía, o sangue corria-lhes mais rápido nas veias, e passavam, então, a aguardar ansiosamente, o momento em que todos se recolhiam.
E abriam trémulos as portas secretas, penetravam como sombras no corredor, acendiam as velas das quais encontraram considerável provisão nos armários, e se encontravam por fim.
Singulares eram as suas palestras, das quais excluíam, concomitantemente, o presente.
Paulo e Giovana falavam apenas das coisas do passado, que eram para eles, o presente.
Naqueles misteriosos compartimentos, tornavam-se românticos fogosos, cuja paixão crescia de dia para dia, e ameaçava, sempre, todas as barreiras.
Os dias já eram para eles um fardo, as horas decorriam vagarosamente.
Não pensavam senão na noite que estava para chegar...
Uma manhã, Tonilim comunicou que precisava fazer uma viagem de pouco tempo, e pediu permissão para trazer consigo um bom e velho amigo, grande admirador e partidário do ocultismo.
As cartas que lhe escrevera sobre Montinhoso, explicava, tinham-no deixado curiosíssimo.
Helena deu, cordialmente, o seu consentimento.
Mas nos cantos da boca do Barão, brincava um sorriso de ironia.
Ao sair, Tonilim disse a Larissa que previa acontecimentos sérios a exigir enérgicas providências.
Fazia aquela viagem por este motivo:
para trazer o amigo o mais depressa possível.
— Observa, Valéria! - Acrescentou ao apertar-lhe a mão.
A Larissa, porém, não necessitavam tais admoestações.
Logo depois da primeira vez em que falaram sobre o perigo que podia ameaçar Valéria, tinha passado a vigiá-la atentamente.
Chegara à conclusão de que, na alma da jovem, qualquer coisa de anormal se passava.
Mas não encontrava a chave do enigma.
Uma circunstância actuava especialmente desinquietante, e desagradavelmente, sobre Larissa.
Recebera uma carta em que a progenitora da moça comunicava-lhe que Anatólio pretendia estar em breve em Montinhoso.
Se ela Larissa, pretendia alongar a sua permanência na Itália, poderia confiar Valéria ao irmão que, finda sua licença de trinta dias, a levaria consigo para casa.
Quando Lolo e Miguel souberam da próxima chegada de Miguel, ficaram satisfeitíssimos.
Mas Valéria, empalidecendo, estremeceu involuntariamente.
A partir desse dia, sempre ficava nervosa quando lhe falavam na sua viagem de regresso.
Debalde procurava Larissa o motivo desse procedimento.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:54 pm

A princípio, imaginou que Valéria enamorara-se do Barão.
Mas a constante indiferença com que se encontravam, logo excluiu essa suposição.
Rothschild nem ao menos fazia a corte a Valéria, que, por sua vez, evitava-o.
O facto de a afilhada trancar-se de noite no seu aposento, causou-lhe uma certa admiração de princípio.
Depois passou a julgar muito natural que Valéria não dormisse de portas abertas num castelo cheio de fantasmas, como aquele.
Mas, qual seria então o motivo pelo qual não queria deixar Montinhos?
Larissa começou a sentir-se mal.
O desassossego martirizava-a, o medo que sentia avolumar-se em seu espírito, levava-a ao desejo de fugir dali imediatamente.
Detinha-a, porém, a curiosidade de conhecer o que guardava a ala murada.
A partida de Tonilim actuara perturbadoramente sobre Rothschild.
No decorrer dos últimos dias, não lhe fora possível visitar os aposentos secretos.
Não se sentia, fisicamente, muito bem.
Afectava-o uma sonolência que, desde a tardinha fazia-o adormecer onde quer que estivesse.
Na noite seguinte à partida de Tonilim, resolveu visitar outra vez os antigos aposentos.
A separação involuntária de Giovana fizeram crescer ainda mais a sua paixão por ela.
Queria revê-la, a qualquer preço.
Nem bem apagaram-se as luzes no castelo, Pawel abriu a porta secreta e entrou nos aposentos já familiares e conhecidos.
A hesitação que afectou-o de início, cedeu lugar a uma excitação invulgar, que lhe fazia o sangue correr nas veias como filetes de fogo.
A sua paixão por Giovana alcançava o ápice.
Trémulo de impaciência, penetrou na sala que guardava o retrato de seu suposto progenitor, e onde costumava palestrar com a moça.
Rothschild acendia as velas sobre a lareira, quando Valéria entrou, apressadamente; dirigindo-se ao moço, abraçou-o.
Falaram, então, do seu amor.
Valéria, porém, revelava-se inquieta, voltando-se medrosa de quando em quando, para fitar o retrato do Signore Rindolfo, de maneira que o Barão conduziu-a ao quarto que ocupara outrora.
Aí, então, esqueceram-se de tudo e de todos, do presente, do passado.
O amor enceguecia-os, devorando como um fogo selvagem, levando-os a experimentar de novo as antigas emoções.
E no quarto em que, três séculos atrás, se desenrolara o mesmo drama de amor, Valéria entregou-se ao bem amado...
X X X
Como um pesadelo, pairava sobre Pawel, depois de despertar, a lembrança da noite.
Tudo aquilo não fora um sonho apenas, mas realidade!
Ele cometera um delito que não podia remediar, procedera em relação àquela jovem criatura que fora entregue à sua guarda, como um bandido.
Destruíra a sua vida, e nem ao menos podia salvar a sua honra, uma vez que se encontrava preso a outra mulher.
Certamente, encontra-se fora de suas faculdades normais.
Na realidade amava aquela menina!
Não a fria e inalcançável Valéria, mas a nocturna Giovana, aquela que, com sua paixão, o tornara seu escravo.
Não seria, naturalmente, muito fácil provar-se que fora justamente ele, quem desviara Valéria, que, por sua vez, no decorrer das horas da noite, encontrava-se quase sempre em estado sonambúlico.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:55 pm

Talvez a moça nem soubesse o que sucedera.
Esse facto, todavia, deprimia mais o seu procedimento.
De boa vontade, se prestaria a reparar tudo.
Aquele infeliz casamento, entretanto, impossibilitava tudo.
Essa lembrança levou-o à beira do desespero.
Um rancor desvairado se apoderou dele, ao lembrar-se daquela a quem nunca amara e que o prendia, sem libertá-lo, entre as suas mãos.
O estado de espírito de Rothschild, era tão atroz, que não pode comparecer ao almoço.
Pretextando uma enfermidade qualquer, não abandonou seus aposentos durante todo o dia.
Miguel e Helena visitaram-no, e não ficaram satisfeitos com o seu aspecto.
Ele parecia ter febre. Deitou-se e tomou alguns comprimidos.
— Tu te griparás ainda, se não perderes esse horrível costume de dormir com as janelas escancaradas!
— Qualquer dia estarás com malária! - Reforçou Helena Alexandrowna.
O Barão respondeu com um gracejo, e prometeu ser cauteloso.
Ficou satisfeito quando se viu a sós outra vez.
Mais tarde voltou Miguel para distraí-la, e contou-lhe que Valéria tivera uma crise de nervos quando, pela manhã, recebera a notícia da morte de um parente distante.
Tinham-na transportado para o leito e ela dormia, então.
Um frio suor percorreu a testa de Rothschild.
E se ela tivesse tido aquele ataque em virtude dos acontecimentos da noite?
Oh! poderia ele apresentar-se à moça ainda?
Sem sono, virava-se na cama de um lado para o outro.
E o plano de libertar-se de Dina, a qualquer custo, foi amadurecendo no seu espírito.
Tal resolução tranquilizou-o um pouco.
Na manhã seguinte, apareceu outra vez para o almoço.
Um único olhar para Valéria, bastou-lhe para certificar-se de que ela ignorara o sucedido.
Parecia apenas um pouco pálida e mais pensativa.
E os dias seguintes correram tranquilos. Apenas no íntimo do Barão não havia paz.
Ele sofria.
Todas as vezes em que via Valéria, só com dificuldade continha o seu nervosismo.
Evitava os quartos tenebrosos, nos quais se transformava no Conde Paulo e onde se consumira na furiosa paixão por Giovana.
Temia a lembrança de Giovana, que era, toda, a voluptuosidade que o embriagara de tão indizível maneira.
Desejava a Diva nocturna, mas não a menina retraída e fria, que encontrava durante o dia.
Se a desviara, porém, era preciso reparar o mal feito, por meio do matrimónio.
Valéria, apesar de sua frieza e severidade, lhe era mil vezes mais atraente do que aquela Dina que, despudoradamente, lhe fora imposta.
Se desposasse Valéria, então, viveria ali, com ela, na dupla personificação que a tornava tão cara, tão preciosa para ele.
Era, afinal, o senhor daquela propriedade, à qual cada dia que passava, sentia-se mais e mais preso, por misteriosas peias.
Uma noite, estavam todos sentados no terraço, à mesa do chá, quando um mensageiro a cavalo entregou a Rothschild um telegrama e uma carta.
A carta era do secretário do Barão de Rothschild, escrita de um balneário de Nheunheim.
Nela comunicava-lhe que um forte ataque da antiga enfermidade cardíaca, prendia o velho ao leito, e que havia perigo de morte.
Pedia, por isso, ao sobrinho, que fosse.
A essa carta, seguiam-se algumas linhas escritas pela mão trémula do tio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:55 pm

Dizia ele:
“Desejo muito, muito, Pawel, ver-te ainda uma vez, e te peço que logo que receberes esta, venhas.
Se eu morrer antes da tua chegada, que obedeças estritamente à minha vontade, que está expressa num documento que o meu secretário te entregará com outros papéis.
Constituo-te o meu herdeiro universal, com excepção de uma pequena parte que pretendo destinar a Helena Alexandrowna e seus filhos”.
No telegrama, reiterava o pedido pela viagem, o quanto antes pudesse.
A notícia abalou a todos profundamente.
Helena e Lolo choraram.
Quanto Rothschild declarou que partiria imediatamente.
Helena decidiu que iria com ele.
Desejava ver uma vez mais o irmão, antes da morte.
Ouvindo isto, Lolo pediu que a levassem também.
Amava imensamente o velho tio, e desejava estar perto dele em seus últimos instantes.
Helena resolveu satisfazer aos desejos da filha.
— Mas eu não posso esperar!
Preciso sair amanhã cedo, às cinco ou seis horas, para alcançar o expresso.
Estareis prontas a esta hora?
— Sim, estaremos prontas!
De minha parte levarei apenas uma valise, que arrumarei já. - Respondeu Helena.
— Eu também levarei apenas o necessário.
Pretendo regressar o mais depressa possível! - Disse Rothschild.
Ele via, à sua frente, o semblante pálido e desfigurado de Valéria, e uma dor aguda contraiu o seu coração.
— Espero Larissa, que, juntamente com Valéria, me dareis a honra de ficar aqui em Montinhoso, como minhas hóspedes!
Em minha última ida à vila, resolvi definitivamente todas as formalidades da compra.
Nada tereis a temer, uma vez que Miguel ficará aqui para proteger-vos até que chegue Dionid e seu amigo.
Todavia, solicito-vos a todos deixardes o início da inspecção do castelo, em todas as suas dependências, para o meu regresso.
Espero que nos reunamos aqui outra vez e então encontraremos tempo e vagar para uma investigação mais completa.
Os segredos certamente não desaparecerão até lá.
Retiro-me agora para descansar um pouco e arrumar a bagagem...
— Fica combinado então!
Guardarei a tua propriedade e protegerei as senhoras contra qualquer perigo! -— Disse Miguel entusiasmado.
Eu sabia que o castelo havia de ser teu um dia.
Não foi por acaso que te enviaram a chave da catacumba do Maledetto.
Rothschild despediu-se de Larissa e Valéria.
Pouco depois, Helena e Lolo também se retiravam para os seus aposentos, despedindo-se antes dos que ficavam, e pedindo-lhes que não se levantassem a hora da partida, para acompanhá-los.
Quando Rothschild ficou só, respirou profundamente.
Avaliava, pela carta, que o velho tio não viveria muito, e, que cerrando os olhos, o deixaria senhor de milhões e milhões.
Então, o seu primeiro acto seria libertar-se daquele matrimónio que lhe fora imposto.
Enquanto fazia planos para o futuro, e buscava uma razão plausível para a separação de Dina, tirou do armário uma elegante mala.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:55 pm

Rapidamente colocou nela as peças de que necessitava, fechou-a e foi encostar-se cansado, na janela.
O silêncio da noite actuava surpreendentemente sobre seu espírito.
Teve o saudoso desejo de ver Giovana e apertá-la nos braços mais uma vez antes de partir.
Já passara de meia-noite e ele continuava recostado ao batente, lutando contra a paixão que o atraía àquela cuja vida, (quem sabe?) destruíra.
De súbito, pôs-se de pé, e perscrutou a escuridão.
À distância, soavam outra vez o sino conventual e o De Profundis.
Por um momento, Rothschild permaneceu ali, como que imobilizado pelo horror mas, em seguida, um ódio selvagem dominou-o.
— Ah! Espectros malditos!
Cantais para mim e Valéria o cântico dos mortos?
Para que lutar contra esta infeliz paixão?
Se já estamos ambos condenados, porque não nos encontrarmos tantas vezes quantas nos atraírem os nossos anseios?
Resoluto abriu a porta e penetrou no quarto de Giovana.
Estava iluminado e vazio.
Admirado, notou então que uma porta, que sempre supusera ser uma janela murada, estava aberta.
Dava ela para uma escada pequena, em caracol, e que terminava diante de uma porta, igualmente aberta.
Cautelosamente transpôs também esta porta, e encontrou-se no jardim das rosas de que Miguel lhe falara e que, até então, apenas fora alcançado pelo parque.
A luz minguante iluminava frouxamente o jardim, mas o bastante para que Rothschild, com alguns passos, pudesse alcançar o terraço coberto de capim e arbustos.
Sobre um banco de pedra, próximo, viu Valéria assentada.
Trajava um longo penteador que brilhava em amarfinadas cores.
A barra do traje fora guarnecida de bordados de ouro, e as longas mangas abriam-se do ombro ao punho, pondo a descoberto os belos braços da moça!
Uma larga fita enfeitada de pedrarias, prendia-lhe a cabeleira, descendo-lhe pelas espáduas.
Sobre os seus joelhos, estava um bandolim.
Com um olhar singularmente fixo, que denotava o seu estado anormal, olhava ela o espaço aberto.
O seu rosto pálido era como o de uma morta.
Rothschild parara surpreendido pelo que via.
Naquele momento, no ambiente das rosas florescidas, cujo odor enchia a noite, Valéria estava mais linda do que nunca. Como não amar semelhante criatura?!
Mas, como se libertaria daquela que o prendia, e que o proibia de gozar, ali, a sua felicidade descuidada e embriagante?
— Giovana? - Balbuciou o apaixonado.
Valéria ergueu-se de um salto.
O bandolim, caindo ao solo, retiniu de leve.
Com uma exclamação, ela foi ao seu encontro, e estendeu-lhe os braços:
Valéria em seus braços, como outrora o fizera Paulo de Montinhoso, o perjuro, o que traía e matava as mulheres que amava, jurou-lhe fidelidade e amor.
E quanto mais crescia o seu desejo de possuir para si aquela menina, tanto mais alto ouvia a voz que partia do seu íntimo e que, fruto acerbo do egoísmo, balbuciava:
- O mal já está feito.
Se puderes repará-lo-ás!
Porque desprezar agora os bem-aventurados momentos de enlevo e felicidade?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:55 pm

X X X
O velho relógio da torre batia três horas...
Um galo cantou à distância.
Valéria estremeceu de repente e abriu os olhos como depois de um longo sono.
Por muito tempo passeou o olhar em torno de si, e então recobrou a consciência.
Viu-se deitada sobre uma das velhas camas, e, ao seu lado, Rothschild.
Corando profundamente de vergonha ergueu-se de um salto gritando:
— O que significa isto?
És um criminoso, Barão.
Tu me hipnotizaste, me atraíste a uma armadilha e me desonraste! - A sua voz tremia.
— Pelo amor de Deus, Valéria, volta à tua consciência! - Gritou Rothschild tomando-a pelas mãos.
Não sou hipnotizador, sabes!
E amo-te de todo o meu coração.
Tu me amas também...
Depois do meu regresso acertaremos tudo, tudo ficará bem, e nós nos uniremos para sempre.
— Infame, mentiroso! - Gemeu ela; e sem forças caiu de joelhos.
— o futuro te dirá Valéria, como tudo terminará bem e honradamente.
Mas agora é preciso que voltes ao teu quarto.
O que pensariam se te encontrassem nesse vestido bordado! - Disse Rothschild impaciente.
Mas quando viu que Valéria não se movia, e apertava a cabeça com as duas mãos, tomou uma rápida resolução.
Apoiou a cabeça sobre a sua fronte e disse em tom imperativo:
— Dorme!
E esquece tudo o que sucedeu.
A força de sua vontade pareceu não negar o efeito.
Os olhos de Valéria fecharam-se e sua cabeça pendeu sobre o peito.
Rápido ele arrancou-lhe o vestido de seda e levou-a, como uma criança, nos braços para o quarto.
A porta secreta do corredor, estava aberta.
Depois de se convencer de que as portas para os outros quartos estavam fechadas; depôs Valéria sobre o leito e cobriu-a.
Debruçou-se mais uma vez sobre ela e cheio de amor, martirizado de remorsos, olhou aquele rosto que ostentava uma bem diversa expressão.
— Eu te juro que resgatarei o meu pecado! - Disse baixinho; e beijou-a sobre os lábios.
Fechou cuidadosamente a porta secreta, e voltou depressa ao quarto de Giovana.
Aí pôs todas as coisas em ordem, recolocou o vestido branco no armário e voltou ao seu quarto.
A fadiga que sentira antes, desaparecera por completo.
Aquela cruel fatalidade em que se debatia, despertara-lhe os sentidos, mas o que cometera contra Valéria contraía de dor o seu coração.
E se Dina não lhe desse a liberdade?
Mas, não! Ela tinha que libertá-lo.
Não poderia afinal, manter uma aliança que fora forjada imoralmente, e que só tinha que acabar em ódio.
Ele esperava que o dinheiro resolvesse a situação.
Ergueu-se e trocou-se, saindo para o terraço onde as duas senhoras já tomavam o seu café.
— Larissa levantou-se, e virá em breve despedir-se de nós. - comunicou-lhe Lolo.
Quis também despedir-me de Valéria, mas ela dormia tão profundamente que bati inutilmente.
Se não dormia realmente, não desejava ver-te Pawel!
Rothschild fez um leve meneio com a cabeça e resolveu procurar Valéria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:55 pm

No momento em que se aproximava do quarto da moça, eis que esta, já arrumada, dirigia-se para o jardim.
O Barão tomou-lhe as mãos num movimento rápido.
— Paulo! Paulo!!!
Ele atraiu-a a si, e, levando-a até o banco, cobriu-lhe o rosto de beijos.
A aproximação de Valéria, aquele perfume forte que dançava no ar, puderam afastar do seu espírito os tristes pensamentos.
Valéria, porém, consentindo nos seus carinhos, não os retribuía.
Libertou-se dele de repente e, ajoelhando-se sobre o banco, prendeu-lhe a cabeça com os braços.
— Paulo? Seria capaz de abandonar-me agora, que me cobriste de opróbrio e de vergonha?
— Porque dizes isto Giovana?
Afasta de ti, estas ideias.
Eu te amo mais que tudo no mundo e nunca te abandonarei, nunca.
Vagarosamente aproximou ela o seu rosto do dele, e Rothschild pode ler nos seus olhos aquela expressão de selvática paixão que não notara ainda.
— Responde-me:
É certo que tu és casado, Paulo de Montinhoso?
Enganar-me-ias durante todo esse tempo?
Dar-se-á acaso que o teu amor por mim seja um capricho, um brinquedo apenas?
Podem esses belos lábios mentir e jurar falsamente?
Será tudo isto para ti uma farsa desapiedada?
Repudiarás a mim, a desonrada, que te deu tudo quanto te podia dar?
Mas fala, Paulo, fala!...
Diz-me a verdade toda por horrível que seja, porque... - E ela gritou alto. - porque, esteja morta ou viva, não te deixarei.
Há séculos que me pertences, como me pertences hoje, e serás meu eternamente!!!
Ela inclinou-se tanto que ele sentiu-lhe o hálito quente contra o rosto.
Em seus olhos e em sua voz havia uma nota tão grande de hostilidade e dureza, que um calafrio perpassou pelo corpo de Rothschild.
Ele recuou, e com força desprendeu as mãos dela do seu pescoço, mãos que lhe pareceram correntes férreas e possantes.
— Quem és tu, ente misterioso?
Um espírito ou um vivente?
Como me hei-de libertar deste pesadelo? - Balbuciou ele desesperado, afastando-se pouco a pouco.
Tinha agora o impulso de abarcar o branco pescoço da moça com os dedos e estrangular a esfinge que se intrometera na sua vida e ameaçava destruí-la.
Simultaneamente, porém veio-lhe também a consciência de sua segunda vida.
Uma voz interior lhe dizia:
— Que queres fazer, infeliz?
Não compreendes então que um pesadelo te absorve?
Sentiu-se invadido por um torpor e caiu sem sentidos sobre o banco.
Um vento gelado despertou-o.
Jazia sobre a relva, e, à sua frente, ajoelhada, Giovana humedecia-lhe as fontes com um pano molhado.
Ele ergueu-se olhando surpreendido ao seu redor.
Alguns passos adiante, via um tanque de pedra quase todo coberto de musgo, que não observara anteriormente.
Os olhos da sonâmbula viram-no logo, e fora molhar o lenço em sua água.
A luz da lua brilhava reflectida no seu interior.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:56 pm

Com o auxílio de Giovana, Rothschild ergueu-se e assentou-se de novo no banco.
Como se pretendendo varrer todo o sucedido de sua memória, a moça acariciou-lhe o rosto, e apoiou a cabeça no seu ombro.
Era agora toda docilidade e amor.
Rothschild principiava outra vez a perder-se com os seus encantos.
Estava perfeitamente convencido de ser o Barão de Rothschild e não o Conde de Montinhoso, já desfeito em pó, cujos traços fisionómicos entretanto reproduzia.
Mas afinal, não lhe era diferente o nome de Paulo, principalmente se pronunciado mansamente, com doçura, entre dois beijos.
Sentiu nascer em si, a princípio disfarçadamente, a sua vaidade de homem, o seu orgulho de cavalheiro medieval, amado pela mulher disputada por todos.
E o amor arrastou-o outra vez.
Rothschild recompôs-se e dirigiu-se ao seu quarto para terminar os preparativos para a viagem.
Finalmente chegou a hora da partida e todos notaram que Valéria não se encontrava presente.
— Parece mesmo que ela não gosta de ti - disse caçoando o primo.
— Ou está enamorada de ti... ou tu a contrarias, de qualquer modo... - prosseguiu Miguel.
— Não sei como e porque eu contrariaria Valéria! - Redarguiu Rothschild.
Nesse momento, Larissa surgia, e interrompeu a conversa.
Os viajantes despediram-se logo depois, e prometeram escrever de Manhein.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 29, 2016 7:56 pm

9 - A ESPOSA

Valéria só despertou mais tarde, com a cabeça pesada e os membros como que partidos.
Olhou para o relógio e viu que os viajantes, então, já deviam estar a caminho.
Aborrecia-a pensar que, por não se ter despertado a tempo, não se despedira de Helena, acompanhando-os até a saída.
Descontente consigo mesma, principiou-se a vestir-se.
Mas como um relâmpago, veio-lhe a lembrança da noite passada. recordava-se apenas de qualquer coisa de nebuloso e caótico:
o quarto de Giovana, uma velha cama de dossel e o semblante do Barão inclinado sobre o dela, com uma expressão apaixonada.
Envergonhada e corando até a raiz do cabelo, sentou-se sobre uma cadeira e procurou pôr em ordem os seus pensamentos.
O que sucedera?
Era aquilo tudo um sonho ou realidade?
Acreditava poder recordar-se ainda de um vestido branco, bordado a ouro, que vira certa ocasião no guarda-roupa de Giovana.
Não, era tudo um sonho!
Ao seu redor, não se modificara nada, não constatava a existência daquele vestido branco, a porta secreta estava fechada.
Ela própria acordara em seu leito.
Graças a Deus, tudo não parecia ser mais que um sonho tolo.
Se as suas negras desconfianças fossem realidade, o opróbrio e a vergonha estariam ferreteados no seu destino.
Não lhe restaria mais do que procurar a morte!
Um tanto tranquilizada, mas ainda não convencida, terminou sua toalete e foi procurar Larissa.
Esta comunicou-lhe que Dionid Tonilim havia escrito dizendo que, até o fim da semana e, portanto, dentro de cinco ou seis dias, estaria de volta.
Seu amigo viria juntamente com ele:
se isso não fosse possível, viria alguns dias depois.
Mas no decorrer do dia, pesou sobre Larissa um desassossego cada vez maior.
Nunca vira Valéria tão fatigada e apática.
Resolveu tirar dela uma confissão:
— O que sentes, minha querida?
Diz-me tudo, aberta e sinceramente.
Tu sabes que te amo como a uma filha.
Estás doente? Ou o teu coração pegou fogo?
Amas o Barão?
Isto afinal, não seria de admirar, já que é um homem tão belo!
Mas, se o amas realmente, porque apresentas um rosto tão desesperado.
Tu também és bela, e, sem dúvida despertarás o seu amor, se é que tal não se deu.
Possivelmente, o teu génio tão frio é que o tem impedido de se declarar.
Em todo o caso, assim que ele chegar, sondarei o assunto.
Valéria ouvia-a de cabeça inclinada.
Quando a solícita senhora se calou, ela abraçou-a carinhosamente, sem poder conter as lágrimas.
— Ah! Titia, se soubesses como estou cansada e como os meus nervos estão abatidos!
Desde que estou aqui os meus ataques se tem reproduzido com muito maior frequência do que antes!
As recordações que me ficam das aparições que vejo em estado cataléptico, são tão singulares!...
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