Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:33 pm

Não posso dizer-te porque, mas eu sinto com toda a certeza que, atrás destas paredes, oculta-se qualquer coisa de terrível.
Palpita aqui uma vida fabulosa!
Tenho a sensação de que eu e o Barão desempenhamos nela um papel qualquer.
Eu o amo? Não!
Ele também não me ama, sei!
Contudo, entre nós ambos existe misteriosos elos.
Tu acreditas titia, na reencarnação dos espíritos, nas vidas sucessivas!
Pois, crê, eu e ele já vivemos outrora em outros corpos.
Cada pedra deste castelo vive em minha memória, e eu tenho medo!
Oh! Quanto temo o futuro!
— Valja, querida, tu estás doente!
Não te inquietes, pelo amor de Deus!
O que há-de suceder-te? Sobre os teus nervos actuou, certamente, essa fatal semelhança entre Pawel e esse infeliz Paulo de Montinhoso!
Mas, se a permanência aqui no castelo arruína-te tanto os nervos, nos transferiremos para Florença imediatamente.
Para Florença ou outro lugar qualquer onde possas reencontrar o sossego.
Teus pés nunca mais pisarão este ninho horrível!...
Valéria estava tão fraca que, acalmando-se aos poucos, Larissa teve que reconduzi-la à alcova e colocá-la no leito.
Desejava passar a noite ali, observando-a.
Quando Valéria adormeceu, Larissa sentou-se à mesa, acendeu o lampião e aprofundou-se na leitura de um livro.
A tranquilidade e o grande silêncio da casa, porém, foram agindo sobre ela como um narcótico, a sua cabeça caiu sobre o peito e ela adormeceu.
Uma fria aragem despertou-a.
A princípio, não conseguiu atinar com a proveniência daquela corrente gelada, mas por fim, observou, ao fundo do quarto, uma porta aberta, cuja existência até então ignorara.
A cama de Valéria estava vazia.
Inquieta e nervosa, aproximou-se da porta, e viu o longo corredor escuro que conduzia à ala murada do castelo.
Deu alguns passos no corredor, mas regressou incontinenti ao quarto, impelida por um misterioso terror, e pôs-se a chamar por Valéria.
Ninguém respondia, porém, e nenhum som quebrava o imenso silêncio.
Irresoluta sobre o que deveria fazer, sentou-se de novo na cadeira.
Não queria chamar a criadagem, mas não se resolvia também a penetrar no trevoso corredor.
Preferiu esperar a fazer barulho.
E os minutos, para a medrosa mulher que esperava, se transformavam em longas horas.
Cerca de meia hora depois, ouviu ligeiros passos e, estremecendo, viu Valéria irromper do corredor para o quarto.
Notou imediatamente que Valéria se movia em estado sonambúlico.
O seu olhar fixo e vítreo denunciava-o.
Sobre a camisola Valéria pusera um xale indiano de várias cores e que pertencia sem dúvida aos aposentos secretos.
Prendera os cabelos com uma larga fita ornada de pedras preciosas.
A sonâmbula aproximou-se de um armarinho na parede, abriu-o e tirou dele uma caixinha de madrepérola, que abriu.
Depois deixou-se cair de joelhos num banquinho, e contemplou o conteúdo da caixinha.
Seu rosto assumiu uma expressão dura e malvada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:33 pm

— Paulo, Paulo! Livra-te de enganar-me outra vez.
Então me vingarei horrivelmente de ti.
E a outra? Virá?
Também ela encontrará o lugar em que está sepultado o seu cadáver; e onde tudo ainda se tinge de sangue?
Mas... por que vens aqui? - Bradou ela como que para uma distância imensurável-
No coração dele não há lugar para nós duas!
Seu coração só pode pertencer a mim!...
Ódio e paixão tresandavam das palavras de Valéria.
Tomada de admiração, Larissa aproximara-se pelas costas da jovem e olhava por sobre os seus ombros.
Na pequenina caixa, viu ela um retrato de mancebo, em trajes do século XVI.
Seus traços assemelhavam-se curiosamente com os do Barão de Rothschild, e ao mesmo tempo, com os do monge de mármore, esculpido sobre o sarcófago do Conde Paulo de Montinhoso.
Observando Valéria, que parecia, então, profundamente diferente, e que balbuciava incompreensíveis palavras, Larissa, afastou-se assustada.
Alguns instantes depois, Valéria cobria o retrato de beijos e fechava-o na caixinha que foi guardar no armário da parede.
Voltou então ao leito e deitou-se.
Larissa não sabia o que fazer.
Devia acordar Valéria imediatamente e interrogá-la, ou aguardar a chegada de Tonilim?
Resolveu esperar.
X X X
No dia seguinte, enquanto Valéria dava um passeio tentou Larissa descobrir o segredo da passagem, mas inutilmente.
E três dias passaram-se.
Valéria parecia ainda calada e retraída, porém tranquilizada.
Quando Larissa dispôs-se a passar mais algumas noites com ela, não se opôs.
Larissa tinha em mente descobrir o modo pelo qual Valéria abria a porta do painel.
O seu desejo, contudo, não se realizou.
Todas as noites que se seguiram, a moça passou-as bem, dormindo profundamente e sem despertar.
Uma tarde, quando as senhoras reuniram-se a Miguel para o chá, Ricciotto entrou, anunciando a chegada de uma senhora que vinha acompanhada por um guia e trazia numerosa bagagem.
Perguntava pela senhora Bakulim.
O rapaz entregou a Larissa um cartão em que, para geral perplexidade, leu:
“Baronesa Alexandra Dimitrierina de Rothschild - nascida Condessa Copnim”.
— Francamente que não entendo isto!
Quem será esta senhora, de onde vem e o que desejará de mim? - Perguntou ela empertigando-se.
— Senhora, a dama diz que vem da Rússia! - Respondeu Ricciotto.
Ela perguntou, em primeiro lugar, pelo senhor Barão; quando lhe disse que estava de viagem, mas que regressaria em breve, disse que desejava esperar o esposo aqui, e entregou-me o seu cartão de visita.
Ouvindo estas palavras, Valéria transformou-se horrivelmente.
Levou a mão ao seio, e o seu rosto estampou a expressão de uma profunda dor.
Larissa, supinamente surpreendida pela inesperada notícia, não observava Valéria em seu silencioso martírio.
— O Barão de Rothschild casado! - Murmurou Larissa meneando a cabeça e se fazendo pálida.
Riccioto, acompanha a senhora até o salão.
Ordenou encaminhando-se para a sala anexa ao terraço, cujas portas estavam abertas.
Alguns minutos depois, uma senhora jovem e bela, elegantemente vestida e trajada de luto, entrava na sala.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:33 pm

Seu rosto fino desenhava-se no tipo oriental, e a sua tez tinha uma tonalidade ligeiramente bronzeada, à qual condiziam muito bem com os cabelos negros azulados e os olhos profundamente escuros.
— Rogo desculpas pela minha inesperada chegada, prezada senhora!
Principiou ela se expressando como uma fina mulher.
- Eu não sabia realmente, como deveria agir.
Meu padrasto, com quem eu vivia, e a quem acompanhava em viagem à Crimeia, faleceu de repente!
Não tendo ninguém mais a quem me dirigir, procurei a companhia de meu esposo.
Sei avaliar quanto vos admirais falar deste casamento!
Por questões de família conservamos o nosso casamento em segredo até esta data.
Já não é preciso, porém, esconder mais.
As minhas cartas provavelmente, não chegaram ao seu destino, em virtude da partida de meu esposo para S. Petersburgo; mas, entrementes, consegui tomar conhecimento de sua estadia aqui e vim, para pormos em pratos limpos, definitivamente, as nossas relações recíprocas.
Afora isso, eu tinha saudades dele, e queria vê-lo.
Infelizmente soube que Pawel não está aqui, mas regressará em breve.
Permite-me, prezada senhora, pedir-vos que me seja proporcionada hospedagem até o regresso de meu esposo.
Todavia, se eu vos incomodar, de qualquer maneira, poderei também ir hospedar-me no hotel da vila.
Eu vos seria imensamente grata, porém, se pudésseis consentir que eu fique.
Estou só, mas poderei, naturalmente, comprovar a minha identidade, pois trago vários documentos comigo.
Larissa ouvia admirada, observando detidamente a dama que se dizia esposa de Rothschild, e cuja existência este conservava tão cuidadosamente em segredo.
Porquê?
Aquela misteriosa esposa era jovem, bela, e tinha, ademais, uma apresentação tão distinta!...
Larissa não entendia, absolutamente, a complicada história que ela contava, e apenas o facto de o Barão ser seu esposo, a tranquilizava um pouco.
Subjugou os seus pensamentos e respondeu-lhe amavelmente:
— Estais em vossa casa, senhora Baronesa.
Este castelo pertence a Pawel Rothschild.
Ele o comprou recentemente, e nós, minha afilhada, um primo do Barão e eu, somos hóspedes.
Eu não poderia negar o vosso pedido!
Tomarei imediatamente as providências para que seja preparado um quarto.
— Agradeço-vos, senhora!
Entretanto, tenho companhia; o meu pequeno amigo também vos solicita abrigo.
Sorridente, ela tirou então de sua bolsa de viagem um bolonhês mignon, que parecia uma bola de neve sedosa, e tinha grandes olhos pretos.
— Oh! Que belo animalzinho!
Sim, daremos abrigo, naturalmente, e tão bem quanto possível, ao cachorrinho! - disse Larissa.
Tocado pela curiosidade de ver a nova hóspede, veio então Miguel para a sala.
Soubera por Ricciotto das novidades.
Apresentou-se como primo de Rothschild, e travou, desde logo, conversação com a nova prima.
Larissa saiu em seguida, para providenciar o arranjo do quarto.
Valéria não se movera do seu lugar no terraço, e de lá observava Dina com terrível desprezo.
Larissa procurou Savéria e soube, por esta, que a hóspede inesperada poderia ser alojada no denominado quarto velho, cujas janelas davam para o jardim. Larissa objectou:
— Esse quarto é um pouco escuro e não proporciona nenhuma vista para os belos arredores!
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:33 pm

E isto ainda não é nada:
as vidraças são coloridas, nem ao menos permitem olhar para fora...
— Este quarto foi antigamente ocupado pelos patrões, sempre foi ocupado só por eles e é o que mais se adapta à nova patroa! - Retrucou Savéria positivando que a esposa do patrão não lhe caíra em agrado.
— Vamos ver esse quarto então! 0 Resolveu Larissa.
O velho compartimento estava situado na parte mais arruinada do castelo, junto à torre, e recebia luz por duas janelas altas, com pinturas coloridas.
Suas paredes eram revestidas de almofadas de carvalho já enegrecidas pela idade, e seus entalhes quase se tinham apagado.
Os móveis, maciços e pesados, também pareciam contar séculos de idade.
Numa alcova espaçosa, montava-se a cama grande, com colcha de seda crua e dossel.
A antecâmara era alta, e de tecto em arco.
Eram dois cómodos agradáveis e que, contudo, nenhum dos hóspedes quis ocupar, exactamente porque lhes faltava a vista para o panorama do belo vale.
Os raios solares que atravessavam os vitrais, davam ao seu assoalho e às suas paredes um avermelhado brilho de sangue.
Quando Dina entrou ali, sentiu-se possuída por uma desagradável sensação.
Supôs, de súbito, já ter visto, um dia, um quarto semelhante aquele.
De qualquer forma, não lhe agradou.
Teria, de bom grado, insistido por um outro alojamento, mas absteve-se de incomodar Larissa, com o pedido, lembrando-se da singular situação em que se achava.
A sua bagagem fora transportada, e a criada de quarto já se ocupava em arrumar a cama.
Calada, deixou Dina o seu Biju escorregar para o chão, mas, coisa extraordinária, o cãozinho correu imediatamente para o meio do aposento, e, sentando-se sobre as pernas traseiras, começou a uivar.
— Oh! Pobrezinho!
Tens fome? - Disse Savéria que nesse momento entrava com uma bandeja.
Já te darei leite e carne.
Ergueu o cachorrinho ao colo e saiu com ele.
Com aquela má impressão que o quarto lhe produzira pesando-lhe sobre os ombros, Dina assentou-se à mesa e encheu um copo de vinho.
À criada, ordenou que tirasse da mala um vestido leve e o colocasse à mão.
Terminando o serviço, a empregada comunicou-lhe que a ceia era servida às nove.
Se a Senhora Baronesa quisesse repousar, viriam chamá-la em tempo.
Retirou-se então. Depois de ter acompanhado a hóspede aos seus aposentos, Larissa regressara ao terraço.
Encontrou Valéria sozinha, abandonada sobre a cadeira, com a cabeça caída sobre o encosto.
O trabalho de agulha, com que se distraía caíra para o chão.
Assustada, Larissa aproximou-se.
Supunha que Valéria tivesse tido um ataque, mas pelo brilho apagado do seu olhar certificou-se de que se encontrava outra vez em estado sonambúlico.
Por sua vez, Valéria não tivera consciência daquela aproximação.
Seus lábios formavam palavras quase incompreensíveis.
Só aos poucos Larissa pode aperceber-se do que falava:
— Eu sabia que tu virias... para tua própria desgraça... para que o destino se realizasse!
Tu sabes, ele é um maledetto!!!
Paulo?! Uma vez me enganaste, mas desta não escaparás à minha vingança.
Esqueceste por acaso o instante em que meus dedos abarcaram a tua mão traidora?
Guarda-te, Paulo!
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:33 pm

A terrível Némesis oculta-se nas trevas e te buscará e te martirizará até que te tornes fiel. - E Valéria riu-se com força.
Tremendo, Larissa ouvia essas palavras cujo significado não alcançava, mas cujo efeito a palidez cadavérica de Valéria, punha em realce.
— Ela está sonhando...
Todas essas lendas terríveis actuaram sobre o seu espírito!
Umedeceu um pano e pôs-se a friccionar a fronte de Valéria.
Com um profundo suspiro, a moça despertou, lançando um incompreensível olhar à sua volta.
— O que me aconteceu?
Estive sem sentidos?
— Sim, querida.
Tiveste um desmaio, e parecias tão mal que me assustei bastante.
Irei já buscar um copo de vinho, para que te fortaleças.
Depois daremos um pequeno passeio, pois necessitas de ar e movimento.
Valéria bebeu o vinho, mas não quis sair, alegando uma excessiva fadiga.
Larissa concordou.
Sentou-se então junto da afilhada e perguntou-lhe meigamente:
— Diz-me com sinceridade:
não preferes sair daqui?
— Não! Mais tarde sairei de bom grado, mas, por enquanto desejo ficar.
Um ligeiro rubor cobriu as faces de Valéria.
Entrando, Miguel interrompeu a conversa.
Trazia um telegrama na mão, pelo qual Helena anunciava a morte do velho Barão, cujo cadáver transportavam para S. Petersburgo.
Os detalhes Helena pretendia participar-lhes por carta.
Ao telegrama apenas acrescentara:
Pawel muito nervoso ponto não creio morte tio o acabrunhou tanto, ponto.
— Sim, sim! Pawel!
É um tipo estranho esse nosso primo! - Suspirou Miguel.
Toma uma mulher encantadora por esposa e cala-se a respeito como um peixe.
Talvez venha dizer ainda que é infeliz!
X X X
Dina estava a sós em seu quarto.
A cabeça apoiada sobre a mão, sentara-se à mesa em profunda meditação.
Não podia libertar-se de uma desagradável insegurança naqueles aposentos.
O castelo inteiro parecia-lhe fantástico e horripilante. Pensava.
— Uma ideia extravagante de Pawel, comprar este ninho de corujas!
No entretanto, ele poderia adquirir, na Crimeia, ou em outra parte qualquer, os mais encantadores castelos.
Espero somente que ele não queira fixar-se aqui por muito tempo.
Esses velhos castelos, segundo o que se murmura, estão sempre cheios de toda a sorte de fantasmas.
Que idade terá este ninho de malfeitores, esta rochosa fortificação?
Ergueu-se e submeteu os aposentos a uma rigorosa inspecção.
Todos os móveis estavam guarnecidos com o escudo de Montinhoso.
As cortinas e almofadas, eram de seda.
Num canto do quarto, viu um genuflexório maravilhosamente entalhado, sobre o qual num nicho da parede, se achava uma imagem da virgem, esculpida em marfim.
Entre duas janelas, estava um lavatório moderno, guarnecido de revestimentos de seda.
Os ornamentos das paredes, artisticamente modelados, lhe agradavam.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:34 pm

Uma tão bela combinação de folhas e frutos, animais e figuras de anjos, de demónios e génios, somente artistas da Idade Média podiam produzir.
Um gobelim franjado, especialmente, agradou-a de sobremaneira.
O motivo era uma coroa de folhas, entre as quais desenhavam-se figuras de génios em luta contra dragões.
Ao centro da coroa, via-se uma soberba capela, que parecia fechada por uma grade.
Através da grade, podiam ser notadas as figuras ajoelhadas de uma virgem e de um cavalheiro de mãos dadas.
A pequena capela dava a impressão de um armariozinho, mas Dina não pode enxergar nenhuma fechadura, por intermédio da qual pudesse abri-lo.
Todo o lavor de gobelim era soberbo, assim como o da capela que, em seus menores detalhes, era uma verdadeira obra de arte.
— Quanto tempo precioso e quanta arte se consumiam outrora nessas coisas! - Pensou Dina.
Em seguida inspeccionou a alcova.
Tinha o tamanho de uma sala, e, apesar da enorme cama, ainda parecia vazia.
— Bem que poderiam ter removido daqui, esta arca de Noé, em que dormiria folgada uma família inteira! - Pensou ao deitar-se.
Mas, no fundo da alcova, Dina descobriu, de repente, um nicho gradeado semelhante à capela do gobelim.
Levantou-se de novo.
E viu, atrás da grade do nicho, em tamanho natural, uma estátua de anjo, em cuja mão prendia-se uma palma.
— Mas é incompreensível!
Um anjo na gaiola!
Que fabulosa tolice!
Assim que Pawel esteja de volta, escolherei um outro quarto.
Este me é sobejamente desagradável.
X X X
À ceia, Dina compareceu com um vestido preto, leve, que lhe assentava muito bem.
Miguel começou, desde logo, a lhe fazer a corte.
Para espanto de Larissa, Valéria, que de princípio negara-se a aparecer, também compareceu, trajando um formoso vestido branco, bordado.
Prendera rosas à cintura e trazia jóias, que habitualmente não usava nos braços e no pescoço.
Seu cabelo dourado brilhava à luz do lampião, emprestando-lhe uma encantadora aparência.
Com a chegada de Valéria, Dina sentiu qualquer coisa mordendo-a por dentro: ciúmes.
Durante semanas e semanas Pawel vivera na companhia daquela bela jovem, sob um mesmo tecto!
Provavelmente enamorara-se dela!
Talvez estivesse naquele amor a chave mesma dos seus silêncios!
Tais pensamentos maltrataram Dina, e fizeram amarga a sua refeição, tanto mais que, de quando em vez, encontrava o olhar sombrio e enigmático de Valéria, que fazia seu coração pulsar mais rapidamente.
Com o mesmo pensamento hostil, também Valéria contemplava.
Dina. Não procurava enganar-se!
A outra era bastante bela para despertar amor.
E Pawel devia amá-la, ou pelo menos devia tê-la amado!
De outra forma não a teria desposado!
Contra a sua vontade, o ciúme que lhe despertava a Baronesa, maior se tornava e em breve dominava-a inteiramente.
Contudo palestraram dentro do limite do convencional, e procuraram, reciprocamente, ocultar o que se movimentava nos seus pensamentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:34 pm

A conversa girava, em geral, em redor do castelo.
Dina dizia, sorrindo, que, espontaneamente, nem o maravilhoso clima, ou valor histórico do castelo, poderiam, jamais, levá-la a ficar ali permanentemente.
Aqueles quartos inspiravam-lhe medo.
— Afigura-se-me que em cada canto escuro, em cada corredor, em cada escada, há uma emboscada, um alçapão.
Edifícios assim antigos, são sempre cheios de segredos.
Afora isso, aqui, sem dúvida, foram cometidos, outrora, delitos e crimes.
— Os antigos, rudes e orgulhosos senhores, não impunham de facto peias aos seus sentimentos.
Mas isto tudo está longe, no passado!
Quase não podemos lembrar... - Comentou Larissa.
— Assim é, realmente!
Contudo, este castelo me é desagradável.
Deixarei, durante esta noite, aceso o meu lampião.
— Sois assim tão medrosa, Baronesa?
— Não! E nem nunca vi fantasmas.
É que o quarto gótico, com a gigantesca cama, me parece um catafalco.
É estranho!
Eu ficaria aterrorizada se não tivesse luz!
Logo depois da refeição, Marieta, a criada de Helena acompanhou Dina ao seu quarto e a ajudou a despir-se.
Enquanto penteava os belos cabelos de Dina, dividindo-os em duas tranças, conversavam:
— Diz-me, Marieta, há fantasmas aqui? - perguntou Dina.
— Oh! Signora, em que castelo velho eles não existem?
Eu, porém, não os vi ainda...
— Sabes se nesta cama dormiram os antigos senhores do castelo?
— Os antigos senhores? Sim!
Mas já o Conde Tadeu, o último dos Montinhoso, tinha escolhido um outro dormitório.
Sobre esta almofada e com este cobertor, nenhum dos senhores do castelo dormiu.
Estes objectos foram comprados muito mais tarde, para os estrangeiros que, por vezes, alugavam a propriedade.
Marieta acomodou Dina no leito e colocou o lampião à distância da alcova, para que a luz não incomodasse a Baronesa, cobrindo ainda a cúpula com um escuro quebra-luz.
Depois retirou-se.
Dina não conseguia conciliar o sono.
Toda a sorte de pensamentos lhe passavam pela mente.
O que pretendia o destino fazer dela, e do homem que amava?
Ele não a amava e nem escondia isso!
Ameaçadora colocara-se agora em seu caminho aquela jovem loira que era, indubitavelmente mais formosa do que ela e que, com certeza de há muito já havia tomado posse do seu coração.
— Oh! Até o último suspiro lutarei pelo homem que amo, e não consentirei que me roubem.
Sim, não consentirei que tirem o que a mim pertence perante Deus e a lei dos homens! - Disse de si para consigo mesma.
Imersa nesses pensamentos, não sentiu o peso enorme que descera sobre seus membros.
Quis fechar o olhos mas não o conseguiu.
Um medo terrível assaltou-a.
O que estava vivendo? Um pesadelo?
O pressentimento de um infortúnio futuro?
E de súbito seus pensamentos foram desviados para um acontecimento em consequência do qual, esqueceu o seu estado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:34 pm

Parecia que alguma coisa se movia no nicho.
Depois julgou ver a grade e a estátua do anjo desaparecendo na parede, ficando em seu lugar, uma negra abertura.
Uma luz frouxa e verde, iluminou-a.
Um momento depois apareceu no nicho a imagem de um homem que, com a mão alçada e passos pesados, se aproximava de sua cama.
Quando já se achava junto dela, pode Dina distinguir-lhe as feições jovens, as vestes antigas e os grandes olhes escuros que a fitavam cheio de obstinação e rancor.
— A maldição que pesa sobre ti, se efectuará agora.
A némesis alcançou-te!
Disse uma voz profunda que parecia vir de muito longe.
A figura imobilizou-se por alguns segundos, depois foi empalidecendo mais e mais, enquanto se afastava em direcção ao nicho.
Um momento depois, o anjo retomava sua posição primitiva.
Dina sentiu um vento gelado perpassando-a, arrastando-a para as profundezas de escura cova e perdeu os sentidos.
Acordou com o dia alto.
Podia recordar-se perfeitamente da aparição nocturna, mas sem considerá-la uma visão fantasmagórica ou outra coisa qualquer de sobrenatural.
Imaginava ter tido, apenas isto, um sonho incompreensivelmente cheio de realidade.
— Eu estava cansada e um pouco impressionada com a história da Marieta.
Afora isto, aquela criatura loira, com os seus olhos de serpente, me in tranquilizaram um pouco.
Mas se essa jovem dama supõe poder arrancar-me o esposo, engana-se!
Não quis dizer nada acerca do seu sonho, para que não a julgassem medrosa ou tola, e não só rissem dela.
Todos lhe eram extremamente antipáticos!
Esperava impacientemente o esposo.
Por sua vez, a estranha incomodava a todos, também.
Não existiam interesses comuns entre eles.
As palestras então giravam em tomo de banalidades.
Apesar de toda a atenção que lhe era tributada, Dina percebia que era demais ali.
Passou a localizar-se no jardim, a sós, lendo.
Pedira que não informassem o esposo da vinda: deseja surpreendê-lo.
Valéria também parecia mais tristonha nos últimos dias:
falava pouco e passava a maior parte do tempo fechada num melancólico silêncio.
A presença de Dina actuara desfavoravelmente sobre o seu estado psíquico.
Possuía-a constantemente a emoção de estar se recordando de qualquer coisa sobre a qual não pensara até então, e que não podia atinar o que fosse.
E isso a aborrecia.
Queria e precisava saber do que se tratava.
Uma indescritível animosidade em relação a Dina, provocada pelo ciúme, se apoderava dela, e percebeu, reagindo, espantada sobre si mesma, que desejava ardentemente a morte daquela mulher estranha.
Larissa também estava mal humorada, em virtude de uma carta que recebera de Tonilim.
Ele escrevera que seu amigo não podia vir por enquanto, e que ele mesmo aproveitaria essa prorrogação para visitar uma irmã enferma.
Acrescentava ainda que, no decorrer da ausência do Barão, da qual tivera conhecimento, não era mesmo possível pensar na investigação aos quartos abandonados do castelo.
Larissa, que o esperava em breve, sentia-se agora desiludida.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:34 pm

Uma outra carta de Lolo contava, em minúcias, a morte do tio.
Pawel apressava-se em pôr em ordem os negócios para poder, o mais depressa possível, voltar a Montinhoso.
Por esse motivo o cadáver fora levado em expresso para S. Petersburgo, o que, naturalmente, fora deveras dispendioso.
Em, informava, ficaria apenas o tempo necessário ao sepultamento e abertura do testamento, mais as conferências de praxe com o advogado.
X X X
Certa noite, Dina recolheu-se mais cedo ao seu aposento.
Sentia dores de cabeça. O dia fora muito quente, mas à tardinha, o céu se cobrira de nuvens, e uma forte tempestade desencadeara-se.
A ceia fora feita quase em silêncio.
A Dina, parecera que Valéria fixara-a várias vezes, cheia de rancor.
Por esse motivo, despediu-se logo depois.
Em seu quarto, tomou de um livro e procurou ler.
Não queria dormir ainda, mas, em breve, o livro caiu-lhe das mãos.
Fatigada recostou-se na cadeira.
Sentia-se, ali, sozinha e abandonada.
Abatida e tristonha, deitou-se e adormeceu chorando.
E teve um sonho singular.
Encontrava-se num quarto muito bem disposto, cujas janelas davam para um lago.
A lua iluminava o espelho brilhante das águas.
Era um lugar completamente desconhecido, aquele em que se achava.
Não era, sem dúvida, o castelo de Montinhoso.
Ela envergava trajes masculinos, calção e jaqueta de veludo, ambos negros.
Um chapéu negro cobria suas bastas trancas, e sobre o fato vestia uma comprida capa negra.
Acercando-se, um jovem convidou-a a segui-lo.
Desceram uma escada de pedra, entraram numa gôndola e se afastaram da margem.
Mas, de repente tudo mudou.
Seguia a pé para Montinhoso, e o jovem acompanhava-a por um caminho montanhoso e difícil.
Apesar de ser noite, reconhecia os contornos do castelo.
Fatigada, sentou-se sobre uma pedra, e constatou que o seu companheiro desaparecera.
Mas voltava em breve.
E ao seu lado vinha um homem que se inclinou diante dela, sem, contudo, poder esconder o seu acanhamento e hesitação.
Da conversa entretida recordava-se apenas de que ele dissera chamar-se Seno, e de que falara de seu patrão Paulo.
Os três passaram por um portão estreito, que dava entrada ao castelo, percorreram muitos corredores, subiram e desceram escadas e entraram, finalmente, no seu quarto actual.
Seno acendeu uma vela e saiu levando o seu companheiro, dizendo que o senhor Conde viria em breve.
Alguns instantes depois, retornava com uma cesta que continha alimentos e vinhos.
Tudo isso depôs sobre a mesa.
Pediu-lhe que se servisse.
Entrementes, fez fogo na lareira, preparou o leito e ausentou-se outra vez.
Ela teria, prazerosamente, lançado um olhar aos outros aposentos, mas as portas estavam fechadas, e a passagem secreta impossível de se abrir.
Assustada, assentou-se junto ao fogo.
Sabia, com toda a certeza, que se encontrava na casa de seu marido, mas admirava-se de ser tratada como uma prisioneira.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:35 pm

E onde estava Paulo?
Paulo que tantas e tantas vezes jurava amá-la, a ela apenas, entre todas as mulheres?
Teria olvidado tudo, por outra?
Imperceptivelmente, abriu-se a porta secreta e um homem, envolvido numa longa capa escura e de capuz abaixado sobre o rosto, entrou no aposento.
Quando ele afastou a capa e o capuz, reconheceu ela Pawel Rothschild que, em trajes do século XVI, encontrava-se à sua frente.
Com uma exclamação de alegria, ela foi ao seu encontro; ele, porém, conservou-se imóvel, com os braços cruzados sobre o peito, medindo-a com um olhar frio e desprezível.
— Como ousaste, contrariando as minhas ordens, vir aqui, Lucrécia?
Não tínhamos combinado que ficarias em casa aguardando minhas ordens?
Que descuido o teu!
A voz dele era zangada, mas despertava nela uma surda indignação:
— Vim porque sou tua esposa, ante Deus e os homens, e tenho o direito de estar onde tu estiveres.
Se meu pai não é um nóbile, é respeitado e amado por todos quantos o conhecem, e é rico como um duque!
Lucrécia Bertolini não tem que se envergonhar de sua descendência, e tu não tens o direito de renegar tua esposa!
Ela calou-se sob o império daquele frio olhar e não ousou mais dizer uma palavra.
E de fraqueza caiu de joelhos:
— Paulo; tem compaixão de mim!
Põe um termo ao meu martírio e à nossa separação!
Vês? Eu vim também para dizer-te que, em breve, te tornarás pai, e que o teu filho tem o direito de estar contigo...
Ela viu que Paulo empalidecia recuando.
Seu semblante não denunciava alegria quando, com sua voz rouca, disse:
— Com quem vieste?
Teu pai permitiu esta viagem? Alguém te viu aqui?
— Meu pai não estava em casa quando eu parti, e de nada sabe.
Vim com Ângelo e aqui vi Seno apenas.
Um riso rouco foi a resposta.
Ele tomou-a nos braços e beijou-a com uma fúria que Dina ainda desconhecia nele.
E então o sono passou a ser um pesadelo horrível.
Primeiramente ouviu qualquer coisa que estalava e se partia, depois a cabeça de Pawel que se inclinava sobre ela, fitando-a com um ódio quase assassino.
Viu um punhal brilhar nas mãos dele, um punhal que, vibrado por um formidável golpe, se enterrou no seu peito.
Dina sentiu uma dor terrível, e, logo em seguida, um frio glacial percorrendo-lhe o corpo.
Como que através de uma névoa, viu ainda o semblante conturbado do assassino, e, por detrás deste, o pálido Seno.
Foi então erguida por dois braços e arrebatada.
Viu-se sob as abobadas de um subterrâneo saturado de um enjoativo cheiro de sangue.
Sobre o solo, ensanguentado, estava o corpo de Ângelo, o seu companheiro.
Então perdeu a consciência.
Os raios do sol, que entravam pelos vitrais, despertaram Dina.
Um olhar para o relógio, fê-la constatar já ser hora de levantar-se.
Recordou-se, nitidamente, do sonho.
— Oh! que sonho horrível.
Resultado de se deitar com maus pensamentos e adormecer-se numa cama antediluviana.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:35 pm

Graças a Deus foi um sonho apenas! - Disse suspirando.
Ela estava diante do lavatório, que era um móvel moderno, e, involuntariamente, olhava-se no espelho.
Um grito a custo abafado, escapou-lhe dos lábios.
Sobre o seu colo, no ponto em que, nos sonhos, fora atingida pelo punhal, constatava uma mancha escura.
Examinando-a bem, verificava que uma mancha vermelha, como se produzida por um ferimento, deformava sua epiderme, sob as roupas.
E no dorso da mão, descobriu uma nítida e azulada marca digital.
Como que atordoada, Dina fitava os estranhos sinais.
— O que será isto?
Estarei ficando louca? - Passou a mão pela testa.
Eu poderia, realmente, perder o juízo, se emprestasse a essas manifestações uma importância qualquer.
Não foi em vão, afinal, que li tanta coisa sobre o medo e a sugestão.
Compreendo as causas disto!
Devo ter sonhado tão vivamente, que as impressões do sonho deixaram-me os seus vestígios, visíveis assim.
É o que se constata com os sonâmbulos:
coloca-se-lhes um pedaço de papel de seda sobre o braço e se lhes incute que seja um emplastro de mostarda, e o papel de seda produz o mesmo efeito que o emplastro.
Não há razão para dizer qualquer coisa aos demais hóspedes!
Quando muito, rir-se-iam de mim, especialmente a tal Valéria.
Quanto a esta, porque me fita, por vezes, tão fixamente?
O seu simples sorriso aborrece-me.
Abstraindo toda auto-sugestão, Dina, contudo, não se sentia ainda plenamente convencida de que tudo fora um sonho pueril!
Aquele quarto tinha qualquer coisa de horrível!
Por exemplo, porque o seu querido Biju negava-se a permanecer nele e fugia sempre?
Dina inspeccionou mais uma vez o nicho e a grade, nada de extraordinário encontrando, fosse abertura ou mola de acção secreta.
Finalmente, abandonou a busca infrutífera e ordenou que trouxessem o café.
X X X
No decorrer dos dias que se seguiram, Valéria continuou sentindo-se dominada por estranha emoção, assim como se procurasse qualquer coisa que não podia encontrar, mas também sem saber ao menos o que procurava. Com a esperança de que Larissa não a chamasse, certa noite trancou-se no seu quarto.
O desassossego interior em que vivia, fora tão bem dissimulado sob uma alegre e descuidada exteriorização, que a madrinha sentia-se perfeitamente tranquila.
Metida num penteador branco, sentara-se a jovem junto à janela, imersa em pensamentos.
Esforçava-se por localizar o objecto de suas buscas, realização essa a que se sentia intimamente obrigada.
Por alguns instantes, teve diante dos olhos a visão da noite apavorante em que se vira naquela circunstância ultrajante diante do Barão.
A visualização, que reconstituiu em detalhes, levou-lhe o rubor às faces.
Um suor viscoso perlou-lhe a fronte e ela lutou, então, com a ideia do suicídio.
Um estremecimento perpassou-lhe o corpo.
Valéria procurou reagir, porém, debalde:
os membros lhe ficaram pesados, e, sem forças, tombou ao solo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:35 pm

Com as feições alteradas e movimentos estranhamente calmos, quase mecânicos, ergueu-se ela alguns minutos depois.
Com a segurança peculiar aos sonâmbulos, abriu a porta secreta e dirigiu-se para o quarto de Giovana.
Aí acendeu uma vela e colocou-a na lanterna, que, já por tantas vezes, lhe prestara tão bons serviços.
Abriu a porta que dava para a escada em caracol e desceu para o jardim.
Agora o seu rosto transfigurava-se numa expressão de alegria:
— Até que enfim!
Até que enfim me lembrei!
Preciso encontrar o caminho que conduz para ele! - Murmurou enquanto um irónico sorriso contraía-lhe os lábios.
Com passos firmes, transpôs o jardim e caminhou ao longo das muralhas do castelo até que, finalmente, se deteve diante da passagem vedada pelos arbustos entrelaçados pelo tempo.
Estava então, ao pé de uma das mais antigas torres, na qual, na concha de uma depressão, fora incrustado o escudo de Montinhoso.
Sob este, havia uma cabeça de leão em granito, que segurava entre os dentes uma argola de ferro.
Tudo isto estava, porém, tão encoberto pelos arbustos, musgos e gramas, que só com muita dificuldade constatavam-se particularidades.
Durante um breve momento, Valéria permaneceu indecisa, mas, de repente, agarrou a argola, virou-a três vezes e puxou-a para si.
Era extraordinária a força que possuía a sonâmbula, pois que, para puxar aquela argola velha e enferrujada, fora necessária a força de um homem jovem e forte.
Com um som estridente a argola cedeu.
A parte traseira da depressão, girou sobre gonzos invisíveis e franqueou estreita passagem.
Valéria arrastou para aí o pedaço de uma velha estátua partida e colocou-o de encontro à porta, para evitar que esta se fechasse.
Com a lanterna na mão, penetrou no estreito corredor que tinha pela frente.
Este era em arcada e se alargava sempre mais.
De um lado, abria-se em celas servidas por grades de ferro, algumas delas abertas, outras fechadas por pesadas trancas.
Do tecto pendia uma lanterna.
Evidentemente, fora ali a antiga prisão do castelo.
Depois da última porta de ferro, que se encontrava aberta, o corredor se bipartia.
Valéria estacou imersa em profunda reflexão.
Passou a mão pelos cabelos.
— Sim, deve ser aqui!
Dirigiu-se para uma pesada porta, e, empregando todas as suas forças, conseguiu abri-la.
Logo em seguida, encontrou-se num compartimento redondo que se assemelhava a uma cela de prisão.
Na parede, sobre um banco de pedra, estavam presas algumas correntes; num canto havia aparelhos de suplício.
Ela não deu atenção a estas coisas e se dirigiu à parede fronteiriça, na qual se achava, como na entrada, uma cabeça de leão com a argola entre os dentes.
Essa argola, porém, era fixa, e servia de apoio a uma tocha.
Valéria atirou a tocha ao chão e girou igualmente essa argola.
Imediatamente outra porta revelou-se pondo a descoberto uma escadaria escavada na rocha.
Sem titubear, subiu a escadaria e foi abrir, no alto, uma segunda porta.
Penetrava numa outra câmara circular que já denotava pertencer aos aposentos do castelo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:35 pm

O forro era de velho carvalho, e as paredes pintadas em afrescos que representavam cenas de cavalgadas.
Ao redor de uma mesa, cadeiras de altos encostos.
Sobre a mesa, um jarro de prata cinzelada e três canecas.
Alguns passos além, encostada a um armário, estava a figura de um homem, com o braço alçado para o alto.
Por um momento ao defrontar a figura, Valéria sentiu faltar-lhe a respiração.
Depressa tornou a si.
— Ah! Também tu estás ai, Girolamo?
Quando afinal me perdoarás?
Assim falando, ergueu a lanterna e iluminou-lhe o rosto.
A figura parecia uma estátua, mas as suas vivas cores davam toda a impressão de um homem vivo.
Apesar da poeira e das teias de aranha que lhe tinham envolvido a cabeça, os ombros e os braços, Valéria fitou, naquela criatura, um formoso rosto, ainda que desfigurado pelo sofrimento.
Os seus olhos escuros ardiam com uma expressão desesperada.
Durante minuto a moça permaneceu imóvel, de olhos envidrados, naquela contemplação.
Depois virou nos calcanhares e fugiu correndo do quarto, sem, contudo, esquecer de cerrar, cuidadosamente, as portas.
Recolocou a tocha em seu lugar e voltou ao ponto em que o corredor se bifurcava.
Sem se deter, subiu outra escadaria, depôs a lanterna no chão e abriu uma pequena porta.
Estava no quarto de Dina.
O aposento era frouxamente iluminado por um lampião.
Como uma sombra, Valéria se dirigiu ao gobelim, a cujo centro se encontrava a capela em miniatura e comprimiu certa mola.
Sem qualquer ruído, a grade correu para um lado.
Agora via distintamente, determinados detalhes.
Nos dedos do cavalheiro e da donzela, anéis com pedras, uma azul, vermelha outra.
Tocando aquelas pedras, Valéria fez desaparecer o fundo da capela.
Na depressão que aí se formou, sentiu ela, tocando uma taça de vidro e um recipiente de metal.
Satisfeita, sorriu:
— Está ainda aí!
Ninguém o achou.
E que fique ai até que eu precise usá-lo!...
Depois destas palavras, murmuradas baixinho, fechou o nicho e a grade e correu olhar pela alcova em que Dina dormia.
Um ódio terrível brilhava nos seus olhos, mas dominou-se logo e desapareceu no corredor, sorrateiramente, da mesma forma como entrara.
X X X
Dina não pudera dormir aquela noite.
Permanecera ali, estirada sobre o leito, pensando no esposo ausente.
De súbito, pensou ouvir um rumor que partia do nicho.
Voltou o rosto e imobilizou-se estarrecida de medo.
No gobelim, diante da pequena capela, estava uma alva e esguia figura de mulher.
Devido à luz, Dina não pode divisar-lhe as feições.
Além disso, desviava sua atenção o fato de ver aberto o armário da capela.
O fantasma, como julgou fosse o vulto, movia-se.
Dina cerrou os olhos de terror.
Quando os abriu de novo, a imagem tinha desaparecido.
No gobelim tudo continuava como dantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:35 pm

Aquela visão, porém, abalou-a de tal forma que só pela manhã conseguiu conciliar o sono.
— Sabes, Larissa - disse ela ao almoço.
Esse castelo parece mesmo um verdadeiro ninho de fantasmas.
Não costumo ter medo de tais coisas, mas devo confessar que no curto espaço de tempo de minha estadia aqui, já vi e constatei muitas coisas.
— Sim? Conta-nos então o que vistes.
É assunto que nos interessa a todos!
— Em primeiro lugar, vi uma luz misteriosa, depois tive sonhos muito singulares.
Num deles, por exemplo, Pawel, em trajes medievais, apunhalou-me.
Larissa dirigiu a Miguel um olhar significativo que Dina, todavia, não entendeu.
— A noite passada, porém, vi um fantasma perfeito: uma figura alta, feminina, trajada de branco.
Parou diante do gobelim do quarto e abriu um armariozinho secreto.
Não vos riais, pois vi, tenho certeza, a porta aberta!
O fantasma retirou do seu interior um objecto brilhante.
Quando tornei a olhar, tinha desaparecido.
Pela manhã examinei o gobelim, mas apesar de todos os meus esforços, não consegui descobrir qualquer mola, ou coisa semelhante!
— Hum! Talvez tenhas apenas sonhado isto tudo.
— Não, absolutamente!
Eu estava acordada, nem tinha dormido ainda.
Foi, sem dúvida alguma, um espectro... - Retrucou Dina.
Precisamos contar isto a Savéria.
Ela conhece todas as lendas do castelo, e saberá dizer que espírito será este!
— Mandarei chamá-la imediatamente!
E como já travaste relações de conhecimento com alguns habitantes invisíveis deste castelo...
— Oh! Sim! Esquecia-me de contar mais um coisa! - Interrompeu Dina.
Eu vi também um homem trajado de preto sair do nicho.
Ele se encaminhou para mim, ameaçou-me com o braço erguido e murmurou incompreensíveis palavras! — Revelou sorrindo.
Larissa não pode igualmente deixar de sorrir.
— Francamente, creio que todos os habitantes invisíveis do castelo vieram render homenagem à nova senhora.
Uma mulher de branco, um homem de negro, talvez o Maledetto em pessoa.
— Quem é este? - Indagou Dina surpreendida.
— É o senhor de Montinhoso, o herói de várias e tenebrosas lendas.
O povo cognominou-o o Maledetto.
Larissa fez um ligeiro relato da história de Paulo Montinhoso.
— Na realidade, também somos testemunhas de acontecimentos extraordinários!
Por exemplo, o dobre dos sinos e o cantochão funéreo.
Mais extraordinária é, porém, a semelhança existente entre Pawel e o tal de Maledetto.
Visitamos a catacumba de Paulo, e, sobre o sarcófago, vimos uma escultura que realça excepcionalmente essa semelhança.
Tu mesmo podes te certificar disso.
— Eu o faria de bom grado!
Primo Miguel, poderias mostrar-me a catacumba?
— Mas naturalmente, com todo o prazer!
Se é que Pawel não a fechou e retirou a chave!
Teremos então de esperar pelo seu regresso! - disse Miguel!
Nesse momento surgia Savéria, e Dina falou-lhe do fantasma.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 30, 2016 7:36 pm

Nem bem ouvira tudo, a velha entrou em lamuriosa agitação:
— Jesus Maria!
Que Deus nos livre de uma desgraça!
Se a Signora Yolanda já anda por aqui, não podemos esperar boa coisa!
— Mas quem é essa signora Yolanda?
Conta-nos a sua história, se a conheces.
Por que havia de ser justamente essa Yolanda que a senhora Baronesa, viu?
— Sim. Mas quem há de, a não ser ela, estar mexendo nos armários em busca do elixir do amor? - Respondeu a velha convicta.
Sua história me foi contada ainda pelo velho Tadeu.
É, em minúcias, o que ele encontrou registado nos antigos arquivos.
Por aqui concluo que a sua aparição seja um mau sinal! Ouvi, pois:
Yolanda era uma cigana de nascimento.
Os Montinhoso por esse tempo, ainda não possuíam o título de Condes.
Eram apenas nobiles.
Deve ter sido há muito tempo.
O chefe de família era, então, um cavalheiro de nome Marcos, um homem de avançada idade e que tinha um filho de vinte anos.
Um belo dia esse Marcos perdeu-se na mata durante uma caçada e, por acaso foi dar num acampamento de ciganos.
Foi recebido com amabilidade, deram-lhe de beber e de comer.
Enquanto fazia o repasto, viu ele uma jovem cigana de maravilhosa beleza, da qual se enamorou tão profundamente, que a levou consigo para o seu castelo.
Viúvo que era, casou-se com ela.
Depois de levá-la à pia baptismal onde recebeu o nome de Yolanda.
Mas, por maior que fosse sua beleza, mais negra era sua alma.
Era requintada em luxos, gananciosa, cheia de vícios e conhecedora de artes de bruxaria.
Sabia preparar o elixir do amor, do qual dava de beber aquele a quem desejava reduzir à escravidão.
Antes porém, ela mesma tomava uma parte da dose.
Contava-se que essa beberagem tinha um odor maravilhoso, mas que era tão forte que provocava tonturas.
A crónica diz que a signora Yolanda sabia preparar os mais variados venenos.
Em virtude de sua ganância, fez dos mais ricos nóbiles seus escravos.
Fazia-se presentear regiamente por eles e assassinava-os depois!
Foi desta época que os Montinhoso se tornaram os nobres mais opulentos do país.
A lenda revela que o seu filho único teve por pai o demónio, a quem Yolanda também ministrou o elixir do amor.
Como o filho mais velho de Marcos viesse a falecer, o diabinho tomou-se chefe dos Montinhoso.
A partir de então, um destino horrível pesou sobre a casa:
riquezas, infortúnios, delitos, pecados, pesaram sobre eles, e muitos Montinhoso tiveram morte misteriosa.
Estas últimas palavras saídas da boca de Savéria, foram ouvidas pelos circundantes com um sorriso de zombaria.
— Para os descendentes do diabo, delitos e pecados não são, por assim dizer, absolutamente, coisa de espantar! - Comentou Dina ironicamente.
A mim, porém, interessa muito mais outra coisa.
Não lhe disse o velho Conde por que motivo Yolanda sempre tomava do elixir, antes de oferecê-lo aos outros?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:14 pm

Geralmente diz-se que tais infusões devem ser bebidas apenas por aqueles cujo amor se quer alcançar.
— Eu mesma perguntei ao Conde por que motivo Yolanda procedia assim, ao que ele me respondeu sorrindo:
Diz o cronista que, tomando o elixir em primeiro lugar, ela propiciava ao próprio corpo o aroma da bebida, o que aumentava o seu efeito.
— E sabe-se em que circunstâncias morreu Yolanda? - indagou Larissa.
— Não, signora!
Ninguém conhece, exactamente, o seu fim.
Duas versões diferentes surgiram:
Segundo uma, ela desapareceu de repente, sem deixar vestígios, e admite-se que tenha sido morta por um de seus parentes.
Segundo outra, foi por Deus, transformada em pedra, razão porque a igreja, julgando pesar sobre ela uma maldição, negou-lhe sepultura.
Foi então, sem cerimónias fúnebres, enterrada num subterrâneo do castelo.
Estou convencida de que esta segunda versão é verdadeira, pois que, de tempos em tempos, ela volta a perambular pelo castelo, em busca do elixir que escondeu aqui, em um lugar qualquer, e que ministra, quem sabe, aos fantasmas que a visitam! - Terminou Savéria.
Uma risada franca e generalizada, coroou estas palavras finais.
- Sim, tu imaginas essas histórias muito bem, boa Savéria!
Um fantasma embriagado por um elixir de amor!...
Não Savéria, isto vai um pouco longe demais, até para mim que admito o sobrenatural! - Disse Larissa incrédula.
— Signora, tu te esqueces, porém, de que ouvimos, todos, e bem distintamente, os ruídos do festim nocturno!
Todos ouviram. Quem poderá negar que a signora Yolanda, ou o Maledetto, tenham entrado em relações com o diabo?
Ou admitiremos que o barulho foi feito por pessoas vivas, e além disso, cristãs?
Como ninguém contradissesse Savéria, ou encontrasse uma explicação para o caso, ela se retirou com a vaidosa convicção de que saíra vencedora daquela troca de palavras.
Larissa contou a Dina o caso do festim nocturno.
— Nós não temos medo!
Pelo contrário, estamos curiosos por saber o que se oculta ainda por detrás destes muros misteriosos.
— A oportunidade de vermos uma Pompeia da Idade Média se nos oferecerá, provavelmente! - Adiantou Larissa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:14 pm

10 - A HERANÇA

Rothschild e as Muranoff chegaram a Manheim em tempo oportuno.
O velho Barão estava à morte, mas ainda conservava plena consciência, e ficou satisfeito de poder ver, ainda uma vez, irmã, sobrinho e sobrinha.
Na noite seguinte, cerrou os olhos.
Rothschild procurou diligentemente resolver, tão depressa quanto possível, as formalidades todas, para poder regressar a Montinhoso.
O finado manifestara o desejo de ser sepultado no jazigo da família, em S. Petersburgo.
Helena propôs, por isso, telegrafarem a Anatólio Samburoff, para que ele tomasse as devidas providências naquela cidade.
Rothschild, de princípio, não se mostrou muito de acordo, julgando ter motivos plausíveis para isso.
Os chefes das famílias Muranoff e Samburoff, mantinham franca amizade desde os tempos do corpo de cadetes.
Como oficiais, foram incorporados, entretanto, em guarnições diferentes, o que os levou a perderem contacto recíproco.
Mais tarde se encontraram, por acaso, em Moscovo.
Estavam ambos casados e pais de filhos.
Suas esposas estabeleceram relações de amizade e permitiram que seus filhos crescessem juntos.
Anatólio, que estava ao corpo de cadetes, sentia-se, em casa da tia, como em sua própria casa.
Quando deixou Moscou e ingressou na Academia Militar, as duas famílias sentiram, igualmente, essa separação.
Lolo e Va1éria foram ambas educadas no Instituto Catarina.
Logo depois, as duas famílias tiveram de se separar, pois o general Samburoff pediu a sua reforma e transferiu-se para Sarkoje-Selo.
Muranoff morrera poucos meses antes.
Sua família permaneceu em Moscou, onde possuía propriedades.
Os filhos de Helena adoeceram então, atacados de difteria e, para convalescerem, saíram, a conselho médico, a passar um ano na Itália.
Rothschild era uma visita rara nos salões de Helena, e quase não conhecia os Samburoff.
O velho tio não o deixava afastar-se de seu lado.
Mais tarde, frequentando então o Liceu de Oficiais, saía todas as férias na companhia do protector, viajando pelo estrangeiro.
Foi quando Miguel e Loló o conheceram.
Anatólio encontrava Rothschild uma ou outra vez na sociedade.
Entre eles porém não se estabeleceu nenhuma relação de amizade mais íntima.
Não se sentiam reciprocamente atraídos.
Eram, pois, quase estranhos.
Por tal motivo, hesitava Rothschild em dirigir-se a Anatólio naquela ocasião, pedindo-lhe que se encarregasse dos preparativos do sepultamento do tio.
Helena e Lolo tanto fizeram, porém, que, por fim, ele se resolveu, mesmo para liquidar tudo mais prontamente.
Na estação de S. Petersburgo, Anatólio aguardava os viajantes.
Rothschild agradeceu-lhe o trabalho graças ao qual puderam levar o caixão mortuário directamente à igreja.
O catafalco já estava pronto e todas as demais providências tomadas.
Como Helena não tivesse residência na cidade, decidiu ir, com Loló, para a casa do falecido irmão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:15 pm

Logo depois da primeira missa de Réquiem, que fizeram rezar pelo finado, ela recolheu também Anatólio, que amava como a um filho, e desejava ter em sua companhia.
Nos dias que se seguiram, ele foi o constante companheiro em todos os seus passos pela cidade.
Rothschild apressava o regresso a Montinhoso, não apenas em virtude de um desassossego secreto que não o abandonava, como também por motivo de um acontecimento que se dera em sua ausência e que lhe trouxera uma grande apreensão.
É que seu camareiro lhe havia comunicado que, talvez há uns oito dias, uma senhora perguntara por ele.
Quando lhe informara que se encontrava na Itália, pedira tão insistentemente o seu endereço, que não tivera remédio senão fornecê-lo.
Pela descrição feita, aquelas senhora só podia ser Dina.
Dina, porém, estava na Crimeia!
No dia seguinte, Rothschild dirigiu-se à casinha da ponte de Narwaseh.
Ali informaram-lhe apenas que, em virtude da morte de seu pai, Dina regressara da Crimeia.
Ficara alguns dias em S. Petersburgo e partira em viagem, cujo destino desconheciam.
Rothschild sentiu o ódio fervendo no seu espírito.
Era o cúmulo do azar que essa mulher, que trazia o seu nome e podia demonstrar isso por intermédio de documentos aos quais tinha direito, viajasse sem o seu consentimento.
Todavia, não lhe passou pela mente, nem remotamente, que ela se dirigira a Montinhoso.
Onde haveria ele de encontrá-la para poder, o mais depressa possível, iniciar o processo de divórcio?
Porque precisava de divorciar-se, custasse o que custasse, não só por não alimentar amor por Dina, mas porque havia, secretamente, feito de Valéria a sua esposa e considerava como o mais sagrado dever, torná-la também sua esposa, publicamente, perante Deus e os homens.
Rothschild regressou tão mal humorado para casa que, solicitando desculpas à tia, tomou a sua refeição a sós.
Como um leão enjaulado, pôs-se a caminhar então, no quarto, de um para o outro lado, pressentindo a luta que teria de travar com Dina.
Odiava-a quase, ao recordar do meio e modo pelos quais ela se colocara em seu caminho, e de como lhe dificultara e amargurara a existência.
Nervoso e zangado deitou-se, e em breve adormeceu profundamente.
Em sonhos, viu-se outra vez em Montinhoso, nos trajes medievais que, como Paulo, sempre envergava.
Acompanhado por um servo, subia uma escadaria de pedra, ao fim da qual abriu-se-lhes uma porta.
Encontrou-se então num aposento que lhe era de terrível memória, e que lhe infundia horror e asco.
Adiante, numa alcova, viu um alto leito de dossel.
Aproximou-se sorrateiramente e fitou a mulher que ali dormia.
Friamente o seu olhar prendeu-se, por alguns segundos, no rosto dela.
Depois, sacando de um punhal que trazia na cinta, mergulhou-o no peito da mulher.
Sentiu o calor do corpo dela que se tocara à mão, e se tingiu de sangue.
Erguendo o corpo com o auxílio do servo, levou-a dali!
Agudos gritos despertaram Rothschild, trazendo-o à realidade.
Abriu os olhos e viu o velho criado Sawely debruçado sobre si, prendendo-o pelos braços.
— Por amor de Deus, senhor!
Não foi fácil conter-vos.
Eu já supunha que me quisésseis matar! - Disse enxugando o suor da testa.
Rothschild olhou admirado ao seu redor, constando que se encontrava no seu quarto de dormir.
Suas mãos seguravam espasmodicamente uma almofada, na qual achava-se espetado um punhal.
Aquele punhal, ele mesmo o tirara, um dia, dos antigos compartimentos de Montinhoso, para reuni-lo à sua colecção de armas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:15 pm

Como estava ali agora, quando o supunha no fundo de sua mala?
Era um enigma.
— O que aconteceu, Sawely?
— Ah! Senhor!
Eu não podia adormecer porque me doíam os dentes...
Meu quarto é contínuo ao vosso, e, assim, ouvi passos e a vossa voz no quarto de vestir.
Mas não faláveis russo!
Parece-me que chamáveis por um criado, e supus, então, que ladrões tivessem penetrado aqui, o antigo criado, mesmo, que foi dispensado em virtude de um furto...
Vim depressa, e entrei justamente no momento em que perfuráveis a almofada com esse estilete, como se estivésseis apunhalando alguém!
Quando vos peguei no braço para tranquilizar-vos, me agarrastes e me quisestes carregar...
Foi preciso empregar todas as minhas forças para me libertar, pois eu temia que me apunhalásseis também.
Vede, Senhor, como sangra a vossa mão!
Rothschild calara-se fitando os seus dedos sujos de sangue.
Sawely, que já estava ao serviço da casa dos Rothschild per algumas dezenas de anos, e havia carregado nos seus braços o Barão menino ainda, abraçou-o e reconduziu-o ao dormitório;
— Deitai-vos agora, Pawel.
Estais tão pálido!
Queira Deus não fiqueis doente!
— Preciso lavar-me ainda Sawely! - Disse Rothschild baixinho, enfiando a mão na bacia.
A água tingiu-se de sangue, mas não se via ferimento na mão.
Submetendo-se ao conselho do velho, deitou-se, aceitando, obediente, um cálice de vinho.
Deixou que o velho servo lhe ajeitasse as cobertas.
Tremia como se tivesse febre e somente muitas horas depois adormeceu.
Pela manhã, Rothschild acordou exausto, com um peso na cabeça.
O acontecimento da noite, que Sawely teve que relatar em todas as suas minudências, provocou-lhe um desassossego enorme, e fortaleceu seu desejo de regressar o quanto antes a Montinhoso.
Com diligência febril, pôs-se a trabalhar, e passou dias inteiros em ininterrupta conferência com o seu advogado e o secretário, que o auxiliavam, com garantia, a por em ordem a herança que lhe tocara.
Por sua vez, Helena sentia-se sobrecarregada de afazeres.
Precisava aplicar convenientemente o dinheiro que seu irmão lhe deixara.
Rothschild pagara-lhe em moeda a parte que lhe tocava, e ela queria aplicar esse capital, não pequeno, aliás, de modo a produzir renda.
Lolo que se achava em S. Petersburgo pela primeira vez, não se satisfazia com as belezas da capital.
Anatólio levou-a à Eremitagem e a outros museus, mostrou-lhe a catedral de S. Izaac e quanto havia digno de ser visto.
Apesar da sincera mágoa que experimentara com o passamento do tio, Lolo era muito jovem e vivaz para entregar-se incondicionalmente à dor.
Ela e Anatólio sempre haviam sido íntimos amigos, mas agora que passavam diariamente horas a sós, passeando pela cidade e palestrando, sentiam que aquela simples amizade ia sendo substituído por um outro sentimento mais quente, e em breve percebiam-se apaixonados.
Uma tarde, Anatólio perguntou-lhe, resolutamente, se consentia em tornar-se sua esposa.
Ora, o carácter recto e seguro de Anatólio, era, para Helena, uma garantia de felicidade para sua filha.
Lolo não hesitou em dar-lhe o sim, já, de antemão, assegurado pelo consentimento de Helena, que impôs apenas uma condição:
que o matrimónio se realizasse, por motivo do luto da família, depois da Páscoa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:15 pm

Os noivos mostraram-se de pleno acordo.
Loló sentia, entretanto, que, em virtude do luto, não pudesse festejar, como sempre sonhara, o seu contrato de casamento.
Mas em breve encontrou uma solução.
Depois de falar a Rothschild do seu noivado, pediu-lhe que lhe proporcionasse esse prazer, promovendo, em sua residência, uma recepção ligeira e íntima, ao que o Barão acedeu com todo o prazer.
Além disso, presenteou-a com cinco mil rublos para os alfinetes, o que levou Lolo a uma explosão de alegria.
E Rothschild cumpriu com sua promessa.
Na noite seguinte, o noivado foi festejado com um brilhante jantar.
A reunião teve o seu momento supremo quando o noivo e o primo entregaram à noiva maravilhosos presentes.
Ao champagne, Loló ergueu a taça e esvaziou-a à saúde do primo:
— À tua saúde, Pawel.
És o mais querido e o melhor dos primos.
Eu te auguro, de todo o coração, que também te cases em breve, e te tornes tão feliz quanto nós o pretendemos ser.
Um sorriso doloroso passou pelo rosto de Rothschild.
— Eu te agradeço, Lolo!
Esperamos que o teu voto se realize em breve!
Contudo, o homem põe, e Deus dispõe!
Mas, neste momento, me alegro bastante por te ver feliz.
Logo depois da festa, Rothschild retirou-se para os seus aposentos, enquanto os outros convivas entretinham-se palestrando.
— Pawel parece-me tão triste! - Disse Anatólio.
Parece-me que não se sente muito bem.
O que faltará a esse feliz Creso?
— Também notei que Pawel anda muito quieto e calado.
Não posso saber porquê!
Será que aquele infeliz Montinhoso tenha marcado uma impressão tão forte assim no seu espírito? - Perguntou Lolo.
— Mas, porque havia esse castelo em ruínas de produzir uma impressão dessas?
Aquelas lendas de que me falaste tão alguma relação com o estado psíquico de Pawel?
Afinal de contas, foi de livre e espontânea vontade que ele comprou o castelo!... - Comentou Anatólio.
— Ah! Folja, esqueci-me de contar-te qualquer coisa de importante sobre o castelo.
Esse Conde de Montinhoso, tem tal semelhança com o nosso Pawel, que quase se poderia supor que se tenha erguido entre os mortos e viva agora, na imagem de Pawel.
Lembras-te ainda?
Eu te falei de uma visita à catacumba do Maledetto.
Imagina: sobre o cacófago se acha esculpida a figura de um monge que é o retrato vivo de Pawel.
O velho italiano que nos guiava, fugiu aos gritos de pavor, quando notou essa semelhança.
— É, de facto, uma história interessante e misteriosa, esta.
Agora compreendo menos ainda o desejo de Pawel de possuir esse castelo, com todos os seus espíritos e fantasmas! - Disse Anatólio admirado.
— Realmente! Larissa afirma que nós, segundo o Espiritismo, vivemos várias vezes.
Assim sendo, talvez Pawel seja uma reencarnação do Conde de Montinhoso! - Retrucou Lolo.
Anatólio riu-se:
.— Neste caso, tinham razão os seus colegas de Liceu quando o denominavam o Borga.
Ele contou às senhoras os acontecimentos que se ligavam ao facto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:15 pm

— Contudo, peço-te Lolo, não creias em semelhantes tolices, embora a semelhança com o tal monge de pedra exista.
Tudo isto não passa de acaso, ainda que de um singular acaso.
X X X
Apesar da sua satisfação de noiva, e de todos os planos que fazia sobre a sua viagem de regresso à Itália, com uma interrupção em Paris, para compra do enxoval, Lolo não descurava de observar o primo.
— Mamãe, tu não notas como Pawel está esquisito, como se apressa em voltar à Montinhoso? - Perguntou uma tarde à mãe.
— Qual, está apenas esgotado!
Tem tido muito que fazer!
Possivelmente há-de estar desejoso de voltar, o mais depressa possível, a um outro clima, mais ameno, e talvez esteja curioso por devassar os compartimentos murados.
— Pode ser...
Pensei também em Valéria.
Não estaria ela atraindo-o à maneira de um imã?
— Esta hipótese é admissível.
Valéria é uma formosa rapariga!
— Realmente!
Mas nesse caso, ele não teria motivo para estar assim todo triste e mal humorado.
Valéria não recusará por certo, tão bom partido, tanto mais que Pawel é, também, um belo tipo de homem.
— E não seria mau que ficasses aparentada com Valéria...
É uma menina tão amável!
— Prezo-a muito.
Apenas lamento que seja tão doentia...
X X X
Finalmente chegou o dia da partida.
Para grande tristeza de Lolo, Anatólio não pôde acompanhá-la.
O regimento do moço aguardava a visita de um alto personagem, e, depois disso, Anatólio devia seguir com sua genitora para a quinta que possuíam, onde se demoraria alguns dias.
Esperava, entretanto, poder seguir o mais depressa possível...
O expresso do Sul conduzia Rothschild e as Muranoff ao encontro do seu destino.
Na pequena estação das montanhas, desembarcaram e contrataram um velho carro de aluguel.
O resto do percurso foi feito a cavalo.
Lolo pedira que não telegrafassem anunciando a chegada.
Queria surpreender os amigos e Helena e Rothschild não se opuseram.
Rothschild se fazia cada dia mais inquieto e nervoso.
Ansiava pela chegada a Montinhoso.
Quando, inesperadamente, os viajantes fizeram sua entrada, os moradores do castelo se rejubilaram.
O primeiro a surgir foi Miguel, que cumprimentou efusivamente a mãe e a irmã.
Depois veio Larissa, e, por último, pálida como cera, Valéria apareceu.
No decorrer dos últimos dias, o seu estado de espírito piorara sensivelmente.
Um ciúme quase selvagem devorava-a.
Um simples olhar de Dina, fazia erguer no seu íntimo uma fogueira de ódio e animosidade contra a outra mulher.
Todavia, o que mais a martirizava, era o dualismo de sua personalidade, fenómeno que constatara por fim, e que se processava em si mesma à simples recordação de Rothschild.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:15 pm

Nesse vórtice de aversão, impaciência e ciúmes, esperava ela o retorno do amado, mas ainda assim odiado.
Muitas vezes parecia-lhe impossível viver sem ele.
Mas quando se lembrava de que uma outra o possuía, quase desejava que ele não voltasse mais.
Por vezes custava-lhe ocultar essa luta interior e as suas dúvidas, aos olhos perscrutadores de Larissa.
Apesar de toda a sua tranquilidade aparente, Larissa sentia que alguma coisa de indecifrável se passava, e aguardava; hora a hora, a chegada de Dionid Tonilim.
Quando Valéria entrou, Rothschild saudava justamente Larissa.
Ele se voltou para quem entrava, mas, involuntariamente, retrocedeu.
A aparência da moça assustava-o.
Valéria estava pálida como mármore, tinha as faces encovadas e os olhos febrilmente chamejantes.
Eram aqueles os olhos de Giovana!
Lolo lançou os braços em torno do pescoço da amiga e falou-lhe, entre beijos, do seu noivado.
Todos se manifestaram satisfeitos com a notícia e se congratularam com a noiva e sua mãe.
Finalmente Loló libertou Valéria, de maneira que também Rothschild pôde cumprimentá-la.
— Mamãe! Lolo! - Gritou Miguel.
Conseguistes, realmente, com Pawel, surpreender-nos, mas que surpresa reservamos para vós outros, não o suspeitais por certo!
Minhas senhoras, contemplai bem este maganão, o Pawel!
Pois está casado com uma linda mulher, que há duas semanas está aqui, impacientemente à espera do fujão!
— O que? É verdade isso?
Mas por que, querido Pawel, nos ocultaste isto! - Perguntou Helena ao sobrinho.
Rothschild, que prendia na sua a fria mão de Valéria, virou-se nos calcanhares, petrificado, fitando Miguel.
— Dina aqui?
Mas não é possível!
— Como qualquer esposa, especialmente sendo assim tão bela, ela tem por certo, e indubitavelmente, de estar onde estiver o esposo!
Respondeu Miguel sorrindo.
— E onde está a Baronesa?
— Mas, antes de tudo, explica-nos tu, Pawel, esta história! - Pediu Helena.
— A prima está no seu aposento e espera lá o seu esposo, provavelmente sentindo a necessidade de uma recíproca explicação... - Adiantou Miguel.
Todos fitavam Rothschild.
Com as sobrancelhas severamente contraídas, estava ele ali, a cabeça curvada, imerso em profunda meditação.
Tudo tinha esperado, menos encontrar Dina ali.
A presença da moça, isso todos perceberam, parecia-lhe extremamente desagradável.
O seu olhar, não denotava nem amor nem satisfação pelo encontro.
— Trocarei de roupa agora, e procurarei Dina...
Depois de ter conversado com ela, darei a explicação que pedis! - Falou dirigindo-se a Helena.
E saiu do salão.
Em seu quarto, caiu sobre a primeira cadeira que encontrou, procurando ordenar os seus pensamentos.
A notícia de que Dina estava no castelo, à sua espera, encontrara-o desprevenido.
Aquela arbitrariedade revoltava-o!
Como pudera ela ousar vir para ali, sem o seu consentimento?
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:16 pm

Todavia, e por um lado, assim como acontecera era melhor.
Já não precisava fazer aos parentes uma participação especial do seu consórcio.
Estava livre, agora, e não tinha a temer a perda da herança, nem de prestar contas a quem quer que fosse, sobre o seu modo de agir e o seu procedimento.
Por outro lado, porém, era inevitável uma cena desagradável com Dina, devido o seu génio, o que o preocupava seriamente.
Desejaria liquidar tudo aquilo discretamente, sem provocar atritos.
Então pensou em Valéria, na sua aparência realmente impressionante e no seu olhar enigmático.
Ela estaria passando por uma crise de ciúmes, e se a memória lhe voltara, estaria próxima da desesperação.
Deus do Céu!
Auxiliai-me a sair desta horrível situação! - Murmurou baixinho.
Valéria tem um aspecto inquietante!
Espero que não faça qualquer violência contra si mesma, quando tiver de novo o seu ataque.
É precise que eu lhe fale ainda hoje, de noite, para tranquilizá-la...
Mas agora preciso ver Dina, pôr um fim a essa história.
A sua presença aqui abrevia por certo a solução.
Ricciotto indicou-lhe os aposentos de Dina, nos quais foi bater.
Se a ausência de Rothschild não fora fácil de suportar para Valéria, também não o fora para Dina, sobre cujo espírito pesava, amargo, o sofrimento da incerteza.
Sentindo-se não amada, temia o futuro que a aguardava.
Agora que seu esposo já não dependia mais do tio, fazia-se necessário que houvesse uma decisão entre ambos.
E se essa decisão terminasse pelo divórcio, o que seria então?
Tudo nela gritava contra esse recurso.
Não! Sem lutar até o alento extremo, não se deixaria por à margem.
Nunca, enquanto vivesse, daria a liberdade ao esposo!
Ainda que preciso fosse viver separada dele, o posto que deveria ocupar não cederia à outra!...
A essa pálida e odiosa Valéria, por exemplo!
À noite martirizava-se com esses pensamentos e lembrava-se, então, da história contada por Savéria.
Aquela signora Yolanda parecia, de facto, errar por aquelas salas.
Ela vira-a, - àquela alma errante que oferecia o elixir do amor, - com seus próprios olhos, diante do gobelim.
Portanto, dentro da capela, tão artisticamente trabalhada no recesso da tapeçaria, devia ainda estar aquela bebida.
Oh! Se ela o encontrasse!
Faria de Pawel um seu escravo e garantiria, assim, a sua felicidade ao lado dele.
Diariamente passava algumas horas diante do gobelim, em busca do nicho.
Cada cantinho entalhado, ela já o conhecia de cor, mas não encontrava a mola secreta...
Miguel enviara Ricciotto imediatamente a Dina, para anunciar-lhe a chegada do Barão; Dina, porém, não desejava saudá-lo na presença de todos, e mandou pedir-lhe que fosse aos seus aposentos.
Rapidamente colocara os seus cabelos em ordem e prendera uma flor à cintura.
Esperava com o coração palpitante a entrada do esposo.
Mas este não vinha. Talvez não tivesse pressa em vê-la!
Isto, aliás, já podia saber de antemão!
Nervosa pôs-se a andar de um lado para o outro.
Por vezes, parava nervosa, diante do gobelim, e corria as mãos trémulas sobre os entalhes.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:16 pm

— Auxiliai-me vós, Yolanda, a prender ao menos este, vós que soubestes escravizar todos quantos quisestes ver aos nossos pés!...
Neste escudo do Maledetto, - bradou estremecendo de desespero - não ficou mais que a maldição...
E bateu o punho sobre o capacete, sobre a capela.
Assustada, retrocedeu:
a capela estava aberta!
Imediatamente, outra vez senhora de si, aproximou-se e olhou o seu interior.
Atrás da parede, diante da qual estavam ajoelhados o cavalheiro e a virgem, deveria estar o esconderijo.
Cautelosamente Dina estendeu a mão para as figuras e, involuntariamente, tocou-lhe os anéis dos dedos.
A parede do fundo fugiu para um lado.
Na abertura resultante daí, ela viu uma bandeja de ouro com um vaso do mesmo metal e uma taça.
Sobre uma placa de vidro, ao lado, viu escrito, em antigos caracteres italianos:
Elixir Milagroso dos Montinhoso.
Quem dele tomar, gozará do eterno amor.
Dina sentiu-se sem ar ao ler aquilo.
Podia prender o esposo, já não se via mais forçada a deixá-lo partir!
Não pode pensar mais:
batiam à porta.
Depressa fechou a porta do armário e dirigiu-se à mesa.
Rothschild entrou, cerrou cuidadosamente a porta e adiantou-se, parando poucos passos além à frente dela.
Sua fronte sulcava-se de rugas e o olhar com que mediu Dina era de franca hostilidade.
Nem sequer estendeu-lhe a mão, e nem teve palavras de saudação.
Assim estiveram por alguns instantes marido e mulher, frente a frente, em silêncio, até que Rothschild avançou mais alguns passos.
— O extraordinário prazer de, tão inesperadamente, encontrar-te aqui, demonstra-me que me vens espionando e agora desejas, oficialmente, ocupar o teu lugar ao meu lado! - Disse asperamente.
Como ousaste, sem as minhas ordens, vir para cá?
E como pudeste sair de casa sem esperar notícias de minha parte, como fora combinado?
Dina aproximou-se, fitando-o com desprezo:
— O vestido de luto que envergo, deveria dizer-te, sem dúvida que o homem que me criou, e que foi para mim um pai amantíssimo, já não vive mais.
Estou agora, com vinte anos, sozinha no mundo, e por isso vim àquele que é o meu único protector, vim a ti!
Desde o momento em que me recebeste por esposa, ainda que me não amando, tenho direitos sobre ti!
Ainda que sejas apenas o direito de usar o teu nome e viver contigo, sob um mesmo tecto.
Se até agora acreditaste que me podias desprezar em virtude de minha aparentemente obscura descendência, não podes fazê-lo mais.
E isto te demonstrarei: não sou filha de pais incógnitos, e nem sou filha daquele que me criou!
Sou filha legítima do Príncipe de Kopnim...
— Do recentemente falecido Príncipe de Kopnim, Dimitri Kopnim?
Mas pelo que sei, tinha ele um filho apenas! - Interrompeu Rothschild com desprezo.
— Sim, do Príncipe Dimitri Kopnim!
Sua viúva é sua segunda esposa.
Em primeiras núpcias, foi casado com minha mãe, Pepita Gonzáles.
Era espanhola, e, confesso-o abertamente, actriz de circo, mas mulher honesta e formosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A LENDA DO CASTELO DE MONTINHOSO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 31, 2016 7:16 pm

De medo de sua parentela, meu pai conservou secreto este matrimónio.
Quando minha mãe morreu, pela ocasião de meu nascimento, julgou ele desnecessário trocar palavras sobre este episódio de sua vida, tanto mais que sua mãe já encaminhava o seu casamento com a segunda esposa.
A existência de uma criança teria trazido dificuldades a meu pai, razão porque me entregou aos cuidados do seu muito zeloso secretário.
O Príncipe indemnizou-o liberalmente por isso, e meu pai adoptivo soube fazer fortuna.
Quando o Príncipe morreu, meu protector forneceu-me todos os informes relacionados ao meu nascimento, bem como cem mil rublos que me estavam destinados por dote.
Falecendo inesperadamente, não pode, infelizmente, como desejava, transladar tudo isto para o papel, a fim de que tu ficasses informado.
Sabes agora que sou, pecuniariamente, independente de ti.
Mas sou uma órfã, estou só no mundo e te amo!
Nunca fiz qualquer coisa que fosse de desonesto!
Diz-me, porque me tratas tão cruel e duramente?!
Sua voz negou o fim da frase e as lágrimas vieram boiar no seu olhar.
- Pawel, não sejas tão áspero e injusto!
Já estás há dois anos casado comigo...
Já houve horas em que foste até amável e dócil...
Rothschild deixou pender a cabeça.
Sua consciência dizia-lhe que Dina tinha razão e que cada uma de suas palavras era uma justa acusação.
Se já estava casado com ela, tinha direito à sua protecção, tanto mais que ele era, então, a única pessoa com quem podia contar e a quem podia pedir protecção.
Era bela e amava-o:
qualquer outro talvez a amasse também!
Ele próprio o tentara, mas...
Ali estava, diante dos seus olhos, o atentado perpetrado contra Valéria!
Antes nunca tivesse vindo àquele castelo, antes nunca a houvesse visto, e não teria tropeçado, pela segunda vez em sua vida!
— Tudo quanto disseste é verdade...
Tens razão, Dina!
Nem sempre procedi bem contigo, mas deves concordar em que o nosso casamento, nas circunstâncias em que foi realizado, não podia ser realizado, não podia ser feliz!
Tens, sem dúvida, direitos sobre mim, eu sou, o teu protector legal e podes, sem precisar corar, denominar-te minha esposa!
E, creias-me, quero tornar a tua vida tão bela quanto possível, quero proteger-te, quero ser para ti um irmão e um amigo sincero, mas teu esposo não posso ser...
Restitua-me a liberdade, Dina, eu te suplico, consente num divórcio!
Dina contemplou-o assustada:
— Odeias-me a ponto de vires representar esta comédia?
Queres acaso, te acobertar com a amizade para te veres livre de mim?
— Não, Dina!
Eu falo honrada e sinceramente!
Se soubesses o que sofro, terias piedade de mim.
Tu sabes que não te amo.
Uma mulher bonita e jovem e, além disso rica, pode, parece-me, encontrar quando queira, a felicidade!
Não te posso dizer tudo, mas ao menos uma coisa deves saber:
vive mais uma mulher que tem direito sobre mim, um direito que não está determinado pela igreja e nem pela justiça, mas que a honra e consciência me impõe.
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