Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:23 am

Ficaram em silêncio por alguns instantes, subitamente ela se lembrou:
- O senhor não tem que tomar o remédio?
- Ah, eu tinha me esquecido, sabe como são os velhos.
Fique à vontade - deu um sorriso.
Gisele suspeitou que ele estivesse brincando.
Abaixando-se enfiou a mão na água, depois sentou, tirou os ténis e as meias, mergulhou os pés na água, que delícia!
Com os olhos fechados começou a devanear que César estava ao seu lado falando ternas palavras de amor.
Voltou ao presente com a voz de Jota O.
- Gisele, gostaria de um copo de refresco?
Na cozinha, ele disse que não tomava nada alcoólico, nem refrigerante ou café.
Porém, tinha polpas de frutas congeladas, leite, groselha e chás.
Gisele optou por suco de maracujá, ele a acompanhou.
Em cima de um móvel estava um porta-retrato, no qual havia uma foto que exibia bonita mulher com uma menina a seu lado.
- Minha esposa e minha filha.
- Ah, é? Eu não sabia que o senhor era casado, sabe como é...
Mora sozinho pensei que fosse solteiro.
Após alguns instantes, ele disse com voz triste.
- Eu tive que devolvê-las.
- Como?
- Elas morreram em um acidente de carro.
Já faz algum tempo. Eu as devolvi - repetiu.
- Devolveu?! - subitamente compreendeu.
- Ah, para Deus.
- Sim. Gisele, nós não temos nada de nosso neste mundo.
Tudo nos está emprestado.
Ela ficou calada, por instantes e em seguida disse:
- O senhor... O senhor sofreu muito?
- Na época, sim. Mas, agora sei que estão bem.
O desencarne delas me levou à Doutrina Espírita, onde aprendi o entendi muita coisa.
Gisele fez um sinal de assentimento com a cabeça, mas na verdade não estava prestando muita atenção.
- A dona Marlene me disse que tudo é uma questão de causa e efeito, será?
Será verdade a tal história do carma?
- Sim, é. Deus não é um ser injusto, ele não condena nenhum dos seus filhos, geralmente sofremos as consequências de nossos próprios actos.
A semeadura é facultativa, mas a colheita obrigatória.
- Nós sofremos as consequências de nossos próprios actos... Ela repetiu.
Dizem que a causa dos nossos sofrimentos é um carma de vidas passadas. Será?
- Às vezes sofremos devido a atitudes que tomamos nessa vida.
O sofrimento, muitas vezes é necessário para o nosso aprimoramento e crescimento espiritual.
A verdadeira filosofia da vida é sofrer sem esmorecer, e ir à luta com fé, lembrando que Jesus sempre nos ampara.
A tristeza que estava represada em seu peito, finalmente começou a sair.
Gisele levou as mãos ao rosto e se pôs a chorar.
Jota Ó, foi até ela e deu algumas pancadinhas em seu ombro, dizendo palavras doces.
- Calma, Gisele, calma minha criança - quando percebeu que ela estava melhor perguntou:
- Gostaria de conversar sobre o que a aflige?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:24 am

A voz dele era tranquila parecia um pai falando com a filha.
Ela se sentiu segura, como há dias não se sentia.
- Sim - Gisele assoou o nariz, com um guardanapo de papel.
Eu vim para cá devido a um caso de amor mal sucedido - falou com voz trémula.
Quando percebeu tinha falado bastante sobre o malogrado romance, preservando, contudo, o nome do amante.
- Eu não posso dizer que entrei nessa de olhos fechados.
Eu sabia desde o começo que ele era casado - fez uma pausa.
Na verdade, nem sei o que esperava, que ele deixasse a esposa para ficar comigo?
Entendo agora que fui ridícula.
- Não, você não foi ridícula.
O poeta diz "atire a primeira pedra, aquele que não sofreu por amor".
Existem alguns momentos na vida que são especiais e que nos servem de experiência.
Não lamente o que perdeu.
Pense no que poderá vir a ter.
- Mas, como tirar a imagem dele da minha cabeça e do meu coração?
- O tempo cura todas as feridas.
Não te canses de amar, diz Joana de Angelis.
Quando você menos esperar encontrará outro alguém.
Ela meneou a cabeça.
- Acho difícil.
- Sim, agora é, mas repito: o tempo cura todas as feridas.
- O senhor já as esqueceu? - disse olhando para o retrato.
- Não - ele suspirou. - Mas, sei que o acidente foi necessário.
Hoje não tenho mais uma saudade doída, mas branda.
Eu as amo.
Oro por elas, às vezes sinto a presença delas.
Sei que um dia vou reencontrá-las.
Minha esposa e eu nos casamos por amor, mas... - fez uma pausa.
Isso é uma coisa que nunca comentei com ninguém.
Em uma consulta mediúnica, no Centro, eu soube que em uma de minhas vidas, eu e minha esposa provocamos acidentes contra outras pessoas, que vieram a falecer deixando seus bens para a igreja.
Eu era corrupto, pegava o dinheiro destinado à caridade e gastava, levava uma vida muito boa, não me preocupava com os pobres da paróquia.
Era lobo em pele de cordeiro.
- O senhor era padre?
- Sim, e minha esposa minha amante.
Nós prejudicamos muita gente.
Assim, viemos nesta vida resgatar nossos erros.
Eu aqui fiquei porque tenho o compromisso de arrebanhar às ovelhas e levá-las para o Cristo.
- O senhor é tão bom, tão gentil.
Parece incrível ter feito mal aos outros.
- Bem, a gente melhora com o tempo, ou tenta melhorar.
- E sua filha?
- Ah, ela também estava envolvida connosco.
Foi nossa filha, era muito bela, corrompia os homens para lhes tirar dinheiro, essas coisas...
Você entende? O sofrimento nos ajuda a crescer - falou mais para si mesmo.
O antigo relógio que estava na sala bateu dez badaladas.
- Nossa! Já é tarde, preciso ir trabalhar - disse Gisele.
- Leve com você esta mensagem da Joanna de Angelis:
'Não te canses de amar'.
Quando der, leia com calma.
- Está certo.
Ele a acompanhou até o portão.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:24 am

Capítulo 25 - Visita à cidade

Gisele estava chegando ao pesqueiro, quando um ónibus parou e dele saltou um rapaz alto.
Ele olhou para a moça, em seguida chegou perto, estendeu a mão, dizendo:
- Bom dia. Sou o Everaldo, a senhora deve ser a dona Gisele.
- Oi, Everaldo, bom dia, sim sou Gisele.
Vem vindo do cursinho?
- Sim, hoje as aulas terminaram mais cedo.
Mamãe me falou sobre a senhora.
- Você! Por favor, me chame de você.
Então, está pronto para começarmos nossas aulas?
- Sim.
- Que tal amanhã às 4h da tarde?
- Por mim está bem.
Enquanto conversavam, iam andando em direcção a casa.
Ao chegarem, ele se despediu.
Gisele entrou, dirigiu-se ao lavabo, lavou as mãos, ajeitou os cabelos e foi ao escritório, onde Murilo já a esperava.
Suaves músicas, vindas do aparelho de som, alegravam o ambiente.
- A música incomoda? - ele perguntou.
- Não, elas são lindas. São CDs?
- Sim. Sempre que encontro músicas suaves, compro e coloco para tocar enquanto trabalho.
Iniciaram o trabalho.
Mais ou menos às 11h15min ele disse
- Por hoje é só. Vou deixá-la, pois preciso falar com Marião.
Se você quiser usar o computador, ou o som, fique à vontade.
Gisele abriu seu e-mail.
A caixa postal acusava quase 100% de sua capacidade ocupada com mensagens, a maioria de César, que enviava flores virtuais, cartões e outras, que com grande força de vontade, excluiu sem ler.
Respondeu as de Rita, as de Kyria e até as da madrinha.
Ainda abalada, por ter descartado as mensagens do ex-namorado, desligou o computador e foi se preparar para o almoço.
Durante a refeição o assunto girou em torno do tal Dinho.
Nair disse ter recebido um telefonema da Ada (que mais tarde, Gisele soube ser a mãe dele).
Ela estava preocupada com o filho.
Dinho estava com problemas no serviço.
O médico diagnosticara como estafa.
Por conta disso havia sido internado em uma clínica para repousar e se refazer.
- Na certa ele andou por aí fazendo coisas que não devia - disse Marlene.
- Vovó! A senhora sabe que Dinho trabalha muito, certamente foi por isso que teve o problema.
- Ah, meu bondoso neto, sempre defendendo os outros. - olhou para Gisele.
Os dois são completamente diferentes:
Dinho usa as pessoas a seu bel-prazer e Murilo se deixa usar.
- Dona Marlene, do jeito que a senhora fala, Gisele vai pensar que meu sobrinho é um...
Um... - olhou à volta para ver se alguém a ajudava.
- Um bonitão danado de simpático - disse Lia.
Quando encontrou uma mulher rica, deixou a namorada de infância, sem mais aquela.
Murilo riu.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:24 am

- Lia você não tem jeito, mesmo.
- Sabe como é né, Murilo?
Desse tipo de gente o mundo está cheio.
- E a mulher dele como está? - Marlene perguntou.
- Tia Ada disse que ela vai bem, está firme, aguentando o tranco.
- À noite vou ligar para Ada para saber dele - disse Nair encerrando o assunto.
- Gisele, você poderia estar pronta daqui a meia hora para irmos à cidade?
- Claro, Murilo.
Enquanto se aprontava para sair, Gisele ficou pensando se iriam em seu carro, ou em outro veículo.
Quando ela desceu, usando um conjunto de calça comprida azul-escuro, Murilo a esperava ao pé da escada.
- Hum, como estamos bonita - disse estendendo a mão para ela.
- Obrigada. Fez uma mesura.
Esqueci de perguntar se vamos no meu carro.
- Deixe seu carro descansando na garagem.
Vamos com a minha van.
Antes de saírem ele escolheu uma bengala preta, da cor do sapato que estava usando.
A van estava estacionada na porta.
Na lateral ela trazia escrito o nome do pesqueiro.
Gisele, dentro do carro, viu que o veículo fora adaptado para Murilo.
Durante o trajecto ele ligou o som.
Logo o cantor começou a cantar:
"Mel sua boca tem o mel".
Para alívio dela, ele esticou a mão e mudou de estação, dando a impressão de não gostar da melodia.
Em Mirante da Serra, estacionaram perto da praça da matriz.
Ao saírem, ele se virou para trás e pegou a bengala.
- "Será que ele precisa disso para andar?
Em casa caminha bem sem a bengala" - Gisele acabara de ter este pensamento quando...
- Eu uso a bengala por segurança.
As ruas às vezes têm buracos.
Vamos? Você trouxe seu celular?
Caso a gente se desencontre podemos nos comunicar.
- Celular? Eu... Não tenho - respondeu sentindo certo constrangimento, pois tinha deixado o aparelho no apartamento da madrinha.
- Hum... Então é melhor ficar com o meu número, caso haja algum desencontro é só me ligar - tirou do bolso um cartão que tinha propaganda do pesqueiro.
Aqui está o número.
Porém, antes de qualquer coisa, deixe lhe mostrar alguns lugares da nossa cidade.
Deram uma volta pelas redondezas.
Gisele percebeu que Mirante era bem maior do que no início ela pensara.
Tinha tudo, bem, quase tudo que tem uma cidade de grande porte.
Depois de quase uma hora separaram-se.
Ela entrou em um shopping para comprar um biquíni.
Gostou muito de dois modelos, porém, devido ter emagrecido, eles ficaram um pouco largos.
A dona da loja disse que ia receber outros no dia seguinte.
Sem saber se daria para vir pegar antes, Gisele combinou que passaria lá no sábado.
Após dar mais umas voltas pelas lojas, onde comprou bloqueador solar e hidratante pós-sol, foi até à praça encontrar o rapaz.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:24 am

Sentados em um banco do jardim, onde ouviam o pipilar dos pássaros, conversavam quando alguém disse:
- Murilo...
- Quem me chama? - ele perguntou virando ligeiramente para olhar.
- Como vai? - um homem se aproximou.
Arnaldinho Beira Bar; Gisele o reconheceu pelo chapéu.
- Arnaldo, como está?
Deixe-me apresentar a Gisele, ela está trabalhando connosco.
Ela não gostou do jeito com que ele a olhou.
Os olhos congestionados davam a impressão de alguém um pouco fora da realidade.
Enquanto eles falavam sobre pessoas que ela não conhecia, Gisele aproveitou para observar com mais detalhes os flamboians e os ipês da bela praça.
O homem se despediu.
Levando a mão ao chapéu, disse ter ficado encantado em conhecê-la.
- Esse rapaz é o maior problema da nossa cidade.
- Seu João Oswaldo me preveniu sobre ele.
- Arnaldinho é muito inteligente.
Ele estudou com Dinho e comigo, nós fomos juntos até...
Até metade do 2º grau, depois disso ele descambou.
Entrou para o álcool e as drogas.
Hoje vive ao que parece do tráfico e pequenos golpes.
Nada muito grande, a polícia nada consegue provar.
Ele já esteve detido, mas foi solto.
Às vezes somem bicicletas, rádios de carro, essas coisas, a gente sabe que é ele ou seus comparsas quem roubam.
Agora provar...
- O que ele queria com você?
- Dinheiro.
- Você deu?
- Sim, pouco. Ele disse que era para comprar remédio para a mulher, uma tal Rosinha que trouxe de São Paulo.
Mas, acredito que esteja no bar bebendo.
- O apelido Beira Bar, é devido ao vício?
- Sim. Alguém começou a chamá-lo assim, por que onde tinha um bar, ele estava na beira.
- Se sabe que ele vai beber, porque deu o dinheiro?
- Ah, sei lá... Sempre fica a dúvida - olhou o relógio.
Antes de irmos embora quero lhe dar isso para que use quando for necessário.
Era um celular.
O aparelho era pequeno e delicado e parecia ser ainda melhor do que o que ela tivera.
- Um celular? Mas... - Gisele estava confusa, não sabia se devia aceitar.
Murilo fechou sua mão sobre a dela.
- Por favor, fique com ele.
Afinal, disse que tinha um - soltou lentamente a mão dela.
Ande sempre com ele, eu vou ficar mais tranquilo.
- Está bem, enquanto estiver aqui eu o usarei.
Ele se levantou, dizendo alguma coisa em voz bem baixa Gisele teve a impressão de que as palavras foram:
"Espero que seja para sempre".
Em casa, Boris veio recebê-los, fazendo enorme algazarra.
- Ele gostou de você - disse o rapaz.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:24 am

- Que bom! Boris, você é uma simpatia, quero ser sua amiga sempre!
Após tomar um banho rápido, Gisele, na cozinha pergunta a Nair se precisava de ajuda.
Ela olha para a moça, um tanto constrangida.
- A senhora quer que eu vá conversar com dona Marlene.
Sorriso de alívio:
- Se puder me fazer esse favor.
Nessa tarde, Marlene estava queixosa.
Dizia ter saudade do filho, que morrera há cinco anos, e da filha que morava em Poços de Caldas.
De repente, a voz de Nair, vinda da cozinha, chegou até elas.
- Hoje, logo após o jantar vou telefonar para Ada.
Quero saber do Dinho.
- Ai, meu Deus, não vejo por que gastar interurbano para saber dele - Marlene disse em voz baixa.
- Mas, ele não está doente?
- Doente, doente, ele deve ter aprontado alguma - abaixou a voz.
Dinho é muito safado, consegue engambelar a quase todos, mas a mim e a Jota Ó ele não engana.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:52 am

Capítulo 26 - Conversa com Jota Ó

Gisele acordou um pouco assustada.
Durante a noite tivera sonhos escuros e confusos, nos quais César aparecia com um aspecto lúgubre e tentava beijá-la.
Avassalou-a um ódio intenso contra ele.
Até pensou vagamente em se vingar.
Esperava que estivesse sofrendo como ela estava.
Aliás, não lhe passou pela cabeça o facto de que ela consentira e aceitara os carinhos dele.
Levantou, balançou a cabeça para afastar as imagens, pegou suas coisas e foi ao banheiro.
A porta estava entreaberta.
Percebeu que Murilo lá estava.
De repente, ele começou a cantar uma canção romântica.
Sua voz bonita e sonora a deixou encantada, dissipando o mal-estar causado pelos sonhos.
Quando a canção terminou, pé-ante-pé, ela retornou para o seu quarto.
Ao perceber que ele tinha saído, voltou ao banheiro.
Após fazer a caminhada com Jota Ó, rapidamente se trocou para levar as mulheres à cidade.
Ao sair, viu a van estacionada na porta.
- Gisele, você aceita a companhia de um homem?
- Você vai connosco?
- Sim. Nada tenho a fazer por aqui, hoje - deu de ombros.
O médico, um senhor simpático de meia-idade, disse que Marlene e Nair estavam bem, contudo, era aconselhável que fizessem um condicionamento físico.
Ali mesmo, no prédio, tinha uma academia que proporcionava óptimos exercícios para a 3ª idade.
Tanto falou, que animadas, elas pediram a Gisele que fosse ver se havia vagas.
- O encarregado pediu para as senhoras irem até lá para conhecer.
Eles têm vagas, todos os dias pela manhã.
Ao conhecerem a academia, as duas decidiram ficar para a primeira aula.
Gisele tomou o elevador, desceu ao térreo e saiu na rua.
Sem ter o que fazer, pensou em esperar na praça que ficava ali perto.
Estava sentada em um banco, contemplando o lago, quando viu Murilo vir ao seu encontro, trazendo uns papéis na mão.
- Gisele, que bom te encontrar - disse ele, com um cálido sorriso, sentando-se no banco.
Após ela contar sobre os exercícios, Murilo perguntou.
- Você gosta de massas?
- Massas? - perguntou intrigada.
Sim, gosto. Por quê?
- Comprei alguns convites para um jantar de massas, é beneficente, a renda é para a creche Anália Franco.
Você gostaria de ir?
- Quando vai ser?
- Não neste sábado, no outro.
Eu já fui algumas vezes.
Gostei muito, eles costumam fazer sorteios, karaoke, e outras brincadeiras.
Você vai comigo? - perguntou com uma voz que lembrou a que ela ouvira pela manhã.
- Vou, sim.
- Que bom, vou confirmar nossa presença, assim eles nos arrumarão uma boa mesa - fez uma pausa.
Que tal um sorvete?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:52 am

Foram à Sorveteria Avenida.
O gosto do sorvete lembrou um que tomara com César.
Ela o afastou de seu pensamento.
Assim que terminaram, estava na hora de pegar as senhoras.
À tarde, ela deu a primeira aula para Everaldo, na casa dele, tendo ao lado duas meninas simpáticas, gémeas de 10 anos.
Eram as filhas caçulas do casal: Eduarda e Marcela.
Os outros dois eram meninos, de 13 e 15 anos que estavam na escola.
Terminada a aula, não conseguiu sair de lá sem tomar café com biscoito.
Neste dia o bate-papo com Marlene foi mais curto.
Durante o jantar o assunto versou sobre a consulta médica e a recomendação de que as senhoras fizessem caminhadas e exercícios.
Marlene disse que estava muito velha para ir até a estrada caminhar, então ela e Nair decidiram que andariam em volta da piscina, afinal, ali era um bom lugar.
Terminado o assunto, voltaram a falar do Dinho.
- Ada me disse que ele está melhorando, porém ela pensa que ele deva fazer uma viagem para um local tranquilo - disse Nair.
- O pesqueiro Bela Vista - disse Renata rindo.
- Por que não a pousada? - Retrucou Ronaldo.
- A pousada é melhor, se é que ele, tão importante, se dignar vir até aqui.
- Vovó!
- Ora, Murilo, ele é todo cheio de dengos, ou vai me dizer que não?
Nair olhou para Gisele e balançou a cabeça, como a dizer:
Dona Marlene não tem jeito, mesmo.
Cansada do movimento do dia, Gisele pediu licença, logo após o café, e foi para o quarto.
Tentou ler o romance espírita, que tinha comprado, sob indicação de Rosa, a encarregada da livraria do Centro Bezerra de Menezes, mas não estava conseguindo se concentrar.
Pensou em tomar um banho relaxante.
Dona Nair tinha oferecido a banheira de hidromassagem, que estava em sua suite.
Sentiu vontade de usar.
Desceu ao andar de baixo.
Esperou Renata terminar bela melodia que executava ao piano, sob o olhar de Murilo, então perguntou:
- Vocês viram a dona Nair?
- Ela está ali no terraço, conversando com uma amiga que está hospedada na pousada.
Precisa de alguma coisa?
Olha, é só ir lá fora, vovó também lá está - disse Murilo.
- Bom... - estava sem jeito de ir interromper a conversa.
Eu... Deixa para depois.
- Gisele, será que eu não posso ajudar?
- Pode sim - decidiu.
Eu queria permissão para usar a hidro.
- Só isso? - ele riu.
Vamos lá, vou explicai o funcionamento.
- Não precisa se incomodar - ela tinha a impressão que subir e descer escadas era para ele um tanto difícil.
- Acho que sei ligar.
- Sei que deve saber, mas a nossa tem um dispositivo especial, devido ao aquecimento solar. Vamos lá.
Manquitolando, subiu a escada.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:52 am

No banheiro da mãe, abriu as torneiras, explicou o funcionamento, ofereceu toalhas felpudas, sais de banho.
Finalmente, com a banheira quase cheia, disse:
- Fique à vontade, aproveite para relaxar bastante - saiu.
- "Murilo é um homem muito gentil" - pensou enquanto se despia e entrava na água.
Que delícia! Com a cabeça cheia de imagens, não de Murilo, mas sim de César, relaxou e curtiu o banho.
Ao sair da suite, Murilo cruzou com Nair.
- Filho, Renata me disse que Gisele esta à minha procura.
- Sim, mas eu já resolvi o caso.
Ela queria usar a banheira. Eu lhe preparei o banho.
Antes que o filho se afastasse, Nair pôde observar em seu rosto, toda a emoção que ele sentira ao preparar o banho.
Definitivamente, Murilo estava apaixonado.
Gisele despertou com o coração batendo forte.
Novamente tinha sonhado com César, mas no sonho ele era um pouco diferente, usava roupas antigas e a acusava de ter leito alguma coisa que o desagradara.
Procurando se acalmar, levantou, se aprontou, desceu para o café.
Aos sábados, Lia não vinha.
Preparou, ela mesma o café, arrumou a mesa como de costume, serviu-se e saiu.
Desta vez caminhou sozinha, João Oswaldo lhe dissera que não viria, pois tinha compromisso, pela manhã.
De volta a casa, pegou a bolsa e as chaves do carro, deixou um bilhete e saiu.
Em Mirante, estacionou o carro.
Era cedo, o shopping só ia abrir às 10hs.
Passeou pela avenida principal, contente por estar sozinha.
Gostava de vir com Murilo e as senhoras, mas...
Tinha vontade de andar sem rumo, parar onde quisesse, enfim...
O celular tocou.
Por instante fantasiou que fosse César.
- Alô.
- Gisele?
A voz de Murilo a fez voltar ao chão, afinal, com ele estava a salvo.
- Oi, Murilo, hoje é minha folga e...
- Sim, sei disso, apenas chamei para perguntar se está tudo bem.
Ela se lembrou da canção "I Just call to say I Love you" - pena não ser César.
- Está tudo bem.
Explicou que viera fazer umas compras.
Despedindo-se, desligou.
Passou pela fonte luminosa, que ficava no jardim das Palmeiras, e que segundo Murilo era muito bonita.
Qualquer noite dessas precisavam ir até lá para ela ver, qualquer noite...
Pegou as compras e pagou.
Ao sair viu que o tempo parecia querer mudar, nuvens escuras toldavam o céu, o vento agitava as árvores.
Apressada, entrou no carro e rumou de volta para casa.
Na estrada a chuva desabou e quase sem visão continuou mais um pouco, viu a casa de Jota Ó, entrou pelo caminho alagado, parou perto do terraço.
A porta foi aberta.
Jota Ó se abaixou, olhou para ela fazendo frenéticos sinais para que entrasse.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:53 am

Criando coragem, saiu do carro e correu em direcção ao aconchego.
- Gisele, eu sou daqueles antigos, não gosto de ver ninguém dentro do carro, quando está chovendo.
Entre, vou pegar uma toalha para você.
- Oba, que bom.
Depois de se secar, e tomar um chá quente, iniciaram uma conversa.
- Hoje, você me parece um pouco...
Menos disposta.
Ela olhou para o espelho que ficava em cima do antigo aparador.
- É, estou com olheiras - fez uma pausa.
Sr. João Oswaldo.
- Não gostaria de me chamar de Jota Ó?
Ele percebeu um ténue sorriso em seu rosto.
- Sim, obrigada.
Tenho tido estranhos sonhos durante a noite.
- Que tipo de sonhos?
- Sonho com César, meu ex-namorado.
- César? Ele se chama César, o imperador?
- César Alexandre.
O ancião olhou para ela, então disse:
- Dois conquistadores, não de mulheres, mas de terras.
Então, tem sonhado com ele e por isso está com olheiras.
Talvez os sonhos não sejam agradáveis. É isso?
- Sim. São confusos, escuros, parece que ele me cobra.
Deu de ombros - não sei o quê.
- Não sei se sabe, mas à noite nosso Espírito, nossa alma, se desprende do corpo e vamos a muitos lugares.
Às vezes, nos encontramos com outras pessoas.
Talvez vocês estejam se encontrando.
- Sério? Eu tinha ouvido falar naquelas pessoas que à beira da morte dizem ter ido aqui e ali, geralmente através de um túnel, mas não pensei que isso se desse connosco.
Ele se levantou, foi até uma estante e voltou com um livro nas mãos, procurou no índice e abriu:
- Este é O Livro dos Espíritos.
Kardec fez várias perguntas aos Espíritos, depois compilou e editou este e outros livros, são a Codificação.
Conhece algum?
- Eu só conheço o Evangelho segundo o Espiritismo.
- Certo, vamos ver aqui, a pergunta 401 - "Durante o sono, a alma repousa como o corpo?
Resposta: Não, o Espírito jamais fica inactivo.
Durante o sono, os liames que o unem ao corpo se afrouxam e o corpo não necessita do espírito.
Então ele percorre o espaço e entra em relação mais directa com os outros Espíritos."
- Aqui tem outras explicações, se depois quiser ler...
- Quer dizer que posso estar me encontrando com o César à noite?
- Sim, provavelmente.
Ela cobriu o rosto com as mãos e disse em tom abafado:
- Meu Deus, como tirar este homem dos meus pensamentos?
- Geralmente, os outros só fazem connosco aquilo que permitimos.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:53 am

- O senhor tem razão.
Meu sonho de felicidade foi destruído como um insecto debaixo de uma sola de sapato - abaixou a cabeça.
Eu fui uma tola, pensei...
Julguei que pudesse ficar com ele, mesmo sendo a outra, ele disse que tinha que manter as aparências, mas que ia se separar.
Porém, quando eu soube que a mulher estava grávida... - olhou para ele.
Eu fui criada sem mãe, não é justo uma criança ficar sem pai - fez uma pausa.
Se é que César ia mesmo se separar.
- Como soube que ela estava grávida?
- Toninha me contou, ela me procurou e...
- Toninha? Quem é?
- Minha mãe. Fazia anos que não nos víamos.
Quer dizer, eu a vi, mas não sabia que era ela.
- Espere, não gostaria de me contar tudo desde o princípio?
Gisele não omitiu nada.
Ele ouviu calado.
Quando ela terminou, disse:
- Gisele, tudo está, como direi, muito recente.
Sei que está tentando lidar com seus sentimentos, mas, tudo passa na vida.
Nada como um dia após o outro.
Sei que agora você se sente ferida, mas procure não ter raiva do César.
Creio que ele se entusiasmou muito com o romance de vocês e pode estar sofrendo.
- César, sofrendo? Será?
- Bem, não sei - deu de ombros.
Tudo aconteceu por uma série de circunstâncias, sua madrinha está fora.
Por falar nisso, como explicou a ela sua mudança para cá?
Ela o olhou, deu uma risadinha.
- Uma vizinha se encarregou de contar.
- Uma vizinha? Como assim?
- Josenildo, um dos guardas, estava de caso com ela.
A mulher é conhecida da madrinha, mora no apartamento pegado.
Via César chegar, sair.
Escutou nossa discussão...
Minha madrinha telefonava e discretamente perguntava se estava tudo bem.
Não tocava no assunto, mas, quando liguei para ela - assim que Toninha me arrumou um lugar no Convento - ela disse que já sabia.
Foi muito legal, me aconselhou muito.
Porém, o senhor sabe né?
Eu estou sempre pensando nele, ora com amor, ora com raiva.
- Gisele, uma vez eu vi uma frase mais ou menos assim:
"Muito erramos, disputando o amor dos outros, entretanto corrigimo-nos e acertamos o passo, quando procuramos amar" - fez uma pausa.
Não sei quem é o autor.
Levando as mãos ao rosto, ela começou a chorar.
Jota Ó, esperou que se acalmasse.
- Minha jovem, procure tirar a amargura do seu coração.
Neste mundo a dor é inevitável, o sofrimento opcional - fez uma pausa.
Deus é bom pai, tenho certeza de que ele lhe reserva óptimas oportunidades, assim como nosso pensamento se modifica, nosso amor também se modifica.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:53 am

Como diz Joana de Angelis, "Não te canses de amar" - fez uma pausa, olhou para o antigo relógio de parede.
Você aceita almoçar comigo?
- Almoçar? Que horas são?
Nossa! Quase meio-dia. Preciso ir embora.
- Calma, ainda está chovendo forte.
Que tal telefonar para informar que vai ficar aqui?
Durante a refeição tiveram agradável conversa sobre a cidade e seus encantos.
Depois ela o ajudou com a louça.
Ficou sabendo que uma mulher vinha duas vezes por semana cozinhar (deixava os alimentos no freezer) e dar um jeito nas roupas e na casa.
Quando a chuva amainou, a moça disse que ia embora, Jota Ó pediu que esperasse, foi até a estante, pegou dois livros e lhe deu:
O Livro dos Espíritos e o Evangelho segundo o Espiritismo.
- Gisele, antes de dormir leia trechos dos dois, nem que seja só um pedacinho - fez um gesto com o polegar e o indicador.
Depois, procure relaxar, pense em César com afecto, não com raiva.
Peça a Deus que o abençoe, bem como à esposa, ore por você mesma e agradeça a Deus todas as benesses que possui.
- Está certo, obrigada - suspirou.
Não prometo, mas... Vou tentar. Até logo.
Beijaram-se.
Ela estava no terraço, quando ele disse:
- Sabe, o Centro Espírita é uma extensão do nosso lar.
É onde os Espíritos, através de Jesus, nos ajudam.
Se quiser, vá tomar um passe na segunda-feira.
Nair e o pessoal trabalham lá, neste dia.
- Na segunda-feira? - pensou um pouco.
Sim, eu vou.
Em São Paulo quando tomei passe me senti muito bem.
Nem sei definir direito o que senti. Até logo.
O tempo ficou instável o resto do dia.
Ainda com a conversa de Jota Ó na cabeça, Gisele, após o jantar, tomou uma atitude:
ao ver Murilo no escritório, usando a internet pediu a ele que ao terminar, não desligasse o computador, pois queria verificar seus e-mails.
Depois de uns 15 minutos ele a chamou.
Só, no escritório, ela abriu sua caixa postal...
- "Que estranho! Não há nenhuma mensagem de César.
Ah, com certeza ele já me esqueceu" - pensou.
Sem saber se devia achar bom ou ruim, colocou um agasalho e saiu para dar uma volta.
Fora, Boris a acompanhou.
Gisele vai andando, chega até a beira do lago.
Ela senta-se em um banco, meio escondido por um chorão.
Nuvens densas escureciam a noite, um vento uivante castigava as árvores.
Em meio à neblina o pio estridente de uma coruja a assusta.
Boris dá alguns latidos.
Subitamente, as nuvens se esgarçaram, o céu azul-marinho foi aparecendo entre farrapos de neblina.
- Gisele, o que faz aqui sozinha? Não tem medo?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:53 am

- Murilo, estou aqui tentando pôr ordem nos meus pensamentos.
Estou tentando deixar o passado para trás - ela sentiu vontade de falar sobre seus problemas, mas talvez aquela não fosse a hora adequada.
- Está certo, mas parece que vai chover, talvez fosse melhor ordenar os seus pensamentos em um lugar mais aconchegante.
Se aceitar minha companhia...
Andaram até perto da residência, então com sua voz doce e meiga, ele disse:
- Boa noite, Gisele! - Prendeu por instantes seu olhar no dela, em seguida sorriu e se afastou manquitolando, levando Boris consigo.
Murilo não parecia ser um sedutor, mas tratando-se de um homem... Nunca se sabia.
A casa assomava aos seus olhos de uma forma indistinta, contra o céu azul-marinho.
Um jorro de luz vindo da janela parecia lhe dar as boas-vindas.
Ao entrar, Nair disse:
- Gisele, preparei uma xícara de chá para você.
Naquela noite, após ter orado, adormeceu embalada pelo lamento do vento entre a vegetação.
A imagem de César quase não veio à sua mente.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:54 am

Capítulo 27 - O pavilhão

Gisele acordou com a chuva tamborilando na janela.
Saltou da cama, fez uma oração simples.
Consultou o relógio, era cedo.
Ligou a tevê: em um canal, um padre rezava uma missa, em dois outros, pastores falavam sobre a Bíblia.
Nada interessante.
Desligou. Depois de vestida, desceu e fez café.
Estava terminando de arrumar a mesa,
quando a porta se abriu, Murilo surgiu usando uma capa.
Gotas de chuva que dela caíam molhavam o chão bem cuidado da cozinha.
Balançando o guarda-chuva, cumprimentou:
- Bom dia.
- Bom dia. Já foi lá fora, apesar da chuva?
- Sim. Foi preciso.
Um dos hóspedes telefonou que sua barraca estava sem luz, fui lá dar um jeito - falou tirando a capa.
- Então tem área de camping junto ao pesqueiro?
- Sim. Quem não quiser ficar na pousada pode trazer sua barraca.
Aliás, também as temos para alugar.
Fazendo sinal de que entendera, perguntou:
- Murilo, hoje é domingo, será que eu posso ajudar a preparar o almoço?
Tem ideia do que posso fazer para adiantar?
- Não - balançou a cabeça.
Não há nada a fazer.
Aos domingos almoçamos na pousada.
Geralmente Renata vai à casa da sogra.
Mas Jota Ó sempre almoça connosco.
Ela fez um gesto de assentimento com a cabeça, depois perguntou:
- Fiz café. Quer tomar?
- Sim, vou guardar a capa e lavar as mãos - respondeu com voz alegre.
Mais tarde Gisele, em seu quarto, estava um pouco entediada.
A chuva tinha parado e um sol esplendoroso secava a terra.
Era tarde para ir caminhar e cedo para o almoço.
Subitamente, seus olhos caíram nos livros que ganhara.
Pegou o Evangelho e abriu:
Cap. XII - item 3 - "Se o amor ao próximo é o princípio da caridade, amar os inimigos é sua aplicação sublime, porque esta virtude é uma das maiores vitórias conquistadas sobre o egoísmo e o orgulho'". (...)
- "Amar os inimigos..."
"Como o Evangelho de Jesus nos ensina a praticar o amor.
O amor incondicional.
Tenho que tirar César da cabeça, mas...
Não posso ter raiva dele.
A emoção que nos uniu foi muito intensa, mas ele é casado!
Preciso esquecê-lo.
Quem sabe o destino me reserva outro alguém, outro amor."
Estava imersa nesses pensamentos, quando alguém bateu à porta.
Renata veio chamá-la para um mergulho na piscina, uma vez que a chuva parara.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:54 am

Com seu biquíni novo, adequadamente coberto por um roupão, Gisele apareceu na área da piscina, onde todos já estavam na água.
Depois de mergulhar e nadar de lá para cá, discretamente olhou para Murilo, que se secava a beira da piscina.
Ele tinha um físico relativamente normal, o tórax era mais desenvolvido que o quadril, as pernas eram finas em proporção ao resto do corpo e via-se que a esquerda era mais curta.
Gisele se lembrou das musculosas pernas de César, e de seu corpo atlético.
Afastou rapidamente o pensamento.
- Gisele, aos domingos almoçamos mais tarde.
Se você quiser beliscar alguma coisa, ali no terraço tem salgadinhos, refrigerantes...
Fique à vontade - disse Nair.
- Obrigada. Vou aceitar.
Virando-se de costas, foi até a escadinha e saiu da piscina, acompanhada pelo olhar de Murilo.
- Dona Marlene, a senhora não vai dar um mergulho? - perguntou à mulher que, sentada na varanda, fazia croché.
- Hoje não. A piscina me cansa um pouco, quero ir almoçar bem disposta.
- Também para mim, acho que já chega - disse, enquanto se servia.
- Se quiser tomar banho, use o chuveiro do vestiário - falou dona Marlene apontando para a direita.
- Posso?
- Claro, pode usar as toalhas que lá estão.
Se quiser se exercitar, aproveite a bicicleta ou a esteira.
Fique à vontade.
Após a deliciosa ducha, vestida com o roupão, Gisele foi para o quarto.
Colocou uma calça jeans e blusa branca, secou os cabelos no secador, fez uma leve maquilhagem.
Voltou à piscina, que agora estava vazia.
- Gisele, você está um pouco queimada do sol e esta blusa lhe caiu muito bem!
- Obrigada, dona Marlene. Onde está todo mundo?
- Murilo está fazendo seus exercícios obrigatórios, indicados pelo ortopedista.
- "Então ele tem que se exercitar" - ela pensou.
- Renata foi se arrumar para ir à casa da sogra e Nair está por aí - enquanto falava, continuava a fazer croché.
Dando um suspiro, ela colocou o pano de prato sobre uma cadeira.
Nicky chegou balançando o rabo e pulou em seu colo.
Gisele começou a cantarolar uma antiga canção de Sílvio Caldas.
- Bravos! É a primeira vez que a ouço cantar - olhou para a moça.
Você é bonita, inteligente e ainda tem boa voz.
- Ah, que é isso dona Marlene, quem canta bem é o Murilo.
- Sim. Meu neto canta bem - sorriu.
Antigamente, ele, Dinho e Rosana, diziam que iam formar um trio e cantar na tevê - pegou o croché.
O pano bateu na cabeça de Nicky que emitiu um protesto.
- Mas, a sorte quis outra coisa.
Nesse instante, Eduarda e Marcela, apareceram usando minúsculos biquínis.
Autorizadas que foram por Murilo, caíram alegremente na piscina.
- Tão novas e já quase peladas - balançou a cabeça.
- Hoje em dia se usa assim, dona Marlene.
- É, mas o seu biquíni não é dos menores - com a agulha no ar olhava firmemente para a moça.
Sempre tem mulheres que são mais ousadas - fez alguns pontos.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:54 am

Isso me lembra a Ada.
- Ada?
- Sim, Ada ou Sebastiana: a mãe do Dinho.
Colocou o trabalho na cadeira ao lado.
Sebastiana, quando a conhecemos, era uma morena muito bonita, mas inculta de pai e mãe.
Sou capaz de apostar que ela pensava que Beethoven fosse o nome de alguma dupla caipira: Be e Tovem.
Gisele riu.
Realmente ela parecia não gostar de Dinho e de sua mãe.
- Apesar de inculta era muito esperta.
Bonita de rosto e corpo.
Não gostava de seu nome: Sebastiana.
Passou a usar o apelido de Ada.
Ela apareceu por aqui junto com um circo.
Com a cara bem pintada, usando um maiô preto, passeava pelo picadeiro portando as placas que anunciavam a próxima atracção.
Você sabe, naquela época, uma moça de fino trato não usava maiô a não ser na praia.
Quando ela entrava, os homens aplaudiam e assobiavam até a mão ficar doendo e a boca cansada.
Nelson, o irmão da Nair tinha seis filhos com sua esposa Cida.
Ele fugia do barulho e da confusão causado pelas crianças, tocando violão.
Quando aparecia algum circo pela cidade ele se oferecia para tocar.
Jovem, ele era alto e bonitão.
Quando passava, as mulheres viravam a cabeça para olhar - fez uma pausa.
Você sabe como são certas mulheres.
Ada não tirava os olhos dele.
Foi muito esperta, conseguiu enredá-lo.
Tiveram um filho só:
Dinho, um bebé lindo, desses tipo dos catálogos de produto infantil.
Dinho puxou o que cada um de seus pais tinha de melhor.
Até hoje, com quase 40 anos ele é um galã - olhou para Gisele com seus olhos azuis embaçados.
- Enquanto Cida ficou gorda e feia de tanto ter filhos, Ada permaneceu bonita e elegante.
Também está sempre fazendo plástica e aplicando botox na cara.
Quando o menino ficou rapaz foram para São Paulo, onde ele fez faculdade de engenharia mecânica.
Ele adora automóveis! - fez uma pausa.
Até no casamento se saiu bem.
Conseguiu uma mulher, feiosa, mas rica, filha única.
Ele é muito inteligente e capaz, toma conta dos negócios do sogro - balançou a cabeça em aprovação.
É, Ada e Dinho saíram-se muito bem!
- E o Sr. Nelson? Está com eles?
- Nelson? - ela deu uma risadinha, abaixou a voz.
Depois que ele envelheceu, ficou careca e barrigudo, Ada o trocou por outro.
- Vovó, pára de tagarelar com a Gisele, vai pegar suas coisas que vamos almoçar daqui a uns 15 minutos - disse Murilo, que com uma toalha enxugava os cabelos.
Devido ao chão não estar totalmente seco, decidiram ir de van até a pousada, onde Jota Ó já os esperava.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:54 am

Gisele foi apresentada aos arrendatários:
Francisco e Flávia, um casal simpático, na faixa dos 30 anos.
O amplo salão de refeições, bastante frequentado àquela hora, era muito agradável.
Quase todas as mesas tinham vista para a piscina, de águas naturais (formada pelo riacho que passava na propriedade), que ficava aos fundos, tendo vários chalés à sua volta.
O saboroso almoço era tipo self-service.
Francisco explicou que, mediante um certo valor, as pessoas que quisessem, podiam ficar na pousada, no domingo, desde o coffe brake até a noite, desfrutando da piscina e das refeições.
A conversa durante o almoço foi muito alegre.
Quando terminaram, Nair contou a Gisele que um dos chalés era reservado à família.
Geralmente, após o almoço de domingo, eles iam até lá para tirar uma soneca, ver tevê, ou mesmo conversar.
O chalé tinha dois quartos, banheiro e uma saleta.
Murilo e Jota Ó, ocuparam um, as mulheres o outro.
Gisele adormeceu embalada pelo som do riacho que murmurava entre as pedras.
Ao acordar não sabia bem onde estava.
Sacudindo a cabeça, levantou, ajeitou as roupas, saiu pé-ante-pé para não acordar Nair que ressonava tranquilamente.
Encontrou, na sala, Murilo, Jota Ó e Marlene, assistindo tevê.
- Gisele, que bom que acordou.
Quer ir comigo conhecer os vinhedos? - perguntou Murilo.
- Quero sim.
Saíram do chalé e foram andando, pelo caminho de terra, evitando pisar nas poças d'água.
Caminharam uns 800 metros e chegaram ao parreiral.
Murilo explicou que cultivavam vários tipos de uva.
Agora mesmo estavam fazendo experiência com uma planta enxertada, cuja muda ele comprara... Tal e coisa.
Apesar de não estar familiarizada com o assunto, ela gostou da conversa e de estar ali.
- Gisele, está cansada de ficar aqui?
Quer voltar para o chalé, assistir tevê?
Ela respirou fundo:
- Murilo, eu gosto daqui - disse sentindo a brisa cálida contra o rosto.
A tevê não tem nada de muito atractivo aos domingos.
- Muito bem. Vamos até ali adiante.
Quero mostrar a pavilhão que meu bisavô construiu.
Venha por aqui.
Abandonaram o parreiral, subiram um pequeno atalho.
- O pavilhão é idêntico ao que existia na propriedade dele na Europa.
Era usado para os caçadores descansarem.
Porém, parece que lá houve um problema, uns encontros clandestinos - sorriu.
Sabe como é, marido, mulher e amante.
Ao ver a construção, Gisele sentiu um arrepio, sua vista escureceu, parecia que o chão lhe fugia.
- Tudo está meio abandonado.
Pretendo mandar fazer uma pequena reforma.
O que acha? - perguntou Murilo, que estava de lado para ela.
Como ela nada respondesse, ele se voltou:
- Gisele? O que foi?
Você está pálida!
Ela sacudiu a cabeça.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:55 am

- Não sei. De repente...
Senti-me zonza. Parece que vou desmaiar.
- Espere, segure-se em mim - amparou-a, colocando o braço em suas costas.
- Está melhor?
- Sim, estou melhorando - respirou fundo, sorriu.
- Vou sobreviver.
Ele passou delicadamente a mão sobre seus cabelos.
- Tem certeza de que está melhor?
Está com a cabeça quente - olhou para cima.
- O sol está muito quente, desculpe-me por fazê-la andar.
Vamos embora.
Realmente o sol estava quente, mas Gisele teve a sensação que a vista do pavilhão foi o que lhe causara o mal-estar.
Voltaram ao chalé, onde ficaram mais um pouco, depois passaram na pousada, despediram-se e foram embora.
Gisele sentiu-se indisposta pelo resto do dia.
O estômago estava embrulhado e a cabeça pesada.
Na hora do lanche não teve vontade de comer, aceitou, porém, uma xícara de chá de erva-doce, feito por Nair.
Pronta para dormir, Gisele lembrou-se das recomendações de Jota Ó, pegou o Evangelho abriu:
Capítulo V, item 11 - "Esquecimento do passado"
- É em vão que se aponta o esquecimento como um obstáculo ao aproveitamento da experiência das existências anteriores.
Se Deus considerou conveniente lançar um véu sobre o passado, é porque isso deve ser útil.
Com efeito, a lembrança do passado traria inconvenientes muito graves.
Em certos casos, poderia humilhar-nos estranhamente, ou então exaltar o nosso orgulho, e, por isso mesmo, dificultar o exercício do nosso livre-arbítrio.
De qualquer maneira, traria perturbações inevitáveis a relações sociais.
O Espírito renasce, frequentemente, no mesmo meio em que viveu, e se encontra em relação com as mesmas pessoas, a fim de reparar o mal que lhes tenha feito.
Se nelas reconhecesse as mesmas que havia odiado, talvez o ódio reaparecesse.
"De qualquer modo, ficaria humilhado perante aquelas que tivessem ofendido" (...)
Em seu leito, esperando o sono chegar, Gisele se perguntava se em outras vidas teria se cruzado com César, ou mesmo com... Murilo.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:55 am

Capítulo 28 - Nova visita ao pavilhão

Após uma noite mal dormida, na qual tivera sonhos escuros e estranhos, Gisele fez uma oração para dissipar o mal-estar e desceu para tomar o café da manhã, com Lia e Murilo, acompanhados por Sabrina, que dormia no quadrado.
Sem conseguir se alimentar direito saiu para caminhar, acompanhada por Boris.
Na estrada, Jota Ó já a esperava.
Caminharam uns dez minutos em silêncio.
Subitamente ele disse:
- Parece que ontem você não se sentiu bem, eu gostaria de sugerir que fosse tomar passe hoje à noite.
Ela percebeu que por ali as notícias corriam rapidamente.
- Acho... Acho que vou sim - fez uma pausa.
Jota Ó, ontem Murilo me levou ao pavilhão, perto do parreiral.
Lá, me senti mal, tive arrepios, sei lá.
Quando eu era pequena, Jandira, a moça que trabalhava lá em casa, dizia que as casas abandonadas eram habitadas por fantasmas.
Será que há fantasmas no pavilhão?
- Bem, muitas vezes as pessoas sensitivas, como deve ser o seu caso, sentem algum desconforto nestes locais.
Você conversou com Murilo, a respeito do seu mal-estar?
- Não. Ele achou que foi devido ao sol quente, mas...
O que devo fazer? - antes que ele respondesse continuou.
- Sabe, eu tive a sensação de que já conhecia aquela construção, muito embora, nunca tivesse ido até lá - fez uma pausa.
À noite, antes de deitar, abri o Evangelho e saiu o capítulo V, sobre vidas passadas.
Fiquei pensando:
será que já estive envolvida com César? E com Murilo?
O ancião ficou olhando para ela, em seguida disse:
- Muitas pessoas dizem que o acaso não existe - deu de ombros.
Pode ser, mas não podemos esquecer-nos do nosso livre-arbítrio.
- Sim, agora sei que somos herdeiros de nós mesmos.
Cada qual é livre para fazer o que quiser.
Eu podia não ter saído com César, ou não ter vindo para cá, né? - parou, olhou para ele.
O que devo fazer? Esquecer o facto?
- Eu penso que você deve ir lá novamente.
Peça a Murilo para que a leve.
Diga que ontem não pôde ver direito o pavilhão.
Mas, antes de ir faça uma oração, peça a protecção do seu Anjo da Guarda, do seu mentor individual.
- Estou confusa...
- Vá até lá, quem sabe sua confusão passe.
Quando temos alguma dúvida, o melhor é tentar esclarecer.
Caso nada aconteça, pelo menos terá feito um passeio. Que tal?
- É uma boa ideia.
Despediram-se.
Durante o almoço Murilo lhe disse, com um sorriso nos lábios, que logo mais à tarde iria até o parreiral, a cavalo.
Se ela quisesse acompanhá-lo...
Gisele, a princípio se sentiu desconfortável sobre o cavalo.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 08, 2016 9:55 am

Porém, após algum tempo, conseguiu se ajeitar.
Chegaram ao pavilhão sem problemas.
Murilo a ajudou a apear.
Segurando em sua mão levou-a até a frente da construção.
- Veja, tudo está meio abandonado.
Acha que devo mandar reformar?
Ela olhou à sua volta.
Realmente, o pavilhão lhe causava uma estranha impressão.
- É um lugar interessante, acho que deve sim, reformar.
- Quer entrar? - enfiou a mão no bolso.
- Eu trouxe chave.
- Será que aí dentro não tem algum fantasma? - perguntou sorrindo.
- Fantasma? Só se for da Geny.
Gisele sentiu um arrepio, desta vez, ligeiro.
- Quem é Geny?
- Era a esposa do conde, aquela que se encontrava com o amante, no pavilhão, mas não aqui, na Europa.
- Eu gostaria de saber mais sobre ela.
Entraram.
Dentro estava bastante empoeirado.
Ele passou um pano sobre um banco, onde se sentaram.
Murilo ficou uma meia hora contando o romance de Geny, Pedro e Rafael.
Quando terminou, ela disse.
- Puxa, que mulher danada!
Trair o marido, pai de seus filhos!
E ele ainda a perdoou!
Em certos países ela seria apedrejada.
- Você sabe como é a vida, o tempo cura qualquer ferida.
Precisamos lembrar que ela se casou jovem, sem amar o conde.
Naquele tempo os casamentos eram, na maioria das vezes, arrumados.
- Pode ser, mas o conde a amava.
- Sim, mas, era bem mais velho que ela.
Contam que Rafael era um tremendo conquistador, e não gostava do irmão.
Depois do acidente, Geny descobriu que tinha muita afinidade com Pedro.
No início, ele não queria perdoá-la, mas... Geny, talvez devido ao facto de se sentir culpada, cuidou do marido com muito amor.
Eles passam a se entender, descobrem que têm muita afinidade.
Gostam do mesmo tipo de livro, de música e de outras coisas.
Orientada pelo conde, ela cuida tão bem da propriedade e eles prosperam bastante.
- Como ela não percebeu antes que tinha afinidade com o conde?
- Bom, sabe como eram os homens daquele tempo.
Ele era machão, apesar de amá-la, quase não falava com ela.
Estava sempre imerso no trabalho.
O castelo era grande e Geny, provavelmente, se sentia só.
- Então, o tal Rafael aproveitou o momento.
- Sim, mas parece que embora para Rafael tudo tenha começado como uma aventura, ele realmente a amou.
Quando o conde descobriu que eles eram amantes, colocou o irmão para fora da sua propriedade.
Rafael machucado, pois o conde o chicoteara, e humilhado pediu abrigo para uns nobres que moravam ali perto.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 10:11 am

E terminou por se casar com a filha da casa, uma moça cujo nome era Laura (a mãe dela dizia que Geny era sem-vergonha, todos viam como dava em cima dele).
Mesmo casado ele mandava cartas para Geny que as devolvia sem ler.
Apesar de ter sido expulso por Pedro, muitas vezes rondou o castelo, na esperança de encontrá-la.
- Então Geny não quis mais saber do amante?
- Ela se dedicou totalmente ao marido, que não voltou a andar.
E também às obras de caridade.
Parece que ajudou muito, inclusive financeiramente, a paróquia local.
- E o Rafael? E Anabela que estava grávida dele?
- Rafael, foi um péssimo marido.
Bebia, desprezava a mulher, teve uma vida dissoluta, acabou morrendo cedo, de tuberculose.
Dizem que Laura, após um tempo, cansada dos maus tratos, começou a traí-lo.
Morreu, antes dele, em consequência de um aborto malfeito, diziam que foi tirar a criança porque não sabia se era ou não filha do marido.
- Quer dizer que você descende da Geny?
Sorrindo, ele respondeu:
- Descendo do filho da criada.
Do filho que Anabela teve com Rafael.
- É mesmo?
Bom, mas não saiu safado como seu antepassado, né?
- Espero que não.
- Você disse que seu bisavô construiu o pavilhão.
Então o filho da Anabela veio para o Brasil?
Ela também veio?
- Sim, não - sorriu.
Anabela morreu de parto, e sua mãe jamais perdoou, nem ao Rafael nem à filha, pois achava que Anabela havia sido leviana e desonrara o nome da família.
Geny criou o menino: Michel.
Ele e o filho da Geny vieram para cá.
Pedrinho acabou não ficando por aqui.
Mas, Michel gostou muito do Brasil, plantou a vinha, cuidou da propriedade, mandou fazer o sobrado, pois herdou o dinheiro do pai.
- Muito interessante.
Como essa história chegou até você?
- Através do Michel.
Geny era sua madrinha, e ele pedia a ela para lhe falar sobre seus pais.
No começo ela nada dizia, mas, depois acabou contando alguma coisa.
O resto ele soube através da avó, mãe de Anabela e do diz-que-diz dos criados.
Ele fez algumas anotações, e as trouxe para cá.
Assim ficamos sabendo dessa história.
- História muito interessante. Daria um romance.
Se lealmente a gente reencarna, onde será que estão Geny, Pedro e Rafael?
- Sabe que eu já pensei nisso? Onde estarão?
Dando um suspiro ela disse:
- Sabe, ontem quando aqui cheguei eu senti algo estranho.
Hoje conversei com Jota Ó, ele me aconselhou a te pedir para voltarmos ao pavilhão.
- Eu pensei que o sol tivesse te feito mal.
- Não, Murilo, meu mal-estar teve a ver com o pavilhão, por que eu não sei.
Quem sabe em alguma encarnação eu também tive algum problema, alguma dor de amor.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 10:12 am

Mas, agora a impressão ruim, já passou.
Acho que você deve mandar reformar este local.
- Vou ver se consigo chamar um restaurador.
- Murilo?
- Sim?
- Você perdoaria a Geny?
- Claro que sim.
Afinal, quem sou eu para julgar?
Acredito que o conde devia ter procurado fazer mais companhia a ela.
Mas os homens antigos eram muito machões - consultou o relógio.
Eu tenho que dar uma olhada na plantação, depois que tal irmos até a pousada tomar café?
- Óptima ideia!
A sessão no Centro teria início às 19h30 e todos, inclusive Marlene entraram na van, apanharam Jota Ó e rumaram para Mirante.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 10:12 am

Capítulo 29 - Gisele vai a outro Centro espírita

Ao chegar ao Centro Espírita, Gisele foi apresentada a Giovane, o presidente da Casa.
Era ele um senhor baixo, de uns 50 anos.
Tinha olhos e cabelos negros.
- Bem vinda, menina! - saudou com sua voz ligeiramente rouca, que deu a ela uma grande sensação de aconchego.
Como deve saber, a primeira vez que uma pessoa chega a esta casa abençoada, nós a encaminhamos para a entrevista.
- Sim, seu Giovane.
- Muito bem, menina vai até aquela sala - apontou para frente.
Alguns dos nossos entrevistadores já estão de plantão.
Logo à entrada uma mulher, de semilongos cabelo, castanho-escuros, óculos sobre os olhos azuis, de uns 55 anos cujo crachá tinha o nome de Zezé, mandou que ela se sentasse na cadeira que estava à sua frente.
Exibindo belo sorriso disse
- Bem vinda à nossa Casa.
Jota Ó, nos disse que iria trazer uma visitante, que esperamos permaneça connosco por muito tempo - fez uma pausa.
Como é o seu nome?
- Gisele. Eu estou morando no pesqueiro Bela Vista.
Trabalho lá como secretária.
Em São Paulo estive no Centro que a Tereza trabalha espiritualmente.
- Tereza, irmã da Nair?
- Sim.
Zezé explicou que ali a conduta era a mesma.
Eles tinham o mesmo tipo de passes, tinham também as escolas de iniciação espírita, nas quais o principal fundamento era nossa transformação de "homem velho para homem novo".
Ou seja, procurando nos livrar dos vícios e defeitos, adquirindo virtudes, para seguirmos rumo ao Cristo.
- Muito bem, agora que já falei sobre a nossa Casa, fale-me de você.
A princípio, ela se sentiu um pouco tolhida, porém, com o passar do tempo, sentindo o amor e carinho com que foi recebida expôs, praticamente, toda a sua vida.
- A senhora percebe, eu não sei bem como estão os meus sentimentos.
Ora sinto que ainda gosto de César, ora sinto certa mágoa.
Mas, como direi:
os momentos que passei ao seu lado foram especiais.
Ficaram gravados em meu coração.
Às vezes sinto sua falta, sinto falta da vida que levamos juntos, muito embora tenha sido breve.
- Gisele, é natural termos saudades dos momentos felizes que passamos.
Como diz a canção:
A vida é feita de momentos.
Momentos que não voltarão jamais.
- Mas, tudo muda e se renova.
O passado já era e não volta.
Você deve ter outras lembranças boas, não só os momentos que passou com este rapaz, né?
- Sim, é verdade.
- Gisele, eu gostaria que você me respondesse com cuidado:
como eram suas conversas com o César?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 10:12 am

- Ah, eram boas - ela se animou.
Nós conversávamos bastante.
- Sobre o quê?
- Sobre nós... - e olhou para Zezé.
Sobre o trabalho, sobre os projectos dele e...
- E sobre seus projectos?
- Sobre meus projectos? - ficou em silêncio pensando.
Bom, não me lembro.
- Gisele, pense com cuidado antes de me responder:
ele falava e você escutava, ou não?
- Ele falava e eu escutava...
Sim, mas eu dava palpites - olhou nos olhos de Zezé perguntando onde ela queria chegar.
- Escute, todos nós temos paixão.
Às vezes nos encantamos com um artista, sonhamos estar com ele conversando, namorando e até casando.
É normal da vida.
Depois de uns tempos aquilo passa.
Bem, paixão é uma coisa e amor é outra.
Hoje em dia, sabemos que para sermos felizes "para sempre", como nos contos de fada, precisamos nos unir com quem temos afinidade, com quem temos gosto e conversar, com quem compartilha os mesmos momentos que a gente.
Gisele estava confusa, será que ela queria dizer que César fora apenas uma paixão?
- Sei que está confusa, mas o que acha de pensar com calma na nossa conversa?
Gostaria, também, de indicar uma série de passes.
Os passes e a oração nos ajudam muito.
Você quer fazer o tratamento espiritual?
Zezé entregou uma ficha com a indicação dos passes a serem tomados.
Conversou mais um pouco recomendando a ela que participasse do Evangelho no Lar, fizesse orações e se aprofundasse mais na Doutrina Espírita, procurando ler a Codificação de Kardec e outros livros, inclusive, romances, que Murilo tinha aos montões em sua biblioteca.
E quem sabe dali a algum tempo Gisele se propusesse a fazer o Curso Básico de Espiritismo e depois a Escola de Aprendizes do Evangelho.
Despediu-se, dizendo à moça para procurá-la sempre que quisesse, não só ali, como em sua residência (Nair sabia onde ela morava).
Foi encaminhada por uma moça de nome Sónia, a um grande salão parcialmente ocupado por diversas pessoas, onde seria efectuada a palestra de abertura.
Sobre um tablado, na frente do salão, algumas pessoas entoavam belas melodias, ao som de um teclado, tocado por Murilo.
Sentindo-se em paz, ela cerrou os olhos, embalada pelas belas vozes (mais tarde ela soube que Murilo tinha estudado música durante anos.
Era ele o responsável pelo coral).
Às 19h30, com o salão repleto, as luzes foram diminuídas.
Uma moça jovem iniciou a prece de abertura, depois o coral e os assistidos, entoaram junto o "Pai Nosso".
As luzes voltaram a brilhar, a moça iniciou a prelecção.
- Irmãos em Cristo, que a paz de Jesus nos envolva, hoje e sempre.
Todos nós sabemos que fora da caridade não há salvação.
Quando aportamos em uma casa espírita, geralmente, as primeiras vezes aqui chegaram pelas "dores", pelos problemas que a vida nos apresenta.
Porém, na maioria das vezes, nós criamos os problemas - fez uma pausa.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 09, 2016 10:12 am

Querem um exemplo?
Quando compramos um carro, assinamos os papéis para pagarmos as prestações, saímos da revenda muito contentes, porém, na hora que chega o boleto do banco aí é que a coisa pega.
Geralmente, quando sofremos é em consequência dos nossos próprios actos.
Já sabemos que se a causa não estiver nesta vida, está nas vidas passadas.
Mas, então, o que fazer?
Bom, nós temos na oração, na prática da caridade as ferramentas para mudarmos.
É muito bom virmos aos passes, mas se não mudarmos nossa cabeça, tomamos o passe e logo ali fora vamos deixá-lo.
O amor deve ser nossa regra de conduta.
Em primeiro lugar, vamos amar a nós mesmos, vamos cuidar da gente.
Se tivermos algum problema, não adianta ficarmos igual à hiena do desenho:
"Ó dia, ó azar". Isto não vai resolver nada.
Como vocês sabem os desencarnados que ainda não encontraram seu rumo, gostam muito de ficar ao nosso lado.
Se nós baixarmos nosso "astral", vamos atrair para nós algum desencarnado com baixa vibração, assim como os atraem aqueles que estão no caminho da bebida, da droga e da maldade.
Quando estamos envolvidos por irmãozinhos desencarnados às vezes sentimos certa tristeza e até depressão.
Dá vontade de nos enfiarmos debaixo da coberta e não sair do leito.
Quando sentirmos tristeza, vamos procurar nos alegrar, primeiro fazendo uma oração, depois pensando em coisas belas, ou mesmo saindo para dar uma volta.
Podemos procurar um amigo para conversar, e até vir a um local de oração onde sempre há pessoas dispostas a nos ouvir - fez uma pausa.
Deus nunca nos dá o fardo maior do que podemos carregar, tenham a certeza disso.
Podemos fazer a caridade, através do pensamento, palavras e actos.
O nosso pensamento é muito forte, quando emitimos um pensamento bom para uma pessoa, estamos fazendo uma caridade.
Agora, quando ficamos com raiva, e emitimos pensamentos ruins...
Às vezes esse pensamento vai até a pessoa e como um bumerangue volta para nós.
Nos livros do Luíz Sérgio ele sempre recomenda que para sermos bons cristãos temos que fazer nossa reforma interior, mudando nossas atitudes, procurando eliminar nossos vícios e defeitos - fez uma pausa.
Nós não estamos, dizendo aqui, que devemos nos transformar em novo Chico Xavier, pois cada um de nós tem sua missão aqui na Terra, porém, vamos procurar resgatar o homem bom que temos dentro da gente...
Explanou mais um pouco e encerrou com vibrações de amor.
Gisele foi chamada para tomar o passe.
Depois ficou esperando que os trabalhos terminassem, pois até Marlene estava em uma das salas aplicando passes.
Ao voltarem para casa, pronta para dormir, ela abriu O Livro dos Espíritos.
Pergunta 281 - "Por que os Espíritos inferiores se comprazem em nos levar ao mal?".
Resposta: Pelo despeito de não terem merecido estar entre os bons.
Seu desejo é o de impedir, tanto quanto puderem que os espíritos ainda inexperientes atinjam o bem supremo.
Querem fazer os outros provarem aquilo que eles provam.
Isto não se dá também entre vós outros?
Gisele fez suas orações com fervor, pedindo a Deus uma tranquila noite de sono.
No dia seguinte, Gisele e Murilo trabalharam a manhã toda.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

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