Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 9:02 am

- Meu amor, não fique assim - as lágrimas começaram a rolar pelo seu belo rosto.
- Pe...
Pedro é meu marido - limpou as lágrimas.
Você sabe disso. Eu lhe devo obediência.
Ele se virou para a janela, deu um suspiro.
- Eu sei - e voltando-se para ela, sorriu.
Por favor, não chore, minha querida, é que quando estamos longe, parece que falta um pedaço de mim.
Abraçou-a.
- Ah!
Se eu não a amasse tanto assim! Olhe para mim.
Assim está melhor, por favor, amor não chore.
Sabe o quanto eu a amo, não? - apertou-a contra si.
A vontade que tenho é de levá-la para mim! Mas como?
Como o destino pôde ter sido tão cruel de fazer o bobo do Pedro a encontrar antes de mim? - falou com dramaticidade na voz.
Geny tentou se soltar.
- Rafael! Pedro não é bobo! - as palavras dele haviam quebrado o momento.
Meu marido é um homem bom! - levou as mãos ao rosto, abaixou-as, falou sem fitá-lo.
Às vezes, eu me pergunto se não seremos castigados por Deus, devido ao que estamos fazendo.
- Querida - fez cara de coitado.
Perdoe-me, mas quando penso que você pertence a ele, sinto ganas de estrangulá-lo, tão grande é meu amor por você.
É claro que Deus não vai nos castigar.
Afinal, nosso amor é maior do que tudo.
Foi uma falta de sorte meu irmão, que é um homem bom, tê-la encontrado antes de mim - estreitou-a contra o peito.
Na verdade, o destino foi muito cruel connosco.
Enquanto falava, beijava-a, sobre os cabelos, sobre o rosto e novamente sobre os lábios.
- Rafael! - Geny ficou sem fôlego, como se sobre ela tivesse passado uma onda cheia de espuma e avassaladora.
Entregaram-se novamente à paixão.
Na manhã seguinte, durante o desjejum, Rafael, astutamente disse ao irmão que estando recuperado da queda que sofrera, queria montar novamente Caprichoso.
- Afinal, não posso deixar que um simples garanhão me vença, não é?
- Claro, mano.
Quando quiser mandarei selá-lo para ti - disse Pedro, levando a xícara de café com leite à boca.
- Meu irmão, eu gostaria também de conhecer melhor a propriedade.
O que há a leste, além da mata?
- Lá fica o antigo pavilhão de caça.
Era usado quando organizávamos caçadas.
Hoje está abandonado e precisando de reparos.
Limpou a boca com o guardanapo de linho.
- É pena eu estar ocupado com a plantação, se não eu o acompanharia pela propriedade.
- É sempre mais agradável percorrer uma propriedade com alguém que a conheça.
Fez uma pausa.
- Será que... Não há alguém que possa me acompanhar? - olhou para a cunhada.
Será que Geny está muito atarefada? - perguntou para o irmão.
Seria muito pedir para ela me mostrar os arredores?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 9:02 am

Geny sentiu um formigamento percorrê-la.
- Puxa, como eu não pensei nisso antes - Pedro respondeu enquanto batia com a mão na testa.
Creio que pela manhã não há problema.
Geny acompanhe Rafael pela propriedade, até que ele possa ir sozinho. - falou em tom autoritário.
Olhou para o rapaz.
- Cuidado para não cair novamente do cavalo.
- Obrigado. Então, com sua permissão, irei com minha cunhada.
Geny sentiu mais do que viu o olhar de Rafael percorrê-la.
- Certo. Geny, quando forem sair, mande avisar na cocheira para que selem os cavalos. - e pegando o chapéu, falou:
Agora, vão me dar licença, preciso ir. Até à tarde.
A partir daí tudo ficou mais fácil.
Sempre que o tempo estava bom e Pedro cuidando dos vinhedos, os dois saíam e passavam horas agradáveis no pavilhão.
Dois meses depois, durante o jantar, Pedro comentou que era um homem feliz, pois tinha uma linda família e um óptimo irmão que não falava mais em ir embora.
Ao sentir o olhar do marido sobre si, Geny corou.
Geny, em seu quarto, aborrecida, contemplava pela janela a chuva que caía há mais de uma semana.
Pedro, que por este motivo estava quase sempre em casa, muito amoroso, sempre a queria perto de si.
Por outro lado, Rafael, profundamente irritado, a cobrava, dizendo que ela deveria deixar o marido de lado e lhe dar mais atenção.
Aborrecida com a situação, chamou Anabela para auxiliá-la, porém a criada demorou a atender, chegando agitada, com os olhos vermelhos.
- Anabela, o que houve? Você andou chorando?
Por que demorou a me atender? - perguntou com certa rispidez.
- Desculpe condessa, não passei muito bem.
Demorei porque estive falando com o conde Rafael.
Geny franziu as sobrancelhas.
- Falando com Rafael? - perguntou surpresa.
Que assunto você tem a tratar com o conde meu cunhado?
- Não é nada, não senhora. - respondeu com a cabeça baixa, pegou a escova.
A condessa não quer se arrumar?
Se demorarmos, vai se atrasar para o jantar.
- O jantar não começará sem mim - sentou-se na banqueta da penteadeira.
Vamos então com isso.
No dia seguinte, pela manhã, a chuva parou.
O sol brilhou forte, a lama do chão começou a secar.
Geny, mergulhada na banheira com água tépida, com os olhos fechados, antecipava o encontro que logo mais teria com Rafael.
Cantarolando feliz, saiu do banho e tocou a sineta para chamar Anabela.
Enquanto esperava, notou que Bianca parecia agitada.
A cachorrinha começou a rosnar encostada na porta que dava para o quarto de Rafael.
Geny, ao se aproximar para pegá-la no colo, pensou ter ouvido vozes alteradas.
Esticou o braço para bater na porta, porém, pensando melhor, deu de ombros.
Depois conversaria com Rafael.
Tocou novamente a sineta e dentro de minutos a criada apareceu.
- Anabela! Que demora!
Onde você estava? - perguntou com rispidez.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 9:02 am

- Desculpe condessa.
Fui levar as botas do conde Rafael.
Geny olhou para ela.
- E onde está o Nicanor? - aproximou-se.
Você me parece pálida.
Está acontecendo alguma coisa que eu não saiba?
Lembre-se de que está aqui para me atender e não ao conde Rafael.
Anabela baixou os olhos.
- Sim senhora. Qual roupa quer vestir?
- Pegue o conjunto de montaria, verde-musgo. - e olhando-se no espelho continuou:
Hoje quero ficar bonita.
- Para o conde Rafael? - falou a criada, colocando a mão na boca.
- Anabela! Não vou tolerar insolência! - Geny respondeu furiosa.
Exijo um pedido de desculpas, imediatamente!
- Desculpa - falou entre dentes, fazendo uma mesura.
- Muito bem. Que isso não se repita - sentou-se na banqueta.
Ande, venha me pentear.
No dia seguinte, Geny teve que esperar um bom tempo para sair com Rafael.
Como ele nunca havia atrasado antes, durante a cavalgada até o pavilhão, notando que ele parecia agitado, perguntou o que tinha acontecido.
- Você discutiu com alguém?
A princípio ele respondeu que estava tudo bem, porém depois, olhando para ela, passou a mão na testa dizendo:
- Hoje fiquei chateado com...
Anabela, pois minhas botas vieram mal polidas.
Essa gente causa tantos aborrecimentos que fiquei com um pouco de dor de cabeça, sabe que até fui dar uma voltinha para espairecer? - e mirando-a de cima abaixo continuou.
Mas tenho a certeza de que logo, logo estarei bem.
Geny balançou a cabeça concordando.
Andaram um pouco em silêncio quando ela disse que, por falar em dor de cabeça, estava um pouco preocupada com o marido, pois Pedro vinha apresentando constantes dores de cabeça.
- Ah, é? Você está preocupada com o meu irmão, só porque ele tem uma dorzinha?
E eu? Eu como fico? - parou o cavalo.
Geny estacou também.
- Como assim?
O que quer dizer?
- Eu fico em meu quarto, pensando em você.
Pensando que pode estar com ele, que ele tem o direito de ficar com você enquanto eu fico sozinho, amargando o meu ciúme a maior parte do tempo.
Eu que te amo tanto! - deu um profundo suspiro - Meu Deus, como eu sofro! - disse com grande pesar.
- Ah, Rafael. A vida nem sempre é como gostaríamos que fosse.
Sabe bem que te amo e que também sofro muito.
Por favor... Acalme-se, não devemos discutir, mas sim aproveitar os momentos de que dispomos.
Já que não podemos mudar a situação vamos logo até o pavilhão - disse com meiguice na voz.
Ele ficou olhando para o horizonte, depois se virando para ela, deu um sorriso.
- Tem razão, meu amor. Vamos logo.
Pedro, logo após o almoço, estava fiscalizando a colheita da uva quando sentiu forte pontada na cabeça.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 9:02 am

Sua vista escureceu.
Temendo estar sofrendo de algum mal, mandou que lhe trouxessem um coche, no qual entrou.
Disse ao cocheiro para que o levasse para casa.
Durante o trajecto, pensou que precisava se deitar para descansar.
Pediria a Geny para que providenciasse umas gotas para a dor e também lhe fizesse uma massagem.
Caso não melhorasse, mandaria chamar o doutor.
Porém, só de pensar na esposa e no aconchego do lar, sentiu-se melhor.
Ao chegar, dirigiu-se para o seu quarto.
Estranhando não encontrar a esposa, foi até a saleta e tocou a sineta.
Anabela entrou no aposento, pálida, manquitolando e exibindo um hematoma na testa.
O conde olhou para ela e franzindo as sobrancelhas perguntou:
- O que aconteceu com você?
- Eu caí.
- Caiu? Como assim?
Onde? Quer ir ao médico?
- Não senhor. Eu caí...
Minha mãe já passou arnica em minha perna.
O senhor me chamou?
- Anabela, sabe onde está a condessa? - perguntou enquanto brincava com o chicote, batendo-o na perna.
- Ela saiu.
- Saiu?! Agora à tarde?
Será que foi à igreja?
- Não senhor. - Com a cabeça baixa ela torcia o avental.
- Se não foi à igreja, onde foi?
Você sabe?
Sabe se ela foi levar alimento aos colonos?
- Eu creio que não, quem tem levado os alimentos são os criados da cozinha.
- Os criados? Mas, por quê?
- Foram ordens da condessa - disse de cabeça baixa, torcendo o avental.
Pedro, confuso, andou de lá para cá.
- Ah, vai chamar meu irmão, talvez ele saiba onde ela foi.
- Eles saíram juntos - respondeu, parecendo constrangida.
- Eles saíram juntos há esta hora?
Foram cavalgar com as crianças?
- Não, as crianças estão com o preceptor.
Ela saiu só com o conde.
Quando o tempo está bom, eles saem sempre juntos.
Alguma coisa remexeu dentro do peito de Pedro.
Ele ia falar algo, quando Filomena apontou na porta.
- Papai, que bom que chegou! - correu e abraçou o pai.
O senhor parece triste - olhou para o progenitor.
Por que não vai ao pavilhão encontrar com mamãe e tio Rafael?
Sempre que eles vão até lá voltam alegres e contentes.
Não é mesmo, Anabela?
A menina olhava a criada com seus olhos ingénuos.
- Eu... Eu não sei.
Com licença. - e virando-se de costas fez menção de se retirar.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 02, 2016 9:03 am

- Anabela! - Pedro chamou com voz trovejante.
Volte aqui. A condessa tem saído sempre com meu irmão?
Levou a mão à cabeça que parecia querer estourar.
- Ah, papai, quase todos os dias, quando não está chovendo.
Quando chove, eles às vezes ficam conversando e rindo no quarto do titio.
Pedro abraçou a filha.
- Querida, você não deveria estar com o preceptor?
- Eu pedi para beber água, agora vou voltar para a sala.
Até logo! - deu um beijo no pai.
Ele esperou os passos da menina sumirem.
- Anabela, a condessa tem saído muito com meu irmão?
- Sim senhor, quase todos os dias.
- Muito bem. Obrigado, pode voltar aos seus afazeres.
Anabela saiu da saleta exibindo uma risadinha no rosto.
Pedro levou as mãos às costas e virou-se para a porta-janela que, aberta, deixava entrar o sol da tarde e o zumbido dos insectos.
- Será possível? - pensou.
Não, não deve ser. Certamente eles vão só passear.
Ultimamente tenho ficado ocupado com o vinhedo.
Geny está saindo todos os dias.
Talvez por isso ela venha se mostrando meio aborrecida comigo.
Vou esperar eles chegarem para ver de perto - e levando a mão à cabeça, apertou as têmporas.
Vou procurar algumas gotas para a dor.
Saiu da sala, caminhou em direcção à sala de almoço, onde guardava os remédios sob chave, para que as crianças não tivessem acesso.
Ao passar pelo corredor escutou a voz de Anabela, vinda de um cómodo.
- Pois é mãe - dizia ela. -, depois do que aquele conde safado me fez, tive vontade de contar tudo ao conde Pedro.
Quase falei que ela se apronta toda bonita e se enfia no quarto do cunhado.
Logo, logo garanto que ela vai se meter em uma encrenca.
Todo mundo sabe que o conde Rafael é mulherengo.
Garanto que a tonta pensa que ele está apaixonado por ela!
- Anabela, você não tem nada a ver com a vida dos patrões - falou sua mãe.
Você ficou com ele porque quis.
- Eu sei mãe, mas ele não tinha o direito de tentar me matar me empurrando daquele jeito morro abaixo, já pensou se eu me machucasse para valer?
Ele queria que eu perdesse a criança, mas, graças a Deus isso não aconteceu.
Eu quero só ver quando meu filho nascer, garanto que vai ser a cara dele.
Eu juro mãe, que vou me vingar.
- Cala a boca menina.
Já falei que você se meteu com ele porque quis.
Você é uma tonta, se pensa que alguém vai ligar para o filho de uma criada.
Trata de arrumar um marido rápido se não quiser que o povo fale.
- Ah, é? O povo que fale o que quiser.
Eu não me chamo Anabela se deixar isso ficar assim.
Pode ter certeza de que vou dar um jeito de me vingar - riu.
Vou dar um jeito para que o conde Pedro fique sabendo de tudo.
Ah, se vou...
Pedro sentiu a vista ficar vermelha.
Respirando fundo saiu de casa e foi em direcção às cocheiras, porém sentindo-se indisposto para montar um cavalo, mandou que lhe preparassem um coche.
Pediu ao cocheiro que rumasse o mais rápido possível para o pavilhão de caça.
Durante o trajecto ele continuava a brincar com o chicote.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:25 am

Capítulo 7 - O flagrante

Pedro desceu do coche e caminhou até a porta do pavilhão.
Lá chegando, escutou Geny dizendo entre risos:
- Rafael, Rafael, por favor, me ponha no chão.
Já está ficando tarde, precisamos ir embora.
Através do vidro sujo da janela viu Rafael com Geny nos braços, rodando-a no ar.
Furioso, empurrou a porta com força.
- Então é aqui que minha esposa e meu irmão passam o tempo se divertindo?
Dois pares de olhos o contemplaram surpresos e amedrontados.
Rafael, assustado, colocou a moça no chão e foi em direcção ao irmão.
- Pedro, que bom que veio nos fazer companhia - tentou sorrir.
Eu tive um contratempo com uma das criadas, fiquei com dor de cabeça - levou a mão à testa.
Geny teve a bondade de vir até aqui comigo.
Eu precisava sair um pouco para espairecer, você sabe como é? Não?
- Não, eu não sei de nada - olhou de um para o outro.
Vagabunda! - falou, cuspindo a palavra.
Chegando junto a Geny a agarrou pelos cabelos, que estavam soltos, e a arrastou para fora.
- Vagabunda, então é isso que você faz quando estou cuidando das coisas?
- Pedro, Pedro, por piedade me deixe explicar.
Por favor, me solta, você está me machucando.
- Idiota! Eu devia matá-la.
Rafael correu em direcção à moça e tentou soltá-la.
- Seu bruto, larga a Geny, eu exijo que você a largue já!
- Cala a boca!
Segurando a esposa com a mão esquerda, ergueu o chicote com a direita.
- Você não está em condição de exigir nada, seu cafajeste ordinário.
Sedutor de mulheres.
Eis o que merece. - e abaixando a mão chicoteou o belo rosto do irmão.
Suma já da minha frente.
Saia já da minha casa.
Suma da minha vista, ou mandarei te chicotear!
Rafael levou a mão ao rosto, que voltou cheia de sangue.
- Seu monstro, olha o que me fez.
Continuando a arrastar Geny, que não ousava abrir a boca, Pedro respondeu.
- Isso é muito pouco, você merecia uma surra.
Fazendo um esforço, jogou Geny dentro do coche, mandou que o cocheiro, que havia descido e surpreso contemplava a discussão, levasse Caprichoso e a égua de volta para o castelo.
Subiu na boleia, chicoteou os cavalos e saiu em disparada.
Geny, devido à velocidade, era jogada de lá para cá.
Depois de alguns minutos conseguiu se sentar e começou a gritar:
- Pedro, Pedro, vá mais devagar, desse jeito você vai nos matar.
- É isso que você merece sua rameira.
Sem se importar com o perigo, imprudentemente chicoteou com mais força os cavalos, que, assustados, saíram da estrada e despencaram ribanceira abaixo.
Geny voltou a si, deitada em uma cama, em um dos quartos do castelo.
Anabela, debruçada sobre ela, tinha um vidro de sais na mão.
- Ai meu Deus, que dor na cabeça! - disse empurrando a mão de Anabela.
O que houve comigo?
Assim que perguntou, lembrou-se de tudo.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:26 am

Meu Jesus, onde está o conde?
E Rafael?
- O conde está muito machucado, tem ferimentos na cabeça, nas costas e sua perna esquerda sofreu fracturas em vários lugares.
O doutor está tratando dele.
Quanto ao conde Rafael, ele escafedeu-se - disse com um risinho nos lábios.
- Como assim, escafedeu-se?
Tentou se levantar, sentiu tontura e uma dor muito forte no braço esquerdo.
Deitou novamente.
- Eu preciso falar com Rafael.
- É, mas ele se mandou.
Só quem está aí é o criado que ficou para arrumar as malas.
Após ficar uns dias de cama, Geny que só tinha um galo na cabeça e o braço esquerdo machucado, mais ou menos recuperada, foi ao encontro de Pedro, que fora acomodado no quarto do casal.
Ao vê-la, Pedro se agitou:
- O que você está fazendo aqui? - apontou para a porta.
Saia fora já desse quarto.
De hoje em diante, fique em outro cómodo!
Você está proibida de sair do castelo.
- Calma Pedro. Eu...
Sei que estava errada. Por favor, vamos conversar.
- Errada? Você não passa de uma vagabunda.
Saindo com aquele conquistadorzinho barato.
Sabe que ele engravidou a Anabela?
Sabe que tentou matá-la?
- O quê? Você só pode estar brincando...
- Pergunta para ela.
Agora sai da minha vista, anda.
Geny sentiu uma forte tontura.
Voltando ao quarto que agora ocupava, jogou-se na cama e chorou.
Depois de algum tempo, mais calma, chamou Anabela.
Quando a criada confirmou as palavras de Pedro, ela se sentiu muito mal.
Traíra Pedro, com um homem vil e mulherengo.
Profundamente arrependida, mandou chamar o padre Gesiel, com quem se confessou, não omitindo nenhum facto.
O religioso recomendou que ela tivesse calma.
Passou-lhe uma grande penitência, e prometeu conversar com Pedro.
Cumprindo a promessa, passou a ir ao castelo todos os sábados à tarde, conversava com o casal, a princípio separadamente.
Depois, com o argumento de que o casamento era um sacramento sagrado e indissolúvel, e que a lei de Cristo recomendava o perdão, setenta vezes sete.
- Afinal, Ele perdoara a mulher adúltera e também Madalena.
Não era verdade?
Conseguiu que o conde concordasse com a presença da esposa junto a si.
O tempo geralmente cura todas as dores e, então, Pedro demonstrava gostar quando ela vinha ficar ao seu lado.
Lentamente, com a ajuda do padre, Geny ganhou sua confiança e até conseguiu que ele escutasse com prazer a leituras que fazia dos livros e romances de que gostava.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:26 am

Geny, bastante arrependida pelo breve romance que tivera com o cunhado, dedicou-se bastante à vida religiosa, passando nas horas vagas a assistir aos pobres, tendo sempre uma palavra de conforto para os que dela se aproximavam.
Seu livro de cabeceira passou a ser o Evangelho de Jesus.
Todas as noites ela o abria ao acaso e lia um trecho em voz alta no quarto do marido.
Dali a dois anos, com a morte de Bela, Cornélia veio morar com eles e tornou-se uma avó para os filhos de Geny.
Pedro morreu alguns anos depois, sem conseguir recuperar totalmente os movimentos da cintura para baixo.
Quanto a Rafael, após sair das terras do irmão, sentindo dor na testa onde o chicote havia feito um feio corte, parou na propriedade dos pais de Laura e pediu pouso.
Contou a eles sua versão dos fatos. Fazendo-se de vítima, disse que Geny andava dando em cima dele e que o irmão, ao descobrir, não quisera saber de nada e o expulsara.
A mãe de Laura retrucara que realmente Geny era uma sem vergonha, pois à época do aniversário, todos tinham reparado que ela olhava sem parar para Rafael, chegando mesmo a se insinuar para o cunhado.
Nos dias seguintes, sabendo que o irmão estava seriamente ferido, ele pensou que o caminho estava livre. É claro que Geny aceitaria ir embora com ele. Porém os bilhetes que mandava para a cunhada ficaram sem respostas e suas tentativas de encontro também não foram aceitas.
Querendo arrumar um meio de não ficar malvisto perante a sociedade, ele ficou noivo de Laura, com quem acabou se casando.
Com o passar dos anos Rafael, que não conseguia respostas para os bilhetes, passou a beber além da conta. Em suas bebedeiras chorava muito, xingava o irmão e chamava por Geny, pois não conseguia tirá-la da cabeça.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:26 am

Segunda Parte

Capítulo 8 - O emprego


Gisele sentia-se cansada, pois desde cedo vinha dirigindo pela movimentada rodovia.
Mas a jornada estava chegando ao fim, pois as placas indicavam São Paulo a poucos quilómetros.
Ao entrar na grande metrópole, ela ficou um pouco apreensiva, porém conseguiu, seguindo o mapa, chegar sã e salva ao prédio onde a madrinha morava.
Letícia, a madrinha, ficou muito feliz ao vê-la.
Após abraçar fortemente a afilhada, limpou algumas lágrimas, que teimavam em cair e levou-a até o quarto que seria dividido pelas duas.
- Querida, que bom você ter aceitado o meu convite para vir para cá.
Afinal, depois do novo casamento do Manoel, não tinha sentido você ficar sozinha em Celmópolis.
- Madrinha, agora vejo que a senhora tinha razão, nossa casa ficou muito vazia após o casamento do papai, mesmo ele sendo de pouco falar.
- É verdade. Manoel sempre foi meio calado.
Você tem tido notícias do casal?
- Sim. Papai me telefonou ontem.
Eles estão bem.
Espero que sejam muito felizes.
- Eu também... Depois de tudo que passou, Manoel merece ser feliz.
Após falar, Letícia rapidamente tampou a boca com a mão.
- Querida, chega de conversa, vamos à cozinha tomar um lanche, pois você deve estar faminta após tantas horas de viagem.
Olha, não repare, mas o apartamento é pequeno.
- Madrinha, ao que parece, sua casa e seu coração é grande o suficiente para acomodar uma afilhada, vinda do interior.
Mais tarde, após ter tomado um banho caprichado, deitada na cama, Gisele orou agradecendo a Deus pela madrinha a haver convidado para vir morar com ela.
Afinal, o que ficaria fazendo no interior, na casa do pai que agora tinha uma nova dona?
Antes de conciliar o sono, orou também para encontrar um emprego.
Na manhã seguinte, Letícia a levou para conhecer alguns pontos da cidade e após foram a um shopping onde almoçaram e compraram algumas peças de roupa.
No final da tarde, a madrinha perguntou:
- Gisele, você gostaria de ir jantar em um bom restaurante que fica aqui perto?
- Ah, madrinha - juntou as mãos rentes ao peito.
Eu gostaria muito.
Mas será que os preços não são muito altos?
- Não se preocupe com isso.
Não é sempre que a gente recebe uma linda afilhada.
Anda, vai tomar banho e coloque o vestido vermelho, novo.
Acomodadas no requintado salão do restaurante, bastante frequentado àquela hora, Gisele bebericava um coquetel quando um casal passou por elas.
A mulher, um tanto acima do peso, tinha os cabelos loiros muito bem penteados.
Alta e imponente parecia olhar as outras pessoas de cima para baixo.
Ao se acomodarem em uma mesa próxima, o homem ficou de frente para Gisele.
Ao contemplá-lo, ela sentiu seu coração como que falhar umas batidas, pois alguma coisa nas suas feições o elevava do plano dos simplesmente bonitos, para a esfera dos perigosamente atraentes.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:26 am

- Meu Deus, eu nunca tinha visto um homem tão bonito! - pensou.
- Gisele?
- Sim, madrinha?
- Onde estava seu pensamento?
É a segunda vez que pergunto se quer mais um pouco de camarão.
O resto da refeição correu em um óptimo clima.
Após Letícia ter pagado a conta, levantaram-se para sair.
Ao passarem pela mesa do casal, Gisele viu quando o homem apertou suavemente a mão da companheira e disse com meiguice na voz:
- Calma, Micaela, você vai ver como dessa vez tudo vai dar certo...
Nesse instante, a madrinha disse alguma coisa e a resposta da tal Micaela se perdeu no ar.
De volta ao apartamento, deitada em sua cama, esperando o sono chegar, Gisele, em seus devaneios, parecia ouvir a voz suave do homem lhe dizer lindas frases de amor.
Nos dias seguintes, Gisele enviou currículo a várias empresas e aguardou ansiosamente que a chamassem.
Depois de duas semanas, telefonaram para que ela comparecesse a uma entrevista.
Gisele, na sala de espera, aguardava a sua vez de ser entrevistada, quando subitamente a porta do escritório foi aberta e um homem que de lá saiu parecendo agitado, perguntou à recepcionista:
- Elaine, você sabe onde foi parar a edição do mês passado da revista Administração e Cia.?
- A revista? Não, Edgar, eu não vi.
Pensei que estivesse com o Sr. Luís.
- Pois não está.
Luís está uma fera, a edição desapareceu e ele precisa dela.
Sem nada falar, Gisele saiu da sala, desceu rapidamente a escada, ganhou a rua e foi a uma banca próxima, onde vira umas revistas usadas.
Felizmente, encontrou a que eles procuravam.
Comprou-a e voltou rapidamente para a sala de espera.
Viu que a porta do escritório da chefia estava aberta, sem pedir licença ela entrou.
- Encontrei a revista que vocês procuram - disse ofegante.
Vários pares de olhos a encararam, sentindo-se corar.
Ela ia dar meia-volta para sair quando uma voz disse:
- Moça, você está dizendo que encontrou a revista?
Como sabia que estávamos precisando dela? - perguntou o homem que estava parado junto à escrivaninha.
Procurando se acalmar respondeu:
- Desculpe ter entrado aqui dessa forma.
Eu ouvi quando um senhor perguntou à moça da recepção se ela sabia onde estava a revista.
Aqui está. - e estendeu para ele.
- Muito bem, mas onde a encontrou? - o mesmo homem perguntou.
- Na banca de revistas, ali da esquina.
- Hum, que óptimo - ele sorriu.
Temos aqui uma moça decidida.
Você veio para a entrevista?
- Vim sim.
Bem, desculpem a interrupção, vou esperar lá fora.
Com licença. - e tentando acalmar seu coração, foi saindo.
- Moça, espere, acho que temos uma colocação adequada para a senhorita.
A nossa firma está me pedindo uma pessoa dinâmica e decidida.
Você entende de computação?
Fala inglês?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:26 am

- Sim, senhor.
Falo inglês e fiz curso de computação.
- Hum... E tem boa aparência.
Fez uma pausa enquanto a olhava de cima abaixo.
- Vou pedir a Elaine que lhe passe os testes, se for aprovada, o emprego é seu.
Como deve saber, é um emprego temporário em uma revenda de automóveis.
Aprovada nos testes e feitos os acertos, ela voltou para casa louca para contar à madrinha que já estava empregada.
No dia seguinte, logo cedo, após uma noite mal dormida, uma elegante e apreensiva Gisele entrou no carro e dirigiu-se à revenda.
Uma bela recepcionista, que portava um crachá com o nome de Valéria, pediu a ela para que aguardasse um instante, pois o director Dr. César iria atendê-la.
Esperou por quase uma hora, quando finalmente Valéria, após atender ao telefone, lhe indicou a sala.
Antes de entrar na sala do director Dr. César Alexandre de Barros, conforme estava escrito na placa, Gisele respirou fundo e deu a si mesma uma ordem mental de relaxamento.
Porém, ao entrar no escritório, seu coração começou a bater como louco, pois o homem que a impressionara no restaurante veio até ela com a mão estendida e um sorriso espectacular no rosto.
- Bom dia, sou César, o director geral.
Bem vinda à nossa firma.
- Bom... Bom dia - respondeu gaguejando, tentando se acalmar.
Ele sorriu, percebendo seu embaraço, e disse:
- É seu primeiro emprego?
Espero que goste de nós, senhorita...
- Ahh... Gisele.
Sim senhor, eu vim do interior e este é meu primeiro emprego aqui em São Paulo.
- Bem, todos estão tentando sair desta cidade maluca e a senhorita veio para cá...
Por quê? - antes que ela respondesse, continuou.
- Vamos nos sentar para podermos conversar melhor - falou indicando umas poltronas que ela não havia notado.
- Então, veio para a cidade grande à busca de emoções? - perguntou com um sorriso maroto, entre sério e brincalhão, o que lhe emprestava uma enorme simpatia.
- É eu... Bem, não senhor.
É que meu pai, viúvo, voltou a se casar e...
- Ah, você não quis atrapalhar sua nova vida.
- É, é sim.
Também eles estão pensando em mudar para Corumbá.
- Sei. Bom, mas nesse caso, São Paulo é que ganhou, pois ficamos enriquecidos com sua bela presença.
Gisele corou e abaixou os olhos.
Ele sorriu, exibindo uma fileira de dentes alvos, que contrastavam com sua pele morena.
- Bem vinda à Opala Motor e Cia.
Neste instante o telefone tocou.
Pedindo licença ele se dirigiu à escrivaninha e atendeu.
- Alô... Quem?
Micaela na linha dois?
Espere um instante e me passe à ligação.
Olhando para Gisele, disse:
- Muito bem, senhorita... Gisele.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:27 am

Pode falar com a minha secretária, ela lhe passará o serviço.
Tive muito prazer em conhecer uma moça tão simpática.
Antes de sair, ela teve oportunidade de ver, na parede atrás da escrivaninha, uma pintura que retratava Micaela, a mulher que estava com César no restaurante.
Nos dias que se seguiram, Gisele, ao se integrar ao serviço, percebeu que não teria um horário fixo para sair.
Tudo corria bem, quando, certa tarde, ao chegar a casa, encontrou a madrinha com uma expressão preocupada.
- Madrinha, o que aconteceu?
- Ah, querida, ainda não aconteceu nada, mas...
Estou preocupada. Você sabe que minha filha Thaís se mudou para Fortaleza, não é?
Então, hoje meu genro Vinícius, me telefonou.
Ele disse que Thaís não está muito bem.
Ela está grávida do segundo filho.
- Mas, o que está acontecendo? - aflita Gisele colocou a bolsa sobre uma cadeira e foi abraçar a madrinha.
- Ela está com hipertensão e o médico recomendou repouso absoluto e meu outro neto, o Gabriel, mal saiu das fraldas.
Como ela vai poder fazer repouso?
- Puxa, é mesmo! E agora?
- Agora... Agora eu vou ter que ir para lá.
- Madrinha! É mesmo? - constrangida perguntou a meia-voz: E eu?
- Ah, querida, é claro que você vai ficar aqui - torceu as mãos.
Sabe como é mãe, tem que socorrer os filhos - olhou para a moça.
Mas o tempo passa depressa e logo, logo estarei de volta - falou animadamente, tentando acalmar a moça.
- Desculpe madrinha, a senhora está preocupada e eu, ao invés de ajudar, estou pensando em mim.
Afinal, já estou empregada e sou grandinha, sei me cuidar.
- Querida, tenho certeza de que sabe se cuidar.
Mas, quero que me prometa ter juízo, não dê atenção às ciladas da vida.
Sabe que a cidade grande está assim, ó - fez um gesto com a mão - de lobos.
Você é muito bonita, precisa ter cautela.
Naquela noite, ao se deitar, Gisele sentiu um aperto no peito.
Pela viagem da madrinha e por pensar que se um dia precisasse, não teria uma mãe a quem recorrer.
Letícia, antes de viajar, fez bastantes recomendações à afilhada:
- Querida, cuide-se bem.
Ah... Continue a fazer às terças-feiras, o Evangelho no Lar. Está bem?
Assim tanto nós como nossa casa teremos uma protecção do plano espiritual.
Gisele quando chegou a São Paulo ficou sabendo que Letícia estava frequentando um Centro Espírita.
A princípio ela estranhou, pois sua falecida avó dizia que essas coisas eram de gente que tinha ligação com Satanás.
Ao falar, ela sempre fazia o sinal da cruz.
Porém, a madrinha lhe dera outras explicações.
- Gisele, a Doutrina Espírita kardecista nada tem a ver com Satanás.
Nos centros, as pessoas oram a Jesus e a Deus.
O espiritismo é mais ou menos como os apóstolos conduziam o cristianismo depois da crucificação de Jesus.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:27 am

Nos centros realmente há o intercâmbio entre os encarnados e os que já não pertencem a este mundo.
Aqueles que já se foram estão, conforme seu merecimento, neste ou naquele lugar e muitas vezes se manifestam para nos orientar ou para nos pedir auxílio.
- Madrinha, dizem que os bons estão ao lado direito de Deus.
- Bem, nós estávamos um pouco enganados a este respeito, sabemos que a Terra ainda é um planeta atrasado, conforme temos recebido informações dos mentores, aqueles que algumas crenças chamam de anjos.
Só bem mais tarde, depois de inúmeras encarnações é que chegaremos até o Pai.
Por enquanto, quando desencarnamos, ficamos em locais de refazimento ou de sofrimento próximos da Terra.
Cada qual é levado ao local a que fez jus.
Os merecedores vão para belas colónias que lembram segundo dizem, nossas cidades do interior.
- E os maus? Os bandidos?
- Ah, esses ficam em regiões inferiores do mundo espiritual, chamadas de umbral.
- Bom, não é isso que os padres dizem.
Eles afirmam que tais pessoas vão para o inferno eterno.
- Gisele, quando você for mãe, se seu filho errar vai condená-lo para toda a eternidade?
- Claro que não.
Creio que uma mãe sempre perdoa seu filho, não importa o quanto ele tenha errado.
- Então, Deus, sendo bom e justo, vai condenar seus filhos?
Não. Os que não têm vida correcta ficam em locais onde há choro e ranger de dentes, durante pouco ou muito tempo, dependendo do seu arrependimento.
Depois eles passam ajudar aos outros ou reencarnam.
Enfim, cada caso é analisado individualmente.
- Madrinha, então são os Espíritos que contam essas coisas?
Como é que eles fazem?
- Sim. Geralmente, através de um médium idóneo.
Já ouviu falar no Chico Xavier?
- Sim. Creio ter ouvido dizer que ele recebia comunicação dos mortos, e até escrevia livros.
Será verdade?
- Isso mesmo.
Olha, é melhor eu lhe emprestar alguns livros, assim vai poder ler e entender melhor.
Podemos começar com o Nosso Lar de André Luíz.
- Nosso Lar? É sobre o quê?
Conselhos sobre nosso comportamento em família?
- Não. - Letícia deu um sorriso - é sobre o que o André Luíz, um médico carioca encontrou depois que desencarnou.
- Eu quero sim, ler o livro.
Madrinha, as pessoas têm que frequentar um centro todas as semanas para fazer as orações?
Se a gente não for lá estará pecando?
- Na Doutrina Espírita são os voluntários, isto é, as pessoas que já fizeram os estudos e se comprometeram a ajudar na casa, dando passes, fazendo palestras ou actuando mediunicamente é que têm obrigação de frequentar uma ou mais vezes por semana.
Os que vão para passes não têm aquela obrigação, vão como dizemos, pelo amor ou pela dor.
Nós recomendamos a eles para fazerem o tratamento espiritual, ou seja, para que tomem a sequência de passes.
Porém, se o voluntário ou o assistido faltar, isso não é pecado.
Cada qual deve seguir sua consciência.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:27 am

Quem assume o compromisso de trabalhar espiritualmente deve fazê-lo, para que possa evoluir, pois estamos na Terra para nos melhorar a cada encarnação.
Quando realmente tivermos melhorado iremos para o Paraíso - riu. - o Paraíso, ou sétimo Céu, como dizem.
- Então aquela história de alcançar a salvação, como fica?
- Todos nós vamos alcançar a salvação.
Jesus disse que nenhuma ovelha se perderá.
Todos, quando morrem são acolhidos, conforme falei, de acordo com seu merecimento.
Mas você há de convir que ninguém fica santo e alcança a salvação eterna se encarnar apenas uma vez.
Você conhece alguém que seja santo?
Que mereça ir para o Paraíso? - perguntou sorrindo.
Que não tenha defeitos?
- Se eu conheço alguém?
Eu acho que não. Todos têm defeitos.
- Estamos aqui para evoluir.
Para eliminar nossos vícios e defeitos, mas isso demora, por isso precisamos encarnar diversas vezes.
- Madrinha, os espíritas só fazem as orações nos centros?
Letícia bateu com a mão na testa.
- Puxa, foi bom você falar nisso.
Conforme Jesus ensinou, nós devemos orar sempre, independentemente do local onde estivermos.
Gisele, nós espíritas, também costumamos fazer o Evangelho no Lar.
Para você entender melhor, depois lhe darei orientação por escrito.
Um pouco depois Gisele estava pronta para dormir, quando a madrinha veio ao seu encontro, e lhe entregou um prospecto, que orientava como fazer o Evangelho no Lar.

Ela resolveu ler para ficar mais a par do assunto:
O Evangelho no Lar
Finalidades:
1 - Estudar e praticar o Evangelho de Jesus, ao mesmo tempo, proteger os lares contra influências espirituais negativas.
2 - Beneficiar pessoas necessitadas por meio de preces e vibrações espirituais.

Roteiro:
1 - Escolher dia e hora da semana em que se possa contar com a presença de familiares, observando rigorosamente essa designação para assegurar a assistência dos benfeitores espirituais.
2 - Iniciar as reuniões com o número que for possível de pessoas presentes que permita formar uma corrente vibratória de sustentação.
Caso haja só 1 (um) participante, não há impedimento algum.
3 - Designar um dos presentes para dirigir a reunião, podendo ser feito um rodízio, caso desejarem.
4 - Abrir a reunião com uma prece simples e espontânea, dirigida a Deus, que poderá ser proferida pelo dirigente da reunião ou qualquer participante.
5 - Ler um trecho de O Evangelho segundo o Espiritismo e, na falta deste, do próprio Novo Testamento.
6 - Comentar o trecho lido, com palavras simples e compreensíveis, buscando sempre a aplicação dos ensinamentos de Jesus na conduta pessoal e na vida diária, podendo qualquer dos presentes participar dos comentários com objectividade e clareza, evitando-se debates e discussões acaloradas.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:27 am

7 - Realizar, em seguida, vibrações de fraternidade e de amor para necessitados, na seguinte ordem:
• para a paz na Terra e no coração dos homens;
• para a difusão do Evangelho de Jesus no mundo;
• para auxílio aos enfermos, descrentes, e sofredores, mentalizar Jesus abençoando todos os lares;
• para ajudar aos trabalhadores de Jesus, que se dedicam a pratica do bem e ao esclarecimento público das verdades espirituais;
• pelo nosso lar e nossos familiares e por nós mesmos.

8 - Preces de encerramento (Pai Nosso).
Observações:
a) Os lares são refúgios sagrados.
O Evangelho no Lar é um recurso de extraordinária importância de que se utiliza o Plano Espiritual Superior para sustentar o trabalho de evangelização na humanidade e protecção da família.
b) Por sua importância realizadora, esse trabalho é especialmente visado pelos espíritos inferiores, que sempre interferem para impedir sua expansão, sendo necessárias perseverança e fé para continuidade e preservação.
c) Poderão ser feitas vibrações para casos graves que atinjam a humanidade.
d) Não se deve permitir que a reunião se transforme em trabalho mediúnico ou debates de qualquer assunto.
e) Evitar comentários e críticas sobre qualquer assunto, bem como conversas pouco edificantes antes ou após a reunião.

9 - A reunião não deve ultrapassar trinta minutos, podendo ser utilizada música suave na preparação e no encerramento.

Além de acompanhar a madrinha no Evangelho no Lar, nos dias que se seguiram, Gisele leu Nosso Lar, que adorou e outros livros que também gostou muito.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:28 am

Capítulo 9 - Gisele trabalha com César

César massajou as têmporas.
Já eram mais de seis horas da tarde e após um dia bastante tenso, sentia-se cansado.
Respirou fundo tentando relaxar.
- Puxa que dia trabalhoso foi o de hoje - pensou.
Além de todos os problemas habituais, preciso cuidar do Rally.
As vendas estão oscilando, mas se a equipe Opala for bem no Rally Europa-Africa tenho de certeza que vão melhorar - suspirou novamente.
Preciso mostrar ao Dr. Leonardo que dou conta do recado - sorriu para si mesmo.
Apesar de ser meu sogro, é muito exigente.
Mas, competência para tocar a revenda é o que não me falta.
Esticou o braço e tocou o interfone para chamar Valéria.
Gisele, já pronta para ir embora, passou pela mesa da secretária quando o interfone soou.
- Alô - atendeu.
- Valéria? Por favor, venha cá.
- É o Dr. César? - sem esperar resposta continuou.
Aqui é a Gisele.
A Valéria saiu mais cedo, para levar o filho ao médico.
- Médico? Ah, é verdade.
Puxa eu preciso dela...
- Será que... - nervosa Gisele continuou.
Será que eu posso ajudar?
Afinal, se fosse para casa, encontraria apenas o apartamento vazio.
- Sim, se estiver disposta, pode sim.
Guardou a bolsa e rumou para a sala do director.
Ao vê-lo, ela novamente sentiu um forte impacto, parecia que o chão lhe fugia.
Ficou com receio de que ele pudesse escutar as batidas malucas que dava seu coração.
César olhou para a moça.
- Que mulher atraente - pensou.
Bem, vamos deixá-la de lado, afinal, tenho por conduta não me envolver com as funcionárias da firma.
- Dona Gisele, está mesmo disposta a me ajudar?
Talvez precise ficar por aqui por mais - olhou para o relógio - de uma hora.
- Tudo bem, Dr. César, vamos ao serviço.
Quando terminaram, já passava das 19h30.
Gisele despediu-se, pegou a bolsa e rumou para o ponto de ónibus.
Estava quase chegando quando ouviu alguém a Chamar.
- Dona Gisele. - César tinha parado seu carro, abaixara o vidro e se inclinara.
- Dr. César?
- A senhora está a pé?
Onde está seu carro?
- Hoje é dia do meu rodízio.
- Ah é hoje? Então me permita levá-la para casa.
Gisele hesitou.
- Por favor - César falou com meiguice.
Afinal, ficou na firma até mais tarde por minha causa. Entre.
Ela indicou o caminho.
Durante alguns minutos ninguém falou, de repente, ele disse.
- Está muito calada, será que eu atrapalhei algum encontro?
Talvez tenha um noivo ciumento à sua espera.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:28 am

- Noivo? Eu? Não senhor.
Ninguém está à minha espera.
- Mora sozinha?
Ela lhe falou sobre Letícia.
Logo depois, chegaram à rua.
César parou defronte ao edifício.
- Pronto, sã e salva. - massajou as têmporas.
- Obrigada, Dr. César. - e fez menção de descer.
Subitamente César disse:
- Dona Gisele, eu... - bateu com os dedos na direcção do carro.
Eu estou morrendo de fome.
Aqui perto tem uma óptima pizzaria.
Que tal irmos até lá para jantar?
A razão dizia não, mas o coração dizia sim.
Durante o jantar, César foi quem mais falou.
Contou factos interessantes sobre a firma.
Disse que se fossem bem colocados no Rally, eles fariam uma comemoração daquelas.
Afinal, a competição era dura, mas tinha certeza de que haviam mandado óptimos pilotos.
Quando ela percebeu já passava das 22h.
- Dr. César, já é tarde.
Preciso ir para casa, se não amanhã vou ter dificuldade para levantar - disse com certo pesar na voz, pois a conversa estava muito boa.
- É mesmo? Mas - olhou o relógio -, ainda é cedo e, como dizem, a noite é uma criança.
- Na verdade, sou uma caipira.
É difícil deixar os hábitos antigos.
Ele sorriu exibindo os belos dentes. Fitou-a.
- Caipira? De jeito nenhum!
A senhora é uma gentil moça do interior.
Gentil e muito competente.
Hoje me ajudou bastante.
Estou muito satisfeito que esteja trabalhando para nós.
- Estou dando conta do recado? - Gisele sentia o coração bater forte.
Um elogio vindo dele era maravilhoso.
- Sim, é claro. Mas - fez um sinal pedindo a conta -, vamos embora, afinal teremos muitas oportunidades para conversar, não é?
- Bem... Creio que sim.
Quando chegaram ao prédio e Gisele fez menção de descer, César sentiu um aperto no peito.
- Dona Gisele, já que foi tão gentil me ajudando, será que eu poderia pedir mais um favor?
- Claro. Em que posso ajudá-lo? - ela perguntou formalmente.
- Será que... Será que seria muito eu pedir para subir e tomar um café?
Como sabe nos restaurantes os cafés são intragáveis - fez uma careta, depois sorriu e disse baixinho. - Por favor!
Vencida, Gisele o convidou para subir.
César ficou no apartamento apenas o tempo necessário para sorver o café.
Ao se despedir, segurou na mão dela um tempinho a mais que o necessário, agradeceu por tudo e foi embora.
Naquela noite nenhum dos dois teve um sono tranquilo.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:28 am

Capítulo 10 - Comemoração na firma

Nos dias que se seguiram, Gisele teve acréscimo de trabalho, pois o filho de Valéria estava com forte gripe e precisava fazer repouso.
- Você já tentou segurar uma criança de três anos na cama? - ela perguntou e sem esperar resposta continuou.
Minha mãe está com dificuldade para contê-lo e eu preciso me desdobrar. - suspirou.
É difícil ser mãe e pai ao mesmo tempo, Gisele, minha querida, apesar de eu adorar o Marcelinho, eu aconselho:
não faça a bobagem de arrumar filho fora do casamento.
Ainda mais se for de homem casado.
- Valéria, a situação é tão séria assim?
Será que eu posso ajudar?
- A situação é muito séria!
Se ele não fizer repouso, pode vir a ter uma pneumonia, o que complicaria mais as coisas - balançou a cabeça.
Você pode, sim, me ajudar.
Vou passar algum serviço, pois hoje à tarde vou levar novamente o Marcelo ao médico e o Dr. César pode precisar destes documentos.
Realmente, no final da tarde, César chamou Gisele e pediu para que ela levasse os documentos ao escritório.
- Obrigado, dona Gisele por vir me ajudar - disse olhando-a de cima abaixo.
A senhora fica muito bonita de verde.
- Eu? Imagine só! - ela corou e nada mais disse.
Estavam terminando o serviço, quando o telefone tocou. Era Micaela.
- Micaela, o que aconteceu?
Sabe que estou muito ocupado - César falou com ar de contrariedade no rosto.
É claro que tenho tempo para você - sua voz se suavizou.
- Sim, querida, vou chegar cedo para o jantar - olhou para o relógio.
Como? A Valéria foi levar o filho ao médico.
Sim, quem atendeu foi à nova funcionária - olhou para Gisele.
Micaela, por favor, quanto mais ficarmos falando, mais demorarei para o jantar - falou com certa rispidez.
- Está certo, até mais.
César suspirou, olhou para Gisele e sorriu.
- Espero que a senhorita não tenha parentes difíceis - e sem esperar resposta, continuou.
Às vezes, a convivência em família é um pouco complicada.
Gisele balançou a cabeça em assentimento e nada respondeu.
O trabalho terminou, eles se despediram.
Já em casa, Gisele, sem vontade de fazer nada para o jantar, ficou imaginando como deveria ser bom morar com César, que além de bonito, era competente no trabalho e tinha boa conversa.
Tentando tirá-lo de sua cabeça, pensou:
"Meu Deus, ajude-me a encontrar alguém como ele para me casar".
Estava se preparando para dormir quando o telefone tocou: era Letícia.
Conversar com a madrinha, que estava bastante preocupada por ela estar sozinha, elevou seu astral.
Fazendo uma oração ao Pai Celestial, adormeceu tranquila.
Ao acordar cantarolou alegremente, caprichou na aparência e foi para o escritório.
O trânsito estava complicado e Gisele chegou um pouco atrasada.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:28 am

Entrou correndo na sala e encontrou Valéria ao telefone.
Ela parecia um pouco alterada:
- Roberto, por favor, eu preciso de dinheiro - cumprimentou Gisele com a cabeça.
Marcelinho já está bem, mais preciso pagar a farmácia.
Conversou mais um pouco e bateu o telefone com força.
- Droga! Esses homens são um problema.
Gisele, minha querida, nunca tenha filho com um homem casado.
Ah, nem chegue perto de um deles.
- Calma, amiga, pelo jeito o pai de Marcelo não está querendo colaborar.
- Isso mesmo, diz que está sem dinheiro. Pode?
- É difícil. Mas, e o menino?
O que o médico disse?
- Ah, ele já está bom.
Hoje já foi para a escolinha.
Agora, você não precisa mais ficar atendendo o Dr. César.
Gisele não sabia se ficava contente ou triste.
Quando o Rally terminou, a Opala Motor e Cia. tinham ficado em primeiro lugar, em uma das categorias.
Valéria e Gisele tiveram bastante trabalho para organizar a festa de comemoração que a firma daria aos funcionários e durante a qual vários brindes seriam sorteados.
No dia aprazado, com o refeitório arrumado e enfeitado, com poster do Rally, todos os funcionários estavam envolvidos por um clima alegre.
Sentadas a uma mesa, Gisele, Valéria, Mirtes e Fátima (as duas últimas trabalhavam no Departamento De Pessoal), aguardavam o início do evento.
- Meninas, não vejo a hora de Dr. César chegar.
- Mirtes, não se esqueça de que ele é casado - disse Valéria em tom velado.
- Pouco me importa ele ser casado.
Estou aqui para o que der e vier. Ele é lindão!
Se me notar, ficarei feliz.
Olha - apontou para a cabeça -, na hora do almoço fui ajeitar os cabelos, quero encantá-lo.
- Mas... Eu nunca vi Dr. César se engraçar com ninguém aqui da firma - disse Valéria.
- Ah, mas sempre tem a primeira vez.
Anteontem no refeitório, ele não parava de me olhar.
Não foi, Gisele?
- Eu não notei.
Gisele notara, sim.
Notara que durante o almoço ele não tirara os olhos da mesa onde elas estavam.
Será que ele realmente estava olhando para Mirtes?
Ao pensar, sentiu um aperto no peito.
- Você pode não ter notado, mas eu vi que ele não parava de me olhar.
- Falando nele...
- Hum, olha lá quem está junto.
Será possível que a chata da mulher dele precisava vir?
Gisele olhou, lá estava Micaela muito elegante, exibindo ares de grande dama.
- É claro que ela não deixaria de vir à comemoração, afinal, é a esposa do director e a filha do dono - disse Fátima.
Será que hoje ela vai estar mais amável?
- Amável? Essa aí é um purgante.
Após distribuir alguns cumprimentos, César, puxando Micaela pela mão, subiu ao tablado.
Pedindo silêncio, fez um pequeno discurso, no qual agradecia a todos pela colaboração e empenho.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 03, 2016 9:29 am

Informando que logo mais iriam fazer os sorteios, pediu à banda contratada para executar as músicas e aos garçons que servissem os quitutes.
Gisele estava se sentindo aborrecida.
Um dos funcionários se colara a ela e a assediava, dizendo que ela era a mulher mais bela da festa.
Tentando se livrar, disse que iria até a frente do salão, pois estavam anunciando o sorteio.
- Vamos lá, eu te acompanho - disse Pérsio, ao mesmo tempo em que segurava no cotovelo dela.
Resignada, foi andando em direcção ao tablado.
César, com um sorriso nos lábios, voltou ao tablado.
Com o olhar, procurou discretamente por Gisele.
Sabia que não devia se envolver com as funcionárias.
Sabia também que Leonardo e Micaela lá estavam, mas, não olhar para a moça estava além de suas forças.
Lembrou-se do conselho do pai:
- Filho, depois de casado nunca se envolva seriamente com outra mulher, acredite-me, os problemas são muito maiores do que a satisfação.
- Sim, pai, talvez o senhor tivesse razão, mas, parece que algo muito forte me empurra para esta moça. - pensou.
Nesse momento ele a viu.
E quem estava ao lado dela?
Pérsio, nada mais nada menos que o galã conquistador da firma.
César sentiu a vista escurecer, teve vontade de descer e dar um soco na boca dele para apagar o sorriso de conquistador barato.
- Preciso dar um jeito de afastar esse cafajeste de Gisele - pensou.
Em seguida, disse em voz alta:
- Pérsio, por favor, venha até aqui me ajudar.
Pediu ao rapaz para virar a manivela do bingo, e começou o sorteio.
Depois de uns trinta minutos, uma entediada Gisele pensava em ir embora, quando ouviu:
- Número: 385.
- Aqui! - gritou erguendo o braço, com o papel na mão.
- É o meu.
- Muito bem, compareça para pegar seu prémio - disse César.
Gisele chegou junto ao palco e ele estendeu a mão para ajudá-la a subir a pequena escada.
- Dona Gisele ganhou um telefone celular - esticou a caixa.
Abra para ver se está em ordem.
- Claro, Dr. César, vou abrir já.
- Afinal, o Departamento De Pessoal teve muito trabalho para conseguir essas belas prendas.
Não foi pessoal? - perguntou para a plateia.
Então, vamos aplaudir nossos colegas do Pessoal! - começou a salva de palmas.
Gisele tirou o pequeno aparelho da caixa, porém, ao virá-lo entre as mãos, notou que parecia ter uma pequena rachadura.
Ia falar com Pérsio, quando César interceptou.
- O que foi? - perguntou.
- Parece que o aparelho está com defeito.
- Dê cá, me deixe ver - virou o telefone entre as mãos.
- É mesmo - olhou para ela.
Pois é dona Gisele, infelizmente vai ter que esperar mais um pouquinho pelo celular.
Esperamos que ela não fique aborrecida connosco, não é pessoal?
- Claro que não, Dr. César.
Eu estava louca para comprar um celular.
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Ave sem Ninho

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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:36 am

- Se o senhor quiser, eu posso providenciar a troca.
Depois eu entrego o aparelho para a Gisele - disse Pérsio.
- Não. Pode deixar Pérsio.
Isso é atribuição do Departamento De Pessoal - virou-se para a moça.
Assim que a troca for efectuada, eu a aviso.
- Obrigada, Dr. César. Até logo.
Ele estendeu a mão em cumprimento.
- Até logo - e curvando, falou junto ao ouvido dela.
Você realmente fica muito bem de verde.
Corando até a raiz dos cabelos, Gisele nada respondeu.
Dando meia-volta, desceu a escadinha.
Ao passar por Micaela, que conversava com o Sr. Leonardo, Gisele achou que a roupa de marca não disfarçava a sua obesidade.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:36 am

Capítulo 11 - César entrega o celular

Gisele chegou ao apartamento, sentou-se em uma poltrona, tirou os sapatos e relaxou.
A impressão causada pelo olhar que César lhe dera e mais ainda pelas palavras sobre sua aparência tinha-a acompanhado por todo o trajecto.
Riu para si mesma ao se lembrar das palavras de Mirtes:
- Gisele, sua sortuda, além de ganhar um telefone celular, ainda recebeu um aperto de mão do Dr. César!
E eu nada ganhei, nem sequer um olhar dele.
Também, com aquela bruxa da Micaela por perto.
- Será impressão minha, ou será que ele está meio que dando em cima de mim?
Mas... Ele é casado!
O tilintar da campainha do telefone tirou-a de seus devaneios.
- Alô! Madrinha?
- Sim, querida que bom ouvir sua voz.
Tentei falar mais cedo, mas não atendia.
- Acabei de chegar.
Hoje tivemos uma festinha na firma.
Resumiu para Letícia os acontecimentos do dia.
- Então, ganhou um celular? Que bom.
Assim que tiver o número me passe, vai ficar mais fácil para a gente conversar.
- Certo. Sabe que o Dr. César, o director, disse que fico bem de verde? - e assim que falou, ela teve vontade de morder a língua.
- Dr. César? Aquele que você disse ser um galã?
Ah, querida, ao que me lembro também me disse que ele é casado.
Cuidado, sabe como são os homens, não?
- Sim, madrinha, não se preocupe, vou ter cuidado.
Mas é agradável ouvir um elogio.
- Isso é verdade.
Tenho orado para que Deus lhe envie um bom noivo - pausa.
E você, tem orado? Tem feito o Evangelho no lar?
- O Evangelho no Lar?
Ai puxa, eu esqueci - respondeu constrangida.
- Hum... Sei. Bem, que tal fazer esta noite?
Como sabe quem faz regularmente as orações recebe um apoio grande dos mentores espirituais.
Muitas dificuldades podem ser por eles afastadas de acordo com o nosso merecimento.
Minha querida, nos momentos de dúvidas ou tristeza, segure sempre na mão de Jesus.
Conversaram mais um pouco e Letícia informou que Thaís estava bem, mas provavelmente o bebé ia nascer antes de completar o tempo.
Ao desligar, sugestionada pelas recomendações da madrinha, Gisele foi até o quarto, pegou O Evangelho segundo o espiritismo e abriu ao acaso:
"Capítulo XIX, item 9 - A figueira seca é o símbolo das pessoas que não têm senão as aparências do bem, mas em nulidade não produzem nada de bom, simboliza os oradores que têm mais brilho do que solidez, suas palavras têm o verniz superficial, agradam aos ouvidos, mas quando são investigadas, nelas não se encontra nada de bom para o Coração, depois de tê-las ouvido, pergunta-se qual o proveito disso se tirou. (...)"
- Que interessante essa passagem do Evangelho.
É bem verdade que no mundo existem muitas pessoas que só são boas na aparência.
Bem que a madrinha disse que precisamos reencarnar muitas vezes para nos melhorarmos, e para um dia chegarmos até Deus.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:36 am

Preciso me lembrar de fazer minhas preces diariamente, mesmo sem a presença da Letícia.
Terminou as orações com o Pai Nosso.
Mais tarde, deitou-se.
Adormeceu com a imagem de César na mente.
No dia seguinte, uma sexta-feira, minutos antes de o almoço ser servido, César entrou no restaurante, foi até a frente do salão, pedindo a atenção de todos, falou palavras de agradecimento, não só pelo empenho no crescimento da empresa, mas também pelo sucesso da festa.
Quando terminou, girou a cabeça de um lado para o outro, olhando para todos como à espera de aplausos.
Em seguida dirigiu-se à direita, onde Gisele, Mirtes e Valéria aguardavam o almoço.
Ao vê-lo se aproximar, tremendamente elegante em seu terno de grife, Gisele se sentiu sem ar.
- Boa tarde - disse ele.
Como estão nossas belas funcionárias?
Dona Gisele, seu celular deve chegar esta tarde.
Assim que chegar eu a aviso - sorriu.
Tudo bem?
Ela levou alguns segundos para recuperar o fôlego.
- Tudo bem, muito obrigada. - respondeu formalmente.
- Puxa Dr. César, que sorte teve a Gisele de ganhar um telefone - disse Mirtes, sorrindo para ele.
- A senhora ganhou alguma prenda?
- Eu não... Torci tanto, mas... - olhou para ele, fez beicinho.
Fiquei tão triste!
- Bom, vamos fazer assim:
vou pedir ao pessoal para que lhe entregue um perfume. Tudo bem?
- Um perfume?! - juntou as mãos no peito.
Que bom! Nem sei como agradecer!
- Fico feliz por a senhora ter gostado.
Dona Gisele, breve a senhora estará com o seu celular - fez um gesto com a cabeça, sorriu.
Com licença, bom apetite.
Gisele falou "obrigada" sem ousar levantar os olhos.
Tinha medo que ele pudesse ler em seus olhos, o quanto sua presença a abalava.
- Gatão! - disse Mirtes, entre dentes.
Vocês repararam como ele me olha?
Para Gisele, os finais de semana pareciam não ter fim.
A solidão da cidade grande pesava em seu peito.
Muitas vezes sentia vontade de chorar.
Neste sábado, após ter feito os trabalhos domésticos, não sabia o que fazer para passar o tempo.
Tentando reagir ao tédio, pensou em se arrumar e ir ao shopping.
O interfone soou.
- Alô.
- Dona Gisele, o Dr. César pode subir?
O porteiro perguntou.
- O Dr. César?
- Sim, ele está aqui na portaria.
- Pode, pode sim.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:36 am

Sentindo um misto de surpresa e contentamento, ela plissou as mãos no cabelo para ajeitá-lo e dirigiu-se à porta.
O elevador parou, a porta se abriu e César surgiu trazendo na mão a caixa com o celular.
- Dona Gisele, desculpe aparecer sem avisar - olhou de cima abaixo, sorriu.
A senhora fica muito bem de jeans e camiseta.
Eu trouxe o seu celular. Posso entrar?
- Claro, por favor.
O senhor não precisava ter se incomodado.
- Ah, isso não é nenhum incómodo.
Inclusive, se tiver aquele cafezinho gostoso...
Tendo sorvido o café, César, sentado na poltrona preferida de Gisele, correu os olhos pela sala.
- Esta sala é muito agradável - balançou a cabeça em aprovação.
Este apartamento é Da... Sua mãe, não é?
- Não. Ele é da minha madrinha, ela está viajando.
Minha mãe nos abandonou a papai e a mim quando eu tinha quatro anos.
De pé, junto à parede, sem saber como, pôs-se a falar da sua infância.
- Minha avó me criou.
No Dia das Mães eu sentia falta dela.
Nas festinhas de criança, me sentia meio perdida.
Muitas vezes me perguntava como seria ter uma mãe por perto. - e levando a mão aos olhos, limpou algumas lágrimas.
Ela era tão alegre!
Quando estava connosco eu me sentia feliz, muito feliz! - falou com a voz embargada.
César sentiu um aperto no peito.
Levantou-se da poltrona, chegou até ela, pegou em sua mão.
- Dona Gisele, por favor, não fique triste.
Delicadamente tirou uma mecha de cabelo que caía em sua testa.
Por favor, deixa-me ver aquele sorriso bonito em seu rostinho - falou com meiguice.
Ela sentiu a pulsação se acelerar nas veias, uma sensação de arrebatamento a impedia de se mexer.
Antes, porém, que pudesse dizer algo, o telefone tocou.
Afastaram-se. Gisele foi atender: uma amiga procurava por Letícia.
César se recompôs.
- Preciso ter juízo.
Não posso me envolver com essa moça. - pensou.
- Dona Gisele, a senhora sabe usar o celular?
Durante os minutos seguintes explicou o uso do aparelho.
Depois o colocou de lado.
Deu seu famoso sorriso.
- Dona Gisele, o tempo está tão bonito, que tal irmos tomar um sorvete?
Fez o convite pensando que um passeio não fazia mal a ninguém.
- Um sorvete cairia muito bem - respondeu feliz.
Enquanto tomavam os sorvetes conversaram sobre vários assuntos, principalmente sobre o Rally dos Sertões, no qual a Opala ia participar em várias categorias.
César se animava bastante quando falava sobre o seu trabalho.
Quando ele a deixou, em casa, Gisele estava se sentindo muito feliz.
O tédio tinha passado completamente.
Lembrou-se que ele dissera:
- Gisele é um lindo nome. Acho estranho eu ter que chamá-la de dona. Posso chamar só de Gisele?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:37 am

- É claro, Dr. César.
- Que bom. Então me chame de César.
Ela ficou confusa.
- Mas o senhor é meu chefe.
- Chefe... Chefe... No escritório quase todos me chamam de César.
Por favor, tire o doutor e o senhor. Combinado?
- Bom se o senhor... - riu. - Se você insiste.
- Sabe? Quando você me chama de doutor eu me sinto muito velho.
- Velho? De jeito nenhum!
- Então, agora somos amigos, não?
- Sim, somos.
Pena que ele declinara do convite para subir e tomar outro café. Enfim...
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

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