Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:37 am

Capítulo 12 - Reflexões de César

César deixou Gisele na porta do prédio e rumou para sua bela casa, no bairro do Morumbi, casa essa comprada pelo sogro, por ocasião de seu casamento com Micaela.
- Hum, eu fiz muito bem em levar o aparelho para a Gisele - pensou, enquanto dirigia pelo trânsito complicado.
Ela é uma óptima companhia.
Sei que Micaela vai implicar porque saí e demorei a voltar, mas, afinal, eu estava com vontade de tomar um sorvete e como ela está sempre de dieta, por estar acima do peso, dificilmente toma sorvete.
Um carro cortou sua frente e César desviou o pensamento da esposa.
Ia xingar o motorista, quando viu que ao volante estava uma bela mulher que lhe fez um gesto pedindo desculpas.
- Ainda bem que era uma mulher, porque se fosse um homem eu ia dizer poucas e boas.
Mas em quem eu estava pensando?
Ah, em Micaela que continua gorda, apesar da dieta - olhou para si mesmo, voltou o olhar para frente.
Não posso me descuidar, preciso continuar com os exercícios.
Ainda bem que temos em casa todos os aparelhos necessários.
Bom, a vantagem de se casar com uma mulher rica, embora gorda e pouco atraente, é o dinheiro e a comodidade que traz - riu para si mesmo.
Atraente mesmo é a Gisele. Céus!
Preciso tirar essa mulher da minha cabeça.
Imagine só que aquele pilantra do Pérsio queria ir entregar o celular para ela, safado!
Ainda bem que consegui impedir.
Virou o carro e entrou na rua em que morava.
Accionou o controle remoto, entrou na garagem.
Em casa, o mordomo veio ao seu encontro.
- Boa tarde, Dr. César.
O senhor quer que mande lhe servir um café?
Ou prefere um suco?
- Obrigado Antony, no momento não quero nada - estava bem satisfeito com a gostosa taça de sorvete que tomara.
- Micaela, onde está?
- Madame está em sua suite.
César subiu a escadaria de mármore, rumo ao andar de cima.
Micaela estava recostada em um sofá, assistindo televisão.
- César, até que enfim chegou!
Você disse que ia só entregar uma prenda para um funcionário e demorou tanto.
Para falar a verdade, não entendi porque não mandou um boy levar o pacote.
- Eu entreguei a prenda e depois fui tomar sorvete - falou após olhar as grossas pernas dela que a bermuda deixava Ver.
- Sorvete? Bem, eu - sorriu -, é eu não devo tomar a não ser diet.
Você tem sorte - olhou o marido - é magro.
Você foi com quem?
- Com quem? Ah, sozinho.
- Nós podíamos ter ido juntos.
- Sim, mas eu fui a uma sorveteria de bairro e você não gosta de sorveterias de bairro.
Irmos juntos para ficar a ouvindo falar futilidades - pensou.
- Ah, elas são mal frequentadas.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:37 am

- Sabe que nem todas são mal frequentadas?
Bem, então, se me der licença, vou tomar banho.
Dirigiu-se para sua suite que ficava contígua à dela.
Quando se casaram e foram morar na enorme mansão, César esperava ter filhos para que ocupassem os vários quartos.
Sonhava ver crianças correndo pelo pátio e nadando na piscina.
Mas o tempo passou e, apesar dos tratamentos, Micaela não conseguia engravidar, aliás, na única ocasião que engravidara, tivera um aborto.
Agora eles estavam fazendo tratamento com o Dr. Milton, que diziam ser um excelente especialista.
Vários casais tinham conseguido êxito. Bem, quem sabe...
Enquanto tomava banho começou a cantarolar uma canção que fazia sucesso no momento.
Lembrou-se de que Gisele e ele a ouviram no som do carro, ao saírem da sorveteria.
- Gisele, que moça bonita!
Cabelos loiros escuros, olhos verdes.
Hoje a beleza dela se realçou com a blusinha verde, encantadora que copiava o verde de seus olhos.
Há nela algo fresco e juvenil, um encanto especial em sua voz e em seus gestos que a tornam terrivelmente atraente.
Garanto que quando casar vai ter filhos sem precisar de tratamento - ao pensar na moça se casando e tendo filhos, sentiu um aperto no peito.
Não posso ficar pensando nela.
Afinal é uma simples funcionária e tenho meu nome a zelar.
Tratou de afastar a moça de seus pensamentos.
A segunda-feira amanheceu chovendo.
César desceu do carro e correu em direcção à entrada da revenda.
Ele detestava andar com guarda-chuva.
Ao se virar para cumprimentar a moça da recepção, viu pela porta de vidro um casal vir espremido debaixo de um guarda-chuva.
Olhando melhor, viu que era Gisele e Pérsio.
Uma onda de ciúme forte e inclemente apertou seu peito.
Eles entraram, rindo um para o outro.
- Pérsio obrigado pela carona.
- Não tem de quê, espero que torne a esquecer o guarda-chuva em casa, quando chover de novo.
- Ah, agora vou deixar um no carro - ela respondeu sorrindo.
- Bom dia pessoal! - disse César, que tinha vontade de socar o rapaz.
- Bom dia, Dr. César! - responderam juntos.
- Gisele, você não está atrasada? - Perguntou com rispidez.
- Não senhor, Dr. César - ainda não se habituara a chamá-lo pelo nome.
Ainda faltam cinco minutos para o início do expediente - respondeu, após consultar o relógio.
- Com licença.
Pérsio, obrigada pela gentileza - disse, rindo para o rapaz.
- Ah, quando precisar, estou inteirinho à sua disposição - respondeu, fazendo uma mesura.
César virou as costas e dirigiu-se à escada que levava ao seu escritório.
Se ficasse ali mais um minuto, seria realmente capaz de socar aquele insolente.
O resto do dia ele passou irritado, para surpresa de Gisele, que sempre o vira com um sorriso nos lábios.
Perdeu a calma várias vezes, chegando mesmo a esbracejar em uma reunião com alguns gerentes.
- Meu Deus! Dr. César é sempre bravo assim? - perguntou surpresa, para Valéria.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:37 am

- Bem, nem sempre, mas quando é contrariado ou não cumprem suas ordens ele fica uma fera.
- Opa, vou voltar ao meu trabalho para evitar problemas. Tchau.
No final do dia, César, que em vão tentava tirar Gisele da cabeça, accionou o computador para dar vistas às fichas dela e de Pérsio.
Estava pensando em arrumar um jeito de mandar aquele conquistador barato embora, ou mesmo para outro sector, quando viu que ela era uma funcionária temporária.
Sentiu um baque ao pensar que Gisele ia ficar na revenda por apenas três meses.
- Mas, só três meses?
Eu preciso resolver esta situação.
De jeito nenhum vou permitir que ela se vá.
Pegou o telefone e discou para o Departamento De Pessoal
- Dona Fátima?
Aqui é o César. Por favor...
- Dr. César? - A funcionária perguntou com surpresa na voz.
É o senhor mesmo? Meu Deus!
O que será que ele quer comigo? - pensou.
- Sim, sou eu - "que coisa, essas moças parecem tontas".
Por favor, me envie a relação dos cargos que estão vagos.
- Todos os nossos cargos estão preenchidos - respondeu decepcionada.
- Como? Não temos nenhum cargo vago?
Nem de recepcionista? Nada?
Está certo, obrigado.
- Gisele não pode ir embora, se for preciso, eu mando dispensar alguém ou crio um cargo para ela.
Aliás, vou mandar que verifiquem em que sector está precisando de funcionário. - pensou, enquanto pegava o telefone e dava a ordem no sector apropriado.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:38 am

Capítulo 13 - Micaela faz uma viagem

Na terça-feira, logo que chegou ao trabalho, Gisele recebeu uma incumbência de Valéria.
- Dona Micaela quer viajar para Brasília.
Gisele sentiu um aperto no peito.
- Dr. César vai com ela?
- Não, a irmã da dona Micaela mora lá.
Ela vai para o aniversário do sobrinho.
- Ah, sei. - "ele não vai viajar. Que alívio!" - pensou.
- Ela quer ir amanhã cedo.
Por favor, ligue para a companhia aérea e reserve um lugar.
- Está certo.
Ela tem preferência de horário?
- Ah, é verdade. Veja se consegue ali pelas 10h, ta?
Outra coisa, é preciso reservar um carro - abriu a gaveta e tirou um cartão.
Ligue para este número e fale com a dona Rosângela, ela é proprietária de uma loja de aluguer de carros especiais.
Diz que é para a dona Micaela que ela já sabe.
Diz que ela também precisa de um motorista.
- Então, é para reservar um carro com motorista.
Se a mulher perguntar eu digo que é para quantos dias?
- Bom, acho que para uns seis dias.
Ah, informe a hora prevista que o avião vai chegar, para que o carro esteja no aeroporto.
Após fazer as ligações, Gisele ficou pensando que César ficaria alguns dias sozinho, em São Paulo.
César estava chateado, na hora do almoço ele tinha visto Pérsio no refeitório, sentado perto de Gisele.
Aborrecido, estava pensando em uma maneira de afastar o rapaz, quando Zé Carlos veio até a sala para falar-lhe sobre a organização do Rally.
Após mais de uma hora de conversa ele disse:
- Bem, a equipe está quase completa, mas precisamos de mais pessoas para cuidar da cronometragem.
- Você tem alguém em mente? - César perguntou.
- Não. - balançou a cabeça. - Ainda não.
Uma luzinha se acendeu na cabeça de César.
- Mande o Pérsio.
- O Pérsio?! Mas ele não é desse departamento.
- Bem, ele pode passar a ser, basta você explicar o serviço.
- Tem certeza?
- Claro que sim!
Zé Carlos sabia que César não gostava de ter suas ordens contestadas.
- Chama o Pérsio, diga para arrumar as malas, e que vá o mais rápido possível. Certo?
- Ok
À noite, em casa, Gisele ligou para a madrinha, que disse não haver alteração no caso da Thaís.
Depois de desligar o telefone, ela se lembrou que era terça-feira.
Pegou, então, O Evangelho segundo o Espiritismo.
Abriu ao acaso:
"Cap. VIII - item 5 - Ouviste o que foi dito aos antigos: Não adulterarás.
Eu porém vos digo que todo o que olhar para uma mulher cobiçando-a, já no seu coração adulterou com ela".
(Mateus 5, 27 e 28)
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:38 am

Item 6 (...) "A verdadeira pureza não está somente nos actos mas também no pensamento, pois aquele que tem o coração puro nem sequer pensa no mal.
Foi isso que Jesus quis dizer, condenando o pecado, mesmo em pensamento, porque ele é um sinal de impureza".
Gisele fez as orações e ficou meditando sobre o tema.
"Adultério, puxa, César é um homem casado!
Ai meu Deus!
Eu se fosse casada, não gostaria de ser traída.
Preciso rezar para tirá-lo da minha cabeça."
Cantarolando ela foi tomar banho e na hora de se deitar já tinha colocado as palavras do Evangelho no fundo de sua mente.
Debaixo dos lençóis, não conseguiu evitar que seus pensamentos fossem para César.
No dia seguinte, após o trabalho, Gisele estava se dirigindo ao ponto de ónibus, quando o celular tocou.
Estranhou, pois poucas pessoas tinham o número.
- Alô?
- Gisele? É o César.
- Dr. César? - ela sentia as pernas trémulas.
O senhor precisa de alguma coisa?
Eu estou aqui na rua, estava indo pegar o ónibus.
Posso voltar para o escritório - disse apressada.
- Calma, fique tranquila, não estou precisando de nada.
Sabe o que é?
Estou aqui no estacionamento e me lembrei que você deve estar sem carro, não é?
- Sim, estou a pé, é dia do bendito rodízio.
- Então, quero lhe oferecer uma carona.
Fique aí que já estou passando para te pegar. Tchau.
Antes que ela pudesse dizer alguma coisa ele desligou.
Ao desligar o celular, César tinha um sorriso nos lábios.
Com Pérsio fora do caminho e Micaela viajando, o encontro rum Gisele prometia.
Ao ver o carro desportivo se aproximar, Gisele sentiu um frio na barriga.
Entrou no veículo, procurando se acalmar.
- Esperou muito aqui no vento frio?
- Não, Dr. César. - respondeu enquanto sentia o conforto que um carro estrangeiro proporcionava.
- César, chama-me de César, por favor! - tirou a mão do volante e a colocou sobre a dela.
Apenas César.
- Está certo... César! - respondeu com um sorriso nos lábios.
- Você tem compromisso para o jantar?
- Eu? Não. Não tenho, estou só.
- Como deve saber, também estou só - olhou para ela.
Para falar a verdade, estou sem nenhuma vontade de jantar sozinho.
Eu conheço uma boa Cantina, aqui perto.
Será que você faria a gentileza de jantar comigo? - perguntou com suavidade.
Ao entrarem na aconchegante cantina, Gisele foi lavar as mãos.
Ao voltar, viu César conversando com um homem que estava em uma mesa ao fundo.
Ao vê-la, ele veio e rapidamente a conduziu até uma mesa que ficava do outro lado da sala.
César pediu antepasto de beringela e um vinho italiano que pareceu néctar ao paladar de Gisele.
Logo depois ele solicitou o cardápio ao garção e fez o pedido sem consultá-la.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:38 am

- Então, não vai achar ruim comigo?
- Achar ruim, por quê?
- Por eu ter pedido lasanha, que é um prato bem calórico.
- Mas é muito gostoso - ela respondeu sorrindo.
Ele levou a taça à boca, sorveu um gole de vinho e devolveu à mesa.
- É difícil a gente ter que conviver com pessoas que vivem de dieta.
Gisele percebeu que ele estava se referindo à esposa.
- Bom, um alimento gostoso faz parte das alegrias da vida. Não pensa assim?
- O senhor tem razão.
- O senhor? Por favor...
- Desculpe César, você tem razão - disse sorrindo.
- Eu sempre gostei de comer bem.
Mas em casa, se eu não seguir a dieta, Micaela fica intratável!
Gisele não soube o que dizer.
O garção chegou com a lasanha, serviu e se afastou.
Após degustarem, ele perguntou:
- Que tal? Está a seu gosto?
- Nossa! Está divina!
Acho que há muito tempo eu não comia uma lasanha tão gostosa.
- Que bom que gostou.
Creio que devemos ficar fregueses desta cantina.
O que me diz?
- É talvez.
Logo a esposa dele estaria de volta e seria difícil eles saírem juntos, ela pensou.
Tinham terminado a sobremesa quando o vocalista do pequeno conjunto, que no palco tocava músicas suaves, começou a cantar uma canção, cujo refrão dizia:
"Os homens vieram ao mundo para sofrer pelas mulheres".
- Escutou o que diz a canção?
César pegou na mão dela e disse:
- Eu adoraria sofrer por você.
Um choque eléctrico percorreu-a de cima abaixo.
Sentia-se tão feliz ali com ele, que até parecia que tinha ganhado a lotaria acumulada.
Subitamente ele a convidou: - Vamos dançar?
Na pequena pista, já ocupada por outros casais, eles dançaram bem juntos.
Com a boca colada no ouvido dela, César cantava junto com o vocalista as românticas palavras de amor.
- Mel, tua boca tem o mel e melhor sabor não há...
Ao saírem da cantina, talvez pelo efeito do vinho, talvez pela companhia dele, Gisele sentia-se como se flutuasse.
Ao chegarem à porta do edifício, ela não opôs resistência quando ele disse que ia subir para tomar um café.
Assim que entrou, ele a beijou intensamente nos lábios.
Os beijos foram ficando cada vez mais apaixonados.
Ela sentia como se o chão fugisse de seus pés.
A cautela e o café ficaram totalmente esquecidos.
Entregaram-se à paixão.
Bem mais tarde, quando ele a deixou, Gisele sentia uma sensação tão plena de felicidade, que levou a mão ao peito, como tentando não deixá-la escapar.
Mal podia esperar pelo próximo encontro.
Quando saiu da casa de Gisele, César pensou que não se lembrava de quanto tempo fazia que não passava momentos tão agradáveis.
Entrou em casa cantarolando:
- Mel, tua boca tem o mel...
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:38 am

Capítulo 14 - Convite irrecusável

Gisele acordou sentindo uma felicidade intensa, cantarolando:
- Mel, tua boca tem o mel...
Foi se aprontar para o trabalho e, sem hesitar, colocou o conjunto verde para agradar César.
Entrou na revenda sentindo certo acanhamento.
Tinha a impressão de que as pessoas podiam ler em seu rosto o acontecido na noite anterior.
No escritório, Valéria, ao vê-la, comentou:
- Hum, como você está bonita!
Vai sair depois do expediente?
- Sair depois do expediente?
Bem, nunca se sabe as surpresas que a vida pode nos oferecer, não é?
À noite, César novamente a levou para jantar.
Desta vez em um barzinho, onde o clima romântico antecipou a fantástica noite de amor que depois passaram juntos.
César estava um pouco aborrecido.
Com o retorno de Micaela, seus encontros com Gisele tiveram que ser mais curtos, porém, ele estava tentando encontrar uma maneira de mudar a situação.
Outra coisa que o preocupava era o facto de ele estar indo ao apartamento dela.
Tinha receio de ser reconhecido.
Assim, nesse dia, estava planeando levar Gisele a um motel.
Logo após o almoço, Gisele estava acomodada em sua mesa quando o celular tocou.
- Alô.
- Querida, sou eu. Não diga o meu nome.
Escute, estou pensando em irmos a outro local hoje, que tal?
- Está certo. Onde?
- Escute, ao sair, vá para a Avenida Moema.
Ele deu as explicações e ficou antecipando os momentos de amor que teriam naquele requintado motel.
Dias depois, em uma tarde no trabalho, Gisele estava aflita.
A toda hora olhava o relógio, o fim do dia se aproximava e César ainda não havia chegado.
Logo cedo ele tinha ligado avisando que iria levar Micaela ao médico.
- Valéria, você acha que a esposa do Dr. César (quase escapara César) está doente?
- Não, creio que não.
Ela toda hora tem chiliques, fica indo ao endócrino para fazer regime e ao ginecologista para tentar engravidar.
- Tentar engravidar? Ela faz tratamento?!
- Faz sim, com um médico famoso, o Dr. Milton.
A consulta custa uma nota!
Você está com uma cara!
Está estranhando uma mulher rica se consultar com um bacana?
- Eu? Não, claro que não - passou a mão no rosto.
Minha cara é assim mesmo. Eu... Vou até o banheiro, com licença.
No banheiro, Gisele, sentindo-se um pouco atordoada, encostou-se à parede.
- Meu Deus, a Micaela faz tratamento para engravidar!
Que tola eu sou, pensando que o César era só meu.
É claro que ele também fica com ela - pensou.
Uma pontada de ciúme inclemente apertou fortemente o seu peito.
Sentiu lágrimas virem aos olhos.
A porta se abriu e Valéria entrou.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:38 am

- Gisele? Você está bem?
Por que está chorando?
Está acontecendo alguma coisa?
- Não, Valéria - respirou fundo.
Não é nada, me senti um pouco sem ar, mas já passou, obrigada pelo seu interesse.
Acho que estou com saudades da minha madrinha.
Vamos voltar ao trabalho.
Quando chegaram na sala, a porta do escritório estava fechada, sinal de que César havia chegado.
Gisele saiu da revenda ainda sentindo o impacto da notícia.
Lentamente estacionou o carro na garagem.
Subiu para o apartamento.
Dali a minutos a campainha tocou.
César entrou, estreitou-a nos braços e deu-lhe um caloroso beijo.
- Amor! Como foi difícil passar o dia praticamente sem te ver.
Ela se soltou.
- O que foi? Você parece triste.
Aconteceu alguma coisa?
- César, eu soube que foi ao médico com sua esposa.
- Sim, mas o que tem isso?
Chegando perto dela tentou abraçá-la, mas Gisele se afastou.
- O que foi? - perguntou novamente com o cenho franzido.
- César, sua mulher está fazendo tratamento para engravidar, eu sou uma tonta - disse chorando.
Isto quer dizer que vocês estão...
Estão juntos, várias vezes.
- Ah, é isso que a preocupa? - chegou perto dela e a abraçou.
Querida, não é nada do que está pensando.
Sem aquela de sair correndo porque está na hora do momento fértil.
Micaela teve um probleminha e, se quer saber - riu -, o médico proibiu qualquer contacto, até segunda ordem.
- Mas ela é sua esposa - tentou se soltar.
- Eu nunca escondi que era casado.
Mas, sabe, eu fico com ela uma vez por ano. - apertou-a mais.
Mas é com você que quero ficar os outros 364 dias.
Hoje mesmo eu já ajeitei as coisas e vamos ter bastante tempo para nós. Que tal?
Logo após a saída de César, o telefone tocou.
- Gisele? - era Letícia. - Como vai?
Estou tentando falar faz tempo, mas o celular está na caixa postal e o telefone ocupado.
- Ah, madrinha, cansei de atender enganos, então, quando estou ocupada...
Quer dizer, lendo, quando estou lendo, tenho tirado o fone do gancho.
Então, como está a Thaís?
- Está bem, mas parece que o médico vai interná-la na semana que vem para fazer à cesariana.
Conversaram mais um pouco e, de repente, Letícia perguntou:
- Você tem se comportado bem?
Cuidado. Não arrume confusões.
Tenha cuidado, minha querida.
- Claro, madrinha, não se preocupe - cruzou os dedos.
Estou me comportando bem, sim.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:38 am

- Sei - fez uma pausa.
Tem feito suas orações e o Evangelho no Lar? - perguntou com voz velada.
- Orações? Sim, tenho - mentiu.
Esquecera completamente de orar.
- Gisele, me prometa que vai se cuidar.
O mundo é cheio de maldades e ilusões.
- Fica tranquila, madrinha.
Ao desligar, ela pensou que Letícia, parecia com o grilo falante do Pinóquio.
- Preciso mudar de atitude.
Estou esquecendo que César tem uma esposa, que merece respeito.
Vou conversar com ele, nosso romance precisa acabar.
Na sexta-feira seguinte, César pediu pelo interfone que Gisele fosse até a sua sala.
- Gisele, vamos viajar neste final de semana?
- Viajar? Como assim?
Para onde? E a sua esposa?
Vai largá-la aqui sozinha?
- Ah, não sei se falei, mas ela é muito religiosa, está sempre com os padres e com as beatas.
Neste fim de semana eles vão ter um encontro ou coisa parecida no Embu e eu estarei livre! - abriu os braços como se fosse voar.
Vamos aproveitar? Eu conheço uma pousada óptima.
Estou louco para ficarmos juntos esses dias, só nós dois. Que tal?
Letícia, o grilo falante, foi totalmente esquecida.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 04, 2016 9:39 am

Capítulo 15 - A Pousada

Assim que chegaram à pousada, César estacionou o carro em frente a uma casa avarandada, pintada de ocre.
Gisele desceu e olhou ao redor.
Ficou encantada com a paisagem e a beleza do local.
Estava enlevada com a vista, quando uma mulher veio de dentro.
- Bem vindos à nossa Pousada.
Dr. César estou muito feliz em vê-lo. - estendeu a mão em cumprimento.
- Gisele esta é a dona Kyria, a proprietária da pousada - César disse enquanto cumprimentava a mulher.
Kyria ajeitou uma mecha do cabelo loiro platinado com a mão, cujos dedos tinham as unhas pintadas de dourado.
O gesto provocou em Gisele, uma ténue lembrança.
- Gisele, que nome bonito, e que moça linda!
Minha querida espero que tenha uma agradável estadia, junto a nós - disse olhando fixamente para o rosto da moça.
- Obrigada.
A mulher sorriu:
- Estou muito feliz em vê-la.
Vamos, vamos entrar.
Pode deixar que vou mandar um boy levar a bagagem.
Reservei para vocês a suite especial - olhou novamente para Gisele dando um amplo sorriso.
Espero que tenham um óptimo fim-de-semana.
Virando, se encaminhou para a entrada da casa.
Enquanto a seguiam, César disse ao ouvido da moça:
- Parece que ela gostou de você.
Subitamente, na árvore que ficava no pátio, um bem-te-vi pôs-se a cantar.
Gisele concentrou-se no canto tentando se acalmar, para abafar a ansiedade que sentia por saber que ia ficar junto de César durante todo o final de semana.
Um sol esplendoroso e o cantar dos pássaros que habitavam as árvores próximas à janela, invadiram o quarto despertando Gisele.
Virando-se na cama ela viu César adormecido com o braço sobre a cabeça.
- Meu Deus, que homem lindo!
Nenhum pincel no mundo seria capaz de captar o poder magnético que ele tem!.
Levantando-se devagar para não acordá-lo, dirigiu-se para o banheiro.
Entrou no chuveiro e ficou parada sob a cascata de água quente, sentindo os pingos d'água sobre o corpo.
Ao sair encontrou César à sua espera.
Quando ele a abraçou um leve rubor cobriu-lhe o rosto.
No domingo, após o maravilhoso final de semana, Kyria, ao se despedir, segurou fortemente na mão de Gisele, e olhando-a intensamente, disse:
- Tive muito prazer em vê-la. Por favor, se cuide.
Gisele estranhou as palavras, mas cortesmente respondeu:
- Eu também gostei de conhecê-la. Até a vista.
Dentro do carro, ao olhar para a loira mulher que da varanda acenava em despedida, Gisele pensou que no olhar dela havia certa melancolia, como se ela tivesse uma tristeza secreta dentro de si.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:18 pm

Capítulo, 16 - Coquetel

Na terça-feira da semana seguinte, César decidiu viajar para supervisionar os veículos que estavam participando do Rally.
Ao voltar, na quinta-feira, trazia a alegria pela moto da companhia ter vencido duas etapas do torneio.
Trazia também Pérsio, que tinha sofrido um acidente.
Vinha o moço com o braço esquerdo na tipóia e uma enorme mancha roxa no rosto.
Para comemorar as etapas vencidas pela equipe, César disse a Valéria que preparasse um coquetel, para o dia seguinte, após o expediente.
- Gisele, minha querida, me ajuda com o coquetel, por favor, liga para algum bufe e veja o que é possível conseguir, assim em cima da hora.
- Onde estão os números e o que devo encomendar?
- Ah, sei lá. Tente primeiro a Fada Madrinha.
Dona Lorena (1), a proprietária, é especialista em resolver as nossas dificuldades.
Quando terminou de organizar o coquetel, já passava bastante da hora que ela costumava sair.
Valéria tinha ido embora mais cedo, pois precisava pegar Marcelinho na creche.
Ao sair na rua, encontrou com Pérsio.
Fazendo ar de coitado ele se aproximou:
- Gisele, a moça mais bonita da firma.
Viu só o que me aconteceu?
Sabe por que sofri o acidente?
Porque apesar da distância meu pensamento estava em você.
- Ouvi dizer que seu tombo foi feio, como é, está se sentindo melhor?
- Muito melhor agora ao seu lado.
Escute, para que lado você vai?
Como vê, não posso dirigir, estou precisando de uma carona.
- Por que não?
Vou pela Avenida dos Bandeirantes, serve?
- É claro.
Durante o trajecto, ele tagarelou bastante, ora falando sobre o Rally, ora jogando charme sobre ela.
Ao descer, não se incomodou nem um pouco em tomar um táxi para casa, pois estava na direcção oposta a que morava.
Gisele estava chegando a casa quando o celular tocou.
Estacionou e atendeu.
- Gisele? Onde diabos você está? - César perguntou com rispidez
- Estou chegando a minha casa, por quê?
- Eu preciso falar com você, afinal faz quase uma semana que nós não nos vemos e você some sem deixar recado - falou exaltado.
- César não sei por que está nervoso.
Você estava em reunião, eu terminei o serviço e saí - olhou o relógio.
Já são quase 8h, acabei de deixar o Pérsio ali na...
- Você o quê? Deixou o Pérsio?
Quer dizer que estava com aquele conquistadorzinho barato?
O que ele queria com você? - perguntou aos berros.
- Calma, César, ele...
- Calma uma pinóia!
O que você estava fazendo com ele? Diga, já!
- César, é claro que no meio do trânsito eu não estava fazendo nada!
Apenas dei uma carona - respondeu irritada.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:18 pm

- Carona, é? Eu não quero ver aquele pilantra perto de Você.
A senhora está proibida de falar com ele!
Estou louco de saudades de você.
Mas não vai ser possível nos encontrarmos, você me apronta essa!
- César! O que é isso? - começou a chorar.
Eu... Eu... Não aprontei nada.
- Gisele - a voz dele se suavizou. - Desculpe!
Meu amor por você é tão grande que não posso nem pensar que outro possa lhe olhar - conforme falava, a voz ia ficando mais macia.
- Amor, não chore, por favor.
Tanto falou e usou de palavras doces que ela se acalmou.
Assim que entrou no apartamento, preocupada e assustada com o estouro de César, o telefone tocou, era seu pai.
O sisudo Manoel estava alegre.
Ligou para contar que a esposa estava grávida, Gisele deveria ficar feliz, pois logo teria um irmão.
Ao desligar ela pensou:
- Quando papai sair à rua com a criança, a turma vai pensar que é seu neto.
Afastando o maldoso pensamento, após comer alguma coisa, foi tomar banho para dormir, uma vez que César não poderia vir essa noite.
Queria estar com boa aparência para o coquetel do dia seguinte.
No outro dia, durante o almoço, reunidas em uma mesa de canto, Mirtes, Valéria e Gisele conversavam, quando César e Zé Carlos, acompanhadas por outro homem, adentraram o salão.
- Meu Deus! Esse homem continua maravilhoso! - disse Mirtes, revirando os olhos.
- Não se esqueça de que ele é casado - Valéria retrucou.
- Ah, Valéria, garanto que até mesmo você, que se envolveu com um casado, gostaria que ele te desse bola - antes que a outra respondesse, disse com emoção:
- Olha, olha como ele está olhando para mim!
Ah, hoje à noite vou conquistá-lo, eu prometo.
- Deixa de ser tonta, Mirtes, não vê que ele não é para nós? - disse Valéria.
- Por que não?
Só porque é casado com aquela mulher rica?
Eu hein, a dona dele que se cuide, pois vou fazer de tudo para ganhá-lo.
Enquanto elas conversavam, Gisele trocava olhares com César.
Sua vontade era de sair correndo e se atirar nos braços dele.
Controlando-se tratou de terminar de almoçar.
Após o expediente, a turma toda estava reunida no salão, quando César entrou segurando no braço da esposa.
Fazendo um discreto cumprimento com a cabeça, dirigiu-se ao palco e falou sobre o sucesso que as motos estavam alcançando no Rally.
Depois, fez um breve agradecimento a todos e especialmente a dona Gisele que conseguira, em curto espaço de tempo, realizar aquele coquetel.
Em seguida, disse:
- Som na caixa que vai rolar a festa divirta-se.
Gisele, ainda encabulada com os elogios, e enciumada com a presença de Micaela que parecia mais gorda do que nunca, estava se servindo de um salgadinho, quando escutou Pérsio dizer:
- Puxa, eu não sabia que além de ser linda, você era uma excelente funcionária.
Olha que Dr. César raramente faz elogios, ainda mais em público.
- Obrigada, Pérsio.
Como está seu braço?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:19 pm

- Melhorando - ele disse erguendo o cotovelo.
Mas ainda tenho dificuldade para fazer as coisas corriqueiras - olhou para ela.
Seria muito pedir para que me conseguisse uma coxinha?
Quando Gisele trouxe o salgado, antes que ela falasse alguma coisa, ele chegou perto segurando na mão um copo de cerveja, e abriu os lábios.
Ela não teve outro jeito senão colocá-la dentro de sua boca.
Pérsio engoliu a coxinha e disse:
- Servida por você, tão linda nessa roupa azul, esse quitute teve um sabor especial.
Que tal depois do coquetel a gente ir dar um role por aí?
- Obrigada. - e sentindo-se embaraçada, continuou.
Desculpe, hoje não vai dar. Com licença.
Ali pelas 21 h, com a festa ainda animada, Gisele decidiu ir embora.
Ao chegar a casa, sentindo um aperto no peito, consequência de ver César com a esposa, ela ligou para a madrinha.
- Querida, eu ia mesmo te ligar, o médico quer que Thaís se interne na segunda-feira.
- Para ter o bebé?
- Sim. Ele decidiu, mesmo, pela cesariana.
Letícia continuou falando, e antes de desligar perguntou:
- Gisele, tem se cuidado?
Tem orado? Tem feito o Evangelho no Lar?
- Sim. Mentiu.
Gisele estava dormindo quando escutou o interfone soar, assustada, foi atender.
- Dona Gisele?
Aqui é o Josinaldo, o guarda - pigarreou.
- Está aqui fora um senhor dizendo se chamar Dr. César, ele quer subir.
- Pode deixar.
- A senhora tem certeza? Ele parece alterado.
- Tudo bem.
Quando César saiu do elevador, estava com a gravata torta e a roupa desalinhada.
- César? O que houve?
- Vamos entrar.
Eu não gosto de falar aqui fora - falou com a voz pastosa.
Ao passar por Gisele ela sentiu cheiro de bebida.
- Você andou bebendo?
Ele chegou junto dela, segurou em seus braços e respondeu:
- Andei, andei sim.
Só bebendo a gente consegue esquecer uma traidora.
Parecendo um demente chacoalhou a moça com força.
- César! Que é isso, o que foi?
- Sua estúpida - cuspiu a palavra.
Pensa que não a vi com aquele conquistadorzinho? - chacoalhou novamente.
Qualquer hora eu perco a cabeça e soco vocês dois.
- César, me larga, me larga - tentou se soltar, mas as mãos dele pareciam de aço.
Você está me assustando!
- Ah, estou? Nem sei o que falar do seu comportamento - disse em voz alta.
Batidas soaram na parede.
A vizinha provavelmente estava incomodada com a discussão.
- César, contenha-se - falou baixo.
Aqui é um prédio de apartamentos e já é bem tarde, não podemos fazer barulho.
Me larga, por favor! - lágrimas vieram aos seus olhos e começaram a escorrer pelo seu rosto.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:19 pm

Subitamente ele a soltou, andou uns passos, voltou e a abraçou com força.
Depois beijou seus cabelos, seus olhos, seu rosto.
- Gisele, você me deixa louco, por favor, não fique conversando com outro homem, isso me aborrece demais, eu fico louco de ciúmes.
Fazendo um esforço, ela conseguiu se soltar dele.
- César, você vem aqui depois de estarmos dias afastados, só para me cobrar?
E eu? Como pensa que me sinto vendo você chegar ao salão com sua mulher, hein?
- Como? O que disse?
- Eu disse que você não imagina como me sinto quando estou aqui sozinha durante a noite e penso que vocês podem estar juntos.
Entendeu? - falou mais alto que o habitual.
- Ela nada representa para mim.
- Ah, é? Mas é sua mulher!
Tem o direito de usar seu nome e sua aliança, enquanto eu nada tenho - e levando a mão nos olhos, limpou as estúpidas lágrimas que teimavam em cair.
Não queria se sentir frágil, mas quando se tratava de César, perdia o controle.
- Eu nada tenho - repetiu.
- Meu amor, minha querida, sabe que eu a amo.
Você me tem por inteiro, tem meu coração.
- Não me venha com essa conversa.
É ela que o tem, ela: a Micaela.
Sabe o que mais?
É melhor você ir embora, vamos acabar logo com isso.
Basta, estou cansada de tudo, vai embora - mostrou a porta.
- Não! Daqui eu não saio.
Fez uma pausa.
- Meu amor, escute, me desculpa, vou dar um jeito na situação.
Estou farto da Micaela, vou pedir o divórcio.
- Vai se divorciar dela?
- Vou! Quero ficar com você.
Ao chegar a casa tomei quase uma garrafa de uísque.
Estava louco de ciúmes, mas agora já estou mais controlado.
Desculpa ter vindo aqui a esta hora, é que minha saudade por você era imensa - moderou o tom da voz.
Por favor, querida, me perdoa, sabe que é você que eu amo.
- E Micaela? - Gisele perguntou ressabiada.
- Eu só preciso de um tempo para me separar dela.
- Será? Isso parece conversa furada.
- Por favor, meu amor, acredita em mim - falou com voz ofendida.
Agora, será que esse pobre mortal tem direito a um beijo dessa linda mulher?
Nos dias que se seguiram ele foi só gentileza.
Conseguiu algum tempo para uns furtivos encontros, mandou flores, mandou cesta de café da manhã.
Até que certa tarde...
- Amor, que tal um jantarzinho?
- Hoje? E sua mulher?
- Ah, aquela chata tem encontro na igreja com as beatas, vai haver um jantar beneficente.
Gisele olhou para ele desconfiada.
- Amor, não se preocupe, eu já estou procurando um advogado idóneo, vou mesmo me separar, Micaela nada tem que me prenda.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:19 pm

Saíram discretamente e foram a um rodízio de pizza, onde comeram massa suficiente para causar pesadelo a uma nutricionista.
No dia seguinte, quinta-feira, lá pelas 9h da noite, César apareceu no apartamento de Gisele.
Como não tinham nada combinado, ela estranhou.
- Oba, o que o traz aqui?
- Ah, querida, estamos com um problema - falou com voz triste.
- O que foi? - Ela perguntou assustada.
- Calma, nada muito difícil - andou pela sala, olhou pura ela.
Estou super chateado, vou precisar viajar por uns dias.
- Viajar? Vai me deixar sozinha?
Ele assentiu com a cabeça e com cara triste disse.
- Você soube que um dos nossos carros capotou, não?
- Sim, é só desse assunto que se fala no escritório.
- Pois é, e era o que estava com melhor pontuação.
- Bom, e daí?
- Daí vou precisar ir até Goiás, ver como estão às coisas.
- Você? Ah, que pena, não dá para mandar o Zé Carlos?
- Não. - Andou pela sala, olhou para ela.
Sabe como é os olhos do dono engordam a boiada.
Eu mesmo tenho que ir.
- E volta quando?
- Vou precisar ficar lá por mais ou menos uma semana - falou exibindo um ar triste no rosto.
- Uma semana! Tudo isso? Vai quando?
- Amanhã.
- O quê? Amanhã? - Gisele sentia vontade de chorar.
Mas, terça-feira é feriado, como sabe, a firma vai emendar e eu vou ficar aqui sozinha todos estes dias?
Ele balançou a cabeça.
- Ah, querida, eu sei que é chato, mas não tem outro jeito.
Sabe, além de tudo vou à surdina, ouvi dizer que o pessoal da equipe concorrente está querendo nos boicotar - deu de ombros.
Preciso ir, mas quero chegar lá de surpresa, poucas pessoas sabem da minha viagem.
César ficou lá mais um pouco para terem um amoroso encontro de despedida.
Quando saiu, recomendou que Gisele nada comentasse na revenda sobre sua viagem.
Oficialmente iria para o Rio tratar de outros negócios.
Ao sair, César pensou que para não ter problemas, precisava ir voando para casa.
Tinha que chegar à mansão antes de Micaela, que tinha ido novamente a um encontro com a padrecada.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:19 pm

Capítulo 17 - Kyria se encontra com Gisele

O telefone tocou tirando Gisele de seus sonhos.
A princípio pensou em não atender, porém, lembrando que poderia ser César, virou-se na cama e pegou o aparelho.
"Que interessante, Kyria, a dona do resort, a chamava para almoçar.
Bem, por que não?
Afinal, o fim de semana com a ausência de César estava sendo muito monótono."
Ao entrar no restaurante, Gisele avistou Kyria sentada em uma mesa próxima à janela.
A elegante mulher loira, talvez de verdade talvez não, ao vê-la apagou o cigarro e abanou a mão.
- Gisele, querida, é uma alegria revê-la.
- Kyria, como vai?
- Bem, vou bem. - Beijaram-se e sorriu.
Apesar de que às vezes a vida nos prega uma peça, na qual somos nós os actores da comédia, ou talvez de um drama como os das óperas.
Sem entender muito bem o que a mulher queria dizer.
Gisele se sentou.
Kyria acendeu outro cigarro.
Tragou profundamente e exibindo um cálido sorriso disse:
- Gisele, como está bonita!
Você é com certeza a moça mais bonita do pedaço.
Queira Deus que esse rostinho de modelo nunca mostre tristeza.
- Obrigada - Gisele sorriu.
Sei que vou ser sempre feliz.
- Sim, quando se é jovem a gente pensa que a vida é um mar de rosas - Kyria respondeu, olhando firmemente para ela.
Gisele estremeceu.
- "Meu Deus, será que ela é daquelas que gosta de mulheres?
Estou achando o seu jeito e suas atitudes muito estranhas.
Preciso dizer que tenho noivo".
- Dona Kyria, não sei se sabe, mas hoje deu para vir almoçar com a senhora porque César está viajando.
Ele foi cuidar de um Rally e só deve voltar no final da semana.
- Querida, não me chame de dona, nem de senhora. - enquanto falava, Kyria acariciou a mão da moça que estava sobre a mesa.
Gisele retirou a mão dizendo:
- César, meu noivo, é muito atencioso.
Ontem cedo ele me mandou uma bela cesta de café da manhã, com um espectacular arranjo de flores.
- Você gostou da cesta de café? - Kyria perguntou com ansiedade na voz.
- Sim, muito! - franzindo o cenho perguntou.
- Por quê?
O garção chegou para anotar os pedidos de bebidas.
Em seguida elas se dirigiram ao bufe e escolheram os alimentos.
Kyria, parecia distraída, remexeu a comida no prato e pouco comeu.
Depois cruzou os talheres e acendeu outro cigarro, que tragou profundamente.
- Gisele, você espera se casar com o César? - perguntou com ansiedade no olhar.
A moça remexeu-se na cadeira.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:19 pm

Finalmente disse:
- Desculpe, mas não vim aqui para discutir minha vida particular com a senhora.
- Gisele, Gisele, eu preciso saber.
- "Hi, acho que essa mulher está a fim de me fazer alguma proposta" - pensou, afastando a cadeira.
- Desculpe, vou pagar a conta, preciso me retirar - procurou o garção com os olhos.
- Por favor, Gisele, responda à minha pergunta:
César disse que vai se casar com você? - Kyria segurava com força o pulso da moça.
- Que pergunta impertinente, a senhora nada tem com nossas vidas.
- Por favor, Gisele, acalme-se.
- Por favor, digo eu.
Vou me retirar - fez menção de se levantar.
- Espere, não se vá sem me ouvir. - Segurou a mão da moça.
- Se... Se você está a fim de me fazer alguma proposta indecente, desista!
Kyria riu, riu muito.
Precisou levar a mão à boca para disfarçar.
Quando conseguiu se conter, disse:
- Não, querida, de jeito nenhum, eu não sou desse tipo.
Sou casada com Mateus há muitos anos.
- Então, por que está me fazendo perguntas tolas?
Você não tem nada a ver com minha vida.
- Eu tenho, sim.
Eu tenho muito a ver com sua vida - riu disse mansamente, enquanto acendia outro cigarro.
- Por quê? Por que, tem a ver com minha vida?
Eu mal a conheço...
- Por favor, acalme-se, vamos conversar - e olhando-a firmemente, perguntou:
- Será que você não se lembra mais de mim, bonequinha?
- Por que eu deveria me lembrar de você?
E por que está me chamando de bonequinha? - perguntou, franzindo as sobrancelhas.
A mulher suspirou e nada respondeu.
- Se não tem uma proposta indecente a me fazer, graças a Deus, e se nós nem nos conhecemos direito, por que me chama de bonequinha?
- Gisele, escute, eu a chamei aqui para conversarmos, eu quero lhe conhecer melhor.
Eu quero conversar com você sobre o César.
Gisele se irritou.
- O que meu noivo tem a ver com você? - perguntou com brusquidão.
- Ele não é adequado para você, bonequinha.
- Que direito tem você de me dizer que César não me é adequado?
- Tenho muito direito, tenho quase todo o direito do mundo! - apagando o cigarro, ela pegou a bolsa e abriu, tirou uma foto de dentro e a exibiu.
Veja, dê uma olhada, bonequinha.
A foto era de uma bela mulher, que, com ar muito feliz, segurava uma menininha bem arrumada nos braços.
Dava para se perceber que eram mãe e filha.
- Bem, creio que é você com sua filha no colo.
Mas, o que eu e César temos a ver com isso? - perguntou confusa.
Enquanto aguardava a resposta, algumas lembranças vieram à sua mente:
Ela pequena, brincando de pega-pega com a mãe.
A mãe ajeitando seus cabelos e conferindo sua roupa, enquanto dizia:
"Bonequinha, você é a menina mais bonita do pedaço!".
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:20 pm

Ah, que saudades do tempo em que vivia com a mãe, uma mulher que estava sempre alegre.
Devolvendo a foto, Gisele suspirou.
Ah, a saudade era traiçoeira:
fazia a gente se lembrar das coisas, não como elas tinham sido, mas como nós queríamos que tivessem sido.
- Então? Será que você não se lembra?
Será que não se lembra da Toninha?
Kyria perguntou com ansiedade na voz.
- Claro que eu me lembro da minha mãe.
Você a conheceu? - sem esperar respostas, ela continuou em voz velada.
- Ela nos abandonou, a mim e a meu pai.
Coitado, ele ficou arrasado!
- Abandonou? Quem disse isso?
- Ora, meu pai, me disse - olhou para a bem arrumada mulher.
Você a conheceu de onde? Sabe onde ela está?
- Sim, para as duas perguntas.
Gisele olhe bem para mim - ela tinha lágrimas nos olhos.
Então Gisele compreendeu.
Sentindo-se sufocar, disse:
- Não é possível!
Você não pode ser a Toninha, você é a Kyria.
- Eu sou a Toninha, eu sou sua mãe - fez uma pausa.
Eu nunca a abandonei, nunca!
Disse, enquanto limpava discretamente os olhos com um lencinho bordado de renda.
- Abandonou, sim! - Gisele respondeu com raiva.
A mulher negou com a cabeça.
Abriu novamente a bolsa, tirou um pequeno álbum de fotos.
- Dê uma olhada nestas fotos.
Eram várias fotos de Gisele, em diversas idades.
- Como você arrumou isso? - perguntou ela, ainda perplexa.
Você me abandonou, sim!
Você traiu o meu pai.
Todos dizem que você foi embora me deixando só.
- Bonequinha, isso é cruel demais - Kyria procurava conter as lágrimas.
- Sabe o que mais?
Eu vou-me embora - disse, levantando-se.
Nós não temos nada a ver uma com a outra.
Kyria se levantou.
- Gisele, por favor, antes de ir me escute.
Você, para julgar tem que ouvir os dois lados da história.
Gisele suspirou, olhou para a mulher que dizia ser sua mãe.
- Está bem, mas, por favor, seja breve.
Voltaram a se sentar.
- Está certo, vou começar do início.
Espere... - abrindo a bolsa tirou o RG.
- Veja.
Havia uma foto de alguns anos atrás e o nome:
Maria Antónia Paulino de Freitas.
Não havia dúvidas, era o nome de sua mãe, Toninha.
Gisele deu um suspiro, olhou para a mulher, era melhor escutar o que ela tinha a dizer.
Afinal, não havia mais nada para fazer neste dia.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:20 pm

- Está certo, diga o que César tem a ver com tudo isso - Gisele estava confusa, ora tinha vontade de abraçar a mulher, ora tinha vontade de ir embora.
- Muito bem, sabe que eu tinha dezoito anos quando você nasceu, mas eu já tinha um passado... - acendeu outro cigarro e deu uma tragada.
Bem, eu nasci no interior, alta e com boa aparência, descendente de italianos.
Foi fácil minha necessitada mãe me arrumar um emprego de doméstica em uma casa chique da cidade.
Lá aconteceu o inevitável, eu e o rapaz, filho da casa, nos entregamos à paixão.
Durante uns meses, nós vivemos muito felizes, nos curtindo, como se diz, actualmente.
Porém, chegou o momento de ele vir para cá, para fazer cursinho para vestibular e nós nos separamos com a promessa de que logo ele falaria com os pais e viria me buscar - deu uma risada.
Mas, se para mim aquilo tinha sido uma grande paixão, para ele foi apenas uma aventura, logo esquecida.
Com o passar dos meses, como ele quase não me dava mais notícias, juntei minhas coisas e vim para cá.
- Sozinha? Que idade você tinha?
- Sozinha. Tinha dezasseis anos, porém aparentava mais.
Aqui eu percebi que o que fora para mim um grande amor, para ele fora só fogo de palha.
Ele já tinha me esquecido, e mais:
não queria que seus amigos soubessem que tinha estado com uma empregada caipira, semi-analfabeta.
Gisele esticou o braço e tocou na mão de Kyria.
- Resumindo, quando o dinheiro estava no fim, a dona da pensão em que eu morava, disse que bonita como eu era seria fácil arrumar dinheiro.
Se eu quisesse ela me apresentaria a uma amiga - deu de ombros.
Comecei a trabalhar em uma boate e a ter encontros com finos cavalheiros.
Passei a usar nome de Walkyria, Kyria.
- Meu Deus! Então era verdade!
- O que era verdade?
- Que você... Que você era prostituta.
Meus primos diziam...
Diziam que você não prestava e que eu ia crescer ser igual a você - Gisele se encolheu na cadeira.
Eles, muitas vezes, quiseram me agarrar.
- Pobrezinha, eles a culpavam pela minha conduta.
As duas ficaram caladas por alguns segundos.
- Como conheceu papai?
- Ele foi à boate e me propôs acompanhá-lo a uma viagem de uma semana - tragou o cigarro.
Então eu engravidei, apesar de ter tomado cuidado - sorriu.
Coisas da vida, eu tinha um compromisso com você.
- Compromisso? Como assim?
- Bem, antes de reencarnarmos devíamos ter combinado sermos mãe e filha.
- Ah, que bobagem!
Reencarnação! Não acredito nisso.
- Mas eu sim.
Bem, mas vamos voltar aos factos.
Seu pai e eu nos casamos e fomos morar lá na chácara em Celmópolis - fez uma pausa.
Meu amor, se não fosse o facto de estar grávida eu teria voltado no mesmo instante para cá.
- Você não amava meu pai?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:20 pm

Ela olhou para a filha.
- Nós nada tínhamos em comum.
Ele era quinze anos mais velhos do que eu.
Viajava muito a negócios e quando voltava não queria sair, era muito sério.
Eu, jovem, alegre, gostava de festas...
Já viu... - deu de ombros.
Quando ele viajava, eu saía, ia passear.
Às vezes, fazia festas, chamava os meus amigos.
Alguns iam daqui para lá...
Algumas lembranças vieram à cabeça de Gisele.
A mãe colocava uma toalha grande na mesa da sala.
A toalha ia até o chão, e Gisele, quando ouvia a música e as risadas, se levantava da cama e pé-ante-pé, ia até a sala.
Escondia-se sob a mesa, protegida pela toalha e ficava espiando a festa.
Às vezes ela acabava adormecendo lá em cima do tapete.
Certa vez viu a mãe e um homem se beijando.
- Você traía o meu pai, você tinha outros... - era uma afirmação.
Kyria deu outra tragada no cigarro:
- eu não aguentava viver naquele lugar.
Seu pai não queria sair de lá - fez uma pausa, ficou olhando para o nada.
Certa vez nós íamos a um aniversário de família e eu coloquei um vestido em você, bem, sua avó mandou que eu a trocasse.
- Por quê?
- Ela disse que o vestido não era adequado para uma menina de boa família, disse que eu não entendia nada de etiqueta, que eu era uma matuta, que devia ter continuado a ser uma reles serviçal - sorriu.
Disse que eu nunca seria um deles, que não entendia o que seu pai havia visto em mim.
Na verdade, ela não gostava nada de mim.
- E quanto às festas?
Eu me lembro um pouco delas.
- As festas... Eu morria de tédio naquela chácara.
Um dia, alguém contou e seu pai voltou antes do esperado.
Tive que sair de lá só com minha roupa e sem minha bonequinha - abaixou a cabeça.
- Mas, por que não foi me ver? Por quê?
Você disse que voltaria para me buscar - Gisele começou a chorar, falou em voz baixa:
- Senti tanto a sua falta!
Nós éramos tão amigas, era tão alegre nossa vida!
Depois, tudo ficou chato demais, não tinha mais alegria nem brincadeiras.
Vovó Amélia foi morar lá em casa.
Ela dizia que dar risada e fazer brincadeira era pecado.
- Ah, meu amor!
Eu era jovem e tola, mas nunca quis lhe prejudicar, nunca quis ficar longe de você, afinal, durante nove meses, compartilhamos o mesmo corpo.
Querida, isso é duro de dizer:
Manoel conhecia todo mundo na cidade.
Ele mexeu as coisas de um jeito que o juiz só me permitiu lhe ver por dez dias durante o ano, mas todas as vezes que tentei lhe ver, seu pai e sua avó não deixavam.
- Não deixavam? Como assim?
- Não sei. Eu ia lá e não me deixavam lhe ver, cada hora eles davam uma desculpa.
Certa ocasião, quando eu cheguei, você tinha ido para um acampamento.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:20 pm

Outra vez, você linha viajado com sua madrinha.
Depois... Bem, depois Amélia me disse que se eu não a deixasse em paz ela contaria a você Quem eu era - riu.
Pelo jeito, ela contou mesmo...
- Não. - Gisele negou com a cabeça.
Ela me disse que você tinha nos abandonado.
Quem me contou, foi meu primo Rómulo. Ele quis me agarrar...
- Querida! Que coisa desagradável.
Bem, depois, conheci Mateus e nós compramos a pousada e fiquei muito atarefada e longe de você.
Voltei lá, ainda algumas vezes, mas...
Era uma cidade muito pequena e nem no hotel eu era bem-vinda.
Passei por algumas contrariedades e acabei deixando de ir até Celmópolis.
Mas, como sou tenaz, contratei o fotógrafo do local para que tirasse fotos suas.
Assim, fui acompanhando seu crescimento e - deu de ombros - acabei me convencendo que talvez o destino não quisesse que nos uníssemos.
- Será que você não devia ter lutado mais? Lutado por mim?
- Talvez... Mas pensei que você estivesse feliz, com seu pai e sua avó.
Afinal, uma ex-prostituta nem sempre é a mãe ideal.
Gisele, agora mais controlada, pensou que talvez Toninha estivesse errada, mas, agora era tarde demais.
- Bem, Kyria, vamos voltar a falar do César.
Ela olhou ao redor.
- Parece que já estamos aqui há muito tempo.
Vamos conversar em outro lugar?
- Sim. Você tem algum local?
Ou prefere ir para o meu apartamento?
No apartamento, Gisele fez café. Kyria acendeu um cigarro.
Ficou calada por alguns instantes.
- Gisele, nem sei como começar.
Bem, digamos que uma ex-prostituta queira um futuro ditoso para sua filha - sorriu.
Antigamente, elas internavam as filhas em colégios de freiras e quando as visitavam diziam ser tias das meninas - dando um suspiro, olhou para a filha.
- Você sabe que César é casado?
- Sim, sei.
- E ainda assim está com ele? - perguntou, franzindo o cenho.
- Sim - Gisele sorriu.
Ele não se dá bem com a esposa, eles estão se divorciando.
- Se divorciando?! Quem disse isso? - perguntou se arrumando na poltrona.
- Quem? Ele. Por que o espanto?
Todo mundo hoje em dia se separa - Gisele respondeu, erguendo os ombros.
- Meu Deus! Eu não posso acreditar.
Kyria deu um suspiro e escondeu os olhos com as mãos.
- Kyria, o que foi?
- O que foi?
Eu nunca pensei que César pudesse ser tão ordinário.
- Como assim?
Se ele e a mulher não se dão bem, por que não podem se separar? - Gisele estava confusa e um pouco revoltada.
Afinal, que direito tinha essa mãe, saída do nada, de vir criticar seu noivo?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:20 pm

- Gisele, você me disse que ele estava em um Rally, não foi? - perguntou olhando fixamente para a filha.
- Sim - Gisele sentiu um arrepio e continuou.
Ele já me telefonou, e me mandou a cesta de café da manhã - olhou para o arranjo de flores.
Kyria balançou a cabeça.
- Gisele, sabe como a encontrei?
Sabe de onde tirei o número do seu telefone?
- Não... É mesmo, de onde? - perguntou com curiosidade.
- César me forneceu.
Ele pediu para eu mandar a melhor cesta que tivesse para você.
- Como assim? Ele está viajando e você na pousada...
Eu não estou entendendo...
Que conversa é essa?
- Bonequinha, isso é duro demais para uma mãe falar...
Endireitou-se na cadeira.
- César está na pousada - olhou para a filha.
Está com a esposa. Eles não estão se separando.
Ela está grávida.
Gisele se levantou de um salto.
- Não acredito!
Você é mentirosa, sua... Sua...
- Sua o quê? Vagabunda? Prostituta? - riu mansamente.
Filha, eu não estou mentindo.
Ligue para lá e mande chamá-lo! - lágrimas começaram a correr mansamente pelo seu rosto.
Estou falando a verdade.
Mergulhou o rosto nas mãos.
Ah, meu Deus, isso não pode ser verdade, não pode.
Gisele respirou fundo. Alguns factos começaram a se encaixar.
As evasivas dele, o tal Rally ter aparecido de repente, o facto de ele quase nunca estar livre aos domingos.
Chocada, voltou a se sentar.
- É verdade? - perguntou com um fio de voz, torcendo para que tudo não passasse de um equívoco.
- Sim, é. - Kyria limpou as lágrimas com a mão.
Ele já esteve lá muitas vezes, e...
Sempre bem acompanhado. Você não foi à primeira.
Eu, eu tive vontade de alertá-la, mas, deu de ombros.
Não sabia como.
- Era por isso, era por isso que você me olhava tanto?
Como soube que eu era sua filha?
- Eu tinha as suas fotos, lembra-se?
Fiquei feliz e ao mesmo tempo chateada quando a vi com ele - fez uma pausa.
Eu não queria perder a oportunidade de olhar bastante para a minha bonequinha.
- Eu ainda não sei se acredito.
Desculpe você pode ser minha mãe, mas...
- Mas você não me conhece...
Ligue para a pousada.
- É isso que vou fazer - levantando-se pegou a agenda.
Antes que pudesse abrir Kyria ditou o número.
Gisele ligou.
- Sim, doutor César está aqui com a esposa - disse a pessoa que atendeu.
Ela, lentamente colocou o fone no gancho e ficou olhando fixamente para o fantasma da sua desilusão.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:20 pm

Capítulo 18 - A procura

O rapaz viu quando o homem chegou muito bem trajado:
terno cinza-claro, que combinava com a gravata cinza-escuro com bolinhas vermelhas.
Beirava os 35 anos.
Alguns fios prateados riscavam seus cabelos escuros.
Olho claro, queixo quadrado, alto, atraía os olhares femininos.
O rapaz viu quando ele colocou a mão direita no bolso do paletó e de lá tirou um papel.
Leu o que estava escrito, como a confirmar os dados.
Voltou a guardar o papel.
Olhava para lodos os lados, procurando por alguém.
Riu consigo mesmo.
- O bacana está confirmando o endereço - pensou.
É claro que nunca esteve por aqui na periferia.
Decidiu esperar mais alguns instantes para ir ao seu encontro, pensando que seria melhor se fazer de difícil.
Afinal, nada tinha a perder.
Após alguns minutos, calmamente foi andando.
César olhou para o relógio, depois para frente.
Seu semblante mostrou um ar de agrado quando viu o rapaz, com seus cabelos semilongos, roupa desportiva, ténis velho nos pés, atravessando a rua.
Foi ao seu encontro.
- Então? Alguma novidade?
Encontrou-a? - perguntou com ansiedade na voz.
- Calma! - disse, levando a mão ao bolso da camisa, tirou um maço de cigarros, riscou um fósforo e acendeu um.
Tragou profundamente, soltou a fumaça para cima. -
Eu a encontrei.
Ela não quer receber ninguém, deu ordens para não ser perturbada - enfiou a mão no bolso da calça e tirou um papel.
- Isso não importa!
Ela vai ter que me receber - esticou a mão.
- Dá cá o endereço - pegou o papel.
Convento Nossa Senhora das Graças?
Que brincadeira é essa? - perguntou com brusquidão.
Segurou o ombro do rapaz e sacudiu.
- Você está querendo me enganar?
- Claro que não! Vá até lá para ver.
Ela entrou lá faz uns cinco dias.
- Como sabe?
- Eu tenho os meus métodos - deu de ombros.
- Se não me falar, não vou pagar o resto do dinheiro.
O rapaz jogou o cigarro no chão e apagou com o ténis.
- Está bem - deu de ombros novamente.
Eu conversei com um dos empregados do prédio onde ela morava.
Consegui saber para onde está indo a correspondência.
- Como conseguiu?
Eles não quiseram me dizer.
- Bom - olhou para o homem. - Eu não tenho roupas elegantes.
Apareci por lá com um pacote grande, bem embrulhado e disse que precisava entregar para ela.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:21 pm

Xavequei dizendo que se eu não entregasse o pacote ia perder uma boa grana - riu.
Custou um pouco, mas o cara me deu o endereço.
Após pagar para o moço o restante do dinheiro combinado, César foi até o carro e partiu em direcção ao convento.
Após ter ficado a manhã inteira no computador, para colocar a correspondência das freiras em dia, Gisele sentia-se um pouco cansada.
Esticou os braços para cima, depois massajou os ombros.
O barulho de um motor de automóvel cortou o silêncio.
Ela olhou para a rua pela janela que ficava à direita.
Um BMW igual ao de César acabava de estacionar do outro lado da rua.
Gisele se levantou e pegou as folhas que a impressora acabava de soltar.
Curiosa, voltou a olhar para a rua: César estava descendo do carro.
Por alguns instantes não conseguiu se mexer, então finalmente, recuou, virou e foi quase correndo ao gabinete da Madre superiora.
A madre disse que não podia mentir.
Se César perguntasse seria obrigada a dizer que Gisele estava lá.
- E se a senhora não o receber? - perguntou, quase chorando.
- Calma, minha menina - tamborilou com os dedos no tampo da escrivaninha.
Bom, eu estava quase de saída para ir resolver uns assuntos.
Que tal se você fosse comigo?
- Madre Marta, a senhora faria isso por mim? - perguntou juntando as mãos no peito.
- Sim. Creio que Deus prefere ver uma ovelhinha longe das garras de um lobo casado.
Pegue sua bolsa e saia pelos fundos.
Eu a encontrarei lá.
Assim que Gisele saiu, a freira tocou a sineta.
Uma mocinha vestida de noviça apareceu.
- Irmã Emília, se um cavalheiro aparecer procurando pela Gisele informe que ela saiu e que você não sabe quando vai voltar.
No final da tarde, quando elas chegaram, irmã Emília informou que o cavalheiro havia ficado sentado na sala de espera do convento por umas duas horas.
Depois de ter atendido a várias ligações no celular, tinha ido embora mostrando ar de contrariedade no rosto.
Aliás, ele não tinha sido nada gentil, chegou a ameaçar prazer à polícia no convento, caso não conseguisse falar com Gisele.
- Bem, Gisele, está ficando complicado mantê-la aqui connosco - disse madre Marta.
Mas minha irmã, a Rita, vai chegar de viagem e precisa de companhia - fez uma pausa.
Se você quiser, ela pode acolhê-la por uns tempos - olhou para a moça.
A única coisa que eu não concordo com a minha irmã é que agora ela trocou de religião.
Decidiu virar espírita.
César estava inconformado, não entendia o motivo da fuga de Gisele.
Não era possível que ela não quisesse mais vê-lo.
Eles tinham tido óptimos momentos juntos.
Sua cabeça parecia que ia estourar.
Por mais que pensasse, não conseguia entender o motivo de ela haver se enfiado em um convento.
No início tinha chamado Pérsio e o interrogara exaustivamente, depois convencido de que ele não era o pivô da sua fuga, tinha contratado um detective.
Após pensar bastante, decidiu contratar novamente o detective e mandar que ficasse na porta do convento vigiando 24 horas.
No dia seguinte, Billy, o detective, ligou dizendo que Gisele tinha saído de carro com uma freira.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 05, 2016 2:21 pm

Foi impossível segui-las, pois ele estava a pé.
César colocou uma das motos da revenda à disposição do detective.
Após uma semana, Billy telefonou dizendo que nem ele e nem o rapaz que ficava à noite, de plantão, tinham visto a moça.
Acreditavam que ela tinha deixado o convento.
- Como? Vocês ficam aí o dia todo e não conseguem encontrar uma mulher? - César disse aos berros.
- O senhor sabe, as freiras entram e saem e é impossível eu examinar todas elas.
De repente, ela também pode estar usando um hábito.
- Vocês são uns inúteis!
É claro que ela saiu daí vestida de freira.
- Pode ser, mas aqui ninguém quer dar informações.
Como o senhor sugeriu, ofereci uma boa soma para as obras assistenciais, mas mesmo assim ninguém quis nem o dinheiro e nem dar informações.
Billy já estava entediado de ficar vigiando o convento e farto das grosserias de César.
- Você está demitido!
Vou mandar depositar a quantia que falta dos seus honorários.
Bateu o telefone.
Respirou fundo, tentando se acalmar.
Nesses últimos dias tinha negligenciado o trabalho, para ficar atrás de Gisele.
O pessoal da revenda estava estranhando suas atitudes, que ele atribuía à estafa.
Precisava contratar outra equipe de detectives que fosse mais competente.
Ah, sim, tentaria encontrá-la através de classificados dos maiores jornais.
"Mel, tua boca tem o mel" seria o título do anúncio.
- Hei de encontrá-la! - disse em voz alta.
- "Que estranho! Dr. César está tão esquisito!
Parece que começou até a falar sozinho" - pensou Valéria, que de sua sala o ouviu repetir várias vezes a mesma frase.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

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