Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:26 am

Capítulo 19 - Na casa da Rita

Alguns dias se passaram.
Sozinha no apartamento de Rita, Gisele andou de lá para cá como um gato que dá voltas e mais voltas na poltrona à procura de uma posição cómoda.
Finalmente, sentou-se em uma poltrona.
Com a sala em penumbra, recordou os últimos acontecimentos.
Irmã Maria do Carmo dirigira seu carro, com sua bagagem no porta-malas, até a igreja, e lá o deixara.
Mais tarde, várias freiras usando hábito, (inclusive ela), entraram em uma van.
Na igreja, após assistirem à missa, Gisele, que trocara de roupa no banheiro, entrou no carro e munida do endereço, dirigiu-se ao apartamento de Rita.
Foi recebida por uma mulher alta e magra, alegre e muito simpática.
Casada, sem filhos, seu marido, Geraldo, era vendedor autónomo e estava fazendo um trabalho no Sul do país, onde deveria ficar por mais uns trinta dias.
- Querida! - abriu os braços e lhe deu um cálido abraço.
Eu estava ansiosa à sua espera. Entre, entre...
- Dona Rita, eu...
- Dona Rita? Ah, por favor... Rita.
Gisele, minha irmã me falou sobre você.
Sei que está precisando de um tempo para pensar e se refazer.
Mas, acredite, faz um imenso favor me fazendo companhia.
Eu ando me sentindo tão só, ultimamente.
Colocando a moça totalmente à vontade, Rita, que era bastante comunicativa, a enredou em uma conversa interessante.
Quando foram dormir, Gisele conseguiu pegar no sono sem chorar.
Voltou ao presente, quando ouviu a chave girando na fechadura.
Levantou da cadeira e com o coração batendo forte olhou assustada para a porta.
Rita entrou, com um sorriso nos lábios.
- Oi Gisele - franziu os olhos.
O que foi? Você parece assustada.
- Eu, eu - torcia as mãos. - Ouvi o barulho da porta.
- Calma, sou só eu.
Creio que será muito difícil seu ex-namorado, nos achar aqui - colocando a bolsa sobre uma poltrona, abraçou a moça.
Estamos longe dele.
- Sei disso, mas ele me achou no convento, não foi?
Penso até que colocou uns rapazes para me vigiar.
- Bom, alguém deve ter falado.
- Quem?
- Não sei. Você deixou o endereço do convento com quem?
- Bom, quando saí com a Toninha, eu pedi para o porteiro enviar a correspondência para lá.
Mas ele me prometeu que não ia dizer nada.
Rita deu de ombros.
- Só pode ter sido ele.
Ou alguém mais no seu serviço sabia onde você estava?
- Não! - negou com a cabeça.
Eu era temporária, meu desligamento se deu na outra firma.
Para o pessoal do serviço eu disse que meu pai estava doente e que eu iria para Mato Grosso.
- Bem, só resta o porteiro.
Querida, você precisa se acalmar.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:26 am

Não adianta ficar aqui trancada chorando o leite derramado.
Ânimo. Creio que você deve tentar esquecer, apagar da mente aquela época, a partir do momento em que aquele homem entrou em sua vida.
Apagar e tornar a começar.
- Mas não é fácil esquecer um amor e não é fácil recomeçar.
- Sei disso, mas você precisa tentar.
Sabe, é complicado falar isso neste momento, mas na vida tudo passa...
- Eu não gostaria de revê-lo.
- Sei disso, mas tenho certeza de que ele não vai nos encontrar.
São Paulo é uma cidade grande e estamos em um bairro bem longe daquele onde você o conheceu.
- Será? Ele me encontrou no convento.
- Sim, mas agora ele não vai achá-la, tenho certeza.
Pois só nós e minha irmã sabemos onde você está.
Gisele tampou o rosto com as mãos.
Seus sentimentos estavam confusos, ainda estava muito ligada a César.
Tirou as mãos do rosto.
- Deus a ouça.
- Fique tranquila. Bem, agora, que tal jantarmos?
Durante a refeição, Rita explicou que frequentava um Centro Espírita, ali perto, onde conseguiu um grande apoio.
Será que Gisele não gostaria de ir até lá com ela?
Ao chegarem, uma simpática moça chamada Sara, entregou uma ficha com o número 6 e disse a Gisele para entrar e aguardar, pois logo seria chamada para entrevista.
Gisele entrou em uma sala onde várias pessoas davam o que eles chamavam de "passes de limpeza" nos frequentadores.
Depois, foi encaminhada a outra sala, onde logo uma senhora chamada Alda, fez uma oração e iniciou uma palestra edificante.
Após uns dez minutos o número dela foi chamado.
Ela foi encaminhada à outra sala na qual havia várias mesas.
Indicaram-lhe uma cadeira.
- Boa noite - disse uma simpática mulher, cujo crachá exibia o nome de Teresa.
Estamos muito contentes que tenha vindo à nossa Casa.
Após preencher uma ficha com os dados de Gisele, a mulher disse:
- Fale-me um pouco sobre você.
Sua vida, seu trabalho, suas preferências e também sobre o motivo que a trouxe pela primeira vez a esta Casa - antes que ela respondesse continuou.
- Já esteve em uma Casa Espírita?
Conhece a Doutrina Espírita?
- Bem - se remexeu na cadeira.
Minha madrinha é espírita e me falou alguma coisa, mas ela está fora de São Paulo.
- Certo. Você conhece alguma literatura espírita?
Já ouviu falar no Evangelho no Lar?
- Ah, sim - olhou para Teresa.
Cheguei a fazer, algumas vezes - abaixou os olhos.
- Então chegou a fazer. E não está fazendo mais?
- Não.
- Gostaria de me dizer por quê?
- Bem, no começo eu esqueci.
Depois achei que talvez Deus não gostasse - disse em voz sumida.
- Deus sempre gosta quando oramos, seja em que circunstância for. Deus nos ama.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:26 am

- Mesmo quando erramos?
Será que não temos castigo?
Teresa falou amorosamente.
- Querida, não vamos julgar Deus pelo julgamento dos homens.
É bem verdade que o Pai quer que nós façamos a coisa certa, mas ele tem infinita paciência.
Você certamente conhece o caso da mulher adúltera, não?
- Sim, conheço.
- Então Jesus disse a ela:
"Vai e não peques mais".
Deus sempre nos dá oportunidade para que corrijamos nossos erros.
Agora me diga: por que está tão aflita?
O que a aflige?
O olhar carinhoso e meigo de Teresa conseguiu com que o coração de Gisele se abrisse.
Sem nem saber como, ela viu-se contando todo o seu relacionamento.
- Dona Teresa, eu fiquei muito desapontada com as mentiras dele.
Ainda mais quando soube que a firma é do sogro e que ele não teria coragem de deixar a esposa, pois provavelmente perderia as mordomias.
Fico pensando como seria ruim para o bebé, que ainda não nasceu crescer sem um pai por perto.
Eu cresci sem mãe e foi horrível.
- Você perdeu sua mãe com que idade?
- Não perdi, ela nos...
Eu pensava que ela tivesse ido embora, mas agora soube que a história era diferente da que me contavam.
Enfim... Ela e meu pai se separaram quando eu tinha quatro anos.
- Sua mãe é viva?
- Sim - suspirou.
Creio que de certa forma se estou aqui foi por causa dela.
Ela me procurou um dia desses - resumiu o encontro.
- Depois que soube que ele não pensava em se separar o que você fez?
- Eu chorei, no começo só chorei.
Depois fui ajudada por Toninha, esse é o nome da minha mãe.
Ah, ela é espírita, ou como diz, está tentando ser.
Bem, ajudada por ela saí do emprego, arrumei minhas coisas e fui ficar em um convento, cuja directora é conhecida dela.
Lá eu ajudei no que pude, principalmente colocando a correspondência em dia - fez uma pausa.
Mas ele me achou, não sei bem como, e tive que sair.
- Soube que você está com a Rita.
- Sim. Ela é um amor.
Mas, preciso cuidar da vida.
A porta da sala se abriu, assustada Gisele olhou para trás.
- O que foi? - Teresa perguntou.
- Eu tenho medo de que ele me encontre.
- Calma. Procure ter bons pensamentos, eleve seu pensamento a Deus sempre que tiver medo, dúvidas, peça auxílio ao seu anjo da guarda, seu mentor individual, como dizemos na Doutrina Espírita - fez uma pausa.
Disse que precisa cuidar da sua vida, o que quer dizer exactamente com isso?
- Preciso arrumar um emprego.
- Emprego... Já pensou em sair de São Paulo?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:26 am

Gisele sorriu:
- Faz poucos meses que estou aqui...
Mas... Devido às circunstâncias, creio que seria melhor sair.
- Gisele, talvez eu tenha um emprego para você.
Por iniciativa de algumas pessoas aqui da Casa, nós temos um painel ali na entrada, no qual são colocados alguns anúncios, tais como:
compra e venda, conserta-se, e também empregados procurados.
Coincidentemente, agora, minha irmã Nair pediu para que eu colocasse um pedido de secretária.
Ela mora em Mirante da Serra, conhece?
- Não.
- É um local bonito a 150 km da capital.
Ela é viúva, mora com a sogra e os filhos em uma chácara.
Eles têm um pesqueiro.
Estão precisando de uma pessoa para, digamos, dar uma força para as mulheres.
Eles estão bem financeiramente e podem pagar um bom ordenado.
Você dirige, não?
- Sim. Eu tenho carro.
- Ah, bom.
Às vezes elas precisam ir ao médico ou à cidade e não tem quem as leve, pois o Murilo, o filho que cuida do pesqueiro e da plantação de uvas, é muito ocupado.
- Mas, será que eu darei conta do recado?
Nunca fui dama de companhia.
- Gisele, o que faz em casa o dia todo, quando Rita vai trabalhar?
- Eu... Bem... - abaixou os olhos. - Vejo tevê.
- O tempo todo?
Ou fica chorando pensando no ex-namorado?
- Bem - olhou para ela.
Às vezes eu choro - sentiu lágrimas virem aos olhos.
- Gisele, você precisa se dar uma oportunidade.
Ela continuou a chorar.
Teresa lhe estendeu um lenço de papel.
- Sei que deve ser difícil, mas a vida continua.
Será que realmente quer mudar de vida?
Ou está esperando encontrar seu namorado e reatar.
- Não - respondeu ainda chorando.
- Então reaja, vamos mudar.
Qualquer um pegaria esse emprego sem pestanejar.
Pouco serviço, boa remuneração.
- Eu realmente não sei - controlou as lágrimas.
- Creio que precisa melhorar seu astral, elevar seus pensamentos, sei que não é fácil, mas...
Tudo passa na vida. Você tem se alimentado bem?
Tem procurado se distrair?
- Mais ou menos.
- Garanto que emagreceu, e que não tem saído.
- É verdade, perdi quatro quilos.
- Gisele, você quer continuar a viver com alegria, para dar uma chance a si mesma, ou quer ser como as heroínas de antigamente, que definhavam e morriam ou iam parar em um convento em nome de um amor perdido?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:27 am

Chorando, ela respondeu em voz mais alta que o normal:
- Quero continuar a viver!
- Muito bem, é assim que se fala.
Eu vou encaminhá-la para tomar um passe.
Quero que não se esqueça de fazer suas orações, a Rita poderá auxiliá-la.
Quanto ao emprego traga-me o seu currículo e me comunicarei com Nair para acertarmos tudo. Está bem?
Gisele foi encaminhada a outra sala, onde tomou um passe.
Saiu de lá se sentindo mais calma e mais conformada.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:27 am

Capítulo 20 - Novo emprego

No final de semana Gisele, seguindo os conselhos de Teresa, pediu a Rita que a levasse a um shopping para passear.
Lá elas fizeram algumas compras, foram ao cinema e depois tomaram lanche.
Quando voltaram para casa Gisele sentia-se melhor.
Quanto ao emprego, Teresa comunicara que estava tudo certo.
Ela seria registada como secretária do pesqueiro, e na verdade, ganharia até um pouco mais que no emprego anterior.
Teresa informara também que Murilo, seu sobrinho, sugerira que o contrato vigorasse a partir do dia 1º do próximo mês, assim Gisele poderia ir até com calma e ficar uns três dias ou quatro dias se ambientando.
Assim, na terça-feira seguinte (Rita insistira para que ela não viajasse na segunda-feira, devido ao movimento), logo cedo ela colocou a bagagem no porta-malas e saiu rumo à Via Anhanguera.
Depois de rodar uns 90 quilómetros, saiu da rodovia e pegou uma estrada vicinal, que a levaria ao seu destino.
Logo avistou as placas indicando Mirante da Serra a 3 quilómetros.
Um pouco antes da entrada da cidade ela parou em um posto de gasolina, para pedir informações sobre o pesqueiro, que ficava na zona rural, em um bairro chamado Felizópolis.
Um rapaz tatuado, cheirando a cerveja, indicou o caminho.
Após ter ido ao banheiro, para se refrescar, decidiu almoçar no restaurante anexo.
Sentou à mesa e degustou uma refeição simples, bastante diferente dos requintados pratos que comia com César.
Depois de ter tomado um cafezinho, dirigiu-se ao caixa.
Na fila, à sua frente um senhor magro, de cabelos totalmente brancos que aparentava ter uns 70 anos, enquanto pagava conversava com a moça.
- Júlia, sua mãe está melhor?
- Sim, ela melhorou bem.
Muito obrigada pela força que o senhor nos deu Sr. João Oswaldo.
- Querida, quem dá a força é Jesus.
Dê meu abraço a ela, diga que estamos com saudades, tchau.
Gisele entregou a comanda à moça, pagou a conta, saiu dirigindo-se calmamente para seu carro.
Antes de entrar ficou contemplando por minutos o belo espectáculo do rio que passava atrás do restaurante.
Ali formava uma corrente que saltava sobre as pedras, formando nuvens de espuma.
Tentando se acalmar para assumir a nova colocação, entrou no carro e atendendo ao conselho de Teresa, rogou a Deus que a protegesse em sua nova jornada.
Ligou o motor, manobrou, ganhou a estrada que dava acesso à cidade, juntamente com uma chuva fina de primavera.
Pouco tinha andado quando viu uma pessoa, sem abrigo, caminhando pelo acostamento.
Dando seta ela passou pelo caminhante e parou.
Quando ele se aproximou viu que era o tal do João Oswaldo.
- Boa tarde. O senhor quer uma carona?
- Opa, que bom, quero sim.
Ele entrou e enquanto Gisele voltava para seu caminho o homem tirou um lenço do bolso, enxugou as mãos e o rosto.
- Se o senhor quiser, eu tenho lenços de papel no porta-luvas.
- Que bom, posso pegar alguns?
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:27 am

- Pegue quantos precisar.
Ele pegou os lenços e calmamente continuou a se enxugar.
- Puxa, eu nem perguntei se o senhor vai para o mesmo rumo que eu.
O senhor olhou para ela firmemente.
Gisele teve receio de ter ficado com migalhas da refeição espalhada pelo rosto.
Depois de contemplá-la intensamente ele disse:
- Você é uma bela moça.
Seus pais não lhe disseram que é perigoso dar carona para estranhos?
- Eles me ensinaram a Parábola do Bom Samaritano.
Ele riu, brandamente.
- Muito bem, eu vou à direcção do bairro Felizópolis, e a senhora?
- Puxa, que coincidência, eu também vou para aqueles lados.
Por favor, me chame pelo meu nome:
Gisele - disse com a atenção na estrada.
- Muito prazer, Gisele.
Meu nome é João Oswaldo.
Você vai para a Pousada?
- Pousada? Não, acho que não.
Vou para o Pesqueiro Bela Vista.
O homem olhou para o banco de trás.
- Não estou vendo a vara de pesca.
Vai comprar uma lá?
- Vara de pesca? Ah, não.
Eu não vim para pescar, vim para trabalhar com dona Nair - respondeu séria.
- Veio trabalhar com a Nair?
Mas que bom! Ela é uma óptima pessoa.
Aliás, todos lá são maravilhosos.
- Então, o senhor os conhece?
- Sim, há muitos anos.
Nós somos amigos e trabalhamos no mesmo Centro Espírita.
- Quer dizer que é espírita?
- Sim. Trabalho no Vinha de Luz.
Fica ali na cidade - apontou para frente.
E você, pertence a alguma religião?
- Bom, tive uma avó muito católica.
Daquelas que ia à missa todos os dias.
Mas eu não sigo nenhuma, porém estive no Centro Espírita Bezerra de Menezes em São Paulo.
Foi Teresa, a irmã de dona Nair quem me arrumou o emprego.
- Eu a conheço, ela é óptima pessoa.
- "Parece que nessa família todo mundo é óptimo", - ela pensou.
O silêncio só era quebrado quando ele dava indicações sobre o caminho.
Depois de terem entrado e saído da cidade, pegaram outra estrada, onde apareceu uma placa indicando:
Felizópolis a 5 quilómetros.
Passaram por uma fileira de lojas esparsas, revenda de tractores, avícola, posto de gasolina, armazém rural e até bar e restaurante.
Gisele notou outra pessoa, usando um grande chapéu, que andava pelo acostamento, mas estava sem abrigo.
- O que o senhor acha de darmos carona para aquele homem que está andando ali?
- Ah, minha jovem, é melhor não.
Aquele é o Arnaldinho Beira Bar.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:27 am

- Como? Arnaldinho Beira Bar?
Quem é ele?
- É o bêbado da cidade, ou melhor, um dos.
Acho que é o mais bebum de todos por aqui.
Ele é encrenqueiro, truculento, dizem que topa tudo por dinheiro - fez uma pausa.
Fuja dele se o encontrar por aí.
- Certo, não vou esquecer seu conselho.
- Logo ali adiante, se fizer a gentileza de entrar à esquerda, me deixará na porta de casa - pediu ele.
- Claro, sem problema, ainda mais com essa chuva.
Gisele seguiu as orientações e logo avistou a casa que ficava em uma pequena chácara.
Era uma casa térrea, circundada por um cuidado jardim.
Viam-se atrás algumas árvores frutíferas.
Com a mão na maçaneta, ele disse:
- Gisele, nem sei o que dizer da sua gentileza.
Minha menina hoje em dia é muito rara as moças que têm o coração bom para dar carona para um velho que não conhecem.
Muito obrigado.
- Não por isso.
- Escute, posso lhe pedir um favor?
- Claro - "que será que ele quer" - pensou intrigada.
- Gostaria que viesse conhecer minha casa.
Fique com meu telefone - enfiou a mão no bolso tirou um cartão e o entregou a ela.
- Ah, diga ao pessoal que mandei lembrança - disse ao descer do carro.
Tchau, vá com Deus.
- Tchau.
Ao vê-la se afastar, João Oswaldo se perguntou qual seria o fardo que alguém jovem e bonita carregava para estar com o olhar tão triste e a fisionomia tão fechada.
Gisele diminuiu a marcha do carro e entrou na estrada estreita que conduzia ao novo emprego, onde encontrou duas placas:
"Residência, à frente" e "Pesqueiro e Pousada, à direita".
Andou cerca de um quilómetro, fez uma curva para a direita e avistou um imponente sobrado, rodeado por plantações, que lhe pareceu uma verdadeira mansão.
Construída em estilo colonial e muito bem conservado, a casa era de facto muito bonita.
Tinha amplas janelas e uma grande varanda.
Estacionou, ficou por instantes contemplando o local.
Ajeitou os cabelos, saltou do carro.
Ali parecia um pouco mais frio do que na cidade, pensou, enquanto continuava a lançar os olhos sobre os arredores.
"Recanto dos Fernandes" anunciava uma grande placa de madeira rústica, pendurada sobre a porta de entrada.
Gisele tomou fôlego.
Era ao mesmo tempo mágico e assustador estar naquele local.
Valeria à pena ter vindo? - perguntou-se, lutando contra o aperto que se instalara em seu peito.
Não teve tempo de cogitar na resposta.
Uma mulher de cerca de sessenta anos, baixa e robusta, que lembrava Teresa, saiu da casa e caminhou em sua direcção.
Ela usava calça jeans e camiseta.
Tinha olhos castanhos, vivazes e bondosos.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:27 am

- Oi, é a Gisele, né?
Se eu fosse você não ficaria aqui fora por muito tempo - a voz soava simpática e agradável.
Ainda está chovendo e corre o risco de se resfriar.
Tomando a moça pelo braço, conduziu-a para dentro.
Gisele sentiu uma simpatia imediata por aquela senhora.
Ao entrar no imenso vestíbulo e sentir um cheiro bom de óleo de peroba e limpeza, ela teve a impressão de estar em um lar acolhedor e confortável.
- Agora, sim, podemos nos apresentar.
Sou Nair, bem-vinda ao nosso convívio - disse isso e estreitou a moça em seus braços, beijando-a nas faces.
Então? Fez boa viagem?
- Sim, muito obrigada, dona Nair - sentiu os olhos molhados.
- Que bom, antes de apresentá-la aos outros, quero lhe oferecer um lanche.
Como eu não sabia seus gostos nem a hora que ia chegar, providenciei refrigerante e suco.
Mas se preferir café, podemos coar.
- Nossa, quanta gentileza.
Um suco estaria muito bom.
- Então vamos à cozinha.
Enquanto atravessavam o vestíbulo, Gisele teve tempo de notar que o chão era composto por largas tábuas de ipê.
Viu junto da escada, que conduzia ao andar de cima, um belo piano.
Os móveis e enfeites pareciam ter sido muito bem escolhidos, dando a impressão de aconchego.
A copa-cozinha era ampla e moderna.
Vários armários ocupavam as paredes.
Possuía duas espaçosas janelas ornadas com vasos de violetas.
Nair colocou na mesa vários tipos de suco, refrigerantes, pães e biscoitos suficientes para alimentar um bando de pessoas famintas.
- Querida, fique à vontade.
Olhe, vou mostrar onde guardamos nossos alimentos, quero que se sirva, sem cerimónia, a qualquer hora do dia ou da noite - olhou para a moça.
Eu acho horrível essa mulherada que está sempre de dieta, sem necessidade.
Se me permite dizer, uns quilinhos a mais lhe fariam bem.
Gisele sorriu com a franqueza dela.
- Realmente, eu emagreci uns quatro quilos.
- Estou notando que sua roupa parece um pouco folgada.
Bem, não ligue para os comentários dessa velha, afinal, logo vou fazer sessenta anos e na minha idade a gente já tem certa liberdade de palavras.
Conversaram por uns trinta minutos.
Gisele ficou sabendo que seus filhos Murilo e Renata, estavam trabalhando, ele no pesqueiro, ela em sua clínica dentária no centro da cidade.
Marlene, a sogra, estava deitada.
Gostava de tirar um cochilo após o almoço.
- Bem, minha querida, você deve estar cansada.
Que tal subirmos para conhecer o seu quarto?
Leve só o que for precisar por ora, depois Murilo mandará alguém levar a sua bagagem.
Subiram as imponentes escadas e entraram em um longo corredor.
Gisele tentava adivinhar quantos quartos tinha a casa.
Como se adivinhasse seus pensamentos, Nair disse:
- Quando meu avô construiu essa casa, mandou fazer um sobrado, porque queria contemplar a paisagem, a bela vista que daqui se pode ter.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:28 am

Como estava noivo, e pretendia ter muitos filhos, mandou fazer seis quartos enormes, hoje divididos e alguns transformados em banheiro ou depósito.
- Eles tiveram muitos filhos?
- Sim, cinco, quatro meninas e um menino, mas só meu pai quis ficar aqui.
As mulheres se casaram e foram embora.
Passaram por várias portas fechadas.
Quase no final do corredor, Nair girou a maçaneta do penúltimo quarto à esquerda.
Antes de entrarem ela disse, apontado para a última porta:
- Ali é a minha suite.
Depois vou mostrá-la a você.
Gisele entrou no amplo e confortável quarto e foi como se voltasse à infância.
As paredes eram forradas de fotos e posters.
Havia uma estante com objectos femininos, duas camas, um guarda-roupa, mesa, penteadeira, aparelho de tevê.
Uma boa poltrona, que com um abajur de pedestal ao lado convidava a uma agradável leitura.
- Este quarto era da Teresa.
Ainda está decorado com algumas coisas dela.
As duas camas estão arrumadas, escolha a que mais gostar.
Espero que esteja o seu gosto - falou cerimoniosamente.
- Dona Nair, este quarto é lindo!
Quem não gostar dele, não merece nunca mais ter um teto.
As palavras caíram direitinho no coração de Nair, que dando um sorriso disse:
- Obrigada. Venha cá, quero lhe mostrar a vista - dirigiu-se à porta-janela e a abriu.
Saíram para a varanda.
Gisele sentiu a brisa húmida, trazida pela chuva a lhe arrepiar a pele.
A paisagem era muito bela.
Além do bem cuidado jardim, ora molhado pela chuva que cessara a pouco, via-se um pomar de árvores frutíferas.
Um pouco além, um riacho corria mansamente entre as pedras.
Ao longe, algumas montanhas cobertas de luz e sombra pareciam lhe dar boas-vindas.
- Aqui realmente é um lugar muito lindo!
Todas estas terras lhes pertencem?
- Não, no tempo do meu avô, eram muitas as terras, mas foram divididas.
Cada filho ficou com uma parte.
A parte que me tocou nesse latifúndio - disse imitando a música - não era grande, mas meu marido comprou a parte da Tereza.
Nós construímos uma pousada, mas com a morte dele, decidimos arrendá-la.
Ficamos com o pesqueiro e com a plantação de uvas, isso já é muito para Murilo cuidar.
Bem, vou parar de tagarelar.
Fique à vontade, ah, sim, além do lavabo que você já usou lá embaixo, nós temos dois banheiros aqui em cima.
O maior, cujo chuveiro é muito bom, fica a duas portas à direita, logo depois do quarto do Murilo.
- Bom, preciso saber a que horas vocês tomam banho.
Não quero invadir a privacidade da turma.
- Ah, não se preocupe com isso, eu uso minha suite.
Renata e dona Marlene gostam do banheiro menor, o primeiro do lado de lá do corredor.
Você só vai dividir esse com o Murilo.
Até mais querida, descanse um pouco.
Gisele tirou seus objectos de toalete do nécessaire.
Descalçou os ténis, pegou uma toalha que estava sobre uma cadeira, rumou para o banheiro, onde se refrescou.
Voltou para o quarto, olhou para a cama, tirou a colcha florida, assim como florida era a cortina e deitou-se para um cochilo.
Acordou com alguém batendo na porta.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:28 am

Capítulo 21 - Gisele conhece Murilo

Sonolenta, abriu a porta.
Um homem alto e magro estava na soleira.
Tinha bastos cabelos negros, entremeados por fios prateados, olhos negros, fundos e serenos, que davam a impressão de uma bondade e compaixão difíceis de encontrar nos seres humanos.
Não era bonito.
- Boa tarde, eu sou o Murilo.
Seja muito bem-vinda à nossa casa.
Ao falar contemplou-a com tal intensidade que Gisele se perguntou se estava com o rosto amassado, devido à soneca que tirara.
Ele tinha um belo sorriso e uma voz cálida e maviosa, tipo da voz dos antigos locutores de rádio, que a avó escutava no seu tempo de criança.
- Muito prazer, Sr. Murilo.
- Sr. Murilo? Murilo, por favor - pediu exibindo um belo sorriso, que deixava ver dentes claros e perfeitos.
- Está certo, mas, por favor, me chame de Gisele.
- Gisele, onde quer que eu coloque as malas?
- Ali perto do guarda-roupa, por favor, Murilo.
Virando-se de lado disse a alguém que ela não pôde ver:
- Obrigado pela ajuda, Everaldo.
Ele se inclinou e puxou as malas que começaram a rodar pelo chão bem encerado.
Quando passou por ela, Gisele notou que ele mancava e tinha as costas um pouco curvadas.
- Aqui está bom?
- Sim, está óptimo.
- Mamãe, mandou avisar que o jantar será servido daqui a vinte minutos - disse sorrindo.
- Está bem. Ah, Murilo, eu gostaria de conversar sobre as condições de trabalho.
- Está certo.
Condições de trabalho devem ser discutidas previamente, para evitar problemas, mas nós ainda não começamos.
Que tal falarmos sobre isso amanhã, lá pelas 17 horas?
Quero adiantar que seu horário será flexível, não gosto que ninguém se prenda ao relógio.
- Está certo.
- Muito bem, aproveite amanhã para dar umas voltas por aí e se ambientar.
A redondeza por aqui costuma ser tranquila.
Ali adiante, na estrada, à esquerda, tem um belo mirante que vale a pena você visitar - fez um gesto com a mão.
Então, vou descendo.
Até daqui a pouco - ia saindo, voltou:
- Ah, não deixe de ver a nossa cascata.
Quando ele saiu, Gisele pensou que Murilo devia ter uns 38 anos.
Errou por 2, ele tinha 36.
A sala de jantar iluminada, e a mesa bem arrumada, com cristais e flores pareciam lhe dar as boas-vindas.
Ao lado do aparador de mogno uma moça alta, de cabelos castanhos, conversava com um rapaz bem moreno.
À entrada de Gisele, ela se aproximou com a mão estendida.
- Boa noite, você deve ser a Gisele, eu sou a Renata este é o meu noivo, Ronaldo.
Nós somos dentistas, quando precisar... - concluiu com um alegre sorriso.
- Muito prazer, puxa dois dentistas!
Já vi que não vou ter como escapar do motorzinho.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:28 am

- Olá, que bom que desceu, vejo que já conheceu minha caçula e o Ronaldo, agora vou lhe apresentar minha sogra, dona Marlene - disse Nair.
Marlene, era uma senhora baixa e gorda, tinha expressivos e belos olhos azuis.
- Menina, bem-vinda entre nós!
Espero que possamos passar agradáveis momentos juntas - disse com um sorriso nos lábios.
Bem, mas agora, chega de conversa, vamos nos sentar, estou faminta.
Murilo e Nair ocupavam as cabeceiras da mesa.
Os noivos ficavam do lado direito de Nair, e Marlene do esquerdo.
Gisele foi acomodada, ao lado de Marlene, tendo Ronaldo à sua frente e Murilo à sua esquerda.
Durante o jantar a conversa foi bastante animada, falaram sobre vários assuntos.
Após a saborosa refeição - que fora deixada pronta por Lia, a empregada - levaram a louça usada para a cozinha e a acomodaram no lava-louças.
Depois foram para a sala de visitas, conversar, enquanto tomavam café e licor.
Gisele ficou sabendo que Nair tinha mais uma filha:
Rosana, que era casada e morava com o marido em Ribeirão Preto, onde tinham uma revenda de carros.
- Você sabe como é - disse Nair -, a loja deles abre todos os dias, às vezes até aos domingos, assim eu pouco vejo meus netos, Paulo e Priscila.
- Que idade eles têm?
- Quem? Rosana?
Ela está com trinta e dois e Rogério trinta e cinco - Nair respondeu.
- Mamãe, Gisele quer saber a idade das crianças.
- Ah, Paulo tem nove e Priscila sete.
Renata é a minha "raspa de tacho", veio quando os outros já eram grandinhos.
- Antes que mamãe fale, vou contar:
tenho vinte e seis anos.
E Ronaldo vinte e oito.
Pretendemos nos casar em Dezembro - Renata falou, olhando ternamente para o noivo.
- Você tem que idade meu bem? - Marlene perguntou, mostrando curiosidade no olhar.
- Vovó, não seja indiscreta - disse Murilo.
- Não tem importância, eu tenho vinte e dois anos.
Nasci mais ou menos aqui perto, em Celmópolis.
- Eu já estive lá uma vez - disse Ronaldo.
Sua família mora lá?
- Minha família? Não... - fez uma pausa.
Papai mudou, bem... Meus pais são separados.
Eles se separaram quando eu era pequena.
Papai, recentemente se casou novamente e foi morar em Mato Grosso.
Sua esposa está grávida.
Murilo levantou da poltrona onde estava sentado.
- Pessoal, eu vou lá fora dar uma olhada no céu.
Gisele, como veio de São Paulo, talvez esteja com saudades de ver as estrelas no céu do interior, se quiser me acompanhar...
- Claro - disse levantando-se.
- Lá fora deve estar ventando, se você quiser, pegue meu casaquinho que está ali no porta-chapéus, ao lado da porta da entrada.
- Obrigada, dona Marlene, vou aceitar.
Enquanto Gisele colocava o agasalho nas costas, Murilo examinava várias bengalas que estavam no porta-chapéus, finalmente decidiu-se por uma que colocou no braço.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:28 am

Manquitolando, abriu a porta, fez sinal para que ela saísse.
Passaram pelo terraço e saíram no pátio de cascalho.
- Vamos até ali - disse ele, indicando com a mão.
Caminharam em silêncio, ele apoiando-se na bengala.
Após uns vinte metros, saíram da sombra das árvores.
- Daqui podemos ter uma bonita vista do céu, que esta belo, apesar da chuva da tarde.
A lua crescente e pálida iluminava o local.
O céu quase sem nuvens permitia que se visse o brilho das estrelas.
O cheiro de jasmim, a quietude do local, quebrada apenas pelo cri cri dos grilos, penetraram no coração dela, causando uma sensação de paz.
Após alguns minutos, voltaram.
Ele a acompanhou até a porta, onde se despediu, dizendo que iria até a cocheira verificar os cavalos.
Foi embora manquitolando, deixando um agreste perfume no ar.
Ao entrar, Gisele foi invadida por uma romântica melodia que Renata - tendo o noivo ao seu lado - tocava ao piano.
Ficou escutando, até a melodia terminar de ser tocada.
Após dizer boa noite a todos, foi para o seu quarto.
Marlene, sentada em uma fofa poltrona, com um pano de prato nas mãos, no qual tecia uma barra de croché, disse após os passos da moça sumirem:
- Nair, Murilo me pareceu encantado com essa moça.
- A senhora também notou?
- Sim. Tomara que ela saiba apreciar a bondade dele.
- Eu... Não sei.
Sabemos que veio para cá devido a uma grande desilusão amorosa.
- Bobagem, tudo passa nesta vida.
Logo ela vai se recuperar.
- É, quem sabe!
Debaixo das cobertas, embalada pelo som do piano, Gisele adormeceu, sem conseguir impedir que seu pensamento tosse ao encontro de César.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:28 am

Capítulo 22 - Adaptação

O pipilar dos pássaros acordou Gisele.
Espreguiçando-se levantou, abriu a porta-janela, saiu na sacada e deteve-se alguns instantes, olhando para o bem cuidado jardim que os raios de sol acariciavam.
Ao ver Murilo, caminhando em direcção a casa, acompanhado por um senhor negro, alto e forte, ela retrocedeu, pois estava apenas de camisola.
Após arrumar parte de suas coisas, no armário e nas gavetas, desceu.
Na cozinha, encontrou uma moça morena, alta, que a saudou com um belo sorriso.
- Bom dia. Eu sou a Lia, e aquela é a minha filha Sabrina.
- Bom dia. Sou a Gisele.
Disse, aproximando-se do cercadinho, onde uma menininha de uns dois anos brincava.
- Oi Sabrina, como vai? - a criança olhou para ela com seus belos olhos negros e sorriu, dizendo alguma coisa em seu vocabulário particular.
- Quer tomar café? Ela hesitou.
- Onde estão os outros?
- Ah, só o seu Murilo está acordado.
As "meninas" geralmente levantam mais tarde.
Uma porta que ficava ao fundo, e que ela ainda não notara foi aberta.
- Bom dia Gisele! - disse Murilo com sua voz sonora.
Vamos tomar café?
A mesa estava posta como se costumava ver nos chás dos restaurantes coloniais.
Sentaram-se e Lia os acompanhou.
- Então, como está minha afilhada? - ele perguntou apontando para a criança.
- Está bem. Graças a Deus ela é uma criança calma me deixa fazer o serviço.
- É a primeira? - Gisele perguntou.
- Primeira e última!
Você sabe como é, a gente se deixa levar pela conversa de um sem-vergonha qualquer e quando menos espera, fica grávida e só.
- O romance entre vocês não deu certo? - Gisele perguntou.
- Ah, minha filha, o danado é casado, fez várias promessas dizendo que ia deixar a esposa por minha causa, mas era só conversa.
Ainda bem, que esta casa me acolheu, senão nem sei o que seria de mim.
Minha filha é linda, mas o pai nem sequer a vê.
Pensão então... É difícil ele dar.
Agora estou na justiça brigando para que ele pague os atrasados e um salário mínimo por mês.
Aqui não me falta nada, mas quero fazer uma poupança para Sabrina.
Nisso a menina choramingou e Lia foi até ela e a pegou no colo.
Gisele estremeceu, pensando que poderia estar na situação da moça, com um filho nos braços.
Voltou ao presente, quando Murilo disse:
- Gisele, gosta de andar a cavalo?
- Sim, porém faz algum tempo que não monto.
- Temos, aqui, boas e calmas montarias.
Quando quiser é só falar com o Marião que ele providencia para você.
- Marião? Quem é?
- É nosso zelador.
Logo mais, vou apresentá-lo a você.
Terminado o café, ele a conduziu pela porta dos fundos.
Passaram por um terraço repleto de confortáveis poltronas de palhinha, e decorado com exuberantes plantas.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 06, 2016 9:29 am

Logo adiante o cenário deixou Gisele encantada.
Em meio à bem cuidados arbustos e flores multicoloridas, uma pequena piscina de águas azuis parecia convidá-la para um mergulho.
- Que lugar bonito!
- Gostou? - ele perguntou fitando-a nos olhos.
Fique à vontade para cair na piscina, todas as vezes que tiver vontade.
Veja, temos à direita nosso pomar, quando quiser uma fruta fresca é só você colher.
- Puxa, que bom! Mas, se eu ficar só na água feito um jacaré, não vou trabalhar.
- Ah, deixe disso.
Tenho certeza de que fará tudo a contento.
Venha, vamos até a casa do Marião e da Nancy.
A casa ficava a uns quinhentos metros, logo após o pomar, tendo o arroio aos fundos.
Murilo bateu no batente da porta com os nós dos dedos:
- Nancy, venha cá.
- Bom dia, seu Murilo - uma mulher simpática apareceu e olhou com curiosidade para a moça.
- Bom dia. Esta é a Gisele, que teve a bondade de vir da capital para nos dar uma mão.
Você sabe, mamãe detesta dirigir e ela vai acompanhá-la à cidade e outras coisas.
Ah, sabe, Gisele é óptima no computador e fala inglês, melhor do que a Madona.
- Como sabe disso? - Gisele perguntou rindo.
- Sei, porque sei, ora essa. - Murilo respondeu rindo, também.
- Muito prazer Nancy.
- Prazer dona. Então fala "ingreis"?
E entende de computado?
E bem disso que o Everardo precisa.
Mas, vamo entra - bateu com a mão na testa.
Descurpe minha farta de jeito.
Na simples e agradável sala, ela contou que tinha cinco filhos.
O mais velho, Everaldo, queria fazer faculdade de computação, mas estava com dificuldade no inglês.
- Ah, mas isso não é problema, se a senhora quiser, nas minhas horas vagas, posso dar umas aulas de reforço, para menino.
- Menino? - Murilo sorriu.
Espere só para ver.
Ele tem quase um metro e noventa.
Saiu grande igual ao pai.
Logo Marião, que era o negro que ela vira da janela, chegou.
Após as apresentações e Nancy prometer que levaria os filhos para conhecê-la, levantaram-se para se despedir.
Nancy olhou para ela, seu acanhamento a impedia de tornar a falar sobre o 'ingreis'.
- Então, dona Nancy, que tal a gente combinar as aulas para sábado?
A mulher exibiu um satisfeito sorriso.
- "Craro", está óptimo.
Sabe, nóis não qué que nossos filhos fiquem burros como a gente.
- Burros, nada, Nancy, vocês apenas não frequentaram muito a escola, mas têm muito conhecimento das coisas, ah, se tem...
Eu não seria nada sem o Marião - disse Murilo.
- Ah, seu Murilo, o sinhor inté parece pai do Everardo.
Num é à toa qui é seu padrinho.
- Não concordo com as aulas no sábado - disse sorrindo.
Nancy olhou surpresa para o patrão.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:21 am

- Sábado é dia da folga da Gisele.
Vamos agendar algum outro dia durante a semana.
- Mas e as minhas obrigações?
Ele sorriu brandamente:
- Mas, que secretária dedicada nós arrumamos.
Você não terá trabalho o dia inteirinho, combine as aulas, para...
A que horas ele vai à escola?
- O cursinho é de manhã.
- Então, as aulas poderão ser às quatro da tarde, uma ou duas vezes por semana.
Gisele foi ao seu quarto, pegou um chapéu, colocou na cabeça, desceu e saiu em direcção à estrada.
Atendendo a sugestão de Murilo, foi explorar as redondezas.
Tinha andado cerca de um quilómetro, quando notou uma pessoa vindo em sua direcção, firmou a vista:
João Oswaldo caminhava pelo acostamento.
Dali a instantes estava junto dela.
- Gisele, como vai?
- Bem, e o senhor?
- Diga-me: o pessoal está te tratando bem?
Se não estiverem eu vou lá ter uma conversinha com eles... - disse em tom de brincadeira.
- Estou sendo tão bem tratada, que nem tenho o que dizer.
O senhor veio fazer sua caminhada?
- Sim. Você deu meu abraço a eles?
Ela levou a mão à boca.
- Hi... Desculpa, eu esqueci.
- Não tem importância - fez uma pausa.
Já esteve no mirante?
- Não - balançou a cabeça. - É aqui perto?
- Sim. Logo adiante.
Vamos até lá?
- O senhor veio daqueles lados, vai voltar, só para me acompanhar?
- Claro querida.
Acha que vou perder a oportunidade de estar ao lado de uma mulher jovem e bonita?
Gisele sorriu com o galanteio.
Andaram um pouco.
Apareceu a placa: mirante a 300 m.
Saíram da estrada, passaram por um estreito caminho de pedras.
Logo estavam diante de um patamar também de pedras.
Gisele se aproximou.
Embaixo via-se um lindo vale.
Pássaros gorjeavam nas árvores, um regato límpido corria por entre pedras.
O céu azul, salpicado por nuvens brancas esfiapadas e o perfume do mato, deixaram Gisele maravilhada.
Ficou por vários minutos contemplando o espectáculo da natureza.
Depois, lentamente se virou:
- Eu não me lembro de ter visto uma paisagem tão bela!
- Fico contente de que tenha gostado - fez uma pausa.
O sol está ficando quente - olhou o relógio.
São quase onze horas, vamos embora?
Ao voltarem à estrada um homem baixo, que usava um chapéu elegante na cabeça, chegou junto deles.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:22 am

- Bom dia - disse com voz pastosa.
João Oswaldo retribuiu o cumprimento.
Quando o homem estava a alguns metros, disse:
- Este é o Arnaldinho Beira Bar, que vimos andando na chuva outro dia.
Na Doutrina Espírita não devemos ter preconceito contra ninguém, mas ele é perigoso.
Dizem ser usuário e traficante de drogas.
Se bem remunerado, faz qualquer trapaça.
- O que o senhor recomenda que se faça com esse tipo de pessoa?
- Bem, já que não podemos tê-los como amigos do peito, podemos orar por eles, pedir a Deus que os abençoe.
Não devemos ter raiva e nem hostilizá-los.
Algum dia eles encontrarão Jesus e deixarão suas vidas desregradas.
Ao chegarem à entrada do pesqueiro ele se despediu, dizendo que tivera uma excelente manhã.
Quem sabe no dia seguinte poderiam repeti-la.
Após se refrescar, Gisele estava em seu quarto, quando bateram à porta.
Ao abrir, se deparou com uma mulher morena clara de uns quarenta anos.
- Bom dia! - falou alegremente estendendo a mão.
Eu sou a Clara, a arrumadeira.
Dona Nair mandou avisar que o almoço será servido em dez minutos.
- Bom dia, Clara.
Obrigada, já estou descendo - respondeu pensando que ali se almoçava cedo.
A mesa, sentaram-se nos mesmos lugares, porém desta vez, nos antes ocupados pelos noivos, estavam Lia e Clara.
Mais tarde, com a casa em silêncio, devido à soneca da tarde que as mulheres mais velhas faziam, Gisele, ao invés de dormir, decidiu terminar de arrumar suas coisas e depois conhecer melhor a propriedade.
Saindo pelos fundos da casa, foi à esquerda em direcção ao pesqueiro.
Lá chegando, andou pela beira do lago, os seixos rangendo sob os ténis.
Ao longe, sob o vento brando, o gado pastava.
Respirando fundo, deixou que a beleza e a tranquilidade do local penetrassem em seu coração e tentou manter César longe de seus pensamentos o que quase conseguiu.
Bastava, porém, um descuido e a imagem dele flutuavam em sua mente.
- "Droga - pensou - eu poderia estar como a Lia, além de só, com um filho nos braços."
Às 17 horas foi ao escritório, que ficava no andar de baixo, à direita da sala de visitas.
- O escritório fica aqui embaixo, você entende, não é?
Fica mais fácil para Murilo - dissera Nair.
Sim, ela entendia, era devido à deficiência dele.
Respirando fundo, tentando acalmar as batidas do seu coração, ela girou a maçaneta, pediu licença e entrou.
Era um cómodo grande, com móveis escuros bem lustrosos, que faziam contraste com as cortinas coloridas.
Duas poltronas, colocadas ao lado de uma estante repleta de livros, convidavam à leitura.
Era um aconchegante recanto familiar, cujo computador, que ficava perto de uma das janelas, contrastava com a antiguidade dos móveis.
Do lado esquerdo havia uma porta que dava para o terraço, onde um cachorro pachorrento dormia.
Esperava que este novo trabalho fosse bem melhor sucedido do que o anterior.
Murilo a recebeu com um gentil sorriso.
Explicou suas funções (que eram bem fáceis), disse novamente que não era exigida dedicação plena, ela poderia distribuir as tarefas a seu critério.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:22 am

Apenas as idas à cidade, com a mãe e a avó, tinham geralmente data e horários certos.
Nesta semana, apenas na sexta-feira elas tinham horário marcado no consultório médico, às 9h30.
Gisele deveria levá-las.
Por falar nisso, no dia seguinte ele teria que ir à cidade, logo após o almoço, e se Gisele quisesse acompanhá-lo, teria a oportunidade de conhecer alguns lugares.
E finalmente ele perguntou se ela não se incomodava em enviar e responder alguns e-mails, para ele, referentes à reserva para o pesqueiro, ou sobre a venda da produção de uvas e outros.
Gisele não via problemas, desde que ele explicasse o que ela deveria escrever.
- Vejo que nos entendemos.
Agora se tiver alguma pergunta ou sugestão, fale.
Gisele não tinha.
- Então, quer ir comigo à cidade?
- Sim. Eu tenho que comprar um maiô, pois deixei o meu em São Paulo, na casa da madrinha.
Quando ela estava saindo, ele disse ainda que ela poderia fazer uso do computador para o que precisasse, inclusive seus e-mails pessoais.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:22 am

Capítulo 23 - Confidências

Terminada a conversa com Murilo, Gisele ficou um pouco perdida, sem saber bem o que fazer com o tempo.
Pensou em ir para seu quarto, porém sabia que a imagem de César estaria dentro de qualquer livro que tentasse ler.
Ouvindo sons vindos da cozinha foi até lá.
Encontrou Nair às voltas com o jantar.
- Posso ajudá-la? - perguntou.
- Eu já estou com tudo quase pronto.
Lia sempre deixa as coisas adiantadas. - e com a colher de pau (que pingava algo no chão), olhou para ela.
Bem... Se você quiser me fazer um favor...
- É claro, diga onde posso encontrar um avental.
- Eu... - hesitou, sorriu.
Minha sogra costuma me auxiliar, mas com a idade e alguns probleminhas de saúde, o médico recomendou que ela ficasse longe do fogão - fez uma pausa.
Cá entre nós, ela já colocou fogo em alguns panos de prato, por isso, dona Marlene, sob protesto, fica ali na varanda esperando a janta ficar pronta. Se você...
- Quer que eu lhe faça companhia? É para já.
Marlene estava sentada, em uma cadeira de palhinha, tendo à mão um pano de prato, no qual fazia uma barra de croché.
- Oi, posso fazer companhia para a senhora?
- Claro, Gisele, sente-se aqui.
Se quiser, puxe uma cadeira para colocar as pernas.
Veja: meu croché está bonito? - e sem esperar respostas, disse:
Quero fazer um pano de prato para cada amiga lá do Centro Espírita.
- São muitas?
- São quinze, sem contar o Jota Ó.
- Jota Ó? É um senhor?
- Sim, é nosso grande amigo João Oswaldo, qualquer hora dessas você vai conhecê-lo.
- Ai, desculpa! - bateu na testa.
Ele mandou um abraço para todos.
Eu o conheci ontem, e hoje fizemos caminhada juntos.
- Que bom! Jota Ó é um amigo maravilhoso, o amigo certo, das horas incertas.
Ele é daquelas pessoas especiais, nas quais podemos confiar cegamente.
Olhou para a piscina, depois para o relógio que estava em seu pulso.
Ainda faltam uns 40 minutos para o jantar.
Ele não começa sem a presença dos noivos.
Por que não aproveita para dar um mergulho?
- Eu gostaria muito, mas esqueci o biquíni em São Paulo.
A piscina é funda?
Eu não sei nadar muito bem.
- A parte da esquerda é um pouco funda, mas a da direita dá pé.
Antigamente eu nadava bastante, mas com a idade...
Veja, ali tem barras, elas sempre ajudam, foram postas para Murilo, que precisa fazer exercício.
- Todos na casa gostam da água?
- Olha, antes de ter a piscina tinha ali um laguinho e desde cedo as crianças ficavam nele, aprenderam a se virar na água, mas devido ao acidente com Murilo, meu filho mandou fazer a piscina e as barras.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:22 am

- Acidente? O que houve?
- Ele quase se afogou - fez uma pausa.
Não sei se sabe, mas meu neto já nasceu com um problema de locomoção, ele sofreu várias operações até andar, como faz hoje.
No princípio, nós ficamos muito chateados.
Nair se culpava, achava que ela é que o fizera assim, ele nasceu de sete meses.
O médico tinha recomendado repouso, então ela pensava que não tinha repousado o necessário.
- Ah, isso é bobagem, há tantas pessoas com - ia falar deficiência - problemas.
- Pois é, mas, sabe como são as mães.
Depois nós encontramos a Doutrina Espírita, através do Jota Ó e soubemos que é a lei de causa e efeito.
Murilo deve ter feito alguma coisa, em outra vida, que danificou o corpo perfeito que Deus lhe deu.
Gisele ficou calada por instantes.
- Então, as pessoas deficientes o são, devido à lei de causa e efeito?
- Na maioria das vezes, sim.
Principalmente se já nascerem com os problemas.
- E as que ficam cegas, ou sofrem?
- Ah, aí depende, cada caso é um caso.
Eu já li o depoimento de um desencarnado, sabe o que é desencarnado?
- Sim, é uma pessoa que já morreu.
- Isso mesmo.
Pois é, ele tinha muito receio de que ficaria cego, então seu mentor, ou anjo da guarda, explicou que por erros do passado, ele deveria mesmo ter ficado cego no final da vida, mas...
Como nesta última encarnação ele foi muito bom, criou os filhos de uma sobrinha que morreu deixando cinco crianças, o homem reverteu o carma.
- Que interessante.
Então nós podemos reverter o nosso carma?
- Sim. Há muitos outros casos que a pessoa mudou o seu destino, digamos assim.
Sempre se ouve contar, nos Centros Espíritas, o caso de um homem caridoso que perdeu um dedo.
Ele ficou muito aborrecido, porém seu mentor informou que ele devia ter perdido um braço, mas devido às suas atitudes e a caridade que praticava habitualmente, perdeu somente um dedo.
Durante alguns minutos elas permaneceram em silêncio.
Marlene olhou para a piscina.
Em seguida, disse:
- A água deve estar gostosa.
O dia que você entrar garanto que não vai ter problemas.
Antes sim, o laguinho era fundo no meio.
Gisele lembrou-se do córrego manso que tinha nas terras de seu pai, onde ela e a mãe brincavam de jogar água uma na outra.
Afastou da cabeça a incómoda lembrança.
- Como foi que Murilo sofreu o acidente no laguinho?
Ele não usava bóia?
Quando era criança, Toninha sempre colocava uma bóia nela.
- Usava sim. Mas sabe como são as crianças.
Naquele dia houve um descuido, todos estavam bem, parece que foi ideia do Dinho eles entrarem sem a bóia; ele disse que bóia era coisa de crianças.
Bem, até hoje, Rosana insiste que Dinho empurrou o Murilo, mas ele nega.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:22 am

- Quem é o Dinho? Quem nega?
- Dinho nega ter empurrado.
Ele é sobrinho da Nair, filho do irmão dela - abaixou a voz.
Com outra, não com a esposa.
Ele quase não saía daqui.
Vinha brincar com as crianças, mais algumas vezes se impacientava com as dificuldades de Murilo.
Queria sempre ser o tal, daquelas crianças que se não fizessem sua vontade, dizia que ia embora - fez um muxoxo.
Gisele achou que ela não apreciava muito o tal Dinho.
- Ele mora aqui na cidade?
- Dinho? Não, ele e a mãe mudaram para a capital.
Ele fez faculdade lá.
- A senhora acha que ele realmente empurrou o Murilo?
- Sim, acho. Mas, achar é uma coisa e provar é outra.
Ele é tremendamente simpático, tem lábia.
Sua aparência é tão boa, que qualquer pacata dona de casa é capaz de virar a cabeça para olhá-lo - fitou a moça.
Ele jurou para meu filho que nunca teria coragem de empurrar o primo.
Mas, eu não estou tão certa disso - Fez uma careta.
- Murilo sofreu alguma consequência, devido à queda?
- Ah, engoliu água, mas Rosana o puxou e conseguiu tirá-lo de lá.
- E o Dinho, não ajudou?
- Não. Ele saiu da água, disse que ia pedir socorro, mas segundo minha neta, ficou parado olhando.
Depois que a piscina foi construída não tivemos mais problemas.
- Pelo jeito esse Dinho era bem levado.
Marlene ajeitou os óculos.
- Ele ainda é safado, para o meu gosto, muito diferente do nosso Murilo.
Murilo é correcto, leal.
Tem um coração de ouro! - sua fisionomia se suavizava quando falava no neto.
É um homem íntegro.
Quando se casar, vai dar um pai e um marido maravilhoso.
Desses que nunca será capaz de trair a esposa - olhou para ela.
A moça que for escolhida por ele poderá ter certeza de que terá aquele amor profundo, com que toda mulher sonha, mas poucas conseguem.
Murilo puxou ao pai, que foi um marido dedicado e fiel.
Concluiu com um meneio da cabeça.
- "Será que ele é tudo isso?" - Gisele pensou.
Nesse momento, Renata chegou à porta e as chamou para jantar.
Os seis comiam a sobremesa quando Nair perguntou:
- Ronaldo, hoje você vai ficar para o Evangelho?
- Vou sim.
Ela olhou para Gisele.
- Gisele, você conhece o culto Cristão no Lar?
O Evangelho no Lar?
- Sim. Eu...
Cheguei a fazer algumas vezes com a minha madrinha.
- Ah, que bom. Se quiser nos acompanhar, hoje vamos orar às 21h30.
Costumamos nos reunir uns dez minutos antes, na sala de visitas.
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Ave sem Ninho

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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:23 am

Quando Gisele entrou, a maioria das pessoas já estava na sala.
Ela ia se sentar em uma fofa poltrona, mas um lindo gato de pelo cinza ocupou o lugar.
Respeitando a antecedência de seus direitos, ela se sentou em um banquinho.
- Nicky - Marlene chamou.
O gato abriu um olho, espreguiçou-se, levantou calmamente, dirigiu-se até a mulher e pulou em seu colo.
- Gisele, quero lhe apresentar o Nicky, meu gato de estimação.
Ele é muito manso, se quiser acariciá-lo fique à vontade.
Agora pode ocupar a poltrona, esse banquinho não é confortável.
- Pessoal, vamos iniciar? - perguntou Renata.
A luz do teto foi apagada, ficando aceso apenas um abajur.
Murilo pigarreou, depois leu uma mensagem, escrita em um papel:
- "Creia em si, e resolva a situação.
Por falta de base, há quem descubra ouro e se perca nos vícios".
Não sei quem é o autor destas palavras - disse, com sua bela voz, que sempre encantava Gisele.
Renata fez a abertura inicial.
Em seguida, Murilo pegou O Evangelho segundo o Espiritismo e olhou para Gisele.
- Será que você poderia abrir, ao acaso, e ler para nós?
Gisele sentiu-se um pouco acanhada, porém fez o que lhe fora pedido.
"Capítulo IX - A Paciência" - leu com a voz um pouco trémula.
Pigarreou:
7- "A dor é uma bênção que Deus envia aos seus eleitos.
Não vos aflijais, portanto, quando sofrerdes, mas pelo contrário, bendizei a Deus todo-poderoso que vos marcou com a dor neste mundo, para a glória no céu.
Sede pacientes; pois a paciência é também caridade e deveis praticar a lei da caridade, ensinada pelo Cristo, enviado de Deus.
A caridade que consiste em dar esmolas aos pobres, é a mais fácil de todas.
Mas há uma bem mais penosa e consequentemente bem mais meritória, que é a de perdoar os que Deus colocou em nosso caminho para serem os instrumentos de nossos sofrimentos e submeterem à prova a nossa paciência.
A vida é difícil, bem o sei; constituindo-se de mil bagatelas que são como alfinetadas e acabam por nos ferir.
Mas é necessário olhar para os deveres que nos são impostos, e para as consolações e compensações que obtemos, pois então veremos que as bênçãos são mais numerosas que as dores.
O fardo parece mais leve quando olhamos para o alto, do que quando curvamos a fronte para a terra.
Coragem, amigos:
o Cristo é o vosso modelo, ele sofreu mais do que qualquer um de vós, e nada tinha de que se acusar, enquanto tendes a expiar o vosso passado e de fortalecer-vos para o futuro.
Sede, pois, paciente, sede cristãos: essa palavra resume tudo.
(Um Espírito Amigo)
Ao fechar o livro, ela tinha lágrimas nos olhos.
Nair perguntou se alguém queria comentar e Gisele teve vontade de fazer algumas perguntas para dirimir suas dúvidas, apesar do acanhamento que lhe bloqueava a voz.
- "Preciso ter coragem" - pensou.
Disse em voz alta:
- Dona Nair...
- Pois não, querida.
- Conforme estou aprendendo, o nosso passado pode influenciar na nossa vida, não é?
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Ave sem Ninho

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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:23 am

- Sim. O nosso passado influencia bastante a nossa vida.
Estamos construindo hoje o que seremos no futuro.
- Então, certas situações difíceis pelas quais passamos podem ser um reflexo do nosso passado?
- Sim. Dizemos meio que brincando que cada qual tem a vida que merece.
- Eu tive certo problema com meus pais.
Será que os factos tinham a ver com nossas vidas passadas?
- Olha, é difícil a gente saber, mas muito provavelmente vocês estiveram envolvidos, em outra vida, uns com os outros.
- Os casamentos também são combinados antes de encarnarmos?
- Ao que eu sei a maioria dos casamentos é sim combinada e muitos deles para acerto.
Muitas vezes, por falhas e desacertos voltamos com o mesmo par.
- Está certo. Desculpem as perguntas, mas tenho muitas dúvidas.
- Querida, estamos aqui para dirimi-las, na medida do nosso pequeno conhecimento.
- Obrigada.
Murilo pediu à avó que fizesse as vibrações de amor.
Marlene pediu as bênçãos de Deus, vibrou amorosamente para o Brasil, para os sofredores, para os doentes e outras.
Em seguida, vibrou para cada membro da família e, por fim, vibrou para Gisele, dizendo que todos estavam muito felizes com a vinda dela, que certamente a cidade e o pesqueiro estavam enriquecidos com sua presença.
Gisele sentiu uma emoção tão grande, que precisou se conter para não desabar no choro.
Dali a pouco, despediu-se e foi para o seu quarto.
Trocou de roupa e deitou-se.
Lembrando-se de seu inadequado romance com um homem casado, pensou que devia procurar uma maneira de praticar a caridade.
Elevou seu pensamento ao Criador e fez uma prece agradecendo por ter encontrado essa família tão especial que a estava acolhendo como se ela fosse um deles.
Adormeceu embalada pelo som do piano tocado por Murilo.
Gisele despertou cedo.
Ficou por instantes escutando o pipilar dos pássaros, depois levantou, abriu a porta-janela, saiu no terraço.
Contemplou as montanhas ao longe, que cobertas pela neblina pareciam ser azuis.
Entrou, abriu com cautela a porta do quarto, saiu, o banheiro estava livre, cheirando a sabonete.
Certamente, Murilo já tinha tomado banho.
Pegou sua roupa, calça jeans e camiseta, e foi para o banho.
A casa tinha aquecimento solar e embora fosse cedo, a água estava tépida.
Debaixo da ducha, estava rememorando os últimos acontecimentos quando, subitamente, sua tela mental foi invadida por César.
Pela lembrança de quando na pousada da Kyria, eles tomaram banho juntos.
Tentou afastaras imagens, não conseguiu.
Sentindo uma dor profunda dentro do peito, saiu da água.
Enrolada na toalha olhou no espelho sobre a pia, que lhe devolveu um rosto com ar triste.
Sacudiu a cabeça, e respirou fundo.
Precisava dar um jeito de tirar César de dentro de si.
Tomou o café da manhã com Lia, que informou que Murilo a esperava no escritório.
- "Puxa, tão cedo!" - pensou enquanto rumava ao seu encontro.
- Bom dia Gisele! - disse ele com um sorriso feliz no rosto.
Ao seu lado estava um cão peludo, branco e preto, de raça indefinida.
O mesmo que no dia anterior dormia no terraço.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:23 am

- Venha conhecer o Boris.
- Uau, que cachorrão! Ele é manso?
- Sim, é. O danado andou sumido.
Devia estar atrás de alguma namorada, apareceu ontem à tarde.
Vou pedir para Marião lhe dar um banho.
O Boris fica solto à noite, ele é bonzinho, porém barulhento.
Serve de guarda, pois se algum intruso aparecer, late tanto que a gente sai para ver o que está acontecendo - olhou para ela.
Agora que já lhe apresentei nosso guardião, quero informar que logo mais vou até a pousada resolver uns problemas - olhou o relógio.
Que tal começarmos nosso trabalho às 10h30?
- Óptimo. Eu pensei em dar uma caminhada e voltar às 9 horas.
- Pode caminhar à vontade.
Caso eu não esteja, deixarei o trabalho aqui com as instruções.
Está certo? Ah, não se esqueça que à tarde iremos à cidade.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 07, 2016 9:23 am

Capítulo 24 - A casa de Jota Ó

Gisele colocou o chapéu na cabeça, rumou para a estrada.
Junto ao portão encontrou Jota Ó que parecia estar esperando por ela.
Beijaram-se.
- Como passou de ontem para hoje? - ele perguntou
- Passei bem, e o senhor?
- Também - ele respondeu pensando que a fisionomia dela precisava melhorar.
Para que lado quer ir?
- Será que podemos voltar ao mirante?
No mirante ficaram bons minutos absorvendo o ar fresco e a beleza da paisagem.
Voltaram para a estrada, caminhando em direcção ao pesqueiro.
O silêncio foi quebrado quando ele disse, após olhar para o relógio:
- Está quase na hora de tomar meu remédio.
Quer me acompanhar até a minha casa?
Ao chegarem ele abriu a porta e a convidou a entrar.
Estranhando, Gisele perguntou:
- O senhor esqueceu-se de trancar a porta?
- Não, eu nunca tranco a porta.
Se algum amigo precisar de algo é só entrar e pegar.
Entraram em uma sala ampla, bastante atulhada de móveis e estantes cheias de livros.
- Mas, e os inimigos?
Aqui está repleto de coisas, não tem medo de que alguém as roube?
- Ah, roubar o quê? Nada tenho de valor.
- Como não, tem a tevê, o vídeo, o som e tudo o mais - fez um gesto abrangendo o cómodo.
- A única coisa que não gostaria de perder são os meus livros.
O resto está no seguro.
Venha, quero lhe mostrar os outros cómodos.
Aqui é o meu quarto disse, abrindo uma porta aos fundos.
Era um aposento pequeno, decorado de forma monástica.
- Venha ver o resto: banheiro e cozinha.
A cozinha era ampla, bem iluminada e assim como o resto da casa estava bem arrumada.
- Eu reservei o melhor para o fim, vamos até lá fora.
Quero lhe mostrar meu rio particular.
Saíram, caminharam no chão de terra batida, até uns chorões, que ficavam à margem de um riacho de águas claras e límpidas que corria mansamente.
Além dos chorões e outras árvores, flores exóticas de diversos matizes davam o colorido ao local.
- Que lindo!
Gisele cruzou as mãos junto ao peito.
- Foi o senhor quem plantou tudo isso?
- Plantei as flores e dei um jeito no resto - olhou para longe.
Quando aqui cheguei isto era um matagal.
A casa estava caindo aos pedaços. Agora está do meu jeito.
- É tão bonito que nem tenho palavras.
Os chorões parecem que beijam a água.
- Às vezes isso acontece.
Este riacho é o mesmo que passa no pesqueiro.
Lá foi represado, formando um lago para os pescadores.
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Re: Não te canses de amar - Elias / Cláudia Marum

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