Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:52 pm

A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU
Wera Ivanovna Krijanovskaia

SINOPSE

Não obstante as festividades do casamento do Príncipe de Navarra com a irmã de Carlos IX, o grande palácio guarda consigo uma sala escura e triste.
É o grande recinto em que a Rainha-Mãe congrega os amigos dilectos...
Catarina de Médicis está indecisa...
Paris está repleta de protestantes para as núpcias reais.
A repressão contra Coligny deve expressar-se agora ou nunca...
Temendo as hesitações do filho, a soberana oculta-lhe a reunião levada a efeito, em surdina.
A Corte deve decidir-se.
Um espectáculo disciplinar em Paris é o único lance capaz de erguer a França à altura da Espanha, na defesa papal.
As vitórias do Duque de Alba, a influência de Felipe II, dão motivo às cochichadas conversações.
Se os Países Baixos fossem definitivamente submetidos, o prestígio espanhol ofuscaria o mundo francês.
E a actuação do Almirante herege, transformado em conselheiro único e sumamente respeitado pelo Rei, fornece alimento às mais estranhas sugestões do delito colectivo que jaz apenas esboçado...
(...) E a reunião passou, até que o Rei, frágil e doente, foi convocado pela energia materna ao anoitecer de dois dias depois.
(...) Carlos treme irresoluto.
O coração real está dividido entre o amor da progenitora e as atenções do favorito.
O soberano enfermiço reage e chora...
(...) Trecho do livro "O Espinho da Insatisfação" de Newton Boechat, págs. 33-47. Ed. FEB BOAN, LIVRARIA ESPÍRITA
(...) Se a Revolução Francesa, em 1789, não pôde evitar excessos e exageros, dada a sua estruturação de massa, com factores heterogéneos e psicologicamente múltiplos, a existência de continuadas injustiças sobre a colectividade, alimentando a revolta incontrolável, por outro lado, objectivou levantar a bandeira da "Liberdade, Igualdade, Fraternidade".
Evidentemente, a caudal política desembocou na aristocracia napoleónica; todavia, os frutos da Revolução ficaram substancializando a vida, e melhorando, paulatinamente, em toda parte, o comportamento das Nações, tendendo-as, mais ou menos tempo, ao Direito.
A Noite de São Bartolomeu, não; foi movimento baixo, estúpido, cego, fanático, imediatista, em que, em nome de Deus e à sombra d'Ele, se cometeram as mais inomináveis barbaridades, desencadeando causas que se prolongaram em séculos de provações para Espíritos que, na calada da noite, jogaram com o destino de milhares de protestantes huguenotes, aprisionando-os, primeiramente, numa cilada, usando como isca de atracção o casamento de Henrique de Na varra (protestante) com Margarida de Valois (católica, filha de Catarina de Médicis, a Rainha-Mãe, que determinava energicamente sobre seu filho, o frágil Carlos IX).
A Corte Francesa não se conformava com a hegemonia espanhola, que se plasmava cada vez mais, evidenciando-se no Vaticano, e promovendo-se por toda a Europa.
De há muito, discreta colectividade de nobres e conselheiros de Catarina, e ela mesma, elaboravam plano sinistro para eliminar do solo francês o que chamavam "a peste".
Avolumou-se a corrente evangélica não somente em Paris, mas na França toda, alentada pela figura austera e firme do Almirante Gaspar de Coligny, que era conselheiro e amigo de Carlos IX.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:52 pm

...UM POUCO DE HISTÓRIA

CATARINA DE MÉDICIS -1519 a 1589

A História acusa Catarina de toda espécie de complôs.
A gente a vê velha, com seu rosto duro, apoiada na cadeira real de Carlos IX lhe dando conselhos de traição e de ódio...
Mas há uma outra parte dela:
alguns a acham uma mulher corajosa, cujo principal defeito foi ter sido mal educada; transportada à França, ela se devotou à saúde do Estado e defendeu por todos meios a seu alcance o trono a seus filhos. Tentemos compreendê-la.
Ela nasceu em 13 de abril de 1519 em Florença, no Palácio da Via Larga, construído por Cosme, o Velho.
Seu pai era Lourenço de Médicis, Duque d'Urbino; sua mãe Madalena de La Tour d'Auvergne.
Desde o início há algo apontando seu destino.
Seus pais logo morrem.
Após uma pequena viagem a Roma, onde dois de seus tios - Leão X e Clemente VII - são papas quase sucessivamente, ela volta a Florença onde está havendo uma insurreição popular.
Ela encontra asilo no convento das religiosas beneditinas das Murates; dali ela pode ouvir o clamor do povo que saqueia as igrejas e quebra estátuas.
Em 1529 enquanto uma armada de espanhóis e de mercenários alemães a soldo do papa sitia a cidade, ela é tratada como uma garantia.
É arrancada de seu convento apesar do choro das religiosas que desejam protegê-la e Catarina é aprisionada em um convento bem menor; um exaltado propõe arrastá-la sobre as muralhas para assim expô-la aos choques inimigos.
A cidade cede.
Em 1539 Catarina é levada a Roma, confiada a Maria Salviati, viúva de João de Médicis, o antigo chefe dos Bandos Negros, e à Duquesa de Camerino, damas respeitáveis para época.
É uma menina de 11 ou 12 anos e Bronzino no-la descreve:
cabelos pretos, a fronte arqueada, os olhos redondos à flor da pele, herança dos Médicis; sobrancelhas fortemente arqueadas, o nariz um pouco grosso...
O conjunto está longe de ser bonito, mas ela tem graça e distinção.
De carácter é amável, insinuante e sabe se fazer apreciar:
no Murates as freiras a amam ternamente; em Roma ela agrada ao pessoal do papa e os embaixadores estrangeiros a acham muito gentil.
A Itália que ela vai logo deixar a marca bem.
"O Príncipe" de Maquiavel foi dedicado a seu pai; o livro trata de política e de governo — ensina aos príncipes italianos os meios de conservarem e firmarem seu poder no interesse da Itália.
Foi escrito em 1513.
É possível que ela o tenha lido mais de uma vez.
Em Florença sua inteligência precoce deve se abrir bem às intrigas e compreender bem as coisas; em Roma ela está bem no centro da diplomacia a mais tortuosa e a mais subtil, como sempre.
Ela tem por professor seu tio, o papa Clemente VII.
Então ela aprende a dissimular, se concentrar em si mesma.
Mas a civilização romana papal e a arte da Renascença lhe inspiram uma preocupação de vida refinada e de um sentido de Beleza que ela nunca perderá.
É assim que ela mantém um ar de dignidade, uma correcção de conduta que será conservada durante toda sua carreira de esposa e mesmo de viúva.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:53 pm

Muitos anos mais tarde, quando a injuriam com escritos nos muros do Louvre, Catarina pode dizer:
"Graças a Deus é a coisa do mundo da qual eu sou a mais limpa e o agradeço a Deus".
Na questão de seu casamento, se ela fosse livre se teria casado com seu primo Hipólito de Médicis, filho natural de Juliano de Médicis.
Mas o papa tinha outras intenções para ela - seria melhor um casamento político.
Houve muitos pretendentes (apenas como curiosidade, o Rei da Escócia, futuro pai de Maria Stuart também estava nessa lista) e finalmente a escolha recaiu sobre o delfim da França, o futuro Henrique II que na ocasião usava o título de Henrique d'Orleans, segundo filho de Francisco I.
Em 23 de outubro de 1533 Catarina chegou a Marselha — ela tinha 14 anos...
O Rei da França e seu noivo a esperavam.
Apresentações solenes e, alguns dias mais tarde, foi celebrado o casamento.
Segundo os muitos relatos da época há descrição da cerimónia, do cortejo de cardeais, dos pajens, das damas de honra, da magnificência das roupas...
Logicamente a mocinha era o centro de todos os olhares; ela vestia uma roupa de brocado e um corpinho de veludo violeta guarnecido de arminho.
Seus cabelos estavam tão carregados de pedrarias que disse dela um contemporâneo:
"ela vale um reino!"...
Pode haver exagero, mas as pedras de seu enxoval eram belíssimas.
Quando as festas terminaram, o dote foi contado no tesouro geral da França e houve quem fizesse trejeito de quem não gostou.
Da Itália brilhante e refinada para a França, país de soldadesca dura, a diferença era grande.
Esses tempos nos deixaram grandes belezas, mas isso era excepção; a maioria da população era impenetrada.
A vida dos senhores assim como a vida dos burgueses era rude; também rudes eram seus modos de falar e suas maneiras.
As penalidades eram terríveis:
o ladrão era enforcado, o herético era queimado e o moedeiro falso era mergulhado em líquido fervente.
O espectáculo do suplício era muito procurado pela corte e a boa sociedade.
Não havia respeito pela personalidade humana.
Um tal Tavannes escreveu suas "Memórias" dizendo que, se murmurando "padres-nossos" se enforcava, matava-se a tiros, se esquartejava, se queimava a cidade — "ponha-se fogo por todo o redor, um quarto de légua..."
Mas havia um lugar onde havia boas maneiras e boa linguagem — era a corte.
Lá se agrupavam os funcionários do Estado e os "convidados da casa":
oficiais, gentil homens, damas de honra, abades de todas as convicções, sem contar a massa de parasitas, literatos, inventores, pedinchões, etc., etc., todo um mundo de gente vivendo da generosidade do Rei.
Cada soberano constituía "seus convidados" segundo seu gosto ao luxo ou à sociabilidade.
Uma alegria franca e de bom quilate; alegria de gente cumulada de bens levando uma existência perfeita, sem receios do amanhã e cuja festança nada tinha de monótona, pois a corte peregrinava de castelo em castelo, acampava às vezes sob tendas, sempre enfeitada, e até mesmo luxuosa.
Sem dúvida havia pessoas que se ocupavam de coisas sérias, mas a maioria, não.
As conversações começavam desde as últimas horas da manhã até tarde da noite.
À tarde um príncipe cantava canções napolitanas as quais as damas adoravam...
A galanteria era a ocupação constante.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:53 pm

Alguém desse tempo comentou:
"o mau é que na França as mulheres se metem em tudo; o Rei lhes devia fechar a boca; é daí que saem os mexericos, as calúnias".
E Tavannes, citado acima:
"Nesta corte, portanto, as mulheres fazem tudo, mesmo os generais e os capitães".
A chegada de Catarina, menina de 14 anos passou quase despercebida.
Mesmo quando da morte do filho mais velho da casa real, ela se tornando "A Senhora Delfina" — seu papel foi dos mais apagados.
Duas mulheres, as amantes do velho Rei e do futuro Rei influenciavam muito os mandatários:
a Duquesa d'Étampes e Diana de Poitiers.
Esta Diana teve dos contemporâneos uma admiração sem limites; fizeram dela o tipo de beleza perfeita.
Seus retratos nos dão uma outra impressão.
É uma mulher vigorosa, de carnação rica, de traços mediocremente regulares, com um ar de beleza saudável.
Viúva do Sr. de Saint-Vallier, casada em 1515, levava todos os dias flores ao túmulo do falecido Luís de Brézé.
Mas tanto se empenhou em conquistar Henrique, que o conseguiu, apesar de ser 18 anos mais velha que ele.
Em 1536 o laço entre eles estava bem estabelecido.
Para Catarina a luta era impossível.
Ela pedia apenas ao esposo um pouco de amizade e se esforçava em criar simpatias entre as pessoas que cercavam o Rei.
Ela conseguiu com Margarida d'Angoulême (irmã de Francisco I), Duquesa d'Étampes, e muitos outros personagens de posição.
Mas com relação a Diana ela teve de recalcar seus sentimentos.
Se Catarina teve uma ferida secreta, nunca demonstrou, entretanto manteve com essa dama relações muito corteses; Diana tinha por ela "uma protecção um pouco altaneira"...
Úteis precauções!
Catarina andava entre os partidos, desarmava inimizades e assegurava os devotamentos.
Ligou-se ao Rei, cercou-o de lisonjas, montou a cavalo para lhe dar prazer e seguiu intrepidamente as caças até o final rude e sem piedade ao animal.
Com estes pequenos engenhos ela ganhou as boas graças dele e, de futuro, teve ocasião de apreciar o quanto isto lhe foi útil.
Durante 10 anos não teve filhos.
Questão seríssima!
O esposo a podia repudiar.
Ela foi ao Francisco I, emocionada, chorando, lhe pedindo protecção.
Ele, um homem que tão bem soube governar a França, lhe respondeu:
"Minha filha, se Deus quis você como minha nora, eu não quero que isto seja doutra forma; talvez Deus queira se render aos seus e aos nossos desejos..."
As crianças foram numerosas — 7 chegaram a adultos.
Logicamente sua posição foi fortificada.
Os anos se passaram e ela se tornou Rainha.
Uma manhã do desastre da Revolução de São Quentim ela foi encarregada da regência provisória do reino e revelou recursos políticos e uma energia que não se supunha ela tivesse.
Mesmo com isso ela continuou permitindo o mando da Poitiers.
Seu 1º filho — Francisco, mais tarde se casa com a futura Rainha da Escócia; seu Carlos foi o Rei cujos feitos, alguns, aparecem nesta história; Henrique foi Rei da Polónia e depois, como Henrique III foi Rei da França por 15 anos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:53 pm

Elizabeth se casou com o Rei da Espanha.
Seu "bandinho", como eram chamados, cresceu sob suas atenções maternais.
Ela acha que suas crianças pertencem à França.
Ela tem afecto pelo marido e às vezes, em suas cartas, deixa perceber uma mágoa.
Talvez sinta que sua posição é falsa e humilhante.
Ela escreve à Duquesa de Guise:
"se a senhora vir o Rei, apresente-lhe minhas muito humildes recomendações; gostaria de ser Margarida para poder vê-lo...
Penso que a senhora tenha ainda muito tempo para estar com seu marido; praza Deus eu pudesse estar com o meu!"
Mas, coisa estranha! Junto a este marido, meninão musculoso, egoísta e limitado, incapaz de uma decisão, destinado a ser dominado, ela tem uma inexplicável timidez, procura ficar em seu favor, sem querer disputá-lo a quem quer que seja. Um prodígio de recalque e de dissimulação numa mulher autoritária de natureza, ávida de mando!
E isto dura 23 anos!
Em 30 de junho de 1559 um acidente trágico interrompe bruscamente as festas que a corte e a cidade davam em honra do casamento de Elisabeth de Valois.
Henrique II, num passe de armas, foi ferido por uma lança do Conde de Montgomery, um dos capitães de sua guarda.
A ferida se envenenou e em 10 de julho o Rei morreu.
Catarina cuidou dele convenientemente, vestiu luto, ficou um dia inteiro pasmada diante do leito de morte e respondeu com voz extremamente fraca quando o embaixador veneziano veio lhe apresentar condolências.
Depois ela cumpriu um acto de autoridade que devia lhe ter tirado um peso do coração:
caçou Diana de Poitiers da corte.
A favorita tinha 50 anos.
Outros actos vão chegar à natureza há longo tempo reprimida de agir livremente? Não!
O seu filho mais velho tem 15 anos, é maior, ama e respeita sua mãe.
Casado, este Francisco II por 14 meses se torna Rei.
É quando então ele tem uma infecção de ouvido e, apesar de Ambrósio Pare querer operá-lo, Catarina não permite e o rapazinho morre.
Sua esposa, Maria Stuart vai para Escócia.
O povo diz ser esta morte uma fadiga de caça ou um resfriado pego diante da queima de um huguenote.
O novo Rei tem apenas 10 anos — é o nosso Carlos IX.
Chegou a hora de Catarina, pois o 1° príncipe de sangue real que tem idade para ser Rei, António de Bourbon, está incapaz de sustentar seus direitos; os Guise estão desacreditados para tal cargo e ela se torna regente, senhora do Estado.
Então ela estava com 41 anos.
Estava engordando, mas permanecia activa, boa cavalgadora.
Tinha desenvolvido conhecimentos, falava duas ou três línguas, possuía algumas noções de ciência, e, sobretudo, ela tinha estudado os homens.
Mas Catarina ainda estava sob as doutrinas políticas de Clemente VII e dos que o rodeavam.
Ela possuía, como no passado o dom de bajular, de se insinuar, espionando amigos e adversários, fazendo complô contra os fortes — aqueles que se teme atacar de frente... todos meios legítimos quando se tratava do Estado.
Era a maior mentirosa da França.
Brantôme, o memorialista, escreveu sobre isso:
"Quando ela chama alguém de meu amigo, ou ela acha que ele é bobo, ou ela está com raiva..."
E a gente percebe que esta Rainha, que, em circunstâncias ordinárias, com conselheiros de médio talento teria podido verdadeiramente salvaguardar os interesses do reino, se achou em presença duma crise terrível, onde suas habilidades se revelaram impotentes, onde suas práticas se tornaram crimes.
É o quanto sobre ela interessa à nossa história.
Isto foi calcado em "Perfis de Rainhas" de Edmond Rossier, professor de História na Universidade de Lausanne.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:53 pm

ALGUNS PERSONAGENS IMPORTANTES DA FRANÇA

Francisco I — (1494-1547)

Foi o pai de Henrique II, portanto, sogro de Catarina de Médicis.
Reinou de 1515 a 1547.
Era chamado "O Pai das Letras", pois trouxe ao país muitos artistas e artesãos, com isso, elevando de muito o nível intelectual e artístico da França.
Leonardo da Vinci morreu em seus braços.
Margarida D’Angoulême — (1492-1549)
Irmã e muito amiga de Francisco I.
Escreveu o "Heptameron".
Foi morar em Bern, no Castelo de Nerac, por ter se casado, em segundas núpcias, com o Rei de Navarra, em 1527, Henrique d'Albret.
Teve educação brilhante, era muito inteligente e bondosa, e propensa a aceitar as ideias reformistas protestantes.
Joana d'Albret — (1528-1572) Filha de Margarida d'Angoulême, portanto sobrinha do Rei Francisco I.
Casou-se com António de Bourbon, Duque de Vendôme.
Analisando sua linhagem, imagina-se o escândalo suscitado com seu assassinato, com luvas envenenadas.
Henrique IV — (1553-1610)
Filho de Joana d'Albret, portanto sobrinho-neto de Francisco I.
Era Rei de Navarra (1572), quando se casou com Margarida de Valois, cujo casamento é citado aqui.
Em 1589 se tornou o Rei da França, com a morte de Henrique I.
Após ter anulado seu casamento com Margot, casa-se com Maria de Medíeis e tem toda uma descendência real.
Henrique II — (1519-1559)
Filho de Francisco I.
Em 1547, com a morte de seu irmão (1° filho de Francisco), sobe ao trono da França (até 1559).
Casou-se em 1533 com Catarina de Médicis, com a qual teve 10 filhos.
Sua morte foi prevista por Nostradamus.
Francisco II — (1544-1560)
Primeiro filho de Catarina de Médicis.
Casou-se com Maria Stuart da Escócia, mas não deixou descendência.
Reinou de 1559 a 1560.
Elisabeth — (1545-1568)
Filha de Catarina.
Em 1559 casou-se com Felipe II da Espanha; foi em sua festa de casamento que seu pai, Henrique II, se feriu, vindo a falecer.
Claudia — (1547-1575)
Filha de Catarina.
Casou-se com Carlos II, Duque de Lorena.
Carlos IX — (1550-1574) Subiu ao trono com 10 anos, então sob a regência de sua mãe, Catarina de Médicis.
Casou-se com Elisabeth da Áustria, filha do Imperador Maximiliano II, em 1570, e teve uma filha, de nome Maria Elisabeth, que logo morreu (1572 — 1578).
A História cita um filho bastardo com sua amante.
Reinou de 1560 a 1574.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:54 pm

Henrique II — (1551-1589)
O filho predilecto de Catarina.
Aparece no livro sob o título de Duque d'Anjou até se tornar Rei (1574), com a morte de seu irmão, Carlos IX.
Reinou até 1589.
Casou-se, em 1575, com Louise de Lorraine.
Não teve herdeiros.
Margarida de Valois — (1553-1615)
Também chamada "Margot", casou-se com Henrique de Navarra (Henrique IV) em 1572 (casamento este descrito no livro).
Escreveu "Memórias".
Francisco — (1554-1585)
Último filho de Catarina, tinha ciúmes da preferência de sua mãe por Henrique II.
Teve os títulos de Duque d'Alençon e, posteriormente, Duque d'Anjou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:54 pm

O INÍCIO DAS LUTAS RELIGIOSAS

Henrique de Navarra é também chamado de "Bearnais", o bearnês.
Sua avó, Margarida d'Angoulême, era uma mulher superior, jovial.
Escreveu um livro que teve muito sucesso na época, "Heptameron", contos no estilo de Boccacio, deleitando milhões de leitores até os dias atuais.
Gentil, ardorosa, culta, ela exerceu uma benéfica influência em seu irmão, Francisco I.
Mas se casou com o Rei de Navarra e trocou o esplendor da Corte e a companhia de seu dinâmico irmão pela longínqua cidade de Bearn, distante do grande mundo e próxima dos Pirineus, cercada de lobos e bandidos.
Ali nasceu seu neto.
Seu castelo de Nérac se tornou, naquele tempo, o refúgio daqueles que a Sorbonne ameaçava.
A Sorbonne, fundada por Roberto de Sorbon em 1257, tornou-se o local das deliberações gerais da Faculdade de Teologia, que começou a ser conhecida desde então com o nome de Sorbonne.
Atingiu um grande poder.
Frequentemente era consultada para arbitrar contendas e cada vez mais se intrometia em disputas onde não era chamada.
Considerou-se sua biblioteca como a Oitava Maravilha e seus métodos de ensino e oráculos como inigualáveis.
Seus veredictos não eram legais, mas qual Juiz se atreveria a repudiá-los?
Até 1520, por exemplo, o caso "Lutero" constituía uma questiúncula eclesiástica.
Coube à Sorbonne denunciá-lo como herético, falso profeta e Anti-Cristo.
Admitindo que o estudo dos clássicos despertava a heresia, a Sorbonne baniu de seu rígido ambiente o ensino do grego.
O indivíduo que procurasse aprender o hebreu e ler a Bíblia no original, se expunha a morrer queimado!
Sob ponto de vistas ortodoxo, só os padres regulares podiam analisar os escritos antigos e as novas contribuições da civilização.
No período de Francisco I, a Sorbonne conseguiu sobreviver.
Só que ele, o Rei, resolveu fundar o Colégio de França, onde se ensinava livremente o grego, o hebreu e as Ciências Filosóficas, Médicas e Matemáticas.
Este Rei tinha tendências protestantes.
Mas, voltemos a Margarida, sua irmã mais velha.
Ela não se confessava publicamente protestante e, como agradava ao Rei a maneira elevada como ela encarava a vida, era deixada a fazer o que bem quisesse. E ela abrigava a todos os que não tinham garantias na França; mesmo Calvino mereceu seu amparo.
Em seus últimos escritos, Margarida pretendeu reconciliar a Filosofia Clássica com os ensinamentos do Cristianismo.
Mas... o Rei recuava passo a passo em direcção à Igreja.
Primeiro convidava para sua Corte pregadores de tendência Luterana e depois, sem motivo, os afastava.
Um deles, dos mais capazes expoentes de Lutero na França, pagou com o maior sacrifício os expedientes políticos do Rei.
Luís de Berquin era o principal favorito de Francisco I.
No início a Sorbonne o prendeu, acusando-o de herético, mas teve de soltá-lo devido à intervenção da Corte.
Quando o próprio Rei se tornou prisioneiro de guerra em Madrid, pelo insucesso da Batalha de Pavia, Berquin foi encarcerado pela segunda vez.
Só o regresso de Francisco o salvou de ser queimado vivo.
Já na casa dos cinquenta anos, inofensivo e temente a Deus, os amigos tentaram convencer Berquin de aproveitar a oportunidade e fugir, mas não conseguiram.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:54 pm

O pregador desafiou os síndicos da Sorbonne para um debate público e declarou que todos, não só os clérigos, deveriam ler a Bíblia.
Esta atitude selou o seu destino.
O Rei, no declínio de sua estrela, ameaçado pela Espanha, que detinha seus filhos como reféns, cercado de vassalos ligados aos seus inimigos, não ousava impedir as perseguições papais.
Abandonou seu protegido e Berquin foi queimado em 17 de abril de 1529.
Desde essa ocasião o Rei deixou de oferecer resistência.
Jamais fora um homem de fortes convicções e capitulou sob as ameaças propaladas pela Sorbonne.
Cartazes atacando ostensivamente os dogmas da Igreja começaram a aparecer nas portas das igrejas, nas paredes das casas de Paris, Rouen, Meaux.
A estátua milagrosa de Nossa Senhora tinha sido reduzida a pedaços que jaziam nas sarjetas.
O povo se agitou com o agouro e a Sorbonne propagou que os infiéis "desconhecidos" frequentavam as Cortes e que defendiam as novas ideias.
Francisco, preocupado, correu a Paris para acalmar a população excitada e encontrou os atrevidos cartazes pregados não só nas paredes das igrejas, mas também no Louvre, bairro real.
As maquinações se forjaram lentamente culminando com a morte, na fogueira, de 24 pessoas.
Em 19 de janeiro de 1535 se comemoraram as execuções, onde o Rei foi obrigado a, publicamente, se declarar católico.
A Sorbonne tinha vencido, e a Igreja passou a abusar.
No seu primeiro ano de reinado (1547), Henrique II reuniu uma corte especial para combater os luteranos que passaram a ser rudemente tratados.
Muitos fugiram.
Sob a regência de Francisco I, em todas as cidades, tinha havido adesão individual àquelas novas ideias.
Agora os indivíduos se uniam. Para que seus decretos assumissem força legal, promoviam reuniões regulares de delegados.
Em 1558 existiam aproximadamente, na França, cerca de 400.000 protestantes.

Cronologia das Guerras Civis ou de Religião
(ora dando vitória aos protestantes, ora aos católicos)

I — (1562-1563) Paz de Amboise (quando foi assassinado Francisco de Guise).
II — (1567-1568) Paz de Longjumeau.
III — (1568-1570) Paz de São Germano.
IV — (1572-1573) Paz de La Rochelle.
V — (1574-1576) Paz de Beaulieu.
VI— (1576-1577) Terminada pelos Éditos de Poitiers e Bergerac.
VII — (1588) Tratado de Fleix. VIII — (1586-1589) Assassinato de Henrique III.
Dados recolhidos de "Os Huguenotes", de Otto Zoffe "Histoire de France", Ed. Larousse.

ÍNDICE

I PARTE
I. O Carneiro de Ouro
II. A Baronesa d'Armi
III. Diana
IV. A Chegada de Mailor
V. Mais um Casamento
VI. A Criança Abandonada
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:54 pm

II PARTE
I. Velhos Conhecidos
II. O Retorno do Convento
III. Um Crime Sem Remorso
IV. Noivado Precipitado
V. Livre Enfim
VI. Sr. Montefelice
VII. René, o Perfumista
VIII. O Atentado
IX. Carta Comprometedora
X. A Morte do Almirante
XI. A Despedida

III PARTE
I. O Rapto
II. O Casamento
III. A Sedução de René
IV. Diana na Corte
V. A Feitiçaria
VI. A Fuga
VII. Prisioneiro Ansioso
VIII. A Vingança de Briand
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:55 pm

I. O CARNEIRO DE OURO

Em um dia nublado do mês de setembro de 1558, dois cavaleiros seguiam por um longo caminho.
Vinham do sul da França e se dirigiam a Paris.
Um deles, pelo visto um criado, conduzia o cavalo sobrecarregado.
De estatura baixa e encorpado, rosto bronzeado, nariz adunco, olhos negros, lábios grossos e cabelos encaracolados; lembrava um cigano.
A maliciosa expressão zombeteira a brilhar no seu olhar rápido não negava nem um pouco as qualidades desta raça.
A alguns passos adiante do criado seguia seu senhor.
Um rapaz alto e forte, de uns vinte anos de idade; seu rosto de traços perfeitos era emoldurado pelos espessos cabelos escuros e encaracolados e pela barba curta da mesma cor.
Os grandes olhos cinzentos irradiavam uma energia sombria.
O nariz recto e as vivas narinas inquietas revelavam um temperamento agitado.
A característica mais marcante de toda sua figura era a sua boca e seus lábios finos que traziam uma expressão de orgulho gélido e de uma crueldade de ferro.
Ele vestia uma túnica e consigo carregava um punhal e uma espada, os quais ficavam nitidamente à vista.
A poeira densa que cobria a sua capa e as roupas do criado indicavam como havia sido longo o caminho.
Há mais de uma hora serpenteavam pelo bosque espesso.
Os ramos das árvores seculares formavam uma abóbada tão fechada sobre as cabeças dos caminhantes que mal deixavam entrar opaca luz.
A noite se aproximava e a escuridão dentro do bosque aumentava a cada minuto.
De repente o cavaleiro que seguia à frente parou o cavalo e voltando-se para trás gritou em tom de impaciência:
— Ei, Henrique!
Acho que para zombarem de você indicaram um caminho errado.
Prosseguiremos de dia.
Agora devemos tratar de encontrar o hotel antes que escureça.
Lá poderemos nos refazer e movimentar nossos membros adormecidos.
Derramo o sangue de Cristo e morro de fome; mas o fim desta floresta nunca chega...
O criado, ao olhar para o espesso bosque e o caminho escuro, esporeou o cavalo e num instante se colocou ao lado do seu senhor.
— Mais um pouco de paciência, Sr. Briand!
Eu já superei um caminho difícil mais de uma vez.
Veja lá! É a cruz de pedra da qual falou o dono da taberna onde nós almoçamos.
No máximo dentro de uma hora e meia estaremos no hotel "Carneiro de Ouro".
Falaram-me que a cozinha de lá é óptima.
— Só espero que os outros viajantes não tenham acabado com tudo, completou dando risada Henrique.
Briand, assim se chamava o rapaz, disse em tom cansado:
— Então vamos lá!
Torçamos para que o "Carneiro de Ouro" não traia nossas esperanças.
Em todo caso temos que nos apressar para não ficarmos no meio da escuridão diabólica.
Mantenha-se próximo a mim.
Convencido de que as longas pistolas podiam ser facilmente sacadas do coldre, em caso de necessidade, ele esporeou o cavalo e se pôs em marcha rápida.
Como havia dito Henrique, não passou uma hora e meia e eles chegaram a uma clareira no centro da qual se erguia uma casa cercada por um sólido tabique.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:55 pm

Aqui era bem claro e Briand pôde ver uma tabuleta na qual estava desenhado um carneiro gordo e amarelo como um canário.
Ele aparecia deitado numa grama que mais se assemelhava a uma salada.
Dentro da casa estava escuro.
Somente de uma janela lateral saia um largo raio de luz.
Ante a ruidosa chegada de Henrique, receberam-nos prontamente o taberneiro e o rapaz que trabalhava na estrebaria, apressando-se ambos em acomodar os hóspedes.
Briand desceu do cavalo e depois de ter ordenado a Henrique que se aproximasse dele entrou com o dono num quarto vizinho à cozinha.
Aí havia algumas mesas rodeadas de banquinhos de madeira.
Pela porta aberta se via a lareira, cujo fogo ardia vivamente.
A uma das mesas se sentou um sujeito de uns trinta anos de idade, vestido como um gentil homem.
No momento encontrava-se ocupado em consumir a janta farta que estava à sua frente.
Sem deixar de tirar o rosto de cima do prato, esse homem de cara pouco simpática fitou Briand, que jogou no banco a capa e o chapéu, ordenando ao taberneiro que preparasse rapidamente um bom prato de comida para ele e para seu criado.
Enquanto o jantar não era servido, Briand andava pelo quarto para desenferrujar as pernas e os braços adormecidos; às vezes seu olhar invejoso e impaciente se voltava para a caça frita, o patê e os grandes ovos com presunto que estavam diante dos primeiros viajantes.
Realmente o rapaz estava famélico.
O cheiro do cozido excitava mais o seu apetite.
Por isso qual não foi o seu agradável espanto quando o desconhecido gritou animadamente:
— Vejo sua impaciência e o compreendo inteiramente.
Quando se caminhou muito e o estômago está vazio, não é nada bom se ver uma outra pessoa comendo.
Por isso, senhor, eu o convido a dividir comigo minha janta, desde que você não se importe em sentar à minha mesa.
— Nós lhe somos muitíssimo reconhecidos.
Com gratidão profunda aceito seu convite - respondeu Briand, aproximando-se do desconhecido.
Eu sou o Conde de Saurmont!
— E eu Carlos Henrique, Barão de Mailor.
Sente-se, Conde.
Se isto que há aqui na mesa não é suficiente para satisfazer seu apetite, a sua janta nos proporcionará o reforço indispensável.
Logo os dois passaram a conversar como velhos amigos.
Resolveram, inclusive, continuar o caminho juntos, visto que ambos se dirigiam a Paris.
Após o jantar o Barão propôs jogar dados, já que era muito cedo, e estava decidido que só prosseguiriam viagem no dia seguinte.
Briand concordou com prazer.
Rapidamente os novos conhecidos se desafiavam durante as partidas iniciais.
Ambos eram maus jogadores.
Suas faces ávidas e cobiçosas, as expressões ardentes provavam que eles procuravam mais a vitória do que passar o tempo.
No começo vencia Saurmont.
Depois a sorte mudou de lado e passou a ser favorável ao Barão.
As moedas de ouro e os dobrões espanhóis do pesado cabaz de Briand pouco a pouco passaram às mãos do Barão, cujo rosto mostrava satisfação pela cobiça saciada.
A paixão ardente pelo jogo e a forte vontade de devolver sua derrota fizeram o Conde se excitar e jogar até a última moeda, depois do que colocou a mão trémula na testa.
Enquanto isto Henrique calmamente jantava a se fartar na cozinha.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:55 pm

Ao ver que seu senhor começou a jogar, se aproximou dele e, a uma distância respeitável, passou a observar o desenrolar do jogo.
Com a respiração pesada Saurmont se encostou na parede.
Cegado pela paixão fatal, terminou por perder sua última moeda.
Agora ele não tinha com o que ir a Paris.
Trémulo de ódio, olhou para o Barão.
Este contou fleumaticamente o dinheiro, reunindo-o àquele que ganhara.
Juntou tudo e colocou no pesado cabaz que antes estava sobre a mesa.
— Sr. Conde, furtaram-no!
Com meus próprios olhos vi como este Senhor trapaceou, disse nesse momento Henrique, aproximando-se da mesa e dirigindo ao Barão um olhar provocador de desafio.
Este ficou rubro e se levantou da mesa.
Pegando o criado pelo pescoço, ele gritou com a voz rouca pela ira:
— Mentiroso! Cachorro vagabundo!
O que se atreve a dizer?!
Enquanto isso Briand se endireitava e, encarando o adversário, gritou:
— Você é quem é mentiroso!
Cego, insensato, como é que não compreendi logo o motivo de sorte tão grande?
Devolva o ouro que você me roubou, miserável! - bramiu, perdendo totalmente o auto controle e puxando a espada.
O Barão largou Henrique e desembainhou sua espada.
Os dois oponentes com espuma na boca se lançaram um contra o outro.
Ao soar o barulho dos bancos sendo atirados e das espadas se cruzando, apareceram na porta da cozinha, pálidos e assustados, o taberneiro e seu empregado.
No entanto eles estavam bem acostumados aos duelos, costume violento da época.
Pelos motivos mais vulgares os homens lutavam entre si.
Assim, em silêncio, esperavam o resultado da batalha furiosa.
O Barão duelava com a destreza e o sangue frio de um espadachim profissional; por outro lado a raiva duplicava a força e a agilidade de Briand.
Aparando a espada traiçoeira do adversário, o Conde aplicou-lhe um golpe tão violento no pescoço que a espada o atravessou de lado a lado.
Mailor caiu de joelhos.
Um rio de sangue jorrava de sua boca.
Depois rolou no chão, contorcendo-se e soltou um gemido.
Em um minuto estendeu o braço, se esticou, e não mais se moveu.
— É o fim! O miserável morreu!
Disse Henrique, inclinando-se sobre o cadáver.
Saurmont virou-se respirando ofegante.
Quando ele enxugou a lâmina ensanguentada de sua espada, seu olhar cruel mirou o taberneiro e o seu criado que a tudo assistiam assustados.
— Por que ficam aí parados de boca aberta?
Disse em tom grave; é melhor tratarem de esconder o corpo deste miserável desprezível que me roubou no jogo.
Eu o castiguei merecidamente.
Peguem uma lanterna e uma pá e o enterrem no bosque.
Tomem para estimulá-los, acrescentou lançando, algumas moedas aos dois.
Quando tudo estiver preparado, avisem-me.
Tão logo eles sumiram no matagal, Henrique murmurou, dando uma risada baixa:
— Parece-me, M. Briand, que você é o herdeiro legítimo deste maldito, castigado devido à sua jactância.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:55 pm

Por isso, esconderei em sua mala o saco que pelo visto está bem recheado de moedas.
Sem esperar a resposta, ele escondeu esse pertence.
A seguir, logo após cair de joelhos ao lado do cadáver, Henrique, com uma destreza assombrosa, revistou-o e tirou o "agrafe " e o anel.
Mas quando ele ofereceu estes objectos ao Conde, este fez um gesto brusco de negativa.
— Não, fique com isso para você.
O Conde apanhou somente o rolo de pergaminhos que estavam escondidos no peito do defunto.
Enquanto Briand o folheava atentamente, Henrique, com a ajuda de uma chave chata, abriu a mala de Mailor que ainda se encontrava no canto e tirou de lá um saco de moedas de ouro, um traje completo e alguns pequenos objectos.
Tudo isso ele escondeu no seu saco, recolocando a chave no lugar.
— Este foi realmente o Barão de Mailor.
Todos os pergaminhos confirmam este nome e título - disse Saurmont guardando os papéis.
— Nesse caso esconda estes documentos, M. Briand.
O finado Barão não sentirá mais a falta deles, e, para os vivos, estes papéis podem ser úteis, disse Henrique, com a intimidade familiar com que sempre se dirigia ao seu patrão, o qual não se ofendia absolutamente com isso.
Quando o taberneiro apareceu, informando que já estava tudo preparado, não havia no quarto um vestígio sequer do assalto recém-praticado.
O corpo do Barão foi enrolado numa capa e Henrique, obedecendo às ordens do Conde, ajudou a carregá-lo.
Briand pegou a tocha e iluminou o caminho do cortejo fúnebre que se dirigiu a uma pequena clareira na floresta, onde, sob a copa de grandes árvores, fora aberta a sepultura.
Os três homens colocaram rapidamente o corpo e o sepultaram.
Somente um pequeno cortejo falava do Barão Mailor.
— Mas ele não desapareceu pura e simplesmente do hotel!
A alma das pessoas que sofreram uma morte trágica não têm sossego no túmulo e vagam pelo lugar onde pereceram, disse o taberneiro tomado pelo terror trémulo e supersticioso.
Este senhor morreu sem confissão e foi enterrado aqui como um cachorro.
Como é possível que não queira se vingar de mim?
Acrescentou ele, enquanto a estribeira rapidamente se persignava.
— Faça uma oração pela tranquilidade de sua alma.
Eu também acrescentarei uma "Ave Maria" e o defunto será muito mal-agradecido se depois disso começar a manchar com sua presença o seu hotel - respondeu Saurmont com um sorriso zombeteiro.
Os outros não compreenderam a ironia do Conde, mas o conselho lhes pareceu bom.
Eles se prostraram de joelhos e com as vozes levemente tremidas, oraram com veneração pela alma do morto.
Na volta ao hotel, Briand deu ao taberneiro, pelo seu trabalho e pelo susto desagradável que passou, algumas moedas de ouro, dizendo logo em seguida:
— Se vocês querem ouvir o meu conselho, esqueçam que este viajante passou algum dia por sua soleira.
Deus sabe que conhecidos ou parentes este homem tinha, e que aborrecimentos lhes poderia causar o que ocorreu.
Será bem prudente silenciar e esquecer tudo.
Tomem para si a mala, o cavalo e as armas do defunto e que tudo isto fique assim.
Depois deste discurso sensato, o Conde subiu ao quarto que lhe fora preparado.
Henrique se deitou junto à porta e logo os dois mergulharam em sono profundo.
Aproveitamos o sono deles para levar ao conhecimento dos leitores o passado do herói da nossa história.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 11, 2016 7:55 pm

Eustáquio Briand, Conde de Saurmont, era o remanescente de uma família antiga e conhecida, possuidora de grandes propriedades em Lê Mans e Anjou.
As guerras e os gostos demasiadamente pródigos deles lesaram esta enorme fortuna, tanto que o pai de Briand, Conde Luís de Saurmont completou o saque.
Belo e brilhante cavaleiro, generoso como um príncipe, afamado pelos seus duelos e suas aventuras amorosas, Luís Eustáquio teve um importante papel no palácio de Francisco
Quase ao final do reinado deste soberano, durante uma viagem pela Espanha, Luís se tornou amigo de um senhor espanhol, Conde Guevara.
Casou-se com sua filha, Eufémia, e retornou a Paris mais rico do que antes, já que a esposa lhe trouxe de dote uma sólida fortuna.
A nova Condessa de Saurmont era bondosa, mas frágil e doentia.
A jovem mulher adorava seu marido, mas a vida do Conde e suas aventuras dispendiosas causaram-lhe profundo desgosto.
O nascimento de Briand terminou por arruinar sua saúde.
Depois de alguns anos de existência tão agitada, o Conde terminou arruinado de novo.
Abandonou o palácio e se retirou para uma de suas propriedades.
Entretanto a vida da aldeia era insuportável para um gentil homem temperamental e ele encontrou meios de contrair novas dívidas e fazer novas loucuras.
Quando o Conde foi morto num duelo por seu vizinho, cuja mulher fora seduzida por ele, deixou à esposa e filho apenas aquele castelo e algumas propriedades.
Este dito castelo estava a tal ponto arruinado que para mais nada serviu.
Quanto às mansões, todos os objectos de valor que outrora guardavam já haviam sido vendidos.
Doente de corpo e alma, Eufémia deixou a França e partiu com Briand para a casa do irmão.
Briand tinha apenas dez anos.
Passados alguns meses sua mãe faleceu.
O tio o adoptou e passou a criá-lo ao lado dos seus filhos:
oito moças e um menino dois anos mais moço que Briand.
O Conde Guevara e sua esposa sempre demonstraram amor e interesse sinceros para com o órfão.
Em tudo colocavam-no em pé de igualdade com seus filhos.
Com o passar do tempo Briand revelou ter um carácter completamente diferente do pai.
Tudo aquilo que Luís tinha de generoso e pródigo, Briand tinha de incredulidade, frieza e introspecção.
Do pai ele herdou somente um traço - sua paixão pelo jogo.
Sob seu domínio, ele esquecia a ponderação e o bom senso, deixando-se arrastar pela situação até o momento em que uma forte emoção se apossava dele.
O moço cresceu calado e taciturno, procurando a solidão da leitura.
Briand era a tal ponto reservado que ninguém percebera a enorme inveja que lhe causava seu primo e a fortuna dele.
Ninguém suspeitava quanto rancor e crueldade acumulara na alma, e que persistência e natureza apaixonada estavam escondidas sob o rosto tranquilo e distraído daquele jovem calado, sempre trajado de preto.
Briand, apesar da inveja contida, se relacionava bem com seu primo Pedro e sua prima Mercedes.
Para grande surpresa “das pessoas do castelo, o jovem Conde fez sólida amizade com um jovenzinho que há muito vivia com os filhos do Conde.
Ele era criado e companheiro de brincadeiras.
Era Henrique, pequeno cigano que fora recolhido pela Condessa.
Boa e sensível por natureza, a Condessa foi tocada pelo triste e incerto destino da jovem cigana que ela encontrou perto do castelo, morrendo de fome.
Ou se perdeu de sua gente, ou foi abandonada por eles.
Nunca se soube.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:41 pm

Triste e calada a cigana sofreu algumas semanas.
Somente ante a morte a moça rompeu o silêncio e suplicou à Condessa que não abandonasse seu filho, que na ocasião contava quatro anos.
A Condessa prometeu criá-lo e manteve a palavra.
Baptizou Henrique e educou-o no castelo, apesar do menino se revelar um cigano indomável.
A educação lhe deu somente polimento externo por dentro ele continuava a ser integralmente o cigano astuto e malicioso.
O menino se prendeu fortemente a Briand, atendendo-o antes que a ninguém.
Quando Saurmont completou vinte anos, Henrique passou a ocupar junto ao jovem a posição de cavalariço e homem de confiança.
Há mais de dois anos do início de nossa história falecera a Condessa de Guevara.
Profundamente abatido, o Conde se recolheu a seu castelo e passou a se dedicar inteiramente à educação dos filhos.
Ao perceber que sua filha sentia por Briand uma atracção tão forte que esperava apenas uma ocasião favorável para se transformar em verdadeiro amor, ele pensou em casá-la com o sobrinho.
Unicamente não lhe passou pela cabeça que Saurmont poderia não gostar de tal plano.
Entrementes, isto ficou assim mesmo.
A delicada e frágil Mercedes não era nem de longe do agrado de Briand, que sob a aparência taciturna, escondia uma natureza completamente entregue às paixões humanas.
É claro que se a prima fosse a única herdeira de Don Rodrigo, não recusaria em casar-se com ela.
Mas o dote de Mercedes, ainda que bem grande, lhe pareceu demasiadamente pequeno para a venda de si mesmo.
Aliás esse dinheiro um dia iria parar em suas mãos.
Era necessário apenas não desobedecer o tio e esperar que o dinheiro lhe chegasse às mãos.
Com a energia e o espírito decisivo que lhe eram peculiares, ele comunicou a Don Rodrigo que desejava ir a França visitar suas propriedades e tentar regularizar a situação das mesmas.
Além disso, se propôs apresentar-se ao Rei da França.
Depois disso, quando voltasse, se o tio permitisse, ele ocuparia o lugar na família que o adoptou, e que ele considerava como sua.
Briand pensava realmente que um rapaz de boa origem como ele, contando com as antigas amizades de seu pai, poderia sempre ter sucesso na vida.
Don Rodrigo não fez qualquer objecção.
Achou perfeitamente natural o desejo de visitar as suas propriedades que ainda não haviam sido liquidadas.
Quanto a visitar o Rei em pessoa até considerava querer demais.
Assim ele assentiu no desejo do sobrinho e lhe concedeu considerável soma em dinheiro.
Despediram-se amigavelmente.
Henrique desejou acompanhar o jovem Conde que terminou levando-o consigo por achar que o rapaz forte, astuto e divertido lhe seria simplesmente um criado útil.
A visita às propriedades pouco prazer dava a Briand.
Ele estava certo de que para restabelecer o antigo prestígio do nome "de Saurmont" era necessário muito dinheiro.
Mas Briand se caracterizava pela insistência.
Sabia que era um bom cavaleiro e dominava as armas magnificamente por isso acreditava no futuro.
Sob estas conjecturas o deixamos a caminho de Paris.
Mas de tal forma era sua paixão pelo jogo que terminou com a quantia de dobrões que lhe foram dados pelo Conde Guevara.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:41 pm

Sem sentir o mínimo remorso pela morte de Mailor, Briand de Saurmont deixou o Hotel "Carneiro de Ouro" e continuou sua viagem a Paris.
No dia seguinte, durante uma das paradas, lhe furtaram o saco com o ouro.
O roubo fora feito de maneira tão subtil que Briand chegou a se perguntar se não teria sido Henrique.
Mas o cigano ficou tão irritado e desgostoso, e se esforçou a tal ponto por descobrir o ladrão, que o Conde logo afastou suas suspeitas.
No Hotel, lotado de hóspedes, qualquer um poderia ser suspeito.
Este acontecimento estragou o humor do jovem Conde.
Seus recursos se reduziram significativamente e, preocupado, pensou que triste figura iria apresentar como um Saurmont, filho do brilhante Luís Eustáquio.
Ele não queria pedir novos subsídios a Don Rodrigo, pois o velho senhor era muito cuidadoso com suas despesas.
Mesmo que resolvesse lhe pedir algo, deveria esperar um bom tempo pela resposta, que, diga-se de passagem, não atingiria a quantia indispensável para que pudesse ocupar, no palácio, a posição que desejava.
Imerso nesses pensamentos desagradáveis, o Conde seguia adiante, em silêncio, quando de repente se aproximou Henrique e perguntou, com a intimidade familiar, por que estava com esse ar pensativo e se a perda do saco de ouro o havia deixado tão abalado assim.
— Não é só isso.
Minha situação agora é triste e humilhante para um homem de minha origem - respondeu Briand.
Acostumado que estava desde a infância a conversar com Henrique, e vendo nele uma espécie de amigo, em breves palavras lhe expôs o que o deprimia e como seria difícil se apresentar aos velhos amigos do pai sendo um pobretão.
Depois de ouvir com atenção, Henrique reflectiu e disse repentinamente:
— M. Briand!
Eu gostaria de lhe dar uma ideia que talvez o livre das dificuldades.
— Diga, Henrique!
Eu nunca tive tanta necessidade como agora de um bom conselho, respondeu sorrindo Briand.
— Eu quero lhe propor apresentar-se em Paris, não sob o próprio nome, mas sob o nome de Barão Mailor.
Ninguém o conhece e será mais fácil orientar-se, se viver com a identidade de um palaciano desconhecido da província.
Você sempre poderá se tornar Conde de Saurmont, quando considere necessário.
Encontre uma explicação plausível para o facto de usar um nome alheio e não será difícil.
— E uma boa ideia.
Pensarei nela, respondeu Briand.
Essa sugestão agradou de tal forma ao Conde que, ao chegar a Paris, se hospedou num hotel simples, sob nome de Barão de Mailor.
O Conde de Saurmont possuía na capital o seu próprio hotel. (8)
No dia posterior à chegada, Briand se dirigiu até lá.
O aspecto externo do vasto edifício semi-destruído, com seu pátio vazio e as janelas que ainda restavam fechadas, lhe causaram tal impressão que se apressou em ir embora.
Depois passou a colher informações sobre os antigos amigos do pai.
Nessa tarefa teve vários desapontamentos.
Um dos Senhores morreu; outros ocupavam altos cargos na província, e outros ainda que encontrara, o receberam muito mal, transpirando o orgulho e o luxo que os cercavam.
Para se apresentar ao Rei, Briand não tinha pressa.
Como Barão de Mailor não queria aparecer, já que o conhecimento com jovens de diversas procedências o fez compreender muito bem qual a diferença que havia entre eles.
A ideia de aparecer pobre, ele, Conde de Saurmont, entre essa juventude rica e pródiga, era insuportável para seu orgulho.
Por isso se tornou o Barão de Mailor, contentando-se por enquanto com a discreta posição ocupada.
Briand era muito jovem para não se deixar arrebatar pelos novos e diversos prazeres da capital.
Além disso, ele se sentia bem em sua cidade natal, a qual lhe causava indisfarçável adoração.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:42 pm

II. A BARONESA D'ARMI

Talemos agora de Jacqueline, moça jovem de vinte e cinco anos, recém-viúva, que ansiava casar-se com um jovem do palácio e se tornar uma dama, assim como sua parenta, a Baronesa d'Armi.
Esta também nascera taberneira e, em relação à beleza, não podia rivalizar com a graciosa Jacqueline.
Briand, pelas suas maneiras e aparência agradou duplamente, tendo o título de "Barão" elevado ainda mais o seu prestígio.
Devido a isso a taberneira dispensou a seu hóspede a mais carinhosa atenção e lhe serviu os pratos mais saborosos.
Tanto assim que o rapaz não ficou insensível a tais abordagens.
A viúva chegava a considerar que estava na véspera do dia em que se tornaria Baronesa.
A situação estava nesse ponto quando chegou a Baronesa d'Armi.
Ela fora à província ver as propriedades do marido, como triunfalmente declarava Jacqueline.
O título de Baronesa não lhe inspirava excessivo orgulho, tanto é que veio visitar sua prima no hotel.
Esta se apressava em lhe apresentar o Barão de Mailor. Dentro de sua cegueira irracional já o via como seu futuro marido.
A Senhora Lourença d'Armi à primeira vista não causou boa impressão a Briand.
Ele sentiu quase aversão pela pequena mulher de trinta anos.
Ela tinha cabelos negros e espessos.
Seus grandes olhos negros expressavam astúcia, e neles surgia frequentemente uma expressão de crueldade e frieza, ao mesmo tempo, que nos lábios se congelava um sorriso adocicado.
A Baronesa estava toda enfeitada.
Trajava um vestido de veludo verde e em parte dourado.
De sua cabeça pendia uma touca de plumas.
Vários ornatos de grande valor adornavam suas mãos e seu pescoço.
No entanto, no aspecto geral, tudo isso dava a impressão de mau gosto e transmitia uma imagem de pequena burguesa pretensiosa.
Na verdade Lourença era de origem simples e passado impetuoso.
Seu pai mantinha em Paris uma taberna bem simpática, porém, o rendimento principal não provinha disso, mas sim de uma casa de jogos que os frequentadores chamavam de "Rai".
Como nas felizes residências de nossos antepassados ali se podia encontrar todo o indispensável para o entretenimento do coração e do estômago.
Nas salas de jogos se podia satisfazer o gosto pelas sensações fortes e gastar o quanto fosse possível.
Por isso "Rai" sempre esteve cheia de gente rica e aventureira, portadores de títulos de nobreza, pessoas que esbanjavam ouro e jogavam dinheiro sem fazer conta de quanto.
O taberneiro educou sua filha única num convento.
Quando Lourença completou dezassete anos trouxe- a para casa, e em dois anos, ela era um dos melhores chamarizes da sala "Rai".
Moça charmosa, de maneiras provocantes, conquistou o coração de um capitão que se apaixonou de tal maneira, que se casou com ela.
Depois de alguns anos de união, perturbados por uma série de desentendimentos, o Capitão morreu duelando com um colega; o motivo do duelo ficou desconhecido e Lourença se tornou viúva com uma pequena mas sólida posição financeira.
Ela de novo vinha visitar o pai, e, como antes, se apresentava no salão de jogos.
Os admiradores já não eram tantos, uma vez que estava mais feia e engordara.
Em compensação agora havia adquirido um cinismo provocador.
Com uma astúcia diabólica sabia excitar a paixão pelo jogo e arrastar os descuidados até a completa ruína.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:42 pm

Já há mais de sete anos Lourença se encontrava viúva quando o acaso trouxe ao seu hotel um certo Barão João d'Armi.
Jogador, gastador, homem sem qualquer princípio, perpetuamente necessitado de dinheiro, devido a seus gastos desordenados; este mesmo Barão permitiu que Lourença o dominasse completamente, tornando-se seu amante.
Ela o conquistou no mesmo grau em que a ele faltava o carácter.
Ora tolerava as fraquezas do Barão João, as quais estudara minuciosamente; ora o importunava e atormentava.
A todo momento ele lhe pedia dinheiro, dinheiro esse que era sustentado no crédito, terminando no final das contas por fazê-lo escravo na insolvência.
Quando enviuvou, o Barão concordou prontamente em pagar suas dívidas, casando-se com Lourença.
Pouco antes disso o pai dela faleceu.
Deixou à filha em testamento a Casa de Jogos "Rai" e uma boa quantia de "écus" de ouro.
A nova Baronesa d'Armi cortou pela raiz tudo o que lembrasse sua origem humilde.
Vendeu a taberna e a Casa de Jogos sem permitir que a esperança do Barão em usar esse dinheiro se concretizasse.
Lourença era avarenta e compreendia bem o valor do dinheiro.
Ela sabia que a posse de ouro torna conciliáveis as pessoas sedentas por este metal encantador.
Então amarrava fortemente seu porta-níqueis e não regalava d'Armi com moedas, sem motivo.
Jacqueline sentia uma espécie de admiração e respeito para com essa nobre prima, portadora de uma grandiloquência e de um orgulho grotesco que causavam forte impressão.
Briand vendo pela primeira vez a imagem majestosa da Baronesa jactante e cheia de trejeitos, sentiu um irresistível desejo de rir.
Entretanto, numa conversa posterior, esse primeiro julgamento se desfez, já que Lourença não era desprovida de inteligência.
Ela soube despertar o interesse do rapaz ao fazer a alusão à possibilidade de que, com a ajuda do marido, ele poderia travar conhecimento com pessoas úteis e agradáveis.
Por fim, para grande insatisfação de Jacqueline, convidou o falso Mailor para visitá-la.
Ele aceitou o convite e uns dias depois foi à casa da Baronesa.
A senhora d'Armi morava numa casa bem grande e confortável onde recebeu Briand com muita amabilidade.
Apresentou-o a alguns cavalheiros e o levou a uma elegante sala de jogos, onde a entrada era permitida somente por recomendação.
Finalmente uma noite recebeu Briand tão bem que, estando este embriagado, aconteceu algo fora do habitual.
Sob a influência dos vapores do vinho ele sentiu uma súbita e fortíssima atracção pela velha Baronesa que mal acabara de conhecer. O sentimento não foi apenas passageiro.
Desde esse dia o rapaz se tornou uma visita constante em casa de Lourença, que, com sua malícia inerente e perseverante, foi pouco a pouco o dominando por completo, sob o pretexto de se intrometer nos negócios dele, tendo somente uma participação maternal.
Para agravar o quadro, a infeliz paixão de Briand pelo jogo o deixava em má situação.
A Baronesa o repreendia e lhe passava sermões.
Um dia lhe propôs se estabelecer, juntamente com Henrique, em sua casa.
O moço vacilava em aceitar a proposta, mas Lourença sabia vencer sua indecisão. Briand, num momento de irritação, provocado por mais uma cena de ciúmes de Jacqueline, decidiu mudar.
Em retribuição à hospitalidade ele levou à Senhora d'Armi um belo bracelete que a mãe lhe deixara e que levava consigo para o caso de ficar sem dinheiro.
A partir desse momento a influência de Lourença sobre ele aumentou ainda mais.
Com suspeitas engendradas pelo ciúme, ela seguia todos seus passos e habilmente frustrava todos os encontros com pessoas afins a ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:42 pm

Para isso levava Briand aos mais variados prazeres grosseiros e lhe incentivava o gozo pelo jogo que o ia empobrecendo e o deixava completamente dependente dela.
O Barão d'Armi estava ausente.
De tempos em tempos enviava cartas que sempre deixavam Lourença em prantos copiosos e intermináveis queixas.
Ela contou a Briand sua infelicidade no matrimónio, o quanto João d'Armi era esbanjador, de carácter insuportável, e como a traía e furtava a cada passo.
Nesse exacto momento o Barão se encontrava no exército do Duque de Guise.
Dali ele bombardeava a esposa com pedidos de dinheiro.
— Miserável! Esse esbanjador vai acabar comigo!
De onde eu, infeliz mulher, vou tirar uma soma tão grande quanto a que ele me pede?
Repetia Lourença desesperada a estalar os dedos.
Se não fosse minha fraqueza e meu carácter angélico eu devia me vingar e mandar embora esse miserável de bolsos furados, esse pobretão.
Tomara que estique as canelas de fome.
Eu mantenho tudo com meus próprios meios, uma vez que ele arruinou o castelo de ponta a ponta.
O Conde ouvia indiferente ao desabafo.
O ciúme, bem como o amor da Baronesa começaram a incomodá-lo.
As discussões passaram a ser constantes; entretanto, apesar dessas desavenças e do desejo secreto do rapaz de se desfazer de sua amante, após fazerem as pazes os seus laços se tornavam mais fortes, já que Lourença tinha sobre ele uma estranha e incompreensível influência.
Sob a força de seus olhos verdes e ao som de sua voz adocicada, a fibra enérgica do Conde afrouxava e sua resistência era vencida.
No final das contas triunfavam o desejo e a opinião de Lourença.
A Baronesa o corrompia, sufocando nele os sentimentos cavalheirescos em tudo aquilo que tinha de elevado, ao mesmo tempo que era indulgente para com o seu orgulho e paixões vis.
Nessa época Briand conheceu casualmente uma jovem muito bonita e se apaixonou a tal ponto por ela que começou a desprezar Lourença por completo.
Esta, sem manifestar o seu grande ciúme, dissimulava, por vingança, não notando a infelicidade que acometia o jovem no jogo.
Certa feita, numa manhã, ela comunicou melancolicamente que precisava deixar Paris.
— Graças a esse esbanjador do João eu me encontro em sérias dificuldades, não permitindo por meus meios que eu continue a viver aqui, disse ela levantando os olhos para o céu.
Por isso estou partindo para o Castelo d'Armi, onde a pequena Diana carece de cuidados maternais.
Briand estava preocupado.
Na véspera havia jogado uma soma considerável e agora não possuía um tostão sequer.
Ainda que escrevesse ao tio, a resposta tardaria muito.
Nesse exacto minuto ele não sabia como retribuir a hospitalidade de Lourença.
Ela, em silêncio, observava o nervosismo do rapaz.
De repente ela lhe tomou a mão e disse:
— Meu bom Carlos Mallor!
Vejo como o aflige a ideia de se separar de mim.
Eu também sofro.
A vida sem sua companhia me parece vazia.
Se não é difícil para você ausentar-se de Paris por uns meses, venha comigo ao Castelo d'Armi.
A caça lá é excelente, a vida calma, e quando João voltar, poderá ajudá-lo a conseguir um lugar junto ao Sr. Guise.
É claro que meu marido possui muitos defeitos, mas é bom e prestativo.
Ele, depois de um minuto de reflexão, acabou concordando.
Sua posição falsa em Paris o incomodava, e, a hipótese de se revelar, não passava por sua cabeça.
Por outro lado, não tinha nenhuma pressa em voltar à casa do tio para se casar com aquela prima feia; assim decidiu partir.
O único cuidado de Briand era levar Henrique junto.
Por algumas moedas de ouro o jovem encarregou um amigo, que o cigano fizera, de enviar ao Barão de Mailor no castelo d'Armi qualquer pacote recebido no nome do Conde de Saurmont.
No dia marcado, grandes e confortáveis carruagens, escoltando Briand e seu criado, deixaram Paris, com destino a Anjou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:43 pm

III. DIANA

A distância de um dia de caminhada de Anjou se erguia o Castelo d'Armi.
Era uma construção grande e sombria que fora reformada no século anterior.
A reforma, que podia ser facilmente notada, a fez perder seu antigo aspecto feudal.
As valas e cornijas desapareceram, cedendo lugar a um amplo jardim rodeado por um muro alto, com portões gradeados sobre os quais se via um brasão.
Não obstante, o solar era uma imponente habitação de fidalgos.
Suas altas torres pontiagudas se destacavam agradavelmente do fundo escuro do bosque.
Mas o imponente castelo tinha um ar triste de abandono.
Tudo estava vazio e em silêncio.
A grama irrompia por entre os blocos do calçamento de pedra do pátio e cobria as alamedas do parque.
A estrebaria e a ante-sala estavam vazias.
Sete ou oito pessoas vivendo nesse castelo se perderiam dentro dele.
No castelo viviam a pequena Diana, filha do Barão por parte do primeiro casamento, a boa Justina e um menino de doze a treze anos, um velho roupeiro e três criados.
Estas pessoas eram, sem dúvida, insuficientes para manter o castelo, mas os económicos proprietários consideravam ser o número satisfatório para servir à criança.
Devido a tal negligência o castelo acabou ficando em ruínas — o que pouco os inquietava.
No tempo em que os avós de Diana viviam, a situação era bem diferente.
O castelo era repleto de vida e dentro de suas paredes se reunia a alegre sociedade de proprietários das redondezas.
O Barão era rico e hospitaleiro, agradando-lhe muito o convívio com esse círculo de amizades.
Para grande desgosto do velho, o céu lhe recusara um filho, legando como única herdeira a filha Ana, moça delicada e doentia.
Quando Ana completou quinze anos o pai contratou núpcias com o primo dela, João d'Armi, pois desejava unir os dois últimos rebentos, da antiga família.
O casamento deveria se realizar quando a noiva completasse dezanove anos.
Um ano antes de se realizarem as núpcias o Barão morreu, porém sua filha manteve a palavra e se casou com o primo.
O casamento foi dos mais infelizes.
O Barão João d'Armi era homem sem qualquer princípio e mulherengo.
Raramente aparecia em casa.
Sua jovem esposa, desprezada por ele que tanto lhe devia, silenciosamente e aos poucos foi se consumindo.
Os dois primeiros filhos de Ana morreram ainda na idade pueril.
Somente o último, uma menina, sobreviveria.
Este nascimento porém acabou com a saúde da Baronesa.
Com a morte já dentro da alma, a jovem mulher sentiu a aproximação de seu fim prematuro.
Ela temia pelo futuro de Diana que ficaria indefesa, a mercê do poder do pai indigno e maldoso.
Sua única salvação era Justina, mulher do primeiro guarda de caça e ama de leite da pequena Diana.
Justina, criada leal, chorou amargurada o triste destino de sua patroa e a vida conjugal infeliz de Ana.
Com lágrimas nos olhos, Justina jurou à Baronesa que sempre olharia pela órfã como se fosse a própria filha.
Envolvida pela dor e solidão, a Baronesa se sentia ao menos satisfeita com esta promessa, ainda que fosse a protecção de uma pobre criada que não tinha muito a dar.
Ana também contava muito com a afeição que o filho de Justina, António, seu afilhado querido, tinha por Diana.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:43 pm

Para sua idade o rapazinho já era bem crescido, cuidadoso e responsável, além de ser cheio de energia.
A pedido da própria Baronesa Ana o sacerdote da aldeia passou a dar aulas a António.
E aquele não se cansava de elogiar a aplicação, atenção e estupenda capacidade de seu discípulo.
Sentindo a aproximação da morte, a Baronesa ordenou que fosse chamada alguma personalidade oficial para legalizar seu testamento, tentando garantir o futuro de Diana, quanto à parte financeira.
À Justina entregou uma soma considerável destinada à educação de António e à compra das primeiras necessidades deste, logo após o término do curso.
Quando o rapazinho, com lágrimas nos olhos, agradeceu, ela obrigou-o a jurar que ele sempre seria um verdadeiro amigo e devotado criado de sua filha, e que haveria de protegê-la com todas as forças deste mundo.
Passados alguns meses, Ana d'Armi faleceu.
Diana, que na época tinha um ano e meio, não podia compreender plenamente sua infelicidade.
Ainda que gritasse e chorasse ao ver que sua mãe não se movia nem a beijava, algumas flores caídas do caixão a consolavam.
Mantendo-se fiel ao seu juramento, Justina cercou a criança de amor e de cuidados.
Diana se sentia feliz e logo a lembrança da mãe se apagou completamente de sua memória.
Oito meses após o falecimento de Ana d'Armi, o Barão João chegou inesperadamente ao castelo acompanhado de sua nova esposa.
Os antigos criados os receberam com frieza.
A pequena Diana manifestou tamanho medo e aversão por sua madrasta que nenhum carinho e nenhum presente conseguiam vencer seu sentimento.
Já do pai a menina gostava muito.
O Barão chegou inclusive a merecer alguma consideração de Justina, pelo carinho e ardente amor demonstrados ao encontrar a filha.
Ficando de joelhos junto à cama onde estava Diana, ele a cobriu de beijos, e, em seguida, agradeceu muito à ama de leite seus cuidados.
— Ainda que desprezasse a falecida, ele realmente ama a criança com sinceridade, comentou ela ao sair o Barão.
A única coisa que não posso entender é como depois de viver com um anjo como a Sra. Ana ele pôde se casar com essa grosseirona!
A influência da Sra. Lourença logo se fez sentir.
O ambiente senhorial do castelo d'Armi cedeu lugar a uma atmosfera pequeno burguesa e mesquinha.
Alguns empregados foram demitidos; os cavalos e cachorros vendidos, e em alguns meses o castelo passou a ter um aspecto de abandono que se acentuava ano a ano.
Para alegria grande de todos, os proprietários partiram para retornar não tão cedo.
Justina passou novamente a dirigir os afazeres domésticos.
Diana cresceu ao lado dela e de seu companheiro de brincadeiras, António.
Sempre que havia oportunidade ambos se mimavam e agradavam.
Ela brincava livremente pelas grandes salas decoradas do castelo e corria no jardim com António e o grande cachorro Lanceio, que lhe servia como um autêntico "cavalo de sela".
À noite a menina dormia numa grande cama enfeitada com sinos, na qual sua mãe passara os últimos dias.
Ao tempo de nossa narrativa, Diana já era uma encantadora menina de quatro anos com espessos cabelos loiros e encaracolados que a cobriam como uma colcha.
Às vezes Justina permitia à sua pupila que fosse ao bosque, sob a protecção de António, à cata de frutos ou de ninhos de passarinho.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:44 pm

Tais passeios sempre eram uma grande festa para ambas as crianças.
Num maravilhoso dia primaveril Diana recebeu autorização para ir ao bosque ver um ninho que António havia encontrado.
Antes das crianças deixarem o castelo, Justina, como de hábito, vestira-os elegantemente.
O vestido de Diana havia sido feito da saia de sua mãe.
Ao filho ela mandara trajar sua roupa de passeio.
Ao liberar as crianças, Justina deu seu costumeiro conselho:
— Se você encontrar alguém no bosque e essa pessoa lhe perguntar, António, quem você está acompanhando, não se esqueça de responder que esta é a formosa senhorita Diana, Baronesa d'Armi, e que você é seu pajem.
O tempo era maravilhoso.
Conversando com alegria, as crianças adentraram o bosque e chegaram a um lugar onde se encontrava um belo ninho.
António subiu na árvore enquanto Diana, segurando um grande maço de flores, olhava para o alto, acompanhando cada um de seus movimentos.
Nesse instante ouviu-se um ruído por entre os arbustos e logo uma voz indagando em tom alto:
— Quem está na árvore?...
Quem é você, belo nené?
Diana se virou e com curiosidade olhou para dois cavaleiros que estavam a alguns passos dela.
Um deles, um homem já idoso, era com certeza o serviçal.
O outro era um encantador menino de dez anos.
— Na árvore há um ninho e eu sou Diana.
A menina silenciou repentinamente e começou a pensar.
Ela esquecera o título e o sobrenome. Resolvendo rapidamente, ela gritou:
— António, você que está aí, diga quem eu sou!
Você deve saber, Justina lhe disse.
— O nome da minha pequena senhorita é Diana, Baronesa d'Armi, gritou António Gilberto, sem abandonar seu lugar no alto da árvore.
Sem prestar atenção à observação do seu acompanhante, o menino desceu do cavalo e jogou as rédeas.
Segurando o chapéu, ele galantemente se aproximou da menina.
Esta se riu ao fitá-lo.
Criada em absoluto isolamento, Diana não podia compreender muita coisa do mundo, porém, devido às infindáveis histórias cavalheirescas que nas noites de inverno lhe contava Justina, em sua cabeça havia uma grande quantidade de ideias fantásticas.
— Você é certamente um cavaleiro errante? - Perguntou ela inesperadamente, enquanto o menino a saudava.
— Um futuro cavaleiro, sim, só que não errante, respondeu ele dando risada.
Eu vivo com meu avô no Castelo de L'Étaim. Meu nome é Visconde René de Beauchamp.
Enquanto travavam conhecimento, António descia da árvore com o ninho.
Em poucos minutos uma animada conversa se encetou entre as crianças.
Depois Diana convidou René para vir brincar em sua casa, perguntando este, por sua vez, com quem ela vivia.
Ao saber que a menina vivia sozinha com sua ama de leite, ele, resolvendo rapidamente, comunicou ao seu acompanhante que iria ao Castelo d'Armi brincar com Diana.
O velho criado quis protestar, mas René teimou e o pequeno grupo, escoltado pelo velho Silvestre dirigiu-se ao castelo.
As horas passaram voando.
A irradiante Diana mostrou às visitas o castelo, seu quarto, os brinquedos, Lanceio e o jardim.
René também se sentia muitíssimo alegre.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:44 pm

Ao entrarem correndo do jardim, cansados e ofegantes, Justina lhes ofereceu um merecido almoço.
Depois do almoço a amizade se tornou mais forte e as crianças passaram a se tratar com mais intimidade.
René, tomado pela alegria, disse:
— Diana este lugar é muito bom; aqui nós somos os mais velhos.
Uma vida assim me agrada mais do que aquela que eu levo com meu avô.
Escute, quer se casar comigo?
— O que vai acontecer se eu casar com você? - perguntou a menina, não sem desconfiança, ao ouvir esta primeira proposta.
— Quando nos casarmos vamos ficar sempre juntos, poderemos brincar quanto quisermos e viver aqui.
António será o nosso pajem - explicou René sem se ofender pela desconfiança expressada.
— Oh, se é para isso, então eu concordo em ser sua esposa.
O que de melhor poderíamos desejar senão de nos alegrarmos tanto quanto hoje?
A observação de Silvestre de que uma ausência tão prolongada poderia intranquilizar o avô pôs fim à visita.
Diana se desfez em pranto.
O futuro casal se beijou de todo coração e se despediram prometendo um novo encontro para breve.
No dia seguinte o pequeno Visconde chegou novamente, desta vez acompanhado do avô.
Vencido pela beleza invulgar de Diana, o velho Visconde beijou-a e a sentou nos joelhos.
Perguntou à Justina qual o motivo por que uma criatura tão pequena vivesse sem pai nem mãe, entregue aos cuidados dos empregados.
Com certa indecisão, já que julgava indelicada a intervenção de seu hóspede, Justina contou tudo o que se referia à sua pupila.
O Visconde estava vivendo há meses enclausurado em seu castelo e estava totalmente alheio ao que acontecia no país.
O estranho comportamento do Barão d'Armi em relação à filha o deixou perplexo.
— Se um dia qualquer, boa senhora, estiver preocupada com o futuro da criança, me procure, disse ele ao se levantar.
Todos nós somos mortais. Se por acaso alguma infelicidade ocorrer ao Barão João, a menina encontrará em minha casa um verdadeiro refúgio.
A partir desse dia René de Beauchamp passou a visitar o Castelo d'Armi quase que diariamente.
As crianças se tornaram inseparáveis e se aborreciam quando não se encontravam em companhia uma da outra.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:44 pm

IV. A CHEGADA DE MAILOR

Depois de uma longa e fatigante viagem, Lourença e o falso Barão de Mailor chegaram finalmente ao Castelo.
Eles tiveram que esperar um bom tempo junto à entrada até que o sujo e despenteado jardineiro abrisse o portão.
A passagem pelo pátio vazio e pela longa série de salas, que apesar de luxuosamente mobiliadas se encontravam abandonadas, fez Briand sentir uma tristeza inexprimível e certa repugnância.
No entanto, ao ver um belo quadro essa má impressão logo se apagou.
A porta lateral de uma das salas estava aberta.
Por ela se saía num grande terraço, cercado de balaustradas.
No fundo se viam as árvores verdes do jardim, entre as quais reluziam as águas tranquilas de um lago.
A atenção do Conde porém, estava voltada para um grupo pitoresco, e não para a paisagem bucólica.
No meio do terraço um menino sentado sobre uma almofada, com um livro aberto sobre os joelhos, lia num ressonante e monótono tom de voz um certo conto fantástico.
Ao seu lado, deitado no tapete, havia um grande cachorro de pelos encaracolados.
Uma pequena menina trajando um vestido de dama azul claro abraçou o cão pelo pescoço e encostou na cabeça dele, recostando-se logo a seguir.
Debaixo do gorrinho, também azul, caíam espessos cachos dourados que pendiam até a cintura.
Toda tranquilidade desta cena foi perturbada por Lourença ao entrar no terraço dando um grito estridente:
— Diana, minha cara criança!
A menina levantou espantada.
Imediatamente a Baronesa a tomou pela mão e a cobriu de beijos, repetindo:
— Querida Diana!
Por acaso você se esqueceu de mim durante a minha ausência?
Por um minuto a menina suportou as carícias dela, mas logo depois começou a rechaçá-la, gritando.
— Me solte!
Lourença não insistiu e a colocou no chão, após o que, aproximando-se de René, perguntou:
— E você quem é, meu pequeno amigo?
Enquanto o garoto pronunciava com vivacidade seu nome e título, Briand se aproximara de Diana e se inclinando para ela, tentava tomá-la pela mão.
A menina, todavia, recuou com uma indisfarçável expressão de medo e repulsa.
— Ei, Diana!
Como você pode ser tão indelicada?
Dê agora mesmo a mão ao Barão de Mailor e se apresente a ele - gritou Lourença.
Sem esperar a resposta, ela se aproximou da menina, levou-a ao Conde e acrescentou rindo:
— Reconciliem-se.
Naquele instante Diana ficou petrificada.
Contudo, quando Briand quis beijá-la, ela começou a berrar alto e a se esquivar com pés e mãos.
— A troco de que vocês perturbam Diana? - com raiva, gritou René, lançando-se na direcção de sua amiga.
O cachorro se pôs a latir alto.
A barulheira só terminou quando Justina apareceu para levar a menina.
Aparentemente os tempos que se seguiram ao episódio foram um pouco mais tranquilos.
Lourença se ocupava dos afazeres domésticos ordenando que se fizesse mais uma série de intermináveis desmontagens, empacotamento e empilhamento em cofres e armários, além de exigir que fosse feito o inventário de todos os objectos que estivessem guardados nesses móveis.
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