Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:53 pm

— O que significa tal recepção? - perguntou Marillac empalidecendo e franzindo as sobrancelhas.
Ligeiramente emocionada Diana fez um sinal para Gabriela se retirar.
Depois, mostrando uma cadeira para o Marquês, ela disse em voz surda:
— Sente-se, Sr. Aimé.
A explicação que agora vamos ter é muito importante e peço ao senhor que ouça sem raiva o que lhe digo.
Marillac recusou a cadeira oferecida e apoiando-se no encosto, disse em voz entrecortada:
— Diga o que você tem de importante a me dizer.
— Eu não posso ser sua esposa e lhe peço que devolva minha palavra, assim como lhe devolvo a sua, - Diana respondeu após um minuto de indecisão.
De início o Marquês nada disse.
Empalideceu mortalmente e era visível que uma emoção terrível o impedida de falar.
De repente segurou a mão da jovem e exclamou com voz rouca.
— Qual o motivo de tal ofensa, deste injusto desacato?
O Marquês apertava a mão de Diana com espantosa força, mas ela não se queixava.
— Para que chamar de ofensa uma confissão inspirada por duradoura honestidade?
Quando ficamos noivos lhe disse que sentia apenas respeito pelo senhor.
Agora, com todas as forças de minha alma eu amo outro.
Então julgue - poderei estar casada com o senhor e o senhor ter como esposa uma mulher cujo coração pertence a outro homem?
— Posso e exijo que mantenha a palavra dada por você, - exclamou Aimé vermelho de ira - quanto à confiança, então, deixe comigo.
Os olhos de Diana brilharam.
Conseguiu arrancar sua mão com força e exclamou com raiva e desprezo:
— Não é verdade que você me afogará numa banheira de gelo como fez à Sra. Francisca?
Mas eu não permitirei que me matem!
Eu amo, sou amada e quero viver, está entendendo?
Ele empalideceu terrivelmente e recuou.
— Quem lhe falou sobre meu passado sombrio? - perguntou com voz rouca.
Informaram-lhe pelo menos que Francisca me traiu vergonhosamente? - acrescentou ele subitamente.
— Será que você está pensando que é possível esconder tais factos e que ninguém soube sobre eles?
Conheci a verdade aqui em Paris através da Duquesa de Nevers.
Estou sabendo também que Francisca o traiu.
Mas um cristão pode mandar embora uma esposa infiel, não matá-la.
Todos nós somos fracos e somos susceptíveis ao erro.
— Você tem razão.
Ainda lhe devo agradecer por me ter prevenido antes do casamento, - exclamou Marillac com um riso seco; mas se pode saber quem é esse felizardo amado por você?
Não tema, - ele acrescentou vendo a hesitação dela, - toda corte vai saber o nome da pessoa em quem recaiu sua escolha.
Ele mesmo, espero, não se recusará em dar uma pequena explicação àquele de quem roubou a noiva.
Diana orgulhosamente se aprumou e mediu o Marquês com um olhar impetuoso:
— Claro que não!
O Conde Raul de Montfort não recuará diante de um duelo, se houver necessidade, medirá armas com o assassino da mulher.
Aliás ele nada roubou de você, visto que eu conservei absoluto silêncio sobre nosso casamento.
Diante do nome de Montfort, Aimé empalideceu mortalmente e se encostou à parede.
— Ah! É a celestial Némesis!
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:53 pm

A sombra vingativa de Francisca trouxe o substituto Montfort para me barrar o caminho da felicidade.
Agora eu estou vendo que o nosso rompimento é ocasionado pela minha vítima.
Ela se coloca entre mim e qualquer união.
Adeus, Baronesa!
Seja feliz e esqueça minhas palavras ofensivas.
Estou partindo e nunca mais, nesta vida, vou conduzir mulher alguma ao altar.
Não esperando a resposta, ele se virou e, quase correndo saiu do aposento, montou no cavalo e foi embora.
Passados dois dias, não tendo inclusive se avistado com o cunhado, Marillac deixou Paris e se dirigiu lentamente a caminho de Anjou.
Tendo se despedido de Diana, René de Beauchamp decidiu se divorciar o mais rápido possível; mas antes de começar o processo tinha de encontrar Marion e o verdadeiro domicílio dela, o que no momento não conhecia.
Por isso foi buscar informações com seus amigos, jovens cortesãos.
Era possível que a Viscondessa ainda se encontrasse ligada ao Duque de Guise, então decidiu se dirigir para onde ela estivesse e lhe anunciar que já tinha resolvido se livrar dela, a impudica que o tinha desonrado publicamente.
A mocidade dourada entre a qual Beauchamp tinha muitos conhecidos o recebeu de braços abertos.
Puseram-se a comemorar intensamente a volta de René a seu meio.
René, entre as viagens matinais e os banquetes nocturnos esqueceu por alguns dias até mesmo seu divórcio e a formosa Diana.
É preciso reconhecer que René era leviano, amava o prazer e podia assim se apaixonar loucamente e depois lamentar amargamente essa paixão.
Finalmente cansado dos prazeres, certa noite lembrou-se de seu propósito.
Como estivesse meio drogado, perguntou directamente ao amigo, Conde de Guerchy se conhecia o paradeiro de sua esposa.
O Conde, também bêbado, sem qualquer hesitação lhe deu muitas informações sobre as aventuras de Marion.
Não esqueceu de mencionar que o Duque d'Anjou frequentemente visitava a formosa Viscondessa e havia o boato de que seria seu actual amante.
René se enfureceu, mas, mesmo bêbado, não esqueceu o endereço e na manhã seguinte se dirigiu ao lugar indicado.
Marion morava nos arrabaldes, num pequeno Hotel rodeado por um jardim - uma pequena construção perdida em uma densa vegetação.
Silêncio e exterior simples mas, no interior, luxuoso; e nesse contraste se refugiava a mulher bonita que possuía motivos para gostar de sigilo e evitar bisbilhotice.
Sombrio, de sobrancelhas enrugadas, René observava a habitação de sua esposa; já se dispunha a chamar cuidadosamente da grade de entrada, de ferro trabalhado quando o portão se abriu deixando sair dois cavaleiros em direcção a uma estreita e deserta travessa.
Ante essa visão o primeiro a sair fez um brusco movimento para trás, como se desejasse não ser reconhecido mas René sabia se tratar do Duque d'Anjou.
Com um movimento instintivo, criado pelo hábito, inclinou-se René diante do filho da França.
O Duque soergueu ligeiramente o chapéu e, sorrindo gentilmente, fez uma reverência.
Depois, esporeando o cavalo, sumiu com seu acompanhante na curva da esquina.
De rosto contraído e fervendo de raiva, o Visconde entrou no jardim, e adentrando, afastou com um forte açoite o criado que tentava lhe barrar o caminho.
Subiu correndo rapidamente pela escada decorada com estátuas e flores.
No patamar se aglomeravam alguns criados distraídos, vestidos de libré.
Assustados com o que havia acontecido ao colega, hesitavam em fazer parar o visitante atrevido.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:53 pm

De repente o pequeno pajem exclamou:
— Meu Deus! É o Senhor René, o marido de nossa ama!
Nesse mesmo momento por entre os reposteiros surgiu o rosto astuto da camareira - espiou e sumiu.
Não prestando atenção na agitação dos criados, o Visconde chamou o pajem em tom áspero, ordenando-lhe que o levasse até Marion.
O rapazinho, assustado, obedeceu.
Através da fileira de quartos luxuosamente mobiliados, ele o conduziu a uma pequena sala de estar.
Imediatamente, da porta oposta, saiu Marion.
Seu rosto ardia; ela vestia um penhoar branco de seda.
Ficaram por uns instantes calados.
A fúria calava o Visconde.
Ela estava evidentemente abalada com a chegada inesperada do marido - ela temia qualquer gesto imprevisível dele.
Mas, mantendo a presença de espírito e astúcia inerente às mulheres, ela foi a primeira a romper o silêncio.
Esforçando-se em aparentar calma e despreocupação, ela disse:
— Bem vindo, René! Sente-se!
Estou contente com sua vinda provocada certamente por motivos bem importantes...
Você me mostrou o quanto é rancoroso, mas talvez, após uma conversa franca você vai me desculpar o erro da mocidade e esquecerá o passado.
— Basta! Basta! Minha Senhora!
Pare com isso!
Respondeu ele não tirando o chapéu e lhe lançando um olhar cheio de ódio e desprezo.
Apenas ficarei nesta casa para pequena conversa franca, pois você enlameia minha honra e se vende, é verdade, para importantes senhores, mas a desonra prevalece.
Foi principalmente para isso que vim.
Amigavelmente digo:
estou cansado de ver tanta abjecção sobre mim e pretendo que meu nome não mais sirva de escudo para seus actos torpes, infames e vis.
Não interessa quem são seus amantes:
um simples oficial, um duque ou um príncipe.
Estou farto disso.
Quero o divórcio - eis o que vim lhe anunciar.
Ela tremia toda; seu rosto estava coberto de manchas vermelhas.
Olhava o marido com fúria e temor.
Não esperava isso; ela não tinha preconceitos mas temia o escândalo público.
— Você fará isso?!
Vai me difamar perante todos? - Falou com raiva.
— Sim! Faço!
Será que você estava pensando que eu permitiria sua traição nunca lhe dando um "basta"!?
Nesse caso você vai se decepcionar.
Quero ser livre... são tantas as provas de sua traição que o processo será decidido a meu favor.
Se quer o assunto resolvido o quanto antes e sem muito barulho, peça ajuda ao Duque d'Anjou.
Já que Sua Realeza lhe faz visitas matinais, não lhe será difícil conversar com ele.
A intercessão dele ante A Noite de São Bartolomeu o Pai Sagrado eliminará todas as dificuldades.
Pode pedir também ajuda ao Duque de Guise, cuja influência é incontestável - ele é um de seus amigos...
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:54 pm

René sentia cruel escárnio, os olhos brilhando; nela as palavras eram como bofetadas, sufocando-a de fúria, os olhos verdes lançando chispas, as mãos crispadas como se procurassem algo contundente para arremessar à cabeça dele.
Mas ela resolveu se acalmar para tirar proveito da situação; olhou-o zombeteira e venenosa:
— Bem! Estou vendo que entre nós não há possibilidade de qualquer entendimento e vou aproveitar seu conselho; aceito o divórcio, mas com o mínimo escândalo possível.
Peço-lhe apenas uma coisa:
não faça o pedido de divórcio enquanto o mensageiro não voltar de Roma com a permissão do Santo Padre para o casamento de Margarida com Henrique, Rei de Navarra.
Por instantes o Visconde hesitou.
Marion observou zombeteiramente:
— Como! Até tão pequeno prazo lhe parece insuportável?
Você está querendo se casar novamente e de tal forma está apressado em se livrar logo de mim?
— Eu já protelei demais...
Quero me livrar de uma mulher depravada que arrasta meu nome na lama, - disse René se virando para ela - mas concordo em atender seu pedido.
— Eu lhe agradeço.
Acredite, senhor, também desejo ardentemente me livrar de você...
Ele nada mais falou, indo embora.
René se sentia leve, feliz.
Tinha sido dado o primeiro passo com um bom golpe.
Em futuro não distante, Diana, sua amiga bela e impoluta daria à sua vida um novo encanto.
Segurando o reposteiro Marion estava imóvel.
Quando cessaram ao longe os passos do Visconde, ela desatou em seca risada.
Expressão tipicamente diabólica se desenhou em seu rosto e murmurou:
— Estúpido infeliz!
Nunca entregará o pedido de divórcio.
Antes do que imagina estará "lá", no lugar de onde não se volta - nem católicos, nem os cachorros huguenotes.
Vou cuidar de poupá-lo de qualquer preocupação.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:54 pm

VI. SR. MONTEFELICE

Depois de proibir quem quer que fosse de perturbá-lo, Briand se trancou no quarto e por horas ficou estirado no divã, tentando se concentrar na leitura.
Sua mente, porém, sonhava sempre se centrando em maus pensamentos.
Podia-se supor que Lourença, imperceptivelmente, estava exercendo novamente sua inexplicável influência sobre o rapaz, visto que a raiva do Conde para com ela abrandara e ele já não mais pensava em matá-la.
Somente a aversão e o rancor fizeram com que sustentasse sua decisão de não aparecer no Castelo d'Armi.
O Barão João, que havia vindo para se despedir do Conde antes de partir a Paris, assim como os outros vizinhos, não foi recebido.
Dessa forma Briand não ficou sabendo nem da designação de Diana para dama de honra no palácio, nem do adiamento do seu casamento.
Ao contrário, procurando evitar um eventual encontro com Marillac e a noiva, mudou-se para uma propriedade afastada, onde passou todo inverno.
Somente no final de abril negócios inadiáveis, o término de um processo, obrigaram-no a voltar a São Germano, passando o mais rápido e longe possível do Castelo d'Armi.
Transcorreram mais de duas semanas quando, na Procuradoria de Anjou, se encontrou com o Barão d'Armi.
Sem se importar com a frieza e comedimento do Conde, o Barão deu um grito de alegria ao vê-lo, lhe dizendo que havia acabado de regressar de Paris, onde se encontrara com Diana.
Já há mais de seis meses a menina ocupava o posto de dama de honra junto à Rainha Elisabeth.
De pálido que estava, o rosto de Briand ficou vermelho.
— Diana ainda não se casou? - indagou ele acanhadamente.
— Não, Não!
O casamento se realizará somente no outono.
Oh! Vou contar as boas novas se você puder me receber hoje à noite.
— Venha jantar comigo hoje à noite e conversaremos, - respondeu o Conde sem vacilar.
A noite, acompanhado de uma grande taça de velho vinho d'Armi contou a Briand tudo o que havia ocorrido.
Falou como, durante os passeios com a filha por Paris, travou contactos com o partido dos Guise, dos espanhóis e com outros defensores do catolicismo.
O Barão João, apesar de ser pervertido, corrupto e de não ter qualquer traço nobre era homem inteligente; compreendia perfeitamente que a confusão política, originada pela vitória do partido dos protestantes, pela fraqueza do Rei, perigosas intrigas da Rainha-Mãe e do Duque d'Anjou iriam terminar em alguma catástrofe sangrenta:
possivelmente o assassinato de Coligny e ainda a liquidação de todos protestantes, como pregava o Bispo Sarpin, exigindo isso em ardentes discursos sanguinolentos.
Panigarole, milanês de nascimento, antigo homem do povo, devido a um duelo tinha se tornado membro da Igreja.
Apenas há três semanas de sua chegada de Paris, d'Armi resolveu retornar novamente à capital, aconselhando o Conde a vir com ele.
— Os acontecimentos políticos que estão sendo preparados, - disse ele, - exigem a presença de todos os bons católicos a Paris.
Quem sabe o que pode acontecer durante a rebelião contra os traidores como, por exemplo, com Marillac.
Não há dúvida de que, se o Rei, desconsiderando a opinião de todos, insistir no casamento de sua irmã Margarida, será derramado sangue, conclui d'Armi.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:05 pm

O malicioso brilho do olhar do Barão se fixou no rosto pálido de Briand que estava visivelmente distraído e se encontrava alheio à conversa.
Mas as palavras hábeis do Barão surtiram efeito.
O amor apaixonado e perseverante do Barão Mailor silenciavam ali somente sob a pressão da necessidade.
Ao mínimo sinal de esperança, ele renascia com nova força.
A possibilidade de liquidar seu oponente de tal maneira que Diana não ficasse sabendo disso o fazia sorrir, e o desejo de rever a moça superou o restante.
Depois de pensar alguns minutos confirmou que iria a Paris, assim que terminassem os negócios que o tinham trazido a Anjou.
Ainda que Briand corresse muitíssimo com seus negócios estes eram resolvidos tão lentamente e com tanta dificuldade nessa época, que o seguraram algumas semanas.
Somente em fins de junho pode chegar a Paris.
Encontrou então ali as paixões políticas no auge.
A morte repentina de Jeanne d'Albret mandada, conforme diziam, através de um par de luvas perfumadas, era o boato do dia.
Uns, silenciosamente, outros a altos brados, atribuíam esse assassinato a Catarina de Médicis .
A questão de se realizar o casamento de Henrique o "Bearnais", apesar das advertências e da teimosia do Papa em não dar seu consentimento, era o tema de todas conversas.
Saurmont também se deixou levar ao comentário desses factos.
Com vontade férrea e afinco, começou a se orientar, lamentando d'Armi, que prometera encontrá-lo, não o tivesse feito.
A impaciência do rapaz em ver Diana e saber se Marillac havia chegado, atingia limites extremos; mas, para saber do que se passava, devia esperar a volta de d'Armi.
No dia imediato à chegada a Paris, o Conde se dirigiu ao Louvre para se apresentar ao Rei e ao Duque d'Anjou.
Descendo as escadas após a audiência, encontrou uma dama, luxuosamente vestida, em quem sem se admirar reconheceu Diana.
A tal ponto ela havia melhorado que os olhos dela e toda sua figura transbordavam saúde e felicidade.
A moça também o reconheceu e, detendo-se, estendeu-lhe a mão.
Surpreso com tal doçura, Briand respeitosamente apertou os dedos delicados e róseos da moça junto a seus lábios.
Trocaram frases sem importância.
Continuando essa breve conversa, o Conde notou que Diana trazia ao pescoço, no vestido, nos braços e no cinto, objectos preciosos de grande valor, e que a antiga aversão se transformara em quase amigável indiferença.
Com o espírito carregado de desconfiança e ciúmes terríveis, retornou Briand a casa e se trancou no quarto, após ter enviado a João um bilhete pedindo que viesse o mais rapidamente possível.
Nervosíssimo, o Conde andava de um lado para outro no quarto.
De onde Diana conseguira enfeites tão caros, e por que ela mudara de maneira tão radical?
Será que Marillac havia comprado o coração dela?
Mas ele era tão rico assim?!
Ou poderia ser que a encantadora beleza de Diana houvesse conquistado um admirador mais rico e poderoso?
Só de lhe passar isto pela mente, Briand, cheio de ódio, apertava fortemente o punhal.
Ele se sentiu aliviado quando, à noite, d'Armi chegou para vê-lo.
Podia se ver facilmente que o Barão se sentia embaraçado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:05 pm

Assim que ficaram a sós ele tentou levar a conversa para a política, mas isso não interessava em absoluto a Briand.
— Pare! Peço-lhe pelos huguenotes e pelos católicos.
Diga-me, Sr. João tudo o que se refere a sua filha.
Hoje pela manhã a encontrei no Louvre.
Seu aspecto brilhante e algumas outras particularidades me deixaram pensativo.
Conte-me se Marillac está aqui e para quando está marcado o casamento.
Aconteceu algo de inesperado que me obrigue a mudar de planos?
O Barão ficou ainda mais desconcertado; recuou e, depois de fechar os olhos, balbuciou algumas frases incompreensíveis.
Por fim disse:
— Você tem razão, Briand, há novidades.
Oh! Se soubesse a surpresa que tive ao chegar aqui!
Durante minha ausência Diana não me preveniu que recusara Marillac, que para meu grande espanto, voltou atrás, abandonando o compromisso.
E já no dia seguinte contratou núpcias com um huguenote, Conde Raul de Montfort.
— E você não evitou tão escandaloso noivado?! - gritou o Conde, pálido como um morto, saltando da cadeira.
— Meu Deus! Não se irrite assim, Conde!
O casamento ainda não se realizou!
Deve compreender que um huguenote maldito é mais fácil de eliminar do que um católico.
— E daí? Não devia consentir nesse noivado monstruoso!
— Não permitir!
Gostaria de saber como você faria isso!
Esquece que Diana é viúva?
Terrivelmente pálido e com tremedeira geral, Briand caiu numa cadeira.
Isso era verdade!
Diana era viúva, a sua viúva!
Ele próprio, com sua conduta anterior lhe dera a liberdade de acção que agora o perturbava.
— Além disso, continuava d'Armi, sem prestar atenção à súbita fraqueza do Conde - quando cheguei, o noivado já estava oficialmente estabelecido.
O Rei o aprovou, parabenizou os noivos e expressou satisfação dizendo que os verdadeiros súbditos seguiam o bom exemplo da irmã dele, Margarida.
Depois acrescentou rindo:
"Esperem para se casar quando se realize o matrimónio de minha irmã.
Vocês podem se aproveitar deste caso e se arranjará sem qualquer permissão.
Se o Papa tardar em nos enviar aquilo que exigimos, tomarei Margot pela mão e por mim mesmo a casarei".
Compreenda - depois de tais palavras, o mínimo que me restava era consentir.
— Quem é esse tal de Montfort?
— Quanto a ele, verdade seja dita, é um moço extraordinário, rico e bondoso.
Um verdadeiro príncipe.
Pelo visto adora Diana e ela corresponde ao sentimento.
Se ele não fosse um huguenote - d'Armi cuspiu e a seguir se persignou - eu nada teria contra ele.
O irmão mais velho, Conde Armando, é o chefe do ramo protestante dos Montfort.
Coligny se refere a ele com grande respeito.
Parece-me que, por intermédio dele, se estabelecem os contactos com os Países Baixos.
Após notar, finalmente, o silêncio e o ar desconcertado do Conde, ele acrescentou:
— Não se irrite tanto, Briand; ainda não perdeu nada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:05 pm

Se você quer ver tudo com seus próprios olhos, acompanhe-me numa visita à Duquesa de Nevers.
Haverá urra grande reunião, como diz Diana, pois um mago muito conhecido irá mostrar sua arte. Diana e o noivo também estarão lá.
Depois de reflectir com bom senso, o Conde concordou em ir à casa da Duquesa de Nevers.
Queria ver Montfort, conhecê-lo, e se certificar de que Diana realmente amava o maldito huguenote.
Que Raul pudesse desaparecer em suas mãos! - decidiu irrevogavelmente Briand.
Para a mencionada festa ele se vestiu com requinte especial.
Trocou seu habitual traje preto por vim brilhante traje cor de granada, aveludado, enfeitado com ouro e pedras de elevado valor.
Sua intenção era ser o mais rico e elegante senhor da reunião.
Quando Saurmont chegou ao salão da Duquesa de Nevers já se reunia numerosa assembleia.
Cumprimentando a anfitriã, ele notou, no grupo, a dama Diana.
Pura, irradiante, maravilhosamente vestida, a moça conversava animadamente.
Atrás da cadeira dela estava em pé uns ministros calvinistas que ele não tinha conseguido trazer à fé católica!
Gentil homem de expressiva beleza.
Os olhos dele, em profunda adoração, seguiam qualquer movimento da moça.
Briand tratou de se internar no grupo para observar o jovem casal.
Foi suficiente anotar um olhar de Diana direccionado ao noivo para se convencer de que ela também o amava.
Um ciúme terrível, um desesperado ciúme selvagem, um ódio contra o rapaz tomaram o coração do Conde.
O amor de Diana fê-lo perder o juízo.
Se o olhar e o pensamento pudessem matar, Raul não teria sobrevivido nesse momento.
No mesmo minuto o Sr. Montefelice foi anunciado.
Ruidoso murmúrio correu entre os convidados.
Todos se apinharam para ver o famoso mago chegar".
Sob a influência da terrível perturbação que o havia tomado, Briand, inconscientemente, deixou a multidão arrastá-lo, e, sem ter o mínimo desejo, acabou se instalando na primeira fila, há alguns passos da Duquesa de Nevers.
O Sr. Montefelice entrou e saudou a anfitriã.
Era um homem de alta estatura e pele bronzeada, os traços perfeitos do rosto eram emoldurados pela barba e espessos cabelos negros.
As grossas sobrancelhas guarneciam os olhos negros e penetrantes, brilhantes de estranho fogo.
Já no primeiro olhar direccionado a essa figura característica, Briand teve um mau pressentimento.
E esta impressão se fez tão forte que o obrigava a calar as tempestuosas emoções.
Cuidadosamente ele se perguntou onde havia visto aquele rosto cujos traços lhe eram tão familiares.
Ao mesmo tempo julgava j amais haver encontrado esse homem de nome Montefelice.
— Bem-vindo, Sr. Montefelice.
Falei tanto aos meus amigos de seus conhecimentos de ocultismo, que esperam de si a confirmação de minhas palavras.
Espero que hoje o senhor angarie novos louros à sua fama, disse gentilmente a Duquesa de Nevers.
Os lábios dele esboçaram um sorriso agradável e espontâneo.
— Desejo satisfazê-los, senhores.
Coloco-me à disposição de dama ou cavalheiro que deseje ser o primeiro a experimentar meus conhecimentos, - respondeu ele em voz altissonante, inclinando-se quase até o chão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:06 pm

Briand quase caiu!...
Parecia-lhe que um golpe de machado havia sido desfechado contra sua cabeça.
Briand não havia reconhecido o elegante cavalheiro de cuidadosas maneiras, o Sr. Montefelice, mas a voz sim: era o cigano Henrique, conhecedor dos seus terríveis segredos.
A primeira ideia de Saurmont foi correr.
Guiado por esse impulso já havia dado o primeiro passo para trás quando, de repente, o olhar ardente do próprio Montefelice, depois de percorrer a plateia se deteve nele, encarando-o com firmeza.
Com expressão intraduzível o cigano se virou e se aproximou da Duquesa de Nevers, mas Saurmont compreendeu que fora reconhecido.
Sua fronte estava coberta de suor; tremia de raiva e se apoiou no console, procurando pensar com calma.
Pelo visto, sem ser muito exigido, Montefelice levou ao êxtase toda plateia.
Ele descrevia o passado, previa o futuro e adivinhava o pensamento dos presentes.
Contudo, todas conversas e expressões de surpresa e admiração chegavam ao ouvido de Briand como sons distantes, murmúrios.
O Conde estava totalmente concentrado em descobrir uma maneira de sair dessa situação estranha.
Este homem conhecia seus segredos e podia arruiná-lo a qualquer momento.
E se a isso fosse acrescentada a surpreendente memória de Diana, então... então devia reconhecer que sua segurança estava entregue ao acaso...
Os minutos que corriam se revelavam a Briand verdadeira eternidade.
Ele não devia partir antes de Henrique, uma vez que decidira se entender com ele, para saber quanto lhe custaria o silêncio ou o desaparecimento dele dali.
A penetrante voz metálica do sinistro homem soava nos ouvidos do Conde, obrigando-o a recordar as horas mais negras de sua vida.
Via-se novamente no Castelo d'Armi e ouvia essa mesma voz aconselhando-o a liquidar definitivamente o Barão de Mailor, para renascer como Conde de Saurmont.
Em sua mente se desenhou o quarto no Castelo Guevara onde, com as mãos trémulas, estrangulou o tio e uma voz maliciosa e inesperada lhe dizia.
“Boa coisa você fez!”
Todas estas recordações encheram o coração do Conde de profunda ira.
Sua mão, convulsivamente, apertava o cabo de brilhantes do seu punhal, com o forte desejo de perfurai o coração do miserável.
Mas a razão lhe sussurrou que o assassinato era arriscado.
Henrique era ágil como um macaco, forte como um búfalo e dominava perfeitamente as armas.
Se a sorte o poupasse, então seria inevitável a revelação de seu passado.
Finalmente a festa, como tudo neste mundo, acabou e Henrique encerrou a apresentação.
Saurmont também já se despedia, quando o alcançou na escada.
— Por acaso não conhece seu velho amigo da Itália?
Eu o reconheci imediatamente, Sr. Montefelice, - disse ele, controlando a aversão e se aproximando educadamente.
O cigano riu maliciosamente.
Apertou com torça a mão de Briand:
respondeu tão alto que até os convidados que desciam pela escada podiam ouvir.
— Mil desculpas, Sr. Conde!
É verdade, eu não o matei na multidão de nobres senhores, mas, por acaso, não poderia reconhecê-lo!
Fico muito feliz em encontrar um amigo aqui, onde me sinto tão só.
— Sendo assim, concorda em vir comigo até meu hotel tomar uma garrafa de vinho e passar as horas em agradável conversa, como nos velhos tempos em Veneza?
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:06 pm

— Aceito com todo prazer seu amável convite, Conde, e me coloco à sua inteira disposição, - respondeu Henrique, tomando pela mão seu antigo companheiro.
Briand se sentia sufocado em meio à rude familiaridade com seu antigo criado.
Todo seu corpo tremia e ele andava como se estivesse pisando em brasas.
Exausto, largou o corpo nas almofadas da liteira. Henrique se sentou ao lado.
Reinava um silêncio mortal, já que ambos evitavam conversar na frente dos empregados.
Consideramos, nesta altura, indispensável dizer algumas palavras sobre o passado de Henrique e as circunstâncias que o levaram a Paris.
Depois de ter arrancado de Briand uma grande soma de dinheiro e diversos objectos de valor, Henrique deixou a Espanha e levou, como de costume, uma vida de festas e orgias.
Jogos, mulheres, bem como especulações arriscadas, colocaram-no novamente na penúria.
Já pensava em procurar Briand, de novo, quando o destino o levou a uma tribo de ciganos.
O encontro despertou imediatamente seus instintos e gostos mundanos, fazendo-o inclinar-se apaixonadamente pela vida errante e pelas diversas aventuras.
Logo sua coragem e maior instrução o destacaram no grupo, sendo ele escolhido como chefe do bando, com o nome de guerra: "Vampiro".
Durante o tempo em que passou na tribo também adquiriu poderes mágicos, que procurou desenvolver.
Uma velha temida e odiada até pelos do bando o ensinava.
Uma vez Henrique, com muita ousadia, conseguiu salvar o filho desta mulher de uma surra mortal, por roubo de cavalos.
Conquistou então para sempre o coração cruel da velha Topsi.
Em retribuição ela fez dele seu discípulo.
Topsi lhe transmitiu a arte da adivinhação e o segredo da preparação de elixires e bebidas mágicas.
Mas o que Henrique mais valorizava era a utilização de uma planta, cujas folhas o deixavam em estranha condição.
Sob os efeitos do vegetal, ele tinha a segunda visão, e, sempre que a adquiria, conseguia adivinhar espectacularmente o pensamento alheio, encontrar objectos sumidos e prever o futuro.
Mas finalmente Henrique se cansou da vida errante e se tornou mago.
Como nessa época este ofício era muito prestigiado, desfrutava de uma vida confortável.
Durante a longa estadia em Veneza, conseguiu prestar serviços a um velho erudito egípcio, que vivia sozinho na cidade de São Marcos.
Ocupava-se de ciências ocultas, de elaborar venenos e perfumes do oriente.
Este mago recomendou Henrique ao florentino René, que preparava perfumes para a Rainha Catarina, quando o cigano expressou o desejo de ir a Paris.
O velho astrólogo mantinha contacto constante com René, que fornecia ingredientes caros e raros, indispensáveis à elaboração de cosméticos, poções e venenos.
Bem recomendado e trazendo a bagagem cheia das diversas receitas de magia, que o velho egípcio Said-Jano lhe havia dado, Henrique chegou a Paris acalentando esperanças de enriquecer na vida.
Realmente em René ele achou um patrono sem cobiça.
O florentino taciturno e orgulhoso conhecia suas forças e não temia qualquer concorrente.
Depois de conhecer a clarividência do cigano, amigavelmente passou a recomendar o Sr. Montefelice (como o próprio Henrique passou a se apresentar) aos seus ricos e numerosos clientes.
Certa vez o apresentou à Duquesa de Nevers, que havia vindo para comprar perfumes, sugerindo que experimentasse ali mesmo os poderes do seu protegido.
Descuidada, a jovem concordou, perguntando quem a desposaria, já que um jovem senhor, admirador seu, havia sido morto num duelo naquela manhã.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:06 pm

Henrique trouxe à Condessa água limpa e, na transparência do líquido, mostrou um belo moço, discretamente vestido, com uma carta na mão.
Rindo até às lágrimas, a Duquesa disse que este rapaz lhe era totalmente desconhecido e que, pelo visto, não era um dos cortesãos.
Mas, qual não foi sua surpresa, quando dois dias depois apareceu em sua casa um jovem provinciano, com uma carta de um de seus parentes, reconhecendo no moço um olhar muito original, simpático.
Não é preciso dizer que este senhor conquistou a Condessa.
Impressionada pelas capacidades de Henrique, a Sra. de Nevers recomendou-o a muitos de seus amigos e amigas, terminando por convidá-lo à sua festa, na qual Briand reencontrou o cigano.
Chegando ao hotel, Saurmont ordenou aos empregados que o jantar fosse servido.
Enquanto isto era preparado, Henrique examinou a mobília e se admirou da riqueza e requinte na escolha de diversas obras de arte reunidas no gabinete do Conde.
Quando tudo estava preparado, Briand dispensou o empregado e trancou a porta.
Ao ouvir o barulho da chave fechando a porta, o cigano, como uma espécie de perito conhecedor de armas, se virou rapidamente e perguntou desconfiado ao Conde:
— O que significa isto, caro Conde?
Espero que não esteja planeando nenhuma traição.
Eu não vejo aqui aquelas mesmas almofadas que foram tão fatidicamente usadas para o seu querido titio.
Sem esperar resposta, ele se apoiou na parede, puxou a mesa para si e, sacando duas pistolas, colocou-as ao lado do seu prato.
Apalpando uma vez mais a parede, ele sentou e disse com um sorriso zombeteiro:
— Desculpe, Sr. Briand, mas a prudência é mãe da segurança.
Agora vamos conversar.
Suponho ser exactamente esta a finalidade de seu convite.
Vendo que o Conde olhava para ele com os cenhos franzidos e não dizia nada, Henrique prosseguiu:
— Qual o motivo dessa cara de preocupação, Sr. Briand?
Se tem algo a me dizer, fale.
É claro que antes de tudo devo cuidar de meus interesses, porém, se eu puder lhe prestar algum favor, sem prejuízo meu, farei com todo prazer, em nome de nossa velha amizade.
— Qual é o preço de sua vinda a Paris? - perguntou Briand, puxando a cadeira e encarando Henrique.
Este franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça.
— Eu não estimo o preço de minha vinda a Paris, simplesmente porque não quero sair daqui - e Henrique frisou bem estas últimas palavras.
Contudo, se o assunto trata do meu silêncio em relação às conhecidas vilanias do falecido Barão Mailor, então a coisa é diferente - isto, sim, "pode" ter um preço.
Aliás, vamos parar de falar por indirectas.
Você me convidou para se certificar de que manterei silêncio sobre os segredos de seu passado.
Para isso não há necessidade de que eu deixe Paris.
Precisamos apenas acertar a soma que será desembolsada para manter o meu silêncio.
Gostaria de - ele designou uma grande quantia - uma vez que não tenho dinheiro.
— Está bem, - disse Briand, após pensar um pouco.
Dar-lhe-ei inclusive o dobro do que deseja com a condição de que além de guardar absoluto silêncio, também evitará aparecer nos salões da alta sociedade que frequento.
Henrique sorriu satisfeito.
— Concordo. Levarei uma vida solitária e começarei a receber meus abastados clientes em casa, como Nostradamus.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:06 pm

Além disso, quem sabe, ainda não lhe poderei ser útil, Sr. Briand?
Sou hábil, astuto e você sabe por experiência própria que sempre posso dar uma boa sugestão.
A propósito, como achou sua viúva?
Para mim Diana se tornou maravilhosa, como um anjo.
Seu noivo a adora, é evidente.
Você perdeu um verdadeiro tesouro, Sr. Briand.
Na verdade, você a trocou pelo título de Conde de Saurmont e isto teve seu preço.
Ao ouvir as últimas palavras do cigano, o rosto do Conde ficou febrilmente corado.
Inclinando-se para Henrique, disse com voz rouca:
— Nunca, ouviu?
Nunca perderei Diana para ninguém!
O amor e a dívida para com ela me mandam restabelecer seu nome e título.
Preciso de você, Henrique, para acabar com esse cão huguenote.
Ajude-me, Henrique.
— Entendido. Conte comigo quando for o tempo de agir.
Matar um destes malditos, condenados pelo céu, será um acto de caridade.
Quem não tem na consciência um pecado?
Quem não desejaria receber o perdão de Deus aniquilando dois inimigos da Santa Fé Católica? - respondeu o cigano, fixando ligeiramente os olhos no céu.
Briand sorriu.
Tirou do armário dois saquinhos cheios de ouro e os colocou na frente de enrique.
— Tome, e se lembre de nossa conversa, disse ele.
— Não esquecerei; você está garantido pelo fato de nossos interesses serem os mesmos, respondeu o cigano levantando-se.
Henrique manteve sua palavra.
Sumiu dos salões e se instalou num bairro afastado onde, conforme suas palavras, se dedicaria inteiramente à ciência.
Ali recebia muitos clientes, ansiosos por saber o futuro através do conhecido vidente.
Entendendo que lhe seria difícil concorrer com os perfumes e venenos de René, Henrique se especializou em prever o futuro.
Seus êxitos nesse campo foram tais que logo seu nome chegou aos ouvidos de Catarina, despertando nela o interesse por experimentar pessoalmente as aptidões do novo astrólogo.
A Rainha-Mãe acreditava de todo coração nas forças invisíveis da natureza, direccionadoras do destino dos homens.
Ela acreditava nas forças do mal e gostava de empregá-las.
Italiana ambiciosa, preferia os crimes que não deixavam lágrimas.
Mulher desprezada e odiada, ela, desde moça, enfrentara situações muito difíceis.
Sendo regente, cercada de inimigos e adversários como mãe do Rei, com quem queria governar, Catarina necessitava manobrar constantemente partidos religiosos e guerras civis, valorizando enormemente a capacidade de se livrar dos inimigos com a ajuda de venenos apurados.
Além disso o desejo de conhecer o futuro a devorava.
Queria saber se seu amado filho receberia a coroa da França e se não seria traído, segundo as previsões de algum novo profeta.
Depois de saber que Montefelice se distinguia pela notável clarividência e suas previsões não se expressavam em palavras nebulosas ou em alegorias misteriosas, mas
ele mostrava ao visitante o futuro de maneira clara e viva, com realidade palpável, Catarina decidiu visitar este profeta.
Não temia ser enganada.
Muito estudo e longa vivência com as ciências ocultas lhe deram tamanho conhecimento que, qualquer enganador ou charlatão seria desmascarado no mesmo instante por ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:06 pm

Certa noite, duas horas depois de as luzes terem sido apagadas, uma liteira simples e discreta, conduzida por alguns homens disfarçados, deixou o Louvre, pela pequena cancela, atravessando ruas escuras e silenciosas em direcção ao bairro retirado onde vivia Henrique.
Nas vias animadas que rodeavam a residência real, o pequeno cortejo se encontrou com alguns grupos de jovens que, na companhia dos archoteiros, perseguiam cidadãos atrasados, divertindo-se em lhes arrancar a capa e outras brincadeiras marotas semelhantes.
Um destes tais grupos, maior e mais barulhento do que os demais, entretinha-se em acuar dois infelizes cidadãos deixados somente com a roupa de baixo, correndo desconcertados com as camisas rasgadas, gritando de pavor e de dor toda vez que recebiam um golpe nas pernas ou um soco.
O bando de desordeiros embriagados, ao notar a liteira, rapidamente a cercaram.
Percebendo que dentro havia uma mulher disfarçada, exigiam que ela tirasse a máscara, acompanhando a exigência com palavras muito atrevidas.
De repente, um homem que parecia ser o chefe do bando passou a gritar muitos impropérios e, antes que os condutores pudessem apanhá-lo, correu para a sombra das casas juntamente com seu bando, sumindo pelo portão da rua
Sem incidentes posteriores, a carruagem chegou à casa de Henrique.
Um dos criados bateu três vezes na porta com o cabo do punhal; o postigo foi aberto e depois de urra breve troca de palavras o porteiro os deixou entrar.
A dama mascarada, toda de negro e coberta por um longo e espesso véu, entrou na casa.
Após fechar cuidadosamente a porta, o porteiro, um velho de tipo oriental, conduziu a dama até o mago.
Era um grande quarto, revestido por uma substância negra, na qual se podiam ver as inscrições feitas com alguma espécie de material desconhecido, exibindo sinais de vermelho-sangue.
No fundo do quarto, numa mesinha decorada com cortinado negro, havia um grande espelho metálico em cuja superfície se viam todas as cores do arco íris.
A moldura do espelho era formada pela imagem de serpentes, cujos olhos eram feitos de pedras fosforescentes verdes.
Ao lado do espelho havia um recipiente de vidro cheio de água limpa.
A lâmpada, suspensa por uma corrente de ferro, iluminava fortemente a mesa, deixando na penumbra toda parte da estante do quarto, mobiliado apenas com algumas cadeiras.
A dama que havia entrado, permanecia em pé, examinando curiosa o misterioso espelho quando se abriu uma porta camuflada na parede e entrou Henrique.
Ele estava vestido com uma longa túnica preta.
Seu rosto era pálido e os olhos possuíam um brilho febril, fixando, curioso, a dama.
Inclinando-se até o chão, ele disse:
— Seja bendita a hora em que a Rainha entrou em minha modesta casa!
Como o mais prestativo de seu escravos, lançarei a seus pés todo meu pequeno conhecimento e poder.
A dama teve um sobressalto; depois, tirando a máscara, disse:
— Você me reconheceu, profeta! Isto é claro - faz com que sejam bem recomendadas suas capacidades; mas, exijo provas mais sérias.
De começo diga-me, se pode, o que faz o Rei no Louvre, neste minuto.
Henrique tomou o vaso e elevou ambas as mãos sobre ele.
A seguir, inclinando-se, olhou por alguns minutos o líquido diáfano.
— O Rei não se encontra no Louvre.
Ele está dando um sermão em alguns desprezíveis cidadãos que, desdenhando a ordem de apagar as luzes, correm pelas ruas, ao invés de ficarem em suas camas.
Irão lembrar por muito tempo desta lição.
Aliás Vossa Majestade acaba de ver seu filho a caminho de seu pacífico serviço.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:07 pm

No presente momento Sua Majestade, Carlos, sobe as escadas para ver um senhor, ao que parece, para despertá-lo.
Não é agradável a Vossa Majestade ver, em pessoa, o que se passa?
Catarina se inclinou curiosa.
Como um quadro em miniatura, desenhava-se uma cena estúpida que, diga-se de passagem, não era para ela novidade:
dois cortesãos do Rei, com a ajuda de golpes e empurrões, tiravam da cama um jovem rapaz.
Carlos se ria a alto som dos gemidos e contorções da dor causada ao infeliz.
A cena em si não surpreendeu Catarina.
Porém o facto de o Mago mostrar um cena que a ele era completamente desconhecida, e bem conhecida da Rainha Catarina, causou forte impressão.
Ela se sentou e começou com Henrique uma longa conversa, durante a qual expressou desejo de conhecer o futuro de sua família e o destino de seus filhos.
— Espero que me seja dado satisfazer o desejo de Vossa Majestade, disse ele, todavia, para responder tão importante questão, me é indispensável fazer alguns preparativos.
Ele pegou um recipiente da estante e bebeu seu conteúdo, a seguir colocou o espelho no escabelo baixo, sentou-se no tapete e fixou a visão na superfície brilhante.
Pouco a pouco seu rosto foi se tomando ainda mais pálido, os olhos imóveis e o suor começou a escorrer abundantemente da testa.
Repentinamente deu um grito de horror e, caindo para trás, exclamou:
— Sangue! Sangue!
O que é isto?
Uma rebelião ou um massacre?
Os homens correm apavorados, mulheres e crianças caem sob golpes mortais!...
Sangue jorra e cobre todo o céu e, como um mar enfurecido, cerca o pobre Carlos com suas ondas de sangue!...
Pálida e trémula, Catarina tomou a mão de Henrique:
— Que diz? O Rei Carlos morrerá?
Mas quem depois dele terá a coroa da França?
— Não me toque, - pediu Henrique, afastando rapidamente a mão dela.
Sim, o Rei Carlos morrerá afogado num mar de sangue.
Depois dele Henrique III receberá o manto.
Uma faísca de orgulho e triunfo jorrou dos olhos de Catarina.
— Não tenho dúvidas - Henrique será rei, sussurrou ela e a seguir perguntou em voz alta:
— E após seu glorioso reinado, seu filho herdará o trono?
— Não! respondeu Henrique, que visivelmente começou a se mostrar inquieto.
Seu peito se espichou, tiques nervosos lhe percorriam os membros e desfiguravam seu rosto; então abriu tanto os olhos que estes pareciam de vidro.
Não! Henrique III, Rei polonês, morrerá apunhalado; seu herdeiro Henrique de Navarra também será assassinado.
Depois, oh! Grande Deus!
Todas as desgraças estarão dirigidas ao "Bearnais" que, como uma nuvem, se concentrarão sobre a cabeça de seus descendentes.
Essa nuvem crescerá mais durante as duas regências consecutivas após o que surgirá um grande Rei.
O céu, pelo visto, irá clarear.
Mas as nuvens negras permanecem; reúnem-se ainda mais ameaçadoras!
Prorrompeu a tempestade, a terra é abalada até as profundezas.
Oh! Um relâmpago e terror!
O destino fatídico exterminará o género dos "Bearnais".
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:07 pm

A Majestade real decapitada .
As últimas palavras mal puderam ser ouvidas.
Henrique caiu pálido no tapete com os olhos meio cerrados.
Não obstante Catarina tinha ouvido o que ele dissera.
— E Francisco?
O que será de Francisco?
Também morrerá sem herdeiro? disse ela em tom alto, agarrando Henrique pelo braço.
Vendo que o mago estava imóvel, ela se endireitou.
Estava carrancuda e de cenhos franzidos.
"—Também ele, autêntico vidente fala o mesmo!
O Valois será julgado.
Mas ao menos o "Bearnais" e sua estirpe de Navarra serão vingados por mim.
Não foi em vão que eu concentrei em você todas as forças do mal."
Ódio e fúria surgiram na expressão da Rainha. Seu punho cerrado parecia ameaçar o futuro desvendado a ela pelo vidente.
Nesse minuto Henrique se levantou.
Dominando-se, Catarina lhe disse algumas frases de elogio e, a seguir, tirou do dedo um anel com precioso rubi e o entregou a Henrique que, radiante e com ar servil, acompanhou até à porta sua importante visita.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:07 pm

VII. RENÉ, O PERFUMISTA

Desde que se livrou de Marillac, Diana vivia como se estivesse num sonho feliz.
Já na manhã seguinte ela foi correndo notificar Clemência sobre a felicidade que sentia.
A Condessa a cumprimentou sinceramente.
Logo antes do almoço chegaram os dois condes e ela, alegremente, lhes transmitiu a boa notícia.
Diana e Raul trocaram apenas um olhar, mas, para eles, isso era o suficiente.
Eles próprios, não sabendo como, se viram abraçados.
Armando e sua mulher comunicaram que após evidente demonstração de entendimento mútuo, qualquer proposta formal seria desnecessária e agora mesmo se poderia anunciar o noivado.
A partir desse dia, conforme foi dito, nada perturbava a felicidade dos noivos.
Raul parecia adivinhar os mínimos desejos da sua querida; ele a cercava de carinho, enchia-a com os mais caros presentes e ficava com ela todo tempo livre.
O olhar radiante da jovem e sua inocente tagarelice obrigavam o jovem a esquecer as importantes ocupações políticas que inquietavam seu partido.
Um perigo constante rondava os protestantes o que era apenas refreado pela poderosa personalidade de Coligny e sua heróica valentia, fazendo com que ele ficasse em Paris, não observando a agitação popular católica, apoiada pelos espanhóis, por Guise, pelo Duque d'Anjou e pelo Papa, o qual, através dos padres, fanatizava a multidão e preparava a acção revoltante registrada na História com o nome de "Noites de São Bartolomeu".
Mas Diana era jovem demais, inexperiente, e estava muito feliz para se aprofundar na política ou mergulhar em pensamentos sombrios.
Seu olhar ingénuo via apenas o aspecto externo, e esse era brilhante, calmo e pleno de festas, caçadas e bailes.
Estavam tendo lugar os preparativos para o casamento de Margarida de Valois com o "Bearnais" e haveria muito divertimento e sumptuosidades.
Diana e Raul também deveriam tomar parte nos bailes de máscara.
O tempo da jovem estava totalmente ocupado em actividades com a Rainha, conversas com o noivo, controle do bordado do enxoval, dos vestidos e dos trajes que lhes eram indispensáveis para as festas e bailes de máscaras que estavam sendo preparados.
Além disso, a gentileza, abertamente manifestada pelo Rei ao partido dos protestantes, seu amor por Coligny a quem o Rei chamava de "pai" e a persistência com que procurava arranjar o casamento da irmã, eram garantias suficientes de segurança.
E, assim, tudo parecia que estava indo para o melhor.
Por isso, Diana soube dispersar todas preocupações políticas do noivo com sua inocente tagarelice e inesgotável alegria.
Foi aí que a própria Diana, sem saber, estreitou as relações e adquiriu a simpatia de uma pessoa que todos temiam, odiavam e, com todas as forças, tentavam evitar:
René, o fornecedor de perfumes para a Rainha-Mãe.
Ninguém sabia como esse quieto e sombrio italiano preparava incomparáveis cremes e ruges, que davam impressão de interromper o curso dos anos e restabelecia a mocidade.
Era possível conseguir com ele os melhores perfumes e cosméticos, indispensáveis às penteadeiras das damas da alta sociedade.
Mas, em lugar desses inocentes remédios, era possível receber de René refinados venenos e elixires que provocavam alucinações horrorosas.
Ele era bem conhecido como terrível feiticeiro, não tendo rivais quando era preciso socorrer um herdeiro pobre que possuía um parente rico, mas muito resistente...
Sombrio e feio como sua terrível arte, René era cúmplice de numerosos crimes cometidos na pervertida sociedade.
Serviam-se dele sem qualquer timidez, mas ao mesmo tempo o odiavam, pois, com seu ameaçador conhecimento, a qualquer momento, o cliente de ontem poderia ser a vítima de hoje...
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:07 pm

Ele era considerado extremamente rico, mas levava vida retirada e solitária; não tinha amigos e julgava desnecessário admitir em sua vida íntima pessoas indiferentes ou indiscretas, o que podia se tornar perigoso.
Diana apareceu na venda do florentino para comprar perfume e cosméticos.
Já ao primeiro olhar dirigido à moça, uma estranha agitação se reflectiu no tenebroso rosto do italiano, e ele, durante muito tempo ficou admirando o fresco e sorridente rosto de sua compradora.
Uma distante lembrança apagada pelos anos e pela vida surgiu do pântano do passado, lembrando ao sombrio e criminoso feiticeiro um episódio de sua mocidade.
Àquela época ele amava uma jovem loira e sorridente como Diana, com a qual tinha estranha semelhança.
Se a morte não tivesse ceifado essa flor no auge da mocidade, a vida de René teria sido bem diferente...
Essa ocasional semelhança e o modo sincero e gentil da jovem granjearam a simpatia do florentino.
Diante de Diana René se desfazia em sorrisos.
Um acontecimento insignificante fortaleceu ainda mais esta boa harmonia:
Diana tinha um pequeno cachorrinho, presente de Raul, muito querido por ela. De repente
o animal adoeceu.
Apesar de ser bem assistido, por todos os meios, o cãozinho piorava a cada dia.
A jovem estava muito aflita; vendo que nada ajudava, começou a acreditar, nas palavras de Gabriela, que o cachorro morreria de mau olhado de uma dama que tinha elogiado excessivamente a beleza do animal, certamente sentindo inveja de sua dona.
A ideia ficou na cabeça de Diana e ela começou a pensar em René, cuja fama de feiticeiro já era conhecida por todos.
Então ela resolveu lhe pedir que curasse o animal do mau-olhado.
Muito emocionada, ela se dirigiu ao perfumista, escondendo debaixo da capa o cachorrinho.
René, imediatamente, fez com que ela entrasse e, gentilmente, perguntou-lhe em que poderia ser útil.
— Eu vim, Sr. René, pedir-lhe um grande favor, começou Diana indecisa, enrubescendo como uma cereja.
Um fino sorriso apareceu nos lábios do italiano. Ofereceu-lhe uma cadeira e lhe perguntou amistosamente se ela não desejaria receber um elixir do amor, ou algum pó para eliminar alguma inimiga.
— Não, não! - Exclamou Diana - eu sou amada e feliz.
Mas se isto não fosse assim, então eu não desejaria utilizar de elixires que despertassem apenas um amor artificial; isto significaria que eu não seria capaz de despertar um sentimento verdadeiro.
Que humilhação!
No que diz respeito ao veneno, então, Deus me guarde!
Algum dia me utilizar dele!
Não tenho inimigas.
Nunca permitiria, senhor, vir tentar responsabilizá-lo perante Deus!
Um rubor sombrio, repentinamente, se espalhou pelo rosto magro e enrugado do florentino.
Essa voz harmoniosa lhe pareceu a voz de sua consciência, a voz da mocidade, que através dos lábios de sua amada Ginerva, lhe lembrava seu passado ainda não marcado pelos crimes cometidos.
Um pesado e rouco suspiro soergueu o peito de René.
Mas, ocupada com seu pensamento, Diana não notou a emoção do perfumista; levantando a capa ela continuou:
— Olhe! Eu vim lhe implorar que cure este pequeno doente de um mau-olhado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:07 pm

A emoção de René se transformou em espanto.
Com um alegre sorriso ele pegou o animal e o examinou cuidadosamente.
Depois, jogou algumas gotas de um líquido escuro na garganta do bichinho e deu alguns passes na cabeça do animal.
Isto feito, devolveu o cachorro à jovem.
— Pegue, senhorita, este frasco e dê ao pequeno doente 5 gotas de manhã, e 5 à noite.
Dentro de 3 dias o cachorro estará curado.
Diana calorosamente agradeceu ao perfumista e lhe estendeu um pequeno porta-níqueis, mas René fez um gesto negativo.
— Não, não. Tais ninharias não se pagam.
Estou contente por tê-la servido, senhorita.
Para mim, raramente chego a fazer uma bondade, até mesmo para um cachorro!
Não desejando ofender o terrível feiticeiro, Diana escondeu o porta-níqueis e estendeu a mão a René.
Este apertou fortemente a mão dela e a acompanhou até a liteira.
Passadas algumas semanas, Diana soube que o florentino havia seriamente adoecido.
A jovem resolveu visitá-lo, pois estava profundamente agradecida pela cura do cachorrinho.
Quando ela entrou, o doente, calado, com ar sombrio, estava sentado junto à janela.
Diante do aparecimento de Diana, seu rosto clareou.
Aspirou com prazer o perfume do buquê de lírios e rosas trazido por ela e agradecido disse:
— Como posso lhe agradecer por tal atenção a um velho feio como eu!
Estas flores maravilhosas dadas para mim por encantadoras mãos, renovam minhas forças.
Quantas pessoas a quem prestei muitos favores importantes e nenhuma se lembrou de mim!
Com a ingenuidade e sinceridade que lhe eram características ela se pôs a falar do noivo.
Diana lhe contou sobre seu noivado, descreveu Raul e o amor que os ligava e soube trazer ao sombrio doente uma melhor disposição de espírito.
O gélido coração do florentino aqueceu devido a essa demonstração de interesse da jovem, e até o fez recordar do amor da juventude.
A própria Diana, não sabendo, se revelou ser a única pessoa especial na corte que era imune ao veneno e à feitiçaria, pois René jurou que ninguém receberia dele arma que fosse destinada a prejudicar a jovem, ainda que para isso pagassem tanto ouro quanto o peso dela, Diana.
Uma única circunstância tinha causado desgosto à Diana:
o estranho desaparecimento de seu amigo de infância.
Ele parou, como fazia antigamente, de visitá-la e se relacionava com ela com cerimoniosa discrição.
Além disso, ela soube, através do Duque de Nevers, que seu amigo de infância levava uma vida devassa.
Quando a jovem perguntou o que significava tal conduta, René, sorrindo, respondeu que ele receava despertar o ciúme de Montfort, servindo-se em demasia dos privilégios de amigo de infância.
Quando Diana começou a lhe falar com merecida reprovação da vida dissoluta, Beauchamp, impaciente, disse que esse controle ela tinha direito a empregar apenas com Raul.
Na realidade René se sentia profundamente ofendido com ela, por olhá-lo como a um irmão, e isso ele não podia desculpar.
Não se conformava que, na estúpida cegueira, a entregara a Montfort, dando nas mãos de Diana a arma graças a qual ela se havia libertado de Marillac.
Desde que Beauchamp soube do noivado de Diana, ele quase deixou de lado a intenção de pedir o divórcio.
Ele não sabia que Marion trabalhava afanosamente para se livrar dele de uma maneira muito mais radical do que por simples divórcio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:08 pm

Dia 17 de agosto se comemorava o noivado de Margarida com o "Bearnais" e o casamento já deveria ser no dia seguinte.
Mas no 17 de agosto aconteceu tal agitação que muitos começaram a duvidar da realização daquele compromisso.
Uma multidão fanática com gritos e até berros se espalhava pelas ruas exclamando estrondosamente que Deus não permitiria tal união, que a fúria celestial cairia nos culpados e que haveria derramamento de sangue.
Tendo se misturado com a multidão, António Gilberto percorreu toda cidade e voltou para casa intranquilo e até atemorizado.
Avisou Raul que essa história terminaria mal e prenunciava um casamento sangrento.
Ninguém se intimidava em ameaçar o Rei.
Este ouvia com os próprios ouvidos.
Um profeta gritava que se o Rei insistisse nesse casamento, então com ele iria acontecer como com Isaque:
Deus o privaria do direito da primogenitura dando-a a Jacob.
As ameaças endereçadas aos protestantes, então, eram terríveis!
— Ah! Senhor!
Melhor seria que os senhores todos partissem; temo que algo de trágico poderá lhes acontecer aqui.
Hoje de manhã encontrei Gilles e ele me disse que, sem dúvida, algo está sendo preparado.
A confraria está se armando secretamente e as quadrilhas de Guise estão crescendo a cada dia... disse isso com lágrimas nos olhos.
O jovem Conde o ouviu preocupado, e balançou a cabeça:
— Eu não estou convencido de que o conselho seja bom; nós não podemos partir, António.
Hoje de manhã meu irmão viu o Almirante e este lhe informou que não sairá de Paris, enquanto não for realizado o casamento; e ele espera que todos os protestantes resistam tão firmemente quanto ele.
Você está exagerando o perigo.
O Rei é muito bom para nós e se relaciona com Coligny com amor filial.
Até agora ele nos tem protegido bem abertamente e o povo não deu atenção.
O povo vai urrar, se isto puder confortá-lo.
Aliás, se as quadrilhas de Guise estão aumentando, os nossos estão chegando a cada dia.
É preciso apartar o exagero do medo.
Mas em 30 de agosto todos nós partiremos, isso já está decidido.
Pobre Raul! Ele não sabia que o perigo que considerava longe e ilusório já era uma realidade palpável!
A participação de todos estava decidida e na escuridão estavam sendo afiadas as espadas que deviam golpear Coligny e todos protestantes.
Durante todo mês o fogo político inventado pelo partido católico se espalhava cada vez mais.
As últimas decisões corriam soltas pelo ar.
A vitória de Coligny, pelo visto, tinha sido compreendida pelo Rei: obrigava o Duque d'Anjou a se unir a Guise para eliminar o enérgico chefe e célebre combatente, um nome que já constituía uma força.
Na qualidade de agentes que tinham participado na preparação da Noite de São Bartolomeu, se encontrava
Briand de Saurmont; sob a influência do ódio pessoal e do ciúme, o Conde pensava apenas na carnificina e, à semelhança com muitos outros, precavidamente preparou uma lista de pessoas das quais se livraria nessa ocasião tão propícia — o massacre dos huguenotes.
E a cada dia que passava, isto se tornava mais provável. Tendo se colocado na comitiva do Duque d'Anjou, Briand podia acompanhar todas as peripécias e intrigas da corte, passadas entre o Rei, a Rainha-Mãe e Henrique, Duque d'Anjou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 18, 2016 9:08 pm

O ódio e a rivalidade entre os dois irmãos não era segredo para ninguém.
Carlos IX por nenhum momento se enganava com relação a essa pessoa efeminada, que parecia uma mulher, usava colar e pó de ruge no rosto.
Dócil, discreto e "respeitável", ele recusava obstinadamente deixar a França.
Não queria sair para se casar com Elisabeth da Inglaterra, ganhando com isso o trono de lá, e nem ocupar o trono da Polónia onde seria ele só o mandante.
Carlos, o Rei, se sentia em uma situação vergonhosa, que prejudicaria aquele que viesse a sucedê-lo.
Às vezes Carlos IX se via possuído pela tentação de eliminar o impertinente irmão que ousava estender a mão ambiciosa à sua coroa.
Pelo carácter de Carlos IX, toda explosão e até assassínio eram coisas distantes, não possíveis.
Certa vez Saurmont foi testemunha de uma cena entre os irmãos que provocou pavor no Duque d'Anjou e na Rainha-Mãe.
O Duque, em companhia de Saurmont e outros dote senhores, dirigiu-se ao aposento do Rei para saudá-lo.
Carlos IX, em passos largos, andava pelo quarto e não lhe respondeu ao cumprimento; prosseguia em seu passeio colérico, olhando de soslaio para o irmão e, de forma hostil, segurava o cabo do punhal, o que fez com que Briand pensasse que ele apunhalaria o irmão.
O Duque d'Anjou estava com a mesma impressão e empalideceu de tal forma que no mesmo instante recuou em direcção à porta.
Depois, aproveitando-se do instante em que Carlos lhe deu as costas, ele se curvou rapidamente e agilmente escapou do quarto.
O Rei logo notou a saída repentina.
Não impedindo o irmão de partir, ele lhe lançou a seguir alguns olhares pouco tranquilizadores.
"—Ufa! Escapei mesmo a tempo!- Murmurou o Duque, não notando que Briand o tinha seguido.
Preciso acabar com este canalha do Châtillon.
Ninguém como ele provoca desconfianças sobre mim!"
Também os Guise não perdiam tempo.
Desde o início de agosto, sob o pretexto da aproximação do casamento, eles encheram Paris com o exército de seus partidários.
Esta luxuosa casa dos Guise, tendo abastecido os seus 15 episcopados, mantinha quadrilhas armadas.
Além disso, todo um exército de senhores pobres, empregados, clientes, afluíram de todos os lados "para acompanhar o Sr. de Guise" (esta era a fórmula sagrada e significava que indicava a pessoa estar ligada ao Partido).
Entre essas pessoas estavam os católicos fervorosos, mas também havia muitos aventureiros acostumados a pescar em águas turvas.
Todas essas pessoas foram divididas nos destacamentos e o comando foi dado para os de confiança.
Briand e d'Armi também receberam o comando de um destacamento.
Foram tomadas todas as medidas de precaução.
Todas quadrilhas estavam alojadas nos domínios dos Guise e dos padres de Paris.
Os respectivos chefes estabeleceram relações com 8 cidades e dirigentes de confrarias.
Bastava apenas o sinal para lançar toda essa súcia ávida de sangue sobre os huguenotes espalhados pela cidade.
Mas, por enquanto, tudo ainda se encontrava duvidoso, assim como era indispensável receber permissão do Rei, e ele, pelo visto, não estava disposto a permitir a carnificina.
No dia fixado para o casamento, 18 de agosto, todos esperavam conflitos sangrentos ou o adiamento da cerimónia, já que ainda não viera a permissão do Papa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:36 pm

Para o espanto geral tudo transcorreu em paz e com grandes comemorações.
Carlos IX sustentava que o Papa tinha consentido e que a permissão chegaria a qualquer minuto.
O Cardeal Bourbon não pôde resistir mais.
Para que todos pudessem ver o casamento, o Rei mandou erguer um gigantesco palco.
Toda família real e a corte assistiram à cerimónia.
Comentava-se que a noiva estava apaixonada pelo Duque de Guise e era leal ao partido dele.
Ela não queria dizer "sim", mas Carlos, vigiando-a sem constrangimento, bateu-lhe na nuca, fazendo com que ela expressasse um sinal afirmativo, havia imaginado que antes de matá-los deveria trancá-los, ridicularizá-los, fazendo com que o crime cometido não tivesse maiores repercussões.
Esta zombaria cruel era feita pelo Duque d'Anjou e pela traiçoeira italiana.
Este dedicado irmão a quem a história acusa de ter ciúmes e de amar Margarida se divertia em ridicularizar o jovem "Bearnais", que tinha sido dado a ela como marido e se esforçavam em apresentá-lo como um imbecil.
Assim, foi realizado o baile de máscaras denominado "O Segredo dos Três Mundos", no qual era retratado um paraíso, repleto de ninfas, representantes da Rainha de Navarra e suas damas da Corte.
A entrada era protegida pelo Rei e seus irmãos vestidos e cavalheiros.
Em batalha simulada, distribuíam, por acaso, fortes golpes de lança, afugentando outros cavalheiros que tentavam penetrar no paraíso.
Sob o comando de Henrique de Navarra e Conde, os cavalheiros estavam derrotados, jogados, e finalmente, agarrados com os diabos que os arrastavam ao inferno.
O inferno era reflectido pelo subsolo. Os infelizes maridos estavam trancados lá.
Sobre suas cabeças havia começado o bale que se estendia por mais de uma hora, sendo que Margarida dançava com Guise.
O Rei, o Duque d'Anjou e toda sociedade estavam insensatamente alegres.
Por fim, aborrecidos com o encarceramento, derrubaram as portas e se armaram para dominar o paraíso.
A batalha começou novamente.
Mas subitamente ou de propósito, de vários lados aconteciam explosões de pólvora.
Todo ambiente se encheu de fumaça e de um cheiro sufocante de enxofre.
E todos imediatamente se dispersaram.
No dia seguinte houve uma nova apresentação alegórica, que ainda foi mais humilhante para os dois maridos do que o Baile das Máscaras do dia anterior:
houve a apresentação de um torneio.
O Rei de Navarra, Conde e seus séquitos apareceram vestidos em trajes turcos, com turbantes verdes.
Imitar turco não era nada lisonjeiro, principalmente nesse momento, quando os muçulmanos tinham acabado de sofrer a derrota de Lepanto contra os espanhóis.
Mas para Catarina e seu filho não era suficiente que os protestantes tivessem sido derrotados por homens; eles foram forçados ainda a sofrer uma derrota por duas mulheres, pois o Rei e o irmão passavam por amazonas.
A ingénua Diana estava toda absorvida pelo seu amor.
Tomava parte em todas as festas, alegrando-se sem qualquer segunda intenção.
Ela estava contente com o facto de se fantasiar e agradar a seu noivo, surpreendendo-a o aspecto de Raul e de seu irmão no Baile das Máscaras "dos Três Mundos".
A Condessa Clemência ficou indignada em saber o papel que os protestantes tinham sido obrigados a representar; ela não queria acreditar em nada e, sinceramente, se amargurava com isso.
Recusou-se a ir ao torneio e não permitiu que o marido fosse, sob o pretexto de doença.
Entre essas festas insensatas a desconfiança dos huguenotes estava adormecida e mascarada pelas maldades preparadas por Guise e Catarina.
Desencadeou-se o atentado à vida de Coligny, o que provocou rapidamente a divisão de ambos partidos, despertando-lhes o ódio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:36 pm

VIII. O ATENTADO

Na sexta-feira, 22 de agosto, quando Coligny estava voltando para casa e calmamente passando em frente a São Germano, houve um disparo de uma janela.
A bala arrancou o dedo indicador da mão direita do Almirante; um segundo tiro lhe atravessou a mão.
Alguns senhores da comitiva de Coligny acorreram em sua direcção, mas o Almirante, sem qualquer inquietação indicou a janela de onde tinham vindo os tiros dizendo:
— Previnam o Rei.
Conduziram o ferido ao pequeno e sombrio hotel, onde ele morava.
No mesmo momento saíram em busca de Ambrósio Pare, que não largou mais o Almirante até a morte deste.
A notícia sobre o atentando se espalhou com assombrosa rapidez pela cidade.
Os protestantes de toda parte acorreram ao chefe de seu partido.
Entre eles se encontravam também Armando e Raul.
Foram os primeiros a saber do atentado, pois o hotel deles era perto da residência do Almirante.
Quando os dois entraram, Coligny estava pálido e abalado, recostado na poltrona.
Pare tinha acabado de lhe amputar o dedo ferido e se ocupava da outra mão.
Alguns amigos que seguravam o doente choravam amargamente, mas o Almirante nem sequer piscava, cumprimentando com leve sorriso os dois irmãos.
Ele disse:
— Isso ainda é uma graça de Deus!
— Sim, Almirante. Agradecemos a Ele.
Ele é o Salvador, - respondeu Armando, profundamente emocionado.
Todavia a evidente tranquilidade do Almirante não se repartia entre os rostos dos que o rodeavam.
Os cavalheiros reunidos, fervendo de ódio e sanha decidiram sobre quem a culpa do atentado recairia.
Uns acusavam abertamente Catarina e o Duque d'Anjou, outros acusavam Henrique de Guise.
Um deles afirmava que tinha encontrado Cheplin se dirigindo à casa de Guise e indo com uma pessoa mascarada lembrando o Príncipe de Lorena e Maurevert.
Ambos iam para São Germano, de onde foi feito o disparo.
— Verdade, eu não tenho inimigos, excepto os Guise, mas não afirmo que o ataque tenha sido conduzido por eles - observou Coligny.
— Eles, e ninguém mais, cometeram este acto infame!
Eu, agora mesmo, ficarei na chefia de alguns destacamentos de confiança e prenderei estes miseráveis no próprio hotel, comunicou um impetuoso jovem.
Algumas cabeças quentes imediatamente se uniram à dele, mas Coligny severamente os proibiu de qualquer violência.
Foi nesse momento que chegaram os marechais
Damville, Cossc e também Teligny, então, neles se concentrou o interesse geral.
— Sua Majestade tem conhecimento do que aconteceu? - perguntou Coligny inclinando a cabeça, cumprimentando os que tinham chegado e procurando se informar sobre a saúde do Rei .
— Como! Eu mesmo estava com o Rei quando chegou esta fatal notícia, - exclamou Teligny.
Nesse momento nós jogávamos com o Rei e Guise.
Sua Majestade ficou terrivelmente emocionado, em pé, parado como se estivesse petrificado.
Depois, rapidamente, voltou a si e deu ordens que o Marechal informará ao Senhor.
Foi ordenado que todos os católicos que moram aqui perto devem sair.
Mesmo os nossos não podem se reunir ao redor do Senhor ou protegê-lo de qualquer novo atentado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:36 pm

— Para quê tudo isso?
A palavra e a protecção do nosso querido Rei são melhores do que mil boas lâminas, - disse Coligny - apenas eu ficaria muito contente e feliz em ver Sua Majestade.
Damville e Teligny no mesmo instante se ofereceram para transmitir a Carlos IX o desejo do ferido.
Entre os protestantes a agitação estava aumentando e a cada instante chegavam pessoas armadas.
Logo o pequeno hotel e todas as ruas vizinhas estavam cheias.
Na multidão se comentava em tom alto sobre os culpados do delito, espalhando-se maldições e ameaças.
Propunham-se tomar diversas medidas.
Queriam levar o Almirante de Paris, ou dar ao Rei queixa de Guise, a quem acusavam desse crime.
Prometeu dar um exemplo severo.
Por fim ele ordenou que lhe mostrassem a roupa do Almirante e durante muito tempo examinou a manga ensopada de sangue.
Coligny agradeceu emocionado ao Rei, recebendo com frieza e cortesia comedida as condolências de Catarina e de seu querido filho.
Após a conversa política durante a qual o Almirante expressou as queixas e acusações e deu alguns conselhos, ele pediu ao Rei para se abaixar e sussurrou algo em seu ouvido:
— Não se esqueça, Senhor, minhas advertências.
Se o Senhor valoriza a vida, tenha cuidado!
Diante destas palavras seu olhar cortante se dirigiu à Rainha e ao Duque d'Anjou, com uma expressão que significava que era impossível de se enganar.
O Rei empalideceu e, tremendo, endireitou-se.
— Eu não esquecerei suas palavras.
Repito, meu pai, seu ferimento para mim representa desgosto e ofensa.
Mas eu me vingarei de tal forma que se lembrarão para sempre.
Terminado este terrível juramento, ele levantou a mão, sendo que seus olhos brilhavam de raiva, voltando-se para o rosto pintado e feminino do irmão.
Nesse momento a Rainha-Mãe colocou a mão no ombro do Rei e calmamente disse:
— Já está na hora de irmos, Carlos; meu filho está muito irritado e está inquietando o Almirante.
Não se deve forçar um doente falar tanto.
O Rei ficou triste, pensativo e se retirou.
O Duque d'Anjou ficou ainda mais alguns minutos para conversar amigavelmente com o Almirante e informou-o que ordenara à guarda-real ficar ao redor de sua casa, dando protecção.
Certamente ele se absteve de acrescentar que havia designado como chefe da guarda um inimigo mortal do Almirante...
Madrugada e dia seguinte, 23 de agosto, passaram em febril agitação.
Rumores alarmantes circulavam pela cidade; uns contavam que os protestantes queriam degolar Henrique de Guise, outros acreditavam que o Duque de Montmorancy tinha saído com o séquito de Paris, buscando reforço e voltaria com grande destacamento de
cavaleiros e huguenotes e atacaria matando católicos.
Com isto os habitantes e as Irmandades aos poucos se armavam, esperando apenas o sinal para se atirar sobre os protestantes.
Mas faltava ainda o mais importante - o consentimento do Rei.
Eram cerca de oito horas da noite.
Na pequena sala de estar contígua ao dormitório, Carlos IX estava sentado à mesa, sorumbático e pensativo.
Diante dele a mesa de xadrez com as peças derrubadas; o Rei girava nervosamente o cabo do punhal ou acariciava uma grande faca de caçador que estava em seus joelhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:36 pm

Atrás da cadeira real, caladas, estavam algumas pessoas da corte.
Foi aí que o pajem soergueu o reposteiro e Catarina de Médicis entrou no quarto.
Um véu ainda mais negro destacava ainda mais a palidez de seu rosto.
Um áspero e ao mesmo tempo indeciso olhar dela percorreu o quarto.
Indo em direcção ao Rei, ela lhe disse em voz baixa:
— Preciso falar com o Senhor, Carlos.
— Vão embora, senhores; se precisar, chamarei, disse o Rei com gesto ríspido, liberando os cortesãos.
Depois, voltando-se em direcção à Rainha, acrescentou de modo rude, diga o que de importante a senhora tem para me dizer?
— O Senhor precisa agir bem rapidamente, meu filho, destruir os huguenotes, antes mesmo que eles o liquidem.
— Não me faltam inimigos, além dos huguenotes!
Conheço príncipes católicos que matam desprezando as minhas ordens.
Mas eu lhes ensinarei a respeitar a minha vontade! - disse Carlos de forma violenta.
— O Senhor, Majestade, está se referindo a Guise?
Disse a Rainha, sendo que seu olhar perturbado evitava o olhar do filho.
Mas há algumas horas eles humildemente na Noite de São Bartolomeu nos declararam que estão abatidos com a calúnia e a desgraça; imploram-lhe que os deixe partir...
— Mas como?
Eu lhes respondi que podem partir, que eu saberei encontrá-los, se isto for necessário para a justiça.
— Senhor! Senhor!
Não se deixe levar e não persiga os Príncipes Católicos e a Santa Religião. Os huguenotes audaciosamente desprezam o Senhor e estão convocando esforços, levantando cidades.
Se o Senhor não agir, os católicos mesmo começarão a agir e encontrarão um chefe.
O Senhor, Carlos, ficará sozinho e não encontrará um só lugar na França para onde fugir.
O Rei saltou da cadeira e deu algumas voltas pelo cómodo.
Depois, passando em frente à Catarina, perguntou ironicamente, com raiva:
— Oh! Que conselho traiçoeiro!
A mulher cristã exige mortes e massacres de inocentes!
A senhora acredita que apenas isso é necessário para o meu bem?
A Rainha corou e nos seus olhos havia um brilho odioso.
— Oh! Eu reconheço nessas palavras a influência maldita do huguenote que o está envenenando com boatos e desviando o Rei das pessoas mais próximas.
Que mulher infeliz eu sou!
Por que eu não voltei para Florença e morri calmamente lá, não chegando até este dia fatal?
Subitamente ela se endireitou e acrescentou com raiva:
— Este inferno de desconfiança ele infundiu no Senhor ontem, quando lhe falou no ouvido.
Diga, Carlos, o que lhe falou?
Eu quero saber.
O Rei se voltou, não falando sequer uma palavra, mas Catarina prosseguia insistindo, ora com súplica, ora com indignação, para que ele lhe dissesse o que o Almirante tinha lhe falado ao ouvido.
Não considerando a irritação e a forte agitação, o Rei se recusava a falar, mas de repente ele exclamou:
— O que ele disse?
Trate de saber, se for possível.
Ele disse que todo poder passou para as mãos da senhora e que ficarei muito mal.
Dando-lhe as costas ele saiu para seu aposento, batendo a porta com força.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:36 pm

Pálida, com os lábios tremendo, Catarina se apoiou na mesa, franziu as sobrancelhas e se pôs a pensar.
É preciso acabar com isso, não desperdiçando tempo - eliminar Coligny, senão ele me matará e também ao Duque d'Anjou .
Abrindo a porta silenciosamente, ela perguntou ao pajem se Gondi estava e ordenou que o chamassem imediatamente.
Passados dez minutos entrou no quarto um italiano velho.
E começou entre eles uma conversa a meia-voz.
Ela disse:
— Saiam imediatamente.
Gondi, de que maneira poderia persuadir o Rei?
É indispensável conseguir agora mesmo as ordens dele, assim como eu devo mandar a última ordem a Guise e Mareei .
Todo minuto é precioso.
Abalado e aflito, com os nervos tensos, o Rei andava pelo dormitório como um leão na jaula.
O aspecto de seu antigo e pálido preceptor, com expressão de medo no rosto, provocou em Carlos uma desagradável impressão.
Ele sentia que a luta ainda não estava terminada e se largou numa poltrona.
Lembrando o movimento das cobras, o italiano se aproximou dele, curvou-se no encosto da poltrona, com voz baixa mas convincente, pôs-se a persuadir o Rei de que lhe era imprescindível agir, não perdendo tempo, pois os huguenotes estavam em tal desespero que não apenas acusavam Guise, a Rainha e o Duque d'Anjou, como também acreditavam no consentimento dele, o Rei, e tinham decidido nessa noite pegar as armas.
Gondi via que para Sua Majestade havia um grande perigo; era ameaçado pelos protestantes e pelos católicos de Guise.
Em todo caso sua situação era muito perigosa.
A família do Rei era acusada (e não completamente sem fundamento), assim como a Rainha e o Duque d'Anjou, de ter feito o atentado e de querer se vingar do Almirante pela sua ofensa pessoal.
O Rei empalideceu tragicamente.
Quando Gondi acrescentou que o povo tinha se armado e era preciso lhe dar qualquer vítima, ele passou a mão pela testa húmida e exclamou:
— E, a propósito, eu proibi a quem quer que seja pegar em armas.
O medo o tinha contagiado.
O medo do italiano, seu tremor visível e a figura irritante causavam efeito na natureza exaltada e impressionável de Carlos.
Ele, pelo visto, enfraqueceu e não fez nenhuma objecção quando Gondi começou a lhe recordar os memoráveis massacres semelhantes à Noite Siciliana(62) e a desenhar toda a grandeza política do acto que exigiam dele.
Catarina silenciosamente soergueu o reposteiro e perpassou em direcção à poltrona real, na qual estava sentado o Rei, com os olhos fechados.
Em seu rosto desfigurado se lia claramente uma trágica luta.
— Carlos! - murmurou a Rainha, inclinando-se em sua direcção - seja homem!
Não destrua a si e à França com a fraqueza criminosa; o Senhor deve dar esta satisfação a seus súbditos católicos.
Carlos estremeceu e se endireitou:
— Todos meus súbditos possuem o mesmo direito da minha protecção, - disse com voz rouca.
Os huguenotes reuniram-se aqui acreditando na minha palavra real e nos tratados, e eu devo dar o sinal para o assassinato de Coligny, para o massacre de milhares de inocentes!...
Quantas vidas eu devo carregar em minha consciência?
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