Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 6 de 10 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:37 pm

Devo manchar minhas mãos de sangue e sacrificar meu nome na maldição de seus descendentes?
Não! Isto é demasiado!
— Acalme-se, Carlos!
Não se esqueça de que você condenou os cães heréticos e nosso Santo Pai, o Papa, enviou ao Senhor a permissão para tudo fazer pela grandeza de nossa religião.
O assunto actual da justiça do Rei, a qual oscilava entre o terrível crime e a pressão já se exercendo sobre ele.
Indeciso e vacilante, mergulhado numa tristeza mortal, olhava para o crucifixo.
De repente Catarina colocou a mão em seu ombro e murmurou:
— Em que está hesitando?
Deus está lhe dizendo através dos lábios de Seu Servo e está mostrando o caminho para o bem da Santa Igreja e glória de Cristo.
O tempo urge e estão esperando a decisão do Senhor.
Cada minuto perdido pode arruinar a sorte desse grandioso assunto.
Amanhã mesmo, quando amanhecer, o momento exacto já terá passado.
O Rei se levantou e tirando a mão da Rainha de seu ombro, vacilando, encostou-se na parede.
O rosto pálido se cobriu de manchas vermelhas e os olhos se injectaram de sangue.
Assim, ele prorrompeu numa estridente risada e estendendo a mão ao crucifixo, exclamou com voz rouca:
— Vós estais calado, Cristo, portanto estais concordando; assim, então, todo esse sangue será derramado em vosso nome.
Ele foi para seu aposento e disse, dirigindo-se a Gondi e à Rainha que o seguiam:
— Eu me rendo.
Mande a ordem de matar Coligny e os huguenotes.
Vacilando como um bêbado, esgotado, deixou-se cair na poltrona e gritou:
— Vinho! Dêem-me de beber!
Passado um minuto, o pajem lhe deu uma taça; com a mão tremendo febrilmente, esvaziou-a de uma vez.
Depois ordenou seguidamente que a enchesse.
Catarina e o Conselheiro saíram desapercebidamente do quarto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:37 pm

IX. CARTA COMPROMETEDORA

Desde o atentado contra Coligny, Diana vivia nervosa e preocupada.
Tudo o que se falava no Louvre era pouco animador para os huguenotes.
As conversas no hotel de Montfort também não eram nada tranquilizadoras.
O perigo que poderia ocorrer a seu noivo num conflito sangrento afligia o coração meigo da moça; ela desejava imensamente deixar Paris, onde se sentia como num vulcão.
Movida pela preocupação, Diana se dirigiu na manhã de 23 de agosto à casa do Duque de Nevers para saber as novidades do dia.
Quando subia as escadas encontrou o Duque de Guise descendo os degraus apressadamente, com a mão no bolso.
Seguramente levava algo muito precioso.
O Duque, distraído, se inclinou à jovem, cumprimentando-a.
Para Diana pareceu que algo o comprometia.
Realmente, alguns degraus acima ela viu uma carta caída no tapete.
A moça a apanhou para devolvê-la ao Duque, mas este já havia sumido.
O pedaço de papel estava amassado como um velho pergaminho e ela não lhe atribuiu nenhum significado.
Colocando-o no bolso, intencionou devolvê-lo à Duquesa de Nevers.
Todavia esta estava cautelosa, preocupada e taciturna como nunca antes estivera.
Achando que poderia mudar a sempre alegre e sorridente Condessa, Diana esqueceu completamente o bilhete.
Já que a Duquesa se queixava de uma forte dor de cabeça, Diana apenas a cumprimentou e foi ao encontro de Clemência.
Esta, também, estava triste e preocupada.
Aproximadamente às seis horas Armando e Raul voltaram da casa do Almirante e falaram da visita que o Rei fizera ao ferido.
Os dois estavam satisfeitos e contentes.
Disseram estar o Rei deveras indignado, que havia prometido mostrar pulso firme no caso do atentado e seu relacionamento com Coligny era esplêndido.
Finalizando afirmou que podiam ficar tranquilos.
Estas palavras convenceram Diana e logo ela e Raul, numa conversa carinhosa, esqueceram tudo o que não se referisse aos dois.
Depois o rapaz acompanhou a noiva ao próprio Louvre e retornou para casa.
Quando a Rainha foi se deitar, Diana se retirou aos seus aposentos pedindo a Gabriela que lhe tirasse a roupa e preparasse seu cabelo para dormir.
Feito isto, se deitou.
No entanto, como não queria dormir ainda, começou a conversar com a camareira que arrumava as coisas.
— Onde quer que coloque esta carta, mademoiselle? - perguntou Gabriela, tirando do bolso o bilhete perdido por Guise.
— Dê-me e aproxime a luz, - disse a moça.
Ela olhou o endereço:
a carta era destinada ao Duque.
Tomada de curiosidade, Diana abriu o bilhete e leu o seguinte:
"Caro Duque!
Apesar do meu forte desejo não foi possível vê-lo hoje.
Quero lembrá-lo de sua promessa:
aproveitar-se desta noite para me livrar do meu importuno marido.
Agradeço antecipadamente, amável e grandioso Henrique, pela liberdade que haverá de me proporcionar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:37 pm

Esta será uma verdadeira dádiva real, daquelas que somente você sabe dar".
Assustada, Diana fixou seu olhar demoradamente na assinatura de "Marion".
Era o nome da esposa infiel do Visconde de Beauchamp, e conhecida amante do Duque de Guise.
Mas seria possível que ela planeasse o assassinato do marido e que o Duque a ajudaria nesse plano terrível?!
Repentinamente, profunda tristeza tomou o coração da moça.
O que significava essa estranha frase "aproveitar-se da noite de hoje"!
Acaso algo se preparava contra os protestantes?
Mil sons de alarme começaram a ecoar em sua mente.
Não estando em condições de adormecer, levantou, ajoelhou-se e começou a orar ardentemente.
Entrando silenciosamente, Gabriela interrompeu a oração de Diana.
Esta perguntou:
— Estou aqui.
De que você precisa?
— Senhorita, o Sr. René, perfumista da Rainha Mãe está agora à porta e me deu este pacote.
Disse que isto é a pomada encomendada pela senhora e ficaria feliz se experimentasse agora mesmo sua qualidade.
— Hora estranha escolheu ele... - notou Diana, tomando maquinalmente o pacote nas mãos.
— Sim, Senhorita, é uma hora da manhã.
Contudo hoje ninguém consegue dormir no Louvre.
Lodri, como sabe, é da mesma aldeia minha, me disse que pelo visto algo está sendo preparado.
Com o Rei de Navarra se reuniram trinta ou quarenta senhores discutindo ardentemente.
Diana, mal ouvindo esta fala, impaciente, tomou o embrulho e abriu a lata de faiança.
Com a pomada havia um fino papel de pergaminho.
A moça o tomou e, completamente apavorada, leu o seguinte:
"Diga a seu noivo para fugir ou se esconder.
Faça isso sem perder um só minuto, ou será tarde.
Nesta madrugada todos os huguenotes serão assassinados.
Destrua o bilhete".
Diana se sentiu petrificada.
Tremendo de pavor, ordenou a Gabriela vesti-la o mais rapidamente possível.
Enquanto a camareira lidava com a saia e a abotoava, Diana pensava em como agir.
A tão altas horas não era nada fácil sair do Louvre, e arriscar-se a ir sozinha pelas ruas era quase um perigo de morte.
Apesar disso, não hesitou um segundo.
No momento, o mais importante era sair do Louvre.
Para avisar Raul e os parentes, ela arranjaria um jeito de entrar no hotel Montfort.
Quando Diana se aprontou, tomou a camareira pela mão e se livrou do bilhete.
Pediu a Gabriela não abrir a porta a ninguém além dela, e se lançou à procura do Sr. de Nancy, capitão da guarda, sempre amável com ela e grande admirador de sua beleza.
Diana contava com ele para escapar do Louvre.
Conseguiu achar o Sr. de Nancy sem dificuldades.
Ela se aproximou dele ofegante e trémula dos pés à cabeça - qualquer atraso numa ocasião em que os minutos eram contados agravavam seu desespero.
Ao ver a jovem vestida sem cuidados, despenteada e pálida como um defunto, lançando-se desesperadamente em sua direcção, o oficial se assustou.
Seu espanto aumentou ainda mais quando Diana, com lágrimas nos olhos, lhe implorou tirá-la do Louvre.
— O que tem na cabeça, senhorita?
Onde vai sozinha de madrugada?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:37 pm

Uma mulher não pode se arriscar a sair a uma hora dessas...
Diana nada respondeu, apenas ergueu as mãos juntas em súplica.
No seu olhar brilhava tamanha súplica, desespero e angústia que o valente capitão ficou comovido.
Ele lembrou que o noivo dela era huguenote e não teve dúvida de que a moça estava ciente do que se preparava.
Como numa guerra civil o derramamento de sangue desperta asco, sentiu compaixão e pena da moça e resolveu ajudá-la a salvar seu noivo de boa família.
Pelas profundas convicções do Sr. de Nancy, houve muita bondade nesse acto.
— Vamos, - disse ele decidido.
Eu autorizarei a saída e para sua segurança ordenarei a um soldado acompanhá-la até o hotel Montfort, onde, penso, deseja se dirigir.
— Obrigada! Que Deus o pague pela sua bondade! - disse Diana, apertando fortemente a mão do valente capitão.
Dez minutos depois, Diana, coberta com uma capa preta, saía à rua acompanhada de um velho soldado, armado dos pés à cabeça.
As ruas estavam vazias e silenciosas, as casas hermeticamente fechadas.
Diana chegou ao hotel Montfort sem encontrar uma única alma viva.
O hotel estava fechado e envolto na escuridão.
Era evidente que todos estavam dormindo.
Aflita, impaciente, Diana começou a pensar em como entrar na casa.
É claro que ela podia bater à porta principal acordando o porteiro , mas achou ser perigoso; melhor fazê-lo em silêncio e discretamente.
De repente ela lembrou da portinhola do jardim e da janela da casa do jardineiro dando para a travessa.
Passado um minuto o soldado bateu com força na persiana.
Logo uma voz assustada perguntou o que queriam.
— Sou eu, Jacob, Diana de Mailor.
Deixe-me entrar.
Fique com este soldado.
Espere-me, - disse ela assim que se abriu a cancela.
Passando como um relâmpago pelo porteiro, ela voou ao jardim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:37 pm

X. A MORTE DO ALMIRANTE

De outro lado o Conde de Saurmont impacientemente esperava o morticínio que deveria lhe proporcionar a oportunidade de se livrar do detestável oponente.
O atentado a Coligny deu a entender se aproximarem a um derramamento de sangue.
Notando uma atmosfera propícia para a realização de seus objectivos, o Conde engajou-se numa febril militância contra os adversários.
Encontrou-se com Mareei, antigo chefe dos comerciantes e se certificou de os cidadãos estarem armados.
Além disso, por onde o Conde passava, estimulava o fanatismo religioso e o ódio aos huguenotes.
No sábado à noite Briand deu o último giro e pôde constatar que todos esperavam apenas um sinal para se lançar sobre os protestantes e para, nos diversos bairros, os grupos dos partidários de Guise se levantarem.
Depois se dirigiu ao hotel do Duque, cujo pátio estava repleto de soldados, cada qual levando no braço uma faixa branca como sinal de identificação.
No salão inferior reuniam-se os oficiais e os senhores comandantes dos bandos, entre os quais se encontrava d'Armi, cujo olhar brilhava de cobiça, como se não houvesse dúvida de que o massacre seria acompanhado de pilhagem.
No salão se bebia muito, porém sem barulho, já que qualquer ruído e tumulto estavam proibidos até a hora marcada.
Briand conversou um pouco com o Barão e foi ao encontro do Duque.
Na companhia deste o Conde encontrou Angoulême, o Duque de Nevers e o alemão Besme, homem suspeito, rude e desconfiado, muito ligado a Henrique de Guise, que gostava bastante dele e o influenciava muito.
Os três estavam inquietos e preocupados.
A meia voz conversavam com alguns senhores de sua comitiva.
O discurso de Saurmont dizendo que a cidade estava em grande expectativa e sedenta para agir, em honra de Deus, alegrou um pouco Guise e seus amigos.
Não obstante, a ordem esperada que viria do Louvre os irritava e preocupava.
Por fim, depois das 11 horas chegou o mensageiro do Duque d'Anjou, trazendo a ordem de agir, uma vez que o Rei concordara.
Henrique de Guise se animou e os demais suspiraram de alívio, já que poucos contavam com o consentimento de Carlos IX.
Acompanhando Angoulême havia numerosa comitiva, da qual faziam parte Saurmont, Besme e o antigo capitão de Coligny - Sorlabon, convertido ao catolicismo e desejoso de assassinar seu ex-chefe, para provar sua fidelidade.
Henrique Guise saiu ao pátio e montou na sela.
Briand também subiu ao cavalo.
O portão do hotel se abriu rangendo.
Em primeiro lugar saiu Guise com uma comitiva e um forte destacamento de cavaleiros e, atrás destes, soldados vinham em formação.
Com o grito de "Morte aos Huguenotes"! se dirigiram a vários locais da cidade.
O Duque d'Anjou encarregou Saurmont de verificar pessoalmente o assassinato do Almirante.
Por isso, apesar de sua impaciência em ir rapidamente aos Montfort para se livrar do detestável oponente, o Conde devia seguir o Duque, que, a trote rápido, conduziu seu destacamento à residência de Coligny.
Logo a ruela ficou repleta de soldados.
O guarda do Rei, instalado ao lado da casa do Duque de Guise, se juntou a ele.
O capitão da guarda, Cossé, inimigo declarado de Coligny, em nome do Rei bateu à porta.
Um dos protestantes, o que abriu a porta, foi no mesmo momento surrado até a morte.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:38 pm

Alguns soldados de Navarra tentaram defender a entrada, mas rapidamente foram dominados.
Besme arrebentou a porta do quarto de Coligny.
O Almirante, com ares de importância, calmamente se dirigiu na direcção deles e os assassinos, por um minuto, recuaram.
À frente estava Besme que completamente embriagado perguntou rudemente:
— Não é você o Almirante?
— Rapaz, você levanta a mão a um velho ferido, - respondeu tranquilamente Coligny.
Este desprezo gélido caiu sobre o cruel alemão como um golpe de chicote.
Dizendo impropérios, lançou-se sobre o Almirante e lhe cravou no ventre o punhal que tinha em mãos.
Coligny caiu. Contudo o orgulho despertou no agonizante, indignação por ver a morte chegando não pela ponta de ume espada.
— Oh! Preferia fosse um homem, mas é você um desgraçado! - gritou ele inclinando-se ao solo .
Fora de si de ódio, Besme golpeou-lhe o rosto, a cabeça, sendo seu exemplo seguido por outros.
Do pátio chegava um ruído de batalha, o tilintar das armas e o rouco gemido dos agonizantes.
— Então, que tal, Besme? Terminou? - gritou com impaciência Henrique Guise.
— Feito, Senhor!
Aumâle não queria acreditar enquanto não constatasse com os próprios olhos.
Passado um minuto Besme e Sorlabon apareceram na janela.
Ergueram o corpo inerte de Coligny e o atiraram no pátio; devido à pouca perícia do assassino ou porque no Almirante surgisse um raio de vida e resistência, o corpo dele ainda ficou pendurado na janela por um minuto, caindo depois ao solo.
Guise e Aumâle desceram do cavalo e se inclinaram sobre o cadáver, contudo o rosto estava coberto de sangue e desfigurado, tornando o reconhecimento difícil.
— Não obstante é preciso ter certeza, murmurou Aumâle.
Tirando seu lenço, limpou o rosto do Almirante.
— Diabo o carregue!
É ele! - gritou dando um pontapé no corpo — Cachorro! resmungou Guise, enquanto pisava o rosto do Almirante.
Após isso, virou-se e montou no cavalo.
Nesse instante um jovem palaciano abriu caminho entre a multidão e em voz alta disse:
— Ordem do Rei!
A seguir, colocando-se diante do Duque, prosseguiu:
— Pare, Senhor!
Vossa Majestade, o Rei e sua Mãe mandam dizer que os proíbem de fazer algo contra o Sr. Almirante.
Ordenam que voltem ao seu hotel.
O Duque de Guise deu um sorriso cruel e zombeteiro.
— Diga a Vossa Majestade que estou desesperado e a ordem chegou tarde demais.
Já está feito:
o Almirante foi morto. Petrucci!
Continuou se dirigindo a um dos cavaleiros de sua comitiva - corte a cabeça deste maldito huguenote e a leve ao Louvre como prova do que ocorreu.
Com a destreza de um profissional, o bravo italiano tirou a cabeça do defunto, embrulhou-a num pedaço de tecido, subiu à sela e deixou o pátio.
Enquanto os soldados acossavam com disparos algumas pessoas que escapavam do hotel de Coligny, tentando se salvar pelo telhado, Briand saiu do pátio com um pequeno grupo de soldados.
Queria chegar logo no hotel de Montfort, no entanto sua paciência novamente foi colocada à prova.
As ruas mudaram de aspecto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:38 pm

A multidão saía em massa de casa e toda essa corrente humana procurava entrar na casa de Coligny para saciar seu ódio e brutalidade, sobre os restos daquele que tanto temiam.
Enquanto o Conde e seu grupo vagarosamente abriam caminho através da multidão, o ar foi cortado pelos sinos da catedral de São Germano.
O som penetrante e vibrante fez o Conde tremer involuntariamente.
Ao ser dado o sinal, a violência prorrompeu na cidade.
De todos os lados se ouviam disparos, gritos de horror e exclamações de ódio.
Embriagados pelo sangue e ávidos de saquear, os soldados de Briand começaram a se dispersar rapidamente.
O Conde compreendeu que para manter os soldados unidos não havia disciplina, e, fora de si, tanta raiva sentia, seguiu ao hotel Montfort quase sozinho.
Assim que viu o hotel, percebeu os moradores já terem sido alertados.
Atrás dos contra ventos das janelas, cintilavam as luzes e se ouviam gritos e altercações.
— Pare, boa gente! Abram o portão!
Esta casa pertence ao Conde de Montfort.
Façam um favor a Deus e seu trabalho será recompensado! - gritou o Conde para alguns cidadãos e artesãos que, com bandeirolas brancas e armados de lanças, corriam enraivecidos gritando:
"Morte aos huguenotes!!!"
A multidão parou e, sob o comando de Briand, tentou arrebentar o portão.
Por dentro, contudo, os moradores o seguravam com todas as forças.
De repente se abriram duas janelas no segundo andar e delas começou a cair uma verdadeira chuva de disparos certeiros sobre os assediantes.
Acordados pelo ruído, os habitantes das vizinhanças saíram à rua e, na entrada de casa, ou mesmo na janela, eram atingidos pelos disparos, caindo mortos em todos os cantos.
— Socorro! Socorro! - gritava Saurmont, cujo chapéu havia sido perfurado por uma bala.
Ajudem aos bons católicos que estão fazendo justiça em nome de Deus e do Rei.
Com gritos e impropérios contra os huguenotes que ainda se defendiam valentemente, a multidão duplicou a força, porém debalde:
o portão maciço suportava todas as tentativas.
Subitamente os assediantes receberam um reforço inesperado, vindo de um pequeno grupo de soldados e aventureiros.
Para sua grande alegria, Briand viu no comando dos soldados o Sr. d'Armi.
— Pare! Ajudem-nos a acertar as contas com estes malditos huguenotes que, além de se atreverem a resistir, ainda matam os verdadeiros servidores do Rei! - gritou Saurmont, irado.
D'Armi, que mal o reconhecia, ordenou aos soldados ajudá-los.
Sob o comando das forças unidas destes possessos, a porta maciça tremeu e logo depois se partiu.
No patamar da escada, barrando a passagem para a sala, havia um bando de empregados armados, pálidos e seminus, por haverem acabado de despertar.
Uma voz forte, a dar ordens na sala, fez Briand saltar - era Raul.
Depois de desembainhar a espada furiosamente, o Conde já se lançava à frente, quando se deteve no lugar em que estava.
Aos seus ouvidos chegou uma voz feminina, pronunciando repetidamente:
— Fujamos, Raul!
Unamo-nos a Armando e Clemência!
Estes bandidos são superiores a nós.
A voz era de Diana.
De que maneira ela veio parar ali?
Agindo rapidamente, Briand sacou do bolso uma máscara e cobriu o rosto.
Abrindo caminho por entre os defensores da entrada se esforçava por chegar à sala onde algumas mulheres seminuas e confusas corriam de seus perseguidores.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:38 pm

No fundo do quarto viu Raul de Montfort empunhando uma espada que Diana tentava arrebatar.
Os cabelos dourados da moça soltaram-se na confusão.
A capa preta, pendurada em um dos ombros, foi arrastada para o chão.
Agarrava-se ao noivo que, com o braço livre, a segurava pela cintura.
Ao ver os dois abraçados, a ira e o ciúme quase interromperam a respiração de Briand. Blasfemando, se lançou ao casal de apaixonados e atacou Raul.
Desenrolou-se uma luta desesperada.
Mas Diana atrapalhava muito, tanto o ataque quanto a defesa.
Atirou-se ao pescoço de Raul e instintivamente defendeu seu corpo com o peito do amado...
O perigo de ferir a jovem paralisou os oponentes.
Montfort em vão tentava se livrar dela, quando, de súbito, entrou na sala um homem gritando com desprezo:
— Vejam esse desprezível huguenote!
Defende-se com uma mulher!
Surpreso, Briand ergueu os olhos e reconheceu Henrique que todo coberto de sangue se preparava para ajudá-lo.
Ao ouvir as palavras provocantes e ofensivas do cigano, Raul enrubesceu de raiva.
Recobrando a força, livrou-se de Diana e se lançou ao encontro de Saurmont.
A moça se debatia, porém Henrique a segurava firme e, apesar de todo esforço dela para se soltar, não deixou que se metesse entre os dois.
Diana se debatia nas mãos de Henrique como uma louca.
Notando que d'Armi aparecera na entrada do quarto, ela gritou com voz dorida:
— Papai, salve Raul!
Ainda que todos morram, que ao menos ele viva!
— Diana! Minha cara criança! - gritou o Barão correndo ao encontro da filha.
Vendo que ela não parava de gritar "Salve-o!", o Barão fez um movimento, como se desejasse socorrer Raul.
Contudo, nesse mesmo instante, a espada de Saurmont atravessou o peito de Montfort que esticou o braço e caiu murmurando:
"Diana!"
Após isso, não se moveu mais.
Um grito desesperado, que abalou até os nervos de aço de Briand, escapou dos lábios de Diana.
Levando as duas mãos à cabeça, com olhar vítreo e dilatado, por um instante ficou petrificada, vindo a perder os sentidos logo em seguida.
d'Armi a segurou.
Chamando a filha pelos nomes os mais carinhosos, o triste e indiferente Barão carregou-a nos braços.
Henrique e alguns soldados o seguiram.
Estando a sós, Saurmont ajoelhou-se ao lado do cadáver de Raul e a primeira coisa que fez foi tirar dos dedos dele o anel de noivado.
A seguir desabotoou-lhe a roupa e retirou um medalhão com o porta-retrato de Diana e lhe cortou uma mecha de cabelos manchados de sangue.
Guardou tudo isto, chutou raivosamente o cadáver e saiu do quarto.
Ruídos terríveis, berros e gemidos invadiam toda casa.
Mulheres e empregados corriam desnorteados.
Matando quem aparecesse em seu caminho, Saurmont se preparava para deixar esse lugar de desespero quando um tilintar de armas, palavrões e o ruído de lutas chamaram sua atenção.
Aproximando-se cuidadosamente de uma janela aberta, viu à luz de um archote Armando de Montforte alguns guerreiros que, desesperadamente, se defendiam de uma multidão de cidadãos, soldados e aventureiros componentes da divisão de d'Armi.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:38 pm

Sem se deter para pensar, Briand pulou no peitoril da janela e dali para fora.
— Desgraçados!
Bloquearam uma saída secreta por onde estão carregando seus tesouros! - bramia um gordo, todo coberto de sangue sacudindo a velha cerca.
Essa saída era constituída de um pequeno pátio interno, ao fundo do qual Saurmont viu um homem carregando nos braços uma mulher desmaiada.
Pelos longos cabelos soltos e negros o Conde deduziu se tratar de Clemência de Montfort.
Quase no mesmo segundo o homem desapareceu nas sombras.
Briand se voltou para o Conde Armando.
Este, pálido e decidido, se defendia com valentia, apertando contra si seu filho pequeno que, emudecido de medo, se agarrava à roupa dele.
Os atacantes eram em número muito superior para que essa batalha continuasse por muito mais tempo.
Um a um caíam os defensores de Montfort.
Por fim, o braço cansado de Armando já não aparava os golpes com presteza.
Aproveitando-se disso, um dos aventureiros enterrou a espada no pescoço dele.
Armando caiu vertendo sangue.
O golpe da espada derrubou a criança.
Depois disso, os assassinos, com gritos de vitória, deixaram o hotel e saíram à procura de novas vítimas.
Aquele que carregava a infeliz Clemência era António Gilberto, fiel médico dos Montfort.
Estava por acaso em casa de Raul quando Diana trouxe, infelizmente muito tarde, as notícias sobre o que estava se preparando.
Voltando ao Louvre, onde havia ido acompanhar a noiva, o jovem Conde, sentindo uma leve dor de cabeça, mandou chamar António.
Este veio e lhe ministrou gotas calmantes.
A noite estava maravilhosa, os jovens sentaram junto à janela e começaram a discutir questões políticas palpitantes e a construir planos para o futuro.
Os dois homens se distraíram a tal ponto que se esqueceram do tempo.
— Que Deus me perdoe!
Parece-me que logo vai amanhecer! - exclamou Raul rindo.
Deite-se, António, e amanhã durma até tarde.
Ambos se levantaram.
António se preparava para fechar a janela, quando perceberam sair da alameda uma sombra que rapidamente atravessou o espaço de areia e em dois pulos ganhou o terraço contíguo ao quarto de Raul.
Em um minuto se ouviu forte batida à porta e uma voz bem conhecida, porém entrecortada pela inquietação gritou:
— Abra! Abra depressa!
É assunto de vida ou morte!
Raul deu um salto e abriu a porta.
Na soleira estava Diana, pálida como um defunto.
Suas pernas se negavam a obedecer e ela teria caído se o Conde não a tivesse amparado.
— Meu Deus! Diana! Você aqui a tal hora?
O que aconteceu? perguntou ele muitíssimo agitado.
— Acontece que esta madrugada serão mortos todos os protestantes, - respondeu ela, mal se ouvindo a sua voz.
Por isso fuja você, seu irmão e Clemência enquanto é tempo.
Isso se refere a sua vida!
— Mas quem lhe contou isso, Diana?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 7:38 pm

Pode ser que seja mentira, disse Raul, com ligeira incredulidade.
O Rei simpatiza muito connosco.
Hoje mesmo, na casa de Coligny, ele prometeu punir severamente aqueles que realizaram o atentado.
Quem, depois disso, ousaria promover um morticínio?
— Meu querido não perca tempo com conjecturas vazias, suplicou ela, confirmando inteiramente as palavras da carta de Marion perdida pelo Duque.
Finalmente a estranha agitação reinante no Louvre anunciava algo incomum.
— Não há dúvida de que não planejariam assassinar se não esperassem um massacre.
Sendo assim, corra, corra, amparado por todos santos!
O Conde empalideceu.
— Não duvido mais; irei agora mesmo acordar Armando e sua esposa.
Porém fugir para onde?
Reunir uma escolta e deixar a cidade exigiria tempo demais e aqui onde se esconder?
— Senhor, eu o esconderei, - disse se aproximando com rapidez António Gilberto.
Naturalmente não será possível deixar a cidade, mas, se conseguirmos chegar ao Sena e encontrar na margem uma embarcação, então todos estarão a salvo.
Lá vive meu antigo patrão Gilles.
Ele possui uma boa e retirada casinha e é conhecido como bom católico.
Provavelmente, na casa dele, ninguém nos molestará.
— Mas vai se arriscar a nos receber?...
— Conheço Gilles e falo em seu nome.
Só que se apressem, Senhor, rápido!
Sem responder uma palavra, Raul se lançou ao aposento do irmão.
Assim que ele saiu, Diana, esgotada, sentou-se e prorrompeu em pranto histérico.
— Não chore, senhorita!
Com a ajuda de Deus nós os salvaremos, - disse António em tom consolador.
Agora venha comigo para cima, temos de correr pelos degraus escuros e, através do pátio interno, chegar à travessa.
De lá o Sena fica um pouco mais longe do que a partir da margem do Louvre, em compensação é mais seguro.
As palavras de António acalmaram Diana e a convenceram.
A moça se levantou e os dois se dirigiram ao primeiro andar.
Cada minuto lhes parecia uma eternidade.
Do quarto saíram assustados Armando e Raul.
Clemência envolvida numa capa saiu atrás deles com a criança que era apressadamente vestida pelo caminho.
Trocando rapidamente algumas palavras, eles se ocuparam dos últimos preparativos para a fuga.
Armando começou apanhando um pouco de ouro e outros objectos preciosos, tomando somente aquilo que lhe caía em mãos.
Enquanto isso, o cavalariço do Conde acordou os empregados e mandou que se armassem e fechassem as janelas e todas as entradas.
Os fugitivos se preparavam para sair pela escada, quando o ar foi cortado pelo terrível som dos sinos.
Todos pararam imediatamente.
Ninguém sabia, contudo compreenderam instintivamente que naquela hora da madrugada o badalar era um sinal...
— É o sinal!
Agora é tarde para fugir! - gritou Diana se apertando, apavorada, contra Raul.
Ninguém a contestou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:09 pm

Todos, inclusive António, estavam petrificados.
Logo após se ouviam ao longe disparos, depois, já nas proximidades, gritos, berros e, por fim, debaixo das próprias janelas do hotel, corriam alguns homens urrando:
"Morte aos huguenotes"!
— Vamos sair! - disse o Conde Armando, o primeiro a voltar a si.
Enquanto nós percorremos o caminho até a travessa, as pessoas se defendem e cobrem nossa retirada.
— Sim... vá... - disse Raul.
Eu ficarei para comandar a nossa gente.
A casa é forte e nós, em formação, conseguiremos deter o assédio.
Quando vocês já estiverem a salvo, correrei pelo jardim.
Gritos e urros na rua, e também fortes golpes na porta principal interromperam o Conde.
— Salve-se! Vá, Clemência!
Fuja com a criança e Diana!...
António as acompanhará...
Só que coloquem uma máscara.
Também ficarei com Raul.
Nós somos homens e será menos arriscado se sairmos mais tarde.
— Eu fico com Raul!
Sou católica e não tenho nada a temer! - Disse Diana.
Tomada por uma tremedeira nervosa, Clemência se apoiou na mesa.
— Também não irei sem você: vamos viver juntos ou então morrer juntos, disse ela baixinho, mas decidida.
— Deus! Toda essa conversa apenas nos está levando à perdição, gritou nesse minuto António.
Tomando a Condessa pela mão, apesar da oposição desta, ele se dirigiu à porta.
— Senhor! Leve a criança até a travessa e eu os conduzirei, se não quer ficar aqui, acrescentou ele.
Sem mais objecções Armando tomou a criança pela mão e seguiu António.
Os golpes e o barulho estavam cada vez mais fortes e as portas começaram a estalar. Os gritos loucos das camareiras, disparos, gemidos dos feridos, aumentavam ainda mais a agitação. Os fugitivos nem notaram que Raul e Diana não os seguiam.
Quando eles saíram ao grande pátio o portão caiu sob o assédio e, gritando, a multidão aramada de lanças, alabardas, machados e armas de fogo, invadiu o pátio, obstruindo a passagem.
Armando sacou a espada e, com ajuda de alguns criados, conseguiu abrir caminho.
Apertando a criança contra si, o Conde tentava manter uma distância razoável dos possessos que se lançavam sobre ele.
Para felicidade de Clemência, que ia como uma louca, e não parava de repetir "Solte-me, António, eles não nos seguem!" , ela desmaiou.
Aliviado pelo facto de a Condessa cessar a resistência, António Gilberto dobrou os passos e seguiu pelo corredor que conduzia à travessa.
Bastante ofegante, levou sua "carga" até o Sena, deserto nesse lugar.
Um pequeno barco, com o qual contava, estava onde previra.
António colocou a Condessa no fundo do barco e pegou os remos.
Em vinte minutos chegava à casa de Gilles.
A redondeza estava vazia e silenciosa, somente ao longe se ouviam disparos misturados aos gritos do povo.
A família do cirurgião estava acordada.
O velho recebeu António de braços abertos, e a mulher dele passou imediatamente a cuidar da Condessa de Montfort que ainda não havia recobrado os sentidos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:09 pm

Depois de Gilles tomar conhecimento do que acontecia na cidade, disse preocupado:
— Vá, meu filho e traga os outros.
Estes senhores e sua gente são hóspedes bem-vindos à minha casa onde, certamente, não serão procurados.
Grande Deus!
Acrescentou ele se persignando - sou bom católico, mas a matança de tantos inocentes me deixa triste e me revolta.
O Rei age em nome do Pai eterno e o Senhor não aprova o derramamento de sangue.
Não gostaria de estar no seu lugar.
Sem perder um minuto, António voltou ao hotel Montfort acompanhado por dois filhos do cirurgião.
Os jovens se colocaram à disposição dele para guardar o barco e, se fosse preciso, para carregar feridos.
Quando os jovens entraram no pátio, se convenceram, no mesmo instante, de que os assassinos já haviam deixado o campo de suas façanhas e se encontravam em outras bandas.
O lugar estava em silêncio, mas por todos os cantos havia cadáveres.
António ergueu o archote e, com o coração palpitando, caminhou à frente, iluminando os corpos imóveis.
De repente, se assustou e se deteve.
Numa poça de sangue estavam estendidos o corpo do Conde Armando e seu filho.
— A luz, Goche! - disse ele, com voz dolorida.
Ajoelhando-se ao lado do corpo, António os examinou cuidadosamente.
O Conde Armando estava morto, mas a criança ainda respirava.
A mão trémula de António colocou uma atadura no peito ferido do menino e o cobriu com a sua capa.
Depois, tomando o pequeno, entregou-o a seu companheiro.
— Coloque-o no barco, Goche, e diga para Jacques acomodá-lo como se fosse uma taça de cristal.
Volte. Pode ser que ainda precise de sua ajuda.
Mas... espere!
Lá, junto daquele soldado há dois cidadãos com faixas brancas nos braços.
Sem dúvida, este é o sinal característico.
Também temos de levar esta identificação, senão seremos mortos.
Goche colocou a criança no chão e ajudou. seu amigo a tirar os cachecóis brancos de dois mortos e a enrolá-los no braço.
A seguir disse:
— Escute, António!
Aquele sujeito ali à esquerda não está morto, ele geme..
— Que continue gemendo.
Não posso perder tempo com ele, - respondeu seriamente o jovem cirurgião, sem sequer olhar para o ferido.
Lançou-se a procura de Raul.
Há ocasiões na vida em que um ser humano é incapaz de se impressionar ou sentir horror.
A indiferença o estimula a agir quase instintivamente, e somente um golpe profundo no coração o traz de volta à realidade.
António se encontrava exactamente nesse estado.
Dominado por uma ideia, indiferente e quase tranquilamente, andava pelas escadas e quartos pilhados, quando, algumas horas atrás, eram tão luxuosos e tranquilos.
Sem o menor temor, António virou e revirou os cadáveres que lhe eram tão conhecidos, procurando encontrar seu caro senhor.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:09 pm

Começava a ter esperança de que o Conde havia conseguido fugir com Diana para o Louvre, quando, na soleira do grande quarto, viu estendido no chão Raul.
Pesaroso, António se ajoelhou e examinou o corpo do Conde.
O peito fora varado pela espada, os membros estavam frios e ele parecia morto.
Angustiado, o cirurgião soltou as roupas e aproximou seu ouvido do coração.
Subitamente se sobressaltou e seus olhos saltaram faíscas de alegria, pois se podia ouvir um leve bater do coração.
A esperança irracional jamais abandona o coração de um homem, descortinando-lhe a possibilidade que deseja.
António não duvidou nem por um instante, que poderia salvar o Conde.
Só era preciso levá-lo o mais rápido possível a um lugar seguro.
A mão firme do cirurgião vedou ligeiramente o ferimento com um lenço, e o prendeu com um cachecol.
Após enrolar Raul com uma capa, levou-o nos ombros.
Cambaleando, devido ao peso do corpo imóvel, António saiu na travessa esperando que Goche já estivesse esperando, no entanto, ele não se encontrava no local combinado.
A margem estava cheia de gente sedenta de sangue e louca para saquear; com maus olhos e malícia examinaram António e sua estranha carga.
Para piorar a situação, o barco também não vinha e António começou a pensar que ele e o Conde não escapariam dali, quando a multidão armada até os dentes, o cercou e uma voz falou em tom de desprezo:
— Ei, bom homem, o que leva aí?
Será que não é nenhum huguenote que lhe inspirou piedade?
— Que o diabo leve sua língua! - disse com ar ofendido António.
Eu sou lá burro para carregar tamanha porcaria!
Estou levando um bom católico, ferido por um huguenote canalha, que lhe jogou um vaso de flores na cabeça.
Os malditos ainda ousaram se defender!
Todos deram risada, não obstante continuassem a cercar António.
Alguém quis ver o ferido, uma vez que a mão deste apresentava uma brancura suspeita.
Só Deus sabe como terminaria o episódio se, nesse minuto, Goche não se aproximasse.
— Ei! Deixe esse sujeito!
Ele diz a verdade! - gritou um velho soldado.
Conheço o jovem que veio ajudá-lo.
É o filho do cirurgião Gilles, um bom católico.
Garanto que ninguém da família dele estenderá a mão para salvar um maldito huguenote.
Alcançando finalmente o barco, António suspirou aliviado.
Enquanto seus companheiros contavam como haviam sido atacados por um bando de saqueadores hostis que queriam tirar a criança de Goche, obrigando-os a se afastar um pouco mais, o jovem cirurgião lavou o rosto das duas vítimas e umedeceu os dois curativos, aliviando os feridos.
Por fim chegaram à casa de Gilles. Com a ajuda do velho, os feridos foram levados a um quarto e colocados nas camas.
Agora os dois médicos podiam examiná-los de maneira mais adequada.
O menino ainda tinha chance de sobreviver, mas quanto a Raul, António, como cirurgião, não se podia enganar:
restavam-lhe apenas algumas horas de vida.
Com o coração oprimido, o servo fiel se sentou à cabeceira do leito e se pôs a meditar.
Pensamentos súbitos o dominaram completamente.
— Beber! balbuciou o ferido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:09 pm

António se inclinou e, depois de lhe dar uma bebida fresca, disse baixinho:
— O senhor quer ver Diana?
O rosto pálido de Raul imediatamente readquiriu vida, de seus olhos apagados saíram faíscas de alegria.
— Não se preocupe! Irei agora mesmo ao Louvre e, aconteça o que acontecer, trarei Diana, disse energicamente António.
Quando ele se preparava para deixar o quarto, a porta foi aberta com força e, afobadamente, entrou a Condessa de Montfort.
Sem sequer perguntar sobre a sorte do marido, a infeliz mulher se atirou ao filho.
Caindo de joelhos, enlaçou as mãos dele e, desesperada, se pôs a escutar a respiração difícil e frouxa do menino.
Lágrimas escorreram dos olhos de António e ele imediatamente deixou o quarto.
O coração do médico estava cheio de indignação e ódio pelos culpados do terrível massacre de tantos inocentes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:10 pm

XI. A DESPEDIDA

Com a pistola em uma mão e a espada na outra, António forçou passagem pela multidão de assassinos e vítimas até a residência do Rei, no palácio.
Sob a opaca luz da aurora, as poças de sangue, os cadáveres e os feridos estirados no solo tornavam a visão das ruas ainda mais terrível.
Defronte ao Louvre se aglomeravam muitas pessoas.
António ouviu dois soldados contarem alegremente que o próprio Rei atirou de sua janela em dois huguenotes malditos, sacramentando dessa forma a liquidação dos inimigos da Igreja Católica huguenotes que haviam se mudado para o palácio há alguns dias atrás, a convite do Rei; e até os guarda-costas do Rei de Navarra e do Príncipe de Conde tinham sido mortos.
— Oh! O Rei é traiçoeiro, cavalheiro sem honra:
assassina seus hóspedes depois de haver dividido com eles o pão e os ter abrigado sob seu tecto!
Que seja amaldiçoado pelos séculos!
Tomara que todo sangue, que todas as vidas que pereceram clamem a Deus por vingança e caiam sobre ele! - disse António contendo com dificuldade as lágrimas de ódio e dor.
Não foi com menos dificuldade que ele conseguiu se orientar e achar, por fim, o aposento de Diana.
Bateu várias vezes na porta sem ser atendido e começava a se desesperar quando, atrás da porta, ouviu passos e uma voz assustada perguntar:
— Quem é?
— Sou eu, António Gilberto.
Abra já, Gabriela!
O ferrolho foi imediatamente aberto, mas assim que o jovem cirurgião entrou, a camareira cuidadosamente fechou a porta, apesar de suas mãos tremerem muito e estarem quase sem controlo.
— A Srta. Diana está em casa?
Preciso vê-la com urgência! - disse António.
— Está. O Sr. Barão a trouxe desmaiada, mas agora voltou a si.
Está no vestiário. Oh, Sr. Gilberto, o próprio Deus o trouxe!
Temos um ferido. Ela se inclinou e acrescentou a meia-voz:
"No Louvre mataram tanto quanto nas ruas..."
— Não tenho tempo de cuidar dele, minha cara Gabriela, no entanto verei o que posso fazer.
Terei de ser breve.
O vestiário era um quarto grande onde havia guarda-roupas e cómodas.
No chão se encontrava um rapaz estendido sobre um leito improvisado.
Ao seu lado havia um vaso com água e um maço de ataduras.
Na cabeceira, sentada sobre uma mesinha e com o rosto entre as mãos estava Diana, desesperada e angustiada.
António parou indeciso.
Deveria ele dizer que Raul ainda estava vivo, para depois fazê-la passar novamente pela sensação da perda?
Por outro lado - teria ele o direito de privar o agonizante de sua última alegria - ver a criatura que mais amou no mundo e que esperava, contando cada segundo?
Não! Isso não poderia fazer.
Tendo decidido agir, rapidamente se dirigiu à moça e, tocando levemente seu braço, disse:
— Senhorita! O Conde Raul deseja vê-la antes de morrer.
Estará em condições de se manter tranquila e de se controlar, para ir comigo?
Diana se endireitou no mesmo instante.
De tudo o que havia dito o médico, ela compreendera apenas que Raul estava vivo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:10 pm

— Ele vive! Oh claro!
Leve-me até ele.
Mas rápido, rápido! - repetiu ela, correndo pelo quarto e pegando uma capa que se encontrava na mesa ao lado.
— Senhorita! - repetiu António, tomado por profunda preocupação ao vê-la tão insensatamente alegre.
Senhorita! O ferimento do Conde é mortal... suas horas estão contadas.
— Não importa! Está vivo e neste minuto isso é que é importante.
Vamos depressa! - disse Diana impaciente.
— Nesse caso procure vestir uma capa mais simples.
Seria melhor que vestisse uma de sua camareira.
Uma mulher de sua posição não pode andar a pé pelas ruas a esta hora.
— Gabriela, dê-me uma de suas capas!
— Já que o Sr. António está aqui não poderia ele examinar o ferido? - indagou a camareira vertendo lágrimas.
— É verdade, António.
Enquanto eu me troco, examine o pobre René de Beauchamp.
Também o acertaram, apesar de ser católico.
Deveras surpreso, sem entender como o Visconde tinha vindo parar ali, António se aproximou do leito improvisado e examinou o doente.
René recebera uma punhalada no peito, causando profundo e perigoso ferimento.
Além da gravidade da ferida, havia perdido muito sangue e estava esgotado.
António, rapidamente, fez um curativo e deu a Gabriela as instruções indispensáveis de como cuidar do ferido até que ele retornasse.
Depois partiu com Diana, movido de pressa e impaciência.
O dia já começava e eles, sem qualquer empecilho, saíram do Louvre.
Mas, o caminho até a casa de Gilles estava repleto de perigos.
Grupos de bandoleiros perambulavam ainda por toda cidade, e disparos continuavam a ser ouvidos.
Precavendo-se de serem atingidos num tiroteio, António escolheu as ruas mais vazias e de aspecto menos repugnante, pois as vias cheias de gente também estavam repletas de cadáveres; aliás, Diana não prestava atenção em nada e corria tanto, que o jovem cirurgião teve de refreá-la, para que não chamasse a atenção.
Quando finalmente chegaram à casa de Gilles, este comunicou não haver ocorrido mudança no estado do ferido.
A pedido da Condessa, Jacques e Gilles tinham ido ao Hotel Montfort para buscar o corpo do Conde Armando que haviam escondido na adega.
António pediu à Diana que esperasse enquanto ele preparava o doente.
Raul cochilava, mas quando o médico se aproximou, abriu os olhos no mesmo instante e murmurou:
— E Diana?
Antes que António pudesse responder, a moça se lançou à cabeceira da cama e ajoelhada disse:
— Eu estou aqui, Raul!
No rosto do agonizante surgiu uma intraduzível expressão de alegria e amor.
— Diana! disse ele segurando levemente a mão dela.
Como  agradecer a  Deus por ele  nos ter proporcionado a oportunidade de estarmos juntos num momento tão importante!
Depois de notar que Diana se sufocava em soluços, ele acrescentou:
— Esforce-se em se tranquilizar, minha querida, e com humildade cristã, supere aquilo que Deus nos manda.
Diana não respondeu e continuou chorando, apoiando a cabeça nos braços do Conde.
— Onde está meu irmão? perguntou o rapaz, um minuto depois.
Compreendo, ele me preveniu - disse ao ver António, abaixando a cabeça em silêncio.
E Clemência, e o filho?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:11 pm

Ao ouvir a pergunta, a Condessa, sem tirar os olhos do leito do menino, levantou e se aproximou do Conde imediatamente:
— Estou aqui, Raul, perto de você; é o que sobrou do valoroso nome Montfort; Luciano está ainda vivo, mas não sei se sobreviverá...
— Sim, sim! Deus será piedoso e o conservará para você, - disse o Conde, olhando carinhosamente para o pálido e belo rosto da Condessa, agora com o semblante cheio de ódio.
— Hoje comecei a duvidar da misericórdia celestial; não poderia eu duvidar também de Sua justiça? - Respondeu ela em tom grave e pausado.
A partir de hoje só terei uma oração: vingança.
Aos nobres, ao maldito Rei e a todos aqueles que imaginaram esse terrível morticínio.
Que conheçam de perto as palavras "olho por olho, dente por dente".
Assim como as vítimas de hoje, que eles sejam mortos covardemente pelos punhais dos assassinos!
Quanto mais a Condessa se inflamava, mais seus olhos brilhavam.
Em sua roupa branca, manchada de sangue, ela lembrava um dos espíritos destruidores descritos no Apocalipse.
— Oh! Não é preciso esperar a Justiça de Deus!
Eu mesmo, diante de todo Louvre apunhalarei o detestável Rei que zomba dos sentimentos humanos! - gritou Diana, com ardor.
— Silêncio, pelo amor de Deus, minha cara!
As paredes também têm ouvidos.
Clemência está certa em acreditar naquilo em que disse.
Ele se vingará por nós!
Tomado por súbita fraqueza, o Conde se calou e cerrou os olhos.
As duas mulheres amedrontadas se inclinaram sobre ele.
Um gemido do filho fez com que a Condessa se afastasse e Diana ficou sozinha com Raul, seguindo desesperada as mudanças na face do amado.
Decorreram algumas horas de terrível suplício moral; Raul agonizava e sofria muitíssimo.
Diana se agarrava a este resto de vida, corno um afogado se agarra a uma palha.
Parecia que a moça se imantara ao que lhe restara do noivo, impedindo a alma dele de cortar os últimos laços que o ligavam a ela.
Não conseguia morrer e ao mesmo tempo não podia viver.
Pálido, com a voz alterada, António Gilberto andava triste entre as duas mulheres, cuja felicidade e futuro foram destruídos em uma noite.
Quando trocou a compressa, o Conde lhe tomou a mão e, fixando nele o olhar cheio de sofrimento e reprovação sussurrou:
— António! Estou sofrendo demais.
Se não pode me salvar, então me deixe morrer... se é um verdadeiro amigo...
Lágrimas caíam dos olhos de António, triste e calado; apertou as mãos de Raul aos seus lábios.
A seguir foi à caixa de remédios, preparou um forte narcótico e o deu ao doente.
O Conde bebeu sedento e, quase momentaneamente, seu rosto deformado adquiriu a habitual expressão de serenidade.
— Oh! Como eu me sinto bem!
Agradeço, meu bom António, e você, minha amada, beije-me pela última vez...
Tomada pelo desejo impulsivo, que nunca abandona o coração humano, Diana abraçou o noivo e uniu seus lábios aos dele.
Não notou que o belo rosto de Raul adquiriu a palidez da morte e seu olhar se tornou vítreo.
— Ore a Deus, Senhorita, e com a humildade de uma verdadeira cristã, incline-se ante a vontade do Senhor:
o Conde Raul uniu-se ao irmão nos céus.
Só então ela percebeu que apertava conta si um corpo sem vida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:11 pm

Por um minuto ficou imóvel, com o olhar desnorteado e os lábios semi-abertos.
Depois, calada, desmaiou nos braços de António.
Saindo do Hotel Montfort, Briand se uniu à divisão de d'Armi que se encontrava então sem guia, desde que o Barão levara a filha ao Louvre.
Saurmont trabalhava escrupulosamente matando todos os que caíssem em suas mãos e quem ele julgasse ser huguenote.
Toda sua crueldade era despertada ao som dos tiros e do tilintar das armas.
O cheiro e a cor do sangue o embriagavam.
Sentia-se bem em meio a essa tempestade, entre os berros de fúria e os gritos de pavor das mulheres que eram atiradas das janelas, e os estalidos das portas e vidraças sendo arrebentadas.
Pouco a pouco o cansaço passou a dominar o Conde, que por fim deixou seus companheiros de chacina.
Além disso, se tornara muito difícil o movimento pelas ruas, pois se via obrigado a caminhar lentamente entre os feridos, ou a escorregar pelas poças de sangue.
A luz do dia, por não esconder nada do que se ocultava nas trevas, revelou um retrato da cidade ainda mais horrível.
Viam-se por todos os cantos restos de cadáveres deformados à faca, já que o fanatismo selvagem buscou até mesmo nos ventres maternos os inimigos da religião.
Depois de se cansar de matar e andar de um lado para outro com fome, Briand resolveu voltar para casa.
Só antes desejando ver o oponente assassinado e se certificando de ele estar realmente morto.
Assim, seguiu para o hotel Montfort.
A visão da casa, antes tão luxuosa e tranquila causava uma impressão desapontadora.
As portas estavam destruídas e as janelas arrebentadas.
Cadáveres com os crânios partidos ou com o peito perfurado se espalhavam pelos degraus.
A sala onde há poucas horas havia travado luta com seu rival fora o palco da batalha mais cruel.
Os móveis estavam destruídos, os cortinados rasgados e arrancados, e pelo chão se espalhavam pedaços de estátuas e de valiosos vasos.
Aqui e ali havia dúzias de corpos, mas Briand estava interessado somente em Raul.
Surpreso e inquieto, Saurmont percorreu toda casa que apresentava sinais evidentes de pilhagem.
Os cómodos e armários estavam vazios e as gavetas reviradas.
Perto do guarda louça havia garrafas quebradas, pedaços de pratos e cacos de louça.
Nos dormitórios reinava o mesmo caos:
roupas masculinas e femininas, travesseiros e cobertores estavam manchados de sangue e em montes se esparramavam pelo chão.
Em algumas camas jaziam cadáveres, bem como na ruela que, em vão, poderia ter sido uma via de fuga.
Por não encontrar o corpo de Raul, em lugar nenhum, o preocupado Conde saiu ao pátio, onde havia uma grande quantidade de mortos; porém, nem Armando, nem o filho se encontravam.
Sumiram!
— Estranho! Quem pôde apanhar tão rápido três cadáveres?
Eu sei, com certeza, que o irmão mais velho caiu aqui - resmungou Briand, inclinando-se para apanhar um objecto manchado de sangue.
Era uma touca de veludo com uma pena branca, enfeitada com um valioso "agrafe" de esmeraldas e brilhantes.
Depois de pensar um minuto, o Conde pegou a jóia e a colocou no bolso.
— É pena que tão precioso objecto caia nas mãos de um qualquer - acrescentou ele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:11 pm

Pensativo e sem vontade, o Conde voltou para casa onde surpreendeu d'Armi cochilando tranquilamente no divã de seu gabinete.
À frente do Barão, na mesa, havia algumas jóias de ouro e objectos de grande valor.
O Barão, intencionalmente, empenhou-se em fazer fortuna naquela noite.
Pela impressão ditosa e o sorriso na sua cara inchada e suja de sangue, podia se ver facilmente não apresentar ele o mínimo remorso.
Briand o sacudiu com força.
Queria saber o que tinha acontecido com Diana; mas nada era capaz de interromper o sono do Barão João.
Às perguntas do Conde, d'Armi somente respondeu monossílabos incompreensíveis e novamente, como uma massa imóvel, caiu no divã.
Cansado de tentar despertá-lo, Briand o deixou em paz.
O Conde se lavou, trocou de roupa e após comer também foi se deitar.
Saurmont, às oito horas, depois da noite de descanso, sentia muita fome.
Desta vez conseguiu levantar o Barão.
Depois do jantar, d'Armi lhe contou que levou Diana ao Louvre e ordenou a Gabriela não deixá-la ir a lugar nenhum, enquanto não voltasse a calma e a ordem.
A seguir prometeu a Briand visitar a moça na manhã seguinte.
Durante o resto da noite a conversa girou em torno das façanhas da madrugada.
Nessa manhã imediata, um acontecimento inesperado mudou o humor dos dois e de todos os parisienses.
Corria o boato de que o Cemitério dos Inocentes tinha amanhecido florido.
Apesar do tempo maravilhoso, isto era raro para um 25 de agosto.
Tomados pela curiosidade, Saurmont e d'Armi também se dirigiram para lá.
O cemitério era tomado por grande multidão que aumentava a cada minuto.
Uma árvore milagrosa na qual, realmente, se distinguiam flores desabrochando, estava cercada de soldados não permitindo a aproximação de ninguém.
Apesar disso, a exaltação da massa crescia, como a maré alta.
O milagre era evidente.
Mas seria isto uma confirmação da alegria celestial?! Soavam os sinos.
O badalar agiu sobre a massa no mesmo instante.
O potente som de cobre, a atmosfera tensa, enlouqueceram as massas.
Ouviam-se os cânticos de súplica e as exclamações histéricas das mulheres que, em êxtase, glorificavam o milagre e incitavam os homens a assumir a guerra santa e exterminar de uma vez por todas os malditos huguenotes.
Em resposta à incitação, surgiram ameaças, gritos de ódio e berros.
O povo começou a se deixar levar pela exaltação. Toda cidade foi tomada pela vontade de matar.
Teve início um morticínio ainda mais cruel e sangrento que o da véspera.
Desta vez, porém, ocorria à plena luz do dia e se apresentava como um espectáculo sem precedentes, pois se desenrolava diante dos olhos do Rei e com o consentimento das mais importantes personalidades da nobreza.
Saurmont e d'Armi também não resistiram ao fervor geral.
Matavam por matar.
Não obstante, pouco a pouco, começaram a pensar com calma e compreenderam ser uma óptima oportunidade para acertar todas as contas pessoais e se livrar das pessoas importunas.
Mesmo que nesse tumulto morressem católicos, quem poderia provar que isso fora feito de propósito?
D'Armi tinha credores, Saurmont também; este odiava alguns que perseguiram seu pai sem clemência e o despojaram das terras hipotecadas.
O Conde decidiu se vingar pelo pai.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:11 pm

Briand e o Barão se separaram, sem dizer um ao outro os seus planos.
D'Armi se dirigiu à casa de seu principal credor que tinha a infelicidade de ser protestante.
Contudo, chegando lá, o Barão viu que haviam se antecipado e que, seguramente, outros devedores já tinham se livrado do velho, tido como muito rico.
Na entrada da casa estavam estendidos os corpos da mulher e de sua filha mais velha.
Alguns meninos vadios de expressão feroz se divertiam em carregar por uma corda uma criança de peito que gemia enfraquecidamente.
Os pequenos canibais lhe gritavam:
— Pare de rosnar!
Você chegará a tempo de cair no rio, junto com seu pai e seus irmãos.
Ouça como eles gritam e o chamam...
E, realmente, ao longe se ouviam vozes de crianças e uma voz masculina dizendo para não se agarrarem a ele.
Apesar de sua crueldade, João d'Armi por um instante ficou paralisado pela triste cena.
Lembrou ele também ser pai.
Blasfemando, o Barão se virou, colocou na bainha a espada manchada de sangue e se dirigiu ao Louvre.
Briand retornou tarde ao seu hotel.
Estava muitíssimo satisfeito por haver saciado finalmente seu ódio que há tantos anos levava atravessado na garganta.
Em sua residência encontrou d'Armi andando de um lado para outro no quarto, preocupado.
— O que há, Barão?
Por que esta preocupação?
Acaso trabalhou mal hoje pela glória de Deus e em honra da milagrosa árvore do Cemitério dos Inocentes? - indagou alegre Briand.
O Barão parou e após ter arrancado a gola que o sufocava, disse alto, com ar amargurado:
— O que há comigo?
Arrependo-me muitíssimo de haver ajudado a matar o pobre Raul de Montfort.
Essa história toda me custará a vida de Diana.
O coração da pobre criança está destroçado.
É triste olhar para ela; encontra-se irreconhecível.
E, além disso, esgota suas últimas forças cuidando de um ferido.
— Quem? - perguntou surpreso Briand.
— O jovem Beauchamp.
Está gravemente ferido e ela o instalou em seus aposentos.
— Diga-me, por favor, como é que ele foi ferido justamente no quarto da senhorita de Mailor? - perguntou Saurmont, ao mesmo tempo em que ficava vermelho de raiva.
— Ele não foi ferido no quarto dela.
Conforme as palavras de Gabriela, se passou da seguinte forma, - respondeu um pouco mais tranquilo d'Armi:
Levei Diana desmaiada ao Louvre.
Sua camareira, depois de gastar todas as essências de que dispunha, sem resultado, resolveu recorrer a outra dama de honra e lhe pedir algo adequado à ocasião.
Quando estava prestes a ir, ouviu o ruído de um corpo caindo próximo à entrada.
Vacilando entre o medo e a curiosidade, ela entreabriu a porta e viu um moço estendido no chão.
Ela o teria deixado ali, se não tivesse reconhecido René de Beauchamp pela corrente que sempre leva consigo.
Imediatamente a moça arrastou o Visconde para o quarto e trancou a porta.
Voltando a si, Diana resolveu escondê-lo.
De que maneira René veio parar no Louvre, eu ainda não consegui saber.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:11 pm

— Não há nada demais nisso.
O principal é arranjar uma forma de tirá-lo dos aposentos de Diana, - comentou Saurmont, enchendo um copo de vinho e convidando d'Armi a fazer o mesmo.
O resto do dia foi ocupado por assuntos políticos e revoltas que estouravam em toda Paris.
Uns continuavam o morticínio, outros faziam peregrinação ao Cemitério dos Inocentes e ao Montfaucon onde na forca balançava uma massa repugnante, escura e sem forma.
Confirmou-se tratar do corpo de Coligny.
Aliás o Rei foi o primeiro a visitar o local.
Com toda corte ele se dirigiu ao Montfaucon para ver os restos deformados do homem que ele nomeava por "meu pai".
Apesar de haver muito para se ocupar e fazer, Saurmont não podia esquecer nem por um minuto que Beauchamp se encontrava com Diana.
Imaginava todos os planos possíveis para eliminá-lo ou, ao menos, tirá-lo dali.
Matar o jovem no Louvre era difícil, por isso Briand resolveu avisar o Duque d'Anjou que René se encontrava no quarto da dama de honra e lhe pedir ajuda para liquidá-lo.
A ocasião oportuna apareceu oito dias após o primeiro levante.
Briand jogava com d'Anjou e sentiu que o jovem Duque estava bem humorado e se mostrava muito simpático para com ele.
Briand lhe manifestou que não seria mal arrancar do refúgio um sujeito que, visivelmente, se inclinava aos protestantes.
Ficara sabendo que René passara a noite em casa de um huguenote.
Por ser um herege secreto ou próximo de se tornar, ele merecia a morte.
Acrescentou que a senhorita de Mailor se deixando levar por seu bom coração estava somente se comprometendo em vão.
Os olhos negros do Duque maliciosamente se fixaram no Conde.
Alisando a própria barba, respondeu, depois de um longo silêncio:
— Deixe disso, Conde!
Não se pode proibir uma dama de ter compaixão.
Minha irmã Margot também cuida em seus aposentos de um palaciano chamado Tejan, rapaz confirmadamente huguenote.
O Rei cala.
A grandiosidade dele anda cansada destas coisas e não seria sensato lembrá-lo do caso.
Hoje pela manhã um grande número de corvos pousou no pavilhão do Louvre e faziam tal barulho que todos saíram para ver.
As damas ficaram assustadas e o Rei muito preocupado.
Controlando a ira que sentia por dentro, Briand se inclinou e falou em tom baixo que tocou no assunto somente por fidelidade ao Rei e ao catolicismo.
Depois de jantar, a conversa tomou outro rumo.
De repente um pajem entrou correndo no quarto e comunicou que o Rei exigia a presença do irmão, o mais rápido possível.
Visivelmente preocupado, o Duque se levantou no mesmo instante.
Os demais também foram tomados de preocupação ao ouvirem gritos e berros.
A impressão era de que partiam da cidade.
A julgar pelo barulho, se podia deduzir que havia um novo massacre ou um levante do povo.
Uma hora depois o Duque retornou.
Pálido e nervoso contou que, quando o Rei se deitou e ainda se encontrava desperto, começaram a se ouvir gritos de pessoas sendo executadas.
Imediatamente todos os empregados foram despertados.
Pensando que na cidade ocorria novo morticínio, o Rei, rapidamente, enviou o Sr. de Nancy à frente da tropa, com ordens de reprimir severamente qualquer novo massacre.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:12 pm

Porém o capitão voltou e disse que a cidade estava calma, sendo que os ruídos e gritos surgiam do próprio ar .
Briand voltou para casa fortemente impressionado.
Lembrou como suas vítimas haviam aparecido perto da "Cruz Negra".
Uma sensação indescritível, doentia, se apossou dele, quando pensava que dentre as pessoas assassinadas sempre haveria alguma que poderia aparecer.
No dia seguinte à noite Briand se dirigiu ao Louvre.
Havia uma reunião com o Rei.
Desta vez Carlos IX não se apressou em ir dormir e prolongou a recepção.
Fosse o motivo disto a lembrança dos terríveis sons da noite anterior ou simplesmente medo da escuridão e silêncio de seu dormitório.
Sua Majestade estava pálido e carrancudo como de hábito e iniciara uma nova partida de xadrez com o Rei de Navarra.
A noite era maravilhosa, quente e perfumada.
Alguns dos cortesãos se sentaram ao lado de uma janela aberta e conversavam a meia-voz; outros se colocavam ao lado dos dois reis e acompanhavam o jogo.
Entre estes últimos se encontrava Briand.
Sendo apaixonado pelo xadrez, o Conde, sem mergulhar nas peripécias da partida, se enfadava por dentro, pela negligência com que Carlos IX conduzia o jogo.
De repente um barulho terrível vindo do lado de fora cortou o ar.
Ouviam-se claramente o som das armas, os gritos de desespero e medo, o lamento dos agonizantes e os berros selvagens dos assassinos.
Numa palavra única:
os terríveis sons da noite de 24 de agosto.
Todos ficaram como que paralisados.
Este eco do morticínio, reiteradamente na mesma hora, surgido do desconhecido, golpeava a consciência dos carrascos e causava nos presentes a sensação de opressão.
Estes começaram a suar frio; nenhum deles deixou de empalidecer ouvindo as vozes de vingança de suas vítimas que se erguiam a Deus do fundo de suas covas.
Carlos IX tremendo, pulou da poltrona e se apoiou na mesa.
Estava branco como um papel.
O tique nervoso a que estava submetido lhe desfigurou o rosto.
Os cabelos e a barba se arrepiaram de pavor.
A figura do Rei era horrível e repugnante, aumentando o medo que assaltava a todos.
Nos minutos seguintes reinou um silêncio sepulcral na sala.
O Rei foi o primeiro a violá-lo.
Enxugando o suor frio que escorria da testa, ele caiu na poltrona e disse com a voz alterada:
— De Nancy! Vá e realize mais uma vez um inquérito rigoroso sobre a procedência destes gritos.
Passe a mesma ordem às Guarnições de Paris.
"Pâques-Dieu"— ele deu um murro na mesa - se encontrarem os culpados desta mistificação, ordeno que os esquartejem na Praça Greve.
Henrique, vamos prosseguir nosso jogo.
O Rei de Navarra se inclinou sobre o tabuleiro, mas sua mão tremia tanto que derrubou as peças.
Só o olhar zombeteiro de Carlos IX o obrigou, ainda que com dificuldade, a se dominar.
Começaram a jogar em silêncio.
A partida já se estendia por muito tempo, quando de súbito o Rei gritou e se jogou para trás.
Seus lábios estavam semi-abertos e os olhos arregalados se fixavam em algo que a princípio ninguém havia notado.
Briand também se aproximou curioso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:12 pm

Uma exclamação de pavor se congelara nos lábios ao ver uma gota de sangue gotejar da mesa e manchar os dedos do Rei.
Minutos depois o gotejamento cessou, para logo em seguida recomeçar mais intenso.
Por fim parou, desfazendo-se em vapor que por sua vez se espraiou no ar.
Carlos IX se levantou e, com a cabeça zonza e os passos cambaleantes, se dirigiu a seus aposentos.
Duas "levrettes " o seguiram com o pelo eriçado e o rabo entre as pernas.
Todos os que não eram obrigados a ficar no Louvre a serviço saíram rapidamente, tomados de pavor, medo do sobrenatural.
Estes senhores não temiam nem a Deus nem ao diabo; desprezavam o perigo, mas tremiam diante de misteriosas vozes invisíveis, mais do que um padre falando sobre almas perdidas.
Briand foi o que mais ficou impressionado.
Durante os dias seguintes, recolheu-se ao seu hotel e não recebeu ninguém além de d'Armi que lhe trazia notícias de Diana.
Assim ficou sabendo que Raul e Armando de Montfort realmente haviam morrido e que a Condessa e o filho tinham se salvado.
O Barão estava triste e lamentava muito não haver salvado Raul, já que Diana lhe havia comunicado que decidira tomar o hábito do convento.
A noticia tirou Briand de seu torpor mental. Com a determinação inata que possuía, convenceu d'Armi a usar a autoridade paterna para impedir tamanha insensatez.
A partir desse dia Briand recebia informes diários do que se passava com Diana.
D'Armi lhe contou que a Condessa de Montfort deixara Paris levando consigo os corpos do marido e do cunhado e que Diana adoecera de desespero, depois de se despedir de Clemência e dos restos mortais do noivo.
Certa vez o Barão chegou com ar tão alegre e satisfeito,, que Briand, curioso, perguntou que alegria o havia deixado assim.
— Sinto-me feliz porque hoje consegui convencer Diana a desistir da ideia de se tornar freira.
Ela me jurou.
Em troca prometi levá-la ao convento em que estudou.
Ela quer passar o tempo de luto lá, sozinha e rezando.
Quando a trouxer de volta, espero que sua tristeza já tenha passado e ela esteja preparada para uma nova vida.
D'Armi deu um tapinha no ombro de Briand e este não pôde conter o riso.
— E quanto ao pequeno Visconde?
— Ah... isso é uma longa história... estou esquecendo de contar, - disse o Barão.
Imagine, hoje quando eu estava nos aposentos de Diana, para minha grande surpresa, apareceu para vê-la o Marquês de Marillac...
— "Pâques-Dieu!", como diz Vossa Majestade.
Será que ele está querendo retomar o noivado? - perguntou Briand enrubescendo.
— Que ideia!
Diana o chamou para levar René recuperado.
A cena era das mais frias e cerimoniosas.
Só com relação ao Visconde existe algum segredo.
Não acredito ser o ferimento de René casual.
Parece quererem assassiná-lo, mesmo sendo católico, para agradar sua esposa.
Minha filha deu ao Marquês uma carta cuja assinatura provavelmente é de mulher.
— Sem dúvida, a carta é da bela Marion; ela fará um reproche ao Duque de Guise por cumprir tão mal a tarefa de fazê-la viúva, notou sorrindo o Conde.
— Todavia, onde Diana conseguiu este documento comprometedor? - disse em tom desconfiado d'Armi.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:12 pm

— O senhor pode ajudá-la nesse caso pérfido.
Aliás não há, nada de mais nisso.
Diga-me, Sr. João, quando pensa deixar Paris?
— Dentro de três semanas, penso.
Diana já fez o pedido de dispensa.
Uns negócios ainda me prendem aqui.
E o que pensa fazer, Briand?
— Vou acompanhá-lo.
Não há nada mais me segurando aqui - respondeu rindo o Conde.
Após encher dois copos, acrescentou:
— Bebamos ao futuro, pela realização de meus desejos e pela saúde da futura Condessa de Saurmont.
Resolvemos transcrever de Louis Batiffol, "Lê Siècle de Ia Renaissance", págs. 240 e 241, "A Morte de Carlos IX".
...Pouco a pouco Carlos IX declinava.
Desde as lúgubres Noites de Matança e Saque, ele estava irreconhecível; abatido por uma melancolia que ninguém podia distrair, ele parecia uma sombra triste e tímida.
Os embaixadores estrangeiros (...) observavam que ele tinha sempre a cabeça baixa, não ousando mais olhar as pessoas no rosto, fechando os olhos.
Às vezes, quando alguém lhe falava, ele erguia as pálpebras com esforço e após uma rápida olhadela inquieta, as abaixava.
Um retrato desse tempo, da Escola de Clouet, há pouco ainda no Castelo d'Azay-Rideau, o representa com o rosto pálido e fatigado, o olhar desvairado, a mão diáfana tremente, imagem surpreendente do homem atormentado de remorsos, diante do pensamento que a ideia fixa, obsedante, volta perpetuamente.
Ele escarrava sangue; os médicos tinham julgado como sofrimento do pulmão.
Dia a dia ele se enfraquecia, se curvando, emagrecendo, a febre o queimando muito.
Na primavera de 1574, já era apenas um esqueleto que se arrastava.
Em maio ele se acalmou, em vista da fraqueza extrema; não mais deveria se levantar.
Na noite de 29 para 30 teve uma crise, ao curso da qual se acreditava ele morresse.
Ele dizia, com acento de angústia:
"Quanto sangue!...
Quanto sangue!... meu Deus! me perdoe!
...Eu já não sei onde estou!...
Estou perdido!", ele estava inundado de suor.
Sua ama de leite o velava, enxugando seu rosto com um lenço.
No dia 30, pela manhã, chamou o Duque d'Alençon e o Rei de Navarra e lhes disse que, após ele, a regência pertenceria à Rainha-Mãe, sendo necessário obedecê-la:
recomendou ao "Bearnês" sua filhinha e depois comungou.
Foi-lhe dada a extrema-unção.
No dia 31, na presença de Catarina de Médicis, que nunca o deixava, procurando lhe dizer algumas palavras sobre os negócios de Estado, ele a fez compreender que "todas as coisas humanas não mais o interessavam".
Estertorava. Às 4 horas da tarde expirou; a única palavra pronunciada foi "Mamãe!"
Tinha 24 anos.

Tradução da Revisora.1. Carlos IX (1550 — 1574)
24. Henrique III e o Duque de Guise no Castelo de Blois
25. Louis I de Bourbon (Príncipe de Conde)
26. Henri de Damville
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 7:13 pm

III PARTE

I. O RAPTO


Animada agitação havia tomado Angers, sempre tão pacata e bucólica.
Há alguns dias os habitantes da cidade vivam mais na rua do que em casa.
O orgulho das pessoas era ver as visitas ilustres acolhidas pela cidade por detrás de suas muralhas.
O Sr. Francisco d'Alençon recebera o título de Duque d'Anjou e visitava sua cidade .
Haviam se passado quatro anos desde a funesta noite de S. Bartolomeu, acarretando importantes acontecimentos políticos e grandes mudanças.
O Rei Carlos IX havia morrido de uma estranha e desconhecida doença, como se comentava - de veneno.
Seu irmão, Henrique III, o sucedeu.
O partido protestante, ao invés de se enfraquecer após o massacre, tornou-se ainda mais forte e o Rei se viu obrigado a legalizar esse culto.
Também cedeu fortalezas em seis províncias e foi obrigado a reconhecer ter sido a noite de S. Bartolomeu arquitectada contra a vontade do Rei.
Nesse dia em que continuamos nossa história havia um baile no castelo de Angers.
O Duque patrocinou uma festa à aristocracia local em agradecimento à atenção dispensada.
Encontramos muitos de nossos antigos conhecidos chegando de liteira, carruagem e até, discretamente, a pé vindos para essa festa.
Em primeiro lugar aqui estava o Conde de Saurmont, pálido e frio como sempre; somente seu olhar ganancioso revelava sua vontade.
Não tirou os olhos da entrada do palácio e examinava todos os convidados chegando.
O Conde mudou seu traje, manifestando o desejo evidente de agradar com a aparência.
Sua roupa era de cor cinza-claro e brilhantes valiosos eram exibidos em volta de seu pescoço e no cabo de seu punhal.
Ao ver René de Beauchamp e Marillac entrando, Briand franziu as sobrancelhas.
Encontrar o antigo noivo e o amigo de infância de Diana sempre lhe era desagradável, contudo, a chegada de d'Armi acompanhado da filha e da esposa, o fez esquecer os dois jovens.
Ele se apressou em ir saudar as damas.
Com o passar dos anos, Lourença havia ficado ainda mais gorda.
Agora ela se apresentava como uma massa disforme.
Seus pequenos olhos negros quase desapareciam na enorme face flácida.
Apesar disso sua pretensão de ser bonita não havia absolutamente diminuído.
Diana estava mais formosa do que nunca.
Trajava um vestido branco simples, mas de uma elegância incomum.
Caminhava ao lado da madrasta, sorrindo, mas sua expressão transmitia tristeza profunda e seus grandes olhos azuis observavam os presentes com indiferença e apatia.
Enquanto Saurmont, René e outros convidados cumprimentavam d'Armi e as damas, conversavam, a esperarem o Duque.
Vamos abrir um parênteses e contaremos todo o acontecido durante este intervalo de tempo.
D'Armi levou a filha ao convento onde fora criada.
Na atmosfera calma e tranquila do retiro, sob a influência espiritual da Madre Odila, do padre Gabriel e das boas irmãs, o forte desespero da moça, pouco a pouco, se transformou numa tristeza profunda e introspectiva.
Sua postura frente ao mundo e às pessoas era de hostilidade e desconfiança.
Pensava com amargura no minuto em que havia deixado o convento, esse lar de paz, para se mudar para casa do pai.
Por isso se sentiu aliviada quando, uns dias antes do Barão vir buscá-la, recebeu uma carta de Clemência convidando-a para passar alguns meses no Castelo de Montfort.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 6 de 10 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum