Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:32 pm

Seu filho, escrevia a Condessa, definhava aos poucos, e ela se sentia infeliz e sozinha.
Pedia insistentemente à amiga vir visitá-la.
A princípio o Barão João se mostrou descontente com o convite e ordenou à filha voltar para casa, mas, já Madre Odila consentiu no desejo da moça e ele também acabou cedendo.
Diana se deteve em casa de Clemência muito mais do que havia previsto.
O pequeno Luciano morreu lentamente de uma doença incurável no peito, e, Diana não queria deixar a infeliz mãe num momento tão difícil, quando perdera a sua última esperança.
Morrendo o pequeno, todos avaliavam que a mãe enlouqueceria.
Mas uma perigosa doença, quase a levando ao túmulo, a mergulhou numa providencial apatia, salvando-a da insanidade.
Quando finalmente Clemência se restabeleceu, comunicou a Diana ter resolvido tomar o hábito.
— Dentro de mim e ao meu redor tudo morreu - disse a jovem - o mundo me inspira pavor.
Este castelo vazio, carregado de recordações desagradáveis só faz minha angústia aumentar dia a dia.
Talvez sob o amparo do convento encontre eu a paz na alma.
Sua decisão foi irrevogável; nem súplicas, nem apelos da família pretendendo casá-la com um primo herdeiro dos Montfort a demoveram.
A chegada do novo senhor apenas fez a Condessa abreviar a partida.
Triste e calada, Diana retornou à casa paterna.
Ela não deixara o luto e continuava a levar uma vida de convento.
Seu relacionamento com a madrasta era frio e, do Conde de Saurmont, frequentador do castelo, fugia sempre que possível.
Nos olhos tristes de Briand ela via a paixão não haver ainda se apagado e sentia seu pai e Lourença quererem muito vê-la casada com este homem rico e conceituado.
Alguns meses antes do dia da retomada de nossa narrativa, Diana com alguma alegria, soube Clemência ser agora Mãe Maria, vindo dar a bênção do grande convento às noivas de origem nobre, moradoras perto de Angers.
Ao saber da chegada da amiga, visitou-a algumas vezes.
Não menos satisfação lhe deu a chegada de René de Beauchamp, a quem não via desde sua partida de Paris com Marillac.
Durante esses anos, o belo Visconde teve uma vida agitada e confusa.
Tão breve se recuperou, seu primeiro cuidado foi romper com Marion.
A carta traiçoeira provava as intenções de matá-lo.
Isto ajudou René a dobrar a Viscondessa, terminando ela em cair na própria armadilha.
Ficando livre, Beauchamp se lançou a uma vida agitada de aventuras, além de tomar parte activa em todas as intrigas da época.
A morte de um primo lhe deixou grande herança, obrigando-o a vir a Angers.
Ele se apressou em visitar sua amiga no convento, sem saber se ela havia voltado ao castelo d'Armi.
O encontro com Diana causou estranha e inexplicável sensação ao Visconde.
A moça o encantou.
A beleza meiga e original subjugou seus sentimentos.
A inteligência aguda e brilhante, juntamente com sua bondade inata, atraíram o rapaz.
Por outro lado, surgia em sua alma um sentimento muito próximo ao ódio, principalmente com relação às três semanas passadas como ferido, nos aposentos dela.
O desespero dela, a tristeza sem fim e o amor profundo que Raul lhe inspirava - tudo isso irritava René, como se fosse ofensa pessoal, por ele não poder confortar a moça na perda de Raul.
Quando Raul estava vivo, odiou esse maldito huguenote, e agora a morte dele barrava seu caminho à felicidade!
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:32 pm

Toda vez que seu olhar pousava nos olhos tristes e lacrimosos de Diana, essa irritação era despertada.
Mas, quanto mais se asserenava, mais seu pensamento perdia esta aflição.
"Para que se desesperar?
É preciso apenas se separar de Marion.
Acaso o tempo, esse grande curador, não havia sido melhor companheiro enquanto Raul existia, perigando sua sede de felicidade?
É só preciso esperar com paciência."
E o rapaz levou seu plano adiante, dada a paciência incomum ser uma de suas melhores qualidades, quando as coisas corriam em direcção ao objectivo almejado.
Além disso, tinha a excepcional qualidade de preencher o tempo de maneira agradável, enquanto esperava.
A mistura das qualidades más e boas do Visconde, mal ensinadas pelos acontecimentos que o abalaram, fizeram dele um egoísta orgulhoso, muito garboso de sua bela aparência, sua riqueza e de seus sucessos mundanos.
Não admitia a ideia de estar agindo mal e conservava uma animosidade invencível a qualquer um, em sua opinião, que o ofendesse ou humilhasse.
Durante sua estadia no palácio, o Visconde experimentou todos vícios e venenos da sociedade depravada da época.
Chegando à saciedade, ele concluiu ser o comportamento desregrado nocivo e ser hora de ter vida feliz e tranquila.
Para isso Diana estava em seus planos.
René decidiu lhe fazer a proposta, tão cedo a visse e se certificasse encontrá-la calma.
Havia se colocado como amigo de infância e possuía os direitos de um irmão; aliás Diana nem pensava em negar isso.
Ela gostava dele e tinha plena confiança no amigo de jogos de infância, sabia ele.
Entre os jovens havia o melhor relacionamento e René, caladamente, se divertia com os ciúmes e a raiva de Saurmont.
Com a chegada do Duque d'Anjou, o Visconde deixou um pouco Diana.
Encontrou vários amigos na comitiva do Duque e, irreflectidamente, se deixou levar por eles à vida de aventuras.
Mas, vendo Diana no baile, adquiriu um pouco de lucidez.
Ficou perto dela e, conversando alegremente, lhe mostrou um lado desconhecido dela.
A chegada do Duque interrompeu as conversas.
Saudando os hóspedes e se dirigindo com frases gentis a este ou àquele, o Duque d'Anjou calmamente percorreu todo salão.
Deteve-se junto à família d'Armi e seu olhar surpreso se fixou na figura grosseira de Lourença, pois esta, depois de perder a noção do que era respeito, com sensatez, fez uma reverência tão exagerada que quase caiu de joelhos aos pés do Príncipe.
Contendo com muito esforço o riso, Francisco virou-se para outro lado.
Nesse exacto minuto seu olhar se deteve em Diana, visivelmente embaraçada devido à cena ridícula da madrasta, cumprimentando-o confusa.
Os olhos do Duque se inflamaram de admiração.
Inclinando-se amavelmente à jovem, encetou com ela uma animada conversa.
Ao saber seu nome, se admirou por não tê-la notado na corte de Carlos durante todo o resto do baile nitidamente distinguiu Diana entre os demais, despertando terríveis ciúmes em René e Briand.
Pela primeira vez os dois rivais experimentavam o mesmo sentimento.
Nenhum deles confiava no Duque, o qual era conhecido por todos pela volúpia e ousadia cínica no relacionamento com as mulheres.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:33 pm

A suspeita dos jovens aumentou quando, dois dias depois o Duque, voltando da caça, parou no castelo d'Armi e pediu algo para se refrescar.
Cheia de orgulho, Lourença se colocou ela própria à disposição.
Mas o Duque só tinha olhos para Diana, que o recebeu com a amabilidade tão fria quanto permitiam as circunstâncias e a posição do hóspede.
O Duque não era o tipo de pessoa paciente.
Foi tomado por um terrível capricho por Diana, e a qualquer preço queria possuí-la.
Vendo a inacessibilidade da moça, resolveu empregar a força.
Com este objectivo passou a se aproximar de Lourença.
Já a primeira vista ele percebeu ser essa inteligência má exactamente a arma necessária.
Alguns dias depois, Diana lia sozinha em seu quarto, d'Armi de manhã cedo fora para Angers e Lourença havia comunicado não estar se sentindo bem por isso ia ficar na cama.
O ruído de passos e o estalar de ramos secos fizeram a moça erguer a cabeça.
Pode-se imaginar o pavor sentido por ela quando um homem entrou em seu quarto pela janela.
Gritando alto, ela se lançou à porta, mas o desconhecido a alcançou e a apanhou pelo braço.
Ainda gritando, começou a lutar, porém mais três raptores adentraram o aposento.
Quando Gabriela chegou, alertada pelo alarido, a porta estava trancada.
Em um instante os quatro levaram Diana enrolada numa capa e correram pelo jardim para uma abertura na parede.
Do outro lado os cavalos os esperavam.
Um deles levou Diana consigo na sela e depois, a trote rápido, se dirigiram a Angers.
Quando ela voltou a si, estava deitada numa cama larga, de colunas, num grande quarto arqueado, iluminado por duas velas de cera encontradas sobre a mesa.
Seu primeiro movimento foi saltar da cama e correr à porta, no entanto estava trancada.
Quando a moça se convenceu ser prisioneira nesse lugar desconhecido, foi tomada pelo pavor.
Vertendo lágrimas, ela se atirou à mesa.
Ninguém veio vê-la.
Pouco a pouco voltou a ter calma e a reflectir sobre sua condição.
Ela tinha a certeza de ter sido o Duque o responsável, pois não haveria outra pessoa com uma casa assim tão grande e confortável.
Procurou aflita o estilete que sempre levava consigo para se precaver de Briand.
Ao encontrá-lo, suspirou aliviada.
— Em último caso poderei me matar... - murmurou, escondendo a arma cuidadosamente.
Mal acabara de ajeitar o vestido, a porta foi aberta e entrou o Duque.
Estava muito bem vestido e sua cara rosada indicava vir ele de um farto jantar.
Ao correr na direcção de Diana, esta recuou até a janela; ele caiu de joelhos e, esforçando-se por abraçá-la, disse:
— Eu a amo, Diana!
Seus cabelos dourados me tiraram a razão.
Concorde em ser minha!
Vendo a repugnante figura de Francisco tão próxima a si, sentiu tamanha aversão que quase se esqueceu ser ele quem era.
O sangue lhe subiu à cabeça; vermelha de raiva empurrou com força o Duque e gritou com voz pungente:
— É uma vergonha para o senhor, Majestade, se utilizar de tanta violência contra uma mulher indefesa!
Coloque-me em liberdade agora mesmo!
Não sou uma escrava para ser tratada assim!
Não quero seu amor e se não me soltar me matarei ou o matarei!!
— Sim! Sim, sim!
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:33 pm

"Pâques-Dieu!" como dizia meu falecido irmão Carlos, a ira a torna ainda mais bela, Diana.
Você tem de ser minha!...
— Nunca!...
É melhor morrer que ser amante, mesmo sendo do filho da França - Diana replicou com ardor.
— E se casássemos legalmente? - disse meio rindo, meio irritado Francisco.
Escute, Diana, seja sensata e não empregue mal sua beleza; meus sentimentos me levam à loucura!...
Ame-me e lhe serei fiel até a morte!
A felicidade não é suficiente para um amor mútuo?
Tuche e Diane de Puate acaso não foram generosos, amados e queridos por todos, sem qualquer formalidade vazia?
Falando isso, se aproximou da moça e tentou puxá-la a seu encontro, mas ela deu um salto para trás e, sacando o estilete, gritou:
— Não me toque!
Ao ver a arma, o Duque recuou e, depois de entreabrir a porta, falou:
— Acalme-se, maravilhosa criança!
Neste exacto minuto me retiro.
As mulheres, como os gatos, não devem ser irritados demais, se não se deseja ser arranhado.
Espero amanhã você estar com ânimo mais conciliador.
Ao ficar a sós, Diana a princípio suspirou aliviada, mas ao se lembrar de sua volta na manhã seguinte, começou a chorar.
Pouco depois chegou uma mulher lhe servindo o jantar e se colocando à sua disposição.
A moça temia tocar na comida e, sem ter confiança na mulher desconhecida, recusou tudo.
Diana passou a madrugada no sofá, sem se trocar.
Mas ninguém a perturbou.
O dia seguinte foi tranquilo.
O Duque chegou apenas à noite.
Desta vez mudou completamente a maneira de se dirigir a ela.
Com expressões apaixonadas, mas sem passar dos limites do respeito, disse a Diana não ter se ofendido absolutamente pela maneira como ela havia se dirigido a ele na noite anterior e, inspirado pelas virtudes e beleza da moça, pensando bem, decidira se casar com ela.
— Jamais, disse ele com ardor, encontrarei uma mulher melhor e mais digna.
Mas o casamento deverá ser secreto, enquanto eu não preparar meu irmão, o Rei; não receberei indulto pelo acto de minha própria vontade.
Maior prova de amor não poderei lhe dar, Diana, mas espero ser suficiente para por fim à sua desconfiança.
— Esta honra é imerecida e demasiado grande para eu poder recebê-la, senhor!
Como pode a filha de um provinciano de Angers pretender se casar com o filho da França?!
Um grandioso futuro o aguarda e o fará esquecer uma jovem tão insignificante como eu.
Seja bondoso... generoso... me restitua a liberdade!
Diana respondeu com lágrimas nos olhos.
O Duque de nada queria saber e disse ser preferível a morte a perdê-la.
Insistiu em se casar e afirmou que ela só deixaria o castelo de Angers sendo sua esposa.
Passaram-se quatro dias de tristeza mortal para ela, mas o Duque recolocava sua exigência e, com muita paixão, a convencia a concordar com o casamento.
Ela não sabia mais o que fazer.
Estava morrendo de fome, pois havia comido somente alguns ovos e bebera um pouco de água, por temer algum narcótico no vinho ou em alguma comida.
Na noite do quarto dia, ao sair o Duque, Diana estava tão desesperada, que começou a bater a cabeça na parede.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:33 pm

Tinha imensa aversão a Francisco e a ideia de se casar com ele a apavorava.
Em pranto copioso caiu na cadeira.
De súbito o ruído da porta se entreabrindo a tirou do torpor.
Mas mal ergueu os olhos, ela se atirou com alegria ao homem que entrava.
— René! Caro René!
Salve-me! - gritava ela.
— Vim para isso!
Preciso conversar com você a respeito de coisas importantes - respondeu o Visconde a beijando, como de costume, fraternalmente.
— Oh! Como me sinto aliviada!
Você me encontrou!
— Isso não foi fácil!
Ainda seu rapto é o assunto mais comentado de Angers e foi muito difícil chegar até aqui.
Mas, quando o desejo é forte, sempre se alcança o objectivo.
Que aparência doentia, Diana!
Como você emagreceu!
— Realmente! Tenho medo de aceitar a comida e por isso estou morrendo de fome - disse ela recomeçando a chorar.
— Espere, Diana!
Esse problema é fácil de se resolver - disse René, dirigindo-se rapidamente à porta.
Passados quinze minutos ele voltou com vinho e doces.
— Coma sem nada temer e depois conversaremos, disse ele sorrindo.
Ao terminar o jantar improvisado, Diana havia recuperado a coragem e a tranquilidade; contou a seu amigo como as coisas tinham se passado entre ela e o Duque.
— Então foi assim que aconteceu?
Quanto ao famigerado casamento, posso lhe dizer:
o Duque quer enganá-la esperando você se acalmar.
O casamento está arranjado; as testemunhas serão um encarregado - d'Orilli e seus dois irmãos, homens da confiança dele.
Todos esses detalhes tomei conhecimento através de um amigo integrante da comitiva do Duque.
Então vim para salvá-la!
— Mas como? - Perguntou Diana, ao mesmo tempo ficando pálida.
- Só existe um meio de se livrar do Duque:
é casar-se comigo.
A comédia infame perderá então qualquer sentido.
Nem mesmo o Sr., d'Anjou se atreverá a empregar a força contra uma mulher do palácio.
Diana, você deve fingir aceitar a proposta do Duque.
Trate-o bem...
Quando a desconfiança dele houver sido vencida, você, uma hora antes da cerimónia, se juntará a outro, refugiando-se em seu castelo.
— Mas, quem será esse outro desejoso de se casar comigo? - murmurou desconcertada ouvindo-o.
O Visconde sorriu.
Um olhar ardente e ao mesmo tempo malicioso se fixou nos olhos perturbados do moço.
— O outro serei eu Diana, caso aceite receber minha fidelidade.
Seu amor e suas recordações pertencem a Raul de Montfort, sei disso.
Meu coração também sofreu terrível decepção.
Todavia nos conhecemos há tanto tempo e nosso amor é tão verdadeiro e profundo...
Certamente nos assegurará uma serena felicidade.
Nos momentos em que o amor não for suficiente, a amizade estará presente.
Acredite em mim!
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:33 pm

Concorde em ser minha esposa e me conceda o direito de defender sua honra e seu futuro.
O discurso do Visconde fora preparado com muita astúcia.
Respeitando a memória de Raul e não exigindo amor, ganhou a confiança e livrou-se da necessidade de confessar a paixão inspirada por sua beleza.
Ela lhe seria reconhecida pelo generoso auxilio e, ao mesmo tempo, não estaria no direito de lhe exigir mais do que ele próprio lhe poderia dar.
Tudo isso garantia a René uma dose de liberdade no caso de cair devido às fraquezas humanas ou de seu amor por Diana se apagar com o tempo.
A pobre Diana não suspeitava das segundas intenções e silêncios de René; ele estava demonstrando ser muito honesto e bom.
Sua proposta se apresentou como sendo de tal grandiosidade e de amor ressado que ela foi tocada no mais fundo da alma.
— Meu bom René!
Certamente aceito sua proposta!
Depois de Raul, o único com quem poderia me casar seria você.
Esteja certo de toda minha dedicação para poder provar minha gratidão e fazê-lo feliz o quanto possa! - respondeu emocionada.
O Visconde a apertou tão ardentemente contra seu coração que quase esqueceu haver feito a posposta por amizade.
No entanto Diana estava muito emocionada para perceber este detalhe.
Após as primeiras palavras de desabafo, os jovens passaram a conversar amigavelmente e a combinar os detalhes do casamento e da fuga.
Os dias seguintes foram alegres.
Confiando no seu futuro, Diana já começava a se divertir com a aventura.
Fazia seu papel com muita perfeição diante do Duque, conseguindo enganá-lo, fazendo-o pensar estar ela seduzida pela ideia de ser a esposa do Duque d'Anjou.
Ele a encheu de presentes e marcou o dia do casamento, para cuja realização aguardava apenas a chegada de seu encarregado d'Orilli, o qual havia viajado a negócios.
O Duque não desconfiava das vindas de René após suas saídas.
O rapaz passava pela guarda desta ala do castelo, porque o sargento encarregado da segurança havia trabalhado para o avô do Visconde e era muito fiel a René.
O moço disse a Diana das intenções do Duque e lhe contou seus preparativos para a fuga.
O rapto de Diana provocou grande alvoroço em Angers.
Logo as pessoas deduziram quem poderia ser o raptor - o Duque d'Anjou.
Mas como o assunto se referia a uma família em particular, ninguém se atrevia a empreender uma contenda com personagem tão importante, em defesa de uma mulher cujos parentes haviam se omitido.
O Barão d'Armi adoeceu de desgosto e ficou acamado.
Lourença se mostrava desesperada diante das pessoas, porém não se movia do castelo e quando a sós, considerava um triunfo ter d'Orilli contado com ela para a cumplicidade do rapto.
Em compensação Briand, ao saber do ocorrido, quase enlouqueceu.
Tinha certeza da participação activa de Lourença no sucedido.
Sentia ódio dessa mulher, apesar da influência por ela exercida sobre ele.
Sentia seu ódio aumentar ainda mais.
O Conde, contudo, não era pessoa de ficar com braços cruzados; foi a Angers.
Distribuiu dinheiro grosso; tomou conhecimento de tudo quanto se falava sobre o assunto; tendo subornado inclusive a mulher do sargento encarregado da questão, ficou sabendo através dela tanto do plano do Duque, quanto das intenções de René.
Em sua mente engenhosa imediatamente delineou um plano que, se tivesse sucesso, lhe traria a plena realização de seus desejos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:33 pm

Mas, antes de agir, resolveu garantir a colaboração de d'Armi, que sabia não ser difícil conseguir.
Assim se dirigiu ao castelo d'Armi para expor ao Barão seu plano, como o havia elaborado.
— Se, como penso, Beauchamp parar no hotel, ele acordará só quando Diana já se tenha tornado oficialmente a Condessa de Saurmont, terminou Briand.
Após ouvir o plano, o Barão balançou a cabeça preocupado:
— E claro, meu caro Briand, ninguém lhe deseja mais êxito do que eu.
A coisa mais querida para mim após Diana se livrar do covarde rapto do Duque é de se fazer mulher de um homem tão importante quanto você!
Só temo nada poder deter René...
Ele ama minha filha e naturalmente não pararia numa má pousada a caminho da igreja.
O Conde sorriu e deu uma gargalhada zombeteira.
— Sua resposta, Barão, mostra o quanto mal conhece Beauchamp.
Não há no mundo uma pessoa mais esmerada, complacente e de raciocínio tão lento quanto René.
Nem o amor, nem dúvidas o detêm se as coisas estão correndo rumo à satisfação de suas fantasias.
A pousada "Rabo do Diabo" se encontra exactamente a meio caminho.
Entusiasmado e cansado, René obrigatoriamente passará por ela para repousar e beber um copo de vinho.
O resto caberá a mim.
Eu lhe prepararei um chamariz bem tentador para ele cair nessa tentação no mesmo instante.
O Visconde pensa que Diana sempre lhe pertencerá e ficará, espera ele, livre de aborrecimentos.
D'Armi se animou imediatamente com a conversa.
Foi ao encontro de René e com lágrimas de amargura lhe implorou ajudá-lo a achar e salvar a filha.
O Barão inclusive o chamava por ter sido amigo de infância de Diana.
O moço não desconfiou da mudança do pai.
Tranquilizou-o quanto a Diana e lhe disse estar preparado.
O Barão o abraçou calorosamente, agradecendo, e pediu para deixá-lo inteirado de como caminhavam as coisas, dado que gostaria de participar do casamento e parabenizá-lo.
Ao relatar sua conversa com René, o Barão arrancou sorrisos de satisfação de Briand.
E naquele momento Saurmont começou a preparar a armadilha para livrar-se do rapaz.
Primeiramente se dirigiu aos ciganos instalados em São Germano.
No acampamento viu uma cigana de rara beleza - óptima presa para René!
A seguir o Conde se entendeu com o pai e o irmão da cigana para que todos tirassem lucro do plano.
Ficou combinado então que Topsi e os dois ciganos se dirigiriam no dia combinado a um hotel, cujo dono os ajudaria.
Tendo acertado isso, Briand tratou de arrumar o castelo de forma requintada, preparando-se para receber a nova proprietária.
Tinha certeza em seu plano, por estar confiante no desleixo e volúpia do Visconde.
Quanto a Diana naturalmente se resignaria com o destino, depois de ter se tornado Condessa de Saurmont, sabendo da fatalidade de seu noivo que a desprezara por uma simples cigana.
O dia marcado finalmente chegou, deixando Briand em aguda ansiedade.
Atormentado pela intranquilidade interior, ele deixou o castelo para passear pelo bosque.
Quando decidiu voltar para casa, encontrando-se já próximo do castelo, viu, surpreso, alguém saindo dos arbustos e vindo em sua direcção.
Sentiu ódio e apreensão quando reconheceu Henrique, a quem não via desde a Noite de São Bartolomeu e julgava morto.
O aparecimento do cigano em momento tão crítico foi tomado como um mau agouro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:34 pm

Contudo, dominando-se, estendeu a mão cumprimentando e, sorrindo, perguntou:
— De onde você surgiu?
Eu o procurei tanto... já o considerava morto!
— Oh! Foram tempos maravilhosos!
Estive fazendo coisas tão boas que saí da França.
Depois os fracassos começaram a me perseguir e retornei com alguns ciganos pensando que talvez sua generosidade pudesse me ajudar...
Depois de ficar sabendo com Topsi de seus desejos para com Diana, achei poder ser útil e vim para oferecer meus préstimos...
— E com prazer os aceito, e agora mesmo lhe contarei tudo.
— Não é necessário, Sr. Briand.
Antes de vir aqui tomei informações em Anjou e sei como andam as coisas - respondeu o cigano maliciosamente.
Briand tremeu de ódio, sendo tomado por um desejo insano de se livrar para sempre deste perigoso cúmplice.
Nesse instante passavam pela beira de um precipício de cuja encosta rolavam seixos.
Com a rapidez de um relâmpago o Conde aplicou um golpe fortíssimo na têmpora de Henrique, deixando-o atordoado na hora; aproveitando-se disso, empurrou o cigano para o precipício.
Henrique cambaleou, perdeu o equilíbrio e caiu.
Após perdê-lo de vista, o Conde esperou ainda alguns minutos para se certificar de não ouvir algo ou ver algum sinal de vida do cigano; no bosque, porém, o silêncio era completo.
— Certamente o canalha caiu na água.
Irá acordar do desmaio só no outro mundo - murmurou o Conde.
Sentia-se aliviado de um terrível peso e começou a cuidar dos últimos preparativos.
Mas Henrique não estava morto...
Rolou precipício abaixo, sob os baques das pedras e tocos de árvores até o rio, onde seu corpo foi retido pelos ramos de densos arbustos.
Na correnteza caíram somente lascas de rocha levando Briand ao erro.
Henrique ficou desmaiado por umas duas horas; tremendo de raiva, sentindo os membros doloridos, subiu a encosta e começou a arquitectar um plano de vingança.
Sua primeira ideia foi não deixar Topsi participar, estragando a armadilha preparada; mas olhando o sol constatou ser tarde para ir ao hotel, mesmo tendo escondido seu cavalo na floresta.
Naturalmente poderia contar a Diana quem eram Saurmont e Mailor - a mesma pessoa...
Açoitando o cavalo, decidiu enviar a uma aldeiazinha que se encontrava no caminho de René um mensageiro com uma carta, prevenindo o Visconde da intriga de Saurmont.
Conhecedor de cada cabana e de cada abrigo num raio de cem léguas, o cigano logo encontrou um rapaz que por um escudo concordou em aguardar o Visconde e lhe entregar a carta traiçoeira.
Isso resolvido, Henrique, a trote rápido, se dirigiu a Anjou.
Henrique conhecia a cela da moça e possuía um aliado no castelo.
Mas, desta vez decidiu não pedir ajuda.
Era uma noite escura, sem luar.
Ninguém notou o cigano que se pôs numa canoa e se aproximou da janela do quarto de Diana; esta janela dava para um fosso cheio de água.
Com a agilidade de um gato, subiu até a canhoneira e entrou no terraço.
Diana lia, completamente vestida para a fuga.
Ao seu lado havia uma máscara e uma capa.
A janela alta e estreita não era defendida por grade.
Sabendo não estar fechada, Henrique a abriu silenciosamente e, com certa dificuldade, entrou no quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:34 pm

Vendo alguém saltar para dentro, ela se levantou rapidamente, mas ao ver o desconhecido, gritou de medo.
Henrique a acalmou com algumas palavras de respeito e, sem perder tempo, começou a lhe contar o passado de Briand de Saurmont.
Chegou inclusive a relatar o assassinato do Conde Guevara, quando debaixo da janela, se ouviu um assovio baixo.
Pálida de medo, Diana parecia não mais ouvir nada, mas o cigano viu um homem mascarado, com um chapéu largo caído até os olhos, fazendo impacientemente sinais com as mãos para eles.
Ao tirar a luva, se via em seu dedo um anel de safira que René sempre levava.
— Corra, senhorita! Eis seu salvador.
Mais tarde lhe contarei do terrível perigo do qual a livrei hoje - disse Henrique ajudando Diana a colocar a capa e a máscara.
O cigano não duvidava ser René o homem mascarado.
Sabendo do aparecimento de Saurmont se dar dentro de uma hora e o Visconde, conforme o combinado, mais tarde, se René havia aparecido tão cedo, significava o aviso ter chegado a tempo.
Em todo caso, o anel eliminava qualquer suspeita.
Por isso Henrique, sem vacilar, ergueu Diana e a colocou nas mãos do homem, pronto para recebê-la de pé no barco.
Quando quis se unir a eles, descobriu ser bem mais difícil sair do quarto do que entrar nele.
Subitamente o homem do barco, mostrando muita pressa, deu-lhe um pesado saco de ouro e disse:
— Obrigado!
A seguir, sem esperar a resposta, tomou os remos e, em questão de segundos, o barco sumiu na escuridão.
Quando, finalmente, o cigano conseguiu passar pela janela e chegar à outra margem, vencendo o fosso, tudo ao redor era silêncio.
Diana e seu raptor tinham desaparecido.
— Caramba! Agora, moleque, ninguém mais irá tirá-la de você.
Puxa! Como o pequeno Visconde correu!
Pensou consigo mesmo Henrique, rindo sozinho.
Que pena eu não poder ver sua cara, Briand, quando encontrar o ninho vazio...
No entanto é hora de cuidar das minhas equimoses.
Espere só minha desforra!
Muito contente por ter alcançado seus objectivos, o cigano se dirigiu a uma pequena pousada ali nas redondezas.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:34 pm

II. O CASAMENTO

Saindo do barco, Diana viu seu pai esperando junto a uma liteira, acompanhado por numerosa escolta.
Louca de alegria, se atirou a seus braços, e ele, emocionado, a beijou.
Depois a conduziu à carruagem, e disse:
— Rápido! Rápido, minha filha, se você estima a vida de seu salvador.
Como num sonho, Diana permitiu a sentassem na carruagem.
Dois senhores montaram nos cavalos e o pequeno cortejo rapidamente subiu o bosque circundante da cidade.
Quando a cortina da cabine foi aberta, a moça viu uma pobre igreja situada nos limites do povoado.
Havia cabanas humildes, mal distintas na escuridão.
Esses detalhes externos, contudo, deixaram de infundir temor na jovem, quando o noivo a tomou pela mão e a conduziu à igreja, onde se colocaram no altar.
Aliviada, deixou que a levassem à sacristia, onde logo foi assinado o documento.
A seguir, aflita de curiosidade, voltou à igreja que era iluminada apenas por duas velas de cera, ardendo no altar.
O velho padre, nitidamente nervoso, concluiu rapidamente o casamento dos jovens mascarados.
Em quinze minutos o rito fora realizado.
O marido acomodou Diana na carruagem e, conduzindo o cortejo nupcial, se pôs a caminho no mesmo minuto.
Diana não conhecia o castelo de Beauchamp.
Admirada, viu com prazer seu novo lar ser uma enorme fortaleza, de espaços amplos e ameaçadoras fortificações, tendo um aspecto incomparavelmente mais imponente que as do castelo d'Armi.
O vestíbulo e a escada principal estavam bem iluminados.
Nos degraus, criados luxuosamente vestidos se colocavam em fileiras.
— Tire sua máscara agora - cochichou o Barão ao ouvido da filha, quando o marido lhe tomou a mão para conduzi-la pela escadaria.
A jovem esposa obedeceu mecanicamente.
Na sua excitação não percebeu o esposo haver ficado com a máscara e os criados não levarem a flor branca e azul dos Beauchamp, mas sim, branca e verde.
Todos estes detalhes lhe passavam desapercebidos, quando ela passou pela longa sequência de aposentos luxuosamente mobiliados e entrou, por fim, num grande dormitório revestido de um tecido verde de flores de ouro.
Ao fundo do quarto, destacando-se sobre um patamar havia uma grande cama adornada de brasões.
Fechando a porta, Diana tomou a mão do marido e nervosamente a apertou.
— Meu caro René! - Disse ela emocionada.
Permita-me uma vez mais agradecer sua grandiosa generosidade!
Você ainda não sabe ter me salvado hoje de um duplo perigo.
Graças a você me livrei de dois malditos.
Toda minha vida me devotarei em provar minha fidelidade...
Ao não receber resposta, ela elevou os olhos e, admirada, olhou para o mascarado de traje azul de veludo, emoldurando a figura alta e delgada.
Ele estava bastante nervoso e a sua mão tremia um pouco quando disse, tirando a máscara lentamente:
— Espero, Diana, não mude seu sentimento de gratidão para aquele que a salvou do Duque, mas não vai você tomar o nome do Visconde e sim daquele que somente lhe oferece amor e fidelidade.
Ao ouvir esta voz e ao ver o rosto pálido de Briand, Diana gritou de medo e pulou para trás, apoiando-se instintivamente na mesa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:34 pm

Mas essa sensação de fraqueza não se prolongou senão alguns segundos.
Pálida, com o olhar vidrado, se atirou ao Conde e, segurando-o pelo braço gritava, devorando-o com os olhos.
— Você!... você é o homem com quem me casei?!
— Sim, Diana, sou eu... estamos definitivamente unidos.
Pelo amor de Deus se acalme!
— Traidor, desonesto Barão de Mailor - dizia Diana em altos brados, com voz trémula.
Desgraçado!... casou-se na Espanha pensando ter matado sua esposa por lei... assassino de Raul!... sua voz se quebrou, porém seu rosto branco e seus olhos ardendo de asco assustavam...
Um impropério escapou dos lábios do Conde.
Seu pressentimento não o havia enganado; de alguma maneira incompreensível o maldito Henrique se salvara e havia se vingado dele entregando-o.
No entanto percebeu precisar naquele momento, mais do que nunca, de todo o seu sangue frio.
Sufocando a fúria desencadeada dentro de si, respondeu com calma:
— É verdade, eu sou Mailor.
Mas você não tem uma única prova e me disponho a corrigir meu delito lhe restituindo o nome e o título pertencentes a você por direito.
Diana riu.
— Você chama a armadilha covarde de hoje de "corrigir seu erro?"
Está enganado, traidor repugnante, se pensa que serei conquistada com semelhante coacção.
Irei ao Rei, lhe contarei seus crimes e exigirei justiça!
Não ficarei nem mais um minuto neste castelo!!
Fora de si, pálida, ela se lançou à porta gritando com voz irreconhecível:
— Pai! Pai! Venha cá!
Em dois saltos Briand a alcançou e a segurou pelos braços.
— Pare, Diana!
Não se esqueça de que minha paciência também tem limite! - disse ele em tom grave.
Você é e será a Condessa de Saurmont.
Você não irá ao Rei, mas ficará comigo, comportadamente, como minha mulher legítima.
Esta é minha vontade e a ensinarei a respeitá-la.
Vamos! Volte a si, seja sensata!
Ao som dessa voz irritada, metálica e diante de uma figura tão cruel e imperativa, Diana subitamente foi tomada por uma fraqueza, caindo desmaiada no tapete.
O Conde se pôs de joelhos e por um minuto a examinou com olhar carrancudo e demente.
Uma terrível sensação de anarquia e paixão encheu seu peito.
Depois de erguê-la rapidamente, cobriu de beijos a pequena boca pálida, pois naquele minuto não podia repeli-lo com ódio e desprezo.
— Finalmente você é minha!
Nem o céu, nem o inferno poderão nos separar.
Briand assobiou alto e quase no mesmo instante se abriu uma porta lateral pela qual uma jovem camareira adentrou o quarto.
Vendo sua nova senhora estendida no chão, a camareira soltou uma exclamação de espanto e surpresa.
— A Condessa se sentiu mal de cansaço; ajude-me, Nanon, traga-a de volta - ordenou Briand parando assim os gritos da empregada.
Esta se dirigiu ao vestiário trouxe as roupas de sua senhora.
O Conde levantou a esposa e a sentou na poltrona, rodeando-a de almofadas.
Com a ajuda da camareira, pegou um pesado manto de cetim, soltou os cabelos e a vestiu com uma larga roupa de seda branca.
Os longos cabelos loiros de Diana se soltando, a rodearam como um brilhante vestido.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:34 pm

Ao contemplá-la um fundo suspiro saiu do peito de Briand.
Nunca a vira tão maravilhosa como nesse instante!
— Nanon — friccione as mãos da Condessa e dê-lhe sais para cheirar.
Não a deixe nem por um segundo.
Quando vier o vinho você a fará beber - disse enquanto se dirigia para a porta.
Com passos rápidos Saurmont se dirigiu à sala de visitas; achou ser conveniente conversar imediatamente com d'Armi contando-lhe o acontecido.
Seria melhor ele próprio contar ao Barão seu passado, antes de Diana fazê-lo.
Não encontrando d'Armi na sala de estar, Briand se dirigiu à sala de jantar onde viu o Barão sentado diante de uma mesa servida e saboreando, com os olhos, diversas iguarias.
O tom alegre de sua voz indicava seu feliz estado de espírito.
Obviamente não havia ouvido os gritos de Diana.
— Venha, Barão, preciso conversar com o senhor - disse o Conde, levando-o a um canto do salão.
— De que se trata?
Sou todo ouvidos - perguntou o Barão vendo seu genro franzir as sobrancelhas.
— Quero lhe fazer uma pequena revelação, caro Barão.
Espero sua condescendência para comigo, em memória de nossa larga amizade.
— Seja franco, caro Briand!
Concordo com tudo antecipadamente - disse o Barão apertando fortemente a mão do Conde.
Um sorriso malicioso surgiu nos lábios do Conde.
— Há dezasseis anos sou seu genro, murmurou nos ouvidos de d'Armi, sou o falecido Barão de Mailor.
Se uma bomba houve caído aos pés do Barão, não o teria assustado tanto.
De boca aberta e barba eriçada, ele pulou para trás:
— Como?? Hum!... Você — Mailor!
O marido de Diana?! - balbuciou ele; e ela sabe disso? - Perguntou o Barão apavorado.
— Sem dúvida! Do contrário não lhe teria contado, não por falta de confiança, é claro, mas pelo desejo de poupá-la de desgostos - acrescentou Briand, pois precisava do Barão e faria de tudo para ganhar sua confiança.
— Infeliz! E se for descoberto ser você também o falso Conde de Saurmont? - disse o outro.
— Acalme-se! Meu erro da mocidade foi tentar ser o Barão de Mailor, porém, logo ao receber a herança do tio espanhol, ele morreu.
Com você fala, o verdadeiro e único Conde Eustáquio Briand de Saurmont, legalmente herdeiro e possuidor do nome e do título, disse rindo com gosto o Conde.
Briand ainda falava quando o Barão o puxou de encontro ao peito e quase o sufocou no abraço.
— Oh! Agora estou tranquilo e contente.
Tudo o que se refere ao maldito Mailor está sepultado, caro Briand!
Mas me diga, como Diana recebeu esta notícia? - acrescentou o Barão, segurando a mão de Briand amigavelmente.
Lembre-se de que ela quase o reconheceu da primeira vez de sua vinda ao nosso castelo!... que memória fantástica!
Quem o entregou?
— Um vagabundo infeliz, meu devedor de muitos favores.
Porém isso fica para depois; precisamos acalmar Diana com urgência.
Ela está fora de si de tanta irritação.
Para isso conto com o senhor, Barão... espero por sua autoridade de pai ter mais sucesso do que minhas explicações.
D'Armi nervosamente alisou a barba.
— Oh! Oh! Temos uma tarefa nobre em nossas mãos!
Se ao menos eu fosse o único a saber desta história...
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:35 pm

Diana é uma criança tonta... não compreende sua felicidade.
Não dá valor à nobre generosidade de um cavalheiro, permitindo a ele corrigir moralmente o erro cometido e lhe restituir a posição e o título pertencentes a ela por direito.
Eu, naturalmente, ainda mais o respeito pela luta árdua sustentada nesta situação.
Seguirei os exemplos de bondade e generosidade até com os quais você se esforçou em corrigir seu erro de juventude, relacionando-se connosco com tamanha amizade e prestando à nossa família serviços tão importantes.
Creia em mim, Briand, lamento profundamente a cegueira e teimosia de Diana e farei tudo o que estiver ao meu alcance para convencer esta birrenta - terminou d'Armi, apertando calorosamente a mão de Briand que respondeu do mesmo modo.
Nesse minuto, o panegírico do Barão lhe foi muito agradável.
Queria convencer a si próprio estar sendo generoso e, mais importante, convencer Diana disso.
— Eu lhe agradeço, Barão, por tão bem me ter compreendido.
Mas, antes de conversarmos com Diana, vamos nos preparar um pouco.
Vou dar a ela algo para beber.
Ele mesmo esquentou a taça de vinho, colocou na bandeja de prata o jantar, mandando a pajem levar tudo isso à esposa.
Depois o Conde se sentou à mesa servindo-se de um pedaço de carne de caça, mas não tinha fome.
Apoiou o cotovelo na mesa e ficou observando d'Armi comer com verdadeira ânsia e beber uma taça após outra, ganhando coragem para a conversa com a filha.
A expressão do Barão era nervosa.
Chupando a asa do faisão, ele, na realidade, estava entregue aos pensamentos, reflectindo em sua posição desconfortável.
Astuto e hábil caloteiro, temia o olhar inocente da filha, a qual queria convencer a amar o homem que a saqueou, jogou-a indefesa e faminta à morte e, traiçoeiramente, matou seu noivo!...
A voz serena da consciência sussurrava a d'Armi ter ele pela segunda vez se intrometido criminosamente na vida da filha, cujo futuro havia submetido à crueldade de seus interesses egoísticos.
Fosse como fosse, o Barão por todos os meios arrastou o minuto de explicações com a filha e Briand por duas vezes o lembrou do prometido.
Por fim Saurmont teve de levar, quase à força, o Barão à porta do quarto onde Diana dormia.
Após liberar os dois criados, o Conde começou a andar impacientemente pelo aposento, à espera de que o Barão o chamasse.
Passou-se um quarto de hora.
Briand esperava tenso.
Aos seus ouvidos chegou o som abafado de uma voz irritada.
Obviamente a conversa tinha sido das mais tumultuadas.
De súbito, ouviu-se a voz aguda e cortante de Diana:
— Como, papai?!
Você o perdoa!...
Esse maldito assassino traiçoeiro!... se é assim, você é cúmplice e teve participação na asquerosa armadilha de hoje!...
Não restam dúvidas de sua ajuda a assassinar René, para que ele não pudesse aparecer e me libertar de seu "honrado" amigo...
D'Armi respondeu algo incompreensível, mas Diana gritou:
— Mentira! Mentira! Fora!
Saberei encontrar o Rei sem você para exigir justiça.
Haverei de lhe contar tudo!
Passado um minuto a porta se abriu ruidosamente e por ela d'Armi saiu voando, como um relâmpago.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:35 pm

Suas faces estavam vermelhas e seus cabelos despenteados.
— Nada!... não pude fazer nada!
Ela não quer ouvir nenhuma razão... veja por si mesmo se pode fazer alguma coisa... - disse ele suspirando.
Antes que Briand respondesse algo, o Barão o tomou pelo ombro, o empurrou para dentro do dormitório e fechou a porta.
Bastante irritado, Briand parou por um minuto e depois procurou os olhos de Diana.
Absorta na oração, coberta com a capa dourada de seus cabelos soltos, a jovem parecia completamente alheia em sua terrível aflição.
Talvez ela nunca tivesse estado tão bela quanto nesse momento, revelando postura tão grandiosa em seu estado de desespero!
O coração de Briand batia com força, foi-lhe ao encontro e, inclinando-se diante dela, disse com voz trémula:
— Diana! Perdoe-me... esqueça o passado!
Quero corrigir todo o mal que lhe causei...
— Eu nunca o perdoarei!
A noite terrível no bosque e a morte de Raul! - gritou ela.
Estamos separados por um abismo... paz e desculpas são impossíveis entre nós!
Suma daqui! Você não tem sobre mim nenhum direito!
Cínico! Não se importa com os sentimentos dos outros!
Ainda não compreendeu o que me inspira, sendo diante de meus olhos amante de minha madrasta?!
E agora meu pai, abandonando sua própria honra, traiçoeiramente me entrega a você!
Oh! Como sou infeliz!!
Ela prorrompeu em pranto e, tomada pelo desespero, levou as duas mãos à cabeça.
Briand ficou vermelho, com o sangue lhe subindo à cabeça.
— Criança idiota! Não me irrite!
Você brinca com fogo - disse ele com a voz alterada.
Hoje adquiri sobre você um direito sagrado!
— Traiçoeiro! Repugnante! - Interrompeu-o com desprezo Diana.
— O amor não mede os meios. Já está feito.
Meus direitos sobre você estão sacramentados pela igreja e assegurados por documentos.
Perante as pessoas e Deus sou o seu marido.
Não tolero estar me repelindo e me tratando como no primeiro encontro.
Acate o inevitável!
Ele continuou e disse a Diana para se acostumar com ele mas, quando tentou beijá-la, foi repelido à força.
Recuando alguns passos, ela gritou com o olhar de louca:
— Não me toque! Assassino repugnante!
Você só me inspira medo e nojo.
Mais um passo e eu o sufocarei com minhas próprias mãos!
Pensou ter encontrado uma vítima que não pode nem se defender?
O sangue subiu à cabeça de Briand.
A fúria e a paixão o privaram de uns segundos de calma.
Então tomou Diana rudemente pelo braço e berrou:
— Não me desafie, estúpida!
Você tem de se curvar à minha vontade, do contrário, pregarei a certidão de casamento na cama e ordenarei às pessoas amarrarem a mulher que não me ouve, me repele e despreza meus direitos!
Diante do olhar demente e cruel de Briand, Diana fechou os olhos e gritando assustada, deu um pulo para trás.
— E então?... será sensata? - Perguntou o Conde atraindo-a para si.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 7:35 pm

A moça se endireitou, empurrando-o e recuando alguns passos, falou com voz alterada:
— Nunca!
Furioso, Saurmont pegou o apito que usava para chamar os criados e assobiou diversas vezes.
Logo se ouviram passos apressados, a porta se abriu e alguns criados e pajens pararam na soleira com tochas nas mãos.
— Venham aqui! - gritou o Conde.
Depois, voltando-se para Diana que petrificada olhava em silêncio para os empregados, ele perguntou baixando a voz:
— E então, linda caprichosa!
Vai continuar teimando?
A moça nada respondeu, mas era fácil ver o crédito dado às ameaças do marido.
Pálida, com o olhar imóvel, a boca semicerrada, ela desesperada, vagarosamente se aproximou dele.
— E então? Sim ou não? - repetiu o Conde.
Os lábios dela se mexeram, mas ela não pronunciou uma única palavra.
O Conde se considerava vitorioso e já olhava para trás, quase ordenando aos empregados que se fossem, quando, inesperadamente, sentiu um forte golpe nos quadris, quase perdendo seu equilíbrio.
Aproveitando-se do instante em que o marido havia se virado, ela lhe tomou o punhal da cintura, cravando-o na altura das ancas, gritando com voz irreconhecível:
— Morra! Assassino de Raul!...
O Conde permaneceu imóvel por um minuto, depois conseguiu tirar o punhal do ferimento.
O sangue escorria abundantemente sobre Diana e o chão, e Saurmont silenciosamente desceu à cama.
De início os empregados ficaram estáticos de medo, lançando-se logo em seguida ao socorro de seu senhor.
O Conde abriu os olhos e com esforço, disse:
— Guardem a Condessa.
Se ela sumir, vocês se arrependerão!...
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 7:41 pm

III. A SEDUÇÃO DE RENÉ

Já há alguns dias no castelo de Beauchamp reinava extraordinária actividade.
O jovem proprietário o preparava para receber a esposa, imaginando todo tipo de melhoramentos feitos em curto prazo.
Antes de tudo lhe parecia não ser correto estar com Diana nos grandes quartos de Marion, por isso ele pôs em ordem o quarto de dormir de sua mãe e arrumou todas as obras de arte e de luxo, que podia apressadamente arrumar.
No dia marcado do casamento, pela manhã, René examinou pela última vez o ninho luxuoso, para onde, à noite, ele iria levar a mulher amada.
Nessa vistoria o acompanhava António Gilberto.
Alegremente o Visconde mostrava pessoalmente os enfeites feitos para sua noiva.
Há quatro anos o jovem médico não se separava do Visconde ao qual se sentia sinceramente ligado; seu apego à única filha de sua senhora era sempre igual e a união de Diana e René o fazia completamente feliz.
Terminado o exame do quarto de sua futura esposa e convencido de que tudo estava elegante e confortável, o Visconde voltou ao quarto de dormir, sentou junto à janela aberta e ainda outra vez lançou um olhar curioso em direcção ao quarto.
Esta visão lhe trouxe um sorriso.
Ele não sabia ser neste mesmo quarto o lugar onde se daria o drama mais trágico de sua vida.
Felizmente ele desconhecia o futuro.
Naquele momento René esperava coisa bem oposta.
Pouco a pouco ele caiu em profunda meditação.
Diante dele passou rapidamente todo o passado:
sua infância, o casamento com a traiçoeira Marion a quem tinha entregue o primeiro ímpeto de sua alma e ela pagou o amor dele com tormentos, traições e até tentativa de assassinato!...
Tremendo nervosamente ele passou a mão pela testa.
Graças a Deus tudo isso tinha passado...
Agora, com a imaculada e linda Diana começaria uma nova vida, tranquila e cheia de felicidade.
Atormentado pela impaciência, o Visconde saiu uma hora antes do horário em que normalmente costumava sair.
António Gilberto e dois lacaios o acompanhavam; a liteira e a escolta estavam escondidos em sua casa em Angers.
O caminho era longo; aproximando-se de Angers René sentiu cansaço e sede, então, passando em frente a um hotel sentiu aroma apetitoso vindo de uma porta aberta.
Parou o cavalo e informou António Gilberto ser preciso descansar um pouco e permitir aos cavalos tomar fôlego, pois nessa noite ainda teriam muito trabalho.
— "Monsieur"! O hotel "Rabo do Diabo" tem má fama e, dizem, sempre está cheio de pessoas suspeitas.
Já estamos perto de Angers e lá o senhor poderá descansar uma hora... - assinalou António.
René, com curiosidade, olhou a placa que retratava um grosso rabo preto, terminando em tom vermelho fogo.
— Este rabo parece muito com um salsichão e está despertando meu apetite, - disse ele rindo.
Se lá existem pessoas suspeitas, perigosas para qualquer gente pobre ou viajante solitário, então quatro pessoas armadas vão mantê-los em um temor seguro - acrescentou saltando para o chão.
Ele se sentou à mesa, pediu uma garrafa de vinho e um pedaço de caça e começou a examinar o cómodo naquele momento quase vazio, pois apenas no canto oposto estavam sentadas atrás de suas canecas de cerveja duas pessoas mal vestidas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 7:41 pm

Perto deles, apoiada na mesa havia uma mulher magra que imediatamente chamou a atenção do Visconde — era uma criatura muito jovem, delicada, esbelta e tão meiga quanto feia, negros cabelos espessos, da cor do azeviche emolduravam o rosto de coloração de bronze; os olhos grandes e ardentes, a boca purpúrea com um sorriso provocante lhe davam uma beleza um tanto demoníaca.
Ela estava vestida com uma saia raiada viva e um corpete de veludo; suas mãos bonitas estavam descobertas e os dedos bronzeados dedilhavam a mandolina pendurada em seu pescoço.
— Ah! Que moça maravilhosa!- Exclamou René involuntariamente, sempre admirador apaixonado da beleza.
O ouvido apurado da cigana percebeu a exclamação.
Ela enrubesceu e, aproximando-se do Visconde, perguntou com profunda reverência:
— O senhor permitiria eu lhe cantar uma canção?
— Naturalmente! Cante, encantadora criança, e dance também, se você é experiente nessa arte - respondeu o visconde com um sorriso.
A cigana rapidamente tirou a mandolina e, agarrando o tamborim, começou uma daquelas danças atraentes, cujo segredo ainda é conservado entre os nómades daquela raça.
René com olhar ardente a seguia.
Tendo provado o vinho espanhol trazido pelo taberneiro, ele se admirou muito de que em tal lugar perdido existisse bebida tão boa.
Acabada a dança, a cigana se aproximou da mesa; sua face morena estava corada e seu colo ofegava muito.
Os grandes olhos negros dela lançaram em direcção do jovem
um verdadeiro olhar significativo.
A moça era de facto sedutora. René, não escondendo absolutamente sua admiração, tirou duas moedas de ouro e as atirou no tamborim.
A cigana balançou a cabeça e, lançando as moedas na mesa, disse em tom carinhoso:
— Em lugar do ouro, admirável senhor, dê-me um gole de vinho da taça onde seus lábios tocaram e Topsi ficará feliz.
O rosto de René pouco a pouco ficou todo vermelho e seu atrevido olhar ardente como que aumentaram em direcção ao rosto bonito da cigana.
— Ah! Seu nome é Topsi!
Estou vendo não lhe faltar astúcia... venha para cá, sente-se ao meu lado e beba!
Rápida e graciosa como uma lagartixa, a moça deslizou em direcção ao banco e agarrando-se ao jovem, bebeu de sua taça.
René abraçou-lhe a cintura fina e lhe beijou o ombro desnudo.
Com crescente descontentamento António Gilberto observava esta cena.
Diante dessa última "amabilidade", ele enrubesceu fortemente.
Revoltava-o a ideia de que esses lábios que dentro de algumas horas iriam beijar a cândida Diana, eram profanados com o contacto da vagabunda cigana.
Mas... que fazer?
Furioso, ele saiu do quarto e olhou para os cavalos.
Nesse mesmo instante se convenceu de estarem eles completamente descansados, voltou ao hotel para informar ao Visconde tudo estar pronto.
Para sua grande surpresa, o banco estava vazio e René e Topsi tinham sumido.
Vendo seu espanto e impaciência, o taberneiro, maliciosamente lhe deu uma piscada.
— Tenha paciência, "monsieur", a bela jovem e o magnífico senhor estão lá em cima — e ele mostrou a escada.
Eles sem dúvida logo voltarão.
Enraivecido, António Gilberto estava indignado e andava pelo quarto.
Como o Visconde estivesse demorando, ele decidiu subir.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 7:41 pm

Entrou num longo corredor onde havia quatro portas; três delas estavam abertas e a quarta estava fechada por dentro.
— "Mr." René!
Já é hora de partir... os cavalos estão prontos!
Conseguiremos chegar a tempo!
Gritou António batendo na porta.
Não conseguindo resposta, ele bateu mais forte e repetiu:
— Apresse-se, "Monsieur", ou chegaremos muito tarde!
Tudo estava silencioso.
Uma trágica intranquilidade tomou conta do médico:
já não teriam matado René?
A cigana era suspeita e seus dois acompanhantes haviam sumido da taberna.
Arriscando provocar a fúria do Visconde, António resolveu arrombar a porta.
A agitação lhe dobrou as forças e a porta se despedaçou em mil pedaços.
A chama fumegante de uma vela iluminava o quarto.
Na cama estava deitado, seminu, René.
Mesmo ao primeiro olhar António se convenceu de que a roupa, armas e objectos preciosos tinham desaparecido junto com a cigana.
No primeiro instante ele pensou que René estivesse bêbado, dormindo.
Inutilmente o sacudiu. Ele nem se moveu.
De sua boca saia um aroma estranho, picante, convencendo o médico de que ao vinho tinha sido adicionado forte substância narcótica.
Evidentemente havia sido montada uma armadilha ao Visconde, com o objectivo de atrapalhar seu casamento com a angelical Diana.
Um terrível desespero tomou conta do fiel servidor.
Completamente abatido, ele sentou junto à cama.
Mas logo seu carácter enérgico o levantou.
Ele resolveu se dirigir pessoalmente à igreja e avisar d'Armi sobre o atraso inesperado e levá-lo com Diana ao castelo de Beauchamp onde ninguém procuraria a jovem e onde, na manhã seguinte, se poderia realizar o casamento.
Animado com a nova decisão, ele desceu e ordenou a um servo procurar os cavalos e a outro tomar conta do senhor.
Depois, a toda carreira, correu para o lugar de encontro.
Quando seu cavalo, já espumando, parou em frente à igreja, ele viu estar ela fechada, mas na casa do sacerdote ainda cintilava uma luzinha.
Não vacilando um minuto ele se dirigiu para aquele lado.
Depois de longa conversa ele foi admitido na casa do sacerdote.
Surpreso, quase aterrorizado, António soube que um casamento secreto tinha sido realizado e que, assim como o noivo, a noiva não tinha tirado a máscara.
O sacerdote não podia dizer nada sobre suas personalidades, mas acreditava serem aquelas pessoas de quem Gilberto falava.
Apiedado do infortúnio e intranquilidade aparente do jovem médico, o respeitável ancião trouxe os livros religiosos e, não acreditando em seus próprios olhos, António leu o registo do casamento realizado entre Eustáquio Braind, Conde de Saurmont e Diana, viúva do Barão de Mailor.
Em seu sombrio desespero António pulou para a sela.
Pelo visto tinha se levado a efeito uma astuta intriga e a confiante Diana fora enganada pela aparência...
Briand e René tinham a mesma estatura e ela pensava estar se casando com Beauchamp.
Viajando através de Angers, o médico pegou no hotel de Beauchamp novas roupas para seu senhor e depois se dirigiu vagarosamente de volta ao hotel de má fama.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 7:41 pm

Quando ele chegou René ainda dormia, pálido como morto; ao redor dos olhos tinham se formado círculos escuros e um tremor nervoso percorria seu corpo.
Diante desta aparência António deixou escapar uma surda surpresa:
— Ah... "Monsieur!" O que fez!...
Diana se tornou vítima de uma intriga infernal!
No actual minuto ela se tornou a Condessa de Saurmont... - disse tristemente António.
— Não diga!
Como pode acontecer semelhante coisa? - exclamou René com voz rouca, acordando.
Quando o médico lhe contou tudo quanto sabia, o Visconde segurou com as duas mãos a cabeça e algumas lágrimas de raiva e vergonha rolaram pelo rosto.
Via agora o resultado de sua aventura amorosa; como um estúpido ele tinha caído numa rede armada e traiu sua noiva, tendo confiado a honra dela às mãos de abominável pessoa!...
Foi dominado por um ódio insensato em relação a Saurmont e decidiu nesse mesmo dia chamá-lo à luta até a morte.
Procurando não pensar nos excelentes planos de vingança, o Visconde voltou para seu castelo sombrio e pensativo.
Quando estavam se aproximando da Clareira "Cruz Negra", uma pessoa indo numa mula os encontrou.
— De onde o senhor está vindo tão cedo? - perguntou o Visconde, reconhecendo o velho médico Lucca.
— Do castelo de Saurmont, Senhor.
Lá aconteceu uma desgraça:
ontem à noite o Conde se casou; passada uma hora de seu regresso ao castelo sua companheira o apunhalou...
— E ele morreu? - exclamaram ao mesmo tempo René e António.
— Não, embora estivesse por um fio para isso acontecer.
Á esposa lhe cravou o punhal nos quadris, mas a lâmina escorregou para o lado.
O ferimento é sério mas não mortal.
— E a Condessa? - perguntou António com a voz tremendo.
— Inicialmente eu pensava que ela perderia o juízo, tal era sua agitação.
Dei então um narcótico forte; mais tarde veremos.
Mas permita que eu me despeça, Sr. Visconde!
Preciso visitar alguns doentes difíceis e à noite devo estar novamente no castelo de Saurmont.
René e seu médico, não trocando palavra alguma, voltaram ao castelo.
O Visconde estava completamente abatido com a desgraça provocada por sua leviandade.
Além disso a mistura feita para ele no vinho, com substâncias tão fortes quanto nocivas fazendo-o sentir-se mal, fê-lo de madrugada ter febre e delírio.
Em muitas semanas seguintes René esteve próximo da morte.
Se conseguiu sobreviver foi graças ao tratamento e sacrifício de António Gilberto.
Por fim, após a longa doença é que começou aos poucos a se restabelecer.
- Graças ao tratamento do velho médico e de sua jovem e forte natureza, Diana logo se restabeleceu de seu estado doentio.
Um sombrio desespero substituiu a excessiva agitação.
Por horas ela esteve deitada calada, com os olhos fechados e durante vários dias nada comeu.
Ela sabia estar prisioneira, sob vigilância severa.
Saurmont estava vivo, mas ela nada perguntava sobre ele e nem sobre o pai que não via desde a noite fatal.
Mas, em compensação, de Gabriela ela soube de todos os detalhes da aventura de René.
Uma bonita camareira recebia todas as novicias através de António Gilberto, não deixando de informar sua senhora sobre toda a maldosa astúcia do Conde, que tinha tramado tal armadilha diabólica.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 7:42 pm

A camareira procurava de todas as formas justificar o Visconde, mas tudo em vão, pois Diana, implacavelmente, condenava duramente o comportamento vil do jovem.
Ela suspeitava até que René, ele próprio, tinha arranjado o encontro com a cigana para ter motivo de se embebedar e se livrar da obrigação, o que, segundo ela, Diana, acentuava a atitude leviana do Visconde.
Gabriela tentava inutilmente convencê-la de ter sido quase envenenado, estar doente em vista de sua infeliz loucura e seu desespero ser ilimitado.
Diana nada queria ouvir não permitindo desculpas.
Por fim proibiu Gabriela pronunciar o nome do Visconde.
O estado de alma da jovem mulher era terrível... o sentimento de solidão a atormentava muito.
Não falando mais sobre René, até o pai era, em sua relação, um traidor.
Ela tinha sido dada para Saurmont de corpo e alma.
Nessas horas de desgosto, a lembrança de Raul despertava nela uma nova força... mas agora ela, por toda vida, estava ligada ao assassino de sua felicidade e de seu futuro!
Por três semanas a vida de Briand esteve em perigo e depois ainda, dias se passaram para que voltasse a si, recobrando os sentidos.
Sentia todo o corpo machucado e os órgãos sensíveis.
Inutilmente ele tentava se explicar por que estava deitado na cama se sentindo tão fraco.
De repente seu olhar pousou no Barão João, que estava sentado numa poltrona à cabeceira e visivelmente mergulhado em pensamentos desagradáveis.
Então o Conde recobrou a memória e, sem dificuldade chegou até a mão de d'Armi.
Este rapidamente se voltou e exclamou contente:
— Até que enfim o senhor está me olhando como pessoa sensata!
Graças a Deus o delírio passou!
Agora tudo irá bem. Fique calado.
Está terminantemente proibido de falar, acrescentou, vendo que o Conde queria expressar algo.
- Calma! Estarei às suas ordens até suas forças se restabelecerem.
— Uma palavra... onde está Diana? - murmurou Briand.
O Barão enrugou as sobrancelhas.
— Acalme-se! Diana está no castelo e com saúde.
Desde esse dia o Conde começou a melhorar.
Em quinze dias se levantou.
Havia retornado toda sua presença de espírito e sua energia natural.
O Barão lhe contou que ao tempo de sua agitação provocada pela ferida, Diana tentava fugir, mas ele, como seu pai, impedia tal loucura.
Seria realmente loucura Diana tentar fugir, mas então João tinha ordenado que a vigiassem, e, após alguns ataques de fúria, Diana caiu numa sombria apatia.
— Eu não a tenho visto desde a fatídica noite - continuava d'Armi.
Isso provocaria, apenas cenas desagradáveis...
Ela queria me forçar a lhe devolver a liberdade e o senhor está entendendo, meu querido amigo, que seria difícil lhe recusar isso... guardei a esposa para o senhor, o restante será trabalho seu!
Briand não respondeu, apenas lhe apertou a mão.
Nas longas horas quando a fraqueza o obrigava à inactividade, o Conde reflectia sobre os recursos que tinha em mãos para fazer entrar em acordo a esposa, cujo ódio o ameaçava a cada momento com a morte.
Afinal ele chegou à conclusão de que d'Armi deveria ajudá-lo a amansar Diana.
Isso não seria agradável ao Barão, certamente, mas, por dinheiro, João concordaria com qualquer coisa.
Passados alguns dias surgiu uma oportunidade de se tocar no assunto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 7:42 pm

— Penso que em breve estaremos nos separando - assinalou d'Armi, os olhos semicerrados, recostando-se para trás.
Enquanto eu cuidava do senhor perdi muito tempo e abandonei meus negócios, sofrendo grandes prejuízos.
O Conde entendeu; em seu rosto surgiu uma expressão de arrogante desprezo.
— Deus me guarde, querido sogro, que por minha culpa tenha tido prejuízos... - disse o Conde colocando um tom de brincadeira na voz.
Compensarei o senhor a cada hora perdida, mas antes necessitarei de seu favor amigo.
Escreva a carta que vou lhe ditar.
A cada palavra lhe pagarei dois ducados.
— Ah! - murmurou o Barão, como que mudando de expressão e assumindo uma alegria celestial.
Dite, Sr. Briand...
O Conde trouxe um porta-jóias de ferro e o colocou na mesa.
Quando ele o abriu d'Armi viu estar cheio de ducados, até a borda.
Os olhos do Barão brilharam com cobiça selvagem.
— Quando tiver acabado de escrever a carta este porta-jóias será seu - acrescentou Saurmont colocando diante do Barão a folha de pergaminho e a pena.
D'Armi não vacilou. Escreveu:
"Minha querida filha Diana!
O terrível remorso me obrigou a ir embora para longe.
O desespero e a vergonha não me permitiram vê-la.
Os motivos de minha conduta indigna são bem mais importante do que você possa imaginar, minha adorada criança.
Não reprove seu pai criminoso.
Estou passando momentos difíceis, procurando expiar meus erros.
O Conde não é completamente culpado como você pensa.
Eu o levei a essa trama, concordei com seu casamento e, com meu título de pai, encobri essa desonestidade.
Não tinha dinheiro e era preciso arrumá-lo e a pessoa que lhe revelou isso esqueceu de acrescentar minha carência, graças ao meu carácter irritadiço e impetuoso.
Cometi no passado um crime abominável e o Conde de Saurmont tem provas assinadas por minha mão desse crime cometido.
Se você insistir na vingança contra o Conde, e se forem revelados meus erros anteriores, então eu estarei perdido com ele, pois nossos destinos estão intimamente ligados — o desaparecimento de um levará fatalmente à ruína do outro.
Diana! Imploro de joelhos — tenha piedade de mim!
Se levar a queixa ao Rei, tudo estará perdido.
Mas tenho esperança em sua generosidade.
Como seu pai não é criminoso comum, você não gostará que sua cabeça caia sob o machado do carrasco e o velho nome d'Armi, também seu nome, seja para sempre difamado.
"O Conde tem pensado que, com os longos anos de sua vida irrepreensível, ele reparou o passado e está em tal desespero que a nada dá valor e poderá ser arrastado à ruína tanto quanto eu".
Tendo escrito tudo isto sem pausa, o Barão parou, e com ar preocupado coçou a cabeça:
— Com os diabos! Que coisas estúpidas e perigosas eu escrevi... isto é uma besteira... não sei se posso assinar...
— Se está vacilando, rasgue a carta, antes que ela caia nas mãos de sua filha, respondeu Briand, pegando calmamente o porta-jóias.
O Barão empalideceu.
— Mas que ideia é essa, querido Briand!
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 7:42 pm

Tenho coragem suficiente para transferir uma pequena mancha para meu honroso nome, se o assunto de que se está falando é para agradar um filho e amigo, - disse ele, apressadamente assinando a carta e a passando ao Conde.
Esse, calado, aproximou dele o dinheiro prometido.
D'Armi apoiou as duas mãos na caixa de jóias, como receoso de que lha tirassem.
— A propósito — eu esqueci de lhe dizer que recebi hoje uma carta muito importante e tenho de partir imediatamente.
— Vá, querido Barão!
Eu sei que assuntos importantes exigem sua presença.
Mas antes me permita agradecer por toda fidelidade de que me deu prova.
Eles se beijaram.
Acompanhando a visita, o Conde perguntou onde ele iria.
— Angers, - respondeu d'Armi, saltando para a cela.
Voltando a seu quarto, Briand segurou a preciosa carta e resmungou, zombando com desprezo:
— Que felicidade ter tal sogro conciliador!
Espero eu não estar enganado, contando com a generosidade da minha excelente esposa...
Depois se apoiou à escrivaninha e cismou com aspecto preocupado.
Antes de falar com Diana considerava indispensável se avistar com Lourença e acalmá-la, pois era perigoso irritar a megera.
Sempre a estranha influência o prendia a essa mulher... e, sem considerar a ira e a repugnância interior, ele constantemente voltava a Lourença...
Considerando tudo isso, ele resolveu se dirigir imediatamente ao castelo d'Armi.
Já que o Barão estava em Angers, então nada atrapalharia a explicação que, previa ele, seria muito agitada.
Decidiu ser severo com Lourença.
Não se sentindo agradado em ir a cavalo, ordenou aprontassem a liteira.
Após algumas horas de cansativa viagem, chegou ao castelo d'Armi, berço de seus crimes passados e de seus atuais inimigos.
No antigo castelo havia poucos serviçais e ninguém avisou a proprietária de sua chegada.
O Conde se dirigiu directamente ao quarto de Lourença.
Repentinamente chegaram a seus ouvidos gritos e maldições horríveis.
As vozes lhe eram bem conhecidas e ele logo compreendeu estar acontecendo entre o Barão e a esposa uma cena...
Briand murmurou maliciosamente, esquecendo estar ele na mesma situação:
— Ora, ora!... ele não se decidiu ir a Angers sem ter se avistado com sua cara metade!...
A senhora Lourença sabe excelentemente manter a disciplina!
Por Deus! - acrescentou, abrindo de súbito a porta.
Ele lhe dará o relatório sobre o acontecido...
Vai me libertar de detalhes aborrecidos...
Vermelha como um pimentão, asquerosa e terrível em sua roupa suja e desarrumada, Lourença, enfurecida, sapateava e saltava no mesmo lugar, com tal força e ligeireza que era difícil imaginar em tal bola de carne.
d'Armi estava com o rosto vermelho, cabelos despenteados, gola rasgada, mostrando claramente estar expiando cruelmente ali o favor recebido no castelo de Saurmont.
Diante da presença do Conde, o Barão soltou algumas exclamações incompreensíveis e, gesticulando muito, se retirou do quarto.
Pareceu a Briand estar ele aliviado com o aparecimento de Saurmont.
Lourença, sacudindo suas pesadas bochechas se lançou em direcção do Conde gritando:
— Traidor! ... Assassino desprezível!...
Finalmente você apareceu!...
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 7:42 pm

Briand, muito calmamente, trancou o ferrolho da porta; depois, dando-se conta da fúria, agitou o açoite de uma forma significativa no ar...
O Conde entendeu que desta vez deveria ser duro e corajoso; além disso, nos ataques de raiva da Baronesa, ele sempre perdia o poder.
— Ouça, Lourença!
Não me irrite com seus gritos - disse interrompendo-a.
Eu ainda estou muito nervoso para ouvi-los e posso facilmente perder o controlo.
É melhor conversar com calma... somos pessoas inteligentes e nosso amor mútuo não sofre nem um pouquinho por causa desse casamento.
Você sabe muito bem que os vínculos legais nunca me limitaram.
Graças à nossa calma e comum segurança, eu devia insistir nesse casamento.
Aliás, ele acrescentou sorrindo, eu reparei em parte minha traição... eu por pouco não morri devido a um ferimento provocado em mim por esta admirável insensata.
Conhecendo seu amor eu apareci por aqui para recobrar as forças em sua presença.
Será possível que você esteja pensando, querida Lourença, em que eu posso esquecê-la graças à mocinha ingrata?
Diana não é mais do que um brinquedo, um simples passatempo...
À medida que ele falava, o rosto de Lourença se clareava.
Ela cruzou suas mãos carnudas e lágrimas fingidas rolaram de seus olhos.
— Pessoa repugnante, ingrata!
Posso eu acreditar em suas palavras?!
Ele gemeu.
— Sem dúvida!
Que casamento pode perturbar nosso acordo amoroso?...
Olhe!
E ele tirou do bolso uma caixinha.
— Esta jóia era o meu presente de casamento para Diana.
Depois do procedimento dela para comigo eu a considero indigna de minha atenção e lhe peço usar esta jóia escolhida com as melhores das intenções.
Tendo ele se esclarecido completamente, Lourença se lançou ao pescoço do Conde e o beijou ardentemente; sem levar em consideração a repugnância interna, Briand lhe retribuiu o beijo e, não modificando o aspecto sério, começou a observar como Lourença, com trejeitos diante do espelho provava seu presente.
Antes do almoço a Baronesa se lembrou subitamente de seu marido.
— É preciso chamar este velho imbecil... pessoa horrível!
Ele está sempre tramando alguma coisa pelas minhas costas, mas eu tenho a fraqueza de amá-lo.
João! João!
Gritou ela com sua voz estridente.
- Venha! Venha! Estou lhe pedindo!
Logo surgiu a cabeça despenteada do Barão à porta.
D'Armi olhou desconfiadamente para o quarto.
Apenas quando Lourença lhe estendeu a mão e, com majestosa indulgência repetiu que o desculpava, o rosto arranhado de d'Armi se tornou claro e a paz amiga foi restabelecida.
Todo o resto do dia Lourença se caracterizou por uma bondade angelical.
Ela chamava Briand de seu querido genro.
Com relação a Diana, falava com pura bondade materna e servia o Barão cordialmente; ele, com aparente deleite devorava uma quantidade incrível de pratos.
Sim — nenhuma nuvem perturbava a paz e o Conde voltou para casa bem tarde da noite.
No dia seguinte Briand, de manhã cedinho começou a se preparar para o importante e difícil encontro com Diana.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 7:43 pm

Sabia que a jovem mulher estava bem de saúde, mas seu estado de espírito deveria ser terrível.
Vestiu um traje rico mas sóbrio, de veludo preto, o que ressaltava ainda mais sua palidez mortal.
Chamou o criado e o enviou à esposa para lhe comunicar que iria conversar com ela dentro em pouco, e lhe deu a carta do Barão para que entregasse a Diana.
Quando lhe pareceu haver tido tempo para ela examinar o conteúdo da carta do pai, o Conde se dirigiu aos seus aposentos e entrou, quase ao mesmo tempo em que o criado saía.
O Conde ordenou primeiramente a todos os criados abandonar os cómodos vizinhos.
Diante da entrada do esposo, a jovem estava parada junto à janela e nem sequer se mexeu.
Briand se aproximou e se inclinou gentilmente.
Ele se sentiu visivelmente abatido com a mudança ocorrida nela.
Seu rostinho infantil comumente sorridente tinha agora uma sombra dura de decisão.
Ela não respondeu à saudação reverente de Saurmont.
Seus olhos grandes e brilhantes se dirigiram a ele cheios de ódio; a voz lhe faltava, os lábios tremiam nervosamente e ela se esforçava dificilmente para vencer a agitação que a dominava, o que era bem visível.
Por fim conseguiu se conter e pôs sua diáfana mão na carta do Barão pousada no peitoril da janela.
Com voz surda mas nítida, ela disse:
— Esta carta, Conde de Saurmont, me demonstra apenas ter eu um assunto a tratar não com uma, mas com duas desonestas pessoas, e para infelicidade minha, uma delas é meu pai.
Considerando sua idade e a denominação de "pai" que ele invoca, eu concordo em calar e não me dirigirei ao Rei com a exigência de justiça pelo delito doloroso perpetrado contra mim.
Para meu silêncio coloco uma única condição: me restitua imediatamente a liberdade e me livre de ver sua odiosa pessoa.
Esgotada, ela se calou.
Quanto a Briand, mal escondia sua desagradável decepção com o resultado da carta do Barão - ele havia esperado melhor reacção da parte dela.
Mas, controlando-se rapidamente, disse friamente:
— Estou vendo, minha senhora, que seu ódio implacável não se satisfez com o ferimento grave que me ocasionou.
A respeito da carta de seu pai, desconheço o conteúdo.
Se me permite lê-la, eu talvez compreenderei suas palavras.
Com olhar desconfiado e curioso Diana entregou ao Conde a carta.
Ele a leu com interesse fingido, reflectindo em seu rosto difícil surpresa.
— A mim parece, minha senhora - disse ele devolvendo a carta, que seu pai procedeu muito imprudentemente colocando-se em suas mãos.
Sim, tudo o que ele escreve é verdade.
Ele é o mais culpado e sempre me instigava para o mal, movido pelo sentimento de odiosa cobiça.
Minha juventude pode lhe servir de desculpa.
Ao tempo de nosso primeiro casamento eu tinha apenas vinte anos, mas o Barão era muito astuto e pobre...
Expressão de indescritível sofrimento desfigurava o rosto de Diana.
Vendo que Briand deu um passo em sua direcção, ela imediatamente recuou.
Fingindo nada ter notado, o Conde continuava:
— Não eu, mas seu pai lhe implora o silêncio.
De mim mesmo não tenho a mínima intenção de incomodá-la, se você conseguir uma solução.
Mas não aceite suas condições propostas.
A senhora deveria entender que, para arriscar mais do que arrisquei, é preciso amar você até a maldição!...
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 7:43 pm

Não pode recusar tão facilmente o que foi adquirido por preço tão alto.
Não temo a morte e a vida tem pouco valor para mim.
No momento estou cansado pois estive caçando uma lebre.
Aborrecem-me as eternas explicações de seu pai me extorquindo dinheiro e sua madrasta me impondo ser amante dela... ambos me mantêm nas mãos devido ao infeliz segredo de meu passado criminoso...
Uma bala sempre me livraria da justiça humana.
Mas... não quero morrer antes de me vingar...
Vou me ocupar para que descubram todos os casos duvidosos do nobre Barão d'Armi... ele, tendo trocado de roupa com um médico, estava dando veneno para minha esposa!
É um covarde!...
Vão julgá-lo e cairá no patíbulo pela mão do carrasco... bem o merece...
Você quer ser livre, minha senhora, como se nosso ódio não permitisse nenhum compromisso...
Bem! Eu mesmo a conduzirei ao Rei... faça sua queixa e me acuse!
Obrigue-me a reparar com a morte minhas faltas cometidas contra você!
O Conde se calou.
Estava pálido, seus lábios tremiam.
Com o olhar sombrio, apaixonado, ouvindo o som surdo e tremido da voz metálica de Saurmont, a terrível ideia de entregar o pai nas mãos do carrasco, provocaram em Diana uma horrível impressão.
Ela fechou os olhos e, tremendo, se encostou na janela.
Briand, de coração palpitante e ansioso, a seguia.
Tinha posto tudo em jogo... ter-se-ia ele enganado com a generosidade de sua esposa?
Seu ódio sacrificaria a cabeça do pai?!
— Conde de Saurmont!...
Eu vou me calar - murmurou Diana apertando ambas as mãos no peito estrangulado.
Cortarei o cabelo para que tenha certeza de que nunca vou me ligar a nenhum homem.
Apenas me permita ir embora...
Briand balançou negativamente a cabeça.
— Você não me entendeu, Diana, se considera a possibilidade de algum meio que a livre de mim!
Perdê-la para mim é pior que a morte!
Resolva: ou fica aqui como minha esposa ou a envio ao Louvre, ao Rei!
O rosto dela se cobriu de palidez mortal; em verdade em sua alma se passava amaríssima luta pela emoção demonstrada.
— Então?... então, minha senhora?
Estou esperando suas ordens.
Vamos ou ficaremos aqui resignados?
Perguntou o Conde com a voz abafada pela emoção.
— Fico... - murmurou ela, pálida como um papel.
Ela não demonstrou a mínima resistência quando Briand a puxou para seus braços e a beijou ardentemente.
Diana suspirou profundamente e abaixou a cabeça lentamente no peito do Conde.
Ele estremeceu.
Somente agora ele notara que ela tinha desmaiado.
Levaram Diana para a cama e imediatamente foram enviados mensageiros para trazer médicos.
Todos eles, unanimemente, disseram ser a doença muito perigosa e previam um final mortal.
Briand ficou fora de si!
No limiar de sua felicidade a morte iria lhe roubar o ser tão querido?!...
Tomando conhecimento de que o ilustre Ambrósio Pare se encontrava em Angers, o Conde conseguiu por enorme soma que ele viesse ver Diana.
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