Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 7:55 pm

— Desculpe, senhorita, tenho direito e o utilizarei.
O bebé haverá de sumir assim que venha ao mundo.
Diana cambaleou e levou as duas mãos à cabeça.
Briand lembrou da condição dela e, pensando que fosse cair, fez um rápido movimento para segurá-la mas a moça pulou para trás, como se houvesse encostado em uma serpente.
— Não me toque, carrasco de minha vida e de minha felicidade!
Sua vontade será feita!
Saia e me livre de sua presença desagradável! - gritou ela com voz entrecortada.
Erguendo os braços ao crucifixo acrescentou:
— Clamo a Deus que é testemunha de minha vida arrasada, Ele haverá de fazer justiça!
— Ouça... - começou Briand.
A jovem, porém, tomada por uma ataque de raiva, tirou da gaveta um punhal, daqueles que eram carregados, pelas mulheres da nobreza e gritou, lançando-se ao marido:
— Saia, desgraçado, ou hoje terminarei aquilo que outrora não consegui.
Vendo que estava fora de si, Briand saiu, julgando ser naquele momento impossível qualquer explicação.
A vingança não o contentou como desejava.
Sem saber por que, não se sentia satisfeito condigo mesmo e com o resto do mundo.
Caía a noite quando retornou ao castelo.
O Conde se surpreendeu quando lhe comunicaram haver chegado uma carta do convento onde Clemência era abadessa, mas não pôde ser entregue pois a Condessa havia ordenado que em hipótese nenhuma, fosse qual fosse o motivo, deviam incomodá-la.
Tomou a carta e se dirigiu ao quarto da esposa, onde nada se ouvia.
— Diana! - chamou algumas vezes sem contudo receber resposta.
- Senhor! Será que se suicidou?! - murmurou o Conde, acendendo rapidamente uma vela de cera.
Quando constatou que ela não se encontrava no quarto e que havia trocado de roupa, pois o penhoar estava sobre a mesa, o pressentimento do Conde se transformou em certeza.
Com voz alterada chamou Gabriela e Manon, todavia estas de nada sabiam.
A porta do banheiro estava trancada e não tinham entrado no aposento.
Temiam incomodá-la, uma vez que haviam sido proibidas de procurá-la.
Desesperado, Briand mandou revistar todo castelo e o jardim, no entanto as buscas foram infrutíferas.
Muito mal humorado, o Conde se trancou no dormitório.
Acusava-se com amargura pela sua rudeza e por não haver previsto a fuga.
Onde ela poderia estar?
Que consequências poderia acarretar esta fuga para uma mulher doente e delicada, perdida em algum lugar lá fora, nessa noite fria e cinzenta de setembro?
Na manhã imediata foi feita uma busca ainda mais acurada.
Revistaram toda a redondeza, procuraram em Angers e até no convento, mas sem resultado.
Ninguém viu Diana.
A moça desapareceu.
É difícil descrever o estado de espírito de Briand nesses dias pesarosos, quando, com os nervos extenuados de cansaço, voltava ao seu castelo, que agora estava vazio para ele.
Nem por um minuto encontrou sossego.
Cada ruído, cada ranger de porta lhe chamavam atenção.
A consciência do Conde estava atormentada.
Depois foi dominado pela raiva de si próprio, e se perguntava: por que se lastimar por uma mulher que sempre o desprezara e odiara?
Porém, ao mesmo tempo, estava preso a ela, a imagem daquele rosto encantador que o acalmava.
Precisava saber que ela estava com ele, em seu poder.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 7:55 pm

Se estivesse viva a encontraria.
Cerca de dez dias depois dos acontecimentos descritos, por um sombrio caminho que conduzia ao castelo de Marillac se movia um discreto grupo composto por três mulas e duas pessoas.
Dois animais estavam sobrecarregados de bagagem e o terceiro levava uma mulher coberta por luxuosa capa.
Um camponês era o guia.
A viajante era jovem e ainda bela, porém eram visíveis no rosto as marcas de uma vida desregrada.
Não era fácil reconhecer a atraente e brilhante Viscondessa de Beauchamp, sobretudo nesse momento, quando estava imersa em maus pensamentos e com tristeza olhava para o caminho.
Apesar disso, era ela.
Com o coração angustiado se dirigia ao irmão para lhe rogar abrigo e protecção.
Uma desgraça havia ocorrido à bela Marion.
Seu último amante, o Senhor de Novel, a mandou embora após saber que ela dividia sua benevolência entre ele e um gascão palaciano.
Este era sustentado por Marion com os meios de Novel, dotando-o de roupas, armas e até cavalos.
A separação se deu com escândalo e Marion não encontrou outro adorador para lhe satisfazer os gastos.
Sem saber o que fazer, vendeu parte de suas jóias e foi para Angers.
Sabia que Aimé era rude com mulheres de seu género, mas, sendo a única irmã, pensou, não teria coragem de abandoná-la.
O Marquês havia retornado da caçada matinal e tinha acabado de tomar o café da manhã quando lhe anunciaram a chegada da irmã.
Enrubesceu, mas antes que pudesse responder algo, Marion entrou rapidamente.
Após estender a bela mão ao irmão, disse em tom suplicante:
— Perdoe-me, Aimé! Abrigue-me!
Com o espírito infeliz e arrasado, regresso ao meu único parente...
O Marquês deu um passo para trás e franziu os cenhos.
— Não retorna um pouco tarde, senhora, à respeitável casa que a viu nascer?
Para uma "courtisane " sem pudor, que envergonhou nosso antigo nome, não há lugar sob este tecto.
— Aimé! Guardar rancor de sua única irmã!
Se você me expulsar, vou morrer pelo caminho de fome e frio! - murmurou Marion pálida.
— Não tenho irmã.
Para mim ela morreu no dia em que, por um bilhete covarde, pedia ao amante para matar o marido.
Saia, senhora!
Detesto mulheres de sua espécie e não tenho a menor pena.
Ande, ande! E se utilize novamente do ofício que lhe deu de comer até agora - respondeu o Marquês em tom de rude caçoada, apontando-lhe a porta.
A Viscondessa se retirou a passos cambaleantes, montou na mula e deixou o castelo.
Em um ponto do bosque onde o caminho bifurcava, sentou-se sob um carvalho e começou a chorar.
Não sabia o que fazer.
Suas reservas estavam no fim e além de umas poucas roupas, nada mais possuía.
Poderia subsistir ainda algumas semanas com este triste resto de riqueza?
De repente lembrou seu marido René que se restabelecia do ferimento e havia retornado ao castelo em Anjou.
Ele seria caridoso para com ela?
Pode ser que ele, doente e fraco, a perdoasse, lhe desse refúgio e um lugar de enfermeira...
Animada pela esperança, subiu na montaria rapidamente e adentrou o bosque.
No entanto, antes de encontrar o marido, resolveu visitar o guarda da floresta cuja esposa era sua irmã de leite.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 7:55 pm

Ali ela descansaria e ficaria sabendo tudo o que desejava.
Segundo havia previsto, a boa Madalena recebeu com os braços abertos sua irmã de leite e antiga senhora.
A bondosa mulher acreditou em tudo o que Marion lhe disse.
Lamentou a imerecida sorte da Viscondessa e não duvidou de que, assim que se esclarecesse o mal entendido que o fez se separar da esposa, René a receberia de volta.
Só que Madalena de nada sabia do que acontecia no castelo.
Não obstante, o irmão caçula de seu esposo viria visitá-los e, como ele trabalhava junto a René, como ajudante de roupeiro, poderia colocá-los a par das novidades.
Quando seu cunhado chegou, Madalena o apresentou à visita.
Embaraçado com a altiva empáfia de Marion, o moço titubeando um pouco, contou que no castelo havia uma hóspede que era escondida de todos.
A hóspede era a Condessa de Saurmont.
Quinze dias atrás o Marquês de Marillac a apanhou desmaiada na estrada e a trouxe ao castelo enrolada em sua capa.
A moça foi colocada no quarto em que há alguns anos atrás havia sido arrumado para o casamento que não se realizou.
António Gilberto cuidava dela, já que - diziam - estava gravemente enferma.
René proibiu com ênfase a todos do castelo que falassem a quem quer que fosse sobre a presença de Diana, cujo marido a procurava por todo país como um louco.
Após receber estas inesperadas notícias, Marion franziu a testa.
Sabia do relacionamento amoroso entre René e Diana e do escândalo terminado com a tentativa de assassinato do indiscreto amante, caso comentado por toda cidade.
Uma vez que a Condessa se encontrava com seu amante, Marion não tinha a menor chance de ser recebida e de novo a rua a esperava.
A Viscondessa chorou a noite toda, sem conseguir dormir.
Mas, de súbito, um plano surgiu em seu cérebro inventivo.
Saurmont procurava a mulher por todo lugar.
É claro que seria agradecido àquele que lhe indicasse onde ela se encontrava; e, quem sabe, talvez o marido abandonado se consolasse com um novo amor, o qual já havia pensado antes em lhe ofertar.
Resolveu tentar.
Vestiu um traje de amazona e dissimulou sob o rouge as pequenas insuficiências de sua beleza, marcas da vida tumultuada.
Assim preparada, dirigiu-se ao castelo de Saurmont.
Chegou irritada por ser obrigada a utilizar uma modesta mula, ao invés de um soberbo cavalo, mas era preciso se resignar.
Retornando da busca inútil, Briand, emburrado e preocupado andava pelo quarto quando lhe comunicaram que uma certa dama desejava conversar urgentemente sobre importante assunto.
Surpreso, o Conde mandou que a recebessem.
Maior foi sua surpresa quando viu a Sra. Beauchamp.
Esta, após se inclinar em reverência, pediu uma audiência a sós, pois queria dar uma importante informação.
Briand a conduziu ao seu gabinete.
Dizendo com cortesia que se sentasse, perguntou o que a havia trazido.
O Conde era perscrutador ao extremo para não adivinhar quais eram as lamentáveis circunstâncias que traziam a Viscondessa a Angers.
Contudo, esqueceu suas razões e irreverências, quando soube estar Diana escondida no castelo de Beauchamp.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 7:55 pm

Ao pensar que sua esposa se encontrava em poder do amante, o Conde se enfureceu, transformando sua paixão em ódio.
Na hora teve ganas de ir ao castelo de Beauchamp e apunhalar os dois.
Mas, pouco depois, começou a raciocinar.
Era arriscado atravessar a soleira do homem que ele havia tentado matar e que podia facilmente empregar a força para se vingar.
Arriscar a vida por uma traidora mal agradecida era uma insanidade.
Encontraria outra maneira de ajustar contas.
O Conde passou a mão no queixo e se endireitou.
Nesse minuto seu olhar se fixou em Marion.
Esta, discretamente e em silêncio, o observava com terna simpatia.
Imediatamente o Conde teve a ideia de se separar e se consolar com esta mulher provocante, se possível com muita propaganda.
Marillac e René ficariam irritadíssimos por serem envergonhados publicamente por uma parente tão próxima.
Reprimindo sua raiva, ele agradeceu amavelmente e, de maneira gentil, lhe fez várias perguntas.
Condenando profundamente a crueldade do Marquês, o Conde propôs a Marion se hospedar no castelo pelo tempo que quisesse.
Ela, com gratidão, aceitou o convite, chorando amargurada seu infeliz destino.
E nessa mesma noite se instalou no castelo de Saurmont, no quarto de Diana.
Nem é preciso dizer que os corações ofendidos das duas vítimas da infidelidade conjugal logo se uniram.
Marion triunfante se fez abertamente a dona da casa, deleitando-se com o luxo e a ordem e aparecendo com o Conde por onde fosse.
Quando a notícia dessa união chegou a Marillac, este ficou furibundo.
Ainda que o Marquês houvesse renegado a irmã, o relacionamento dela na própria província o desgostava muitíssimo.
Maus pensamentos começaram a surgir na mente do cruel Marquês.
O entusiasmo de Briand não durou muito; a ideia de que Diana estivesse com Beauchamp o torturava, envenenando qualquer alegria sua.
Cada vez com mais frequência tratava mal Marion, pensando em rever a esposa.
O Barão d'Armi passava quase todo o tempo com o Conde, mas nem pensava em ir atrás da filha.
Certa vez contou a Saurmont que havia visto seu antigo criado, Henrique.
Pelo visto se encontrava em má situação, já que ele e seu acompanhante estavam em farrapos, autênticos mendigos.
Esta notícia eletrizou o Conde.
Henrique era exactamente o que precisava.
Para se conciliar com ele e ter certeza de sua colaboração, era necessário apenas dinheiro.
No dia imediato Briand se dirigiu a Angers.
Em uma pensão mantida por ciganos e gente suspeita, veio a saber que Henrique estava usando pseudónimo de Vampiro.
Comandava a tribo que naquele momento estava acampada no bosque do Visconde de Beauchamp.
O acerto foi muito difícil no início, porém, como o Conde não regateava, rapidamente chegaram a um acordo.
O cigano prometeu raptar Diana antes de quinze dias.
Passados dez dias, Henrique radiante comunicou que o mais difícil fora feito; conseguiu travar conhecimento com alguns servidores do castelo e ficou sabendo qual era o quarto de Diana.
Agora faltava apenas fazer o plano do rapto e os últimos preparativos.
O cigano considerava a captura coisa fácil, visto que o quarto da moça ficava na lateral e dava para o fosso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 7:56 pm

Na noite do rapto, Briand não conseguiu pegar no sono.
Logo cedo ele dispensou Marion e sentou junto à janela, esperando angustiado o sinal que deveria anunciar o sucesso de seu ousado plano.
Horas se passaram e o sinal tão impacientemente aguardado não foi ouvido.
Tudo era silêncio.
Despontava a aurora, quando Briand quebrado pelo cansaço e nervosismo, se estirou na cama para descansar um pouco.
Mas o Conde não pôde fechar os olhos.
Os mais diversos pensamentos lhe vinham à cabeça.
Por que Henrique não havia voltado?
Ele próprio disse que avisaria rapidamente se ocorresse algum contratempo.
Não estando em condições de superar sua impaciência, ordenou preparar o cavalo e a toda brida correu para o acampamento cigano - talvez lá soubesse algo.
Chegando à clareira, onde ainda no dia anterior, haviam cabanas e tendas armadas, o Conde viu que o acampamento se preparava para partir.
As fogueiras estavam sendo apagadas, os furgões carregados e atrelados, e as pessoas em silêncio iam e vinham ao redor dos carros esperando algo com visível intranquilidade.
— Nem os líderes, nem os outros integrantes da expedição retornaram do castelo Beauchamp.
Não temos nenhuma notícia deles - respondeu com má vontade um dos chefes.
O Conde desceu do cavalo e sentou num tronco de árvore depois de resolver esperar.
Mais de uma hora se passou em silêncio.
De repente alguém apareceu correndo na clareira - estava muitíssimo cansado, ofegante, as pernas cambaleantes e o rosto com péssima expressão.
Caminhou vacilante na direcção do carro e caiu.
Pessoas se reuniram em torno do recém chegado e molharam seu peito e a cabeça com água fria.
Em poucos minutos voltou a si e levantou.
— Corram! Corram! - gritou ele com voz rouca e olhar desnorteado.
Vampiro e os outros foram capturados... sou o único que conseguiu fugir...
Como se fosse atingido por um forte golpe, Briand começou a oscilar e ficou pálido, tendo que se apoiar na árvore.
Se Henrique havia sido preso, então para ele estava tudo acabado.
Que desgraça!
Sendo um ladrão tão hábil como deixou que o apanhassem?
Precisava saber detalhes.
Com sua habitual obstinação se aproximou do velho cigano e disse, colocando na mão dele valiosas moedas:
— Quero saber desse homem os pormenores da captura de Vampiro e seus companheiros.
— Diga, Djalil!
Conte rapidamente tudo o que você sabe - ordenou o velho cigano.
— Aconteceu assim:
no início tudo corria bem.
Vampiro e Gara entraram pela janela e nós já os ouvíamos retornando.
Logo Gara deu o sinal.
De repente se ouviu um tiro, depois outro.
Vimos Gara sair pela janela e começar a descer pela corda, quando de súbito esta se rompeu - ou foi cortada - e Gara caiu no fosso.
Dois dos nossos correram para ajudá-lo, mas todo o castelo estava de pé.
Tínhamos de fugir.
Depois de apanhar Gara e outros dois, atiraram em nós, e Geraldo e Tonia tombaram feridos.
Sozinho, cheguei à floresta e subi em uma árvore.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 7:56 pm

Fiquei lá até que a situação se acalmasse; queria saber o que aconteceu com Vampiro e os nossos, e se haveria uma forma de libertá-los.
Assim, antes do raiar do sol desci e me infiltrei entre as pessoas.
Fiz um sinal e a pequena Suzana, amiga de Gara veio até mim.
Com lágrimas nos olhos me contou que Gara, ao cair quebrou a mão e a perna.
Todos haviam sido capturados, uns menos, outros mais feridos, com gravidade.
Estando de serviço no quarto vizinho ao da moça, o médico surpreendeu Henrique no momento em que se preparava para descer com ela através da janela.
Depois, contou a pequena, ele foi levado ao sacerdote que casualmente se encontrava no castelo.
Na presença do padre, do Sr. Beauchamp e do Sr. Marillac, Vampiro fez um longo e substancial relato.
O que disse?
Ele não sabia mas ouviu que logo ao amanhecer o próprio Marquês iria à Promotoria Real em Angers entregar os prisioneiros.
O cigano silenciou, mas Briand já sabia o bastante.
Sem perder um minuto, subiu no cavalo e a toda velocidade regressou ao castelo.
Seu coração palpitava com profunda ansiedade.
Mil pensamentos contraditórios lhe passavam pela mente, e logo começou a suar frio.
Desta vez Némesis o acertou.
O crime do passado, que havia sido tão bem escondido, agora reaparecia para se vingar por Diana e lhe dar a inexorável sentença da Lei.
Um furor desesperado tomou o orgulhoso senhor ao pensar que o esperavam a vergonha e a degradação.
O sentido inato de auto-conservação despertou seu ardor obstinado para procurar uma forma de se salvar.
A própria dimensão do perigo elevou a capacidade de raciocínio do Conde.
Subitamente, em meio ao caos, surgiu uma ideia de salvação; o plano era ousado em demasia, no entanto, o que fazer?
Ele podia arriscar, jogar as cartas uma vez que não tinha nada a perder pois a morte o aguardava.
Apesar de tudo, a esperança de se livrar deu a Saurmont um pouco de calma e ânimo.
Além duma ligeira palidez, nada indicava seu nervosismo quando, tranquilo e altivo, desceu do cavalo.
Trancando-se em seu quarto, ele rapidamente preparou todo o indispensável para a realização do seu perigoso plano.
Colocou no porta-jóias o ouro e algumas pedras preciosas muito valiosas e os escondeu no armário secreto.
Feito isso, de um outro esconderijo ele carregou um grande cofre com sacos de ouro, num valor aproximado de cinquenta mil escudos.
Por fim. tirou do armário e colocou no bolso dois pequenos frascos, um com rolha dourada, outro prateada.
Terminando esses preparativos, o Conde foi ao quarto de d'Armi.
O Barão havia acabado de levantar e fazia o desjejum com gosto.
Ao olhar para Briand imediatamente compreendeu que alguma coisa muito importante havia acontecido.
Quando soube da infelicidade que ocorrera, o garfo e a faca caíram de suas mãos.
— Meu Deus!... irão matá-lo, Briand! - murmurou ele tremendo.
— Ainda não, se me ajudar e for fiel! - respondeu o Conde em tom sério.
Agora me ouça, já que não podemos perder tempo.
Considero desnecessário dizer que o recompensarei generosamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 7:56 pm

Se não quero ser decapitado, devo morrer e morrerei, só que aparentemente.
Tenho uma substância narcótica - tirou do bolso um dos frascos - que por quarenta e oito horas me dará o aspecto de um homem morto.
Algumas gotas vertidas no vinho farão com que todos pensem estar eu morto.
Quando o Procurador Geral chegar e encontrar um cadáver, a acusação não encontrará réu, e o antigo nome de Saurmont continuará imaculado, visto não se poder processar um morto.
Assim você poderá me enterrar com todas as honras no jazigo de minha família.
Debaixo da almofada, dentro do caixão, você irá colocar o porta-jóias de madeira preta com incrustações que se encontra no armário secreto em meu gabinete.
Seu apego e pesar serão tão grandes que você deixará meu corpo somente quando fecharem meu ataúde a chave.
À noite você virá abrir o caixão em segredo e trará consigo uma batina de monge e uma barba grisalha postiça.
Depois de me trocar, fugirei directamente para o sul, até uma aldeia nos Pirineus, onde vive um pobre e necessitado representante do nome de Saurmont.
Ele é descendente do irmão caçula de meu avô.
As circunstâncias do destino que são complicadas para serem narradas agora, obrigaram-no a se instalar nesse país; a este homem doente e tolo me dirigirei; por uma soma conveniente comprarei seu nome e documentos.
Sem desconfiar da herança que está perdendo ele trocará com prazer seus documentos em utilidade por uma discreta abastança.
Então voltarei como Eustáquio Felipe Saurmont e exigirei meu direito à herança de meu falecido primo Briand, afastando todas as pretensões de Diana e seu filho, em vista do escandaloso adultério da Condessa.
Deu para compreender?
— Claro, claro, meu caro Briand!
Você é simplesmente genial!
Cumprirei fielmente as instruções - disse em voz alta e com satisfação d'Armi.
— Não poupe esforços.
Deixando o túmulo eu lhe darei uma boa soma.
Quando regressar para exigir a herança, meu notário apresentará testamento determinando aos herdeiros do Conde Briand que dêem ao Barão d'Armi cinquenta mil escudos.
Como vê é de seu interesse que eu me salve.
E agora até a vista!
O tempo voa!
Voltando a seu quarto, o Conde verteu no copo de vinho a quantidade necessária de narcótico, que o fez estremecer ao tomá-lo.
A seguir, no que sobrou colocou veneno e escondeu os dois frascos no armário secreto.
Uma hora depois um criado entrou no gabinete do Conde e viu seu senhor estendido, frio e imóvel no chão.
Todo castelo ficou em completa polvorosa.
d'Armi chegou correndo.
Nenhuma das tentativas para fazer o Conde voltar a si deu resultado e o deram como morto.
O Barão, mostrando o mais profundo desespero, parecia desnorteado.
d'Armi molhou um pedaço de pão no copo que estava ao lado do cadáver e o deu a um dos cachorros de Briand; em poucos minutos o animal levantou nervoso e começou a girar pouco depois caindo morto.
Ao ver isso o Barão passou a discutir se seu genro havia cometido suicídio ou se havia sido assassinado.
Outra pessoa no castelo tinha sentido muito a morte de Briand - era Marion.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 7:56 pm

O luxo e a boa vida que ela considerava garantidos por muitos anos inesperadamente acabaram.
Além disso os herdeiros do Conde poderiam exigir dela a entrega das jóias das quais ela dispunha, como se fossem suas.
Assim que essa ameaça veio à mente da Viscondessa, enxugou as lágrimas, foi ao seu quarto e rapidamente começou a se preparar para fugir.
Roupas caras às quais juntou os melhores vestidos do guarda-roupa de Diana e valiosíssimas jóias com o brasão de Saurmont foram colocados na bagagem.
Também levou dois excelentes cavalos - um para si e outro para seu criado.
Ela já descia as escadas para partir quando, no pátio do castelo, adentrou numerosa cavalaria.
À frente do grupo de soldados vinha o Marquês de Marillac e o preboste(91) de Angers.
Ao ver o irmão, Marion parou como se fosse paralisada.
Nesse instante o Marquês pulou no chão e, admirado, viu os animais carregados que se punham a caminho; notou a irmã e seu rosto ficou vermelho, contraindo-se de pudor.
— Ah!... criatura desprezível!
Você fugindo daqui... vou mandá-la para o inferno!
Juro por Deus que você não espalhará mais tanta vergonha!
Morra, desonra de nosso nome!...
Antes que alguém pudesse adivinhar sua intenção, o Marquês se atirou sobre a Viscondessa e cravou o punhal no peito dela.
Marion deu um grito horrível e caiu banhada em sangue.
Rolou por uns momentos pela laje de pedra, estendeu um braço e depois ficou imóvel.
— Senhor! O que fez, "monsieur"?! - gritou assustado o preboste.
— Somente aquilo a que tinha direito e que era meu dever - respondeu com arrogância Aimé.
Como chefe da Casa dos Marillac e guardião de sua honra, julguei e condenei um membro indigno, que manchou dois nomes ilustres.
Para tranquilizar sua consciência de juiz, eu lhe provarei que esta mulher tentou assassinar o esposo.
Só a alma grandiosa de meu cunhado a livrou da Praça de Greve.
O preboste nada respondeu; a justiça selvagem daquela época habituou as pessoas aos desenlaces sangrentos.
O poder do chefe de família nos problemas de honra era indiscutível.
Aliás, o fim trágico de Marion foi esquecido quando o magistrado soube da morte de Briand.
O veneno encontrado confirmou a suspeita de que durante a volta matinal o Conde ficara sabendo da captura de Henrique.
Ao compreender que para ele havia chegado a hora da justiça, o próprio Saurmont colocou um ponto final em sua vida criminosa.
— Sr. preboste!
Será que vai levar adiante um processo contra um morto? - perguntou pálido e desanimado d'Armi.
Culpado ou não, ele mesmo se julgou.
O cigano, conhecido bandido, e sua mulher grávida foram seus acusadores.
Será que não existe possibilidade de livrar da humilhação um nome tão digno e que por tanto tempo serviu ao bem de nossa província?
O preboste olhou indeciso para o Marquês que com olhar carrancudo e pensativo examinava o corpo de Briand estendido sobre um banco.
— Desta vez concordo com o Sr. Barão, - respondeu ele.
A justiça foi feita e o criminoso se encontra diante do Juiz dos Juízes.
Apareci aqui para presenciar a captura de um miserável que infelizmente ostenta um antigo nome, que impecavelmente leva tanta gente.
Acho que devemos ir e deixar o Barão d'Armi enterrar seu genro.
Após breve entendimento, o preboste colocou o sinete nos armários e no caixão do falecido e retornou à cidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 7:56 pm

D'Armi assumiu a responsabilidade pela direcção dos negócios e conservação do património de Briand, até que aparecesse algum herdeiro.
Na manhã seguinte, rapidamente e sem qualquer pompa, foi realizado o enterro do Conde.
Seu ataúde foi colocado no jazigo da família.
Algum tempo depois, cuja duração não podemos determinar, Briand despertou.
No primeiro minuto não adivinhou que lugar escuro e de ar pesado era aquele onde estava.
Maquinalmente levantou a mão e encontrou um obstáculo.
Depois quis levantar mas não conseguiu.
Repentinamente lembrou estar em um caixão.
Começou a suar frio.
Se d'Armi tivesse esquecido suas instruções, se tivesse despertado muito antes da hora de ser solto, ou, se o Barão, por um motivo qualquer resolvesse se livrar dele... morreria!...
Ao pensar nisso sentiu que o ar lhe faltou.
Reuniu todas as forças das quais eram capazes seus membros desesperados e, com a ajuda dos braços e do ombro, tentou erguer a tampa do caixão.
Para grande alívio a tampa cedeu a seu esforço.
O ar fresco e húmido do jazigo lhe veio ao rosto.
Com cuidado para não derrubar a tampa e fazer barulho, o Conde saiu do ataúde e desceu pelos degraus de pedra do cadafalso.
Percebeu que o jazigo não estava completamente escuro como pensara inicialmente.
A lâmpada que ainda ardia diante do crucifixo do altar de pedra iluminava tanto que podia examinar o local ao redor.
Deu alguns passos cambaleantes e sentiu terrível fraqueza - suas pernas fraquejaram.
Tremendo muito de frio, soltou o corpo nos degraus do altar.
Sentiu o coração oprimido.
Nessa casa de mortos ele era o único vivo.
Por todos os lados, nos cantos mais escondidos e fundos, via somente as tumbas de seus antepassados; sob sumptuosos enfeites, mármores e lápides de bronze, silenciosamente dormiam o sono profundo.
Sozinho, tremia na sua elegante roupa que não era capaz de abrigá-lo do frio penetrante daquela noite de outubro.
Briand com esforço levantou e começou a andar para se aquecer, mas devido à fraqueza caiu de joelhos, amparado pela abóbada.
— Como d'Armi está demorando! - pensou ele impaciente, enquanto seu olhar confuso e irresoluto se dirigia ao escuro espaço desse lugar tenebroso onde tinha de permanecer.
Maus pensamentos o assediaram.
Com uma clareza que o torturava, lembrou passo a passo a situação que o forçou a recorrer a tal meio para escapar à justiça dos homens.
Agora estava morto, riscado do mundo dos vivos e, voluntariamente, havia aberto mão de todos os direitos pertencentes a Briand de Saurmont!
Havia deixado a riqueza, os conhecidos e até a esposa...
A recordação de Diana o queimou como um fogo em brasa!
Sua morte a fez livre e, é claro, a uma mulher bonita e atraente não faltariam pretendentes... um suspiro saiu do fundo de seu peito e ele, com as duas mãos, segurou a cabeça.
Sentia como se fosse morrer sufocado de ciúmes.
Era a segunda vez que o destino fatídico o obrigava a conceder a liberdade da viuvez à mulher que tão apaixonadamente queria.
Nesse momento um forte estalo fez o Conde levantar.
Seu olhar amedrontado sondou as trevas - que barulho era esse?
Algum antepassado seu havia se levantado para julgar seu descendente indigno, um assassino?...
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 7:57 pm

Todos os representantes do nome da família deixaram lembrança sem nódoa; e ele?
Nunca havia sentido tão amargamente seu passado criminoso!
— Estou doente... minha imaginação está sob o efeito da fome e do cansaço, - pensou ele passando a mão na testa e tentando reprimir o assédio de suas estranhas sensações.
Parecia que uma bruma sufocante, aguda, sulfurosa, lhe tirava a respiração, enquanto que um frio gelado estremecia cada fibra de seu corpo.
De repente diante de seus olhos aterrorizados, do fundo do jazigo surgiu uma trémula luz verde.
Ampliando-se pouco a pouco iluminou com nitidez uma alta figura e as armas cintilantes de um cavaleiro agrilhoado numa armadura.
A viseira levantada permitia ver o nobre e sério rosto e sua barba grisalha.
O Conde o reconheceu no mesmo instante; era o cavaleiro do quadro original que estava no salão dos antepassados, retrato do primeiro Conde de Saurmont.
Atrás dele, iluminados pela luz verde, em carne e osso, caminhava um cortejo composto de pessoas vestidas em ricos trajes.
Eram roupas características de cada período do reinado francês, iniciando com o reino de Ludovico, o Iluminado e terminando com o de Henrique II.
Eram todos conhecidos do Conde pela galeria de retratos, representantes da família em épocas passadas.
Briand ficou petrificado e permaneceu em pé, imóvel.
Não conseguia tirar os olhos destes estranhos e impressionantes personagens.
Então, de súbito, em seus ouvidos, como um trovão distante, ecoou a voz do velho cavaleiro:
— Assassino! Impostor!
Indignamente ostentas um nome irrepreensível, legado pelos antepassados!
As mãos do fantasma se estenderam até a corrente de ouro pendente no pescoço de Briand.
Esta corrente havia sido usada por cada membro da família e era uma herança de alto valor, conferida por Ludovico, o Iluminado.
— Devolve a corrente!
Não és digno de carregá-la, prosseguiu com voz estridente o fantasma.
Briand sentiu forte abalo; depois sentiu no rosto o contacto das luvas de ferro geladas e uma forte dor na cabeça.
Tudo ao seu redor tremia, assobiava e parecia estar prestes a ruir sob grande força.
A cabeça do Conde começou a girar e ele, aturdido, desmaiou sobre as lajes de pedra.
Fortes dores e uma voz falando alto acordaram Saurmont.
Abriu os olhos e viu d'Armi segurando na mão um lampião, cuja luz incidia directamente em seu rosto.
O Barão o sacudiu energicamente, gritando e dizendo impropérios como um pagão.
— "Sacrebleu"! Finalmente você voltou a si!
Disse ele soltando o braço de Briand.
Por mil trovões e demónios!
Com quem esteve se esfolando, meu caro amigo?
Não com os antepassados, espero eu?
Ou você caiu?
Está todo ensanguentado e sua corrente quebrada... que significa isso?
Briand levantou com dificuldade.
A forte dor na cabeça e os pedaços da corrente espalhados pelo chão o fizeram lembrar a estranha e apavorante visão.
Ele estremeceu e fechou os olhos.
— Ora! Não desmaie de novo!
Tome este lenço húmido e limpe seu rosto manchado de sangue.
— O que há no meu rosto? - perguntou preocupado o Conde.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:11 pm

— Hum... agora, depois que você limpou, vejo que não há ferimento algum, mas o nariz está quebrado.
Também na bochecha há uma mancha bem evidente como se houvesse sido carimbada por dedos bem grandes.
Ha! Ha! Ha! rindo, o Barão interrompeu a si mesmo.
Espero que Lourença não tenha estado aqui!
Briand, com estas marcas no rosto você não poderá viajar.
Um homem da Igreja com estas marcas irá despertar a desconfiança das pessoas.
— O que farei se não posso aparecer em lugar nenhum? - murmurou Briand.
— Não precisa ficar desesperado por causa disso.
Venha comigo. Vou escondê-lo até essa mancha sumir.
Agora coloque a máscara, a capa e vamos nos pôr a caminho.
Atrás do muro há dois cavalos.
A noite está escura e o seu pessoal celebra com um jantar a memória do falecido, assim podemos sair sem qualquer problema.
Angustiado, com o coração deprimido, Briand desceu do jazigo.
Em silêncio passaram pelo jardim e por uma portinhola escondida saíram no matagal onde se encontravam os cavalos.
Passadas duas horas, Briand, sem que ninguém percebesse, entrou no quarto da Sra. d'Armi, vindo por uma escada secreta.
Ela o recebeu amavelmente, procurando confortá-lo.
Mais tarde, depois do jantar, instalaram o Conde no antigo quarto de Diana.
Com o corpo e a alma extenuados Briand adormeceu num pesado e febril sono.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:11 pm

VII. PRISIONEIRO ANSIOSO

De péssimo humor e tomado pelo rancor, ira e impaciência, Briand vivia cativo no castelo d'Armi.
A princípio não conseguiu remover a estranha e forte marca no rosto com nenhum tipo de tratamento.
A imobilidade a qual estava condenado e o ciúme que o torturava - quando pensava em Diana - pioravam seu estado de saúde.
Debalde atormentou o Barão exigindo que fosse ao castelo de Beauchamp se encontrar com a filha.
D'Armi, no entanto, se negou teimosamente.
Além disso o Barão torceu o pé enquanto caçava e procurava não sair de casa.
Briand, porém, era insistente e conhecia a maneira de quebrar a teimosia do Barão.
Uma gorda quantia sempre acabava com qualquer peso de consciência.
Nessa manhã maravilhosa, reclamando e amaldiçoando, d'Armi foi ao castelo de Beauchamp.
Quando o Barão voltou, seu aspecto abatido e triste imediatamente fez o Conde compreender que ele vinha trazendo notícias desagradáveis.
Mas Briand ficou paralisado quando d'Armi lhe contou sua visita.
Após uma solene comunicação de que ele era o pai da Condessa de Saurmont, conduziram-no à sala do andar inferior e o deixaram sozinho.
Depois de muito esperar, apareceu por fim um criado que comunicou, em nome do Visconde, ser impossível permitir que visse sua esposa, já que a Condessa ainda não havia se recuperado do parto.
Além disso, René pediu a d'Armi não mais retornar, pois a Viscondessa não desejava vê-lo.
Mas Briand ficou paralisado quando d’Armi lhe contou sua visita.
Após uma solene comunicação de que ele era o pai da Condessa de Saurmont, conduziram-no à sala do andar inferior e o deixaram sozinho.
Depois de muito esperar, apareceu por fim um criado que comunicou, em nome do Visconde, ser impossível permitir que visse sua esposa, já que a Condessa ainda não havia se recuperado do parto.
Além disso, René pediu a d’Armi não mais retornar, pois a Viscondessa não desejava vê-lo.
Através do criado ficou sabendo que Diana teve um filho, baptizado com o nome do Visconde.
A notícia de que Diana se casara golpeou Briand como um raio e lhe despertou tamanho acesso de desespero e ódio, que seu organismo debilitado não pode resistir à comoção.
O Conde adoeceu gravemente e durante seis semanas sua vida esteve por um fio.
Ao final o corpo moço e forte venceu a doença e gradativamente começou a se restabelecer.
Passaram-se alguns meses e as forças do Conde retornaram, mas enquanto isso ele não tinha podido partir.
D’Armi e a esposa movidos pelo ávido desejo de possuir o porta-jóias cheio de pedras preciosas que Briand havia escondido, tentavam por todos os meios achá-lo.
Não obstante era extremamente importante o Conde aparecer na qualidade de herdeiro, já que à propriedade vieram dois parentes distantes e conseguiram, através do juiz, apresentar seus direitos à rica herança.
Briand compreendeu a urgência de sua partida, mas o desejo incontrolável de ver Diana o levou ao castelo.
Esforçou-se um bom tempo para achar um meio de chegar até a jovem que vivia sozinha e pouco saía de casa.
Morando em casa de d’Armi, sob os cuidados do Barão, ele, por algumas vezes rodeou o castelo de Beauchamp na esperança de encontrar Diana, mas sem obter sucesso.
Depois de muito reflectir arquitectou um plano que tinha oportunidade de ser bem sucedido.
Com o auxílio do Barão João, o Conde conseguiu roupa de um mercador ambulante e uma cesta cheia de tecidos de seda e peças de valor.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:11 pm

Assim disfarçado de tal forma que não poderiam reconhecê-lo, curvado sob o peso da cesta e apoiado numa bengala, Briand se dirigiu certa manhã ao castelo de Beauchamp.
A primavera iniciava, no entanto o tempo ainda era frio e chuvoso.
As estradas estavam alagadas e o ar era húmido.
A humilhante e estafante caminhada obrigou o nobre cavalheiro a tremer de raiva e cansaço.
Suando muito devido ao esforço, chegou finalmente à entrada do castelo, onde alguns homens armados o levaram ao pátio.
A estes soldados também se juntaram os pajens e os criados.
Todos examinavam as mercadorias, e, após terem comprado algumas quinquilharias deixaram o comerciante.
Furioso e desanimado, Briand se preparava para partir, quando de repente os criados respeitosamente deram passagem a um homem alto que se aproximou com um chicote na mão e assobiou uma música de caçador.
Era René.
O coração do Conde bateu forte quando o Visconde parou e perguntou:
— Quem é este homem?
O que tem no cesto?
— ”Monsieur”, é um judeu errante.
Ele vende maravilhosos tecidos de seda e objectos de valor.
René pensou por um minuto passando a mão no bigode.
A seguir, preparando-se para entrar no vestíbulo, disse:
— Loran! Conduza-o ao aposento da Viscondessa.
Quero sugerir a ela que compre alguma coisa.
O coração de Briand batia como nunca.
Dentro de alguns minutos ele poderia ver Diana pessoalmente sentiria se ela era feliz e como se tratavam ela e seu novo marido.
Seguindo o criado, subiu as escadas, passou por vários quartos e corredores e se deteve, por fim, diante de uma porta.
Atrás desta se ouvia a voz do Visconde.
— Chega! Não seja preguiçosa e veja as mercadorias.
Isso a distrairá.
Passado um minuto Briand entrou no grande e ricamente mobiliado quarto.
Ao fundo, numa elevação, estava a cama.
Junto à lareira, sentada em um divã, se encontrava Diana, trajando um vestido de veludo lilás.
O Visconde se sentou ao lado da esposa.
Abraçou-a pela cintura e lhe dirigiu o olhar do mais carinhoso e atento esposo.
Briand parou de chofre; sentiu tamanha dor no coração que por pouco não levou a mão ao peito; por uns instantes esqueceu completamente seu papel.
Superando a dor com esforço sobre-humano, ficou de joelhos e começou a desamarrar os artigos da cesta.
Espalhou maquinalmente os tecidos de seda e começou a mostrar as pedras.
Seus pensamentos estavam longe.
O Visconde examinou tudo de boa vontade, comentando com Diana que permanecia indiferente sobre o valor e o preço das mercadorias.
Alguns objectos graciosos foram colocados de lado, mas, quando a moça disse que gostava de uma peça e um enfeite de turquesa, René fez que não percebeu.
Diana não insistiu e os adornos não foram comprados.
Quando o dinheiro foi pago e Briand reuniu as mercadorias, René ordenou que o conduzissem ao quarto de criados e lhe dessem de comer.
O Conde se inclinou e agradeceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:12 pm

Ao sair do quarto disse não estar com fome e a passos rápidos se dirigiu à saída.
Já se aproximava da porta quando um cavalheiro o alcançou correndo e lhe pediu para entrar no gabinete mais próximo e aguardar.
Apesar da ira, Briand devia acatar se queria representar seu papel até o fim.
Mas qual não foi sua surpresa quando o Visconde veio e comprou o tecido e a peça indicados por Diana.
Na verdade ele queria lhe fazer uma surpresa, pensou o Conde.
Mas no mesmo instante sua suposição foi desfeita, pois Beauchamp embrulhou a compra, e, enquanto o falso comerciante arrumava sua trouxa, chamou um jovem cavaleiro a quem ordenou que levasse imediatamente este pacote ao hotel Silari, em Angers.
Briand se sobressaltou.
A reputação de Helena era bem conhecida para se deduzir que o presente era destinado exactamente a ela.
A própria escolha dos enfeites foi uma afronta a Diana.
Que significava isso?
Com a cabeça zonza, fervendo de ciúmes e desespero, dilacerado por mil sentimentos contraditórios, Saurmont deixou o castelo.
Tinha sido suficiente um pouco para se convencer de que Diana não era feliz.
Tal expressão de sofrimento e amargura ele não tinha visto nela, nem mesmo na pior época de sua vida conjugal... o presente enviado à Sra. Silari lançou uma luz sobre a vida íntima do casal e explicava a tristeza da moça.
Mas como foi que a orgulhosa mulher concordou num casamento tão apressado?
Como ela superava a humilhação ocasionada pela infidelidade do marido?
E ele, Briand, estava morto!
Ele não podia exigir o que lhe pertencia, arrancar sua esposa de uma companhia indigna!
Em essência, não tinha direito algum sobre ela!...
Oh! Como ele se acusou naquele momento pela sua maldade e até mesmo sua crueldade!
Se houvesse sido bom e tivesse aceitado o filho de Diana, continuaria sendo o senhor da situação - o Conde Saurmont!
E não um fugitivo sem nome, que só o túmulo pôde salvar da forca...
Ocupado com seus pensamentos e mergulhado na tempestade de suas emoções, o Conde não prestou atenção ao caminho e adentrou o bosque.
Escondeu sua carga e continuou mata adentro, instintivamente, só voltando a si quando se percebeu dentro de um fosso, com água até a cintura.
Com grande dificuldade saiu desse desagradável banho.
Contudo estava perdido e durante a noite não conseguiu se orientar.
Somente ao nascer do sol, tremendo de frio, voltou ao castelo d’Armi e logo foi dormir.
Apesar da forte comoção, Briand logo se recuperou.
Ele mesmo tinha pressa em ir embora e resolveu se pôr a caminho, assim que voltasse com d’Armi do passeio secreto a São Germano.
O Conde pretendia entrar no castelo por uma entrada subterrânea, sua conhecida, e pegar no armário secreto alguns papéis que haviam sido largados às pressas e lhe eram indispensáveis.
No castelo Beauchamp a vida seguia seu curso, sem trazer mudanças.
René ia perdendo o pudor; suas ausências se prolongavam e ele, cada vez menos, encobria com sua delicadeza fingida a rudeza deslavada no tratamento da esposa.
A própria Diana o evitava, já que ele se tornara repugnante para ela.
Suas melhores horas eram quando sonhava com o passado e via a imagem de Raul.
Este sim, verdadeiro cavalheiro, tanto de alma quanto de origem, passou por sua vida como uma cativante e efémera cena...
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:12 pm

Certa vez, no fim de maio, uns dois meses após a visita do comerciante errante, Diana se encontrava sob forte influência das recordações do passado.
Recebera pela manhã uma carta da Sra. de Montfort a qual dizia ser seu estado precário.
A antiga doença havia minado sua saúde e, repentinamente, tinha se agravado.
Ela pedia a Diana que a visitasse, acrescentando, se possível, vir dentro de uma semana, dado que teria a felicidade de ver seu antigo confessor, o pai de Gabriela, que se havia tornado bispo em Angers.
Percorrendo sua diocese, ele visitaria a Abadia de Santa Úrsula e descansaria ali por dois dias.
Diana resolveu ir e comunicar a viagem ao marido nessa mesma noite.
O Visconde se encontrava por acaso no castelo.
Ao amanhecer saiu, mas logo depois regressou.
Após o café da manhã ele se deitou e ainda ressonava, próximo mesmo da hora do jantar.
Diana estava triste com a doença de Clemência.
Queria se aconselhar com António e lhe pedir fosse com ela à Abadia.
Com esta ideia a moça foi à biblioteca, onde o médico costumava trabalhar nas horas livres.
A biblioteca ocupava grande cómodo, com numerosa colecção de manuscritos e diversos livros reunidos pelo bisavô de René.
O velho gostava de estudar e se interessava pelas ciências ocultas.
António Gilberto, amante como a maioria de seus contemporâneos destes assuntos, tratava de classificar e colocar em ordem a colecção.
O cirurgião não estava lá.
Decidida a esperá-lo, Diana entrou na antecâmara da janela, que formava uma espécie de gabinete, e desceu a pesada cortina.
Ela vinha ali com frequência, pois dali se via panorama maravilhoso.
Podia se ver toda a colina e a jovem se agradava em sonhar ali.
Nesse dia ela também contemplava prazerosa o pôr do sol.
À medida que o crepúsculo vespertino crescia, ela mergulhava mais e mais em seus sonhos e, por fim, estava tão compenetrada neles, que não ouviu quando António chegou, acendeu a luz e se sentou à mesa.
A voz bem conhecida de René a trouxe de volta.
— Ah! Você está aí, António?
Eu o procurava. Quero falar com você.
Diana não se moveu do lugar.
Depois de sonhos tão belos dos quais despertava, não tinha a mínima vontade de falar com o marido.
— Estou ao seu dispor, ”monsieur”.
— O problema é o seguinte, - respondeu o Visconde afastando a cadeira.
Parto amanhã devido a um negócio muito importante e ficarei ausente três ou quatro semanas.
Por isso gostaria que você cuidasse do corte dos carvalhos no bosque enquanto eu estiver fora.
Ademais lhe confio Diana e a criança.
Ficaria tranquilo, eu sei, se você estivesse tomando conta deles.
António empalideceu.
— Sr. René! O senhor vai fazer novamente uma longa viagem e deixar a Viscondessa sozinha?
— Aos diabos! Não posso deixar os negócios para me entreter com a Viscondessa! - gritou René batendo com o punho na mesa.
O Conde Silari me ofereceu uma grande extensão de terra que está a venda por preço irrisório devido a morte do proprietário, seu parente.
Antes de comprar esta propriedade tenho de vê-la, e, se o negócio se realizar, terei de fazer todos os trâmites.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:12 pm

Será que devo perder o negócio para bancar a enfermeira aqui?
Esta pasmaceira não está em meus planos!
O Visconde falou alto e firme, mas seu olhar irado evitou encarar o médico.
— Sr. René! O senhor sempre me tratou bem e com sinceridade me chama de amigo.
Em nome desta amizade e benevolência me desculpe pelo que lhe direi - disse com receio o facultativo.
O senhor se porta mal com Diana.
De boa vontade se casou e ela tem o direito ao seu amor e aos seus cuidados.
Fique com sua maravilhosa e virtuosa esposa, ao invés de abandoná-la e condená-la a uma eterna solidão.
Muitos falam, Sr. René, sobre suas relações amorosas com a nora do Conde Silari e de suas aventuras com este senhor depravado, o qual não é respeitado por um único homem probo.
O Visconde enrubesceu, levantou rápido e começou a andar pelo quarto.
Depois, parando diante do médico, disse com voz alterada.
— Peço que se abstenha de reprovar meus amigos, julgamento para o qual não é competente.
No que se refere a mim, perdoo suas ousadas palavras.
Até mais, admito que seja verdade e que me comporto mal.
Mas por outro lado serei franco e você me compreenderá.
Casei-me com Diana não por amor, longe disso.
Pensei que a honra determinava que eu limpasse o nome dela, comprometida por minha culpa, e legitimasse nosso filho.
Porém logo vi que casando havia cometido um erro colossal!
Em minha vida esse sacrifício superava minhas forças.
Respiro nesta atmosfera de virtude e de fria reserva junto a esta mulher idiota, incompetente até nas verdadeiras delícias do amor.
Ela não se interessa por mim, não me agrada e até já não mais é bonita...
E este fantasma pálido e magro ainda tem a pretensão de me tratar com desprezo, querendo que eu banque o marido amoroso!
Pode ser que Raul de Montfort fosse tão imbecil quanto ela e visse beatitude na solidão sem fim.
Tenho outro temperamento.
Devo respirar em outra atmosfera e conviver na sociedade com mulheres inteligentes e atraentes.
Não tenha dúvida que escondo de Diana tudo o que lhe estou dizendo.
Não quero que ela perceba o quanto me é difícil este sacrifício, mas não posso sair por aí com ela.
O que pensarão de mim?
Que tenho mau gosto?
O que dirão sobre a minha escolha quando virem essa tonta ao ”meu” lado?
Justamente eu que enlouqueço as mulheres mais lindas, arrematou ele rindo.
Seguiu-se um silêncio de morte.
Gilberto foi derrotado pelo cinismo crasso e cruel de seu senhor.
Que poderia responder a este homem desonrado que ofendia e insultava a mulher só para se livrar de qualquer obrigação para com ela, um homem covarde, vingando-se de uma criatura indefesa por não mais suportar seu estranho ”sacrifício”.
E tudo isso porque ela não era pervertida para satisfazer seus gostos.
António não disse uma única palavra, mas talvez a incorruptível voz da consciência tenha sussurrado a René o que dele pensava o médico, dado René se virar e sair.
Já na porta se voltou novamente.
— Diga a minha esposa que irei jantar com ela e lhe peça me esperar.
Quero passear um pouco.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:12 pm

Com estas palavras ele assobiou chamando seus cachorros.
Quando não mais se ouvia o som de seus passos, o cirurgião levou as duas mãos à cabeça e exclamou:
— Senhor! Como fui tão cego todos estes anos? - disse ele abandonando a biblioteca rapidamente.
Assim que António saiu, Diana deixou seu refugio e sem que ninguém percebesse foi a seu quarto.
Ela havia escutado tudo em sua apurada audição.
Não se moveu ao ouvir o julgamento impiedoso e injusto daquele que devia ser seu amigo e defensor.
Arrasada, sentou-se junto à lareira onde o fogo ardia.
Com as espessas paredes húmidas sempre fazia frio.
Ela olhava fixamente para as chamas e, apertando com força os lábios, meditava.
Quanto mais mergulhava em seus pensamento, mais seus traços finos e infantis adquiriam uma expressão de severa resolução.
Gabriela observava intranquilamente a sofrida e revoltada expressão de sua senhora.
Imaginou que o vestido pesado e o corpete apertado a incomodavam e começou a trocá-la.
Diana fez sinal que concordava e permitiu que a camareira lhe colocasse um vestido branco de seda e soltasse seus cabelos bonitos.
Este vestido extraordinariamente luxuoso era do seu antigo guarda-roupa; Briand, apesar de sua sovinice, nunca colocou obstáculo em que ela tivesse verdadeiramente tudo bonito e de valor.
Gabriela trouxe este vestido com outras coisas do castelo de Saurmont e gostava de vesti-lo em sua patroa.
Diana tornou a ocupar seu lugar diante da lareira e, indiferente, via como dois pajens colocavam na mesa frutas, carne fria e vinho, quando no quarto entrou René.
A perspectiva de deixar o castelo por algumas semanas lhe haviam dado um óptimo estado de humor, e ele resolveu ser bondoso e gentil para com a esposa durante essa noite, dedicando-se a ela.
Se ele fosse observador, teria notado o estranho olhar com que ela o olhava bem como o tremor que percorria o corpo da moça, quando ele lhe beijou a mão.
Aliás ele entendeu esta comoção bem de outra maneira; julgou que a Viscondessa o adorava e somente devido ao orgulho e ciúme se dirigia a ele com desprezo e reserva, que tanto o irritavam.
Ele havia colocado em sua mente a ideia de fazer curvar Diana e rebaixá-la, obrigando-a a implorar seu amor; ela não devia julgá-lo mas sim adorá-lo e, com gratidão, receber qualquer demonstração de seu carinho.
Mas, se tais maneiras davam resultado com mulheres desregradas e sensuais, bajuladas pelo Visconde e perseguidas pela sua paixão, com Diana elas não tinham sucesso.
Nela havia orgulho suficiente para não implorar amor de quem quer que fosse, ainda mais para alguém que, dentro de seu senso de rectidão e pureza de alma, não mais podia respeitar.
Sob o peso de tais sentimentos, sumiu dela qualquer fraqueza íntima.
Ela respondeu inclinando levemente a cabeça à chegada do marido.
Com excepção da proverbial polidez e do brilho febril dos olhos, nada indicava a tensão emocional suportada.
Ele comeu com grande apetite observando a esposa de soslaio.
No rico traje de quarto, coberta com uma capa e com seus cabelos dourados soltos, ela parecia a ele encantadora.
Quando seus olhares se encontraram, René baixou o seu - os grandes olhos azuis da jovem tinham um matiz metálico surgindo sempre em minutos de tensão.
Esses olhos claros e cintilantes pareciam penetrar a couraça de hipocrisia que mascarava o Visconde e chegava ao fundo de sua alma.
Quando se levantaram da mesa, René sentou no divã e chamou Diana para se pôr ao seu lado de joelhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:13 pm

Ela não objectou e seus longos cílios se abaixaram escondendo o ódio e o desprezo, enquanto ele cobria de beijos seus lábios, olhos e cabelos.
Diana devia esconder seus sentimentos para não ter de dar qualquer explicação.
Desejava que ele fosse embora e lhe desse a oportunidade de deixar o castelo para sempre.
Não mais seria um estorvo para ele e nunca mais o encontraria em seu caminho.
— Por que você está tão triste e apática, minha querida? - Perguntou ele carinhoso.
— Estou cansada e a cabeça me dói muito - respondeu Diana, afastando-se um pouco.
René fechou o rosto e começou a morder o bigode.
Apesar da cortesia o gesto da moça levantou no mesmo instante uma barreira invisível entre eles, intransponível, sempre fazendo o Visconde sentir que quanto mais possuísse o corpo de Diana menos teria a alma dela.
No dia seguinte o Visconde saiu após o café da manhã.
Mal o pequeno grupo de cavaleiros transpôs o portão, a Viscondessa chamou Gabriela, ordenando que lhe arrumasse a mala com o indispensável para viajar e se preparasse para ir com ela.
Colocando em ordem as jóias que pertenciam a René, ela vestiu luto e mandou chamar António Gilberto.
Em curtas e amigáveis palavras, comunicou ao jovem médico estar deixando o castelo.
Encarregava-o de todas as chaves e pedia olhasse o nené.
— A senhora partirá sem o nené, Viscondessa?
Quando volta? - perguntou o cirurgião preocupado.
— Nunca, António! - respondeu Diana secamente.
A você, meu irmão de leite e amigo, eu direi a verdade e pedirei dizer ao Visconde que ontem eu estava na biblioteca quando ele se confessou.
Sentada na antecâmara da janela, eu ouvi tudo.
Ele mesmo compreenderá que depois do que foi dito, não tenho mais lugar nesta casa.
Retiro-me para o convento e não levarei nada pertencente a Beauchamp.
Mande preparar meu cavalo e a mula para Gabriela.
O velho Germano me acompanhará e tomará conta da bagagem.
Dentro de uma hora tudo deverá estar preparado.
Não chore - acrescentou ela, vendo as lágrimas rolarem pela face de António.
Ela o puxou para si e o beijou como na infância.
— Você não sabe como me alivia sua afeição profunda e sincera.
Quando eu pressentir a morte próxima, o chamarei e você irá cuidar de mim.
Espero seja breve, já que sinto aquilo previsto por você; parece como sinal de um fim próximo.
Quando António saiu fortemente impressionado, Diana foi ao quarto da criança, pediu à ama de leite se retirar e se sentando ao lado do berço, olhou o nené tranquilamente dormindo.
Ele era o retrato do pai.
Um súbito sentimento agora cheio de mágoa tomou conta de seu coração.
Ela se separava do filho para sempre, experimentando tristeza e angústia e, ao mesmo tempo lhe parecia que uma mãe deveria se sentir de outra maneira.
— Por que não o amo como queria? - murmurou ela inclinando-se sobre o nené, ao mesmo tempo que lágrimas amargas escorriam em seu rosto.
Talvez porque você é a recordação da felicidade, lembrança daquele momento em que todos os sentimentos estavam entregues ao homem amado.
Seu nascimento é a indestrutível corrente de amor recíproco.
E você, pobrezinho, é o fruto de uma vingança indigna.
Seu pai ao invés de amor, encheu minha alma de amargura.
Será um mau pai, eu o sinto, assim como foi um mau marido.
Não obstante não posso me humilhar e ficar, mesmo sendo para defendê-lo...
Diana ergueu o nené e convulsivamente o apertou contra o peito.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:13 pm

— Jesus Salvador! Santa Virgem Maria!
Mande-lhe a morte quando for envenenado pelo sangue que corre em suas veias.
De repente os braços dela afrouxaram.
Soltou o pequeno no berço separando-o de seu peito.
Diana sentiu uma dor fortíssima.
O coração parecia se apertar com as batidas pesadas e irregulares, quase cessando.
Um estranho tremor abalava cada fibra de seu ser.
Ah! É a morte que chega - balbuciou ela, respirando com dificuldade.
Tirou do bolso um medalhão com corrente de ouro no qual prendeu um cacho de seus cabelos e o colocou no pescoço do nené.
— Até a vista! - Balbuciou com voz trémula.
Quando eu morrer o chamarei.
Com todas minhas forças eu o levarei para minha tumba, para que de nós não reste o menor sinal, que envenenaria o ar deste castelo.
Uma hora depois Diana deixou o castelo.
Com a cabeça coberta e de coração pesaroso, ela se pôs a caminho do Convento de Santa Úrsula.
Ao cair da noite ela havia chegado a uma pousada, situada em meio de um bosque fechado nas terras de Saurmont.
O velho Germano sugeriu pernoitassem ali, mas Diana estava tão apressada e a noite tão quente e agradável que decidiu continuar até que os cavalos tivessem de descansar.
O quarto enfumaçado da pousada também não tinha agradado Diana.
Depois de ver diante da porta, sob um carvalho, um banco e uma mesa simples, ela mandou que o pão e o leite fossem servidos ali.
Terminara sua simples janta quando dois cavaleiros se aproximaram da pousada e a dois passos dela desceram do cavalo; um deles era velho, ligeiramente curvado e tinha uma longa, barba grisalha.
Para Diana um desconhecido completo.
Mas... reconheceu apavorada ser o outro o Barão d’Armi.
A jovem ficou tão desconcertada com o encontro que por instantes perdeu qualquer presença de espírito.
Ainda assim, para se esconder na sombra do carvalho ela levantou do lugar.
Apesar do crepúsculo era fácil ver seu rosto pálido sob o capuz escuro.
O grito de espanto chamou a atenção dos dois cavaleiros e o velho deu um pulo e se pôs ao lado da Viscondessa.
Segurando-a pelo braço ele gritou com voz trémula:
— Diana! Finalmente a revejo!
Ao som desta voz metálica bem conhecida a moça se sobressaltou.
Um olhar foi suficiente para ela reconhecer os olhos do Conde.
Sem acreditar no que via, ela gritou:
— Você?!... Você está vivo??
Monstro! E eu me casei com outro.
Antes mesmo que Briand, assustado pelo arrebatamento imprudente dela pudesse dizer alguma coisa, d’Armi correu e, sem cerimónia, tomou a filha em seus braços.
O contacto tirou Diana do estupor.
As mãos que tapavam o rosto se soltaram.
Rapidamente deu um salto para trás e encarou o pai com olhar brilhante.
D’Armi empalideceu e recuou.
— Essa deve ser a vontade de Deus para eu encontrar meu desonesto e mau pai...- disse Diana rispidamente.
Para você não há nada sagrado neste mundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:13 pm

A única criatura que você devia amar, você lesou e traiu.
Sua filha sempre foi para você artigo de vergonhoso comércio!
Você me vendeu ao amante de sua mulher, a um homem que me condenou a morrer de fome.
Para me obrigar a silenciar e me entregar a esse ladrão e assassino, você confessou, claro - por dinheiro! - todos os seus delitos e me fez suportar uma injustiça inaudita, para salvar a cabeça da forca.
Agora estão juntos novamente.
Você foi o cúmplice dos crimes graças aos quais eu cometi um sacrilégio...
Por um minuto ela parou e, ofegante, apertou a mão contra o peito.
Depois recomeçou, cada vez mais e mais inflamada:
— Você me privou de todos os direitos e me perseguiu como um animal!...
Sempre fui brinquedo em suas mãos e vocês mataram minha alma e meu corpo.
Que Lei Divina ou Humana lhes deu o direito de proceder assim?
Será por vocês me terem roubado a paz, a honra e por terem assassinado o homem que eu amava?
Por Deus ter colocado em suas mãos uma criatura indefesa?
Por todos esses crimes eu o amaldiçoo!...
Diante do trono do Senhor eu repetirei estas acusações e mais uma vez o amaldiçoarei!!...
A voz de Diana cessou.
O gordo d’Armi, farto de tanto comer e beber, mudou a expressão do rosto diversas vezes durante a fala de Diana.
No início uma palidez de defunto, depois enrubesceu.
Sufocava... Nunca ninguém o havia tocado tão fundo, mas nesse instante algo diferente lhe aconteceu.
— Diana... - murmurou com voz alterada.
Mas nesse minuto começou a cambalear e caiu no chão acometido de um ataque apopléctico.
A jovem tremia, nervosa, mas não fez o mínimo movimento para ajudar o pai.
Por um minuto olhou, sombria, para o corpo estendido no chão, depois se virou saindo apressada.
Sem a perder de vista, Briand, frouxamente, fez um gesto para detê-la.
— Não me toque ou chamarei as pessoas e direi onde se encontra o falecido Conde de Saurmont! - disse Diana, fixando em Briand o olhar cheio de ódio.
O Conde deu um passo para trás e a jovem voltou para a pousada correndo.
Alguns minutos depois Diana sentou em seu cavalo e sem ao menos olhar para Briand e d’Armi, pôs-se a galope.
O abatido Conde chamou o taberneiro.
O Barão foi assistido e logo abriu os olhos.
Mas metade de seu corpo estava paralisada e ele foi levado em uma maça ao Castelo d’Armi.
Lourença, visivelmente contrariada, recebeu o triste cortejo e disse ser esse o castigo merecido, vindo em consequência da vida desregrada.
Mas os efeitos, no entanto, sempre caíam nos ombros dos inocentes.
Como sempre ela terminou recaindo na sua habitual dissimulação.
Depois de instalar o Barão, disse que cuidaria do seu querido João, já que ela entendia mais de medicina do que o velho e louco Dr. Lucas.
Mas sua assistência ao Barão se limitava a intermináveis discursos sobre conhecimentos de medicina e tratamentos milagrosos.
Enquanto isso d’Armi ficava abandonado e frequentemente faminto.
Se Briand não o tivesse cuidado e visitado amiúde, o Barão poderia ter morrido de fome e sede.
O Conde não o deixou; não pôde abandonar seu antigo companheiro de crimes, com quem se ligava fortemente e cujo fim próximo muito o entristecia.
Certa vez Lourença vestiu o marido a contragosto.
Ele ficou furioso e aos gritos exigia vinho e guloseimas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:13 pm

A Baronesa se sentiu ofendida com tais pretensões.
Deu no doente alguns bofetões e gritou:
— Desgraçado! Perdulário que me leva à ruína!... tirar de mim para lhe dar pratos refinados?
Dê dinheiro você mesmo, se quiser encher sua pança...
Maldito! Eu o alimento com carinho e você ainda ousa me ofender!...
Dando as costas ao doente deitado na cama, ela saiu triunfante.
Depois desta cena, a condição do Barão piorou imediatamente.
Quando Briand o vestiu no dia seguinte notou, preocupado, estar o rosto emagrecido com uma tonalidade ferrosa, os olhos se apagando e a inquietação da febre não lhe dando paz nem por um minuto.
O Conde sentou junto ao leito e com o coração oprimido observou a terrível agonia de seu cúmplice.
Ao cair da noite d’Armi começou a delirar.
Pensava estar vendo a filha.
Ora com palavras carinhosas, ora com ameaças, exigia que ela retirasse as maldições.
Em seguida foi assediado pelas visões da Noite de São Bartolomeu.
Sua mão saudável agarrou o braço do Conde e, com expressão de louco estampada no rosto, ora gritava, ora murmurava:
— Vê? Ia... Ia ele se defender!
Ele caiu e está derramando seu sangue sobre mim!
Deus de Misericórdia!
O Rei me agarrou!
O Rei e aquele outro querem me matar!...
Para trás, ”monsieur”, não me toque!... Briand me salve!
As palavras do Barão davam com nitidez de detalhes em seu delírio e traziam à mente de Saurmont as cenas sangrentas da noite de 23 de agosto.
A triste situação aumentou ainda mais sua má impressão sobre o doente.
No grande quarto mal iluminado pela lâmpada de cabeceira, o doente segurou seu braço fortemente, parecendo querer levar Briand junto com ele ao tribunal de Deus.
Tudo isto agia duramente sobre Saurmont.
E sua imaginação despertada também começou a ressuscitar cenas terríveis.
Debalde o Conde enxugava o suor que escorria pelo seu rosto; ele fechava os olhos mas os quadros terríveis e assustadores não desapareciam...
Dentro da escuridão do quarto havia a nítida impressão de uma multidão de criaturas ensanguentadas, deformadas e esfarrapadas se debatendo, dando gritos de desespero... e eles se lançaram sobre d’Armi e sumiram!...
O Conde pensou ver Carlos IX entre os vingadores das trevas.
Submerso em sangue, ele se debatia em vão entre o intransponível círculo de suas vítimas!
Saurmont também foi cercado pela massa repugnante que pairava sobre ele e o cobria de recriminações, maldizendo-o.
Apavorado, com os cabelos em pé, esquecendo o doente, soltou a mão que o agarrava e saiu voando do quarto.
Só parou de correr em frente ao quarto do polonês.
Nesse momento seu aspecto era assustador.
Tremendo de pavor, ele queria ver um rosto humano, mas Donskii não estava no aposento.
Cambaleando, o Conde deu alguns passos na direcção da poltrona, mas não conseguiu chegar até lá - as vertigens o fizeram desmaiar.
Era dia quando voltou a si.
No primeiro instante não conseguiu compreender como tinha chegado ao quarto de Domskii, mas logo lembrou das visões da noite anterior.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:13 pm

Agora, sob a luz do sol lhe parecia ridículo ele ter debandado do quarto do doente.
O polonês ainda não tinha voltado.
A cama permanecia feita e a lâmpada da cabeceira ainda ardia.
Briand levantou, bebeu um copo de vinho para se refazer e saiu do quarto.
No castelo ainda todos dormiam.
Passando diante do aposento de Lourença ele viu a porta aberta e, supondo ela já haver levantado, entrou para falar sobre d’Armi.
Não havia ninguém no quarto e o silêncio era quase total, violado apenas pelo ruído que chegava dos aposentos vizinhos.
O Conde levantou o reposteiro e, com repulsa e zombaria olhou o quadro:
no meio de toda aquela confusão estava a mesa com os restos da ceia farta da noite anterior.
Talheres e pratos, roupas e rolhas jogadas das garrafas se misturavam pelos móveis e pelo chão.
Na cama de colunas Domskii dormia e ao lado dele Lourença ressonava em traje matinal, não muito discreto a uma Baronesa...
Um misto de comiseração tristonha e ódio tomou o coração do Conde - por que não acabar com essa criatura repugnante, esse génio do mal que o tinha levado a tantos delitos com conselhos pérfidos, fazendo-o cruel para com Diana?
Cheio de repulsa e amargura saiu dali e se dirigiu ao quarto do Barão.
Tinha a consciência pesada por haver deixado um doente tão grave assim sozinho...
Nervoso, se aproximou do leito e imediatamente se convenceu de tudo estar terminado...
O Barão estava estendido, rosto escurecido sobre os travesseiros amarrotados e rasgados pelas mordidas...
A velha manta estava em farrapos.
Os olhos vítreos do cadáver ainda expressavam imenso pavor.
Seus últimos momentos deviam ter sido terríveis!...
O moribundo, sem consciência, foi possivelmente assediado pela sede e o copo que seu braço enfraquecido não pode levar aos lábios estava no chão com o conteúdo esparramado.
Arrasado, com o coração palpitante, Saurmont deixou aquele quarto.
— O Barão se foi... - disse laconicamente, desanimado, ao empregado que encontrou no corredor.
Depois, sem responder às tímidas perguntas do servidor, entrou no seu quarto e largou o corpo extenuado sobre a poltrona.
— Morto! D’Armi está morto... - balbuciou maquinalmente.
Sim, seu companheiro de tantos anos estava morto.
Havia terminado sua vida suja e depravada.
Honra, consciência, amor paterno...
TUDO este homem havia trocado por ouro... mas o leito de morte tinha sido alcançado por Némesis!
Morreu abandonado, sozinho com sua consciência pesada, enquanto a esposa, a depravada que por tantos anos se cobria com seu nome, se entregava a orgias...
É... é assim que a justiça traz a derrota, por fim, ao culpado, obrigando-o cruelmente a pagar nos momentos derradeiros todos os delitos e os crimes impunes.
Passaram-se horas.
O Conde, semi-deitado na poltrona, estava mergulhado em seus tristes pensamentos tumultuados, quando o barulho da porta se abrindo fê-lo sobressaltar-se.
Ergueu a cabeça e viu Lourença.
Seu aspecto era tão cómico que ele teria rido se não estivesse tão mal de espírito.
Ela vestia uma camisa e uma velha saia, um gorrinho preto com um longo véu, igual ao que Diana trazia nos dias de luto por Raul, destacando-se em sua cabeça.
Seus velhos sapatos vermelhos e gastos nunca haviam sido limpos!
— Carlos! - gritou com voz chorosa, erguendo as mãos; ela assim o chamava desde sua morte oficial.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:14 pm

João morreu e você fica aí sentado, enquanto eu vigio - falou ela com acento de maldade.
Oh! Que horas terríveis suportei!...
Pobre João! Ele me ofendeu e traiu muito, mas eu tudo esqueci e perdoei na hora da agonia.
Estou arrasada por não ter dormido a noite inteira!...
Os últimos minutos do Barão foram tristonhos, porém ele, com lágrimas nos olhos, me agradeceu...
Somente nos derradeiros momentos se convenceu - quando todos o deixaram - de ser eu sua abnegada esposa, e não tê-lo deixado.
Ela se pôs a chorar, avaliando que a vida inteira havia cumprido seus deveres, sem ver o quanto pesados eram.
Briand emudeceu, paralisado pelo descaramento e cinismo da Baronesa.
Mas no momento não tinha a mínima vontade de discutir com aquela criatura repugnante.
Interrompendo sua arenga a respeito de suas supostas virtudes, perguntou rispidamente:
— No que posso ser útil?
Ela sentou e suspirou.
— É preciso sepultar João e isso sai caro.
— Sem dúvida!
Mas uma viúva tão devotada naturalmente não poupará recursos para o enterro digno do marido - respondeu ele secamente, dando a entender que não a compreendia.
Ela suspirou de novo.
— Sim, sim! ”Nós” - e ela ressaltou bem esta última palavra - não pouparemos nada para ele, não é verdade?
O pobre João gostava muito do luxo.
Ele me desfalcou e lesou para alegrar a si próprio.
Vendo que o Conde nada respondia, ela prosseguiu com voz afectada:
— Veja, caro Carlos!
Eu vim pedir que desse a soma necessária para o enterro de João.
Você deve fazer isso por ele, já que o traiu toda a vida.
Quando eu saí por um minuto de manhã, você, segundo dizem, veio visitar o falecido.
Não há dúvida de que ele findou enquanto você estava lá.
João não tinha o aspecto de um homem acometido por morte violenta.
Você mesmo sabe como as pessoas são más.
Ela podem vir a difamá-lo, a você, um pobre desconhecido que estava de passagem por aqui...
Pode imaginar o que aconteceria se ao preboste ocorresse a ideia de conhecê-lo mais de perto?
Sendo assim, meu querido, dê o dinheiro!
É preciso se prevenir dos amores excessivos e fechar a boca dos tagarelas.
Isto é necessário para sua própria tranquilidade, meu caro.
Confie em mim, pois olho por você como uma mãe olha por seu filhinho.
Briand era todo nojo e ódio.
Compreendeu a ameaça de entregá-lo ao preboste e naquele instante não restava outra alternativa senão concordar.
— Está bem... receberá o que quer para o enterro.
Dentro de algumas horas lhe trarei a quantia.
Agora saia e me deixe em paz! - disse ele secamente.
Lourença não fez qualquer observação e saiu mandando um beijo a ele.
Briand havia escondido seu porta-jóias debaixo do banco de musgo, próximo à ”célebre” brecha onde viu pela primeira vez René aparecer para visitar Diana.
Acautelando-se constantemente de um ataque qualquer ele não quis guardá-lo em casa.
Além disso dividiu uma grande quantidade de ouro em diversas partes e espalhou em muitos ocos de árvores.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:14 pm

Ao cair da noite se dirigiu em segredo a um desses lugares pegou o ouro e, com muito cuidado, retornou.
Assim que chegou foi ter com Lourença e a encontrou escolhendo tecido negro para fazer o luto.
Após ter entregado a ela uma boa soma, Briand lhe comunicou deixar o castelo na noite seguinte.
Lourença não fez objecção e nem falou que ele permanecesse.
No dia seguinte ela mesma o ajudou a arrumar a bagagem e à noite foi levar o jantar em seu quarto.
— A última vez, antes da separação - disse ela com lágrimas nos olhos.
Após o jantar Briand se sentiu cansado, as pernas pesadas e um sono invencível.
— Durma um pouco e adquira forças antes da longa viagem - observou Lourença com um doce sorriso.
Eu o acordo a uma hora da madrugada, quando todos já estiverem dormindo - acrescentou ela.
O Conde achou o conselho sensato; além disso estava certo de que, após quatro horas de sono, despertaria por si mesmo.
Por isso despediu Lourença e foi dormir.
Quando abriu os olhos sentiu o corpo pesado.
A cabeça doía e ele tentava em vão colocar as ideias no lugar para poder explicar como se encontrava em um quarto desconhecido.
Ele se achava em um cómodo escuro, pobremente mobiliado; a janela era uma grade de ferro; estava sentado na poltrona a dois passos da mesa junto à parede, na qual havia uma caneca e alguns pedaços de pão.
Furioso e assustado, Briand quis se levantar mas no mesmo instante caiu na poltrona.
Suas pernas estavam fracas e pesadas como chumbo, não aguentando seu peso.
Logo compreendeu ter perdido a capacidade de dominá-las.
Um medo muito grande o invadiu.
Não havia dúvidas de Lourença querer roubá-lo!
Na última refeição ela teria misturado um narcótico e algum veneno no que ele ingerira.
Fraco e oficialmente morto para o mundo, se encontrava ali à mercê dela...
Enquanto estava imobilizado na poltrona com toda certeza os dois estariam procurando seus valores.
Louco de raiva e desespero, Briand começou a gritar e a chamar, mas em vão pois o silêncio era absoluto.
Um dia e uma noite se passaram.
A fome e a sede o incomodavam, mas ninguém aparecia.
Durante essas horas infernais, lembrou o tempo inteiro da pequena Diana, quando ele a abandonou sozinha no bosque - ela teria sofrido o mesmo que ele agora.
Afinal no dia seguinte pela manhã, a porta foi aberta e Stanislav entrou com uma carta nas mãos.
Lançou um olhar zombeteiro ao Conde, mas, temendo se aproximar da mão que ele possivelmente teria saudável, lhe jogou a carta, cujo conteúdo em nada o tranquilizava:
com seu habitual descaramento a Baronesa contava que apesar das buscas afanosas, eles não haviam conseguido encontrar os valores de Saurmont.
Por isso lhe propunha que, se quisesse se livrar do martírio, entregasse de boa vontade as riquezas escondidas.
Ao final acrescentava agir assim para castigá-lo por ter se casado com Diana, uma vez que, apesar de seu amor apaixonado por Domskii, detestava traidores.
O Conde conhecia muito bem Lourença para saber que, após ter empregado tal violência e feito estas ameaças, ela acabaria com a vida dele, tão logo colocasse as mãos no ouro e nas jóias.
Se ele ainda estava vivo, era só porque ela nada havia encontrado.
Respirando pesadamente ele fechou a carta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 8:14 pm

Uma coisa Lourença não poderia lhe tomar - era sua vontade férrea.
Ele decidiu imediatamente ser melhor suportar o que desse e viesse, do que revelar o segredo.
Então comunicou a Domskii que se negava a colaborar e preferiria morrer que dar o ouro a tamanho canalha.
O polonês saiu.
A dupla pérfida havia resolvido quebrar o Conde pela fome, pois durante três dias ninguém apareceu para vê-lo.
É difícil descrever o quanto sofreu o infeliz.
Somente o desejo de desforra o sustentava.
No terceiro dia, depois das doze horas, Briand, totalmente exausto pela fome, adormeceu em sono febril.
Teve um estranho sonho:
D’Armi lhe dizia - ”Procure na chaminé; lá há vinho e comida escondida!”
Sua cabeça estava vazia e seu estado era como de um embriagado devido às privações.
Mas o sonho era tão claro e tão vivo que seus olhos se cravaram na grande lareira.
Como um náufrago se agarrando a uma palha, ele resolveu conferir a visão do sonho.
Conseguiu sair da poltrona, se arrastar com as mãos e os joelhos.
A distância era enorme para ele e, extenuado, alcançou o objectivo.
Descansou um pouco e começou a revirar os tocos queimados de mobília velha e outros trastes que quase completamente barravam a entrada da grande lareira, dentro da qual podiam ser acomodados folgadamente três ou quatro homens.
Por fim conseguiu entrar e começou a busca com mãos trémulas.
Ele sabia que o Barão sempre ocultava uma provisão para épocas desfavoráveis, quando Lourença o condenava ao jejum, mas ignorava totalmente onde era o esconderijo.
Naquela época não lhe veio à mente que ele mesmo experimentaria esse tipo de provação.
Pode-se imaginar a alegria do Conde quando suas mãos apalparam as garrafas... tirou uma garrafa coberta de pó e fungo, sacou logo a rolha e começou a beber.
Era um excelente vinho antigo que o fortificou.
Então, já tranquilo, começou a revistar melhor seu tesouro.
Encontrou cerca de vinte garrafas, jarras, taças de madeira, carne defumada, frios, potes de geleia e frutas secas.
Saciou sua fome e sede.
Depois, de alma e corpo aliviados, voltou ao seu lugar.
— Bom d’Armi! - pensou ele, sentando-se com dificuldade.
Até morto você aparece para me ajudar, na verdade, para que eu possa me vingar por nós dois.
Espere um pouco mais, meu velho amigo!
Lourença pagará por mim e por você.
Somente no quarto dia a porta se abriu e a própria Lourença entrou.
— Olá, caro Conde! - disse ela em tom trocista.
Espero ter o jejum aclarado sua memória e tenha se lembrado onde se encontra a caixa de jóias!
Preciso dela!
— Nunca esqueci... só que prefiro morrer de fome a entregá-la a uma criatura desprezível, responsável por minhas infelicidades.
Ao ouvir esta resposta fria e resoluta, a expressão de doçura e bondade maternal desapareceram do rosto da Baronesa, transformando-se em crueldade selvagem.
— Ah! - gritou ela encarando o Conde com um olhar de serpente - vejo que ainda está muito gordo e a fome somente o irritou.
Esperemos até que se acalme.
Agora vai ficar mais faminto, pois somente voltarei dentro de três dias.
Zombeteiramente colocou perto do Conde um copo de água e um pedaço de pão.
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